Macau Grebogi Ciencia Hoje
Macau Grebogi Ciencia Hoje
Um veículo lançador falha. 20 de julho de 1969. Um dos maiores épicos de todos os tempos se
desenrola, e todos podem acompanhar ao vivo, graças
E uma sonda que deveria à então novíssima tecnologia de comunicação ‘via sa-
orbitar a Lua acaba presa télite’. E, com grande emoção, às 23h56 (hora de
à gravidade terrestre. Brasília), cerca de 1,2 bilhão de pessoas testemunham
o momento em que o homem – no caso, o astronauta
Fim da missão? Não. norte-americano Neil Armstrong – pisa pela primeira
Graças ao caos, ela vai chegar sã vez no solo lunar. A barreira mítica da chamada con-
e salva ao seu destino original. quista da Lua havia finalmente caído, e as portas para
a exploração espacial se abriam definitivamente.
Melhor: com um gasto mínimo A chegada do homem à Lua resultou de um intenso
de combustível, pois irá até lá e concentrado trabalho de pesquisa e desenvolvimento
‘surfando’ em uma trajetória caótica. tecnológico, envolvendo diversas áreas do conhecimen-
to. Vejamos o caso da viagem em si. O item primordial
Certamente, uma cena de ficção. era o transporte com segurança de vidas humanas. A
Não, realidade pura. viagem precisava ser a mais rápida e segura possível.
A técnica, baseada no chamado Os gastos com combustível deveriam ser mínimos para
limitar o tamanho e a potência do veículo lançador
controle do caos, ganhou (figura 1A). A trajetória foi concebida para, em caso de
base experimental sólida pane, permitir o resgate da tripulação de forma sim-
depois de testada com sucesso ples e direta.
no resgate e na reorientação
de sondas e satélites.
Missão Apollo
Para cumprir essas metas, os vôos da missão Apollo se
subdividiam em fases. Na primeira, os três estágios do
foguete Saturno V colocavam a espaçonave propria-
mente dita – constituída pelos módulos de serviço e de
comando (figura 1B) – a 160 km da Terra. Após 2h30,
novo impulso do terceiro estágio enviava a espaçonave
Elbert E. N. Macau em direção à Lua, em uma trajetória denominada
Laboratório Associado de Computação translunar. Depois de 70 horas, alcançava-se o alvo.
e Matemática Aplicada, Quando a espaçonave se encontrava pela primeira
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais vez do lado ‘oculto’ da Lua, os motores eram novamen-
Celso Grebogi te acionados e propiciavam o impulso que a colocava
Instituto de Física, em uma órbita elíptica em torno desse satélite. Mais
Universidade de São Paulo um impulso tornava a órbita circular, com um raio de
imaginar a Terra. Deve-se, então, levar a nave para de armazenamento do módulo lunar
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Dinâmica caótica
Estratagema poderoso No desenrolar de seu trabalho, Poincaré ficou parti-
Em meados de 1880, Poincaré passou a trabalhar cularmente impressionado e surpreso por ter en-
no problema dos três corpos. Ele decidiu tentar contrado órbitas que apresentavam um padrão
um enfoque: procurar figuras geométricas asso- aperiódico, mas cujas condições iniciais (posição e
ciadas a soluções aproximadas (ou qualitativas), velocidade) eram muito próximas das de órbitas
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Sistema sensível
Os resultados de Poincaré levaram quase 100 anos Exatidão total?
para serem adequadamente entendidos. A existên- Essa característica dos sistemas caóticos tem con-
cia da dinâmica caótica – ou simplesmente caos – seqüências dramáticas para avaliar como o siste-
foi, contudo, discutida pelos matemáticos ao lon- ma se comportará no futuro com base em dados
go dessas décadas, com contribuições importantes, obtidos experimentalmente sobre ele. Vamos a
entre outros, da dupla inglesa Mary Lucy Cartwright outro exemplo. Imagine que se está medindo um
(1900-1998) e John Littlewood (1885-1977), dos sistema cuja evolução é caótica com um termôme-
norte-americanos George Birkhoff (1884-1944), tro. Esse sensor, por mais sofisticado que seja, apre-
Norman Levinson (1912-1975) e Stephen Smale, senta os valores das medidas com um número li-
bem como do russo Andrei Kolmogorov (1903- mitado e finito de algarismos. Isso significa que
1987) e do brasileiro Maurício Peixoto e seus es- não se consegue determinar, com total exatidão, o
tudantes. valor instantâneo da temperatura.
