Processos Fonológicos Análise de Aspectos Linguísticos Na
Processos Fonológicos Análise de Aspectos Linguísticos Na
MONTES CLAROS/MG
2025
Paulina Borges da Silva Santos
Montes Claros/MG
2025
Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio
convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte.
Bibliografia: f. 134-137.
Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de Montes Claros -Unimontes,
Programa de Pós-Graduação em Letras – Profissional em Letras/PPGL, 2025.
______________________________________________________________________
Profa. Maria do Socorro Vieira Coelho - UNIMONTES / Orientadora
__________________________________________________________________
Prof. Gilvan Mateus Soares - EMAC / Titular externo
___________________________________________________________________
Profa. Ros’elles Magalhães Felício - UNIMONTES / Titular interno
__________________________________________________________________
Profa. Adriana Cristina Cristianini - UFU / Suplente interno
__________________________________________________________________
Prof. José Ribamar Lopes Batista Júnior - UFPI / Suplente externo
O objeto de estudo desta pesquisa são os aspectos linguísticos do português brasileiro nas
produções textuais de alunos do 8º ano do Ensino Fundamental II. Para desenvolver a pesquisa,
definiu-se como objetivo geral analisar estes aspectos, visando a aprimorar a proficiência escrita
daqueles discentes. A investigação se fundamentou nos pressupostos teóricos da fonética,
fonologia e Sociolinguística Educacional, além dos documentos normativos do ensino da língua
portuguesa. A metodologia utilizada incluiu a pesquisa bibliográfica, documental e os
pressupostos da pesquisa-ação, com abordagem qualitativo-quantitativa, estruturando a
investigação em duas etapas: diagnóstica e proposta de ensino. Na primeira etapa, aplicamos
duas atividades de produção textual escrita, por meio das quais identificamos e analisamos
desvios de escrita em relação à norma padrão. A análise dos dados revelou que tais desvios
estavam relacionados aos processos fonológicos de apagamento, acréscimo e substituição Na
etapa seguinte, desenvolveu-se uma proposta de ensino que incluiu atividades orientadas para
sanar os equívocos nos fenômenos linguísticos detectados, como o alçamento vocálico e o
apagamento. Além disso, ministrou-se um minicurso sobre variação linguística e adequação da
fala e da escrita em diferentes situações comunicativas. Após a aplicação da proposta de ensino,
os resultados apontaram que, se comparadas ao diagnóstico inicial, as ocorrências errôneas de
uso da língua haviam diminuído consideravelmente. Esses dados atestaram que práticas de
escrita, reescrita e análise das próprias produções ajudavam os alunos a reconhecerem e a
evitarem a interferência de traços da fala na escrita formal. Concluiu-se que a relação teoria-
prática pedagógica pode transformar a realidade escolar, promover avanços na competência
escrita e impactar, positivamente, o contexto educacional. Para isso, o professor deve estar
atento aos fenômenos linguísticos que influenciam a escrita, utilizando-os como ferramenta
para captar as dificuldades dos discentes e aprimorar seu ensino da modalidade escrita da língua
pátria.
The linguistic aspects of Brazilian Portuguese in the textual productions of students of the 8th
grade of Elementary School II constitute the object of study of this research. Theoretical
assumptions of phonetics, phonology and educational sociolinguistics in addition to the
normative documents ruling the teaching of the Portuguese language supported our
investigation. Methodology included bibliographic and documentary research and the
postulates of action-research, under a qualitative-quantitative approach. We divided the
investigation into two stages: diagnosis and the presentation of the teaching proposal. In the
first stage, we applied two textual writing activities, through which we identified and analyzed
deviations in writing in relation to the standard norm. The data analysis revealed that such
deviations were due to phonological processes of erasure, addition and assimilation. In the
second stage, we developed a teaching proposal that included activities aimed at correcting
mistakes in the linguistic phenomena detected, such as vowel elevation and erasure. In addition,
we gave a mini course on linguistic variation and on the adequacy of speech and writing in
different communicative contexts. After the application of the pedagogical teaching proposal,
results revealed that when compared to the initial diagnosis, the erroneous occurrences of
language use decreased. These data attested that writing, rewriting and analysis practices of
students own productions help them recognize and avoid the interference of speech traces in
formal writing. We concluded that the relationship between theory and pedagogical practice
can transform school reality, promote advances in writing, and positively impact the teaching
context. For this, the teacher must be aware of the linguistic phenomena that influence writing,
using them as a tool to detect the difficulties of students and improve the teaching of writing in
the native language.
Figura 3 - Capa do livro didático “Se liga na língua: leitura, produção de texto e linguagem”
.................................................................................................................................................. 66
Figura 4 - Página do capítulo 8 do livro didático “Se liga na língua: leitura, produção de texto
e linguagem” ............................................................................................................................. 67
Tabela 3 - Resultado dos desvios de escrita detectados nas produções da Proposta de Práticas
de Ensino ................................................................................................................................ 122
Tabela 4 - Resultados dos processos fonológicos detectados nas atividades da PPE ........... 124
Tabela 5 - Resultados dos desvios de escrita detectados nas duas etapas da pesquisa........... 129
LISTA DE GRÁFICOS
1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 17
3 METODOLOGIA ................................................................................................... 57
3.1 Contexto de pesquisa ............................................................................................... 57
3.2 Perfil dos participantes da pesquisa ...................................................................... 61
3.3 Metodologia e procedimentos metodológicos........................................................ 61
1 INTRODUÇÃO
A aquisição da língua escrita constitui um grande desafio, tanto para alunos quanto para
professores. Para estes o desafio está em desenvolver habilidades que resultem na escrita
proficiente dos alunos. Para os alunos, o desafio é escrever coesiva e coerentemente, seguindo
os padrões linguísticos exigidos pelo mundo letrado. É importante ressaltar que o domínio da
escrita em sociedades letradas e tecnológicas torna-se crucial para garantir, em outros aspectos,
sucesso social, uma vez que muitas formas de comunicação são influenciadas pelo uso da língua
e pelo acesso à norma culta.
Durante nossa prática docente, observamos que ainda enfrentamos desafios para o ensino
da língua portuguesa, sendo um dos principais a necessidade de criarmos estratégias para
trabalhar com os traços da fala que interferem na modalidade escrita dos alunos do 8º ano da
Escola Estadual João Alves dos Santos, situada no distrito de Campo Redondo, no município de
Varzelândia, Norte de Minas Gerais. Entendemos que é preciso nos atentarmos para a
interferência das variantes dialetais no processo da escrita, com vistas a desenvolvê-la nas
produções dos referidos alunos, conforme a variedade padrão.
Nesse sentido, propomo-nos a analisar aspectos linguísticos do português brasileiro
detectados nas produções textuais de alunos da turma referida anteriormente, com ênfase nas
marcas dialetais transpostas da fala para a escrita, e que são frequentemente interpretadas como
desvios ou erros ortográficos. A escolha pelo tema deste trabalho foi motivada pelas observações
diárias em sala de aula, quando percebermos que os alunos não conseguiam, ao final da segunda
etapa do Ensino Fundamental, alcançar o nível de escrita esperado para os concluintes desta fase
da educação básica.
A fala e a escrita são modalidades de expressão da linguagem geralmente adquiridas em
diferentes ambientes e contextos. Enquanto a aquisição da linguagem falada ocorre de forma
natural no meio familiar, a escrita requer um processo de aprendizagem formal, pois consiste na
assimilação de determinados conhecimentos. Lamentavelmente, o ensino da escrita é muitas
vezes feito como incumbência exclusiva da escola e desconectado da realidade dos alunos.
Portanto a escola nem sempre considera o ensino e a aprendizagem desta modalidade como
habilidade motivada pelo desejo, perdendo, por isso, a oportunidade de ensinar a escrita de forma
concreta, e valorizando aspectos da língua falada em outros contextos de vivência dos alunos.
Acreditamos que é necessário que a escola adeque sua abordagem de ensino da escrita.
Infelizmente, ainda há, atualmente, uma diferença de tratamento entre os alunos que utilizam
uma variedade linguística considerada prestigiada e, por isto, avaliados positivamente, e aqueles
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que, mesmo se esforçando, não conseguem escrever de acordo com a norma-padrão estabelecida
e avaliada pela escola.
O âmago da questão está no fato de que cabe à escola a função de propiciar o aprendizado
da modalidade escrita da língua portuguesa brasileira padrão a contento. No entanto, nem sempre
os usos da língua são trabalhados de maneira adequada. Frequentemente, impõem-se métodos
rígidos que não permitem liberdade para questionar, comparar e errar. Tudo segue um único
caminho, com exercícios padronizados considerados como a melhor forma de desenvolver as
habilidades de leitura e escrita dos discentes.
Entendemos que, nesse processo, o professor precisa conhecer a realidade linguística de
seus alunos, bem como os fatores extralinguísticos que influenciam sua fala e escrita, a fim de
incluir em seu ensino do português situações didáticas orientadas ao estudo e à reflexão sobre
diversidade linguística. Dessa forma, promoverá o desenvolvimento dos alunos nos processos de
leitura e escrita, valorizando a variação linguística e desmitificando a concepção consagrada dos
termos “certo” e “errado” em relação à fala, ainda tão arraigada em nossa educação e sociedade.
É necessário que a escola utilize práticas pedagógicas que façam com que os alunos que
chegam à escola com experiências linguísticas diferenciadas tenham momentos de interação
durante os quais possam expressar seus conhecimentos, desenvolver habilidades, e adquirir
autonomia para exporem seus pensamentos, e, também, para disseminarem as tradições e
costumes culturais de sua classe social, erradicando, assim, atitudes de preconceito e
discriminação tão presentes em nossa sociedade.
Em concordância com essa perspectiva, o trabalho docente com a língua portuguesa deve
contribuir para a “formação humana integral” dos alunos, ajudando-os a entenderem como os
conhecimentos adquiridos darão suporte à sua formação social e ao exercício de sua cidadania,
quando aprenderem a dominar adequadamente as modalidades falada e escrita da língua,
utilizando-as em diferentes situações funcionais de seu cotidiano.
A Base Nacional Comum Curricular, doravante BNCC (Brasil, 2018), propõe o texto
como objeto central para a transmissão de conteúdos, que incentiva os alunos a entenderem as
melhores técnicas de uso da linguagem oral e escrita, alinhadas ao reconhecimento dos diversos
gêneros textuais contemporâneos.
O ensino da disciplina língua portuguesa nos anos finais do Ensino Fundamental,
consoante às diretrizes da BNCC, recai no desenvolvimento de uma série de habilidades e
competências as quais estimulam o aluno a ser crítico e engajado socialmente.
Devido à nossa experiência como professora de língua portuguesa, temos identificado
dificuldades, não só dos alunos na construção de sua escrita, mas, também de alguns docentes
19
para a elaboração de estratégias e tarefas que fomentem a produção dos alunos. Em decorrência
disso, é necessário identificar a influência da fala na escrita de produções textuais dos alunos do
Ensino Fundamental II, a fim de sugerir propostas de ação interventivas que subsidiem o trabalho
com o sistema da escrita em sala de aula.
Por essas razões, esta dissertação detectou e apontou aspectos que levam os alunos a
registrarem traços da fala em suas produções escritas. Identificamos habilidades das séries
iniciais que não se consolidaram e apontamos como isto comprometeu o desenvolvimento das
competências previstas para o 8º ano do Ensino Fundamental II determinadas no Currículo
Referência de Minas Gerais, doravante CRMG, (Minas Gerais, 2022) e na BNCC (Brasil, 2018).
Tais documentos definem os conhecimentos, as competências e habilidades a serem
desenvolvidos e consolidados, ao longo da escolaridade básica.
A seguir, discorremos sobre tais diretrizes, no que se refere às orientações relativas ao
trabalho docente orientado para o ensino das modalidades oral e escrita da língua portuguesa.
No que tange à BNCC (Brasil, 2018), em seu bojo encontram-se os conhecimentos a
serem adquiridos, as competências e habilidades a se desenvolverem ao longo dos anos de estudo.
O documento se orienta pelos princípios éticos, políticos e estéticos estabelecidos pelas Diretrizes
Curriculares Nacionais da Educação Básica, destacando os propósitos que norteiam a educação
brasileira e propondo uma abordagem de ensino de língua portuguesa que tem o texto como base,
como comprova o excerto do texto original:
Em outras palavras, o ensino da língua portuguesa deve partir do texto e ocorrer de forma
contextualizada, visando à atividade discursiva. Contudo, ainda é comum observar professores
utilizando o texto apenas como pretexto, priorizando atividades de memorização, realização de
cópias, fragmentos dos textos, nomenclaturas de tipologias textuais ou para ensinar gramática.
O referido documento traz a seguinte orientação sobre o ensino da língua portuguesa:
Consideração e reflexão sobre as condições de produção dos textos orais que regem a
circulação de diferentes gêneros nas diferentes mídias e campos de atividade humana:
refletir sobre diferentes contextos e situações sociais em que se produzem textos orais
e sobre as diferenças em termos formais, estilísticos e linguísticos que esses contextos
determinam, incluindo-se a multimodalidade e a multissemiose; conhecer e refletir
sobre as tradições orais e seus gêneros, considerando-se as práticas sociais em que tais
textos surgem e se perpetuam, bem como os sentidos que geram.
Compreensão de textos orais: proceder a uma escuta ativa, voltada para questões
relativas ao contexto de produção dos textos, para o conteúdo em questão, para a
observação de estratégias discursivas e dos recursos linguísticos e multissemióticos
mobilizados, bem como dos elementos paralinguísticos e cinéticos.
Produção de textos orais: produzir textos pertencentes a gêneros orais diversos,
considerando-se aspectos relativos ao planejamento, à produção, ao redesign, à
avaliação das práticas realizadas em situações de interação social específicas;
compreensão dos efeitos de sentidos provocados pelos usos de recursos linguísticos e
multissemióticos em textos pertencentes a gêneros diversos; identificar e analisar
efeitos de sentido decorrentes de escolhas de volume, timbre, intensidade, pausas, ritmo,
efeitos sonoros, sincronização, expressividade, gestualidade etc., e produzir textos
levando em conta efeitos possíveis.
Relação entre fala e escrita: estabelecer relação entre fala e escrita, levando-se em conta
o modo como as duas modalidades se articulam em diferentes gêneros e práticas de
linguagem (como jornal de TV, programa de rádio, apresentação de seminário,
mensagem instantânea etc.), as semelhanças e as diferenças entre modos de falar e de
registrar o escrito e os aspectos sociodiscursivos, composicionais e linguísticos de cada
modalidade sempre relacionados com os gêneros em questão; oralizar o texto escrito,
considerando-se as situações sociais em que tal tipo de atividade acontece, seus
elementos paralinguísticos e cinésicos, dentre outros; refletir sobre as variedades
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aula, precisa estar presente em toda a etapa da escolarização, em associação com as práticas de
linguagem. A ortografia é contemplada no Eixo da Análise Linguística/Semiótica e, segundo este
documento, sua aprendizagem e a da pontuação devem ser contextualizadas durante o
desenvolvimento da leitura e da escrita, e adotada uma abordagem associada a outros eixos de
ensino, como o da produção textual. É o que se pode verificar no trecho a seguir:
A BNCC (Brasil, 2018) define dez competências específicas para o ensino da língua
portuguesa no Ensino Fundamental, dentre as quais destacamos três em nossa pesquisa, a saber:
De acordo com o CRMG, os primeiros anos do Ensino Fundamental devem ser dedicados,
especialmente, ao processo de “alfabetizar letrando”, isto é, possibilitar ao aluno acesso às
práticas letradas e à participação nessas práticas, ao mesmo tempo em que a estrutura e o
funcionamento do sistema de escrita são explorados. Já nos últimos anos do Ensino Fundamental,
embora se conserve a preocupação com a alfabetização, enfatiza-se o trabalho com as
capacidades de leitura e produção de textos escritos e orais, bem como com os aspectos da análise
linguística necessários às práticas de ler, escrever, ouvir e falar (Minas Gerais, 2022).
Assim, o Documento Curricular de Minas Gerais (2022) orienta que o ensino do
componente língua portuguesa nos anos finais do Ensino Fundamental deve se basear em
ampliação, complexificação e maior criticidade diante das situações comunicativas já
vivenciadas, em direção às novas experiências com a linguagem. Também, o CRMG favorece o
contato dos estudantes com gêneros textuais relacionados aos diversos campos de atuação e às
várias disciplinas, sendo mais aprofundado nessa etapa o tratamento dos gêneros textuais da
esfera pública nos campos jornalístico-midiático e de atuação na vida pública.
No entanto, ainda que os documentos supracitados prevejam o domínio de tais
habilidades, nossa experiência docente apontou que algumas delas previstas para os anos finais
do Ensino Fundamental, geralmente, não são consolidadas adequadamente, comprometendo o
rendimento dos alunos nesta etapa do ensino.
