O Ténis No Porto (1925-1934) : Resumo
O Ténis No Porto (1925-1934) : Resumo
Resumo
O ténis é um desporto de elite que chegou a Portugal em 1880. Contudo, a modalidade só atingiu
um patamar superior com a criação da Federação Portuguesa de Lawn-Tennis no ano de 1925.
No Porto este desporto teve uma evolução significativa devido ao papel da Federação e graças
aos esforços de alguns clubes, como o Real Velo Clube do Porto e o Lawn Tennis Clube da Foz,
que realizaram alguns torneios importantes nos seus courts, onde brilhava Vasco Horta e Costa.
Através da análise de jornais da época, este artigo pretende analisar a História do ténis portuense
(clubes, torneios, jogadores) entre 1925 e 1934, momento em que se verificou uma estagnação
no ténis português.
Palavras-chave: história do deporto, ténis, Porto, Federação Portuguesa de Lawn-Tennis, Velo
Clube do Porto, Clube da Foz, Vasco Horta e Costa.
Abstract
Tennis is an elite sport that arrived in Portugal in 1880. However, it only reached a higher
development with the creation of the Portuguese Lawn-Tennis Federation in 1925. In Oporto this
sport had a significant evolution due to the role of that Federation and thanks to the activity of
some clubs, as the Real Velo Clube do Porto and the Lawn tennis Club da Foz, which organized
some important tournaments in their courts, where Vasco Horta e Costa stood out. Through
newspapers analysis, this article pretends to analyze the History of Oporto tennis (clubs,
tournaments, players) between 1925 and 1934, when Portuguese tennis faced an important
stagnation.
Keywords: history of sport, tennis, Oporto, Portuguese Lawn-Tennis Federation, Velo Clube do
Porto, Clube da Foz, Vasco Horta e Costa.
Abreviaturas
FCP – Futebol Clube do Porto
FPLT – Federação Portuguesa de Lawn-Tennis
LTCF – Lawn Tennis Clube da Foz
OC & LTC – Oporto Cricket & Lawn-Tennis Club
RVCP – Real Velo Clube do Porto
Costa, Diogo. “O Ténis no Porto (1925-1934)”. Omni Tempore. Encontros da Primavera 2016, 2 (2017): 277-303.
Introdução
Este trabalho, desenvolvido no âmbito da unidade curricular Seminário de
História Contemporânea, do curso de História, tem como tema de estudo o ténis no
Porto entre 1925, ano em que foi criada a Federação Portuguesa de Lawn-Tennis, e
1934, altura em que se verificou um declínio no ténis português.
A escolha de um tema desta natureza deveu-se a um interesse pessoal na
História do desporto em Portugal, nomeadamente na História do ténis no século XX, a
qual ainda não foi objecto de muitos estudos até ao presente.
Esta investigação iniciou-se com uma pesquisa bibliográfica na biblioteca da
Faculdade de Letras da Universidade do Porto e na Biblioteca Pública Municipal do
Porto, que permitiu ter acesso a alguns trabalhos sobre o Ténis português e definir o
âmbito cronológico do presente estudo.
O Estado da arte é composto, principalmente, por dois livros: “O ténis em
Portugal”, de Fonseca Vaz, que é uma obra mais geral que aborda a história do ténis no
País, desde a sua introdução em Portugal até à década de 1970, focando também
alguns factos sobre o ténis portuense, nomeadamente os encontros Porto-Lisboa,
temática que será abordada neste artigo; e o livro “Lawn Tennis Club da Foz (1903-
2003) ”, gentilmente facultado pelo clube e que é uma obra mais específica, tratando a
história desta agremiação centenária, mas não descurando a história do ténis no Porto.
No início, surgiram logo algumas dúvidas e questões que tentariam ser
dissipadas ao longo da investigação. O assunto seria desenvolvido através da imprensa
periódica, logo a ideia era ter uma noção de como o ténis era visto pela imprensa
daquela época. Qual era a importância dada ao ténis? Será que este desporto tinha o
mesmo destaque que as outras modalidades, como é o caso do futebol?
