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Macau Grebogi Ciencia Hoje

O documento descreve a missão Apollo e a técnica de controle do caos utilizada para levar o homem à Lua em 1969, destacando a importância da trajetória de livre retorno e da transferência de Hohmann. Ele explora os desafios do problema dos dois e três corpos na mecânica celeste, enfatizando a complexidade das órbitas caóticas e a necessidade de métodos numéricos para resolver essas questões. A pesquisa e o desenvolvimento tecnológico foram fundamentais para a realização dessa conquista histórica da exploração espacial.

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João Magalhães
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Macau Grebogi Ciencia Hoje

O documento descreve a missão Apollo e a técnica de controle do caos utilizada para levar o homem à Lua em 1969, destacando a importância da trajetória de livre retorno e da transferência de Hohmann. Ele explora os desafios do problema dos dois e três corpos na mecânica celeste, enfatizando a complexidade das órbitas caóticas e a necessidade de métodos numéricos para resolver essas questões. A pesquisa e o desenvolvimento tecnológico foram fundamentais para a realização dessa conquista histórica da exploração espacial.

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F Í S I C A

Um veículo lançador falha. 20 de julho de 1969. Um dos maiores épicos de todos os tempos se
desenrola, e todos podem acompanhar ao vivo, graças
E uma sonda que deveria à então novíssima tecnologia de comunicação ‘via sa-
orbitar a Lua acaba presa télite’. E, com grande emoção, às 23h56 (hora de
à gravidade terrestre. Brasília), cerca de 1,2 bilhão de pessoas testemunham
o momento em que o homem – no caso, o astronauta
Fim da missão? Não. norte-americano Neil Armstrong – pisa pela primeira
Graças ao caos, ela vai chegar sã vez no solo lunar. A barreira mítica da chamada con-
e salva ao seu destino original. quista da Lua havia finalmente caído, e as portas para
a exploração espacial se abriam definitivamente.
Melhor: com um gasto mínimo A chegada do homem à Lua resultou de um intenso
de combustível, pois irá até lá e concentrado trabalho de pesquisa e desenvolvimento
‘surfando’ em uma trajetória caótica. tecnológico, envolvendo diversas áreas do conhecimen-
to. Vejamos o caso da viagem em si. O item primordial
Certamente, uma cena de ficção. era o transporte com segurança de vidas humanas. A
Não, realidade pura. viagem precisava ser a mais rápida e segura possível.
A técnica, baseada no chamado Os gastos com combustível deveriam ser mínimos para
limitar o tamanho e a potência do veículo lançador
controle do caos, ganhou (figura 1A). A trajetória foi concebida para, em caso de
base experimental sólida pane, permitir o resgate da tripulação de forma sim-
depois de testada com sucesso ples e direta.

no resgate e na reorientação
de sondas e satélites.
Missão Apollo
Para cumprir essas metas, os vôos da missão Apollo se
subdividiam em fases. Na primeira, os três estágios do
foguete Saturno V colocavam a espaçonave propria-
mente dita – constituída pelos módulos de serviço e de
comando (figura 1B) – a 160 km da Terra. Após 2h30,
novo impulso do terceiro estágio enviava a espaçonave
Elbert E. N. Macau em direção à Lua, em uma trajetória denominada
Laboratório Associado de Computação translunar. Depois de 70 horas, alcançava-se o alvo.
e Matemática Aplicada, Quando a espaçonave se encontrava pela primeira
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais vez do lado ‘oculto’ da Lua, os motores eram novamen-
Celso Grebogi te acionados e propiciavam o impulso que a colocava
Instituto de Física, em uma órbita elíptica em torno desse satélite. Mais
Universidade de São Paulo um impulso tornava a órbita circular, com um raio de

