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C055 - Amanda Teixeira

O livro 'Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720-1802)', de Amanda Teixeira, apresenta uma pesquisa sobre denúncias arquivadas contra habitantes do Ceará durante o período da Inquisição. A obra analisa quase cinquenta casos que não resultaram em processos, permitindo uma investigação sobre a ocupação da capitania, práticas sociais e a atuação do Santo Ofício. A pesquisa foi financiada pela Funcap e envolve colaborações de diversas instituições acadêmicas.
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C055 - Amanda Teixeira

O livro 'Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720-1802)', de Amanda Teixeira, apresenta uma pesquisa sobre denúncias arquivadas contra habitantes do Ceará durante o período da Inquisição. A obra analisa quase cinquenta casos que não resultaram em processos, permitindo uma investigação sobre a ocupação da capitania, práticas sociais e a atuação do Santo Ofício. A pesquisa foi financiada pela Funcap e envolve colaborações de diversas instituições acadêmicas.
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MORADORES DO CEARÁ DENUNCIADOS

À INQUISIÇÃO DE LISBOA (1720 - 1802)


DIRETOR DA SÉRIE:
Prof. Dr. Abah Andrade (UFPB)

CONSELHO EDITORIAL:
Prof. Dr. Abah Andrade (UFPB)
Profa. Dra. Ana Paula Buzetto Bonneau (UFRN)
Prof. Dr. Anderson D’Arc ferreira (UFPB)
Prof. Dr. Cristiano Bonneau (UFPB)
Prof. Dr. Edson Adriano Moreira (UFCG)
Prof. Dr. Érico Andrade (UFPE)
Prof. Dr. Francisco Rômulo Diniz (UVA)
Prof. Dr. Gabriel Rezende (UFPB)
Prof. Dr. Hélder Machado Passos (UFMA)
Prof. Dr. Jaimir Conte (UFSC)
Prof. Dr. Jozivan Guedes (UFPI)
Prof. Dr. Marcelo Primo (UFS)
Prof. Dr. Marconi Pequeno (UFPB)
Prof. Dr. Marcos Fábio Alexandre Nicolau (UVA)
Profa. Dra. Mariana de Almeida Campos (UFBA)
Profa. Dra. Mariana Fisher (UFPE)
Prof. Dr. Miguel Ângelo Oliveira do Carmo (UFPB)
Profa. Dra. Olgária Chaim Feres Matos (UNIFESP)
Profa. Dra. Patrícia Nakayama (UNILA)
Profa. Dra. Priscilla Gontijo Leite (UFPB)
Prof. Dr. Rogério Campos (UNILA)
Prof. Dr. Saulo Henrique Souza Silva (UFS)
Prof. Dr. Sérgio Luís Persch (UFPB)
Prof. Dr. Sílvio Rosa Filho (UNIFESP)
Prof. Dr. Ubiratane de Morais Rodrigues (UFMA)
Prof. Dr. Ulisses Vaccari (UFSC)
Prof. Dr. Vitor Sommavilla (UFPB)
MORADORES DO CEARÁ
DENUNCIADOS À INQUISIÇÃO
DE LISBOA (1720 - 1802)

Amanda Teixeira
Diagramação: Marcelo Alves
Capa: Andressa Martins

A Editora Fi segue orientação da política de


distribuição e compartilhamento da Creative Commons
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O padrão ortográfico e o sistema de citações e referências


bibliográficas são prerrogativas de cada autor. Da mesma
forma, o conteúdo de cada capítulo é de inteira e
exclusiva responsabilidade de seu respectivo autor.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

T266m Teixeira, Amanda

Moradores do Ceará denunciados à inquisição de


Lisboa (1720-1802) [recurso eletrônico] / Amanda Teixeira. –
Cachoeirinha : Fi, 2025.

321p.

ISBN 978-65-5272-055-9

DOI 10.22350/9786552720559

Disponível em: [Link]

1. História – Inquisição – Ceará – Lisboa. I. Título.

CDU 94:271-7(813.1:469)“1720-1802”

Catalogação na publicação: Mônica Ballejo Canto – CRB 10/1023


SUMÁRIO

Apresentação 9
Amanda Teixeira

1 21
Liv. 282, 89º Cad., Seará ‒ Padre Joao Mattos Monteiro, solicitação + Cohô ‒ Negro
escravo de Manoel de Araújo, sodomia + Mel Cozinhado ‒ Maria Pereira/Andreza da
Fonseca, bigamia

2 25
Liv. 284, 91º Cad., Siará ‒ Negro, escravo de Manoel de Araújo, sodomita + Bento Roiz,
bestialidades + Florencio ou Floriano, escravo de Jorge Correa, bestialidade

3 27
Liv. 286, 93° Cad., Aldeia da Serra da Ibiapaba, Antonia Guiraguassu, índia Tabajara,
Feitiçaria

4 36
Liv. 296, 104º Cad., Jaguaribe ‒ Antonio Vasconcelos, homem casado,
desacatos/adivinhação de Quimbando

5 38
Liv. 297, 105º Cad., Aquiraz, Padre Antonio Pereira de Aguiar, escândalo + Luis
Pereira, homem branco, escândalo, bigamia

6 42
Liv. 300, 108º Cad., Fazenda da Boa Vista, Ribeira do Jaguaribe – Manoel de Sá,
mamaluco, filho natural de Luis de Sá, bestialidade

7 44
Liv. 300, 108º Cad., Jaguaribe ‒ Padre Francisco Calado Bitancurt, quebra de sigilo

8 49
Liv. 300, 108º Cad., Cariris Novos ‒ Luiz de Alamam, crioulo, bestialidade

9 50
Liv. 300, 108º Cad., Missão Uraripe ‒ Felipe, índio mamaluco, pacto com o demônio
10 53
Liv. 301, 109º Cad., Serra dos Cocos, João Ferreira, velho, duvida da pureza de Nossa
Senhora

11 59
Liv. 301, 109º Cad., Sertão dos Inhamuns ‒ Coronel Manoel da Silva Soares e seu filho
Francisco, desacatos

12 67
Liv. 301, 109º Cad., Acaracu ‒ Francisco Barros, desacatos

13 69
Liv. 301, 109º Cad., Ribeira das Jaibaras ‒ Francisco de Barros, desacatos e Dionisio
Pereira, homem pardo ‒ vida escandalosa

14 70
Liv. 301, 109º Cad., Cariris Novos ‒ Frei Egidio, religioso apóstata

15 72
Liv. 301, 109º Cad., Fazenda Olho dʼÁgua, Acaracú ‒ Frei João de São Diogo,
carmelita, quebra de sigilo

16 75
Liv. 301, 109º Cad., Serra dos Cocos ‒ Miguel Dias Cabral, ermitão da Capela de São
Gonçalo, desacato + Sítio do Cascavel ‒ Thereza da Cruz, mulher de Manoel Quadros,
desacato

17 81
Liv. 301, 109º Cad., Ribeira do Riacho dos Porcos, Cariri ‒ Padre Alexandre da Costa
Guedes, morador nas terras da Capela de Nossa Senhora dos Milagres, vendeu uma
partícula consagrada

18 117
Liv. 301, 109º Cad., Acaracú e Ceará – Padre Vicente Dantas, morador no Trairi, quebra
de sigilo

19 122
Liv. 301, 109º Cad., Jaguaribe ‒ Antonio do Gentio de Angola, forro, escravo que foi
de Manoel Ferreira Souto, superstição + Fazenda de Santa Anna, Manoel Gomes
Negrão, mestiço forro, mandinga
20 128
Liv. 301, 109º Cad., Jaguaribe ‒ Constantina de Barros, mulher do Tenente Francisco
Freire de Carvalho, adivinhação de Quibando

21 130
Liv. 301, 109º Cad., Serra dos Cocos ‒ Manuel Pereira de Jesus, casado com Leandra
Barbosa, superstição

22 133
Liv. 304, 112º Cad., Taboleiro de Areia, Ribeira do Jaguaribe ‒ Inacio Ferreira de
Albuquerque Maranhão, casado com uma mulata que foi de uma freira, desacatos,
cristão-novo

23 163
Liv. 306, 114º Cad., Vila do Icó ‒ Antonio Correa de Araujo Portugal, por alcunha “o
Jeremoabo”, bigamia

24 165
Liv. 307, 115º Cad., Círio do Tauá ‒ Miguel Fernandes Campelo, casado com Quitéria
de Lima, judaísmo

25 166
Liv. 308, 116º Cad., Missão da Serra da Ibiapaba ‒ Francisco dos Santos ou de Freitas,
índio, bigamia + Francisco Pixaim, bigamia

26 183
Liv. 308, 116º Cad., Campos do Mundaú ‒ Gonçalo, aliás, João Nunes, cativo de
Ignacio da Rocha, bigamia

27 193
Liv. 309, 117º Cad., Vila do Icó ‒ Antonio Correia de Araujo Portugal, bigamia

28 194
Liv. 311, 119º Cad., Missão do Miranda, Cariris Novos ‒ Polucena Roiz, parda, casada
com o capitão Manoel Roiz de Sá + Juliana Dias, índia da nação Cariri Assu, casada
com o sargento mor da Aldeia do Miranda, chamado Domingos de Araujo + Rosa de
Araújo, índia da nação Cariri Assu

29 211
Liv. 313, 121º Cad., Rusas, vila de Santa Cruz do Aracati ‒ Gaspar Rois dos Reis
Calçado, proposição herética
30 214
Liv. 313, 121º Cad., Vila do Icó ‒ Antonio Correa de Araújo Portugal, capitão-mor,
bigamia

31 216
Liv. 313, 121º Cad., Mangabeira, sertão do Icó ‒ Bento Ribeiro Porto, aliás, Manoel
Francisco ou Ferreira, bigamia

32 222
Liv. 818, 124º Cad., Sítio Bom Sucesso, vila de Icó ‒ Antonio Ribeiro, preto forro,
feitiçaria

33 232
Liv. 818, 124º Cad., Sitio das Pedras, Fazenda de Santa Cruz, Ribeira do Banabuiú ‒
João Velloso de Castro, filho de Manoel Velozo, confessar sem ser sacerdote

34 237
Liv. 315, 125º Cad., Lagoa das Pedras, Ribeira do Banabuiú, sertão de Jaguaribe --
João Veloso, homem pardo, fingir que confessava

35 239
Liv. 318, 129º Cad., Cariris Novos ‒ Manoel Sardinha Jardim, natural da freguesia de
Nossa Senhora da Graça, Ilha da Madeira, bigamia

36 306
Liv. 319, 130º Cad., Serra da Beruoca – José Pereira, índio, embusteiro + Manoel de Lira
Cabral, homem mamaluco, embusteiro + Francisco Caboclo ou Dom Francisco,
embusteiro

37 311
Liv. 322, 134º Cad., Amontada, distrito da vila de Sobral ‒ Padre Manoel da Cunha
Linhares, proposição herética

38 312
Liv. 322, 134º Cad., Arneirós ‒ Andre Soares, homem preto, bigamia + Gregório, cabra
de nação, escravo do Tenente Coronel Francisco Alves Feitosa, bigamia + Doutor
Manoel de Arruda Câmara, proposição herética + José Felipe, homem branco,
proposição herética + Padre João Frxª, proposição herética

Referências 314
Índice remissivo 317
APRESENTAÇÃO
Amanda Teixeira

Este livro é fruto da pesquisa intitulada “Transcrição paleográfica de


denúncias inquisitoriais envolvendo moradores da Capitania do Ceará
(1720-1802)” e financiada pela Fundação Cearense de Apoio ao
Desenvolvimento – Funcap, através do edital “Mulheres na Ciência”, de
2022. Também contou com o trabalho de bolsistas de iniciação científica
do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico –
CNPq e com o apoio da Universidade Federal do Cariri – UFCA, por meio
de sua Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação. Trata-se de
uma edição interpretativa de quase cinquenta denúncias contra
moradores do Ceará arquivadas nos Cadernos do Promotor da Inquisição de
Lisboa. É possível investigar, através delas, o processo de ocupação da
capitania, os mundos do trabalho, as práticas sexuais, a cultura material,
as crenças religiosas e a própria atuação do Santo Ofício nos sertões.
A Inquisição de Lisboa nunca estabeleceu um tribunal permanente
no Brasil. Investigações realizadas neste território dependiam das
visitações ou, mais frequentemente, de comissários (religiosos que
recebiam as denúncias, as enviavam para Lisboa e, caso houvesse
necessidade, realizavam diligências sobre os casos) e familiares (homens
leigos que tinham posses e “pureza de sangue” e atuavam registrando
denúncias e efetuando a prisão de acusados) 1. Em localidades mais

1
Segundo o Regimento de 1640, “os Comissários do Santo Ofício [...] serão pessoas Eclesiásticas, de
prudência, e virtude conhecida, e achando-se letrados, serão preferidos”. Os familiares, por sua vez
“serão pessoas de bom procedimento, e de confiança e capacidade conhecida: terão fazenda de que
possam viver abastadamente” (Regimento, 1996, p. 758). Judeus, cristãos-novos, negros, indígenas e
mestiços eram acusados de possuírem “sangue infecto”, consequentemente, não podiam ter acesso a
cargos políticos e religiosos. O cargo de “familiar do Santo Ofício” foi frequentemente desejado e
10 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

afastadas muitas vezes também foi necessária a atuação de comissários


“eleitos”, ou seja, escolhidos para missões pontuais, que não �guravam
efetivamente nos quadros da Inquisição.
Por haver um procedimento longo e minucioso, geralmente as
diligências realizadas nos sertões brasileiros ocorriam mais de dois anos
após a denúncia inicial. Em consequência, as testemunhas e pessoas
acusadas se encontravam em situações diversas após o decurso do
tempo: algumas se mudavam para regiões distantes, outras fugiam e,
frequentemente, os acusados morriam ainda no decorrer da
investigação. Frequentemente, por �m, os inquisidores não davam
crédito à denúncia, optando por arquivá-las. São justamente esses casos
que nos interessam. Meu foco recai, portanto, sobre as denúncias contra
habitantes do Ceará que não geraram processos, mas se conservaram
nos Cadernos do Promotor.
Os historiadores que estudam o período costumam se dedicar com
mais a�nco aos processos, raramente explorando delações que foram
descartadas pelos inquisidores. O principal motivo dessa predileção
reside, provavelmente, no fato de os processos estarem digitalmente
indexados, o que não ocorre com acusações encontradas nos Cadernos
do Promotor. É comum também que os historiadores as vejam como um
amontoado de denúncias registradas aleatoriamente, apesar de
existirem índices manuscritos que permitem compreender um pouco
melhor o fluxo de arquivamento. Marcia Eliane Mello sugere outra
hipótese que explicaria a desconsideração dos pesquisadores por estes

requisitado por homens de posses, pois funcionava como prova pública da “pureza de sangue”, o que
conferia honra, status e poder.
Amanda Teixeira • 11

papéis: ela acredita que talvez sejam vistos como documentos


“incompletos”, por não serem tão consistentes quanto os processos 2.
Inspirada pela abordagem da micro-história, percebo que indícios
sutis e quase imperceptíveis existentes nesses registros podem ser
muito férteis. Vejamos alguns exemplos: o indígena tabajara Dom Jacobo
de Souza e Castro não sabia falar português, mas, como principal de sua
aldeia, viajou a Lisboa buscando garantir que a região da Ibiapaba não
fosse anexada ao Piauí. Do outro lado do Atlântico, com a ajuda de um
intérprete, denunciou Antonia Guiraguassu, moradora de sua aldeia,
a�rmando que era feiticeira e costumava fazer aparecer “o demônio em
forma visível de índio” 3. Nessa delação há muitos “resíduos”
importantes: o de que indígenas poderiam possuir títulos de nobreza
devido ao recebimento de mercês; o de que os principais tinham
capacidade de trânsito e articulação política; o de que a disputa entre
Ceará e Piauí sobre a Ibiapaba data, no mínimo, de 1720; o de que os
principais poderiam estar dispostos a denunciar membros de suas
próprias famílias, como é o caso, com o objetivo de provar �delidade aos
dogmas católicos e, por �m, a persistência de práticas de cura nativas
em aldeamentos dirigidos por missionários católicos.
Outra acusação que possui “dados marginais considerados
reveladores” afirma que um escravo negro de propriedade do ferreiro
mulato Manoel de Araújo cometia o “pecado de Sodomia” com
frequência, tendo sido, por isso, apelidado de “Tibiru”, termo que
supostamente queria dizer “sodomítico em língua nativa” 4. O acusado,
inclusive, havia sido casado com uma “tapuia”, ou seja, com uma

2
MELLO, Marcia Eliane Souza e. Inquisição na Amazônia colonial: reflexões metodológicas. História
Unisinos, São Leopoldo, v. 18, n. 1, p. 260-269, 2014, p. 262.
3
ANTT, Livro 286, Caderno do Promotor de Lisboa n.º 93, fl. 585-r a f. 594-r.
4
ANTT, Livro 284, Caderno do Promotor de Lisboa n.º 91, fl. 12-r a f. 12-v.
12 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

indígena. A partir dessa acusação é possível entrever o fenômeno da


escravização de sujeitos negros por homens forros e a convivência entre
indivíduos de origem africana e indígena.
Ainda no que se refere a populações nativas, numa comunicação
enviada ao Santo Ofício, o jesuíta João Guedes informa sobre a
publicação de uma carta pastoral proibindo o rapto de mulheres
indígenas, violência muito comum (e pouco estudada) nos sertões
coloniais. Outro documento indica que o indígena ou mameluco
Francisco dos Santos ou de Freitas, da Aldeia da Ibiapaba, foi acusado de
bigamia. Seu irmão, Salvador de Freitas, foi preso em seu lugar por
engano. Ambos eram naturais da Baía da Traição. Curiosamente o bispo
teria tentado intervir nesse caso, afirmando que “são tão miseráveis
estes índios e me metem tanta compaixão as suas fragilidades” que
preferiria que o missionário mandasse açoitar e separar Francisco da
segunda esposa, sem denunciá-lo ao Santo Ofício. O Frei Miguel da
Vitória, comissário do Santo Ofício, por outro lado, defendeu o envio
imediato do delinquente para os cárceres da Inquisição, alegando que
“os pobres não têm que [comer] naquela prisão da Serra e alguns
perecem à míngua” 5. Aqui, notamos fragilidades da justiça eclesiástica
e as divergências sobre punições aos delatados, além da mobilidade
espacial nos sertões coloniais, inclusive entre indígenas que habitavam
os territórios atualmente pertencentes à Paraíba e ao Ceará.
Em 1747, duas indígenas “da nação cariri-açu” afirmaram que na
infância foram induzidas por uma mulher de posses, Polucena Roiz, a
adorar o diabo, mantendo, inclusive, relações sexuais com ele 6. Esta
denúncia, estudada mais longamente, informa sobre os abusos que as

5
ANTT, Livro 308, Caderno do Promotor de Lisboa n. º 116, fl. 311-r a 425-r.
6
ANTT, Livro 311, Caderno do Promotor de Lisboa n.º 109, fl. 464-r a 476-v.
Amanda Teixeira • 13

indígenas sofriam e a possibilidade de que tenham denunciado a


senhora a quem serviam por vingança. É um documento que indica os
trânsitos de indígenas cariris entre aldeamentos de Missão Velha e
Crato, além da relação de exploração entre proprietários de terra e
jovens aldeados 7.
Uma denúncia feita em 1739 afirma que Antonio Vasconcellos,
homem casado, morador no Jaguaribe, fazia adivinhações de quibando
com uma urupemba e uma tesoura buscando saber onde estava sua
escrava, uma tapuia que havia fugido. A delação diz que o senhor tinha
relações sexuais com a indígena escravizada e a castigou fisicamente
por ter revelado este segredo ao seu confessor 8. Aqui, “dados marginais”
indicam a existência, entre homens dos sertões coloniais, de práticas
divinatórias de origem africana, além de informarem, novamente, sobre
as violências sexuais e físicas sofridas por mulheres indígenas
escravizadas.
Outro Antonio foi denunciado, um homem forro pertencente ao
“gentio de Angola”, que “tem dado a maior parte de seu valor ao dito seu
Senhor do ganhado com curas e feitiços” 9. Essa acusação, produzida em
1748, permite perceber que o delatado, um africano livre, continuava
atuando como escravo de ganho de seu antigo senhor através de uma
atividade relacionada a saberes supostamente mágicos. Os “resíduos
reveladores” também são encontrados na acusação contra Manoel
Gomes Negrão, mestiço forro que morava em Santana do Acaraú e
levava consigo bolsas de mandinga, hóstias consagradas, contas de Cabo

7
Cf. SILVA, Amanda Teixeira da; ALEXANDRE, Jucieldo Ferreira. Atos torpes com demônios no Cariri
Cearense: uma denúncia de índias cristãs à Inquisição de Lisboa (1747-1750). Topoi (Rio de Janeiro), v. 24,
n. 52, p. 31–51, jan. 2023.
8
ANTT, Livro 296, Caderno do Promotor de Lisboa n.º 104, fl. 253-r a 253-v.
9
ANTT, Livro 301, Caderno do Promotor de Lisboa n.º 109, fl. 248-r a 250-r.
14 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Verde e “rezas fortes” 10. Em certo momento, o acusado teria negado ser
quem era, dizendo que “se chamava Ignacio dos Santos e que era branco,
que Manoel Gomes Negrão era um mestiço, e que ele era branco e se
chamava Ignacio dos Santos” 11. Esta denúncia, além de indicar diversas
práticas de “proteção mágica” comumente utilizadas nos sertões
coloniais, situa de maneira inequívoca as hierarquias sociais traçadas
naquele contexto.
O padre Alexandre da Costa Guedes talvez seja o membro do clero
que carrega mais acusações: teria vendido hóstias consagradas a
Teodósio Nogueira, “que a trazia debaixo da sola do pé para que tudo lhe
obedecesse” e à meretriz Thereza Marques, que a levava na barra da
saia. Remendou uma hóstia com saliva, mandou roubar imagens da
capela de Milagres, subornou o vigário geral de Pernambuco, adquiriu
armas proibidas e viveu amancebado com uma comadre, tendo inclusive
filhos com ela 12. A denúncia endereçada contra ele permite conhecer a
vida pouco proba do clero sertanejo no século XVIII. Por outro lado, o
jesuíta Gabriel de Malagrida – que foi “relaxado ao braço secular”, ou
seja, condenado à morte – aparece de forma secundária em diversas
dessas denúncias, sempre como um missionário que informava a
necessidade de denunciar ao Santo Ofício os padres que vendessem
hóstias consagradas ou revelassem o sigilo da confissão.
O naturalista Manoel de Arruda da Câmara foi denunciado por
afirmar “ser o jejum nocivo contra a natureza, e por isso mau”,
asseverando ainda que as visões de São Paulo “nasciam da frouxidão

10
Essas práticas foram amplamente estudadas por Laura de Mello e Souza, que vê as bolsas de mandinga
como “a forma mais tipicamente colonial da feitiçaria no Brasil”, configurando “talvez a mais sincrética
de todas as práticas mágicas e feitiçaria conhecidas entre nós: são a resolução específica de hábitos
culturais europeus, africanos e indígenas” (Cf. Souza, 2009, p. 279)
11
ANTT, Livro 301, Caderno do Promotor de Lisboa n. º109, fl. 248-r a f. 250-r.
12
ANTT, Livro 301, Caderno do Promotor de Lisboa n.º 109, fl. 372-r a f. 401-v.
Amanda Teixeira • 15

membrosa, e não de realidades” 13. Não será possível expor nesta


apresentação toda a riqueza dos numerosos casos estudados, mas é
possível afirmar que a documentação revela muito sobre o Ceará
colonial. Destaco que algumas delas geraram investigações formais; foi
o caso da acusação de “curas supersticiosas” conta a indígena tabajara
Antonia Guiraoassu; a de venda de partículas consagradas, contra o
Padre Alexandre da Costa Guedes; a de judaísmo, contra Inacio Ferreira
Albuquerque Maranhão; a de “atos torpes com demônios”, contra
Polucena Rodrigues. Além disso, foram investigadas as acusações de
bigamia contra Manoel Sardinha Jardim, que abandonou sua esposa
para viver com uma “mulata” e contra Antonio de Araujo Portugal,
entalhador português que atuou em Icó e chegou a ser processado pelo
Santo Ofício.
Em virtude do escopo da proposta, excetuaram-se acusações
presentes nos Cadernos de Solicitantes, ou seja, de clérigos acusados de
solicitarem favores sexuais de suas �éis, bem como as denúncias
arroladas nos Cadernos de Nefandos destinados àqueles que tinham
relações homossexuais. De toda forma, entre as denúncias constantes
dos Cadernos do Promotor também existem algumas dedicadas a essas
duas modalidades de “delito”.
A minha investigação preliminar se pautou pela minuciosa leitura
dos índices dos Cadernos do Promotor disponíveis digitalmente no
Arquivo da Torre do Tombo. Cinco índices podem ser acessados, mas
aqui foram analisados integralmente somente três: o “Índice dos
cadernos 68 a 70”, o “Índice incompleto do Promotor” e o “Índice geral
incompleto do Promotor”. Foram excluídos índices referentes ao
intervalo que vai até 1652. Essa exclusão se deu em virtude da

13
ANTT, Livro 322, Caderno do Promotor de Lisboa n. 134, fl. 435-r a f. 435-v.
16 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

colonização tardia do Ceará, especialmente do interior, o que me levou


a privilegiar o período posterior a 1680.
Observei os nomes das regiões em que os acusados moravam e listei
todas aquelas que são referentes ao atual território do Ceará, mesmo
que, àquele tempo, fossem identi�cadas como locais pertencentes a
Pernambuco 14. Foram excluídas as duplicidades (acusações que
aparecem repetidamente em diferentes índices, contendo informações
por vezes diversas, mas remetendo sempre aos mesmos fólios), bem
como as denúncias que constavam como pertencentes ao Ceará, mas não
possuíam relação alguma com a Capitania. Foram mantidas as
referências duplas quando a denúncia apareceu em mais de um caderno.
Posteriormente, veri�quei os cadernos e fólios indicados nos
índices, com o objetivo de examinar se constavam entre os documentos
digitalizados, se estavam íntegros e se, de fato, diziam respeito às
informações previamente indicadas. Desta forma, foram identi�cadas
as datas das denúncias, os responsáveis pelas acusações, as pessoas
delatadas e o período em que as informações foram remetidas. É preciso
notar que nem todas as pessoas (aliás, pouquíssimas delas) passaram
toda a sua existência na Capitania do Ceará. Havia muitos trânsitos,
como se pode observar principalmente nas denúncias de bigamia. É
possível que existam ainda, sob o título geral de “Pernambuco”, delações
que não identi�quei, especialmente no século XVIII, quando houve uma
expansão da rede de familiares 15. Também é preciso levar em
consideração omissões, erros, localidades não reconhecidas ao longo da
investigação e a dani�cação das margens e outras partes dos fólios, que
podem ter conduzido à perda de informações. Apesar de tudo, foi

14
A capitania do Ceará integrava a jurisdição do Bispado de Pernambuco.
15
Cf. FEITLER, Bruno. Nas malhas da consciência: igreja e inquisição no Brasil. São Paulo: Editora Unifesp,
2019, p. 98
Amanda Teixeira • 17

possível, através dos índices, recuperar e analisar numerosas denúncias


que, procuradas caderno a caderno, fólio a fólio, di�cilmente seriam
encontradas. Após essa etapa preliminar, a pesquisa transcorreu.
Inicialmente foi realizada uma transcrição conservadora, logo revertida
em edição interpretativa. A ideia inicial era apresentar ao público, lado
a lado, o documento digitalizado e sua transcrição, acrescida de notas
explicativas. Infelizmente essa solução foi descartada, pois o curto
espaço de tempo para a pesquisa e os escassos recursos para
diagramação impediriam que a edição fosse apresentada, neste
momento, da maneira que eu considerava ser ideal. Apesar de ter
consciência do aspecto intervencionista da edição interpretativa, que
diminui consideravelmente seu valor para estudos da área da
linguística, compreendo que, para a principal �nalidade aqui pretendida
– utilização como fonte para a pesquisa histórica – a transcrição
interpretativa é a melhor opção.
Tentei ser fiel à grafia dos nomes próprios, seja de pessoas ou
lugares, com o objetivo de tornar mais fácil a busca de documentos
adicionais em diversos bancos de dados; no entanto, houve processo de
modernização em alguns casos. Acrescentei pontuação e acentuação
quando considerei serem necessárias para a compreensão do texto.
Indiquei a mudança de fólios |123| para auxiliar os pesquisadores. Os
fólios foram representados por |123r| quando recto e |123v| quando
verso. Conjecturas foram indicadas por colchetes [abc], sejam elas em
função da dificuldade de leitura ou por dano ao suporte. A ilegibilidade,
seja por prejuízo ao suporte material, seja por dificuldade de decifração,
foi assinalada por [...]. Repetições e cancelamentos constam na
transcrição. Os cancelamentos são representados por abc. As repetições
são indicadas por (sic) quando estão no corpo do texto. Quando
ocorreram em mudança de fólios, não foram destacadas. Nomes
18 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

próprios foram preservados com as grafias originais, entretanto,


escritos com maiúsculas, mesmo quando apareceram iniciados com
minúsculas na documentação. Desdobrei abreviaturas. Abreviaturas
não decifradas (ou sobre as quais pairavam dúvidas) não foram
desdobradas. Escritos nas entrelinhas ou margens do fólio foram
assinalados por <abc>. Assinaturas foram indicadas pelos nomes
completos dos assinantes em itálico, mais [assinatura]. Quando não
identificadas, constam somente como [assinatura]. No caso de o autor
não saber assinar, indico seu nome completo, acrescido de [cruz].
Rubricas constam como [rubrica] 16. Selos, sinais públicos e carimbos não
foram indicados, nem descritos. Mantive a paragrafação na medida do
possível. Mudanças de punho e de tinta não foram assinaladas.
Estabeleci fronteiras de palavras. A intervenção mais drástica foi,
provavelmente, o acréscimo de pontuação que realizei sempre que
considerei necessário para melhor compreensão do texto.
Evidentemente este não é e não pretende ser um trabalho de
Filologia, portanto, deduções, interpretações e acréscimos (mormente
de pontuação) estarão presentes. A transcrição aqui apresentada se
distancia bastante do estado de língua em que os documentos foram
escritos originalmente. É possível que este material seja útil aos
estudiosos da língua portuguesa em algum nível, mas preciso deixar
claro que aspectos diacrônicos foram irremediavelmente perdidos
durante o trabalho interpretativo realizado com o objetivo de
aproximar o texto do leitor moderno.

16
Parti das normas propostas por Silvio de Almeida Toledo Neto e as adaptei com o objetivo de deixar
a disposição textual o mais limpa possível. Cf. TOLEDO NETO, Sílvio de Almeida. Um caminho de retorno
como base: proposta de normas de transcrição para textos manuscritos do passado. Travessias
Interativas (São Cristóvão), v. 10, n. 20, p. 192-208, 2020.
Amanda Teixeira • 19

Aos especialistas que porventura desejarem estudar tais fontes,


aconselho que retornem aos documentos digitalizados, seja para dar a
eles outra interpretação, seja para tirar dúvidas a respeito de palavras
possivelmente decifradas de forma incorreta. Recomendo atenção
especialmente aos nomes próprios, aos pronomes de tratamento
(geralmente são abreviaturas que foram desdobradas) e àquelas
palavras que foram conjecturadas, ou seja, às que se encontram entre
colchetes. É importante ainda alertar que, por um motivo ou por outro,
na transcrição podem estar ausentes rubricas, rasuras e outras marcas
importantes para estudos mais detalhados. Acredito que a maior
contribuição deste trabalho virá da identificação dos documentos e da
decifração que pode servir como “isca” para o historiador e para o
pesquisador dedicado à linguística histórica.
Um dos meus maiores desafios foi decifrar a escrita do frei Miguel
da Victoria, comissário que teve atuação bastante profícua no Ceará,
sem dúvida o scriptor mais excêntrico deste corpus documental, tanto no
que diz respeito à forma quanto no que se refere ao conteúdo. A forma
como grafa as palavras é pouco frequente no período estudado e merece
atenção: “exzistiam”, “xuver”, “disobedecer”, “atreivimento”,
“romendar”, “capax”, “rodeyros”, “negoços”, “dilinquente”,
“comsiençia”, “hatirar”, “suburnar”; “devaça”, “calsão”, “mosso”,
“presenssa”; “exmurecido” são alguns dos vocábulos encontrados. Além
disso, ele lança mão de termos já em desuso no século XVIII, tais como:
“poyar”, “maloratado”, “convença”. Me dediquei, na medida do possível
à explicação de alguns aspectos do texto para torná-lo inteligível ao
público mais amplo. Para isso, recorri diversas vezes aos “grandes
dicionários” do século XVIII, a saber, o Vocabulário Português e Latino de
Rafael Bluteau (bem como sua “atualização” de 1789) e o Elucidário de
20 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Viterbo (1798). Quando não foram suficientes, utilizei um dicionário


digital contemporâneo, o Houaiss.
Poucas vezes me detive a descrever a materialidade dos
documentos, optando por fazê-lo principalmente quando os danos no
suporte impediram a leitura ou levaram a conjecturas. Lamento, em
virtude do diminuto espaço de tempo, da ausência de pessoal para
realizar o trabalho e dos custos de diagramação de uma obra do tipo,
não ter conseguido preparar uma edição fac-similar, que seria ideal para
os meus objetivos.
A transcrição paleográ�ca é um trabalho árduo, que exige tempo,
atenção, técnica e prática. Infelizmente muitos historiadores não
possuem os conhecimentos básicos para realizá-lo, o que inviabiliza, em
certa medida, o acesso a informações presentes unicamente nos
manuscritos. Em consequência, a documentação – e os dados fornecidos
por ela – repousa nos arquivos durante séculos sem gerar investigações
que seriam imprescindíveis para a produção de conhecimento sobre o
período colonial. As fontes aqui elencadas, por exemplo, estão
digitalizadas e disponíveis gratuitamente no portal do Arquivo Nacional
Torre do Tombo desde 2009, mas permanecem quase integralmente
inexploradas, destacando-se como exceções os trabalhos de Luiz Mott e
Otaviano Júnior que, através de pesquisas realizadas em Lisboa, quando
os arquivos do Santo Ofício ainda não estavam digitalizados, foram
pioneiros na descoberta de denúncias e processos envolvendo
moradores do Ceará. Espero que esta edição possa popularizar
informações antes restritas às fontes primárias e despertar o interesse
de jovens pesquisadores pela documentação produzida pelo Santo Ofício
e pelo trabalho paleográ�co.
1
LIV. 282, 89º CAD., SEARÁ – PADRE JOAO MATTOS
MONTEIRO, SOLICITAÇÃO + COHÔ – NEGRO
ESCRAVO DE MANOEL DE ARAÚJO, SODOMIA + MEL
COZINHADO – MARIA PEREIRA/ANDREZA DA
FONSECA, BIGAMIA

|f. 78r| Casos que me foram denunciados 1.

<O Padre Bernardo Gomes Correa – Solicitação


O Padre João de Mattos Monteiro
Homem Negro/Escravo – Sodomia
Domingos Pereira Ramos – Curas>

1. Isabel Francisca de Souza, casada com Francisco Ferrão, soldado no


Arraial dos Palmares, sujeito ao Governo de Pernambuco, e do seu
Bispado, denunciou do Padre Bernardo Gomes Correa, Sacerdote do
Hábito de São Pedro, Missionário e Capelão do dito arraial, que
confessando-se ela algumas vezes com ele, duas vezes a solicitara ad
turpia no ato da confissão, e muitas vezes fora da confissão, fazendo-lhe
muitas promessas a fim de rendê-la: e que receando-se depois, de que
ela desse parte desta solicitação ao seu vigário, lhe aconselhara que não
se confessasse com ele. Vindo esta mulher a Pernambuco a procurar o
livramento do seu Marido, que dos Palmares tinha vindo preso, sucedeu
adoecer ela gravemente, e confessando-se como quem estava para
morrer, com um Religioso, manifestou a este o que tinha passado com
ela, e como fora solicitada ad turpia no ato da confissão do dito Padre

1
Esta denúncia é muito provavelmente de autoria do jesuíta João Guedes. É possível que a missiva tenha
sido enviada no período em que foi reitor do Colégio de Olinda.
22 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Bernardo Gomes Correa, e o Religioso lhe declarou a obrigação que tinha


de dar parte ao Santo Ofício desta solicitação, o que ela fez depois que
sarou da sua doença, vindo me buscar neste Colégio de Olinda, dizendo
que estava pronta a confirmar com juramento o que acima fica dito, e
que somente dava parte disto por descargo da sua consciência e a mim
me pareceu ser a mulher de demorada consciência, sem achar nela sinal
algum de que obrava com alguma paixão. Dista o Arraial dos Palmares
de Pernambuco mais de sessenta léguas, e fica perto da Alagoa do Sul 2.
2º O Padre Antonio Barboza da Sylva, Sacerdote do Hábito de São Pedro
que assiste na Ribeira de Jaguaribe, Capitania do Searâ, me denunciou por
carta, dizendo nela, que lhe contara o Padre Antonio Teixeira de Borba,
Capelão do Cascavel na Capitania do Searâ, que ouvira falar publicamente
em que o Padre Coadjutor do Vigário do Seará, por nome João de Mattos
Monteiro, Sobrinho do dito Vigário, indo a desobrigar seus fregueses na
Ribeira do Caracû em casa de Sebastião de Sâ, e do Coronel Felix da Cunha,
fora aí apartado e visto beijar umas servas da casa no ato da confissão pela
qual razão não quisera Seba |f.78.v| stião de Sâ, que ele no ano seguinte
tornasse a desobrigar a sua família e quando isso se contou no Cascavel,
estivera presente Valentim Callado Rego, morador no Searâ 3.
3ª O mesmo Padre Antonio Barboza da Sylva me denunciou que no Searâ
há um negro, cujo nome ele não sabia, escravo de um Ferreiro, por nome

2
O delito consistia em induzir, no ato da confissão, que a pessoa que se confessava cedesse aos desejos
sexuais do religioso. A “solicitação” acontecia através de palavras, insinuações, gestos ou mesmo à força.
3
No século XVIII a confissão e a comunhão quaresmal eram obrigatórias a todos os católicos, por este
motivo, os fiéis que cumpriam tais deveres podiam ser considerados “desobrigados”. João Guedes
enviou queixa ao Conselho Ultramarino afirmando que em 1722, por medo de ser preso pelo Tribunal
do Santo Ofício, o padre João de Matos Monteiro teria, com a ajuda de homens armados, tentado
expulsá-lo do Ceará. Nessa mesma ocasião, João Guedes foi defendido justamente pelo Coronel
Sebastião de Sâa que fora próximo a João de Matos Monteiro por um tempo, mas depois passara a ser
seu inimigo. João Guedes afirma que Sebastião de Sá teria pedido que duas mulheres jurassem que João
de Matos “as tinha solicitado na confissão, e para que assim o jurassem, lhes prometeu certo número de
éguas, o que as ditas não quiseram fazer, dizendo que nem ainda fora da confissão em semelhante
matérias lhes falara”. AHU-CE, cx. 4, doc. 254
Amanda Teixeira • 23

Manoel de Araújo mulato, e Morador no Cohô, o qual negro fora casado


com uma Tapuia já defunta, e que era notório e público cometer este
negro o pecado de Sodomia, tanto assim, que até os Índios fugiam dele
por saberem, que aonde quer que os encontre, os acomete para
cometerem com ele este infame pecado: e que achando ele em certa
ocasião a um homem dormindo na sua rede, fizera toda diligência em
ordem a satisfazer o seu danado apetite, e que acordando o homem
estivera para o matar, se não fugira com toda pressa. Disto sabem
Lourenço Tavares, morador no Jaguaribe, e Florencio de Carvalho,
Morador no Searâ 4.
O mesmo denunciou que na Ribeira do Jaguaribe há um homem
velho por nome Domingos Pereira Ramos, o qual cura com palavras e
bençãos qualquer ferida, e todos presumem que o faz com algum pacto
com o diabo: e aonde ele não pode chegar pessoalmente, benze uns
panos, e os manda ao ferido, o qual logo sara, e manda aos doentes que
de tudo comam, e ele guarda a boca por eles. Disto sabem Thomê Callado
Galvão e seus Irmãos, Valentim Callado Rego, Anastasio Lopes Galvão,
João do Rego Callado, e muitos outros.
O mesmo denunciou que no Seará, aonde chamam o Mel
Cozinhado, se acha uma mulher com o nome mudado, a qual morou
dantes na Ribeira do Pody aonde ele denunciante a conheceu com o
nome de Maria Pereira, e agora se chama Andreza da Fonseca, a qual
mulher casou com um homem chamado Joseph Carneiro Frasão, sendo
ainda vivo o seu Marido no Sergipe del Rey, distrito da Bahia, o que ele
denunciante soube por uns homens vindos do Sergipe del Rey, que lhe

4
O Regimento de 1640 do Santo Ofício de Lisboa considerava que as relações sexuais entre pessoas do
mesmo sexo eram criminosas, fossem elas consensuais ou violentas. O “escândalo”, ou seja, a
publicidade do ato podia ser um agravante.
24 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

disseram, que o marido dela era vivo, mas entrevado 5. Disto sabem
Bento Carvalho Sylva, e uma Mulata por nome Beatriz da Veyga, ambos
Mor |f.79r| radores na Ribeira do Pody, que dista dezessete léguas da
Ribeira de Jaguaribe, e cento e quarenta de Pernambuco.
Deste Clérigo, Antonio Barboza da Sylva, que é o que denunciou
estes casos, é bem-procedido, e zeloso: e não acho outro naqueles
sertões, a quem se possa cometer o exame destes casos, senão a ele
mesmo. O Vigário do Seará, João de Mattos Serra, além de ser Tio do seu
Coadjutor, do qual é o segundo caso, é pouco zeloso, e se descuida em
muitas cousas do seu cargo, deixando viver os seus fregueses como
querem, e se leva muito do interesse temporal; e assim não será acerto
cometer-lhe o exame destes casos 6.
Depois de ter escrito isso, me resolvi, acabado o meu Reitorado, ir
assistir na Aldeia da Serra da Ybiapaba, que fica ainda oitenta léguas
além da povoação do Searâ: e como aí necessariamente hei de tomar
posto, eu mesmo examinarei os casos sobreditos, e do que achar darei
parte ao Santo Ofício.

5
Bluteau define “entrevado” como “tolhido dos membros [...]. Entrevado na cama, sem se tirar dela,
como os paralíticos”. Cf. Bluteau, 1712-1728, p. 157.
6
Segundo Maia, as cisões entre ordens religiosas de Pernambuco se refletiram nas relações entre João
Guedes e João Matos Serra. Em 1699, no contexto da chamada “Guerra dos Bárbaros” ou Guerra do Açu,
o bandeirante paulista Manuel Navarro comandou um massacre contra indígenas aldeados pelo
oratoriano João da Costa. O jesuíta João Guedes foi partidário dos paulistas, enquanto João Matos, aliado
dos oratorianos de Recife, conduziu uma devassa com o objetivo de comprovar a culpa de Navarro. Cf.
Maia, 2013, p. 19-20.
2
LIV. 284, 91º CAD., SIARÁ – NEGRO, ESCRAVO DE
MANOEL DE ARAÚJO, SODOMITA + BENTO ROIZ,
BESTIALIDADES + FLORENCIO OU FLORIANO,
ESCRAVO DE JORGE CORREA, BESTIALIDADE 1

|f. 12r| Ilustríssimo Senhor.


<Bento Rois – Bestialidades
Negro, Escravo de Manoel de Araújo – Sodomita>

A distância dos lugares não permitiu que eu acabasse a diligência,


que Vª [...] Ilustríssima me tem cometido; o que farei como tornar ao
Searà, que dista desta Aldeia em que agora estou, oitenta léguas.
No entretanto dou parte de algumas denunciações que me fizeram.
Joseph Bandeira de Mello, que assiste no curral das
Guaramirangas, distante seis léguas da Aldeia dos Índios da Serra da
Ibiapaba, me denunciou que nove anos atrás, estando ele no dito curral,
viera um seu sobrinho à casa todo assustado, e perguntando-lhe ele qual
era a causa do seu susto, lhe respondera que vira uma cousa horrenda,
a saber, que vira a Bento Rodrigues, homem pardo e casado com uma
Tapuia, ter ajuntamento com uma cachorra da casa: e que ele
denunciante sentira isto tanto, que logo mandou matar a cachorra, sem
reparar no préstimo que ela tinha. O denunciante é moço bem-
procedido, e fidedigno 2.
O Padre Coadjuntor do vigário do Searâ Joam de Mattos Monteiro
denunciou que um Negro, escravo de Manoel de Araujo, Morador no

1
O documento tem a margem direita comprometida, portanto, foram necessárias algumas conjecturas
sobre o texto constante no verso do fólio.
2
Entende-se por bestialidade a relação sexual entre uma pessoa e um animal. Foram registradas
numerosas denúncias sobre o tema, mas a bestialidade não fazia parte da alçada inquisitorial.
26 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Searà, era tido e havido por Sodomítico, e que era tão desaforado neste
vício, que onde quer que topava com algum Índio, maiormente rapaz, o
solicitava a este |f. 12v| pecado, por cuja causa os Índios lhe têm posto o
nome Tibiru, que na língua deles quer dizer Sodomítico.
O mesmo denunciou, que um escravo de Jorge [...] por nome
Florencio ou Floriano, cometera bestialidade [com] uma égua, e que isto
vira Roberto Pereira, Morador no [...] o qual o contara a Apollonia
Rodrigues moradora na [Ribei]ra do Caracû.
Aqui se publicou uma Pastoral do Bispo do Pern[ambuco] que dá
por excomungados a todos aqueles, que [levarem Índias] destas Aldeias
para estarem com elas amancebados, e dentro de três dias as não
largarem: mas muitos zom[bam] desta excomunhão, e sem medo de
incorrerem nela, [...] a cada passo Índias das Aldeias para este torpe 3
fim, sem a[s lar]garem. Pergunta-se se este desprezo da Excomunhão
[...] da Inquisição? E que se há de fazer com os incursos ne[la] 4.
Deus guarde a Vossa Ilustríssima. Aldeia da Serr[a da] Ibiapaba 28
de Agosto de 1722.
Joam Guedes da Companhia.

3
O scriptor utiliza “torpo” no original.
4
Em missiva enviada ao Conselho Ultramarino, o jesuíta João Guedes afirma que já em 1713 notara a
“excessiva soltura em que viviam os moradores [...] sendo muito raro aquele que em sua casa não tivesse
alguma índia tirada das aldeias da referida Capitania usando dela para ofensas de Deus” e que teria dado
parte ao Bispo sobre esse tema, o que levou à publicação da Pastoral. Segundo o jesuíta, o padre João
de Matos Monteiro teria proferido “palavras indecorosas contra a mesma Pastoral”, dizendo que “dela
nenhum caso se deveria fazer, nem da sua excomunhão [...] por não parecer bem que os homens, por
falta de mulheres, se pusessem em risco de usar do pecado bestial”. João Guedes relata outras
acusações, afirmando que João de Matos Monteiro, “clérigo revoltoso, amotinador dos povos,
desobediente aos seus prelados e desprezador dos costumes eclesiásticos” teria chegado a ser
excomungado. AHU-CE, cx. 4, doc. 254.
3
LIV. 286, 93° CAD., ALDEIA DA SERRA DA IBIAPABA,
ANTONIA GUIRAGUASSU, ÍNDIA TABAJARA, FEITIÇARIA

|f. 585-r| Muito Ilustres Senhores 1


Da denunciação que a esta Mesa veio fazer Dom Jacobo de Souza e
Castro, Índio principal e governador da sua nação de Tabajaras da Aldeia
da Serra de Ibiapaba da Capitania do Ceará Grande, Bispado de
Pernambuco 2, consta que uma mulher da mesma Aldeia chamada
Antonia Guiraguassu <casada> com João Guayahijuba é pública
feiticeira, e costuma invocar o Demônio, e [levantando-se], e saindo pelo
teto da casa sem o destruir e dando no ar um grande assovio torna a cair
na [dela] casa, e com ela o Demônio; o qual responde a várias perguntas
de coisas do outro mundo; e algumas vezes diz que é a alma de alguma
pessoa defunta; o que é público naquelas partes como poderão
testemunhar um irmão da delata chamado Dom Simiam Piodovaiba, e
uns vaqueiros do pai da mesma delata, e outras mais pessoas da dita
Aldeia de Ibiapabá; por ser a delata pública, e constantemente feiticeira.
E consta também que na mesma Capitania há muitos feiticeiros, que
invocam o Demônio, e falam com ele, fazendo cerimônias
supersticiosas. E coisas sobrenaturais, não recatando o seu diabólico
modo de viver; do que poderão dar notícia Sebastiam de Sá, e Jozé

1
Esta denúncia também foi mencionada por Maria Leonia Resende em sua “Cartografia gentílica”. Cf.
Resende, 2013, p. 363.
2
Dom Jacobo de Souza e Castro era o principal de sua aldeia, possuía desde 1706 uma sesmaria em que
criava gado e, segundo a documentação indica, esteve pessoalmente em Lisboa, em companhia do
missionário Antonio de Sousa Leal, com o objetivo de apresentar uma petição em que solicitavam que
a aldeia da Ibiapaba não fosse anexada ao Piauí. Cf. CONSULTA (minuta) do Conselho Ultramarino ao rei
[D. João V], sobre as petições e representações que fizeram o procurador das missões do Brasil, padre
João Guedes e o missionário António de Sousa Leal, em que se referem aos danos que a aldeia da serra
da Ibiapaba poderá sofrer se for executada a ordem de a retirar da jurisdição do Ceará. Disponível em
[Link] Acesso em 05 de junho de 2022.
28 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Coelho que vivem de suas fazendas, moradores na mesma Capitania do


Esp. Santo Seará Grande, Gabriel Teixeira, e o Padre Felis de Azevedo,
moradores na mesma. E como de semelhantes culpas resulte gravíssimo
escândalo aos fiéis cristãos, e impedimento para o serem os que ainda
são gentios, é muito necessário, que se tome conhecimento delas; e
assim
|585-v| Requeiro a Vossas Reverendíssimas mandem perguntar, e
ratificar as testemunhas referidas, e as que elas também referirem,
segundo o estilo do Santo Ofício; e tomar conhecimento das
superstições e sortilégios da delata Antonia Guiraguasú; e de todas as
mais pessoas que forem incursas na mesma culpa: e do que resultar se
me dê vista [para] eu requerer o que fizer a bem da Justiça.
E presentado em Mesa o Requerimento acima do Promotor para os
Senhores Inquisidores lhe haverem de deferir de seu mandado lho fiz
concluso em os vinte e um dias do mês de Agosto. Tobias Bernardes o
escrevi.
[...] [rubrica]
Façam-se as diligências que requer o Promotor da Justiça, e feitas
que forem na forma do estilo delas se lhe dê vista para Requerer o que
for a bem da Justiça; e para tudo se passem as ordens necessárias. Lisboa
em a Mesa de Agosto.
|f. 586r| Dá conta a este tribunal da Santa Inquisição Dom Jacobo
de Souza e Castro, índio principal e governador de sua nação de
Tabajaras da aldeia da Serra da Ybyapabá da Capitania do Ceará Grande,
Bispado de Pernambuco, que em a dita sua aldeia há uma mulher casada
por nome Antonia Guiráoassu, que faz aparecer o demônio em forma
visível de índio segundo a voz e fama pública daquela aldeia sem
contradição de pessoa alguma, disse a cada passo, que esta índia
querendo chamar o demônio toma umas grandes fumaças de tabaco em
Amanda Teixeira • 29

cachimbo até ficar como fora de si, e logo se levanta aos ares, saindo
pelo teto da casa, que é de palha, sem a destruir, e nos ares dá um grande
assobio 3, e logo cai outra vez na mesma casa, e com ela o demônio, o qual
responde a várias perguntas do outro mundo; e às vezes diz que é a alma
de alguma parenta desta feiticeira, que havia anos era defunta, o que
pode constar perguntando-se naquela aldeia os índios que são mais
capazes, pois entre índios nada é oculto, e o que um faz, sabem todos,
nem há perigo de infâmia ou outra alguma desordem, porque é gente
que nenhum sentimento toma.
Esta mesma feiticeira veio uma noite à casa dele denunciante,
estando ele muito doente de dores de estômago, e lhe disse vinha fazer-
lhe umas mezinhas para o curar (e veio àquelas horas, sem dúvida, para
que o não soubessem os missionários), e disse-lhe que queria chamar o
demônio para a ajudar, que não tivesse medo; e logo sentiu ele
denunciante uma pancada na casa, como de pessoa, que caiu do telhado
no meio da casa; e temendo notavelmente 4 se quis benzer, porém esta
pessoa que caiu de cima em voz desconhecida e na língua dos índios lhe
disse que não tivesse medo, que ele, ainda que era o demônio curador,
lhe não faria mal; mas que vinha a chamado daquela mulher a curá-lo,
e estendendo a mão lha pôs no estômago, tão fria, que não parecia de
pessoa viva; e como ele denunciante se inquietou, assustado, e atônito
não quis consentir, calou-se e desapareceu dali aquela figura, ficando
unicamente esta mulher feiticeira, e uma sua irmã, que hoje é defunta,
que com ela vinha; porém ele denunciante não pôde divisar bem o vulto,
por fazer muito escuro, mas creu por então ser o Demônio, e pela fama
que a dita feiticeira tem, da qual se preza, e seus parentes tem hoje por

3
No original, asubiyo.
4
“Notavelmente”, no original.
30 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

certo ser verdadeiramente feiticeira. Também na mesma aldeia alguns


índios, e índias têm a mesma fama porém não tão certa como parece a
desta dita índia.
Também o Padre Antonio de Souza Leal, sacerdote do hábito de São
Pedro; e missionário, que foi dezoito anos na mesma Capitania dá conta
de que sempre ouviu publicamente dizer, e tem por certo; por ser dito
de todos, que na dita aldeia não só a dita índia mas outros mais invocam
o demônio. E que nas quatro aldeias e seus circuitos que estão juntas à
fortaleza do Ceara grande de índios muito mais ladinos há muitos
feiticeiros, que invocam o demônio e advinham o futuro, que por
conjecturas se |f.586v| pode de alguma sorte e por acaso acertar, e que
para isto fazem muitas cerimônias supersticiosas, e que estes feiticeiros
são muito temidos dos que o não são, e que fazem crer aos mais que
fazem chover, matam, e são causa de todo o bem e mal. E ainda que,
segundo o juízo dos homens brancos, que há nesta terra, muitos destes
são embusteiros, e patarateiros 5, também dizem, que outros são
verdadeiramente feiticeiros, e que lhes assiste o demônio naquelas
funções. E o que mais escandaliza a todo aquele povo é que dois mestiços
que não são índios, mas filhos de índias com mulatos, criados fora da
aldeia, um deles por nome [Francisco] De Mendonça tenha entre eles o
mesmo ofício de feiticeiro, que na língua do gentio se chama = Pagé – e
o outro, cujo nome é Bento Coelho, quando vai à guerra com os índios
os manda fazer aquelas superstições, para adivinharem aonde estão os
tapuias que buscam, e o que há de suceder, o que tudo se fala naquela
Capitania comum, e publicamente. E tem-se por certo que se se não fizer
algum castigo, tirando alguns destes mais culpados daquela Capitania,

5
Segundo o Houaiss, “patarateiro” é quem diz pataratas, sendo o termo sinônimo de enganador e
gabola.
Amanda Teixeira • 31

nunca os índios hão de ser verdadeiros cristãos, e todos se perderão.


Assim o sentem os missionários desta Capitania todos, e o mais povo.
O Padre Antonio de Souza Leal
O Padre João Guedes da Companhia que volta para aquele sítio ou
o Padre Francisco da Lyra 6, superior da Missão da Aldeia da Serra da
Ybyapaba, pode fazer lá as diligências, e também o Padre Antonio
Teyxeira Berba, presbítero do hábito de São Pedro que mora aonde
chamam o Cascavel, Freguesia de São Jozeph de Ribamar Do Ceará
Grande.
|f.588r| Termo de Intérprete 7
Aos dezenove dias do mês de Agosto de mil, e setecentos, e vinte
anos em Lisboa, nos Estaus, e casa do despacho da Santa Inquisição,
estando aí em audiência de tarde o [Doutor] João Paes de Amaral
mandou vir perante si ao Padre Antonio de Souza Leal, natural da Vila
da Batalhas, Bispado de Leyria, e assistente nesta Cidade, e sendo
presente por ele foi, digo, lhe foi dito, que a ele dito Padre o fazia
Intérprete de Dom Jacob de Souza e Castro para que bem, e fielmente
interpretasse as perguntas que se fizessem ao dito Dom Jacob de Souza
e respostas que a elas desse, o que tudo prometeu cumprir debaixo do
Juramento dos Santos Evangelhos, que para o dito efeito lhe foi dado, de
que fiz este Termo de mandado do dito [...] com quem o dito Padre
Intérprete a[ssi]nou. Tobias Bernardes o escrevi.
João Paes do Amaral [assinatura]
O Padre Antonio de Souza Leal [assinatura]

6
O Padre Francisco Lyra era inimigo de João de Mattos Monteiro e pretendia garantir que o Curato do
Acaracú ficasse sob a responsabilidade de seu sobrinho, o Padre Bernardo da Cunha de Lyra. Vide AHU-
CE, cx. 4, doc. 254
7
Este documento é de difícil leitura, apresentando caligrafia intrincada, tinta transpassada e margens
danificadas; por este motivo, diversas conjecturas foram feitas e encontram-se assinaladas por colchetes.
32 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

|590r| Aos dezenove dias do mês de Agosto de mil e setecentos e vinte


anos em Lisboa, nos Estaus e casa do Despacho da Santa Inquisição,
estando aí em audiência de tarde o [Doutor] inquisidor João Paes do
Amaral mandou vir perante si a um homem Índio de nação que da fala
pediu audiência, e por não saber a língua portuguesa vinha em
companhia do Padre Antonio de Souza Leal, sacerdote do hábito de São
Pedro assistente nesta cidade de Lisboa na Estalagem do [...] [defronte
para] [...] para denunciar nesta Mesa, o que sabia pertencer a mesma,
lhe foi dado Juramento dos Santos Evangelhos em que pôs a mão sob
cargo do qual lhe foi mandado dizer verdade, e ter segredo, o que tudo
prometeu cumprir, e disse chamar-se Dom Jacob de Souza, |590v| e
Castro, natural da Aldeia da Serra de Ibiapaba, onde é Governador,
Capitania do Ceara Grande, Bispado de Pernambuco, [cristão] velho 8 e
de cinquenta anos de idade, pouco mais, ou menos, e [Denunciando].
Disse que haverá [dez] anos pouco mais ou menos junto [da] dita Aldeia
da Serra de Ybipava em uma sua roça, e estando muito doente por ocasião
de umas dores de estômago que padecia veio a sua casa uma mulher da
mesma Aldeia chamada Antonia Guiraguassu casada com [João]
Guayahijuba, a qual disse [que] vinha curar a ele denunciante e que para
este efeito havia de chamar um camarada, e contraindo um cachimbo em
que começou a fazer visagens 9, e a fumar [pós e cascas], e logo sentia ele
dito denunciante bulir sobre o estofo da casa | que é de palha |f.591r| e cair
na casa, e dar umas pancadas então que caía uma pessoa, mas por ocasião
[do susto], e medo com que estava, e estar também a dita casa escura, não
pôde divisar o que era; porém com voz desconhecida, e na língua dos

8
Bluteau define “cristão-velho” como “o que nasceu de pais & avôs de um & outro sexo que nunca
proferiram a Lei de Moisés”. Cf. Bluteau, 1712 – 1728, p. 302.
9
Segundo Bluteau, o termo “visagem” deriva “do francês Visage, que é Cara, & entre nós visagens são
caras, Esgares, ou mais propriamente Visagem é uma mudança do rosto, segundo a paixão, ou disposição
do ânimo”. Cf. Bluteau, 1712 – 1728, p. 521
Amanda Teixeira • 33

Índios, lhe disse a dita pessoa, ou coisa, que tinha caído de cima, que não
temesse, que ele era o curador e lhe não vinha fazer mal e só vinha a
chamado por aquela mulher com efeito de o curar, e estendendo a mão,
lhe pôs sobre o [estômago] e estava tão fria que não parecia de cousa
animada; e como ele Denunciante se assustou, e ficou inquieto; e não quis
consentir que o curasse, ele desapareceu da casa da dita pessoa que lhe
falou, só ficando na casa da dita mulher com outra Irmã da mesma, que
vinha em sua companhia, a qual é já defunta e ficou entendendo que o que
tinha caído do teto da casa fora o demônio por ser dito |591v|
publicamente que Antonia Guiraguassu é feiticeira, e costumava invocar
o demônio tomando [aquelas] fumaças de tabaco de cachimbo lhe ficava
como fora de si e que então se levantava [...] o teto da casa sem destruir o
mesmo teto, e [...] dando no ar um grande assobio e uivo tornava a cair na
dita casa, e com ela o Demônio, o qual responde a várias perguntas e
cousas de outro mundo, e algumas vezes diz que é a alma de algumas
pessoas defuntas e que ele Denunciante [entende] [terão] visto o referido
um Irmão da delata chamado Dom Simião Piraduniba e uns vaqueiros do
Pai da mesma delata e [muitas] mais pessoas da dita Aldeia de Ibiapava
por ter a dita delata [...] pública e constantemente feiticeirias [na] Aldeia,
e [da] qual Aldeia e em todas as mais da dita Capitania há muitos
feiticeiros e feiticeiras |592r| e feiticeiros chamados Pagês pela língua dos
Índios, os quais invocam os demônios e falam com ele e fazem cerimônias
supersticiosas e cousas sobrenaturais o que melhor se poderá individuar
na dita terra, aonde os ditos feiticeiros e feiticeiras se não [recatam para
fazer] as ditas feitiçarias, e que de tal dão notícia Sebastião de Sá e Jozé
Coelho, que vivem de suas fazendas, moradores na mesma Capitania do
Ceará Grande; Gabriel Teixeira, que também vive de suas fazendas, e o
Padre Felix de Azevedo, moradores na dita Capitania.
34 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Perguntado se a dita Antonia Guiragassu é louca ou desajustada, e


costuma tomar-se de vinho e se na dita ocasião em que veio curar a ele
Denunciante estava em seu juízo perfeito, ou [surtada] do vinho ou
tomada de alguma paixão que perturbasse o entendimento
|592v| Disse que a dita delata não é louca nem desajustada, nem
constava tomasse o vinho, [...] na dita ocasião nem tinha cousa que lhe
perturbasse o entendimento.
Perguntado se o que tem denunciado o faz por ódio ou [má vontade
que] tenha à dita delata, ou se faz para desencargo de sua consciência e
por assim passar na verdade.
Disse que tudo o que tem denunciado o faz descargo de sua
consciência, e por assim passar na verdade e não por ódio, nem má
vontade que tenha à dita delata e mais não disse nem ao costume, e disse
ser [Irmão segundo] da delata e sendo-lhe lida essa sua Denunciação e
por ele ouvida e entendida em [presença] do seu Intérprete, disse que
estava escrita na verdade e que nel |f. 593r| nela se afirma, e ratifica e
torna a dizer de novo sendo necessário e que nela não tinha que
acrescentar, diminuir, mudar ou emendar, nem de novo que dizer ao
costume sob cargo dei Juramento dos Santos Evangelhos, que outra vez
lhe foi dado e estiveram presentes por honestas e religiosas pessoas, que
tudo viram, e ouviram, e prometeram dizer verdade e guardar segredo
no que fossem perguntados, sob cargo do Juramento dos Santos
Evangelhos que também receberam, os Licenciados João Cardozo,
Notário do Santo Oficio e Felippe Néri, Capelão das Escolas e das
[Penitências], que assistiram a esta ratificação, e assinaram com o
denunciante, seu Interprete, e com o dito Senhor Inquisidor.
Tobias Bernardes o escrevi.
João Paes do Amaral. [assinatura]
Cruz De Dom Jacobo de Souza, e Castro [Cruz]
Amanda Teixeira • 35

O Padre Antonio de Souza Leal. [assinatura]


João Cardozo [assinatura]
Phelippe [Néri][assinatura]

|f. 593v| E ida a Testemunha Denunciante para fora perguntados os


[doutores] Licenciados se lhes parecia falava verdade e merecia crédito.
E por elles foi dito que lhes parecia falar a verdade, e merecia crédito e
todos então assinaram com o doutor Senhor Inquisidor. Tobias
Bernardes o escrevi.
João Paes do Amaral [assinatura]
João Cardozo [assinatura]
Fhelippe Néri [assinatura]

< ao secreto 22
Conta 36>

|f. 594r|

Agosto 22 de 1720
João Paes do Amaral [assinatura]
João Alvares Soares [assinatura]

Foi Comissão para Pernambuco em 23 de Agosto de 1720 cometida


aos 3 Padres. João Guedes, Francisco de Lyra e Antonio Teixeira
Barbosa 10.

10
Houve diligência, portanto. Infelizmente não localizei outros documentos referentes a esta denúncia
até o momento.
4
LIV. 296, 104º CAD., JAGUARIBE – ANTONIO
VASCONCELOS, HOMEM CASADO,
DESACATOS/ADIVINHAÇÃO DE QUIMBANDO

<+ Capitania do Rio Grande


Quibando - emendei.
Correa – Vigário>

|f. 253r| Aos três de abril de mil e sete centos e trinta e nove anos,
nesta Cidade do Natal da Capitania do Rio Grande do Norte, freguesia de
Nossa Senhora da Apresentação, à minha presença veio o capitão João do
Valle Bezerra, homem casado, morador da Ribeira do Moxorô, freguesia
de São João Bautista de Assû da dita Capitania, dizendo que por minha via
delatava ao Santo Tribunal da Inquisição do Reino de Portugal o seguinte:
que ouvira dizer ao Capitão Francisco da Cunha, que vira â Antonio de
Vasconcellos, homem casado, morador de presente em Jaguaribe, termo
da Capitania do Cearâ Grande, trazer uma Imagem de Santo Antonio ao
pescoço pendente por uma corda, ou relho 1, em forma que quando o dito
Antonio de Vasconcellos montava a cavalo, a Imagem sobredita dava
pancadas pela sela do cavalo do dito Antonio de Vasconcelos; que então ia
de muda do dito Moxorô para o referido Jaguaribe; onde ficou morando;
do que julgou o dito Capitão Francisco da Cunha, homem casado, morador
da dita freguesia da Cidade do Natal, que o dito Antonio de Vasconcellos
era Judeu. Item, que â ele Capitão João do Valle Bezerra contaram Anna
Maria, moradora casada hoje, e então solteira, e Irmã do Capitão Joseph
Rebouça de Oliveira, e duas filhas da dita, chamadas Clara, e Quiteria,

1
Bluteau define “relho” como “cinto com que antigamente as mulheres nobres da Lusitânia costumavam
cingir-se [...]” Bluteau, 1712-1728, p. 220.
Amanda Teixeira • 37

moradoras em dita freguesia de Jaguaribe; que viram ao dito Antonio de


Vasconcellos com um seu filho mamaluquinho fazerem adivinhação do
Quiban+dando muitas vezes com uma urupembinha 2, e tesoura para
saber, onde estava uma tapuia escrava do dito Antonio de Vasconcellos,
com quem este andava havia anos concubinado, ela havia fugido;
porquanto o dito seu senhor lhe dera com uma [faca], por ter declarado
ao confessor esta dita ocasião do concubinato, tendo ele seu senhor
ordenado à dita Tapuia, sua escrava e concubina, que de tal concubinato
se não confessasse; como o encobriu várias vezes na confissão; e porque
ultimamente se acusou destas maldades, irado o dito seu senhor assim a
castigou. E disseram mais a ele Denunciante as três referidas mulheres,
que de enfadadas de verem o Denunciado tão repetidamente fazer o dito
quibando lhe esconderam os instrumentos referidos do Quibando, Item
disse mais o Denunciante, que a ele referiu, diante do dito Capitam
Francisco da Cunha, e de Patricio, mamaluco, escravo de Jeronimo da
Sylva, morador na Matta Fresca de Jaguaribe, e do caboclo Francisco,
moço do Denunciante nesse tempo, e de outras Pessoas, cujos nomes se
não lembra, referiu um escravo do dito capitão Francisco da Cunha, cujo
nome ignora, que vira ao dito Denunciado em o largo distrito do dito
Jaguaribe, fazendo com dito seu filho mamaluquinho |f. 253v| chamado
Bonifácio, fazendo o Quibando com um chapéu. Do que tudo fiz este
termo; em que comigo assignou. Era ut supra.
Manuel Correa Gomes [assinatura]
Vigário do Rio Grande

Joao do Valle Bezerra [assinatura]

2
Segundo o Houaiss, urupemba ou urupema é “uma espécie de peneira de palha em que se passa, por
exemplo, a farinha de mandioca”.
5
LIV. 297, 105º CAD., AQUIRAZ, PADRE ANTONIO
PEREIRA DE AGUIAR, ESCÂNDALO + LUIS PEREIRA,
HOMEM BRANCO, ESCÂNDALO, BIGAMIA

|f.35r| Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores Inquisidores do Santo


Ofício da Cidade de Lisboa e Seus Senhorios

Por esta e pela melhor via de Direito, perante mim 1, o Padre Felippe
Rodriguez Campello, Presbítero professo na Ordem de Cristo e
Comissário do Santo Ofício desta Villa do Recife Bispado de
Pernambuco, denunciou Manoel Pereira Lagoa, homem branco que
trata de sua agência; natural da Cidade de Lisboa, freguesia de Santa
Justa, morador na Villa dos Aquiraiz, Capitania do Ceará Grande do
mesmo Bispado de Pernambuco; e de presente assistente nesta vila de
Recife para 2 tornar para a Villa dos Aquiraz donde é atual morador do
Padre Antônio de Aguiar Pereira, vigário da Igreja de nossa Senhora da
Assumpção, Capitania do Ciara Grande, Bispado de Pernambuco: e de
Luiz Pereira, homem branco natural do mesmo Bispado de Pernambuco
que servia de Meirinho ao mesmo Padre Antonio de Aguiar Pereira na
forma seguinte. O Padre Antonio de Aguiar Pereira, Vigário da Igreja de
Nossa Senhora da Assumpção, Capitania do Ceará Grande, Bispado de
Pernambuco, tinha em sua casa a Luiz Pereira, homem branco, servindo
de seu meirinho alguns anos; este andava publicamente concubinado
com Catherina, mulher branca e solteira, filha de Manoel Rodriguez
Lisboa, Carcereiro na Vila da Fortaleza do Ceará Grande, Bispado de
Pernambuco, e no seu concubinato permaneciam publicamente, e

1
No original, “para ante”
2
O autor utiliza “pera”.
Amanda Teixeira • 39

constante a todos os moradores da mesma vila: neste mesmo tempo em


um dos dias do mês de Agosto, ou princípio de setembro do ano de mil
e sete centos e quarenta e três, às dez para as onze horas |f.35v| [horas]
da noite, estando já fechada a porta da casa do Padre Antonio de Aguiar
Pereira, e dentro dela o mesmo Luiz Pereira seu meirinho; bateu à porta
a dita Catherina, filha de Manoel Rodriguez Lisboa. Abriu a porta o
mesmo Padre e achou ser a dita Catherina, concubina de Luiz Pereira,
seu meirinho, a qual com repetidas vozes lhe pedia a valesse porquanto
seu Pai e Irmão a queriam matar por ela andar concubinada com o seu
meirinho Luiz Pereira, e que para impedir a Seu Pai o excesso e
desvanecer-lhe o intento pedia que logo a recebesse com o dito seu
meirinho visto ser também vigário da Vara, e que não saía de sua casa
sem ser recebida; Fechou 3 a porta o dito vigário ficando dentro a mesma
moça, e assim chamou pelo seu meirinho Luiz Pereira pois se achava
também na mesma casa, e fazendo-lhe pergunta, se tinha dúvida casar
com a dita Catherina respondeu que não: repetiu a mesma pergunta a
mesma moça a bem da súplica que já lhe tinha feito a mesma moça e
achando-os iguais nas vontades os recebeu. Duvida porém a dita
Catherina o estar verdadeiramente casada, e diz que assim se não casava
pois não tinham assistido ao seu tal recebimento testemunhas / suposto
dizem que dentro se achavam dois moleques / à dúvida da moça
responde o mesmo vigário que não tivesse dúvida porem chamou um
dos moleques e mandou por ele chamar a Joao Dantaz de Aguiar, homem
branco, e vizinho do mesmo vigário parede e meio, e dizem já o mesmo
Joao Dantaz de Aguiar com a sua família tinha ouvido tudo o que tinha
sucedido pois a parede que havia em meio era de taipa mui tênue; acudiu
sempre o dito Joao Dantaz de Aguiar ao chamado do seu vigário, e logo

3
No original, “feichou”.
40 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

o mesmo vigário contou o caso sucedido e juntamente a dúvida que lhe


tinha posto a moça Catherina, e à vista do que contou o Vigário, disse
Joao Dantaz de Aguiar não duvidasse pois estava recebida com Luiz
Pereira, e com estas razões sossegou |f.36r| a moça, e depois foi o mesmo
Vigário e Joao Dantaz de Aguiar levar a Catherina, e a Luiz Pereira, seu
marido, à casa do Pai da mesma Catherina acomodando-se com lhe
afirmarem estavam recebidos: ficaram os dois, Catherina e Luiz Pereira,
na mesma casa do Pai de Catherina, e nela existiram por tempo de um
mês de porta adentro, indo ambos à casa do mesmo vigário Antonio de
Aguiar Pereira, e nela passaram dias inteiros, e tidos e havidos por
casados. Depois disto ausentou-se Luiz Pereira da companhia de
Catherina, e da mesma Villa da fortaleza do Ceará Grande donde eram
moradores, trazendo uma certidão do mesmo Vigário Antonio de Aguiar
Pereira de que o tal Luiz Pereira era livre e desembargado para poder
casar sem impedimento algum, e com esta certidão o mandou casar com
uma sua sobrinha, moradora na vila de Igarasu do mesmo Bispado de
Pernambuco: e com efeito se recebeu o dito Luiz Pereira com a sobrinha
do mesmo Vigário, que já os havia recebido na sua freguesia; depois de
recebidos foram ambos para a companhia e casa do mesmo vigário
Antonio de Aquiar Pereira onde se achava a primeira mulher, Catherina,
ainda viva. Vendo a dita Catherina que seu marido Luiz Pereira tinha
levado a sobrinha por sua mulher, denunciou dele ao Juiz ordinário de
o tal Luiz Pereira haver casado segunda vez, provada a denúncia, foi
preso o dito Luiz Pereira e ainda se acha na cadeia do Ceará Grande. E
também declarou o dito Manoel Pereira Lagoa que ele não denunciava
do Padre Antonio de Aguiar Pereira nem de Luiz Pereira por ódio, ou
inimizade que tivesse, e só sim por ser tudo o que nesta denúncia se
achava escrito verdade, e que sendo necessário o jura aos Santos
Evangelhos, e de como assim o disse, assinou |f.36v| comigo, o Padre
Amanda Teixeira • 41

Felippe Roiz Campello, comissário do Santo Ofício Villa de Santo


Antonio do Recife. Doze do mês de outubro de mil e sete centos e
quarenta e quatro.