Esta é uma questão mais geral, já que as principais problemáticas desta
pesquisa prendem-se com o ténis em si. Neste sentido, pretende-se identificar os clubes
da região do Porto que praticaram a modalidade e saber quais as agremiações do Norte
que integraram a Federação Portuguesa de Lawn-Tennis quando esta foi criada a 16 de
Março de 1925 e quais os clubes que se filiaram na mesma até 1934. Depois de
reconhecidos os clubes, enumerar alguns dos seus jogadores.
Outro objectivo importante consiste em identificar e analisar os principais
torneios de ténis realizados no Porto naquele período. Em que época do ano se
realizavam? Quais as variantes em que se jogavam? E, ao mesmo tempo, tentar
perceber qual era o piso utilizado?
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Costa, Diogo. “O Ténis no Porto (1925-1934)”. Omni Tempore. Encontros da Primavera 2016, 2 (2017): 277-303.
adquiriu o gosto por diversos desportos. Praticou, por exemplo, futebol, ténis, patinagem,
hipismo, ciclismo, etc. É considerado o responsável pela introdução do ténis e do futebol em
Portugal, sendo o 1º presidente da Federação Portuguesa de Ténis. Faleceu em 1957.
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Costa, Diogo. “O Ténis no Porto (1925-1934)”. Omni Tempore. Encontros da Primavera 2016, 2 (2017): 277-303.
3 Castro Martins (coord.), O Ténis: das origens até a actualidade (Lisboa: Pluripress, 1995), 38.
4 Manuel da Fonseca Vaz, O ténis em Portugal (Lisboa: União Gráfica, 1981), 80.
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Pode concluir-se por estas palavras que a imprensa nem sempre se preocupava
com a modalidade, mas também não podia apresentar mais notícias porque não tinha
a devida informação e porque os próprios clubes do Norte não se esforçavam para que
o desenvolvimento da modalidade fosse uma realidade.
Contudo, à medida que o ténis foi ganhando espaço no País, a imprensa também
começava a dar mais atenção à modalidade. Em 1931, numa assembleia geral da
Federação Portuguesa de Ténis, foi louvado o papel da Imprensa, agradecendo-se a
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forma como esta auxiliou a propaganda de Lawn-Tennis. Contudo, em 1934, havia uma
esperança de que a imprensa fizesse ainda mais em prol do ténis:
Já muito faz a imprensa mas muito mais ainda pode fazer em prol do nosso desporto. É
ela por excelência o maior meio de propaganda e por certo se os cronistas desportivos
dedicassem ao ténis uma pequena parte do esforço que dedicam a outros desportos, já
este teria conquistado um público muito maior daí advindo vantagens 12.
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15 “Clubes filiados na FPLT”. Ténis & Golf, 32, Maio de 1934. Suplemento.
16 “O Torneio do F. C. Porto”. O Comércio do Porto, 178, 31/07/1929, 2.
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19“O Velo Clube do Porto e o Club da Foz são as mais antigas agremiações tenística do Norte e
aquelas que mais têm contribuído para o notável desenvolvimento que o desporto da “raquete”
está tendo além Douro”. Ténis & Golf, 16, 02/09/1933, 6.
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Costa, Diogo. “O Ténis no Porto (1925-1934)”. Omni Tempore. Encontros da Primavera 2016, 2 (2017): 277-303.
20 “O Lawn-Tennis Club da Foz: o mais forte baluarte do ténis nortenho”. Ténis & Golf, 4,
Setembro de 1950, 8.
21 GAIO. “Os Grandes torneios”. Sporting, 812, 31/07/1931, 11.
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5. Os Torneios Nortenhos
A actividade tenística no Norte costumava começar por volta do início da
Primavera e estendia-se até Setembro, por ser a altura do ano em que o bom tempo
permitia a prática de ténis, uma vez que não existiam courts cobertos.
Essa actividade era constituída pelos campeonatos internos das agremiações,
realizados exclusivamente para os sócios, e por alguns encontros anuais entre clubes
como, por exemplo, a Taça Amadeu Muaze, disputada entre os portugueses do Velo
Club e os ingleses do Oporto Cricket, e a Taça Américo Pacheco, jogada pelo Boavista
e pelo Leixões, assim como o Foz-Vila do Conde e o Foz-Miramar.