2200 •• CCIIÊÊNNCCIIAA HHOOJJEE •• vvooll.. 3344 •• nnºº 220044


F Í S I C A

100 km. Seguiam-se as opera- outra órbita, também circular e B


ções do módulo lunar, ou seja, no mesmo plano da primeira. A
do módulo da missão Apolo XI, forma clássica de se fazer isso é
que conduzia os astronautas até através da utilização da chama-
a superfície de nosso satélite e, da transferência de Hohmann,
de lá, de volta ao módulo de co- em homenagem ao engenheiro
mando, que os esperava em ór- alemão Walter Hohmann (1880-
bita. 1945), que a concebeu.
As missões Apollo empregavam a chamada tra- Para efetuar a transferência, essa técnica empre-
jetória de livre retorno, isto é, a energia da traje- ga uma órbita elíptica que deve ser tangente às duas
tória translunar era escolhida de forma que a nave órbitas circulares, ou seja, àquela em que se está
não escapasse do sistema Terra-Lua em caso de e àquela em que se quer chegar. Assim, estando a
falha em seu motor. Porém, se isso ocorresse, o nave na primeira delas, aplica-se um impulso na
veículo com os astronautas retornaria com segu- direção do movimento. Graças a ele, o veículo en-
rança à Terra em poucos dias. tra em uma órbita de transferência elíptica. Espe-
Todas essas manobras empregavam o princípio ra-se que o veículo complete meia revolução nessa
da transferência direta e impulsiva, ou seja, mano- nova trajetória e atinja nela o ponto de maior afas-
bras realizadas pelo acionamento dos motores por tamento (apoapisis) em relação ao corpo central.
curtos intervalos de tempo. Essa estratégia requer Nesse exato ponto, aplica-se um segundo impulso,
valores elevados de variação de velocidade, o que que faz com que a nave entre na órbita circular de-
significa uma relação elevada entre dois fatores: a) sejada em volta do corpo central (figura 2A).
massa de propelente; b) massa total da espaçonave. A estratégia de Hohmann aplicada uma única
Isso, por sua vez, reduz a quantidade de carga útil vez, no entanto, não permite manobrar a nave de
que se poderia transportar – esta última limitada modo a levá-la a orbitar um segundo corpo – a Lua,
pelas características físicas do foguete. por exemplo. Para isso, subdivide-se o problema
em duas partes. Na primeira, despreza-se o efeito
gravitacional da Lua e se utiliza o método de
Hohmann para se transferir a nave da órbita ini- 
O problema
dos dois corpos Figura 1. Em A, lançamento da Apollo 11,
em 16 de julho de 1969, a bordo do foguete Saturno V,
As manobras orbitais utilizadas para conduzir as o mais poderoso veículo lançador espacial já
espaçonaves do projeto Apollo da Terra até à Lua construído pela humanidade. Em B, configuração
exploram um cenário conhecido como ‘o problema de lançamento do foguete Saturno V para uma missão
dos dois corpos’. Trata-se da transferência de um Apollo à Lua. Observe que o foguete propriamente
dito se constitui de três módulos: S-IC, S-II e S-IVB.
desses corpos – uma nave, por exemplo – que está A nave Apollo, constituída dos módulos de comando
em órbita circular em torno do segundo – podemos e serviço, se acopla ao Saturno V acima da estrutura
NASA

imaginar a Terra. Deve-se, então, levar a nave para de armazenamento do módulo lunar

m
maaiioo ddee 22000044 •• CCIIÊÊNNCCIIAA HHOOJJEE •• 2211
F Í S I C A

Figura 2. A transferência de Hohmann é a co mais ao primeiro deles. Revendo a evolução da


