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Artigo Juliete

Este estudo analisa a variação linguística e o preconceito linguístico em Cotegipe-BA, destacando a importância das variedades locais como expressões de identidade e resistência cultural. A pesquisa, baseada em entrevistas com idosos, revela que as formas populares de fala são frequentemente desvalorizadas, refletindo preconceitos sociais enraizados. O trabalho defende a valorização da diversidade linguística como forma de respeitar e afirmar a identidade dos falantes.

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Este estudo analisa a variação linguística e o preconceito linguístico em Cotegipe-BA, destacando a importância das variedades locais como expressões de identidade e resistência cultural. A pesquisa, baseada em entrevistas com idosos, revela que as formas populares de fala são frequentemente desvalorizadas, refletindo preconceitos sociais enraizados. O trabalho defende a valorização da diversidade linguística como forma de respeitar e afirmar a identidade dos falantes.

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PRECONCEITO LINGUÍSTICO E VALORIZAÇÃO DA NORMA LOCAL:

REFLEXÕES A PARTIR DE ENTREVISTAS EM COTEGIPE-BA


Autores
Marise Vitória dos Santos Soares
Orientadora
Juliete Macêdo
RESUMO
Este estudo está vinculado ao projeto SOCIOLID – Sociolinguística e Identidade no Oeste Baiano. Que
visa documentar e valorizar as variedades linguísticas das comunidades do Oeste baiano, compreendendo
a linguagem como lugar de memória, diversidade e afirmação social. Este artigo apresenta uma análise
sociolinguística das práticas de fala de comunidades da bacia do Rio Grande (BA), explorando a relação
entre variação linguística, identidade social e percepção comunitária. Fundamentado na tradição
variacionista proposta por Labov (1966, 1969), o estudo parte da ideia de que as escolhas linguísticas dos
falantes são sistemáticas, socialmente condicionadas e carregadas de significado. O trabalho dialoga com
os estudos de Walt Wolfram e Guy Bailey, que reforçam o papel da variação como expressão de pertença
local, especialmente em comunidades rurais e minoritárias. A perspectiva etnográfica de Suzanne
Romaine e Bortoni-Ricardo (2004) contribui para entender a linguagem como prática cultural situada,
articulada aos modos de vida e às redes sociais dos sujeitos. A análise mostra que as variantes populares,
como a ausência de concordância verbal ou o uso de pronomes reduzidos, não apenas refletem traços
históricos do português brasileiro, mas também funcionam como elementos identitários e marcas de
resistência simbólica.

INTRODUÇÃO

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: PRECONCEITO LINGUÍSTICO E


VALORIZAÇÃO DA NORMA LOCAL.
A linguagem é uma das principais formas de expressão humana e desempenha
papel fundamental na construção das identidades sociais e culturais. No entanto, em
muitas sociedades, especialmente no Brasil, o modo como um indivíduo fala pode se
tornar um fator de discriminação e exclusão social. Esse fenômeno é conhecido como
preconceito linguístico e, é uma forma de discriminação baseada nas variações da língua
falada por determinados grupos sociais, sendo frequentemente direcionado às formas
populares do português falado no Brasil. Esse tipo de preconceito revela uma visão
equivocada de que há uma única forma "correta" de falar a língua, geralmente associada
à norma-padrão, deixando de lado a diversidade linguística existente no país. Como
explica Marcos Bagno (2007), um dos principais estudiosos do tema:
“O preconceito linguístico é uma forma de preconceito social, que se manifesta como
uma rejeição das formas de falar associadas às camadas populares da sociedade.”
(BAGNO, 2007, p. 29).

Dessa forma, a linguagem torna-se um marcador social, e as variações linguísticas


passam a ser vistas como erros, quando, na realidade, são expressões legítimas de
identidade e pertencimento cultural. Esse julgamento equivocado está enraizado em
preconceitos históricos que privilegiam uma norma culta eurocentrada. Assim, o modo
como uma pessoa se expressa é frequentemente associado ao seu nível de escolaridade,
classe social ou origem geográfica, o que contribui para a discriminação e exclusão de
grupos socialmente marginalizados.

Segundo Stella Maris (2005, p. 45) “Cada grupo social possui uma forma particular
de falar, que não é melhor nem pior do que outra, mas apenas diferente, refletindo sua
própria história e identidade”. Logo a variedade linguística está presente em todas as
comunidades falantes e revela as diferentes maneiras pelas quais os indivíduos usam a
língua no cotidiano. Essas variações ocorrem de acordo com fatores como região, idade,
sexo, escolaridade, profissão e contexto de uso. Ao contrário do que muitas vezes se
pensa, não existe uma forma única e “correta” de falar, mas sim diferentes formas
adequadas a diferentes situações. A ideia de que apenas a norma padrão é válida
desconsidera a complexidade e a riqueza da língua falada pelos diversos grupos sociais.

