Classicismo
Estela Alves Dias
O século XV traz o ser humano para o centro dos viveu em situação de pobreza após o retorno das
acontecimentos, relegando para segundo plano o Índias, trazendo sua maior obra na bagagem: os
Deus todo-poderoso do período medieval. Essa Lusíadas.
mudança de mentalidade, que se iniciou com o
Humanismo, chega ao apogeu com o Renascimento. Épica camoniana
O contexto histórico que propiciou o surgimento do Os lusíadas é a grande
Renascimento foi marcado por uma série de obra do Classicismo
acontecimentos, como as navegações e os português. Publicada
descobrimentos, no final do século XV; a formação pela primeira vez em
dos Estados modernos; a Reforma Protestante, em 1572, seu enredo baseia-
1517; a Revolução Comercial, iniciada no século XV; o se em um acontecimento
fortalecimento da burguesia comercial, entre outros histórico: a viagem de
acontecimentos que acentuaram o declínio da Idade Vasco da Gama, grande
Média, dando origem à Era Moderna. explorador português, às
Classicismo é o estilo artístico mais Índias. Foi por conta
representativo do processo histórico conhecido dessa expedição que Portugal tornou-se líder da
como Renascimento. Nesse momento, houve corrida marítima pelo controle das especiarias na
uma revalorização da cultura da Antiguidade – Europa. Ao longo do poema, Camões insere o
que passou a ser chamada de clássica – com foco protagonista, Vasco da Gama, como Narrador não
no antropocentrismo. A obra de Camões surgiu apenas de sua própria viagem, mas de outros
em Portugal nesse contexto. importantes momentos da história portuguesa.
O Classicismo português veicula a visão
“As armas e os Barões assinalados
renascentista de mundo, apresentando novas
concepções a respeito da atividade humana na Que, da Ocidental praia Lusitana,
Europa, a partir do século XV. O renascimento, por sua Por mares nunca de antes navegados
vez, abraça o legado artístico e filosófico da
Antiguidade greco-romana em favor da cultura Passaram ainda além da Taprobana,
antropocentrista, em que o ser humano se transforma Em perigos e guerras esforçados,
no centro da existência. Nesse sentido, Camões é o
Mais do que prometia a força humana,
grande autor desse período em Portugal.
A arte do movimento classicista passa a valorizar E entre gente remota edificaram
formas bem definidas, a racionalidade e ideais eterna, Novo reino, que tanto sublimaram;”
como Amor, Justiça e Honra.
Algumas características: antropocentrismo,
A estrutura de Os lusíadas
clareza, harmonia, linearidade, razão, preocupação
Dividido em dez Cantos que apresentam, no total,
formal e equilíbrio.
1.102 estrofes organizadas em oitava rima
(ABABABCC) — também conhecida como oitava real
Luís Vaz de Camões — e que perfazem 8.816 versos, todos decassílabos.
De acordo com seus biógrafos, Camões vivia em A divisão dos Cantos
Lisboa de forma boêmia até ser preso por agredir um ❉Proposição: trata-se da apresentação do poema,
funcionário do rei. Após ser solto, embarcou para as com a identificação do tema e do herói (constituída
Índias como soldado. Diz-se que, durante uma das pelas três primeiras estrofes do Canto I).
batalhas, teria sido ferido em um dos olhos, ainda que ❉Invocação: o poeta pede às musas que lhe deem
nenhum documento registre o fato. Nunca foi rico, “um engenho ardente” e “um som alto e sublimado”
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(estrofes 4 e 5 do Canto I). No caso de Camões, as Uma das maiores contribuições de Camões para a
musas escolhidas são as Tágides, ninfas do rio Tejo, poesia lírica em língua portuguesa são seus sonetos.
que corta a cidade de Lisboa. Soneto é uma forma fixa, eternizada na poesia de
❉Dedicatória: o poema é dedicado a D. Sebastião, Francesco Petrarca e levada a Portugal por Sá de
rei de Portugal na época em que o poema foi Miranda (1481-1558). Trata-se de uma estrutura de 14
publicado (estrofes 6 a 18 do Canto I). versos organizada em 2 quartetos (duas estrofes de 4
❉Narração: desenvolvimento do tema, com o relato versos) e dois tercetos (duas estrofes de três versos).
dos episódios da viagem de Vasco da Gama e com a Quanto a métrica, geralmente são empregados
reconstituição da história passada dos reis decassílabos, embora outras medidas sejam
portugueses (inicia na estrofe 19 do Canto I e termina possíveis. O soneto, em sua forma tradicional,
na estrofe 144 do Canto X). termina com a chamada chave de ouro, que resume
❉Epílogo: encerramento do poema. O poeta pede às sua temática em um verso final.
musas que calem a voz de sua lira, pois se encontra
desiludido com uma O Amor na poesia de Camões
Tome nota! pátria que já não O Amor, assim mesmo, com letra maiúscula, foi
A épica é um gênero merece ter suas glórias um tema importante da lírica camoniana. O tema
poético muito antigo. louvadas (estrofes 145 e amoroso perpassa a poesia de Camões por meio do
156 do Canto X). neoplatonismo. No senso comum, usamos a
Nela, narram se os
expressão amor platônico para indicar um sentimento
feitos heroicos de um
A grandiloquência é irrealizável, em que a pessoa amada ignora ser objeto
povo, geralmente em de afeição. No entanto, originalmente, Platão
uma característica das
um cenário de guerra, obras épicas. Em os desenvolveu uma filosofia segundo a qual há uma
conferindo a esses lusíadas, grandiosos diferença importante entre essência e aparência do
acontecimentos um são os feitos dos mundo. O mundo físico, ao qual temos acesso, seria
caráter mitológico ou navegadores e dos reis. apenas uma cópia do mundo essencial: o mundo das
lendário. Além disso, a própria ideias. Essa filosofia foi ressignificada por pensadores
tarefa do poeta é da idade média, que adaptarão ao cristianismo. A
descrita como lírica camoniana borda, então a lacuna que existiria
monumental (“que eu canto o peito ilustre Lusitano”). entre o Amor ideal e o amor vivido no dia a dia.
“Amor é fogo que arde sem se ver,
Lírica camoniana é ferida que dói, e não se sente;
Nem só de épica viveu a poesia camoniana. O
é um contentamento descontente,
escritor também foi responsável por alguns dos mais
belos e conhecidos poemas líricos em língua é dor que desatina sem doer.
portuguesa. Camões chegou a escrever poemas
líricos com temas e características formais da poesia
medieval utilizando gêneros como a esparsa, a É um não querer mais que bem querer;
cantiga e o vilancetes. é um andar solitário entre a gente;
Dessa forma, acrescentou novos elementos a essa
é nunca contentar-se de contente;
tradição. Porém, foi com a medida nova que ele
demonstrou todo o seu engenho. é um cuidar que ganha em se perder.
Camões produziu toda a sua obra durante o século
XVI. Sua vasta produção compreende poemas líricos,
escritos tanto na medida velha – versos de 5 ou 7 É querer estar preso por vontade;
sílabas poéticas – quanto na medida nova – versos de é servir a quem vence, o vencedor;
10 sílabas poéticas, típicos do renascimento, bem
é ter com quem nos mata, lealdade.
como o poema épico Os Lusíadas.
A medida nova ficou conhecida como a arte de
escrever poemas decassílabos, isto é, em versos de Mas como causar pode seu favor
10 sílabas poéticas. Essa forma poética foi introduzida
na Europa pelo humanista italiano Francesco Petrarca nos corações humanos amizade,
(1304-1374). se tão contrário a si é o mesmo Amor?”
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