A forma mais tradicional, direta, rápida mecânica celeste, o físico e matemático inglês sir
e eficiente para se transferir uma nave
Isaac Newton (1642-1727) foi quem pela primeira
entre duas órbitas circulares. Em A,
estão delineadas as órbitas circulares vez obteve a solução em termos de funções ele-
(vermelho) entre as quais se quer mentares para as equações que descrevem o pro-
transferir a nave, bem como a órbita blema dos dois corpos: quando se tem um corpo se
de transferência (amarelo). Em B, deslocando sob a ação gravitacional de outro – este
estão as variações de velocidade
central e de maior massa –, o primeiro descreve
necessárias para efetuar a transferência
de uma órbita ao redor da Terra para outra uma trajetória cônica, que pode vir a ser uma
que coincida com a da Lua elipse, parábola ou hipérbole.
Nesse cenário, partindo-se das condições im-
postas pela posição e velocidade iniciais do corpo
B cial até uma que cruza a traje- em órbita, chega-se a uma solução das equações
tória da Lua (figura 2B). Quan- que descrevem a trajetória percorrida. Na transfe-
do o veículo alcança um rência de Hohmann, essas idéias são exploradas
ponto da trajetória onde o considerando-se dois cenários, um dado pela nave
campo gravitacional lunar e a Terra e outro pela nave e a Lua.
passa a dominar o movi-
mento – a chamada esfera
de influência da Lua –,
despreza-se, então, o efeito
Com um corpo a mais
da Terra e considera-se o ce- Uma situação mais complexa, porém, é a de se
nário da trajetória do veículo obter a solução das equações que descrevem o
sob a ação da Lua. problema dos três corpos. Esse é um cenário mais
Essa estratégia permitiu que o realístico, envolvendo, por exemplo, um veículo
projeto Apollo levasse o homem à Lua espacial que se move entre a Terra e a Lua. Aqui,
(figura 3). Porém, envolve gastos elevados de sua trajetória sofre o tempo todo a influência
combustível, compatíveis, no entanto, com as im- gravitacional dos dois corpos maiores. Esse proble-
pressionantes características do foguete Saturno V. ma, que parece simples, não tem solução em ter-
mos de funções elementares. Assim, mesmo co-
nhecendo a posição e a velocidade iniciais de nosso
veículo, só podemos calcular sua órbita através do
Combustível insuficiente uso de ferramentas matemáticas sofisticadas – os
Seria possível transferir a órbita de uma nave da chamados métodos numéricos – e com o auxílio de
Terra para a Lua utilizando-se menos combustí- computadores.
vel? Essa é uma questão impor-
tante, principalmente quando
não se tem um veículo lançador
com as características de um
Saturno V. Infelizmente, em um
cenário envolvendo uma trans- Separação
do módulo
ferência direta no âmbito do de comando 5
6 Impulso
problema dos dois corpos, a es-
rumo
tratégia de Hohmann é pratica- à Terra
Reentrada
mente ótima. Assim, para redu- e pouso
zir os custos envolvidos, ou se 2 7 4
Descida
consideram naves com a menor 1 e retorno
Entrada em órbita
massa possível, ou se parte para do módulo
Impulso lunar
um cenário que ofereça maior
rumo
Figura 3. flexibilidade. à Lua
Etapas da Essa segunda alternativa exis- 3
jornada de ida Entrada na
te? Sim, quando se abandona o órbita lunar
à Lua e retorno cenário do problema dos dois
à Terra Lua
utilizadas corpos e se considera o do cha-
pelas missões mado problema dos três corpos.
Apollo Porém, vamos nos deter um pou-

22 • C I Ê N C I A H O J E • v o l . 3 4 • n º 2 0 4
F Í S I C A

Porém, isso não é tudo. Desde o final do século A B Figura 4.


