Volume 1 Lazer
Cristina Marques Gomes
Simone Dantas
Apoio:
Fundação Cecierj / Consórcio Cederj
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Vice-presidente
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Coordenação do Curso de Turismo
UFRRJ - William Domingues
UNIRIO - Camila Moraes
Material Didático
Departamento de Produção
ELABORAÇÃO DE CONTEÚDO EDITOR DIRETOR DE ARTE
Cristina Marques Gomes Fábio Rapello Alencar Alexandre d'Oliveira
Simone Dantas
COORDENAÇÃO DE PROGRAMAÇÃO VISUAL
COORDENAÇÃO DE DESENVOLVIMENTO REVISÃO Alexandre d'Oliveira
INSTRUCIONAL Cristina Freixinho André Guimarães de Souza
Cristine Costa Barreto
REVISÃO TIPOGRÁFICA Carlos Cordeiro
SUPERVISÃO DE DESENVOLVIMENTO Carolina Godoi ILUSTRAÇÃO
INSTRUCIONAL
Cristina Freixinho Sami Souza
Miguel Siano da Cunha
Elaine Bayma
CAPA
DESENVOLVIMENTO INSTRUCIONAL Renata Lauria
E REVISÃO Fernando Romeiro
Thelenayce Ribeiro
Jorge Amaral PRODUÇÃO GRÁFICA
COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO
Lucia Beatriz da Silva Alves Verônica Paranhos
Ronaldo d'Aguiar Silva
Marcelo Alves da Silva
AVALIAÇÃO DO MATERIAL
DIDÁTICO
Thaïs de Siervi
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Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida, transmitida e gravada, por qualquer meio
eletrônico, mecânico, por fotocópia e outros, sem a prévia autorização, por escrito, da Fundação.
D192
Marques Gomes, Cristina.
Lazer v. 1 / Cristina Marques Gomes, Simone Dantas.
– Rio de Janeiro: Fundação
CECIERJ, 2013.
248 p. ; 19 x 26,5 cm.
ISBN: 978-85-7648-710-4
1. Lazer 2. Sociologia do lazer 3. Entretenimento. I. Título.
CDD 790.0135
2013.2/2014.1
Referências Bibliográficas e catalogação na fonte, de acordo com as normas da ABNT e AACR2.
Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
Governo do Estado do Rio de Janeiro
Governador
Sérgio Cabral Filho
Secretário de Estado de Ciência e Tecnologia
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Universidades Consorciadas
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TECNOLÓGICA CELSO SUCKOW DA FONSECA RIO DE JANEIRO
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NORTE FLUMINENSE DARCY RIBEIRO DO RIO DE JANEIRO
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UFF - UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
Reitor: Roberto de Souza Salles
Lazer Volume 1
SUMÁRIO
Aula 1 – Introdução ao estudo do lazer I ___________________ 7
Cristina Marques Gomes / Simone Dantas
Aula 2 – O lazer na Antiguidade dos gregos e romanos
e na Europa da Idade Média _____________________ 31
Cristina Marques Gomes / Simone Dantas
Aula 3 – A Revolução Industrial e o lazer moderno __________ 49
Cristina Marques Gomes / Simone Dantas
Aula 4 – Os precursores do lazer em âmbito internacional –
Parte I – Paul Lafargue e Thorstein Veblen __________ 65
Cristina Marques Gomes / Simone Dantas
Aula 5 – Os precursores dos estudos do lazer em âmbito
internacional – Parte II – Riesman, Friedmann,
Parker e Dumazedier __________________________ 79
Cristina Marques Gomes / Simone Dantas
Aula 6 – As atuais correntes na sociologia do lazer __________ 99
Cristina Marques Gomes / Simone Dantas
Aula 7 – O lazer enquanto objeto de estudo no Brasil –
Parte I – Estudos precursores __________________ 129
Cristina Marques Gomes / Simone Dantas
Aula 8 – O lazer como objeto de estudo no Brasil – Parte II –
Bases científicas e consolidação das pesquisas
em lazer no Brasil ____________________________ 157
Cristina Marques Gomes / Simone Dantas
Aula 9 – O lazer contemporâneo _______________________ 185
Simone Dantas
Aula 10 – A indústria do entretenimento _________________ 215
Simone Dantas
Referências ________________________________________ 235
1 Introdução ao estudo do lazer I
Cristina Marques Gomes / Simone Dantas
Meta da aula
Apresentar os aspectos fundamentais do lazer para a com-
preensão de sua relevância na sociedade contemporânea e
na formação em licenciatura para o Turismo.
Objetivos
Ao final desta aula, você deverá ser capaz de:
1 conceituar tempo livre, lazer, ócio, entretenimento e
lúdico;
2 comparar as diferentes tipologias de lazer;
3 reconhecer a abrangência e a relevância do lazer na
sociedade e na formação de licenciatura em Turismo.
Aula 1 • Introdução ao estudo do lazer I
Introdução
Parece brincadeira, mas lazer é coisa séria e fundamental para o
profissional de turismo. O turismo está, via de regra, relacionado
ao campo do lazer e se constitui em uma das diversas formas de
lazer. Você já imaginou o que seria da sua vida se não houvesse
tempo, espaço e condições de praticar o lazer? E para a socieda-
de? Aliás, quais são os seus hábitos de lazer? E qual a oferta de
lazer em sua cidade?