A Taça Amadeu Muaze, criada nos inícios do século XX, servia de antecâmara
para a Taça D. Manuel, era uma prova de doubles bastante disputada. Em 1929 o
Cricket venceu 19 jogos contra 17 do RVCP, repetindo os êxitos de 1926 e 1928. No
clube inglês destacou-se a dupla Adam e Symington, que alcançou 5 vitórias e sofreu
apenas uma derrota. No Real Velo, os irmãos Horta e Costa e J. N. de Almeida/Manoel
da Fonseca também conseguiram 5 sucessos e um desaire. O clube português tinha
conquistado o troféu em 1927 e voltou a triunfar em 1930, conseguindo vinte e duas
vitórias contra 14 do Cricket Club.
Além dos encontros anuais inter-clubes, existiam alguns encontros inter-cidades,
como o Porto-Lisboa e o Porto-Vigo.
O I Porto-Vigo aconteceu em 1927 na cidade galega, nos courts do Anglo
Sporting, com o resultado de 3 a 2 favorável à equipa portuense, que era formada por
Mário Duarte (capitão), Manoel Fonseca, Nuno Cadoro e Vasco Horta e Costa. As 3
vitórias foram conseguidas por Mário Duarte, que venceu Goyeneche (6-3, 6-1 e 6-2),
por Horta e Costa, que derrotou Stuart (campeão galego) por 6-2, 6-1 e 6-4 e pela dupla
Horta e Costa / Manoel Fonseca, que bateram Posada e Stuart em 5 sets (6-8, 8-5, 4-
6, 6-4 e 7-5). Por Vigo triunfaram Novoa, depois de vencer Manoel Fonseca por 6-3, 3-
6 e 6-3 e a dupla Goyeneche / Novoa, que bateu Mario Duarte e Nuno Cadoro, por 9-7,
5-7 e 6-3.22
No ano de 1932, nos courts do Velo Clube, a equipa do Porto derrotou
novamente a selecção galega por 2 a 1, ganhando os dois jogos de singulares e
perdendo em pares. Luiz Megre venceu Llorens, campeão da Galiza, por 6-2, 2-6, 6-2
e Manoel Nicolau d’Almeida derrotou J. Harmony por 7-5, 4-6 e 8-6. Em doubles,
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Gonçalves Azevedo e Manoel Nicolau perderam com Mario Duarte / Llorens por 6-2, 3-
6 e 0-6.23
Em 1926 realizou-se o campeonato da Associação Académica do Porto, que
contou com estudante das faculdades de Medicina e Ciências, assim como alunos do
Liceu Rodrigues de Freitas.
Os torneios nortenhos foram marcados pela ausência de competições femininas,
devido ao desinteresse generalizado das mulheres portuenses por este desporto e pela
falta de praticantes. Aliás, só as mulheres da alta sociedade e de grandes famílias é que
praticavam ténis. Em 1931 os dois torneios programados pelo Club da Foz, um de
singulares senhoras e outro de pares mistos, foram cancelados por falta de inscrições
e em 1932 um torneio de mixed doubles, organizado pelo Velo Clube, contou apenas
com a participação de duas senhoras portuguesas (Maria e Amália Lima). Em
consequência, o jornal Sporting afirmou: “Se exceptuarmos as senhoras da colónia
britânica, somos, neste capítulo, duma pobreza franciscana”.24
Nesse campeonato inter-sócios de pares mistos, que abriu a época tenística no
Real Velo, a vitória sorriu a D. Maria Lima / Vasco Horta e Costa, após derrotarem a
dupla Miss Turner / F. Nicolau de Almeida por 4-6, 6-4 e 6-3.
A partir de 1931 verificou-se uma maior aposta nos torneios para juniores e
jogadores de 2.ª categoria, tendo contribuído para isso a criação, por parte do Lawn
Tennis Clube da Foz, da Taça Início, torneio de men’s singles, e a Taça John Wisden,
para doubles.
Na 1.ª edição do troféu John Wisden, Manuel Nicolau de Almeida e Alberto
Nunes Matos, do Lawn Tennis da Foz, mostraram ser um par mais equilibrado e
venceram Vítor Homem de Almeida e José Gonçalves de Azevedo, da mesma
agremiação, por 6-3, 6-4 e 6-2.
De destacar também os Campeonatos Nacionais que foram realizados nos
courts do Real Velo Clube em 1932 e 1934, com o intuito de fomentar o ténis no Norte.