É importante salientar que todas as línguas e suas variedades seguem regras e estruturas
próprias, mesmo que diferentes da norma padrão. Segundo Faraco (2008.p.51)
“ninguém fala errado; o que há são normas distintas adequadas a situações diversas”.
Ou seja, o uso da linguagem varia de acordo com o contexto e a intenção comunicativa
dos falantes. O problema não está na variedade em si, mas na maneira como a sociedade
a interpreta, carregando preconceitos que naturalizam a inferiorização de certos grupos.
A fala de um indivíduo carrega muito mais do que palavras: ela carrega histórias,
culturas, resistências e modos de existir. Ao defender que "ninguém fala errado", Faraco
nos convida a escutar essas vozes com respeito e a compreender a linguagem não como
um instrumento de dominação, mas como expressão da variedade linguística.

A concepção tradicional de correção linguística frequentemente coloca a norma-padrão


como o único modelo legítimo de uso da língua. No entanto, essa visão ignora a
diversidade linguística presente nas comunidades reais de fala. A Sociolinguística,
especialmente a partir dos estudos de William Labov, contesta essa perspectiva ao
demonstrar que as variedades populares e locais são tão eficazes quanto a norma-padrão
para cumprir sua função comunicativa dentro de seus contextos sociais.

Labov (1972) afirma que “a forma mais eficaz de comunicação é aquela que se
conforma às normas da comunidade de fala”. Essa observação é central para
compreendermos que a linguagem só pode ser considerada "adequada" quando está em
sintonia com os valores, hábitos e práticas linguísticas do grupo social ao qual pertence
o falante. Ou seja, a eficácia da linguagem não se mede por aderir à norma-padrão, mas
pela sua capacidade de produzir sentido e promover interação dentro de um diálogo.

Em suma, valorizar a norma local é reconhecer que as diferentes formas de falar têm o
mesmo valor e merecem respeito. Muitas vezes, as pessoas julgam a fala de alguém
como errada apenas porque ela é diferente da norma ensinada na escola. No entanto,
essas variações regionais e populares fazem parte da cultura e da identidade dos
falantes. Como explica Labov (1972, p. 184), “nenhuma variedade linguística é inferior
a outra; cada uma é tão lógica e sistemática quanto qualquer outra quando analisada em
seus próprios termos”. Isso mostra que todas as formas de falar seguem regras próprias
e têm sentido dentro do grupo que as utiliza. Por isso, respeitar a forma de falar das
pessoas é também respeitar quem elas são, combatendo o preconceito linguístico e
valorizando a diversidade.

METODOLOGIA

Este estudo adota uma abordagem qualitativa, fundamentada nos pressupostos da


Sociolinguística Variacionista (Labov, 1972), com o intuito de investigar a variação
linguística presente no discurso oral de idosos da cidade de Cotegipe, localizada no
Oeste da Bahia, bem como as manifestações de preconceito linguístico associadas a
essas formas de falar. A pesquisa parte da concepção de que a linguagem é uma prática
social, carregada de valores simbólicos, e que as variações refletem identidades,
histórias e experiências locais.

A primeira etapa do trabalho consistiu em uma revisão bibliográfica, com o


levantamento de obras fundamentais para o embasamento teórico da pesquisa. Foram
analisados autores como Labov (1972), Bortoni-Ricardo (2005), Bagno (2007) e Faraco
(2008), cujos estudos discutem a variação linguística, o funcionamento das normas
linguísticas em contextos reais de uso e os efeitos sociais do preconceito linguístico. A
revisão permitiu definir conceitos-chave como, norma culta x norma popular, e
estigmatização de traços linguísticos.

A segunda etapa envolveu a coleta de dados empíricos, realizada por meio de entrevistas
semiestruturadas com idosos (com 60 anos ou mais) residentes em Cotegipe, da zona
rural. As entrevistas ocorreram em contextos informais, priorizando o conforto dos
participantes e a naturalidade da fala. O roteiro das entrevistas incluiu temas do
cotidiano, lembranças do passado, hábitos culturais e percepções sobre a própria forma
de falar e sobre o modo como são vistos pelos outros.

Os depoimentos foram gravados com a autorização dos participantes e posteriormente


transcritos de forma detalhada, respeitando os padrões da Sociolinguística Quantitativa
para marcação das variações. A análise considerou fenômenos como a (não) realização
de concordância verbal e nominal, variações no uso de pronomes, formas reduzidas de
verbos e nomes, entre outros traços recorrentes da fala popular nordestina. A
investigação também contemplou aspectos metalinguísticos presentes nas falas dos
entrevistados, buscando captar momentos em que os próprios sujeitos comentam sua
maneira de falar, revelando percepções sobre a linguagem.