Nesta disciplina temos o desafio de conhecer as práticas, os es-
tudos, as políticas e os projetos de lazer, visando fornecer ins-
trumentos suficientes para a preparação de profissionais e de
professores de Turismo. Vamos também apresentar as interfaces
entre as práticas de lazer e a qualidade de vida, a educação, a
cidadania e o desenvolvimento local. Vamos descobrir oportuni-
dades de atuação profissional em diferentes setores de ativida-
des ligadas ao lazer e ao entretenimento, tanto públicas como
privadas.
Mas para chegarmos a esse entendimento, começaremos com
alguns conceitos que nos ajudarão a diferenciar expressões utili-
zadas no dia a dia e que estão presentes no ofício do profissional
de turismo. Então, mãos à obra!
Lazer, tempo livre e ócio
Ao pensarmos em lazer, qual a primeira ideia que nos vem
em mente?
Diversão, prazer, liberdade, férias...?
De modo geral, o lazer está relacionado a tudo isso! Mas
esses termos não são suficientes para definir o que é lazer.
A palavra lazer deriva do latim licere que em português sig-
nifica ser lícito, ser permitido. Na França, através do termo loisir
este conceito veio evoluindo, tendo em sua concepção a ideia de
permissão; de ausência de obrigações, de censura e de regras,
cujas referências variam de acordo com a sociedade, sua cultura e
CEDERJ 8
Lazer
seu contexto histórico. As atividades lúdicas, criativas, que fazem
bem ao corpo, à mente, ao espírito e que favorecem o autoconhe-
cimento e as relações sociais são inerentes aos seres humanos.
Essas práticas se tornaram objeto de estudo a partir da Segun-
da Revolução Industrial (séculos XIX e XX), quando a sociedade
moderna altera os seus hábitos ao deixar o campo para ocupar
os centros urbanos e para se dedicar ao trabalho nas indústrias
do século XIX. A civilização industrial atribuiu ao tempo um valor
singular, pois se tornou um bem raro diante das longas jornadas
de trabalho. Devido a sua raridade, o tempo para se dedicar ao
descanso e às atividades livres de obrigações passou a ser um
bem de extremo valor social. Até a Segunda Revolução Industrial,
a maioria das pessoas se ocupava com as tarefas típicas do campo
e o tempo se diluía entre o cumprimento das obrigações diárias e
de outras atividades como festas, jogos, artes, sem uma definição
clara sobre a jornada de trabalho e o tempo para o lazer.
A Segunda Revolução Industrial (séculos XIX e XX), segun-
do Stadnik (2001), foi responsável por uma transformação nos
modelos de lúdico, criando dois tempos distintos: o tempo de
trabalho e o tempo de lazer.
Lúdico
Lúdico se refere à forma de desenvolver a criatividade, os conheci-
mentos, o raciocínio através de jogos, música, dança, mímica etc.
O intuito do lúdico é educar, ensinar, se divertindo e interagindo
com os outros.
Figura 1.1: Aprender através de ativi-
dades lúdicas é mais divertido!
Fonte: http://www.sxc.hu/photo/1040246
9 CEDERJ
Aula 1 • Introdução ao estudo do lazer I
A partir da adoção das atividades lúdicas – antes típicas do
“tempo livre” – podemos facilitar o aprendizado de diferentes
conteúdos bem como auxiliar em processos de socialização tanto
de crianças quanto de adultos. Turismólogos, educadores, psicó-
logos, comunicólogos e administradores entre outros se utilizam
das funções e instrumentos do lúdico e do lazer nas suas práticas
profissionais. Nas próximas aulas vamos explorar as práticas e
os estudos do lazer em diferentes épocas, mas para chegarmos
lá, vamos ampliar nosso entendimento sobre “o que é o lazer”.
Conceituando o lazer
Vamos adotar, ao longo desta disciplina, a definição de Joffre
Dumazedier, sociólogo francês, uma das principais referências so-
bre os estudos de lazer aqui no Brasil. Segundo ele:
O lazer é um conjunto de ocupações às quais o indivíduo
pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja
para divertir-se, recrear-se e entreter-se, ou ainda para desen-
volver sua informação ou formação desinteressada, sua par-
ticipação social voluntária ou sua livre capacidade criadora
após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissio-
nais, familiares e sociais (DUMAZEDIER, 2004, p. 34).
A teoria de Dumazedier foi caracterizada como a teoria dos
“3D”, pois atribui ao lazer possibilidades de se caracterizar atra-
vés de atividades que promovam nas pessoas o descanso, o di-
vertimento e o desenvolvimento pessoal ou social.
De acordo com Luis Otávio Camargo (1989), estas ativida-
des de lazer possuem algumas propriedades que seriam:
– escolha pessoal – há uma relativa liberdade de escolha
pessoal sobre “o que fazer” no tempo livre, ainda que in-
fluenciada por modismos, pela mídia, por aspectos cultu-
rais, sociais, econômicos ou políticos, conscientes ou não;
CEDERJ 10
Lazer
– gratuidade – nas atividades de lazer não há intenção de
remuneração, de receber qualquer pagamento por sua prá-
tica, diferenciando-se das atividades de trabalho;
– prazer – a motivação para a prática do lazer é a busca pelo
prazer, pela satisfação pessoal;
– liberação − uma característica marcante do lazer é estar
livre das obrigações do dia a dia, fazendo coisas diferentes
da rotina de trabalho ou daquelas outras ocupações do tem-
po com afazeres domésticos, ou de responsabilidade com
horários, compromissos familiares ou sociais.