Os dois Campeonatos de Portugal decorreram com grande brilho, sendo presenciados
por um numeroso público, o que não costumava acontecer quando este torneio era
realizado em Lisboa.
No Campeonato de 1932, o jogador nortenho Vasco Horta e Costa foi finalista,
perdendo com António Casanovas em 5 renhidos sets, por 6-2, 6-2, 4-6, 4-6 e 6-4.25 Em
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1934, Horta e Costa foi derrotado nas meias-finais pelo mesmo oponente (2-6, 6-3 e 6-
1).26
A organização das provas nacionais foram elogiadas por toda a imprensa do
Porto e de Lisboa.
Os torneios estavam também envoltos numa grande actividade social. A maior
parte dos encontros eram presenciados por elementos da melhor sociedade portuense,
sobretudo senhoras. Em 1929 disputou-se nos courts do Velódromo a Taça Amadeu
Muaze, sendo que a direcção do Velo Clube ofereceu aos seus convidados um finíssimo
chã e um almoço requintado. No ano de 1933, após a discussão da Taça Luiz Cabral,
disputada no complexo do Velo Clube, realizou-se uma animada garden-party nas
instalações da associação. Muitos torneios terminavam com a realização de um
banquete ou de uma festa, onde confraternizavam jogadores, dirigentes e convidados.
Os torneios eram realizados em terra batida, o piso predominante nos courts
portuenses (apenas o Oporto Cricket and Lawn Tennis Club tinha campos de relva).
A maioria das competições portuenses destinavam-se apenas a jogadores do
sexo masculino. Como exemplo podem destacar-se a Taça D. Manuel, campeonato do
Norte de men’s doubles, e a Taça Sporting, o campeonato de singles.
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28 J. M., “Os irmãos Horta e Costa, do Velo Club do Porto, ganham a «Taça D. Manoel»”. O
Comércio do Porto, 187, 11/08/1927, 2.
29 “A Taça D. Manoel foi ganha pelo Velo Club”. O Comércio do Porto, 184, 07/08/1929, 2.
30 “Taça D. Manuel”. O Comércio do Porto, 188, 09/08/1933, 4.
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Em 1930 Vasco bateu na final Fernando Nicolau de Almeida por 6-4, 6-2 e 6-2.
O Campeonato de 1931 foi pouco concorrido.35 Inscreveram-se somente 14
tenistas (O Velo Club inscreveu 5, o Futebol Clube do Porto 4, o Cricket 3 e o Académico
e o Lawn Tennis da Foz enviaram 1 jogador cada), mas 2 faltaram. Horta e Costa
venceu, na primeira eliminatória, Manuel Nicolau de Almeida por 6-1 e 6-3 e nos quartos-
de-final precisou de 3 sets para derrotar H. Furtado por 1-6, 6-1 e 6-1 (entre 1927 e
1933, esta foi a única vez que Vasco perdeu um set nos encontros disputados neste
campeonato). O set perdido não afectou Vasco Horta e Costa, que na meia-final
eliminou Barham por 6-0, 6-0 e 6-2 e na final derrotou Manuel Brito e Cunha, por 6-0, 6-
0 e 6-1. A imprensa referiu que Brito e Cunha esteve bem quando subiu à rede, porém
errou muitas vezes no fundo do court.36
Em 1932 a final era aguardada com muita expectativa, mas Vasco derrotou Luiz
Megre, do Futebol Clube do Porto, perdendo apenas um jogo no terceiro set. Yeatman,
do Cricket, Azevedo, do Velo, e Alberto Matos foram os seus adversários antes da final.
