Esperando na escotilha aberta, Obi-Wan balançou a cabeça.
— Honestamente, a maneira como você fala com essa coisa...
Anakin começou a ir em sua direção.
— Cuidado, Mestre, você vai ofender os sentimentos dele… — Ele
parou no meio do caminho, um olhar curioso em seu rosto, como se ele
tentasse franzir o cenho e sorrir ao mesmo tempo.
— Anakin?
Ele não respondeu. Ele não conseguiu responder. Ele estava
olhando para uma imagem dentro de sua cabeça. Não é uma imagem. A
realidade.
Uma memória de algo que ainda não havia acontecido.
Ele viu o Conde Dookan de joelhos. Ele viu sabres de luz cruzados
sobre a garganta do Conde.
Nuvens saíram de seu coração: nuvens de Jabiim, de Aargonar, de
Kamino, e até mesmo do campo Tusken. Pela primeira vez em muitos
anos, ele se sentiu jovem: jovem que ele realmente era.
Jovem, e livre… e cheio de luz.
— Mestre… — sua voz parecia estar vindo de outra pessoa.
Alguém que não tinha visto o que ele tinha visto. Não tinha feito o que
ele tinha feito. — Mestre, aqui… e agora... você e eu…
— Sim?
Ele piscou.
— Eu acho que estamos prestes a ganhar a guerra.
Pela vasta semiesfera da parede de observação, florescia a batalha.
Sensores e algoritmos sofisticados comprimiam o combate que se
espalhava pela órbita da capital galáctica, que a uma visão a olho nu,
poderia ser bonito: cruzadores a centenas de quilômetros de distância,
trocando tiros quase na velocidade da luz, pareciam estar praticamente
casco a casco, unidos por cabos de fogo pulsante. Tiros de turbo lasers
se tornavam sutis hastes de luz que se estilhaçam em lascas prismáticas
contra os escudos, ou floresciam em mini supernovas que engoliam
naves por inteiro. Nuvens de caças, que mais lembravam nuvens de
mosquitos, começaram uma dança brilhante ao final da breve primavera
de Coruscant.
Com aquela imensa curvatura de carnificina filtrada pelo
computador, a única mobília era a cadeira solitária, centrada em uma
imensidão de piso vazio. Aquilo era chamado de A Cadeira do General,
assim como o apartamento no topo do cone espiralado da nave era
chamado de Os Aposentos do General.
Com suas costas voltadas para cadeira e para o homem acorrentado
a ela, mãos atadas por debaixo de sua capa de seda, tecida como uma
armadura, estava Conde Dookan.
Darth Lorde Tyranus, Lorde dos Sith.
Ele olhava para o trabalho de seu Mestre, e estava bom.
Melhor que bom. Aquilo era magnífico.
Mesmo com o ocasional tremor do deck abaixo de suas botas,
enquanto toda a nave tremia devido aos torpedos inimigos e tiros de
turbolaser, aquilo merecia aplausos.
Atrás dele, um comunicador começou a emitir um som, que
crepitou em uma voz eletrônica, mas ao mesmo tempo estranhamente
expressiva: como se um homem falasse por meio de um droide gerador
de voz eletro-sônico.
— Lorde Tyranus, Kenobi e Skywalker chegaram.
— Sim. — Dookan sentiu ambos pela Força. — Os dirija até mim.
— Meu lorde, eu tenho que expressar mais uma vez minhas
objeções…
Dookan se virou, de sua altura imponente ele encarava a imagem
holográfica azul do comandante da Mão Invisível.
— Suas objeções já foram notadas, General. Deixe os Jedi comigo.
— Mas dirigi-los até você também os envia direto para onde está o
próprio Chanceler! Por que ele permanece na nave? Ele deveria estar
escondido. Ele devia estar sendo guardado. Nós devíamos o ter
mandando para longe do sistema há horas!
— Isso pouco importa, — disse Conde Dookan. — Porque Lorde
Sidious os deseja; então se você deseja prestar reclamações, sinta-se
livre para resolvê-las com ele.
— Eu, ah, não acho que isso será necessário…
— Muito bem então. Dirija seus esforços para evitar as tropas de
apoio de embarcarem. Sem seus clones de estimação para lhes darem
cobertura, nenhum Jedi é um perigo para mim.
O deck tremeu de novo, mais intenso, seguido por uma súbita
mudança no vetor do campo gravitacional artificial, o que levaria um
homem mais fraco a tropeçar; com a Força para manter a dignidade e
sua postura sólida, o efeito em Dookan ficou restrito em apenas levantar
uma sobrancelha.
— E eu devo sugerir que você devote certa atenção para a proteção
dessa nave? Destruí-la comigo e com você a bordo talvez seja um certo
empecilho em nossos esforços na guerra, você não acha?
— Já está sendo feito, meu lorde. Meu lorde deseja observar o
progresso dos Jedi? Eu posso alimentar os monitores de segurança
nesse canal.
— Obrigado, General. Isso será bem-vindo.
— Gracioso como sempre, meu lorde. Grievous desligando.
Conde Dookan se permitiu dar um sorriso quase invisível. Sua
cortesia inviolável, a marca de um verdadeiro aristocrata, não tinha
esforço nenhum, mesmo assim, de algum jeito, parecia impressionar
qualquer multidão de plebeus. Assim como impressionava aqueles com
o intelecto de um plebeu, independente das conquistas e posição: como
por exemplo, o ciborgue repulsivo do Grievous.
Ele suspirou. Grievous tinha sua utilidade; ele não só era um
habilidoso comandante de campo, como também logo serviria de ótimo
bode expiatório, o qual levará a culpa de todas as atrocidades dessa
triste, porém necessária guerra. Alguém tinha que ser culpado e
Grievous era a criatura certa para o trabalho. E certamente não seria
Dookan.
Esse era, de fato, um dos objetivos da batalha cataclísmica lá fora.
Mas não o único.
A imagem escaneada em azul diante dele, agora se transformavam
em miniaturas de Kenobi e Skywalker, da mesma maneira que ele já
havia os visto tantas vezes antes: ombro a ombro, sabres de luz girando
enquanto, entusiasticamente, destruíam droide após droide após droide.
Sentindo como se estivessem ganhando, enquanto, na verdade, eles
estavam sendo levados exatamente para onde os Senhores dos Sith
queriam que eles fossem.
Eles eram crianças. Dookan balançou a cabeça.
Era quase fácil demais.
Assim é Dookan, Darth Tyranus, Conde de Serenno:
Uma vez um grande Mestre Jedi, agora um ainda mais grandioso
Lorde dos Sith. Dookan era como uma escuridão colossal transpondo a
galáxia. Nêmesis da corrupta República, auriflama dos princípios da
Confederação dos Sistemas Independentes, ele era a própria
personificação do choque e temor.
Ele era um dos mais respeitados e poderosos Jedi nos vinte cinco
mil anos de história da Ordem, mesmo assim, na idade dos setenta anos,
os princípios de Dookan não o permitiam mais servir à República, cujo
poder político estava à venda para quem fizesse a proposta mais alta. Ele
se despediu de seus amigos mais próximos no Conselho Jedi, Mace
Windu e o ancestral Mestre Yoda; ele se despediu da Ordem Jedi por si
só.
Ele é um dos Perdidos: os Jedi que renunciaram sua fidelidade à
Ordem e se aposentaram de seus compromissos com a Cavalaria Jedi,
em serviço de ideais ainda mais altos do que aqueles professados pela
Ordem. Os Vinte Perdidos, como eles vêm sendo chamados desde que
Dookan se juntou ao número, são lembrados com muita honra e lamento
entre os Jedi; suas imagens, esculpidas em bronze, estavam consagradas
nos arquivos do Templo.
Aquelas imagens de bronze serviam como melancólicos lembretes
de que alguns Jedi tinham necessidades que a Ordem não podia
satisfazer.
Dookan tinha se retirado para a residência de sua família, no
sistema planetário de Serenno. Assumindo seu título hereditário como
Conde, o que fez dele um dos seres mais ricos da galáxia. Entre a
corrupção endêmica daqueles sem titulação, sua imensa fortuna poderia
trazer uma aliança entre quaisquer Senadores; ele podia, talvez, ter
comprado todo o controle da própria República.
Mas um homem com uma linhagem daquelas, tantos princípios,
nunca poderia se rebaixar a ser o lorde da lata de lixo, chefe de uma
horda de sucateiros discutindo sobre as sobras, a República, para ele,
não passava disso.
Em vez disso, ele usou o grandioso poder da fortuna de sua família-
e o poder de sua integridade inquestionável- para começar a limpeza na
galáxia daquilo que eles chamavam de democracia.
Ele era o ícone do movimento dos Separatistas, sua cara pública.
Ele é para a Confederação dos Sistemas Independentes o que Palpatine
era para a República: um símbolo vivo de justiça para a causa.
Esta é a história pública.
Esta é a história em que até Dookan, em seus momentos de
fraqueza, quase acredita.
A verdade é mais complicada.
Dookan é... diferente.
Ele não se lembra ao certo de quando descobriu isso; talvez quando
ele era apenas um jovem Padawan, traído por outro aprendiz que disse
ser seu amigo. Lorian Nod havia dito isso na sua cara: “Você não sabe o
que é uma amizade”.
E ele não sabia.
Ele estava com raiva, certamente; furioso que sua reputação havia
sido colocada em risco. E ele tinha raiva de si mesmo, por seus erros de
julgamento: confiar em um aliado que era, na verdade, seu inimigo. A
parte mais perturbadora de toda a relação tinha sido que, mesmo depois
de entregá-lo para os Jedi, o outro garoto esperava participar na mentira,
em nome de sua “amizade”.
Tinha sido tudo tão absurdo que ele não sabia como reagir.
De fato, ele nunca teve total certeza do que os seres queriam dizer
quando falavam de amizade. Amor, ódio, alegria, raiva—mesmo quando
ele podia sentir a energia daquelas emoções nos outros, elas traduziam,
em sua percepção, para outros tipos de sentimentos.
Isso meio que fazia sentido.
Inveja ele entendia, possessividade: ele era feroz quando qualquer
um usurpava o que era legitimamente dele.
Intolerância, uma dificuldade do universo, e das vidas
indisciplinadas dos seus habitantes: isso era seu estado normal.
Desprezo era uma recreação: ele tinha um prazer considerável pelo
sofrimento do inimigo.
Orgulho é uma virtude em um aristocrata, e indignação seu
irrefutável direito: quando alguém tinha a audácia de impugnar sua
integridade, sua honra, ou seu lugar legítimo no topo da hierarquia
natural de autoridade.
E ultraje moral fazia perfeito sentido para ele: quando as relações
incorrigíveis e desleixadas dos seres recusavam a se conformar com a
bem óbvia estrutura de Como a Sociedade Deve Agir.
Ele era inteiramente incapaz de se importar com o que qualquer
criatura poderia sentir por ele. Ele só se interessava pelo o que a criatura
poderia fazer por ele. Ou para ele.
Muito possivelmente, ele era o que era porque os outros seres não
eram muito… interessantes.
Ou mesmo, em um certo sentido, inteiramente reais.
Para Dookan, outros seres eram, em sua maioria, simples rascunhos
esquemáticos que se dividiam em duas características essenciais. A
primeira categoria era os Ativos: seres que podiam ser usados para servir
a seus diversos interesses. Como – pela maior parte de sua vida, e de
alguma forma, até a atualidade – os Jedi, particularmente Mace Windu e
Mestre Yoda, ambos haviam considerado serem seus amigos por tanto
tempo que estavam cegos quanto à verdadeira natureza de suas
atividades. E claro, agora a Federação do Comércio, e o Clã do Banco
Intergaláctico, a União Tecnológica, a Aliança Corporativa, e os lordes
das armas de Genosis. E mesmo a plebe da galáxia, que existia de forma
ampla para prover audiência de tamanho suficiente para fazer justiça a
sua grandeza.
A outra categoria eram as Ameaças. Nesse segundo set, ele contava
todo ser vivo que não se encaixava na primeira categoria.
Não havia uma terceira categoria.
Algum dia talvez não haja nem mesmo uma segunda; ser
considerado uma ameaça para Conde Dookan era uma sentença de
morte. Uma sentença de morte que ele planejava cumprir, por exemplo,
com seus atuais aliados: os líderes da Federação do Comércio, do Clã do
Banco Intergaláctico, da União Tecnológica, da Aliança Corporativa e
da armada de Genosis.
A traição é o caminho dos Sith.
Conde Dookan observava com desgosto clínico enquanto as
imagens azuladas escaneadas de Kenobi e Skywalker engajavam em
uma falsa perseguição, seguidos por droides destroiers e pods
propulsores, que atiravam para cima para baixo, e até mesmo para os
lados.