Uma parcela significativa de pesquisadores adota as se-
guintes definições:
Tempo livre: corresponde ao tempo que sobra entre as ta-
refas obrigatórias, diferenciando-se, portanto, do tempo de traba-
lho, do tempo dedicado às atividades escolares, de cumprimento
das funções fisiológicas (comer, dormir etc.) e de qualquer tem-
po dedicado a outras atividades obrigatórias.
Lazer: corresponde às atividades desenvolvidas voluntaria-
mente dentro do tempo livre.
Ócio: corresponde genericamente à ausência de atividades.
Algumas línguas como o italiano, o espanhol
e o alemão não têm um vocábulo derivado do
latim “licere”, como o inglês (leisure), o frances
(loisir) ou o português (lazer), associando seu
significado às expressões tempo livre ou ócio
(CAMARGO, 2001, p. 253).
11 CEDERJ
Aula 1 • Introdução ao estudo do lazer I
Além dos termos tempo livre, lazer e ócio você também
deve escutar a expressão “entretenimento”. O que ela significa?
Qual a diferença de entretenimento para lazer?
Segundo o Prof. Dr. Luiz Gonzaga Godoi Trigo, da Univer-
sidade de São Paulo (USP), que desenvolveu sua tese de livre-
docência defendida em 2003 sob o título “Entretenimento: uma
crítica aberta”, entretenimento refere-se às atividades e aos pro-
gramas geralmente pagos. Para o autor, constituem-se entrete-
nimento: teatros, circos, parques temáticos, emissoras de rádio,
redes de TV. E ele destaca ainda que:
Segundo os elitistas, enquanto a arte trata cada especta-
dor, ouvinte ou leitor como um indivíduo, provocando uma
resposta individual à obra, o entretenimento trata as suas
platéias como massa. Com tudo isso, o entretenimento é
mesmo divertido, fácil, sensacional, irracional, previsível e
subversivo. É um espetáculo para as massas como bem afir-
mou Debord (TRIGO, 2003, p. 32).
O escritor francês Guy Debord publicou em 1967 a
sua obra mais famosa e polêmica: A sociedade do es-
petáculo, considerado um livro anarquista pela críti-
ca teórica sobre consumo, sociedade e capitalismo. O
ponto central de sua teoria considera que a alienação
é consequência do modo capitalista de organização
social e que o espetáculo é uma forma de dominação
da burguesia sobre todos os membros da sociedade.
Conheça mais sobre esta obra de Guy Debord nave-
gando pelo link: http://www.cisc.org.br/portal/biblio-
teca/socespetaculo.pdf
Segundo Trigo, a diversão deixou de ser separada do mun-
do do trabalho para se tornar uma parte significativa da exis-
tência, sob a forma de esporte, cultura, turismo ou educação. O
CEDERJ 12
Lazer
entretenimento passou a ser um componente importante para
atrair o consumo e as oportunidades de negócios, informando,
divertindo, criando estilos de vida, gerando novas experiências e
expectativas para o consumidor.
Assim, apesar da similaridade com a definição de lazer, o
termo entretenimento é uma forma de lazer associada a progra-
mas oferecidos em massa, ou seja, acessíveis à população com
o uso das tecnologias de comunicação (a televisão; a internet e
todas as suas possibilidades; revistas; jornais) e das superprodu-
ções do cinema, da música, do esporte, dos parques de diversão e
temáticos, dos cassinos, dos jogos eletrônicos, dentre milhares de
alternativas que, cada vez mais, influenciam nossas escolhas e há-
bitos cotidianos. Dada a amplitude e a potência do setor, tratamos
hoje da “indústria do entretenimento” como o setor econômico
que mais cresce no mundo. Nos Estados Unidos, o entretenimen-
to é o segundo setor mais produtivo da economia, perdendo atu-
almente apenas para a indústria bélica daquele país.
Figura 1.2: As novas tecnologias de comunicação nos
oferecem inúmeras atividades de entretenimento para
aproveitarmos o tempo livre.
Fonte: http://www.sxc.hu/photo/1213117
13 CEDERJ
Aula 1 • Introdução ao estudo do lazer I
Atividade
Atende ao Objetivo 1
Tempos
Eu morro ontem
... Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.
Vinícius de Moraes, Poética
Uma amiga tem uma dúzia de relógios. E nenhum tem-
po. Seu tempo é nunca, sua pressa, sempre. Ela re-
clama do tempo todo o tempo. Aprendi que tempo
não é questão de relógio, mas de prioridade. Alguém
já viu uma pessoa apaixonada não dispor de tem-
po para encontrar o ser amado? E alguém já não se
viu sem tempo para o desagrado ou para o desafeto?
O aprendizado do tempo – como o do espaço – vem do co-
meço. O bebê aprende a noção de tempo pela sua necessi-
dade vital: há a hora da fome e a do alimento. O choro é recla-
mo pelo tempo negado e o que nele no momento certo não
veio. Carência do leite e do colo. O feto não tem e nem pre-
cisa da noção de tempo. O corte do cordão umbilical marca
o início do “sentimento do tempo”. O mais é aprendizado.
Aprende-se, desde cedo, haver tempo para cada coisa. E
aprende-se mais, que se há de respeitar o tempo, porque
a ele nada se impõe. Respeitar o tempo é respeitar a si
mesmo e ao outro (...)