Felippe Roiz Campello [assinatura]


Comissário do Santo Ofício

Manoel Pereira Lagoa [assinatura]


6
LIV. 300, 108º CAD., FAZENDA DA BOA VISTA, RIBEIRA
DO JAGUARIBE – MANOEL DE SÁ, MAMALUCO,
FILHO NATURAL DE LUIS DE SÁ, BESTIALIDADE

|f.144r| São [...]


Manoel [...] Sá, morador na Boa Vista - bestialidade
Freguesia das Russas do Bispado de Pernambuco

Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil e sete


centos quarenta e oito, aos vinte e dois dias do mês de Maio do dito ano,
apareceu perante mim João Bautista, homem pardo, solteiro, natural de
Pernambuco, da freguesia de Santo Amaro de Jaboatão, pessoa de mim
reconhecida pela própria de que se trata; e por ele [dito] foi requerido
em minha presença; e do Reverendo Licenciado João Pereira de Lima,
Cura e Vigário da vara desta Matriz; que ele vinha denunciar de Manoel
de Sá ao Santo Ofício que no ano passado de mil sete centos quarenta e
sete, andando buscando umas bestas no lugar chamado [Amissão], que
fica da Casa da Boa Vista para Cima, nas terras do Boqueirão de baixo
desta freguesia, topou de repente com o dito Manoel de Sá em pé em
cima de um pau deitado, tendo cópula com a mesma besta em que ele
andava de sela; com os calções de couro abertos; e tal ficou o dito Manoel
de Sá com a vista dele denunciante que dizendo-lhe: “Guarde Deus a
Vossa Mercê”, ele ficou tão esmorecido 1; e com tal [...] que nem palavra
lhe respondeu, deixando-se ficar descomposto como estava. A égua
tinha a cor castanha; e para isto se apartou dos companheiros que
estavam rodeando um pouco de gado no campo; dizem ser natural do

1
Miguel da Victoria usa “exmurecido”.
Amanda Teixeira • 43

defunto Luis de Sá 2 que morou nesta Terra; mamaluco assiste em casa


a Francisco Gomes Rangel, na Fazenda da Boa Vista desta Ribeira de
Jaguaribe, de idade de dezessete anos, pouco mais, ou menos; ele
denunciante é oficial de carapina 3 e al não disse o qual depoimento e
juramento que lhe foi dado por mim, Comissário, disse que tudo assim
passava; e nele se ratificava; e tornava a dizer de novo; e não tinha mais
que declarar do dito, nem acrescentar, nem diminuir; e que assim o
permitia dizer em todo o tempo o que lhe fosse preguntado por ordem
do Santo Ofício e assinou comigo como [o Senhor e dito] Reverendo Cura
e Vigário da vara; Declarou que os Camaradas, andavam do cúmplice,
andavam vendo Gado; e o dito Manoel de Sá é que tinha ficado no
Rodiadoro, com o mais.
João Pereira de Lima [assinatura]
Cura e Vigário da Vara

Frei Miguel Da Victoria [assinatura]

João Bauptista Pezoa [assinatura]

2
O termo “filho natural” designa pessoa nascida de um relacionamento fora do casamento.
3
O carapina, segundo o dicionário Houaiss, é um carpinteiro de obras de madeira em geral, exceto
construções e reparações navais.
7
LIV. 300, 108º CAD., JAGUARIBE – PADRE FRANCISCO
CALADO BITANCURT, QUEBRA DE SIGILO 1

|f. 130r|
O Padre Francisco Calado Bitancurt. Sigilo. 2
Ilustríssimo Senhor José de Lima

Já escrevi a Vossa Reverendíssima pedindo-lhe me fizesse favor


chegar a esta cadeia do [...] donde me acho preso, e como até o presente
não tem feito vossa Reverendíssima, não duvido será por alguma
impossibilidade e por não dilatar mais a [obrigação] que tenho me
resolvo a satisfazer pelo modo possível. Dou parte, e [denuncio] a Vossa
Reverendíssima do Padre Francisco Callado Bitancor, sacerdote do
hábito de [São Pedro]; morador por ora em Jagoaribe, Comarca do Siará
Grande, Ribeira do Icô, vindo do Acaracú e outros lugares me veio pedir
licença para sulancar 3, e ser [capelão] em uma minha capela da
invocação de Nossa Senhora da Purificação, [edificada] no sítio chamado
Jagoaribe Mirym, e como eu estava de [ida] para o sertão dos Acongazes,
lhe concedi a dita licença, querendo o povo concorrer a [...] festas fora
da capela assistisse ele até a minha chegada, ficando o meu [Procurador]
com ordem para só consentir ao dito Padre e não pessoa mais alguma.
Em [agosto] de 47, chegando eu dos Acongazes doente fui para casa do
Coronel [...] Agostinho da Costa Machado curar-me, e lá assistindo me

1
O documento está com a margem direita bastante danificada, o que impossibilitou a decifração de
algumas palavras.
2
A margem direita do primeiro fólio desta denúncia está danificada, o que impediu a leitura de algumas
palavras e induziu à dedução de outras, que estão aqui assinaladas por colchetes.
3
No original, “sulanxar”. Solancar, segundo o Dicionário Houaiss, significa “trabalhar arduamente, com
afinco, em serviço pesado; mourejar”.
Amanda Teixeira • 45

foi [...] sobre dito sacerdote, e em conversa me disse presente o Coronel


que a causa do povo estar já malquisto com ele era o Capitão Francisco
de Crasto (sic), o qual indo confessar-se com ele por desobriga
quaresmal, que lhe concedeu o cura do Ico Joam Sarayva de Araújo, e ao
depois mandando um seu criador junto com uma sua escrava, ou ama,
por nome Maria, que ela na confissão lhe confessara, que há muitos anos
andava concubinada com o dito Capitão Francisco de Crasto, seu
Patrono, de quem tinha alguns filhos, e que ele a não quis absolver,
dizendo fosse confessar [...] ao reverendo Cura do Icó, e que o dito seu
Patrono [não dava por] desobrigado, e que [acabando] de celebrar lhe
fora o dito seu criador Dimiciano Levy perguntar a causa que tinha para
não confessar sua comadre que ele lhe respondera que a [não] confessou
por ela lhe dizer que há muitos anos estava concubinada com Francisco
de Crasto e com ele de porta adentro, e que o dito seu amo tinha má
consciência, porque confessando-se com ele, negou, o que porquanto o
fez ela; e assim que tanto um, como outro, fossem confessar-se ao Cura,
que por isto se afastara e levara a mal Francisco de Crasto, [falando] com
os mais, e que lhe não [tivessem] mais por [são] e o não [consentassem]
na Capela. Dali a poucos tempos, no mesmo ano de 47, me fez queixa
Antonio Pereira, homem branco, morador na mesma Ribeira, que indo
naquela desobriga o Padre Francisco Callado fora desobrigar a sua
fazenda e que ele o confessara, e na confissão lhe dissera que tinha
cópula com uma moça solteira, filha de Francisco dos Desterros, e que
[tan] |f.130v| Francisco Dexterros, a qual se achava pejada, e não
podendo-se encobrir do Pai, e mais parentes, ele dito os [trazia]
[embargados] com pretexto de casar com ela, mas que o não podia fazer
sem primeiro se ir com boiadas para a Bahia naquele mesmo ano para
lá se aparelhar, e vir casar com ela, e que os tinha satisfeito fiados na
sua promessa, mas que tudo isto fazia ele para os moderar a que o não
46 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

impedissem sair com a boiada para fora, que sua tenção era ficar para
lá alguns tempos, e dela casá-la (sic) com outra pessoa por lhe não estar
a bem casar-se com ela, e que indo o dito Padre na mesma desobriga
fora a casa dos ditos desobrigá-los e que daí uns tempos se pusera os
parentes mal com a moça, e querendo que ela casasse logo antes de sair
para fora; e mandando-a dita chamar, e dar-lhe parte do que passava
fora, ele [e nunca] os pôde acomodar ao que estava dantes e que a mesma
moça lhe dissera que ele a enganava, porque lhe tinha dito o Padre
Callado que ele não casava com ela, e que o que lhe dizia era para
enganá-la e disto procedeu mil desavenças e perigos de vida ao dito
Francisco Pereira e me afirmou que nunca encontra pessoa de ira se não
a ele, confessor. Também a Sebastiana da Silva, mulher casada, que tem
marido ausente, por ela lhe permitir na confissão que um sujeito com
quem cometia adultério a seu marido, de quem se não podia livrar por
estar nas suas terras e dele [...]; que vindo ele outra vez para o lugar, que
ela se retiraria do lugar para não ter ocasião com ele; e que a essa
promessa a confessou, e que agora via o contrário porque chegou o dito
e ela não tão somente continuava com estar no lugar, se não, que sabia
ele, que ela matava leitões e cordeiros e mais regalos para ele e disto se
fazia muita galhofa, por este seu dizer e outras muitas cousas, dizia dela
acerca da confissão. Também me disse Jozé da Silva, homem branco
casado, morador no mesmo Lugar de Jagoaribe Mirym, que acabando de
ajudar a missa ao dito Padre, e conversando com Mathias Frazão, todos
três sobre certo particular que o dito Padre dissera ao mesmo Mathias
Frazão nessa ocasião, o que ele na confissão lhe tinha dito; mas não lhe
[perguntei] o que fora. Também me disse Gonçalo Rodrigues, homem
pardo, casado, morador na mesma Ribeira, que uma mulher lhe tinha
dito que confessando-se ao Padre Francisco Calado, e que ele a cometera
na confissão mas eu lhe não perguntei nem quis saber, que mulher era.
Amanda Teixeira • 47

Também me disse uma cabra forra, que assistia em casa em casa (sic)
dele, e o conhecia de outra parte |f. 131r| contando, e dando-me parte de
umas mulheres, que ele trazia em sua companhia, que o dito Padre
nunca parava em parte nenhuma por ele e as tais mulheres, por serem
muito faladeiras, e enredadeiras, e que o Padre andava com uma delas,
sua comadre e casada, e os mais parentes todos, que eram seus
alcoviteiros, e que ninguém, por donde o conheciam, os queriam e
[encontrar] nas suas terras e capelas e menos, ouvir-lhe a missa, nem
com ele confessar-se porque tudo o quanto sabia na confissão de faltas
de mulheres contava à dita sua comadre, que ela dizia e falava de todas;
e que isto sabia ela por sempre os conhecer, e assistir com eles, e ela lhe
contar muitas vezes o que ele lhe dizia, e que o marido desta o [fizeram]
fugir, e que ele nunca a largava | o dito cabra chama-se Domingos | e o
mesmo é fama, e se diz na Ribeira do Icô, e depois de eu cá estar preso
me escreveu o Reverendo Padre Frey José de Miguel, Religioso de Nossa
Senhora do Carmo, dizendo que fora muito perseguido em 48 de
confissões porque o mesmo cura acima lhe tomara a dar a desobriga e
que o Povo se não queria confessar com ele, por descobrir o sigilo da
confissão, e que o Coronel da Ribeira fora denunciar dele, e outros
muitos, e que o cura lhe não queria tomar a denúncia. Este religioso
mora na mesma Ribeira administrando uma fazenda do convento e o
mesmo me sucedeu com ele cura, confessando-me com ele e dando-lhe
parte do que tenho dito a Vossa Reverendissima e me aconselhou não
desse disso parte a Vossa Reverendíssima, nem a outra pessoa, e que o
fizesse a um Religioso esmoler, que lá andava do Carmo de Lisboa, o qual
tinha faculdade para isso, e duvidando eu me aconselhei com um
sacerdote mais [...] do Lugar, o não fizesse senão a vossa reverendíssima,
e que o dito não lhe competia o tal conhecimento, e vendo as
[estruporias] do Cura quer encobrir neste colégio estes defeitos
48 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

atalhando, e que dele se não dê parte por ser muito seu [amante],
acreditando tudo que ele lhe diz, e sendo contra quem o contrário fala,
e como absolutamente o povo nenhum se quis confessar com ele
mandou o seu coadjuntor fazer a desobriga, e não consentindo se falar
do Padre Calado, e [....] no concubinato. Isto que tenho dito a Vossa
Reverendíssima o afirmo e juro em fé de sacerdote passou assim na
realidade, e por desencargo de minha consciência dou esta parte a vossa
Reverendíssima para evitar o que se tem e vai seguindo do dito lugar
com o seu mau procedimento em dano de muitos, que se tem seguido
dar tantas desavenças e discórdias; e geralmente se diz é o dito de má
consciência e procedimento em tudo, e basta que afirmam também, que
tem tratos ilícitos com a outra comadre, Irmã da sua concubina, casada,
Madalena, Irmã com um Gabriel, e que ele a veste, e supre [do
necessário]. Deus a Vossa Reverendíssima Guarde Muitos Anos. Seguro,
15 de abril de 1749. De Vossa Reverendíssima
O mais venerador e [...]
João Martins Velloso [assinatura]
8
LIV. 300, 108º CAD., CARIRIS NOVOS – LUIZ DE
ALAMAM, CRIOULO, BESTIALIDADE

|f. 137r| Luiz de Alamam: bestialidade

Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil sete centos


quarenta e oito, aos doze dias do mês de março do dito ano, em minha
presença, depôs Manoel Coelho Monteiro, natural de Vila Real que
estando de assistência no Brejinho de Manoel Alvares, digo, de Manoel
Dias, no distrito do A Novo, freguesia sobre [si] e do Bispado de
Pernambuco, vira, dentro do cercado do dito Manoel Dias, um crioulo
por nome Luis de Alamam, forro, natural do Recife de Pernambuco,
sobre uma égua tendo cópula com ela; e espantado de tal sucesso deu
parte disto ao dito Manoel Dias, morador no mesmo Brejinho e a
Antonio Barboza Coelho, morador em casa de Francisco Alvares Feitoza
nos Inhamuns da vila do Icó; e ainda viram os ditos a égua com um cipó
nos pés com [...] [peyou] para o delito; e também presenciou o seu dito
Mathias de Olanda, morador no [Galé] distrito da Vila do Icó em
Jaguaribe e o dito crioulo andava a ganho com o [licenciado] Francisco
Xavier que nesse tempo estava na mesma parte. De que fiz este termo
que ele comigo assinou e a dita Testemunha de seu dito o que tudo
afirmou debaixo do Juramento dos Santos Evangelhos; e sub cargo do
Santo Ofício em a Fazenda da Lagoa Redonda da dita Vila do Icó.
E comigo comissário
Frei Miguel da Victoria [assinatura]
Manoel Coelho Monteiro [assinatura]
Mathias de Olanda e Vas [assinatura]
9
LIV. 300, 108º CAD., MISSÃO URARIPE – FELIPE,
ÍNDIO MAMALUCO, PACTO COM O DEMÔNIO

|f.132r| Felipe ...... pacto com o Demônio


Frei Alexandre: solicitação
O Padre Vicente Ferreira, proposição

Ilustríssimos, e Reverendíssimos Senhores Inquisidores.

Serve esta minha de acompanhar uma carta, que do Rio Grande do


Sul me remeteu o Reverendo vigário da Manga, para a enviar nesta frota
a este Santo Tribunal, e juntamente com ela remeto a vossas Senhorias
processo das culpas de Antônio Álvares Julio da Missão do Acarape,
mandado tirar pelo seu Reverendo Padre Missionário Frei Xavier
[Manuel] da Junqueira, Capuchinho, o qual me foi entregue pelo
Reverendo Padre Prefeito do Hospício de Nossa Senhora da Penha deste
Recife.
Também remeto a Vossas Senhorias duas cartas que [...] deram,
uma da Cidade de Olinda, contra o Reverendo Padre Mestre Frei
Serafim, religioso Antonino, sobre umas proposições escandalosas e
ofensivas que [proferiu] no púlpito contra a Sagrada Religião da
Companhia de IESUS, [...] da Cadeia deste Recife contra o Padre
Francisco Calado, morador nos Sertões de Pernambuco.
Vocalmente me deram parte para a dar a Vossas Senhorias o
Reverendo Padre Frei João Francisco de Palermo, Religioso capuchinho
deste Hospício do Recife, que ouvindo de confissão a um rapaz curiboca 1

1
Curiboca: segundo Schwartz, “os curibocas eram descritos como descendentes de mulatos e negros
ou de mamelucos e negros, e no sertão também podiam ser chamados de ‘salta atrás’. Essa terminologia
Amanda Teixeira • 51

por nome Justo, de idade de 10, ou 11 anos lhe dissera, que na missão
Urarippi dos mesmos Religiosos Capuchos havia um Índio mamaluco
chamado Felipe, casado com Josefa, sua tia, o qual tinha pacto com o
demônio, e o levara em certa ocasião a um lugar deserto, onde lhe
aparecera um bode para o batizar.
Item um crioulo por nome João Gonçalves, escravo de Nicolau
Gonçalves estudante Filósofo dos Padres [Nerios], filho de Lourença do
Rozario, casada com Manoel Teixeira Barros, capitão dos Auxiliares,
morador na vila do Igaraçu, me disse vinha mandado por dois seus
confessores, um Padre [Neri] e outro, Franciscano, a dar-me parte, de
que o tal crioulo fora solicitado ad turpia imediate post confissionen pelo
Padre Frei Alexandre, Missionário Apostólico que vive neste Recife fora
de claustro, sendo Religioso Franciscano da Manga Larga da Província
de Portugal, ou da Índia.
|f.132v| Da Cidade do Rio de Janeiro veio nestes navios, que aqui
vieram [...] e vão nesta frota o Padre Vicente Fernandes, clérigo do
hábito de São Pedro, expulso da Congregação do Oratório da Madre de
Deus neste Recife, o qual jurou ser homem [...] que tem proferido
algumas proposições heréticas e contra a nossa Santa Fé, estando os
dias atrás à botica deste Colégio, pediu ao nosso Ilustre Boticário lhe
desse tinta e papel, o qual dando-lhe sinceramente escrevera a
proposição herética, que a Remeto a Vossas Senhorias escrita no mesmo
papel, pela sua mão, e letra, e assinado com a sua própria firma, o qual
[...] papel me entregou o nosso Ilustríssimo Boticário Manoel Dinis da
Nossa Companhia. Dou esta parte a Vossas Senhorias para lhe aplicarem
o remédio conveniente, que suposto seja o clérigo louco, e fanático, pode

é cronológica e regionalmente específica, podendo representar outros sujeitos a depender do lugar em


que é utilizada. Cf. Schwartz, 2003, p. 36
52 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

contudo inficionar aos néscios e incautos sendo ele um sacerdote. É o


que se me oferece por ora dar parte a vossas Senhorias. Que Deus vos
guarde por muito anos. Colégio do Recife, 19 de Abril de 1749.

De Vossas Reverendíssimas O mais humilde e Reverendo Súdito


José de Lima, Reitor do Colégio [assinatura]

< O papel escrito pela mão do Padre Vicente Ferreira, delato supra, anda
junto aos mais do requerimento. Jansen. > 2

2
Não consegui localizar o bilhete.
10
LIV. 301, 109º CAD., SERRA DOS COCOS,
JOÃO FERREIRA, VELHO, DUVIDA DA PUREZA
DE NOSSA SENHORA

|f. 208r|

João Ferreira, velho: duvida da pureza de Nossa Senhora


Freguesia do Caracú, Nossa Senhora da Conceição
Serra dos Cocos, Bispado de Pernambuco

Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos


quarenta e nove, aos vinte e seis dias do mês de Janeiro do dito ano, em
casas de pousada de mim, Comissário, apareceu o Reverendo Padre
Joam Vieyra de Almeida, Presbítero do hábito de Sam Pedro, morador
na Ipoeyrá, Ribeira do Acaracú, e por ele me foi dito que ele vinha
denunciar perante mim aos Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores
Inquisidores da Santa Inquisição da Cidade e Corte de Lisboa, o seguinte:
que sendo nas [oitavas] do Natal deste mês passado, e costumando dizer
missa na Capela da Ipoeyrá, o dito reverendo Padre; um homem pardo
por [nome Jeronimo] Ferreira de Andrada tirava sempre ao levantar da
hóstia, em voz alta, o Bendito dizendo: “Bendito e Louvado seja o
Santíssimo Sacramento da Eucaristia; fruto do ventre sagrado da
virgem puríssima Santa Maria” 1; e que não podendo ouvir cantar este
louvor, João Ferreira, pai de outro João Ferreira Chaves, casado com uma
filha de José de Araújo Xaves, pediu o dito João Ferreira, o velho, a ele
denunciante que não consentisse que o dito Jeronimo Ferreira de

1
Sem aspas no original.
54 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Andrada cantasse aquele louvor na missa, e perguntando ele Reverendo


denunciante por que não se havia de cantar semelhantes Louvores:
respondera ele denunciado que perturbava ao sacerdote; e ele
respondera que como ele é que dizia a missa, antes gostava muito de
ouvir semelhante música, que é costumável uso nestes sertões, nas
missas entoar semelhante louvor à consagração da missa. E como o
pardo continuou em o outro dia, lhe não dissera nada; mas como o dito
Pardo não continuou os outros dias, lhe perguntara ele por que razão
não cantava; Respondeu que lhe pedira José de Araújo Xaves, Senhor
|f.208v| ou administrador da Capela da Ipoeyra, que não cantasse mais
por fazer a vontade ao velho Pai de seu genro, que depois que ele fosse
para a Serra dos Cocos, então 2 cantaria. E que no mesmo dezembro lhe
mandara pedir o dito João Ferreira que queria comungar pois havia oito
dias que se tinha confessado; ao que ele Reverendo Padre responderia
que lhe não podia dar a comunhão sem reconfissão; e que esta as não
podia fazer por não estar ainda aprovado neste Bispado; e que ele lhe
viera dizer em pessoa que ele podia comungar sem se confessar porque
[de primeira ou]via dos Padres aos Milhares, que os Padres
Comungavam com pecado mortal e que ele não tinha pecado mortal, e
ele denunciante respondera que os Padres, quando se acham com a
consciência manchada, faziam um Ato de Contrição com propósito de
emenda; e de se confessarem tendo cópia do confessor; e que ele não lhe
podia administrar o sacramento da Eucaristia sem primeiro receber a
Confissão; ainda que ele dissesse que estava em graça, e depois de vários
combates se agastara o dito denunciado e se fora.
E também quando foi do Peditório que não cantasse o pardo;
estando o dito Reverendo Padre contando que seu Pai sendo [vivo] em o

2
No original, “antão”.
Amanda Teixeira • 55

Ceará Grande, lhe pedira um homem que casasse com uma sua filha; o
que ele não fez. E sendo [em quinta] feira maior 3 lhe pedira que para
maior firmeza de sua amizade havia de entrar de Guarda no tal dia. E
respondendo que sim, lhe dissera mais se era possível haver mulher no
mundo que parisse e ficasse virgem depois de parir; Respondera o Pai
do dito Reverendo Padre que só a Virgem Santíssima Senhora Nossa; e
ouvindo esta conversa o dito João Ferreira acima denunciado
respondera que os Teólogos tinham muito que argumentar sobre esta
|f. 209r| sobre esta matéria; dando a entender o dito João Ferreira a ele
Reverendo denunciante; e os mais, que sentia o contrário da pureza da
Virgem Santíssima Senhora, Mãe do Verbo divino; ao que a mulher dele
João Ferreira dissera que calasse a boca que fora por obra do Espírito
Santo; e o dito Padre lhe mostrar e [construíra] um Evangelho a dita
mulher; e que ele costuma andar na Igreja de noite pregando contra os
sacerdotes, e mais pessoas; e que para descargo de sua consciência o
vinha delatar perante mim ao Santo Ofício, o que eu comissário logo fiz
dando-lhe Juramento dos Santos Evangelhos, que debaixo dele
prometeu dizer verdade e guardar segredo; e disse que por tudo estava;
assim como [estava] escrito e dito é. E que se obrigava a sustentar isto
mesmo em todo o tempo que lhe for [mandado] pelos Ilustríssimos e
reverendíssimos Senhores Inquisidores [de fiz este] termo que comigo
assinou dia mês e ano ut supra.

João Vieira de Almeida [assinatura]


Frei Miguel da Vitoria, Comissário [assinatura]

3
Ou seja, “Quinta-feira de Endoenças” ou “Quinta-feira Santa”.
56 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Capitão Bernardo Pinto de Queiros, morador nesta Serra dos Cocos,


filho de Amarante, Reino de Portugal, casado, depôs perante mim,
Comissário, que lhe dissera o dito Jeronimo Ferreira de Andrada que
João Ferreira metera o Capitão José de Araujo Xaves por [intercessor]
para que ele não cantasse mais o Bendito na missa em a sua capela, por
onde se fazia suspeito na Nossa Santa Fé Católica. E que o dito
Reverendo Padre João Vieira de Almeida lhe dissera que ele tinha dúvida
na pureza de Maria Santíssima Senhora Nossa o ficar virgem depois do
parto, dizendo que os Teólogos tinham muito que argumentar sobre
este ponto. Sabe ele denunciante que ele João Ferreira é filho de
Portugal, não sabe se da praça de Xaves parente de um clérigo por nome
João Ferreira, digo Domingos Ferreira Xaves, filho da mesma praça do
Xaves.|f. 209v| al não disse, a quem dei o Juramento dos Santos
Evangelhos no Livro deles; e disse, que em tudo estava como dito é e se
obrigava a sustentar seu dito todas as vezes que lhe for reperguntado
por ordem dos Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores inquisidores
da Santa inquisição da Cidade e Corte de Lisboa. De que fiz este Termo
que comigo assinou.
Dia, mês e ano ut supra.

Frei Miguel da Vitoria, Comissário [assinatura]


Bernardo Pinto de Queiroz [assinatura]

Heronimo Ferreira de Andrada, homem pardo, solteiro, natural da


vila de Santo Antonio do Recife de Pernambuco e por ora assistente na
Fazenda da Hipoeyra de José de Araújo Xaves, testemunha jurada aos
[Santos Evangelhos] no livro deles, prometeu dizer verdade do que lhe
fosse perguntado sobre a denúncia; disse que sendo no mês do Natal em
dia de Nossa Senhora da Conceição que se festejava o orago da Capela,
Amanda Teixeira • 57

lhe pediu Joam Ferreira, pai de outro do mesmo nome, que não cantasse
mais “Bendito e Louvado seja o Santíssimo Sacramento da eucaristia
fruto do ventre sagrado da virgem puríssima Santa Maria” e que
continuando ele sempre com esta discussão até as [oitavas] do Natal. O
Administrador da Capela, José de Araújo Xaves lhe pedira a ele
Testemunha não cantasse mais enquanto o dito João Ferreria estivesse
no lugar para lhe dar gosto: e também sabe que o dito João Ferreira
pediu o mesmo ao Reverendo Padre Phelippe Dias, que não consentisse
que na Capela de Sam Gonçalo da Serra dos Cocos, onde o supra tem seu
filho do mesmo nome, mas o dito Reverendo Padre o não admitiu. Razão
por que não quis mais ir ouvir missa à dita Capela e sabe que ele dito
João Ferreira anda sempre a fazer pregações, [e feito] Santo. E como ele
Testemunha não cantou mais, daí a uns tempos lhe mandou três varas
de pano de algodão fino; sem ele Testemunha saber a razão por que o
fez. E os seus mesmos escravos dele publicam que o dito seu senhor é
acostumado a impedir já lá no Siará, donde morava, que se não cantasse
semelhante louvor a Deus; e a sua Santíssima Mãe.
Também sabe pelo ver que entrando |f. 210r| entrando ele
Testemunha pela capela dentro para ouvir Missa; vira estar o Reverendo
Padre João Vieyra em argumento com o dito João Ferreira e ouviu dizer
a mulher do dito que calasse a boca que a Senhora tinha concebido pela
boca, por obra do Espírito Santo; e perguntando ele Testemunha ao
Reverendo o que era aquilo, vendo estar construindo um Evangelho,
respondera o dito Padre que João Ferreira duvidava na pureza da
Senhora dizendo que os Teólogos argumentavam o contrário e al não
disse, e isto mesmo se obriga ele Testemunha a depor a todo o tempo
que lhe for perguntado por ordem dos Ilustríssimos e Reverendíssimos
Senhores Inquisidores. Do que fiz este termo que comigo assinou. no
Bom Jardim da Hypoeyra do Caracú. Dia, mês e ano ut supra.
58 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Frei Miguel da Victoria [assinatura]


Heronimo Ferreira de Andrade [assinatura]

Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores Inquisidores


As testemunhas desta denúncia são pessoas a que se deve dar todo
o crédito e fidedignidade porquanto as conheço há muitos anos e esta
última mora na Ipoeyra e foi necessário tomá-la fora do distrito por não
correr risco a sua pessoa porquanto o dito Capitão Mor José de Araujo
Xavier é homem apotentado 4; e se viesse no [conhecimento] desta
denúncia; poderia facilmente mandá-lo [matar]. O Reverendo Padre
João Vieira mora na Serra dos Cocos. Bernardo Pinto de Queirós está de
partida para Pernambuco com sua mulher. Vossas Ilustríssimas
Reverendíssimas proverão nesta matéria, como forem servidos. Riacho
do Pires do Caracú, em 24 de Fevereiro de 1749.

4
Ou seja, potentado, poderoso, influente e/ou rico.
11
LIV. 301, 109º CAD., SERTÃO DOS
INHAMUNS – CORONEL MANOEL DA SILVA SOARES
E SEU FILHO FRANCISCO, DESACATOS 1

|f.18r| Desacatos. O coronel Manoel da Silva Soares e seu filho Francisco,


Capitania do Ceará Grande

Meu Irmão e Senhor Manoel da Cruz Marques - Sertão do Piauí, 28 de


setembro do ano de [...]

Indo ao Sertão de Jaguaribe achei uma de vossa mercê; me tinha


remetido meu companheiro Balzilio, de Pernambuco, com outra sua,
feita no ano de 48, e de vossa mercê já dei resposta na mesma ocasião
antes de me retirar para este Lugar aonde assisto e ausentar de mulher
e filhas desde o ano de 38, só junto comigo trago o seu sobrinho Antônio
José e é o companheiro com que me acho nos meus trabalhos, e de mais
família vai por dois anos que não tenho notícia que se são mortos ou
vivos pois assim o permitem os longes destes desertos por onde ando,
sem embargo de ter dado resposta à sua, como o fiz de caminho, não
quero deixar de fazer segunda vez nesta com mais atenção para o poder
a vossa mercê melhor descansar aonde o considero mais Inquieto e não
nego o ter [vossa mercê] muita razão em tal cuidado, e muito maior
queixa de mim, pois fui o instrumento desse mal e para que vossa mercê
melhor entenda o que lhe digo é;
Nessa corte tem se visto que a maior parte dos homens de negócio
que quebram poucos tornam a pôr em termos de pagarem o que devem,

1
As margens direitas deste documento encontram-se bastante apagadas, o que impediu a decifração
de algumas palavras.
60 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

nem de tornarem a serem quem foram, o que não sucede neste Brazil
principalmente àqueles que não são negligentes e aceitam com boa
vontade os amorosos castigos que Deus Nosso Senhor é servido dar-lhes
por advertências de suas vidas.
Bem conheço que mereço Deus Nosso Senhor pelas [minhas] muito
pesadas maiores castigos do que este nunca deu nem dará a criatura
nenhuma do mundo [...] a mesma razão que me causa um grande
sentimento de [o não] saber louvar e servi-lo [como devo a] sua divina
piedade com que obra comigo, que ao mesmo tempo me castiga e
[presenteia] para o meu remédio, e assim conheço pelo que digo. A perca
do Campello não era só bastante para me fazer quebrar e fazer fugir da
praça para estes desertos. Foi também não achar em o produto de um
conto e sete centos mil réis que eu tinha deixado na mão de Theodoro
de Simmas pelos preços que me tinham custado em Portugal sem mais
despesa, que nenhum milagre fazia em render para cima de seis mil
cruzados ainda que a vendesse com pressa na casas [...] e do estado da
terra. A saída que me deu por eu estar já em termos de lhe não poder
[tornar milhares] contos foi o ter me casado uma filha contra a vontade
de todos com Joaquim José [...] tinha deixado por caixeiro da mesma
fazenda e nem a menina queriam casar porque não sabiam da minha
vontade mas ele o fez de tal sorte que deu que falar a toda a parte [...]
imediatamente o fez não consentiu mais o dito rapaz em sua casa nem
na venda da fazenda [...] a saída que vi é algum fiados que não sei quando
se cobrarão só o que sei é que ele está em sua casa regalando-se e eu
ando por estes desertos; o dito Joaquim Jozé como na minha chegada a
Pernambuco na ocasião da perdição do Campelo o achei feito meu genro
ou por força [...] vontade me era preciso obrar como Pai para não dar
que falar ao mundo nem mostrar [...] levara em mal aquilo que não tinha
já remédio, mandei-o para a cidade do Rio Grande com receita de sete
Amanda Teixeira • 61

mil e tantos cruzados e para ir mais bem sortido fiz empenho em por
perto de quinhentos mil reis em linhas, chapéus e ferragens, cousas que
não tinha [...] e o embarquei para a tal cidade do Rio Grande com o
ditame de me fazer bom preço [...] |f. 18v| só por preço e o mais lucro ser
para ele por princípio de sua vida, imediatamente Theodoro de Lemos
soube que o rapaz estava no Rio Grande e com fazenda, logo lhe escreveu
uma carta dizendo-lhe que se aproveitasse pois tinha ocasião na mão
pois era o dote com que sairia e o rapaz mais que depressa tomou o seu
conselho e começou a obrar de tal sorte que quando me fui acudir já lhe
não achei coisa em que me satisfizesse, por ficar longe da praça de
Pernambuco mais de sessenta léguas, e como nessa ocasião à vista do
procedimento do tal rapaz [e vendo] não estava bem a minha pessoa
castigar como merecia o dito pois era meu genro, o repreendi de
palavras de que ele fez pouco caso, mas depois reconciliando-se com
alguns amigos e vindo a Paraíba, esteve em casa de Theodoro de Lemos;
tais conselhos lhe [...] ele tomou que até hoje me buscou mais nem a
mulher nem a minha família e assim ainda não sei por donde gastando
não sei por donde digo gastando enquanto lhe durar o dote que tirou
por conselho de Theodoro de Lemos que é o fim a que há de dar aos
conselhos e obras de tal varão e eu com a filha ainda nas minhas costas;
E depois 2 deste Santo varão ter encaminhado as coisas assim desta
sorte estando eu ainda por fora da minha casa na diligência de cobrar
com que poder satisfazer na praça o que estava devendo da fazenda que
tinha tomado para o sorteio do tal rapaz e das caixas que remeti na frota
por minha conta particular, foi o dito varão a Pernambuco de propósito
e buscou meus credores dizendo-lhe que era já fugido e que cuidassem
a pegarem nos meus bens antes que eu os mandasse advertir para o que

2
No original, “ao despois”,
62 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

lhe deu os nomes dos escravos e donde estavam e as caixas de açúcar e


[feixes 3] que estavam no paço que eu tinha tirado de um engenho que
tinha moído por minha conta, a vista do que quando cheguei a minha
casa achei já tudo embargado e logo me citaram por todos os autos
judiciais que foi motivo da minha retirada para estes desertos, e veja
vossa mercê o quanto obriga a Inveja que este santo varão teve da mercê
que Deus Nosso Senhor me fez na ocasião que fui a esta parte arrastado
que os achei a vossa mercê todos tanto ao meu favor que não só vim
também despachado como também aumentado na introdução da
fazenda com o abono de vossa mercê que lhe não sucedeu até com os
seus; indo a Lisboa por duas vezes e este foi sempre o motivo do maior
ódio e maior Inveja que me teve desde então rebuscando sempre num
fingimento de Amigo Zeloso para me eu dele fiar para me suceder o que
tenho dito afora o que não digo por não estar bem à minha pessoa. Obrou
o que deseja[va] e como o disse algumas pessoas do seu seio que era o
verme desbancado do negócio e de crédito para com [vossa mercê] mas
então parece que permite Deus muitas vezes ao diabo liberdade para
poder perseguir a qualquer criatura do mundo mas se esta leva com
paciência o tal [...] Deus Nosso Senhor como misericordioso satisfaz-lhe
esta parte com duplicados bens. E assim venho a dizer que este santo
varão para mim foi o meu diabo perseguidor, mas Deus Nosso Senhor
como pai de piedade alembrou-se de mim na forma que direi; [...] Vista
do que me sucedeu resolvi-me por não ter outro remédio a largar casa
e família e |f.19r| botar-me para estes lugares só com a companhia do
meu filho e depois de me achar com [...] mitado comboio procedido de
algumas dívidas antigas das quais eu já não fazia conta posto no sertão
de Jaguaribe por ser lugar mais próprio para com esse pouco poder com

3
No original, “feiches”.
Amanda Teixeira • 63

a ajuda de Deus restituir-me em breves anos, sucedeu em outubro do


ano de [...] fogo na casa aonde estava com o comboio e pouco dele
escapou que entendo perderia nesse fato para cima de quinhentos mil
réis e o resto que me ficou no ano de 41 subi para estes sertões aonde
assisto, a ver se posso diligenciar a vida de sorte que possa daqui até até
quatro anos com o favor de Deus ter o gosto de que nos vejamos por
então ajustarmos as nossas contas e a dos mais porque estes lugares se
me mostram por alguns meios tão liberais nos seus negócios que eu ache
respeito aí que sentencio o que digo. E ademais se acha perto de mim
abertura de umas minas de prata que pelos vestígios que mostra será
tão só o desempenho de muitos homens que por cá se acham arrastados
das praças se não a maior grandeza do mundo [...] sem dúvida que seja
cá estivessem os fundidores ou esses tivessem vindo junto com o tal
mineiro com os adubios necessários para bem da fundição 4; parecera
que digo mal mas digo que atrevi-me a segurar que se tivesse assim
sucedido que já o Senhores da tal companhia em parte estariam muito
satisfeitos de verem prata e não será como acontece mais pela omissão
que tem havido na remessa dos tais fundidores e mais adubios
necessários a dito tráfico, que da parte do tal mineiro se acha uma
diligência sem [...] de mil homens, permita Deus que chegue isto a
florescer tão breve para [...] dentre nestes anos que cá me demoro
também aproveitar de para com gosto ir a essa corte;
Vossa mercê me diz na sua mandará procuração para Pernambuco
para se cobrarem de mim, eu cá [...] notícia que vossa mercê mandara a
João de Oliveira Govim a quem já escrevi avisando o lugar aonde [...] para

4
Viterbo define “adubio” como “trabalho, cavas, estrumes e todos os amanhos e benfeitorias que são
próprias e necessárias a uma fazenda para andar sempre bem aproveitada [...]. Também se disseram
adubios os consertos e reparos de qualquer edifício: hoje se usa propriamente quando falamos de vinhas
ou campos [...]”. Viterbo, 1865, p. 37.
64 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

poder conseguir a sua diligencia, mas também lhe mandei dizer o estado
em que me [...] que por hora me não achava com mais bens do que os da
minha pessoa e de um filho meu na diligência de procurar remissão para
satisfazer aos meus credores com a quitação e que sem esta nunca
poderei fazer nada, e assim o digo a vossa mercê para que vossa mercê
mande recolher as ditas procurações por não dar mais que falar ao
mundo do que se tem falado. Obrará vossa mercê o que for servido em
tal particular; que eu não careço de esporas de nenhum credor para
tratar do que é por bem da minha alma e aquietação da minha vida, e
que o não ser tão ansioso nessa parte não me sujeitaria a largar casa e
família e andar padecendo o que Deus sabe por estes desertos a perto de
quatro anos, o que vossa mercê não terá experimentada pela mercê de
Deus por respeito do dano [...] que eu causei de que em parte dou algum
alívio a grande pena que me acompanha de ter sido motivo de meus pais
e vossa mercê terem tido destroço e ainda hoje padecerem por minha
causa e sem embargo de que o mundo fale o que vossa mercê me diz
Deus Nosso Senhor é: que verdadeiramente |f.19-v| [sabe] de tudo para
quem apelo, e espero de sua divina providência o meu remédio e
satisfação de [...] no enquanto o não fizer peço tanto a vossa mercê como
a Senhora Francisca Maria como a nossos pais e mais Irmãos e a quem
tocar o dito prejuízo de minha falta pelo amor de Deus me per[doem]
não sendo esta causa motivo de me faltarem com a sua graça com as
suas boas novas e aos pais com a sua benção pois nisso interessa mais o
meu desejo e pessoa do que todos os tesouros do mundo;
A estes sertões adonde habito achei uma fama muito pública e no
geral em que no sertão dos [Unhamuns], distrito da vila dos Icós,
capitania do Ciará Grande há um homem por nome e título Coronel
Manoel da Silva Soares solteiro o qual tem quatro filhos de uma tapuia
com quem está amancebado há muitos anos este, no ano de 1730 dizem
Amanda Teixeira • 65

que [arguira] em que um dos seus filhos chamado Francisco que já hoje
é homem e naquele tempo teria treze anos falava com Nossa Senhora e
com o padre eterno e com o espirito santo e isto dizia publicamente
enfeitado com mais razões da sua maldade convocando a todos os
vizinhos para fazerem procissão cada um com sua cruz bastantemente
em grandura e indo com o dito seu filho invocado já por São Francisco e
uma sua filha já invocada por Santa Bárbara e os mais a esse respeito e
todos em procissão saíam a um campo cantando ladainhas e chegado a
um lugar junto a uma Lagoa mandava o tal filho a todos os da procissão
que apartassem diabos que estavam pelo campo com as mesmas cruzes
até as [quebrarem] e [despois] de acabada a procissão desta sorte dizia
o tal filho a todos os da procissão entre mulheres e homens que a Virgem
Nossa Senhora mandava que todos se despissem nus e se lavassem por
a lagoa e assim havia tal descompostura entre mulheres e homens que
era uma coisa inaudita e assim mandava o tal filho matar galinhas
gordas de qualquer das vizinhas [...] vacas ou carneiros ou outra
qualquer coisa que lhe parecia bem para se comer dizendo ser Nossa
Senhora mandava e outras muitas outras coisas que todas me parece
judiarias e ultrajes em imagens divinas e muitas blasfêmias e muitas
mais coisas que quando o Santo Tribunal da Inquisição queira mandar
tomar conhecimento o achará muito mais avantajado; é fama publica
que o tal homem é cristão novo e Rabino e que ele é que ensinava o tal
filho tudo que havia de fazer e dizer e é o que convocava o povo para tais
procissões e com palavras astuciosas de sua maldade é com que
capacitava o povo para presumir ser aquilo tudo obra boa, e como nestes
desertos tudo é uma mera Ignorância é a razão por [...] de com pouca
diligência obrou o que tenho dito fora o muito mais que não alembra e
durou isto bastante tempo e muito mais duraria se não chegara ao Lugar
um homem de Pernambuco dizem era amigo do tal Manoel da Silva o
66 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

qual lhe dissera que não fizesse o que fazia porque se a Inquisição
tivesse notícia que os havia castigar rigorosamente que foi motivo este
aviso de ninguém mais querer assistir as tais procissões nem ditames
do tal filho e do tal homem do que dou a vossa mercê conta para vossa
mercê de minha parte como familiar da Santa Casa dar conta de tudo
isto a Santo Tribunal para fazer o que for servido; estimo verei a boa
saúde e de vossas mercês todas [...] filho no geral nas recomendações
muito saudosas no amor de vossas mercês todas a quem Deus Guarde
por muitos anos para meu amparo e alívio.

De seu Irmão muito obrigado e Amigo:


Roque Jacinto de Lemos [assinatura]
12
LIV. 301, 109º CAD.,
ACARACU – FRANCISCO BARROS, DESACATOS

|f. 237-r| Francisco de Barros... desacato

Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos


quarenta e nove aos dezoito dias do mês de fevereiro do dito ano, nesta
freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Acaracú, na Matriz e
Ribeira das Jaibaras, apareceu perante mim o Capitão da mesma Ribeira,
Antonio Gomes Bitancour, morador na sua fazenda do Caracatá, pessoa
que reconheço pela própria de que se trata; e por ele me foi dito, e
requerido, que ele vinha denunciar perante mim ao Santo Ofício a
Francisco de Barros, casado nesta freguesia e morador na de Nossa
Senhora do Carmo do Pirarucuca, que sua sogra dele denunciante lhe
dissera que abrira uma bolsa, junto com a mulher de Francisco de
Barros, que ele costumava trazer ao pescoço, e lhe achara dentro da
mesma uma imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado de metal,
sem cruz, e com os braços quebrados; e pelo mais corpo com alguns
golpes de faca; e esta mesma imagem estava dentro da bolsa com a
cabeça para baixo; e assim mais uma imagem de Santo Antonio dentro
da mesma bolsa; sem cabeça, e também, com os pés para cima; e o corpo
para baixo; e um papel, com várias figuras, e pinturas, que por não
saberem ler não entenderam o que queria dizer. Sua sogra se chama
Maria da Silva, e a mulher do dito Francisco de Barros, Antonia de
Araujo, filha natural de José de Araujo [Chaves] |f. 237-v| Chaves.
Também depôs que Dionisio Pereira, morador na mesma Ribeira,
homem pardo, o dava por suspeito na Fé porquanto era pouco temente
a Deus, à Igreja, pois várias vezes se tinha declarado, e nunca tinha
68 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

emenda; e que era notório em toda esta freguesia, o querer-se casar


sendo viva sua primeira mulher, contraindo esponsais, e sendo jurado
para efeito de se receber; mandara a Pernambuco a matar sua mulher,
fazendo-se outra morte em lugar dela por erro. Estando nesta mesma
freguesia jurado com Maria de Barros, moradora no Sítio do Papucú
desta mesma freguesia. E al não disse e assinou comigo seu depoimento
depois de lhe ser lido; e declarado bem e distintamente disse que em
tudo estava conforme ao seu dito e que por tudo estava, e ratificava de
novo, do que fiz este termo, dia, mês e ano ut supra.
Frei Miguel da Victoria. [assinatura]
Antonio Gomes Betancort. [assinatura]
***
13
LIV. 301, 109º CAD., RIBEIRA DAS JAIBARAS –
FRANCISCO DE BARROS, DESACATOS E DIONISIO
PEREIRA, HOMEM PARDO – VIDA ESCANDALOSA.

|f. 237-r] Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores Inquisidores

Esta denúncia que remeto sobre Francisco de Barros, marido de


Antonia do Nascimento, morador por ora na Piracuruca no Piauí,
distrito do Maranhão, mandei notificar à dita sua mulher, moradora na
Ipojuca, em casa de seu pai José de Araújo Chaves, por seu primo José de
Barros, não veio à minha presença, causa por onde não continuei com a
denúncia a vista de que as Ilustríssimas Reverendíssimas ordenarão o
que forem servidos;
No que toca à denúncia de Dionisio Pereira que deu o Capitão
Antonio Gomes Bitancour, me informei do Reverendo Cura Antonio
[Carneiro] de Albuquerque; sem que ele viesse no conhecimento do que
era; disse que o dito era mau homem, pois vivia com várias concubinas;
e que nunca teve emenda, e que era certo o ter-se jurado para casar
nesta freguesia com seu antecessor; e que mandara a Pernambuco a
matar a Primeira mulher, depois de |f.239r| de se ter jurado; mas que
mataram outra por erro, e que escapando a dita mulher; vivia com mais
prevenção; e que o dito Dionisio Pereira era homem de maus costumes;
dando com seu viver escandaloso que falar ao seu próximo à vista do
Referido; mandarão Vossas Ilustríssimas e Reverendíssimas Senhorias
o que lhes parecer. Riacho do Pires em 27 de fevereiro de 1749.
O comissário do Bispado. [assinatura]
Frei Miguel da Victoria. [assinatura]
14
LIV. 301, 109º CAD., CARIRIS NOVOS – FREI EGIDIO,
RELIGIOSO APÓSTATA

|f.231r| Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores Inquisidores

Frei Egidio

Esta denúncia deu uma mulher casada, pessoa muito capaz de se


dar fé e crédito; e enquanto a partícula que ele tirou das [...] do Altar
como foi por confissão da mesma parte, não há mais quem saiba desta
matéria; conquanto ao rapar o Cálix e patena 1; perguntando ao
Reverendo Cura desta freguesia; por este ornamento me respondeu que
o dito Padre morrera em 46, e que se achara o Cálix raspado por dentro;
e mais a patena; estes sertões estão tão cheios destes mandingueiros
que tudo São Patuás, Corporais, uns que furtam das Igrejas e outros que
acham na mão de quem lhes pode dar, com interesses temporais; e
partículas que trazem ou consagradas ou não, pois há sacerdotes que o
fazem 2; como me noticiou o Padre Pedro da Costa, que Frei Egidio de
Santa Paula dera uma a um penitente; e este sacerdote anda hoje
apóstata da Sua Religião há muitos anos feito Secular; e reside no Cariry
Novo deste bispado curando; e fazendo muitas superstições e
adivinhações dando mau exemplo aos |f.231v| aos seculares; e deste e de
outros saem semelhantes cousas; ou fazendo idolatrar aos Homens a

1
A patena é o disco metálico que serve para cobrir o cálice. É sobre ele que se coloca a hóstia durante
a missa.
2
Hóstias consagradas e diversos itens do altar católico frequentemente eram utilizados para a feitura de
patuás. Os patuás eram amuletos muito empregados pelos homens do universo colonial que viveram
no setecentos. Cf. SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade
popular no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p. 210.
Amanda Teixeira • 71

quem dão hóstias; para que cuidem que trazem Consigo o sacramento;
e fiados nessas cousas fazem muitos absurdos e mortes; fiando-se que
trazem consigo o Sacramento e enquanto não houver algum castigo
nestes sertões nunca ficarão emendados porque as secas são umas atrás
outras pela pouca emenda e pouco fruto que neles faz os missionários
apostólicos à vista do que Vossas Ilustríssimas mandarão o que forem
servidos. Riacho do Pires. Em 24 de fevereiro de 1749.
O Comissário do Bispado [assinatura]
Frei Miguel da Victoria [assinatura]
15
LIV. 301, 109º CAD., FAZENDA OLHO D’ÁGUA,
ACARACÚ – FREI JOÃO DE SÃO DIOGO, CARMELITA,
QUEBRA DE SIGILO

|f.212-r| Acaracú
Bispado de Pernambuco
Frei João de São Diogo – sigilo.

Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos


quarenta e nove, aos três dias do mês de dezembro do dito ano, nesta
Matriz da Caiçara, Ribeira do Acaracú, Capitania do Ceará Grande do
Bispado de Pernambuco, apareceu perante mim, Comissário, o
Reverendo Padre Antonio dos Santos da [Oliveira], Presbítero do hábito
de São Pedro, morador na sua fazenda do Olho da Água deste Acaracú, e
por ele me foi dito que ele denunciava perante mim aos Ilustríssimos e
Reverendíssimos Senhores inquisidores da Santa inquisição da Cidade e
Corte de Lisboa que sendo no ano de mil sete centos quarenta e sete, na
Fazenda da Boa Vista que dista desta Matriz cinco léguas e meia, pouco
mais, ou menos, onde ele foi por acaso; e no mesmo lugar estava o Padre
Frei João de São Diogo, Religioso Carmelita da Reforma do Recife de
Pernambuco, e conversando sobre o procedimento de uma mulher
casada, por nome Domingas, comadre do Reverendo denunciante,
casada com Luis de Almeida, moradores no mesmo Olho da Água, a
quem o denunciado tinha ouvido de confissão; dissera o dito denunciado
que ela tinha tido tantos atos carnais com a dita mulher (sic), um rapaz
Pedro da Costa, solteiro, primo de José de Araújo, morador na fazenda
da Tapera de Baixo do mesmo Acaracú. E a razão do seu depoimento é
<219> |f.212-v| o começar a falar o dito padre com o denunciante sobre
Amanda Teixeira • 73

dizer o marido que esta mulher andava com o dito rapaz, e ele dizer, que
tinha tido tantos atos com ela, pois a tinha confessado; e tornando em
si; acudiu dizendo o Reverendo denunciante que todos eram
confessores, dando a entender que lhe guardasse segredo. Mas lendo-se
nesta Matriz do Acaracú quinta-feira de Endoenças o Edital do Santo
Ofício que o Comissário tinha mandado publicar por ser o Dia de mais
concurso nesta Matriz e ouvira dizer que tinham obrigação de delatar
os cúmplices sobre o sigilo; obrigado de não correr em censuras,
manifesta e delata o que ouviu dizer ao dito Padre, pois sabe tinha
confessado a dita penitente e dar o número certo das culpas que ela
tinha cometido com o dito Pedro da Costa, primo de outro José de
Araujo; solteiro. E al não disse e assinou comigo, comissário, seu
depoimento depois de lhe dar o Juramento dos Santos Evangelhos e lhe
ser lido e declarado. Dia mês e ano ut supra.
O Padre Antonio da Silveira, digo dos Sanctos da Silveira [assinatura]
Frei Miguel da Victoria. [assinatura]

|f.213-r| Frei João de são Diogo – sigilo

O Tenente José de Araújo da Costa, morador na fazenda da Tapera,


distrito desta Ribeira do Acaracú, testemunha jurada dos Santos
Evangelhos, que lhe foi dado e prometeu dizer verdade do que soubesse,
e lhe fosse perguntado; e do costume disse nada.
E perguntado ele testemunha pelo conteúdo na denúncia disse que
várias vezes lhe certificara o Padre Frei João de São Diogo, religioso
Carmelita da Reforma, falando-se sobre seu primo o andar com a dita
mulher casada concubinado, dissera o dito Padre que era certo o
andarem mal encaminhados: e que também reparara, em uma ocasião,
no mesmo lugar da Boa Vista; o virem se confessar por desobriga da
74 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

quaresma a dita Domingas com seu marido; reparara ele testemunha


que o dito Padre dera somente a comunhão ao marido da dita; e estando
ambos na mesa da comunhão, a não dera à dita sua mulher, e acabando
da missa, dissera ele testemunha ao dito padre por que razão não dera
a comunhão à mulher, estando presente seu marido; pois causava
escândalo, e o marido a poderia matar, vendo sua companheira não
receber com ele o Santíssimo Sacramento; ao que respondera o dito
Padre, enfadado, que ele bem sabia a causa por onde lhe negava a dita
comunhão; e al não disse |f.213-v| al não disse, e assinou comigo,
comissário, seu depoimento, o qual lhe foi lido, clara e distintamente,
que ele muito bem entendeu, e respondeu que em tudo e por tudo estava
e se tornava a certificar de novo como tinha dito. Em o Acaracú Mirim,
aos vinte dias do mês de dezembro de mil setecentos quarenta e nove
anos.

José de Araújo Costa [assinatura]


Frei Miguel da Victoria. [assinatura]

|f.214-r| Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores Inquisidores


Indo a indagar a verdade do caso, não achei mais testemunhas que
jurassem sobre ela. A vista do que os senhores mandarão o que forem
servidos. Acaracú, 6 de Janeiro de 1750.
O Comissário do Bispado de Pernambuco Frei Miguel da Victoria.
16
LIV. 301, 109º CAD., SERRA DOS COCOS – MIGUEL
DIAS CABRAL, ERMITÃO DA CAPELA DE
SÃO GONÇALO, DESACATO + SÍTIO DO CASCAVEL –
THEREZA DA CRUZ, MULHER DE MANOEL
QUADROS, DESACATO

|f.234-r| Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Acaracú


Miguel Dias Cabral – cristão-novo – desacato
Theresa da Cruz – desacato
Capitania do Siará Grande
do Bispado de Pernambuco

Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil sete centos


quarenta e nove, aos sete dias do mês de janeiro do dito ano na fazenda
do Cangati da freguesia do Acaracú onde eu Comissário vim, aí apareceu
perante mim o Tenente Sebastião Rios Madeira, natural da Provincia de
Trás os Montes, freguesia de Santo André de Cezelle, Termo da Vila de
Monte Alegre, comarca de Xaves, e Arcebispado de Braga, morador nas
suas terras do Ipu Grande da mesma freguesia do Acaracú; e por ele foi
dito que ele ouvira publicamente falar que Miguel Dias Cabral¸ natural
da Ilha de São Miguel, Ermitão da Capela de São Gonçalo da Serra dos
Cocos do mesmo Acaracú, e morador no seu sítio de São Matheus, que
ele trazia um crucifixo debaixo do coxim da sua sela em que montava e
isto ouviu praticar publicamente na fazenda de Santa Anna.
E também sabe por lhe contar sua filha Ana Dias, casada com João
Alvares, que a mulher de Cosmo dos Santos moradora no sítio do
Cascavel, lhe dissera que a mulher de Bernardino Dourado, morador que
foi no sitio do fra |f.234v| No sitio do frade se lhe achara um santo Cristo
76 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

a cozinhar em uma panela que a mulher de Manoel Coadros lho tinha


contado a ela que fora visto por um colomim que vinha do campo e fora
tirar carne da panela para comer, e dera com a Imagem a cozer; e que o
dito colomim o [...] logo, a qual mulher de Cosmo dos Santos se chama
Thereza da Cruz 1. E perguntando ele denunciante à dita mulher se
atrevia a sustentar o que dizia responder ela que sim. E al não disse. De
que fiz este termo que comigo assinou-se depois de se lhe ser lido e
declarado inteligivelmente. Dia, mês e ano ut supra.
Sebastião Rios Madeira [...] [Assinatura]
Frei Miguel da Victoria. [Assinatura]

Francisco Cardozo Pereira, natural de Pernambuco, da freguesia de


Santo Antonio do Cabo, Testemunha jurada aos Santos Evangelhos, de
idade de sessenta e sete anos, morador no sítio chamado Ipu Pequeno
do Acaraú, e perguntando ele Testemunha sobre o conteúdo na
denúncia de Miguel Dias Cabral, seu vizinho há muitos anos, disse
|f.235r| que sabia por lho dizer seu sobrinho, o Reverendo Padre Pedro
da Costa, que indo um dia convidado à casa do dito Miguel Dias a dizer-
lhe missa em seu altar, reparara logo no modo com que o dito pendurou
o Santo Crucifixo com uma corda de sedenho 2 atado pelos peitos, sem
ser necessário assim porquanto não estava quebrado, e bastava que o
dependurasse pela cabeça ou argola da cruz; e que como Cristão Velho,
logo ficou reparando naquela ação tão estranha. E que ouvira dizer à
gente miúda que o dito trazia uma hóstia debaixo do Coxim da sua sela

1
Segundo Antonio Moraes Silva, “no Brasil chamam ao índio que serve, com este nome, rapaz V.
Abunhado (na Língua Geral do Brasil, Curumim)” Cf. Bluteau, 1728, p. 415. Abunhado, por sua vez, é
“aquele que, nascendo nas terras de qualquer senhorio, tem obrigação de ajudar a sua cultura [...], são
castigados como desertores se abandonam a Aldeia em que nasceram [...]. Abunhado é o mesmo que
Curumbim” (Silva, 1789, p. 4).
2
No original, “cedanho”.
Amanda Teixeira • 77

e sabe que o dito é muito ladino e faz umas penitências públicas e


orações muito extensas em sua casa, motivo por onde causa a maior
suspeita, por ser homem sem caridade alguma. E al não disse. E assinou
comigo depois de lhe ser lido e declarado bem e distintamente do que
fiz este termo. Dia mês e ano ut supra.
Frei Miguel da Victoria [assinatura]
Francisco Cardoso Pereira [assinatura]

Jose Nicacio, homem pardo casado, morador na Fazenda de Santa Anna


no Acaracú, Testemunha jurada aos Santos Evangelhos, natural da
freguesia do Maranguape, junto à Cidade de Olinda. E perguntado ele
Testemunha sobre o conteúdo na denúncia de Miguel Dias |f. 235-v|
Miguel Dias, disse que sabe pelo ouvir dizer a mulher de Anacleto Roiz,
por nome Maria Soares, falando publicamente, que lhe dissera seu
compadre Francisco de Barros que consertando uma sela ao dito Miguel
Dias lhe achara uma imagem de Cristo Senhor Nosso debaixo do coxim
da sua sela; isto foi diante dele Testemunha e do marido dela, o qual
assiste há dois anos na Piracuruca, distrito do Maranhão, freguesia de
Nossa Senhora do Carmo. E além não disse. E por não saber ler, assinei
a rogo dele Testemunha nesta fazenda do Jatobá, aos nove de fevereiro
de mil, setecentos quarenta e nove.
Frei Miguel da Victoria. [assinatura]
A rogo Anacletto Joze Nicacio.

João Alves Santos, casado, natural de Braga, morador no Ipu


Grande do Acaracú, a quem dei o Juramento dos Santos Evangelhos,
disse que ouvira publicamente dizer que o denunciado Miguel Dias
Cabral era Judeu, mas que não sabe a razão por que lho chamavam. E
também que sua mulher, Ana Dias, lhe dissera que a mulher de
78 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Bernardinho Dourado trazia um crucifixo no refego da saia. E sabe que


ela é natural da Cidade da Paraíba e além não disse. E assinou comigo,
Comissário, aos dez de Fevereiro de mil setecentos quarenta e nove
anos.
Frei Miguel da Victoria [assinatura]
João Alves Santos [assinatura]

|f. 236-r| Francisco Vidal de Negreiros, solteiro, morador na fazenda de


Santa Ana no Caracú, natural da Cidade da Cidade da Parayba,
Testemunha jurada aos Santos Evangelhos, disse que ouvira
publicamente falar que Miguel Dias Cabral era Judeu, porquanto fazia
publicamente umas [...] que causavam suspeita a todos; e que ouvira
dizer que desmanchando uma sela que foi dele, Miguel Dias, lhe achara
um crucifixo debaixo do coxim da sela; e que indo isto a notícia do dito
Miguel Dias, dissera ele que seus enteados é que lhe tinham feito isso. E
além não disse. E assinou comigo seu depoimento aos dez de fevereiro
de mil setembro centos quarenta e nove.
Frei Miguel da Victoria [assinatura]
Francisco Vidal de Negreiros [assinatura]

Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores Inquisidores.

Remeto a Vossas Ilustríssimas Reverendíssimas Senhorias a


denúncia supra e não procedi a mais testemunhas porquanto mandando
notificar por via do Juiz ordinário desta Ribeira do Caracú, o Tenente
Manoel de Quadros, para que trouxesse sua mulher, à minha
presença, em pouca distância, não quis fazer esta Testemunha uma [de
vista] por saber que ao rapaz que lhe deram o sumiço vira a Imagem de
|f.236v| Imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo a cozinhar na panela,
Amanda Teixeira • 79

como consta do dito do mesmo denunciante, a mulher do dito Manoel


de Quadros se chama Jacinta Pereira, moradores na Fazenda da Vitória,
Riacho do Macaco desta freguesia do Acaracú. À vista do que Vossas
Ilustríssimas e Reverendíssimas Senhorias mandarão o que forem
servidos. Riacho do Pires, em 27 de fevereiro de 1749.

o Comissário do Bispado
Frei Miguel da Victoria. [assinatura]

|237-r| Francisco de Barros, casado


morador na Piracuruca
Bispado do Maranhão
Francisco de Barros... desacato

Ano do Nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo de mil


setecentos quarenta e nove, aos dezoito dias do mês de fevereiro do dito
ano nesta freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Acaracú, na
Matriz e Ribeira das Jahibaras, apareceu perante mim o Capitão da
mesma Ribeira, Antonio Gomes Bitancor, morador na sua fazenda do
Caracatá, pessoa que reconheço pela própria de que se trata, e por ele
me foi dito, e requirido que ele vinha denunciar perante mim ao Santo
Ofício de Francisco de Barros, casado nesta freguesia, e morador na de
Nossa Senhora do Carmo de Piracuruca, que sua sogra, dele
denunciante, lhe dissera que abrira uma bolsa, junto com a mulher de
Francisco de Barros, que ele costumava trazer ao pescoço, e lhe achara
dentro da mesma uma imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado
de metal, sem cruz, e com os braços quebrados; e pelo mais corpo com
alguns golpes de faca; e esta mesma Imagem estava dentro da bolsa com
a cabeça para baixo. E assim, mais uma imagem de Santo Antonio dentro
80 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

da mesma bolsa, sem cabeça e também com os pés para cima; e o corpo
para baixo, e um papel, com várias figuras e pinturas, que por não
saberem ler, não entenderam o que queria dizer. Sua sogra se chama
Maria da Silva, e a mulher do dito Francisco de Barros, Antonia de
Araújo, filha natural de José de Araújo Chaves.
|f. 237-v| Dionisio Pereira Chaves.
Também depôs que Dionisio Pereira, morador na mesma Ribeira,
homem pardo, o dava por suspeito na Fé porquanto era pouco temente
a Deus, à Igreja, pois várias vezes se tinha declarado e nunca tinha
emenda; e que era notório em toda esta freguesia, o querer se casar
sendo viva sua primeira mulher, contraindo esponsais e sendo jurado
para efeito, de se receber, mandara a Pernambuco matar sua mulher,
fazendo-se outra morte em lugar dela por erro. Estando nesta mesma
freguesia jurado com Maria de Barros, moradora no Sítio do Papucú
desta mesma freguesia. E além não disse, e assinou comigo seu
depoimento depois de lhe ser lido; e o declarado bem e distintamente,
disse que em tudo estava conforme ao seu dito e que por tudo estava e
ratificava de novo. De que fiz este termo, dia, mês e ano ut supra.
Frei Miguel da Victoria. [assinatura]
Antonio Gomez Betancort. [assinatura]
17
LIV. 301, 109º CAD., RIBEIRA DO RIACHO DOS
PORCOS, CARIRI – PADRE ALEXANDRE DA COSTA
GUEDES, MORADOR NAS TERRAS DA CAPELA DE
NOSSA SENHORA DOS MILAGRES, VENDEU UMA
PARTÍCULA CONSAGRADA

[fl. 372-r] Muito Ilustres Senhores

Da carta, e mais denunciações inclusas, que vieram a este Tribunal,


pela frota do Rio de Janeiro, remetidas da Missão de Miranda pelo
Comissário do Santo Ofício, Frei Miguel da Victoria, com data de
Dezembro de 1747, consta que o Pe. Agostinho Alexandre da Costa
Guedes, que se diz ser cristão-novo pelo pai, segundo marido da mãe,
Presbítero do hábito de São Pedro, natural de Pernambuco, das partes
do Cabo, assistente que foi por missionário no Rio do Peixe na Aldeia do
Icozinho, e morador nas terras da Capella de Nossa Senhora dos
Milagres, na Ribeira do lugar do Riacho dos Porcos, distrito do Cariry,
freguesia de Nossa Senhora da Expectação da vila do Icó, nos sertões do
Brasil, Bispado de Pernambuco, com execrando atrevimento
Vendera por cinquenta mil reis uma partícula consagrada a
Teodósio Nogueira, já falecido, que a trazia debaixo da sola do pé para
que tudo lhe obedecesse 1; E outra por vinte mil réis, a Thereza Marques,
mulher meretriz, moradora na mesma freguesia, donde se ausentou
para as Minas do ouro;

1
Provavelmente se trata do mesmo Teodósio Nogueira definido em alguns documentos como “cabra” ou
mulato, partidário da família Monte e constante na Plataforma SILB como possuidor de sesmarias nas ribeiras
do Jaguaribe desde 1706: [Link] e [Link]
br/sesmaria/CE%200445. Também há registro sobre ele no Requerimento de João Gonçalves da Silva ao rei
D. João V a pedir que lhe seja restituído um escravo que fugiu e se refugiou na casa de Teodósio Nogueira,
nos Cariris Novos, anterior a 24 de maio de 1734. Cf. Arquivo Histórico Ultramarino, Avulsos, Ceará, caixa 2,
documento 109. Disponível em: Acesso em 31 de janeiro de 2022.
82 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

E que também vendera um sanguinho 2 à mãe de uma Teodósia da


Costa para seu filho Manoel de Caldas, e outro para Felipe dos Santos,
seu camarada;
E que remendara 3 uma hóstia furada, pegando-lhe com cuspe um
pedaço de outra, e com ela fora dizer Missa na Igreja de Nossa Senhora dos
Milagres. E que recebera uns contraentes saindo-lhe impedimento. E que
o mesmo delato fora o capataz do roubo das Imagens de Nossa Senhora do
Rosário, menino Jesus, e de São Benedicto, que se cometeu ao amanhecer
do dia 3 de Janeiro de 1747, levando-as da sua capela, onde foram
restituídas maloratadas 4 oito dias depois; delito de que o delato se livrou
pela grande amizade que tem com o vigário da vara daquele distrito, cura
da dita vila do Icó <chamado João Saraiva de Araújo>, que tirou a devassa,
e porque para que esta se atabafasse 5 subornou com mimos o vigário Geral
de Pernambuco, e fez outras despesas, prometendo 2000 reis para a
mesma capela aos pretos, senhores dela, para que eles se fizessem autores
do furto, acrescendo a tudo isto o ser o delato turbulento, e mal procedido,
pois traz armas proibidas consigo; e anda publicamente amancebado com
uma sua comadre, de quem tem filhos. E porque as culpas |fl. 372-v| do
delato, sendo certas, são de tão extraordinário excesso que parece
excedem toda a maldade humana, e será muito conveniente se examinem
para que não fiquem sem o gravíssimo castigo, que merecem.
Requeiro a vossas mercês mandem passar as ordens necessárias
para que se façam judiciais as denunciações inclusas, e se preguntem

2
Os sanguinhos são panos brancos de pequenas dimensões, utilizados para a purificação dos vasos
utilizados nas celebrações e, em caso de necessidade, para enxugar os lábios dos celebrantes. Eram
amplamente utilizados na feitura de patuás.
3
No original, “romendara”
4
Ou seja, “maltratadas”.
5
Atabafar, segundo Raphael Bluteau, designaria o ato de “abafar com um pano ou outra coisa
semelhante [...]. Metaforicamente, impedir que se divulgue alguma coisa, fazer com que se não fale
nela”. Cf. Bluteau, 1712-1728, p. 621.
Amanda Teixeira • 83

também judicialmente as testemunhas referidas pelos mesmos


denunciantes, escolhendo-se para esta diligência um comissário capaz
de a desempenhar sem que o cura e vigário da vara da vila do Icó o
perceba, por ser muito amigo do delato, e a quem se possa fiar a ordem
de o prender no caso que alcance a certeza de que ele pretende fugir,
como intentou quando se tirava a devassa pelo Eclesiástico <a qual se
deve pedir>, e o que resultar se me dê vista para requerer o que for a
bem da Justiça.
E presentado em Mesa o requerimento acima do Promotor para os
Senhores Inquisidores lhe haverem de deferir de seu mandado lho fiz
concluso. Alexandre de Henrique Arnaut o escrevi.
[...] [rubrica]
Façam-se judiciais as denúncias inclusas na forma que requer o
Promotor desta Inquisição, para o que |fl. 373r| se passem as ordens
necessárias, e do que resultar se lhe dê vista. Lisboa, em Mesa, 27 de
junho de 1748.