Nesse sentido, de acordo com os documentos orientadores da educação no Brasil e em
Minas Gerais, para garantir o direito de aprendizagem dos educandos, é necessário que sejam
proporcionadas aos alunos atividades diversificadas, com o objetivo de garantir sua formação
como leitor, e incentivar sua participação em práticas sociais da cultura letrada. A partir disso,
os estudantes se apropriarão de conhecimentos pertinentes à prática de escrita e serão capazes de
produzir diversos gêneros textuais.
As modalidades oral e escrita da língua têm momentos distintos de utilização e maneiras
específicas de serem realizadas. Porém, em determinadas situações de interação, acabam se
entrelaçando, especialmente em textos escolares. Analisar o impacto da fala nas produções
escritas auxiliará os professores de português a refletirem sobre a melhor maneira de mostrar aos
alunos as particularidades de cada uma dessas modalidades, levando-os a reconhecerem as
diferenças entre elas, quando estiverem produzindo seus textos nos contextos adequados, para
que atinjam os objetivos de interação desejados. Cabe à escola assumir a responsabilidade de
desenvolver e implementar atividades de leitura e escrita que atendam às necessidades
específicas de seus alunos.
24
2 REFERENCIAL TEÓRICO
Neste capítulo, tratamos dos saberes pertinentes ao ensino da língua portuguesa, mais
especificamente os concernentes à fonética, à fonologia/processos fonológicos e à
Sociolinguística Educacional, ancorados nas percepções de Bagno (2007), Cagliari (1999, 2009),
Almeida e Bortoni-Ricardo (2023), Bortoni-Ricardo (2004), Faraco (2008), Roberto (2016),
entre outros. A razão da escolha por esse aporte teórico foram os importantes ensinamentos
introduzidos por esses estudiosos sobre os processos fonético-fonológicos.
[...] é o momento mais importante da formação escolar de uma pessoa, assim como a
invenção da escrita foi o momento mais importante da História da humanidade, pois
através dos registros escritos, o saber acumulado pode ser controlado pelos indivíduos.
Deve-se a esse saber acumulado pela escrita o fato de termos chegado aos meios atuais
de registro e manipulação de dados, como gravadores, videocassete e computadores
(Cagliari, 2009, p. 7).
Para o mesmo autor, ao contrário do que deveria acontecer, o domínio da escrita e o acesso
ao saber, há séculos, têm sido fontes de poder nas sociedades e privilégio das classes dominantes.
Assim, propositalmente, durante muito tempo, nem todos os indivíduos eram alfabetizados.
A primeira escola pública no Brasil foi criada em 1827, através da Lei de 1827 (Brasil,
1827), que estabelecia o ensino primário obrigatório e gratuito em todo o Império, a Escola de
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Primeiras Letras. Assinada pelo imperador Dom Pedro I, a Lei tinha como objetivo garantir a
educação básica para todos, ainda que seu acesso fosse limitado e desigual, principalmente para
as classes populares, fato que justificaria o analfabetismo ser, ainda, um sério problema no Brasil,
mesmo após 73 anos da implantação da primeira escola pública no país. No entanto, a educação
pública só se consolidaria, de fato, com um formato acessível para todos, durante o final do século
XIX e início do século XX, com outras reformas educacionais e o crescimento das cidades.
Cagliari (1999) define a alfabetização como o processo de ensinar a ler e a escrever, de
decifração da escrita, de modo que o aluno compreenda e aplique esse conhecimento em sua
própria escrita. De acordo com o mesmo autor, além dos problemas relacionados à precariedade
das escolas associadas às condições dos prédios e mobiliários, faltam recursos mínimos para o
trabalho do professor, como livros e material didático adequado, escrito ou impresso. Há, ainda,
outros problemas no ensino que poderiam ser solucionados, se o professor alfabetizador tivesse
uma formação consistente focada no ensino da escrita e da leitura, uma melhor remuneração e
boas condições de trabalho.
Ferreiro e Teberosky (1984) afirmam que a ideia de que a escrita traduz os símbolos
escritos em fala está relacionada à concepção de que ela é uma representação gráfica da
linguagem falada. Em outras palavras, conforme as autoras, a escrita serve para registrar e
comunicar os sons da fala de uma determinada língua, utilizando símbolos, como letras ou outros
sinais gráficos, para representar fonemas, palavras e frases da linguagem oral.
Esse conceito reflete a visão fonológica da escrita, segundo a qual cada símbolo (letra)
corresponde diretamente a um som da fala. Esse é o princípio básico do alfabeto, no qual as letras
representam os fonemas (unidades sonoras) da linguagem falada. Por exemplo, na palavra “casa”,
a escrita busca refletir a sequência de sons pronunciados oralmente (Ferreiro; Teberosky, 1984).
As referidas autoras enfatizam que esse processo de transcrição da fala para a escrita é central
para a alfabetização e o letramento, pois, implica a capacidade de se associarem os símbolos
gráficos às unidades sonoras da língua. Para aprender a ler e escrever, a criança precisa
compreender como os símbolos gráficos (letras) se conectam com os sons da fala, o que lhe
permitirá converter o texto escrito de volta para a forma oral, quando necessário.
É nessa direção que Cagliari (2009) sugere que a escola precisa, primeiramente, permitir
traduzir os símbolos escritos em fala, o que requer um aprendizado robusto do uso do português
nas duas modalidades e em diferentes situações sociais.
No entanto, vale esclarecer que a língua portuguesa, como muitas outras línguas, não
estabelece uma correspondência totalmente direta entre fala e escrita, devido às irregularidades
ortográficas e às variações na pronúncia. Essa falta de correspondência pode dificultar os
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discursiva na modalidade oral, que não requer equipamentos tecnológicos específicos, sendo
efetuada pelo ser humano por meio do som. Quanto à escrita, afirma que se trata de uma forma
de produção textual com características próprias. A escrita, diferentemente da fala, requer suporte
material e planejamento, sendo geralmente mais elaborada, exigindo maior grau de coesão e
envolvendo complexidade sintática. O autor ressalta que, por ser uma modalidade mediada,
muitas vezes com dispêndio de tempo de produção e revisão, a escrita nos possibilita organizar
melhor as ideias, construir argumentos e produzir significados mais densos. Além disso, ele
destaca que ensinar a escrever não deve se restringir à reprodução de normas gramaticais, mas
sim envolver a construção de sentidos em diferentes gêneros e contextos discursivos.
Consoante os estudos feitos nesta pesquisa, compreendemos que a aprendizagem da
escrita é bastante complexa e, muitas vezes, reiteremos, orientada por questões fonéticas e
fonológicas. Sabemos que a fala antecede à escrita, já que é por meio dela que as pessoas se
comunicam, interagem e constroem sua identidade, sem, necessariamente, utilizar a escrita.
Todavia, é através da escrita que registramos e preservamos dados de nossa cultura e história.
Indubitavelmente, a escrita ocupa um lugar de destaque, tanto que seu domínio pode
resultar em ascensão e prestígio sociais. Contudo, apesar da importância da escrita e de ela ser
ensinada sistematicamente nas escolas, evidenciamos que, não raras vezes, o aluno chega ao final
da educação básica sem conseguir se apropriar proficientemente das regras que gerenciam a
escrita. Por conta desse insucesso, torna-se mais vulnerável, e tende a se evadir da escola.
A educação linguística é primordial, visto que a escola é uma instituição formadora que
pode oferecer aos falantes subsídios que os tornem competentes, tanto na modalidade da fala
quanto na da escrita. Travaglia (2011) acredita que, para se ensinar uma língua, é imprescindível
apontar as diferenças entre escrever e falar, para que a escrita não seja apenas uma simples e
mera transposição da fala, porquanto, caso isso não seja feito, a comunicação pode ficar
comprometida em um contexto no qual a modalidade escrita for a forma adotada e adequada.
Normalmente, a transposição dos traços da fala para a escrita não altera o conteúdo da
mensagem, ou seja, o significado fica preservado, como no caso da exclusão de uma semivogal
em “robo” (roubo), “queijo” (quejo) ou da inserção de uma semivogal em “rapaiz” (rapaz)
(próprio do dialeto carioca), ou em “pensameinto (pensamento) (comum no dialeto paulista).
Porém, na escrita, em contextos muito específicos ou técnicos, a inserção de um segmento em
uma palavra, como a letra “i”, na conjunção adversativa, “mas” (mais), altera seu valor semântico
e sua classe gramatical, convertendo seu sentido de oposição como conjunção coordenada
adversativa para o de advérbio com sentido de intensidade ou adição.
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precisa de orientação para dominar a norma ortográfica. O autor destaca que as normas
ortográficas, mesmo quando respaldadas por regras, são resultado de decisões arbitradas
socialmente, ou seja, foram estabelecidas por acordo, inclusive nos casos em que há justificativas
para a escolha de uma letra em detrimento de outra.
Segundo o mesmo autor, o professor deve propiciar o contato dos alunos com diversos
materiais escritos. Precisa, também, fazer um trabalho sistemático, abordando os deslizes e as
dificuldades ortográficas apresentadas pelos alunos nas suas produções escritas, reservando
momentos específicos para o ensino e a aprendizagem da ortografia. Também deve propor
atividades reais e significativas de leitura e produção com vários gêneros textuais. Essas
atividades podem ser organizadas em momentos de escrita, reescrita e revisão dos textos
direcionados para a realidade do aluno e visando a contribuir para “[...] a meta de formar na
escola cidadãos leitores e produtores de textos” (Morais, 2010, p. 126).
Salientamos que, muitas vezes, devido à falta de domínio da escrita, os educandos
incorporam elementos típicos da fala, outra modalidade da mesma língua utilizada em seu meio
social. É comum eles suprimirem o “m” e o “n” (marcas de nasalização) e, por exemplo,
pronunciarem as palavras também e onde como [tabem] e [ode].
Em síntese, neste texto, descrevemos e analisamos como a fala influencia a produção
escrita dos alunos, buscando, ainda, meios de sanar tais ocorrências.
Na próxima seção, apresentamos algumas contribuições da fonética e da fonologia para
o ensino de língua portuguesa, especialmente no que se refere à observação dos aspectos
linguísticos presentes na escrita de alunos do Ensino Fundamental II.
manifestações ortográficas não devem ser avaliadas como erros, mas como tentativas de acerto,
e que os desvios de escrita apresentados pelos alunos devem servir como base de reflexão para
nortear o trabalho do professor no processo de ensino da escrita.
É irrefutável que o estudo da fonética e da fonologia oferece inúmeras contribuições para
o ensino e para a aprendizagem da língua portuguesa, especialmente no que diz respeito à
aquisição da escrita. Contudo, há lacunas na abordagem sistemática desses campos linguísticos,
sobretudo, na formação dos professores. Isso ocorre, porque os professores dos anos iniciais do
Ensino Fundamental responsáveis pela introdução à aprendizagem da escrita são
majoritariamente graduados em pedagogia, mas fonética e fonologia, geralmente, não são
disciplinas da grade curricular desse curso de graduação.
Essa lacuna do currículo pode resultar na não utilização de uma prática educativa que
detecta as razões das dificuldades dos alunos na escrita, do que ainda não foi assimilado por eles,
e dificulta qualquer ação para ajudá-los a superar esses desafios. Isso reflete, negativamente, no
ensino do português e, consequentemente, na aprendizagem. Propugnamos, por isso, que os
currículos dos cursos de pedagogia incluam as disciplinas fonética e fonologia para uma
formação acadêmica efetiva dos pedagogos, e para que eles estejam melhor preparados para lidar
com situações que demandem tais conhecimentos.
De acordo com Cagliari (2009), a fonética concentra-se na análise e no reconhecimento
dos sons da fala, ou seja, de como eles são produzidos na realidade. Já a fonologia destaca-se por
abordar o desempenho da letra nas palavras, os aspectos distintivos do som. Trata, pois, dos
fonemas. Diferentemente da fonética, que lida com as variações naturais na produção dos sons
nas diferentes falas, a fonologia busca analisar a letra nas palavras. Um exemplo disso é a letra
“c” que possui dois fonemas /k/ e /s/, como nas palavras “casa”, em que o fonema é /k/, e na
palavra “doce”, na qual o fonema é /s/.
Conforme Silva (2007, p. 23), a fonética “[...] é a ciência que apresenta os métodos para
a descrição, classificação e transcrição dos sons da fala, principalmente aqueles utilizados na
linguagem humana”. Já à fonologia cabe investigar “[...] a distribuição dos sons e o contraste
entre eles, com ênfase na organização dos sistemas sonoros” (Silva, 2007, p. 110).
Nesse contexto, Seara, Nunes e Volcão (2011) explicitam como um trabalho com a língua
materna baseado na Linguística com foco na fonética e na fonologia nos anos iniciais, pode
colaborar para o letramento eficiente. Demonstram, ainda, a pertinência dos conhecimentos da
fonética para os profissionais que atuam no processo de aquisição da linguagem e como o
combate ao preconceito linguístico está diretamente associado ao conhecimento de aspectos
fonéticos.
33
[...] o que, afinal, a Fonética e a Fonologia têm a ver com tudo isso? Ora, ambas são
áreas que estão diretamente envolvidas com o processo de alfabetização/letramento. Se
nós queremos que os índices de letramento aumentem, e, com isso, asseguramos o
direito do cidadão a ter acesso ao mundo letrado, é preciso que olhemos para todos os
elementos que podem influenciar no desempenho dos alunos. A partir do momento em
que começamos a refletir sobre as letras, sobre a relação entre grafemas e fonemas e o
papel que ocupam na palavra, na frase e no discurso, começamos a repensar o modo
como ensinamos, ou o modo como podemos aprender a ler e a escrever (Seara; Nunes;
Volcão, 2011, p. 166).
É claro que, quando se trata de alfabetização, não é apropriado ensinar todos os aspectos
da fonologia. O ensino precisa ocorrer em todas as etapas do ensino primário e
secundário. Porém, existem algumas técnicas fonéticas que certamente serão de grande
interesse para os alfabetizadores, por meio das quais eles poderão desenvolver
atividades que motivem seus alunos, além de ensinar como funcionam determinados
fatos da linguagem (Cagliari, 2009, p. 75).
Para promover essa abordagem, o educador pode explorar textos infantis tradicionais e
contemporâneos da tradição oral, bem como situações lúdicas como jogos e brincadeiras.
Exemplos disso são o trabalho com as parlendas, cantigas e trava-línguas que pode ser fecundo
nesse processo de alfabetização e de apresentação de aspectos fonético-fonológicos, pois explora
a escrita e pronúncia das palavras, destacando os fonemas e grafemas. Sob este prisma, os textos
são utilizados para brincar com a língua, permitindo aos alunos refletirem sobre as modalidades
oral e escrita e, ao desenvolverem seu repertório lexical, podem criar novos textos inspirados nos
já conhecidos. Nessa proposta, o professor pode ensinar, quando necessário, orientando os alunos
a focarem nos sons iniciais e finais das palavras.
Ainda sob esse ponto de vista, todo professor da área de linguagem precisa ter esse
conhecimento para disseminar o aprendizado de forma mais eficaz. Os docentes, principalmente
aqueles que lidam com a alfabetização, podem não ter consciência do conceito e dos diferentes
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fones 1 da língua portuguesa e, portanto, ignorar a fala dos alunos, que possuem uma variedade
diferente da região onde ele ou mesmo outros discentes vivem. É nesse contexto que o
preconceito linguístico 2 pode emergir.
Nesse sentido, podemos observar, por exemplo, as ocorrências com o /t/, no contexto de
“i”, como em [‘potʃi] “pote” e [‘poti] “pote”, em que o [tʃ] ocorre na maior parte das regiões do
Brasil, enquanto o [t] predomina em alguns estados e cidades do Norte e Nordeste brasileiros.
Nesse caso, as ocorrências são alofones 3 do /t/, ou seja, variações do mesmo fonema, que ocorrem
na fala, mas na escrita são grafados com a mesma letra. O mesmo ocorre com os diferentes fones
da letra /r/, principalmente com as ocorrências do retroflexo [ɹ], bastante presente em variedades
do português menos prestigiadas socialmente, e comumente chamadas de “r” caipira, sendo, por
isto, estigmatizadas. Desse modo, precisamos conhecer os princípios da fonética e da fonologia
que subsidiam a percepção da complexidade da alfabetização e da aprendizagem da escrita, uma
vez que, sabemos, há diferenças notórias entre fala e escrita.
Cagliari (2009, p. 53) enfatiza que “[...] o aluno pode escrever “talveis” (talvez), mas não
escreve “eileifante” (elefante); não escreve “vei” (vê), mas escreve “veis” (vez). Com isso, o
autor chama atenção para o fato de que o estudante não erra de forma aleatória, mas age conforme
suas hipóteses linguísticas em formação. Ainda segundo o autor, é comum que o professor, ao se
deparar com essas produções, julgue que o aluno é distraído ou incapaz de discriminar, aprender,
memorizar ou se concentrar. No entanto, Cagliari adverte: “Ele se concentra e reflete mais do
que se possa pensar. E, quando é injustamente criticado pelo seu esforço, desilude-se com a
escola, ou tenta aprender apesar dela” (CAGLIARI, 2009, p. 53).