No entanto, o impacto do caos nas ciências só A imprecisão presente nos dados coletados ex-
começou a ser reconhecido em 1963, quando o perimentalmente – no caso, os valores da tempe-
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ratura – nos levam a fazer uma previsão que se mesma região onde se tenha uma dinâmica caótica
distancia cada vez mais do como o sistema real – a região periférica e com alta densidade de pontos
evolui. Após certo tempo, o comportamento desses na figura 6 – o que se precisa fazer é localizar uma
dois cenários – ou seja, de nosso modelo teórico e trajetória caótica que passe próxima desses pontos.
do sistema físico real – não tem a menor relação Feito isso, essa trajetória é usada para propiciar o
entre si. transporte entre os pontos. Note que – dado que
Esse tipo de comportamento é uma propriedade um sistema caótico tem a propriedade de tran-
fundamental associada à evolução temporal de um sitividade – essa trajetória existe.
sistema caótico. E mais importante: independe da A grande vantagem desse enfoque é que, uma
sofisticação dos modelos teóricos adotados para se vez posicionada adequadamente a nave, é a pró-
estudar um sistema, dos aparelhos empregados nas pria dinâmica caótica do sistema que se encarrega
medidas experimentais ou do método numérico de transportá-la até o destino desejado, sem gastos
para se chegar a uma solução das equações que o subseqüentes de energia. Tudo se passa como se a
descrevem. nave espacial passasse a ‘surfar’ em uma trajetória
caótica.
‘Surfando’
Controle do caos
na trajetória caótica No entanto, essa estratégia caótica de transporte
Poincaré constatou que certas regiões da seção que apresentava basicamente dois inconvenientes: a) o
ele idealizou eram densamente preenchidas por tempo de transporte e b) a localização dos pontos
pontos – ou seja, a órbita que ele estava estudando suficientemente próximos à origem e ao destino,
(no caso, a do terceiro corpo) passava inúmeras associados a uma mesma trajetória. Na verdade,
vezes por essas regiões. Estudos posteriores carac- esses problemas estão interligados. Dados dois
terizaram esse comportamento como uma das pro- pontos quaisquer pertencentes a uma mesma re-
priedades fundamentais das trajetórias caóticas. gião caótica, o transporte pode ocorrer, em geral,
Os matemáticos chamam-na transitividade. Essas em um tempo finito – este é o próprio conceito de
regiões podem ser vistas tanto na figura 5B quanto transitividade. Porém, esse intervalo de tempo pode
na figura 6. ser arbitrariamente grande.
Transitividade significa que, dados dois pontos
quaisquer interiores a uma dessas regiões densa-
mente preenchidas, existe uma trajetória do siste-
ma que passe tão próximo quanto se queira desses
pontos. Essa propriedade advém do fato de o mo-
vimento caótico ser um movimento aperiódico que
se mantém confinado no interior de uma certa
região do espaço. Para que uma determinada tra-
jetória não passe duas vezes por um mesmo ponto
– e, mesmo assim, se mantenha confinada em um
espaço limitado –, ela termina por se dobrar sobre
si mesma infinitas vezes, constituindo um enove-
lado que ocupa praticamente todo o espaço em
que o conjunto caótico se mantém confinado. Uma
analogia seria a de um novelo de lã de compri-
mento infinito a se desenrolar no interior de uma
caixa fechada. Figura 6. Espaço de fase representando um sistema
É justamente devido a essa distribuição espa- com características similares às que estão presentes
nos problemas envolvendo a reorientação de naves
cial da trajetória que uma evolução caótica apare-
espaciais. Cada trajetória associada a uma diferente
ce na seção de Poincaré como uma região densa- condição inicial – no caso da nave, posição e velocidade
mente preenchida por pontos. A propriedade da – aparece representada por pontos de cores diferentes.