Fonte: http://www.entremulheres.com.br/?pg=noticia&id=1728
1. A partir do texto e de sua vivência estabeleça a importância do
TEMPO LIVRE, do LAZER, do ÓCIO e do ENTRETENIMENTO no
seu cotidiano.
CEDERJ 14
Lazer
Resposta Comentada
O lazer é objeto de estudo em diferentes áreas do conhecimento
e assim podemos encontrar igualmente diferentes definições para
termos que utilizamos em nosso cotidiano com significados que,
quando comparados com sua definição teórica, nos despertam para
outras aplicações. Será que lazer é somente diversão? Ócio é mes-
mo a ausência de ação? Entretenimento e lazer têm o mesmo signi-
ficado? E o tempo livre, existe? Em que se difere dos outros tempos
em nosso cotidiano? Como você utiliza o seu tempo livre? Quais as
suas práticas de lazer e de entretenimento preferidas?
Tipologias e funções de lazer
Vários são os interesses que nos despertam para usufruir o
lazer. Para Dumazedier (1979), as atividades de lazer são classifi-
cadas de acordo com os interesses físicos, manuais, intelectuais,
artísticos e sociais. Luiz Otavio Camargo (1986) afirma que as ati-
vidades turísticas também devem ser incluídas nesta classifica-
ção de Dumazedier. Assim, podemos identificar os:
Lazeres físicos – correspondem às atividades que implicam
esforço e exercício corporal; estão relacionados a atividades físi-
cas como jogar bola, correr, nadar, surfar, entre tantas outras.
Figura. 1.3: A prática de esportes amadores é uma
forma de lazer físico.
Fonte: http://www.sxc.hu/photo/1076135
15 CEDERJ
Aula 1 • Introdução ao estudo do lazer I
Lazeres manuais – são os que exigem uma habilidade ma-
nual e especialmente relacionada a transformação de matérias-
primas através da criatividade; podemos dedicar nosso tempo
livre em atividades de trabalhos manuais como bordar, pintar,
esculpir ou culinária, jardinagem, entre outros.
Figura. 1.4: Quando nos dedicamos a fazer cintos ou
pulseiras em macramé, tricô ou crochê sem o objetivo
de comercializar, mas para nossa própria satisfação.
Fonte: http://www.sxc.hu/photo/1207928
Lazeres intelectuais – estão relacionados a atividades para
o cultivo do intelecto e da cultura, à apreciação pela busca do co-
nhecimento através da leitura, da visita a museus, de pesquisas
na internet sobre assuntos de interesse pessoal, entre outros.
Figura. 1.5: Nos dedicamos a laze-
res intelectuais quando buscamos
o prazer na leitura que nos propor-
cionará ao mesmo tempo diversão
e aprendizado.
Fonte: http://www.sxc.hu/photo/1024682
CEDERJ 16
Lazer
Lazeres artísticos – sobre o conceito de artístico podemos
entender atividades como, por exemplo, se dedicar à decoração
da casa, ou tocar um instrumento musical, encenar peças tea-
trais, compor músicas e poesias.
Figura 1.6: Tocar violão,
cantar e dançar são algumas
formas de lazer artístico.
Fonte: http://www.sxc.hu/
photo/1046849
Lazeres sociais – são aquelas atividades de diversão, descanso
e desenvolvimento, praticadas de uma forma coletiva, seja no grupo
familiar ou de amigos, que nos permitem celebrar estes vínculos afe-
tivos através de brincadeiras, jogos, festas e mesmo da participação
em organizações associativas, religiosas, políticas de forma voluntá-
ria e em busca da satisfação pessoal e da integração social.
Figura 1.7: Brincar com os amigos é uma
forma de lazer social.
Fonte: http://www.sxc.hu/photo/1039896
17 CEDERJ
Aula 1 • Introdução ao estudo do lazer I
Lazeres turísticos – nessa classificação inclui-se a busca
por novas paisagens, por culturas, lugares e pessoas diferentes,
utilizando a prática do turismo, ou seja, do deslocamento e da
permanência fora do seu local de domicílio e dos usos dos servi-
ços inerentes a atividades como transportes, hospedagem, guias
de turismo para conduzir aos atrativos naturais, culturais ou di-
ferenças do lugar.
Figura 1.8: Aproveitar um passeio de es-
cuna fora de nossa cidade é uma forma de
praticar o lazer turístico.
Fonte: http://www.sxc.hu/photo/1209192
Podemos observar nessa classificação que uma mesma ati-
vidade poderá ser interpretada em diferentes tipos de lazer. Por
exemplo: ao reunir os amigos para jogar uma partida de futebol
no final de semana, estaremos exercendo um lazer ao mesmo
tempo físico e social.
Outra observação interessante levantada por Juan Carlos
Cutrera, citado por Larizzatti (2005, p. 41), considera a forma com
a qual praticamos o lazer, podendo ser:
Passiva – quando nos dedicamos ao descanso, à contempla-
ção, à meditação, caracterizando-se pela ausência de movi-
mento físico ou de uma ação efetiva.
Receptiva – quando nos alimentamos da prática da leitura,
ou quando ouvimos música e assistimos à TV.
Ativa – quando exercemos a ação ou a atividade, seja can-
tar, jogar, dançar, cozinhar, fotografar, cuidar de animais,
entre tantas outras.