Compreender a produção escrita das crianças requer, portanto, que o professor seja capaz
de identificar as hipóteses construídas pelos alunos e as reflexões que fazem ao escrever. Para
isso, é fundamental que o docente observe atentamente a fala da criança, pois, somente assim,
poderá cumprir, de fato, seu papel como mediador do processo de aprendizagem.
1
De acordo Oliveira (2005), fones são os sons que produzimos na fala. Esses fones se agrupam em duas grandes
classes: os consonantais e os vocálicos. Os sons vocálicos são aqueles em que não se coloca nenhum impedimento
à corrente sonora na cavidade bucal. Os sons consonantais são aqueles em que algum tipo de impedimento, seja
ele total ou parcial, é colocado à corrente sonora na cavidade bucal.
2
Para Bagno (2015), o termo preconceito designa uma atitude prévia que assumimos diante de uma pessoa (ou de
um grupo social), antes de interagirmos com ela ou de conhecê-la, uma atitude que, embora individual, reflete as
ideias que circulam na sociedade e na cultura em que vivemos. Assim como uma pessoa pode sofrer preconceito
por ser mulher, pobre, negra, indígena, homossexual, nordestina, deficiente física, estrangeira etc., também podem
receber avaliações negativas por causa da língua que fala ou do modo como fala sua língua.
3
De acordo Seara, Nunes e Volcão (2011), os alofones são os sons que não distinguem o significado das palavras e
são apenas variantes de um mesmo fonema. A representação dos variantes alofones é mostrada entre colchetes [
]. Nos dialetos mineiro e carioca, por exemplo, o fonema /t/ realiza-se foneticamente como [t] ou [tʃ], a depender
da posição em que ocorre na palavra. [tʃ] ocorre diante da vogal [i], como em “tia” ['tʃia] ou
“latim” [la'tʃĩ] e [t] diante das demais vogais (“tua” ['tua], “tombo”['tõbu]).
36
Ainda segundo o referido autor, conhecemos muito pouco sobre a fala do português
brasileiro e, frequentemente, temos noções equivocadas a seu respeito. Ele enfatiza que o ensino
escolar da língua gira em torno da escrita e que, consequentemente, a gramática normativa se
torna prerrogativa da modalidade escrita, mesmo quando tenta abordar aspectos que pertencem
37
exclusivamente à fala. Tal postura é prejudicial ao ensino de língua, pois nem sempre a escola
reconhece claramente o que pertence à fala e o que pertence à escrita. O autor destaca ser
necessário compreender que “[...] numa língua existem valores sonoros diferentes para cada
símbolo alfabético, e a ortografia por si só não nos dá uma orientação clara sobre a pronúncia da
língua e seus dialetos” (Cagliari, 2009, p. 45). Sobre isso, o autor complementa afirmando que
“[...] essa relação não ocorre necessariamente na escrita ortográfica, uma convenção que já se
afastou muito da relação letra-som” (Cagliari, 2009, p. 45).
Cagliari (2009) enfatiza que dividir as letras do alfabeto em vogais e consoantes só faz
sentido se essas letras remeterem a sons que na fala podem ser classificados como vogais e
consoantes, segundo a descrição fonética. Na escrita, essa divisão tem a única função de
marcação de tipos diferentes de letras, possibilitando regras de segmentação gráfica. Conforme
o autor, “na fala, vogais e consoantes são tipos diferentes de modos de articulação”. Como
exemplo do uso de vogais e consoantes, e, no sentido de esclarecer que, na escrita, ambas têm
significado e função diferentes de seu uso na fala, o autor nos traz a seguinte explicação: “[...] se
escreve “optar” e se pronuncia “opitar”, se escreve “lápis” e se diz “laps”, se escreve “caixa e se
diz “caxa”, se escreve “boa” e se pode dizer “boua” etc.” (Cagliari, 2009, p. 49).
O autor reitera que, para relacionar fatos da fala com os da escrita, é necessário, do lado
da fala, estabelecer que o dialeto será tomado como base, e, do lado da escrita, é preciso distinguir
o sistema da escrita e da ortografia (convenção sobre as possibilidades de uso do sistema de
escrita de modo que as palavras tenham um único modo de representação gráfica). Nessa relação
entre sistema de escrita e ortografia, Cagliari (2009) exemplifica que o primeiro permite que se
escreva, por exemplo “disi” e “pechi”, porém a ortografia obriga que se escreva “disse” e “peixe”.
Geralmente, no ensino do português perpetuado nas cartilhas, nos livros didáticos e nas
gramáticas, as vogais são “a”, “e”, “i”, “o”, “u”, porém, já percebemos que se está falando do
sistema de escrita do português e não da fala, porque observamos situações que só ocorrem na
escrita ortográfica. Na fala, a realidade é diferente: em palavras que começam com a vogal “e”,
por exemplo, escreve-se “escada”, mas pronuncia-se “iskada”. Muitas vezes, as crianças que
fazem a todo instante essa relação entre fala e escrita, encontram dificuldades e cometem “erros”
na escrita.
Quanto ao processo de ensino das consoantes, há situações em que a aprendizagem desses
segmentos é complicada. As crianças, muitas vezes, não distinguem os sons surdos de sonoros
como /p/e /b/, /f/ e /v/, /t/ e /d/ e acabam confundindo-os também na sua escrita. A distinção entre
consoantes surdas e sonoras depende ainda do dialeto que a criança fala, pois, para um aluno a
palavra pode conter um [b] ou [d] e para outro um [p], um [t], dependendo das variações dialetais,
38
o que dificulta a aprendizagem da ortografia das palavras. Cagliari (2009) pontua ser primordial
que os professores saibam ouvir as crianças, para entenderem melhor o que elas escrevem, e para
mostrar-lhes que em todo lugar há vários modos de se falar e cada modo é próprio para
determinadas circunstâncias.
Segundo Cagliari (2009), outro aspecto da fala importante para compreendermos a
relação entre fala e escrita relaciona-se à juntura. A estrutura fônica das palavras pode sofrer
alterações quando juntamos uma palavra à outra ou separamos as sílabas de uma única palavra.
No ensino de língua portuguesa, a juntura é um fenômeno que apresenta implicações relevantes,
não apenas para a compreensão do funcionamento da fala, mas também para o entendimento de
muitos dos “erros” de escrita cometidos pelos alunos. O autor salienta que a juntura pode
envolver até três vogais, como nestes exemplos: casa amarela – “kazamarela”; todo amigo –
“toduamigu”; toda a amizade – “todamizadi”.
Outro tipo de problema, que segundo Cagliari (2009) envolve as vogais e consoantes e
suas relações com as letras da escrita, são as diferentes formas lexicais de palavras, dependendo
do dialeto do falante. Essas formas lexicais são usadas pelas crianças para identificar as palavras
na escrita, mas fogem da forma ortográfica, revelando na escrita a forma fonética e a constituição
lexical de palavras em seus dialetos. Como exemplo: pizza – “pitsara ou pitsa”; fósforo – “forsu
ou fosforu”; você – “ose ou vose”. Diante de tais ocorrências, a escola precisa valorizar o estágio
do aprendizado da escrita pela criança e fazer disso objeto de atividades futuras.
Nesse contexto, o trabalho com textos espontâneos é fundamental para que as crianças
façam corretamente a passagem da fala para a escrita e da escrita para a ortografia. Desse modo,
elas entenderão como a fala e a escrita funcionam, como os dialetos operam, como, em uma
classe, há falantes de diferentes dialetos e quando se usa cada tipo de dialeto. Porém, para isso,
segundo Cagliari (2009, p. 62): “[...] é preciso que a professora saiba o que está acontecendo e o
que está fazendo.”
O mesmo autor nos apresenta a questão do ritmo, enfatizando a postura da alfabetização
tradicional que tem como unidade básica a sílaba. Cagliari (2009) aponta que o português não é
uma língua de ritmo silábico, mas acentual, e as sílabas apresentam durações variáveis que se
ajustam em suas durações reais. Estimular os alunos a aprenderem como se nossa língua fosse
de ritmo silábico é induzi-los a modificar sua fala natural, formando leitores que leem silabando
as palavras, em vez de pronunciá-las no ritmo normal.
Para concluir, Cagliari (2009) nos traz outro exemplo da confusão que a escola faz entre
a escrita e a fala, que diz respeito à tonicidade. O autor afirma que a escrita não tem silabas
tônicas e nem átonas. Para ele, a tonicidade é uma unidade do sistema rítmico da fala e se realiza
39
na fala somente em função desse sistema. Assim, se soletrarmos as sílabas com durações iguais,
não se produzirá a sílaba tônica nem a átona.
O autor destaca que, com frequência, os acertos dos alunos não recebem a devida atenção,
sendo tratados como algo esperado e sem relevância. Em contrapartida, os erros costumam ser
fortemente penalizados nas avaliações escolares. Segundo ele, essa postura rígida da escola em
relação à ortografia precisa ser transformada com urgência. Além disso, ressalta que a análise
dos erros deve ir além de simplesmente identificar como e por que os estudantes os cometem; ela
deve, sobretudo, servir como subsídio para que os professores interpretem os desvios presentes
nos textos de seus próprios alunos e possam planejar estratégias de ensino mais eficazes.
Assim, como professores de língua portuguesa, precisamos compreender e explicar aos
nossos alunos que a fala e a escrita representam realidades diferentes da língua. Ainda que
estejam intimamente interligadas em sua essência, possuem uma realização própria e
independente nos usos da língua. Como ressalta Cagliari (2009, p. 36), “[...] o professor de
Português tem que ser um profissional competente, tem que conhecer profundamente a Língua
Portuguesa”.
a) assimilação:
• os segmentos se tornam mais semelhantes, ou seja, um segmento assume os traços
distintivos de um segmento vizinho. Exemplo: como ocorre na palavra “menino”, pois
as vogais se assemelham, quando as médias se elevam, transformando-se em altas
[mi' ninʊ];
b) estruturação silábica:
• presença de alteração na distribuição das consoantes e vogais, podendo ser inseridas
ou eliminadas. Dois segmentos podem, então, juntar-se, transformando-se em um
único segmento, ou pode haver permuta entre eles. A estrutura silábica básica é CV,
e muitos processos se aplicam a estruturas silábicas mais complexas, transformando-
as no padrão CV. Nesse caso, isso pode ocorrer, quando em grupos consonantais uma
das consoantes é eliminada, como na pronúncia da palavra “livro”, na qual se elimina
o tepe 4, pronunciando-a como ['livu]. Aqui a sílaba final CCV se transforma em CV,
com a eliminação de uma consoante;
4
De acordo Seara, Nunes e Volcão (2011), o tepe (ou tap) é um modo de articulação das consoantes produzida com
uma oclusão total e rápida do fluxo de ar nas cavidades orais. O som [Ր] apresenta uma oclusão percebida como
41
c) enfraquecimento e reforço:
• os segmentos são modificados segundo sua posição na palavra. Por exemplo, em
palavras proparoxítonas (acento recai na antepenúltima sílaba a contar do final da
palavra), a penúltima vogal pode desaparecer, transformando a palavra em uma
paroxítona. É o que se vê na palavra “fósforo”, pronunciada como ['fɔsfɾʊ]. Nesse
caso, ocorreu síncope, uma vogal próxima a outra acentuada foi eliminada. Segundo
as autoras, outro exemplo desse processo é aquele em que vogais fortes (acentuadas)
sofrem ditongação, por exemplo, nas palavras monossilábicas terminadas por
sibilantes, como “três” e “paz”, nas quais em certos falares no PB ocorre a ditongação,
transformando-as em [tɾejs] e [ˊpajs], respectivamente;
d) neutralização:
• os segmentos se fundem em um ambiente específico. Esse aspecto fonológico
acontece, quando em determinados contextos fônicos, a oposição entre vogais deixa
de existir. Esse aspecto acontece, por exemplo, com as vogais “e” e “i”, quando não
são acentuadas e aparecem em final de palavras, como no caso das palavras “júri e
jure”, em que as duas são pronunciadas como ['ʒuɾi].
Segundo Cagliari (2002), os processos fonológicos são as regras utilizadas para explicar
as alterações sonoras que ocorrem nas formas básicas dos morfemas (menores unidades
significativas das palavras), ao se realizarem foneticamente. No tocante à nossa pesquisa é
relevante observarmos como essas alterações sonoras em muitos casos são transpostas para a
escrita, sendo caracterizadas como erros/desvios de escrita, na medida em que se distanciam da
escrita padrão. Cagliari (2002, p. 99) postula que: “[...] esses aspectos têm nomes tradicionais e,
geralmente, apresentam um conteúdo que é aceito sem restrições pelos estudiosos”.
a) assimilação:
• processo em que um som se torna mais semelhante a outro, que lhe está próximo,
adquirindo uma propriedade fonética que ele não tinha. Como se ilustra em:
uma batida bastante rápida da ponta da língua nos alvéolos, permitindo uma oclusão total, mas extremamente
breve. Essa consoante também é conhecida como vibrante simples, por apresentar apenas essa única batida.
Exemplos: caro [kaɾʊ], prato [pɾatʊ].
42
Cagliari (2002, p. 100) afirma que “uma consoante velar se torna palatal diante de uma
vogal palatal (ou seja, vogal anterior fechada ou meio-fechada (alta ou meio-alta")”.
b) desassimilação:
• processo que tem características contrárias à assimilação.
Exemplo: → aa ai, → ɛɛ ɛi, →ee ei
Cagliari (2002, p.100) explica que “quando duas vogais anteriores iguais se encontram,
há uma fusão em ditongo, cujo segundo elemento é [i]”.
c) inserção ou epêntese:
• acréscimo de um segmento à forma básica de um morfema. Um exemplo é quando
uma vogal acentuada, seguida de uma fricativa alveolar surda [s], em sílaba final de
palavra, torna-se ditongada com o acréscimo do segundo segmento, que é um [i]
(Cagliari, 2002, p.100).
Exemplo: /xapas/ [xapais] /voses/ [voseis] /nɔs/ [nɔis].
f) palatalização:
• um segmento se torna palatal ou mais semelhante a um som palatal, ao adquirir uma
articulação secundária palatalizada, ou africativizada, ou um deslocamento articulatório
em direção ao lugar de articulação palatal (Cagliari, 2002, p. 102-103).
Exemplo: /tia/ [tʃia] (tia)
/dia/ [dʒia] (dia)
g) labialização:
43
a) Transcrição fonética: é o tipo de erro mais comum, caracterizado pelo fato de o aluno
escrever conforme a forma como fala, realizando uma transcrição fonética da própria fala.
44
• Escreve duas vogais em vez de uma, por pronunciar um ditongo; Exemplos: mais
(mas), três (treis).
• Escreve u, no lugar de l;
Exemplos: resouveu (resolveu), fiume (filme).
b) Uso indevido de letras: ocorre quando o aluno faz uma representação possível para um
determinado som de uma palavra, mas que não é aceita pela a norma ortográfica.
• Exemplos: converça (conversa), cem(sem).
c) Hipercorreção: ocorre quando o estudante domina algumas regras ortográficas, mas as
generaliza inadequadamente. Por exemplo, saber que algumas palavras que se pronuncia
u e se escreve com o, termina utilizando o em todas.
• Exemplos: excloído (excluído), conseguio (conseguiu).
45
d) Modificação da estrutura segmental das palavras: ocorrem nos erros relacionados à troca,
supressão, acréscimo ou inversão de letras. Em muitos casos, refletem formas de escrita
utilizadas pelo aluno por ainda não dominar o uso das letras e as convenções ortográficas.
• Exemplos: obistáculos (obstáculos), mosta ( mostra).
e) Juntura intervocabular e segmentação: ocorrem quando o aluno escreve unindo todas as
palavras ou separando as sílabas de uma mesma palavra, de acordo com forma como as a
pronuncia em sua fala.
• juntura:
Exemplo: semperna (sem perna)
• segmentação:
Exemplo: de mais (demais)
f) Forma morfológica diferente: ocorre em razão da variedade dialetal utilizada, o que
dificulta o reconhecimento da forma ortográfica correta a partir da fala.
• Exemplos: num é (não é ) ta (está).
g) Forma estranha de traçar as letras: ocorre quando o aluno, ao traçar a letra cursiva, registra
letras que podem ser interpretados erroneamente. Conforme exemplifica Cagliari (2009,
p.125):
• Exemplos: sabe (sabe).
46
. Exemplo: Eu (eu).
j) Acentos gráficos: o acento gráfico geralmente não é ensinado nas fases iniciais da
aprendizagem da escrita. Alguns alunos aprendem que determinadas palavras de uso
frequente são acentuadas. Segundo Cagliari (2009), erros no uso do acento ocorrem,
muitas vezes, pela semelhança ortográfica entre palavras acentuadas e não acentuadas.
A partir dessa classificação, tornou-se possível analisar com maior precisão as produções
dos alunos, identificar as causas dos desvios de escrita e propor estratégias pedagógicas que
favoreçam a autocorreção e o desenvolvimento gradual da sua competência escrita.
Ao imergir em tais conceitos, seria conveniente nos questionarmos, como professores de
língua portuguesa, sobre como lidar com esses aspectos em sala de aula, especialmente no que
se refere à escrita dos alunos: como corrigi-los ou quando e como intervir?
