3.
2 Sínteses
Memorial do Convento
1. O Sonho
Na obra Memorial do Convento, o sonho é um tema central, pois é a partir
dele que se fazem as grandes construções da obra.
O convento de Mafra e a passarola representam a matéria, que é o resultado
do sonho humano, da vontade que o homem sempre manifestou em ultrapassar
os seus limites de mortal e aproximar-se de Deus através das criações.
O convento surgiu do desejo de D. João V de ter um filho varão. Por isso,
prometeu que, se a rainha engravidasse, mandaria construir um grandioso
convento de franciscanos. A construção do convento vai envolver sacrifícios e
esforços sobre-humanos que recaem no povo anónimo. O Rei não se importa
com o sofrimento dos que realmente constroem o edifício nem com a despesa
descomunal que este projecto envolve. Só se preocupa em alimentar a sua
vaidade e o seu egoísmo em querer perpetuar a sua memória para além dos
tempos.
A passarola é, inicialmente, o sonho de um único homem, o Padre Bartolomeu
de Gusmão, mas acaba por ser partilhado por Baltasar, Blimunda e Domenico
Scarlatti. Este sonho acaba por se concretizar graças ao trabalho destas
personagens e da articulação de saberes distintos entre si: dos conhecimentos
aeronáuticos e alquímicos de Bartolomeu, da força física de Baltasar, dos
poderes sobrenaturais de Blimunda e, mais tarde, da música de Scarlatti. A
passarola representa o sonho de voar e a vontade de superar os limites humanos.
Tanto o Rei como Bartolomeu, Baltasar e Blimunda se empenham na
construção dos seus sonhos, para superarem a sua condição mortal.
2. A Crítica na Obra
Esta obra distingue-se pela abrangente crítica que engloba. Criticam-se
vários aspectos da sociedade da época como, por exemplo, a Igreja e a sua
posição, as diferenças sociais, a prepotência real, a má administração, a futilidade
e imbecilidade dos poderosos.
A Igreja é criticada desde o início da obra e é retratada como uma instituição
que domina completamente a vida das pessoas. A Inquisição lança o terror com
a perseguição aos “traidores” à fé, que são desterrados ou queimados na
fogueira e alimenta um fervor religioso hipócrita e exagerado. Além disso, é
criticado o seu gosto pelo poder, pelo dinheiro e pelo luxo.
As diferenças sociais entre clero e nobreza, as classes dominantes, e o povo,
a classe dominada, são evidentes e bastante acentuadas. Clero e nobreza vivem
num ambiente de ostentação, luxo e desperdício, enquanto o povo vive uma
existência de miséria, privações, sacrifício e sofrimento. Estas desigualdades são
expostas pelo narrador, numa tentativa de consciencializar o leitor do esforço e
sacrifício que o projecto do convento constituiu para o povo, em contraste com
os caprichos do Rei.
A prepotência real é também criticada, pois o rei não olha a meios para
concretizar os seus projectos pessoais, como quando obriga os homens a
trabalharem à força no convento para o acabarem no prazo de dois anos.
Também surge a crítica à má administração, pois percebemos que nunca se
fazem contas de nada e que todo o ouro que vem do Brasil se revela insuficiente
para alimentar o luxo da nobreza, do clero e a construção do convento.
A futilidade e a imbecilidade dos poderosos são criticadas, pois os seus
interesses não incidem no bem-estar do povo nem na gestão dos recursos do
reino, mas sim na sua vaidade pessoal.
O narrador mostra-nos, assim, uma sociedade desigual em que o povo é
explorado e a classe dirigente não se preocupa com o estado da nação.
3. O Amor
A obra inicia-se com a descrição da relação entre o Rei e a Rainha, que são
os representantes da ordem e do poder, mas também da repressão típica dos
regimes absolutistas. Esta relação conjugal tem um único objectivo: o de dar um
herdeiro à Coroa, pois não existe nenhum envolvimento entre eles. O Rei cumpre
o seu dever de marido duas vezes por semana, para tentar que a Rainha
engravide. Este encontro periódico reveste-se de cerimónias anti-eróticas, o que
mostra a ausência de amor entre eles. Todo o ambiente de preparação do acto
é artificial, pelo excesso de roupas, pela presença das camareiras e dos
camaristas, tornando forçado e ridículo algo que devia ser espontâneo e natural.
Por isso, esta relação contratual, em que não há amor, torna-se insatisfatória
para ambos e origina as infidelidades do Rei e os sonhos da Rainha. Os monarcas
são, aqui, descritos de forma irónica e caricatural, numa linguagem jocosa que
tenta destituí-los do seu estatuto real e aproximá-los das pessoas vulgares e
mortais.
A história de amor de Baltasar e Blimunda está presente em todos os
capítulos, com excepção dos três primeiros. Conhecem-se quando Baltasar
assiste a um auto-de-fé onde desfila, a caminho do degredo para Angola, a mãe
de Blimunda. Esta, no meio da assistência, conhece Baltasar, a quem ama desde
o primeiro instante e com quem parte para uma comunhão de corpos e de vidas.