— Será uma vergonha ser capturado por ele. — disse de forma
devagar, meditativa, como se estivesse falando apenas consigo mesmo.
A voz que o respondeu era tão familiar, que às vezes seus próprios
pensamentos falavam daquela forma, em vez de sua própria voz.
— Com uma vergonha você pode sobreviver, Lorde Tyranus. Além
do mais, ele é o maior Jedi que já viveu, não é? E nós não nos
certificamos de que toda a galáxia dividisse essa opinião?
— Exatamente, meu Mestre. Isso mesmo. — Novamente, Dookan
suspirou. Hoje ele sentiu cada hora de seus oitenta e três anos. — É...
cansativo bancar o vilão por tanto tempo, Mestre. Estou ansioso por um
cativeiro honroso.
Um cativeiro que lhe permitiria passar o resto da guerra com
conforto; um cativeiro que permitiria que ele renegasse suas lealdades
anteriores – quando ele convenientemente apareceria para finalmente
descobrir a verdadeira extensão dos crimes dos Separatistas contra a
civilização – e se vincular ao novo governo, com sua reputação de
integridade e idealismo totalmente intacta.
O novo governo...
Esta tinha sido a estrela do destino por muitos anos.
Um governo limpo, puro, direto: nenhum desses bagunçados
emaranhados a favor de uma escória ignorante de criaturas sub-humanas
que fizeram a República ser tão desprezada. O governo que ele serviria
seria a personificação de Autoridade.
Autoridade humana.
Não era acidental que os primeiros poderes da Confederação dos
Sistemas Independentes eram os Neimoidianos, Skakoanos, Quarrenos e
Aqualishes, Muunnos e Gossamos, Sy Myrthiam e Koorivar e
Genosiano. Ao final da guerra, os alienígenas seriam massacrados,
tirados todas as suas posses, seus sistemas e suas fortunas seriam
entregues nas mãos dos únicos seres que seriam confiáveis com elas.
Seres Humanos.
Dookan serviria ao Império do Homem.
E ele serviria como se apenas ele pudesse. Como ele nasceu para
fazer. Ele iria esmagar a Ordem Jedi para criar uma nova; não uma
desmantelada pelos corruptos, narcisistas, mesquinhos pequenos seres
que se chamavam de políticos, mas livre para trazer a verdadeira
autoridade e paz para a galáxia, que precisava terrivelmente.
Uma Ordem que não iria negociar. Não iria mediar.
Uma Ordem que iria impor.
Os sobreviventes da Ordem Jedi virariam o Exército Sith.
O Punho do Império.
E aquele Punho se tornaria um poder além dos sonhos mais
sombrios de qualquer Jedi. Os Jedi não eram os únicos utilizadores da
Força na galáxia; de Hapes até Haruun Kal, de Kiffu até Dathomir,
poderosos usuários da Força humanos, e quase não-humanos, há tempos
se recusavam a entregar suas crianças para uma vida longa ligada à
servidão da Ordem Jedi. Eles não recusariam o Exército Sith.
Eles não teriam escolha.
Dookan franziu o cenho ao olhar para a imagem do holograma.
Kenobi e Skywalker estavam passando por uma situação engraçada em
outro elevador, provavelmente Grievous estava se divertindo com os
controles, enquanto os infelizes droides de batalha os seguiam.
Realmente, aquilo era tudo tão…
Indigno.
— Eu posso sugerir, Mestre, que demos a Kenobi uma última
chance? O apoio de um Jedi e sua integridade seriam inestimáveis ao
estabelecer a legitimidade política do nosso Império.
— Ah, sim. Kenobi. — A voz de seu Mestre saiu como seda. —
Você está interessado em Kenobi há muito tempo, não está?
— Claro. Seu Mestre era meu Padawan; em certo sentido, ele é
quase meu neto…
— Ele é muito velho. Muito doutrinado. Irreversivelmente
envenenado por fábulas Jedi. Estabelecemos isso em Geonosis, não
estabelecemos? Em sua mente, ele serve à própria Força; a realidade não
é nada em face de tal convicção.
Dookan suspirou. Ele deveria, supôs, não ter dificuldade com isso,
já tendo ordenado a morte do Mestre Jedi uma vez.
— É verdade, eu suponho; como somos afortunados por nunca ter
trabalhado sob tais ilusões.
— Kenobi deve morrer. Hoje. E pelas suas mãos. Sua morte deve
ser o código chave para a última fechadura que irá selar Skywalker para
nós, para sempre.
Dookan entendeu: não apenas a morte de seu mentor derrubaria o
equilíbrio emocional já instável de Skywalker na mais escura das
encostas, mas também removeria o maior obstáculo para a conversão
bem-sucedida de Skywalker. Enquanto Kenobi estivesse vivo, Skywalker
nunca estaria seguro no campo dos Sith; A fé inabalável de Kenobi nos
valores dos Jedi manteria a venda nos olhos de Skywalker e os grilhões
dos Jedi no verdadeiro poder.
Ainda assim, Dookan tinha algumas reservas. Tudo isso aconteceu
rápido demais; Sidious havia pensado em todas as implicações dessa
operação?
— Mas devo perguntar, meu Mestre: Skywalker é realmente o
homem que queremos?
— Ele é poderoso. Potencialmente mais poderoso do que eu
mesmo.
— O que é, precisamente, — Dookan disse pensativo. — por que
seria melhor se eu o matasse, em vez disso.
— Você está tão certo de que pode?
— Por favor. Qual o uso de se ter poder desinstruído pela
disciplina? O garoto é muito perigoso tanto para si próprio, tanto para
seus inimigos. E aquele braço mecânico... — Os lábios de Dookan se
curvaram com nojo cultivado. — Revoltante.
— Então talvez, você devesse poupar o braço de verdade dele.
— Hmp. Um cavalheiro teria aprendido a lutar com uma mão. —
Dookan deu um aceno de desprezo. — Ele não é mais totalmente
humano. Com Grievous, o uso desses dispositivos bio-droides é quase
perdoável; ele já era uma criatura tão nojenta que suas partes mecânicas
são claramente uma melhoria. Mas uma mistura de androide e humano?
Terrível. As profundezas do mau gosto. Como devemos justificar a
associação com ele?
— Quão sortudo eu sou… — A seda na voz de seu Mestre suavizou
ainda mais. — por ter um aprendiz que sente que é apropriado me dar
um sermão.
Dookan levantou uma sobrancelha.
— Eu me precipitei, meu Mestre. — Ele disse com sua graça
costumeira. — Eu estou somente fazendo uma observação, não
discutindo. Nem um pouco.
— O braço de Skywalker o faz, para nosso propósito, ainda melhor.
É o símbolo permanente dos sacrifícios que ele fez em nome da paz e da
justiça. É a bandeira do heroísmo que nós vamos usar como publicidade
pelo resto da vida dele; ninguém iria olhar para ele e duvidar de sua
honra, sua coragem, sua integridade. Ele é perfeito. Perfeito. A única
questão que ainda permanece é se ele é capaz de transcender das
limitações artificiais que os Jedi doutrinaram. E isso, meu Lorde Conde,
é precisamente o que a operação de hoje está designada a descobrir.
Dookan não poderia discutir. Não quando o Lorde Sombrio
introduziu Dookan para os reinos de poder além das mais espetaculares
fantasias, mas Sidious também era um político manipulador, tão sutil
que consideravam que suas habilidades até mesmo encolhiam os poderes
do próprio Lado Sombrio. Era dito que onde a Força fechasse uma
rachadura, abria-se um porto de observação… e cada ponto de
observação que tivesse sequer trincado nos últimos treze anos, tinha
encontrado um Lorde Sombrio dos Sith já na beirada, espiando,
calculando qual seria a melhor maneira de entrar sorrateiramente.
Melhorar o plano de seu Mestre era quase impossível; sua própria
ideia de substituir Kenobi por Skywalker, ele tinha que admitir, era fruto
de sua certa sentimentalidade fora do lugar. Skywalker era quase
certamente, o homem para esse serviço.
Ele devia ser; Darth Sidious tinha passado um número considerável
de anos cuidando para que fosse.
Hoje era o teste que iria remover o quase.
Ele não tinha dúvidas de que Skywalker iria cair. Dookan entendia
que ele não era mais que um teste para Skywalker, no entanto, Sidious
nunca tinha falado tão diretamente, e Dookan estava certo de que ele
mesmo estava sendo testado também. O sucesso de hoje iria mostrar a
seu Mestre que ele era digno de usar o manto de Mestre ele próprio: até
o final eminente daquela batalha, ele já teria iniciado Skywalker nas
artes gloriosas do lado sombrio, como Sidious o havia ensinado.
Ele não pensou no fracasso. Por que ele deveria?
— Mas… perdoe-me mestre. Mas, com Kenobi caindo pela minha
lâmina, você está certo de que Skywalker aceitará minhas ordens? Você
deve admitir que a biografia dele oferece pouca confiança de que ele é
realmente capaz de obedecer.
— O poder de Skywalker traz com ele mais do que mera
obediência. Traz criatividade, e sorte; nós nunca devemos nos preocupar
com aquele tipo de instrução que Grievous, por exemplo, precisava.
Mesmo os cegos tolos do Conselho Jedi conseguiam enxergar o
suficiente para entender isso: até mesmo eles já não tentavam mais dizer
para ele como fazer, eles mal diziam para ele o que fazer. E ele achou
um jeito. Ele sempre achava.
Dookan concordou com a cabeça. Pela primeira vez desde que
Sideous tinha revelado a verdadeira sutileza de sua obra de arte, Dookan
se permitiu relaxar o suficiente para imaginar o desfecho.
Com sua heroica captura de Conde Dookan, Anakin Skywalker se
tornaria o herói máximo: o maior herói da história da República, talvez
da própria Ordem Jedi. A perda de seu amado parceiro vai adicionar o
tempero de tragédia exato para colocar um peso melancólico a todas as
suas palavras, e quando ele der suas entrevistas para o HoloNet,
denunciando a corrupção do Senado como um dos fatores da guerra, e
quando ele delicadamente… oh, tão delicadamente, sem mencionar
relutantemente, insinuar que a corrupção na Ordem Jedi prolongou a
guerra também.
Quando ele anunciar a criação de uma nova ordem de guerreiros
usuários da Força.
Ele será o perfeito general comandante do Exército Sith.
Dookan só poderia balançar sua cabeça em admiração. E pensar
que há apenas alguns dias os Jedi pareciam tão perto de descobrir a
operação, destruindo tudo em que ele e seu Mestre tinham trabalhado.
Mas ele nunca deveria ter temido isso. Seu Mestre nunca perdia. Ele
nunca iria perder. Ele era a definição de imbatível.
Como alguém poderia derrotar um inimigo que achava que era um
amigo?
E agora, com um único brilhante golpe, seu Mestre iria tornar a
Ordem Jedi uns contra os outros, como ouro boros devorando seus
próprios rabos.
Esse era o dia. A hora.
A morte de Obi-Wan Kenobi iria ser a morte da República.
Hoje seria o nascimento do Império.
— Tyranus? Você está bem?
— Eu estou… — Dookan percebeu que seus olhos estavam
marejados. — Sim, meu Mestre. Eu estou muito mais que bem. Hoje, o
clímax, o “grand finale”, a culminação de décadas de trabalho… eu me
encontro de certa forma, emocionado.
— Se recomponha, Tyranus. Kenobi e Skywalker estão quase na
porta. Faça sua performance, meu aprendiz, e a galáxia será sua.
Dookan ajeitou sua postura e pela primeira vez, olhou para seu
Mestre nos olhos.
Darth Sidious, O Lorde Sombrio dos Sith, sentado na Cadeira do
General, algemado nos punhos e nos tornozelos.
— Obrigado, Chanceler. — Dookan fez uma reverência.
Palpatine de Naboo, Supremo Chanceler da República, respondeu:
— Retire-se. Eles estão aqui.
3: o Caminho dos Sith
O CAMINHO DOS SITH
A porta do elevador turbo se abriu. Anakin se pressionou contra a
parede, diversas partes de droides cortados pelo sabre cercando seus pés.
Em frente estava o que parecia ser um lobby de elevadores comum: pálido,
descoberto, vazio.
Conseguimos. Finalmente.
Todo o corpo de Anakin zumbiu em sintonia com sua lâmina
quente azul.
— Anakin.
Obi-Wan ficou contra a parede oposta. Ele parecia calmo de uma
maneira que Anakin mal conseguia compreender. Ele encarou de maneira
significativa o sabre de luz na mão de Anakin.
