FARMACOLOGIA DOS
ANTIULCEROSOS
CURSO DE FARMÁCIA
FARMACOLOGIA APLICADA
ANTIULCEROSOS
• Os medicamentos antiulcerosos, ou agentes anti-secretores, são uma classe
farmacológica utilizada para tratar e prevenir úlceras no estômago e
intestino delgado, além de outras condições relacionadas à acidez
estomacal.
• Esses medicamentos atuam diminuindo a produção de ácido gástrico,
promovendo a cicatrização da mucosa afetada e reduzindo os sintomas
associados, como dor e azia.
REGULAÇÃO DA SECREÇÃO GÁSTRICA
•Fase cefálica – Antes mesmo da comida chegar ao estômago, o sistema nervoso inicia a
produção de sucos gástricos ao sentir o cheiro, sabor ou até pensar na comida. Esse
estímulo é mediado pelo nervo vago, que ativa as células secretoras no estômago.
•Fase gástrica – Quando o alimento chega ao estômago, a distensão das paredes e a
presença de proteínas estimulam a liberação do hormônio gastrina, que intensifica a
produção de ácido clorídrico e pepsina, essenciais para a digestão.
•Fase intestinal – O conteúdo do estômago passa para o intestino delgado e, para evitar
uma acidez excessiva, o intestino libera hormônios como a secretina e o peptídeo inibitório
gástrico (GIP), que reduzem a secreção gástrica e promovem a liberação de bicarbonato pelo
pâncreas.
NERVO VAGO
Na fase cefálica, a ativação do nervo vago estimular
as células G liberar gastrina, preparando o estômago
para a digestão.
Acetilcolina é liberada pelo nervo vago e estimula
diretamente as células parietais a produzirem ácido
gástrico e também ativa células enterocromafins
(ECL), que liberam histamina, outro estimulador da
secreção ácida.
Como mencionado, a gastrina é liberada pelas
células G e age estimulando as células parietais a
produzirem ácido clorídrico. Além disso, ela também
promove a liberação de pepsinogênio pelas células
principais, que será convertido em pepsina para
ajudar na digestão de proteínas.
O estômago se expande com a chegada do alimento,
ativando receptores que estimulam a liberação de ácido
clorídrico (HCl).
As células G do estômago liberam gastrina, um hormônio
que intensifica a secreção de HCl e pepsinogênio, essencial
para a digestão de proteínas.
As células enterocromafins (ECL) liberam histamina, que
potencializa a ação das células parietais na produção de
ácido.
Se o pH do estômago ficar muito baixo, as células D
liberam somatostatina, que inibe a produção de gastrina e
reduz a secreção ácida.
A fase intestinal da regulação da secreção gástrica
ocorre quando o quimo (alimento parcialmente
digerido) chega ao intestino delgado. Nessa fase, o
corpo ajusta a produção de ácido gástrico para evitar
uma acidez excessiva e garantir uma digestão
equilibrada.
O intestino libera hormônios como secretina e peptídeo
inibitório gástrico (GIP), que reduzem a produção de
ácido clorídrico no estômago.
O pâncreas é estimulado a liberar bicarbonato para
neutralizar a acidez do quimo, protegendo a mucosa
intestinal.
O intestino regula a velocidade com que o estômago
libera o quimo, garantindo que a digestão ocorra de
forma eficiente.
REGULAÇÃO DA SECREÇÃO GÁSTRICA
•Regulação neural – O sistema nervoso autônomo, especialmente o nervo vago, estimula
a secreção de suco gástrico em resposta à presença de alimentos e até mesmo à
antecipação da refeição. Esse controle é rápido e ajustável conforme necessário.
•Regulação hormonal – O hormônio gastrina, produzido pelas células G no estômago,
promove a liberação de ácido clorídrico pelas células parietais. Quando o pH do
estômago fica muito baixo, a produção de gastrina é inibida para evitar uma acidez
excessiva.
•Regulação local – Substâncias como histamina e somatostatina também influenciam a
secreção gástrica. A histamina amplifica a produção de ácido, enquanto a somatostatina
atua como um freio, reduzindo a secreção quando necessário.
EFEITOS DA DESREGULAÇÃO GÁSTRICA
•Hipersecreção ácida – Quando há produção excessiva de ácido gástrico, pode ocorrer irritação
da mucosa do estômago, aumentando o risco de úlcera péptica e doença do refluxo
gastroesofágico (DRGE).
•Hipossecreção ácida – A baixa produção de ácido pode comprometer a digestão de proteínas e
a absorção de nutrientes essenciais, como ferro, cálcio e vitamina B12, podendo levar a anemia
e osteoporose.