A validade da pesquisa foi garantida pela triangulação metodológica entre: a) os dados


coletados nas entrevistas; b) os referenciais teóricos que embasam a análise; c) e o
conhecimento do contexto obtido por meio de observação participante e conversas
informais com membros da comunidade. Todos os princípios éticos de pesquisa com
seres humanos foram rigorosamente seguidos, com ênfase na escuta sensível, no
respeito à identidade dos participantes e na valorização de suas experiências linguísticas
como formas legítimas de saber e expressão cultural.
ANÁLISE DOS DADOS

As entrevistas realizadas com três idosos residentes na zona rural de Cotegipe e um


jovem da cidade de Luís Eduardo Magalhães evidenciaram a riqueza da variação
linguística presente no oeste baiano, bem como os vínculos entre linguagem, identidade,
memória e pertencimento. Os relatos colhidos permitiram identificar marcas da
oralidade, do português popular rural, além de diferentes percepções sobre o falar
regional, a norma-padrão e o julgamento social da linguagem.
No caso do Participante 3 (masculino, 74 anos), sua fala é marcada por formas
reduzidas e expressões populares, como “labutar com as criações”, “malinando”, “peia”
e “saboco de milho”. A presença de estruturas como “o sonho da gente foi esse”, sem
concordância formal, mostra um uso da língua que segue regras internas da variedade
popular nordestina. O uso frequente de “é…” como marcador de hesitação ou
insegurança revela um traço típico da linguagem oral espontânea. Além disso, sua
consciência metalinguística aparece quando comenta: “aqui mesmo, Cotegipe, uns
falam de um jeito, outros já falam de outro”, reconhecendo a diversidade linguística
dentro de sua própria comunidade.
Já o relato da Participante 1 (feminino, 84 anos) apresenta uma fala permeada de
afetividade e resistência. Desde os sete anos de idade, trabalhou nas roças e oficinas de
fumo, e sua linguagem traduz essa trajetória de vida. Expressões como “estalando
fumo”, “junco”, “pegar imbu” e a referência ao uso de temperos como “safroa”
(açafrão) e “coentro” refletem o vocabulário tradicional e regional. Sua fala, por vezes
marcada por repetições e hesitações (“de-de-de lutar no mato”), reforça a característica
oral da linguagem. A entrevistada valoriza festas religiosas e culturais como o Divino,
Santa Cruz e São João, demonstrando que a linguagem se articula à memória afetiva e à
identidade coletiva.
O depoimento do Participante 2 (masculino, 100 anos) reforça ainda mais esse elo entre
língua, tempo e cultura. Mesmo com dificuldades de escuta e compreensão, foi possível
perceber a ligação entre sua fala e experiências vividas no passado. Ele menciona a
brincadeira de “laçar bezerro” como parte da infância, e revela preferência por
alimentos como batata com leite, abóbora com leite, requeijão e bolo de cenoura. Seu
repertório culinário inclui temperos tradicionais como “cominha” (cominho), “safrão” e
“pimenta do reino”. Quando questionado sobre as diferenças entre o falar dos jovens e
dos mais velhos, respondeu: “não acho erro, não. Conversa tudo direito […] o erro é
humano.” Essa fala traduz uma postura de tolerância e respeito à diversidade linguística,
alinhada ao pensamento de Faraco (2008), segundo o qual “ninguém fala errado”.
Em contraste, a entrevista com o Participante 4 (masculino, 24 anos), engenheiro
eletricista com ensino superior completo, revelou uma fala mais próxima da norma-
padrão, com estrutura mais formal, vocabulário técnico e ausência de regionalismos
evidentes. Ainda assim, ele reconhece diferenças no falar entre regiões, citando
expressões como “uai” (Goiás) e “oxente” (Bahia). Admite usar “a gente” no lugar de
“nós” no cotidiano, mas julga negativamente expressões como “nós vai”. Sua fala
mostra certa consciência sociolinguística, embora limitada, e reproduz julgamentos
comuns sobre “certo” e “errado”, muitas vezes influenciados pela norma escolar. Ao ser
questionado se acredita que falar mais próximo da norma culta indica maior
escolaridade, respondeu: “não, talvez mais leitura”.
A comparação entre os participantes evidencia que a linguagem não é neutra nem
estática, ela acompanha o tempo, o espaço e a trajetória social dos falantes. Enquanto os
mais velhos apresentam falas marcadas por regionalismos, memória, religiosidade e
saberes tradicionais, o jovem entrevistado expressa uma linguagem mais controlada,
com menor vínculo afetivo ou identitário com a forma de falar. Essa diferença de
postura ilustra o que Labov (1972) já indicava: todas as variedades linguísticas são
igualmente sistemáticas e eficazes em seus contextos sociais, mas não recebem o
mesmo prestígio social.
Nesse sentido, é possível afirmar que os dados reforçam o caráter social e histórico da
variação linguística, bem como os impactos do preconceito linguístico nas percepções
sobre o “falar certo” ou “errado”. Como defende Bagno (2007), ao valorizar apenas a
norma-padrão, a sociedade reforça desigualdades e invisibiliza saberes e modos de vida
presentes em comunidades como as da zona rural de Cotegipe. Por outro lado,
reconhecer e respeitar a fala popular é também afirmar a identidade e a dignidade desses
sujeitos.

REFERÊNCIAS

BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 55. ed. São Paulo:
Edições Loyola, 2007.

BORTONI-RICARDO, Stella Maris. O professor de língua materna e a


sociolinguística. 5. ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.

FARACO, Carlos Alberto. Linguística histórica: uma introdução ao estudo da mudança


linguística. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

LABOV, William. Sociolinguistic Patterns. Philadelphia: University of Pennsylvania


Press, 1972.

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