transitividade pode ser aproveitada de forma A região de alta densidade está associada a uma única
oportunística para se empreender o transporte entre trajetória caótica que preenche densamente
o espaço que a envolve, expressão da propriedade
dois pontos – em nosso caso, a transferência de
transitiva. Note-se que existem outras trajetórias
uma sonda espacial entre dois pontos do espaço. que não apresentam uma dinâmica caótica
Assim, se esses dois pontos pertencerem a uma (região central da figura)
A órbita conveniente
Como achar uma órbita para levar uma nave, no menor tempo inicial da nave que viabilize o transporte den-
possível, da órbita em que ela está para uma outra préestabelecida? tro do menor intervalo de tempo possível.
Para isso, é preciso localizar pontos no espaço de fase que estejam Intrínseco a essa estratégia está o eficiente
próximos à origem e ao destino e que pertençam à mesma trajetó- aproveitamento da sensibilidade a variações nas
ria. Depois disso, basta deslocar a nave – com um gasto mínimo de condições iniciais. Como vimos, sensibilidade
energia – para essa órbita de transporte e, a partir daí, deixá-la significa que pequenas perturbações são ca-
‘surfar’ nessa trajetória caótica até seu destino. pazes de produzir alterações dramáticas, mu-
A localização desses pontos se baseia em um procedimento dando completamente a evolução do sistema. E
geométrico. Os pontos próximos da origem têm sua evolução observe que uma pequena perturbação está, em
temporal verificada para tempos futuros, enquanto os vizinhos geral, associada a gastos mínimos de energia.
à posição final, para tempos passados. Esses dois conjuntos de Assim, a transferência entre regiões do es-
pontos resultantes da evolução temporal definem regiões que paço no âmbito de um sistema caótico pode
se interseccionam sobre a seção de Poincaré. se dar tão-somente à custa de um pequeno
Refinamentos subseqüentes desses pontos permitem chegar dispêndio de energia – uma perturbação su-
ao par de pontos suficientemente próximos à origem e ao des- ficiente para se ir da condição inicial original
tino, ambos pertencentes a uma trajetória próxima à posição até a órbita conveniente de transporte.
O problema, assim, passa a ser o de encontrar mando como uma estratégia poderosa e de grande
pontos próximos que permitam o transporte den- flexibilidade para se controlar adequadamente a
tro do menor tempo possível (ver ‘A órbita conve- evolução dos mais diversos sistemas, sejam eles
niente’). Foi justamente a solução desse problema físicos, biológicos, químicos, aeroespaciais etc.
– bem como a explicitação de suas vantagens em O controle do caos abriu uma nova área de
relação a dispêndios de energia e ao aproveita- pesquisa sobre as aplicações práticas e tecnológicas
mento adequado de pequenas perturbações – que da teoria dos sistemas caóticos.
um dos autores deste artigo (CG) propôs no início
da década de 1990. Desde então, o conjunto dessas
idéias – publicadas em um artigo na mais presti-
giosa revista internacional de física – passou a ser Da teoria à prática
conhecido por controle do caos, que vem se fir- A idéia do controle do caos está baseada no fato de
que um sistema caótico é sensível a pequenas per-
turbações, que, vale ressaltar, implicam gastos mí-
nimos de energia. Em especial, o controle do caos
foi aplicado com sucesso nas mais diversas simu-
lações de sistemas físicos. A grande dúvida era se
poderia ser empregado – e com o mesmo sucesso
– em sistemas físicos reais. Os fatos vieram a com-
provar de forma irretocável que sim.
Quando o cometa Halley visitou a Terra pela
última vez, os norte-americanos decidiram explo-
rar esse corpo celeste com a sonda espacial ISEE-
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BELBRUNO, E. CAPTURE DYNAMICS AND CHAOTIC MOTION IN CELESTIAL MECHANICS . PRINCETON, 2004
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