Simão José Silvério Lobo [assinatura]


Luiz Barata de Lima [assinatura]
Manoel Varejão Távora [assinatura]

|fl. 373-v| <Foi comissão>


|fl. 374-r| Nomes e habitações das pessoas denunciantes contra o Padre
Alexandre da Costa Guedes, conteúdo no requerimento retro.

5. Ignacio de Carvalho Lima, morador na fazenda do Caysara.


4. José da Maya de Faria, aliás Rocha, homem casado, morador na
fazenda dos Macacos.
Thomaz Martins Pereira, morador no Brejo de Santa Anna do Cariry Novo.
84 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

1. O Padre Agostinho Dias Teives, Presbítero, Capelão de Nossa Senhora


do Rosário do lugar do Riacho dos Porcos
6. Antônio Moreira dos Santos, morador no Livramento
2. O Capitão Júlio da Costa Barros, casado, morador na Gameleira
3. Antônio dos Santos Ramos, que trata em gado, solteiro, morador no
sítio da Caiçara.

Testemunhas referidas pelos ditos depoentes

Francisco Pinto da Cruz, capitão mor, morador na fazenda do olho de


água nas Tabocas.
O sargento mor João Leite, nos Cariris de fora
Caetano Ferreira de Abreu, casado, morador em Nossa Senhora do
Rosário, no Livramento
Pedro [Fernandez] Delgado, casado, morador em Nossa Senhora do
Rosário, no Poço Comprido.
Joanna da Silva, mulher do Capitão Mathias de Lima Taveira, moradora
no Engenho das Tabocas
Antonio dos Ramos solteiro morador no Brejo de Deus Gz [Gomes] Lima.
O Padre Francisco Xavier da Silva, morador na Soledade, termo da
Boavista, em Pernambuco
Antônio Nunes, oficial, morador em Nossa Senhora do Rosário
Maria de Souza, viúva
Antônio Pinheiro de Magalhães, alferes, casado, morador no Engenho
do Pilar
Mathias de Lima Taveira capitão, casado com a dita Joana da Silva,
morador no Engenho das Tabacas
Francisco de Lemos, Capitão, viúvo, morador no Livramento
Alexandre [Rodrigues] de Figueiredo; morador na Gameleira
Amanda Teixeira • 85

Estevão [Azevedo] Marinho, ferreiro, solteiro, morador na capela dos


Milagres
Manoel Dias, ferreiro, solteiro, morador na capela dos Milagres
João Pereira, casado, morador no Caiçara.
Leandro [Fernandez]; solteiro, morador no Caiçara
Bento Denis, capitão, casado na Missão Velha
Miguel dos Santos, tenente, casado na Missão Velha
Antônio Dias, sargento mor, solteiro na Missão Velha
Domingos Alvares de Mattos, capitão mor, casado na Missão Nova
Miguel [Rodriguez], viúvo na Missão Nova.
Estevão Correa, casado na Missão nova
<385>
|fl 374v| Francisco Gomes, capitão, casado, na Missão nova
Guergório (sic) Dias, alferes, casado, na Missão nova
João Mendes Lobato, coronel, solteiro, na Missão nova
José de Sá, solteiro, na Missão Nova
Antônio de Mattos, solteiro, na Missão nova
[Antonio] Godinho, casado, na Missão nova
José da Silva do [Canto], tenente coronel, casado em Santa Anna
Damião de Souza, preto forro, casado
Antônio Guedes, preto forro
Manoel de Sampaio, preto forro, todos três moradores no sítio do
Livramento

[fl. 375-r] Muito Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores Inquisidores

Nestes sertões de Pernambuco onde me acho com ocupações da


minha Província de Lisboa para o Convento da Vila de [Arouca], tem
acontecido vários casos pertencentes ao Santo Ofício, os quais por
86 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

denúncias remeto a Vossas [Ilustríssimas] para porem o remédio que


mais convir ao Serviço de Deus Nosso Senhor.
Nem aprocheguei 6 [adiante] pelo meu regimento me não permitir.
E só sim perguntei sobre as denúncias a depoimento de alguma
testemunha só a fim de confirmar, e me informar da verdade em
matérias de tanta importância; os denunciados são pessoas tementes a
Deus, e o denunciado, o Padre Alexandre da Costa Guedes, é suspeito
revoltoso e supondo fará viagem, com a desconfiança com que anda,
ainda que me dizem que tem subornado o Cura da Villa de Icó com
mimos, e este lhe segura, que se o Excelentíssimo Bispo deste Bispado o
mandar prender, que primeiro o há de saber, por ser vigário da Villa, ou
da vara da mesma, para o avisar e se por fora do Bispado.
Nestes sertões estão sempre acontecendo vários casos por falta dos
Éditos do Santo Ofício e como são sertões remontados, tudo se disfarça
pelos inconvenientes do recurso. Porquanto os visitadores não põem
Editais; e quando sucede é em algum rodeiro 7 de carro pelas Igrejas
estarem e em distância mais considerável. Só vão atrás de suas
convenças 8 de concubinatos. Donde lhe provem as condenações; e não
em matérias do Santo Ofício, que por eles é tempo baldado; sem lucro
algum; ex ofício de seu caráter. Em novos os Curas d’alma, pois, só
tratam de negócios e [poyoar] 9 fazendas, sem atender ao serviço de
Deus, antepondo o temporal ao Espiritual.
Também me consta que o comissário Felippe Campello deu
incumbência de uma diligência do Tribunal para este sertão de

6
No original, “pro ceguei”
7
Segundo Viterbo, “Rodeira” significa “caminho por onde vão carros”. Cf. Viterbo, 1865, p. 195.
8
Convença, de acordo com Viterbo, convença ou convenção é “ação que se põe ou pode pôr em juízo.
Vem do latim convenire, trazer alguém perante o juiz”. Cf. Viterbo, 1865, p. 214.
9
Segundo Viterbo, “poyar” significa “subir, trepar, fazer poyo, ou escalão de alguma cousa para tomar
um posto ou ou lugar mais eminente [...]” Cf. Viterbo, 1865, p. 158.
Amanda Teixeira • 87

Jaguaribe ao Padre Manoel Felix, morador no Bispado de Pernambuco,


e este, por se vingar do Pe. Agostinho de Couto, que morava na Ribeira
dos Quixelôs, o notificou com a voz do Santo Ofício e o levou mais de
cem léguas pelos sertões |fl. 375-v| Inhamuns acima, e cuidando o dito
Padre que seria para o levar em alguma diligência, o trouxe outra vez
até sua casa, sem ocupar em cousa alguma. Dizendo que como não viera
confessar a [vila] quando ele o mandou chamar e que por isso lhe dava
aquele traquejo, donde se originou uma má fama ao dito Padre de que
vai amoral; e se não perecera com a vida, iria em pessoa [queixar-se] a
Vossas Ilustríssimas; isto me certificou o Cura da Villa do [Icó].
Teodósio Nogueira, a quem o Padre Alexandre da Costa Guedes deu
uma Partícula consagrada, segundo diz a denúncia, é já falecido.
O Missionário desta Missão do Miranda, Frei Carlos Maria de
Ferrara, Capuchinho, me disse que uma rapariga de sua Aldeia criada
em casa de brancos lhe dissera que ela tinha dado culto ao Demônio
adorando por Deus, e que a ela lhe tinham ensinado sua Mestra e várias
pessoas que entravam neste culto, e duas já se tinham ausentado, e
outras que existiam, e que ele as absolvera fazendo-lhe as diligências
necessárias, e disto dera parte a Sua Excelência e ele mandara uma
portaria para prosseguir a denúncia, mas que como a dita portaria lhe
não deva autoridade para notificar testemunhas e a gente destes sertões
é um tanto falta de fé, se não metera em tal matéria, porquanto lhe não
haviam de obedecer. E eu a não remeto nesta ocasião; porquanto a dita
Índia se acha por hora fora; e como eu estou demorado pela muita seca
neste lugar até chover, e como os mais sertões dos bispados de Merela 10
estão contagiosos, pretendo andar nos deste Bispado estes quatro anos,

10
É possível que se trate de uma epidemia de malária.
88 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Deus querendo, e não me furtarei a Serviço do Santo Ofício por todas as


vezes que por Vossas Ilustríssimas me for ordenado.
Como o portador vai a Pernambuco com muita pressa, remeto
somente estas, e farei que uma outra na mesma frota desta, remetidas
ao Comissário Antônio Alvares Guerra, para as enviar a Vossas
Ilustríssimas, que mandarão o que foram servidos. Missão do Miranda
em 4 de dezembro de |fl. 376-r| de 1747 anos.
o Comissário Frei Miguel Da Victoria [assinatura]

[fl. 377-r] Padre Alexandre da Costa Guedes - vendeu uma partícula


consagrada

Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos


quarenta e sete ao primeiro dia do mês de outubro do dito ano nesta
Capella de Nossa Senhora do Rosário em minha presença depôs Ignacio
de Carvalho Lima, morador na fazenda da Caysara, em como lhe dissera
o Capitão José de Maya de Faria, morador na Fazenda dos Macacos,
distrito do Cariry novo, em como o Reverendo Padre Alexandre da Costa
Guedes lhe tinha vendido ao defunto Teodósio Nogueira uma partícula
consagrada por cinquenta mil Réis em dinheiro, a qual trazia na própria
carne do pé para que tudo lhe obedecesse; a qual lhe tinha dado no Rio
do Peixe o dito Padre, e que pregando, o Reverendo Missionário Gabriel
de Malagrida 11, da Companha de Jesus, publicara que havia sacerdotes

11
Gabriel de Malagrida foi um jesuíta italiano que atuou como missionário principalmente no Maranhão,
e no Pará, tendo percorrido Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará durante alguns anos. No
contexto de desgaste entre a coroa e a Companhia de Jesus, Malagrida foi acusado de ser um dos
mentores intelectuais do atentado contra o rei Dom José I. Processado pelo Tribunal do Santo Ofício e
considerado autor de “heresia, inventor de novos erros heréticos, convicto, ficto, falso, confitente,
revogante, pertinaz e profitente”, foi preso em 1758. Sua sentença, proferida em 1759, consistiu em
“excomunhão maior, deposto e degredado de suas ordens, relaxado à justiça secular com mordaça e
carocha com rótulo de heresiarca”. O missionário foi garroteado e queimado em praça pública em 1761.
Amanda Teixeira • 89

que davam partículas consagradas a seculares, e que ele não podia


publicar dos delinquentes por ser sub sigilo. E al não disse. A quem dei o
juramento dos Santos Evangelhos e prometeu sustentar seu
depoimento a todo o tempo que lhe for preguntado dia mês e ano ut
supra, que comigo assigno.
Frei Miguel da Victoria Comissário [assinatura]
Ignacio de Carvalho Lima [assinatura]

|fl. 378-r| Alexandre da Costa Guedes

Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil sete centos


quarenta e sete neste Brejo da Salamanca, onde eu Comissário vim,
distrito do Cariris Novo da Freguesia de Icó do Bispado de Pernambuco,
aí dei o Juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs sua mão direita
o Capitão José da Maya do Faria, aliás, Rocha, homem casado, e de sã
consciência, morador na dita fazenda dos Macacos, conteúdo na
denúncia, disse que estando na Igreja de Santo Antônio do Piancó do
Bispado de Pernambuco, estando em Missão o Reverendo Padre
Missionário Grabriel de Malagrite (sic) lhe ouvira dizer do Púlpito que
havia sacerdotes que davam partículas consagradas a Homens seculares
para as trazerem consigo; e que [...] ele Testemunha este caso, diante de
várias pessoas na mesma Igreja lhe disseram que quem a tinha dado era
o Reverendo Padre Alexandre da Costa Guedes, e ao mesmo tempo
dissera um homem do mesmo Rio do Peixe que ele já trazia isso de raça,
que sendo três irmãos, dois deles eram puros e ele, Cristão Novo, pela
mãe ser casada segunda vez, e que também ouvira dizer publicamente
neste Cariry que o dito Padre tinha vendido um sanguinho à mãe de
Theodózia da Costa para seu filho, Manoel de Caldas, e outro para um
seu camarada Phelippe dos Santos, morador no Icó, o qual declarou que
90 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

o dito Reverendo Padre tinha assistido primeiro o missionário no Rio do


Peixe na Aldeia do Icozinho e dela se passou para o Riacho dos Porcos, e
que ouvira dizer que o dito Teodósio Nogueira que trazia a partícula
falecera; e sendo em Missão do Reverendo Padre Malagrite se
confessara e ficara vivendo mais temente do que até [ali] e que o dito
Padre Alexandre era natural de Pernambuco das partes do Cabo. E al não
disse; e assignou comigo, comissário, dia mês e ano ut supra.
Frei Miguel Da Victoria Comissário [assinatura]
José da Maya Rocha [assinatura]

<389>
|fl. 379-r| Depois do dito dar seu depoimento declarou mais que ouvira
dizer publicamente que o dito Reverendo Padre Alexandre da Costa
Guedes fora o Capataz e cabeça do roubo das Imagens de Nossa Senhora
do Rosário e São Benedito do Riacho dos Porcos e que era Sacerdote que
vivia escandalosamente amancebado com uma sua comadre, e que tinha
três filhos dela; e que se o sabia publicamente, em particular, o
Reverendo Cura do Icó João Saraiva de Araújo, não se lhe dá de ninguém.
E al não disse e assinou comigo no mesmo dia mês e ano atras declarado.
Frei Miguel Da Victoria Comissário [assinatura]
José da Maya Rocha [assinatura]

[fl.380-r] Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil


setecentos quarenta e sete anos, aos sete dias do mês de outubro do dito
ano, em casas de morada de Thomas Martins Pereyra onde eu,
comissário, vim, morador no Brejo de Santa Anna do Cariry novo da vila
do Icó, Bispado de Pernambuco, a quem dei o juramento dos Santos
Evangelhos e prometeu dizer verdade do que lhe fosse perguntado pelo
conteúdo na denuncia junta, disse que ele ouvira dizer publicamente ao
Amanda Teixeira • 91

Capitão Francisco Pinto fazer perguntas a Thereza Marques no Brejinho


de Francisco Gomes, se lhe queria vender a Partícula que lhe tinha dado
o Reverendo Padre Alexandre da Costa Guedes lhe vendeu por vinte mil
réis, ao que a dita Thereza Marques negou que tal não havia e além não
disse e assinou comigo comissário seu depoimento, que lhe foi lido, e
declarado. Dia mês e anno ut supra.

Frei Miguel da Victoria, [assinatura]


Thomas Martins Pereira [assinatura]

[f. 381-r] Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil


setecentos quarenta e sete, aos vinte e oito dias do mês de setembro,
nesta Ribeira chamada Riacho dos Porcos, em casas de morada do
Reverendo Padre Agostinho Dias Teyves, Presbítero do Habito de Sam
Pedro, e Capelão da Igreja de Nossa Senhora do Rozario do mesmo lugar,
Distrito do Cariry, Freguesia de Nossa Senhora da Expectação da Villa
do Icó do Bispado de Pernambuco, onde eu Comissário vim e por ele me
foi dito e requerido que ele denunciava perante mim ao Santo Oficio do
Reverendo Padre Alexandre da Costta Guedes, Presbítero do hábito de
Sam Pedro, morador nas terras da Capella de Nossa Senhora dos
Milagres deste distrito do Cariry e Ribeira do Riacho dos Porcos, em
como vira uma carta escrita de letra e sinal do Reverendo cura da
freguesia do Icó Joam Sarayva de Araujo escrita ao Reverendo Padre
Alexandre da Costta Guedes, em que nela declarava que pela sua
freguesia havia notícia em que ele tinha dado uma partícula consagrada
a Tereza Marques, mulher meretriz, a qual carta veio ter a mão dele
denunciante; e a remetera ao Ilustríssimo, excelentíssimo Bispo de
Pernambuco para lhe por a devida providencia em semelhante caso, e
que tendo notícia disto o dito Reverendo Padre Alexandre da Costa
92 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Guedes mandou portadores atras do próprio que a levou para lha


tirarem a força, ou matá-lo, e o escapar deste absurdo foi por aviso que
teve por carta do Sargento Mor Joam Leite nos Cariris de fora, que tendo
em sua casa os mensageiros, de que é testemunha Caetano Ferreira de
Abreu, morador em Nossa Senhora do Rosario, e seu sogro, Pedro
Fernandes Delgado, morador no mesmo lugar, ambos homens casados;
e que ouvira dizer a Thomas Martins Pereyra, homem casado, oficial de
Seleiro, morador no Brejo de Santa Anna no Cariry Novo, em como o
Capitão mor Francisco Pinto da Crux, morador na fazenda do olho
d’água nas Tabocas, Riacho dos Porcos, que perguntara o dito à
suplicante Tereza Marques, quanto lhe tinha custado a Partícula
consagrada que lhe tinha dado o dito Reverendo Padre [fl. 381-v] Padre
Agostinho, digo, o Reverendo Padre Alexandre da Costa Guedez
publicamente e também Joana da Silva, mulher do Capitam Mathias de
Lyma Taveyra, moradores no Engenho das Tabocas, perguntara outra
vez no Brejinho do Engenho do Pillar o dito Capitam Mor Francisco
Pinto da Crux à dita Tereza Marques segunda vez, quanto lhe tinha
custado a dita Sagrada Partícula do dito Reverendo Padre Alexandre da
Costa Guedes, e que na primeira vez que lhe fizera a pergunta à dita
mulher, fora diante do dito Reverendo Padre Alexandre da Costa
Guedes, o qual ouvindo a pergunta não respondera cousa alguma ao dito
Capitam Mor Francisco Pinto da Cruz. E a dita Tereza Marques se
ausentara para as minas do Ouro. E que também lhe tinha dito Antonio
dos Santos Ramos, homem solteiro, morador no Brejo de Domingos
Gonçalves Lima, distrito da Ribeira do Riacho dos Porcos, em como vira
ao Reverendo Padre Alexandre da Costa Guedes ir celebrar missa; e que
remendara uma hóstia furada, com outros pedaço pregados com saliva
da boca, na Igreja de Nossa Senhora dos Milagres e contara diante do
Reverendo Padre Francisco Xavier da Silva que se acha de morada na
Amanda Teixeira • 93

Soledade, termo da Boa Vista em Pernambuco, al não disse deste mais,


o qual assignou junto comigo, Comissário, que lho li de verbo ad verbum,
dando-lhe juntamente o Juramento dos Santos Evangelhos que o
afirmou ser assim e sustentar seu dito a todo o tempo que lhe for
perguntado. Dia, mês e ano ut supra

Frei Miguel da Victoria Comissario do Santo Officio [assinatura]


Augustinho Diaz Teyves [assinatura]

[fl. 382-r] Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil sete
centos quarenta e sete, aos oito dias do mês de outubro do dito ano, nesta
Capella de Santo Antonio do lugar da Missam Nova, distrito dos Carirys
novos da freguesia do Icó do Bispado de Pernambuco onde eu Comissário
vim e aí dei o juramento dos Santos Evangelhos a Antonio dos Santos
Ramos, que prometeu dizer verdade; e perguntado a ele testemunha pelo
conteúdo na denuncia da hóstia furada disse que é certo que ele
testemunha ajudara a missa ao Reverendo Padre Alexamdre da Costa
Guedes em a Capella de Nossa Senhora dos Milagres do Riacho dos Porcos;
e que o dito Reverendo Padre tomara uma hóstia furada; e no buraco lhe
metera hum pedacinho ao que ele testemunha respondeu que melhor era
aparar a hóstia fazendo partícula para celebrar do que ser tapada com
indecência; e o dito Reverendo Padre o não fizera; como também sabe que
o Tapuia Manoel [Alves], forro, dissera, estando preso, que fora o mesmo
Reverendo Padre Alexandre da Costa Guedez que furtara as imagens junto
com ele da Capella de Nossa Senhora do Rozario; mas não sabe para o que
as furtaram e além não disse. Que assinou comigo Comissário depois de
lhe ler seu depoimento. Dia mês, e ano ut supra.
Frei Miguel Da Victoria. [assinatura]
Antonio dos Santos Ramos [assinatura]
94 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

[fl. 383-r] Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil


setecentos quarenta e sete, aos vinte e oito dias do mês de Setembro do
dito ano, em casas de morada do Reverendo Padre Agostinho Dias
Teyves, morador na Capella de nossa Senhora do Rosário do Riacho dos
Porcos, onde eu Comissário vim e por ele me foi dito e declarado que ele
denunciava perante mim ao Santo ofício do Roubo que se fez na dita
Capella da mesma Senhora do Rozario da sua imagem com Seu
Santíssimo filho nos braços e São Benedicto em três de Janeiro do Ano
de mil setecentos quarenta e sete, sendo de noite ao amanhecer para os
três do dito mês e ano, onde se restituiu a cabo de oito dias, pouco mais
ou menos, com um dedo de sua mão menos, e São Benedito com o rosto
escalavrado, de que ele requereu devassa logo ao Reverendo Vigário da
Vara, João Sarayva de Araujo, para serem castigados os delinquentes,
que logo saíram prenunciados na mesma devassa e do Juiz ordinário
Joze Roiz de Azevedo, e em ambas saíram criminosos o Reverendo Padre
Alexandre da Costa Guedes, e Domingos [Gonçalves] Lima, mandando-
a furtar, pelo Tapuio Paulo Lourenço Pereyra, Manoel [Alves] Borges,
que como se prendeu confessou tudo. Mas porque ele denunciante ouviu
dizer que o Reverendo Vigário da vara o tinham subornado para a dita
devassa, a que ficassem criminosos os mesmos Senhores da capela, que
eram pretos, prometendo-lhe duzentos mil reis para ajuda da mesma
Igreja, dizendo que dissessem que foram eles os delinquentes do roubo,
com o temor, e penas do Santo Ofício denunciava ele [suplicante] ao
Santo Ofício este caso; e ao mesmo Reverendo Padre Alexandre da Costa
Guedes, e a Domingos [Gonçalves] Lima e seus sequazes; dando por
testemunhas de vista, e ouvida as seguintes: Theotonio Nunes oficial 12

12
No original, “ofizial”.
Amanda Teixeira • 95

de [carapina] do Livramento, mo [fl. 383-v] Morador em Nossa Senhora


do Rozario, no Poço Comprido // Pedro Fernandes [...] morador na
mesma, casado // Caetano Ferreira de Abreu, casado, morador na
mesma // Antonio Moreyra dos Santos, casado ,morador no sitio do
Livramento // Dona viúva Maria de Souza, sogra do mesmo // o Alferes
Antonio Pinheiro de Magalhães, homem casado, morador no Engenho
do Pillar // o Capitão Mathias de Lima Taveyra, casado, morador no
Engenho das Tabocas // O capitão Francisco de Lemos, viúvo, morador
no Livramento // o Capitão Julio da Costa Barros, casado, morador na
Gameleyra // Alexandre Roiz de Figueiredo, morador na Gameleira,
solteiro // Estevão Alvares Marinho, oficial de ferreiro, solteiro,
morador na Capela dos Milagres. // Manoel [Rios], oficial de ferreiro,
solteiro, morador na mesma // Ignacio de Carneiro Lima, solteiro,
morador no Sitio da Caysara // João Pereira, casado, morador na mesma.
// Leandro [Fernandes], solteiro, morador no mesmo. // Antonio dos
Santos Ramos, que trata em gado, solteiro // Na Missão Velha, o Capitão
Bento Denis, casado // Tenente Miguel dos Santos, casado // o Sargento
Mayor Antonio Dias, solteiro, morador na mesma // Missão Nova // o
Capitão Mor Domingos Álvares de Matos, casado // Miguel Roiz, viúvo,
morador na mesma // Estevão Correya, casado // O capitão Francisco
Gomes, casado // E o Alferes Gregório Dias, casado // O Coronel João
Mendes Lobato, solteiro // Joze de Saá, solteiro // Antonio de Matos,
solteiro // Antonio Godinho, casado// Santa Anna // o Tenente Coronel
Joze da Silva Canto, casado // o Sargento mor Thomas da Silva, digo,
Martins Pereira, casado, oficial de Seleiro.// Pretos forros que sabem do
caso, e quem lhe entregou as Imagens // Damião de Souza, casado //
Antonio Guedes Genro // Manoel de Sam Payo, moradores no sitio do
Livramento e por ele foi dito que dava todas estas testemunhas na sua
denúncia ao Santo Ofício para serem punidos os culpados; pois tendo
96 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

dado parte a Ilustríssimo Bispo de Pernambuco, até o presente não viu


demonstração al- [fl. 394-r] Alguma em firmeza da qual aqui assina
comigo Comissário abaixo assignado, dia mês e ano ut supra
Frei Miguel Da Victoria Comissário [assinatura]
O Padre Agustinho Dias Teyves [assinatura]

[f. 385-r] Continha o [capítulo] da Carta o seguinte [do Reverendo


Vigário] da vara e Cura do Icó que por ela se dizia que ele, Padre
Alexamdre, tinha dado uma Partícula Consagrada a Tereza Marques, e
que a trazia dentro do refego do guarda pisa da sua saia; e que mandasse
um corte de calção de veludo e véstia do mesmo para se dar [ao homem]
junto com os dois cavalos pelo poldro murzelo [Foueyro] para o Moço do
Reverendo Vigário Geral levá-lo para o dito em Pernambuco 13; sendo
Testemunhas disto, que viram a carta, o Reverendo Padre Agostinho
Dias Teyves; Ignacio de Carneiro Lima, morador na Caysara do Riacho
dos Porcos // o Capitão Julio da Costa Barros, morador na Gameleyra //
Antonio Moreyra dos Santos, morador do Livramento, todos do distrito
do Riacho dos Porcos. E comigo Comissário [...]
Fr. Miguel da Victoria [assinatura]
Pe. Augustinho Dias Teyvez [assinatura]
Ignacio de Carneiro Lima [assinatura]

Declarou o dito Ignacio de Carneiro Lima que a véstia e calção era para
o Reverendo Cura comprar por quatro cavalos; e deles para se dar dois
para um para o (sic) moço Joze Gomes levar ao Vigário Geral de

13
A véstia é a “parte dos vestidos que cobre o tronco do corpo, com mangas, ou sem elas, traz-se por
baixo da casaca”. Cf. Silva, 1789, p. 847. Um poldro morzelo, por sua vez, é um jovem cavalo de cor
escura.
Amanda Teixeira • 97

Pernambuco para [orar] por ele sobre o roubo das imagens em que o
culpavam da Igreja do Riacho dos Porcos no Posso Comprido.
Fr. Miguel Da Victoria [assinatura]
Ignacio de Carneiro Lima [assinatura]

|fl. 385-v| Ao primeiro dia do mês de outubro do ano do nascimento de


Nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos quarenta e sete anos, depôs
na minha presença Antônio Moreyra dos Santos, testemunha atrás
referida, a quem dei o Juramento dos Santos Evangelhos, que prometeu
dizer verdade do que lhe fosse preguntado; disse ser certo que o
Reverendo Vigário da vara escrevera uma carta da sua própria letra e
sinal ao Reverendo Padre Alexandre da Costa Guedes, em que afirmava
corria [por ela] uma nova que sua mercê tinha dado uma partícula sagrada
a uma mulher meretriz, como se declara atras, e que quando se roubaram
as imagens da Capella de Nossa Senhora do Rozario, um escravo do dito
Reverendo Padre Alexamdre da Costa Guedes dissera aos escravos dele
depoente que seu senhor dissera aos outros seus camaradas “vamos ver a
matalotagem 14”; e que partira para baixo, e outra vez fora para cima com
[mulas], e não vira matalotagem e no mesmo dia à noite faltaram as
imagens de Nossa Senhora e São Benedito; e que o mesmo dissera à
mulher dele depoente, Dona Anna de Souza; e o escravo do dito Reverendo
Padre, Pedro, do gentio Angola. De que fiz este termo que comigo assinou.
Dia mês e ano ut supra; declarou mais que o Reverendo Padre viera junto
com um Tapuya por nome Manoel [Alves] a tirar as imagens pelo mesmo
Manoel [Alves] assim o declarar na sua presença e de Virginio de Carneiro,
escrivão na Villa do Icó, sobrinho de Ignacio de Carneiro Lima conteúdo

14
A matalotagem consiste em “provisão de mantimentos, que fazem os matalotes, ou pessoas que
embarcam [...]” Ver Silva, 1789, p. 275. O termo também foi utilizado para designar o abate de gado para
consumo próprio, realizado durante viagens ou nas próprias fazendas.
98 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

na [lauda] atrás, vindo na [varge] para a Capella do mesmo Rosario com o


dito Virginio de Carneiro.
Fr. Miguel da Victoria Comissário [assinatura]
Antonio Moreira dos Santos [assinatura]

Em o mesmo dia, mês e ano, depois de ter dado seu depoimento o dito
Antonio Moreyra dos Santos, declarou mais o [Suplicante] que a ele dito
depoente dera o Reverendo Vigário da Vara da Villa do Icó, João Sarayva
de Araujo, lhe dera a mesma carta acima referida junto com outras na vila
do Icó para trazer ao dito Reverendo Padre Alexandre da Costa Guedes, e
que ele as metera |fl. 386-r| As metera em uns alforges com algum
dinheiro e passando por um riacho cheio no caminho se lhe foram pelo
rio abaixo, em que teve notícia aos despois que se tinham achado e os
trouxera ao Reverendo Padre Agostinho Dias Teives, o qual abriu a carta
que vinha para o dito Padre Alexandre, e ele a lera na sua presença; e como
continha caso tão atroz, a remetera ao Excelentíssimo Bispo para pôr o
cuidado em semelhante caso e que sabendo o dito Reverendo Vigário da
Vara do Icó que ele tinha perdido a carta, e ter notícia que o Reverendo
Padre Agostinho a tinha em seu poder, e indo ele dito Antonio Moreyra
dos Santos à Villa do Icó, o chamara de parte o dito Reverendo Cura
Vigário da Vara e lhe dissera que visse que se a carta que ele lhe tinha
dado para o Reverendo Padre Alexandre fosse às mãos do Excelentíssimo
Bispo de Pernambuco, que lhe havia de pagar bem pago; pois faria com
que ele não aparecesse mais neste mundo; e tudo afirmou debaixo do
Juramento dos Santos Evangelhos o fazer tudo certo em qualquer tempo,
aos Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores Inquisidores da Santa
Inquissão (sic) de Lisboa. De que fiz este termo que comigo assinou.
Frei Miguel da Victoria Comissario [assinantura]
Antonio Moreira dos Santos [assinatura]
Amanda Teixeira • 99

|fl. 386-v| Ao primeiro dia [do mês] de outubro do Ano do Nascimento


de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil sete centos quarenta e sete, depôs
perante mim a testemunha Julio da Costa Barros, terceira da denúncia,
em como vira a carta que o Reverendo Cura Vigário da Vara do Icó
escrevera ao Reverendo Padre Alexandre da Costa Guedes em que
afirmava o conteúdo na denúncia que se deu do dito Reverendo Padre;
e que o Poldro fora para mandar de mimo ao Reverendo Vigário Geral
de Pernambuco para se atabafar a devassa donde o dito saiu criminoso;
e que tirando-a, lhe dera ele cura a desobriga sem embargos de saber
que ele estava culpado na devassa dos roubos das imagens, e que indo-
se-lhe à mão a isso o suspendera; mas que sabia que o dito Padre
Alexamdre era pouco temente a Deus pois andava sempre com armas
proibidas, tirando bulhas com todos, e andava amancebado com uma
sua comadre de que tinha filhos publicamente, e sendo capelão de Nossa
Senhora dos Milagres recebera uns nubentes, saindo um comboeiro aos
impedimentos, e que dissera que como era viandante, o não admitia e
que por isso mesmo os recebia, como de fato recebeu; e que era voz
comum que o Reverendo Cura do Icó favorecia tanto o dito Padre que
lhe mandava dizer que vivesse descansado em tudo; e que se dizia que
mandara dinheiro para Pernambuco, não só a fim da carta que se
remetera ao Excelentíssimo Bispo, mas também para a devassa do roubo
das imagens em que ele Reverendo Padre saiu culpado: para se não falar
mais na matéria; e que o dito Reverendo padre Alexandre da Costa
Guedez publicava que enquanto tivesse o Cura do Icó por si, que se lhe
não dava de nada, o que tudo afirmou debaixo do Juramento dos Santos
Evangelhos e se obrigou a sustentar seu dito em todo o tempo que lhe
for perguntado, de que fiz este termo que comigo assignou. Dia mês, e
ano ut supra.
100 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Frei Miguel da Victoria, Comissário [assinatura]


Julio da Costa Barros [assinatura]

|fl. 387-r| E no mesmo dia depôs mais o dito Capitão Julio da Costa
Barros, despois de ter dado o seu depoimento, que o Reverendo Padre
Alexamdre da Costa Guedes se quisera ausentar pelas devassas que o
Reverendo Cura do Icó tirou contra ele; mas que o dito Reverendo Cura
lhe escrevera que se deixasse estar no lugar; que quando as águas
corressem turvas, que o Excelentíssimo Bispo a ele havia remeter as
ordens para ele ser preso; e que no caso que assim fosse ele o avisaria
para que se pusesse em salvo. E além não disse que aqui assignou comigo
em o primeiro de outubro de 1747.
Frei Miguel da Victoria [assinatura]
Julio da Costa Barros [assinatura]

|fl. 388-r| Contra o Padre Alexandre da Costa Guedes


Freguesia de Nossa Senhora da Expectação da Vila do Icó, Bispado de
Pernambuco

Os Inquisidores Apóstolicos contra a herética pravidade e a


apostasia nessa cidade de Lysboa e seu distrito [et cetera] Fazemos Saber
a Antonio Alvares Guerra, ausente a Felippe Rodrigues Campello,
comissários do Santo Oficio no Recife de Pernambuco, que nesta Mesa
há informação que o Padre Alexandre da Costa Guedes, Presbítero do
hábito de São Pedro, natural de Pernambuco, das partes do Cabo,
assistente que foy, por missionário, no Rio do Peixe na Aldeia do
Icozinho, e morador nas terras da Capela de Nossa Senhora dos Milagres
na Ribeira do Lugar do Riacho dos Porcos, distrito do Carery, freguesia
de Nossa Senhora da Expectação da Villa do Icó: vendera por cinquenta
Amanda Teixeira • 101

mil réis uma partícula consagrada a Theodozio Nogueyra, que a trazia


debaixo da sola do pé para que tudo lhe |fl. 388-v| obedecesse, e outra
por vinte mil réis a Thereza Marques, mulher meretriz, moradora na
mesma freguesia. E que também vendera um sanguinho à mãe de uma
Theodozia da Costa para seu filho Manoel de Caldas, e outra para Felippe
dos Santos, seu camarada. Que remendara uma hóstia furada, pegando-
lhe com cuspe um pedaço de outra, e que com ela fora dizer missa na
Igreja de Nossa Senhora dos Milagres, e que o mesmo fora capataz do
roubo das Imagens de Nossa Senhora do Rosário, Menino Jesus e de São
Benedito, que se cometeu ao três de Janeiro de 1747. Do referido darão
razão Ignacio de Carvalho Lima, morador na fazenda do Caysara = Joze
da Maya de Faria, morador na fazenda dos macacos = Tomas Martins
Pereyra, morador no Brejo de Santa Anna, o Padre Agostinho Dias
Teives, capelão de Nossa Senhora do Rosário = Antonio Moreyra dos
Santos morador no Livramento = o Capitam Jullio da Costa Bar |fl. 389-
r| Barros, morador na Gamelleyra = Antonio dos Santos Ramos morador
no sitio da Caysara, e os mais que lhes referirem e assistirem nesse sitio.
E porque convém ao serviço de Deus Nosso Senhor, e bem da Justiça do
Santo Ofício, constar judicialmente o referido. Auctoritate Apostolica
cometemos a Vossa Mercê que sendo-lhe esta entregue, faça a diligência
de que na mesma se trata, elegendo para escrivão dela a um sacerdote
cristão velho de boa vida e costumes, a quem dará o juramento dos
Santos Evangelhos, sob cargo do qual prometerá escrever com verdade
e ter segredo, de que se fará termo, ao primeiro, por ambos assinado, e
cometendo-se essa diligência a quem não seja Comissário por Provisão,
tomará o juramento da mão do mesmo escrivão / E logo na dita
freguesia de Nossa Senhora da Expectação do Icó, na parte que a Vossa
Mercê parecer mais acomodada para essa diligencia se fazer como
convém, mandará vir perante si as ditas pessoas, e dando-lhe o
102 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

juramento dos Santos Evangelhos para dizerem verdade, e terem


segredo, as perguntará judicialmente pelos interrogatórios seguintes

[fl 389-v]
1. Se sabe ou suspeita o para que é chamado, e se o persuadiu alguma pessoa a que,
sendo perguntado por parte do Santo Ofício, dissesse mais ou menos doque
soubesse e fosse verdade.
2. Se conhece ao Padre Alexandre da Costa Guedes, Presbítero do hábito de São
Pedro, que foi missionário no Rio do Peixe, e morador nas terras da Capella de
Nossa Senhora dos Milagres: se sabe fosse morador aonde se diz, e aonde ao
presente é; donde é natural, e que razão tem de conhecimento.
3. Se sabe que o dito Padre Alexandre da Costa Guedes vendesse partículas
consagradas, e outras algumas cousas pertencentes ao uso do Altar, [ou] outras
cujo conhecimento pertence ao Santo Ofício, que cousas foram, a quem as
vendeu, ou deu, e para que fim e que razão tem ele testemunha para o saber.
4. Se o dito Padre tem capacidade, ou se é louco, e que loucura tem e outrossim
que opinião tem |fl. 390-r| tem no particular da limpeza de seu sangue.
5. Se tudo o que tem testemunhado passa na verdade, e se tem que declarar ao
costume.
Pelos ditos interrogatórios serão perguntadas as testemunhas, que no
princípio de seus testemunhos dirão seus nomes, cognomes, ofícios,
pátrias, habitações, qualidades da limpeza de seu sangue, idades, e no
fim assinarão, e sendo mulher que não saiba escrever, o escrivão da
diligência assinará por ela de seu rogo, pelo qual mandará fazer
declaração dos dias que nela gastarem fora de suas residências. E
fazendo a testemunha culpa ao dito Padre, será o testemunho ratificado
na forma do estilo do Santo Ofício. No caso que a Villa de Icó fique em
distância a que Vossa Mercê não possa ir, cometerá esta diligência a
sacerdote de boa capacidade, e não será ao Pároco daquela freguesia,
nem ao Vigário da vara daquele distrito. E ultimamente dará Vossa
Mercê a sua informação, declarando o que souber e alcançar assim a
Amanda Teixeira • 103

respeito do que se pretende averiguar |fl. 390-v| como da fé e crédito que


às testemunhas se deve dar, escrevendo tudo pela sua mão, sem o
comunicar ao escrivão, e feita a diligência na sobredita forma, e com
brevidade, com a mesma a remeterá a esta Mesa, sem que lá fique cópia
ou treslado. Dada em Lisboa, no Santo Ofício, dos nossos sinais e selo do
mesmo, aos nove dias no mês de agosto de mil, e setecentos e quarenta
e oito anos. Manoel Lourenço Monteyro o fez.
Simão José Sylverio Lobo [assinatura]
Manoel Varejão e Távora [assinatura]
Luis Barata de Lima [assinatura]

Dest e sello 275


cta 36.
Registrada a 404

|fl. 391-r| Autuamento de uma comissão do Tribunal do Santo Ofício


para inquirição de testemunhas

Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil sete centos e


quarenta e nove, aos dois dias do mês de Setembro do dito ano, neste Sítio
de Santa Anna, Freguesia de Nossa Senhora da Luz dos Cariris Novos,
termo da Villa do Icô, Capitania do Cearâ Grande, em casas donde estava
aposentado 15 o Reverendo Padre Joze Lopes de Santiago, Comissário desta
inquirição, comigo escrivão ao diante nomeado, e pelo dito Reverendo
Padre Joze Lopes de Santiago me foi apresentado um mandado de
comissão do tribunal do Santo Ofício para inquirição de testemunhas
mandando-me o [autuasse] para dar princípio a dita inquirição e,

15
Aposentar, segundo verbete de Bluteau, significa “dar aposento, alojamento [...]”. Ver Silva, 1789, p.
157. O termo se refere, portanto, ao local em que o religioso estava hospedado.
104 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

recebendo eu o dito mandado, aqui o autuei, que é o que ao diante se segue


para ser remetido com a própria inquirição ao dito tribunal donde
emanou na forma que nele se declara, de que fiz este autuamento eu, o
Padre Joze da Sylva de Carvalho, escrivão eleito que o escrevi.

|fl. 392-r| Termo de juramento, que toma o Reverendo Padre Joze Lopes
de Santiâgo como Juiz Comissário desta inquirição e dá ao escrivão dela,
o Padre Joze da Sylva de Carvalho
Aos dois dias do mês de setembro de mil sete centos e quarenta e nove
anos, neste Sítio de Santa Anna, freguesia de Nossa Senhora da Luz dos
Cariris Novos, termo da vila do Icô, Capitania do Ceará Grande. Em casas
onde estava aposentado o Reverendo Padre Joze Lopes de Santiago, comigo
escrivão eleito abaixo assinado, e sendo ali pelo dito Reverendo Padre Joze
Lopes de Santiago foi tomado o juramento aos Santos Evangelhos da mão
de mim, escrivão, em o Livro deles, e eu escrivão da mesma maneira o
tomei da mão dele em o Livro dos Santos Evangelhos em que um e outro
pusemos nossas mãos direitas, e prometemos com toda a verdade, e
segredo, e sem ódio nem inclinação fazermos esta inquirição na forma que
nos é [recomendada]. O dito Reverendo Padre Joze Lopes de Santiago, de
juiz Comissário subdelegado, e eu o Padre Joze da Sylva de Carvalho,
escrivão eleito, de que fiz este termo em que assinamos: Eu o Padre Joze da
Sylva de Carvalho, escrivão eleito, que o escrevi.
O Padre Joze Lopes de Santiago - 1749 [assinatura]
O Padre Joze da Sylva de Carvalho [assinatura]

|fl. 392-v| Termo de Assentada


Aos dois dias do mês de setembro de mil sete centos e quarenta e nove
anos neste sítio de Santa Anna, Freguesia de Nossa Senhora da Luz dos
Cariris Novos, termo da Villa do Icô, Capitania do Cearâ grande, em
Amanda Teixeira • 105

casas onde estava aposentado o juiz comissário, o Reverendo Padre Joze


Lopes de Santiago comigo, escrivão eleito para o efeito de começar esta
inquirição, e sendo aí pelo dito Reverendo Juiz Comissário foram
inquiridas e perguntadas as testemunhas que foram notificadas para
esta inquirição, cujos nomes cognomes, ditos, costumes, idades, ofícios,
e moradias, e limpeza de sangue é o que se segue, de que fiz este termo
eu, o Padre Joze da Sylva de Carvalho, escrivão eleito que o escrevi.

Testemunha 1ª
O Reverendo Padre Agostinho Dias Teves, natural da Povoação de
Santo Antonio do Cabo de Pernambuco, morador na capela de Nossa
Senhora do Rozario do Riacho dos Porcos da Freguesia de Nossa
Senhora da Lus dos Cariris Novoz, termo da vila do Icô, Capitania do
Ciará Grande, branco e cristão velho, de idade que disse ser de cinquenta
e seis anos, pouco mais ou menos, a quem o Reverendo Juiz comissário
deu o juramento dos Santos Evangelhos em o livro deles em |fl. 393-r|
em que pôs sua mão direita e prometeu dizer verdade, e guardar segredo
a todos os interrogatórios, que pelo dito Reverendo Juiz comissário lhe
fossem perguntados.

1. E perguntado ele testemunha pelo primeiro artigo disse que suspeitava o para
que era chamado, por quanto no mês de Setembro, ou Outubro do ano de mil
sete centos, e quarenta e sete fora noti�cado pelo Reverendo comissário Frey
Miguel da Victoria, de que lhe tomou o juramento para guardar segredo em
certa informação do Santo Ofício; e por esta razão suspeita ser esta a mesma
diligencia que o dito Reverendo Padre dele inquiriu, e que não fora persuadido
por pessoa alguma, que sendo perguntado por parte do Santo ofício dissesse
mais, ou menos do que sabia, ou fosse verdade e al não disse ao primeiro
2. Ao segundo disse que conhece ao Padre Alexandre da Costa Guedez Presbítero
do hábito de São Pedro e que é natural da Povoação de Santo Antonio do Cabo
de Pernambuco, e que de lá viera para o Rio do Peixe, e daí para a Capela de
106 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Nossa Senhora dos Milagres do Riacho dos Porcos, onde foi capelão, e é
morador; e o motivo que tem de o conhecer, é pela vizinhança que teve com o
dito Reverendo Padre Alexandre da Costa Guedes, tanto na Freguesia de Santo
Antonio do Cabo, como sendo capelão na Igreja de Nossa Senhora dos Milagres
do Riacho dos Porcos. E al não disse
3. |fl. 393-v| Ao terceiro disse que Thomas Martins Pereyra dissera a ele
testemunha que estando na Igreja de Nossa Senhora dos Milagres ouvira ao
Capitão Mor Francisco Pinto da Crus dizer a Thereza Marques, mulher
meretriz, que lhe desse ou vendesse um pedacinho da hóstia consagrada que
o Reverendo Padre Alexandre da Costa Guedes lhe tinha vendido; e a razão que
tem para o saber é a que acima tem dito. E al não disse ao terceiro
4. Ao quarto disse que o Reverendo Padre Alexandre da Costa Guedes não era louco
nem fátuo, e que era branco, e cristão-velho, e nunca ouviu dizer tivesse casta de
cristão-novo, nem de outra qualquer infecta nação. E além não disse ao quarto.
5. Ao quinto disse que tudo o que tem testemunhado é verdade, e ao costume
disse nada e al não disse. E sendo-lhe lido este seu testemunho, e por ele
ouvido e entendido, disse estava escrito e nele se a�rma, rati�ca, e torna a
dizer de novo, e no mesmo não tem que acrescentar, diminuir, mudar, ou
emendar, exceto no quinto na segunda linha “é verdade o que tem dito por
tudo ouvir dizer” nem de novo que dizer ao costume, sob cargo do juramento
dos Santos Evangelhos, que outra vez lhe foi dado, ao que estiveram presentes
por honestas, e Religiosas pessoas que tudo viram, e

|fl. 394-r| E ouviram e prometeram dizer verdade e ter segredo no que


forem perguntados os Reverendos Padres Gonçalo Coelho de Lemos, cura
da Freguesia de Nossa Senhora da Luz dos Cariris Novos, e Christovam de
Faria da Fonseca, Capelão de Nossa Senhora dos Milagres, e assinaram
com a testemunha e com o Reverendo Comissário Joze Lopes de Santiago
e Eu, o Padre Joze da Sylva de Carvalho, escrivão que escrevi.
Santiago [assinatura]
O Pe. Agustinho Dias Teves [assinatura]
Gonçallo Coelho de Lemos [assinatura]
Christovão de Faria da Fonseca [assinatura]
Amanda Teixeira • 107

E ida a Testemunha para fora foram perguntados os Reverendos


Padres Ratificantes Gonçallo Coelho de Lemos e Christovam de Faria da
Fonseca, se lhes parecia falava verdade e merecia crédito a testemunha,
e por eles foi dito que sim, lhes parecia falava verdade, porém que
sabem, e é fama pública, que testemunha é inimiga do Padre Alexandre
da Costa Guedes, e tornaram a assinar com o Reverendo Comissário Joze
Lopes de Santiago. E eu, o Padre Joze da Sylva de Carvalho, escrivão
eleito, que o escrevi.

Santiago [assinatura]
Gonçallo Coelho de Lemos [assinatura]
Christovão de Faria da Fonseca [assinatura]

|f. 394-v|Testemunha 2ª
O Capitão Julio da Costa Barros, homem branco, e cristão velho,
natural da Cidade do Natal, freguesia do Rio Grande, morador no sitio
da Caysara do Riacho dos Porcos, freguesia de Nossa Senhora da Lus dos
Cariris Novos, termo da vila do Ico, capitania do Ciará Grande, de idade
que disse ser de quarenta e nove anos, que vive de suas criações de gado,
testemunha jurada aos Santos Evangelhos em o livro deles em que pôs
sua mão direita, e guardar segredo em todos os interrogatórios deste
mandado, que pelo Juiz comissário lhe fossem perguntados
1 E sendo perguntado no primeiro artigo disse nada
2. E Sendo perguntado no segundo artigo, disse que conhece ao
Padre Alexandre da Costa Guedes desde o ano de sete centos e trinta e
seis, morando no rio do Peixe, e que logo depois se mudara para o riacho
dos Porcos, e que aí fora capelão na Igreja de Nossa Senhora dos
Milagres onde por ora mora, e que sabe é natural de Pernambuco por
108 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

ouvir dizer ao mesmo Padre Alexandre da Costa Guedes, e a varias


pessoas; e a razão que tem para saber de tudo isto, é pelo muito
conhecimento que tem do dito Padre, e fazer-lhe alguns anos [...] na dita
Capela e além não disse ao segundo.
|f. 395-r| 3 Ao terceiro disse ele testemunha que vira uma carta que
escreveu o Reverendo cura Joam Sarayva de Arahujo, vigário da vara da
vila do Icó, escrita ao Padre Alexandre da Costa Guedes, cuja carta abriu
em caminho um inimigo do dito Padre chamado Ignacio de Carvalho
Lima, e outro que a trazia, também inimigo do Padre, Antonio Moreyra,
em cuja lhe advertia caritativamente o dito Reverendo Cura que não
fosse tão loquaz acerca do muito que falava no furto de umas imagens
que se havia feito na Igreja de Nossa Senhora do Rozario do Riacho dos
Porcos, porque o seu muito falar o prejudicava, trazendo-lhe por
exemplo do que se falava dele sobre uma partícula que diziam ele dera
àquela mulher, e que ouvira também a varias pessoas, que ele
testemunha não fez apreensão, dizer que o Padre dera a Thereza
Marques uma partícula consagrada, e também ouvira dizer a outras que
não criam, que o Padre tal cousa fizesse, e que a dita carta se remetera
ao Excelentíssimo Senhor Bispo de Pernambuco, Dom Frey Luis de
Santa Thereza 16. E al não disse ao terceiro.
4. Ao quarto disse que o Padre Alexandre da Costa Guedes não era
louco e que não sabia da limpeza de seu sangue. E al não disse ao quarto
5. |f.395-v| Ao quinto disse ele testemunha que ouvira dizer a várias
pessoas, que se não lembra quem sejam, que Antonio dos Santos dissera
que o Padre Alexandre da Costa Guedes dissera Missa com uma hóstia
emendada com cuspo; e que tudo o que tinha dito ouvira dizer, exceto a
carta que viu, e que não tinha mais que declarar. E al não disse, e do

16
Luís de Santa Teresa foi Bispo de Olinda entre 1738 e 1757. Fez parte do movimento espiritual jacobeu.
Amanda Teixeira • 109

costume nada. E sendo-lhe lido este seu testemunho, e por ele ouvido, e
entendido, disse estava escrito na verdade, e nele se afirma, ratifica e
torna a dizer de novo sendo necessário, e no mesmo não tem que
acrescentar, diminuir, mudar, ou emendar, nem de novo que dizer ao
costume, sob cargo do juramento dos Santos Evangelhos que outra vez
lhe foi dado, ao que estiveram presentes por honestas e religiosas
pessoas que tudo viram e ouviram, e prometeram dizer verdade, e ter
segredo no que forem perguntados os Reverendos Padres Gonçallo
Coelho de Lemoz, cura dos Cariris Novoz, e Christovam de Faria da
Fonceca, e se assinaram com a testemunha, e com o Reverendo
Comissário Joze Lopes de Santiago. E eu, o Padre Joze da Sylva de
Carvalho, escrivão eleito, que o escrevi.
Santiago [assinatura]
Julio da Costa Barros [assinatura]
Gonçalo Coelho de Lemos [assinatura]
Christovão de Faria da Fonceca [assinatura]

[fl. 396-r] E ida a Testemunha para fora foram perguntados os Padres


Ratificantes Gonçallo Coelho de Lemos, e Christovam de Faria da Fonceca
se lhes parecia falava verdade, e merecia crédito a testemunha, por eles
foi dito que sim, lhes parecia falava verdade, e merecia crédito, e
tornaram a assinar com o reverendo Comissário Joze Lopes de Santiago e
eu, o Padre Joze da Sylva de Carvalho, escrivão eleito que o escrevi.

Santiago [assinatura]
Gonçallo Coelho de Lemos [assinatura]
Christovão de Faria da Fonceca [assinatura]
110 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Testemunha 3ª
Antonio dos Santos Ramos, homem branco e cristão velho, natural
da cidade do Porto, morador na Fazenda do Brejo do Riacho dos Porcos,
Freguesia de Nossa Senhora da Lus dos Cariris Novos, termo da Villa do
Icô, Capitania do Ciarâ Grande, de idade que disse ser de quarenta e
cinco anos, pouco mais ou menos, que vive de criar gados, testemunha
jurada aos Santos Evangelhos em o Livro deles, em que pôs sua mão
direita e prometeu dizer verdade e guardar segredo em tudo que lhe
fosse perguntado nos interrogatórios deste Man

[fl. 396-v] Mandado, que pelo Juiz Comissário lhe fossem perguntados

1. E perguntado ele testemunha pelo primeiro artigo disse nada.


2. E perguntado pelo segundo artigo disse que conhece ao Padre Alexandre da Costa
Guedes há nove para dez anos, sendo algum tempo Capelão na Igreja de Nossa
Senhora dos Milagres do Riacho dos Porcos, onde é morador, e que sabe é filho de
Pernambuco por ouvir dizer ao mesmo Padre e al não disse ao segundo.
3. E perguntado, disse que nunca ouvira dizer que o Padre Alexandre da Costa
Guedez vendesse partículas consagradas, ou outras algumas cousas
pertencentes ao uso do altar e al não disse ao terceiro.
4. Ao quarto disse que o Padre Alexandre da Costa Guedes não era louco, nem
fátuo porque nunca tal nele vira, e que da limpeza de seu sangue não tem
notícia, só sim lhe parece ser cristão-velho por ser sacerdote, e al não disse ao
terceiro
5. |fl. 397-r| Ao quinto disse que tudo que tem dito é verdade e perguntado pelo que
referiu a testemunha Julio da Costa Barros no Capítulo quinto, disse que estando
o Padre Alexandre da Costa Guedes na Capela de Nossa Senhora dos Milagres do
Riacho dos Porcos em um domingo ou dia santo para dizer missa a seus
aplicados se achara somente com uma hóstia, a qual tinha um buraquinho junto
a extremidade de fora, e vendo-se precisado a dizer missa, lhe dissera ele
testemunha que a circulasse mais, e o Padre lhe respondera que circulando-a
ficava muito pequena e que molhando o dedo na boca, pegara um dos
Amanda Teixeira • 111

fragmentos que havia na caixeta, e com ele tapara o buraquinho da hóstia, que
não excederia a cabeça de um alfinete, e que lhe parece o fizera sem segunda
intenção. E al não disse, e a costume nada. E sendo lhe lido este seu testemunho,
e por ele ouvido e entendido, disse estava escrito na verdade, e nele se afirma,
ratifica e torna a dizer de novo sendo necessário, e no mesmo não tem que
acrescentar, diminuir, mudar ou emendar, nem de novo que dizer ao costume,
sob cargo do juramento dos Santos Evangelhos que outra vez lhe foi dado, ao que
estiveram presentes por honestas e religiosas pessoas ,que tudo viram, e
ouviram e prometeram dizer verdade, e ter segredo |fl.397v| Segredo no que
forem perguntados os Reverendos Padres Ratificantes Gonçallo Coelho de
Lemoz, Cura dos Cariris Novos, e Christovam de Faria da Fonceca, e assignaram
com a testemunha e com o Reverendo Comissário Joze Lopes de Santiago, e eu,
o Padre Joze da Sylva de Carvalho, escrivão que o escrevi.

Santiago [assinatura]
Antonio dos Santos Ramos [assinatura]
Gonçallo Coelho de Lemos [assinatura]
Christovam Faria da Fonceca [assinatura]

E ida a testemunha para fora, foram perguntados os reverendos


Padres Ratificantes – Gonçallo Coelho de Lemos, Cura dos Cariris
Novos, e Christovam de Faria da Fonseca, se lhes parecia falava verdade,
e merecia crédito a testemunha, e por eles foi dito que assim lhes
parecia falar verdade, e que merecia crédito por ser homem de boa vida
e costumes. E tornaram a assinar com o Reverendo Comissário Joze
Lopes de Santiago e eu, o Padre Joze da Sylva e Carvalho, escrivão eleito,
que o escrevi
Santiago [assinatura]
Gonçallo Coelho de Lemos [assinatura]
Chistovão de Faria da Fonceca [assinatura]
112 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

|fl. 398-r| Termo de Assentada


Aos quatro dias do mês de Setembro de mil Setecentos e quarenta
e nove anos neste sitio de Santa Anna, Freguesia de Nossa Senhora da
Luz dos Cariris Novos, termo da Villa do Icô Capitania do Ciarâ Grande,
em casas onde estava aposentado o Reverendo Juiz Comissário Joze
Lopes de Santiago comigo escrivam eleito ao diante nomeado, para
efeito de continuar esta inquirição; e sendo aí pelo Reverendo Juiz
comissário foram inquiridas, e perguntadas as testemunhas, que foram
notificadas para esta inquirição cujos nomes, cognomes, ditos,
costumes, idades, ofícios e moradias e limpeza de seu sangue é o que se
segue, de que fiz este termo eu, o Padre Joze da Sylva de Carvalho,
escrivão eleito, que o escrevi.

Testemunha 4ª
Joze da Maya Rocha, e não de Faria, como está na Inquirição,
natural da Freguesia de Sam Miguel da Alagoa do Sul, Bispado de
Pernambuco, morador no sitio dos Macacos, homem com casta da terra,
que vive de suas criações de gado, de idade que disse ser de quarenta e
nove anos, testemunha jurada aos Santos Evangelhos em o livro deles,
em que pôs sua mão direita, e prometeu dizer verdade e guardar segredo
em tudo em todos os interrogatórios que lhe fossem perguntados pelo
Reverendo Juiz comissário na presente inquirição

1. E perguntado ele testemunha pelo primeiro artigo disse nada


2. |fl. 398v| Ao segundo, disse que conhece ao Padre Alexandre da Costa Guedez,
que foi morador no Rio do Peixe, e depois morando no Riacho dos Porcos, sendo
capelão na Igreja de Nossa Senhora dos Milagres, e que não sabe se inda mora
no mesmo lugar, e que sabe, por ouvir dizer, que o Padre é natural de
Pernambuco, e al não disse ao segundo.
Amanda Teixeira • 113

3 E perguntado no terceiro disse que ouvindo um sermão do Padre Gabriel de


Malagrida em Santo Antonio do Piancô deste Bispado de Pernambuco ouvira
exagerar [ao] dito pregador a gravidade e fealdade de certo sacerdote ter
vendido uma hóstia consagrada, e que Joam da Rocha, morador no Rio do Peixe,
respondera logo inda mal que por isso se diz que o Padre Alexandre da Costa
Guedes vendeu hóstia consagrada. E disse mais ele testemunha que ouvira falar
a Ignacio de Carvalho com bastante intenção de inimizade sobre o Padre
Alexandre da Costa Guedez dizendo que o dito Padre tinha dado uns corporais
a Theodozia da Costa para efeito de mandingas, e que lhe parece ser o dito
Ignacio de Cavalho grande inimigo do Padre, por lhe fazer vários pasquins, e
anda-los (sic) mostrando a várias pessoas em ludibrio do dito Padre, e que ele
testemunha fora um dos a quem ele mostrou e al não disse ao terceiro. <Pl>
4 Ao quarto disse que não tinha que dizer, só sim ouvir dizer a Ignacio de Carvalho
Lima que |fl. 399-r| Que o Padre Alexandre da Costa Guedez tinha casta de
cristão-novo por parte de sua mãe e que não era louco e al não disse ao quarto.
5. Ao quinto disse que tudo o que jurado tem é na forma que tem exposto seu
juramento, e ao costume nada, e al não disse. E sendo-lhe lido este seu
testemunho, e por ele ouvido e entendido, disse estava escrito na verdade e nele
se afirma, ratifica e torna a dizer de novo sendo necessário, e no mesmo não
tem que acrescentar, diminuir, mudar, ou emendar, nem de novo que dizer ao
costume sob cargo do juramento dos Santos Evangelhos que outra vez lhe foi
dado, ao que estiveram presentes por honestas e religiosas pessoas, que tudo
viram e ouviram e prometeram dizer verdade, e guardar segredo no que forem
perguntados os Reverendos Padres ratificantes Gonçallo Coelho de Lemos, cura
da Freguesia de Nossa Senhora da Luz dos Cariris Novos, e Christovam de Faria
da Fonceca, e assignaram com a testemunha e com o reverendo comissário e eu,
o Padre Joze da Sylva de Carvalho, escrivão eleito, que o escrevi.

Santiago [assinatura]
Joze de Maya Rocha [assinatura]
Gonçallo Coelho de Lemos [assinatura]
o Padre Christovão de Faria da Fonceca [assinatura]
114 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

|fl. 399-v| E ida a testemunha para fora, foram perguntados os Reverendos


Padres ratificantes se lhes parecia falava verdade e merecia crédito a dita
testemunha, e por eles foi dito que sim, lhes parecia falava verdade e
merecia crédito pelo conhecerem ser homem verdadeiro, tido e havido
[por esse] nesta freguesia e tornaram a assinar com o Reverendo
Comissário; e eu, o Padre Joze da Sylva de Carvalho, escrivão, que o escrevi.

Santiago [assinatura]
Gonçallo Coelho de Lemoz [assinatura]
Christovão de Faria da Fonceca [assinatura]

Termo de Assentada
Aos Seis dias do mês de Setembro de mil setecentos e quarenta e
nove anos, neste sítio de Santa Anna, Freguesia de Nossa Senhora da Lus
dos Cariris Novos, termo da vila do Icô, capitania do Ciarâ Grande, em
casas onde estava aposentado o Reverendo Juiz comissário Joze Lopes
de Santiago, comigo, escrivão eleito ao diante nomeado para efeito de
continuar esta inquirição e sendo aí pelo reverendo Juiz comissário
foram inquiridas e perguntadas as testemunhas que foram notificadas
para esta inquirição cujos nomes, cognomes, ditos, costumes, idades
|fl.400-r| Idades, ofícios, e moradias e limpeza de seu sangue é o que se
segue, de que fiz este termo eu, o Padre Joze da Sylva de Carvalho,
escrivão eleito que o escrevi.

Testemunha 5ª
Ignacio de Carvalho Lima, homem branco e solteiro, natural de São
Cosme do Valle, Arcebispado de Braga, morador na Freguesia de Nossa
Senhora da Luz dos Cariris Novos, termo da Villa do Icô, Capitania do
Ciarâ grande, de idade que disse ser de quarenta e nove anos, pouco mais
ou menos, que vive de seu negócio, testemunha jurada aos Santos
Amanda Teixeira • 115

Evangelhos em o Livro deles em que pôs sua mão direita e prometeu


dizer verdade e guardar segredo em tudo que lhe fosse perguntado pelo
reverendo Juiz comissário na presente inquirição

1. E perguntado ele testemunha pelo primeiro interrogatório disse nada.


2. E perguntado pelo segundo disse que conhece ao Padre Alexandre da Costa
Guedez, que morou no Rio do Peixe e no Riacho dos Porcos sendo Capelão na
Igreja de Nossa Senhora dos Milagres, e que sabe é natural da Freguesia de
|fl.400-v| de Santo Antonio do Cabo, Bispado de Pernambuco, filho de
Alexandre da Costa, e da segunda mulher do dito, cujo nome não sabe, e a
razão que tem para tudo isto saber é pelo conhecimento que teve muitos anos
com o pai do dito Padre e al não disse ao Segundo.
3. E perguntado pelo terceiro disse que ouvira dizer a Joze da Maya Rocha que ouvindo
um sermão do Padre Gabriel de Malagrida em Santo Antonio do Pianco ouvira
dizer ao Pregador [...] de um clérigo [ut sie] que tinha vendido por cinquenta mil
reis uma hóstia consagrada e que um dos circunstantes, cujo nome ele
testemunha não sabe, dissera que o Padre que o tinha feito era o Padre Alexandre
da Costa Guedez. E disse mais ele testemunha que vira uma carta do Reverendo
Cura do Icô, Joam Sarayva de Arahujo, na ocasião que sucedeu o furto de umas
Imagens na Capela de Nossa Senhora do Rozario do Riacho dos Porcoz,
repreendendo nela ao Padre Alexandre da Costa Guedez, que não sabia guardar
segredo pelos falatórios que havia sobre o furto das imagens, trazendo por
exemplo o que se falava dele sobre ter dado uma partícula a Thereza Marques,
cuja carta disse ele testemunha que lha mostrara Antonio Moreira dos Santos,
portador que a trazia, dizendo a ele testemunha que ao passar de um Riacho se
lhe molhara essa carta junto como outros papeis |fl 401-r| Papeis mais, e que por
curiosidade a abrira e lera, e andara mostrando a ele testemunha e ao Padre
Alexandre digo, ao Padre Agostinho Dias Teves, e que o dito Padre Agostinho
remetera a carta ao Excelentíssimo Senhor Bispo de Pernambuco, Dom Frey Luis
de Santa Thereza. E disse mais que ouvira dizer, voz vaga, que Francisco Pinto da
Crus publicava que o Padre Alexandre da Costa Guedez tinha dado uma partícula
consagrada à dita Thereza Marques – amásia 17 do dito Francisco Pinto da Cruz, e

17
O termo “amásia” é utilizado para designar “amiga, amante, concubina”. Ver Silva, 1789, p. 117.
116 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

que também se dizia ser amásia do dito Padre Alexandre da Costa Guedez, donde
resultou grande inimizade, ódios e desordens, entre ele, Francisco Pinto, e o
Padre Alexandre da Costa Guedez, em forma que chegou o dito Francisco Pinto
em um Domingo ou dia Santo a desembainhar uma catana para dar no Padre,
porém que o concurso da gente o impedira, e que depois se descompuseram de
palavras, a cuja pendência assistiu ele testemunha e al não disse ao terceiro.
4. E perguntado pelo quarto, disse que sendo ele testemunha menino, ouvira dizer
aos Irmãos da primeira mulher de Alexandre da Costa, pai do Padre Alexandre
da Costa Guedes, que Marianna de tal, mãe do dito Padre, tinha casta de
Cristã-nova, e que não era louco e al não disse ao quarto.
5. E perguntado pelo quinto disse que o que tem |fl. 401-v| Tem jurado é por ouvir
dizer, e que em tudo se reporta a um juramento que deu ao Padre Frey Miguel
da Victoria, Religioso Carmelita que andou em quarenta e sete neste Cariri, e
al não disse, e ao costume nada, e declarou que suposto no segundo
interrogatório dissera que não sabia do nome da Mãe do Padre Alexandre da
Costa Guedez, no quinto disse que lhe parece que se chama Marianna Pereira.
E al não disse. E sendo-lhe lido este seu testemunho, e por ele ouvido, e
entendido, disse estava escrito na verdade, e nele se afirma, ratifica, e torna
a dizer de novo, e no mesmo não tem que acrescentar, diminuir, ou emendar,
nem de novo que dizer ao costume; sob cargo do juramento dos Santos
Evangelhos, que outra vez lhe foi dado: ao que estiveram presentes por
honestas e religiosas pessoas, que tudo viram, e ouviram, e prometeram dizer
verdade, e ter segredo no que forem perguntados o Reverendo Padre Gonçallo
Coelho de Lemoz, cura da Freguesia de Nossa Senhora da Luz dos Cariris
Novos, e Christovam de Faria da Fonceca, e assinaram com a testemunha, e
com o reverendo comissário e eu, o Padre Joze da Sylva de Carvalho, escrivão
eleito que o escrevi.
Santiago [assinatura]
Ignacio de Carvalho Lima [assinatura]
Gonçallo Coelho de Lemos [assinatura]
Christovão de Faria da Fonceca [assinatura]
18
LIV. 301, 109º CAD., ACARACÚ E CEARÁ – PADRE VICENTE
DANTAS, MORADOR NO TRAIRI, QUEBRA DE SIGILO

|f.215r| Acaracú e Siará – Bispado de Pernambuco


Padre Vicente Dantas Pereira – sig.