19, graças ao trabalho do matemático francês Henri Conceito de
espaço de fase.
Poincaré (1854-1912), sabe-se que, no âmbito do
Em A, pêndulo
problema dos três corpos, podem ocorrer órbitas simples em
complexas e que não se repetem com o passar do um suporte
tempo (aperiódicas). Porém, a característica mais sem atrito
importante delas é o fato de serem muito sensíveis e sob a ação
da força
a variações em suas condições iniciais – assunto
da gravidade.
que discutiremos adiante. Em B, trajetória
Essas órbitas – hoje denominadas caóticas – correspondente
apresentam flexibilidade e sensibilidade incríveis, do pêndulo no
a ponto de proporcionar transferências entre pon- espaço de fase
tos do espaço com quantidades mínimas de ener-
gia (combustível), conforme veremos a seguir. em vez de soluções precisas (ou quantitativas).
Além disso, usou o chamado espaço de fase, onde
se tem a representação instantânea da posição e da
velocidade de um corpo e no qual as trajetórias
O problema associadas ao deslocamento de uma partícula no
espaço são descritas em seis dimensões, três delas
dos três corpos associadas à posição e as outras à velocidade.
Foi um longo caminho até que se entendesse o Para entendermos esse conceito, vejamos o caso
comportamento, bem como outros ‘mistérios’, dos do pêndulo descrito na figura 4A. Em qualquer
sistemas caóticos. Esse caminho está intimamente instante de tempo, seu movimento pode ser
ligado ao problema dos três corpos. Tão ou mais univocamente descrito pelo ângulo que o pêndulo
importante que chegar à lei da gravidade foi o fato faz com a horizontal e por sua velocidade instan-
de Newton associar a ela o caráter de universali- tânea. No espaço de fase, sua trajetória ao longo
dade, isso é, de ser aplicável às interações entre do tempo descreve uma curva em um espaço
quaisquer dois ou mais objetos do universo. bidimensional, conforme aparece na figura 4B.
Newton concebeu sua teoria da gravitação para Continuando suas aproximações, Poincaré deci-
explicar o movimento da Lua. Esse satélite interage diu utilizar uma versão mais restrita do problema.
com a Terra, mas, em um cenário mais realista, o Tomou dois objetos em movimento circular e con-
efeito do Sol precisa ser considerado. Tem-se, as- siderou um terceiro, de massa muito menor que a
sim, uma situação envolvendo o movimento de dos dois primeiros e que se desloca no mesmo
três corpos que interagem entre si gravitacional- plano definido por estes. Esse é o chamado proble-
mente. Apesar de inúmeras tentativas, Newton não ma circular restrito dos três corpos, no qual o
conseguiu resolver esse problema – aliás, nem ele, terceiro corpo – por exemplo, uma nave – sofre
nem as outras gerações de cientistas que a ele se influência dos dois primeiros – podemos pensar
seguiram. na Terra e na Lua –, mas não os influencia.
A dificuldade em se achar uma solução para Em vez de analisar a órbita completa descrita
esse problema está em se encontrar nove quanti- pelo terceiro corpo no espaço de fase, Poincaré
dades, chamadas constantes de movimento. Na introduziu um plano transversal à trajetória dele –
época, supunha-se que elas pudessem ser escritas como mostra a figura 5A – e analisou seu movi-
em termos de equações algébricas. Porém, ainda mento, tomando por base os sucessivos pontos nos
em 1892, o matemático e astrônomo alemão Hein- quais a trajetória perfura esse plano. A introdução
rich Bruns (1848-1919) mostrou que essa suposi- desse plano – que é hoje denominado seção de
ção era falsa. Poincaré – foi um estratagema poderoso, pois sim-
Em conclusão, o problema geral dos três corpos plificou sobremaneira a análise do problema.
só pode ser resolvido através de métodos numéricos.

Dinâmica caótica
Estratagema poderoso No desenrolar de seu trabalho, Poincaré ficou parti-
Em meados de 1880, Poincaré passou a trabalhar cularmente impressionado e surpreso por ter en-
no problema dos três corpos. Ele decidiu tentar contrado órbitas que apresentavam um padrão
um enfoque: procurar figuras geométricas asso- aperiódico, mas cujas condições iniciais (posição e
ciadas a soluções aproximadas (ou qualitativas), velocidade) eram muito próximas das de órbitas 