Quanto à incidência desses processos fonológicos em sala de aula, percebemos que esse
aspecto acontece, muitas vezes, de maneira inconsciente, tanto na fala quanto na escrita. Assim,
o professor deve ensinar, mostrando ao aluno a escrita conforme a norma ortográfica, com o
objetivo de promover um aprendizado que permita a análise das regularidades e irregularidades
ortográficas, utilizando para isso uma variedade de textos escritos e orais.
47
Como fatores extralinguísticos, ou seja, aqueles que não fazem parte da estrutura da
língua, mas que influenciam seu uso, podemos citar a origem geográfica, o sexo, a faixa etária, a
renda, a escolaridade, entre outros. Também se enquadram nessa categoria os recursos não
verbais que contribuem para a transmissão da mensagem, como as expressões faciais, o tom de
voz, entre outros.
Para essa área científica, as variações determinadas por fatores extralinguísticos são
categorizadas como diatópica, diastrática, diamésica, diafásica e diacrônica, cada uma com suas
características específicas. Essa variação mostra a grande diversidade do Brasil, onde diferentes
grupos sociais possuem variados hábitos linguísticos, costumes e atitudes, o que enriquece,
significativamente, o português falado no país.
A variação linguística é uma característica inerente a todas as línguas e presente na fala
de todos os indivíduos, não importando seu nível de escolaridade ou sua classe social. Essa
variação pode ser observada em todas as variedades linguísticas, inclusive nos dialetos
considerados mais prestigiados, e não indica quaisquer erros de linguagem, seja para indivíduos
ou para grupos dialetais; ela simplesmente mostra que pessoas diferentes podem ter maneiras
diferentes de usar a mesma língua.
Em sua obra (2004, p. 47- 48) Bortoni-Ricardo nos traz importantes informações sobre
regras de variação na fonologia e na morfossintaxe. A autora salienta que “[...] toda comunidade
de fala brasileira, seja pequena, como um distrito semirrural pertencente a um município, ou
grande, como uma capital, um estado ou o país, sempre apresentará variação linguística”. Para a
referida autora, essa variação decorre de vários fatores que representam os atributos de um
falante:
variações nos repertórios acontecem em decorrência dos papéis sociais que os indivíduos
desempenham e que são culturalmente condicionados;
c) status socioeconômico: representam as desigualdades na distribuição de renda e bens
materiais e culturais e que se refletem no uso da língua. Pessoas de diferentes classes
sociais tendem a acessar a escolarização, à leitura e a contextos formais de uso da língua
de maneiras distintas, o que influencia suas práticas linguísticas. Por exemplo, uma
criança de um bairro de classe média pode dizer: “Eu fui ao teatro com meus pais no fim
de semana”, enquanto uma criança de uma comunidade com menos acesso a bens
culturais pode expressar a mesma ideia como: “Fomo no teatro lá no centro”.Ambas as
formas são compreensíveis, mas revelam diferenças de repertório linguístico associadas
ao capital cultural disponível em cada contexto social. Bortoni-Ricardo (2004) destaca a
inclusão digital como um bem cultural, apontando que o acesso ao computador e à internet
está diretamente relacionado ao status socioeconômico. Esse fator é especialmente
relevante, considerando que, no Brasil, a distribuição de renda é marcadamente desigual.
d) Nível de escolarização: os anos de escolaridade e a qualidade das escolas frequentadas
por um indivíduo também influenciam seu repertório sociolinguístico. Esse fator está
diretamente relacionado ao status socioeconômico, pois, no Brasil, o acesso a boas
instituições de ensino e à conclusão da educação básica nem sempre é garantido a todas
as camadas sociais. Entre os fatores que justificam a variação linguística no português
brasileiro, Bortoni-Ricardo (2004) destaca o grau de escolarização, entendido como os
anos de estudo formal e a qualidade das instituições escolares frequentadas pelos falantes.
conforme a autora, esse fator influencia significativamente o repertório sociolinguístico
dos indivíduos, uma vez que o acesso à norma-padrão da língua está fortemente vinculado
à experiência escolar e, consequentemente, à trajetória educacional de cada sujeito.
Indivíduos com nível menor escolaridade, especialmente aqueles que frequentaram
escolas com infraestrutura precária e ensino de baixa qualidade, tendem a manter traços
mais evidentes da variedade popular urbana, marcada por construções informais e pela
ocorrência de fenômenos como a ausência de concordância verbal ou nominal.
Expressões como “nós vai na feira” ou “as criança tão brincano” exemplificam esse uso,
que, embora frequentemente rotulado como “erro”, na verdade reflete uma variedade
linguística legítima e coerente com o meio social do falante;
e) mercado de trabalho: as atividades profissionais de um indivíduo representam um fator
condicionador para a monitoração linguística. Alguns profissionais como professores,
atores, comunicadores sociais, jornalistas, advogados, juízes precisam ter maior
51
flexibilidade estilística e dominar sua fala, utilizando estilos mais monitorados, enquanto
em outras profissões, mesmo de nível superior, exige-se menos o domínio de estilos
monitorados. Por exemplo, profissionais da área de jornalismo e comunicação social
frequentemente utilizam uma linguagem mais acessível e adaptada ao público-alvo de
diferentes mídias (impressa, digital, rádio, TV). Naturalmente, a necessidade de
comunicar informações de maneira clara e envolvente pode levar a esse uso mais flexível
da linguagem. Já os profissionais de publicidade e propaganda frequentemente trabalham
com uma linguagem criativa e persuasiva;
f) rede social: adotamos comportamentos semelhantes ao das pessoas com quem
convivemos em nossas redes sociais. Assim, a rede social de um indivíduo é um fator
determinante das características de seu repertório sociolinguístico. Além da rede social,
através da qual o indivíduo efetivamente interage, devemos considerar, também, o seu
grupo de referência, as pessoas com quem esse indivíduo não interage fisicamente ou por
meio de recursos como internet, telefone etc., mas, que assume como modelo de conduta
(Bortoni-Ricardo, 2004, p. 47- 48).
Assim, compreendemos que os ambientes sociais nos quais o sujeito interage contribuem
para a formação de seu repertório linguístico. Essa variedade, que engloba aspectos sociais,
culturais e linguísticos, também se manifesta no ambiente escolar, evidenciando a importância
de desenvolvermos uma abordagem de ensino do português adequada a essas necessidades. Esse
modelo de ensino deve considerar a variação linguística e sua aplicação em diferentes contextos
sociais visando a “[...] conscientizar os alunos quanto às diferenças sociolinguísticas e fornecer
a eles a variante adequada aos estilos monitorados orais e à língua escrita” (Bortoni-Ricardo,
2004, p. 43).
Nesse sentido, segundo a referida linguista, a língua portuguesa é ensinada com base nas
gramáticas, sob a perspectiva da denominada variedade padrão, desconsiderando as demais
variedades da língua. No entanto, segundo ela, para entendermos a variação linguística no Brasil,
e a língua que falamos, será necessário reconhecer três contínuos “imaginários”, a saber: o de
urbanização, de oralidade-letramento e o de monitoração estilística, que constituem um
instrumento teórico-metodológico eficaz na análise da variação.
De acordo Bortoni-Ricardo (2004), podemos descrevê-los da seguinte forma: o contínuo
de urbanização se constitui em dois polos extremos: os falares rurais mais isolados e os falares
urbanos, que, ao longo do tempo, sofreram influência da codificação linguística e se definem
52
----------------------------------------------------------------
variedades rurais isoladas área rurbana variedades urbanas padronizadas
----------------------------------------------------------------
eventos de oralidade eventos de letramento
----------------------------------------------------------------
- monitoração + monitoração
5
Segundo Bortoni-Ricardo (2004), os grupos rurbanos são formados pelos migrantes de origem rural que preservam
muito de seus antecedentes culturais, principalmente no seu repertório linguístico, e as comunidades interioranas
residentes em distritos ou núcleos semirrurais que estão submetidas à influência urbana, seja pela mídia, seja pela
absorção da tecnologia agropecuária.
54
Nesse sentido, Silva (2007) pontua que, do ponto de vista pedagógico, ensinar conceitos
de “comunidade de fala” e “variação fonética” traz grandes vantagens, porque faz com que o
professor passe a considerar que seus alunos são membros de comunidades de fala de um grupo
e, portanto, têm uso e atitudes em relação a determinados fatos linguísticos específicos desse
grupo social. A autora afirma que, dessa forma, as abordagens culturalmente sensíveis e a atenção
sistemática aos aspectos podem ser facilitadas.
Além disso, salienta ela que os professores podem sensibilizar os alunos para o fato de
que diferentes aspectos linguísticos, embora tenham o mesmo significado linguístico, podem ter
valores semânticos sociais diferentes, alguns até negativos, proporcionando uma abertura
necessária e socialmente responsável para trabalhar a língua portuguesa, especialmente com
alunos de classes desprivilegiadas, as maiores vítimas do preconceito racial, social e linguístico.
Sob essa ótica, Cagliari (2009) enfatiza que a escola deve considerar a variação linguística
no ensino do português, por ser uma instituição formadora, e, como tal, tem a função de formar
cidadãos e ensinar-lhes como funcionam as variedades da língua, porquanto serem elas
conhecimento que oportuniza a ascensão social. Assim sendo, o autor destaca que
[...] aprender português [...] não é só aprender como a língua (e suas variedades)
funcionam, mas também estudar ao máximo os usos linguísticos; [...] inclui ainda a
formação para aprender e usar as variedades linguísticas diferentes, sobretudo o dialeto-
padrão. A escola dessa forma não só ensinaria português, como desempenharia ainda o
papel imprescindível de promover socialmente os menos favorecidos pela sociedade
(Cagliari, 2009, p. 72).
Cagliari (2009) reitera que a escola precisa assumir a variação linguística como fato
linguístico, e cabe aos professores discutirem tais questões com seus alunos, mostrando-lhes o
que são dialetos e porque são diferentes, seu funcionamento em termos de estruturas linguísticas
e, principalmente, a visão que a sociedade tem das variações linguísticas, os preconceitos sociais
dela resultantes e as consequências dessa discriminação para a vida dos sujeitos que a utilizam.
Nesse sentido, Bortoni-Ricardo (2004) evidencia que o português brasileiro, a semelhança das
demais línguas, não é uniforme, e, por isto, a variação é fato natural. Para trabalhar esses aspectos,
a autora propõe um trabalho voltado para a valorização da heterogeneidade linguística e uma
abordagem pedagógica que rejeite o preconceito no ensino de línguas.
Depreendemos, de acordo os estudos da autora, que a orientação adequada em relação à
noção de erro se reflete na prática docente, e pode proporcionar aos educandos o enriquecimento
do seu repertório linguístico, sem lhes negar o acesso às regras linguísticas prestigiadas e sem
desvalorizar a variedade linguística que aprenderam nas relações sociais da comunidade de fala.
56
3 METODOLOGIA
A pesquisa foi desenvolvida na Escola Estadual João Alves dos Santos, situada à Rua
Arthur Pimentel, 95, no distrito de Campo Redondo, Varzelândia – MG. O município tem uma
população estimada em 18.840 habitantes, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (2022). A agricultura, a pecuária e o comércio constituem as principais atividades
econômicas da região.
A Escola atende a alunos do próprio distrito e de comunidades circunvizinhas, e isto
significa que os discentes residem em áreas rurais e na área urbana. A instituição possuía, em
2023, 331 alunos regularmente matriculados, oferecendo os seguintes níveis de ensino com
respectivos números de alunos: anos iniciais do Ensino Fundamental: 111 alunos; anos Finais do
Ensino Fundamental / Integral: 120 alunos; e o Ensino Médio, com 100 alunos. A instituição
funciona em dois turnos. O matutino atende aos alunos do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental
II, os do 1º ao 3º ano do Ensino Médio e no turno vespertino aos alunos do 1º ao 5º ano do Ensino
Fundamental I.
A Escola funciona em um prédio com boas condições estruturais e possui sete salas de
aula, uma biblioteca, um laboratório de informática, uma quadra poliesportiva, um pátio coberto,
uma cantina, uma sala dos professores, uma secretaria, dois banheiros para alunos, dois banheiros
para servidores e um refeitório.
O corpo docente da escola é constituído por servidores efetivos e designados, todos com
formação superior e pós-graduação em Cursos de Especialização, além de realizarem,
periodicamente, cursos de aperfeiçoamento oferecidos pela rede estadual e municipal de ensino.
58
De acordo com o Regimento Escolar atualizado em dezembro de 2023, a Escola foi criada
pelo Decreto n.º 19434, de 20 de novembro de 1978, e autorizada pela Resolução n.º 2718 de 08
de setembro de 1978 (Escola Estadual João Alves dos Santos, 2023).
A seguir, no Mapa 1, apresentamos a localização da escola na região norte mineira.
A Escola Estadual João Alves dos Santos está localizada no distrito de Campo Redondo,
conforme mostra o Mapa 2, a seguir.
Minas Gerais, o Sr. João Alves dos Santos. Entre 1942 e 1960, a escola funcionou com o nome
de Escola Mista de Campo Redondo, e mudou de local, pela segunda vez, para um espaço cedido
pela professora Alzira Cavalcante de Almeida.
Em meados de 1961, com um novo nome, Escolas Reunidas de Campo Redondo, mudou-
se para um prédio cedido pela Prefeitura Municipal de São João da Ponte, onde permaneceu até
1968. A escola passou, então, a pertencer à jurisdição da 22ª Superintendência Regional de
Ensino de Montes Claros. Em 1942, assumiu sua coordenação a professora Alzira Cavalcante de
Almeida. Em 1972, a instituição passou a funcionar em novo prédio construído e cedido pela
Prefeitura Municipal de Varzelândia, recebendo a denominação atual, Escola Estadual João
Alves dos Santos. Esse nome foi dado em homenagem ao morador de destaque na região, doador
do terreno onde está localizada a comunidade de Campo Redondo, e que muito contribuiu para
a construção da escola.
Em 1988, a escola ganhou o prédio atual situado à Rua Arthur Pimentel, n.º 95, na sede
do distrito de Campo Redondo, município de Varzelândia – MG, construído pelo Governo do
Estado de Minas Gerais (Escola Estadual João Alves dos Santos, 2023).
Na Figura 1, a seguir, ilustramos a imagem da Escola Estadual João Alves dos Santos.
[...] um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada e estreita
associação com a ação ou com resolução de um problema coletivo e no qual os
pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão
envolvidos de modo cooperativo ou participativo (Thiollent, 1985, p. 14).
Esse autor salienta que a pesquisa-ação precisa atender a duas finalidades básicas: o
prático e o teórico, ou seja, conhecimento. O primeiro relaciona-se à contribuição da pesquisa
para a solução do problema observado; já o segundo refere-se ao conhecimento gerado a partir
da solução do problema.
À luz dos pressupostos da pesquisa-ação de Thiollent (1985), procedemos às etapas que
constituem a pesquisa, quais sejam: a diagnóstica, cuja finalidade é identificar a natureza dos
erros de escrita cometidos pelos alunos detectados na análise dos dados dessa etapa, e, ainda, a
aplicação de uma proposta de práticas de ensino que pretende ampliar a aprendizagem da escrita
dos discentes.
63
Cabe salientar que nossa pesquisa envolve seres humanos, e, por isto, seguimos
rigidamente os protocolos exigidos: submetemos nossa proposta de pesquisa na Plataforma Brasil
para a sua aprovação no Comitê de Ética da Universidade Estadual de Montes Claros, tendo sido
ele aprovado sob o Parecer de n.º 6.707.366, de 17 de março, de 2024.
Isso posto, apresentamos, na sequência, as duas etapas nas quais se divide nossa pesquisa:
a Diagnóstica e a Proposta de Práticas de Ensino.
A Figura 2, a seguir, ilustra, detalhadamente, a sequência das etapas da pesquisa proposta.
Figura 2 - Etapas da pesquisa
a) 1ª etapa - Diagnóstica
atividade de produção escrita: interpretação sobre o curta-metragem: O presente;
produção de um comentário sobre o curta-metragem;
convite para participação na segunda etapa da pesquisa, a Proposta de Práticas de
Ensino.
Após a aplicação das atividades escritas, fizemos uma análise das produções para detectar
aspectos fonético-fonológicos do português presentes nos textos dos alunos, buscando entender
como a fala cotidiana pode influenciar a escrita. Isso nos permitiu a obtenção de dados essenciais
para o desenvolvimento da pesquisa e o alcance dos objetivos propostos.
As atividades foram conduzidas no laboratório de informática da escola e na sala de aula,
em ambiente organizado para que os estudantes ficassem estimulados à conversação de maneira
natural ou espontânea. As atividades foram aplicadas individualmente e em grupo, garantindo
que cada aluno tivesse a oportunidade de mostrar suas habilidades de escrita e de oralidade e de
interagir com seus pares.
Ambas as atividades diagnósticas foram realizadas ao longo de um período de duas
semanas, entre os dias 28 de novembro e 05 de dezembro de 2023. A aulas foram organizadas
em dois momentos, utilizando-se 4 horas/aula, totalizando 200 minutos.