<1º> Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil sete


centos quarenta e nove, aos quatro dias do mês de dezembro do dito ano,
nesta Matriz da Caiçara da Ribeira do Acaracú, Bispado de Pernambuco,
apareceu perante mim Antonio Roiz do Lago, morador no Imundahú,
distrito desta mesma freguesia, pessoa que reconheço pela própria de
que se trata; e por ele me foi dito que ele vinha denunciar perante mim,
Comissário dos Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores Inquisidores
da Santa Inquisição da Cidade e Corte de Lisboa, do Padre Vicente
Dantas Pereira, morador por ora no Trayry, Freguesia da Vila do Forte
do Siará, e natural de Pernambuco, Presbítero do hábito de São Pedro;
que estando o dito Padre por capelão na Capella de Nossa Senhora da
Conseissão do Mundahu, vindo se confessar com o dito Padre, Padre
Phelis de Azevedo do hábito de São Pedro; e acabando de se confessar se
retirou; e logo o dito Padre Vicente foi dizendo, vejam o seu santinho,
que vocês têm aqui por santo, que agora se confessou comigo; e da
confissão passada até esta, me confessou tinha dormido com amiga
catorze vezes, e repetindo ele denunciante ao dito Padre não diga tal, foi
logo dizê-lo Padre Phelis debaixo de confissão que visse que o seu
confessor tinha publicado o sigilo; e o |f.215v| e o dito Padre lhe
respondera que Deus Nosso Senhor lhe daria o pago. E o mesmo
declarou a companheira dele denunciante, Antonia [Ferreyra] de Nis.
<2º> E andando o dito Padre Vicente em desobriga desta freguesia
do Acaracú sendo Pároco dela [Lourenço de Luís] e recolhendo-se da
118 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

desobriga do Aracati Asú, disse confessara uma filha de José Luiz Lisboa
por nome Francisca e que esta lhe confessava que tinha parido duas vezes
de um Índio, e que estava a dita para honra e casamento; e conversando
ele denunciante na desgraça do Padre com [Teodozio] da Rocha também
do dito Padre lhe tinha contado o dito caso respondeu, ele
<3º> Indo também Antonio Pereyra morador, morador (sic) nas
Frexeyras, distrito do Trayry da Vila do Forte, ao Piauí no tempo
quaresmal, confessou-se, e como lá se não desobrigasse, vindo, outra
vez para sua casa, e indo se confessar com o dito Padre Vicente por
desobriga da quaresma, por ter esta a seu cargo naquele distrito; e
confessando-lhe certo; |f.216r| E confessando-lhe certo caso; passados
tempos, viera o dito Antonio Pereira conversar com ele denunciante e
lhe dissera que lhe perguntara certa pessoa se tinha feito tal cousa e ele
respondera que sim; e perguntando o dito Antonio Pereira: quem lho
disse a vossa mercê?, respondera o tal homem que fora o Padre
denunciado. Todo o delatado sucedeu antes das missões do Padre
Gabriel de Malagrida, o qual [pregou] publicamente sobre o se descobrir
o sigilo da confissão e as penas que nisso havia, é notória a fama do dito
Padre; e ele denunciante, por obrigado do seu Pároco e das suas
confissões lhe declararem as censuras em que incorria; o tinha já
delatado; e agora de novo o faz perante o Comissário e al não disse; e
tudo o que bem dito e [escrito está] a tudo se reporta; nem tem mais que
dizer, diminuir, acrescentar de novo; que lhe foi lido e declarado e bem
clara e distintamente que ele [...] bem entendeu e disse que tudo assim
passava na verdade. E assinara comigo, Comissário, seu testemunho.
Dia mês e ano ut supra.
Antonio Vale do Lago [assinatura]
Frei Miguel da Victoria [assinatura]
Amanda Teixeira • 119

xxx

|f.216v| Antonia Ferreyra, mulher de Antonio Rodrigues do Lago,


moradora no Mundahu, de idade que disse ser de quarenta anos, pouco
mais ou menos, testemunha jurada aos Santos Evangelhos em que pôs
sua mão direita e prometeu dizer verdade e dos costumes disse nada.

1. E perguntada ela testemunha pelo conteúdo no [referimento], disse que em


certa ocasião, estando em uma sala, entrara o Padre Vicente Dantas e lhe
pedira um coco de água, dizendo vinha muito cansado; e lhe perguntara ela
testemunha, que trabalho tinham os padres para vir enfadado; respondera o
dito Padre que vinha de confessar o Padre Phelis de Azevedo, que da confissão
atrasada a esta parte tinha cometido pecado com mulher catorze vezes, e que
é fama pública que se queixam [...] dele lhe descobrir o Sigilo Sacramental,
mas que ele somente lhe dissera isto a ela.
2. Também sabe por ele lho manifestar, que sendo o dito padre seu Capelão, lhe
batizara uma criança sua escrava por nome Ignacia, a qual esteve alguns anos
penando aleijada e mal falava; e vendo ela Testemunha a criança nesta forma;
lhe dissera o dito Padre que ela não |f.217r| Estava batizada por ele não ter fé
quando administrara o tal sacramento, mas que logo a havia tornar a Batizar,
e que se passaram vários tempos até que o dito Padre se foi para outra parte,
e passando pelo lugar o Padre Elias Pinto, lhe manifestara o que o dito Padre
lhe tinha dito; e lhe respondera que quem o tinha feito o tornasse a fazer, e
não a quis batizar; e assim morrera a dita escrava sem sacramento; e que a
maior mágoa que tinha era ter dois filhos batizados pelo dito padre e, por não
saber se [seriam] sem fé, como ele fez à primeira, sua escrava; e al não disse e
por não saber ler, nem escrever, rogou a mim, Comissário, assinasse seu
Testemunho. À matriz da Caissara, aos seis dias do mês de dezembro de mil
setecentos quarenta e nove anos.

A rogo da testemunha Antonia Ferreira [assinatura]


Frei Miguel da Victoria. [assinatura]
120 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

O Padre Antonio dos Santos da Silveira, Presbítero do hábito de São


Pedro, morador no Olho de Água nesta Ribeira do Acaracú, testemunha
jurada aos Santos Evangelhos sobre esta denúncia, de idade que disse ser
de cinquenta e três anos, pouco mais ou menos, e do costume disse nada.
E preguntando ele testemunha pelo conteúdo, disse |217v| Disse
que sendo no ano de quarenta e cinco; pouco mais ou menos, sendo no
Porto dos Barcos na Barra do Mundahu, ouvira dizer ao Mestre do Barco
Antonio dos Santos acerca de se falar no Padre Vicente Dantas, lhe
dissera que certas mulheres faziam mal de si, pois ele as ouvia da
Confissão; e que o Barqueiro não gostara de que o dito clérigo
descobrisse tal cousa; e que os ditos seus Compadres Antonio Rodrigues
do Lago e sua mulher Antonia Ferreira lhe tinham dito que o dito Padre
descobria o segredo sacramental; e al não disse, e assinou seu
depoimento nesta matriz da Caysara em seis de dezembro de mil sete
centos quarenta e nove anos.
Frei Miguel da Victoria. [assinatura]
O Padre Antonio dos Santos da Silva [assinatura]

O Padre Phelis de Azevedo de Faria, Presbítero do hábito de São Pedro,


assistente na Água das Velhas, distrito desta freguesia do Acaracú,
testemunha jurada aos Santos Evangelhos que prometeu dizer verdade do
que soubesse e lhe fosse perguntado |f. 218r| Preguntado, de idade que
disse ser de sessenta <anos> pouco mais ou menos, e do costume disse
nada. E perguntado ele testemunha pelo conteúdo na denúncia, disse que
é verdade que se confessara com o Padre Vicente Dantas Pereira e que
despois lhe dissera seu compadre Antonio Roiz do Lago que o dito Padre
lhe tinha a ele descoberto o sigilo sacramental, e à sua mulher, Antonia
Ferreira de Nis; e preguntando ele testemunha; como, e de que maneira
tinha sido; respondera ele denunciante desta maneira; que indo-se o dito
Amanda Teixeira • 121

Padre Phelis embora dissera o Padre Vicente este é o seu santinho que
vocês [...], desde a confissão atrasada até esta dormiu com amiga catorze
vezes; e outras cousas mais, ao que ele testemunha reparando no dito de
seu Compadre e Comadre, achou ser certo o que tinha confessado ao dito
Padre ser assim pois ninguém o sabia; e só ele, na confissão sacramental.
<225> E também sabe ele |f. 218v| ele testemunha que certo
penitente, confessando-se com ele testemunha, depusera que tinha
dado um juramento falso perante Juiz competente preguntado nos
Artigos da Visitação, se sabia se algum sacerdote descobria o sigilo da
confissão, e que ele dissera que não; mas ele testemunha o advertira
para que vindo visitador o fizesse outra vez; descobrindo o cúmplice;
porque o Padre Vicente Dantas lhe tinha descoberto o sigilo
sacramental. E al não disse e assinou comigo, Comissário, seu
depoimento nesta freguesia do Acaracu na Cerra da Beruoca aos
dezessete dias do mês de Janeiro de mil setecentos cinquenta anos.

O Padre Felix de Azevedo e Faria [assinatura]


Frei Miguel da Victoria. [assinatura]

Declarou mais ele testemunha, que o caso sucedeu em o ano de


quarenta e dois, porquanto ele testemunha entrou a ser Capelão do
Trayry em outubro de quarenta e um; E saiu em outubro de quarenta e
dois; tempo em que vinha confessar com o dito Padre Vicente que
|f.219r| que estava naquele tempo por capelão no Mundahú; dia, mês e
ano ut supra.
Frei Miguel da Victoria [assinatura]
Padre Felix de Azevedo e Faria. [assinatura]
19
LIV. 301, 109º CAD., JAGUARIBE – ANTONIO DO
GENTIO DE ANGOLA, FORRO, ESCRAVO QUE FOI DE
MANOEL FERREIRA SOUTO, SUPERSTIÇÃO +
FAZENDA DE SANTA ANNA, MANOEL GOMES
NEGRÃO, MESTIÇO FORRO, MANDINGA

|f.248r| Santanna no Riacho dos Feitosas


Manoel Gomes Negrão, mestiço forro, filho de Antonia Roiz, natural do Rio
de Baixo do Bispado de Pernambuco

Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Acaracú. Capitania do Siará


Grande

Antonio do Gentio – Superstição


Manoel Gomes Negrão – Mandinga

Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil sete centos


quarenta e oito, aos vinte e dois dias do mês de julho do dito ano, neste
sítio da Canna Braba do Alferes Jacinto Teixeira Barbosa, em casa de
morada do dito, onde eu comissário vim, aí apareceu perante mim o
Sargento Mor Francisco de Mendonça Freire, morador e assistente na
Fazenda de Santa Anna ao presente da freguesia de Nossa Senhora da
Conceição da Ribeira do Acaracú, Capitania do Siará Grande do Bispado
de Pernambuco, pessoa que reconheço pela própria de que se trata e por
ele me foi dito que ele denunciava ao Santo Ofício de Manoel Gomes
Negrão, mestiço forro, filho legítimo de Estevão Gomes, já defunto, e de
sua mulher, Antonia Roiz, naturais do Rio de Baixo do Bispado de
Pernambuco; que sendo no dia sábado que se contaram seis de julho do
Amanda Teixeira • 123

ano de mil setecentos quarenta e oito, na fazenda de Santa Anna, onde ele
denunciante por ora assistia, aí adoecera de uma Malina 1 o dito Manoel
Gomes Negrão, mandara a Mãe do Senhor chamar um negro curador de
[feitiços] que por tal [anda] introduzido por nome Antonio do Gentio de
Angola, forro escravo que foi de Manoel Ferreira Souto, morador em
Jaguaribe, que tem dado a maior parte de seu valor ao dito seu Senhor do
ganhado com curas, feitiços | E começara a mãe do dito Manoel Gomes
Negrão a dizer a ele dito denunciante que seu filho tinha lançado uns
cabelos e umas embiras 2 e um pedaço de fita azul já velha por baixo; e no
outro dia seguinte viera outra vez a dita mostrar-lhe uma pedra de
Tabuleiro, ou do Campo, dizendo que seu filho lançara aquela pedra pela
via, cousa que não podia ser pelo grandor da dita pedra, e passados dois
ou três dias disse ele Manoel Gomes Negrão a ele dito denunciante que o
diabo lhe tinha vindo falar a [...]; Eu sou o teu amigo Ignacio dos Santos,
sou o diabo, em figura dele, [respondera] o diabo ao Manoel Gomes
Negrão, que te venho [f.248-v] vingar dos teus inimigos feiticeiros, e se
alevantou o dito Manoel Gomes e foi para perto de uma casa onde tinha
os seus trastes, e os mandou que com efeito os queimasse, e isto passou
de noite, e amanhe[ce]ndo pela manhã, com uma catana na mão começou
a fazer grandes excessos, cortando e dizendo que matava uma tapuia por
nome Joana Gomes, que já era defunta, dizendo que ela é que lhe tinha
lançado os feitiços; a este tempo que ele estava com estes excessos,
chegara ele denunciante chamando por ele, dizendo ser Manoel Gomes:
Respondera ele que ele dito Sargento Maior não o conhecia a ele, que ele
se chamava Ignacio dos Santos; e que era branco, que Manoel Gomes
Negrão era um mestiço, e que era era (sic) branco; e se chamava Ignacio

1
O termo era utilizado para indicar malária.
2
O termo “embira” designa diversas árvores e arbustos que ocorrem no Brasil e que fornecem uma fibra
frequentemente utilizada em cordas.
124 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

dos Santos; / Este tal Ignacio dos Santos foi um seu amigo dele já defunto,
a quem o [demônio] dizia que respondia nele. E vendo ele denunciante
que aquilo era mais cousa do demônio que seu, lhe disse: “Senhor Manoel
Gomes Negrão, isso é louquice, confesse-se, bote isso fora”; Respondia o
dito Manoel Gomes: “não quero, que sou o diabo, vai-te tu confessar, que
o demônio não se confessa”; e isto mesmo respondia a todos os que lhe
diziam o mesmo e que se fossem todos embora, que o deixassem.
Passando este dia, lhe pediu o dito Manoel Gomes Negrão a ele
denunciante que lhe concedesse licença para ir passar para sua casa. Com
o medo dos feitiços, chegando a noite, o começara a enxotar; dizendo-lhe
que ele tinha feito tanta cousa, respondeu o dito Negrão que ele não tinha
feito nada; que o demônio é que tinha falado por ele. E perguntando que
negócio tinha ele com o demônio que tanto o perseguia, respondera o dito
que era por mor de 3 ter um corporal que trazia consigo 4; e lhe respondeu
ele denunciante, que lhe entregasse ele o corporal, porquanto já o Padre
Frei Antonio o não quisera confessar por não lhe ter dado o dito, e que ele
estava para morrer daque |f. 249-r| daquela má sina, que o poderia
castigar, e morrer sem confissão e toda aquela noite o trabalhou em
forma que ele lhe entregou a bolsa grande que trazia consigo; e lhe pedia
que o confessasse ele; ao que o dito denunciante respondera que não era
padre, mas que ele mandaria chamar sacerdote que o confessasse.
Abrindo ele denunciante o Patuá, achou um pedaço de pedra d’ara
e vários papeis de orações, que muitas não leu; e só leu uma de São
Cipriano, a do Justo Juiz, uma de Nossa Senhora do Monsserrate 5, e as
mais, como era de noite, mandou queimar todas; achou mais um

3
No original, “pera mor de”.
4
Corporais são panos em que os sacerdotes pousam o cálice e a hóstia durante a missa.
5
São as chamadas “rezas fortes” dedicadas a São Cipriano, ao “Justo Juiz” e a Nossa Senhora de
Montserrat (ou Virgem Negra de Montserrat).
Amanda Teixeira • 125

corporal e outra bolsa, mais pequena, fechada, que dizia ele tinha dentro
uma hóstia consagrada, que lhe tinha vendido um moço por [Onze
Vacas], e que lhe dissera o Moço que lhe tinha dado um clérigo do Rio de
São Francisco, e perguntando ele denunciante ao dito se tinha feito
algum pacto mais com o diabo, por escrito ou sangue seu, [disse] que
não; só tinha tido em rapaz duas contas de Cabo Verde, e que essas as
tinha lançado já fora, tinha mais outra bolsinha com várias cousas, que
tudo mandou queimar.
E tomando ele conta da bolsa com o corporal, que era de tafetá
encarnado, a entregou ele dito denunciante ao Reverendo Padre Pedro
da Costa, morador no Jardim desta freguesia, para que viesse tomar em
trégua disto, mas antes disto, fazendo ele dito Manoel Gomes Negrão
muitos excessos pela bolsa, parecendo que estava endemoninhado, lhe
tornou ele denunciante a dar; sem ver o que estava dentro, enquanto a
hóstia e a [...] [de sua mãe] lhe tornou a seu poder. E na vinda do dito
padre, lhe tirou escondida um cunhado dele; e a deu ao dito Padre para
a abrir em presença dele denunciante e de Manoel Antonio, morador na
Caiçara desta Ribeira, e Antonio Roiz Vidal, morador na mesma fazenda
de Santa Ana; e o Reverendo Padre Pedro da Costa do Jardim |f.249-v|
Jardim, e começando a abrir a bolsa, o dito Padre achou papelão de uma
banda, e outra com pastas de algodão das bandas e uma hóstia em meio,
já desfeita pelas bandas. E no meio dela, outro algodão, com um pedaço
de pedra roxa ou azulada, que parecia de raio; e como a hóstia só a roda
tinha alguma correção, tornou o dito padre a embrulhar, e a levou
consigo, e o corporal e pedra d’ara para mandar ao Reverendo Cura
desta Freguesia do Caracú.
Sempre ouviu ele denunciante que o dito mestiço era
mandingueiro, e sabe que o dito nunca foi ao Rio de São Francisco e que
no que mostrava, a hóstia era cousa muito antiga, e que a mãe bem sabia
126 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

disto pois dizia que era uma patena que seu filho trazia e que este
mestiço era muito amigo do Padre André Duarte, que morou com ele
muitos tempos na Serra e [Cratiús] 6, e que este Padre sempre foi de má
viver (sic) para com todos desta Capitania.
E que viu depois de se lhe tirar o corporal [com] a hóstia que o
mestiço ficou como cousa douda, e que supõe não escapará. E fez viagem
com sua mãe para cima da Serra dos Cocos, onde chamam São Gonçalo,
e que supõe que ele tem espírito malino consigo; porquanto despois que
ficou sem a bolsa começou a falar muitas cousas, ainda adivinhando
muitas cousas que se passavam e al não disse, e assinou comigo,
comissário, seu depoimento, depois de lhe ser lido, e declarado, disse
que em em tudo estava conforme seu dito e que isto mesmo se obrigava
a dizer em todo o tempo que lhe fosse perguntado de que lhe dei o
juramento dos Santos Evangelhos, e prometeu guardar segredo. Dia,
mês e ano ut supra.

Frei Miguel da Victoria [assinatura]


Francisco de Mendonça Freire [assinatura]

|f.250r| O Capitão Mor José de Araújo Xaves, casado, morador nessa


fazenda da Eypoejra 7, pessoa que reconheço pela própria de que se trata,
testemunha jurada aos Santos Evangelhos e prometeu dizer verdade
sobre a denúncia atrás dada de Manoel Gomes Negrão, disse que ouvira
falar publicamente nestas mandingas que no tocante a hóstia lhe
dissera Francisco Vidal e seu tio Francisco de Mendonça Freire, que ele
trazia uma hóstia consigo, e que a entregaram ao Reverendo Padre

6
Pode se referir a Crateús, localidade que atualmente pertence ao Ceará.
7
É possível que corresponda a uma localidade no atual município de Ipueiras, Ceará.
Amanda Teixeira • 127

Pedro da Costa, e que o mestiço ouvira dizer que de presente assiste em


o Brejo da Arara. E era fama pública o conteúdo na denúncia; e al não
disse. De que fiz este termo que comigo assinou. Ipoeira, aos quatro dias
do mês de fevereiro de mil setecentos e quarenta e nove anos.

Frei Miguel da Victoria [assinatura]


Joseph de Araújo Chaves [assinatura]

Aos cinco dias do mês de fevereiro de mil setecentos quarenta e


nove anos, estando eu, Comissário, em casas de morada do Reverendo
Padre Pedro da Costa em o seu sítio chamado Bom Jardim na Ipueira,
freguesia do Caracú, testemunha jurada aos Santos Evangelhos sobre a
denúncia atrás disse que era verdade que ele pela (sic) recebeu da mão
de Francisco de Mendonça uma bolsa com uns corporais e mais outra
mais pequena, onde na presença do dito Francisco de Mendonça abriu e
achou-se uma hóstia inteira, mas já com [...] pela continuação do tempo;
a qual ele entregou ao Reverendo Padre Felipe Dias, coadjuntor desta
freguesia, para ele a consumir. Em razão dele testemunha não ter [...]
para o fazer, e ficar a matriz em grande distância; [...] também recebeu
um pedaço de pedra d’ara 8, que tudo entregou ao dito e al não disse, pelo
[ter] confessado estando para morrer, mas sabe que escapou da malina.
E assinou comigo seu depoimento. Dia, mês e ano ut supra.

Frei Miguel da Victoria [assinatura]


O Padre Pedro da Costa [assinatura]

8
A pedra d’ara é uma pedra colocada na pequena cavidade que existe no centro do altar. É sobre ela
que o cálice e a hóstia devem repousar. Tradicionalmente eram encerradas relíquias dentro da pedra de
ara.
20
LIV. 301, 109º CAD., JAGUARIBE – CONSTANTINA DE
BARROS, MULHER DO TENENTE FRANCISCO FREIRE
DE CARVALHO, ADIVINHAÇÃO DE QUIBANDO

|f.15r| Adivinhação do Quibando 1


<Constantina de Barros – Rio Grande.>

Muito Reverendíssimo padre [...] mais senhores; denuncia a Vossa


Reverendíssima, como Comissário do Santo Ofício, o Coadjutor da
freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Cidade do Rio Grande
do Norte, com licença de sua confessada Michaela, tapuia de nação,
escrava do Coronel Theodozio Freyre de Amorim, morador no Lugar do
Retiro da dita freguesia, que sendo mocinha haverá trinta anos, pouco
mais, ou menos, no sertão do Apody desta Capitania, vira a Constantina
de Barros, mulher de Theodozio Gomes, defunto morador no dito lugar,
e de presente mulher do tenente Francisco Freire de Carvalho, seu
segundo marido, morador em Jaguaribe, fazer a adivinhação que
chamam do quibando, estando presentes a ver Christina Paes, parda
forra que nesse tempo morava no dito lugar do Apody, e hoje não sabia
por onde estivesse, e uns homens mais, que ela não conhecia por ser
muito menina e de pouco conhecimento, e por eu julgar ser uma
feitiçaria, pelo cargo que me advém, visto a impossibilidade de minha
confessada, enferma que poucos dias viveu, dou esta parte a Vossa
Reverendíssima, a quem reverentemente me ofereço como muito
[servo] capelão com o desejo de que que a Vossa Reverendíssima assista
o melhor logro de saúde e seja continuada prospera [in Diio], como Vossa

1
Esta denúncia também foi transcrita – com algumas divergências de interpretação – em “Hereges e
degredados na capitania do Rio Grande (séculos XVII-XIX)”. Ver Alveal; Fonseca; Pereira, 2018, p. 22.
Amanda Teixeira • 129

Reverendíssima muito merece. Deus guarde a Vossa Reverendíssima


muitos anos. Rio Grande, 28 de novembro de 1742.
De Vossa Reverendíssima
Muito Reverendíssimo [...] Reitor Senhor Thomas Lynceo.
Humilde servo e Capelão Maior Venerador
João Gomes Freire [assinatura]
21
LIV. 301, 109º CAD., SERRA DOS COCOS – MANUEL
PEREIRA DE JESUS, CASADO COM LEANDRA
BARBOSA, SUPERSTIÇÃO

|f. 230-r| Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Caracú

Manuel Pereira de Jesus – superstição.


Frei Egidio de Santa Paula – dº.

Bispado de Pernambuco
Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil sete centos
quarenta e oito aos vinte e nove dias do mês de dezembro do dito ano,
neste sítio da Lapa em casas de morada do Tenente Coronel João
Ferreira Chaves, onde eu comissário do Santo Ofício assisto aí perante
mim apareceu Maria de Freitas Barbosa, mulher de Luis Jorge da Cruz,
pessoa que reconheço pela própria de que se trata natural da freguesia
de Una do Porto Calvo do Bispado de Pernambuco, e moradora, e
assistente no [...] de Nossa Senhora da Soledade, junto à capela de São
Gonçalo da Serra dos Cocos, freguesia do Caracú, aí por ela me foi dito e
declarado que ela vinha denunciar perante mim, aos Ilustríssimos e
Reverendíssimos Senhores Inquisidores da Santa Inquisição da Cidade
e Corte de Lisboa o seguinte: que falecendo o Reverendo Padre Jose da
Cruz da vida presente no distrito de Arraial, em casa de Domingos Alzº,
no lugar da mesma Serra dos Cocos; e não havendo quem tomasse
entrega da canastra do Ornamento do dito Padre defunto, a recebeu
Manoel Pereira de Jesus, cunhado dela denunciante, casado com
Leandra Barbosa, filho de João Pereira já defunto; e de sua Mãe Joana da
Silva, ele natural do Siará Grande, seu Pai natural de Lisboa e sua mãe
Amanda Teixeira • 131

natural da freguesia de Sirinhaém, Bispado de Pernambuco, e que


trazendo a ele para casa dela denunciante, ela deu a ele para lhe guardar,
o que ela fez em uma sua câmara, ficando o dito seu cunhado com as
chaves da dita canastra; e passados dois dias, pediu-lhe que lhe abrisse
a porta, dia em que ele estava para ir fazer uma prisão, entrando dentro,
cerrou o dito a porta, e abrindo a canastra do ornamento, começou a
abrir a casula alva, estola, e lançou em cima da cama dela denunciante;
e ouviu ela estar rapando em prata; e depois dele lá estar muito tempo,
saindo ele para fora; lhe perguntou ela, que estava fazendo |f.230-v|
fazendo: e ele lhe respondesse que estava tirando três fios da [alva] em
cruz, três fios da casula, três da estola, três do manípulo, e um corporal
inteiro, e um sanguinho: dizendo que agora estava ele como queria, que
não temia mais nenhum perigo, que tendo aquilo não tinha mais
inimigo que o ofendesse de ferro, faca, chumbo; e como se fez assento
de tudo; quando ele tomou entrega da canastra, se achou ao depois,
faltas do amito; corporal, e sanguinho; o calix se achou raspado por
dentro com faca e a patena, o mesmo, que ele declarou a ela denunciante
se achou falto, o qual Manoel Pereira a mandou entregar a Francisco
Cardoso morador no Ipu junto à Serra; e que fora publico e notório o
dito Roubo; mas nunca souberam quem o tinha feito; só sim
suspeitavam que seria ele pelo ter em seu poder com a chave e [declara]
que o amito tirou ele os três fios em cruz junto com o mais.
Também sabe que o dito seu cunhado nas oitavas do Natal na
missão que fez Frei Carlos José de Laespecie 1, na Serra dos Cocos há
quatro anos, achara o dito uma partícula no [tabarno] do Altar; dizendo
ele, a ela denunciante que tinha testemunha em que ela estivesse

1
Provavelmente se trata de frei Carlo José de Spezia (ou Specie), capuchinho que também atuou no sul
do Ceará junto aos cariris.
132 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

consagrada, porquanto se tinha dado a comunhão a muita gente;


naquelas oitavas e dizendo ela ao dito seu cunhado que a levasse já a um
dos missionários, respondesse que não a entregava pois foi fortuna sua
achá-la, que era para a trazer ao pescoço; e nunca mais soube que rumo
ele lhe tinha dado; pois, querendo sua mulher tirá-la, ele correu para
fora; e até o dia de hoje, não sabem dela: e al não disse que comigo
assinou dando-lhe primeiro o Juramento dos Santos Evangelhos de
sustentar seu dito em todo o tempo e guardar segredo.
Dia, mês e ano ut supra.
[A rogo] Maria de + Freitas Barbosa.
Frei Miguel da Victoria [assinatura]
22
LIV. 304, 112º CAD., TABOLEIRO DE AREIA,
RIBEIRA DO JAGUARIBE – INACIO FERREIRA
DE ALBUQUERQUE MARANHÃO, CASADO
COM UMA MULATA QUE FOI DE UMA FREIRA,
DESACATOS, CRISTÃO-NOVO

|f. 323r| Muito Ilustres Senhores

Das denúncias inclusas, feitas judiciais sem ordem deste Tribunal, e


uma delas ratificada pelo Comissário Frei Miguel da Victoria, e da
informação do mesmo Comissário consta que Ignacio Ferreira de
Albuquerque Maranhão, cristão novo, criador de gado, casado com Angela,
mulher parda, natural da cidade da Paraíba, e morador no lugar de São
João, freguesia das Russas em Jaguaribe, Bispado de Pernambuco, não
come carne de porco; lava as mãos no pote da água de que bebe a sua
família; castiga os seus escravos nas solas dos pés; proferiu que tomara ele
enganar bem a Deus, lançou no fogo uma imagem de Cristo Senhor Nosso,
e enterrou outra imagem de Santo Antonio com o menino Jesus, que se
desenterrou sem cabeça e com um braço quebrado, e o Menino também
sem cabeça; e é homem de má vida, e consciência; e porque do sobredito
resulta presunção grave de que o delato vive apartado do uso comum dos
fiéis e da Religião Católica Romana, sentindo mal da veneração das
Imagens a que fez os referidos desacatos, e abstendo-se de comer a carne
proibida na Lei de Moisés, como fazem os Judeus, será muito conveniente
à Justiça que se faça de tudo sumário na forma do estilo do Santo Ofício,
inquirindo-se novamente, não só as pessoas denunciantes, cujos nomes, e
[confrontações] se declaram nos papéis inclusos, mas também todas as
pessoas por elas referidas, e que puderem bem dar notícia dos costumes
do delato, e de seus delitos: termos em que
134 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Requeiro a vossas mercês que para o dito efeito mandem passar as ordens
necessárias e do que resultar se me dê vista para requerer o que for a bem
da Justiça.

E presentado em Mesa o [Requerimento] |f.323v| retro do Promotor


para os Senhores Inquisidores lhe haverem de deferir desse mandado
lho fez concluso. Alexandre Henrique Arnaut o escrevi.

[rubrica]

Façam-se as diligências que requer o Promotor desta Inquisição


para o que se passem as ordens necessárias. Lisboa, em Mesa 22 de
Agosto de 1750.

Manoel Varejão e Távora [assinatura]


Luiz Barata de Lima [assinatura]

|f.324r| Desacatos. Cristão novo.


Ignácio Ferreira de Albuquerque Maranhão, casado com uma
mulata na Paraíba, que foi de uma freira. Ele natural da Cidade da
Paraíba, morador no Taboleiro da Areia, Ribeira de Jaguaribe freguesia
de Nossa Senhora do Rosário das Russas, Bispado de Pernambuco.
Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos
quarenta e oito, aos catorze dias do mês de maio do dito Ano nesta Capela
de São João da freguesia das Russas em Jaguaribe em casas de morada de
Damazo de Azevedo e Ataíde, onde eu Comissário ao diante nomeado vim,
aí apareceu perante mim Agostinho de Souza Souto, preto forro; e crioulo,
filho da vila de Goiana do Bispado de Pernambuco, casado com uma preta
escrava do dito Inacio Ferreira, pessoa que reconheço pela própria de que
se trata; e em minha presenta (sic) por ele me foi dito e declarado que ele
Amanda Teixeira • 135

vinha denunciar perante mim do dito Ignacio Ferreira de Albuquerque


Maranhão, que no ano de mil setecentos quarenta, que vindo ele do campo
que tratava do seu gado; e achou um escravo do dito por nome João
Crioulo de [Olanda], do Reino de Angola, tirando uma imagem de Cristo
Senhor Nosso que o dito senhor tinha lançado no fogo, a qual ele trazia
no seu Bentinho; e lhe dissera que seu senhor tinha lançado no fogo
aquela Imagem para se queimar./ e que o dito Inacio Ferreira lhe dissera
a ele denunciante que ele fazia a figura de Cristo, e que falava pela boca
do Espirito Santo. E que [...]; e que Nossa Senhora era sua mulher.
Testemunhas: João da Costa, morador no Catolé, fazenda de Francisco
[Alves] Maia, na Ribeira das Piranhas, que foi seu camarada; Ignacio
Borges dos Santos, morador na Água Suja, junto ao Taboleiro da Areia,
Andre Correa, que se ausentou para o [Cratiús]. E a sua casa junto do
Joaseiro em um vazante. Alexandre da Rocha, [compadre] do dito Inacio
Ferreira; o Capitão João da Rocha Vieira, morador junto dele; o Sargento
mor Manoel Ribeiro Bessa, morador no Juazeiro; tudo na freguesia das
Russas, e que costuma lavar as mãos dentro do pote donde se bebe. E al
não disse, de que fiz este termo que comigo assinou, sendo-lhe primeiro
lido e de |f. 324v| e declarado, e disse que estava em tudo conforme o seu
juramento, e nele não tinha mais que diminuir, nem acrescentar, a que
tudo se reporta; e se obriga a sustentar seu dito em todo o tempo que lhe
for reperguntado por ordem dos Ilustríssimos e Reverendíssimos
Senhores Inquisidores da Santa Inquisição da cidade e corte de Lisboa. Dia
mês e ano ut supra.

A rogo da Testemunha – Agostinho + de Souza e Souto. [Cruz]


Frei Miguel da Victoria. [assinatura]
136 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

|f.325r| < 2 > Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores Inquisidores


Esta denúncia deu um crioulo preto forro, natural de Pernambuco,
como dela [...] por ter estado em casa do cúmplice, alguns anos tratando
do seu gado; e informando-me do seu viver, achei que sempre procedeu
bem, e nunca deu motivo de escândalo; e como as testemunhas que nela
dá são pessoas que moram deste lugar distante; e a seca tem apertado
tanto que obriga aos moradores a retirar seus gados para partes
remontadas, nem eu possa seguir mais avante, nem pude tirar mais
testemunhas, por todas andarem espalhadas. As Ilustríssimas
Reverendíssimas mandarão o que for justiça. Em São João, aos 15 de
maio de 1748.

O comissário Frei Miguel da Victoria. [assinatura]

|f. 325v| Termo de Juramento


Aos vinte um do mês de maio tomei o juramento dos Santos
Evangelhos em o missal que me foi dado pelo Reverendo Comissário Frei
Miguel da Vitória sob cargo do qual me encarregou que bem e
verdadeiramente satisfizesse a obrigação e guardasse segredo, e
recebido por mim o dito Juramento assim prometi fazer de que fiz este
termo em que me assinei e o dito Reverendo Comissário e eu, o Padre
Leonardo Bezerra Cavalcanti, escrivão eleito nas diligências do Santo
Ofício, o escrevi. Frei Miguel da Victoria.
Manoel Pereira e Souza, natural da Cidade de Lisboa, Freguesia da
Santa Catherina do Monte Sinai, casado, morador neste Distrito de São
João da Freguesia das Russas, Capitania do Siarâ, Testemunha Jurada
aos Santos Evangelhos em que pôs sua mão direita e prometeu dizer
verdade do que presenciou por [mandado] do Reverendo Comissário
sobre a denúncia que se deu de Inácio Ferreira de Albuquerque sobre o
Amanda Teixeira • 137

ter enterrado uma imagem junto à sua porta, e perguntado a ele


testemunha pelo referido disse. Que o Reverendo Comissário o mandou
tomar [fé] da dita Imagem em companhia do escravo por nome João, e
Vitoriano da Costa, de madrugada, sem que fossem vistos, e que
chegando a casa donde morou Inacio Ferreira de Albuquerque
Maranhão, o levou a ele testemunha o dito escravo João [obra] de três
braças, pouco mais ou |f.326-r| <3> ou menos distante de sua porta,
encostado à cerca de sua casa o dito preto João cavou, e abrindo um
buraco achou uma imagem de Santo Antonio sem cabeça e o menino
JESUS sem cabeça e braços e o mesmo Santo sem a sua mão direita, o
qual entregou a Vitoriano da Costa para o trazer a presença do
Reverendo Comissário e de mim, escrivão para tomarem [fé] do dito
caso, e também disse ele testemunha que é fama pública que o dito
Ignacio Ferreira de Albuquerque Maranhão é tido, e havido por cristão-
novo natural da cidade da Paraíba e nela casado, e que é voz pública que
costuma enterrar imagens e al não disse nem do costume, que assinou
com o Reverendo Comissário depois de lhe ser lido e declarado este seu
juramento bem inteligivelmente disse que estava em tudo conforme o
que tinha dito e declarado, e que não tinha mais que dizer, acrescentar,
nem diminuir sub cargo do Juramento dos Santos Evangelhos que outra
vez lhe foi dado e se obrigou a sustentar seu dito. Em qualquer tempo
que lhe for reperguntado por ordem dos Ilustríssimos e
Reverendíssimos Senhores Inquisidores da Cidade e Corte de Lisboa, e
em tudo guardar segredo. E eu, Leonardo Bezerra Cavalcanti, escrivão
eleito, o escrevi.

Frei Miguel da Victoria [assinatura]


Manoel Pereira e Souza [assinatura]
138 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

|f. 326v| Vitoriano da Costa, homem pardo casado com Luiza dos Santos,
natural da vila de Porto do Calvo, que vive de criar gados, morador, e
assistente de Antonio Nunes Maltes, Ribeira de Jaguaribe, freguesia de
Nossa Senhora do Rosário do Lugar de Russas deste Bispado de
Pernambuco, testemunha jurada aos Santos Evangelhos que lhe foi dado
no Livro deles pelo Reverendo Comissário em que pôs sua mão direita e
prometeu dizer verdade do conteúdo nesta denúncia: Disse que sendo
no dia dezenove deste presente mês de maio, pelas cinco horas, e meia
da tarde pouco mais ou menos, Retirando-se para sua casa encontrou
com o preto João escravo de Inácio Ferreira de Albuquerque Maranhão,
o qual lhe referiu vários sucessos que seu Senhor cometeu por donde se
fazia suspeito na fé, e para maior certeza de sua verdade o
acompanhasse para lhe mostrar onde seu Senhor tinha uma imagem
enterrada, o que com efeito seguiu o dito escravo que ia comboiar
afastado de seu senhor em um carro para se mudar para este distrito de
São João.
E sendo pelas quatro horas da madrugada, pouco mais ou menos se
ajuntou com Manoel Pereira de Souza na casa do mesmo Ignácio
Ferreira de Albuquerque Maranhão amanhecendo para o dia vinte de
maio em uma segunda feira, ao sair da mesma casa junto à cerca cavou
o dito preto João em presença dele testemunha e de Manoel Pereira e
Souza e tirou uma imagem de Santo Antonio em bom uso sem cabeça e
sem a metade do braço direito, e a cabeça |f.327-r| E a cabeça do menino
JESUS fora e tomando ele testemunha a trouxe a presença do Reverendo
Comissário e de mim escrivão para o efeito de tomar conhecimento do
dito caso.
E sabe mais por ser fama pública que o dito denunciado tem fama
de Cristão novo, e é natural da Cidade da Paraíba, casado na mesma, mas
não sabe o nome da dita sua mulher, e a razão do seu dito é por ter
Amanda Teixeira • 139

conhecimento dele dito denunciado há muitos anos que vive nesta terra
fora de sua mulher e sempre reparou que o dito denunciado nunca
cuspiu. E al não disse nem do costume, o qual assinou com o Reverendo
Comissário depois de lhe ser lido este seu Juramento bem clara e
distintamente, e respondeu que em tudo estava conforme o seu dito e
não tinha mais que dizer, acrescentar nem diminuir e se obriga a
sustentar e afirmar o seu Juramento como dito em todas as vezes e em
qualquer tempo que lhe for reperguntado por ordem dos Ilustríssimos
e Reverendíssimos Senhores da Santa Inquisição da Cidade e Corte de
Lisboa e prometeu guardar segredo sub cargo dos Juramentos dos
Santos Evangelhos que outra vez lhe foi dado, assistindo a ele e a seu
dito o Reverendo Licenciado João Pereira de Lima, cura e Vigário da Vara
da Freguesia de Nossa Senhora do Rosário de Russas que presenciou a
entrega da dita imagem e na forma que se achou e entregou |f. 327v| Ao
Reverendo Comissário e eu, o Reverendo Padre Leonardo Bezerra
Cavalcanti escrivão eleito para as diligências do Santo Ofício, a escrevi.

Frei Miguel da Victoria [assinatura]


O Padre João Pereira de Lima [assinatura]
Cura e Vigário da Vara [assinatura]
Vituriano da Costa [assinatura]

A folhas (sic) três verso na terceira regra, diz morador e assistente


na fazenda de Antonio Nunes Maltes. E eu escrivão escrevi.
João Ferreira, escravo do denunciado, ladino, testemunha referida
pelos denunciantes conteúdos nesta denúncia depôs perante o
Reverendo Comissário e os Reverendos Licenciados, o Reverendo Padre
João Pereira Lima e o reverendo Padre José Lopes de Santiago, cura que
140 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

foi desta freguesia, e de mim, escrivão que reconheço pelo próprio de


que se trata.
Disse ele testemunha que é verdade pelo ver que seu senhor Inácio
Ferreira de Albuquerque Maranhão que no ano da cheia grande que
dizem aos Reverendos Padres Ratificantes que foi no ano de mil e sete
centos e quarenta e um, tomara uma imagem, não está presente se era
de Santo ou Santa, a enterrara com os cabelos da barba que tinha feito
debaixo da cama donde o dito denunciado se costumava deitar, o que
sabe pelo ver, e outro rapaz, seu parceiro 1, que diz assistia com a mulher
|f.328-r| A mulher do dito denunciado da Cidade da Paraíba na paragem
chamada [oportinho], o qual rapaz diz ele testemunha que sua senhora
o vendera a qual se chama Angela, mulher parda.
E que no ano que foi cura desta freguesia Ambrosio de Mena, que
pela conta que dá o Reverendo Licenciado José Lopes de Santiago
[sucessor] do dito de trinta e seis para trinta e sete, vira ao dito seu senhor
lançar ao fogo uns bentinhos com uma Imagem de Cristo em dia de peixe,
e que pondo a panela ao fogo vira estar se queimando a imagem, a qual o
dito tirou, e no dia sexta-feira, que se contaram dezessete deste mês de
maio presente, mudando-se o dito seu senhor do Tabuleiro da Areia para
este distrito de São João, viu enterrar uma imagem debaixo de umas
palhas, e outra junto à cerca da sua casa, a qual ele desenterrou em
companhia de Vitoriano da Costa Moreira e de Manoel Pereira e Souza
para a trazerem à presença do Reverendo Comissário.
Como também sabe pelo ver que seu Senhor costuma lavar as mãos
no pote donde se bebe água, e não costuma comer carne de porco; como
também quando o dito seu senhor o quer castigar o faz sempre na sola
dos pés. E al não disse nem do costume, qual dito Juramento lhe foi lido

1
No original, “pareceiro”.
Amanda Teixeira • 141

e declarado em presença dos Reverendos Padres ratificantes clara e


distintamente; e disse que em tudo estava pelo que dito é, e não tinha
mais que acrescentar, diminuir nem dizer de |f. 328v| Dizer de novo, sob
cargo do qual se obrigou a sustentar seu dito todas as vezes que lhe for
perguntado por ordem dos Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores
Inquisidores da Santa Inquisição da Cidade e Corte de Lisboa, e assinei
a rogo dele testemunha com o reverendo Comissário e os Reverendos
Padres que presentes estavam, e eu o Padre Leonardo Bezerra
Cavalcanti escrivão o escrevi.

Frei Miguel da Victoria. [assinatura]


Assino a rogo do denunciante. João Ferreira.
João Pereira de Lima, Cura e Vigário da Vara [assinatura]
Padre José Lopes de Santiago [assinatura]

E ida a testemunha para fora, foram perguntados os Reverendos


Padres Ratificantes se o preto João Ferreira lhes parecia que ele falava
verdade no que dizia e merecia crédito, respondeu o Reverendo
Licenciado João Pereira de Lima, Cura, e Vigário da Vara desta freguesia,
que assim lhe parecia que falava verdade e merecia crédito: porquanto
não supõe que o dito escravo levantasse isto de sua cabeça, razão porque
se a imagem é de seu Senhor como parece na muda da casa que fez para
este lugar de São João – a havia de achar falta, e não tinha necessidade
de a ele mesmo enterrar por seu senhor lhe não ter dado causas para
isso nem |f.329-r| nem tão pouco havia de chamar testemunhas por o
seu delito, e no mais as testemunhas que depõem do fato são pessoas
tementes a Deus e de boa vida em tudo concordam com o dito do mesmo
escravo, e ele como as suas [...] quanto mais que [o mesmo] não sabe ler,
nem escrever, e quando fosse falso o seu Juramento no modo com que
142 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

foi inquerido em nossa presença havia de fazer alguma [variação nas]


palavras. E perguntando o Reverendo comissário ao Reverendo
Licenciado João Lopes de Santiago, cura que foi desta freguesia que disse
do seu parecer nesta matéria, [resguarda o mesmo], e tornaram a
assinar com o Reverendo Comissário de que fiz este termo, e eu o Padre
Leonardo Bezerra Cavalcanti, escrivão, o escrevi.

Frei Miguel da Victoria [assinatura]


João Pereira de Lima, cura e Vigário da Vara [assinatura]
o Padre José Lopes de Santiago. [assinatura]

|f. 329v| O Sargento Maior Manoel Ribeiro Bessa, casado, que vive de
seus gados e morador na sua fazenda do [Joazeiro] desta [Tibira],
freguesia das Russas, natural da Freguesia de São Pedro da Cruz, uma
légua para cima da [Reifana 2] do Souza do Bispado do Porto de idade que
disse ser de cinquenta e sete anos, pouco mais, ou menos; testemunha
Jurada aos Santos Evangelhos que lhe foi dado pelo Reverendo
Comissário no livro deles e assim pôs sua mão direita e prometeu dizer
tudo o que sabia, e e em verdade obrigando-se do mesmo Juramento
guardar segredo.
E logo por ele testemunha foi dito em presença do Reverendo
Comissário e de mim escrivão que ele vinha denunciar de Ignacio Ferreira
de Albuquerque Maranhão sobre vários erros e cousas que dele tem
ouvido, e é certo ter conhecimento do dito a muitos anos a esta parte,
principalmente por espaço de seis anos que esteve o dito criando os seus
gados à sua fazenda de Juazeiro vivendo com casa a parte, [e vendo]

2
É possível que se trate da igreja de São Pedro localizada em Arrifana de Sousa (atualmente Penafiel,
cidade portuguesa que pertence ao distrito do Porto).
Amanda Teixeira • 143

sempre [...] com as contas na mão lhe dissera que o rezar era bom, mas
que devia de ter suas horas, ou de manhã, ou de tarde, ou a noite, ao que
o dito lhe respondeu que tomara ele enganar bem a Deus e que no ano de
quarenta e quatro retirando as suas éguas para o Olho da Agua no
caminho do Apudi achara lá no mesmo lugar um escravo do dito, e entre
outras varias conversas que teve com o dito escravo Manoel Ferreira; lhe
disse que seu Senhor costumava Lavar as mãos no pote donde eles bebiam
água, e também lhe disse Vitoriano da Costa Moreira homem Pardo, que
um escravo por nome João Ferreira do dito denunciado lhe dissera que
vindo em uma ocasião buscando a casa reparara que Seu Senhor levava
um cavador na mão, e uma Ima |f. 330r|, digo, uma cousa na mão chegada
ao peito, e não sabendo o que era se pôs a observar o que poderia ser e
voltando o Senhor do dito escravo de casa mudada para este Lugar de São
João fora o dito escravo ver o que seu Senhor ali tinha enterrado, e
achando ser uma Imagem, o disse ao dito Vitoriano de Castro Moreira
para que visse o que seu Senhor fazia, o qual dito Vitoriano da Costa disse
ao negro que Logo o denunciasse, estas mesmas palavras, e na forma que
acontecia deu parte a ele denunciante o dito Vitoriano da Costa Moreyra,
e a razão do seu dito é, porque, é fama publica desde o tempo que o
denunciante assiste em Jagoaribe sempre foi tido e havido o denunciado
por Cristão novo, e algumas pessoas lho tem dito na sua presença de que
ele faz pouco caso, e desde o tempo que o conhece nunca o viu cuspir, e
também é fama pública que não come carne de porco e é natural da
Paraíba e nela casado, e a muitos anos não faz vida com sua mulher,
porque desde o ano de vinte e dous nunca mais tornou a Parahiba e
declarou ele denunciante que, o que o obrigou a ele testemunha a
denunciar do dito Ignacio Ferreira de Albuquerque Maranhão é somente
144 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

o zelo da fé e serviço de Deus nosso Senhor, e não ficar Ilaqueado 3 nas


censuras da carta monitória dos Senhores Inquisidores que se publicou
nesta frguesia, e não [...] o ter ele denunciante tido demanda que o dito
[demoveu] ao denunciante injustamente; mas sempre ele denunciante se
tratou com ele no termo público. E al não disse e do costume declarou ser
seu compadre do dito denunciado e assinou seu dito com o Reverendo
Comissário depois de lhe ser lido clara, e distinta |f. 330v| E distintamente
que ele muito bem entendeu, e percebeu, e disse que em tudo estava
conforme seu Juramento que tinha dado, e não tinha mais que dizer
diminuir nem acrescentar de novo, e nele se ratificava, e tornava a dizer
de novo e se obriga a sustentar este seu Juramento todas as vezes que lhe
for preguntado por ordem dos Reverendíssimos e Ilustríssimos Senhores
Inquisidores da Santa Inquisição da Cidade e Corte de Lisboa. Eu, o
Reverendo Leonardo Bezerra Cavalcanti; escrivão, o escrevi.

Frei Miguel da Victoria [assinatura]


Manoel Ribeiro Bessa [assinatura]

Termo de encerramento
E logo, em vinte e um neste presente mês de Maio de mil e
setecentos e quarenta e oito houve o dito Reverendo Comissário do
Santo Oficio Frei Miguel da Victoria esta denuncia por fechada, e
mandou que fosse remetida para o Tribunal da Santa Inquisição da
Cidade e Corte de Lisboa para que os Ilustríssimos e Reverendíssimos
Senhores Inquisidores mandarem o que for Justiça do que fiz este termo
dia mês e ano ut supra e eu o Padre Leonardo Bezerra Cavalcante,
escrivão eleito, escrevi.

3
Segundo definição de Bluteau, “ilaquear” seria “cair no laço; na tentação [...]. Enlaçar, enlear, enredar”.
(Silva, 1789, p. 130).
Amanda Teixeira • 145

|f. 331r| <8> Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores Inquisidores


Estando devassando nesta Ribeira de Jaguaribe de Manoel Dias de
[Carvalho] conteúdo no Mandado de Vossas Ilustríssimas e
Reverendíssimas que com esta remeto ao Comissário Antonio Alvares
Guerra da supervivencia de sua primeira mulher denunciaram perante
mim de Ignacio Ferreira de Albuquerque Maranhão; sobre o conteúdo
nele declarado, me havi do mesmo escrivão também para esta denuncia
que Vossas Ilustríssimas Reverendissas (sic) me não estranharão em
razão de mais fé e credito para o Preto do dito denunciado; que me
parece não ter necessidade de mentir; e sempre o denunciado se diz, por
quanto, como se mudou para este lugar e tem visto o virem testemunhas
de fora sem saber para o quê, preguntou ao Reverendo Cura se era
diligência, do Ilustríssimo Bispo ou da Santa Inquisição, e pelas
informações que tenho do Sargento Denunciado, é homem pouco
temente a Deus; as mais testemunhas são pessoas capazes a que se pode
dar fé, e crédito, de boa vida, e tementes a Deus e nunca foram pessoas
escandalosas, e sempre trataram verdade a vista de que Vossas
Ilustríssimas Reverendíssimas mandarão o que forem servidos. A
pessoa de Vossas Ilustríssimas Reverendíssimas Guarde Deus muitos
anos. Em 21 de Maio de 1748.

O Comissário Frei Miguel da Victoria [assinatura]

|f. 332r| Contra Ignacio Ferreira de Albuquerque – Freguesia de Russas,


Bispado de Pernambuco
Os Inquisidores Apostólicos contra a herética pravidade, e
apostasia nesta Cidade de Lisboa, e seu distrito [et cetera] Fazemos saber
a Antonio Alvares Guerra, ausente a Felippe Rodrigues Campello,
146 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Comissários do Santo Oficio na Villa do Recife; que nesta Mesa consta


por denuncias remetidas pelo Comissário Frei Miguel da Vitoria, que
Ignacio Ferreira de Albuquerque Maranhão, que se diz ser Cristão Novo,
criador de gado, casado com Angella mulher parda, natural da Cidade
da Paraíba, e morador no lugar de são João freguesia das Russas em
Jaguaribe Bispado de Pernambuco; não come carne de porco, lava as
mãos no pote de água de que bebe a sua família, castiga os seus escravos
nas solas dos pés, proferiu, que tomara ele enganar bem a Deus, lançou
no fogo uma Imagem de Cristo Senhor Nosso, e enterrou outra imagem
de Santo Antonio com o menino Jesus; que |f. 332v| se desenterrou sem
cabeça, e com um braço quebrado, e o menino também sem cabeça, e
que é homem de má vida, e consciência, e porque do sobredito resulta
presunção de que ele vive apartado do uso comum dos fieis, e da Religião
católica Romana. Autoridade Apostólica, cometemos a Vossa Mercê, que
sendo lhe esta entregue, faça diligência, de que na mesma se trata,
elegendo para escrivão dela a um sacerdote cristão velho de boa vida e
costumes, a quem dará o juramento dos Santos evangelhos, <+>, sob
cargo do qual prometerá escrever com verdade, e ter segredo, de que se
fará termo ao principio por ambos assinado. E logo na dita freguesia das
Russas, na parte que a Vossa Reverendíssima parecer mais acomodada
para a diligência se fazer como convém, mandará vir perante si a
Manoel Pereira de Souza natural de Lisboa, e morador na dita freguesia
das Russas = Vitoriano da Costa homem pardo criador de gado morador
na mesma freguesia = João Ferreira escravo do mesmo Ignacio Ferreira
de Albuquerque = Sargento Mor Manoel Ribeiro Beça, e os mais que eles
< E cometendo-se a quem não seja comissário por provisão, tomará
também o juramento da mão do mesmo escrivão. > |f.333r| eles
referirem, e souberem do que se pretende averiguar; e serão cristãos
velhos, legais, e fidedignos, e dando-lhe o juramento dos Santos
Amanda Teixeira • 147

Evangelhos para dizerem verdade, e terem segredo, as perguntará


judicialmente pelos interrogatórios seguintes.

1. Se sabe, ou suspeita o para que é chamado, e se o persuadiu alguma pessoa que,


sendo perguntado por parte do Santo Oficio, dissesse mais, ou menos do que
soubesse, e fosse verdade.
2. Se conheceu a Ignacio Ferreira de Albuquerque Maranhão criador de gado
natural da Cidade da Paraíba, e morador no lugar de São João freguesia das
Russas em Jaguaribe Bispado de Pernambuco; se sabe seja natural, e morador
donde se diz, e que razão tem de conhecimento.
3. Se sabe que o dito Ignacio Ferreira de Albuquerque seja bom católico, e temente
a Deus, ou pelo contrario, mau católico, vivendo apartado do uso comum dos
fieis, e da Religião Católica Rom |f.333v| Romana; e que obrava, ou em que o
mostrava; e que razão tem ele testemunha para o saber; se o presenciou, ou se
o ouviu, a quem.

Se o dito Ignacio Ferreira de Albuquerque venera as Imagens dos


Santos, ou pelo contrario, as despreza, a que Imagens desprezou, e que
desprezos lhe fez; e se ela testemunha o presenciou, ou ouviu, e a quem,
ou que razão tem para o saber.
Se o mesmo Ignacio Ferreyra proferiu algumas palavras contra a
pureza de Deus Nosso Senhor, ou dos santos, que palavras proferiu, e
contra quem, quem estava presente, e se ele testemunha as ouviu, ou
que razão tem para o saber. E se o dito Ignacio Ferreira de Albuquerque
é tido, havido, e reputado por cristão-velho, ou por cristão-novo.

Deporá a testemunha tudo o que souber, com todas as circunstâncias, e


dando de tudo a razão de seu dito.

4. Se o dito Ignacio Ferreira, quando disse ou fez o referido, estava em seu juízo
perfeito, ou pelo contrário tomado do |f.334r| do vinho, ou de outra alguma
paixão que lhe perturbasse
148 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

6. Se tudo o que tem testemunhado passa na verdade, e se tem que declarar ao


costume.

Estas perguntas fará Vossa Mercê a cada uma das testemunhas, que
no princípio de seus testemunhos dirão seus nomes, cognomes, ofícios,
pátrias, habitações, qualidades da limpeza de seu sangue, e idades, e no
fim, assinarão, e sendo mulher, que não saiba escrever, o escrivão da
diligência assinará por ela de seu rogo, pelo qual mandará fazer
declaração dos dias, que nela gastarem fora de suas residências. E se as
testemunhas depuserem contra o dito Ignacio Ferreyra, serão
ratificadas as que depuserem contra, na forma do estilo do Santo Ofício.
E ultimamente dará Vossa Mercê a sua informação, declarando o que
souber, e alcançar assim a respeito do que se pertende 4 averiguar, como
da fé, e crédito que o |f.334v| às testemunhas se deve dar, escrevendo
tudo pela sua mão, sem o comunicar ao escrivão, e faça a diligência na
sobredita forma, e com brevidade, com a mesma a remeterá a esta Mesa,
sem que lá fique cópia, ou treslado. Dada em Lisboa no Santo Oficio, sob
nossos sinais, e selo do mesmo aos vinte e seis dias do mês de Agosto de
mil, e setecentos, e cinquenta anos. Manoel Lourenço Monteyro a fez.

Simão José Silveira Lobo [assinatura]


Manoel Varejão e Távora [assinatura]
Luiz Barata de Lima [assinatura]

[Desta], e selo 275


cta. 36
Reqta a f. 440.

4
No original, “pertende”.
Amanda Teixeira • 149

|f.346r 5| Autuamento de um mandado do Tribunal do Santo Oficio contra


Ignacio Ferreira de Albuquerque Maranhão
Escrivão: o Padre Leonardo Bezerra Cavalcanti.
Comissário: o Padre Joze Lopes de Santiago.
Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil e sete
centos e cinquenta e dois nesta freguesia de Nossa Senhora do Rosario
das Russas no Lugar da Capela do [Senhor] São João em casas aonde
residia o Reverendo Licenciado José Lopes de Sanctiago a quem foi
remetido um Mandado do Tribunal do Santo oficio pelo reverendo
comissário do dito Tribunal o Reverendo Licenciado Antonio Alvares
Guerra, aonde foi vindo o dito Juiz Comissário comigo escrivão abaixo
declarado para ambos juntos fazermos a diligência que no dito mandado
se continha de que fiz este termo e eu, o Padre Leonardo Bezerra
Cavalcanti, escrivão, que o escrevi.

Termo de Juramento
Aos doze de Janeiro de mil sete centos e cinquenta e dois neste Sitio
do Senhor São João da freguesia de Nossa Senhora do Rosário das Russas
Capitania do Siará Grande, em casas de Damazo de |f.346v| Damazo de
Azevedo aonde residia e foi vindo o Reverendo Licenciado José Lopes de
Santiago comigo escrivão abaixo nomeado a quem dei o Juramento dos
Santos Evangelhos em um livro deles em que pôs sua mão direita, e o
tomei da mão dele para efeito de fazermos a diligência do mandado
junto, e tudo o que nele se contém, bem e fielmente de que fiz este termo
em que se assinou o Reverendo Juiz Comissário e eu o Padre Leonardo
Bezerra Cavalcanti escrivão que o escrevi.

5
Do fólio 335 ao 345 consta uma denúncia de sodomia não-relacionada ao caso.
150 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Primeira Testemunha
O Tenente Manoel Pereira e Souza homem branco e casado morador no
Sitio de São João Cristão Velho que vive de criar seus gados natural de
Lisboa de idade que disse ser de trinta e seis anos, pouco mais, ou menos,
testemunha Jurada aos Santos Evangelhos, em um livro deles em que
pôs sua mão direita, sub cargo do qual prometeu dizer verdade, e do
costume disse nada.

Artigo Primeiro 1º
E perguntado a ele testemunha pelo primeiro artigo disse não fora
persuadido de pessoa alguma para que dissesse mais ou menos do que
lhe fosse perguntado de por parte do Santo Oficio.

Artigo 2º
Disse ao Segundo artigo que conhecera o defunto Ignacio Ferreira de
Albuquerque Maranhão morador no Sitio de São João da freguesia de
Nossa |f. 347-r| Senhora do Rosario das Russas, e a razão que tinha de o
conhecer era por ser seu vizinho, e que sabe que era natural da Paraíba
por ele lho dizer muitas vezes.

Artigo 3º
E perguntado pelo terceiro artigo, disse que nunca presenciara no dito
defunto Ignacio Ferreira de Albuquerque ação alguma de [ruim] 6 Católico,
e nem que vivesse apartado do uso comum da Religião Católica, e que só
sim dissera a ele testemunha Damazo de Azevedo de Ataíde que em uma
conversa que com ele tivera o dito defunto lhe dissera que quando queriam

6
No original, “rohim”.
Amanda Teixeira • 151

dizer mal dele diziam era do Batismo de Moisés, como se este fora mau, ao
que o dito Damazo de Azevedo disse, ele respondera que tal Batismo se fora
bom, fora no tempo da Lei escrita. E disse mais ele testemunha que fora
em companhia de Vitoriano da Costa homem pardo levando por guia um
escravo do dito defunto por nome João do gentio de Guiné / porem Ladino
/ a uma casa em que tinha morado o dito defunto, tendo dela saído havia
três dias, aonde acharam uma Imagem de Santo Antonio com o menino
Jesus nos braços enterrada fora da casa e ambos sem cabeça, sendo este
lugar em que estavam as ditas imagens apartado de casa das pessoas pouco
mais ou menos. E disse mais que a notícia vulgar que corria no povo, era
ser o dito defunto Ignacio Ferreira |f. 347v| Ferreira cristão novo.

Artigo 4º
E perguntado a ele testemunha perlo quarto artigo disse nada.

Artigo 5º
E perguntado pelo quinto artigo, disse que quanto tinha jurado era
a mesma verdade, e mais não disse, e nem ao costume. E sendo lhe lido
este seu testemunho, e por ele ouvido e entendido, disse estava escrito
na verdade, e nele se afirma, ratifica e torna a dizer de novo sendo
necessário e nele não tem que acrescentar, nem diminuir, mudar, ou
emendar, nem de novo que dizer, ao costume sub cargo do Juramento
dos Santos Evangelhos que outra vez lhe foi dado, ao que estiveram
presentes por honestas e religiosas pessoas que tudo viram e ouviram,
e prometeram dizer verdade no que fossem perguntadas, e guardar
segredo sub cargo de Juramento dos Santos evangelhos que lhe foi dado
os Reverendos Padres, o Padre Mestre Domingos Salgado, e o Reverendo
Padre Joaquim Soares de Almeida, e assinaram com a testemunha e com
152 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

o Reverendo Comissário, o Licenciado José Lopes de Santiago, e eu, o


Padre Leonardo Bezerra Cavancanti escrivão que o escrevi.

|f. 348r| [...] o escrevi.

Santiago [assinatura]
Manoel Bezerra e Souza [assinatura]
Joaquim Soares de Almeida [assinatura]
Pe. Domingos Salgado. [assinatura]

Saída a testemunha para fora foram perguntados os Reverendos


Padres ratificantes se lhes parecia que a testemunha falava verdade, e
merecia crédito, por eles foi dito que lhes parecia que a testemunha
falava verdade e merecia crédito, e tornaram a assinar com o Reverendo
comissário; e eu, o Padre Leonardo Bezerra Cavalcanti, o escrevi.

Santiago [assinatura]
Joaquim Soares de Almeida [assinatura]
O Padre Domingos Salgado [assinatura]

Testemunha 2ª
João Ferreira, homem preto natural da Costa da Mina escravo do
defunto Ignacio Ferreira de Albuquerque de Idade que disse ser de trinta
anos pouco mais, ou menos, testemunha jurada aos Santos Evangelhos
em um livro deles em que pos sua mão direita e prometeu dizer verdade.

Artigo 1º
E perguntado a ele testemunha pelo primeiro artigo, disse que
suspeitava o para que era chamado, e que |f.348v| e que ninguém o
Amanda Teixeira • 153

persuadiu a que por parte do Santo Ofício dissesse mais, ou menos do


que soubesse, e fosse verdade.

Artigo 2º
Ao segundo artigo disse: que conheceu a Ignacio Ferreira de
Albuquerque, porque foi seu escravo, e que sabe que era natural da
Paraíba, por lho dizer um seu pareceiro por nome Antonio, e que morou
no Lugar de São João, Freguesia das Russas.

Artigo 3º
Ao terceiro artigo disse que lhe parecia que o defunto Ignacio Ferreira
era Católico, pelo ver andar com as contas na mão, porém que quando
estava doente da doença de que morreu mandava assentar as pessoas
que o visitavam, e dormir a enfermeira que lhe assistia, chamada
Antonia Maria em cima de uma caixa, tendo dentro dela uma imagem
de um santo, ou santa, e disse mais ele testemunha que o dito defunto
era cristão novo por lho dizer uma sua pareceira Maria. E disse mais ele
testemunha que vindo de pescas e entrando com a pescaria para a
cozinha vira uma imagem do Santo Cristo dentro do fogo junto com uns
bentinhos queimando-se e tirando fora; e querendo o levantar vozes por
ficar admirado, sua pareceira Maria lhe dissera que se calasse.

Artigo 4º
|f.349r| E perguntado pelo quarto artigo, disse que ele vira a seu
Senhor, o defunto Ignácio Ferreira / vindo do rio com um pote de água
/ enterrando uma imagem de Santo Antonio e ao depois disse ele
testemunha a Vitoriano da Costa que seu Senhor tinha enterrado a dita
imagem e dando parte disto o dito Vitoriano da Costa a Manoel Pereira
e Souza, foram ambos levando por guia a ele testemunha ao Lugar
154 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

adonde estava enterrada a dita imagem, e assim a acharam enterrada


com um menino Jesus com as cabeças de ambos quebradas e as tiraram
fora, e as entregaram ao Reverendo Padre Frei Miguel da Vitoria.

Artigo 5º
E no quinto artigo disse que tudo que tinha testemunhado era
mesmo verdade, e do costume nada, e mais não disse; e sendo-lhe lido
este seu testemunho, por ele ouvido e entendido, disse estava escrito na
verdade, e nele se afirma ratifica, e torna a dizer de novo sendo
necessário e nele não tem o que acrescentar diminuir, mudar ou
emendar, nem de novo que dizer ao costume sub cargo de Juramento
dos Santos Evangelhos que outra vez lhe foi dado, ao que estiveram
presentes por honestas e religiosas pessoas, que tudo viram, e ouviram
e prometeram dizer verdade no que fossem perguntadas, e guardar
segredo sob cargo do Juramento dos Santos Evangelhos que lhe foi dado
os Reverendos Padres Mestres Domingos Salgado e Joaquim Soares de
Almeida, e assinaram com a testemunha, e com o Reverendo
Comissário, e eu, o Padre Leonardo |f. 349v| Leonardo Bezerra
Cavalcanti escrivão que o escrevi e declaro que pela testemunha não
saber escrever assinou o Reverendo Comissário o seu nome inteiro.

Jozé Lopes de Santiago [assinatura]


João Ferreira de Albuquerque [nome completo]
Joaquim Santos de Almeida [assinatura]
O Padre Domingos Salgado [assinatura]

Saida a testemunha para fora foram perguntados os Reverendos


Padres ratificantes se lhes parecia que a testemunha falava verdade, e
merecia crédito e por eles foi dito que sim lhes parecia falava verdade e
Amanda Teixeira • 155

merecia crédito, e tornaram a assinar com o Reverendo comissário e eu


o Padre Leonardo Bezerra Cavalcanti escrivão o escrevi.

Santiago [assinatura]
Joaquim Santos de Almeida [assinatura]
O Padre Domingos Salgado [assinatura]

Maria de Almeida, mulher preta, moradora no sitio do Taboleiro de


Areia da freguesia das Russas casada que vive de sua agência, natural de
Angola, de idade que disse ser de cinquenta anos pouco mais, ou menos,
testemunha jurada aos Santos |f. 350r| Santos Evangelhos em o livro
deles em que pôs sua mão direita e prometeu dizer verdade.

Testemunha 3ª

Artigo 1º referida
E preguntada a ela testemunha pelo primeiro artigo disse que não sabia
nem suspeitava o para que era chamada.

Artigo 2º
Ao segundo artigo disse que conheceu Ignacio Ferreira de Albuquerque
muito bem, porque fora sua escrava muitos anos, e que sabia que era
natural da cidade da Paraíba, e depois morador na freguesia das Russas
em um sítio chamado Taboleiro da Areia por ele lho dizer muitas vezes,
e que era casado na dita cidade de Paraíba.

Artigo 3º
Ao terceiro disse que o vira muitas vezes lavar as mãos no pote de
água em que a sua gente de casa bebia, e que desconfiava muito de ser
156 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

homem catolico, e que sabia que tinha botado uma imagem de Cristo no
fogo, por estar pregada, digo, cozida a uns [bentinhos] que ela mesma
testemunha tinha cozi- |f.350v| cozido por [mandado] dele, e a razão que
tem de o saber é pelo negro João seu pareceiro lho dizer, e ela propria o
ver. e disse mais que uns santos que o defunto tinha em um oratório não
sabe o que lhe fez por não aparecer nenhum, e que poucas vezes comia
carne de porco, e que quando a comia dizia lhe fazia mal e que corria
noticia pelo povo que ele era cristão novo, e que era oposto a fazerem-
se casamentos, porque todos os que podia desfazer os desmanchava.

Artigo 4º
Ao quarto, disse, não tinha que dizer.