— Anakin, resgate, — ele disse suavemente. — Sem confusão.
Anakin manteve a arma exatamente onde estava.
— E Dookan?
— Quando o Chanceler estiver seguro, — Obi-Wan disse com um
sorriso discreto. — Poderemos explodir a nave.
Os dedos mecânicos de Anakin apertaram até o punho de seu sabre
de luz ranger.
— Eu prefiro usar minhas mãos.
Obi-Wan escorregou cautelosamente pela porta do turbo-elevador.
Ninguém atirou nele. Ele acenou.
— Eu sei que isso é difícil, Anakin. Sei que isso é pessoal para
você em vários níveis. Precisa tomar muito cuidado para se atentar ao seu
treinamento, e não apenas seu treinamento de combate.
Calor subiu às bochechas de Anakin.
— Eu não... — sou mais seu padawan, rosnou em sua mente, mas
era a adrenalina falando; engoliu as palavras e disse em vez disso. —... irei
decepcioná-lo, Mestre. Nem ao Chanceler.
— Não tenho dúvidas disso. Apenas lembre-se que Dookan não é
um mero Jedi Sombrio como aquela mulher Ventress; ele é um Lorde Sith.
Essa armadilha está prestes a se fechar, e pode haver mais perigo aqui do
que o meramente físico.
— Sim. — Anakin deixou que sua lâmina encolhesse e passou à
frente de Obi-Wan, entrando no lobby de elevadores turbo. Baques
distantes ressoaram pela nave e o chão balançou como uma balsa em um
rio caudaloso; ele mal percebeu. — Eu só... foram tantas coisas... não só o
que ele fez aos Jedi, mas à galáxia...
— Anakin... — Obi-Wan começou um aviso.
— Não se preocupe. Não estou com raiva, não quero vingança. —
Ele ergueu o sabre de luz. — Estou apenas ansioso para terminar isto.
— Antecipação...
— É uma distração. Eu sei. E sei que a esperança é tão vazia quanto
o medo. — Anakin se permitiu sorrir, apenas um pouco. — E eu sei todas
as outras coisas que você está morrendo de vontade de me dizer agora.
A reverência de reconhecimento levemente triste de Obi-Wan era
tão afetuosa quanto um abraço.
— Suponho que em algum momento eu eventualmente terei que
parar de tentar treinar você.
O sorriso de Anakin se alargou em uma risada suave.
— Acho que essa é a primeira vez que você admite isso.
Eles pararam em frente aos Aposentos do General: um gigantesco
pedaço oval de iridiite opalescente ornamentada com ouro. Anakin
encarou seu quase-reflexo fantasmagórico enquanto alcançava o interior da
sala com a Força, e permitia que a Força alcançasse dentro de si.
— Estou pronto, Mestre.
— Eu sei que está.
Eles pararam por um momento, lado a lado.
Anakin não olhou para ele; encarou pela porta, através dela,
buscando em suas profundidades cintilantes por qualquer sinal de um
futuro impossível de ser previsto.
Ele não conseguia imaginar não estar em guerra.
— Anakin. — a voz de Obi-Wan se tornou suave, e sua mão era
calorosa sobre o braço de Anakin. — Eu não preferiria ter nenhum outro
Jedi ao meu lado neste momento. Nenhum outro homem.
— Eu... também não gostaria que fosse de outro jeito, Mestre.
— Eu acredito — disse seu outrora mestre, com um gentil e
humorístico olhar de espanto pelas palavras que saíam de sua boca. — Que
você deveria se acostumar a me chamar de Obi-Wan.
— Obi-Wan, — Anakin disse. — Vamos buscar o Chanceler.
— Sim. — Obi-Wan respondeu. — Vamos.
Dentro de um elevador, Dookan assistia imagens holográficas de
Kenobi e Skywalker cautelosamente descendo as escadas curvas na sacada
de entrada do andar principal dos Aposentos do General, se movendo
lentamente para se manterem preparados contra os movimentos do
cruzador. A nave estremeceu e pulou com múltiplas explosões de torpedo,
e as luzes apagaram novamente; iluminação era sempre a primeira a falhar
quando a energia era desviada do suporte de vida para o controle de danos.
— Meu senhor — no comunicador interno da nave, Grievous soava
ativamente preocupado — Os danos a esta nave estão se tornando severos.
Trinta por cento dos sistemas de armas automatizadas estão inoperantes, e
logo não poderemos mais saltar para o hiperespaço.
Dookan meneou criteriosamente para si mesmo, franzindo a testa
para os espectros azuis translúcidos se aproximando de Palpatine.
— Anuncie a retirada para toda a força de ataque, General, e
prepare a nave para saltar. Quando os Jedi estiverem mortos, me juntarei a
você na ponte.
— Como meu senhor desejar. Grievous desligando.
— Isso mesmo, sua criatura vil. — Dookan murmurou para o
comunicador desligado — Sem sorte, e sem tempo.
Ele jogou o comunicador para o lado e ignorou seu tinido. Não via
mais utilidade para aquilo. Que fosse destruído junto à Grievous, aqueles
seus guarda-costas repulsivos, e o resto do cruzador, assim que ele tivesse
sido capturado com segurança e levado para longe.
Ele acenou para os dois enormes super droides de batalha ao seu
lado. Um abriu a porta do elevador e eles marcharam para fora, girando
para se posicionarem um de cada lado.
Dookan endireitou sua capa reforçada e caminhou a passos largos
adentrando o lobby de elevadores meio escuro. Na pálida luz de
emergência, a porta para os Aposentos do General ainda ardia onde os
dois idiotas campônios haviam cortado com sabres de luz; abrir caminho
pelo buraco arriscaria queimar suas calças. Dookan suspirou e gesticulou,
e os destroços opalescentes da porta silenciosamente deslizaram para fora
de seu caminho.
Ele certamente não pretendia enfrentar dois Jedi com suas calças
pegando fogo.
Anakin deslizou ao longo do amontoado de cadeiras de um lado da
imensa mesa de reuniões que dominava o centro da sala principal dos
Aposentos do General; Obi-Wan o imitou do lado oposto. Luzes
silenciosas brilharam e queimaram, a única iluminação provinha de um
janelão curvo do outro lado da sala, uma tempestade de tiros de turbolaser
e explosões antiaéreas e as supernovas em miniatura que eram as mortes
de naves inteiras.
Uma sombra rígida se destacava contra a carnificina ao fundo: a
silhueta de uma cadeira alta.
Anakin chamou a atenção de Obi-Wan do outro lado da mesa e
sinalizou em direção à figura escura à frente. Obi-Wan respondeu com o
sinal de mão Jedi que significava aproximar-se com cautela, e adicionou o
sinal para esteja pronto para ação.
A boca de Anakin se contraiu. Como se ele precisasse dessa ordem.
Depois de todo o problema que tiveram com os turbo elevadores, qualquer
coisa poderia estar aqui em cima agora. O lugar poderia estar cheio de
droidekas, pelo que sabiam.
As luzes voltaram.
Anakin congelou.
A figura escura na cadeira — era o Chanceler Palpatine, era sim, e
não haviam droides à vista, e seu coração deveria ter pulado dentro do
peito, mas...
Palpatine parecia mal.
O Chanceler parecia estar além de velho, parecia idoso da forma
como Yoda era idoso: possuidor de uma idade incompreensível. E parecia
cansado, e com dor. E pior...
Anakin viu na face do Chanceler algo que nunca sonhara encontrar
ali, e isso espremeu o ar de seus pulmões e apagou as palavras em seu
cérebro.
Palpatine parecia aterrorizado.
Anakin não sabia o que dizer. Não conseguia imaginar o que dizer.
Tudo que conseguia imaginar era o que Grievous e Dookan deveriam ter
feito para colocar medo no rosto desse homem corajoso e bondoso...
E essa imaginação acendeu um chiado em seu sangue que apertou
sua face e recomeçou o baixo trovoar em seu ouvido: o trovão de Aargonar.
De Jabiim.
Trovão do acampamento Tusken.
Se Obi-Wan foi atingido por alguma angústia similar, era invisível.
Com sua costumeira cortesia grave, o Mestre Jedi inclinou a cabeça.
— Chanceler, — ele disse, um cumprimento calmo e respeitoso
como se tivessem se encontrado por acidente no Grande Pátio do Senado
Galáctico.
A única resposta de Palpatine foi um curto murmúrio.
— Anakin, atrás de você...!
Anakin não se virou. Ele não precisava. Não era apenas a claque
dos saltos de bota e o tinido dos magnapods atravessando o limite da
sacada de entrada; a Força se reuniu dentro e ao redor dele em um aperto
firme como os punhos de um homem sobressaltado.
Na Força, ele podia sentir o foco dos olhos de Palpatine: a fonte do
medo que escorria dele como vapor sobre um bloco de ar congelado. E
podia sentir a onda de poder ainda mais fria, mais do que o gelo na boca
de um mynock, que deslizava pela sala atrás dele como uma adaga de gelo
em suas costas.
Engraçado, ele pensou. Depois de Ventress, de alguma forma eu
sempre espero que o lado sombrio seja quente...
Algo se destrancou em seu peito. O trovão em seus ouvidos
dissolveu em uma fumaça escura que se enrolou na base de sua espinha. O
sabre de luz encontrou sua mão, e seus lábios descobriram seus dentes em
um sorriso que até um dragão krayt teria reconhecido.
Aquele problema na fala que ele estava tendo desapareceu.
— Isso, — ele murmurou para Palpatine, e para si mesmo. — Não
é um problema.
A voz que falou da sacada de entrada era um baixo sublinhado com
uma ressonância oleosa, como um cavernhorn de carvalho kriin.
A voz do Conde Dookan.
— General Kenobi. Anakin Skywalker. Cavalheiros... um termo
que uso em seu sentido menos preciso... vocês são meus prisioneiros.
Agora Anakin não tinha mais nenhum problema.
A sacada proporcionava um ângulo apropriado- bem acima dos
Jedi, vendo-os de cima- para Dookan realizar suas últimas avaliações e
começar a farsa.
Como toda verdadeira farsa, o desfecho próximo seguiria com a
lógica sem remorso de sua premissa ridícula: a de que Dookan poderia ser
superado por meros Jedi. Qualquer Jedi. Era uma pena que seu velho
amigo Mace não pôde juntar-se a eles hoje; não tinha dúvidas de que o
mestre nativo de Korun apreciaria o show que estava por vir.
Dookan sempre preferiu uma plateia educada.
Pelo menos Palpatine estava presente, algemado à cadeira do outro
lado da sala, a batalha espacial preenchendo o janelão atrás dele como se
sua silhueta marcante abrisse grandes asas de guerra. Mas Palpatine era
mais autor do que plateia.
Coisas definitivamente distintas.
Skywalker mostrou a Dookan apenas as costas, mas sua lâmina já
estava exposta, sua figura alta e magra congelada com antecipação: tão
imóvel que ele quase parecia tremer. Patético. É um insulto chamar este
garoto de Jedi.
Agora, Kenobi- ele era algo completamente diferente: um clássico
de sua espécie obsoleta. Ele simplesmente ficou olhando calmamente para
Dookan e para os super droides de batalha que o flanqueavam, mãos
abertas, totalmente relaxado, apenas uma expressão de leve interesse em
sua face.
Dookan sentia uma certa satisfação melancólica – uma prazerosa
contemplação solitária de sua grandeza não reconhecida – pela breve
reflexão de que Skywalker jamais entenderia quanto pensamento e
planejamento, quanto trabalho, Lorde Sidious havia investido em
orquestrar precipitadamente sua falsa vitória. Tampouco entenderia a arte,
a verdadeira maestria que Dookan usaria em sua própria derrota.
Mas assim era a vida. Sacrifícios deveriam ser feitos, pelo bem
maior.
Afinal, havia uma guerra acontecendo.
Ele convocou a Força, reunindo-a para si e envolvendo-se nela. Ele
tomou fôlego e a manteve girando dentro de seu coração, apertando até
poder sentir a rotação da galáxia ao seu redor.
Até ele se tornar o eixo do Universo.
Esse era o verdadeiro poder do lado sombrio, o poder do qual havia
suspeitado desde que era menino, que havia buscado ao longo de sua vida
até que Darth Sidious mostrasse que o poder estava dentro dele esse tempo
todo. O lado sombrio não o levava ao centro do universo. Transformava-o
no centro do universo.
Ele atraiu poder ao seu mais ínfimo de seu ser, até que a Força
existisse apenas para servi-lo.