A análise dos resultados concentrou-se em identificar a influência dos traços da fala na
escrita, categorizando as ocorrências em relação a fatores linguísticos, processos fonológicos.
Essa análise permitiu a proposição de práticas pedagógicas direcionadas para a produção textual,
incluindo atividades de escrita e reescrita, com o objetivo de aprimorar as competências e
66
habilidades dos alunos, de acordo com as diretrizes da BNCC (Brasil, 2018) e do CRMG (Minas
Gerais, 2022). Ambos os documentos destacam a importância de se trabalhar com a oralidade e
explorar as variedades linguísticas, aspectos também considerados nesta etapa da pesquisa.
A atividade seguiu a programação prevista para o ano escolar vigente e teve como suporte
o livro didático adotado para a turma em questão, a saber: “Se liga na língua: leitura, produção
de texto e linguagem” (Ormundo e Siniscalchi (2018), da Editora Moderna. As atividades foram
adaptadas com o intuito de garantir a melhor compreensão dos alunos e atender às especificidades
dos objetivos da pesquisa.
A Figura 3, a seguir, apresenta a capa do livro utilizado como suporte pelos estudantes
participantes desta pesquisa.
Figura 3 - Capa do livro didático “Se liga na língua: leitura, produção de texto e
linguagem”
.
Fonte: (Ormundo; Siniscalchi, 2018).
gênero na prática, seção 5: Textos em conversa, seção 6: Mais da língua, seção 7: Isso
eu ainda não vi, seção 8: Conversa com arte, seção 9: Expresse-se, seção 10: Leitura
puxa leitura, seção 11: Biblioteca cultural em expansão (Ormundo; Siniscalchi, 2018,
p. 3-6).
Além disso, o livro prevê um espaço para as produções textuais dos estudantes,
incentivando a reflexão e a interação com o material e com os gêneros textuais apresentados
anteriormente. Essa abordagem permite que os alunos possam aprofundar seu entendimento,
facilita o processo de aprendizagem e amplia o repertório linguístico.
Para melhor visualização da organização do livro didático, apresentamos, a seguir, na
Figura 4, uma ilustração do sumário do livro utilizado nesta etapa da pesquisa.
Figura 4 - Página do capítulo 8 do livro didático “Se liga na língua: leitura, produção de
texto e linguagem”
As seções desse capítulo do livro didático abordam, o miniconto como gênero central e,
na sequência, outros gêneros são estudados, propondo atividades de leitura, interpretação,
produções textuais e de reflexão sobre a língua. A seguir, apresentamos na Figura 5, a página do
livro didático com a sugestão da atividade selecionada nesta pesquisa.
a) definição de inclusão;
b) tratamento da inclusão no contexto escolar da pesquisa e, em extensão, na comunidade;
c) benefícios e danos causados pela inclusão/exclusão.
Assim, em conformidade com a BNCC (Brasil, 2018) e o CRMG (Minas Gerais, 2022),
ao observarmos as habilidades listadas anteriormente, e previstas para as turmas do 6° ao 9° anos,
compreendemos que o objetivo norteador do ensino de língua portuguesa é garantir a todos os
alunos o acesso aos saberes linguísticos necessários à participação social e ao exercício da
cidadania. É por meio da língua que o ser humano pensa, se comunica, tem acesso à informação,
expressa e defende pontos de vista, partilha ou constrói visões de mundo e produz conhecimento.
As atividades escritas, estruturadas a partir do curta-metragem pretenderam alcançar os
seguintes objetivos: diagnosticar a influência de traços da fala na escrita de textos produzidos
pelos alunos; detectar traços da fala presentes nos textos, relacionando-os aos fatores linguísticos
como, reiteremos, pontuação, transcrição fonética/processos fonológicos, sintaxe, uso indevido
de letras maiúsculas e minúsculas, segmentação das palavras, hipercorreção, juntura
intervocabular, acentuação gráfica, entre outros, a ortografia, por exemplo, e a pragmática (uso
da linguagem em contextos sociais).
Nesta primeira fase, aplicamos uma atividade de produção escrita aos alunos do 8º ano
A, no dia 28 de novembro de 2023. A atividade visava a investigar a influência da fala daqueles
alunos na produção escrita de seus textos. Além da atividade, achamos importante discutir com
eles sobre os diferentes desvios de escrita detectados nos textos analisados.
Inicialmente, foi necessário organizar a turma e explicar que eles participariam de uma
pesquisa intitulada “Processos fonológicos: análise de aspectos linguísticos na escrita de alunos
do 8º ano do ensino fundamental”. Informamos que as atividades ocorreriam ao longo dos anos
de 2023 e 2024, com o objetivo de aprimorar as habilidades relacionadas à leitura e à produção
72
textual. A aula se iniciou às 07h00min e encerrou-se às 08h40min, utilizando dois horários para
a aplicação da primeira atividade diagnóstica. Os alunos foram avisados, no dia anterior, para
não faltarem à aula, pois realizariam uma atividade de leitura e escrita muito importante para o
desenvolvimento das aulas de português naquele final de ano e no ano letivo seguinte.
A turma era composta por 23 alunos, dos quais 21 estavam presentes (10 meninos e 11
meninas). Os dois alunos ausentes, PM15/22 e PM15/23, segundo os especialistas da escola,
justificaram a falta por apresentarem sintomas gripais, e, por isto, não realizaram a atividade. Na
aula seguinte, fomos informadas de que esses dois alunos haviam sido transferidos, em razão da
mudança dos pais para uma outra cidade, por motivo de trabalho. Portanto, na etapa diagnóstica,
participaram 21 alunos.
Iniciamos a aula, explicando sobre a 1ª atividade: assistir a um curta-metragem. Após
assistir ao filme, eles fariam uma atividade. Os discentes ficaram curiosos e duas alunas fizeram
perguntas sobre a atividade e sobre o curta-metragem. A aluna PF14/20 quis saber qual era o
assunto do filme, e a aluna PF13/8, perguntou o que fariam na atividade, e se teriam que produzir
um texto sobre o assunto. Esclarecemos que o filme duraria apenas 5 minutos, pedimos para
assistirem com atenção, pois, depois, conversaríamos sobre o assunto abordado, e faríamos uma
atividade. Todos se mostravam ansiosos com a aula.
Na sequência, exibimos duas vezes a pedido dos alunos o filme O presente. Na primeira
exibição, os discentes se surpreenderam com a revelação de que o menino, que no início do curta
rejeitara o cãozinho por ele ser aleijado, também não possuía uma das pernas.
Após a segunda exibição, os alunos demonstraram grande entusiasmo, pediram para
comentar o filme e fizeram diversos questionamentos. A aluna PF14/13 perguntou se o filme era
baseado na realidade. A aluna PF13/17 indagou sobre o nome do garoto e do produtor do curta-
metragem. Permitimos que todos fizessem perguntas e informamos que, em seguida,
esclareceríamos as dúvidas.
Após a conversa sobre a história do filme, explicamos sua origem, apresentamos seus
produtores e destacamos que a obra havia sido inspirada em uma história em quadrinhos do
brasileiro Fábio Coala. Discutimos a estrutura de um curta-metragem e, informamos que O
presente era uma produção premiada, considerada emocionante pela crítica, e fora dirigida por
Jacob Frey. Além disso, aprofundamos a discussão sobre o tema abordado no filme. A maioria
dos alunos demonstrou emoção com a narrativa e compartilhou suas interpretações. A conversa
sobre o curta-metragem se estendeu por aproximadamente 30 minutos.
Em seguida, iniciamos a atividade, pedindo que lessem e respondessem, de acordo com
o entendimento sobre o filme. Demos alguns minutos para que lessem as questões, fizemos uma
73
leitura para eles, pedimos que analisassem tranquilamente, e que, se tivessem dúvidas, nós as
esclareceríamos.
Após alguns minutos, 5 alunos, PM15/6, PM15/16, PF14/12, PM13/15 e PM15/18,
alegaram não ser possível registrar as respostas, pois não conseguiam escrever sem ajuda. Esses
alunos não haviam sido alfabetizados adequadamente, e apresentavam muitas dificuldades de
leitura e escrita de textos. Respondemos a eles que tentassem escrever assim mesmo, conforme
a sua capacidade, e que não se preocupassem, porque aquela tarefa era importante para o
desenvolvimento das atividades de leitura e escrita que faríamos no ano seguinte.
A Figura 6, a seguir, registra o momento da aplicação do diagnóstico.
Após aplicarmos as atividades diagnósticas, fizemos uma primeira leitura para a análise
da escrita dos alunos. Em seguida, procedemos a uma segunda leitura, no intuito de fazermos o
levantamento dos erros ortográficos presentes nas produções escritas. Concluímos que o
diagnóstico fora eficaz, pois havíamos conseguido detectar desvios em vários aspectos
linguísticos nas produções textuais.
Os textos coletados apresentaram os “erros” listados por Cagliari (1999, 2009), a saber:
pontuação, transcrição fonética, uso indevido de letras, hipercorreção, juntura intervocabular e
segmentação, uso indevido de letras maiúsculas e minúsculas, acento gráfico, modificação da
estrutura segmental das palavras e alguns problemas sintáticos.
Diversos aspectos linguísticos já citados anteriormente constituíram o corpus da pesquisa,
e, dentre esses, a transcrição fonética - objeto central deste estudo -, apresentou um número
considerável de desvios, sendo, por isso, analisada com cautela. Embora ela não tenha sido o
caso mais recorrente, apareceu em 42 dos 216 registros analisados, ocupando a terceira posição
em número de ocorrências, atrás apenas dos casos de falta de pontuação e do uso indevido de
letras. A frequente recorrência de desvios nesses aspectos linguísticos na produção escrita dos
alunos foi motivo de grande preocupação, porquanto, nesta etapa do ensino, os alunos já
deveriam estar aptos a dissociar a fala da escrita.
A Tabela 1, a seguir, apresenta a quantidade total de desvios em relação aos aspectos
linguísticos encontrados nas produções textuais que compõem o corpus desta pesquisa.
Pontuação 53 25%
Uso indevido de letras 43 20%
Transcrição fonética 42 20%
Problemas sintáticos 29 13%
Uso indevido de letras maiúsculas e minúsculas 22 10%
Modificação da estrutura segmental das palavras 9 4%
Hipercorreção 7 3%
Juntura intervocabular 6 3%
Segmentação 2 1%
Acentos gráficos 3 1%
Total de erros encontrados 216 100%
Fonte: Elaborado pela pesquisadora (2024).
75
Percebemos, durante a análise, que alguns desvios se repetiram nas produções escritas da
etapa Diagnóstica. Apresentamos, a seguir, dois exemplos que evidenciam a ocorrência de
desvios nos fenômenos linguísticos identificados nessa etapa, com destaque para a transcrição
fonética, foco desta pesquisa. Para facilitar a identificação, os problemas de escrita foram
sublinhados. Inicialmente, apresentamos a imagem digitalizada dos textos manuscritos e, em
seguida, sua versão digitada.
assimilado as regras ortográficas que embasam um grafema em vez de outro e, portanto, não
adquiriram as habilidades necessárias para empregar determinadas letras, ou conjunto de letras,
com proficiência linguística. Por outro lado, também nos indicaram que os alunos apresentaram
na linguagem escrita algumas dificuldades previsíveis e vêm aprimorando suas competências
para o uso consciente do sistema de escrita da língua portuguesa.
O uso indevido de letras, conforme Bortoni-Ricardo (2004), pode ser considerado um
desvio decorrente da natureza arbitrária do sistema de convenções da escrita. Esses desvios
ocorrem, devido ao desconhecimento das convenções ortográficas e das múltiplas relações entre
fonemas e letras, no sistema de escrita do português.
Na sequência, observamos nos textos escritos dos alunos casos de hipercorreção. Segundo
Cagliari (2009), esse fenômeno ocorre quando o estudante domina algumas regras ortográficas e
reconhece que certas palavras são pronunciadas de forma diferente, passando então a generalizar
essa forma de escrever. Identificamos 07 ocorrências desse tipo de desvio e, a título de exemplo,
citamos duas: uma no texto da participante PF/13/17, que grafou com “l” uma palavra que deveria
ser escrita com “u” “calsa” (causa); e outra no texto do participante PM13/1, que escreveu
“escloído” (excluído). Nessa ocorrência, o aluno grafou com “o” a palavra que deveria ser
grafada com “u”. A generalização da regra pode sinalizar a percepção do aluno em relação à
arbitrariedade do sistema ortográfico e do quanto ele já distingue a língua falada da escrita.
Assim, a ocorrência deve servir de alerta para os professores e não pode passar despercebida. Por
essas razões, o docente deve trabalhar sistematicamente com atividades de leitura e escrita de
textos diversos, além de incluir atividades de caráter ortográfico que abordem o aspecto
identificado.
No que tange à acentuação gráfica, houve três ocorrências desse tipo de desvio no corpus.
No texto do informante PM13/1, por exemplo, a palavra “ninguém” aparece grafada duas vezes
sem o acento agudo (ninguem).
Cagliari (2009) considera essencial esse aspecto da língua, e afirma que, normalmente,
não é ensinado no início do aprendizado da escrita. O autor atribui alguns “erros” de acentos
gráficos à semelhança ortográfica entre palavras grafadas ora com acento ora sem ele, como
ocorre com o “e” (preposição, conjunção, sem acento) e o “é” (verbo, com acento).
A ausência de pontuação, recurso essencial da língua portuguesa, foi outro desvio
identificado nos textos analisados, assim como o foi o uso indevido das letras maiúsculas e
minúsculas, consoante o Acordo Ortográfico de 1945. Entendemos com base em Cagliari (2009),
que, nos fragmentos apresentados, ambas as categorias parecem estar relacionadas, uma vez que,
78
quando não há ponto final, não se marca o início de uma nova frase, e, portanto, não se utiliza
letra maiúscula. Em suma, um tipo de problema na escrita acaba refletindo diretamente em outro.
Encontramos, ainda, no corpus analisado problemas sintáticos (29 casos). Essa categoria
de “erro”, segundo Cagliari (2009), revela problemas de natureza sintática, como concordância
verbal e nominal e regência, mas, na verdade, pode significar tão somente falares diferentes
daquele imposto pela norma-padrão. Nosso ponto de vista é que estes tipos de desvios são os
mais difíceis de se sanar, porque exigem muita leitura de livros, ou de quaisquer textos escritos,
no quais os alunos estariam sempre em contato com as formas padrão, e acabariam por assimilá-
las.
Deparamo-nos nos textos analisados com algumas construções inusitadas que
registravam formas comumente usadas na linguagem oral, como, por exemplo, a repetição de
uma mesma palavra nas frases, principalmente, no uso dos pronomes pessoais, e nas tentativas
de se fazerem concordâncias verbais e nominais adequadas, ou, ainda, o uso equivocado de
algumas formas verbais. Exemplos disso são os enunciados: “Esse curta, ele vai te deixar com
raiva, triste, feliz, mas é um ótimo curta, após você ver o curta ...” (informante PM15/16); “O
filme ele nos mostra...” (informante PF13/17), (informante PM15/18), “Eu achei interessante a
atitude do cachorrinho por ter fazido de tudo para que o menino ficasse feliz (informante
PF14/2)”.
Questionamos-nos sobre o que poderia ter causado este último desvio? O uso do “fazido”,
em nosso entender, pode se dever `a comparação com o particípio passado de outros verbos da
2ª conjugação como nascer-nascido, crescer-crescido. Não poderia parecer estranho para os
alunos que para o verbo fazer a forma correta do particípio passado tenha que ser “feito” e não
“fazido”?
No que tange a essas ocorrências, Cagliari (1999) esclarece que são “erros” de construção
sintática comuns na fala de falantes de dialetos estigmatizados. Nos casos mencionados, o autor
considera “[...] o uso indevido do sujeito expresso por pronome pessoal em repetição ao indicado
já por um pronome relativo sujeito da oração”, como normal (Cagliari, 1999, p. 283).
O autor sugere que tais ocorrências sejam trabalhadas pelos professores das séries mais
avançadas do Ensino Fundamental, pois são construções que fazem parte do dialeto regional na
fala dos alunos e que são estigmatizados pela sociedade. Nesse sentido, o autor reitera que é
necessário que seja trabalhada em sala de aula a questão da variação linguística e da norma culta,
chamando atenção para o cuidado com o uso da linguagem escrita e mostrando, inclusive, que
tipos de construções devem ser evitadas na produção escrita.
79
Outra categoria de desvio identificada nos textos foi a juntura vocabular, com seis
ocorrências. Segundo Cagliari (2009), isso ocorre quando as crianças escrevem textos
espontâneos e tendem a unir as palavras. Essa prática reflete os critérios que o aluno utiliza para
analisar a fala, uma vez que, nela, as palavras são pronunciadas em uníssono, sem interrupção,
sendo a separação marcada apenas pela entonação do falante, ocorrência para a qual o aluno não
atenta durante sua produção escrita. Como exemplo dessa ocorrência, no texto do aluno PM13/1:
a expressão “sem perna” foi grafada como “cemperna”. Além da juntura, ele equivocadamente
usou a letra “c” em vez de “s”.