CEDERJ 18
Lazer
Dentre as três grandes funções do lazer – divertimento,
descanso e desenvolvimento − apontados por Dumazedier, Leo-
poldo Gil Dulcio Vaz propõe que para cada um dos tipos de lazer
podemos relacionar uma série de funções, dentre as quais:
Função educativa – que é caracterizada pela ampliação dos
horizontes mentais, busca de novas experiências e de novo
conhecimento de forma voluntária.
Função de ensino – caracterizada pela assimilação ou apren-
dizagem das normas de convivência social ou de compor-
tamentos, dos valores culturais, de ideais filosóficos ou po-
líticos.
Função integrativa – que tem por objetivo solidificar ou in-
tegrar os grupos de interesses comuns, principalmente os
familiares, amigos, vizinhos.
Função recreativa – que compreende atividades lúdicas re-
lacionadas com o desenvolvimento psicológico e físico.
Função cultural – refere-se à compreensão e assimilação
dos valores culturais ou à criação de novos.
Função compensadora – caracteriza-se por atuações que, de
alguma forma, contribuem para minimizar as insatisfações
das outras áreas da vida.
Lazer doméstico, extradoméstico e turístico
Partindo das definições aqui apresentadas, podemos en-
tender que o lazer compreende um conjunto de atividades que
ocorrem em determinados espaços. Assim, se fizermos uma aná-
lise das possibilidades a partir de nosso local de residência, pode-
mos classificar o lazer em: doméstico, extradoméstico e turístico,
sinalizando três grupos de atividades, portanto, de campos de
negócios e de oportunidades de atuação profissional (CAMAR-
GO, 2001, p. 257):
19 CEDERJ
Aula 1 • Introdução ao estudo do lazer I
Lazer doméstico: quando utilizamos os ambientes de nos-
sa própria residência para a prática de alguma atividade de la-
zer ou de entretenimento. Especialmente as atividades baseadas
na mídia como, por exemplo, assistir à TV, navegar na internet,
ou jogar videogame, mas não exclui outras possibilidades como
reunir amigos para um banho de piscina ou para uma partida de
xadrez.
Figura 1.9: Uma partida de xadrez em casa com os ami-
gos é um exemplo de lazer doméstico.
Fonte: http://www.sxc.hu/photo/1066731
Lazer extradoméstico: está baseado nas relações com o
ambiente da própria cidade quando realizamos alguma ativida-
de de lazer, como por exemplo, quando você frequenta parques,
festas ou mesmo quando sai de casa para comer uma pizza com
os amigos.
Figura 1.10: Participar de festas fol-
clóricas, de shows ou outros eventos
em nossa cidade caracterizam o tipo
de lazer extradoméstico.
Fonte: http://www.sxc.hu/photo/500894
CEDERJ 20
Lazer
E por fim, teríamos o lazer turístico, caracterizado pela prá-
tica de atividades fora de sua cidade de domicílio, demandan-
do por deslocamento e hospedagem. Para os teóricos do lazer,
a expressão utilizada é “lazer turístico” e para os estudiosos do
turismo, “turismo de lazer”. Mas nos dois casos o significado é o
mesmo, no sentido em que compreende as atividades que reali-
zam as pessoas durante suas viagens e estadas em lugares dife-
rentes, por um período de tempo consecutivo inferior a um ano,
com finalidade de praticar algum tipo de lazer.
Figura 1.11: Quando nos deslocamos para outros lugares
em busca de descanso, diversão e/ou desenvolvimento
pessoal de forma voluntária e não remunerada, estamos
praticando o lazer turístico.
Fonte: http://www.sxc.hu/photo/1029567
Conforme observa Camargo (2001, p. 268), o lazer turístico
nos leva a pensar que o “turismo é o nome que se dá ao lazer de-
senvolvido fora da cidade onde se mora”. Porém há segmentos de
turismo que não têm como objetivo principal a prática do lazer, a
exemplo do Turismo de Negócios, Turismo de Eventos ou Turismo
Esportivo. Nestes segmentos, o deslocamento e o uso de equipa-
mentos turísticos têm como principal objetivo as relações comer-
ciais, profissionais e/ou competitivas. Sob certo ponto de vista,
pode-se dizer que o lazer turístico confunde-se até mesmo com o
lazer extradoméstico, aquele praticado dentro da própria cidade, o
que se verifica através de outros segmentos como turismo local ou
turismo urbano.
21 CEDERJ
Aula 1 • Introdução ao estudo do lazer I
Vale lembrar que a palavra turismo é composta original-
mente pelo prefixo tour derivado do latim tornare e do grego
tornos, que significa “uma volta ou círculo; o movimento ao re-
dor de um ponto central ou eixo”. O sufixo ismo é compreendido
como “ação ou processo, comportamento ou qualidade típicos”.
Portanto, assim como imaginamos ocorrer com um círculo, o tu-
rismo representa uma viagem circular, ou seja, a qualidade do
processo de partir para posteriormente regressar ao ponto ini-
cial. O sufixo ista denota “aquele que realiza determinada ação”.
A combinação da palavra tour e do sufixo ista supõe o sujeito
que empreende essa ação de um movimento em círculo, ou seja,
o turista (THEOBALD, 2001).
A evolução dos estudos sobre o fenômeno e sobre a ativida-
de econômica do turismo nos permite hoje identificar diferentes
segmentos ou tipos de turismo observados a partir da motivação
para a viagem e das expectativas dos turistas. Assim, constata-
mos que nem todos os turistas viajam a lazer, sendo o lazer um
tipo de turismo, assim como o turismo é um tipo de lazer.