•Alterações na microbiota intestinal – O ácido gástrico ajuda a controlar o crescimento de
bactérias no trato digestivo. Quando há desequilíbrio na secreção, pode ocorrer
supercrescimento bacteriano, aumentando o risco de infecções.
•Impacto na motilidade gástrica – A secreção inadequada pode afetar o esvaziamento do
estômago, causando sintomas como náusea, inchaço e desconforto abdominal.
Inibidores da bomba de prótons (IBPs)
A bomba de prótons é uma estrutura essencial na regulação da secreção
gástrica. Ela está localizada nas células parietais do estômago e tem a função
de liberar íons hidrogênio (H⁺) para o lúmen gástrico, combinando-se com
íons cloreto (Cl⁻) para formar ácido clorídrico (HCl).
Os IBPs atuam bloqueando irreversivelmente a bomba de prótons H⁺/K⁺-
ATPase nas células parietais do estômago, impedindo a liberação de íons
hidrogênio e, consequentemente, reduzindo a acidez gástrica.
Inibidores da bomba de prótons (IBPs)
Indicações Principais fármacos
Doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) Omeprazol
Úlceras gástricas e duodenais Pantoprazol
Gastrite erosiva
Lansoprazol
Síndrome de Zollinger-Ellison
Erradicação do Helicobacter pylori (em associação com Esomeprazol
antibióticos)
Rabeprazol
Prevenção de úlceras induzidas por anti-inflamatórios não
esteroides (AINEs). Dexlansoprazol
Inibidores da bomba de prótons (IBPs)
Toxicidade Efeitos adversos
• Hipergastrinemia (aumento da • Náusea e dor abdominal
gastrina) • Diarreia ou constipação
• Risco de neoplasias gástricas em • Deficiência de vitamina B12 e magnésio em
casos raros uso prolongado
• Supressão excessiva da acidez • Risco aumentado de fraturas ósseas
gástrica, afetando a digestão.
• Alterações na microbiota intestinal.
Inibidores da bomba de prótons (IBPs)
Interação medicamentosa Principais diferenças
• Clopidogrel (reduzindo sua eficácia) • Metabolismo: Omeprazol e esomeprazol
• Antifúngicos como cetoconazol são metabolizados principalmente pelo
(diminuindo sua absorção) CYP2C19, o que pode afetar sua eficácia em
metabolizadores rápidos.
• Digoxina (aumentando sua
concentração) • Potência: Esomeprazol e pantoprazol são
considerados mais potentes na inibição da
• Anticoagulantes como varfarina secreção ácida.
(potencializando seus efeitos)
• Duração do efeito: Apesar da meia-vida
curta, os IBPs têm efeito prolongado devido
à inibição irreversível da bomba de prótons.
Antagonistas dos receptores H₂
Mecanismo de ação • Principais fármacos
• Esses fármacos atuam como bloqueadores competitivos
dos receptores H₂ da histamina, reduzindo a estimulação
da bomba de prótons e, consequentemente, a secreção de Cimetidina
ácido gástrico. Ranitidina
Famotidina
Indicações Nizatidina.
Úlceras gástricas e duodenais
Doença do refluxo gastroesofágico (DRGE)
Dispepsia funcional
Prevenção de úlceras induzidas por estresse hospitalar
Controle da hipersecreção gástrica em condições como
síndrome de Zollinger-Ellison.
Antagonistas dos receptores H₂
Efeitos adversos
Náusea e dor abdominal Interação medicamentosa
Diarreia ou constipação Varfarina (potencializando seus efeitos
anticoagulantes)
Alterações neurológicas (confusão, tontura, alucinações em
idosos) Fenitoína e teofilina (alterando sua
metabolização)
Cimetidina pode causar ginecomastia e galactorreia devido
à interferência nos receptores hormonais. Cimetidina tem interações mais amplas,
pois inibe enzimas hepáticas do citocromo
Toxicidade P450.
Supressão excessiva da acidez gástrica, afetando a digestão
e absorção de nutrientes
Risco de infecções gastrointestinais devido à redução da
barreira ácida.
Antiácidos
Mecanismo de ação
Os antiácidos atuam neutralizando o Principais fármacos
ácido clorídrico (HCl) presente no Hidróxido de alumínio (exemplo: Alumal)
estômago, aumentando o pH gástrico e Hidróxido de magnésio (exemplo: Leite de
reduzindo a irritação da mucosa. Magnésia)
Carbonato de cálcio (exemplo: Tums)
Indicações Bicarbonato de sódio (exemplo: Eno)
Azia e refluxo gastroesofágico Combinação de hidróxido de alumínio e
Gastrite magnésio.
Úlceras gástricas e duodenais
Dispepsia funcional.