Artigo 5º
Ao quinto disse que tudo quanto tinha testemunhado, que era pura
verdade, e que não tinha que declarar mais nada, e mais não disse, e nem
ao costume; e sendo-lhe lido este seu testemunho, e por ela ouvido e
entendido disse estava escrito na verdade, e nele se afirma, e ratifica e
torna a dizer de novo | Sendo necessário | e nele não tem que
acrescentar, diminuir, mudar, ou emendar, nem de novo que dizer ao
costume sub cargo do Juramento dos Santos Evangelhos, que outra vez
lhe foi dado, ao que estiveram presentes por honestas e religiosas pe
|f.352r| Pessoas que tudo viram e ouviram e prometeram dizer verdade
no que fossem perguntadas, e guardar segredo sub cargo do Juramento
dos Santos Evangelhos que lhe foi dado, o Reverendo Padre Mestre
Domingos Salgado, e o Reverendo Padre Mestre Joaquim Soares de
Almeyda, e assinaram, e pela testemunha não saber escrever, assinou o
escrivão desta diligencia a rogo dela, e o reverendo Juiz Comissário; e
eu, o Padre Leonardo Bezerra Cavalcanti, escrivão, que o escrevi.
Amanda Teixeira • 157

Santiago [assinatura]
Maria de Almeida [nome completo]
Joachim Soares de Almeida [assinatura]
Domingos Salgado [assinatura]

E saindo a testemunha pera fora foram perguntados os Reverendos


Padres Ratificantes se lhes parecia que a testemunha falava verdade e
merecia credito, e por eles foi dito que sim lhes parecia falava verdade,
e merecia credito, e tornaram a assinar com o Reverendo comissário e
eu o Padre Leonardo Bezerra Cavalcanti, escrivão que escrevi.

Santiago [assinatura]
Joaquim Soares de Almeida [assinatura]
O Padre Domingos Salgado. [assinatura]

|f. 351v| Artigo 5º


Damazo de Azevedo de Atahide, homem branco e cristão velho,
solteiro, natural de São Miguel de Facha, Arcebispado de Braga, que vive
de suas fazendas de gados e morador na Ribeira de Jaguaribe, Freguesia
das Russas, Capitania do Seará Grande, de idade que disse ser de setenta
anos, pouco mais ou menos, testemunha jurada aos Santos Evangelhos
em um livro deles em que pôs sua mão direita, e prometeu dizer verdade.
E perguntado a ele testemunha referida pelo primeiro artigo disse
que suspeitava o para que era chamado, porém que não foi [intimidado] 7
por pessoa alguma para dizer mais ou menos do que soubesse e fosse
verdade.

7
No original, “atimidado”.
158 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Artigo 2º
Ao segundo Artigo disse que conheceu o defunto Ignacio Ferreira
de Albuquerque morador na freguesia das Russas a muitos anos, e a
razão que tem para o conhecer é por morar distante dele quatro léguas,
pouco mais, ou menos, e que sabe que é natural da Paraíba por ele lho
dizer, e outras mais pessoas.

|f. 352r| Artigo 3º


Ao terceiro disse ele testemunha que nunca vira o defunto Ignacio
Ferreira viver apartado do uso comum da Igreja Católica, só sim que em
certa conversa que com ele tivera lhe dissera que algumas pessoas
quando queriam falar mal dele diziam que era do Batismo de Moisés
como se fora mau ao que a testemunha lhe respondeu que seria bom no
tempo da Lei escrita, porém não agora no tempo da Lei da Graça. E disse
mais ele testemunha que o dito defunto era tido, e reputado por muitas
pessoas por cristão novo.

Artigo 4º
Ao quarto disse nada.

Artigo 5º
Ao artigo quinto disse que tudo quanto tem testemunhado passa
na verdade, e mais não disse, nem ao costume, e sendo-lhe lido este seu
testemunho, e por ele ouvido, e entendido, disse estava escrito na
verdade, e nele se afirma, ratifica, e torna a dizer de novo, sendo
necessário, e nele não tem que acrescentar, diminuir, mudar ou
emendar, nem de novo que dizer ao costume sub |f. 352v| sub cargo de
Juramento dos Santos evangelhos que outra vez lhe foi dado ao que
Amanda Teixeira • 159

estiveram presentes por honestas e Religiosas pessoas, que tudo viram,


e ouviram, e prometeram dizer verdade no que fossem perguntados, e
guardar segredo, sub cargo do Juramento dos Santos evangelhos os
Reverendos Padres Mestres, Domingos Salgado, e Joachim Soares de
Almeida, e assinaram com a testemunha, e com o Reverendo comissário,
e eu o Padre Leonardo Bezerra Cavalcanti, escrivão, que o escrevi...

Santiago [assinatura]
Damazo de Azevedo de Ataíde [assinatura]
Joachim Soares de Almeida [assinatura]
O Padre Domingos Salgado [assinatura]

E ida a testemunha para fora foram perguntados os Reverendos Padres


Ratificantes se lhes parecia que a testemunha falava verdade, e merecia
crédito, e por eles foi dito que sim lhes parecia falava verdade, e merecia
crédito, e tornaram a assinar com o Reverendo Comissário, e eu o Padre
Leonardo Bezerra Cavalcanti, escrivão, escrevi.

Santiago [assinatura]
Joachim Soares de Almeida [assinatura]
O Padre Domingos Salgado [assinatura]

|f. 353r| Artigo 1º


Vitoriano da Costa, homem pardo, casado, morador no sítio da Tapera
da freguesia de Nossa Senhora do Rosario das Russas, natural do Porto
do Calvo, que vive de criar gados, de idade que disse ser de cinquenta
anos, pouco mais ou menos, testemunha jurada aos Santos evangelhos
em um Livro deles em que pôs sua mão direita, e prometeu dizer
verdade.
160 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

E perguntado a ele testemunha pelo primeiro artigo, disse que não


sabia nem suspeitava para que era chamado, nem foi persuadido por
pessoa alguma a que sendo perguntado por parte do Santo Ofício
dissesse mais, ou menos do que fosse verdade.

Artigo 2º
Ao segundo artigo disse que conheceu o defunto Ignacio Ferreira de
Albuquerque, e que sabia que era natural da cidade da Paraíba, e que
tudo ele sabe por morar seu vizinho muitos anos na distância de uma
légua.

Artigo 3º
Ao terceiro disse que viu o dito Ignacio Ferreira muitas vezes com as
contas de rezar na mão, e com sinais de católico, porém que sabe que
não comia carne de porco por lho dizer João Hernandes Braga |353v|
Braga e também disse ele testemunha que o dito Ignacio Ferrreira não
cuspia; porem que sabe que enterrara uma Imagem de Santo Antonio
com o Menino Jesus nos braços o que sabe ele testemunha por ir em
Companhia de Manoel Pereira e Souza levando por guia o negro João ao
lugar chamado Tabuleiro de Areia, adiante da casa pouca distância
adonde assistia o dito defunto Ignacio Ferreira aonde cavando a terra
acharam a dita Imagem com a cabeça quebrada, e do Menino Jesus
também. E disse mais que sabe que o dito defunto botara uma Imagem
de Christo dentro do fogo por lho dizer o negro João escravo do dito
defunto, e que era notório ser tido e havido por cristão novo.

Artigo 4º
Ao quarto disse nada.
Amanda Teixeira • 161

Artigo 5º
Ao quinto disse que tudo o que tem testemunhado passa na
verdade, e mais não disse, nem ao costume, e sendo-lhe lido este seu
testemunho, e por ele ouvido e entendido disse estava escrito na
verdade e nele se afirma ratifica, e torna a dizer de novo sendo
necessário e nele não tem que acrescentar diminuir, mudar ou ementar,
e nem de novo que dizer ao costume sub cargo de Juramento dos Santos
Evangelhos, que outra vez lhe foi dado, ao que estive |f. 354r| Estiveram
presentes por honestas e Religiosas pessoas, que tudo viram e ouviram
e prometeram dizer verdade ao que fossem perguntadas, e guardar
segredo sub cargo de Juramento dos Santos Evangelhos que lhe foi dado,
os Reverendos Padres Mestres Domingos Salgado, e Joachim Soares de
Almeida, e assinaram com a testemunha e com o Reverendo Comissário,
e eu, o Padre Leonardo Bezerra Cavalcanti, escrivão, que o escrevi.

Santiago [assinatura]
Vituriano da Costa [assinatura]
Joaquim Soares de Almeida [assinatura]
O Padre Domingos Salgado [assinatura]

E saindo a testemunha 8 para fora foram perguntados os


Reverendos Padres ratificantes se lhes parecia que a testemunha falava
verdade, e merecia crédito, e por eles foi dito que sim lhes parecia falava
verdade, e merecia crédito, e tornaram a assinar com o Reverendo
Comissário, e eu o Padre Leonardo Bezerra Cavalcanti, escrivão, que o
escrevi.

8
O scriptor usa “pera fora”.
162 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Santiago [assinatura]
Joachim de Almeida [assinatura]
O Padre Domingos Salgado [assinatura]

Extra judicialmente o que pude alcançar é que em toda esta terra


aonde morei há treze anos sempre foi tido e havido o dito defunto
Ignacio Ferreira por cristão novo porque dizem é neto de uma Branca
Dias que em penitente, e negativa dizem fora queimada por culpas de
Judaísmo na cidade de Lisboa e que não rezava quando comia na forma
dos mais católicos na imposição das mãos, e tudo o que depuseram [as
testemunhas], o diziam várias pessoas em suas conversas. É o que posso
in formar, São João / 6 de Janeiro de 1752.

O Padre José Lopes de Santiago. 1752 [assinatura]

Para se fazer esta diligência vim eu comissário de [...] daqui dez


léguas e o escrivão, seis, e com estada gastamos quatro dia (sic), de que
fiz este termo por [ausência] do escrivão.

o Padre José Lopes de Santiago. 1752 [assinatura]


23
LIV. 306, 114º CAD., VILA DO ICÓ – ANTONIO
CORREA DE ARAUJO PORTUGAL, POR ALCUNHA
“O JEREMOABO”, BIGAMIA

[f. 26-r] Antonio Correia Portugal – Bigamia

Muito Reverendo Senhor Doutor Antonio Alvarez Guerra


Dou parte a vossa mercê em como nesta frota me chegou a minha
Carta Patente de familiar 1 do Santo Ofício, que os senhores Inquisidores
de Lisboa me fizeram mercê e, juntamente, mandado de Comissão para
o Reverendo cura desta vila me dar posse e juramento, o que se
executou 2 em Domingo, 27 de Abril passado; e neste lugar me reconheça
vossa mercê pronto em dar execução ao que pelos Senhores
Inquisidores e por vossa mercê me for encarregado;
Em cumprimento de minha obrigação dou parte a vossa mercê em
como nesta vila e freguesia do Icó há poucos dias se casou Antonio
Correa Portugal, por Alcunha “o Jeremoabo”; com Joanna Rodrigues,
filha da freguesia de Nossa Sra. da Nazare do Tapicurû, Arcebispado da
Cidade da Bahia, veio à minha casa Manoel Alvez, morador nesta dita
vila, a dizer-me que o dito Antonio Correa Portugal era casado em
Lisboa com Francisca Ribeira Portilha, filha de Manoel Ribeiro Portilho,
moradores na freguesia de São Nicolau; e que tendo ele, dito Manoel
Alvez, notícia certa de como estavam para casar o denunciara ao
Reverendo visitador que na tal ocasião se achava nesta vila, Frei Manoel
de Jezus Maria, e que sem embargo da notícia sempre os casara; é o que

1
No original, “famaliar”.
2
No original, “exzecutou”.
164 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

se me oferece dar parte a vossa mercê. Que Deus Guarde muitos anos,
vila do Icó, 4 de Maio de 1755.

De vossa mercê
Súdito muito pronto

João Lopes Raymundo 3 [assinatura]

3
João Lopes Raymundo, homem branco natural do arcebispado de Braga, era sargento mor de
ordenanças da vila de Icó e havia recebido sua carta patente de familiar há poucos dias, em 27 de abril
de 1755. Cf. ANTT, Diligência de habilitação de João Lopes Raimundo. João, Maço 104, doc. 1724.
Disponível em [Link] Acesso em 04 de outubro de 2022.
24
LIV. 307, 115º CAD., CÍRIO DO TAUÁ – MIGUEL
FERNANDES CAMPELO, CASADO COM
QUITÉRIA DE LIMA, JUDAÍSMO

|f.33-r| Miguel Fernandes Campelo – Judaísmo

Aos três dias do mês de Dezembro do ano de mil, e sete centos, e


cinquenta, e quatro nesta vila do Icó, Freguesia de Nossa Senhora da
Expectação, Capitania do Ceará Grande, por mandado do seu confessor
apareceu perante mim abaixo assinado Francisco de Abreu de Araújo,
casado com Rosa Maria de Andrade, morador na Barra desta mesma
freguesia e disse, que estando Miguel Fernandes Campelo, casado com
Quitéria [Frazão] de Lima, morador no Círio do Tauá desta mesma
freguesia doente, entrara o suplicante Francisco de Abreu no aposento do
dito enfermo e vira que ele estava com uma imagem de Cristo nas mãos e
com uma mão na parte superior da cruz, e outra da parte inferior
esfregando com os dedos na mesma cruz, e ouviu dizer ao dito enfermo
que estava judiando daquele Senhor como costumava fazer na sua casa; e
disse mais que na mesma ocasião ouvira dizer ao tenente João Ferreira dos
Santos, morador nesta mesma freguesia, que os escravos do dito Miguel
Fernandes Campelo diziam que seu Senhor alimpava (sic) as partes
posteriores com uma imagem de Cristo: e disse mais que é fama pública
que o dito Miguel Fernandes Campello usa de Judaísmo, e que até o
presente nunca dissera qual era a Sua Pátria, e de como depois o referido
se assinou comigo. Icó, dia, mês e ano ut supra.

Domingos Salgado Filho [assinatura]


Cura e Vigário da vara do Icó
Francisco de Abreu e Araújo [assinatura]
25
LIV. 308, 116º CAD., MISSÃO DA SERRA DA IBIAPABA
– FRANCISCO DOS SANTOS OU DE FREITAS, ÍNDIO,
BIGAMIA + FRANCISCO PIXAIM, BIGAMIA

|f. 311-r| Ilustríssimos E Reverendíssimos Senhores Inquisidores.

Francisco dos Santos ou de Freitas – bigamia


Francisco Pixaim – Bigamia

Com esta envio segunda resposta do Superior da Serra da Ibiapaba


Manoel de Matos; e ainda que já remeti a primeira via; como nesta
ultima dá parte do segundo casamento doutro Indio, que diz fica preso,
como nela se declara.
Resolvi mandar dizer ao mesmo Padre Superior, que mandasse vir
perante si aos mandantes da Aldeia; e que tomasse seus ditos por
certidão diante de seu [compromisso] e que me remetesse a dita para
enviar a Vossa Senhoria e sendo que depusessem que o dito era casado
duas vezes; como na sua dizia; o retivesse na mesma prisão até segunda
ordem de Vossa Senhoria para mandarem o que forem servidos. que em
semelhantes casos; e em tão longes e remontadas terras, me parecia que
se devia conceder aos comissários plena faculdade para que em
semelhantes casos; e conforme a confissão da parte, poderem remeter
logo os presos, com a [...] culpa [porque] os pobres não tem que [comer]
naquela Prisão da Serra e alguns perecem à míngua. A vista de que
Vossas Senhorias mandarão o que forem servidos.

|f. 311v| Acaracú. 12 de Maio de 1750 anos.


Amanda Teixeira • 167

O Comissário do Bispado de Pernambuco


Frei Miguel da Victoria [assinatura]

|f.312r| Francisco Pixaim – Bigamia


Manoel de Matos da Companhia de JESUS Missionário; e Superior
da Missão de Nossa Senhora da Assunção da Serra da Ibiapaba certifico,
que mandando prender ao Indio Francisco Pixaim por andar sempre
fora da Missão saíram alguns [cabos] da Missão e entre eles o Mestre de
Campo Dom Felipe de Souza Dom Sebastião Saraiva Coutinho, o Alferes
João de Souza, o Alferes Andre [Gyrapayvaya], e os Capitães João Saraiva
e Manoel Saraiva, e diante de mim, e meus companheiros, os
Reverendos Padres Antonio Dantas e João Breyer Alemão disseram que
o dito Francisco Pixaim era casado duas vezes na Igreja desta Missão: a
primeira com Andreza pelo Reverendo Padre Francisco de Lyra e a
Segunda com Maria Secarê sendo Superior o Reverendo Padre José da
Rocha com um filho da segunda; e nenhum da primeira: que depois de
casado com a primeira fizera uma viagem para as partes da Bahia; e
neste tempo se ausentara a mulher para a Parnaíba induzida por um
Índio chamado Joseph [Pirasutinga], onde atualmente estava viva
quando o dito se casou com Maria Secarê voltando da viagem da Bahia:
o que o dito não podia ignorar por não ser a distância tanta desta Missão
a Parnaíba, como por continuar em viver com a Segunda sendo notório
a todos estar a primeira viva sem o dito fazer mais caso dela em tantos
anos, nem se separar da dita segunda. É o que disseram os [cabos] Índios
assim referidos perante mim, e meus companheiros; que dados aqui
assinarão comigo, assinando de cruz quatro por não saberem ler nem
escrever. Passa o referido na verdade; de que passei esta da minha letra,
e sinal nesta Missão da Serra da Ybyapaba aos 20 de Junho de 1750.
168 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Manoel de Mattos [assinatura]

Dom Felipe de Souza e Castro. [assinatura]


Cruz do Alferes João de Souza [Cruz]
Cruz do Alferes Andre Gyrapayovaya [Cruz]
Dom Sebastião Sarava Coutinho (sic) [assinatura]
Cruz do Capitão João Saraiva [Cruz]
Cruz do Capitão Manoel Saraiva [Cruz]

Como testemunhas
o Padre Antonio Dantas
o Padre João Brevez. S. F.

|f. 313-r| Francisco Pixaim - Bigamia

Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores Inquisidores


Na [conta] que tenho dado a Vossas Senhorias fiz [presente], tinha
ordenado ao subprior da Ibiapaba, que tendo certeza que o índio
Francisco Pixaim era casado segunda vez, como dos papeis inclusos
consta, o retivesse na Prisão até 2ª ordem de Vossas Senhorias; e agora
pelo que representa, o Padre subprior se vê o ter fugido, da mesma
prisão; ou dado escapula, por um oficial da mesma aldeia; Sobre [a
pergunta do caso] de ter preso ao mesmo cabo lhe escrevi o soltasse
porque com este engano; e com a mudança do subprior é certo, como ele
diz, tornar para a mesma aldeia; e lhe recomendei avisasse a [Dom]
Phelippe, Mestre de Campo dela, que no caso que voltasse, o não
[molestasse], nem o mandassem fora dela a diligência alguma, só a fim
de estar mais seguro quando Vossas Senhorias o mandarem prender
pela culpa de que o arguem.
Amanda Teixeira • 169

O Primeiro preso que foi da serra para a Cadeia de Pernambuco pelo


Vigário Geral do Seará como já dei conta e o aviso que o dito superior faz
na sua carta, [tendo] somente nome da mulher, e dele e do Matrimonio da
Aldeia da Bahia da Treysam só o pode fazer o seu missionário pelo
Comissário Antonio Alvares Guerra; ou Phelippe Campelo, por estarem
mais vizinhos dela com resolução de Vossas Senhorias.
A diligência da Vila da Mouxa no Piaui, foi me remetida por
Antonio Alvares Guerra de Pernambuco sobre o 2º matrimônio de um
fulano de tal de Oliveira que= está na fazenda da Capoamme 1 em Santo
Antonio da Gurguea foi remetida por mim ao subprior do [Canindé] da
Vila da Mocha em dezembro de 1749, e até este mês de Junho de 1750 não
é chegada. Será a causa que dá ao superior da Serra a largura daquela
comarca; e [al] fim ser |f. 313v| sertões tão largos, como quem já os
cultivou alguns em desobriga. Vinda que seja remeterei como tenho
feito; e obrado até agora, pois não sossego, nem descanso, até lhe dar o
fim. Com a maior brevidade que posso; e o tempo permite; porque estes
sertões têm vários inconvenientes. em tempo de chuvas, rios
caudalosos, e no verão, secos, faltos de [erva] para os animais.
É o que posso informar a Vossas Senhorias. Acaracú. Em 23 de
Junho de 1750.

O Comissário do Santo Ofício


Frei Miguel da Vitória [assinatura]

1
Santo Antonio da Guerguea era uma localidade no Piauí, atualmente correspondente ao município de
Jerumenha. O local também era origem de algumas das boiadas que eram enviadas para a feira de
Capuame, no Recôncavo baiano. Cf. HENRIQUE, 2014, p. 33. Não foi possível localizar nenhuma fazenda
com este nome no Piauí, o que leva a crer que o tal “Oliveira” tivesse, na verdade, partido para a Bahia.
170 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

|f. 314r| Francisco Pixaim: Bigamia e fuga.


Por esta por mim feita e abaixo assinada certifico eu Padre
Theodósio Borges da Companhia de Jesus Missionário que fui nesta
Missão da Serra da Ibyapaba que na noite trinta de Maio, estando muito
bem preso, e seguro em um tronco chapeado e fechado no lugar mais
interior desta casa o índio Francisco Pixaim, [minada] a prisão se
ausentou dela alta noite, sem ser sentido, nem ainda dos guardas que
lhe tinha posto o Muito Reverendo Padre Manoel de Mattos Missionário
da sobredita Missão; do que notavelmente apaixonado lhe [deixou]
bastantes [espiar], ao que ajudou também com zelo e cuidado incansável
o Mestre de Campo desta Aldeia; mas todas as diligências foram
frustradas, porque quem foge procura sempre toda a segurança; de tudo
isto resultou que abismando-se que o cabo da guarda indo a mudar-lhe
os pés que havia mais de dois meses estavam no tronco lhos deixaria em
folgança; o prendeu a ele sobredito guarda o Reverendo Missionário e o
tem como em reféns para castigo da sua [posição] ou nenhuma
advertência, que em caboclos 2 não é de estranhar o serem falsos aos
Reverendos Missionários que os governam; Demonstração certamente
bem merecida para toda a cautela do futuro. Assim passou tudo isto, e
por ser verdade deixo esta ao Muito Reverendo Padre Missionário
Manoel de Mattos, e estou pronto para assim o jurar se necessário for:
hoje na Serra da Ibipababa aos 11 de Junho dada e assinada com o meu
nome no ano de 1750.

Theodozio Borges [assinatura]

2
No original, “caboucolos”.
Amanda Teixeira • 171

|f. 315r|Francisco Pixaim: bigamia


Certificamos nas abaixo assinadas em como nós [fizemos] a [...]
[mês] em como a índia Andreza, filha do Pyraguyagoara, Mulher do indio
[...], filho do Uruouapeba a qual índia anda em poder do índio Jozephe
Pirausútinga. O qual índio esteve nesta Ribeira 3 no ano de quarenta e nove
e daqui partiu para as terras novas a vinte ou vinte e dois de outubro em
companhia do Capitão Custodio [...] de [Abreu] que andou nesta Ribeira 4
do Moni e [Iguara] e lá os levou e como disto já [o vimos] certamente e se
necessário [...] o juraremos os Santos Evangelhos, hoje, à [Ribeira] do
Moiti e Fazenda de São João. 23 de Maio de 1750.

Manoel de [Carneiro]
Como testemunha
Joseph de São [Bezerra]

Eu Antonio de [Barros]

|f.316r|
Reverendíssimo Senhor Padre Frei Miguel da Vitória Comissário
do Santo Ofício

Francisco Pixaim – Bigamia


Francisco dos Santos ou de Freitas – Bigamia

Não mandei logo a certidão por esperar aí por Vossa


Reverendíssima; e por me achar há quase um mês de cama, com o braço

3
O scriptor abrevia como Rivrª.
4
No original, “Riveira”.
172 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

direito quase tolhido, e sabe Deus o que me custa a lançar estes borrões
só por servir a Vossa Reverendíssima e a tão santo Tribunal, e por isso,
podendo ser, logo a Vossa Reverendíssima me alivie desses empregos
que me destina atendendo aos meus anos e achaques. No Ceará tem o
Padre Francisco de Sampaio Superior do Real Hospício [...] [áureo]: tanto
ele, como qualquer seu sucessor darão pleno cumprimento a tudo; que
eu nos Barcos espero muda para Pernambuco. Vai a certidão, e tudo
metido nela: acta dos assentos dos casamentos e outra do Igoarâ, em que
mostra que Andreza se mudou da Parnayba e que anda viva naquelas
partes.
Eu bem sinto a demora do negócio da Moxa: como são sertões
vastos custará averiguar a matéria; em indo não haverá demora na
remessa: bem fiz eu em me segurar com recibo da diligência em que me
portei; e ao meu sucessor a deixarei recomendada.
Não vai certidão sobre a prisão do Índio Francisco Pixaim porque
sendo tendo-o preso em um tronco bom, e bem fechado com chave e
além disto pregado com uma chapa de ferro em uma camarinha fechada
desta casa com o cabo Domingos Maricaré por guarda: em 30 de Maio
furou a parede da Camarinha e lançando-se do alto desta casa acolheu-
se com a segunda mulher sem eu poder descobrir por mais diligências
que fiz; e o Mestre de Campo. O cabo fica preso em reféns até ordem de
Vossa Reverendíssima por ser causa de tudo, pois pedindo o preso lhe
mandasse mudar a perna no tronco: disse ao cabo, que lha torcesse, e
ele ou por [amizade] ou por compadecido o deixou com os pés ambos
fora do tronco, dizendo-me que o tinha mudado, e ficava bem seguro: e
no cabo o tronco amanheceu bem fechado, e ele desculpando-se com
dizer que o Índio parece era feiticeiro, pois se soltara, mas eu respondi-
lhe: por que em doze meses nunca pudera soltar-se! Vai certidão do
Reverendo Padre Theodosio Borges que foi para o Ceará e presenciou
Amanda Teixeira • 173

tudo: e se necessário for irão também os outros meios [...]


Companheiros. E Vossa Reverendíssima me avisará do que hei de fazer
deste cabo [...] [que] o fugido [...] vamos a sua Aldeia, na minha ausência,
há de buscá-la |f.316v| pois como bárbaro suporá que eu sou o que lhe
[formo] crimes, e sou o seu contrário, e só intimidará vendo o cabo
continuar em prisão por seu respeito. Enfim Vossa Reverendíssima me
avisará do mais acertado.
Vossa Reverendíssima em resposta da que lhe escrevi com a cópia
da do Excelentíssimo Bispo me argue de lhe não mandar os nomes das
primeiras e segundas mulheres dos Índios Francisco dos Santos e de Seu
Irmão Salvador de Freitas, que aqui se denominados [...]. Como estes
Índios são da Bahia da Treyção mal o posso saber, nem seu Missionário
na carta o declara. A segunda que [vive] aqui Francisco dos Santos, já
avisei a Vossa Reverendíssima que se chama Helena, e que dela não teve
filhos, e que este era o criminoso e não o Irmão, que aqui morreu
mostrando com bastantes testemunhas que saíra menino da sua Missão
e nunca lá casara. Mas quando assim não seja, [...] vão os nomes das duas
mulheres que aqui teve, que da da sua Missão não sei. Casara primeiro
com [Threana] filha de Paulo e Maria de quem teve 3 filhos, que dois
morreram com a mãe. Segunda vez enviuvando, casou com Catherina
Guyracasu [...] de que deixou 5 filhos. É o que posso dizer a Vossa
Reverendíssima, cuja vida, e saúde [...] para lhe fazer muitos serviços, e
para me mandar em que lhe obedeça. Guarde por muitos anos.
Ybyapaba, e de junho 20 de 1750.

De Vossa Reverendíssima
Muito Cordial Servo, e venerador.
Manoel de Mattos [assinatura]
174 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

|f. 317r| Certidões – Francisco Pixaim – Bigamia


Certifico eu, o Padre Manoel de Matos, da Companhia de JESUS,
Missionário e Superior desta Missão de Nossa Senhora da Assunção da
Serra da Ibiapaba, que revendo o livro velho dos assentos dos
casamentos nele a folhas (sic) 8 está um do teor seguinte do Reverendo
Padre Francisco de Lira Missionário, e Superior que foi desta Missão =
Aos 17 de Janeiro de 1727 feitas as denunciações, e não havendo pessoa
alguma que saísse com impedimento se recebeu perante mim in facie
Eclesis Francisco Cerujâ com Andreza Abapoara. Testemunhas Gaspar
Caapiranha, Antonio de Sá e o Mestre de Campo Dom Phelippe de Souza.
Item certifico que a folhas 14 do Livro novo, que atualmente serve
dos mesmos assentos está outro do Reverendo Padre Manoel Pinheiro
companheiro do Reverendo Padre Missionário, e superior então desta
Missão Josê da Rocha do teor seguinte: Aos 26 de Janeiro de 1744
corridos os Banhos, e não havendo impedimento recebi in facie Eclesis
aos contraentes Francisco Bujuiaba e Maria Secarê viúvos. Foram
testemunhas Leandro Tavares e Dona Magdalena [Mecoara], e outros
muitos, que presentes se achavam =
Passa o referido na verdade; que juro in verbo sacerdotis. Nem faça
dúvida a variedade dos sobrenomes por ser ordinário nesta gente mudá-
los a cada passo perante os brancos: sendo que entre os seus só é tratado
por Francisco Pixaim. Dada, e passada esta da minha Letra, e Sinal Nesta
Missão da Serra Da Ybypaba aos 20 de Junho de 1750.

Manoel de Mattos [assinatura]


Amanda Teixeira • 175

|f. 318r| Francisco Pixaim – Bigamia

Ilustríssimos e Reverendíssimos senhores Inquisidores


No mês de Dezembro de 1749 mandou-me da Ribeira do Acaracû da
Capitania do Ceará a esta Missão da Serra da Ybyapaba um maço de
papéis desse Santo Tribunal para eu remeter para a Capitania do Piaguy
ao Reverendo Padre Manoel Gonzaga da [minha] Religião a Companhia
de JESUS superior do brejo do Carindé, mandou-me, digo, o dito maço o
Reverendo Padre Frei Miguel da Vitoria Comissário deste mesmo Santo
Tribunal, ordenando-me que tanto que voltasse [...]; o remetesse a ele
dito ou na sua ausência ao Reverendo cura do Acaracû. Logo remeti o
dito maço para a Piracuruca ao Cura Alexandre Marques, que me passou
[recado] que fica em meu poder: e consta-me que o dito cura também o
remeteu por sujeito seguro morador no dito Carindé. Até hoje 2 de
novembro de 1750 me não vieram a mão os ditos papéis: a causa não a
sei: dou contudo parte a Vossas Senhorias para obrarem o que forem
servidos.
Também ao dito Reverendo Padre Comissário avisei de estar
casado segunda vez um Indio desta Missão chamado Francisco Pixaim e
segundo me escreveu, com as [minhas], e suas cartas deu conta a este
Santo Tribunal. Oferece-se-me agora dizer a Vossas Senhorias, que o
dito Índio segundo dizem, anda com a segunda mulher no Campo
Grande entre esta Serra e a Serra dos Cocos.
É o que se me oferece dar conta a Vossas Senhorias que mandarão
o que forem servidos. Missão da Serra da Ybyapabada Capitania do
Ceará, 22 de novembro de [1750].

O Padre Missionário da dita Missão


Manoel de Mattos.
176 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

|f. 420r|
José Pereira Carlos aliás da Silva – bigamia
Francisco dos Santos, Indio – bigamia.

Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores Inquisidores


Foi denunciado perante mim, Jozé Pereira Carllos, filho das Ilhas,
morador de presente nesta freguesia do Acaracú na Cerra dos Cocos
como consta do Billete incluso, sendo casado nesta mesma, freguesia do
Siará Grande com mulher viva, até o presente celebrou segundo
matrimônio na freguesia da Jacobina, com Antonia Pereira, filha de
Ignacio Pinheiro da rocha, naturais da mesma Jacobina moradores no
Brejo do Socotó, distante da matriz três léguas; e como Vossas
Ilustríssimas [andem] mandar [proceder] a devassa; parecendo
conveniente dar Informação que devo; para que ao mesmo tempo que
vier para esta freguesia; se despache a outra para a Bahia para naquela
parte da Jacobina que é daquele Arcebispado, se faça lá a diligência do
segundo matrimonio; pelos inconvenientes que vão deste aquele
Arcebispado; de quais Justificado este matrimônio do Acaracú.
Também me foi denunciado Francisco dos Santos, Índio por casar
duas vezes sendo viva sua primeira mulher, como consta das Inclusas
que mandei inquerir para dar esta carta; Vossas Senhorias proverão na
matéria o que melhor convier ao serviço de Deus Nosso |f. 420v| Senhor,
que o delinquente foi preso para Pernambuco como consta da carta do
Vigário Geral do Siará. Como vi em uma lista do Auto da fé sair um Índio
do Grão Pará penitenciado por semelhante caso, me parece não ter lugar
o que aponta o Excelentíssimo Bispo de Pernambuco ao Reitor daquele
[Colégio]. Vossas Senhorias mandarão o que forem servidos. Acaracú, [2]
de março de [1740].
Amanda Teixeira • 177

o Comissário do Bispado de Pernambuco


Frei Miguel da Victoria. [assinatura]

|f.421r| Reverendíssimo Senhor [Padre] Comissário do Santo Ofício Frei


Miguel da Victoria
Aos 27 de Janeiro do corrente ano de 1750 recebi a de Vossa
Reverendíssima com a [incumbência] de tirar sumário do [Sargento]
[Francisco]
Pelas copias inclusas verá [...] [ainda] que deu o Missionário da
Bahia da Treyçao ao Senhor Bispo, e a resolução do dito Senhor com
parecer do Padre Reitor [...] de [Olinda] [sujeito] [doutíssimo], que aqui
mandaram para se executar o parecer de ambos.
Prendi logo ao dito Salvador de Freytas, que [...] se denominado
Salvador dos Santos, o qual morrendo como morreu aqui, contestou com
com (sic) vários índios do Rio Grande Ser solteiro e que seu Irmão
Francisco dos Santos era casado lá, e [após], segunda vez, com a Índia
Elena se casara; da primeira [não filhos teve]. Averiguei o caso, e como
todos os Índios diziam ser assim, prendi ao dito e em virtude da
resolução do Primeiro Bispo o mandei preso ao Capitão Mor para
mandar viver com sua primeira mulher e o mandando ao Padre
Francisco de Lyra, e ao Padre Vigário [Rogerio] [Canisio], que [aqui] se
achavam a [...] mostrei a resolução do Senhor Bispo e Reitor do Colégio
de Lisboa para que dissessem ao Capitão Mor o Remetesse para sua
primeira mulher. Os ditos Reverendos Padre esqueceram de avisar ao
Capitão mor, o qual justamente deu aviso ao vigário geral ao Searâ, que
justamente procedeu sem saber da Resolução do Senhor Bispo Reitor de
[Olinda]
178 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

A vista do que [Vossa Pessoa] mandará o que for servido, e [quando]


[esteja] pela Resolução do Senhor Bispo e Reitor de Lisboa avisará ao
Vigário geral o mande viver com sua primeira mulher e quando [...] se
proceda na forma que me aponta: Mande-me diretório para enviar o
Sumário pois o que me mandou, remeti para o Piaguy, e fiquei falto de
tudo para proceder em forma. Fico esperando Resposta de [Vossa
Pessoa], que me determinará o que for mais acertado: e juntamente
ocasiões de lhe dar |f.421v| gosto no que me ordenar de seu Serviço.
Estimando em primeiro lugar a sua boa saúde, que Nosso Senhor Guarde
por Muitos Anos. Missão da Ybiapaba, de Janeiro 28 de [1750].

De [Vossa Pessoa]
o mais fiel súdito e senhor
Manoel de Mattos [assinatura]

|f.422r]
Cópia da carta que deu o Religioso Turão Missionário na Aldeia da
Bahia da Treyção em 15 de Julho de 1742, e fica em meu poder o original.
Salvador de Freitas, Índio da Aldeia da Bahia da Traição tem
mulher viva na dita aldeia, e fugiu para a Aldeia da Ibiapaba e nela casou
já duas vezes. Dá esta parte o Missionário da Bahia da Treyção, que é um
frade Turão.
Cópia da Carta do Senhor Bispo ao Padre Reitor do Colégio de
Olinda [consultando-o] no caso: e fica em meu poder o original do dito
senhor Bispo. O Reverendíssimo Senhor era o Padre Tomas Lynceo 5
sujeito douto em toda a matéria. [Ver].

5
Trata-se de Tomás Linceo, reitor do colégio da Companhia de Jesus da cidade da Bahia.
Amanda Teixeira • 179

[Meu] Padre Reitor. São tão miseráveis estes Índios e me metem


tanta compaixão as suas fragilidades, que desejava que o Missionário
antes o mandara [açoitar] e o separasse que se proceder a mais. O castigo
desta culpa [bem] sabe Vossa Pessoa a quem pertence: e o Seu
Missionário pela verdade sabida podia proceder nesta forma. Contudo
se a Vossa Pessoa. parecer outra cousa me avise e faremos o que for mais
conveniente. Deus Guarde a Vossa Mercê muitos anos: 15 de julho de
1742.
[Amigo] e servidor de Vossa Pessoa

Bispo

|f. 423r| Muito Reverendíssimo Senhor Padre Mestre Frei Miguel da


Victoria
Dou parte a Vossa Reverendíssima [Pessoa] que indo visitar o
Capitão Mor desta Capitania, me disse o dito que tinha recebido uma
carta do Padre Superior da Serra Manoel de Mattos da Companhia de
JESUS, na qual lhe dava parte que entre uns presos Índios que mandava,
vinha Francisco dos Santos, mamaluco casado na Baía da Treisão, e
segunda vez casado na Missão da Serra de Ibiapaba, com filhos desta
segunda mulher porém nem de uma, e menos da outra lhe diz os nomes;
o que ouvindo logo lancei mão dele e lhe mandei fazer o assento, a
ordem de Sua Excelência até real averiguação.
Como na presente ocasião há barco para Pernambuco em que vão
presos também o remeto a ele e dou parte ao prelado para que se faça lá
a diligência na Baía da Treisão, e Vossa Reverendíssima a fazer nessa
Serra, ou mandá-la fazer como lhe parecer na dita Baía que [...] há estar
ele segundo até se indagar a este fim.
180 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Fico muito pronto ao que vossa Reverendíssima me determinar, e


pedindo a Deus que guarde a Vossa Reverendíssima [Pessoa] |f. 423v|
[Pessoa] como lho [desejo]. Vila da Fortaleza 10 de dezembro de 1749 anos.

De Vossa Reverendíssima Pessoa


Seu maior Venerador e Capelão
Jozé Moreira de Souza [assinatura]

|f.424r| Reverendíssimo Senhor Padre Comissário do Santo Ofício Frei


Miguel da Victória
O Capitão Mor Pedro da Rocha Franco, e seu genro João de
[Serqueira] nos fins de Janeiro me remeteram a de Vossa Reverendíssima
de 4 do dito mês, a que logo respondi, mandando a resposta ao Padre Cura
para a enviar com toda a brevidade a Vossa Reverendíssima à paragem
em que se achasse nessa desobriga. E porque não sei se foi já entregue:
repito esta pelo Reverendo Padre Pedro de Albuquerque, e o mesmo, que
na primeira. dizia a Vossa Reverendíssima.
Pelas cópias inclusas da conta que deu o Reverendo Missionário da
Bahia da Treisão e Resolução do [Senhor] Bispo / cujos originais param
em meu poder / verá Vossa Reverendíssima o motivo que tive para
remeter para a sua Missão e para sua mulher ao Índio, e não mamaluco,
Francisco dos Santos, aqui casado uma só vez com a Índia Elena de quem
não teve filhos. Este Indio Francisco dos Santos, denominado naquela
Missão Francisco de Freytas é o criminoso, e não seu Irmão Salvador de
Freitas, que aqui morreu, e segundo dizem os Índios desta e daquela
Missão como alguns brancos foi equívoco do Reverendo Missionário em
ter Salvador por Francisco, pois este Francisco [como ele] mesmo,
afirmam ser lá legitimamente casado e a mulher, viva, e ele só diz que
se casara cá por lhe morrer lá a mulher.
Amanda Teixeira • 181

Contudo se Vossa Reverendíssima quer se proceda na forma que


me aponta, mande-me diretório para proceder em forma: pois o que
Vossa reverendíssima mandou, remeti para a Moxa por ser lá também
na [freguesia] e vindo o formulário com brevidade; com a mesma darei
logo expedição ao que Vossa Reverendíssima tanto me recomenda,
como também ao que pertence a Moxa, o ponto é virem com brevidade.
Do Searâ dando-se-me aviso dos presos que mandei dizem-me que
ia o dito Francisco dos Santos e está preso em Pernambuco [...] fora
mandado preso ao Excelentíssimo Senhor Bispo.
Também dou parte a Vossa Reverendíssima em como um dia destes
prendendo por certo crime a Francisco Pixaim desta Missão [Saíram] os
principais desta Missão com vários Índios, e me afirmaram que o dito
sendo casado com Andreza que anda na Parnayba, a [fingira] morta: e
se casara segunda vez com Maria vivendo com ela, estando a primeira
mulher viva. |f. 424v|
O dito Índio, e ambas as Índias são desta Missão. No que Vossa
Reverendíssima me ordenará [...] Superior da Missão o que for servido
e também se quer que o retenha preso depois de me satisfazer a culpa
por que o prendi. Digo isto porque ele já tem [notícia] e ocasião de ser
casado segunda vez, [solto] certamente foge para [as] brenhas.
Estimarei continue a Vossa Reverendíssima perfeita [saúde] para
fazer melhores Serviços a Deus e para me mandar no que for de seu
gosto. A pessoa de Vossa Reverendíssima Guarde Deus Muitos Anos.
Missão da Ibiapaba e de Abril 23 de 1750.

De Vossa Reverendíssima
Fiel Guardador, e Servo
Manoel de Mattos. [assinatura]
182 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

|f.425r|
Cópia da Carta que deu ao Excelentíssimo Senhor Bispo o
Missionário da Baía da Treyção acerca de ser casado segunda vez o Índio
Salvador de Freitas.
Salvador de Freytas, Indio da Aldeia da Baía da Traição, tem viva
na dita Aldeia a mulher, e fugiu para a Aldeia de Ibiapaba, e nela casou
já duas vezes. Da esta parte o Missionário da Bahia da Traição, que é um
frade do Carmo Turão. ----/----/
Cópia da Resolução do Senhor Bispo no caso, com parecer do
Reverendo Padre Reitor do Colegio de Olinda Thomas Lynceo, [sujeito
douto]
Meu Padre Reitor, são tão miseráveis estes Índios, e me metem
tanta compaixão as suas fragilidades, que desejara que o Missionário
antes o mandara açoutar e o separasse que se proceder a a mais. O
castigo desta culpa bem sabe [Vossa Pessoa] a quem pertence, e o Seu
Missionário pela verdade sabida podia proceder nesta forma. Contudo
se A [Vossa Pessoa] parecer outra cousa, me avise e faremos o que for
mais conveniente. Guarde Deus a Vossa Pessoa muitos anos. Recife, 15
de Julho de 1742.

[Amigo] Servidor de Vossa Pessoa.


O Bispo.
26
LIV. 308, 116º CAD., CAMPOS DO MUNDAÚ –
GONÇALO, ALIÁS, JOÃO NUNES,
CATIVO DE IGNACIO DA ROCHA, BIGAMIA

|f.333-r| Gonsalo, aliás João Nunes – bigamia

Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores Inquisidores


Já este ano remeti a denúncia que se deu contra Gonçalo, ou João
Nunes mestiço, cativo, sobre o ter casado duas vezes, a Primeira
denuncia remeti ao Comissário Antonio Alvares Guerra a Pernambuco
com a carta do Vigário Geral do Ceará que o denunciou por ter casado,
com a escrava do [capitão maior] Francisco Pereira Xavier, que mora nos
Campos do Mundahú; o qual Senhor da dita escrava depôs, o ser casado.
O Segundo Matrimonio, suponho ser a Inquirição que remeto, a
Vossas Senhorias, que me remeteu o dito Vigário geral como dela
[melhor] constará, com a qual remeto a carta dele; para Vossas
Senhorias mandarem nesta matéria o que forem servidos.
Também remeto a denúncia que deu o Padre Pedro de Albuquerque
sobre Manoel Lopes; e o que pude descobrir, foi o que contém a mesma
denuncia; que ainda que não há prova legal, contudo, como são matérias
graves, Vossas Senhorias mandarão o que for justiça. Acaracú, Capitania
do Ceará, 17 de Junho de 1749 1.
o Comissário do Bispado de Pernambuco
Frei Miguel da Victoria.

1
Trata-se provavelmente de Manoel Lopes, homem branco e casado, que “cometera o ‘abominável
pecado nefando’ com um moleque no lugar chamado ‘a Cabouqueira’”. Segundo Mott, esta acusação
de sodomia foi enviada pelo Frei Miguel da Victória em 1746 (1986, p. 95).
184 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

|f. 334-r| Gonsalo, alias João Nunes – bigamia


Auto Sumário de Testemunhas tirado nesta Vila da Fortaleza de
Nossa Senhora da Assunção em presença do Reverendo Vigário Geral
José Moreira de Souza por lhe determinar assim o Reverendo
Comissário do Santo Oficio o Padre Mestre Frei Miguel da Vitoria por
ora assistente na freguesia do Acaracu contra Gonsalo, escravo de
Ignacio da Rocha, por este se haver casado segunda vez sendo a primeira
mulher viva o que tudo constará do processo que adiante se segue de
que fiz este Auto eu o Padre Vicente Dantas Pereira, escrivão eleito, o
escrevi, sendo aos vinte e seis dias do mês de Março do ano do
Nascimento de Nosso Senhor JESUS Crhisto de mil e sete centos e
quarenta e nove anos.

|f. 335-r| Termo de Juramento


Aos vinte e seis dias do mês de Março de mil e sete centos e
quarenta e nove anos nesta Vila da Fortaleza em casas de pousada do
Reverendo Vigário [Geral] José Moreira de Souza, e sendo aí me elegeu
o dito para escrivão de um auto sumário de testemunhas que estava para
tirar por parte do Santo Oficio por lho ter assim ordenado o Reverendo
Padre Comissário do dito Tribunal Frei Miguel da Vitoria, e para que
ambos o fizéssemos 2 bem e fielmente me deu o juramento dos Santos
Evangelhos, e ele debaixo do seu cargo também o prometeu de que tudo
mandou fazer este termo em que ambos assignamos e eu o Padre
Vicente Dantas Pereira escrivão eleito o escrevi,

José Moreira de Souza [assinatura]


O Padre Vicente Dantas Pereira [assinatura]

2
No original, “fizezemos”.
Amanda Teixeira • 185

Assentada
Aos vinte e seis dias do mês de Março de mil e sete centos e
quarenta e nove, nesta Vila da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção,
em casas de moradas do Reverendo Vigário Geral, José Moreira de
Souza, onde eu escrivão eleito me achei presente para efeito de se
tirarem testemunhas das quais os nomes, idades, costumes são os que
adiante se seguem do que tudo fiz este termo; e eu, o Padre Vicente
Dantas Pereira escrivão eleito, o escrevi.

Denunciante
Ignacio da Rocha Pita homem solteiro por ora preso na cadeia da
Fortaleza desta Vila que |f.335-v| que vive de criar seus gados, de idade
que disse ser de quarenta e nove anos pouco mais ou menos, jurou em
os Santos Evangelhos em um livro deles, o qual pôs sua mão direita e
prometeu dizer verdade.
Sendo perguntado a ele denunciante pelo que disse pela parte que
deu acerca do seu escravo Gonsalo ser casado segunda vez com a Índia
Luzia sendo este casado primeira vez com uma escrava do Capitão Mor
Francisco Pereira Chaves morador no Aracatyasû, sendo esta viva disse
que ele denunciante comprou o dito escravo a José Pereira Ribeiro
morador no Pyauhy no lugar chamado Longâ fazenda do Jathobá ou
Mangabeyra e que vindo ele denunciante a tomar entrega dele na
Ribeira do Acarahû, o achara com o nome de João Antunes, e por outras
partes, de João Nunes, sendo ele Gonsallo e já casado com a Índia Luzia,
o qual disse o tinha casado ou mandado casar o Padre Missionário
Gabriel de Malagrid na capela do Guimarais no Acarahû, e que entrando
a servir-se dele, passados tempos lhe viera notícia que o dito se tinha
casado primeira vez com a escrava de Francisco Pereira Chaves do que
186 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

ficou confuso, e vindo aí um escravo do dito Chaves lhe perguntara se


era isto assim; o qual se chama Manoel lhe dissera que assim era, e que
a dita era sua filha, e que lhe disse o nome dela porém que lhe não
lembra; e que temendo ele dito denunciante o vir-lhe por este meio
alguma moléstia, e com sentido no serviço de Deus viera denunciar dele
e perguntando lhe o Reverendo Vigário Geral onde se achava o dito
escravo, disse que lhe fugira, e dele noticia nenhuma tem. Al não disse,
e se assinou com o Reverendo Vigário Geral e eu o Padre Vicente Dantas
Pereira escrivão eleito o escrevi.

Moreira [assinatura]
Ignacio da Rocha [assinatura]

E por não haver sacerdotes nesta vila que viessem |f. 336-r| viessem
servir de Atestadores aos sacramentos tanto do denunciante como das
mais testemunhas mandou o Reverendo Vigário Geral servisse eu
Escrivão Eleito, e atesto ser o juramento do denunciante verdadeiro pelo
conhecer ser homem verdadeiro e temente a Deus, de que tudo fiz este
termo de Testação que por verdade assinei.
o Padre Vicente Dantas Pereira [assinatura]

Testemunha 1ª
Sebastião de Lima, Mamaluco por ora preso, nesta cadeia da Vila
da Fortaleza homem casado que vive de criar gados de idade que disse
ser de trinta e oito anos pouco mais ou menos testemunha jurada aos
Santos Evangelhos em um livro deles no qual pôs sua mão direita, e
prometeu dizer verdade e do costume disse nada.
Amanda Teixeira • 187

E perguntado a ele testemunha se conhecia o escravo Gonsalo


Mestiço, de Ignacio da Rocha, disse que sim, e sendo-lhe perguntado 3
também se sabia com quem era casado disse que o conhecera casado
com a Índia Luzia e que lhe dissera o dito se casara na Igreja do
Guimarais do Acaraú por ordem do Padre Missionario Gabriel de
Malagrid (sic): e que depois disso ouvira dizer ser o dito casado com uma
escrava de Francisco Pereira Chaves porem que lhe não sabe o nome só
sim sabe estar esta viva ainda e al não disse e se assinou com o
reverendo Vigário Geral e eu o Padre Vicente Dantas Pereira escrivão
eleito que o escrevi
Moreira [assinatura]
Joze Sebastião de Lima [assinatura]

Atesto o juramento acima por verdadeiro pelo |336v| conhecer o


[suplicante] sempre tratando verdade, e me contar nesta matéria [a
fala], de que fiz este termo de testação que assinei.
O Padre Vicente Dantas Pereira [assinatura]

Testemunha 2ª
Alferes Siprianno Gomes da Silva, homem branco, casado, morador
no Lugar do Trahyri, que vive das suas lavouras de idade que disse ser
de cinquenta e tantos anos testemunha jurada aos Santos Evangelhos
em um livro deles no qual pôs sua mão direita, e prometeu dizer verdade
e de costume disse nada.
E perguntado a ele testemunha se conhecia Gonçalo mestiço
escravo de Ignacio da Rocha disse que sim, e sendo também perguntado
se o dito era casado, ou solteiro disse que sabia era casado com uma

3
Este scriptor costuma usar “preguntar” e suas derivações, como “proguntado”.
188 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

índia por ele mesmo lho dizer e amostrar-lhe sua mulher, e varias vezes
a viu; porem que lhe ignora o nome, e que depois do dito se ir deste lugar
ouvira dizer tinha casado outra vez com uma escrava de Francisco
Pereira Chaves, que a largara e se fora casar com a que estava vivendo e
Al não disse e se assinou com o Reverendo Vigário Geral e eu o Padre
Vicente Dantas Pereira, escrivão, que o escrevi.
Moreira [assinatura]
Cipriano Gomes da Silva [assinatura]

Atesto os juramento (sic) acima por conhecer o [suplicante] sempre


tratando verdade, e me constar a fala nesta matéria; de que fiz este
termo de Atestação, que por verdade assinei.

O Padre Vicente Dantas Pereira [assinatura]

Testemunha 3ª
Bento [Fernandez] Pereira, homem preto, forro, casado, morador
no Trahyri, que vive das suas lavouras, de |f. 337r| de idade que disse ser
de quarenta e um anos pouco mais ou menos, testemunha jurada aos
Santos Evangelhos em um livro deles no qual pôs sua mão direita e
prometeu dizer verdade, e do costume disse nada.
E perguntado a ele testemunha se conhecia ao mestiço Gonsallo,
escravo de Ignacio da rocha, disse que sim, e que antes disso o conhecera
com o nome de João [Avares], e sendo perguntado se sabia se o dito era
casado ou solteiro, disse que dele conta casar-se o dito in facie Eclesia
com uma mestiça, escrava de Francisco Pereira Chaves, e e que depois
vendo-o com uma Índia Mãe de dois filhos dele dito, da qual também
era companheiro, lhe perguntara a causa por que não vivia com sua
mulher, ao que lhe respondeu que sua mulher era aquela Índia com
Amanda Teixeira • 189

quem estava, por se ter casado com ela por ordem do Reverendo
Missionário Malagrid, do que ficou ele dito testemunha confuso por
ignorar aquelas matérias e al não disse e se assinou com o Reverendo
Vigário Geral e eu, o Padre Vicente Dantas Pereira, escrivão eleito, o
escrevi.

Moreyra [assinatura]
Bento Fernandez Pereira [assinatura]

Atesto o juramento acima por conhecer o [suplicante] sempre


tratando verdade e me constar a fala nesta matéria, de que fiz este
termo de atestação, que por verdade assinei.

o Padre Vicente Dantas Pereira [assinatura]

Testemunha 4ª
Manoel Pereira de Mello, homem preto forro, casado, morador no
Trahyri, que vive de suas lavouras, de idade que disse ser de trinta e oito
anos, pouco mais ou menos, testemunha jurada aos Santos |f. 337-v| Aos
Santos Evangelhos em um livro deles no qual pôs sua mão direita, e
prometeu dizer verdade, e do costume disse nada.
E sendo perguntado se conhecia a Gonsallo – escravo de Ignacio da
Rocha, disse que sim, e que também o conhecia antecedentemente com
o nome de João Nunes, e sendo também perguntado se sabia se o dito
era casado ou solteiro, disse que sabia ser casado verdadeiramente com
uma escrava de Francisco Pereira Chaves por lhe dizer o Pai da dita
mulher, o qual se chama Manoel – Porém que dela ignora o nome, e que
vendo dito Gonsalo com uma Índia e perguntando por que não vivia com
sua mulher lhe dissera o dito sua mulher era aquela Índia com quem
190 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

estava por se ter casado com ela por ordem do Padre Missionário
Malagrid. do que ficou admirado, e que também ignora o nome desta, e
que ouvira dizer se fizeram ambos sacramentos na freguesia do Acaracú
e Al não disse e se assinou com o Reverendo Vigário Geral e eu, o Padre
Vicente Dantas Pereira escrivão eleito o escrevi.

Moreira [assinatura]
Manoel Pereira de Melo [assinatura]

Atesto o juramento acima por conhecer o suplicante sempre


tratando verdade e me constar a fala nesta matéria, de que fiz este
termo de atestação que por verdade assinei.
Vicente Pereira Dantas [assinatura]

Testemunha 3ª
O Sargento Mor Manoel de Moura Rolim homem branco casado
morador no Lugar do Trairi que vive de suas fazendas de idade que disse
ser de quarenta e cinco anos, pouco mais ou menos, testemunha jurada
aos Santos Evangelhos em um livro deles no qual pôs sua mão direita, e
prometeu dizer verdade, e do costume disse nada.
E sendo perguntado se conhecia a Gonsallo |f.338-r| Gonsallo
escravo de Ignacio da Rocha, disse que sim, e sendo-lhe mais
perguntado se sabia se o dito era casado, ou solteiro disse que indo em
Missão o Padre Rugerio [Canisio] da Companhia ao Lugar do Trairi 4, e
não querendo confessar ao dito, lhe perguntara ele testemunha; porque
se não tinha confessado, se era por andar amancebado com aquela Índia,

4
Trata-se do missionário jesuíta Rogério Canísio, superior da aldeia da Ipiapaba que, em 1759, foi expulso
do Brasil, tendo sido enviado para a Bahia e, dali, para a prisão da Torre de São Julião da Barra, em
Portugal, onde morreu. Cf. MAIA, 2011, p. 29.
Amanda Teixeira • 191

lhe respondera que não, porque ela era sua mulher e dizendo-lhe ele ter
testemunha, se sua mulher não era a escrava de Francisco Pereira
Chaves, com quem se tinha casado, dissera ele que o casamento desta
era nulo por ele andar com o nome mudado, e que o Reverendo Padre
Missionário Malagrid, o tinha mandado casar com a dita Índia com
quem vivia na freguesia do Acaracú: onde se fizeram os dois
sacramentos. Porém que ele dito testemunha ignora o nome de ambas,
e Al não disse e assinou com o Reverendo Vigário Geral e eu, o Padre
Vicente Dantas Pereira, escrivão eleito, o escrevi.
Moreira [assinatura]
Manoel de Moura Rolim [assinatura]

Atesto o juramento acima por verdadeiro por conhecer o


suplicante sempre tratando verdade e me constar a [fala] nesta matéria
de que fiz este termo de atestação que por verdade assinei.
o Vicente Dantas Pereira [assinatura]

Termo de Mesa, digo, Remessa


E finda que fosse esta Inquirição me ordenou o Reverendo Vigário
Geral depois de dar por finda e acabada a dita a Remetesse ao Muito
Reverendo Padre Mestre Frei Miguel da Vitoria Comissário do Santo
Ofício por ora assistente na freguesia do Acaracú o que tudo vai na
forma que se me determinou 5 (de que fiz este |f.338v| Este Termo de
Encerramento e Remessa, e eu, o Padre Vicente Vicente (sic) Dantas
Pereira escrivão eleito o escrevi.

5
No original, “detremunou”.
192 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

|f.338Av|
Do Serviço do Santo Ofício
Ao Muito Reverendo Comissário, o Padre Mestre Frei Miguel da
Vitoria cozido com cinco pontos de linha vermelha do Reino, e lacrado
com cinco pingos de Lacre vermelho por banda.
Do Vigário Geral da Capitania do Ciarâ.

|f. 339r| Muito Reverendíssimo Senhor Padre Frei Miguel da Victoria


Recebi a de Vossa Reverendíssima [Pessoa] a qual logo entrei a dar
execução, por ser assim [mandado] de Vossa Reverendíssima [Pessoa] e
juntamente ser do Serviço de Deus.
Remeto a Inquirição fechada, e lacrada por Antonio Gomes
Bitancor, e dele cobrei Recibo, e por esta o [haja] Vossa Reverendíssima
por desobrigado do que me mandou que prontamente a entreguei.
Tenho botado encalços por este cabra, o fim que levou, e o que achei
é ser certo fugir ao [Sertão] e subir pelo Rio Quixeturê acima e ir parar
ao Aracaty Asú, nas suas cabeceiras, a informação que dele posso dar
pelo ter visto é ser um cabra espigado e seco do corpo, gentil homem da
cara e bem feito de pé, e perna, o cabelo pixaim, e mostra ter de Idade
40 para 45 anos, e os nomes de que usa são os apontados.
Fico neste lugar tão pronto como devo, às ordens de Vossa
Reverendíssima Pessoa
Sobretudo estimarei [...] Vossa Reverendíssima [Pessoa] com uma
prospera saúde sempre em gratia |f.339v| de Deus que guarde a Vossa
Pessoa como pode. Vila da Fortaleza, 20 de Março de 1749 anos.
De Vossa Reverendíssima [Pessoa]
Seu maior venerador e criado
José Moreira de Souza. [assinatura]
27
LIV. 309, 117º CAD., VILA DO ICÓ – ANTONIO
CORREIA DE ARAUJO PORTUGAL, BIGAMIA

|f.454r| Antonio Correia de Araujo Portugal – Bigamia 1

Pedro Ribeiro da Silva Portilho, Escrivão das devassas das


travessias, e do Regimento da palha natural da cidade de Braga; e
morador nesta de Lisboa, a São Lazaro, veio a esta Mesa em 22 de
Setembro de 1757 dar parte que em uma Nau que chegara da Bahia tivera
aviso por uma carta de [Manuel] Ferreira da Silva, seu procurador, que
seu cunhado, o Capitão Antonio Correia de Araujo Portugal, morador na
vila do Icô, se casara 2ª vez com Joanna Roiz na Igreja da dita vila e como
o dito capitam é casado em Braga, ou na freguesia de Santa Marinha de
Chorense do dito Arcebispado de Braga, com Felippa Moreira da Silva,
filha de Manoel Jorze (sic) da Silva e de Sebastiana da Silva, da mesma
freguesia, que ainda é viva, e assiste em Braga, na rua de São Gonçalo,
[o que] sabe por ser seu Irmão, e ter tido carta da mesma, vem dar esta
denúncia por descargo de Sua consciência; e declara que o dito seu
cunhado é natural da freguesia de São Miguel de Seide do mesmo
Arcebispado, e está em casa do Capitão Bento Vieyra, que tem grande
autoridade na vila do Icô.

1
Antonio Correa de Araujo Portugal foi processado e condenado pelo Santo Ofício. O caso está
registrado sob o Processo n. 6269, Antonio Correia de Araújo Portugal. Disponível em
[Link] Acesso em 05 de outubro de 2021. Os arquitetos Clóvis
Ramiro Jucá e José Ramiro Teles Beserra utilizam processos inquisitoriais contra artífices, inclusive o do
construtor e entalhador Antonio Correia de Araujo Portugal, com o objetivo de estudar a história da
arquitetura cearense. (Jucá Neto; Beserra, 2021, p. 82).
28
LIV. 311, 119º CAD., MISSÃO DO MIRANDA, CARIRIS
NOVOS – POLUCENA ROIZ, PARDA, CASADA COM O
CAPITÃO MANOEL ROIZ DE SÁ + JULIANA DIAS,
ÍNDIA DA NAÇÃO CARIRI ASSU, CASADA COM O
SARGENTO MOR DA ALDEIA DO MIRANDA,
CHAMADO DOMINGOS DE ARAUJO + ROSA DE
ARAÚJO, ÍNDIA DA NAÇÃO CARIRI ASSU

|f. 464-r|
Muito Ilustríssimos Senhores

Ofereço os papeis inclusos remetidos a esta Mesa pelo comissário


do Santo Ofício Frei Miguel da Victoria, em que há duas voluntárias
apresentações das Índias, chamadas Juliana Dias e Rosa de Araujo 1,
ambas ao presente casadas, nascidas e moradoras da Missão do
Miranda, distrito dos Cariris Novos, freguesia de Nossa Senhora do
________ 2 da vila do Icó, Bispado de Pernambuco, as quais
espontaneamente depõem, que sendo raparigas foram ensinadas, e
induzidas por uma Polucenia Roiz , mulher parda, casada com o Capitão
Manoel Roiz de Sá, também pardo, moradora ultimamente no Olho da
Agua nas fraldas da Serra dos Cariris, em cuja casa estavam aprendendo
a costura por ordem do seu Missionário para que ambas quisessem ter,

1
Esta denúncia foi mencionada por Maria Leônia Chaves de Resende em sua Cartografia Gentílica (Ver
Resende, 2013, p. 362) e estudada por Carlos Henrique Alves Cruz em sua tese de doutorado. O autor,
no entanto, aborda principalmente os intercâmbios religiosos entre capuchinhos – especialmente o
missionário João Francisco de Palermo – e os indígenas aldeados nos sertões brasileiros (Ver Cruz, 2018,
p. 258-259). Em 2023 publiquei na revista Topoi, em parceria com Jucieldo Ferreira Alexandre, um artigo
totalmente dedicado ao tema, intitulado “Atos torpes com demônios no Cariri Cearense: uma denúncia
de índias cristãs à Inquisição de Lisboa (1747-1750)”. Disponível em: [Link]
101X02405202. Acesso em 16 de fevereiro de 2024.
2
O Promotor provavelmente não conseguiu decifrar o nome da localidade - Freguesia de Nossa Senhora
da Expectação - abreviado pelo Frei Miguel da Victoria em sua primeira carta.
Amanda Teixeira • 195

e tivessem atos torpes com o demônio, como ela dita Polucenia tinha
todos os dias, muitas vezes na presença das ditas Índias apresentadas,
apresentando-se-lhe em figura humana de preto com os pés de pato; e
confessam as mesmas índias que consentindo no ensino, chegaram com
efeito a ter cópula com outros demônios, que lhe apareciam com vultos
semelhantes ao que aparecia à dita Polucenia, depois que foram capazes;
porque antes enquanto pequenas consumavam com elas seus
torpíssimos atos pela boca os mesmos demônios: e afirmam que estes
lhe deram a beber certo sangue em um caco que ao engolir lhe pareceu
fogo a fim de que as mesmas sempre andassem com eles, sucedendo que
enquanto não lançaram fora com ânimo de só servirem a Deus sempre
os Demônios lhe apareceram: e dizem mais que a dita Polucenia as fizera
por de joelho por vezes na presença do mesmo Demônio, e que lhe
dissera o adorassem por Deus, e que lhe havia dar de comer, como na
verdade deu, trazendo-lhe bichos do mato <muitas vezes>; e que
assistira o referido também uma Bernarda, mestiça, filha de uma preta,
chamada Josefa |f.464-v| escravas de Manoel da Corte com o qual é agora
moradora na vila da Moucha do Piauí. E porque estas apresentações
estão tomadas sem a clareza e formalidade devida; e das culpas que as
ditas apresentadas confessam resulta presunção violenta de que se
apartaram formalmente da Fé e por isso as devem abjurar; e porque
também se deve proceder contra a dita Polucenia, mestra das
apresentadas e contra a dita Bernarda, Socia da Mesma.
Requeiro a vossas mercês mandem passar as ordens necessárias
para na forma do estilo do Santo Ofício serem processadas e abjurarem
seus erros em forma as ditas duas apresentadas, sendo judicialmente
ouvidas e examinadas; e que de tudo se me dê vista para requerer como
for Justiça.
196 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

E presentado em mesa o requerimento afirmado do Promotor para


os senhores Inquisidores lhe haverem de deferir desse mandado lho fiz
concluso. Alexandre Henrique Amaro o escrevi.
[rubrica]
Façam-se judiciais as duas apresentações que a essa Mesa remeteu
o Comissário Frei Miguel da Victoria; para o que se mandará cumprir
com interrogatórios na forma do estilo.

|f.465-r|
E se advertirá a mesma Comissão que façam a dita diligência com
toda a individuação e cautela possível e com o que resultar retorne a ver
esse requerimento em Mesa para se deferir como for justo; [Lisboa] em
Mesa. 2 de janeiro de 1750.
Simão José Lobo [assinatura]
Luiz Barata de Lima [assinatura]
Manoel Varejão e Távora [assinatura]

<Feita comissão a Pernambuco>

|f.466r| Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores Inquisidores


Informando-me pelo Rol da desobriga sobre o nome da denunciada
mulher do Capitão Manoel Dias de Sá, homem pardo morador no Olho
d’água; e chama-se a dita sua Mulher Pulucenia Roiz, de que faço este
aviso a vossas Ilustríssimas e Reverendíssimas que mandarão o que
forem servidos;
A pessoa mencionada no mandado que me remeteu o comissário
Antonio Alvares Guerra, não me consta que exista nesta freguesia do Icó
mas como estou de partida para o Acaracu também lhe farei a mesma
diligência. Vila do Icó. Em 17 de Março de 1748.
o Comissário Frei Miguel da Victoria. [assinatura]
Amanda Teixeira • 197

|f.466A|
Contra
Pulucenia India casada: atos torpes com o Demônio.
Bernardina ou Bernarda negra filha de Josefa: o mesmo

Apresentam-se do mesmo crime:


Julianna Dias
Rosa de Araujo.

|f.467r|
Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores Inquisidores

Com esta remeto a a Vossas Ilustríssimas Reverendíssimas a


denúncia das Índias desta Missão. A outra cumplice, Bernarda, não me
consta se é viva, pois para onde se ausentou, dista quinze dias de viagem
no Piauhui, só sim é viva a Polucenia, e mora poucas léguas desta missão.
Pelo Comissário Antonio Álvares Guerra, remeto esta com a outra
denunciação do Pe. Agostinho Dias Teives, e as mais inclusas nela,
contra o Pe. Alexandre da Costa Guedez, para Nossas Ilustríssimas e
Reverendíssimas mandarem o que forem servidos. Missão do Miranda,
em 14 de dezembro de 1747.
o comissário Frei Miguel da Victoria. [assinatura]

|f.468r| Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil e


setecentos quarenta e sete aos onze dias do mês de dezembro do dito ano
em a Missão do Miranda distrito dos Cariris Novos, freguesia de Nossa
Senhora da Expectação da Vila do Icó e Bispado de Pernambuco, em casas
de morada do Reverendo Padre Missionário Frei Carlos Maria de Ferrara
198 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Capuchinho, onde eu comissário ao presente assisto, aí, perante mim


apareceu a Índia Julianna Dias casada e por ela me foi dito que vinha
denunciar perante mim, aos Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores
Inquisidores da Santa Inquisição da Cidade e Corte de Lisboa o seguinte:
que morando em casa de Puluçenia mulher de Manoel Dias, homem pardo,
e a mulher da mesma cor, moradores que foram na Fazenda da Tapera
perto do Brejo Grande e desta Missão do Miranda pela parte do Poente, que
hoje assiste no sitio de Santa Barbara na fralda da mesma serra que sendo
rapariga nesse tempo, junto com a Índia Roza de Araujo casada nessa
mesma missão e da mesma idade as chamara a dita Pulucenia para um rio
da mesma Tapera ao meio dia; pouco mais ou menos, viram elas um corpo
de negro, com pés o modo de pato aparecer ali de repente onde com a
Pulucenia lhe falou afastada alguma coisa delas, mas não perceberam o
quê continha a [prática] e depois de ter desaparecido aquele vulto lhe
contou ela dita Pulucenia se queriam elas que aquele vulto lhes ensinasse
alguma cousa boa, porque ele lhe traria manjar para elas comerem, ao que
elas responderam que se fosse algumas rezas boas, o fariam e que coisas
lhe havia ele de trazer para comer, ao que ela disfarçou, respondendo-lhe
que não dissessem nada ao seu marido do que tinham visto. E logo de tarde
as tornara a levar a mesma parte; e tornara a aparecer a dita Pulucenia a
mesma figura da mesma sorte que pelo meio-dia , e ela respondera aquele
vulto que aí tinha mais duas rapa |f.468v| Raparigas mais para o servir, e
que no mesmo instante apareceram mais dois corpos do mesmo traje e se
chegou cada um para a sua rapariga, e que não sabendo elas o que era coisa
mal feita, as mandara a dita Pulucenia por de joelhos diante deles, e
começou cada um a fazer desonestidades diante delas e dar-lhe com o
sêmen pela boca e com a dita [pudencia não] tinha cópula diante delas, e
como elas eram ainda raparigas lho fazia pela boca e que perguntavam que
reza elas rezavam diante deles, elas responderam que a que lhe ensinasse
Amanda Teixeira • 199

seu marido, ao que os demônios responderam como sois tolas, e se viraram


para a dita Pulucenia, e lhe disseram tu tens culpa de tudo isto. E daí por
diante todos os dias, e nas mesmas horas, continuaram sempre elas todas
três fazendo as mesmas velhacarias a eles, e com cópula carnal com a dita
Pulucenia, trazendo-lhe vários bichos para comerem todos os dias, pondo-
se sempre de joelhos diante deles, e os viam mais claros os ditos demônios
com cabelos como gente; mas as figuras muito feias e afogueadas e que só
ela falava com eles, e ela lhe dizia que adorassem aquelas pessoas como
Deus e que ela sabia onde eles moravam, se queriam elas lá ir, pois tinha
ela muitos daqueles camaradas e que antes dela as levar à dita paragem
sempre ao meio-dia, se sumia de casa a dita Pulucenia; e que neste
[favorio] continuaram vários anos até serem já maduras. Vindo sempre as
três figuras uma para cada uma. E também assistia mais uma mestiça por
nome Bernardina filha de uma negra por nome Josefa, a qual supõem
ainda existir, mas já casada, a qual era maior que elas, e o estarem em sua
casa era aprender a costura; por mandado do seu missionário que então
|f.469r| que então 3 era o Reverendo Padre Agostinho Dias Teives, morador
que hoje é no Riacho dos Porcos.
E no mesmo dia chamando a Rosa de Araujo, casada, para vir depor
junto com a dita Juliana Dias, para averiguar melhor a certeza de
algumas palavras, depôs o mesmo fato da outra e disse mais que a dita
Polucenia lhe mandava fazer tudo o que ela queria deitando-se no chão
com ela para o demônio fazer como fazia a ela, e [pôra] de joelhos,
dando-lhe com o sêmen na boca, mas que tudo quanto falava, era com a
dita Pulucenia para elas fazerem o que eles queriam; e que lhe dava 4, e
obrigava a que acompanhassem sempre à dita paragem e que lhe dera

3
No original, “antam”.
4
“Lhe dava”, ou seja, lhe espancava. Vide Bluteau, “dar em alguém pancadas, golpes, umas bofetadas”.
(Silva, 1789, p. 510)
200 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

ambas um pouco de sangue a beber em um caco dizendo que tomassem


aquela bebida para sempre andarem com ele; e que quando o beberam
sentiram como fogo e a andaram assim sempre com aquele ardor. Até
que obrigadas pelo seu missionário o lançaram fora dando estoiro
somente por servirem a Deus e enquanto o não botaram fora sempre lhe
apareciam os dois demônios; fazendo sempre o que lá faziam. E a dita
Roza de Araujo, sendo já casada antes lançar o dito sangue fora tinha
copula com o demônio nesta missão e lhe permitira que enquanto lhe
aparecesse teria sempre copula com ele e a dita Juliana de fazer sempre
o que lá fazia desonestamente |f.469v| E que o Demônio lhe pedira a elas
que o adorem como elas faziam aos Santos; e a dita Pulucenia lhe dizia
que lhe dessem a Sua Alma pois era Deus. E al não disseram; que tudo
lhe foi lido, e declarado inteligivelmente; as quais dei o Juramento dos
Santos Evangelhos para clara e distintamente declararem o que sabiam
sem encarregar suas consciências de como o deram e assim o
prometeram. Assinaram aqui comigo em presença do Seu Missionário,
para em todo tempo afirmar seus depoimentos. Dia mês e ano ut supra.