No X Campeonato regional do Norte Vasco Horta e Costa conquistou o seu
sétimo título após ter derrotado José Guimarães por 6-2 e 6-3, Manuel Matos por 6-0 e
6-2 e Francisco Matos por 6-3 e 6-1. Na final, Vasco Horta e Costa triunfou diante de
Alberto Matos, por triplo 6-2. Foi um encontro fraco, onde Vasco se limitou a controlar o
jogo no fundo do court.37 O campeonato de 1933 não foi brilhante, devido ao pouco
público que acorreu às instalações do Velo Clube do Porto e por causa dos jogos
desinteressantes.38
Em suma, a superioridade de Vasco era tal que venceu todas as finais sem
perder um único set. Os jornais diziam que Horta e Costa não tinha rival à sua altura no
Norte (“Infelizmente para o ténis portuense, Vasco continua a ser de longe o nosso
melhor”39). Após o campeonato de 1933 o semanário Sporting escreveu: “Vasco H. e
Costa dificilmente encontrará aqui no Norte adversário que o possa bater nestes
próximos tempos, a não ser que surja qualquer revelação”.40
Além de uma taça, os vencedores recebiam uma raquete da fábrica inglesa
Slazengers e uma raquete da marca italiana Sail. Os segundo e terceiro classificados
recebiam uma medalha.
23/07/1933.
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Até 1927 os jogos eram disputados nos courts do Futebol Clube do Porto, na
Constituição. Nesse ano, como a aderência de jogadores e de público foi grande,
aproveitaram-se os terrenos do Velo Clube do Porto, onde se realizaram algumas
eliminatórias, as meias-finais e a final. A partir desse momento o Velo passou a
organizar esse torneio. A entrada era livre.
41Os resultados foram retirados do jornal Sporting, por ser um torneio organizado por este jornal.
O Comércio do Porto, em algumas situações, apresenta resultados diferentes, como por
exemplo, no ano de 1928 (6-3, 6-1, 6-1) e em 1931 (6-0, 6-1, 6-1).
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Há muito que eu pensava nas vantagens duma competição oficial entre Lisboa e Porto,
não só no intuito de aproximar os jogadores das duas capitais, mas também para melhor
tornar conhecidos os elementos de valor que em ambos existem [...]. Especialmente, nós
os de Lisboa, ignoramos muito o nível do ténis no Porto. 42
Alberto Amado referia que o encontro seria efectuado todos os anos, realizando-
se alternadamente em cada cidade, sendo que o dirigente responsável pelo encontro
entregaria uma Taça aos vencedores. A ideia foi apresentada ao jogador portuense
Vasco Horta e Costa, que se entusiasmou com a ideia e aplaudiu a iniciativa, afirmando
que os clubes do Norte desejavam que a prova fosse para a frente. O modelo destes
encontros seria igual ao da Taça Davis, ou seja, eram realizados cinco jogos, sendo
quatro de singulares e um de doubles.
O I Porto-Lisboa era para ser realizado a 1, 2 e 3 de Outubro de 1926, no Clube
Português de Lawn-Tennis, em Lisboa, mas o encontro foi adiado pela Federação
Portuguesa de Lawn-Tennis para o ano seguinte. Deste modo, o 1.º encontro oficial
realizou-se apenas em 1927, na cidade de Lisboa, com o resultado de 5-0 para o grupo
da capital.43
Em 1928 decorreu o II Porto-Lisboa. Nesse ano, a Taça Dr. Alberto Amado foi
disputada nos courts do Velo Clube do Porto, sendo que Lisboa venceu por 4-1. Vasco
Horta e Costa, o seu irmão Miguel Horta e Costa e Eduard Bull foram os jogadores
seleccionados por um júri de apuramento para representaram a cidade invicta. António
Pedro Pinto de Mesquita, jogador suplente, era o capitão de equipa. A equipa lisboeta
era composta por D. José Verda, António Pinto Coelho e Frederico Vasconcelos.
Horta e Costa e Eduard Bull disputaram os jogos de singulares e os irmãos Horta
e Costa participaram no jogo de doubles (uma vez que tinham ganho o campeonato do
Norte de pares em 1927 e 1928). A única vitória portuense foi conseguida por Vasco,
que se evidenciou no seu jogo de serviço e mostrou uma esquerda (back-hand) bastante
afinada, derrotando assim Pinto Coelho, por 6-3, 6-3 e 7-5.44 O público encheu por
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Costa, Diogo. “O Ténis no Porto (1925-1934)”. Omni Tempore. Encontros da Primavera 2016, 2 (2017): 277-303.
45 “No II Porto-Lisboa de Lawn Tennis. A equipa da Capital bate a do Porto por 3 vitórias a uma”.
Sporting, 497, 31/07/1928, 8.