Antiácidos
Efeitos adversos
Interação medicamentosa
• Constipação (hidróxido de alumínio) • Antibióticos (como tetraciclinas)
• Diarreia (hidróxido de magnésio) • Digoxina
• Alcalose metabólica (bicarbonato de sódio) • Varfarina
• Hipercalcemia (carbonato de cálcio)
Toxicidade
• Desequilíbrios eletrolíticos
• Problemas renais
Antiácidos – associações comuns
Antiácidos + Antiespasmódicos – Exemplo: Maalox Plus (hidróxido de alumínio + hidróxido de magnésio +
simeticona). Ajuda a reduzir a acidez e aliviar gases e cólicas.
Antiácidos + Inibidores da bomba de prótons (IBPs) – Exemplo: Omeprazol + bicarbonato de sódio. O bicarbonato
protege o omeprazol da degradação no estômago, melhorando sua eficácia.
Antiácidos + Antagonistas H₂ – Exemplo: Ranitidina + carbonato de cálcio. A ranitidina reduz a produção de ácido,
enquanto o carbonato de cálcio neutraliza a acidez já presente.
Antiácidos + Protetores da mucosa – Exemplo: Sucralfato + hidróxido de alumínio. O sucralfato forma uma barreira
protetora sobre a mucosa gástrica, enquanto o hidróxido de alumínio reduz a acidez.
Antiácidos + Antiflatulentos – Exemplo: Hidróxido de magnésio + simeticona. A simeticona ajuda a reduzir a
formação de gases, proporcionando alívio adicional.
Protetores da musosa
Mecanismo de ação Principais fármacos
Criam uma barreira física sobre a mucosa gástrica, Sucralfato – Forma uma barreira
impedindo o contato direto com o ácido. protetora sobre a úlcera e estimula a
Estimulam a produção de muco e bicarbonato, produção de muco.
fortalecendo os mecanismos naturais de defesa do
estômago. Bismuto coloidal – Tem ação
Inibem a ação da pepsina, reduzindo a degradação da
antimicrobiana contra o H. pylori e
mucosa. protege a mucosa gástrica.
Misoprostol – Análogo das
prostaglandinas, aumenta a produção
Indicações de muco e bicarbonato.
Úlceras gástricas e duodenais
Gastrite erosiva
Prevenção de lesões gástricas induzidas por anti-
inflamatórios não esteroides (AINEs)
Erradicação do Helicobacter pylori (em associação com
antibióticos).
Protetores da musosa
Efeitos adversos Interação medicamentosa
Constipação (sucralfato) Antibióticos (como tetraciclinas e
Náusea e vômito (bismuto coloidal) fluoroquinolonas)
Diarreia e cólicas (misoprostol). Digoxina
Toxicidade Varfarina.
Alterações eletrolíticas
Risco de encefalopatia por
acúmulo de bismuto em pacientes
com insuficiência renal.
Análogos de prostaglandinas
Mecanismo de ação Efeitos adversos
Os análogos de prostaglandinas, como o Diarreia e cólicas abdominais
misoprostol, atuam estimulando a produção de Náusea e vômito
muco e bicarbonato, que ajudam a proteger a
mucosa gástrica contra o ácido clorídrico. Além Contrações uterinas, podendo
disso, reduzem a secreção ácida ao inibir a ação das levar a aborto em gestantes.
células parietais do estômago.
Indicações
Prevenção de úlceras gástricas induzidas por anti-
inflamatórios não esteroides (AINEs)
Tratamento de úlceras gástricas e duodenais
Proteção da mucosa gástrica em pacientes de risco.
Para casa: resolvam os casos clínicos:
Questão 1 –Um paciente de 45 anos, com histórico de gastrite crônica, relata uso frequente de
antiácidos à base de bicarbonato de sódio para aliviar sintomas de azia. Após alguns meses, ele começa
a apresentar fraqueza muscular, tontura e alcalose metabólica. Pergunta: Qual o mecanismo de ação do
bicarbonato de sódio e por que seu uso prolongado pode levar a alcalose metabólica?
Questão 2 –Uma paciente de 60 anos, em uso contínuo de omeprazol há mais de 5 anos para tratamento
de refluxo gastroesofágico, começa a apresentar fadiga, palidez e neuropatia periférica. Exames
laboratoriais indicam deficiência de vitamina B12. Pergunta: Como os inibidores da bomba de prótons
podem interferir na absorção de vitamina B12 e quais estratégias podem ser adotadas para minimizar
esse efeito?
Questão 3 –Uma mulher de 30 anos, com histórico de artrite reumatoide, faz uso contínuo de anti-
inflamatórios não esteroides (AINEs) e recebe prescrição de misoprostol para prevenção de úlceras
gástricas. No entanto, ela descobre que está grávida de 8 semanas. Pergunta: Por que o misoprostol é
contraindicado na gravidez e quais alternativas podem ser utilizadas para proteção gástrica nesse caso?