Cruz de Juliana Dias


Cruz de Roza de Araujo
Frei Miguel da Victoria Comissário [assinatura]
Frei Carlos Maria de Ferrara [assinatura]

Pregador Capuchinho Missionário Apostólico e Superior de [Miranda]

|f.470r| Informando-me de uma preta por nome Bernardina sem [se]


comunicar o segredo da denúncia disse que ela se chamava Bernardina
filha de Joanna forra e que estivera em casa da dita Pulucenia somente
dois dias a um batizado, mas que a dita mulher Pulucenia tem vindo a
Amanda Teixeira • 201

casa da senhora da dita; e que lhe consta que na casa da dita Pulucenia
assistia a mestiça Bernarda filha de uma preta Josepha, a qual se
ausentou para o Piauí, na Vila da Mocha com a dita sua filha Bernarda e
que lhe consta que para a tirarem de casa da Pulucenia foi necessário
mandá-la furtar, pela má vida que lhe dava a Dona Pulucenia, mas que
não sabe a causa que teve sua mãe para a tirar, que depois que assocedeu
uma morte junto do senhor da dita Bernarda, por nome Manoel da
Corte, se ausentou o dito para o Piaui junto com as duas escravas
Bernarda, e sua mãe Josefa. É o que pude descobrir da testemunha
apontada pelas duas Índias na sua denúncia. E também o Padre
Missionário desta missão me disse que a dita Pulucenia lhe metera
vários empenhos para que tornassem as ditas índias outra vez para a
sua casa, mas como já as tinha confessado e reduzido a verdade não
consentiu que elas lá tornassem. A dita Pulucenia assiste hoje no Olho
d’água na serra ou fraldas do Cariri.
Vossas Ilustríssimas e Reverendíssimas mandarão o que forem servidos.
Missão do Miranda em 13 de dezembro de 1747.
o Comissário Frei Miguel da Victoria [assinatura]

|f.471r| Contra Policenia Roiz


Freguesia de Nossa Senhora da Vila de Icó, Bispado de Pernambuco

Os Inquisidores Apostólicos contra a herética pravidade e


apostasia nessa cidade de Lisboa, e seu distrito fazemos saber a Antonio
Alvares Guerra ausente a Felipe Roiz Campello comissários do Santo
Ofício da vila de Santo Antonio do Recife de Pernambuco, que nesta
Mesa há informação que duas índias, uma chamada Juliana Dias, e outra
Roza de Araujo, ambas ao presente casadas naturais e moradoras da
Missão do Miranda, distrito dos Cariris Novos, Freguesia de Nossa
202 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Senhora da Vila do Icó Bispado de Pernambuco, as quais


espontaneamente depõe que sendo raparigas, foram ensinadas e
induzidas por uma Polucenia Rodrigues mulher parda, casada com o
capitão Manoel Rodrigues de Sá, também pardo, moradora ultimamente
no Olho da Agua junto da Serra dos Cariris, em cuja casa estavam
aprendendo costura, para que ambas quisessem ter e tivessem atos
torpes com o demônio, como ela dita Polucenia tinha todos os dias na
presença das ditas Índias, apresentando-se-lhes em figura hu-|f.471v|
humana de preto, com os pés de pato; e declaram as ditas Índias, que
consentindo no ensino, chegaram com efeito a ter cópula com outros
demônios, que lhes apareciam com vultos semelhantes ao que aparecia
à dita Pulicenia, depois que foram capazes, porque enquanto foram
pequenas, consumavam os mesmos demônios com elas atos torpes pela
boca; dizem mais, que estes lhes deram uma bebida que parecia fogo, a
fim de que as mesmas sempre andassem com eles; dizem mais que a dita
Polucenia as fizera por de joelhos por vezes na presença do demônio,
que lhe dissera o adorassem por Deus, e que lhe havia de dar de comer;
o que com efeito fez, trazendo-lhes bichos do mato, e que assistira
também uma Bernarda mestiça, filha de uma parda chamada Jozefa,
escravas de Manoel da Corte, com o qual é agora moradora na vila da
Moucha do Piauí. E porque convém ao serviço de Deus Nosso Senhor e
bem da Justiça do Santo Ofi |f.472r| Oficio constar judicialmente o
referido Authoritate Apostolica, cometemos a vossa mercê, que sendo-
lhe esta entregue, faça a diligência de que na mesma se trata, e elegendo
para escrivão dela a um sacerdote cristão velho de boa vida e costumes,
a quem dará o juramento dos santos evangelhos / cometendo-se a quem
não seja comissário por provisão o tomará também da mão do mesmo
escrivão / sob cargo do qual prometerá escrever com verdade, e ter
segredo, de que se fará termo ao princípio por ambos assinado, e logo
Amanda Teixeira • 203

na dita Missão do Miranda na parte que a Vossa Mercê parecer mais


acomodada para esta diligência se fazer como convém mandará vir
perante si as ditas Indias Julliana Dias e Roza de Araujo, e dando-lhes o
juramento dos Santos Evangelhos para dizerem verdade, e terem
segredo, as perguntará judicialmente pelos interrogatórios seguintes.
[Link] sabe ou suspeita o para que é chamada, e se a persuadiu alguma
pessoa a que sendo perguntada por parte do Santo Ofício, dissesse mais
|f.472v| ou menos do que soubesse e fosse verdade.
[Link] sabe que alguma pessoa fizesse, ou dissesse alguma cousa contra
Nossa Santa Fé Católica ou outra alguma cujo conhecimento pertença
ao Santo Ofício, quem é a tal pessoa, e que é o que fez ou disse. E se
outrossim sabe que alguma pessoa tivesse, ou tenha trato com o
demônio; quem é a tal pessoa, e que trato e comunicação tem; e se ela
testemunha o presensicou, e se também nele concorreu, e como.
Deporá a testemunha com toda a individuação e circunstâncias
tudo o que souber a respeito do referido, assim no que ela concorreu,
como no mais que sabe da dita Pulicenia Roiz; e se elas referirem mais
algumas pessoas, não sendo sócias do mesmo delito, as perguntará
Vossa Mercê, e testemunhando contra a dita Pulucena, ou outra alguma
pessoa, será o testemunho ratificado na forma do estilo do Santo Ofício.
[Link] tudo o que tem testemunhado passa na verdade, e se tem que
declarar ao costume.
Pelos |f.473r| Pelos ditos interrogatórios, e na sobredita forma,
perguntará Vossa mercê as testemunhas, as quais no principio de seus
testemunhos dirão seus nomes, cognomes e no fim assinarão, e pelas
mulheres que não souberem escrever, o escrivão da diligência assinará
por ela de seu rogo; pelo qual mandará fazer declaração dos dias, que
nela gastarem fora de suas residências.
204 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Vossa Mercê com toda a cautela, sagacidade e com modo inquirirá


as ditas Índias para que não tenham dúvida dizer de si o conteúdo na
comissão retro; e tirando—lhes todo o medo que puderem ter.
Ultimamente dará Vossa Mercê a sua informação, declarando o que
souber e alcançar assim a respeito do que se pretende averiguar como
da fé e crédito, que as testemunhas se deve dar escrevendo tudo pela sua
mão, sem o comunicar ao escrivão, e feita a diligência na sobredita, com
brevidade, com a mesma a remeterá a esta Mesa, sem que lá fique cópia
ou treslado. Dadas em Lisboa no Santo Ofício sob nossos sinais e selo do
mesmo aos onze dias do mês de Março de mil e setecentos e cinquenta.
Manoel Lourenço Montenegro a fiz.
Simão José Silvério Lobo [assinatura]
Luiz Barata de Lima [assinatura]

[Desta], e selo 250


Conta 36.
<Registrada a f. 43>

|f.474r| Autuamento de testemunhas, que contra Policenia Rodriguez


tirou o Muito Reverendo Padre Frei Joam Francisco de Palermo, por
ordem que teve do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição de Lisboa.
Ano do Nascimento de Nosso Senhor JESUS Cristo de mil sete centos
e cinquenta, aos treze dias do mês de outubro do dito ano, nesta aldeia do
Miranda distrito desta Freguesia de Nossa Senhora da Luz dos Cariris
Novos onde o Reverendo Padre Frei Joam Francisco de Palermo é
missionário, sendo aí pelo dito Reverendo Senhor me foi presentada uma
ordem do Tribunal do Santo Oficio da Inquisição de Lixboa para como
comissário do dito Tribunal, fazer inquirição de testemunhas contra
Policenia Rodriguez. Em virtude da qual ordem logo eu escrivão adiante
Amanda Teixeira • 205

nomeado, lhe dei o juramento dos Santos Evangelhos, sub cargo do qual
lhe encarreguei, que-bem fiel e verdadeiramente inquirisse as
testemunhas na forma do direito, guardando em tudo o Serviço de Deus,
e justiça às partes; e recebido o juramento, mo deu também a mim
escrivão, sub cargo do qual me encarregou escrevesse a dita Inquirição
bem e fielmente na forma em que era obrigado; o que ambos prometemos
fazer e cumprir com as obrigações, que por direito nos são encarregadas,
de que fiz este termo em que ambos assinamos, e logo ajuntei a ele a dita
Ordem para tratar da dita Inquirição, que tudo é o que ao diante se segue.
E eu, o Padre Gonçallo Coelho de Lemos, sacerdote do hábito de São Pedro,
cura desta freguesia, e escrivão eleito, o escrevi.
Frei João Francisco de Palermo [assinatura]
Gonçallo Coelho de Lemos [assinatura]

|f.474v|
Primeira Testemunha
Julianna Diaz, mulher casada com o sargento Mor da Aldeia do
Miranda chamado Domingos de Araujo, ambos índios da nação do Cariri
Assu natural ela testemunha, e moradora na dita Missão, a quem o
Reverendo Padre comissário deu o juramento dos Santos Evangelhos
sob cargo do qual lhe encarregou, que bem, e fielmente depusesse e
declarasse tudo o que soubesse e fosse verdade, e lhe fosse perguntado,
e guardasse segredo; o que tudo prometeu fazer de baixo do juramento
que lhe foi dado.
1. E perguntada, ela testemunha no primeiro interrogatório da
Inquirição e Comissão do Santo Ofício da Inquisição de Lisboa, disse que
suspeitava que foi chamada por matéria do Santo Ofício acerca de uma
denunciação que tinha feito os anos atrás a um Religioso, e que
206 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

nenhuma pessoa a persuadiu a dizer mais ou menos do que fosse


perguntada e al não disse.
2. Ao Segundo disse que sabe que uma mulher parda chamada
Policenia Rodriguez casada com Manoel Diaz, também pardo, e capitão
das entradas moradores nos olhos [da] água de Santa Bárbara da Serra
distrito desta Freguesia dos Cariris Novos, que em tempo que ela era
menina, e habitava em casa da dita mulher, junta com outra rapariga
também índia, chamada Rosa de Araújo, a dita Policenia Rodriguez diante
delas cada dia tinha amizade com o demônio, que lhe aparecia em figura
de homem preto com os pés de pato, a quem adorava e chamava Deus,
fazendo pecados desonestos com o Demonio, e que ensinava a ela e a Sua
camarada índia (que já é falecida) e diante também de outra rapariga
chamada Bernarda parda filha de uma negra chamada Josepha, que dizia
eram escravas, cujos nomes do senhores ignorava, nem sabe onde por ora
são moradores. Disse mais, que o Demonio lhes falava e dizia que se o
tivessem por Deus e o adorassem, como lhe ensinava sua mestra Policenia
Rodriguez, que lhe daria muito de comer, como o fazia trazendo bichos
medonhos como lagartixas, calangos e outros semelhantes, e que lhes
dava também replicadas vezes a beber uma bebida, que sabia a sangue e
parecia fogo, que depois lhe fazia dores no estomago, e só aliviava
vomitan |f.475r| Vomitando, e a dita sua mestra a bebia cada dia sem
vomitar. Disse mais, que o Demonio fazia atos torpes com elas, aos quais
consentiam por temor da Mestra, e que depois sendo mais grandinhas
consumaram pecado, aparecendo-lhes para este efeito outros dois
demônios na mesma figura de homem preto com pés de pato. Disse mais,
que lhes ensinava que a fé da Santa Igreja Católica não era verdadeira, e
que na Hóstia Consagrada não estava Deus, e que lhes dizia que quando
se confessassem não descobrisse tudo isto ao Confessor e al não disse.
Amanda Teixeira • 207

Ao terceiro disse que o que tinha dito era verda (sic), e que sempre
o havia dizer assim, pois de tudo sabia por se achar presente com as
outras duas suas camaradas acima nomeadas aprendendo a cozer e ao
costume disse nada, e al não disse. Depois disto se lembrou mais dizer
que a sua Mestra lhe fez dar a alma e o sangue ao Demonio; e que a dita
mestra tinha um livrinho no qual dizia a dita Mestra que nele estava
escrito que elas tinham dado a alma, e o Sangue ao Demonio e o demônio
mesmo lhes dizia, que adorando-o por Deus as faria felizes neste mundo
e lhes daria a Gloria Eterna no outro mundo, o que tudo consentiam com
o temor e medo de que a dita mestra as não castigasse, e al não disse, e
ao costume tornou a dizer nada.
E sendo-lhe lido este seu testemunho, e por ela ouvido, e
entendido, disse estava escrito na verdade, e que nele se afirma, ratifica
e torna a dizer de novo sendo necessário, e que no mesmo não tem mais
que acrescentar, diminuir, mudar ou emendar, nem de novo que dizer
ao costume, sub cargo do juramento dos Santos Evangelhos, que outra
vez lhe foi dado. Ao que estiveram presentes por honestas e religiosas
pessoas o Reverendos Padres Frei Bernardo de Sam Joam, Religioso
Carmelita da Reforma e Frei Lourenço de Sam Marcos Missionário
Capuchinho, que tudo viram, e ouviram, e prometeram dizer verdade, e
ter segredo no que fossem perguntados, sub cargo do juramento dos
Santos Evangelhos, que lhes foi dado; os quais Reverendos Ratificantes,
assi |f.475v| Ratificantes assinaram com a testemunha e com o Revendo
(sic) Comissário, e eu, o Padre Gonçallo Coelho de Lemos, cura desta
freguesia dos Cariris Novos, escrivão eleito, o escrevi. E por ela dita
testemunha não saber ler, nem escrever, assinei pela dita a seu rogo.
Frei João Francisco de Palermo [assinatura]
Missionário da Aldeia da Miranda dos Cararis (sic) Novos e
Comissionário eleito desta inquirição.
208 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Assino a rogo da testemunha Julianna Diaz, índia.

Frei Bernardo de São Joam [assinatura]


Religioso Carmelita da Reforma

Frei Lourenço de São Marcos [assinatura]


Missionário Capuchinho

E ida a testemunha para fora, foram perguntados os Reverendos


Padres ratificantes se lhes parecia falava verdade, e merecia crédito e
por eles foi dito que sim lhes parecia falava verdade e merecia crédito e
tornaram a assinar com o Reverendo Comissário, e eu o Padre Gonçalo
Coelho de Lemos escrivão eleito, o escrevi.

Frei João Francisco de Palermo [assinatura]


Missionário desta Aldeia e Comissário eleito dessa inquirição.

Frei Bernardo De São Joam [assinatura]


Religioso Carmelita da Reforma

Frei Lourenço de S. Marcos [assinatura]


Missionário Capuchinho

Termo de conclusão e encerramento


Aos quatorze dias do mês de outubro de mil sete centos e cinquenta
anos, nesta Aldeia do Miranda distrito desta Freguesia de Nossa
Senhora da Luz dos Cariris Novos onde o Reverendo Padre Frei Joam
Francisco de Palermo é missionário, sendo aí, dando-se por acabado
este autuamento de testemunha que consta de três folhas ou seis
Amanda Teixeira • 209

páginas de papel escritos, sem risca, emenda nem cousa, que possa fazer
dúvida, numeradas com o algarismo até o número três e rubricadas pelo
Reverendo Comissário |f.476r| Comissário com a rubrica (Palermo) a
fechamos e lacramos em três partes com três pingos de lacre vermelho
por banda (gastando-se nesta diligência do Reverendo escrivão, e um
ratificante Religioso Carmelita que para este efeito foram chamados
fora das suas costumadas residências quatro dias cada um), para
remeter ao Tribunal do Santo Oficio da Inquisição de Lixboa na forma
de sua ordem; de que fiz este termo, em que ambos assinamos.

Frei Joao Francisco de Palermo, Missionário desta Aldeia. [assinatura]


Comissário Eleito desta inquirição

Gonçalo Coelho de Lemos [assinatura]


Escrivão eleito desta Inquirição.

Eu, Frei João Francisco, Comissário eleito desta inquirição, me


declaro que o dito da testemunha foi verdadeiro e que falava com
verdade, pois se esta testemunha com tanta clareza disse as suas
mesmas fraquezas, em que concorreu, claro é que o que disse contra
Policenia Rodriguez era também verdade.

Outra testemunha não foi perguntada por se achar já falecida.

Icó de Pernambuco

Ao comissário, Frei João Francisco Palermo – 60


Ao escrivão, o Padre Gonçalo Coelho Lemos - 104
[Notificação] –20
210 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

[Total] 184
Cta. 36
6ª p.13

|f.476v|

Ao Secreto - 274
Contas - 108
[Total] 382

Contado no Auto de
1754
29
LIV. 313, 121º CAD., RUSAS, VILA DE
SANTA CRUZ DO ARACATI – GASPAR ROIS
DOS REIS CALÇADO, PROPOSIÇÃO HERÉTICA

|f. 146r| Denúncia que faz o Doutor Jozé Balthazar Hager contra Gaspar Roiz
dos Reis Calçado.
Gaspar Rois dos Reis Calçado – proposição
Ano do nascimento de Nosso Senhor JESUS Cristo de mil sete
centos e cinquenta e oito; aos vinte e um do mês de Novembro do dito
ano, perante 1 mim apareceu o Doutor em Medicina José Balthazar
Hager, homem solteiro, que vive da Arte da Medicina, morador e
assistente de presente, em o curato de Nossa Senhora das Russas, vila
de Santa Cruz do Aracati de Jaguaribe do Bispado de Pernambuco, o qual
disse que por, digo, o qual disse era natural da Freguesia de Santos
Cosme e Damião da cidade de Turim, Corte de El Rey de Sardenha em
Piamonte, de idade que disse ser de trinta e quatro anos, o qual disse,
que por descargo de sua consciência, temor de Deus, e mandado de seu
confessor, sem constrangimento, nem violência de pessoa alguma, ódio,
nem inimizade vinha denunciar perante mim como comissário do Santo
Oficio de Gaspar Roiz dos Reis Calçado, ao qual ouviu ele denunciante
dizer varias cousas malsoantes, protervas, e escandalosas contra a
nossa Santa Fé Católica, indicativas de Judaísmo, como fosse em ouvir
dizer ao dito denunciado, que Maria Santíssima não podia parir e ficar
virgem; como tão bem achando-se o denunciante com o denunciado
pela Semana Santa, na Igreja Matriz das Russas disse o denunciado,
vendo uma Imagem de Cristo Senhor Nosso preso a uma coluna em que

1
No original, pera ante.
212 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

se representava o paço dos açoites disse que aquela figura que estava
presa à coluna, que era um macacão, e com grandes risadas escarnecia
da Santa Imagem e disse que as cerimônias da Semana Santa eram
macaquices, e asneiras, e em outra ocasião entrando o denunciante, com
o denunciado na Igreja reparou que o denunciado entrava com umas
esporas nos pés, e advertindo o denunciante, que não entrasse na Igreja
com esporas por ser indecência e irreverência lhe disse o denunciado,
que tanto fazia entrar com esporas na Igreja como dentro de uma
estrebaria 2, e fazendo mofa do Sacrifício da Missa, e que tanto fazia
ouvir missa como não ouvir porque a missa não enchia a barriga e disse
o denunciante que advertindo ao denunciado, que estivesse sério, e
atento na Igreja, e que não estivesse sempre a rir, porque escandalizava
com os seus gestos e ações, e que lhe poderiam chamar Judeu pelo ver
tão escandaloso à Igreja, respondeu o dito denunciante, digo
denunciado, que ele se prezava muito de ser Judeu; e isto tudo, o que
fica supra referido disse o denunciante, que fora em sua presença, como
também disse, que ouvira dizer ao denunciado, que a Igreja do Lugar do
Aracathi não servia para nada, e só sim para se cagar nela; e que tudo
isto ouviu |f.146v| Ouvira ele denunciante ao mesmo denunciado; e que
isto que ele denunciara o tinha também ouvido contar as testemunhas
seguintes que são Antonio Pereira, mestre Caldeireiro; José Roiz Pinto e
sua mulher chamada Lourença, como também a mulher do dito
Caldeireiro chamada Arcangela; o Tenente Francisco Barbosa de
Menezes; José Ribeiro do Vale; que tem a ocupação de Tabelião do
público, e notas, o Capitão Manoel Roiz da Silva, todos tidos por brancos,
cristãos velhos, e fidedignos e moradores no Aracathy de Jaguaribe; e
disse o denunciante mais, que também referia por testemunha de tudo

2
No original, “estravaria”.
Amanda Teixeira • 213

o Sargento mor João Francisco Tavares morador também na Vila do


Aracaty de Jaguaribe: e todos estes com taram a ele denunciante que o
denunciado tinha dito que a Imagem do Senhor amarrado à coluna era
um macacão, e disse o denunciante, que o denunciado era tido, havido e
reputado por Judeu, e Cristão novo, e que tudo o que ele denunciante
tinha dito, e referido, o jurava aos Santos Evangelhos, e que por verdade
comigo se assinava, Vila de Santo Antonio do Recife de Pernambuco dia,
e era Supra:
Antonio Alvares Guerra [assinatura]
Jozé Balthazar Auger [assinatura]
30
LIV. 313, 121º CAD., VILA DO ICÓ – ANTONIO
CORREA DE ARAÚJO PORTUGAL,
CAPITÃO-MOR, BIGAMIA

|f.87r| Antonio de Araujo, digo Correia de Araujo Portugal, bigamia

Aos 17 de Fevereiro de 1758 denunciou perante mim Manoel


Ferreira da Sylva, morador na Freguesia do Itapicurù de Cima, e de
presente nesta cidade, onde veio com umas boiadas, casado, branco e
natural de São Salvador de Lordello do Bispado do Porto, que à sua
notícia veio que o capitão-mor Antonio Correa de Araujo Portugal, a
quem conheceu e tratou na mesma Freguesia do Itapicurû de presente
é morador na vila do Icó do bispado de Pernambuco, sendo casado com
Filipa Maria da Sylva em Portugal do Lugar de [Alena], Freguesia de
Santa Maria de Lourença, se casa segunda vez neste Brazil pelo que se
diz e se colhe do fim de uma carta que com esta apresentou com a data
de 3 de Maio de 1757 escrita por Pedro Ribeiro da Silva Portilho a ele,
denunciante, e Irmão da dita Philippa Maria da Silva moradora em
Portugal do Denunciado falando-lhe em uma diligência de Notificação
para o dito Seu cunhado ir para a companhia da sua mulher e Irmã 1, e
outrossim ouviu dizer a Gonçallo Correa dos Santos e o capitão Manoel
Bernardes do mesmo Itapicurù, que Joanna Roiz, segunda mulher com
quem se acha casado o Denunciado haverá dois para três anos na
Freguesia do Iccò, escrevera ao dito Capitam Manoel Bernardes
mandando lhe pedir que soubesse se o dito seu marido tinha ainda a sua
primeira mulher viva em Portugal como lá se [...] para saber se estava

1
No original, Irmãã.
Amanda Teixeira • 215

validamente casada; porem que ele Denunciante não tinha mais certeza
|f. 87v| do que a que tem deposto e se colhe da carta junta e Procuração
antiga da dita sua primeira mulher que tudo oferece para desencargo de
sua consciência o que faz sem razão de ódio ou malicia e só por
satisfazer a obrigação que tem, e que as pessoas de Itapicurù que
poderão saber do sobredito são as seguintes o Tenente Coronel Miguel
Maciel de Andrade; o Capitam Manoel Bernardes; Dona Ignez Cardoza,
Mulher do defunto Manoel da Costa Pereira Landim; Manoel da Costa
Torres, que assiste na Fazenda de Manoel Rebello de Carneiro; Antonio
Luciano da Costa. e do Icô não conhece pessoa alguma e lembra-se mais
do Capitão Diogo Gil Fagundez do Itapicurû; e por ser o sobredito o que
sabe, afirmou debaixo do juramento dos Santos Evangelhos. Bahia, dia
mês e era ut supra, e comigo assinou.
Comissário Almeida [assinatura]
Manoel Francisco da Sylva [assinatura]
31
LIV. 313, 121º CAD., MANGABEIRA, SERTÃO DO ICÓ –
BENTO RIBEIRO PORTO, ALIÁS,
MANOEL FRANCISCO OU FERREIRA, BIGAMIA

|f. 133-r] Apresentação de Bento Ribeiro Porto, aliás, Manoel Ferreira –


Bigamia

Termo de juramento.
Ano do Nascimento de Nosso Senhor JESUS Cristo de mil sete centos
e cinquenta e nove; aos treze dias do mês de Fevereiro do dito ano nesta
vila de Santo Antônio do Recife, Bispado de Pernambuco, em casas e
morada do Padre Antônio Teixeira Lima, Comissário do Santo Ofício da
Inquisição da Cidade de Lisboa, onde eu escrivão adiante nomeado fui
vindo por mandado do dito Padre Comissário, por ele me foi dito, que para
efeito de tomar uma denúncia, que se lhe oferecia pertencente ao serviço
e justiça do Santo Tribunal me elegia e nomeava Escrivão, e logo pelo dito
Padre Comissário me foi dado o juramento dos Santos Evangelhos,
subcargo do qual me encarregou, que bem, e fielmente, e com todo
segredo, e consideração escrevesse a dita denúncia na forma em que era
obrigado, e requeriam os negócios pertencentes ao dito Santo Tribunal, o
que tudo prometi fazer debaixo do juramento, que me foi dado, de que fiz
este termo, em que ambos assinamos, e eu, o Padre Antônio Lopes de
Macedo, escrivão eleito, o escrevi.

Antônio Teixeira Lima [assinatura]


Comissário do Santo Ofício

Antônio Lopes de Macedo [assinatura]


Amanda Teixeira • 217

Denúncia
Aos treze dias do mês de Fevereiro de mil sete centos e cinquenta e
nove anos, nesta Vila de Santo Antônio do Recife, Bispado de Pernambuco
nas casas e morada do Padre Antônio Teixeira |f. 133-v| Lima, comissário
do Santo Ofício, apareceu Bento Ribeiro Porto, que algum dia se chamou
Manoel Ferreira, homem branco, casado com Maria Luis, que vive de seu
negócio e de minerar, natural da freguesia de São Lourenço, Bispado do
Porto, e morador no lugar da Mangabeira, freguesia do sertão do Icó, há
seis meses; e há três anos na freguesia dos Cariris novos, vizinhos do dito
Icó, tudo Bispado deste Pernambuco, de idade que disse ser quarenta e
oito anos pouco mais ou menos; e em presença do dito Padre Comissário,
e de mim, escrivão adiante nomeado, disse que ele dito Bento Ribeiro,
como católico e obediente à Igreja, por temor da justiça do [Retíssimo]
Tribunal da Santa Inquisição, e para desencargo e sossego de sua
consciência vinha denunciar-se, e acusar-se a si próprio, e com efeito se
denunciava e acusava para aquele Santo Tribunal do crime de se haver
casado segunda vez sem saber com certeza se estava viva sua primeira e
legítima mulher, porque sendo ele dito Bento Ribeiro casado com o nome
de Manoel Ferreira legitimamente em face de Igreja, com Maria Luis,
natural e moradora na dita freguesia de São Lourenço do Bispado do
Porto, filha legítima de Manoel Luiz e sua mulher, cujo nome se não
lembra, e fazendo com ela vida marital seis anos pouco mais ou menos se
passou por ocasião de negócios para o Brasil, e fez sua residência nas
Minas Gerais, donde viajara para o Rio de Janeiro, e depois das ditas
[Geraes] passou-se mudando o nome de Manoel Ferreira para o de Bento
Ribeiro, que conserva, se passou, digo, para os Guayazes do |f. 133A|
Arraial de Nossa Senhora da Natividade, Bispado do Grão-Pará, e aí depois
de sete para oito anos de sua residência sucedeu que morrendo Pascoal
218 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Correa Velho, marido de Dona Arcangela Maria de Meneses, e ficando esta


viúva, tratava ele dito Bento Ribeiro dos negócios da sua casa, tendo muita
familiaridade, trato e entrada nela, donde tomou a dita viúva, conluiada
com Manoel Ferreira Martins, e o Coronel Matheos Lopes da Silva, ocasião
de obrigarem a ele dito Bento Ribeiro a casar com ela, fazendo-o prender,
digo, ir [a perguntas] perante o Reverendo vigário Geral daquele lugar, o
Padre José de Cerqueira Pinto, e depois o recolheram à cadeia, e dela
pedindo ele dito Bento Ribeiro audiência particular com o dito Reverendo
Vigário Geral, este lhe concedeu, e nela lhe expôs ele dito Bento Ribeiro,
que era casado na freguesia de São Lourenço do Porto, e suposto sendo
morador nas Gerais tivera notícia que era falecida sua mulher, contudo,
como não tinha a certeza necessária do seu falecimento, não podia casar-
se segunda vez, e só sim depois de mandar examinar e na certeza a dita
freguesia, e Bispado do Porto, Ao que lhe respondeu o dito Reverendo
Vigário Geral que esse impedimento era desculpa frívola dele, e assim
que, ou se havia de casar logo, ou morrer na cadeia, com cuja resolução se
casou ele dito Bento Ribeiro, com as solenidades costumadas da Igreja,
vindo em custódia para a Igreja de Santa Ana do dito lugar dos Guayases 1,
e aí se recebeu com palavras de presente, com a dita Dona Archangela
Maria de Menezes, como assim obrou por remir sua avexação, sem mais
exame da sobrevivência 2, nem notícia certa da morte da dita sua mulher
Maria Luís; considerando-se impedido desejou não coabitar com esta
segunda mulher, pondo-se em fugida, porém como ainda o ameaçavam
com a morte os ditos Manoel Ferreira Martins, e o Coronel Mateus Lopes
da Silva, se não coabitasse com ela, mandando-lhe rondar ocultamente à
casa, para que lhe não dessem lugar a fugir, coabitou perto de dois meses,

1
É possível que se trate da Matriz de Sant’Ana construída na cidade de Goiás (ou Goiás Velho), em Goiás.
2
No original, “supervivência”, termo ainda em vigência, inclusive dicionarizado por Bluteau.
Amanda Teixeira • 219

e nesse tempo consumou algumas vezes o matrimônio para melhor ter


lugar de fugir com segurança do perigo, e morte ameaçada, e com efeito
assim o executou depois do dito tempo, de perto de dois meses, fugindo
ocultamente para os Cariris, onde teve notícia que os ditos Manoel
Ferreira Martins e o Coronel Mateus Lopes da Silva se apossaram de todos
os seus bens, que possuía nos ditos Goyases; e residindo nos mesmos
Cariris teve ocasião por via do Padre José Pereira, da congregação do
oratório deste Recife, de mandar examinar a dita freguesia de São
Lourenço do Porto a supervivência da dita sua primeira mulher, e tendo
notícia na presente frota ser ainda viva, o mandou o dito Padre José
Pereira denunciar-se, e acusar-se a si mesmo; e finalmente declarou o
dito denunciante Bento Ribeiro, por nome certo Manoel Ferreira debaixo
do juramento que lhe deu o dito Padre comissário, que todo o referido
passara na verdade, não por sentir mal, nem fazer irrisão dos
Sacramentos, mas sim por sua miséria, e por lhe faltar esforço para
padecer a vexação, e ameaças, com que o intimidavam, e por isso
desejando o bem de sua alma, e sossego de sua con- |f.133B| consciência,
se apartara logo que teve comodidade da dita segunda mulher, e nunca
mais tornara a vê-la, nem no lugar, e agora humildemente e com efeito se
denunciava e acusava por satisfazer a sua obrigação, como verdadeiro
católico que é, e crê tudo que crê e ensina a Santa Igreja Católica, de quem
é filho obediente, e como tal se sujeita a toda a pena em que por sua
miséria esteja incurso, e o mesmo Santo Tribunal for servido impor-lhe.
E sendo-lhe lido este seu testemunho, e por ele ouvido, e
entendido, disse que estava escrito na verdade, e que nele se afirmava,
ratificava, e sendo necessário, de novo tornava a dizer; e que no mesmo
não tinha que acrescentar, diminuir, mudar, ou emendar sub cargo do
juramento dos Santos Evangelhos, que outra vez lhe foi dado, ao que
estiveram presentes por honestas e religiosas pessoas, os Reverendos
220 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Padres José Afonso Barroso, e José Rodrigues Gurjão, que tudo viram,
ouviram, e prometeram dizer verdade no que forem perguntados, e ter
segredo, que importa aos negócios do Santo Tribunal sub cargo do
juramento dos Santos Evangelhos, que também lhes foi dado, e
assinaram com o denunciante, e com o Padre comissário, e eu, o Padre
Antonio Lopes de Macedo, escrivão eleito, o escrevi.

Antonio Teixeira Lima [assinatura]


Comissário do Santo Ofício

Padre Joseph Afonso Barroso [assinatura]


Bento Ribeiro [assinatura]
o Padre José Roiz Gorjão [assinatura]

[133Bv|
E ida a testemunha para fora, foram perguntados os Reverendos
Padres ratificantes se lhes parecia que a testemunha depoente falava
verdade, e merecia crédito, e por eles foi dito que sim, lhes parecia que
falava verdade, e merecia crédito, pelo modo e humildade com que se
portou na denúncia, que depôs, e tornaram a assinar com o Padre
comissário e eu, o Padre Antonio Lopes de Macedo, escrivão eleito, o
escrevi.

Antonio Teixeira Lima [assinatura]


Comissário do Santo Ofício

Padre Joseph Afonso Barroso [assinatura]

Padre José Roiz Gorjão [assinatura]


Amanda Teixeira • 221

Ao Denunciante depoente não conheço, nem tenho notícia do seu


crédito; porém pelo modo e humildade que mostrou quando depôs a sua
denúncia me pareceu sujeito ou de temerosa consciência ou temeroso
da justiça do Santo tribunal, a vista do que os Senhores Inquisidores
mandarão o que forem servidos. Recife, 13 de fevereiro de 1759.

Antonio Teixeira Lima [assinatura]


Comissário do Santo Ofício

Termo de Conclusão
Sendo no mesmo dia treze de Fevereiro de mil sete centos e
cinquenta e nove, nesta vila de Santo Antonio do Recife de Pernambuco
dando-se por acabada esta dita denúncia, que consta de seis páginas
com |f.133C| com esta sem risca que possa fazer dúvida mais do que na
página segunda na antepenúltima regra as palavras que vão riscadas, as
quais dizem “das ditas gerais se passou” numeradas e rubricadas pela
digo com a sua rubrica Lima, a fechamos e lacramos em três partes
gastando-se com ela uma tarde na nossa residência para a remetermos
ex-ofício ao Tribunal do Santo Ofício da Inquisição da Cidade de Lisboa
de que fiz este termo em que ambos assinamos, e eu o Padre Antonio
Lopes de Macedo, escrivão eleito, o escrevi.

Antonio Teixeira Lima [assinatura]


Comissário do Santo Ofício

Antonio Lopes de Macedo


32
LIV. 818, 124º CAD., SÍTIO BOM SUCESSO, VILA DE
ICÓ – ANTONIO RIBEIRO, PRETO FORRO, FEITIÇARIA

|f. 420-r| Antonio Ribeiro – preto forro – feitiçaria


Senhor Padre Frei Miguel da Vitoria
Recebida a [...] de Junho [...].

Ano passado recebi uma denúncia de Vossa Reverendíssima de que


dei resposta pelo mesmo portador; e oferecendo-se diligência de minha
obrigação, querendo dela dar parte a Vossa Reverendíssima, tive notícia
se tinha a Vossa Reverendíssima. retirado para as partes do Maranhão;
e agora de próximo recebo carta do Comissário Reverendo Antonio
Alvares Guerra em que me ordena de parte a Vossa Reverendíssima do
que se me oferecer de minha obrigação em que me dei o dito comissário
tiver a carta de Vossa Reverendíssima feita do sitio do Joazeyro; e como
se me oferece representar a Vossa Reverendíssima em como nesta
Ribeira do Icó da freguesia da vila do Icó se acham dois negros que me
dizem são feiticeiros e com seus malefícios tem morto algumas pessoas
e os moradores me tem representado varias queixas, e que por serviço
de Deus e de nossas obrigações devemos acudir; faço aviso a Vossa
Reverendíssima para que podendo venha a este lugar para dar remédio
ao dano que se irá estendendo a mais; os ditos negros se chamam um
Antonio Ribeiro, forro e casado com uma negra chamada Dionizia,
também forra, e até agora moraram no sítio do Tamanduá e agora se
mudaram para o Sítio chamado o Bom Sucesso, junto da vila de Icó; o
outro, o negro Camarada do dito, chamado Antonio Brandão, casado
com uma negra por nome Antonia, escrava do Alferes João Pereira da
Silva, morador no sítio do Tamanduá. É o que se me oferece representar
Amanda Teixeira • 223

a Vossa Reverendíssima da obrigação de meu cargo, ficando neste lugar


certo servir ao Reverendo, a quem Deus guarde muitos anos [...]
Almas, 14 de abril de 1758 @
De V. R.
Muito certo Venerador e fiel
João Lopes Reymondo

Pela distância que vai de cinquenta léguas à [vila] do Icó e me achar


indisposto para tirar esta [denúncia] cometo as minhas [vezes] ao Muito
Reverendo Padre [Cura] vigário da vara da Villa do Icó Domingos
[Salgado] para que se informando de pessoas fidedignas que [conhecem]
os ditos Prettos; inquira esta denúncia, em [...] que faça [...] para com ela
dar conta à Mesa [do Santo] Ofício, para se provar na matéria como [...]
que convém. Preguntará às pessoas se conhecem os ditos pretos, se
sabem que usam de [malefícios] |f. 428/421| se tem pacto com o demônio;
e se com seus feitiços, tem morto algumas pessoas, quem foram // se os
viram fazer alguma cousa destas, em que tempo e em que parte; e a
razão que tem para assim o saberem. Que pessoas sabem disto, ou
assistiram. E todas por seu nome assinam com o dito senhor Vigário da
Vara. Joazeyro de Sima, 14 de julho de 1758.

O [Doutor] Frei. Miguel da Victoria, Comissário do Sto. Ofício

Primeira Testemunha
O Capitão Manoel Martins dos Santos, homem branco e casado,
morador no sítio da Tapera, que vive de suas Lavouras, de idade de
setenta anos pouco mais, ou menos, natural da Freguesia de Sam Romão
de Aguiar de Souza, Bispado do Porto, testemunha notificada pelo Santo
Tribunal, a quem se deram os juramentos, para em tudo falar verdade,
224 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

e guardar segredo, do que lhe fosse perguntado em um livro dos


Evangelhos em que Pôs sua mão direita, e [prometeu dizer verdade], sob
cargo do qual se lhe encarregou que bem, e fielmente dissesse verdade
a tudo o que lhe fosse perguntado. E sendo perguntado a ele testemunha
pelos [capítulos] conteúdos na Comissão; disse que sabe que sendo|f.
421v| Antonio Ribeiro, preto forro, morador no sítio do Tamanduá e
casado com Dionísia, preta forra moradora no [mesmo] [lugar] e de
próximo se passaram para o sítio do Bom Sucesso [...] a vila do Icó, e
sabe por ser público, e notório, que o dito preto tem pacto com Demônio
por se queixarem dele algumas pessoas; porém que ele testemunha
nunca o vira fazer cousa alguma, por não ter muita correlação com o
dito preto, e a razão que tem para assim o depor, é que vindo ele
testemunha ao sítio das almas, e achando um escravo do Sargento mor
João Lopes Raymundo por nome [...] [malefeciado], e confessando o dito
escravo lhe disse: nunca [teve] [razões] com pessoa alguma, mais do que
poucos dias atrás com o dito preto Antonio Ribeiro, e depois das [razões]
começara a enfermar, de que [tomando] várias medicinas opostas [...]
malefício lançara pela boca fora três embrulhos de várias cousas
misturadas com cabelos de negros, e vários [...] e mais não disse de todo
conteúdo na comissão, que toda por mim lhe fora lida, e declamada, e
eu o Padre Domingos Salgado, Cura, e vigário da vara do Icó o escrevi.
Cruz + de Manoel Martins dos Santos

Testemunha segunda
José Ferreira Soares homem pardo, e casado morador no sítio do
Tamanduá, que vive de suas lavouras de idade de quarenta [anos] pouco
mais, ou menos, natural de Santo Antão da Mata deste Bispado,
testemunha notificada pelo Santo Tribunal, a quem se lhe deu o
juramento dos Santos Evangelhos em um livro deles, em que pôs sua |f.
Amanda Teixeira • 225

422-r| sua mão direita, e prometeu dizer verdade, a tudo o que lhe fosse
perguntado.
E sendo perguntado pelo conteúdo na comissão dissera que
conhece a Antonio Ribeiro, preto forro, casado com Dionísia, também
preta forra, moradores no Sitio do Tamanduá, e por ora assistentes no
Sítio do Bom Sucesso, junto à vila do Icó, e sabe por ser público, e notório
no lugar, que o dito preto Antonio Ribeiro usa de malefícios por se
queixarem dele várias pessoas, como seja João da Silva de Sam Paio, e
Domingos Coelho Meirelles, ambos moradores nesta mesma Freguesia,
e a razão, que tem para assim o depor é, por vir Joana preta escrava de
Domingos Coelho Meirelles a certa [função] vestida, e ornada, o dito
Antonio Ribeiro disse, que era mal empregado a dita Joana servir a
branco, e passados poucos dias entrou a dita preta a enfermar, e
fazendo-lhe todas as diligências necessárias da Arte da medicina nela,
nada aproveitavam, e apresentando-se-lhe sempre várias visões a dita
escrava não estando nunca desajuizada pois até a hora da morte em seu
juízo perfeito esteve, e quando se advertiu serem malefícios foi tarde,
que já na dita escrava nada aproveitava por ter passado tempo
considerável. = Disse mais que sabe, por ser publico, e notório, e o
mesmo preto, digo, que a João da Sylva de [Sam] Paio lhe morrera uma
escrava, cujo nome ignora a qual escrava Antonio Ribeiro a solicitara
torpemente e não aceitando a dita escrava a oferta, depois logo Antonio
Ribeiro lhe dera um doce pessoalmente e tanto que a dita escrava o
comeu, logo [abortou] e dali logo enfermou sem mais remédio, fazendo-
se-lhe tantos, do que morrer. = E tanto que sucedia semelhantes casos,
o dito Antonio Ribeiro era o primeiro que os publicava, dizendo que
todos dele |f. 422v| se queixavam injustamente = Disse mais, que as
pessoas, que disto sabem é João da Sylva de Sam Payo, Domingos Coelho
Meirelles, Antonio Brandão preto forro, e Jeronima preta forra
226 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

moradora no Bom Sucesso, e mais não disse em todo o conteúdo na


comissão, que todo lhe fora lido, e declarado, e eu o Padre Domingos
Salgado Cura, e vigário da vara do Icó a escrevi.

Cruz + de Jozé Ferreira .

Testemunha Terceira
Antonio Brandão, preto forro, e casado morador no sítio do
Tamanduá, que vive de suas lavouras de idade de cinquenta anos pouco
mais, ou menos natural de nação Benguela, testemunha notificada pelo
Santo Tribunal, que dele deram os juramentos dos Santos Evangelhos
em um livro deles, em que pôs sua mão direita sob cargo do qual lhe
encarreguei, que bem, e fielmente dissesse a verdade a tudo, o que lhe
fosse perguntado.E sendo perguntado ele testemunha pelo conteúdo na
Comissão, disse, que conhece a Antonio Ribeiro preto forro, e casado
com Dionisia Pereira preta forra moradores no Sitio do Tamanduá, e
por ora assistentes no Sítio de Bom Sucesso junto à vila do Icó, e sabe
pelo ter experimentado, o dito Antonio Ribeiro usa de malefícios, e a
razão, que tem para assim o depor é que, tendo o dito Antonio Ribeiro
tido com ele testemunha certas razões, enfermou ele testemunha depois
de um mês, e fazendo vários remédios da arte de medicina, nenhum
aproveitava a sua enfermidade, e usando de alguns defumadores de
várias ervas e raízes botou um besouro pelo ouvido esquerdo, e outras
mais, diabruras pela boca, tudo [procedido] de uns pós, que o dito
Antonio Ribeiro lançara nele testemunha na cabeça estando ele
testemunha deitado de que inda hoje ele testemunha não vive são =
Disse mais ele testemunha |f. 423-r| testemunha: que sabe por ser
publico, e notório, que Antonio Ribeiro solicitava torpemente a Joana
escrava de João da Sylva de Sam Paio, e não aceitando ela o convite
Amanda Teixeira • 227

passados alguns tempos o dito Antonio Ribeiro lhe dera um doce, e


comendo o tal doce foi logo doente, e chegando a casa abortou, e por
essa causa em poucos dias morreu = Disse mais, que sabe por ouvir
dizer, e ser publico, e notório no lugar, que Joana filha dele testemunha
escrava de Domingos Coelho Meirelles vindo a certa função Antonio
Ribeiro publicamente dissera, que mal empregado era servir a dita
Joana, e ser cativa de homem branco, e dali a poucos dias enfermou a
dita Joana, que sendo bem disposta em poucos dias ficou como
murchada, e fazendo-se-lhe todas as diligências da arte da medicina
nenhuma nela aproveitava, e a razão que tem para assim o depor é por
ele Antonio Ribeiro ser o que publicava, que dele se queixavam
injustamente = Disse mais ele testemunha que Antonio Ribeiro varias
vezes com ele testemunha indo a vila do Icó, e querendo ir à Matriz
certos passos antes de chegar ao pátio da dita Matriz fica imóvel, só se
vai levando o pela mão, e a razão que tem para disto saber, tanto por
morarem vizinhos no mesmo sítio, como por algumas vezes ser ele um
dos que o tem levado pela mão a Igreja e mais não sabe de todo o
conteúdo na Comissão, que toda lhe fora lida, e declarada, e por não
saber escrever se assinou com uma cruz, eu o Padre Domingos Salgado
escrevi, digo cura, e vigário da vara do Icó o escrevi.

Cruz + de Antonio Brandão

Testemunha 4ª
Antonio Martins dos Santos, homem branco, e casado morador no
sítio do Genipapeiro, que vive de seus gados de idade de trinta, e seis
anos pouco mais, ou menos natural da Freguesia de Santo Antonio da
Prahiba testemunha notificada pelo Santo Tribunal, a que dei o
juramento dos Santos Evangelhos em um livro deles, em que pôs sua
228 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

mão |f. 423-v| direita sob cargo do qual lhe encarreguei, que bem e
fielmente dissesse verdade.
E perguntado ele Testemunha pelo conteúdo na Comissão disse que
conhece a Antonio Ribeiro preto forro casado com Dionizia preta forra
moradores no Tamanduá, e por ora no sítio do Bom Sucesso junto a vila
do Icó, e que sabe mais por ouvir dizer, que o dito Antonio Ribeiro é
feiticeiro, e usa deles por ser publico, e notório, que solicitara a Joana
escrava de João da Sylva de Sam Paio torpemente e não querendo ela
aceitar o convite passados alguns dias, o dito Antonio Ribeiro
procurando amizade honestamente com a dita Joana lhe dera de mimo
uns doces, e assim como os comeu abortou, e [iniciou] a enfermar
repentinamente até morrer, sem nela aproveitar a arte da medicina, e
sabe que a dita defunta do dito Antonio Ribeiro dele se queixava, e que
João da Sylva senhor da dita Joana disse a ele Testemunha queixando-
se de Antonio Ribeiro pondo o de feiticeiro. Disse mais, que sabe por
ouvir dizer, e ser publico que Antonio Brandão tendo certas razões com
Antonio Ribeiro o dito Brandão enfermara gravemente, isto ele
testemunha o presenciou, / e fazendo-se-lhe vários remédios nada
aproveitava, só sim melhorava com ervas, e raízes contrarias ao veneno,
e mais não disse de todo o conteúdo na comissão, que toda lhe fora lida,
e declarada, e assinou e eu o Padre Domingos Salgado cura, e vigário da
vara o escrevi.
Antonio dos Santos

Testemunha 5ª
Domingos Coelho Meirelles, homem branco, e casado morador no
Sitio do Tamanduá, que vive de sua agência de idade de [sessenta] e seis
anos, natural da Freguesia de Santo Amaro |f.424-r| Amaro do [Jaboatão]
Bispado de Pernambuco testemunha jurada aos Santos Evangelhos em
Amanda Teixeira • 229

um livro deles em que pôs sua mão direita e prometeu dizer verdade sob
cargo do qual lhe [encarreguei] que bem, e fielmente dissesse verdade a
tudo que lhe [fosse] perguntado.
E sendo perguntado ele testemunha pelos capítulos conteúdos na
Comissão, disse, que conhece Antonio Ribeiro preto forro morador no
Tamanduá, e de próximo assistente no Sitio do Bom Sucesso casado com
Dionizia preta forra, sabe por ser publico, e notório, que o dito preto
Antonio Ribeiro tem pacto com o Demonio por se queixarem dele
algumas pessoas [principalmente] João da Sylva morador no Sitio da
Conceição por se queixar do dito lhe matar uma sua escrava com
malefícios, e a razão que tem para assim o depor é por ter ele
testemunha uma escrava, e o [diz] Antonio Ribeiro fazia dela um [...] a
dita escrava não quis aceitar, e daí a poucos tempos entrou a dita
escrava a enfermar, do que esgotando os Remédios da arte da medicina,
a todos a enfermidade se punha, de que brevemente morreu = Disse
mais que sabe por ouvir dizer, e que Pedro escravo do Sargento Mor João
Lopes Raymundo morador no Sitio das Almas de umas razões que foram
com o dito Antonio Ribeiro enfermara gravemente e fazendo-se-lhe os
Remédios da medicina nada aproveitava, e tomando varias beberagens
de Raízes [ouvira] ele testemunha dizer a pessoas fidedignas lançara
pela boca fora três embrulhos de cabelos [de] negro, e cousas
[sabandijas], e mais não disse de tudo o conteúdo na Comissão que toda
lhe foi por mim lida, e declarada, e assinou. E eu o Padre Domingos
Salgado, cura e vigário da vara, o escrevi.
Domingos Coelho Meirelles

|f. 424v | Testemunha 6ª


João da Sylva de Sam Paio homem branco, e casado morador
morador (sic) no sítio da Conceição desta Freguesia que vive de seu gado
230 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

de idade de cinquenta anos natural da Freguesia de São Paio de [Codoas]


termo da Cidade do Porto, testemunha referida, e notificada pelo Santo
Tribunal, a quem o Reverendo Comissário deu o juramento dos Santos
Evangelhos em um livro deles em que pôs sua mão direita sob cargo do
qual lhe encarregou que bem e fielmente dissesse verdade.
E perguntado ele testemunha pelo conteúdo na Comissão do Santo
tribunal disse, que conhece a Antonio Ribeiro, preto forro, casado com
Dionizia preta forra moradores no sítio do Tamanduá, e hoje assistentes
no Bom Sucesso desta vila do Icó, que usa de malefícios e a razão que
tem é, por ele testemunha possuir uma escrava Joana, e de repente
enfermar, e fazendo-lhe todos os remédios da medicina nenhum nela
aproveitou, e a dita Joana já por fim sem remédio declarara a ele
testemunha que a matara era Antonio Ribeiro ter torpemente
solicitado, e não querendo ela dita Joana aceitar o convite, passados
poucos dias ele dito Antonio Ribeiro a brindara com uns doces, e assim
como a ela dita Joana os comeu repentinamente enfermara sem
remédio, durando só depois trinta e seis dias, e que este caso fora
público, e notório. Disse mais ele Testemunha, que Antonio Brandão,
também preto forro dissera a ele Testemunha, que tendo o dito Antonio
Ribeiro com ele umas razões, ele Antonio Brandão enfermara tão
gravemente, que até o cabelo lhe caíra da cabeça, e tomando algumas
beberagem ficara com saúde = Disse mais ele Testemunha que ouviu
dizer a voz pública; escravo do Sargento Mor João Lopes Raimundo
tinha tido umas limitadas razões com o dito Antonio Ribeiro e
enfermara daí a poucos dias, e fazendo-lhe os remédios da Arte da
medicina, nada aproveitava, e dando-se-lhe alguns [contras] lançara
várias [cousas] pela boca, e a razão que tem para assim o depor é por ser
notório, o que dito tem, e mais não disse de todo o conteúdo |f. 425r|
desta Comissão, que toda lhe fora lida, e declarada pelo Reverendo
Amanda Teixeira • 231

Comissário. E eu, o Padre Domingos Salgado Cura, e vigário da vara do


Icó o escrevi.
João da Sylva [San Payo]

Termo de Encerramento
Aos dezenove dias do mês de fevereiro do ano de mil e sete centos
cinquenta e nove, nesta vila de Nossa Senhora da Expectação do Icó, se
fizeram as Testemunhas da Comissão do Reverendo Comissário Frei
Miguel da Victoria, e logo fechei, [cosi 1] e lacrei estes [autos] para os
remeter por fiel ao Reverendo Comissário, e para [constar] fiz este
termo. Eu, o Padre Domingos Salgado, cura, e vigário da vara do Icó, o
escrevi.

1
Ou seja, coseu, costurou. No original, “cozi”.
33
LIV. 818, 124º CAD., SITIO DAS PEDRAS, FAZENDA
DE SANTA CRUZ, RIBEIRA DO BANABUIÚ – JOÃO
VELLOSO DE CASTRO, FILHO DE MANOEL VELOZO,
CONFESSAR SEM SER SACERDOTE

|f.405r| João Velloso de Crasto – Confessar Sem Ser Sacerdote

Freguesia de Nossa Senhora do Rosário das [Russas]. Capitania do Siará


Grande, Bispado Pernambuco. 1760
Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos
sessenta anos aos vinte e um dias do mês de novembro do dito ano
apareceu perante mim comissário do Santo Ofício ao diante nomeado
nesta fazenda do Juazeiro de Cima, Ribeira de Banabuju Capitania do
Siará Grande freguesia de Nossa Senhora do Rosário das Russas onde eu
comissário assisto, aí perante mim apareceu Manuella Gomes da
Soledade, moça de [ascendente] claro donzela Escrava de Timotio Freire
de Braga Castro, moradora no sítio das pedras da Fazenda de Santa Cruz
da mesma Ribeira e freguesia acima, e por ela me foi dito, e denunciado,
que ela denunciava ao Santo Ofício de Joam Velloso de Crasto, solteiro,
filho de Manoel Vellozo, e de sua mulher Angellica de Oliveira morador
no mesmo Sitio das pedras, que estando confessando por desobriga da
quaresma deste presente ano o Padre Frey Manoel da Trindade Barreto,
Religioso do Carmo da Cidade de Olinda com licença do Reverendo Cura
desta freguesia, Ezequiel [Gameiro], sendo na mesma casa do seu
Senhor, confessando de noite |f.405v| em uma camarinha as escuras o
dito Padre saindo este para fora do Aposento, entrara sem ela saber o
dito João Vellozo de Crastro, com o hábito do dito Padre e se assentara
no dito confessionário, [em] lugar donde o dito Padre confessava, e
Amanda Teixeira • 233

chamando se gente para a confissão entrou ela, e se pôs de Joelhos


diante do dito parecendo-lhe ser o mesmo Padre com hábito do dito; se
benzera, e dissera a confissão; e acabando-a, lhe preguntou o dito há
quanto tempo se tinha confessado. Respondeu que à desobriga passada
se cumprira a penitência que se lhe tinha dado, que sim Respondeu, se
ouvia missa se tinha jejuado 1, e fora continuando até sexto
mandamento; e despois lhe dissera isso: agora ide confessar ao Padre e
então é que soubera, por ser sem luz, que era o tal João Vellozo de
Crastro; e sabendo o Padre que ele tinha feito semelhante injúria ao
Sacramento, teve várias Razões com o dito e al não disse que assignou
com uma Cruz. Eu Comissário que o Escrevi.

Manuella + Gomes da Soledade [Cruz]


Comissário Frei Miguel da Victoria [assinatura]

xxx

|f.406r| Miguel da Corte – confessar sem ser sacerdote

Testemunhas que presenciaram, a quem ele se gabou e viram os


domésticos da mesma casa

Timotio Freyre, e sua mulher Michaella.


Manoel de Santiago, morador no mesmo sítio.
Antonio de [Pajua] morador no Aracaty, Vila de Santa Cruz da mesma
freguesia, casado nos Cariris novos.
João de Moura, casado morador Junto ao dito Sítio.

1
No original, “geyuado”.
234 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Antonio Ramos, casado, morador no mesmo.


Francisco Manoel Barreto, ou Trindade Barreto, na Cidade de Olinda.
Manoel José do Nascimento Teves, morador nas Cayazeyras 2

Já outra semelhante a esta sucedeu em casa do Coronel Manoel


Gomes Barreto deste distrito, com Miguel da Costa morador no Sitio do
Buraco desta freguesia confessando com o hábito do Padre Frei Antonio
da Reforma do Recife de Pernambuco, tomando do Escapulário e capelo
embrenhado em um [rótulo] de pano escuro, se pôs de noite no Lugar
donde o Padre confessava enquanto o dito Padre saiu a Tomar Viração 3
da noite, se pôs o dito Miguel da Costa no dito Lugar e ajoelhando uma
escrava de Maria de Faria por nome Maria se pôs a confessá-la, até que
ela desconfiasse; e olhando bem para o dito o reconheceu, e se levantou.
Também confissão quaresmal |f. 406v| que, pelas distancias da matriz,
se costumam confessar pelas casas; e a maior parte das confissões são
de noite, o que não parece bem, principalmente a mulheres, e ainda às
escuras, de que dou a Vossas Senhorias parte, para que lhe ponham o
Remédio que convém ao Serviço de Deus Nosso Senhor, e do Santo Ofício
para não andarem fazendo Escárnio do Sacramento da Penitência.

Juazeiro de Cima, em vinte e um do dito mês e ano atrás declarado.

O Comissário do Santo Ofício


Frei Miguel da Victoria [assinatura]

xxx

2
Possivelmente Cajazeiras, na atual Paraíba.
3
Viração: Segundo Bluteau, Viração “é vento do mar para a terra, mas geralmente toma-se por qualquer
vento fresco nas calmas do verão”. Bluteau, 1712-1728, p. 513.
Amanda Teixeira • 235

|f. 411 r| João Vellozo de Crasto – Confessar sem ser Sacerdote

Muito Reverendo Doutor Senhor Juiz Comissário do Santo Ofício


Por mandado da minha Religião do Carmo da Reforma desta Vila
de Santo Antonio do Recife me achava eu em uma Fazenda de gados, que
por parte da mesma Religião administro, quando aconteceu o seguinte
caso.
Chegou o tempo da desobriga anual. E no lugar da Alagoa das
Pedras no sertão de Jaguaribe, Ribeira do Rio Bonaboyû em distância de
dez léguas da Matriz das Russas, confessava pelo Pároco Padre Luiz
Teixeira aos moradores daquele lugar, e de outros circunvizinhos,
quando se achava em casa de Manoel Vellozo de Crasto o Padre Frei
Manoel da Trindade Barreto, Religioso Carmelita obreiro da Província
da Bahia, e [...] esta casa acudiam os penitentes a buscar o pasto
espiritual no Santo Sacramento da Confissão; entre outras pessoas
chegou Manoela, mulata de 15 até vinte anos, escrava de Timoteo Freire,
morador no mesmo lugar. Era quase noite; e estando despido aquele
Religioso, João Vellozo de Crasto, solteiro, filho legítimo e familiar do
sobredito Manoel Vellozo de Crasto, e de sua mulher Angelica de Tal,
vestindo o hábito do Padre, e recolhido a um aposento escuro, mandou
vir a sobremencionada Manoella, e fingindo ser o Religioso a ouviu de
confissão até o sexto preceito do Decálogo, chegando ao qual se
descobriu com indizível ira e maior vergonha da dita Manoela, por ser
João Vellozo já maior de 25 anos. Fez-se o caso manifesto com muitas
risadas, e chegou nos meus ouvidos por notícia que dele me deram
Francisco Xavier de Oliveira, e sua mulher, (irmã minha) Maria
Manoella da Assenção, Manoel Correia da Silveira e o crioulo Francisco
Cosme, todos moradores na Fazenda do Congo, de que são vaqueiros.
236 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Passaram-se dias, e conversando-se no acontecimento me


afirmaram ser público no lugar. Finalmente Anna Maria, Maria Jozé, e
Maria do Ó, irmãs do tal João Vellozo, me contaram por certo.
Não tive até agora ocasião segura, e oportuna, de o denunciar a
Vossas Mercês, o que agora fa |411v| faço para descargo da minha
consciência, e serviço de Deus, ante quem o juro aos Santos Evangelhos.
O mesmo Senhor guarde a Vossa Mercê muitos anos.
Carmo do Recife, 20 de outubro de 1760.

De Vossa Mercê

Reverendíssimo Doutor Senhor Antonio Álvares Guerra

Venerador e Criado Atenciosíssimo.

[Francisco] de Santa Tereza dos [Cantarez]


34
LIV. 315, 125º CAD., LAGOA DAS PEDRAS, RIBEIRA
DO BANABUIÚ, SERTÃO DE JAGUARIBE -- JOÃO
VELOSO, HOMEM PARDO, FINGIR QUE CONFESSAVA

|f. 455| Ilustríssimo Reverendo Senhor Doutor Antonio Alvarez Guerra.

Por descargo da minha consciência quis eu desde o ano passado


denunciar perante vossa mercê, como Juiz Comissário do Santo Ofício a
João Vellozo de Crazto, homem pardo, e meu vizinho, morador nesta
fazenda da Lagoa das Pedras, Ribeira de Banaboyû, sertão de Jaguaribe,
porém minhas continuadas enfermidades, e idade crescida da mais (sic)
de sessenta anos, até agora me têm impedido fazê-lo, e ainda para o
executar presentemente me é necessário valer de mão alheia. Foi o caso,
Passada a Quaresma do ano de 60, tempo em que o Reverendo
Pároco desta Freguesia das Russas mandou ao seu Coadjutor desobrigar
do preceito anual os vizinhos desta Ribeira, o estava este executando em
minha casa; e porque é muita a minha família, me pediu o dito
Coadjutor, que era o Reverendo Padre Luiz Teixeira de Aguiar, que pelo
aliviar do trabalho mandasse parte dela para a casa de Manoel Vellozo
de Crasto, onde se achava pousado o Padre Frei Manoel da Trindade
Barreto, Religioso do Carmo da observância, e confessor, o qual podia
fazer parte das confissões, como estava fazendo a outras famílias.
Assim o fiz, e entre outras pessoas que mandei, foi uma Manoella,
mulata honesta, donzela, e escrava minha, de idade de vinte anos, pouco
mais ou menos. Era quase a boca da noite, e revestido João Vellozo no
hábito do Padre Frei Manoel da Trindade, em um quarto pouco claro,
mandou ir a dita Manoela para a confessar, e com efeito enganada ela
das vestiduras, a confessou, perguntando-a por uns poucos
238 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

mandamentos, até que sendo conhecido da penitente, se ergueu esta


chorosa, e sentida do engano, e o fingido confessor o celebrou com
risadas em que o acompanhavam suas irmãs, entre as quais uma
chamada Maria do Ô foi a condutora, e comparte no engano, levando a
penitente pela mão para que seu irmão a confessasse.
E como este caso foi escandaloso, e em desprezo do santo
sacramento da Penitência, e me dizem que tem obrigação de o
denunciar a vossa mercê, agora o faço por escrito, como impossibilitado
de o fazer pessoalmente.

|f. 456r|
A publicidade do caso não sei se me desobriga de nomear as
testemunhas, mas como pode ser necessário nomeio as seguintes:
Francisco de Britto de Menezes, morador na fazenda da Flor de Lys,
Francisco Xavier de Oliveira, e seu Irmão Manoel Correa da Sylveira,
moradores na Fazenda do Congo; Lazaro de Barros, e Manoel Gomes de
Freytas, moradores na fazenda de Bento Pereira; e finalmente todos
estes moradores, e vizinhos, dos quais não haverá um só que o negue, se
não for suspeito por parente, e por amigo.
Tenho feito a minha denúncia, à vista da qual vossa mercê proverá
do remédio que for servido, para o que, e para tudo o mais de serviço de
Deus, o mesmo Senhor guarde a vossa mercê com boa saúde por muitos
anos. Lagoa das Pedras, 5 de novembro de 1761.

Tudo acima escrito o juro aos Santos Evangelhos.

[Timótio Freire de Braga Castro] [assinatura]


35
LIV. 318, 129º CAD., CARIRIS NOVOS – MANOEL
SARDINHA JARDIM, NATURAL DA FREGUESIA DE NOSSA
SENHORA DA GRAÇA, ILHA DA MADEIRA, BIGAMIA 1

|f. 87-r| L. Manoel Sardinha Jardim

Muito Ilustres Senhores

Do Sumário junto, remetido da Vila Real do Sabará, Bispado de


Mariana, consta, que Manoel Sardinha Jardim, filho de Sebastião
Sardinha Jardim, e de Maria Ferreira, natural da freguesia de Nossa
Senhora da Graça, Ilha da Madeira, se casara na formalidade de direito
em 10 de Junho de 1752, na Capela de Santa Ana do Fidalgo, freguesia de
Santo Antonio do Bom Retiro da Rossa Grande, Bispado de Mariana, com
Inocencia [Alves] Vieyra, filha de Manoel Vieira, e Joana Peres, natural
da freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Mato dentro, do Serro
do Frio, e depois ausentando-se de sua mulher, sendo esta ainda viva,
nos Cararis Novos, Bispado de Pernambuco, se casara o delato com uma
mulata. E porque é conveniente à Justiça, que ambos estes matrimônios
se façam judiciais conforme ao estilo do Santo Ofício, constando do
mesmo modo da Supervivência da primeira mulher.

1
Antonio Otaviano Vieira Junior escreveu um artigo sobre o caso, intitulado “Das minas ao Cariri:
trajetória de uma família no Ceará (séc. XVIII)”. Cf. Vieira Junior, 2008. Adson Rodrigo Silva Pinheiro
também estuda esta denúncia em seu texto intitulado “Casar Segunda vez (sendo vivo o primeiro
cônjuge) na Capitania do Siará Grande (1752-1798). Disponível em: [Link]
riufc/42969/1/2012_eve_arspinheiro.pdf. Acesso em 06 de agosto de 2024.
240 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Requeiro a Vossa Mercê mandar para o referido passar as ordens


necessárias, e do que resultar [se me continue] para requerer o que for
a bem da Justiça.
E presentado com o dito é o requerimento do Promotor supra para
os Senhores Inquisidores lhe haverem de deferir de seu mandado lho fiz
concluso. Manoel Francisco Neves o escrevi.

[rubrica]
Faça-se o que requer o Promotor desta Inquisição, e para isso se
passem as ordens necessárias; e do que resultar se lhe dê vista. Lisboa
no Santo Oficio em Mesa. 12 de Dezembro de 1766. Joaquim Jansen Moller
[assinatura]

|f.88r| Diz o Promotor deste Juízo que à sua notícia veio que um Manoel
Sardinha Jardim sendo primeiramente casado na freguesia da Roça
Grande com Inocencia [Alves] [Vieira], filha de Manoel Vieira e de
Joanna Peres do Prado sendo esta primeira mulher ainda viva se casou
segunda vez nos Carariz Novos com uma mulata com quem está vivendo
matrimonialmente pelo que o quer denunciar como com efeito
denuncia bem e verdadeiramente sem dolo nem malícia

[...] se lhe tome sua denúncia


sem ser nos livros delas por
ser caso que provado pertence a
outro tribunal. Vila Real 2 de
Agosto [1765].