46 “PELA 1.ª VEZ. O Porto venceu Lisboa por 3 vitórias a 2”. Sporting, 817, 25/08/1930, 3.
47 Gaio, “O triunfo do Porto sobre Lisboa”. Sporting, 818, 01/09/1931, 8.
48 “O encontro Lisboa-Porto – Vencedora a equipa do Norte”. Desportos Elegantes, 1, Janeiro de
1932, 6.
49 Sama, “O match Porto-Lisboa – A equipa portuense venceu brilhantemente, por 3 vitórias
1932, 6.
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Em 1932, nos courts do Sporting C. P., Lisboa voltou a vencer o Porto por 5-0,
perante uma reduzida assistência, e o órgão da Federação, Ténis & Golf, afirmou que
“o encontro veio mostrar que indubitavelmente a classe de Lisboa ainda é bastante
maior e que a vitória alcançada pelo Porto no ano passado foi um resultado justo”.51
Percebe-se alguma imparcialidade nestas palavras, pois apesar de a classe de Lisboa
ser claramente superior à do Porto, sobretudo no nível de jogo e de tenistas, não se
pode colocar em causa a vitória de 1931, pois o Porto apresentou-se melhor nesse ano.
Esta derrota era prevista pela imprensa portuense, mas não nesta dimensão.
Importa também mencionar que o desportista Vasco Horta e Costa actuou em más
condições físicas nesse evento.
Em 1933 o Porto registou nova vitória sobre Lisboa por 3-2. O conjunto portuense
era formado por Vasco Horta e Costa, Alberto Matos e Manuel Brito e Cunha. Lisboa
apresentou-se com Domingos Avilez (campeão nacional desse ano, após derrotar Horta
e Costa por 6-2, 3-6, 6-4, 4-6 e 6-4), Serra e Moura e Ricciardi. Os êxitos do Porto foram
conseguidos por Vasco H. Costa, que venceu D. Avilez por 6-4, 8-6, 2-6, 6-4
(desforrando-se assim da derrota sofrida na final do Campeonato de Portugal) e Serra
e Moura por 6-2, 7-5 e 6-3. A. Matos derrotou Avilez por 1-6, 7-5, 6-3 e 8-6. Os tenistas
lisboetas conquistaram o encontro de doubles, após a vitória da dupla Serra e Moura /
Eduardo Ricciardi sobre A. Matos / M. Brito e Cunha ao cabo de 5 sets (6-1; 7-9; 3-6; 6-
3; 6-2) e Serra e Moura derrotou A. Matos por 6-2, 6-4 e 6-1.52
O Sporting declarou que “ganhou a equipa que evidenciou mais classe, mais
técnica e mais intuição de jogo”.53
O Ténis & Golf referiu que o encontro de 1934 não teve o mesmo brilho que os
anos anteriores, devido à pouca publicidade e à ausência de alguns dos melhores
jogadores das duas equipas, como por exemplo Vasco Horta e Costa. Os matches
decorreram nos dias 27 e 28 de Setembro, nos courts do Estoril Parque Ténis, e a
equipa de Lisboa venceu a do Porto por 5-0. No primeiro encontro de singulares, António
Casanovas venceu Alberto Matos por 9-7, 7-5 e 6-3.54 No segundo jogo, Frederico
Ribeiro bateu Manuel Nicolau d´Almeida por 6-.3, 4-6, 6-2, 4-6 e 6-3.55 Em pares, E.
Ricciardi e António Casanovas derrotaram Alberto Matos e Manuel Nicolau d´Almeida
por 6-1, 6-1, 4-6, 2-6 e 8-6 após um jogo equilibrado.56 No quarto jogo, Frederico Ribeiro
51 “Lisboa venceu Porto por cinco vitórias a zero”. Ténis & Golf, 5, Novembro de 1932, 5.
52 Fred, “PORTO-LISBOA”. Sporting, 1026, 06/08/1933, 8.
53 Fred, “PORTO-LISBOA”, 8.
54 Vaz, O ténis em Portugal, 91.
55 Vaz, O ténis em Portugal, 91.
56 Vaz, O ténis em Portugal, 92.
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impôs-se a Alberto Matos por 9-7, 9-7 e 6-3.57 Por fim, Carlos Moran, que substituiu
Casanovas, foi mais forte que Manuel Nicolau d´Almeida (6-3, 6-2, 9-11, 6-3).58
Estes jogos eram repletos de muita emoção, devido a rivalidade existente entre
as duas capitais, havendo uma competição extrema pela vitória.