m a i o d e 2 0 0 4 • C I Ê N C I A H O J E • 23
F Í S I C A

meteorologista norte-americano Edward Lorenz,


A B analisando um modelo numérico associado à pre-
visão do tempo, redescobriu, em relação às suas
conseqüências físicas, o movimento caótico e sua
característica fundamental: a sensibilidade a va-
riações das condições iniciais.
No trabalho de Lorenz e de muitos que se segui-
ram, é importante realçar o papel relevante do
computador, que permitiu a análise adequada da
dinâmica caótica. Isso se deve não só à capacidade
Figura 5. Em A, conceito de seção de Poincaré: um plano que intercepta de o computador gerar um número assombroso de
as trajetórias. O problema passa a ser examinado através da análise soluções associadas a várias condições iniciais, mas
dos pontos que são gerados na seção de Poincaré quando a trajetória também àquela de representar essas soluções atra-
a perfura. Em B, estrutura complexa dos pontos deixados pelas órbitas vés de gráficos elaborados que realçam significa-
‘mal comportadas’ (caóticas) na seção de Poincaré no caso
dos qualitativos.
do problema restrito circular dos três corpos
Mas retomemos uma questão importante. O que
significa essa sensibilidade a variações das condi-
periódicas. Visto através da seção de Poincaré, ções iniciais? Voltemos ao problema dos três cor-
o padrão de pontos deixados por essas órbitas ‘mal pos – Terra, Lua e uma nave espacial, por exem-
comportadas’ se assemelhava ao conjunto de mar- plo. Nosso objetivo é lançar várias vezes a nave e
cas que as centenas de bolinhas de chumbo de um observar como sua trajetória varia sob a influência
cartucho de caça deixam em uma parede (figura do campo gravitacional do sistema Terra-Lua. Para
5B) – note-se que, se a órbita em questão fosse isso, anotamos as condições iniciais (posição e
periódica, esta sempre ‘furaria’ a seção de Poincaré velocidade) do primeiro lançamento e, para os
segundo uma seqüência de pontos que se repetiria seguintes, fazemos alterações mínimas, quase im-
ao longo do tempo. Além disso, a seção mostrava perceptíveis, nesses valores. Era de se esperar que
que esses pontos ocupavam o espaço de fase de as trajetórias fossem praticamente semelhantes do
modo estranho: havia regiões densamente ocupa- início ao fim. Mas isso só acontece nos primeiros
das, enquanto outras não apresentavam ponto al- instantes. Com o passar do tempo, elas se afastam
gum (figura 5B). tanto uma das outras que passam a praticamente
Poincaré compreendeu que seria difícil esti- não ter correlação alguma entre elas – no vocabu-
mar, depois de um certo tempo, a órbita de um lário da matemática, diz-se que elas se separam
planeta que apresentasse esse comportamento. Em em média exponencialmente.
seu trabalho, ele descreveu esse conjunto de pon- Em outras palavras, quando um sistema é caó-
tos como um padrão tão complexo que ele sequer tico, pequenas alterações em suas condições ini-
se aventurava a desenhar. O que ele vislumbrou ciais – ou pequenas mudanças em seu estado –
foi justamente o movimento que hoje denomina- podem causar grandes alterações da trajetória de-
mos dinâmica caótica. pois de um certo tempo. Essa é a sensibilidade a
variações nas condições iniciais.

Sistema sensível
Os resultados de Poincaré levaram quase 100 anos Exatidão total?
para serem adequadamente entendidos. A existên- Essa característica dos sistemas caóticos tem con-
cia da dinâmica caótica – ou simplesmente caos – seqüências dramáticas para avaliar como o siste-
foi, contudo, discutida pelos matemáticos ao lon- ma se comportará no futuro com base em dados
go dessas décadas, com contribuições importantes, obtidos experimentalmente sobre ele. Vamos a
entre outros, da dupla inglesa Mary Lucy Cartwright outro exemplo. Imagine que se está medindo um
(1900-1998) e John Littlewood (1885-1977), dos sistema cuja evolução é caótica com um termôme-
norte-americanos George Birkhoff (1884-1944), tro. Esse sensor, por mais sofisticado que seja, apre-
Norman Levinson (1912-1975) e Stephen Smale, senta os valores das medidas com um número li-
bem como do russo Andrei Kolmogorov (1903- mitado e finito de algarismos. Isso significa que
1987) e do brasileiro Maurício Peixoto e seus es- não se consegue determinar, com total exatidão, o
tudantes. valor instantâneo da temperatura.
No entanto, o impacto do caos nas ciências só A imprecisão presente nos dados coletados ex-
começou a ser reconhecido em 1963, quando o perimentalmente – no caso, os valores da tempe-