Agora a cena abaixo se alterou levemente, embora não houvesse
mudança ao olho físico. Empoderado pelo lado sombrio, a percepção de
Dookan tomou medida daqueles abaixo dele com precisão emocionante.
Kenobi era luminoso, um ser transparente, uma janela para uma
campina ensolarada da Força.
Skywalker era uma nuvem de tempestade, tremeluzindo com
relâmpagos perigosos, construindo a rotação que ameaça um tornado.
E então havia Palpatine, é claro: ele estava além do poder. Ele não
mostrava nada do que poderia ser por dentro. Embora fosse visto através
dos olhos do próprio lado sombrio, Palpatine era um horizonte de eventos.
Abaixo de sua superfície completamente comum, havia um perfeito e
absoluto nada. Escuridão além da escuridão.
Um buraco negro da Força.
E ele interpretou seu papel de refém indefeso com perfeição.
— Chamem ajuda! — o meio sussurro rouco beirando o pânico
pareceu real até mesmo para Dookan. — Precisam chamar ajuda. Nenhum
de vocês é páreo para um lorde Sith!
Anakin se virou, encontrando o olhar direto de Dookan pela
primeira vez desde o hangar abandonado em Geonosis. Sua resposta foi
claramente direcionada tanto a Dookan quanto a Palpatine.
— Diga isso ao Sith que Obi-Wan deixou em pedaços em Naboo.
Hm. Provocação vazia. Maul havia sido um animal. Um animal
habilidoso, mas ainda assim uma fera.
— Anakin... — através da Força, Dookan podia sentir a
desaprovação de Obi-Wan pela vanglória de Anakin; também podia sentir
como Obi-Wan se restringia sem esforço para se concentrar no problema
em questão. — Dessa vez, faremos isso juntos.
Os olhos afiados de Dookan perceberam a mão droide de Anakin
apertar com mais força o sabre de luz.
— Eu estava prestes a dizer exatamente isso.
Tudo bem, então. Hora de seguir em frente com esta pequena
comédia.
Dookan se inclinou para frente, sua capa revestida abrindo-se como
asas. Ele flutuou gentilmente pelo ar e desceu ao nível principal, usando a
Força para deslizar lenta e dignamente. Aterrissando na cabeceira da mesa
de reuniões, ele se dirigiu aos Jedi com uma sobrancelha levantada.
— Suas armas, por gentileza, cavalheiros. Não façamos disso uma
bagunça na frente do Chanceler.
Obi-Wan ergueu o sabre de luz na equilibrada guarda de duas mãos
de Ataro: o estilo de Qui-Gon, e de Yoda. Sua lâmina estalou ao surgir, e o
ar cheirava a relâmpago.
— Você não vai escapar de nós dessa vez, Dookan.
— Escapar? Por favor. — Dookan permitiu que seu leve sorriso
costumeiro se mostrasse. — Você acha que eu orquestrei toda essa
operação com a intenção de escapar? Eu poderia ter levado o Chanceler
para fora do sistema horas atrás. Mas tenho coisas melhores a fazer com
minha vida do que do que vigiá-lo enquanto espero sua tentativa de
resgate.
Skywalker aprontou o sabre de luz na postura Shien: a mão
metálica enluvada erguida próxima ao ombro, a lâmina apontando para
cima.
— Isso é um pouco mais do que uma tentativa.
— E um pouco menos do que um resgate.
Com um floreio, Dookan jogou sua capa por cima do ombro direito,
deixando livre o braço que manejava a espada, o qual usou para gesticular
ociosamente ao par de super droides de batalha que permaneciam na
sacada acima.
— Por favor, cavalheiros. Devo ordenar aos droides que abram
fogo? Tiros de blaster voando aleatoriamente sempre deixam uma bagunça.
Não representam perigo para nós três, é claro, mas eu certamente
detestaria que o Chanceler se machucasse.
Kenobi se moveu em direção a ele com uma graça lenta e hipnótica,
como se estivesse flutuando sobre uma placa repulsaria invisível.
— Porque é que eu acho difícil acreditar nisso?
Skywalker o imitou, aproximando-se de Dookan pelo lado.
— Você não pareceu se incomodar com derramamento de sangue
em Geonosis.
— Ah. — o sorriso de Dookan cresceu ainda mais. — E como está
a senadora Amidala?
— Não... — a tempestade que Skywalker era na Força ferveu com
poder repentino. — Nem mesmo diga o nome dela.
Dookan o ignorou. Os problemas pessoais do rapaz eram cansativos
demais para se acompanhar; ele já sabia até demais sobre a vida privada de
Skywalker.
— Não tenho más intenções contra o chanceler, garoto tolo. Ele não
é nem soldado nem espião, enquanto você e seu amigo são ambos. Não
passa de um infeliz acidente na história o fato de que ele tenha sido
escolhido para defender uma República corrupta contra meus esforços de
reforma-la.
— Você quer dizer destruí-la.
— O chanceler é um civil. Você e o general Kenobi, por outro lado,
são legítimos alvos militares. Depende de vocês se irão me acompanhar
como prisioneiros... — uma contração na Força trouxe o sabre de luz para
sua mão numa velocidade invisível, sua brilhante lâmina escarlate
apontando para baixo ao seu lado. — Ou como cadáveres.
— Ora, que coincidência. — Kenobi respondeu secamente
enquanto ia e vinha ao redor de Dookan para posicionar o conde
exatamente entre Skywalker e ele próprio. — Suas opções são as mesmas.
Dookan considerou um de cada vez com uma calma inexpugnável.
Levantou sua lâmina na postura Makashi e a abaixou novamente para uma
guarda baixa.
— Não assumam que têm alguma vantagem por haver dois de
vocês.
— Oh, nós sabemos. — disse Skywalker. — Porque há dois de
vocês.
Dookan mal conseguiu conter sua surpresa.
— Ou devo dizer que havia dois de vocês. — O jovem Jedi
continuou. — Sabemos sobre seu parceiro Sidious; nós o rastreamos por
toda a galáxia. Ele provavelmente está sob custódia dos Jedi nesse exato
momento.
— Está? — Dookan relaxou. Ele estava terrivelmente, terrivelmente
tentado a piscar para Palpatine, mas é claro que jamais faria isso. — Que
sorte a sua.
Bem simples, no fim das contas, ele pensou. Isolar Skywalker,
matar Kenobi. Depois disso, seria meramente uma questão de enfurecer
Skywalker o bastante para quebrar suas restrições Jedi e revelar perspectiva
infinita do poder Sith.
Lorde Sidious assumiria a partir daí.
— Renda-se. — a voz de Kenobi se tornou profunda com
finalidade. — Não terá outra chance.
Dookan levantou uma sobrancelha.
— A não ser que um de vocês esteja carregando Yoda no bolso,
penso que dificilmente precisarei.
A Força estalou entre eles e a nave chacoalhou e se desestabilizou
ao ser atingida por uma nova barragem de lasers turbo, e Dookan decidiu
que era chegada a hora. Ele lançou um falso olhar sob o ombro, uma
pequena distração para atrair o ataque...
E todos os três se moveram ao mesmo tempo.
A nave estremeceu e a fumaça vermelha se espalhou da espinha de
Anakin até seus braços e pernas e cabeça. Quando Dookan exibiu um leve
olhar de preocupação por cima do ombro, distraído por um meio segundo,
Anakin não conseguiu mais esperar.
Ele saltou, sabre de luz alinhado para matar.
Obi-Wan pulou do lado mais distante de Dookan em perfeita
coordenação... e os dois se encontraram no ar, pois o Lorde Sith já não
estava mais entre eles.
Anakin olhou para cima bem a tempo de ver o fundo da bota feita
de couro de rancor que Dookan usava quando ela o atingiu no rosto e o
deixou cambaleando em direção ao chão; ele usou a Força para se
endireitar sem esforço e aterrissar perfeitamente equilibrado para
novamente saltar em direção às chamas relampejantes, escarlate contra
azul-celeste, que surgiam no cruzar de sabres de luz conforme Dookan
afastava Obi-Wan numa sucessão de estocadas tecidas e florescentes que
desviavam a lâmina do Jedi quando ela tentava alcançar seu coração.
Anakin se lançou para a traseira de Dookan, e o Conde, meio
virado, gesticulou casualmente enquanto mantinha Obi-Wan sob controle
com um elegante aperto de uma mão só. Cadeiras pularam da mesa de
reuniões e rodopiaram em direção à cabeça de Anakin. Ele cortou a
primeira ao meio com desdém, mas a segunda pegou seus joelhos e a
terceira bateu em seu ombro e o derrubou.
Ele rosnou para si mesmo e usou a Força para puxar suas próprias
cadeiras... e então a própria mesa o atingiu e o empurrou em direção à
parede para esmagá-lo contra ela. O sabre de luz soltou-se de seus dedos
afrouxados e tiniu pela mesa até cair no chão do outro lado.
E Dookan mal parecia estar prestando atenção nele.
Preso, sem fôlego, meio atordoado, Anakin pensou: Se continuar
assim, eu vou me irritar.
Enquanto defletia sem esforço nenhum uma chuva de cortes
listrados de azul de Kenobi, Dookan sentiu a Força arremessando a mesa
para longe da parede e lançando-a violentamente em direção às suas costas
com velocidade surpreendente; ele quase não conseguiu pular alto o
bastante para girar por cima dela e evitar que sua coluna fosse esmagada.
— Ora, ora, — ele disse, rindo. — O garoto tem mesmo algum
poder, afinal.
Ao fim do giro ele caiu de pé em frente ao rapaz, que investia
precipitadamente, desarmado, logo atrás da mesa que havia jogado, já com
a face avermelhada.
— Eu sou o dobro do Jedi que eu era da última vez!
Ah, Dookan pensou. Um ego tão frágil. Sidious terá que ajudá-lo
quanto a isso. Mas até lá...
O punho da lâmina de Skywalker passou assobiando pelo ar até
encontrar sua mão em perfeita sincronia com um golpe em arco.
— Meus poderes duplicaram desde a última vez que nos
encontramos...
— Quão adorável para você. — Dookan desviou cuidadosamente,
golpeando a perna do garoto, mas a lâmina de Skywalker o cortou e ele
conseguiu trazê-la para trás de sua cabeça e impedir o golpe que Dookan
havia mirado na traseira de seu pescoço... mas sua investida desastrada o
colocou no caminho de Kenobi, então o mestre Jedi teve que saltar com a
Força por cima da cabeça de seu parceiro.
Diretamente na lâmina de Dookan, apontada para cima.
Kenobi golpeou a lâmina escarlate enquanto girava no ar e
novamente Dookan desviou, agora estando Kenobi no caminho de
Skywalker.
— Sinceramente, — Dookan disse. — Isso é patético.
Oh, mas eles certamente eram enérgicos, no entanto, pulando e
rodopiando, chovendo com golpes quase aleatórios, cortando cadeiras em
pedaços e as arremessando com a Força em todas as direções imagináveis,
enquanto Dookan continuou, com seu modo graciosamente metódico, a
desviar deles com tanta perfeição que era a única coisa que podia fazer
para se conter e não rir em voz alta.
Era uma simples questão de contrariar suas táticas, que eram
deprimentemente diretas; Skywalker era o veloz, sibilando aqui e lá como
um morcego-falcão sofrendo um espasmo- tentando uma variante Jedi do
jogo de bobinho para que pudessem atacá-lo dos dois lados- enquanto
Kenobi vinha com uma postura Shii-Cho calculada, cauteloso como um
droide lenhador, se movendo um passo de cada vez, cortando ângulos,
desajeitado, mas implacavelmente obstinado ao tentar forçar Dookan em
direção a um canto.
Ao passo que tudo que Dookan precisava fazer era deslizar de um
lado para o outro, e ocasionalmente saltar por cima de uma cabeça aqui e
ali, para poder lutar com um de cada vez ao invés de enfrentar os dois ao
mesmo tempo. Ele supôs que, se estivessem sem seu próprio ambiente,
poderiam se provar razoavelmente efetivos; estava claro que seu estilo fora
desenvolvido para lutar como uma equipe contra um grande número de
oponentes. Eles não estavam preparados para lutar juntos contra um único
usuário da Força, certamente não alguém poderoso como Dookan; ele, por
outro lado, sempre lutara sozinho. Era risivelmente fácil manter os Jedi
tropeçando e cambaleando e entrando na frente um do outro.
Eles nem mesmo compreendiam quão completamente ele dominava
o combate. Porque eles lutavam da forma como haviam sido treinados,
deixando para trás todo desejo e deixando que a Força fluísse através deles,
eles não tinham como contra-atacar a maestria das técnicas Sith de
Dookan. Não aprenderam nada desde que ele os derrotara em Geonosis.