Enfim, temos uma parte do lazer que é independente do
turismo e uma parte do turismo que é independente do lazer.
Lazer Turismo
Lazer turístico ou turismo de lazer
Figura 1.12: Interfaces entre o lazer e o turismo.
Fonte: Do autor
CEDERJ 22
Lazer
Atividade
Atende ao Objetivo 2
A diversão entre os jovens é algo bastante comum, porém,
alguns comportamentos, oriundos dela, tem preocupado
tanto os pais quanto educadores, na busca de um melhor
tipo de lazer e a formação social para os jovens, favorecen-
do os comportamentos socialmente aceitáveis na escola e
na sociedade, evitando, assim, condutas relacionadas à de-
linqüência (...) Contudo acompanhamos uma quantidade de
reclamações divulgadas no dia a dia e que circulam entre os
pais, as escolas e a mídia em geral sobre a intensidade da
agressividade e comportamentos delinqüentes quando em
ócio ou tempo livre mal empregado entre os jovens (...) Sen-
do assim, um estudo desenvolvido por Formiga (2005) com
710 sujeitos, de ambos os sexos e idade entre 15 e 21 anos,
os quais responderam uma escala dos hábitos de lazer e so-
bre conduta anti-social e delitiva, observou-se que um tipo
de habito de lazer hedonista – busca prazer individual e ime-
diato – e o Lúdico – correspondentes ao caráter de jogos, di-
vertimentos mais instrumentais – foram capazes de predizer
as condutas anti-sociais e delitivas; por outro lado, o tipo de
hábito de lazer instrutivo – busca a formação intelectual e
cultural – foi capaz de predizer negativamente essas condu-
tas. Os resultados mostraram que alguns tipos de lazer, que
enfatizam a diversão podem provocar comportamentos ca-
pazes de romperem com as normas socialmente aceitáveis.
Considerar o tipo de lazer na prevenção de comportamentos
delinquentes entre os jovens, fazendo com que esses orga-
nizem melhor seu tempo e o tipo de diversão poderá desen-
volver fatores de proteção psicológica e social.
Fonte:http://pt.shvoong.com/social-sciences/psychology/503567-
explica%C3%A7%C3%B5es-das-condutas-desviantes-partir/ referência a pesquisa
de FORMIGA, N.S; AYROSA, I. & DIAS, L. (2005) Escala das atividades de hábitos
de lazer: construção e validação em jovens. Revista de Psicologia da Vetor 6 (2) ,
71-79. Ver também: http://www.psicologia.com.pt/artigos/textos/A0467.pdf
2. Analise o texto e responda: qual o tipo de lazer que você mais
pratica? Este tipo corresponde ao lazer doméstico, ao lazer ex-
tradoméstico ou ao lazer turístico? Suas atividades de lazer são
mais individualistas ou socioculturais?
23 CEDERJ
Aula 1 • Introdução ao estudo do lazer I
Resposta Comentada
Para esta tarefa é preciso sua correlação com o tipo de lazer. Como exem-
plo, relaciono abaixo cinco das minhas práticas preferidas de lazer:
– ir à praia caminhar, jogar frescobol, ver os amigos, pegar sol – lazer
físico / lazer social (extradoméstico);
– viajar para conhecer novos lugares e pessoas – lazer turístico/lazer
social (turístico);
– assistir à televisão (informações) – lazer intelectual (doméstico);
– ouvir e compartilhar músicas – lazer intelectual / lazer artístico /
lazer social (doméstico).
Conclusão:
Vamos encontrar atividades que se classificam em mais de um tipo
de lazer. Devemos observar as nossas motivações e objetivos para
cada atividade a fim de podermos classificá-las melhor. No meu
caso, apesar de preferir atividades extradomésticas e turísticas, os
tipos de lazer que mais pratico são classificados como domésticos,
em função, inclusive do raro “tempo livre” para me dedicar mais às
viagens. E você?
Diferentes abordagens do lazer
Podemos, também, compreender o lazer a partir de duas
perspectivas: uma que associa o termo ao contexto das relações
de trabalho ao longo da história (em conjunto com o tempo livre
CEDERJ 24
Lazer
que cada civilização usufruía) e outra que aborda o lazer a partir
dos estudos científicos realizados sobre a temática. No primeiro
caso (quadro A), o lazer está diretamente vinculado ao momento
histórico e cultural vivido por cada povo e, no segundo, nossa
análise estará centralizada nos teóricos que começaram a ob-
servar o lazer como um objeto de estudo acadêmico e científico
(quadro B).
Lazer
Quadro A Quadro B
Lazer vivido Estudo sobre o
lazer
Diferentes contex-
tos históricos Principais teóricos
Diferentes culturas Lazer como um
e povos objeto de estudo
Diferentes relações científico
com o trabalho
Figura 1.13: O lazer vivido e o lazer enquanto objeto de estudo.