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F Í S I C A

ratura – nos levam a fazer uma previsão que se mesma região onde se tenha uma dinâmica caótica
distancia cada vez mais do como o sistema real – a região periférica e com alta densidade de pontos
evolui. Após certo tempo, o comportamento desses na figura 6 – o que se precisa fazer é localizar uma
dois cenários – ou seja, de nosso modelo teórico e trajetória caótica que passe próxima desses pontos.
do sistema físico real – não tem a menor relação Feito isso, essa trajetória é usada para propiciar o
entre si. transporte entre os pontos. Note que – dado que
Esse tipo de comportamento é uma propriedade um sistema caótico tem a propriedade de tran-
fundamental associada à evolução temporal de um sitividade – essa trajetória existe.
sistema caótico. E mais importante: independe da A grande vantagem desse enfoque é que, uma
sofisticação dos modelos teóricos adotados para se vez posicionada adequadamente a nave, é a pró-
estudar um sistema, dos aparelhos empregados nas pria dinâmica caótica do sistema que se encarrega
medidas experimentais ou do método numérico de transportá-la até o destino desejado, sem gastos
para se chegar a uma solução das equações que o subseqüentes de energia. Tudo se passa como se a
descrevem. nave espacial passasse a ‘surfar’ em uma trajetória
caótica.

‘Surfando’
Controle do caos
na trajetória caótica No entanto, essa estratégia caótica de transporte
Poincaré constatou que certas regiões da seção que apresentava basicamente dois inconvenientes: a) o
ele idealizou eram densamente preenchidas por tempo de transporte e b) a localização dos pontos
pontos – ou seja, a órbita que ele estava estudando suficientemente próximos à origem e ao destino,
(no caso, a do terceiro corpo) passava inúmeras associados a uma mesma trajetória. Na verdade,
vezes por essas regiões. Estudos posteriores carac- esses problemas estão interligados. Dados dois
terizaram esse comportamento como uma das pro- pontos quaisquer pertencentes a uma mesma re-
priedades fundamentais das trajetórias caóticas. gião caótica, o transporte pode ocorrer, em geral,
Os matemáticos chamam-na transitividade. Essas em um tempo finito – este é o próprio conceito de
regiões podem ser vistas tanto na figura 5B quanto transitividade. Porém, esse intervalo de tempo pode
na figura 6. ser arbitrariamente grande. 
Transitividade significa que, dados dois pontos
quaisquer interiores a uma dessas regiões densa-
mente preenchidas, existe uma trajetória do siste-
ma que passe tão próximo quanto se queira desses
pontos. Essa propriedade advém do fato de o mo-
vimento caótico ser um movimento aperiódico que
se mantém confinado no interior de uma certa
região do espaço. Para que uma determinada tra-
jetória não passe duas vezes por um mesmo ponto
– e, mesmo assim, se mantenha confinada em um
espaço limitado –, ela termina por se dobrar sobre
si mesma infinitas vezes, constituindo um enove-
lado que ocupa praticamente todo o espaço em
que o conjunto caótico se mantém confinado. Uma
analogia seria a de um novelo de lã de compri-
mento infinito a se desenrolar no interior de uma
caixa fechada. Figura 6. Espaço de fase representando um sistema
É justamente devido a essa distribuição espa- com características similares às que estão presentes
nos problemas envolvendo a reorientação de naves
cial da trajetória que uma evolução caótica apare-
espaciais. Cada trajetória associada a uma diferente
ce na seção de Poincaré como uma região densa- condição inicial – no caso da nave, posição e velocidade
mente preenchida por pontos. A propriedade da – aparece representada por pontos de cores diferentes.
transitividade pode ser aproveitada de forma A região de alta densidade está associada a uma única
oportunística para se empreender o transporte entre trajetória caótica que preenche densamente
o espaço que a envolve, expressão da propriedade
dois pontos – em nosso caso, a transferência de
transitiva. Note-se que existem outras trajetórias
uma sonda espacial entre dois pontos do espaço. que não apresentam uma dinâmica caótica
Assim, se esses dois pontos pertencerem a uma (região central da figura)