Detectamos também a categoria modificação da estrutura segmental das palavras, com
nove ocorrências, que se referem a “[...] erros de troca, supressão, acréscimo e inversão de letras”
(Cagliari, 2009, p. 124). Segundo o autor, esses desvios ocorrem, porque o aluno ainda não
domina o uso correto de letras, como “m”, “n”, “v” e “f”. Esses “erros” foram identificados no
texto do aluno PM15/18, que escreveu “muto” em vez de “muito”; no texto do aluno PM13/1,
que escreveu “osbistcáculos” em vez de “obstáculos”; e no texto da aluna PF13/17, que escreveu
“conher” em vez de “conhecer” e “mosta” em vez de “mostra”. Em relação à palavra muito,
estranhamente, nenhum aluno questionou que ela seja pronunciada como “muinto”, mas que sua
grafia omite o n. Não é estranho que eles não tenham escrito “muinto”, já que é assim que ela se
pronuncia? Onde estaria, neste caso, a interferência da fala na modalidade escrita? Como vemos,
não se pode generalizar.
Cagliari (2009) aponta, ainda, os acertos ortográficos das crianças. Conforme o autor, os
acertos não são obra do acaso, e nem os “erros” ocorrem por falta de capacidade ou desatenção
dos alunos, mas, representam um processo de aprendizagem da escrita e revelam a reflexão que
o aluno faz durante sua tarefa, e a forma de ele interpretar o aspecto que estuda.
Algumas categorias de “erros” apontadas por Cagliari (2009), como a forma estranha de
traçar as letras e a forma morfológica diferente, não foram observados nos textos dos alunos
selecionados para esta análise.
Na escrita dos textos de dois alunos, PM15/16 e PM15/1, observamos problemas
significativos, talvez, justificados pelo fato de estes educandos estarem enfrentando a distorção
idade-série, ou seja, foram reprovados em anos anteriores, e apresentam dificuldades nas
atividades cotidianas de leitura e escrita propostas pela escola. Eles demonstram limitações na
escrita, de letras e sílabas, não evidenciam domínio das regras básicas da escrita e não
reconhecem, adequadamente, os sinais de pontuação. Esses problemas podem indicar que esses
alunos não consolidaram as habilidades de escrita esperadas para o ano de escolaridade em que
se encontravam.
80
Com base nos estudos de Cagliari (2009), os dados coletados na pesquisa destacaram a
importância de categorizarmos os “erros” para melhorarmos o desempenho dos alunos na
produção de escrita. Mesmo no final do 8º ano do Ensino Fundamental, os alunos ainda
apresentavam vários desvios de escrita, sendo os mais recorrentes: a falta de sinais de pontuação,
com 53 ocorrências (25%); o uso indevido de letras maiúsculas e minúsculas, com 43 ocorrências
(20%) e a transcrição fonética, foco desta pesquisa, com 42 ocorrências (20%). Esses resultados
são preocupantes, pois tais “erros” não deveriam mais ocorrer, no ano escolar em que se
encontravam.
Nas categorias apresentadas a seguir, observamos 29 ocorrências (13%) de problemas
sintáticos. Os demais textos evidenciaram que os alunos já consolidaram algumas das habilidades
previstas para a turma, apresentando apenas 7 casos de hipercorreção (3%), 6 de juntura
intervocabular (3%) e 2 de segmentação (1%).
Lamentavelmente, alguns dos aspectos apresentados na escrita dos textos dos alunos
participantes mostraram que eles ainda não haviam desenvolvido as habilidades atinentes ao
processo de alfabetização a contento. Portanto, os dados da pesquisa nos confirmaram que alguns
dos estudantes do 8º ano, ainda não haviam consolidado as competências relacionadas ao sistema
ortográfico da língua portuguesa previstas para o ano de escolaridade em que se encontravam.
Por outro lado, alguns alunos demonstraram domínio considerável de habilidades de
escrita compatíveis com o seu nível de escolaridade, não apresentando desvio algum de escrita,
ou poucos “erros” dentre aqueles descritos nas categorias anteriores.
Os dados da pesquisa corroboraram a afirmação de Cagliari (2009) de que os alunos
cometem mais acertos do que “erros” ao escreverem, o que indica que possuem muitas
habilidades de escrita consolidadas, embora ainda lhes faltem outras. Ressaltamos, também, que
é nossa responsabilidade ajudar os alunos a identificarem e superarem as dificuldades
linguísticas, como as apontadas nesta pesquisa, e que ainda persistem, e podem se perpetuar, em
suas produções escritas.
Para tanto, Cagliari (1999) sugere que trabalhemos em sala de aula com as questões da
variação linguística e da norma culta, visando a mitigar os “erros” frequentes na estruturação dos
textos dos alunos. É essencial explicitar aos alunos os tipos de construções a serem evitados,
solicitar que revisem e reescrevam os textos, apontando os pontos que precisam ser melhorados,
e apresentar-lhes textos atrativos de quaisquer gêneros textuais e escritores, durante as aulas de
leitura.
Desse modo, concluímos que a proposta de categorização de Cagliari (2009) nos permitiu
uma análise consistente não apenas dos “erros”, mas, também, das habilidades apresentados pelos
81
3% Transcrição fonética
3%
4%
25% Uso indevido de letras
20% Segmentação
Acentos gráficos
textos que compõem o corpus. O número de ocorrências nos textos dos alunos confirma a
necessidade de um trabalho orientado para os desvios decorrentes da interferência da fala na
escrita, uma vez que a transcrição fonética é o terceiro fenômeno mais recorrente.
Em função da predominância de desvios ortográficos que refletem a transferência de
características da fala para a escrita, realizamos uma análise quantitativa e qualitativa dos dados
coletados, com foco nos processos fonético-fonológicos que orientam esses desvios. Ao
analisarmos as 216 ocorrências de desvios ortográficos nos textos dos alunos, observamos que
esses eles foram influenciados por diferentes processos fonético-fonológicos classificados por
Roberto (2016) como processos por acréscimo, apagamento e substituição.
Ressaltamos que, quando uma mesma palavra apresentava mais de um tipo de desvio, ela
era contabilizada duas vezes. Além disso, se o aluno escrevesse a mesma palavra com os mesmos
desvios mais de uma vez, ela seria contada de acordo com o número de sua ocorrência nos textos.
Na Tabela 2, a seguir, exemplificamos os desvios em processos fonético-fonológicos
mais evidentes na análise dos dados desta pesquisa. O símbolo (*) na tabela indica o número de
vezes que o vocábulo apareceu na produção escrita dos alunos. Salientamos que, nos casos em
que há um traço (-), ele indica a ausência de exemplos dos fenômenos analisados.
Apresentamos uma categorização desses processos com base na teoria de Cagliari (2002)
e Roberto (2016), ilustrada com exemplos retirados do nosso corpus de pesquisa.
Assimilação Ø -
Fortalecimento Ø - -
Enfraquecimento Ø -
si/se (2)*
ci/se
03 Substituição au/ao
mininu /menino
impatia/empatia(2)*
Alçamento 14 14
eli/ele(3)* 33%
alegri/alegre
pareci/parece
preucupação/preocupação
simplismente/simplesmente
Elisão Ø -
04 Ressilabação Ditongação Ø -
Digeminação ou Crase Ø -
resouveu/resolveu
fiume/filme(2)*
Outros casos Escrita de u em lugar de l
augumas/algumas 05 05 12%
calsa/causa
vil/viu
Outros casos Escrita de l em lugar de u altismo/autismo 03 03
atrapalhol/atrapalhou 7%
Total 42 42 100
Fone: Elaborado pela pesquisadora (2024)
caracterizado pela omissão do fonema /r/ final dos verbos no infinitivo, e relacionado à
interferência da fala na escrita. Exemplo disso é o não registro do “r” dos verbos, como em
“enfrenta” (enfrentar), “desisti” (desistir), e os alunos os escrevem como se fossem formas da
terceira pessoa do singular do presente do indicativo. De acordo com Bortoni-Ricardo (2004, p.
85), “[...] o falante, ao suprimir um “r” no infinitivo verbal ao escrever, faz isso porque na língua
oral ele já não usa mais esse “r”.
Por sua vez, Roberto (2016, p. 120) afirma que “[...] essas ocorrências evidenciam uma
tendência comum no português brasileiro, em que o som correspondente ao “r” final dos verbos
no infinitivo não aparece na fala atual, seja entre adultos ou crianças, sendo um traço gradual no
português brasileiro. Para ambas as autoras, essa forma parece ter sido neutralizada na escrita, e,
possivelmente também, na fala dos alunos, quiçá também da maioria dos falantes brasileiros.
Sendo assim, o apagamento do “r” final dos verbos evidencia uma tendência comum na fala atual,
gerando, por vezes, dificuldades na escrita das crianças.
Corroborando essas assertivas, Bortoni-Ricardo (2004) afirma que se trata de um traço
gradual da língua falada do PB que os alunos precisam compreender e que esse fenômeno não é
estigmatizado, pois ocorre na fala de qualquer indivíduo em todas as classes sociais ou níveis de
escolarização, mas é classificado na escrita culta como desvio. Portanto, os alunos, ao
escreverem, devem ser orientados a evitá-lo.
Já a síncope, fenômeno referente à supressão de letras no interior da palavra, ocorreu no
corpus somente duas vezes, nas palavras “juga” (julga) e “bricar” (brincar). No caso de “julga”,
podemos afirmar que é um desvio recorrente, tanto na fala, quanto na escrita, talvez, por ser uma
ocorrência naturalizada na fala, o que leva o aluno, inadvertidamente, a registrá-la na escrita.
Observamos, também, no texto dos alunos, a ocorrência do processo fonético-fonológico
da monotongação, embora não tivesse sido muito recorrente, aparecendo em apenas dois casos
“rejeito” (rejeitou) e “deixo” (deixou). Este processo resulta do apagamento da semivogal nos
ditongos, que passa a ser representado como uma única vogal.
Segundo Bortoni-Ricardo (2004, p. 95), “[...] é um processo muito antigo na língua, desde
a evolução do latim para o português”. A autora salienta que esses tipos de desvios são
indicadores de variedades sociais, podendo ocorrer em registros não monitorados, em todas as
regiões do país, e, ainda, que essa regra é tão comum que, praticamente, não pronunciamos mais
o ditongo [ou].
Bortoni-Ricardo (2004) chama a atenção para as mudanças fonológicas do ditongo [ou],
como em “entrô” (entrou) e “otro” (outro), que se reduz para [o], tanto em sílabas átonas não
finais, quanto em sílabas tônicas não finais e finais, refletindo uma evolução avançada da língua.
85
Já o ditongo [ei], como em “dexei” (deixei), que ocorre em sílaba tônica final, não se monotonga,
mantendo-se mais resistente a mudanças. A autora salienta a importância de o professor estar
atento à monotongação do [ou] na língua oral, mesmo em estilos mais monitorados, e ao
acompanhamento do registro desse ditongo nas produções escritas dos alunos, desde a fase de
alfabetização. Isso é fundamental para evitarmos problemas de escrita, como os desvios
detectados nesta pesquisa, nas séries mais avançadas do Ensino Fundamental.
Detectamos ainda, no corpus, o processo de ditongação, definido como “[...]fenômeno
fonológico que consiste na transformação de um monotongo em um ditongo, a partir da inserção
de uma segunda vogal após a vogal da sílaba” (Silva, 2011, p. 93). Segundo Roberto (2016), esse
processo pode ser provocado pela epêntese, que, conforme Silva (2007), consiste na inserção de
uma vogal ou consoante no interior de uma palavra. Nos textos dos alunos, observamos esse
fenômeno nas palavras “obistáculos” (em lugar de obstáculos) e “adapitou” (em lugar de
adaptou), nas quais houve o acréscimo de uma vogal entre consoantes em encontros consonantais
envolvendo oclusivas, nasais ou fricativas. Esse tipo de ocorrência é comum em processos de
regularização silábica, especialmente quando se busca adaptar a palavra ao padrão canônico do
português do tipo consoante + vogal (CV). Quando a estrutura silábica foge a esse padrão, o
aluno tende a realizar inserções vocálicas (Roberto, 2016, p. 122).
Este processo também influencia a escrita no uso do advérbio “mais”, nos casos em que
deveria ser empregada a conjunção adversativa “mas”, nos textos analisados. A palavra “mais”
existe em nossa língua, o que pode influenciar a escrita do aluno, uma vez que ambas as palavras
são pronunciadas da mesma forma. Nesse sentido, Bagno (2007) salienta que esse fenômeno está
generalizado no português brasileiro, o que gera dificuldade para distinguir, na escrita, a
conjunção “mas” do advérbio “mais”, já que ambas as palavras possuem a mesma pronúncia.
A esse respeito, Vicente (2021, p. 113) afirma que algumas “[...] pronúncias são
estigmatizadas; no entanto, a pronúncia da forma “mas” como [majs] é comum no português
culto, isto é, uma pronúncia utilizada por pessoas letradas, do meio urbano, e em situações de
maior monitoramento”.
A autora salienta que, ao utilizarmos “mais”, em substituição a “mas”, não recebemos
avaliações negativas, pois essa forma é geralmente aceita sem preconceitos, como pode ser
observado em entrevistas e programas televisivos. No entanto, compreendemos que, na escrita,
essa substituição constitui um desvio que desobedece ao padrão gramatical tradicional de
classificação do advérbio “mais” e da conjunção adversativa, “mas”, na língua portuguesa. Tal
desvio pode estar relacionado à dúvida comum entre os alunos no uso do “mas” e do “mais”.
86
Outro fenômeno identificado na análise foi a semivocalização da lateral /l/, processo que,
segundo Hora (2009), é comum na escrita. O autor observa que a semivocalização ocorre com
maior frequência em posição final, devido à existência de outras palavras no português que
apresentam esse padrão, como “grau” e “chapéu”. Por essa razão, os alunos tendem a fazer uma
analogia, que os leva a escrever “papeu” em vez de “papel”, e “varau” no lugar de “varal”.
A ocorrência da lateral pós-vocálica /l/ na escrita pode indicar que o aluno reflete, no
texto, características de sua fala, revelando ainda não dominar algumas regras ortográficas
padrão. Observamos a variação na escrita do fonema /l/ em palavras como “resouveu” em vez de
“resolveu”, “fiume” no lugar de “filme”, “pensol”, em vez de “pensou” e “atrapalhol”, em vez
de “atrapalhou”, o que evidencia, que a escrita reflete fenômenos da fala dos alunos participantes
desta pesquisa, traço possivelmente associado a regiões rurais e rurbanas, embora generalizado
em todo o Brasil.
Diante do exposto, o diagnóstico evidenciou que, embora os participantes da pesquisa
estivessem no 8º ano do Ensino Fundamental, muitos ainda apresentaram dificuldades de escrita
incompatíveis com a etapa de ensino em que se encontram. Tal constatação revela a necessidade
de um trabalho pedagógico que atue no sentido de atenuar essas lacunas e assegurar o
desenvolvimento das habilidades previstas para esse nível de escolaridade.
Com isso, concluímos que a hipótese levantada foi confirmada, uma vez que os dados da
pesquisa corroboraram a ideia de que as dificuldades de escrita dos discentes decorriam de
aspectos linguísticos oriundos da variação linguística, refletindo a interferência de traços da fala
na escrita. Por essa razão, nas atividades escritas do cotidiano escolar, os estudantes tendem a
transferir para seus textos os usos característicos de seu dialeto, conforme detectado na Etapa
Diagnóstica.
Consideramos que tanto a modalidade escrita quanto a oral devem ser trabalhadas e
incentivadas de forma sistemática, a fim de promover o pleno desenvolvimento das competências
linguísticas dos educandos em ambas as modalidades da língua. Para isso, é essencial que os
docentes de língua portuguesa proporcionem, em sala de aula, momentos significativos de leitura
e escrita, com a utilização de gêneros textuais diversos.
Com os resultados do diagnóstico, atingimos, ainda, o objetivo geral desta investigação,
que é analisar aspectos linguísticos do português brasileiro presentes nas produções textuais de
alunos do 8º ano do Ensino Fundamental II, levando em conta os traços dialetais sociais do espaço
no qual vivem.
Assim sendo, a Etapa Diagnóstica propiciou o alcance dos objetivos específicos de nossa
pesquisa, a saber: diagnosticar a influência de traços da fala na escrita de textos produzidos pelos
87
Esta proposta compreendeu atividades escritas e orais que visavam a contribuir para a
melhoria do ensino e da aprendizagem do português brasileiro, e para o desenvolvimento da
competência dos alunos na modalidade escrita. As atividades realizadas focaram a leitura, a
interpretação de músicas brasileiras e a produção e análise de textos midiáticos, utilizando
atividades que levam à reflexão, ao abordarem a leitura, a escrita e a reescrita direcionadas aos
processos fonológicos que se destacaram na etapa diagnóstica.
Utilizamos recursos didáticos que incluíram material diversificado, vídeos e textos
digitais, objetivando aprofundar o conhecimento dos alunos sobre o processo de escrita, de modo
que pudessem construir sua própria aprendizagem.