Ficam calados durante muito tempo e o silêncio é o canal que lhes permite
comunicar em profundidade através de gestos simples como o de deixar a porta
aberta, o acender o lume, o servir a sopa, o esperar pela colher usada por Baltasar
É um casal transgressor dos códigos estabelecidos, pois não procriam,
entregam-se às carícias e aos jogos eróticos, sem olharem a limites, lugares ou
datas. Vivem um amor sem regras, instintivo e natural. Não há um discurso
amoroso, pois as palavras tornam-se desnecessárias quando o silêncio diz tudo,
quando ambos se amam e entendem perfeitamente. A sua união não se ressente
da ausência de um herdeiro, porque eles descobriram a plenitude no seu amor.
O tempo passa, eles envelhecem, mas continuam enamorados e até
escandalizam a vila de Mafra.
O amor de Blimunda por Baltasar foi posto à prova quando este desapareceu
e ela percorre Portugal duma ponta à outra, durante nove anos, à procura do seu
homem. Encontra-o quando passa pelo Rossio e decorre um auto-de-fé. Chega
no momento em que ele está a ser queimado na fogueira e ainda vai a tempo de
recolher a “vontade” dele, o que significa a sua união “para sempre”’, o início de
uma outra vida e que “o amor existe sobre todas as coisas”.
4. A epopeia da pedra
Uma epopeia é, geralmente, um poema em que se narram acções heróicas e
grandiosas, façanhas de heróis ou factos memoráveis de um povo.
O capítulo XIX é dedicado à saga heróica do transporte de uma pedra
enorme, destinada à varanda situada sobre o pórtico da igreja do convento, de
Pêro Pinheiro para Mafra, num percurso de cerca de quinze quilómetros.
Para a transportar, foi necessário construir um enorme carro que foi puxado
por duzentas juntas de bois. A pedra tinha sete metros de comprimento por três
metros de largura e sessenta e quatro centímetros de espessura. Pesava mais de
trinta toneladas e levou oito dias a ser transportada.
Neste capítulo, o narrador destaca o povo e nele elege os seus heróis, os
construtores da História, que ficavam sempre no anonimato, por isso é uma
epopeia cujo herói é o povo que, humilhando, sacrificado e miserável, ganha uma
dimensão trágica e eleva-se acima das outras classes, superando-as. Aqui,
destaca-se a força, o suor, o sacrifício e até a morte dos homens que, para
sobreviverem, trabalham sem descanso para que o rei possa cumprir a sua
promessa.
O narrador tira os homens do anonimato e dá identidade e acção a alguns
deles, como Francisco Marques e Manuel Milho. Aos outros, presta-lhes uma
simples homenagem para os tornar imortais: indica nomes de todas as letras do
alfabeto, para abranger todos os “pequenos”, incluindo-os numa História de
Portugal que os esqueceu.
Para mostrar as dificuldades do transporte da pedra, o narrador descreve
alguns pormenores, pois esta empreitada, além de exigir força, exigia também
inteligência e coordenação e um simples descuido seria fatal, como o foi para
Francisco Marques que se distraiu um instante e acabou esmagado por uma
roda.
Este episódio, além de imortalizar os “pequenos” que constroem os sonhos
dos grandes, confronta a leitor com o sofrimento e opressão a que o povo
sempre esteve sujeito. “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”… Mas, para
que isso aconteça, há muita gente que se sacrifica e fica pelo caminho.
5. A Conjugação de Saberes
Bartolomeu, Baltasar e Blimunda formam um trio em que cada um, com as
suas capacidades, vai contribuir para a realização do sonho do padre. Aos seus
conhecimentos científicos, aliam-se o trabalho físico de Baltasar e a capacidade
mágica de Blimunda de recolher vontades. Todos sentem um grande entusiasmo
na execução deste projecto e propõem-se erguer o sonho por eles
compartilhado, atingindo o desejo de realização plena. Mais tarde, surge Scarlatti
que acrescenta ao projecto a componente musical.
Assim, os conhecimentos científicos do padre permitem planificar o invento
como o mostra o desenho do projecto. Depois do projecto, é necessário passar
à sua execução. O padre precisa de ajuda e convence Baltasar a ser o mecânico
da passarola. No entanto, o trabalho dos dois não é suficiente e Blimunda vai ser
uma ajuda preciosa, pois, com os seus poderes de ver por dentro das coisas, fará
a supervisão da máquina. Depois de o padre voltar da Holanda com o segredo
do éter, Blimunda encarrega-se da missão de introduzir duas mil vontades em
dois frascos de vidro. Sem esta contribuição, a máquina nunca poderia voar, por
isso, ela dirige-se às multidões, às procissões e, mais tarde, às pessoas que estão
a morrer devido a uma epidemia que grassa em Lisboa.
Então, à ciência do padre, à mão-de-obra de Baltasar, à magia de Blimunda
vem unir-se a arte: Scarlatti associa-se ao projecto com a componente musical.
O padre mostra a máquina ao músico e dá-lhe a entender que a sua música seria
um contributo importante. Ele aceitou o convite, levou o cravo para a abegoaria
e passou a tocar enquanto eles trabalhavam. O poder celeste da música ajuda,
assim, na construção da passarola e também na sua elevação, no momento em
que levantam voo.
Em consonância, a ciência, o artesanato, a magia e a música uniram-se para
corporizarem o sonho de voar.