maio de 2004 • CIÊNCIA HOJE • 25


F Í S I C A

A órbita conveniente

Como achar uma órbita para levar uma nave, no menor tempo inicial da nave que viabilize o transporte den-
possível, da órbita em que ela está para uma outra préestabelecida? tro do menor intervalo de tempo possível.
Para isso, é preciso localizar pontos no espaço de fase que estejam Intrínseco a essa estratégia está o eficiente
próximos à origem e ao destino e que pertençam à mesma trajetó- aproveitamento da sensibilidade a variações nas
ria. Depois disso, basta deslocar a nave – com um gasto mínimo de condições iniciais. Como vimos, sensibilidade
energia – para essa órbita de transporte e, a partir daí, deixá-la significa que pequenas perturbações são ca-
‘surfar’ nessa trajetória caótica até seu destino. pazes de produzir alterações dramáticas, mu-
A localização desses pontos se baseia em um procedimento dando completamente a evolução do sistema. E
geométrico. Os pontos próximos da origem têm sua evolução observe que uma pequena perturbação está, em
temporal verificada para tempos futuros, enquanto os vizinhos geral, associada a gastos mínimos de energia.
à posição final, para tempos passados. Esses dois conjuntos de Assim, a transferência entre regiões do es-
pontos resultantes da evolução temporal definem regiões que paço no âmbito de um sistema caótico pode
se interseccionam sobre a seção de Poincaré. se dar tão-somente à custa de um pequeno
Refinamentos subseqüentes desses pontos permitem chegar dispêndio de energia – uma perturbação su-
ao par de pontos suficientemente próximos à origem e ao des- ficiente para se ir da condição inicial original
tino, ambos pertencentes a uma trajetória próxima à posição até a órbita conveniente de transporte.

O problema, assim, passa a ser o de encontrar mando como uma estratégia poderosa e de grande
pontos próximos que permitam o transporte den- flexibilidade para se controlar adequadamente a
tro do menor tempo possível (ver ‘A órbita conve- evolução dos mais diversos sistemas, sejam eles
niente’). Foi justamente a solução desse problema físicos, biológicos, químicos, aeroespaciais etc.
– bem como a explicitação de suas vantagens em O controle do caos abriu uma nova área de
relação a dispêndios de energia e ao aproveita- pesquisa sobre as aplicações práticas e tecnológicas
mento adequado de pequenas perturbações – que da teoria dos sistemas caóticos.
um dos autores deste artigo (CG) propôs no início
da década de 1990. Desde então, o conjunto dessas
idéias – publicadas em um artigo na mais presti-
giosa revista internacional de física – passou a ser Da teoria à prática
conhecido por controle do caos, que vem se fir- A idéia do controle do caos está baseada no fato de
que um sistema caótico é sensível a pequenas per-
turbações, que, vale ressaltar, implicam gastos mí-
nimos de energia. Em especial, o controle do caos
foi aplicado com sucesso nas mais diversas simu-
lações de sistemas físicos. A grande dúvida era se
poderia ser empregado – e com o mesmo sucesso
– em sistemas físicos reais. Os fatos vieram a com-
provar de forma irretocável que sim.
Quando o cometa Halley visitou a Terra pela
última vez, os norte-americanos decidiram explo-
rar esse corpo celeste com a sonda espacial ISEE-

Figura 7. Representação da complexa trajetória que


conduziu a sonda ISEE-3 de sua posição original até às
proximidades dos cometas Giacobini-Zinner e Halley

26 • C I Ê N C I A H O J E • v o l . 3 4 • n º 2 0 4
F Í S I C A
BELBRUNO, E. CAPTURE DYNAMICS AND CHAOTIC MOTION IN CELESTIAL MECHANICS . PRINCETON, 2004