Fonte: Do autor
No primeiro caso (quadro A), o lazer apresenta uma relação
direta com o tempo de trabalho e o tempo livre. As atividades de
lazer se realizam no tempo disponível (tempo livre). As relações
entre o tempo de trabalho e de não trabalho sofreram diversas
mudanças ao longo de nossa história. Nas comunidades primi-
tivas em que o homem ensaiava seus primeiros passos sobre o
planeta, por exemplo, vamos encontrá-lo sendo obrigado a de-
senvolver atividades básicas de subsistência, tais como a caça, a
pesca e a agricultura para sua sobrevivência. Vivendo próximo à
25 CEDERJ
Aula 1 • Introdução ao estudo do lazer I
natureza, nossos antepassados seguiam os dias obedecendo aos
ciclos naturais, tais como o tempo de plantio e de colheita. Estu-
dos antropológicos registram que nesta época eram celebradas
festividades e rituais com cantos, danças, bebidas e competições
em agradecimento aos deuses da fartura e da abundância. Pode-
mos aí entrever as primeiras manifestações de lazer na história
da humanidade, que serão estudadas a partir da civilização grega
na próxima aula.
Atividade Final
Atende ao Objetivo 3
Reflita sobre o artigo a seguir e elabore um texto com o mínimo
de 20 linhas sobre o tema: “A importância do estudo do lazer nos
cursos de licenciatura em turismo.”
O tempo livre deveria ser um tempo máximo de autocondiciona-
mento e mínimo de heterocondicionamento, isto é, ser constituído
por aquele aspecto do tempo social, em que o homem conduz com
menor ou maior grau de nitidez a sua vida pessoal e social. No
entanto, neste tempo que poderia ser um tempo voltado para o ócio
mais verdadeiro, o consumismo termina por deteriorá-lo, mercan-
tilizá-lo, coisificando-o e empobrecendo-o de significados.
Encontra-se na literatura que é preciso educar os sujeitos não só
para perceber os meandros do trabalho, mas também para os mais
diversos e possíveis ócios; significa ensinar como se evita a aliena-
ção que pode ser provocada pelo tempo vago, tão perigoso quanto
a alienação derivada do trabalho (DE MASI, 2000, p. 326).
Segundo Muller (2003), a educação costuma sonegar o direito ao
ócio; observa-se que as escolas tendem a preparar a criança para a
importância da profissão e do trabalho no futuro, isto é, preparam
crianças e jovens para a vida adulta moldada pelo trabalho, porém
não há orientação nesse processo para o uso adequado do tempo
de ócio, um fator de vital importância para a edificação de um in-
divíduo equilibrado. Isso porque a escola, dentro de uma concep-
ção moderna, está profundamente demarcada pelo paradigma da
produção industrial, reiterando que atividade social dominante e
determinante da configuração social é o trabalho.
CEDERJ 26
Lazer
O aspecto educativo também se volta para a qualificação do tra-
balhador, mais dirigido para a questão de execução de tarefas,
limitando seu potencial criativo, submetendo-o ao limite de suas
habilidades, àquela ou a esta função.
Em Elogio ao ócio, Russell critica de forma categórica a concepção
estritamente utilitária da educação, afirmando que esta ignora as
necessidades reais dos sujeitos e que os componentes culturais na
formação do conhecimento se ocupam em treinar os indivíduos
com meros propósitos de qualificação profissional, esquecendo,
desta maneira, os pensamentos e desejos pessoais dos indivíduos,
levando-os a ocuparem boa parte de seu tempo livre com temas
amplos, impessoais e sem sentido (RUSSELL, 2002: p. 37).
Fonte: AQUINO, Cássio Adriano Braz; MARTINS, José Clerton de Oliveira. Ócio,
lazer e tempo livre na sociedade do consumo e do trabalho. Mal-estar e subjeti-
vidade, Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 479-500, set. 2007.
27 CEDERJ
Aula 1 • Introdução ao estudo do lazer I
Resposta Comentada
Para prosseguirmos com as nossas aulas de forma produtiva é ne-
cessário que você identifique e correlacione o conteúdo da disci-
plina com a sua importância no contexto de formação do curso.
Os estudos do lazer estão intimamente ligados a nossa formação
como docentes na área de turismo. Devemos conhecer e desenvol-
ver habilidades e técnicas que tornem nossas aulas e nossa vida
profissional mais atraentes e eficientes para a melhoria na qualida-
de não só dos serviços para os nossos clientes, mas na qualidade
de vida dos indivíduos com os quais nos relacionamos, através da
adequada aplicação de atividades lúdicas. Como você justifica esta
importância?
Resumo
Nesta primeira aula apresentamos alguns conceitos básicos no
âmbito desta disciplina, dentre os quais se destacam:
O lazer, como um campo de estudo que promove o descanso, a di-
versão, e o desenvolvimento pessoal e social, como proposto por
Joffre Dumazedier. O tempo livre, como um tempo diferenciado do
tempo de trabalho e demais obrigações. O ócio, entendido como a
prática da contemplação, da reflexão, relacionado ao descanso do
corpo e ao cultivo da mente; o lúdico como uma forma de aprendi-
zagem através de atividades criativas, estimulantes e divertidas; e o
entretenimento, tratado como uma forma de lazer que se utiliza de
instrumentos da mídia que induzem ao consumo de diferentes pro-
dutos e serviços. Além desses aspectos, identificamos as tipologias
e funções específicas do lazer, que estão relacionadas aos interesses
de cada um para bem usufruir do tempo livre através de lazeres fí-
sicos, intelectuais, manuais, artísticos, sociais e turísticos. Além das
três funções principais apontadas por Dumazedier, podemos iden-
tificar funções especificas para o lazer como a função educativa,
integrativa, recreativa, cultural e compensadora de acordo com as
práticas a serem adotadas.Também classificar o lazer de acordo com
o espaço em que se realizam as atividades de lazer em três grupos:
lazer doméstico, extradoméstico e turístico.Tais conceitos nos levam
CEDERJ 28
Lazer
a refletir sobre a abrangência dos estudos do lazer em diferentes áreas
do conhecimento e como é relevante para os profissionais de turismo
e educadores conhecer e adotar práticas de lazer em suas atividades
profissionais.