Eles deixavam que a Força os direcionasse; Dookan direcionava a
Força.
Ele atraía seus ataques e os aparava, e direcionava suas réplicas
com impulsos do lado sombrio que sutilmente alteravam o equilíbrio dos
Jedi e atrapalhava sua sincronia. Ele poderia ter matado ambos tão
facilmente quanto aquela criatura, Maul, havia destruído os Vigos do Sol
Negro.
No entanto, havia apenas uma morte em seus planos, e essa
exibição de estupidez estava se tornando tediosa. E também cansativa. O
poder sombrio que o servia só iria até certo ponto, e ele não era um
homem jovem, afinal.
Ele se inclinou em um ataque dirigido ao estômago de Kenobi, que
o mestre Jedi defletiu com um bloqueio para cima, trazendo-os peito a
peito, lâminas cintilando, travadas juntas a um palmo das gargantas um do
outro.
— Seus movimentos são lentos demais, Kenobi. Previsíveis demais.
Terá que fazer melhor do que isso.
A resposta de Kenobi às palavras amigáveis foi olhar para ele com
um brilho de diversão gentil nos olhos.
— Muito bem, então. — o Jedi disse, e se lançou por cima da
cabeça de Dookan tão rápido que parecia ter desaparecido.
E no espaço onde o peito de Kenobi estivera havia agora apenas o
relâmpago azul da lâmina de Skywalker avançando diretamente ao coração
de Dookan.
Apenas um movimento de giro para o lado fez com o que seria um
buraco fumegante em seu peito se tornasse uma linha queimada através de
sua capa revestida.
Dookan pensou, O que?
Ele se jogou rodopiando para cima e para longe dos dois Jedi,
pousando na mesa de reuniões, deixando-os de lado por um instante para
recuperar sua compostura- eles estavam perto até demais- mas quando suas
botas tocaram a mesa, Kenobi estava lá para recebê-lo, tecendo a lâmina
numa velocidade defensiva tão desconcertantemente rápida que Dookan
nem sequer ousou tentar um ataque; ele fingiu um ataque na direção do
rosto de Kenobi, então se abaixou e girou numa rasteira...
Mas Kenobi não apenas pulou facilmente sobre seu ataque, como
Dookan também quase perdeu seu próprio pé para um golpe de Skywalker
que mais uma vez surgiu do nada e agora cortava pela mesa, fazendo-a
ceder com o peso de Dookan e abruptamente derrubando o Lorde Sith no
chão.
Isso não fazia parte do plano.
O golpe seguinte de Skywalker foi tão forte que o choque de se
defender lesionou os cotovelos de Dookan. O Lorde Sith se jogou rolando
para trás, ficando de pé- e a lâmina de Kenobi estava lá para encontrar seu
pescoço. Apenas um golpe-bloqueio giratório em um turbilhão
desesperado, combinado com um chute rodado que atingiu Kenobi na
coxa, ganhou para ele tempo o bastante para saltar para longe de novo, e
quando pousou...
Skywalker já estava lá.
O primeiro golpe direto da lâmina de Skywalker abaixou a guarda
instintiva de Dookan. O segundo dobrou o punho de Dookan. O terceiro
clarão azulado forçou a lâmina escarlate de Dookan para dentro a ponto de
queimar seu ombro com o próprio sabre de Luz, e Dookan foi forçado a
ceder território.
Dookan sentiu-se empalidecendo. De onde veio isso?
Skywalker veio, mecanicamente inexorável, impossivelmente
poderoso, um droide destroier com um sabre de luz: um golpe a cada passo
e um passo a cada golpe. Dookan recuou tão rápido quanto pôde;
Skywalker o acompanhou. A respiração de Dookan era curta e difícil. Ele
já não tentava mais bloquear os ataques de Skywalker, apenas guiá-los
para longe; ele não podia competir com Skywalker por força- o garoto não
apenas possuía reservas enormes de energia da Força, como seu poder
físico também era impressionante...
E só então Dookan percebeu que havia sido enganado.
A postura Shien pronta de Skywalker havia sido um engodo, assim
como suas acrobacias de Ataro; o estilo do rapaz era Djem So, e era um
dos melhores que Dookan já vira. Seu próprio elegante Makashi
simplesmente não gerava energia cinética o bastante para combater Djem
So cara a cara. Especialmente quando também precisa se defender de um
segundo atacante.
Era hora de alterar suas próprias táticas.
Ele se abaixou e girou em outra rasteira- a fraqueza do Djem So era
sua falta de mobilidade- que atingiu a bota de Skywalker bruscamente o
bastante para desequilibrar o jovem Jedi, dando a Dookan a oportunidade
de saltar para longe...
Apenas para encontrar-se novamente encarando a roda de
relâmpago azul que era a lâmina de Kenobi.
Dookan decidiu que a encenação havia acabado.
Agora era hora de matar.
O mestre de Obi-Wan havia sido Qui-Gon Jinn, o padawan do
próprio Dookan. Ele havia duelado com Qui-Gon inúmeras vezes, e
conhecia cada fraqueza da postura Ataro, com suas acrobacias ridículas.
Ele dirigiu uma série de ataques rápidos contra as pernas de Kenobi para
levar o mestre Jedi a pular por cima de sua cabeça para que Dookan
pudesse queimar sua espinha desde os rins até as omoplatas- e essa
imagem, esse plano, estava tão claro na mente de Dookan que ele quase
não percebeu Kenobi encontrando cada um de seus golpes sem sequer
mover seus pés, permanecendo perfeitamente centrado, perfeitamente
equilibrado, a lâmina jamais se movendo um milímetro além do
necessário, defletindo sem esforço, revidando com ataques cintilantes e
punhaladas mais suaves do que a língua de uma víbora fantasma garoliana,
e quando Dookan sentiu Skywalker se levantar e avançar mais uma vez
atrás de si, ele finalmente compreendeu de onde viera aquela cegante
velocidade defensiva que Kenobi usara um momento antes, e apenas então,
já tardio, ele percebeu que o Ataro e Shii-Cho de Kenobi também foram
enganações.
Kenobi havia se tornado um mestre do Serasu.
Dookan se encontrou tendo um súbito, inesperado, opressor e
completamente angustiante, mau pressentimento sobre isso...
Sua farsa havia subitamente, inexplicavelmente, mudado de
engraçada para mortalmente séria e estava prestes a se tornar assustadora.
A percepção de que os dois Jedi idiotas de alguma forma se tornaram
completamente perigosos cruzou a consciência de Dookan como as bolas
de fogo florescentes das naves perecendo do lado de fora.
Esses palhaços poderiam- apenas possivelmente- realmente
derrotá-lo.
Não fazia sentido se arriscar; até mesmo seu mestre concordaria
com isso. Seria mais fácil para Lorde Sidious criar um novo plano do que
um novo aprendiz.
Ele reuniu a Força uma vez mais em uma única inspiração que
invocou poder de todo o universo; a menor chicotada desse poder, tão
negligente quanto um agito de seu punho, mandou Kenobi voando para
trás para bater forte contra a parede, mas Dookan não teve tempo de
aproveitar.
Skywalker estava sobre ele.
O sabre de luz azul brilhante rodopiou e cuspiu e cada corte por
cima atingiu a defesa de Dookan com a força imparável da queda de um
meteoro; o Lorde Sith gastou generosamente suas reservas da Força apenas
para ir de encontro aos ataques sem ser cortado ao meio, e Skywalker...
Skywalker estava ficando mais forte.
Cada esquiva custava mais poder de Dookan do que ele havia usado
para arremessar Kenobi pela sala; cada bloqueio o envelhecia uma década.
Ele decidiu revisar sua estratégia mais uma vez.
Ele já nem mesmo tentava contra-atacar. A exaustão da Força
começou a fechar suas percepções, trazendo sua consciência de volta para
sua forma física, deixando-o preso em seu próprio crânio, até que ele mal
podia sentir os contornos da sala ao redor de si; ele sentia de forma turva
as escadas atrás dele, escadas que levavam à sacada da entrada. Ele recuou
por elas, usando o terreno mais alto como vantagem, mas Skywalker
continuava avançando, incansavelmente feroz.
Aquela lâmina azul estava em todo lugar, brilhando e girando cada
vez mais rápido até Dookan enxergar a sala por uma neblina de
eletricidade, e agora Kenobi estava de volta: com um grito da Força, ele
subiu as escadas como um torpedo atrás de Skywalker, e Dookan decidiu
que sob circunstâncias tão extremas, era permissível que um cavalheiro
trapaceasse.
— Guardas! — ele chamou o par de super droides de batalha que
estavam atentos de cada lado da entrada — Atirem.
Instantaneamente os dois droides avançaram e levantaram suas
mãos. Energia saiu dos blasters pesados acoplados a seus braços;
Skywalker rodopiou e sua lâmina refletiu cada tiro de voltar aos droides,
cuja carapaça polida como um espelho defletiu os raios novamente. Feixes
de partículas galvenadas chiaram pela sala em ricochetes cegantes.
Kenobi chegou ao topo das escadas e um único golpe de seu sabre
de luz desmontou ambos os droides. Antes que seus pedaços pudessem
sequer chegar ao chão, Dookan já estava em movimento, pousando com
um golpe giratório que dobrou Skywalker ao meio; ele usou seu último
impulso de poder sombrio para continuar o giro em um chute rodado
ofuscantemente rápido que trouxe seu calcanhar de encontro ao queixo de
Kenobi com um crack semelhante ao coice de uma grande arma de
projétil, enviando o Jedi a descer novamente as escadas. Parecia ter
quebrado seu pescoço.
Isso não seria adorável?
Não fazia sentido se arriscar, de qualquer forma.
Enquanto o corpo de Kenobi continuava caindo em direção ao chão
abaixo, Dookan enviou um surto de energia através da Força. A queda de
Kenobi foi subitamente acelerada como um míssil queimando seus últimos
drives antes do impacto. O mestre Jedi atingiu o chão num ângulo
inclinado, escorregou por ele e bateu na parede com tanta força que o
permacreto diluído em espuma dobrou e caiu sobre ele.
Isso Dookan achou extremamente gratificante.
Agora, quanto a Skywalker...
E isso foi o máximo que Dookan conseguiu, porque quando sua
atenção retornou ao Jedi mais novo, sua visão foi completamente obstruída
pela sola de uma bota aproximando-se de sua face com algo semelhante a
velocidade terminal.
O impacto foi como uma explosão de fogo branco, e houve um
segundo impacto contra suas costas que era o corrimão da sacada, e então
a sala virou de cabeça pra baixo e ele caiu em direção ao teto, mas não de
verdade, claro: apenas pareceu desse jeito porque ele caiu sobre o
corrimão, direto de cabeça no chão, e nem seus braços ou pernas
prestavam atenção ao que ele lhes mandava fazer. A Força parecia estar
ocupada em todo lugar, e realmente, todo o processo era totalmente
mortificante.
Ele mal conseguiu invocar um último surto de poder sombrio antes
do que seria um impacto incapacitante. A Força o embalou, amortecendo
sua queda e o deixando de pé.
Ele se espanou e cravou um olhar desdenhoso em Skywalker, que
agora olhava para ele de cima da sacada – e Dookan não conseguiu
continuar o encarando; ele achava essa reversão de suas posições originais
estranhamente desconcertante.
Havia algo perturbadoramente apropriado sobre isso.
Ver Skywalker no lugar onde o próprio Dookan havia estado apenas
alguns momentos atrás... era como se estivesse tentando lembrar de um
sonho que na verdade nunca teve...
Ele deixou isso de lado, repousando mais uma vez no conhecimento
certo de sua invencibilidade pessoal para abrir um canal para a Força.
Poder fluiu por ele, e o peso de sua idade desapareceu.
Ele ergueu sua lâmina, e acenou.
Skywalker pulou da sacada. Enquanto o garoto se precipitava para
baixo, Dookan sentiu uma nova mudança nos cursos da Força entre eles, e
finalmente entendeu.
Ele entendeu como Skywalker estava se tornando mais forte. O
motivo de ele ter parado de falar. Como havia se tornado uma máquina de
batalha. Ele entendeu porque Sidious se interessou nele por tanto tempo.
Skywalker era um natural.
Havia uma fornalha termonuclear onde seu coração deveria estar, e
ela queimava através das barreiras de seu treinamento Jedi. Ele segurava a
Força no aperto de um punho ardente e brilhante. Ele já era metade Sith, e
nem mesmo sabia disso.
Esse garoto tinha o dom da fúria.