[rubrica]
Amanda Teixeira • 241

[Para a Vossa Senhoria] se digne mandar se lhe tome a sua


denúncia e se perguntem as testemunhas abaixo nomeadas e provado o
que basta para ser pronunciado se passem as ordens necessárias.
[...]

José Correia Espindola


Manoel Vieira
Inocencia Alves Vieira
Luiz Vieira Lopes

|f. 88v| Termo de juramento


Ao primeiro dia do mês de Agosto de mil setecentos sessenta e
[nove] anos nesta vila Real de Nossa Senhora da Conceipção do Sabará
em casas de morada do Muito Reverendo Doutor [Laurindo] Sande
Queiros Coimbra, vigário geral nesta dita vila e sua comarca, aonde eu,
escrivão adiante, nomeado fui vindo e sendo ali perante o Reverendo
Doutor Francisco Xavier da Rua, promotor deste juízo, lhe foi deferido
o juramento dos Santos Evangelhos em um livro deles em que pôs sua
mão direita debaixo do qual declarou que bem e fielmente [sem dolo ou
malicia] e [...] obrigação de seu cargo e a bem da justiça para que não
ficasse sem castigo quem o merecesse dava a presente denúncia pela
[intimação] que lhe havia dado o Reverendo Dantas Jose Correa Silva,
presbítero do hábito de São Pedro por ter visto em uma carta de outro
Reverendo Sacerdote escrita a Jose Correa Espindola que lhe havia dito
um José Teixeira Campos que o dito denunciado estava casado nos
Cararis Novos com uma mulata estando ainda viva, como está, sua
legítima mulher Ignocencia Alves Vieira e de como assim o disse e jurou,
fiz este termo em que assinou com o muito Reverendo Ministro e eu,
242 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Bento de Sande Vasconcelos, escrivão deste juízo [Eclesiástico] que o


escrevi.

[...] [rubrica]
O Promotor Francisco Xavier da Rua [assinatura]

|f. 89r| Diz o Promotor deste Juízo eclesiástico que para requerimentos
que tem lhe é necessário que o Reverendo Vigário da Freguesia da Roça
Grande lhe passe por certidão o teor do assento do Recebimento de
Manoel Sardinha Jardim com Inocencia [Alves] Vieyra os quais se
receberam na dita freguesia e quando o Reverendo Vigário esteja fora
passe a dita certidão o seu coadjutor ou quem suas vezes fizer.

< [...] com o teor do assento. Gregório>

[Pede] A Vossa Senhoria se digne mandar que o Reverendo Vigário da


Roça Grande passe a dita Certidão com o teor do assento.

[E. R. M.]
Por se achar fora deste Arraial da Roça Grande, por causa o
Reverendo Vigário Manoel da Silva Lagoinha, de quem tenho comissão
certifico que revendo os livros dos assentos dos casamentos desta
Matriz, e Freguesia de Santo Antonio do Bom Retiro da roça Grande, no
Livro Segundo, deles, à folha 116 verso achei o assento do teor seguinte:
“Aos dez dias do mês de junho de mil sete centos, e cinquenta e dois
anos, na capela de Santa Ana do Fidalgo pelas nove horas do dia, feitas
as diligencias necessárias na Forma do |f. 89v| Na Forma do Sagrado
Concilio Tridentino, e constituição do Bispado, de minha licença, em
presença do Padre Pedro da Costa Amado se receberam
Amanda Teixeira • 243

matrimonialmente Manoel Sardinha Jardim Filho legitimo de Sebastião


Sardinha Jardim, e de sua mulher Maria Ferreyra, natural, e Batizado na
Freguesia de Nossa Senhora da Graça Bispado da Ilha da Madeira, com
Inocencia Alves Vieira filha legitima de Manoel Vieira. e sua mulher
Joana Peres, natural, e batizada na Freguesia de Nossa Senhora da
Conceição de Mato dentro do Serro do Frio, e ambos os contraentes
assistentes nesta Freguesia. Foram testemunhas Manoel Rodrigues
Velho, e João de Seixas Pinto, todos desta Freguesia, de que mandei fazer
este assento, que por verdade assinei = vigário Luciano Pinto [Fragoso]
de Souza”, e não se continha mais no dito assento, que aqui fielmente
transladei do próprio, aqui me reporto, e sendo necessário o juro in verbo
Sacerdotis; Roça Grande 20 de Agosto de 1765 [anos]. O Padre Francisco
Paulilo do Amaral.

|f.90r| Assentada

Ao primeiro dia do mês de agosto de [___]

Jozê Correa Espindola, natural da freguesia de Santo Antonio do


Recife de Pernambuco, solteiro morador na freguesia de Santo Antonio
do Bom Retiro da Roça Grande que vive da sua Lavoura de idade que
disse ser de setenta e cinco anos, testemunha a quem o dito digo
testemunha jurada aos Santos Evangelhos em um livro deles em que pôs
sua mão direita e prometeu dizer verdade sobre o que soubesse, e lhe
fosse perguntado.
E sendo-lhe lida a petição do Reverendo denunciante disse que
sabia pelo ver que Manoel Sardinha Jardim era casado em face de Igreja
com Ignocencia Alves Vieira, ainda viva, recebidos na forma da mesma
Igreja na Capela do Fidalgo da freguesia da Roça Grande com a qual
244 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

depois de viver ano e meio pouco mais ou menos tendo já uma filha do
matrimonio e deixando a dita sua mulher Ignocencia Alves pejada se
ausentou para as Minas dos Cararis Novos Bispa do de Pernambuco e
tendo passado cousa de dez anos sem haver notícias algumas do dito
denunciado lhe pedira a ele tes |f. 90v| A ele testemunha tanto o sogro
do denunciado como a mulher do mesmo lhe mandasse ele testemunha
fazer diligencia por alguns parentes se tinham noticia do dito
denunciado, e escrevendo ele testemunha ao Reverendo Andre Denis
Xavier seu sobrinho que tendo estado nas Minas do Paracatu que tendo,
digo, do Paracatu fora a Pernambuco e voltando outra vez para o
Paracatu lhe mandara dizer que um cunhado dele testemunha por nome
José Teixeira Campos lhe dissera que o dito denunciado Manoel
Sardinha tinha casado nos Cararis Novos com uma mulata e que era a
notícia que lhe podia dar do dito denunciado a qual carta ele testemunha
a fizera o saber ao sogro do dito denunciado Manoel Vieira e a mulher
do mesmo Ignocencia Alves Vieira e que era tudo quanto ele testemunha
podia jurar nesta matéria e mais não disse e assinou com o Muito
Reverendo Ministro e eu Bento de Souza de Vasconcellos escrivão que o
escrevi. E declarou que ele testemunha tido sido padrinho do mesmo
denunciado no Seu recebimento e eu sobredito o escrevi.

[...] [rubrica]
Josê Correia Espindola [assinatura]

Manuel Vieira, natural da Ilha da Madeira, morador na freguesia


de Santo Antonio do Bom Retiro da Roça Grande casado que vive da sua
roça de idade que disse ser de oitenta anos, testemunha jurada aos
Santos Evangelhos em um Livro deles em que pôs sua mão direita e
prometeu dizer verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado.
Amanda Teixeira • 245

E sendo-lhe lida a petição do Reverendo denunciante disse que ele


era o próprio Manoel Vieira Pai de Ignocencia Alves Vieira que na forma
da Igreja se recebera em matrimonio com o denunciado Manoel
Sardinha Jardim na Capela do Fidalgo freguesia da Roça Grande a vista
e face do que depois de viver o dito denunciado em companhia da dita
sua mulher perto |f.91r| Mulher perto de três anos tendo já uma filha do
dito matrimonio e deixando a dita sua mulher Ignocencia Alves pejada
de outra filha se ausentara para o sertão e dele digo e de lá para os
Cararis Novos Bispado de Pernambuco e sendo passados perto de dez
anos ou mais sem haver notícia alguma do dito denunciado se valera ele
testemunha junto com sua filha de um seu vizinho
José Correa Espindola natural de Pernambuco para que
[escrevendo] a alguns seus parentes e naturais procurassem pelo dito
Manoel Sardinha Jardim e fazendo o dito Espindola a recomendada
diligência tivera por resposta que lhe dizia um seu cunhado José
Teixeira que o dito Sardinha estava casado nos Cararis Novos com uma
mulata apresentando a ele testemunha a própria carta escrita por um
seu sobrinho, sacerdote do habito de São Pedro e assistente no Paracatu
em casa do mesmo Reverendo vigário daquelas Minas do Paracatu e que
era quanto sabia nesta matéria e disto mesmo dera conta ao Reverendo
Doutor Jose Correa Silva par ao fazer a saber a justiça e mais não disse
a assinou com uma cruz seu sinal costumado com o Muito Reverendo
Ministro eu Bento de Souza de Vazconcellos escrivão que o escrevi.

[...] [rubrica]

[Cruz de Manoel Vieira]


246 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Ignocencia Alves Vieira natural da freguesia de Nossa Senhora da


Conceição de Matto dentro deste Bispado de Mariana casada em face de
Igreja com Manoel Sardinha Jardim de idade que disse ser de vinte e
nove anos que vive da sua lavoura moradora na freguesia da Roça
Grande testemunha jurada aos Santos Evangelhos em um Livro deles
em que pôs sua mão direita e prometeu dizer verdade do que soubesse
e fosse perguntado.
E sendo-lhe lida a petição de denúncia do Reverendo denunciante
disse que ela era a mesma Ignocencia Alves Vieira legitima mulher do
denunciado Manuel Sardi |f. 91v| Manoel Sardinha Jardim com o qual se
recebera em matrimonio na forma Igreja (sic) haverá quatorze anos
pouco mais ou menos na Capela de Santa Ana do Fidalgo freguesia de
Santo Antonio do Bom Retiro da Roça Grande sendo testemunhas varias
pessoas e um José Teixeira Campos e Manoel Rodrigues Velho e que
vivendo perto de três anos no Santo Matrimonio tendo tido uma filha
de que foi padrinho o mesmo José Teixeira Campos ficando em vésperas
de parir outra filha se ausentara o dito seu marido Manoel Sardinha
Jardim em companhia do dito José Teixeira Campos para o Sertão e de
lá para os Cararis Novos Bispado de Pernambuco sem haver mais noticia
do delato seu marido do que uma leve notícia que lhe deu a ela
testemunha um comboeiro de cavalos de que o dito seu marido se tinha
denunciado para casar na dita paragem dos Cararis Novos e que o
prevendo Jose Correa Espindola para as Minhas do Paracatu por
recomendação dela testemunha a procurar alguma noticia do dito seu
marido pelo dito Espindola ser natural de Pernambuco e ter por lá seus
parentes, um deles [...] sacerdote do hábito de São Pedro assistente no
Paracatu lhe respondera tinha ouvido ao mesmo José Teixeira Campos
que o dito denunciado estava casado nos Cararis Novos com uma mulata
do qual José Teixeira Campos, desconfia ela testemunha que talvez fosse
Amanda Teixeira • 247

tão bem testemunha do segundo casamento do denunciado porque


sempre andou com ele e nada fazia o dito denunciado senão por
conselho do mesmo José Teixeira Campos o qual sendo seu compadre e
testemunha do casamento dela fez testemunha não se tratavam-se
senão por camaradas, e mais não disse e [...], digo, disse, e assinou com
o Muito Reverendo Ministro eu Bento de Souza de Vasconcellos escrivão
que o escrevi.

[...] [rubrica]
Inosensia Alves Vieira [assinatura e cruz]

|f.92r| Luiz Vieira Lopes, natural da freguesia de São Martinho do Campo


do Arcebisdo Arcebispado (sic) de Braga, solteiro morador nesta vila
Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará [e povoação] da vara [do
juízo] [...] desta comarca testemunha jurada aos Santos Evangelhos em
um Livro deles em que pôs sua mão direita e prometeu dizer verdade do
que soubesse e lhe fosse perguntado.
E sendo-lhe lida a petição do Reverendo denunciante disse que
sabia pelo ouvir e ser presente que haverá quatorze ou quinze anos na
Capela de Santa Ana do Fidalgo freguesia da Roça Grande se receberam
em matrimonio na forma da Igreja o denunciado Manoel Sardinha
Jardim com Ignocencia Alves Vieira e mais digo Vieira e que ouvira dizer
ao Pai da mesma Ignocencia Aves [sic] Vieira que o dito Manoel Sardinha
Jardim se tinha casado com uma mulata nos Cararis Novos Bispado de
Pernambuco ao mesmo tempo que ainda hoje em dia sabe pelo ver que
viva a dita sua primeira mulher Ignocencia Alves Vieira e mais não disse
e assinou com o Muito Reverendo Ministro e eu Bento de Souza de
Vasconcellos, escrivão, que escrevi.
248 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

[...] [rubrica]

Luiz Vieira Lopes [assinatura]

|f. 93r| Remetemos a Comissão inclusa para Vossa Mercê fazer a


diligência nela mencionada, a qual concluída que seja com brevidade,
com a mesma nos será remetida, e resposta sua na margem desta. Deus
Nosso Senhor Guarde a Vossa Mercê. Lisboa no Santo Ofício em Mesa
15 de Dezembro de 1766

Joachim Jansen Moller [assinatura]


Assiste e assigna só em Mesa o Senhor Inquisidor Joaquim Jansen Moller

Rodrigo Jozé Ferreira Nobre [assinatura]

<Muito Ilustres Senhores

Além desta comissão me chegar muito retardada, teve também segunda


infelicidade de andar ausente uma das melhores testemunhas, e estar
Eu para cima de 4 meses de cama sem ter a quem a cometer nesta
comarca, vai concluída e ratifico como sempre, a obediência de Vossas
Senhorias que Deus Nosso Senhor Guarde Vossa Mercê, a o 22 de
Novembro 1768. De Vossas Reverendíssimas Súdito Lourenço José de
[Queirós] Coimbra.>

[Registrada] 326

|f. 94r| 1º Matrimônio de Manoel Sardinha Jardim e supervivência de sua


mulher
Amanda Teixeira • 249

Freguesia de Santo Antonio do Bom Retiro da Roça Grande


e Capela de Santa Ana do Fidalgo, Bispado de Mariana

Os Inquisidores Apostólicos contra a herética pravidade, e


apostasia nesta Cidade de Lisboa e seu distrito [...]. Fazemos saber a
Ignacio Correa de Sá, ausente ausente (sic) a quem servir de Vigário
Geral Comissário do Santo Oficio na Cidade de Mariana que nesta Mesa
consta que Manoel Sardinha Jardim, filho de Sebastião Sardinha Jardim
e de Maria Ferreyra, natural da freguesia de Nossa Senhora da Graça,
Ilha da Madeira, sendo legitimamente casado, e recebido in facie eclesia,
em 10 de Junho de 1752 na Capela de Santa Ana do Fidalgo, freguesia de
Santo Antonio do Bom Retiro da Rossa Grande, Bispado de Marianna,
estando esta ainda viva, digo Bispado de Marianna com Inocencia Alves
Vieira, filha de Manoel Vieira, e Joanna Peres, natural da freguesia de
Nossa Senhora da Conceição do Matto, dentro do Serro do Frio,
ausentando-se de sua mulher, sendo esta ainda viva, se recebeu segunda
vez nos Cararis novos Bispado de Pernambuco, com uma mulata: e
porque convém ao serviço de Deus Nosso Senhor, e bem da Justiça do
Santo Ofício, constar judicialmente o primeiro matrimonio do dito
delato, e supervivência de sua mulher. Authoritate Apostolica cometemos
a Vossa Mercê para que faça esta dili-

< aliás, a Lourenço José de Queiros Coimbra, Comissário do Santo Ofício>

|f.94v| diligência, para escrivão da qual elegerá a um sacerdote cristão


velho de boa vida, e costumes, a quem dará o juramento dos Santos
Evangelhos, sob cargo do qual prometerá escrever com verdade, e ter
segredo / e sendo esta cometida a pessoa que não seja Comissário por
carta, o receberá também da mão do mesmo Escrivão / de que se fará
250 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

termo ao princípio por ambos assinado: E logo na dita freguesia de


Santo Antonio do Bom Retiro da Rossa Grande, e parte que a Vossa
Mercê parecer mais acomodada para esta diligencia se fazer com a
cautela, e segredo que convém, mandará vir perante si até seis
testemunhas, entre elas a dita primeira mulher do delato Innocencia
Alves Vieira, o Pároco, e testemunhas que assistiram ao dito
matrimônio, todas pessoas cristãs velhas, e fidedignas, e que
assistissem ao dito ato \ se ainda existirem \ e bem possam depor com
certeza no que se pretende; E sendo presentes lhes dará o juramento dos
Santos Evangelhos, sob cargo do qual prometerão dizer verdade, e ter
segredo no que forem perguntadas; e logo o serão judicialmente pelos
interrogatórios seguintes.
1º Se sabe, ou suspeita o para que é chamado, e se o persuadiu
alguma pessoa a que sendo perguntado por parte do Santo Ofício,
dissesse mais ou menos do que soubesse e fosse verdade?
2ª Se sabe que alguma pessoa fizesse, ou dissesse cousa alguma
contra a nossa Santa Fé Católica, e Lei Evangélica, cujo conhecimen-
|f.95r| conhecimento pertença ao Santo Ofício ou outra qualquer de que
deva e haja de dar conta na Mesa do mesmo.
Que é o que sabe, viu, ou ouviu, a que pessoa, contra quem, em que
parte, que tempo há, sobre que matéria, e quem mais estava presente.
3º Se sabe que alguma pessoa, sendo casada, e recebida em face de
Igreja, na forma do Sagrado Concilio Tridentino, ausentando-se para
outra parte diferente, da em que assistia, se casasse segunda vez, sendo
vivo seu primeiro, e legítimo marido, ou mulher?

Quem é a pessoa que contraiu os dois matrimônios, como se chama, donde


é natural, e moradora, que ofício, ou ocupação tem, em que Igreja se recebeu,
com que marido ou mulher, que tempo há, que Pároco os recebeu, perante
Amanda Teixeira • 251

que pessoas, se �zeram vida marital, vivendo das mesmas portas adentro,
por quanto tempo, e se há muito que se ausentou, e para que parte.

4º Se conhece a Manoel Sardinha Jardim, filho de Sebastião


Sardinha Jardim, e de Maria Ferreyra, natural da Igreja de Nossa Se,
digo, natural da freguesia de Nossa Senhora |f.95v| da Graça, Bispado da
Ilha da Madeira, se sabe que Ofício tenha, se é filho dos Pais acima
referidos, natural e morador donde se diz, que razão tem de
conhecimento, e de que tempo a esta parte.
5º Se conhece a Innocencia Alves Vieira, filha de Manoel Vieira, e
Joanna Peres, natural da freguesia de Nossa Senhora da Conceição do
Mato dentro do Serro do frio, se sabe seja filha dos Pais sobreditos, se é
natural donde se diz, e onde moradora, que razão tem de conhecimento,
e de que tempo a esta parte?
6º Se sabe que o dito Manoel Sardinha Jardim, sendo
legitimamente casado, e recebido em face de Igreja, com Inocencia Alves
Vieira, em qual se receberam perante que Pároco e testemunhas, se
depois fizeram vida marital, e tiveram filhos, em que dia, mês e ano se
receberam?

Se a dita Innocencia Alves Vieira é ainda viva, ou se é já falecida, onde é


atualmente moradora, ou em que Igreja se sepultou, em que dia, mês e a no,
e que razão tem de o saber?

7º Se conhece uma mulata nos Cararis novos, Bispado de


Pernambuco, ou se tem noticia alguma da mesma, se sabe donde seja
natural e se é moradora onde se diz, de quem é filha, e que razão tem de
o saber?
8º Se |f. 96r| 8º Se sabe que o dito Manoel Sardinha Jardim, sendo
legitimamente casado, e recebido em face de Igreja, com a dita sua
252 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

primeira mulher Innocencia Alves Vieira, e sendo esta ainda viva, se


casasse segunda vez na mesma forma da Igreja com a dita mulata, em
que Igreja se receberam, perante que Pároco, e testemunhas, em que dia,
mês e ano, se depois fizeram vida marital e tiveram filhos, e que razão
tem de o saber?
9º Se tudo o que tem testemunhado passa na verdade, e se tem que
declarar ao costume, e causa dele?

Pelos interrogatórios acima serão perguntadas as testemunhas, que no


principio de seus depoimentos dirão seus nomes, cognomes, pátrias,
habitações, ofícios, idades e qualidades de seu sangue, e no fim assinarão, e
sendo mulher que não saiba escrever, assinará por ela de seu rogo, e
consentimento o Escrivão da diligência: e procurará Vossa Mercê o assento do
óbito da dita sua primeira mulher Innocencia Alves Vieira, sendo falecida, e
dele mandará cópia, vindo nela inserto o dito assento, e serão as testemunhas
ratificadas na forma do estilo do Santo oficio, que com esta |f. 96v| vai, e voltará
avulsa; E ultimamente dará Vossa Mercê a sua informação, declarando nela o
que achar, assim a respeito do que se pretende averiguar, como da fé, e crédito,
que as testemunhas se deve dar, escrevendo-a pela sua mão, sem o comunicar
ao Escrivão, pelo qual mandará fazer declaração do tempo que gastar, e feita a
diligencia com brevidade, com a mesma nos será remetida esta, sem que lá
fique cópia, ou traslado algum. Dada em Lisboa no Santo Ofício, sob nossos
sinais e selo do [mesmo], aos quinze dias do mês de Dezembro de mil sete
centos e sessenta e seis anos. Rodrigo José Ferreira Nobre a fez.

Luiz Barata Lima [assinatura]


Joachim Jansen Moller [assinatura]

[..] e selo 280


conta 36.
[Registrada f. 326].

|f. 97r|
Amanda Teixeira • 253

Termo de juramento
Aos dezessete dias do mês de Novembro de mil e sete centos e
sessenta e oito anos, nesta Vila Real de Nossa Senhora da Conceição,
comarca do Sabará, Bispado de Marianna, em casas e morada do Muito
Reverendo Senhor Comissário Lourenço José de Queiros Coimbra adonde
eu, o Padre Manoel José Salgado Ribeiro, Presbítero do hábito de São
Pedro, morador nesta mesma Vila e freguesia de Nossa Senhora da
Conceição do Sabará, aí pelo dito Reverendo Senhor Comissário me foi
deferido o juramento dos Santos Evangelhos em um livro deles em que
pus minha mão direita, e debaixo do dito juramento que assim me foi
deferido pelo dito Reverendo Senhor Comissário pelo mesmo me foi
encarregado de bem fielmente, e com todo o segredo escrever na presente
diligência para a qual pela ordem que tinha me havia eleito para escrivão
da mesma diligência, e de como recebi o dito juramento, e prometi
debaixo dele fielmente, e com todo o segredo escrever o que me fosse
mandado, e assim o prometi, mandou ele Reverendo Senhor Comissário
fazer este termo de Juramento em que ambos nos assinamos.

O Comissário Lourenço de Queiros Coimbra [assinatura]


Manoel José Salgado Ribeiro [assinatura]

E logo no mesmo dia, e lugar, mandou o dito Senhor Comissário vir


perante si as testemunhas abaixo nomeadas para efeito de serem
perguntadas pelos interrogatórios da mesma comissão junta.
João de Seixas Pinto, solteiro, natural e batizado na freguesia de
São Salvador de Fervença, Arcebispado de Braga, morador no Fidalgo,
freguesia de Santo Antonio do Bom Retiro da Roça Grande, Bispado de
Mariana, testemunha a quem o Reverendo Senhor Comissário deu o
juramento dos Santos Evangelhos sub cargo do qual lhe encarregou
254 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

dissesse verdade, e guardasse segredo, o qual disse ser Cristão Velho de


idade que disse ser de sessenta anos, e perguntado pelos interrogatórios
da Comissão

Ao primeiro disse nada


Ao segundo disse que nada tinha ouvido nem sabia que pessoa
alguma dissesse ou fizesse cousa contra a nossa Santa Fé Católica, nem
se conhece obrigado a declarar, ou delatar cousa alguma que pertença
ao Tribunal do Santo Ofício
|f. 97v| Ao terceiro disse que pelo que tem ouvido a muitas e várias
pessoas, cujos nomes lhe não lembram por ser quase voz geral, sabia que
Manoel Sardinha Jardim, natural das Ilhas, sendo casado e recebido em
face de Igreja na Capela de Santa Ana do Fidalgo, freguesia de Santo
Antonio do Bom Retiro da Roça Grande, Bispado de Mariana, pelo Padre
Pedro da Costa Amado, já falecido, sendo vigário encomendado da dita
freguesia Luciano Pinto Nogueira de Souza, perante ele testemunha e
outras muitas mais pessoas que então se achavam, e todas foram
convidadas para o banquete, a que ele testemunha também assistiu,
sendo recebido como fica dito solenemente com Inocencia Alves Vieira
no ano de cinquenta e dous, vivendo alguns anos com a dita Inocencia
Alves, sua legítima mulher, e fazendo ambos vida marital tendo já dous
filhos, ou filhas, ausentando-se para o sertão de Pernambuco por lá tem
ouvido dizer como dito fica que o dito Manoel Sardinha se tornara a
casar com outra mulher, sendo ainda viva como ainda hoje é, a sua
primeira mulher, Inocencia Alves Vieira, que vive ainda de presente
muito honrada e honestamente, o que tudo ele testemunha sabe por ver
ainda há poucos dias a dita Inocencia Alvez, ter assistindo como
testemunha ao seu recebimento com o dito Manoel Sardinha Jardim,
sabe também pelo ver que alguns anos fizeram vida marital de umas
Amanda Teixeira • 255

portas para dentro, de que tiveram filhos, e pelo que [toca] o que o dito
Manoel Sardinha se casou segunda vez, e que já fora preso, e remetido
para o Santo Oficio, só sabia como dito tem pelo ouvir quase geralmente.
Ao quarto disse que conhecera muito bem a Manoel Sardinha
Jardim, mas que não sabia de quem era filho, nem a freguesia donde era
natural, e só sim pelo ouvir o mesmo e ser público e notório que era
natural das Ilhas, o qual conhecimento teve ele testemunha com o dito
Manoel Sardinha antes de se receber com Inocencia Alves alguns anos
sem outro oficio mais que o de comboieiro de cavalos, que trazia do
sertão para estas Minas, por ele testemunha nesse mesmo tempo
assistir no sítio do Fidalgo, por onde o dito Manoel Sardinha entrava
com os ditos comboios de cavalos.
Ao quinto disse que conhece muito bem a Inocencia Alves Vieira por
filha legitima de Manoel Vieira e de Joana Peres, com os quais seus pais
ainda hoje assiste no Ribeirão da Mata, freguesia de Santo Antonio do
Bom Retiro da Roça Grande, distrito da Capela de Santa Anna do Fidalgo,
mas que não sabia donde a dita Inocencia Alves era natural, o qual
conhecimento tem ele testemunha, e teve sempre ainda antes da dita
Inocencia Alves se casar com Manoel Sardinha Jardim, e tem inda hoje
pelo ver em companhia de seus pais moradora no Ribeirão da Matta.
Ao sexto disse que somente sabia como deixa dito pelo ouvir a
muitos |f.98r| a muitas e várias pessoas cujos nomes se não lembra por
ser quase voz geral que o dito Manoel Sardinha Jardim sendo
legitimamente casado e recebido em face de Igreja, se recebera com
outra mulher no Bispado de Pernambuco, adonde fora preso pela dita
culpa e remetido para o Santo Oficio, ao mesmo tempo que ele
testemunha sabia pelo ver como deixa dito que a sua primeira e legítima
mulher Inocencia Alves Vieira ainda era viva como inda hoje é, mas que
não sabia perante que Pároco, ou testemunhas se recebeu segunda vez
256 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

o dito Manoel Sardinha, nem quanto tempo viveu com a dita mulher,
nem também sabia nem tinha ouvido dizer se fizeram vida marital ou
tiveram filhos.

Ao sétimo disse nada.


Ao oitavo disse que somente sabia pelo ouvir quase geralmente que
o dito Manoel Sardinha Jardim segunda vez se casara lá no sertão de
Pernambuco, sendo viva, como inda hoje é, sua primeira e legítima
mulher, Inocencia Alves Vieira, mas que não sabia em que Igreja ou
capela fora aquele recebimento, nem perante que Pároco foi, ou quais as
testemunhas, e muito menos o dia, mês, e ano em que se receberam,
nem também se fizeram ou não vida marital, ou se tiveram filhos.
Ao nono disse que tudo o que tem testemunhado passa na verdade
e que não tinha que declarar ao costume e causas dele, e mais não disse.
E sendo-lhe lido este seu testemunho, e por ele bem ouvido, e
entendido, disse estar escrito na verdade e que nele se afirmava, e ratifica
e torna a dizer de novo sendo necessário, e nele não tem que acrescentar,
diminuir, mudar ou emendar, nem de novo que dizer ao costume sub
cargo do juramento dos Santos evangelhos que outra vez lhe foi dado, ao
que estiveram presentes por honestas e religiosas pessoas que tudo viram
e ouviram, e prometeram dizer verdade, e guardar segredo no que foram
perguntados o Padre Antonio Carneiro Leão, Presbítero do hábito de São
Pedro, morador e assistente nesta mesma freguesia de Nossa Senhora da
Conceição do Sabará, e Antonio Gonçalves Pimentel, também aqui
morador e assistente nesta mesma freguesia, que aqui assinam com a
testemunha, e com o reverendo Senhor Comissário, eu, o Padre Manoel
José Salgado Ribeiro, que o escrevi.

o Comissário Lourenço José de Queirós Coimbra [assinatura]


Amanda Teixeira • 257

João de Seixas Pinto [assinatura]


Antonio Carneiro Leam [assinatura]
Antonio Gonçalves Pimentel [assinatura]

|98v|

E ida a testemunha para fora, foram perguntados os padres


ratificantes se lhes parecia falar a verdade e merecia crédito a dita
testemunha, e por eles foi dito que assim lhes parecia que falava verdade
e merecia crédito pelo conhecerem ser de verdade, e tornaram assinar
com o Reverendo Senhor Comissário. Eu, o Padre Manoel José Salgado
Ribeiro que o escrevi.

o Comissário Lourenço José de Queirós Coimbra [assinatura]


Antonio Carneiro Leam [assinatura]
Antonio Gonçalves Pimentel. [assinatura]

Aos vinte e um dias do mês de Novembro de mil e sete centos e


sessenta e oito anos nesta vila real e freguesia de Nossa Senhora da
Conceição do Sabará em casas e morada do Reverendo Senhor comissário
Lourenço José de Queirós Coimbra, comigo o Padre Manoel José Salgado
Ribeiro, escrivão eleito para escrever nesta diligência e se haver de
continuar na forma da comissão dos Muitos (sic) Ilustres Senhores
inquisidores Apostólicos da Inquisição de Lisboa mandou vir perante si as
testemunhas abaixo nomeadas cujos ditos são os seguintes de que fiz este
termo por mandado do do (sic) dito senhor com quem assinei. E eu, o Padre
Manoel José Salgado Ribeiro, escrivão eleito para esta diligência, o escrevi.

O Comissário Lourenço José de Queirós Coimbra [assinatura]


258 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Manoel José Salgado Ribeiro [assinatura]

2. Inocencia Alves Vieira, natural e batizada na freguesia de Nossa


Senhora da Conceição de Matto dentro, comarca do Serro do frio,
moradora no Ribeirão da Matta, freguesia de Santo Antonio do Bom
Retiro da Roça Grande, comarca do Sabará, Bispado de Marianna,
casada, a quem o Reverendo Senhor Comissário deu o juramento dos
Santos Evangelhos sub cargo do qual lhe encarregou dissesse verdade e
guardasse segredo, a qual disse ser Cristã-Velha de idade que disse ser
de trinta anos, pouco mais, ou menos, e perguntada pelos
interrogatórios da comissão junta.

Ao primeiro disse nada.


Ao segundo disse nada.
Ao terceiro disse que somente sabia primeiramente pelo |f.99r|
pelo ouvir a três ou quatro pessoas, e depois por uma carta que veio do
sertão de Pernambuco a José Correa Espinola, que Manoel Sardinha
Jardim, sendo casado, e recebido em face da Igreja com ela testemunha,
ausentando-se da companhia dela testemunha para o sertão de
Pernambuco, depois de viver, e maritar com ela mesma testemunha de
portas adentro dois para três anos, e ter dele duas filhas, ouviu, como
tem dito a princípio, que o dito Manoel Sardinha Jardim estava para se
casar lá no sertão de Pernambuco com uma mulata, ao que ela
testemunha não deu crédito por lhe parecer tal cousa não podia haver
no mundo, nem cristão batizado casar segunda vez com segunda mulher
sendo a primeira viva, porém que depois que um Reverendo sacerdote
sobrinho do dito José Correa Espinola deu parte de que o dito Manoel
Sardinha Jardim estava casado naquele sertão de Pernambuco, então
acreditara, e muito melhor depois que soube que com efeito o dito
Amanda Teixeira • 259

Manoel Sardinha Jardim fora preso, e remetido para o Santo Ofício pela
dita culpa, o que ela testemunha também ouviu a várias pessoas,
outrossim disse que o dito Manoel Sardinha Jardim era natural da Ilha
da Madeira, sem outro ofício mais que o de comboeiro de cavalos que
trazia do sertão a vender a estas Minas Gerais, outrossim disse, que o
mesmo Manoel Sardinha Jardim se casara, e recebera com ela
testemunha solenemente na Capela de Santa Anna do Fidalgo, fazendo
as vezes de Pároco, que então era Lucianno Pinto Nogueira de Souza,
encomendado na freguesia de Santo Antonio do Bom Retiro da Roça
Grande, o Padre Pedro da Costa Amado, já defunto, no ano de cinquenta
e [dous] sendo testemunhas, entre outras, ao que lhe lembra, Manoel
Rodrigues Velho, e que depois como fica dito consumara Matrimônio
com ela testemunha, e viveram ambos em boa paz e sossego dois para
três anos e haver ela testemunha do dito seu marido duas filhas, se
ausentara o dito seu marido Manoel Sardinha Jardim com tenção, ao que
dizia, de vir dali a ano e meio com outro comboio de cavalos, tomando o
caminho do sertão de Pernambuco, e mais não disse.
Ao quinto disse que conhecia muito bem a Manoel Sardinha Jardim
por filho dos mesmos Pais aqui nomeados, e natural da mesma freguesia,
e Ilha da Madeira, e que andando comboiando cavalos do sertão para estas
Minas, se casara e recebera com ela testemunha em face de Igreja na
Capela de Santa Ana do Fidalgo, freguesia de Santo Antonio do Bom Retiro
da Roça Grande, onde ela testemunha estava vivendo em companhia de
seus Pais e vive inda hoje, e que por esta razão sabia que o mesmo Manoel
Sardinha Jardim era o mesmo seu legítimo marido.
Ao quinto disse que ela testemunha era a mesma, e própria |99v| e
própria Inocencia Alves Vieira, filha legítima de Manoel Vieira e de
Joana Peres, natural da freguesia de Nossa Senhora da Conceição de
Mato dentro, do Serro do Frio, e por tal foi sempre tida e havida, e assim
260 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

aconteça ainda hoje por mercê de Deus viva e moradora no Ribeirão da


Mata, distrito da Capela do Fidalgo, freguesia de Santo Antonio do Bom
Retiro da Roça Grande, e mais não disse.
Ao sexto disse que ela testemunha é própria e legítima mulher de
Manoel Sardinha Jardim por ser a mesma Inocencia Alves Vieira
recebida com ele Manoel Sardinha solenemente e perante as
testemunhas que deixa dito na Capela de Santa Ana do Fidalgo, e que
com ele Sardinha viveu maritalmente perto de três anos, e dele houve
de legítimo matrimônio duas filhas, e se lembra que o recebimento foi
no mês de Junho de cincoenta e dous, e mais não disse.
Ao sétimo disse que não conhecia, nem tinha notícia alguma da
mulata dos Cararis novos, Bispado de Pernambuco, e menos sabia de
quem era filha ou donde era natural, e mais não disse.
Ao oitavo disse que somente sabia pelo ouvir a princípio a três ou
quatro pessoas de que se não lembra que Manoel Sardinha Jardim sendo
legitimamente casado com ela testemunha, e sendo inda viva, como inda
hoje é, estava para casar com uma mulata no sertão de Pernambuco, o que
ela testemunha nunca pôde acreditar, tanto que por via de José Correa
Espinola, morador no Ribeirão da Mata, freguesia de Santo Antonio do
Bom Retiro da Roça Grande, o qual tinha um sobrinho clérigo no sertão
de Pernambuco, procurou ela testemunha saber notícias do dito seu
marido Manoel Sardinha Jardim, e então por carta do dito clérigo é que se
veio no conhecimento, e notícia, com alguma certeza, de que o dito
Manoel Sardinha Jardim se tinha com efeito casado no dito sertão com
segunda mulher, sendo ela testemunha, sua primeira mulher, inda viva,
como inda hoje é, mas que não sabia a certeza nem também a Igreja ou
Capela em que se recebeu, e menos o Pároco, ou testemunhas, dia, mês e
ano, nem também se fizeram vida marital, e só ouvira dizer assim como
voz vaga que tiveram filhos, e mais não disse.
Amanda Teixeira • 261

Ao nono disse que tudo quanto tem testemunhado passa na


verdade, e que não tinha que declarar ao costume mais do que |f.100r|
do que ter sido casada legitimamente e recebida em face de igreja com
o mesmo Manoel Sardinha Jardim com ele viver maritalmente perto de
três anos ter dele duas filhas, e ausentar-se sem outra causa alguma o
dito seu marido, mais do que dizer que ia fazer negócio como costumava
ao sertão de Pernambuco, ficando ela testemunha honradamente como
ate o presente vive, e mais não disse.
E sendo-lhe lido este seu testemunho, e por ela ouvido e entendido,
disse estar escrito na verdade, e que nele se afirmava, e ratificava, e
tornava a dizer de novo, sendo necessário, e nele não tem que
acrescentar, diminuir, mudar ou emendar, nem de novo que dizer ao
costume, sub cargo do juramento dos Santos Evangelhos, que outra vez
lhe foi dado, ao que estiveram presentes por honestas e religiosas
pessoas que tudo viram e ouviram e prometeram dizer verdade, e
guardar segredo no que foram perguntados os Padres Antonio Carneiro
Leão, Presbítero do hábito de São Pedro, e Antonio Gonçalves Pimentel,
Presbítero do mesmo habito, ambos moradores nesta freguesia de
Nossa Senhora da Conceição do Sabará, que aqui assinaram com a
testemunha, e com o Reverendo Senhor Comissário, e eu, o Padre
Manoel José Salgado
Ribeiro, escrivão eleito, que o escrevi.

O Comissário Lourenço José de Queirós Coimbra. [assinatura]


Inocencia Alves Vieira [assinatura]
Antonio Carneiro Leão [assinatura]
Antonio Gonçalves Pimentel [assinatura]
262 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

E ida a testemunha para fora, foram perguntados os Reverendos


Padres ratificantes se lhes parecia falava a verdade e merecia crédito a
dita testemunha, e por eles foi dito que assim lhes parecia que falava
verdade a dita testemunha, e merecia inteiro crédito, e tornaram
assinar com o Reverendo Senhor Comissário. E eu, o Padre Manoel José
Salgado Ribeiro, escrivão eleito, que o escrevi.

O Comissário Lourenço José de Queirós Coimbra. [assinatura]


Antonio Carneiro Leão [assinatura]
Antonio Gonçalves Pimentel [assinatura]

3. Manoel Ribeiro de Gouvea, que vive de seu negócio, natural e


batizado na freguesia de São Bartolomeu de Campelo, Bispado do Porto,
morador na freguesia de Santo Antonio do Bom Retiro da Roça Grande,
solteiro, testemunha a quem o Reverendo Senhor Comissário |100v|
Comissário deu o juramento dos Santos Evangelhos sub cargo do qual
lhe encarregou dissesse verdade e guardasse segredo, o qual disse ser
cristão velho, de idade que disse ser de cinquenta anos, e perguntados
pelos interrogatórios da comissão.
Ao primeiro disse nada.
Ao segundo disse nada.
Ao terceiro disse que sabia pelo ouvir a várias pessoas entre as quais
se lembra fora uma Manoel Vieira, sogro de Manoel Sardinha Jardim, que
o mesmo Manoel Sardinha Jardim, sendo legitimamente casado em face
de Igreja com Inocencia Alves Vieira, tinha sido preso pelo Santo Oficio
por casar segunda vez no sertão de Pernambuco, sendo ainda viva a dita
Inocencia Alves Vieira, sua legítima e primeira mulher, cujo recebimento
da dita inocência Alves assistiu ele testemunha na capela de Santa Ana do
Fidalgo perante o Reverendo Pedro da Costa Amado, já falecido, capelão
Amanda Teixeira • 263

que era da dita capela, sendo Vigário encomendado da freguesia de Santo


Antonio do Bom Retiro da Roça Grande o Reverendo Luciano Pinto
Nogueira também já falecido, o qual recebimento foi feito no ano de
cinquenta e dois, e que assim recebido o dito Manoel Sardinha Jardim,
com a dita inocência Alves Vieira, e legitimamente casados, viveram
alguns anos fazendo vida marital de umas portas adentro com boa paz e
união, e do dito matrimônio houveram duas filhas, o que tudo ele
testemunha sabe pelo ver e assistir como dito fica ao dito recebimento, e
conhecer por solteiro ao dito Manoel Sardinha, comboeiro de cavalos do
sertão para estas Minas Gerais.
Ao quarto disse que somente conhecera a Manoel Sardinha Jardim
algum tempo antes de casado pelo ver comboiando alguns cavalos do
sertão de Pernambuco para estas Minas, e depois de casado o conhecera
também alguns anos fazendo vida marital com a dita sua primeira e
legítima mulher Inocencia Alves Vieira, té (sic) tempo que se ausentou
sem tornar mais a ser visto neste Bispado de Mariana, mas que não sabia
donde era natural, nem de quem era filho, nem que ofício tinha, e mais
não disse.
Ao quinto disse que desde o ano de cinquenta e um té o presente
dia tem conhecimento verdadeiro de Inocencia Alves Vieira, filha
legítima de Manoel Vieira, e de Joana Peres, todos inda hoje vivos,
moradores desde o dito tempo té o presente no Ri beirão da Mata,
freguesia de Santo Antonio do Bom Retiro da Roça grande, mas que não
sabia donde ela era natural, e só sim que sempre foi tida e havida, e é
por filha legítima dos sobreditos Pais, sem fama nem rumor em
contrario, e a razão que tem para assim o afirmar é por ele testemunha
ter sido sempre morador na mesma freguesia da Roça Grande, e
conhecer a dita Inocencia Alves e aos ditos seus Pais, e mais não disse.
264 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Ao sexto disse |101r| Ao sexto disse que sabia pelo ver como dito
tem, e ter assistido ao recebimento de Manoel Sardinha Jardim que este
é casado legitimamente com inocência Alves Vieira inda hoje viva e que
o dito recebimento foi feito na Capela de Santa Ana do Fidalgo perante
o reverendo Pedro da costa Amado, sendo vigário daquela freguesia o
Reverendo Luciano Pinto Nogueira, ambos já falecidos, e que depois de
recebidos, fizeram vida marital alguns anos de cujo matrimonio há duas
filhas, e vivendo a dita Inocencia Alves como inda hoje vive em
companhia de seus Pais no Ribeirão da Matta, adonde ele testemunha
conhece a todos desde o ano de cinquenta e um, e mais não disse.
Ao sétimo disse nada.
Ao oitavo disse que ele testemunha não sabia com certeza nem
nunca soube mais que pelo ouvir a várias pessoas, entre as quais se lembra
foi Manoel Vieira, legítimo Pai de Inocencia Alves Vieira, que o dito
Manoel Sardinha Jardim se casara segunda vez, e recebera em face de
Igreja com uma mulata no sertão de Pernambuco, sendo ainda viva como
é sua primeira e legítima mulher, Inocencia Alves Vieira, e somente pelo
ouvir principalmente depois que se disse ter passado preso pelo Santo
oficio o dito Sardinha, que era por se ter casado no dito sertão de
Pernambuco com uma mulata, sendo viva sua primeira e legítima mulher,
nem também sabia se daquele casamento tinha havido ou não filhos, e
menos se com ela tinha feito vida marital, e mais não disse.
Ao nono disse que tudo quanto tem testemunhado passa na
verdade, e que não tinha que declarar ao costume, e causas dele, e mais
não disse.
E sendo-lhe lido este seu testemunho e por ele bem ouvido e
entendido disse estar escrito na verdade, e que nele se afirmava e
ratificava, e tornava a dizer de novo sendo necessário, e nele não tinha
que acrescentar, diminuir, mudar, ou emendar, nem de novo que dizer
Amanda Teixeira • 265

ao costume sub cargo do juramento dos Santos Evangelhos que outra


vez lhe foi dado, ao que estiveram presentes por honestas e religiosas
pessoas, que tudo viram, e ouviram, e prometeram dizer verdade, e
guardar segredo no que foram perguntados, os Padres Antonio Carneiro
Leão, Antonio Gonçalves Pimentel, Presbíteros do hábito de São Pedro,
moradores nesta mesma freguesia de Nossa Senhora da Conceição do
Sabará que aqui assinaram com a testemunha, e com o Reverendo
Senhor Comissário, e eu, o Padre Manoel José Salgado Ribeiro escrivão
eleito, que o escrevi.

O Comissário Lourenço José de Queiros Coimbra [assinatura]


Manoel Ribeiro de Gouvea [assinatura]
Antonio Gonçalves Pimentel [assinatura]
Antonio Carneiro de Leão [assinatura]

|101v| E ida a testemunha para fora, foram perguntados os Reverendos


Padres ratificantes se lhes parecia falar verdade e merecia crédito a dita
testemunha, e por eles foi dito que assim lhe parecia que falava verdade
e merecia inteiro crédito e tornaram assinar com o Reverendo Senhor
Comissário e eu, o Padre Manoel José Salgado Ribeiro, escrivão eleito,
que o escrevi.

O Comissário Lourenço José de Queirós Coimbra [assinatura]


Antonio Carneiro Leão [assinatura]
Antonio Gonçalves Pimentel [assinatura]

4. Matheus Domingues do Vale, oficial de [curtidor] natural e


batizado na freguesia de Santa Maria de Quintiains, termo de Barcelos,
Arcebispado de Braga, morador na Lagoa Grande, freguesia de Santo
266 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Antonio do Bom Retiro da Roça Grande, casado, testemunha a quem o


Reverendo Senhor Comissário deu o Juramento dos Santos Evangelhos
sub cargo do qual lhe encarregou, dissesse verdade, e guardasse
segredo, o qual disse ser cristão velho, de idade que disse ser de sessenta
e oito anos, pouco mais, ou menos, e pelos interrogatórios perguntado
da comissão junta.
Ao primeiro disse nada.
Ao segundo disse nada.
Ao terceiro disse que sim, sabia por ser público e notório que Manoel
Sardinha Jardim, sendo legitimamente casado e recebido na forma da
Igreja com Inocencia Alves Vieira na Capela de Santa Ana do Fidalgo no
ano de cinquenta e dois, como ele testemunha presenciou, e sua mulher,
Dona Feliciana do Prado Magalhães, que foi uma das Madrinhas do dito
recebimento, perante o Reverendo Pedro da Costa Amado, já falecido,
sendo vigário encomendado na dita freguesia da Roça Grande Luciano
pinto Nogueira, também já falecido, e outras muitas testemunhas, como
Manoel Rodrigues Velho, e um José Teixeira Campos, ausente sem se
saber parte certa onde assista, ou se é ou não já falecido, depois de viver
alguns anos em paz e sossego com a dita Inocencia Alves, sua legítima
mulher, fazendo vida marital, e haver nela dita Inocencia duas filhas,
ausentando-se para o sertão de Pernambuco, correra notícia que lá se
tinha casado segunda vez o dito Manoel Sardinha Jardim com uma
mulata, fazendo-se tão certa esta notícia, que também se fez público e
notório que já tinha sido preso, e preso, digo, remetido para o Santo Ofício
pela dita culpa o dito Manoel Sardinha Jardim por ser certo e induvitável
(sic) ser ainda viva como é até o dia presente a dita inocência Alves Vieira,
sua primeira e legítima mulher e mais não disse.
Ao quarto disse que não tivera conhecimento algum nem o tinha de
Manoel Sardinha Jardim, e só o vira e conhecera na ocasião em que se
Amanda Teixeira • 267

recebeu com Inocencia Alves Vieira na Capela de Santa Ana do Fidalgo por
ele testemunha ir com sua mulher rogada para Madrinha do dito
casamento, como foi e por isso mesmo o presenciou do modo que deixa
dito, e nenhum outro conhecimento teve, nem do dito |f.102r| dito Manoel
Sardinha Jardim, exceto os poucos anos que fez vida marital com a dita
sua primeira e legítima mulher, inocência Alves, assistentes no Ribeirão
da Matta da mesma freguesia da Roça Grande, e mais não disse.
Ao quinto disse que há dezenove anos pouco mais ou menos, que
conhece a inocência Alvez Vieira e a seus Pais, Manoel Vieira, e Joana
Peres, já moradores no Ribeirão da Matta [...] freguesia da Roça Grande
sempre tida e havida e reputada por filha legitima dos ditos Pais, e que
a razão do dito conhecimento é por ele testemunha ser morador e
assistente na mesma freguesia da Roça Grande, no sítio da Lagoa
Grande, não muito distante do Ribeirão da Matta, adonde a dita
inocência Alves e seus pais foram sempre e são moradores, mas que não
sabia donde ela era natural e batizada, e mais não disse.
Ao sexto disse que sabia pelo ver e assistir ao recebimento, como
dito tem, que Manoel Sardinha Jardim não só se casou e recebeu em face
de igreja com Inocencia Alves Vieira na Capela de Santa Ana do Fidalgo,
freguesia da Roça Grande deste Bispado de Mariana perante o reverendo
Pedro da Costa Amado, no ano de cinquenta e dois, sendo vigário
encomendado da dita freguesia Luciano Pinto Nogueira, já falecido, e
perante muitas e várias testemunhas, sendo Padrinhos, Manoel
Rodrigues Velho e José Teixeira Campos, ausente, mas também depois
de recebidos sabia pelo ver que ambos viveram fazendo vida marital de
portas a dentro alguns anos, com muita paz e sossego, e que deste
Matrimonio há duas filhas que inda vivem em companhia da dita
inocência Alves, que também ainda vive, e mais não disse.
Ao sétimo disse nada.
268 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Ao oitavo disse que somente sabia por ser voz pública e quase geral
que Manoel Sardinha Jardim, sendo legitimamente casado, e recebido
em face de igreja com Inocencia Alvez Vieira, sua legitima e primeira
mulher, e sendo esta inda viva, como é até o presente, segunda vez se
casara na mesma forma da Igreja lá no sertão de Pernambuco, com uma
mulata, mas que não sabia em que Igreja ou capela se fez o dito
recebimento, nem também perante que Pároco ou testemunhas, e
menos o dia, mês, e ano, nem também se depois fez vida marital; ou
tiveram filhos, e mais não disse.
Ao nono disse que tudo quanto tem testemunhado passa na verdade
e que não tinha que declarar ao costume e causas dele, e mais não disse.
E sendo-lhe lido este seu testemunho, e por ele bem ouvido e
entendido, disse estar escrito na verdade, e que nele se afirmava e
ratificava, e tornava a dizer de novo sendo necessário, e nele não tem
que acrescentar diminuir, mudar ou emendar nem de novo que dizer ao
costume |102v| subcargo do juramento dos Santos Evangelhos, que outra
vez lhe foi dado, ao que estiveram presentes por honestas e religiosas
pessoas que tudo viram ouviram e presenciaram e prometeram dizer
verdade e guardar segredo no que foram perguntados os Padres Antonio
Carneiro Leão, Antonio Gonçalves Pimentel, Presbíteros do hábito de
São Pedro, moradores nesta mesma freguesia de Nossa Senhora da
Conceição do Sabará, que aqui assinaram com a testemunha e com o
Reverendo Senhor comissário, e eu, o Padre Manoel José Salgado
Ribeiro, escrivão eleito, que o escrevi.

O Comissário Lourenço José de Queiros Coimbra [assinatura]


Matheus Domingues do Vale [assinatura]
Antonio Carneiro de Leam [assinatura]
Antonio Gonçalves Pimentel [assinatura]
Amanda Teixeira • 269

E ida a testemunha para fora, foram perguntados os Reverendos Padres


Ratificantes se lhes parecia falava verdade e merecia crédito, e por eles
foi dito que sim lhes parecia falava verdade e merecia crédito, e
tornaram a assinar com o Reverendo Senhor Comissário e eu, o Padre
Manoel José Salgado Ribeiro, escrivão eleito, que o escrevi.

O Comissário Lourenço José de Queiros Coimbra [assinatura]


Antonio Carneiro de Leam [assinatura]
Antonio Gonçalves Pimentel [assinatura]

5. Manoel Rodrigues Velho, que vive de sua fazenda de Engenho,


natural da freguesia de Santa Maria de Azia, termo da Barca, Arcebispado
de Braga, morador no Ribeirão da Matta, freguesia de Santo Antonio do
Bom Retiro da Roça Grande deste Bispado de Mariana, solteiro,
testemunha a quem o Reverendo Senhor comissário deu o juramento dos
Santos evangelhos sub cargo do qual lhe encarregou dissesse verdade e
guardasse segredo, o qual disse ser cristão velho de idade que disse ser de
oitenta anos, e perguntado pelos interrogatórios da comissão junta.

Ao primeiro disse nada.


Ao segundo disse nada.
Ao terceiro disse que somente sabia por ser público e notório e
geralmente o ouvir a muitas e várias pessoas que um Manoel Sardinha
Jardim, sendo casado e recebido em face de Igreja com inocência Alves
Vieira, sendo esta ainda viva como é, fora casar segunda vez lá no sertão
de Pernambuco, donde fora preso pela mesma culpa e remetido ao Santo
oficio, o que ele testemunha somente sabia pela geral notícia que davam
todos, mas que sabia pelo ver e ser testemunha, ou Padrinho do casamento
270 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

do dito Manoel Sardinha Jardim, que e ele se recebera em face de igreja


com Inocencia Alves Vieira, na Capela de Santa Ana do Fidalgo perante o
Reverendo Pedro da Costa Amado, já falecido, sendo Pároco encomendado
da mesma freguesia da Roça Grande Luciano Pinto Nogueira, também já
falecido, cujo recebimento foi no ano de cinquenta e dois, e com a dita sua
mulher Inocência Alves fora viver maritalmente de portas adentro com
muita paz |103r| paz e sossego dois para três anos para o sítio dele
testemunha, adonde já antes era moradora a dita Inocencia Alvez em
companhia de seus Pais e do dito Matrimonio houveram duas filhas, sendo
ele testemunha Padrinho da primeira, e que passado os dois para três anos,
sem causa alguma se ausentara para o sertão de Pernambuco o dito
Manoel Sardinha Jardim com um José Teixeira Campos com quem tinha
andado no negócio de comboiar cavalos daquele sertão para estas Minas
Gerais, e que depois de passados alguns anos é que correra a noticia que o
dito Manoel Sardinha lá nesse sertão de Pernambuco se tinha casado
segunda vez com uma Tapuia, ou Mulata, cujas noticias pelo discurso (sic)
do tempo se foram fazendo mais gerais e públicas, e que esta é a razão por
que ele testemunha fora sabedor do dito segundo casamento sendo viva
como inda hoje é, a primeira mulher do dito Manoel Sardinha, e mais não
disse.
Ao quarto disse que ele testemunha somente conheceu a Manoel
Sardinha Jardim um ano pouco mais ou menos antes dele casar com
Inocencia Alves Vieira, já moradora em companhia de Seus Pais no
Ribeirão da Mata em terras e sítio dele testemunha, e só então ouvira
dizer que o dito Manoel Sardinha era natural da Ilha da Madeira sem
outro ofício mais que o de comboiar cavalos em companhia de José
Teixeira Campos, que era o negócio de que tratava, e mais não disse.
Ao quinto disse que conhecia muito bem a Inocência Alves Vieira
por filha legitima de Manoel Vieira, e de Joanna Peres, todos ainda vivos,
Amanda Teixeira • 271

e moradores no Ribeirão da Matta em que, digo, em terras que ele


testemunha lhe deu alguns anos antes do casamento da dita inocência
Alves com Manoel Sardinha Jardim, mas que muitos anos antes do dito
casamento conhecera ele testemunha aos mesmos pais da dita
Inocência Alves morando em diversos sítios mas sempre dentro da
mesma freguesia da Roça Grande para onde vieram da Comarca do Serro
do Frio, donde dizem que nascera a dita inocência Alves, e que esta é a
razão que tem do conhecimento dos ditos Manoel Vieira, Joanna Peres,
e inocência Alves, sempre tida e havida, e geralmente reputa da de todos
por filha legitima dos ditos pais, e mais não disse.
Ao sexto disse que sabia pelo ver como dito tem que Manoel Sardinha
Jardim se casou legitimamente e foi recebido em face de igreja com
inocência Alves Vieira ainda viva no ano de cinquenta e dois na Capela de
santa Ana do Fidalgo da freguesia da Roça Grande, perante o Reverendo
Pedro da Costa amado, já falecido, sendo Pároco da dita freguesia Luciano
Pinto Nogueira, também falecido na presença dele testemunha e outras
muitas mais pessoas, e que assim recebidos foram viver maritalmente de
portas adentro para o mesmo sítio do Ribeirão da Matta em companhia
dos pais da mesma Inocência Alves, adonde depois de ter duas filhas da
mesma inocência Alves, passados dois para três anos se ausentara o dito
Manoel Sardinha sem outra causa alguma mais que dizendo que ia tratar
do negócio de cavalos, e que dali a um ano havia de trazer a ele testemunha
um bom cavalo por ser já seu compadre, como Padrinho da primeira filha,
que não só lhe recomendou, mas também sua legitima mulher como
comadre, que era sua, e mais não disse.
Ao sétimo disse nada.
Ao oitavo disse que não sabia mais que pelo ouvir geralmente que o
dito Manoel Sardinha Jardim sendo ainda viva como é sua primeira e
legítima mulher Inocencia Alves Vieira, se fora casar segunda vez com
272 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

uma mulata |103v| mulata ou tapuia no sertão de Pernambuco, mas que


não sabia em que paragem foi o dito casamento, nem perante que Pároco,
nem a Igreja ou Capela, nem também quais foram as testemunhas e muito
menos se com a dita segunda mulher fez vida marital ou teve filhos,
porque nada disto sabe nem tem ouvido, e mais não disse.
Ao nono, disse que tudo quanto tem testemunhado passa na
verdade e que ao costume so tinha que declarar ser compadre do dito
Manoel Sardinha Jardim, e de inoencia Alves Vieira, por ter sido
Padrinho da primeira filha que nasceu dos sobreditos Manoel Sardinha
e Inocencia Alves, e mais não disse.
E sendo-lhe lido este seu testemunho, e por ele bem ouvido e
entendido, disse estar escrito na verdade e que nele se afirmava e
ratificava, e tornava a dizer de novo, sendo necessário, e nele não tem
que acrescentar, diminuir, mudar ou emendar nem de novo que dizer
ao costume sub cargo do juramento dos Santos Evangelhos que outra
vez lhe foi dado, ao que estiveram presentes por honestas e religiosas
pessoas, que tudo viram e ouviram e prometeram dizer verdade e
guardar segredo no que foram perguntados os Padres Antonio Carneiro
Leao, Antonio Gonçalves Pimentel, Presbíteros do habito de São Pedro,
e moradores nesta mesma freguesia de Nossa Senhora da Conceição do
Sabará, que aqui assinaram com a testemunha, e com o Reverendo
senhor comissário, e eu, o Padre Manoel José Salgado Ribeiro, escrivão
eleito, que o escrevi.

O Comissário Lourenço José de Queirós Coimbra [assinatura]


Manoel Rois Velho [assinatura]
Antonio Carneiro Leam [assinatura]
Antonio Gonçalves Pimentel [assinatura]
Amanda Teixeira • 273

E ida a testemunha para fora foram perguntados os


Reverendíssimos ratificantes se lhes parecia falava verdade e merecia
crédito, e por eles foi dito que sim, lhes parecia falava verdade e merecia
inteiro crédito, e tornaram assinar com o Reverendo Senhor
Comissário, e eu, o Padre Manoel Jose Salgado Ribeiro, escrivão eleito
que o escrevi.

O Comissário Lourenço José de Quierós Coimbra [assinatura]


Antonio Carneiro Leam [assinatura]
Antonio Gonçalves Pimentel [assinatura]

6. Antonio Rodrigues da Costa, que vive de roça, natural da


freguesia de São Pedro de Rates, Arcebispado de Braga, solteiro,
morador na freguesia de Santo Antonio do Bom Retiro da Roça Grande,
testemunha a quem o Reverendo Senhor Comissário deu o juramento
dos Santos Evangelhos sub cargo do qual lhe encarregou dissesse
verdade guardasse segredo o qual disse ser cristão velho, de idade que
disse ser de trinta e três pouco mais ou menos, e perguntado pelos
interrogatórios da comissão junta.
Ao primeiro disse nada.
Ao segundo disse nada.
Ao terceiro disse que sabia pelo ouvir quase geralmente na sua
vizinhança e ao mesmo Manoel Vieira, Pai de Inocencia |f.104r|
Inocencia Alves Vieira, que Manoel Sardinha Jardim, sendo
legitimamente casado com a dita inocência Alves Vieira, sua filha, tem
do vivido com ela alguns anos, fazendo vida marital, e tendo já duas
filhas do mesmo Matrimonio, ausentando-se para o sertão de
274 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Pernambuco, lá se casara segunda vez sendo ainda viva, como inda hoje
é, sua primeira e legitima mulher, e mais não disse.
Ao quarto disse que conheceramuito bem a Manoel Sardinha
Jardim, ainda em tempo de solteiro, sem ofício algum, tratando do
negócio de cavalos, mas que não sabia donde ele era natural, nem de
quem era filho, e que depois de casado também o conhecera fazendo
vida com sua mulher Inocencia Alves Vieira, moradores no Ribeirão da
Matta, freguesia de Santo Antonio do Bom Retiro da Roça Grande, deste
Bispado de Mariana, que a razão que tem do dito conhecimento era pelo
ver e ser ele testemunha morador nas vizinhanças da Capela de Santa
Anna do Fidalgo, aonde os ditos vinham ouvir Missa, e mais não disse.
Ao quinto disse que conhecia a dita Inocencia Alves Vieira por filha
dos mesmos Pais Manoel Vieira e Joanna Peres, pelo ver todos assistentes
no Ribeirao da Matta, sítio de Manoel Rodrigues Velho, freguesia de Santo
Antonio do Bom Retiro da Roça Grande, mas que não sabia donde ela era
natural, ou donde para ali tinha vindo, e mais não disse.
Ao sexto disse que suposto ele testemunha não assistiu ao
casamento de Manoel Sardinha Jardim com Inocencia Alves Vieira, sabia
pelo ouvir geralmente, e a Manoel Rodrigues Velho, que legitimamente
se casaram e receberam na Capela de Santa Anna do Fidalgo, sendo
testemunha o mesmo Manoel Rodrigues Velho, como também sabia por
ser publico e notório que alguns anos fizeram vida marital morando no
Ribeirão da Matta, no sítio do mesmo Manoel Rodrigues Velho, e que do
dito Matrimonio tiveram filhos, mas que não sabia o dia, mês e ano em
que foi o dito recebimento, e mais não disse.
Ao sétimo disse nada. Ao oitavo disse que somente sabia pelas
razoes já ditas, e por ser publico e notório que Manoel Sardinha Jardim,
sendo legitimamente casado e recebido em face de Igreja com Inocencia
Alves Vieira, sua primeira mulher, tendo com ela vivido alguns anos em
Amanda Teixeira • 275

boa paz e sossego, e havendo nela duas filhas, ausentando-se para o


sertão de Pernambuco sem causa alguma lá retornara a casar segunda
vez sendo ainda viva, como inda hoje é, a dita sua primeira mulher,
Inocencia Alves Vieira, mas que não sabia com quem o dito Sardinha se
casou, nem a paragem onde se recebeu, nem também perante que
Pároco, ou em que Igreja ou Capela, e muito menos perante que
testemunhas, nem também se fez vida marital com a tal segunda
mulher, ou também se dela teve ou não filhos, e mais não disse.
Ao nono disse que tudo quanto tem testemunhado passa na
verdade e que não tinha que declarar ao costume e causas dele e mais
não disse.
E sendo-lhe lido este seu |104v| seu testemunho e por ele bem
ouvido e entendido, disse estar escrito na verdade, e que nele se
afirmava, e ratificava, e tornava a dizer de novo sem do necessário, nele
não tem que acrescentar, diminuir, mudar ou emendar, nem de novo
que dizer ao costume sub cargo do juramento dos Santos Evangelhos
que outra vez lhe foi dado, ao que estiveram presentes, por honestas e
religiosas pessoas, que tudo viram, e ouviram, e prometeram dizer
verdade e guardar segredo no que foram perguntadas, os Padres
Antonio Carneiro Leão, Antonio Gonçalves Pimentel, Presbíteros do
hábito de São Pedro, moradores nesta mesma freguesia de Nossa
Senhora da Conceição de Sabará, que aqui assinaram com a testemunha,
e com o Reverendo Senhor comissário, e eu, o Padre Manoel Jose Salgado
Ribeiro, escrivão eleito, que o escrevi.

O comissário Lourenço José de Queiros Coimbra [assinatura]


Antonio Roiz da Costa [assinatura]
Antonio Carneiro Leam [assinatura]
Antonio Gonçalves Pimentel [assinatura]
276 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

E ida a testemunha para fora, foram perguntados os Reverendos


Padres ratificantes se lhes parecia falava verdade e merecia crédito, e
por eles foi dito que sim, lhe parecia falava verdade e merecia crédito, e
tornaram a assinar com o Reverendo Senhor Comissário, e eu, o Padre
Manoel José Salgado, escrivão eleito, que o escrevi,

O Comissário Lourenço José de Queiros Coimbra [assinatura]


Antonio Gonçalves Pimentel [assinatura]

Muito Ilustres Senhores


As testemunhas acima inquiridas todas são de conhecida verdade e
inteiro crédito e cristãos velhos 4 delas assistiram ao recebimento de
Manoel Sardinha Jardim com Ignocencia Alves Vieyra, a mesma ainda é
viva, e também jura sem [...] em cousa alguma o seu testemunho. Só a
última não assistiu ao recebimento, porém, conheceu muito bem o delato,
conhece a dita Ignocencia e sabe que ainda viva é, honradissimamente
como sempre. É quanto posso informar a Vossas Senhorias que mandarão
o que forem servidas. Vila Real, 22 de Novembro 1768.
Gastei dois dias, e parte de uma noite, sem sair de minha casa.

O comissário Lourenço José de Queirós Coimbra [assinatura]

|104A|

Vila Real
Ao Comissário Lourenço José de Queiros Coimbra – 360
Ao escrivão Manoel José Salgado – 580
Notificações: -- 360
[Total]: 1300
Amanda Teixeira • 277

6º pte. 66
Cta 36

|104Av|

Conta final
Ao secreto – 314
Contas – 072
[Total] 386

Vila Real do Sabará


Ao Comissário Lourenço José de Queiros Coimbra – 360
Ao escrivão Manoel José Salgado – 580
Notificações -- 360

Conta 36.
Moller.

|f.105| [Kariris] novos 1768

Sumario de testemunhas do segundo matrimônio de Manoel Sardinha


Jardim, que por ordem do Tribunal do Santo Ofício, tirou o Padre José
Ferreira da Costa, por Comissão que teve do Reverendo Padre Antonio
Alvares Guerra, Comissário do Santo Ofício do Bispado de Pernambuco.

Escrivão Barretto.

Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil sete centos


e sessenta e oito anos, aos oito dias do mês de fevereiro do dito ano, nesta
Povoação da Igreja Matriz de São José dos Kariris novos, termo da vila do
278 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Crato, Capitania do Seará grande, em casas de Morada do Reverendo


Padre José Ferreyra da Costa, cura e vigário da vara dos sobreditos Kariris
novos, Juiz comissário, onde eu, escrivão eleito abaixo nomeado fui vindo,
e por ele me foi entregue o Sumario de interrogatórios do segundo
matrimonio de Manoel Sardinha Jardim, expedido pelos Ilustríssimos e
Reverendíssimos Senhores inquisidores do Tribunal do Santo Oficio da
Inquisição da Cidade de Lisboa ao Reverendo Padre Antonio Alvares
Guerra, Comissário do Santo oficio do Bispado de Pernambuco, para que
o autuasse, e fizesse as diligências do estilo que todas são as que ao
adiante se seguem, de que fiz este autuamento: e eu, o Padre José Gomes
Barretto, escrivão eleito, o escrevi.

|f. 106r| 2º Matrimônio de Manoel Sardinha Jardim


Cararis Novos, Bispado de Pernambuco

Os Inquisidores Apostólicos contra a herética pravidade e


apostasia, nesta Cidade de Lisboa e seu distrito fazemos saber a Antonio
Alvares Guerra, ausente, a Simão Ribeiro Ribas, Comissário do Santo
Oficio no Recife de Pernambuco, que nesta Mesa consta que Manoel
sardinha Jardim, filho de Sebastiao Sardinha Jardim, e de Maria
Ferreira, natural da Freguesia de Nossa Senhora da Graça, Bispado da
Ilha da Madeira, sendo legitimamente casado, e recebido in facie Eclesia
em 10 de junho de 1752, na Capela de Santa Anna do Fidalgo, freguesia
de Santo Antonio do Bom Retiro da Roça Grande, Bispado de Mariana,
com Innocencia Alves Vieira, filha de Manoel Vieira e Joanna Peres,
natural da freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Matto, dentro
do Serro do frio, ausentando-se de sua mulher, sendo esta ainda viva, se
recebeu segunda vez nos Cararis novos, Bispado de Pernambuco, com
uma mulata: E porque convém ao Serviço de Deus Nosso Senhor, e bem
Amanda Teixeira • 279

da Justiça do Santo Ofício, constar judicialmente o segundo matrimonio


do dito delato. Authoritate Apostolica cometemos a Vossa Mercê para que
faça esta diligencia, para escrivão da qual elegerá a um Sacerdote
Cristão velho, de boa vida, e costumes, a quem dará o juramento dos
Santos |f.106v| Evangelhos, sob cargo do qual prometerá escrever com
verdade, e ter segredo / e sendo esta cometida a pessoa que não seja
comissário por carta, o receberá também da mão do mesmo escrivão /
de que se fará termo ao princípio por ambos assinado: E logo nos ditos
Cararis novos, e parte que a Vossa Mercê parecer mais acomodada para
esta diligência se fazer com a cautela e segredo, que convém, mandará
vir perante si ate seis testemunhas, entre elas o Pároco, e testemunhas
que assistiram ao dito segundo matrimônio, todas pessoas cristãs
velhas e fidedignas, e que assistissem ao dito ato / se ainda existirem /
e bem possam depor com certeza no que se pretende; E sendo presentes
lhes dará o juramento dos Santos Evangelhos, sob cargo do qual
prometerão dizer verdade, e ter segredo no que forem perguntadas, e
logo o serão judicialmente pelos interrogatórios seguintes:
1º Se sabe, ou suspeita o para que é chamado e se o persuadiu
alguma pessoa a que sendo perguntado por parte do Santo Ofício,
dissesse mais ou menos do que soubesse e fosse verdade?
2º Se sabe que alguma pessoa fizesse ou dissesse cousa alguma
contra a nossa Santa Fé Católica e Lei Evangélica, cujo conhecimento
pertença ao Santo Ofício, ou outra qualquer, de que deva e haja de dar
conta na Mesa do mesmo. Que é o que sabe, viu ou ouviu, a que |107r|
pessoa, contra quem, em que parte, que tempo há, sobre que matéria, e
quem mais estava presente?
3º Se sabe que alguma pessoa, sendo casada e recebida em face de
Igreja, na forma do Sagrado Concilio Tridentino, ausentando-se para
280 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

outra parte diferente da em que assistia, se casasse segunda vez, sendo


vivo seu primeiro e legítimo marido ou mulher?
Quem é a pessoa, que contraiu os dois matrimônios, como se
chama, donde é natural, e moradora, que oficio ou ocupação tem, em
que Igreja se recebeu, com que marido, ou mulher, que tempo há, que
Pároco os recebeu, perante que pessoas, se fizeram vida marital,
vivendo das mesmas portas adentro, por quanto tempo, e há muito que
se ausentou, e para que parte [...]
4º Se conhece a Manoel Sardinha Jardim, filho de Sebastião
Sardinha Jardim e de Maria Ferreyra, natural da freguesia de Nossa
Senhora da Graça, Bispado da Ilha da Madeira, se sabe que Ofício tenha,
se é filho dos Pais referidos, natural e morador donde se diz, que razão
tem de conhecimento, e de que tempo a esta parte?
5º Se conhece a Inocência Alves Vieira, filha de Manoel Vieira e
Joanna Peres, natural da fregue- |107v| freguesia de Nossa Senhora da
Conceição do Matto, dentro do Serro do frio; se sabe seja filha do sobre
ditos pais, se é natural donde se diz, e onde moradora, que razão tem de
conhecimento, e de que tempo a esta parte?
6º Se sabe que o dito Manoel Sardinha Jardim sendo legitimamente
casado e recebido em face de Igreja com Inocencia Alves Vieira, em qual
se receberam, perante que Pároco, e testemunhas, se depois fizeram
vida marital, e tiveram filhos, em que dia, mês e ano se receberam.