Vasco é um novo cheio de qualidades para triunfar, que demonstrou, além d´um
excelente estilo de jogo, grande serenidade de espírito. Estamos convencidos que Vasco
Horta e Costa, se se dedicar com zelo a este sport virá a figurar entre os bons players
de Portugal.59
As previsões deste jornal acabaram por bater certo, pois Vasco tornou-se num
dos melhores jogadores da sua geração.
No ano de 1927 sagrou-se campeão do Norte de singles pela primeira vez,
temporada em que conquistou o mesmo título em doubles. Repetiu a façanha em 1928,
1930 e 1933.
Conquistou por 19 vezes a Taça D. Manuel e conquistou a Taça Sporting em 10
ocasiões. Também ganhou por diversas vezes os campeonatos internos do Velo Clube
em men´s singles e men´s doubles.
Na época de 1931 o tenista venceu o torneio de singulares do Lawn Tennis Club
da Foz, clube que tinha ressurgido no ano anterior, derrotando na final F. Almeida por
6-0, 6-3 e 6-3. Nesse mesmo ano triunfou na Taça Colares, após uma vitória fácil por 6-
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Costa, Diogo. “O Ténis no Porto (1925-1934)”. Omni Tempore. Encontros da Primavera 2016, 2 (2017): 277-303.
0, 6-1 e 6-1 sobre Manuel Brito e Cunha, jogador que também tinha sido derrotado por
Horta e Costa no Campeonato do Norte de singulares.60
Vasco Horta e Costa realizou muitos jogos internacionais, representando a
selecção nacional de ténis. Em 1933 acompanhou Rodrigo Castro Pereira e D. José da
Verda, num périplo pelo Brasil, tendo regressado com um saldo positivo de nove vitórias
(de que é representativo o triunfo sobre o jogador brasileiro João Gomes, por 6-3, 6-3 e
6-2) e seis derrotas. Quando foi convidado pela Federação Portuguesa de Ténis para
representar a equipa nacional, Vasco respondeu: “Sou o homem mais feliz do
Universo”.61 O jogador também disputou jogos em Paris, Hamburgo, Bremen e Berlim,
onde teve contacto com os melhores tenistas estrangeiros.
Foi campeão nacional de pares em 1939, fazendo dupla com Alberto Nunes de
Matos, repetindo o triunfo em 1952, com José Roquette.
Só em 1947, com 41 anos, cumpriu o seu sonho de ser campeão de Portugal
em singulares. Foi quatro vezes finalista da mais importante prova nacional: em 1932
perdeu frente a António Casanovas, no campeonato nacional disputado no Porto; no
ano de 1933, nos courts das Laranjeiras, cedeu perante Domingos Avillez; e também foi
derrotado por José Roquette.
Era considerado por muitos o melhor jogador nacional da sua geração. Em
simultâneo, foi classificado pela FPLT como o melhor tenista português da 1.ª categoria
em 1933. Para o cronista Samagaio, Vasco Horta e Costa era “o jogador que melhor
sabe jogar, o que mais mecaniza a raquete e a bola e o que melhor sabe o que quer
dentro do court”.62
O ténis é um desporto em que a parte mental tem muita influência no desenrolar
dos matches. O temperamento nervoso impediu Horta e Costa de alcançar mais troféus
(“Pena é que muitas vezes não possa dominar os seus nervos”63). Existem diversos
relatos que mostram o jogador a ceder à pressão em jogos cruciais e em momentos de
superioridade, como é exemplo a derrota em casa no campeonato de Portugal de 1932.
Além de ser um excelente jogador, Vasco também exerceu funções como árbitro.