E mesmo agora, ele estava se segurando; mesmo agora, pousando
ao lado de Dookan e chovendo golpes contra as defesas do Lorde Sith,
mesmo ao empurrar Dookan para trás um passo após o outro, Dookan
podia sentir como Skywalker mantinha sua fúria guardada atrás de muros
de força de vontade: muros que eram endurecidos por um pavor
incontrolável.
Pavor, Dookan presumiu, de si mesmo. Ou do que poderia
acontecer se ele permitisse que aquela fornalha que ele usava no lugar do
coração chegasse a condições críticas.
Dookan desviou de um golpe vindo de cima e se afastou.
— Eu sinto grande medo em você. Consumindo-te. Herói Sem
Medo, de fato. Você é uma fraude, Skywalker. Não passa de uma criança
querendo impressionar.
Ele apontou seu sabre de luz para o jovem Jedi como um dedo
acusador.
— Não está um pouco velho demais para ter medo do escuro?
Skywalker saltou na direção dele novamente, e essa vez Dookan
conteve o avanço do rapaz com facilidade. Eles estavam quase cara a cara,
lâminas cintilando mais rápido do que os olhos podiam ver, mas
Skywalker havia perdido sua vantagem: uma simples provocação bastou
para mudar o foco de sua atenção, antes em ganhar a luta e agora em
controlar suas emoções. Quanto mais irritado ficava, mais medo tinha, e o
medo alimentava sua raiva em retribuição; como o multípede proverbial
coreliano, agora que tinha começado a pensar sobre o que estava fazendo,
não conseguia mais andar.
Dookan se permitiu relaxar; ele sentiu aquele espírito brincalhão
retornando a ele mais uma vez enquanto ele e Skywalker giravam ao redor
um do outro em uma dança letal.
Então Sidious, por algum motivo, decidiu interferir.
— Não tema o que está sentindo, Anakin, use isso! — ele vociferou
na voz de Palpatine. — Invoque sua fúria. Concentre-a, ele não conseguirá
se opor a você. Raiva é a sua arma. Ataque agora! Ataque! Mate-o!
Dookan pensou, sem expressão, me matar?
Ele e Skywalker pausaram por um único instante final, lâminas
travadas juntas, encarando um ao outro através do cruzamento escaldante
de escarlate contra azul, e naquele momento Dookan se perguntava,
espantado e perplexo, se Sidious de repente havia enlouquecido. Será que
ele não entendia o conselho que acabara de dar?
De que lado ele estava, afinal?
E através das lâminas cruzadas ele viu nos olhos de Skywalker a
promessa do inferno, e sentiu um pressentimento doentio de que já sabia a
resposta para essa pergunta.
Traição era o caminho dos Sith.
4: Armadilha Jedi
ARMADILHA JEDI
Esta é a morte do Conde Dookan.
Uma explosão estelar de clareza floresce na mente de Anakin
Skywalker quando ele diz para si mesmo: Oh. Agora eu entendo, e
descobre que o medo em seu coração pode ser uma arma também.
É simples assim, e complexo assim.
E é o final.
Dookan já está morto. O resto é mero detalhe.
A encenação continua; a comédia dos sabres de luz brilhando e
colidindo e sibilando. Dookan & Skywalker, uma performance única,
para uma audiência de apenas uma pessoa. Jedi e Sith e Sith e Jedi,
girando, rodopiando, caindo juntos, cortando e fatiando, esquivando,
prendendo, escorregando e chicoteando e rasgando o ar ao redor deles
com rosnados de poder.
E tudo por nada, porque uma chama nuclear consumiu as restrições
Jedi de Anakin Skywalker, e o medo se torna fúria sem esforço, e fúria é
a lâmina que transforma seu sabre de luz em um brinquedo.
A encenação continua, mas o suspense já se foi. Tornou-se uma
mera pantomima, tão complexa e insignificante quanto as curvas do
espaço-tempo que guiam aglomerados galácticos através de um cosmos
imensurável.
As décadas de experiência em combate de Dookan são irrelevantes.
Sua maestria na esgrima é inútil. Sua vasta fortuna, sua influência
política, criação impecável, conduta impecável, gosto extraordinário –
todas as buscas e pontos de orgulho aos quais devotou tanto de seu
tempo e atenção ao longo dos muitos e muitos anos de sua vida – são
agora correntes pendendo de seu espírito, curvando seu pescoço perante
o machado.
Até mesmo seu conhecimento sobre a Força se tornou uma piada.
É esse conhecimento que mostra a ele sua morte, faz com que ele
lide com ela, manipule-a de vários modos em sua mente, examine-a
minuciosamente como uma pedra preciosa negra tão fria que queima. A
farsa elegante de Dookan se degenerou até se tornar um melodrama
anticlimático, e nenhuma lágrima derramada irá marcar a morte de seu
herói.
Mas para Anakin, na luta há apenas terror, e raiva.
Somente ele se colocaria entre a morte e os dois homens que mais
ama em todo o mundo, e ele não podia mais se dar ao luxo de se conter.
Aquele dragão de uma estrela morta dá seu melhor para tentar congelar
suas forças, sussurrando para ele que Dookan já o derrotou antes, que
Dookan possui todo o poder da escuridão, para lembrá-lo de que
Dookan lhe tirou sua mão, como Dookan conseguiu derrubar até mesmo
o próprio Obi-Wan aparentemente sem esforço e agora Anakin está
completamente sozinho e nunca será páreo para nenhum Lorde Sith...
Mas as palavras de Palpatine, raiva é a sua arma, deram a Anakin
permissão para abrir a proteção ao redor do seu coração de fornalha, e
todos os seus medos e dúvidas encolhem em sua chama.
Quando o Conde Dookan voa até ele, a lâmina cintilando, o punho
de Watto saindo diretamente da infância de Anakin para acertar o Lorde
Sith e o mandar cambaleando para trás.
Quando com todo o poder que o lado sombrio consegue extrair do
universo, Dookan arremessa um fragmento da mesa metálica, o
murmúrio gentil de Shmi Skywalker dizendo Eu sabia que você viria
por mim, Anakin quebra-a de lado.
Sua cabeça esteve cheia da fumaça de seu coração sufocado por
tempo demais; isso tem sido o trovão que escurece sua mente. Em
Aargonar, em Jabiim, no assentamento Tusken em Tatooine, aquela
fumaça havia obscurecido sua mente, deixando-o cego e debatendo-se
na escuridão, uma máquina mortífera irracional; mas aqui, agora, dentro
desta nave, essa célula microscópica de vida no infinito deserto estéril do
espaço, suas paredes guarda-fogo se abriram para que o terror e a raiva
ficassem do lado de fora, na batalha ao invés de na sua cabeça, e a
mente de Anakin está tão clara quanto um sino de cristal.
Nessa clareza pura, há apenas uma coisa que ele deve fazer.
Decidir.
Então ele decide.
Ele decide vencer.
Ele decide que Dookan deve perder a mesma mão que ele tomou.
Decisão é realidade, aqui: sua lâmina se move simultaneamente com sua
vontade e a chama azul vaporiza a nano-seda preta coreliana e
desintegra carne e corta osso, e lá se vai a mão de sabre de luz do Lorde
Sith, uma trilha de fumaça cheirando a carne carbonizada e cabelo
queimado. A mão cai com uma barra de chamas escarlate ainda se
estendendo de seu aperto mortal espástico, e o coração de Anakin canta
pela queda da lâmina vermelha.
Ele alcança e a Força o pega para ele.
E então Anakin toma a outra mão de Dookan também.
Dookan se dobra de joelhos, rosto sem expressão, boquiaberto, e
sua arma rodopia pelo ar para a mão do vencedor, e Anakin vê sua visão
do futuro se concretizando diante de seus olhos: duas lâminas na
garganta de Dookan.
Mas aqui, agora, a verdade desmente o sonho. Ambos os sabres de
luz estão em suas mãos, e o sabre em sua mão de carne queima com o
brilho sangrento sintético da lâmina.
Dookan, aninhado, encolhendo aterrorizado, ainda encontra alguma
esperança em seu coração de que ele se enganou, de que Palpatine não o
traiu, que tudo está acontecendo de acordo com o plano...
Até que ele escuta:
— Ótimo, Anakin! Ótimo! Eu sabia que você conseguiria! — e
compreende que essa é a voz de Palpatine e sente na mais escura
profundidade de seu ser as palavras que virão em seguida.
— Mate-o. — Palpatine diz — Mate-o agora.
Nos olhos de Skywalker ele vê apenas chamas.
— Chanceler, por favor! — ele arqueja, desesperado e indefeso, sua
postura aristocrática invisível, sua coragem apenas uma memória
amarga. Ele é reduzido a implorar por sua vida, como muitas de suas
vítimas já fizeram.
— Por favor, você me prometeu imunidade! Nós tínhamos um
acordo! Ajude-me!
E sua súplica dá a ele a mesma misericórdia que ele já concedeu.
— O acordo aconteceria se você me libertasse, — Palpatine
respondeu, frio como o espaço intergaláctico — Não se me usasse como
isca para matar meus amigos.
E ele sabe, então, que tudo realmente está acontecendo de acordo
com o plano. O plano de Sidious, não o seu. Era de fato uma armadilha
Jedi, mas os Jedi não eram a presa.
Eles eram a isca.
— Anakin, — Palpatine diz com calma — Acabe com ele.
Anos de treinamento Jedi fazem Anakin hesitar; ele olha para
baixo, vendo Dookan não como um Lorde Sith, mas como um homem
velho, derrotado, quebrado, encolhido.
— Eu não deveria...
Mas quando Palpatine ladra:
— Faça! Agora!
Anakin percebe que na verdade isso não é uma ordem. Na verdade,
é justamente aquilo pelo qual ele esperou durante sua vida inteira.
Permissão.
E Dookan...
Enquanto ele olha nos olhos de Anakin Skywalker pela última vez,
o Conde Dookan sabe que vinha sendo enganado não apenas hoje, mas
por muitos, muitos anos. Que ele nunca foi o verdadeiro aprendiz. Que
ele nunca foi o herdeiro do poder dos Sith. Ele era apenas uma
ferramenta.
Sua vida inteira – todas as suas vitórias, todos os seus conflitos,
toda a sua herança, todos os seus princípios e sacrifícios, tudo que ele
fez, tudo que ele possui, tudo que ele tem sido, todos os seus sonhos e
sua grandiosa visão para o futuro Império e Exército dos Sith – foram
apenas uma farsa patética, porque todos eles, todo ele, levam apenas a
isso.
Ele existiu apenas para isso.
Isso.
Para ser a vítima do primeiro assassinato a sangue frio de Anakin
Skywalker.
O primeiro, mas ele sabe que não será o último.
Então as lâminas se cruzam em sua garganta como uma tesoura.
Snip.
E tudo dele se torna absolutamente nada.
Assassino e vítima se encaram cegamente.
Mas apenas o assassino piscou.
Eu fiz isso.
O olhar da cabeça decepada estava fixado em algo além da visão
dos vivos. O apelo desesperado, congelado em seus lábios ecoou em
silêncio.
O torso sem cabeça cedeu com um suspiro lentamente
desaparecendo do buraco cauterizado em sua traqueia, dobrando-se para
frente pela cintura como se fizesse uma reverência ao poder que lhe
arrancara sua vida.
O assassino piscou mais uma vez.
Quem sou eu?
Era ele o menino escravo num planeta deserto, valorizado por seu
dom fantástico com máquinas? Era ele o lendário corredor de pods, o
único humano a sobreviver àquele esporte fatal? Era ele estudante
indisciplinado, espirituoso, propenso a causar problemas, de um grande
mestre Jedi? O piloto estelar? O herói? O amante? O Jedi?
Poderia ele ser todas essas coisas — qualquer uma delas — e ainda
ter feito o que fez?
Ele já descobria a resposta ao mesmo tempo em que finalmente
percebia que ele precisava fazer a pergunta.
O convés chacoalhou quando a nave absorveu mais fogo pesado dos
torpedos e turbolasers. A cabeça decepada de Dookan o encarava
enquanto balançava pela sala e rolava para longe, e Anakin acordou.
— O que...?
Ele estivera sonhando. Estivera voando, e lutando, e lutando
novamente, e de alguma forma, no sonho, ele podia fazer o que quisesse.
No sonho, tudo que ele fazia era o correto simplesmente porque ele
queria. No sonho não havia regras, apenas poder.
E esse poder era dele.
Agora ele estava diante de um cadáver sem cabeça que ele não
suportava mais ver, mas não conseguia desviar o olhar, e ele sabia que
não havia sido sonho nenhum, que ele realmente havia feito isso, as
lâminas ainda estavam em suas mãos e o mar de erros no qual ele havia
mergulhado se fechou sobre sua cabeça.