3 – que fora lançada para investigar as interações


entre a magnetosfera (uma das camadas mais altas
da atmosfera terrestre) e o vento solar. Contudo,
para concretizar essa nova tarefa, seriam necessá-
rios gastos vultosos de combustível para direcioná-
la até o cometa, caso se empregasse os métodos
Terra
clássicos de transferência de órbita. A quantidade
necessária de combustível não existia em seus re- 03/06/90
servatórios, pois a ISEE-3 já estava próxima ao
Lua Lua Sol
término de sua missão original.
Foi quando se decidiu explorar a sensibilidade 19/12/90
a pequenas perturbações no contexto do sistema
sonda-Terra-Lua. Assim, se empreendeu uma se-
qüência de pequenas e sucessivas perturbações,
que fizeram com que a sonda passasse cinco vezes Figura 8. Trajetória utilizada para conduzir a sonda
Hiten das proximidades da Terra (03/06/90) até a Lua.
próxima à Lua, sendo que, na última vez, a pouco Na região a grande distância da Terra, a influência
mais de 100 km. Como resultado dessa seqüência conjunta da Terra, Lua e do Sol proporciona uma região
de manobras – que sequer gastaram o restante de de dinâmica caótica que foi eficientemente explorada
combustível que havia disponível –, a sonda não só para levar a nave até uma órbita lunar (19/12/90)
passou a uma distância adequadamente próxima
do Halley para explorá-lo, como também se apro- SUGESTÕES
ximou e explorou o cometa Giacobini-Zinner, que órbita inadequada ao redor da Terra, após uma PARA LEITURA
se aproximava da Terra (figura 7). falha de seu veículo lançador.
Graças a essas histórias de sucesso, o controle OTT, E., GREBOGI, C.
e YORKE, J. A.
do caos e a reorientação caótica são hoje conside- ‘Controlling Chaos’
rados como a estratégia mais adequada para trans- in Physical Review
Salvando missões ferência orbital sempre que a questão principal
Letters,
vol. 64, pp.
Em seguida, surgiu outra grande oportunidade de for o uso da menor quantidade possível de com- 1196-1199
(1990)
verificação da eficácia da estratégia de controle do bustível.
SHINBROT, T.,
caos quando aplicada ao direcionamento orbital de GREBOGI, C., OTT, E.
sondas espaciais. Foi com a sonda japonesa Hiten, e YORKE, J. A.
‘Using small
lançada em 1990, que deveria seguir uma trans-
ferência de Hohmann da Terra para a Lua e, uma Os desafios perturbations
to control chaos’
in Nature
vez em órbita lunar, lançar o módulo Hogoromo, O tema controle do caos continua atualíssimo, vol. 363,
cuja missão era explorar a superfície do satélite. envolvendo esforços intensivos de pesquisa, pp. 411-417
No entanto, um funcionamento inadequado do tanto nas mais prestigiosas instituições interna- (1993)
ADLER, R. ‘To the
veículo lançador acabou por posicionar a sonda cionais quanto nas brasileiras, em particular no planets on a
Hiten em uma trajetória elíptica ao redor da Terra. Instituto de Física da Universidade de São Paulo e shoestring’
in Nature ,
Como conseqüência, não existia combustível sufi- no Laboratório de Computação e Matemática Apli- vol. 408,
ciente na sonda para transferi-la para a Lua via cada do Instituto Nacional de Pesqui- pp. 510-512
transferência de Hohmann. Foi quando Edward sas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (RJ). (2000)
GLEICK, J. Caos.
Belbruno e James Miller – então pesquisadores da Os desafios atuais estão direcionados para a Campus,
Nasa (agência espacial norte-americana) e que ti- obtenção de métodos que: a) sejam aplicáveis a Rio de Janeiro,
1990
nham acabado de publicar um trabalho teórico sistemas que envolvam um número elevado de STEWART, I. Será
sobre a utilização do controle do caos no direcio- corpos com massas diferentes; b) combinem estra- que Deus joga
dados? – A nova
namento de espaçonaves – foram convidados a tégias clássicas e caóticas, de modo a permitir o
matemática
tentar aplicar essa técnica para salvar a missão. transporte de sondas espaciais com a máxima efi- do caos.
O sucesso foi marcante: no início de 1992, a ciência; c) otimizem o tempo de transporte via Jorge Zahar,
Rio de Janeiro,
Hiten foi capturada pela Lua, após uma trajetória trajetória caótica; d) sejam aplicáveis ao controle 1991
que a levou a uma região de comportamento de um conjunto de satélites agrupados em conste-
Na internet:
notadamente caótico, situado a mais de 1,4 milhão lação; e) proporcionem o controle de posiciona- WADE, M. ISEE,
de km da Terra (figura 8). E, assim, os japoneses mento de um satélite em relação aos seus eixos de Encyclopedia
se tornaram a terceira nação a ter enviado uma referência. Astronautica
(em inglês)
sonda espacial à Lua. Anos depois, a mesma téc- Indiscutivelmente, o controle do caos é uma http://www.
nica foi empregada para recuperar o satélite de área em evolução, dentro do escopo da excelência astronautix.com/
craft/isee.htm
comunicações Asiasat 3, que se posicionou em uma da pesquisa multidisciplinar. ■

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