Se a dita Inocência Alves Vieira é ainda viva, ou se é falecida, onde é


atualmente moradora, ou em que Igreja se sepultou, em que dia, mês, e ano,
e que razão tem de o saber?
Amanda Teixeira • 281

7º Se conhece a referida mulata 2, ou dela tem alguma notícia, se


sabe donde seja natural, e se é moradora onde se diz, de quem é filha, e
que razão tem de o saber?
8º Se sabe que o dito Manoel Sardinha Jardim sendo legitimamente
casado, e recebido em face de Igreja com a dita sua primeira mulher
Innocencia Alves Vieira, e sendo esta ainda viva, se casasse segunda vez
na mesma forma da Igreja com a dita mulata, em que Igreja se
receberam, perante que Pároco, e testemunhas, em que dia, mês e ano,
se depois fizeram vida marital e tiveram filhos, e que razão tem de
conhecimento, digo, e que razão tem de o saber?
9º Se |f.108r| 9º Se tudo o que tem testemunhado passa na verdade,
e se tem que declarar ao costume, e causas dele?
Pelos interrogatórios acima serão perguntadas as testemunhas,
que no princípio de seus depoimentos dirão seus nomes, cognomes,
Pátrias, habitações, Ofícios, idades e qualidades de seu sangue, e no fim,
assinarão, e sendo mulher, que não saiba escrever, assinará por ela, de
seu rogo, e consentimento, o Escrivão da diligência. E procurará Vossa
Mercê o assento do recebimento dos ditos Manoel Sardinha Jardim, e
sobredita mulata, e deles mandará cópia, vindo nela inserto o dito
assento, e serão as testemunhas ratificadas na forma do estilo do Santo
Oficio, que inclusa vai: E ultimamente dará Vossa Mercê a sua
informação declarando nela o que achar, assim a respeito do que se
pretende averiguar, como da fé e crédito, que às testemunhas se deve
dar, escrevendo-a pela sua mão, sem o comunicar ao Escrivão, pelo qual
mandará fazer declaração do tempo que gastar, e feita a diligencia com
brevidade, com a mes- |108v| com a mesma nos será esta remetida, sem

2
No original, “molata”. Não encontrei esta variação nos dicionários da época. Segundo Bluteau, “Mulata
& Mulato: Filha & filho de branca, & negra, ou de negro, & de mulher branca. Este nome Mulato vem de
Mú, ou mulo, animal gerado de dous ou três de diferente espécie”. Cf. Bluteau, 1712-1728, p. 628.
282 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

que lá fique cópia ou traslado algum. Dada em Lisboa, no Santo Ofício,


dos nossos sinais, e selo do mesmo, aos quinze dias do mês de Dezembro
de mil setecentos e sessenta e seis anos. Rodrigo Joseph Ferreyra
[Nobre] a fez.
Luiz Baratta de Lima [assinatura]
Joachim Jansen Moller [assinatura]

6 de.s e selo 260


Conta 36.

Registrada p.326

|f. 109r|

Termo de juramento
Aos oito dias do mês de Fevereiro de mil sete centos sessenta e oito
anos, nesta Povoação da Igreja Matriz de São José dos Kariris Novos,
termo da Vila do Crato Capitania do Seará Grande, em casas de morada
do Reverendo Padre José Ferreira da Costa cura, e vigário da vara dos
sobreditos Kariris Novos Juiz comissário onde eu escrivão eleito ao
diante nomeado, fui vindo e aí perante o dito Juiz Comissário me foi
dado o juramento dos Santos Evangelhos em um Livro deles, em que pus
minha mão direita, recebendo também o dito Juiz Comissário da minha
mão para bem e fielmente com verdade fazermos esta diligencia
guardando em tudo o segredo da Justiça, e direito às partes, de que fiz
este termo, em que ambos nos assignamos, e eu o Padre José Gomes
Barreto, escrivão eleito
o escrevi.
Amanda Teixeira • 283

José Ferreira da Costa, Juiz comissário [assinatura]


Padre José Gomes Barreto [assinatura]

Termo de Assentada
Aos oito dias do mês de fevereiro de mil sete centos sessenta e oito
anos nesta Povoação da Igreja Matriz de São José dos Kariris Novos
termo da vila do Crato Capitania do Seará Grande, em casas de morada
do Reverendo Juiz Comissário, o Padre Jose Ferreira da Costa onde eu
escrivão eleito ao diante nomeado me achava para efeito de tomar os
juramentos das testemunhas cujos depoimentos, nomes, cognomes,
naturalidades, domicílios, idades, ofícios, costu |f. 109v| costumes, e
qualidades são os que ao adiante se seguem, de que fiz este termo, e eu
o Padre José Gomes Barreto, escrivão eleito, o escrevi.

Testemunha primeira
O alferes Francisco Pereira de Abreu, homem branco, casado e
cristão velho, natural da freguesia de Santo Antonio da Jacobina, e
morador nesta freguesia de São José dos Kariris Novos, que vive dos seus
negócios, de idade que disse ser de quarenta e seis anos, testemunha
jurada aos Santos Evangelhos que pelo Reverendo Juiz Comissário lhe
foi dado em um livro deles, em que pôs sua mão direita e prometeu dizer
verdade, do que soubesse, e lhe fosse perguntado.
Ao primeiro interrogatório disse, que não sabe nem suspeita o para
que é chamado e que nem pessoa alguma o persuadiu para que dissesse
mais ou menos do que soubesse e fosse verdade, sendo perguntado por
parte do Santo Ofício.
Ao segundo disse que não sabe que pessoa alguma fizesse ou
dissesse alguma cousa contra a Nossa Santa fé Católica e Lei Evangélica
284 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

cujo conhecimento pertence ao Santo Ofício, ou outra qualquer de que


deva e haja de dar conta, na mesa do mesmo.
Ao terceiro disse nada.
Ao quarto disse que conhece a Manoel Sardinha Jardim há dez para
onze anos, que viera das Minas para esta freguesia de Sam Jose dos Kariris
Novos em Companhia de José Texeira homem branco casado na Boa Vista
de Pernambuco, que vieram com um comboio de fazendas tratando-se
por compadres, e que ouvira ele testemunha muitas vezes dizer a ele
sobredito Manuel Sardinha Jardim, que era natural das Ilhas, e casado nas
Minas com mulher, e filhos, e que ignora os nomes dos quais.
Ao quinto nada disse. |f. 110r| Ao quinto nada disse.
Ao sexto disse, que sabe pelo ouvir dizer ao dito Manoel Sardinha
Jardim muitas vezes era casado nas Minas, que tinha mulher, e filhos
porém, que nunca lhe perguntou pelos nomes e nem quando, em que
Igreja se receberam, e menos sabe se a dita mulher é viva ou falecida.
Ao sétimo disse, que conhece muito a referida mulata chamada
Vicencia Gomes, a qual é natural das partes da Bahia e que viera em
Companhia de seu senhor o Alferes Gonçalo Coelho Sampayo para a
Missão Nova lugar desta freguesia, há trinta anos a esta parte pouco
mais ou menos, e sempre a conheceu solteira sem nunca casar, e que é
filha de uma crioula Thereza solteira, escrava do sobredito alferes
Gonçalo Coelho Sampayo, e que este casando uma filha com Francisco
Pereira Lima, morador no Brejo do Riacho dos Porcos desta freguesia
lhe dera de dote a dita Mulata Vicencia Gomes, de cujo poder a forrou
com seu dinheiro andando concubinado com ela, da qual mulata
Vicencia Gomes tem tido três filhos chamados João, Antonia e Manoel,
e a razão, que tem de o saber é por ser vizinho dela há vinte e sete anos.
Ao oitavo disse que sabe pelo ver e conhecer, que o dito Manoel
Sardinha Jardim, nunca se casou com a dita mulata Vicencia Gomes, e
Amanda Teixeira • 285

que esta sempre viveu solteira e inda vive no mesmo estado, e que na
ausência que fez o dito Manoel Sardinha Jardim para as Minas no ano
de sessenta e três, por correção do visitador, e Pároco da freguesia
parira essa dita Vicencia Gomes dois filhos de outros pais, e que a razão
que tem de o saber é por ter muito conhecimento da dita Mulata
Vicencia Gomes.
Ao nono disse, que tudo quanto tem testemunhado passa na
verdade, e que o dito Manoel Sardinha Jardim chegou das Minas nos fins
do mês de dezembro próximo passado de sessenta e sete, está assistindo
de presente na ca |f. 110v| Na casa da dita Mulata Vicencia Gomes, e disse
a ele testemunha indo o a visitar (sic) que vinha fazer cavalaria, para
tornar outra vez para as Minas, e mais não disse, nem ao costume, e
sendo lhe este seu testemunho (sic), e por ele ouvido e entendido disse
que estava escrito na verdade, e que nele se afirma, e ratifica, e torna a
dizer de novo, sendo necessário e que nele não tem que acrescentar,
diminuir, mudar ou emendar, nem de novo, que dizer ao costume, sob
cargo do juramento dos Santos Evangelhos, que outra vez lhe foi dado,
ao que estiveram presentes por honestas e religiosas pessoas, que tudo
ouviram, ouviram (sic) e prometeram dizer verdade no que fossem
perguntadas sob cargo do juramento dos Santos Evangelhos, que
também lhe foi dado o Reverendo Padre Manoel de Aragão Cabral, e o
Reverendo Padre Antonio de Araujo Lima, que aqui assinaram com ele
Testemunha, e com o dito senhor Juiz comissário, e eu o Padre Jose
Gomes Barreto escrivão eleito o escrevi.
[Padre Jose Ferreira da] Costa [assinatura]
Francisco Pereira de Abreu [assinatura]
Padre Manoel de Aragão Cabral [assinatura]
Padre Antonio de Araujo Lima [assinatura]
286 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

e ida a testemunha para fora foram perguntados os ditos Padres


ratificantes se lhes parecia que falava verdade, e merecia crédito, e por
eles foi dito, que lhes parecia que falava verdade e merecia crédito, e
tornaram a assinar com o dito senhor Juiz comissário, e eu o Padre José
Gomes Barreto escrivão eleito o escrevi.

[Padre Jose Ferreira da] Costa [assinatura]


Padre Manoel de Aragão Cabral [assinatura]
Padre Antonio de Araujo Lima [assinatura]

Testemunha segunda
O Coronel Domingos Alvares de Matos homem branco cristão velho
casado, natural da Japaratuba Meirim Capitania de Sergipe de El Rey,
Arcebispado da Bahia, e mo |f. 111r| e morador no Lugar da Missão nova
desta freguesia de São José dos Kariris Novos, que vive de seus engenhos
de rapaduras e açucares, de idade que disse ser de cinquenta e noves
anos (sic), testemunha jurada aos Santos Evangelhos, que pelo
Reverendo Juiz Comissário lhe foi dado, em um livro deles, em que pôs
sua mão direita, e prometeu dizer verdade do que soubesse e lhe fosse
perguntado.
E perguntado a ele testemunha pelo conteúdo nos interrogatórios
dos Ilustríssimos e Reverendíssimos senhores Inquisidores do Santo
Ofício de Lisboa, que todos foram inquiridos pelo Reverendo Juiz
Comissário.
Ao primeiro disse que não sabe nem suspeita o para que fosse
chamado, e que nem pessoa alguma o persuadisse a que sendo
perguntado por parte do Santo Ofício, dissesse mais ou menos do que
soubesse e fosse verdade.
Amanda Teixeira • 287

Ao segundo disse que não sabe que alguma pessoa fizesse ou


dissesse cousa alguma contra a nossa fé católica e Lei Evangélica, cujo
conhecimento pertence ao Santo Ofício, ou outra qualquer, de que deva
e haja de dar conta na mesa do mesmo.
Ao terceiro nada disse.
Ao quarto disse, que conhece muito bem a Manoel Sardinha Jardim,
natural da Ilha da Madeira, e ignora os pais, e seus nomes, e que há sete
anos para daí pouco mais veio das Minas para esta freguesia de São José
dos Cariris novos, em Companhia de José Teixeira homem branco
casado no lugar da Boavista do Recife de Pernambuco com seu negocio
de fazendas, e sempre assistiu o dito Manuel Sardinha nesta freguesia,
publicando, e dizendo muitas vezes a ele testemunha, era casado nas
Minas, e tinha mulher, e filhos.
Ao quinto disse, que conhece a Ignocencia Alvares Vieira pelo nome
por lhe ter escrito uma carta no ano próximo passado de sessenta e sete,
na qual lhe pedia fizesse com seu marido Manuel Sardinha, fosse |f. 111v|
Fosse para a sua casa, e companhia, para efeito de casar duas filhas, que
tinha já mulheres; por que há quatorze anos se tinha ausentado delas, e
que muito mal passaria se se não tivesse recolhido a casa de seu pai cujo
nome ignoraria e ignora se [tivesse] a carta presente.
Ao sexto disse que sabe que o dito Manuel Sardinha Jardim é casado
com Ignocencia Alvares Vieira por ele lho ter dito varias vezes e ela
também por lho ter manifestado pela carta recebida em sessenta e sete,
pela qual constou ele testemunha ter sido recebido em face da Igreja e
feito vida marital pelas filhas, que [confessa] ter dele, e que não sabe se
é viva ou falecida da carta para cá.
Ao sétimo disse que conhece ele testemunha a Mulata Vicencia
Gomes que é solteira (meretriz, e que é natural da Japaratuba Lugar da
Capitania de Sergipe de el Rey de donde veio para esta freguesia de São
288 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

José, em Companhia de seu senhor o Alferes Gonçalo Coelho Sampaio,


há vinte e oito anos a esta parte pouco mais ou menos, filha da Crioula
Tereza, solteira, escrava do mesmo referido Senhor, e que se acha hoje
morando a dita Mulata Vicencia gomes no lugar da Missão Nova desta
freguesia, em terras dele testemunha, e que esta é a razão que tem de o
saber.
Ao oitavo disse que sabe pelo ver e conhecer que o dito Manoel
Sardinha Jardim nunca se casou com a dita Mulata Vicencia Gomes
porque sempre esta viveu e vive solteira só sim vivendo com ela em
concubinato tendo quatro filhos da dita Mulata, quais são: João,
Antonia, Manoel e Thereza, de que resultou ser corrigida pelo Doutor
Visitador desta comarca no ano de sessenta e dois, e persistindo 3 no
mesmo concubinato, no ano de sessenta e três foi denunciados pelo
Reverendo Pároco da freguesia de cuja denuncia se ausentou para o
sertão o Apodi distante desta freguesia oito dias de viagem, e daí se
transmutou para as Minas com uma cavalaria dizendo que ia buscar sua
mulher, e filhos, e nesta ausência emprenhou a dita Mulata Vicencia
duas barrigas de outros pais, e mais sabe ele testemunha, que o dito
Mano |f. 112r| Manoel Sardinha Jardim forrou esta mesma Mulata com
o seu dinheiro sendo cativa de Francisco Pereira Lima, morador no
Brejo do Riacho dos Porcos, desta mesma freguesia, por dote, que lhe
deu seu sogro o Alferes Gonçalo Coelho Sampaio, e a razão, que tem de
saber tudo, é por ser parente do senhor da dita Mulata, e tratarem muita
amizade, há muitos anos.
Ao nono disse que tudo quanto tem testemunhado [passa-se] na
verdade, que não tem mais, que declarar, ao costume, e causas do dito,
e mais não disse, nem ao costume.

3
No original, “prezestindo”.
Amanda Teixeira • 289

E sendo-lhe lido este seu testemunho, e por ele ouvido e entendido,


disse que estava escrito na verdade, e que nele se afirma, e ratifica, e
torna a dizer de novo, sendo necessário, e que nele não tem que
acrescentar, diminuir, – mudar, ou emendar, nem de novo, que dizer ao
costume sob cargo do juramento dos Santos Evangelhos, que outra vez
lhe foi dado ao que estiveram presentes por honestas e Religiosas
pessoas, que tudo viram, ouviram, e prometeram dizer verdade no que
fossem perguntadas sob cargo do Juramento, que também lhes foi dado
o Reverendo Padre Manoel de Aragão Cabral, o Reverendo Padre
Antonio de Araujo Lima, que aqui assinaram com ele testemunha, e com
o dito Senhor Juiz Comissário, e eu, o Padre José Gomes Barreto,
escrivão eleito, o escrevi.

[Padre Jose Ferreira da] Costa [assinatura]


Domingos Alvares de Mattos [assinatura]
Padre Manoel de Aragão Cabral [assinatura]
Padre Antonio de Araujo Lima [assinatura]

E ida a testemunha para fora, foram perguntados os ditos Padres


Ratificantes, se lhes parecia que falava verdade e merecia crédito, e por
eles foi dito que lhes parecia que falava verdade, e merecia crédito, e
tornaram a assinar, com o dito Senhor Juiz comissário. E eu o Padre José
Gomes Barreto escrivão eleito o escrevi.

[Padre Jose Ferreira da] Costa [assinatura]


Padre Manoel de Aragão Cabral [assinatura]
Padre Antonio de Araujo Lima [assinatura]
290 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

|f. 112v| Testemunha terceira


O Tenente Antonio Machado Lourenço, homem branco, cristão
velho casado, natural da Ilha Terceira Bispado de Angra e morador no
sítio do Gerimum desta freguesia de São José dos Kariris Novos, que vive
de seu engenho de fazer rapaduras, e açúcar e de fazenda de gados, de
idade, que disse ser de cinquenta e quatro para cinquenta e cinco anos,
testemunha jurada aos Santos Evangelhos, que pelo Reverendo Juiz
comissário lhe foi dado, em um livro deles, em que pôs sua mão direita,
e prometeu dizer verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado.
E perguntado a ele testemunha, pelo conteúdo nos interrogatórios
dos Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores inquisidores do Santo
Ofício de Lisboa, que todos lhe foram lidos e declarados pelo Reverendo
Juiz comissário, disse ao primeiro, que não sabe nem suspeita o para que
é chamado, e nem, que pessoa alguma o persuadiu a que sendo
perguntado por parte do Santo Ofício dissesse mais ou menos do que
soubesse e fosse verdade.
Ao segundo disse que não sabe, e nem tem notícia que alguma
pessoa fizesse ou dissesse cousa alguma contra a nossa Santa fé Católica
e lei Evangélica cujo conhecimento pertença ao Santo Ofício, ou outra
qualquer de que deva de dar conta na mesa do mesmo;
Ao terceiro disse nada.
Ao quarto disse que conhece a Manoel Sardinha Jardim desde a era
de mil sete centos sessenta e quatro, que chegou a esta freguesia de São
José dos Kariris novos, e que ele dissera era natural da Ilha da Madeira,
e que nunca lhe falara em seus pais, e menos lhe sabe os nomes, e que
dissera várias vezes era casado no Lugar do Fidalgo, onde morava com
mulher, e filhos antes de vir para esta freguesia de São José, e a razão,
que tem deste conhecimento, foi morar sempre neste Arraial de São José
Amanda Teixeira • 291

com o dito vendendo suas fazendas desde o ano de cinquenta, e quatro,


até o de sessenta e quatro, que se ausentou desta freguesia.
Ao quinto disse nada.

|f. 113r| Ao sexto disse também nada.


Ao sétimo disse que conhece a Mulata Vicencia Gomes solteira, e
mulher meretriz, desde o ano de cinquenta e quatro, que chegando
nesta freguesia, filha da Crioula Thereza, ambas escravas do Alferes
Gonçalo Coelho Sampaio, morador no Lugar de Missão Nova desta
freguesia, a qual Mulata a forrou o dito Manoel Sardinha Jardim e isto
sabe por ser publico e notório.
Ao oitavo disse que sabe que o dito Manoel Sardinha Jardim é
casado nas Minas do Fidalgo do Serro do Frio, por ele lho dizer muitas
vezes, e que no tempo que esteve nesta freguesia nunca casou com a dita
Mulata Vicencia Gomes só sim tendo-a, e mantendo-a, como sua
concubina, tendo dela filhos, por cujo respeito foram condenados no
ano de Sessenta e dois do mês de Agosto pelo Doutor Visitador
Verissimo Rodrigues Rangel, e assinaram ambos termo de apartamento,
ele de ir para as Minas fazer vida com a mulher, e perseverando na
contumácia do concubinato, no ano de sessenta e três seguinte foi
denunciado pelo Pároco da freguesia do que resultou ausentar-se para
o Sertão do Apodi distante desta freguesia oito dias de viagem, de donde
passou, com uma cavalaria para as Minas dizendo a ele testemunha, ia
para a companhia de sua mulher, e a razão que tem de o saber foi por
vir o dito Manoel Sardinha Jardim a despedir-se dele testemunha no seu
Engenho do Gerimum.
Ao nono disse que tudo o que tem testemunhado passa na verdade,
e mais disse ele testemunha, que chegando o dito Manoel Sardinha das
Minas no mês de Dezembro próximo passado de sessenta e sete, o fora
292 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

visitar, que estava na própria casa da mesma mulata Vicencia Gomes, e


que dissera a ele testemunha fora a casa de sua mulher, e que a não
pudera trazer consigo, por não ter modo para isso pelas muitas perdas,
que teve na cavalaria, mas, que vinha fazer outra para no mês de Abril
próximo vindouro, e ir buscar a dita sua mulher, e mais não disse nem
ao costume, e sendo-lhe lido este seu testemunho, e por ele ouvido, e
entendido, disse que estava escrito na verdade, e que nele se afirma, e
ratifica, e torna a dizer de novo sendo necessário, e que nele não tem
que acrescentar, diminuir, mudar ou emendar, nem de novo, que dizer
ao costume sob cargo de juramento dos Santos Evangelhos, que outra
vez lhe foi dado, ao que estiveram presentes por honestas, e Religiosas
pessoas, que tudo viram, ouviram, e prometeram dizer verdade do que
fossem perguntadas sob cargo do juramento dos Santos Evangelhos, que
também lhes foi dado, o Reverendo Padre Manoel de Aragão Cabral, e o
Reverendo Padre Antonio de Araujo Lima, que aqui assinaram com ele
testemunha, e com o dito senhor Juiz comissário, e eu o Padre José
Gomes Barreto, escrivão eleito, o escrevi.

Costa, juiz Comissário [assinatura]


Antonio Machado Lourenço [assinatura]
o Padre Manoel de Aragão Cabral [assinatura]
o Padre Antonio de Araujo Lima [assinatura]

E ida a testemunha para fora foram perguntados aos ditos


ratificantes se lhes parecia que falavam verdade, e merecia crédito, e
por eles foi dito, que lhes parecia que falava verdade, e merecia crédito,
e tornaram a assinar, com o dito senhor Juiz comissário, e eu o Padre
José Gomes Barreto, escrivão eleito, o escrevi.
Amanda Teixeira • 293

Costa, juiz Comissário [assinatura]


o Padre Manoel de Aragão Cabral [assinatura]
o Padre Antonio de Araujo Lima [assinatura]

Testemunha quarta
O Tenente Coronel Antonio Dias de Oliveira, homem branco,
cristão-velho, solteiro, natural da freguesia de Fermelã, Bispado de
Coimbra, Conselho da Bem Posta, e morador nesta Povoação de São Jose
dos Cariris Novos, que vive de sua fazenda de gados, de idade que disse
ser de oitenta e quatro anos, testemunha jurada aos Santos Evangelhos,
que pelo Reverendo Juiz comissário lhe foi dado em um Livro deles, em
que pôs sua mão direita, e prometeu dizer verdade, do que soubesse, e
lhe fosse perguntado.
E perguntado a ele testemunha pelo conteúdo nos interrogatórios
dos Ilustríssimos, e Reverendíssimos Senhores Inquisidores do Santo
Ofício de Lisboa, que todos lhe foram lidos, e declarados, pelo Reverendo
Juiz Comissário |f. 114r| Comissário disse ao primeiro interrogatório,
que não sabe e nem suspeita o para que foi chamado, e que nem pessoa
alguma o persuadiu, a que sendo perguntado, por parte do Santo Ofício,
dissesse mais ou menos do que soubesse e fosse verdade.
Ao segundo disse que não sabe e nem tem notícia que pessoa
alguma fizesse ou dissesse coisa alguma contra a nossa Santa Fé católica
e lei Evangélica, cujo conhecimento pertença ao Santo Ofício ou outra
qualquer de que deva, e haja de dar conta em Mesa do mesmo.
Ao terceiro nada disse.
Ao quarto disse que ele testemunha conhece a Manoel Sardinha
Jardim desde o ano de cinquenta e quatro, que veio das Minas para esta
freguesia de São José dos Kariris novos, e estava morando nesta
Povoação até o ano de sessenta e quatro vendendo suas fazendas, e que
294 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

ele testemunha o ouvira dizer muitas vezes que era natural da Ilha da
Madeira, mas que nunca soube quem fossem seus pais, e a razão que tem
deste conhecimento é por ele mesmo lho ter dito, nesse mesmo tempo
de cinquenta e quatro, que para esta povoação veio.
Ao quinto nada disse
Ao sexto disse que o dito Manoel Sardinha Jardim era casado nas
Minas, e que tinha filhos, e isto sabe por lho dizer o Tenente Antonio
Machado Lourenço, morador no engenho do Geremû, que com o dito
Manoel Sardinha Jardim, tinha mais amizade, e conhecimento.
Ao sétimo disse que conhece ele testemunha a mulata Vicencia
Gomes, solteira, e meretriz, há vinte oito anos a esta parte, que veio com
seu senhor o Alferes Gonçalo Coelho Sampayo, das partes do Rio de
Baixo do Arcebispado da Bahia de donde eram naturais, e que é filha da
Criola Thereza, escrava do sobredito senhor, e a razão que tem para o
saber foi viver sempre perto deles, desde que vieram para esta freguesia.
Ao oitavo disse que sabe que a dita Mulata Vicencia Gomes nunca
foi casada e nem se casou nesta freguesia com Manoel sardinha Jardim,
só sim sabe que viviam ambos no miserável estado de concubinato,
sustentando-a, e vestindo-a, e tendo da dita filhos, tanto sendo cativa,
como depois, que a forrou, e que no ano de sessenta e dois foram co |f.
114v| corrigidos pelo Doutor Visitador Veríssimo Rodrigues Rangel, de
que assinaram termo de apartamento, e ele dito Manoel Sardinha
Jardim, de se ir para as Minas fazer vida marital com sua mulher, e no
ano de sessenta e três perseverando o dito Manoel Sardinha Jardim no
mesmo concubinato de porta adentro denunciou dele o Pároco da
freguesia, de cujo procedimento se ausentou ele para o sertão do Apodi,
distante desta freguesia oito dias de viagem, de donde se transportou
para as Minas com cavalaria, ficando a dita mulata Vicencia Gomes
tratando de sua má vida com quantos lhe parecia como de presente
Amanda Teixeira • 295

ainda o faz, emprenhando e parindo sem ser de presente do dito Manoel


Sardinha Jardim, o qual consta ele testemunha por lho dizerem varias
pessoas, e ser cousa publica, que chegou das Minas no mês de Dezembro
de sessenta e sete, está na casa da dita Mulata Vicencia Gomes, com o
pretexto de ir fazer nova cavalaria, e tornar-se para as Minas, e a razão
que tem de o saber é por ser público e notório.
Ao nono disse que tudo o que tem testemunhado passa na verdade
e que não tem mais que declarar ao costume e causa dele, e mais não
disse além ao costume.
E sendo-lhe lido este seu testemunho, e por ele ouvido, e
entendido, disse que estava escrito na verdade, e que nele se afirma, e
ratifica, e torna a dizer de novo, sendo necessário, e que nele não tem
que acrescentar, diminuir, mudar ou emendar, nem de novo, que dizer
ao costume sob cargo do juramento dos Santos Evangelhos, que outra
vez lhe foi dado, ao que estiveram presentes por honestas e Religiosas
pessoas, que tudo viram, ouviram, e prometeram dizer verdade do que
fossem perguntadas, sob cargo do juramento dos Santos Evangelhos,
que também lhes foi dado, o Reverendo Padre Manoel de Aragão Cabral,
e o Reverendo Padre Antonio de Araujo Lima, que aqui assinaram com
ele testemunha, e com o dito Senhor Juiz comissário e eu, o Padre José
Gomes Barreto, escrivão eleito, o escrevi.

Costa, juiz comissário [assinatura]


Antonio Dias de Oliveira [assinatura]
o Padre Manoel de Aragão Cabral [assinatura]
o Padre Antonio de Araujo Lima [assinatura]

|f. 115r| E ida a testemunha para fora, foram perguntados os ditos Padres
Ratificantes, se lhes parecia que falava verdade, e merecia crédito, e por
296 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

eles foi dito que lhes parecia que falava verdade e merecia crédito e
tornaram a assinar com o dito Senhor Juiz Comissário, e eu o Padre Jozé
Gomes Barreto, escrivão eleito, o escrevi.

Costa, Juiz Comissário [assinatura]


O Padre Manoel de Aragão Cabral [assinatura]
O Padre Antonio de Araujo Lima [assinatura]

Testemunha quinta
Jozé Pereira Mascarenhas, homem branco, cristão velho, casado,
natural do Pilão Arcado do Rio de São Francisco, do Arcebispado da
Bahia, e morador na Povoação de São Jozé dos Kariris Novos, que vive
de suas lavouras, de idade que disse ser de quarenta e dois anos,
testemunha jurada aos Santos Evangelhos, que pelo Reverendo Juiz
Comissário lhe foi dado em um livro deles, em que pôs sua mão direita,
e prometeu dizer verdade, do que soubesse e lhe fosse perguntado.
E perguntado a ele testemunha pelo conteúdo dos interrogatórios
dos Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores Inquisidores do Tribunal
do Santo Ofício de Lisboa, que todos lhe foram lidos, e declarados pelo
Reverendo Juiz Comissário.
Ao primeiro disse que não sabe nem suspeita o para que foi
chamado e que nem pessoa alguma o persuadiu para que sendo
perguntado por parte do Santo Ofício dissesse mais ou menos do que
soubesse e fosse verdade.
Ao segundo disse que não sabe nem tem notícia que pessoa alguma
fizesse ou dissesse alguma cousa contra a nossa Santa Fé Católica e Leis
Evangélicas, cujo conhecimento pertença ao Santo Oficio ou outra
qualquer, de que deva e haja de dar conta na Mesa do mesmo.
Ao terceiro nada disse.
Amanda Teixeira • 297

Ao quarto disse que conhece a Manoel Sardinha Jardim desde o


tempo que veio para esta freguesia, onde ele testemunha era morador,
e está inda morando, que foi no ano de |f. 115v| De cinquenta e quatro, e
que sabe que é natural das Ilhas pelo o ouvir dizer, porém que não sabe
de qual, e que não tem conhecimento algum de quem sejam seus pais, e
que vivia nesta freguesia traficando com suas fazendas, depois que viera
das Minas, e a razão que tem deste conhecimento é pelo ver, e conhecer
nesta freguesia desde o ano de cinquenta e quatro, que para ela veio, até
o de sessenta e quatro, que dela se ausentou.
Ao quinto nada disse.
Ao sexto disse que sabe pelo ouvir dizer a muitas pessoas que o dito
Manoel Sardinha Jardim era casado nas Minas, e tinha mulher, e filhos,
mas que não sabe quem ela era como se chamava, donde era natural e
moradora, e que ouve dizer a varias pessoas, que ainda é viva a dita
mulher de Manoel Sardinha Jardim.
Ao sétimo disse que tem muito conhecimento da Mulata Vicencia
Gomes desde o tempo que veio para esta freguesia em companhia de seu
senhor, o Alferes Gonçalo Coelho Sampayo, naturais do Rio de Baixo do
Arcebispado da Bahia, que haverá vinte e oito para trinta anos, pouco mais
ou menos, que de lá vieram para esta freguesia de São José dos Kariris
Novos, onde sempre moraram até o presente, e que a dita Mulata Vicencia
Gomes é filha da Crioula Thereza, solteira, escrava também do dito Alferes
Gonçalo Coelho Sampayo, e a razão que tem deste conhecimento foi ser
sempre vizinho dos ditos, e ter com eles muita amizade.
Ao oitavo disse que sabe que o dito Manoel Sardinha Jardim é
casado nas Minas como já depôs, com mulher e filhos, e que ainda é viva,
conforme o tem ouvido dizer a muitas pessoas, mas que sabe de ciência
certa que não é casado com a dita Mulata Vicencia Gomes, porque esta
sempre viveu e vive solteira até o presente, de casa posta desde o tempo
298 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

que o dito Manoel Sardinha Jardim a forrou, sendo cativa de Francisco


Pereira Lima, morador no Brejo do Riacho dos Porcos desta freguesia,
por lhe dar em dote seu sogro, o Alferes Gonçalo Coelho Sampayo, da
qual Mulata Vicencia Gomes teve o dito Manoel Sardinha Jardim, quatro
filhos chamados Joam, Antonia, |f. 116r| Antonia, e Manoel, e Thereza,
tendo-a e mantendo-a de todo o necessário por cujo respeito e
concubinato público, no ano de sessenta e dois, o Reverendo Visitador
Veríssimo Rodrigues Rangel os condenou, estando de visita [aberta] e os
fez assinar termo de apartamento, e ele dito Manoel Sardinha Jardim de
ir para as Minas fazer vida marital com sua mulher, e no ano seguinte,
de sessenta e três, perseverando na contumácia da ocasião pecaminosa
e escandalosa, de cujo de, digo, denunciou deles o Reverendo Pároco
desta freguesia, de cujo procedimento resultou ausentar-se o dito
Manoel Sardinha Jardim para o sertão do Apodi, e daí passou no ano de
sessenta e quatro por esta freguesia dos Kariris, com uma cavalaria
dizendo, como foi notório a todos os moradores, ia para as Minas, para
efeito de trazer sua mulher e filhos, e no mês próximo passado de
Dezembro, chegou o dito Manoel Sardinha Jardim das Minas, e está
arranchado de presente na casa da mesma Mulata Viçençia Gómes
publicando que não trouxera sua mulher por ter perda notável nos
cavalos, mas que vem fazer outra cavalaria para no mês de Abril
próximo vindouro ir buscar a dita sua mulher e filhos, e mais diz ele
testemunha, que sabe pariu a dita Mulata Viçencia Gomes um filho, está
proximamente a parir outro de outros Pais, por ser solteira, e não
casada com o dito Manoel Sardinha Jardim, e a razão que tem de o saber
é pelo conhecimento que tem de ser esta matéria muito pública e
notória entre todos estes moradores dos Kariris novos.
Ao nono disse que tudo quanto tem testemunhado passa na verdade,
e que não tem mais que declarar ao costume e causas dele, e mais não
Amanda Teixeira • 299

disse e nem ao costume, e sendo-lhe lido este seu testemunho e por ele
ouvido e entendido, disse que estava escrito na verdade, e que nele se
afirma, e ratifica, e torna a dizer de novo, sendo necessário e que nele não
tem que acrescentar, diminuir, mudar ou emendar, nem de novo que
dizer ao costume sob cargo dos juramentos dos Santos Evangelhos, que
outra vez lhe foi dado, ao que estiveram presentes por honestas e
Religiosas pessoas que tudo viram, ouviram e prometeram dizer verdade,
no que fossem perguntados sob cargo do juramento dos Santos
Evangelhos que também lhes foi dado, o Reverendo Padre Manoel de
Aragão |f. 116v| de Aragão Cabral, o Reverendo Padre Antonio de Araujo
Lima, que aqui assinaram com ele testemunha e com o dito Senhor Juiz
Comissário, e eu, o Padre Jozé Gomes Barreto, escrivão eleito, o escrevi.

Costa, juiz comissário [assinatura]


Jozé Pereira Mascarenhas [assinatura]
o Padre Manoel de Aragão Cabral [assinatura]
o Padre Antonio de Araujo Lima [assinatura]

E ida a testemunha para fora, foram perguntados os ditos padres


ratificantes, se lhes parecia que falava verdade e merecia crédito e por
eles foi dito que lhes parecia falava verdade e merecia crédito, e
tornaram a assinar com o dito Senhor Juiz Comissário e eu, o Padre Jozé
Gomes Barreto, escrivão eleito, o escrevi.

Costa, juiz comissário [assinatura]


o Padre Manoel de Aragão Cabral [assinatura]
o Padre Antonio de Araujo Lima [assinatura]
300 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Testemunha sexta
O Capitam Joam Correya Arnaud, homem branco, cristão velho,
viúvo, natural da freguesia do Divino Spirito Santo do Recôncavo da
Cidade da Bahia, e morador nesta povoação de São Joze dos Kariris
novos, que vive de seu engenho de canas de fazer rapaduras e açúcares,
de idade que disse ser de setenta e oito anos, testemunha jurada aos
Santos Evangelhos, que pelo Reverendo Juiz Comissário lhe foi dado em
um Livro deles, em que pôs sua mão direita, e prometeu dizer verdade
do que soubesse e lhe fosse perguntado.
E sendo perguntado ele testemunha pelo conteúdo nos
interrogatórios dos Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores
inquisidores do Tribunal 4 do Santo Ofício de Lisboa, que todos lhe foram
lidos e declarados pelo Reverendo Juiz Comissário.
Ao primeiro disse que não sabe nem suspeita o para que foi
chamado e que nem pessoa alguma o persuadiu para que sendo
perguntado por parte do Santo Ofício dissesse mais ou menos do que
soubesse fosse verdade |f.117r| verdade.
Ao segundo disse que não sabe nem notícia tem que pessoa alguma
fizesse ou dissesse alguma cousa contra a nossa Santa Fé Católica e Lei
Evangélica, cujo conhecimento pertença ao Santo Ofício, ou outra
qualquer, de que deva, e haja de dar conta na Mesa do mesmo.
Ao terceiro nada disse.
Ao quarto disse que conhece a Manoel Sardinha Jardim desde que
veio para esta freguesia de Sam Joze dos Kariris novos, a um par de anos a
esta parte sendo Comandante destas Minas dos Kariris o Sargento Maior
Jeronimo Mendez da Paz, e que nunca lhe conheceu os pais, nem donde
eram naturais e moradores, só sim ouvira dizer o dito Manoel Sardinha

4
No original, “Tribonal”.
Amanda Teixeira • 301

Jardim era natural das Ilhas e a razão que tem deste conhecimento foi por
o ser morador nesta freguesia desde esse tempo do Comandante 5 que seria
pouco mais ou menos do ano de cinquenta e quatro para diante.
Ao quinto nada disse.
Ao sexto também nada disse.
Ao sétimo disse que conhece a Mulata Vicencia Gomes, solteira, e
meretriz pública, e que é natural das partes de Sergipe de El Rey,
Arcebispado da Bahia, de donde veio em companhia de seu senhor, o
Alferes Gonçalo Coelho Sampayo, que haverá vinte e oito anos pouco
mais ou menos a esta parte, e sempre moraram até o presente nesta
freguesia de Sam Joze dos Kariris novos, e que é filha a dita Vicencia
Gomes da Crioula Thereza, solteira, escrava também do dito Alferes
Gonçalo Coelho Sampayo e a razão que tem de o saber é porque moraram
nesta povoação tempo bastante.
Ao oitavo disse que sabe que Manoel Sardinha Jardim é casado nas
Minas pelo ouvir dizer, e que dessa sua mulher tinha filhos, e que não
sabe, e nem ouviu dizer, que o dito Manoel Sardinha Jardim seja casado,
nem casasse com a dita Mulata Vicencia Gomes, porque esta sempre
viveu solteira, e vive, e é fama pública e notória que ele a forrou, e viveu
com ela amigado, tendo filhos da dita mulata, e sempre os visitadores e
Párocos trabalharam com eles, até que o deitaram fora da freguesia,
ficando ela sempre, vivendo no mesmo estado de solteira em |f. 117v|
Emprenhando, e parindo de outros pais, e a razão que tem deste
conhecimento é por ser esta matéria mui pública e notória.
Ao nono disse que tudo quanto tem testemunhado passa na
verdade, e que não tem mais que declarar ao costume, e causas dele, e
mais não disse, e nem ao costume.

5
No original, “Quomandante”.
302 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

E sendo-lhe lido este seu testemunho, e por ele ouvido e entendido


disse que estava escrito na verdade e que nele se afirma, e ratifica, e
torna a dizer de novo, sendo necessário e que nele não tem que
acrescentar, diminuir, mudar ou emendar, nem de novo que dizer ao
Costume sob cargo do juramento dos Santos Evangelhos, que outra vez
lhe foi dado, ao que estiveram presentes por honestas e Religiosas
pessoas, que tudo viram, ouviram e prometeram dizer verdade do que
fossem perguntadas, sob cargo do juramento dos Santos Evangelhos que
também lhes foi dado, o Reverendo padre Manoel de Aragão Cabral, e o
Reverendo Padre Antonio de Araujo Lima, que aqui assinaram com ele
testemunha e com o dito Senhor Juiz comissário, e eu, o Padre Jozé
Gomes Barretto, escrivão eleito, o escrevi.

Costa, juiz comissário [assinatura]


Joam Correya Arnaud [assinatura]
o Padre Manoel de Aragão Cabral [assinatura]
o Padre Antonio de Araujo Lima [assinatura]

E ida a testemunha para fora, foram perguntados os ditos Padres


Ratificantes, se lhes parecia que falava verdade e merecia crédito, e por
eles foi dito que lhes parecia que falava verdade e merecia crédito e
tornaram a assinar com o dito Senhor Juiz Comissário e eu o Padre Joze
Gomes Barreto, escrivam eleito, o escrevi.

Costa, juiz comissário [assinatura]


o Padre Manoel de Aragão Cabral [assinatura]
o Padre Antonio de Araujo Lima [assinatura]
Amanda Teixeira • 303

Termo de encerramento
Aos dez dias do mês de fevereiro de mil sete centos sessenta e oito
anos, nesta Povoação da Igreja Matriz de Sam Joze dos Kariris novos,
termo da vila do Crato, ca |f.118r| Capitania do Seará Grande, depois de
[tirados] os testemunhos, houve o Reverendo Juiz Comissário esta
diligencia por acabada e nela se não gastaram dias de viagem por ser
feita na mesma Povoação dos Kariris no vos sem dispêndio algum, e
menos tem emenda ou risca que nesta diligencia dúvida faça, de que fiz
este termo e eu, o Padre Jozé Gomes Barreto, escrivão eleito o escrevi.

Ilustríssimos e Reverendíssimos Senhores Inquisidores do Tribunal do


Santo Ofício
O que posso informar a vossas Ilustríssimas e Reverendíssimas
sobre o delato Manoel Sardinha Jardim é o seguinte: no primeiro dia do
mês de Agosto do ano de mil setecentos e sessenta e dous, tomei posse
de Cura, e vigário da Vara desta Freguesia de Sam Jozé doz Kariris novoz,
por ordem do Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Dom [Francisco
de] Xavier Aranha, Bispo de Pernambuco estando com [visita aberta] o
Doutor Visitador Veríssimo Rodrigues Rangel, e já achei condenado
Manoel Sardinha Jardim, casado nas Minas, por se achar esse
concubinado com a mulata Vicencia Gomes, solteira, moradora nesta
povoação e Freguesia de Sam Jozé dos Kariris novoz com quatro filhos
do dito Manoel Sardinha Jardim e assinaram ambos termo de
apartamento, e ele, de ir para as Minas fazer vida com sua mulher, e não
fez, continuando no mesmo estado com a cúmplice, no seguinte ano de
mil sete centos sessenta e três foram denunciados pelo Juízo da Vara e
foram condenados segunda vez, pelo que se ausentou-se dessa
Freguesia para as partes e sertão do Apody, distante desta Freguesia oito
dias de viagem, ficando a mulata Vicencia Gomes nesta Freguesia, e
304 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

desse Sertão do Apody se transportou com uma cavalaria para as Minas,


que por aqui passou publicamente por esta dita Freguesia dizendo a
muitas pessoas que ia buscar sua mulher e filhos, e no mês de Dezembro
próximo passado de mil sete centos sessenta e sete chegou o dito Manoel
Sardinha Jardim |f. 118v| Jardim das Minas, sem mulher, e filhos, e se
arranchou em casa da sobredita mulata Vicencia Gomes, como todos me
dizem, porque esta vive distante desta Matriz duas léguas e meia, que a
[exterminei] pare esse lugar por ser escandalosa, ainda depois da
ausência do dito Manoel Sardinha Jardim, emprenhando e parindo de
outro pai: e nem antes de eu chegar a esta Freguesia, nem depois, casou
o dito Manoel Sardinha Jardim com a dita mulata Vicencia Gomes, e é
na real verdade mulher solteira e pública meretriz, vivendo em sua casa
com seus filhos como me consta de Ciência certa, e é fama pública e
notória não ser casado nesta Freguesia e nem no bispado de
Pernambuco o dito Manoel Sardinha Jardim, só sim nas Minas como me
afirmam muitas pessoas, e que tudo afirmo em fé de Pároco, e é o que
posso informar a vossas Ilustríssimas e Reverendíssimas, e além mais
acho, e julgo que as seis testemunhas que juraram nesta [Mesa] são
dignos da fé e crédito porque são pessoas [muito] conhecidas, cristãos
velhos, e tementes a Deus que juraram. Verdade, e depuseram o que
sabiam sem dolo ou malícia alguma, e aqui afirmo debaixo do mesmo
juramento. Vossas Ilustríssimas e Reverendíssimas com suas
[retíssimas] justiças determinarão o mais [justo] para o Serviço de Deus.
Povoação de São José dos Kariris novos, em dez de fevereiro de 1768.

José Ferreira da Costa [assinatura]


Cura e Vigário da Vara dos Kariris novos
Amanda Teixeira • 305

Povoação de São Jozé

Ao vigário Jozé Pereira da Costa – 360


Ao Escrivão Jozé Gomes Barreto – 720
Notificação: 360
Total: 1.440

6ª. pe. 60.


Conta 36.

Conta final.

Ao Secreto: 320
Contas: 072
Total: 392

Povoação de São Joze


Ao Padre Jozé Pereira da Costa: 360
Ao Escrivão Jozé Gomes Barreto: 720
Notificação: 360
Total: 1.832

Moller [rubrica]
36
LIV. 319, 130º CAD., SERRA DA BERUOCA – JOSÉ PEREIRA,
ÍNDIO, EMBUSTEIRO + MANOEL DE LIRA CABRAL,
HOMEM MAMALUCO, EMBUSTEIRO + FRANCISCO
CABOCLO OU DOM FRANCISCO, EMBUSTEIRO 1

|f.162r| Ilustre Reverendo Senhor João Ribeiro Peçoa.

Joze Pereira – Embusteiro


Manoel de Lira – [...]
D. Francisco caboclo – [...]

Como me achei e presenciei a publicação dos ritos que é


pertencente ao Santo Ofício, e como vi cousas que fiquei escrupuloso, e
sempre com o sentido de dar parte do que vi em certos sujeitos, e o que
tenho ouvido dizer de outros, que há pouco usaram de muitas
superstições e outros que as aceitaram, acreditando e concorrendo para
os tais ritos, os de vista foram os seguintes para o que fiz este memorial.
Joze Pereira, índio, por cura de malefício ao defunto Antônio
Gonçalves Santiago, morador na fazenda do Curralinho, Ribeira do
Coreayû. O dito José Pereira, morador na Serra Beruoca, terras do
Capitão Domingos Roiz, sítio chamado Mato Grosso. Vi o que fez ao dito
padecente, logo no primeiro dia pondo uma Imagem de Santo Antonio
em cima da Mesa, benzia o dito fazendo cruzes com a mão para cima do
[dito] e pegando o santo e pondo na cabeça do padecente fazia o mesmo
e fazendo saltar o Santo por cabeça, barriga e mais corpo do dito doente
dizendo o que assim é que curaria os tais malefícios e pondo mesmo

1
Antonio Otaviano Vieira Junior escreveu um artigo, intitulado “De menino voador, Sabá e iluminismo:
notícias da Inquisição no Sertão do Ceará”, em que analisa esta denúncia. Disponível em:
[Link] Acesso em 06 de agosto de 2024.
Amanda Teixeira • 307

santo dentro de bebida que o vi dar, noutro dia o deixava de infusão toda
noite, e assim fazia todos os dias, as tais ilusórias seitas, o que me
angustiava o coração de tal ver, e a começar do dito Gonçalves que tanto
se [afligia] dizendo estar curado que não tinha fé nas quantas cousas, e
defumava o santo e defumava o enfermo, e assim seguindo a cura que
diante mim não achei [...] mais, e dizia a tal curador que não queria que
[...] logo a descarga [do] para a frente, que era para ajuntar, e ao depois
ficava só com ele e no outro dia é que se via o que se achara, que
mostrava tantas cousas de que se [deleitava] ter saído pela boca ou pelo
intestino reto, o que podia escandalizar a ditas partes e preguntando-se
o enfermo dizia que nada sentia sair-lhe pelas vias, e não houve melhora
da saúde, e dizia o tal supersticioso que logo havia lhe fechar o corpo
para que não lhe botassem mais nada e nos ditos assim ficava e ao depois
veio Manoel de Lira Cabral, homem mamaluco, entrando em casa com o
mesmo doente fez muitas cousas não estando eu presente, e ao depois
cheguei e vi os seguintes casos: defumadores de pós de cavalo [morto]
[no] campo e muita cousa fedorentas que ninguém podia ali parar, isto
sendo ele só curado e o doente e uma consorte chamada Beralda e isto
seguiu cinco meses, e cada vez pior , até que o tirara da casa o padecente
e o pôs em casa da viúva |162v| viúva Roza, mulher cabra, em terras do
mesmo doente e lá faziam o que queriam das [efusões] diabólicas que
vários de cada fazenda foram ver, porque dançavam de noite dentro do
rio com [maracás], e bebidas de Juremas. Como [muito] da casa da dita
Roza iam ver e assistiam e o dito curador foi a fazer curas de malefícios
em casa do Capitão Manoel Moreira Simões, ao mesmo [Simões] e a sua
mulher porque eles mesmo (sic) o confessaram, e adepois a um negro do
mesmo Simões, que passando eu por lá me disse o dito Simões que
estava com aquela diligência com o tal negro e me chamou, para ver o
dito negro, e eu o desenganei [porque] lhe não dava [saída] com os meus
308 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

remédios da Medicina pelo que estava deplorável de mais cura, e que


como estava com as tais efusões, que não dariam ao depois o levar a
Medicina, e que não cuidassem em tais ilusões, com que me disse o dito
Capitão porquanto eu tanto abusar aquelas cousas, que com a [razão] me
tinha chamado, por saber a minha [impugnação], e diziam disse a
mulher do dito Capitão, a Dona Viúva Vitória Maria de Jesus, que
acreditava que o tal Lira sabia fechar o corpo, e saindo da dita casa
esteve em outras tantas diabruras na fazenda do Juazeiro, com danças
de Juremas donde se achou o vaqueiro da dita fazenda chamado
Silivreste Pereira a curar-se [...] sua menina e na tal dança de noite fora
de horas com bebidas de Juremas e maracás, que quando dançam fazem
passar as contas de um para outro sem que se veja como [...] os que
assistem, como no dito Juazeiro se acharam os [filhos] [donde] [...]
[Antonio] Tomás vindo também procurar remédios dos tais malefícios,
e o levaram a curar a Mãe do dito, e no Ipú fez muito e muito destas
cousas que digo, e no mesmo Juazeiro o Sargento-Mor Jozé Roiz de
Aguiar me disse que também tomou remédio que lhe deu o tal curador,
e me disse que também tinha acreditado no que ele curador fazia; e disto
tudo o que digo está a esta Ribeira do Coreeiayu cheia de testemunhas.
Outro, um caboclo chamado D. Francisco, que em casa de José Francisco
na Serra Beruoca sitio junto do [Ventura e Poções] fez as seguintes
cousas: dançava fora de horas até a madrugada com o supradito com as
ditas danças e ensinando discípulos e discipulas, aprendendo as tais
artes e o dito José Francisco entregou uma [filha] donzela para aprender
[...] e depois que se prendeu o Mestre, que ela já sabe tudo quanto sabia
o Seu Mestre, e nas ditas danças, entrara |f. 163r| entraram muitas
mulheres casadas, com consentimento dos maridos, a mulher de Jozé
Marinho, Marçalina Nogueira, e filhas do dito Marinho, uma por nome
Tereza e outra, Anna, e o mesmo Marinho, pra que se lhe fechasse o
Amanda Teixeira • 309

corpo para não entrar chumbo. Manoel Ferreira Porto Cerciros deixou
ir a mulher chamada Anna das Neves, e uma filha Mariana, e uma neta
Clemencia. Nas tais danças dizem que viam os que entravam, vir do ar
um menino com cabelos dourados, e com olhos de fogo, e dizia o Mestre
que era o que vinha para dizer donde estava a doença que ele a [havia]
curar, e dizem viam muitas cousas, como as testemunhas o dirão que
dou os nomes de algumas e elas dirão as outras e todas dirão o que viam
e as que entravam nas tais ilusões e o que fariam de ritos nas tais
ocasiões. Testemunhas Antonio Gomes, vaqueiro da viúva Dona Quitéria
Maria de Jesus, no [Curralinho]. Tio da dita Antonia do [Rei] Cavalcante;
Marçal Soares, ambos moradores no Riacho dos Porcos, perto do
Curralinho e estes deram [...] mais que viram ou assistiram e todos dos
[Poções] vizinhos, e passando Antonio Domingues, morador nesta vila
do Sobral, vindo do Coreuayû junto com outro companheiro de noite,
pela estrada da dita casa do tal [escola], diz que vira quantas cousas e
que chegou perto e o que viu lhe fez medo, o que pudera o dito
denunciar. Sei que a todos, os que disto que digo sabem e que merecem
falar verdade e [desembaraçados], muito mais dirão do que tenho dito.
Uma rapariga chamada Luzia, que agora se acha em casa da dita
Quitéria, e Maria de Jesus poderá dizer o que tem a este respeito dito e
que também foi e entrava nas ditas danças, e diz que as mulheres iam
todas nuas da cintura acima e com muitas [desonestas] [cousas], o que
digo que fizeram o que disto tudo dou parte e de- [...]
Outro, um negro de [Antonio] de [Sá] Ribeiro no Ariticus,
Ribeira do Acaracû, e na Serra Beruoca muito tem feito de superstições,
ao que consentiram várias pessoas de satisfação na Capela de Acruz
desta Ribeira do Acaracû. E assim tenho [...] denunciado, dos [quem] sei
tal não podem fazer – e nem se consentir, por já não [o] temer para tais
310 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

cousas fazerem, e assim desencarrego minha consciência ficando Livre


dos escrúpulos que me assistia. Vila do Sobral, 30 de Março de 1779.

Jozé dos Santos Silva.


37
LIV. 322, 134º CAD., AMONTADA, DISTRITO
DA VILA DE SOBRAL – PADRE MANOEL DA
CUNHA LINHARES, PROPOSIÇÃO HERÉTICA

|f. 241| Muito Reverendo Senhor Juiz Comissário do Santo Ofício

O Padre Manoel da Cunha Linhares 28.


Maio 1802

Reverendo Padre Manuel da Cunha Linhares morador na freguesia


da Amontada distrito da Vila de Sobral disse em casa do Capitão José
Tavares do Amaral nesta Povoação de Almofala, presente o mesmo
capitão, e Antonio José de Souza, e Manoel Antonio de Carneiro, todos
nesta Povoação moradores que punha dúvida e não sabia como o menino
Deus tinha saído do Ventre de Maria Santíssima sem romper aquelas
carnes, ao que [se opôs] o Senhor Capitão e ele batendo com a cabeça
disse eu sei, eu sei, e isto mesmo me contou o capitão José Tavares e
Antonio José de Souza, presentes Luiz Antonio Pena, Joze de Souza
Teyxeira; Manoel Estevão de Bizarril, e isto mesmo já avisei por outra a
Vossa Mercê.

Deus guarde a vossa mercê por muitos anos com felicidades. Almofala
[30] de Janeiro de 1802.

De vossa mercê
[Atencioso] e Venerador Servo
Francisco Moreira de Souza
38
LIV. 322, 134º CAD., ARNEIRÓS – ANDRE SOARES,
HOMEM PRETO, BIGAMIA + GREGÓRIO, CABRA DE
NAÇÃO, ESCRAVO DO TENENTE CORONEL FRANCISCO
ALVES FEITOSA, BIGAMIA + DOUTOR MANOEL DE
ARRUDA CÂMARA, PROPOSIÇÃO HERÉTICA + JOSÉ
FELIPE, HOMEM BRANCO, PROPOSIÇÃO HERÉTICA +
PADRE JOÃO FRXª, PROPOSIÇÃO HERÉTICA

|f.435r| Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Inquisidor

Beijo a mão a Vossa Excelência Reverendíssimo. Há dois anos fiz


certo a Vossa Excelência, que André Soares, homem preto, se
denunciara de ter casado duas vezes, durante o primeiro matrimônio;
porém, que fora por lhe asseverarem ter essa falecido, do que precedera
justificação, e com ela se passara a segundas núpcias, tudo como
latamente já expus e alheio fazer desta nenhuma resolução tem havido,
e se a houve, não me chegou a mão: de presente perante mim apareceu
o Tenente Coronel Francisco [Álvares] Feitoza a fim de denunciar a
Gregorio, cabra de nação, seu escravo, casado este o ano passado com
Maria de Araujo também sua escrava, e que tem certeza ser este casado
no Rio de São Francisco, onde reside a primeira mulher com quatro
filhos. Eu lhe encarreguei a separação deste da dita mulher, porém de
sorte que o referido escravo não respeitasse a causa, e que ele dito
Tenente Coronel seria obrigado entregar o referido escravo, quando lho
pedissem, de que dava eu parte a esse Santo Tribunal. Também
denunciou-me o Reverendo Padre Manoel Filipe Gonçalves, homem
Teólogo, e assaz instruído, que em conversa com o Doutor Manoel de
Arruda, formado em Medicina em França, e naturalista neste
Amanda Teixeira • 313

Continente 1, passara a conversação a argumento, no qual asseverou o


dito Arruda ser o jejum nocivo contra a natureza, e por isso mau, o que
não tinha dúvida afirmar na Praça do Rocío, e que as visões de São Paulo
Eremita nasciam da frouxidão membrosa, e não de realidades, unindo a
essa prolata palavras frouxas, menos cristãs e tediosas à verdadeira
religião. O Capitão Mor Jose [Aleixo] Feitoza também denunciou a Joze
Felipe, homem branco, viúvo, que sendo este envolto em um homicídio,
dissera que se ele saísse Culpado, que Deus era injusto, este mesmo
Capitam Mor mo disse, que |f.435v| ouvira dizer a Manoel [Álvares] que
o Reverendo Padre João Frxª dizia não haver Inferno, e eu ouvi dizer ao
mesmo Padre que a Senhora Santa Ana era Virgem, e repreendendo-o
eu, ficou na mesma asserção o dito é clérigo idiota, e nenhuma lição tem,
este, e Jose Felipe são moradores na freguesia do Icó, e os outros, na
freguesia de Arneiroz dos Inhamuns deste Bispado de Pernambuco.

[...], a quem desejo felicidades em


Freguezia de Arneiroz do [...]

O Senhor mandará o que for servido.


[...] de Abril de 1800.

De Vossa Excelência
Súdito e [atencioso] Capelão
Manoel Roiz Xavier [assinatura]

1
Trata-se de Manuel de Arruda da Câmara, naturalista paraibano que viajou pelos sertões durante a
transição do século XVIII para o XIX. Ele percorreu o Ceará por volta de 1797-1799. Arruda Câmara teria
pertencido à ordem dos Carmelitas em Pernambuco até 1783, quando viajou para a Europa com o objetivo
de estudar “Filosofia Natural”. Em 1790 recebeu o grau de doutor em Medicina. A ele é atribuída a criação
da Sociedade Macônica “Aerópago de Itambé”, que foi bastante influente durante o contexto da Revolução
de 1817. Cf. Aguiar; Buriti. Meio ambiente e cultura nas capitanias do nordeste colonial: nacionalismo e
reformismo ilustrado na obra do naturalista viajante Manuel Arruda da Câmara (1793-1814). Disponível em:
[Link] Acesso em 23 de setembro de 2024.
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capitanias do nordeste colonial: nacionalismo e reformismo ilustrado na obra do
naturalista viajante Manuel Arruda da Câmara (1793-1814); História (São Paulo), v. 28,
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Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram: obra indispensável
para entender sem erro os documentos mais raros e preciosos que entre nós se
conservam. Lisboa: A. J. Fernandes Lopes, 1865.
ÍNDICE REMISSIVO

A 114, 116, 194, 197, 201, 204, 206, 207,


Acaracú 31, 44, 53, 67, 72, 73, 74, 75, 77, 208, 217, 233, 239, 287, 293
79, 117, 120, 122, 166, 169, 176, 183, Carmelita 72, 73, 116, 207, 208, 209, 235
190, 191 carne de porco 133, 140, 143, 146, 156,
adivinhação ............................. 36, 37, 128 160
adultério ................................................ 46 Cascavel...................................... 22, 31, 75
Aldeia 12, 24, 25, 26, 27, 31, 32, 76, 81, catana ............................................ 116, 123
87, 90, 100, 166, 169, 170, 173, 178,
182, 194, 205, 207, 208, 209 Ch
Angola ............... 13, 97, 122, 123, 135, 155 chumbo ........................................ 131, 309
Aracati ........................................... 118, 211
armas.......................................... 14, 82, 99 C
comboeiro .................... 99, 246, 259, 263
B comboio ................................ 62, 259, 284
bebida ..........................200, 202, 206, 307 concubina .................. 37, 39, 48, 115, 291
bestialidade ........................ 25, 26, 42, 49 confissão 14, 21, 22, 37, 45, 50, 70, 72,
bigamia 12, 15, 16, 21, 38, 163, 166, 171, 117, 118, 119, 121, 124, 166, 233, 234,
176, 183, 184, 193, 214, 216, 239, 312, 235
315 contas de Cabo Verde ................... 14, 125
bolsa ................. 67, 79, 124, 125, 126, 127 corporal ......................... 124, 125, 126, 131
Branca Dias ......................................... 162 criar gados ...................110, 138, 159, 186
Crioula ......................... 288, 291, 297, 301
C Crioulo ................................................... 135
caboclo................................... 37, 306, 308 Cristã-nova .......................................... 116
cabra ......................... 47, 81, 192, 307, 312 cristão-novo 75, 81, 106, 113, 133, 137,
cachimbo ......................................... 29, 32 147
capitão 36, 51, 84, 85, 95, 183, 194, 202, cristão-velho ....... 32, 106, 110, 147, 293
206, 214, 311 curador ............................ 29, 33, 123, 307
Capuchinho ... 50, 87, 198, 200, 207, 208 curas .................................. 13, 15, 123, 307
Cariris 49, 70, 81, 84, 89, 92, 103, 104, curiboca ................................................. 50
105, 106, 107, 109, 110, 111, 112, 113,
318 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

D G
danças .................................................. 308 Gabriel de Malagrida 14, 88, 113, 115,
Demônio 27, 29, 33, 50, 87, 195, 197, 118
200, 224 Gentio ............................................ 122, 123
Desacatos ....................................... 59, 134
diabo ..................... 12, 23, 62, 70, 123, 125 H
Hábito de São Pedro ...................... 21, 22
E homem branco 38, 45, 107, 110, 114,
Éditos ..................................................... 86 150, 157, 164, 183, 187, 190, 217, 223,
Embusteiro ........................................... 306 227, 228, 229, 283, 284, 286, 287, 290,
engenho ........................62, 290, 294, 300 293, 296, 300, 312, 313
ervas .............................................226, 228 hóstia 14, 53, 70, 76, 82, 92, 93, 101, 106,
escrava 13, 37, 45, 119, 128, 134, 155, 183, 108, 110, 113, 115, 124, 125, 126, 127
185, 187, 188, 189, 191, 222, 225, 226,
228, 229, 230, 234, 235, 237, 284, 288, I
294, 297, 301, 312 Icó 15, 45, 49, 81, 82, 83, 86, 87, 89, 90,
escravo 11, 13, 21, 22, 25, 26, 37, 51, 81, 91, 93, 96, 97, 98, 99, 100, 102, 108,
97, 122, 123, 135, 137, 138, 139, 141, 163, 164, 165, 193, 194, 196, 197, 201,
143, 146, 151, 152, 153, 160, 184, 185, 202, 209, 214, 216, 217, 222, 223, 224,
187, 188, 189, 190, 224, 229, 230, 312 225, 226, 228, 230, 231, 313
índia 26, 27, 28, 30, 171, 188, 194, 206,
F 208
Fazenda de gados ............................... 235 índio 11, 28, 50, 76, 166, 168, 170, 171,
fechar o corpo..................................... 307 306
feitiçaria ................. 14, 70, 128, 222, 315
feiticeira .............................. 11, 27, 29, 33 J
feiticeiros .................. 27, 30, 33, 123, 222 Jaguaribe 13, 22, 23, 24, 36, 42, 43, 44,
forra 47, 128, 200, 222, 224, 225, 226, 49, 59, 62, 81, 87, 122, 123, 128, 133,
228, 229, 230 134, 138, 145, 146, 147, 157, 211, 235,
forro 13, 49, 85, 93, 122, 134, 136, 188, 237
189, 222, 224, 225, 226, 228, 229, 230 jesuíta ............... 12, 14, 21, 24, 26, 88, 190
Fortaleza 38, 180, 184, 185, 186, 192, judaísmo ......................................... 15, 165
315, 316 Judeu................................... 36, 77, 78, 212
furto ........................................ 82, 108, 115 judiarias ................................................. 65
Amanda Teixeira • 319

Juremas ................................................ 307 258, 260, 264, 266, 268, 272, 278, 281,
Juremas. ............................................... 307 284, 292, 294, 301, 303
Justo Juiz.............................................. 124 mulato ......................................... 11, 23, 81

L N
Lavouras .............................................. 223 negra .................... 197, 199, 206, 222, 281
língua ............... 11, 18, 26, 29, 30, 32, 315 negro 11, 22, 123, 143, 156, 160, 198, 222,
229, 281, 307, 309
M Nossa Senhora do Monsserrate ...... 124
malefícios 222, 223, 225, 226, 229, 230,
306 P
mamaluco 37, 42, 43, 50, 51, 179, 180, pacto ........... 23, 50, 51, 125, 223, 224, 229
306, 307 Palmares ................................................ 21
mameluco .............................................. 12 parda ....128, 133, 140, 146, 194, 202, 206
mandinga.................................. 13, 14, 122 pardo 25, 42, 46, 53, 54, 56, 67, 69, 77,
mandingueiro ..................................... 125 80, 138, 146, 151, 159, 194, 196, 198,
maracás................................................ 307 202, 206, 224, 237
Medicina ....................... 211, 308, 312, 313 partícula 70, 81, 88, 90, 91, 93, 97, 101,
meretriz 14, 81, 91, 97, 101, 106, 287, 108, 115, 131
291, 294, 301, 304 Patuá .................................................... 124
mestiça .................188, 195, 199, 201, 202 pedra d’ara ........................... 124, 125, 127
mestiço 13, 122, 125, 126, 127, 183, 187, Portugal 15, 36, 51, 56, 60, 163, 190, 193,
188 214, 314, 315, 316
Minas 81, 217, 244, 245, 255, 259, 263, proposição ................ 50, 51, 211, 311, 312
270, 284, 285, 287, 288, 291, 293, 294,
297, 300, 301, 303, 315 Q
missão ............ 51, 131, 197, 198, 200, 201 Quibando ................................. 36, 37, 128
Missionário 21, 50, 51, 87, 88, 89, 167,
170, 173, 174, 175, 177, 178, 179, 180, R
182, 185, 189, 190, 191, 194, 197, 200, raízes ............................................ 226, 228
201, 207, 208, 209 rapaduras ........................... 286, 290, 300
Moisés ............................. 32, 133, 151, 158 rezas ....................................................... 14
mulata 15, 133, 134, 235, 237, 239, 240, Riacho do Pires .................. 58, 69, 71, 79
241, 244, 245, 246, 247, 249, 251, 252, Riacho dos Feitosas ............................. 122
320 • Moradores do Ceará denunciados à Inquisição de Lisboa (1720 - 1802)

Riacho dos Porcos 81, 84, 90, 91, 93, 94, Sertão .... 59, 192, 246, 291, 304, 306, 315
96, 97, 100, 105, 106, 107, 108, 110, sigilo 14, 44, 47, 72, 73, 89, 117, 118, 120,
112, 115, 199, 284, 288, 298, 309 121
Ribeira do Pody .................................... 23 Sodomia ....................................... 11, 21, 23
Russas 42, 133, 134, 136, 138, 139, 142, solicitação .................................. 21, 22, 50
145, 146, 147, 149, 150, 153, 155, 157, superstições ............. 28, 30, 70, 306, 309
158, 159, 211, 232, 235, 237
T
S tabaco ............................................... 28, 33
São Cipriano ........................................ 124 tabajara ............................................. 11, 15
secas ....................................................... 71 Tapuia .......................... 23, 25, 37, 93, 270
Serra Beruoca .................... 306, 308, 309
Serra da Ibiapaba ........... 25, 27, 166, 167 V
Serra dos Cariris ........................ 194, 202 vaqueiro ...................................... 308, 309
Serra dos Cocos 53, 54, 56, 57, 58, 75,
126, 130, 175
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