E ele estava se afogando.
O sabre de luz do morto despencou de seus dedos agora frouxos.
— Eu... eu não consegui me conter...
E antes que as palavras deixassem seus lábios ele percebeu quão
óbvia e vazia era a mentira.
— Você fez bem, Anakin. — a voz de Palpatine era calorosa como
um braço ao redor dos ombros de Anakin — Não apenas fez bem, mas
fez o certo. Ele era perigoso demais para sair daqui vivo.
Vindo do Chanceler parecia ser verdade, mas quando Anakin
repetiu em sua mente ele soube que a verdade de Palpatine era uma que
ele jamais poderia se fazer acreditar. Um tremor começou entre suas
omoplatas e ameaçava se expandir até se tornar um caso completo de
tremedeiras.
— Ele era um prisioneiro desarmado...
Agora isso — esse simples fato insuportável — isso era verdade.
Embora o queimasse como seu próprio sabre de luz, a verdade era algo a
que ele podia se apegar. E de alguma forma isso fez com que ele se
sentisse um pouco melhor. Um pouco mais forte. Ele tentou outra
verdade: não que ele não conseguiu se conter, mas que...
— Eu não deveria ter feito isso, — ele disse, e agora sua voz era
sólida, simples e derradeira. Agora ele conseguia olhar para o cadáver a
seus pés. Conseguia olhar para a cabeça decepada.
Conseguia vê-los pelo que realmente eram.
Um crime.
Ele havia se tornado um criminoso de guerra.
A culpa o atingiu como um punho. Ele sentiu — um soco em seu
coração que arrancou o fôlego de seus pulmões e dobrou seus joelhos.
Pendia sobre seus ombros como um jugo feito de collapsium: um peso
invisível que superava sua força de mortal, esmagando sua vida.
Ele não tinha palavras para isso. Tudo que ele conseguiu dizer foi:
— Foi errado.
E isso foi o resumo de tudo, bem ali.
Foi errado.
— Absurdo. Desarmá-lo não adiantaria nada; ele tinha poderes
além da sua imaginação.
Anakin balançou a cabeça.
— Isso não importa. O caminho Jedi não é assim.
A nave chacoalhou de novo, e as luzes apagaram.
— Você já percebeu que o caminho Jedi, — Palpatine disse, agora
invisível sob a sombra distinta da cadeira do General — nem sempre é o
caminho certo?
Anakin encarou a sombra.
— Você não entende. Não é um Jedi. Não consegue entender.
— Anakin, me escute. Quantas vidas você acabou de salvar com
esse golpe de sabre de luz? Consegue contá-las?
— Mas...
— Não foi errado, Anakin. Pode não ser o caminho Jedi, mas foi o
correto. Perfeitamente natural: ele tomou sua mão; você quis vingança.
E através da vingança você fez justiça.
— Vingança nunca é justa. Não pode ser...
— Não seja infantil, Anakin. Vingança é a base da justiça. Justiça
começou como vingança, e vingança ainda é a única justiça que muitos
podem esperar. Afinal, essa dificilmente é a sua primeira vez. Por acaso
Dookan merecia mais misericórdia do que o Povo da Areia que torturou
sua mãe até a morte?
— Aquilo foi diferente.
No assentamento Tusken ele tinha perdido a cabeça; havia se
tornado uma força da natureza, imparcial, matando com tanta intenção
ou reflexão quanto um vendaval de areia. Os Tuskens foram mortos,
aniquilados, massacrados...
Mas aquilo tinha estado além de seu controle, e para ele agora era
como se outra pessoa tivesse feito tudo aquilo: como se tivesse ouvido
uma história sem relação alguma com ele.
Mas Dookan...
Dookan foi assassinado.
Por ele.
De propósito.
Aqui nos aposentos do General, ele havia olhado nos olhos de um
ser vivo e friamente decidido acabar com aquela vida. Ele poderia ter
escolhido o caminho certo. Poderia ter escolhido o caminho Jedi.
Mas ao invés disso...
Ele encarou a cabeça decepada de Dookan.
Ele jamais poderia desfazer essa escolha. Jamais poderia tomá-la de
volta. Como mestre Windu costumava dizer, não existe segunda chance.
E ele nem mesmo tinha certeza de que queria uma.
Ele não podia se permitir pensar nisso. Assim como não se permitiu
pensar sobre os mortos em Tatooine. Ele esfregou os olhos, tentando se
livrar da lembrança.
— Você prometeu que nunca mais falaríamos disso.
— E não iremos. Assim como jamais falaremos sobre o que
aconteceu aqui hoje. — era como se a própria sombra falasse,
gentilmente — Eu sempre guardei seus segredos, não é mesmo?
— Sim... sim, é claro, Chanceler, mas... — Anakin queria rastejar
para um canto qualquer; estava certo de que se as coisas pudessem parar
por um tempo, uma hora ou um minuto que fosse, então ele conseguiria
se recompor e achar uma maneira de continuar seguindo em frente. Ele
precisava seguir em frente. Seguir em frente é a única coisa que ele pode
fazer.
Principalmente quando não suportava olhar para trás.
O janelão atrás da cadeira do General floresceu com espirais iônicas
de mísseis se aproximando. O chacoalhar da nave se tornou um tremor
contínuo, reunindo magnitude a cada golpe.
— Anakin, minhas algemas, por favor, — disse a sombra — Temo
que esta nave esteja desabando. Acho que não devemos estar a bordo
quando acontecer.
Na Força, as assinaturas de campo das travas magnéticas nas
algemas do Chanceler eram tão claras quanto um texto dizendo ME
DESTRAVE DESSE JEITO; uma simples torção na mente de Anakin as
abriu. A sombra ganhou uma cabeça, e ombros, e então sofreu uma
mitose repentina que deixou a cadeira do General para trás e
transformou sua outra metade no Supremo Chanceler.
Palpatine traçou seu caminho por entre os destroços que enchiam o
chão da sala escurecida, movendo-se surpreendentemente rápido em
direção às escadas.
— Venha comigo, Anakin. Não temos muito tempo.
O janelão brilhou na cor branca com o impacto dos mísseis, e um
deles parecia ter danificado os geradores de gravidade: a nave pareceu se
curvar, forçando Palpatine a se agarrar desesperadamente ao corrimão e
mandando Anakin escorregando por um chão que subitamente se
transformou numa rampa inclinada a 45 graus.
Ele caiu com força numa pilha de escombros: permacreto quebrado,
que havia sido diluído em espuma para reduzir o peso.
— Obi-Wan...!
Ele ficou de pé num salto e levitou os destroços que haviam
enterrado o corpo de seu amigo. Obi-Wan estava caído completamente
imóvel, olhos fechados, sangue e poeira emaranhados em seu cabelo no
lugar onde um corte abrira seu escalpo.
Mesmo que Obi-Wan parecesse terrível, Anakin já havia visto
corpos de amigos demais, em campos de batalha demais, para entrar em
pânico por um pouco de sangue. Um toque na garganta de Obi-Wan
confirmou que ainda tinha pulso forte, e esse toque também permitiu
que a percepção de Anakin através da Força fluísse pelo corpo do amigo.
Sua respiração forte e regular, e não haviam ossos quebrados: não
passava de uma concussão.
Aparentemente, a cabeça de Obi-Wan era mais dura do que as
paredes internas do cruzador.
— Deixe-o, Anakin. Não há tempo. — Palpatine estava meio
dependurado no corrimão, ambos os brados envolvendo um pilar —
Esse pináculo inteiro deve estar prestes a ceder...
— Então ficaremos todos à deriva juntos. — Anakin olhou de
relance para o Supremo Chanceler e por um instante não gostou nem um
pouco daquele homem... mas então lembrou a si mesmo que por mais
que Palpatine fosse corajoso, sua coragem vinha da convicção; ele não
era nenhum soldado. Não tinha como realmente compreender o que
estava pedindo que Anakin fizesse.
— O destino dele — disse, caso Palpatine não tivesse entendido —
será o mesmo que o nosso.
Com Obi-Wan inconsciente e Palpatine esperando acima, com a
responsabilidade pelas vidas de seus dois amigos mais próximos sobre
seus ombros, Anakin descobriu que havia recuperado seu equilíbrio
interior. Sob pressão, em crise, sem poder pedir ajuda a ninguém, ele
conseguiria se concentrar novamente. Ele precisava.
Foi para isso que ele nasceu: salvar pessoas.
A Força trouxe o sabre de luz de Obi-Wan para sua mão e ele o
prendeu ao cinto do amigo, então içou o corpo mole sobre o ombro e
deixou que a Força o ajudasse a correr subindo pelo chão abruptamente
inclinado para se juntar a Palpatine.
— Impressionante. — Palpatine disse, mas então lançou um olhar
significativo em direção à escadaria, que fora transformada em um
penhasco vertical pelo vetor da gravidade artificial — Mas e agora?
Antes que Anakin pudesse responder, a gravidade errática balançou
como um pêndulo; enquanto eles se agarravam ao corrimão, a sala
pareceu girar ao redor deles. Todas as cadeiras quebradas e fragmentos
da mesa e pedaços de escombro escorregaram para o lado oposto, e
agora ao invés de um penhasco a escadaria havia se tornado um mero
trecho ondulado do chão.
— As pessoas dizem — Anakin acenou com a cabeça em direção à
porta do lobby de turbo-elevadores — Quando a Força fecha uma
escotilha, ela abre uma janela. Depois de você?
5: Grievous
GRIEVOUS
Os ARC-170 do Esquadrão Sete juntaram-se ao Esquadrão Quatro
de V-wings para atacar os lutadores abutres restantes que haviam
rastreado a imensa nave da Federação de Comércio, Invisible Hand.
Pilotos clones destruiam droide após droide com precisão de máquina
própria. Quando o último dos abutres foi convertido em um globo de gás
superaquecido, os clones se afastaram, deixando a Invisible Hand
exposta ao fogo total do Grupo Cinco de Ataque da Frota Doméstica:
três cruzadores leves classe Carrack – Integrity, Indomitable e
Perseverance – em apoio ao Dreadnaught Mas Ramdar.
O Grupo de Ataque Cinco havia se posicionado em um triângulo ao
redor de Mas Ramdar, mantendo uma órbita mais alta para fixar a
Invisible Hand no poço gravitacional de Coruscant. Turbolasers
explodiram contra os escudos vacilantes da nave, mas a ponte de
comando estava dando o melhor de si: Mas Ramdar já havia sofrido
tantos danos que era pouco mais do que um alvo para absorver o contra
ataque da Invisible Hand, e Indomitable era apenas um projétil, a
maioria de sua tripulação morta ou evacuada, sendo comandada
remotamente por seu comandante e tripulação de ponte; ele balançou de
forma instável através dos cones de sinalização da nave, que bloqueavam
rotas de fuga para evitar qualquer tentativa de escape.
Quando seus escudos finalmente falharam, a Invisible Hand
começou a rolar, girando como uma bala de um rifle slugthrower,
projetando jatos espirais de gás cristalizante que jorraram de múltiplas
rupturas no casco. A nave ganhou velocidade, quebrando as travas de
mira dos adversários da República. Incapazes de rebater no mesmo
ponto repetidas vezes, seus turbolasers não eram poderosos o suficiente
para romper a armadura pesada da nave, não diretamente; seus pontos de
rastreamento tornaram-se anéis que circundam o navio, mastigando
gradualmente o casco em estreitos garrotes de fogo.
Na ponte de comando da Invisible Hand, neimoidianos
superaquecidos foram amarrados em suas estações de batalha em pleno
acidente. O ar cheirava a metal queimado e hormônios reptilianos de
estresse, e a mudança errática da gravidade ameaçava adicionar um odor
mais forte: os rostos de vários oficiais da ponte já havia empalidecido do
verde-acinzentado saudável ao rosa nauseado.
O único na ponte que não estava amarrado a uma cadeira andava de
um lado para o outro, a capa até o chão, colocada sobre os ombros
angulares como osso exposto. Ele ignorou os solavancos do impacto e
não foi afetado pelo redemoinho de gravidade imprevisível enquanto
caminhava pelo convés com tinidos de metal contra metal; ele andou
sobre criações com garras de durânio magnetizado, articuladas para
agarrar e esmagar como os pés de uma águia de sangue Vratixan.
Sua expressão não podia ser lida – seu rosto era uma máscara de
blindagem de cerâmica alvejada estilizada para evocar um crânio
humanoide - mas o puro veneno na voz, que sibilou através do
vocabulador eletrossônico da máscara, compensou isso.