É importante destacar que a Etapa Diagnóstica foi aplicada aos alunos enquanto cursavam
o 8º ano do Ensino Fundamental II, em 2023. Entretanto, esta proposta de ensino foi desenvolvida
com os mesmos alunos, em 2024, quando eles já se encontravam no 9º ano do Ensino
Fundamental II.
Ao iniciarmos a pesquisa, tínhamos um corpus de 21 alunos. Todavia, dois alunos,
PM14/19 e PF13/11, foram transferidos para outra escola, devido à mudança dos pais, por
motivos de trabalho, para outra cidade. Em contrapartida, recebemos mais um aluno de outra
escola, PM14/18, ficando o grupo, então, com 20 alunos. Esse aluno recém-chegado foi incluído
no estudo.
A descrição das atividades da proposta de ensino encontra-se na subseção 5.1.1
A primeira aula sobre a Proposta de Práticas de Ensino incluiu sua apresentação, durante
a qual detalhamos como seria a organização das atividades. Explicamos que, inicialmente,
ofereceríamos um minicurso sobre variação linguística, e faríamos algumas atividades escritas e
orais sobre seu conteúdo. Em seguida, aplicaríamos três atividades que enfatizariam a
importância da adequação da linguagem nas diversas situações comunicativas, explorando os
conceitos dos aspectos linguísticos mais detectados na etapa diagnóstica: alçamento vocálico,
apagamento do “r” final em infinitivos verbais.
Por fim, explicamos que haveria uma quarta atividade, na qual os alunos avaliariam o
trabalho realizado durante a aplicação da Proposta de Práticas de Ensino. Alguns discentes
demonstraram preocupação ao mencionarmos a palavra ‘avaliação’, mas esclarecemos que ela
não lhes causaria temor, porque não haveria respostas “certas” ou “erradas”, e que nosso único
objetivo era saber a opinião deles sobre o trabalho, ao se pronunciarem sobre se ele havia sido
benéfico, útil ou não. Assim, após essa conversa, eles compreenderam a tarefa e ficaram
tranquilos.
Essa aula inicial expositivo-dialogada teve como objetivo apresentar alguns exemplos
que ilustrassem a ocorrência dos fenômenos supracitados, bem como expor os conceitos e as
90
motivações de cada fenômeno estudado. Acreditávamos que esse intuito poderia ser positivo para
o desenvolvimento das próximas aulas. Era também essencial que os estudantes compreendessem
a importância da variação linguística, das diferenças de registro na fala e na escrita, do
planejamento durante a escrita e da necessidade de revisarem seus textos mais de uma vez, antes
de submetê-los à correção do professor, ou de apresentá-los em atividades escritas ou orais, seja
no contexto escolar ou social. Além disso, esperávamos que os discentes entendessem que muitos
dos desvios ortográficos identificados no diagnóstico haviam ocorrido por dúvidas quanto à
escrita das palavras. Além disso, esperávamos que os discentes compreendessem que muitos dos
desvios ortográficos identificados no diagnóstico ocorreram devido a dúvidas quanto à escrita
das palavras. Informamos que tais dúvidas poderiam ser esclarecidas com a ajuda da professora
ou com o uso do dicionário, sempre que necessário. O tempo previsto para a apresentação da
proposta era de 1 hora-aula (50 minutos). Os recursos necessários para a aula foram: quadro,
pincel e convite impresso.
A Figura 7, a seguir, registra a aula inicial de apresentação da proposta de práticas de
ensino, incluindo um momento de sensibilização dos alunos e a entrega de um convite para a
participação nas atividades subsequentes.
a) Vocês observaram as diferentes pronúncias do “r” nas palavras citadas no vídeo, como
“porta”, “porteira”, “carroça” e “rio”?
b) Conhecem alguém que utiliza formas diferentes de pronunciar essas palavras?
a) Como vocês pronunciam a vogal “e” nas palavras “leite”, “canivete” e “televisão”?
b) E a vogal “o” em “cabelo”, “chover” e “meninos”?
Os alunos, mais uma vez, acharam engraçada a pronúncia da expressão “leite quente”
utilizada no Paraná, Mato Grosso e interior paulista. Entretanto, afirmaram que, ao falar,
pronunciam “leiti” para “leite” e “chuveu” para “choveu”. Observaram, e se surpreenderam, ao
descobrirem que essas pronúncias possuem raízes antigas no português. Reconheceram, também,
que frequentemente escreviam trocando o “e” pelo “i” e o “o” pelo “u”, justamente porque
pronunciam dessa forma. Apesar disso, comentaram que falam de maneira distinta da maioria
das pessoas mostradas no vídeo, mas se identificaram com os sotaques dos paulistas e dos
cariocas.
Após a apresentação dessa sequência inicial de vídeos, introduzimos conceitos
importantes relacionados ao tema, como variação linguística, preconceito linguístico, norma-
padrão, norma culta e adequação linguística. Os alunos fizeram algumas anotações em seus
cadernos, mas nada questionaram. Em alguns momentos, mencionaram que escreviam “errado”,
devido à influência da pronúncia, muitas vezes, sem perceber ou mesmo por distração. Contudo,
demonstraram compreender que é necessário evitar tais desvios na escrita padrão.
Reafirmamos que, conforme apresentado nos vídeos, a fala reflete uma variante
linguística, sendo perfeitamente aceitável e legítima. No entanto, destacamos que, na escrita
95
padrão, é fundamental seguir as exigências da norma culta para a ortografia, uma vez que ela será
amplamente utilizada em diferentes contextos e interações sociais ao longo de suas vidas.
Em seguida, retomamos as respostas, as considerações e a explicação sobre os conceitos
abordados nos vídeos. Na sequência, propusemos uma atividade prática aos alunos, apresentando
exemplos de frases retiradas das atividades diagnósticas, ou seja, das produções dos próprios
alunos, aplicadas na primeira etapa da pesquisa. Solicitamos que identificassem os desvios de
escrita presentes nesses exemplos. Eles conseguiram localizar os problemas com facilidade,
possivelmente porque, durante a aula de apresentação da proposta, já havíamos apontado alguns
desses exemplos e enfatizado a necessidade de eles monitorarem sua fala, conforme a situação
comunicativa, e de adotarem um olhar atento aos momentos de escrita.
Finalizamos o minicurso ressaltando a importância de evitar “erros” de escrita por meio
de práticas como revisar os textos mais de uma vez, recorrer ao dicionário sempre que houver
dúvidas sobre a grafia das palavras e solicitar ajuda do professor, durante os momentos de
produção textual. A seguir, retomamos os temas principais que foram apresentados nos vídeos,
além dos conceitos importantes concernentes à variação linguística e aos fenômenos linguísticos
presentes nos textos analisados anteriormente, e que seriam abordados nas próximas atividades:
alçamento vocálico e apagamento do “r” em final de verbos.
Por fim, pedimos que os estudantes opinassem sobre a aula, avaliando se acharam o
estudo sobre a variação linguística interessante, e se era importante adequar a fala e a escrita às
diversas situações comunicativas. Os alunos relataram que, em algumas ocasiões, registraram
seu modo de falar em suas produções escritas. Também mencionaram que, com base nas últimas
aulas, perceberam a necessidade de maior atenção nos momentos de escrita, e expressaram
interesse em participar das próximas atividades.
Em seguida, os convidamos a participarem da aula seguinte, que seria realizada no dia 2
de dezembro de 2024, explicitando aos alunos que trabalharíamos com uma música conhecida
internacionalmente. Compartilhamos o link do vídeo da música Garota de Ipanema, com o
intuito de despertar o interesse dos alunos pela continuidade do trabalho.
Nossa opinião é que o minicurso foi produtivo, uma vez que os alunos demonstraram
interesse durante as aulas e compreensão dos temas abordados, e por ele ter propiciado aos alunos
a compreensão dos temas que seriam discutidos durante o desenvolvimento de nossa proposta de
ensino.
Apresentamos, a seguir, na Figura 11, foto registrando o momento da realização do
minicurso.
96
Santos
Componente Curricular: Língua Portuguesa - turma: 9º ano A - data: ____/____/2024
Leia o texto, ouça a música Garota de Ipanema, composta por Vinicius de Moraes e
Antônio Carlos Jobim, e faça as atividades propostas (Garota [...], 1962).
Agora, leia com atenção a letra da música, cante-a e responda as atividades propostas.
Atentem-se ao uso das vogais “e” e “o” que muitas vezes são pronunciadas “i” e “u” na nossa
fala cotidiana.
Garota de Ipanema
Olha que coisa mais linda,
mais cheia de graça
É ela, menina, que vem e que passa
Num doce balanço a caminho do mar
Moça do corpo dourado, do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar
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100
2 - Você percebeu como a vogal ‘e’ foi pronunciada pelos cantores da música?
a) ( )Sim.
b) ( ) Não.
a) ( ) Sim.
b) ( ) Não.
7 - Ambos os artistas possuem grau de escolaridade superior. São poetas, cantores e sempre
residiram em áreas urbanas. Evidentemente, conheciam e ‘dominavam’ a variedade padrão.
Apesar disso, ao cantarem a música, alteram a pronúncia de letras em determinadas palavras.
Considerando que a música se tornou um verdadeiro símbolo da música brasileira e o nosso
estudo sobre variação linguística em sala de aula, por que os autores não são criticados por
utilizarem essa variação fonética ao cantar a música?
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101
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Ainda com o objetivo de refletir sobre a relação entre fala e escrita, abordar os processos
fonológicos estudados e propor atividades de produção e reescrita textual, elaboramos uma
atividade baseada em um texto midiático presente nas redes sociais acessível aos alunos. A
atividade 2, intitulada leitura e produção de Cards, baseia-se em textos retirados da página do
Facebook Signos Nordestinos, uma página de humor regional brasileira conhecida por seus
textos carregados de humor social e pelo uso de expressões típicas do Nordeste. A página foi
criada por George Daniel, empresário e analista de mídias sociais, de Parelhas, Rio Grande do
Norte. (Signos [...], 2024). O objetivo da atividade foi captar a atenção e aproximar o estudo da
língua e dos aspectos da variação linguística à realidade dos discentes
No dia anterior à aplicação da atividade, apresentamos a página aos alunos utilizando o
datashow e disponibilizamos o link para que eles pudessem acessá-la, ler as postagens e se
familiarizarem com o conteúdo. Embora alguns já conhecessem a página e o material das
postagens, nossa intenção era engajar ainda mais os alunos nas atividades, especialmente aqueles
que demonstravam resistência e desinteresse nos momentos de produção escrita. Esses mesmos
alunos apresentavam problemas de indisciplina e dificuldades para realizar as atividades
rotineiras em sala de aula.
Inicialmente, realizamos a leitura dos textos com os alunos, destacando a forma de escrita
que reflete o modo de falar nordestino e o tom de humor presente nos Cards. Pedimos que
relessem os textos, mais de uma vez, antes de realizarem as atividades propostas, concentrando
a atenção nas palavras escritas com as vogais “e” e “o”, mas, pronunciadas como “i” e “u”. Os
alunos também foram incentivados a reconhecerem a variante linguística utilizada nos textos e a
identificarem palavras que não seguiam a norma-padrão, mas frequentemente usadas no
cotidiano, especialmente por eles próprios.
Por fim, propusemos que alguns alunos lessem os textos em voz alta e comentassem
oralmente seu entendimento sobre eles. Nesta etapa, houve alguma resistência, pois, alguns
alunos afirmaram que havia palavras “erradas” nos textos, mesmo após esclarecermos que as
postagens refletiam o modo de falar dos nordestinos e utilizavam uma linguagem regional de
forma intencional. Esse episódio nos mostrou que eles próprios tinham preconceito contra as
variedades linguísticas. Após insistirmos, alguns alunos realizaram a leitura e fizeram
comentários coerentes sobre os Cards.
A maioria dos alunos conseguiu responder às questões sem maiores dificuldades. No
entanto, a questão 07 exigiu maior assistência, pois, ela solicitava a produção de um texto baseado
nos Cards lidos, substituindo o vocabulário nordestino pelo vocabulário mineiro. A questão
103
demandou explicações adicionais que foram retomadas mais de uma vez, para garantir que todos
os alunos compreendessem as propostas. Alguns conseguiram realizar a questão de forma
satisfatória, enquanto outros não conseguiram atender plenamente à proposta, apesar de
demonstrarem entendimento. Percebemos que esses alunos, devido a dificuldades específicas na
compreensão do sistema de escrita, tiveram mais dificuldade em responder à questão
adequadamente.
O tempo estimado para o desenvolvimento de cada atividade era de duas horas-aula (50
minutos cada). Contudo, para a Atividade 2, foi necessário utilizar uma aula adicional. Isso
ocorreu, devido às dificuldades apresentadas pelos alunos na produção e reescrita dos textos.
Para contornar essa situação, solicitamos o horário de uma aula ao professor de Geografia, que
prontamente cedeu seu tempo, permitindo que a atividade fosse concluída conforme planejado,
e garantindo que todos os alunos finalizassem as tarefas com êxito.
Os recursos utilizados durante a aula incluíram: quadro, pincel, projetor multimídia,
computador para apresentação da página Signos Nordestinos e cópias impressas das atividades.
1- Agora, leia este texto extraído da página Signos Nordestinos . Circule todas as palavras que
são escritas com as vogais “e” e “o” e que são pronunciadas com “i” e “u”. Depois escreva todas
as palavras no espaço abaixo do quadro.
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2 - O texto foi escrito em uma variante linguística já estudada em sala de aula e muito usada em
nosso dia a dia. Escreva o nome dessa variante a seguir. Caso não saiba, a professora vai explicar
novamente.
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3 - Copie do texto seis palavras que representam o modo de falar de vocês e de muitos brasileiros.
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4 - Você percebeu, no texto, algumas palavras que não estão de acordo com a norma-padrão e
que também são faladas ou escritas por você ou por alguém que você conhece?
a) ( )Sim.
b) ( ) Não.
105
a) ( )Sim.
b) ( ) Não.
*Escreva por que você considera ou por que não considera a proposição anterior.
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7- Leia os textos com atenção e comente oralmente o seu entendimento sobre eles. Depois,
escolha um dos textos e produza o seu próprio texto e aborde o mesmo assunto, mas utilize
palavras ou expressões populares comuns em Campo Redondo/Varzelândia. Use a criatividade!
Ser mineira...
escritas por eles em seu cotidiano, além de propiciar momentos de leitura, interpretação, escrita,
revisão e reescrita de um texto comum em seu meio social.
A aplicação e a análise desta atividade revelaram que os alunos demonstraram maior
aceitação nas atividades de interpretação textual, mas apresentaram resistência em relação às
atividades de produção e reescrita de textos. Na questão 07, que propunha a produção de um
novo texto sobre o mesmo tema, utilizando palavras ou expressões populares comuns à sua
cidade, os alunos enfrentaram dificuldades, tanto para realizarem a reescrita, quanto para
compreenderem que, ao produzirem o novo texto, deveriam substituir as palavras típicas do falar
nordestino por expressões características de sua própria localidade, conforme indicado no
enunciado da atividade. Essa situação exigiu que retomássemos as explicações várias vezes, para
que conseguissem realizar as tarefas adequadamente. No Apêndice C (p. 144), apresentamos
alguns exemplos das produções dos alunos referentes à questão descrita acima.
No processo de revisão e reescrita, alguns alunos ficaram inseguros e pediram ajuda, antes
de finalizarem a produção. Procuramos auxiliá-los da melhor forma possível, atendendo-os
individualmente. Apesar das dificuldades de uns, resistência e problemas de indisciplina de
outros, a maioria dos alunos dedicaram-se a esta atividade e conseguiram realizá-la no tempo
previsto.
Ao final da aula, mais uma vez, compartilhamos o link da música que seria trabalhada na
aula seguinte, e reforçamos a importância da presença e da participação de todos para o sucesso
do trabalho, e para a superação das dificuldades de escrita apresentadas pela turma na Etapa
Diagnóstica.
Guilherme Silva, nascido em São Francisco (MG) e criado em Cidade Girassol (GO), é
um exemplo de como talento e determinação podem transformar vidas. Seu nome tem se
destacado, cada vez mais, no cenário musical brasileiro, especialmente no gênero forró, em cujas
músicas empreende inovações, e ainda pela conexão única que criou com o seu público.
Desde pequeno, Guilherme demonstrava uma forte ligação com a música. Seu primeiro
contato significativo com o palco aconteceu em uma apresentação escolar, mas foi, na
adolescência, ao formar uma dupla sertaneja, que ele começou a moldar sua carreira. A virada
definitiva ocorreu durante uma festa junina escolar, quando ele e seu parceiro improvisaram um
repertório de forró a pedido do público. O sucesso imediato dessa apresentação foi o impulso que
Guilherme precisava para seguir carreira solo.
110
Mais do que um cantor de forró, Guilherme é um contador de histórias por meio de suas
músicas. Canções como Desfaz as Malas (Desfaz [...], 2024), que já ultrapassou 1,9 milhão de
visualizações no YouTube, e Ela Quer Dançar, parceria com Flávio Brasil, demonstram sua
habilidade em criar sucessos que cativam o público.