Por exemplo, em 1932, ajuizou a final da Taça Início, entre Luiz Megre Bessa, do Futebol
Clube do Porto e M. Teixeira Lopes, do Académico. No campeonato nacional de 1934,
60 O Comércio do Porto.
61 Ténis & Golf, 10, 03/06/1933, 1.
62 Samagaio, “O Porto-Lisboa e os Campeonatos Nacionais”. Sporting, 895, 16/07/1932, 14.
63 Fred, “PORTO-LISBOA”, 8.
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Costa, Diogo. “O Ténis no Porto (1925-1934)”. Omni Tempore. Encontros da Primavera 2016, 2 (2017): 277-303.
realizado nos courts do Velo Clube, Horta e Costa foi arbitrar um encontro após perder
a meia-final com António Casanovas por 2-6, 6-3 e 6-1.64
Vasco Horta e Costa era indubitavelmente a figura maior do ténis do Porto e um
dos maiores jogadores nacionais. Todavia, há outros tenistas com muito valor entre
1925 e 1934.
Miguel Horta e Costa, irmão de Vasco era um bom jogador de doubles,
ganhando muitos torneios com o seu irmão. Os irmãos Bull também elevaram o ténis
portuense ao mais alto nível, sobretudo quando jogavam em conjunto (conquistaram 4
vezes a Taça D. Manuel por exemplo), onde sobressaíam os serviços e o drive diagonal
de Harry Bull e o eficiente jogo a meio court de Eduard Bull. Este último também era um
bom jogador de singulares, vencendo por duas vezes a Taça Sporting e perdendo outras
duas finais.
Os filhos de Fernando Nicolau de Almeida, Manuel e Fernando Nicolau d’
Almeida Júnior, também eram excelentes praticantes da modalidade. Manuel Nicolau
de Almeida, dotado de um drive regular e uma esquerda notável, venceu a Taça Início
e o troféu John Wisden no ano de 1931, juntamente com Alberto Matos, jogador com
quem fez parceria na conquista da Taça D. Manuel, em 1934.
Manuel Matos (campeão nacional de segundas categorias em 1934), Manuel
Brito e Cunha (um bom jogador de pares graças ao seu jogo de rede), Luiz Megre Beça
(vencedor da Taça Início em 1932) e António Ramos Pinto Calem (que tinha um jogo
bastante completo e triunfou por diversas vezes no campeonato anual de singles do F.
C. do Porto) eram outros tenistas de muita valia.
De salientar que as condições de jogo neste período eram muito diferentes das
actuais. Os jogadores eram amadores, sendo poucos os que praticavam a modalidade,
jogavam de calças e as raquetes eram mais pesadas. O número de torneios também
era escasso.
64 “Aspectos e impressões dos Campeonatos Nacionais”. Ténis & Golf, 34, Agosto de 1934, 5.
65 Vaz, O ténis, 81.
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Conclusão
A criação da Federação Portuguesa de Lawn-Tennis em 1925 foi o primeiro
passo para um desenvolvimento sustentado do ténis em Portugal, porque permitiu a
regularização do ténis e fez aumentar o número de competições, de associações e de
clubes no país. Em simultâneo, o número de praticantes e de adeptos do ténis cresceu.
O ténis portuense também acabou por ter uma evolução positiva nesta fase,
sobretudo nos finais dos anos de 1920, com o aumento do número de clubes de ténis.
E a imprensa apresentou-se um veículo importante na propaganda deste desporto.
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Costa, Diogo. “O Ténis no Porto (1925-1934)”. Omni Tempore. Encontros da Primavera 2016, 2 (2017): 277-303.
Fontes
Fontes hemerográficas
O Comércio do Porto. Porto, 1925-1934.
Desportos Elegantes. Lisboa, Janeiro de 1932.
Sporting. Porto, 1925-1934.
Ténis: Esgrima, Golf, Hipismo, Náutica, Tiro, etc. Lisboa, 1930.
Ténis & Golf. Lisboa, Fevereiro de 1932-1937 e 1950.
Bibliografia
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2001.
Magalhães, João de Noronha e Távora; Oliveira, Rodrigo Ortigão de. Lawn Tennis Club
da Foz (1903-2003). Porto: Nova Lello, 2004.
Martins, Castro (coord.). O Ténis: das origens até a actualidade. Lisboa: Pluripress,
1995.
Neves, José; Domingues, Nuno (coord.). Uma História do Desporto em Portugal.
QuidNovi, 2011.
Vaz, Manuel da Fonseca. O ténis. Lisboa: Direcção-Geral da Educação Permanente,
1973.
— O ténis em Portugal. Lisboa: União Gráfica, 1981.
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