— Calibre os geradores de gravidade ou desative todos — ele
rosnou para uma imagem em azul de um engenheiro Neimoidiano
encolhido. — Se isso continuar, você não viverá o suficiente para ser
morto pela República.
— Mas, mas, senhor… depende realmente dos droides de reparo…
— E porque eles são droides, é inútil ameaçá-los. Então, estou
ameaçando você. Compreendido?
Ele se virou antes que o gago engenheiro pudesse dar uma resposta.
A mão que ele estendeu em direção à tela frontal usava uma manopla
articulada de plástico-armadura fundida aos ossos de liga de durânio.
— Concentre fogo em Indomitable — disse ele ao oficial de
artilharia. — Todas as baterias no máximo. Fogo para efeito. Exploda
esse vulto para fora do espaço, e nós faremos um salto para o
hiperespaço através de seus destroços.
— Mas- as torres dianteiras já estão sobrecarregadas, senhor. — A
voz do oficial tremeu à beira do pânico. — Eles terão uma falha crítica
em menos de um minuto…
— Queime-os.
— Mas, senhor, uma vez que eles falharem…
O resto da objeção do oficial sênior de artilharia se perdeu no som
úmido de trituração final que seu rosto fez sob o impacto de um punho.
Esse mesmo punho se abriu, agarrou a gola do uniforme do oficial e
puxou seu cadáver para fora da cadeira, rasgando seu cinto de segurança
junto dele.
Uma cara de caveira sem expressão voltada para o jovem oficial de
artilharia.
— Parabéns pela sua promoção. Vá para o seu novo posto.
— S-s-sim, senhor. — As mãos do recém-promovido oficial de
artilharia tremiam tanto que ele mal conseguia desafivelar seu cinto, e
seu rosto ficou mortalmente rosa.
— Você entende suas ordens?
— S-s-si-
— Você tem alguma objeção?
— N-n-nã-
— Muito bem, então — disse o general Grievous com monotonia,
uma calma inabalável. — Continue.
Este é o General Grievous:
Durasteel. Duro, blindado de cerâmica, Electrodrivers e circuitos de
cristal.
Dentro deles: os restos de um ser vivo.
Ele não respira. Ele não come. Ele não consegue rir e não chora.
Há muito tempo ele era um ser orgânico senciente. Há muito tempo
ele tinha amigos, família, uma ocupação; Há muito tempo ele tinha
coisas para amar e coisas para temer. Agora ele não tem nada disso.
Em vez disso, ele tem um propósito.
Está embutido nele.
Ele foi feito para intimidar. A semelhança com um esqueleto
humano fundido com membros estilizados após os lendários droides de
guerra Krath é inteiramente intencional. É um rosto e uma forma
nascidos dos pesadelos infinitos da infância.
Ele foi feito para dominar. As placas de blindagem de cerâmica
protegendo membros, tronco e rosto podem impedir uma explosão do
canhão de laser de um caça estelar. Esses braços indestrutíveis são dez
vezes mais fortes que os humanos e se movem com a velocidade turva
dos reflexos eletrônicos.
Ele foi feito para erradicar. Essas mãos de tamanho humano têm
dedos de tamanho humano por exatamente um motivo: para segurar um
sabre de luz.
Quatro deles estão pendurados dentro de sua capa.
Ele nunca construiu um sabre de luz. Ele nunca comprou um, nem
recuperou um que estava perdido. Todos e cada um deles, ele tirou das
mãos mortas de Jedi que ele matou.
Pessoalmente.
Ele tem muitos, muitos desses troféus; os quatro que ele carrega são
seus favoritos particulares. Um pertencia ao interminável K'Kruhk, a
quem ele havia derrotado em Hypori; outro para o Viraanntesse Jedi
Jmmaar, que havia caído em Vandos; os outros dois foram criados por
Puroth e Nystammall, que Grievous massacrou juntos nas planícies de
grama flamejante de Tovarskl para que cada um soubesse a morte do
outro, tão bem quanto as deles; esses são assassinatos de que ele se
lembra com tanto prazer que tocar nessas lembranças com as mãos de
couraça e durasteel lhe traz algo que lembra alegria.
Mas apenas lembra.
Ele se lembra da alegria. Ele se lembra da raiva e da frustração. Ele
se lembra da dor e da tristeza.
Ele realmente não sente nenhum deles. Não mais.
Ele não foi feito para isso.
Fagulhas incandescentes zuniram e estalaram através da fumaça que
ondulava pelo saguão do turbo-elevador. Sobre o ombro de Anakin, o
inconsciente Mestre Jedi ofegou levemente. Ao lado do outro ombro,
Palpatine tossiu asperamente na manga de sua túnica, protegendo o rosto
contra produtos de combustão cáustica do circuito de sobrecarga.
— R2? — Anakin balançou seu comunicador com força. A maldita
coisa estava piscando desde que Obi-Wan pisou nela durante uma das
lutas do turbo-elevador.
— R2, está ouvindo? Preciso que você ative... — A fumaça era tão
densa que ele mal conseguia distinguir os números na placa de código.
— elevador três-dois-dois-quatro. Três-dois-dois-quatro, você copia?
O comunicador emitiu um fraco fwheep que poderia ter sido uma
confirmação, e as portas se abriram, mas antes que Anakin pudesse
carregar Obi-Wan, a cápsula do turbo-elevador disparou para cima e o
vetor de gravidade artificial mudou novamente, jogando-o junto com seu
parceiro em uma pilha. próximo a Palpatine no canto oposto do saguão.
Palpatine lutava para se levantar, ainda tossindo, parecendo fraco.
Anakin deixou a Força erguer Obi-Wan de volta ao ombro, então se
levantou.
— Talvez você deva ficar abaixado, senhor — disse ele ao
chanceler. — As oscilações da gravidade estão piorando.
Palpatine acenou com a cabeça.
— Mas, Anakin…
Anakin ergueu os olhos. As portas do turbo-elevador ainda estavam
abertas.
— Espere aqui, senhor.
Ele se abriu mais completamente para a Força e em sua mente
posicionou-se com Obi-Wan equilibrado na borda da porta aberta acima.
Segurando esta imagem, ele saltou, e a Força fez sua intenção em
realidade: seu salto levou ele e o Mestre Jedi inconsciente precisamente
para a borda.
O vetor gravítico alterado transformara o eixo do turbo-elevador em
um corredor horizontal de durasteel apagado, reto como um laser,
encolhendo-se na escuridão. Anakin estava familiarizado com as
especificações dos cruzadores de comando da Federação do Comércio; a
torre angular tinha cerca de trezentos metros de comprimento. Do jeito
que estava, eles podiam andar em dois ou três minutos. Mas se a
mudança errada de gravidade os alcançasse no túnel...
Ele balançou a cabeça, calculando as probabilidades com seriedade.
— Teremos que ser rápidos.
Ele olhou por cima do ombro, para Palpatine, que ainda estava
encolhido abaixo.
— Você está bem, Chanceler? Você está bem o suficiente para
correr?
O Chanceler Supremo finalmente se levantou, dando tapinhas em
suas vestes em uma tentativa inútil de limpá-las.
— Eu não corro desde que era um menino em Naboo.
— Nunca é tarde para começar a entrar em forma. — Anakin
alcançou através da Força para dar a Palpatine uma pequena ajuda em
escalar até a porta aberta. — Há transportadores no convés do hangar.
Podemos chegar lá em cinco minutos.
Assim que Palpatine estava em segurança dentro do corredor,
Anakin disse:
— Siga-me — e se virou para ir embora, mas o Chanceler o deteve
com uma mão em seu braço.
— Anakin, espere. Precisamos chegar à ponte.
Através de uma nave cheia de droides de combate? Não é provável.
— O deck do hangar fica logo abaixo- bem, ao nosso lado, agora. É
a nossa melhor chance.
— Mas a ponte… Grievous está lá.
Agora Anakin parou. Grievous. O mais esforçado matador de Jedi
desde Durge. Com toda a empolgação, Anakin havia esquecido
completamente que o general biodroide estava a bordo.
— Você derrotou Dookan — disse Palpatine. — Capture Grievous
e você fará um ferimento do qual os Separatistas podem nunca se
recuperar.
Anakin pensou inexpressivamente: Eu poderia fazer isso.
Ele sonhava em capturar Grievous desde Muunilinst – e agora o
general estava perto. Tão perto que Anakin podia praticamente sentir o
cheiro dele – e Anakin nunca se sentiu tão poderoso. A Força estava
com ele hoje de maneiras mais potentes do que ele jamais experimentou.
— Pense nisso, Anakin. — Palpatine estava perto de seu ombro, em
frente a Obi-Wan, tão perto que ele só precisava sussurrar. — Você
destruiu a cabeça política deles. Pegue o comandante militar deles e
você terá praticamente vencido a guerra. Sozinho. Quem mais poderia
fazer isso, Anakin? Yoda? Mace Windu? Eles não conseguiram nem
capturar Dookan. Quem teria chance contra Grievous, senão Anakin
Skywalker? Os Jedi nunca enfrentaram uma crise como a Guerra dos
Clones - mas também nunca tiveram um herói como você. Você pode
salvá-los. Você pode salvar a todos.
Anakin estremeceu, assustado. Ele lançou um olhar penetrante para
Palpatine. A maneira como ele disse isso...
Como uma voz de seus sonhos.
— Isso é… — Anakin tentou rir; mas saiu um pouco instável. —
Não é isso que Obi-Wan vive me dizendo.
— Esqueça Obi-Wan — disse Palpatine. — Ele não tem ideia de
quão poderoso você realmente é. Use seu poder, Anakin. Salve a
República.
Anakin podia ver isso, tão vívido como um HoloNet: chegar ao
Senado com Grievous em eletrobonds, ficando modestamente ao lado,
enquanto Palpatine anunciava o fim da guerra, retornando ao Templo, à
Câmara do Conselho, onde finalmente, depois
de todo esse tempo, haveria uma cadeira esperando, só para ele.
Eles dificilmente poderiam recusar-lhe o título de Mestre agora,
depois que ele havia vencido a guerra por eles...
Mas então Obi-Wan se mexeu no ombro, gemendo levemente, e
Anakin voltou à realidade.
— Não — ele disse. — Desculpe, Chanceler. Minhas ordens são
claras. Esta é uma missão de resgate; sua segurança é minha única
prioridade.
— Eu nunca estarei seguro enquanto Grievous viver — Palpatine
rebateu.
— Mestre Kenobi vai se recuperar a qualquer momento. Deixe-o
aqui comigo; ele pode me acompanhar com segurança até o convés do
hangar. Vá para o geral.
— Eu... eu gostaria, senhor, mas...
— Eu posso fazer um pedido, Anakin.
— Com todo o respeito, senhor: não. Você não pode. Minhas
ordens vêm do Conselho Jedi, e as ordens do Conselho vêm do Senado.
Você não tem autoridade direta. — O rosto do chanceler escureceu.
— Isso pode mudar. — Anakin assentiu.
— E talvez devesse, senhor. Mas até que isso aconteça, faremos as
coisas do meu jeito. Vamos lá.
— Senhor? — A voz fina do oficial de comunicação interrompeu o
ritmo de Grievous. — Estamos sendo saudados pela Integrity, senhor.
Eles propõem um cessar-fogo.
Os olhos amarelo-escuros se estreitaram através do crânio para a
tela de exibição tática. Uma pausa no combate permitiria que as baterias
do turbolaser da Invisible Hand esfriassem e daria aos engenheiros a
chance de colocar os geradores de gravidade sob controle.
— Confirme o recebimento da transmissão. Prepare-se para cessar
fogo.
— Aguardando, senhor. — O oficial da artilharia ainda tremia.
— Cessar fogo.
As lanças de energia que uniram a The Hand à força de Ataque da
Frota Doméstica desapareceram.
— Mais uma transmissão, senhor. É o comandante da Integrity.
Grievous assentiu.
— Iniciar.
Uma imagem fantasmagórica se construiu acima do holograma da
ponte: um jovem homem de estatura e biotipo médios, vestindo o
uniforme de tenente-comandante. A única coisa distintiva sobre seus
traços bastante suaves era a confiança calma em seus olhos.
— General Grievous — disse o jovem energicamente — sou o
Tenente Comandante Lorth Needa do RSS Integrity. A meu pedido, meus
superiores consentiram em lhe oferecer a chance de entregar seu navio,
senhor.
— Entregar? — O vocabulador de Grievous produziu uma
reprodução muito parecida à de bufar. — Absurdo.
— Por favor, pense de forma cuidadosa nessa oferta, general, pois
ela não será repetida. Considere a vida de sua tripulação.