Recentemente, músicas como Barquinho de Ouro e Quatro Beijos também conquistaram
uma grande audiência, tornando-se trilhas sonoras de festas e eventos em todo o Brasil. Artistas
renomados, como Wesley Safadão e Henrique e Juliano, já compartilharam vídeos curtindo ao
som de Guilherme (Figura 13). (Guilherme [...], 2024).
Agora, vamos ouvir a música Desfaz as Malas, do cantor Guilherme Silva. Em seguida,
leia com atenção a letra, que foi transcrita propositalmente da forma como o artista canta, para
que possamos identificar as marcas da oralidade presentes na canção. Após a leitura, cantaremos
juntos a música. Fiquem atentos à grafia da consoante ‘r’ nos verbos registrados no final de cada
verso e, depois, respondam às atividades propostas.
Desfaz as malas
Ei, amor
Vamos conversá
Tô precisando te falá
Que outra pessoa não há.
Sai do trabalho um pouco mais tarde
E passei naquele bar
Esperei a chuva passá.
Não venha com essa desconfiança
Nem com essa ignorância
Temos nossos filhos para criá.
Pense bem no que vai dizé
É mais fácil perdoá
Do que mim condená.
Desfaiz as malas
A casa é nossa
Por Nossa Senhora eu estava ali no bar.
111
Após ouvir a canção, leia a letra da música e, baseando-se no que estudamos sobre
variedades linguísticas, responda às questões:
a) ( )Sim.
b) ( ) Não.
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6 - Na letra da música, destacamos algumas palavras em negrito. Leia-as com atenção, tendo
em vista o que estudamos em sala de aula sobre a pronúncia da letra “r” em palavras grafadas
com “r” no final, sobretudo em verbos e responda às perguntas a seguir.
a) ( ) Sim.
b) ( ) Não.
7- Na letra da música, o uso de palavras e/ou expressões que não são grafadas segundo à norma-
padrão dificultou o entendimento do texto?
a) ( )Sim.
b) ( ) Não.
8 - Qual foi o objetivo do cantor Guilherme Silva ao utilizar a variedade linguística popular na
composição de suas músicas?
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5.5 Análise da atividade 3 - música: Desfaz as malas
113
conhecimento adquirido. Eles também reconheceram que, por meio das aulas, perceberam
avanços na superação das dificuldades de escrita que apresentavam no início do trabalho.
Caro (a) aluno (a), hoje, concluímos nosso trabalho, e gostaríamos de saber sua opinião
sobre as atividades realizadas. Por favor, selecione apenas uma opção para cada pergunta.
Percebemos que, após esse esclarecimento, os alunos sentiram-se mais tranquilos para
responderem às questões. Assim, entregamos a atividade impressa, e os alunos riram com a
imagem da avaliação, gostaram dos emojis e elogiaram a atividade que apresentava apenas uma
questão discursiva. Lemos cada questão, visando a facilitar o entendimento, e pedimos que
respondessem com atenção, e devolvessem com todas as questões respondidas completamente.
O Gráfico 2, a seguir, ilustra as percepções dos alunos sobre sua participação nas
atividades da pesquisa.
14
12
10
como boas e 9 como excelentes. Sobre o quanto a professora conseguiu despertar o interesse da
turma, 12 responderam sim e 3 responderam mais ou menos. Quando questionados sobre se as
atividades os ajudaram a refletir sobre seus “erros”, 14 alunos responderam que sim e 1 respondeu
mais ou menos. Em relação à satisfação com a forma como os conteúdos foram apresentados e à
percepção de melhorias nas dificuldades de escrita, todos os 15 alunos responderam sim.
Com base no trabalho realizado e nos resultados dessa avaliação, consideramos que todo
o processo pedagógico descrito foi fundamental para alcançar os objetivos propostos. Buscamos
desenvolver as atividades de forma dinâmica e envolvente. Trabalhamos de forma persistente
para minimizar as dificuldades identificadas na turma durante a etapa diagnóstica.
A Proposta de Práticas de Ensino promoveu a conscientização sobre a relevância da
variação linguística no ensino de língua portuguesa, sob o objetivo de valorizar a diversidade
linguística e, ao mesmo tempo, mitigar a ocorrência de processos fonológicos decorrentes de
traços da fala na escrita dos discentes, identificados na Etapa Diagnóstica. Para isso, adotamos
estratégias que favoreceram o aprendizado e contribuíram, significativamente, para amenizar os
problemas de escrita observados. Apesar de enfrentarmos desafios como indisciplina,
dificuldades de concentração e certa resistência por parte de alguns alunos, conseguimos superar
essas barreiras e concluir o trabalho com êxito.
Na próxima subseção, verificamos a eficácia das atividades propostas, comparando os
dados obtidos nas duas etapas da pesquisa.
Problemas sintáticos 08 4%
Segmentação 08 4%
Juntura intervocabular 01 1%
ocorrências (18%). Na sequência, a tabela mostra o uso indevido de letras, com 29 ocorrências
(16%), 20 casos de ausência de acentos gráficos (11%), 8 ocorrências de problemas sintáticos e
de segmentação (5%) e, por último, 1 caso de juntura (1%).
Apesar desses dados, constatamos que alguns alunos não apresentaram problemas de
escrita em suas produções, enquanto outros cometeram poucos “erros”, e conseguiram atender à
proposta de reescrita e produção textual de forma satisfatória. Tal fato pode indicar que o trabalho
com a proposta de ensino voltada para os “erros” de escrita contribuiu, significativamente, para
a melhoria da escrita desses alunos.
Tudo isso reforça a importância do trabalho contínuo do professor em sala de aula com
atividades de escrita e reescrita, oferecendo suporte aos alunos e incentivando-os a
compreenderem a relevância desse processo para a sua formação. É essencial propor produções
que façam sentido para os discentes, além de enfatizar a necessidade da atenção aos processos
de leitura e escrita, explicando “a função da escrita”, conforme afirma Cagliari (2009).
Sabemos que a abordagem tradicional com os desvios de escrita, como os da ortografia,
com listas de palavras e através de treino ortográfico realizado de forma isolada, é pouco eficaz.
Entendemos que o ensino da ortografia não deve se restringir apenas a algumas aulas específicas
sobre o tema, mas ser incorporado sempre que os alunos apresentarem dúvidas durante os
momentos de escrita. É trabalho contínuo e paulatino.
O professor precisa estar atento à análise dos “erros” cometidos pelos alunos, para
planejar aulas que integrem ortografia, escrita e reescrita, de forma a atender às dificuldades
específicas dos discentes. É essencial que o docente esteja disposto a adotar diferentes estratégias
de ensino, auxiliando os alunos a compreenderem o sistema ortográfico e a superarem possíveis
estigmas relacionados à escrita e à variação linguística.
No trabalho com a produção textual escrita, é crucial proceder a uma análise detalhada da
situação de escrita e, com base nisso, planejar intervenções, considerando os “erros” identificados
nas produções textuais. É importante evitar a prática de apenas corrigir os textos de forma
superficial, marcando todos os “erros” e devolvendo-os aos alunos, sem promover uma reflexão
sobre seus desvios de escrita. Ainda, a reescrita deve ser incentivada, acompanhada de
orientações e intervenções que auxiliem no processo de aprimoramento da escrita.
A Tabela 4, a seguir, apresenta os processos fonológicos, foco deste estudo, observados
nesta etapa da pesquisa, ou seja, os fenômenos decorrentes da interferência da fala na escrita
acompanhados de exemplos extraídos das produções dos alunos.
124
vogau(l)
Outros casos Escrita de u em lugar de l 6%
vouta(1) 02 02
saldade(1)
Outros casos Escrita de l em lugar de u 01 01
3%
Total 32 32 100%
Fonte: Elaborado pela pesquisadora (2024).
6
O número de ocorrências do fenômeno na produção dos alunos.
125
o uso da língua, por meio de práticas de leitura, escuta e produção de textos funcionais, inseridos
em diferentes contextos e situações de uso, conforme orienta a BNCC (Brasil, 2018).
Assim, consideramos fundamental que nós, docentes, dediquemos atenção especial,
desde o início da alfabetização, à produção escrita em que ocorram fenômenos quaisquer e o da
ditongação, realizando as intervenções necessárias. Conforme aponta Bortoni-Ricardo (2004),
desvios desse tipo são indicativos de variedades sociais e tendem a ocorrer com maior frequência
em registros espontâneos ou menos monitorados em diversas regiões do país. Por isso, devem
ser trabalhados em sala de aula, com o objetivo de conscientizar os discentes de que esses
fenômenos presentes na fala cotidiana não devem ser transpostos para a escrita formal.
Detectamos, ainda, dois casos de palavras escritas com “u” no lugar de “l” e uma
ocorrência em que “l” foi utilizado no lugar de “u”. Essa troca na escrita ocorre porque, em
muitos casos, as palavras são grafadas com o “l”, mas pronunciadas com o som de “u”, ou seja,
mais uma vez o aluno utiliza a fala como referência no momento da escrita. Como podemos
observar, grande parcela dos desvios de escrita presentes em nosso corpus resultam da
transposição de hábitos da fala para a escrita, e estão frequentemente associados a processos
fonológicos que ocorrem nas palavras, durante a fala dos alunos.
Um aspecto que chamou nossa atenção foi a ausência de registros de assimilação na
sequência ‘nd’, formada por duas consoantes alveolares que ocorre em gerúndios (como em
“falano” em vez de falando). De acordo com Bortoni-Ricardo (2004), esse é um traço gradual
comum no português brasileiro. Esse dado sugere que os alunos envolvidos na pesquisa já haviam
internalizado o conhecimento sobre esse fenômeno fonológico, demonstrando compreensão dos
mecanismos da fala e da escrita e, portanto, nesse caso, já não transferiam os traços da fala para
a escrita.
Outro aspecto positivo observado é a ausência da prótese, fenômeno comum em algumas
variedades linguísticas, como em “avoar” e “alembrar”, fenômeno que, de acordo com Bortoni-
Ricardo (2004), pertence à categoria de desvios relacionados à interferência de regras fonológicas
variáveis descontínuas, frequentemente associadas a variedades linguísticas submetidas à
avaliação negativa.
A escola onde desenvolvemos o estudo está localizada em um contexto rural, porém, esse
aspecto linguístico parece não ser mais frequente no falar desses alunos com antecedentes
rurbanos ou rurais, conforme demonstram os resultados da pesquisa. Esse fato pode indicar que,
com a escolarização e o acesso aos meios de comunicação, essa marca característica do falar
rural tenha deixado de ser transposta para a escrita, dando lugar a uma linguagem mais
monitorada.
127
Tabela 5 - Resultados dos desvios de escrita detectados nas duas etapas da pesquisa
Quantidade Quantidade
No geral, os dados da Tabela 5 apontam uma redução dos problemas de escrita analisados,
algo em torno de 14%. Ao avaliarmos os desvios por categorias, percebemos uma diminuição, o
que ratifica o êxito da proposta, embora, em três categorias de “erros”, tenha sido observado um
aumento nos problemas de escrita, como o uso indevido de letras maiúsculas e minúsculas que
subiu de 22 ocorrências para 38; a ausência de acentos gráficos aumentou de 3 para 20 casos, e
a segmentação passou de 2 para 8 casos.
De acordo com os dados apresentados na tabela, observamos as seguintes variações nas
categorias analisadas: formas divergentes oriundas da categoria transcrição fonética
7
Categorias de “erros” ortográficos que apresentaram acréscimo no número de ocorrências na comparação entre as
duas etapas da pesquisa.
130
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
a relação entre fala e escrita, além da discussão sobre os processos fonológicos identificados na
Etapa Diagnóstica, visando ao desenvolvimento das habilidades dos alunos e à observância à
importância da adequação à norma culta em contextos formais de escrita.
Nessa trilha, na segunda etapa intitulada “Proposta de Práticas de Ensino”, atingimos o
objetivo específico de propor práticas pedagógicas orientadas à produção e reescrita textual,
visando à melhoria da competência escrita dos discentes.
Tudo isso nos apontou o fato de que é essencial que as aulas de língua portuguesa ocorram
em um ambiente comunicativo, no qual os estudantes possam desenvolver suas habilidades de
linguagem. O professor tem o papel de proporcionar momentos de reflexão e compreensão sobre
a língua materna dos alunos, desmitificando ideias preconcebidas, e orquestrando seu ensino com
vistas a desconstruir julgamentos sobre o “certo” e o “errado” na linguagem.
Diante disso, esperamos que esta pesquisa contribua para a compreensão dos mecanismos
que envolvem a fala e a escrita, e para alertar os docentes sobre a influência da fala nas produções
textuais dos alunos, o que pode explicar, e justificar, seus supostos erros.
Ademais, desejamos que nosso estudo sirva como orientação para os professores
reconhecerem e admitirem a importância de trabalharem o tema variação linguística nas aulas de
língua portuguesa, identificando e entendendo os desvios de escrita presentes nas produções dos
discentes. Para isso, é fundamental criar estratégias pedagógicas que levem os alunos a
compreenderem a importância da adequação linguística em diferentes contextos e situações
comunicativos, seja na modalidade oral seja na escrita.
Nessa direção, o Mestrado Profissional em Letras tem proporcionado a capacitação dos
professores da educação básica, por meio da formação continuada que atende às suas
necessidades. Ele tem dado suporte aos docentes de língua portuguesa do Ensino Fundamental,
anos finais, municiando-os com ferramentas valiosas para aprimorar suas práticas pedagógicas.
Por essas razões, reconhecemos a relevância do estudo, da observação, da pesquisa e da
análise de dados proporcionados pelo programa. Compreendemos que ser professor é, antes de
tudo, ser pesquisador e constante aprendiz. As dificuldades de aprendizagem dos alunos não
devem ser tratadas apenas com correções superficiais, mas analisadas em profundidade, pois os
textos dos estudantes nos revelam os caminhos que devemos trilhar para criarmos práticas mais
eficazes para o ensino da língua materna.
Concluindo, esta pesquisa oferece contribuições significativas para o ensino de língua
portuguesa e para a formação de professores conscientes e preparados para lidar com a
interferência da fala na escrita, decorrente da variação linguística, e transposta para as produções
133
escritas de seus alunos. Investigamos alguns porquês disso e encontramos respostas, mas nossa
pesquisa não é exaustiva.
134
REFERÊNCIAS
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BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística.
São Paulo: Parábola, 2007.
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2015.
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cidades, villas e logares mais populosos do Imperio. Brasília, DF: Câmara dos Deputados,
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DESFAZ as malas. [Compositor]: Guilherme Silva. São Paulo: Letras, 2024. Disponível em:
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kOWdB&index=2. Acesso em: 8 nov. 2024.
SOTAQUES do Brasil 5º Parte - Serie. Leandro Oliveira. Rio de Janeiro, Jornal Hoje, 14 jun.
2017b. 1 vídeo (3:55 min.). Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=v2ijLe1Ebr8&list=PLWMdKxtNnJYhLGZs_fMNeePziIa4
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TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática: ensino plural. São Paulo: Cortez, 2011.
VICENTE, Maria da Penha Borges de Oliveira. O uso variável das formas “mas” e “mais”
na escrita e na oralidade de alunos do Ensino Fundamental – Janaúba/MG. Dissertação
(Mestrado em Letras) - Programa de Pós-Graduação Mestrado Profissional em Letras,
Universidade Estadual de Montes Claros, Montes Claros, 2021.
138
1- As primeiras cenas do filme mostram a rotina do garotinho protagonista. Descreva o dia a dia
do menino. Com base nessa rotina, o que motivou a mãe a decidir dar a ele “o presente”?
____________________________________________________________________________
____________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________
2 - Sabemos que grande parte das crianças gostam muito de animais de estimação. No filme,
porém, o garoto reage de forma negativa, ao notar a deficiência do cachorro. Mesmo sendo
desprezado, o cachorrinho brinca e consegue chamar a atenção do garoto. O que isso sugere
sobre as habilidades daqueles que possuem deficiência?
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3 - Se a mãe do garoto tivesse escolhido um cachorrinho sem deficiência, o efeito final do filme
teria sido o mesmo? Explique sua resposta.
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4 - No fim do curta-metragem, é revelado que o menino também possui deficiência física. Por
que, então, ele rejeitou o cachorrinho?
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1- A principal ideia do site Filmow é que você mostre aos seus amigos os filmes a que já
assistiu, comente sobre eles e registre sua opinião sobre a produção.
Imagine que você fará um post sobre O presente para publicar nesse site. Considerando a
informação anterior e as ideias expressas no filme, escreva um parágrafo comentando a história
contada, registrando, com suas palavras, uma avaliação sobre o filme:
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CONVITE
Caros alunos,
ficaram curiosos com o assunto ‘inclusão’??
Vocês gostariam de estudar, conhecer sobre a ‘inclusão’, ‘exclusão’?
( ) Sim
( ) não
Informante: PM 14/12
Informante: PF 13/8
145
Informante: PM 14/9
Informante: PM 14/4