Informação sobre a próxima aula
Na próxima aula, iremos descrever os principais aspectos
relacionados ao conhecimento e às práticas de lazer na civiliza-
ção ocidental desde a civilização grega, na Antiguidade, até a Ida-
de Moderna.
29 CEDERJ
O lazer na Antiguidade dos gregos
2 e romanos e na Europa
da Idade Média
Cristina Marques Gomes / Simone Dantas
Meta da aula
Apresentar alguns aspectos importantes em relação à
temática do lazer ao longo da história.
Objetivos
Ao final desta aula, você deverá ser capaz de:
1 distinguir as mudanças em relação à concepção do
ócio e do lazer entre os gregos e os romanos na
Antiguidade clássica;
2 reconhecer a influência do poder dos reis e da Igreja
Católica nas manifestações do lazer na sociedade da
Idade Média;
3 identificar no Grand Tour os elementos que fundamen-
tam o turismo contemporâneo.
Aula 2 • O lazer na Antiguidade dos gregos e romanos e na Europa da Idade Média
Introdução
No livro História e Turismo de nosso curso, Módulo 1, Aula 1,
página 11, encontramos uma linha do tempo que orientará os
nossos estudos. Nela, identificamos como marcos históricos:
Idade Antiga – da invenção da escrita, aproximadamente 4000
a.C., até a queda do Império Romano do Ocidente, em 476 d.C.;
Idade Média – de 476 d.C. até a tomada de Constantinopla pelos
turcos-otomanos, em 1453;
Idade Moderna – de 1453 até 1789, data da Revolução Francesa;
Idade Contemporânea – de 1789 até os dias de hoje.
Para mergulharmos nas origens históricas do lazer, vamos consi-
derar que “as noções de lazer e trabalho, bem como todo o saber
produzido no mundo ocidental, têm suas raízes primeiras na An-
tiguidade Clássica” (WERNECK,1996, p. 329).
Como será que o lazer foi percebido e praticado nas sociedades
nessas épocas que antecederam ao que hoje chamamos de in-
dústria do entretenimento? Vamos dar início à nossa viagem no
tempo...
Idade Antiga: o lazer dos gregos e romanos
A Paz é o fim último da guerra, e scholé (lazer) o da vida ativa.
Aristóteles
Na Grécia Antiga, o lazer era visto não como um mero
“tempo livre”, mas sim como um tempo dedicado ao cultivo do
“eu”, isto é, do corpo e do espírito. Chamava-se esse tempo social
de scholé, termo que significava ao mesmo tempo lazer e edu-
cação de si mesmo e que deu origem às palavras escola e ócio.
Platão e Aristóteles afirmavam que o contraste do lazer não se
fazia apenas ao trabalho, pois devia haver um contraste à “ação”.
O lazer deveria, assim, ter causa e finalidade em si mesmo, sem
se relacionar com nada. Para Aristóteles, apenas a música e a
CEDERJ 32
Lazer
contemplação, como a arte de filosofar, eram dignas de se cha-
marem lazer, e ele afirmava que:
“O homem em contemplação é um homem livre. De nada
necessita. Portanto, nada determina ou deturpa seu pensamen-
to. Ele faz aquilo que ama fazer, e o que faz é feito por prazer”
(WERNECK,1996, p. 329).
De acordo com Werneck, os gregos relacionavam o la-
zer com o ócio, sendo este considerado a condição ideal para
o exercício das mais sublimes capacidades do espírito humano
(WERNECK,1996, p. 329).
Nesses termos, os escravos nunca poderiam ter lazer, pois
estavam sempre fazendo algo para alguém, e não tinham liber-
dade para nada. Segundo Camargo, os metecos (imigrantes) e
os escravos pagavam a conta com a cota de serviços necessários
ao funcionamento da economia da época. Portanto, essas ideias
de Aristóteles não eram compartilhadas pelo povo, pois muitos
eram escravos dos poderosos. O lazer ideal existia apenas para
uma minoria dominante (CAMARGO, 2001, p. 237).
Nessa época, uma das opções de lazer para o povo eram
os Jogos Olímpicos, com competições que reproduziam práti-
cas de seu cotidiano, como corridas a pé, lançamento de dardos,
arco e flecha, saltos; os anfiteatros como espaços construídos
para apresentações como música, dança e teatro; e também os
banhos públicos.
Essa definição de lazer dos gregos pouco ou nada tem a ver
com o que entendemos por lazer nos dias atuais. Essa noção de
lazer era desvinculada da estrutura técnico-econômica que o sus-
tentava, pois o trabalho escravo fundamentava economicamente
o tempo da scholé de uma minoria da população, bem diferente
da dinâmica do lazer moderno, que se manifesta como um pro-
duto da gradativa redução da jornada de trabalho. Entretanto,
a civilização grega nos deixou um valioso legado, tais como os
princípios da cidadania e da democracia, a realização de eventos
como assembleias, congressos, além do teatro com apresenta-
33 CEDERJ
Aula 2 • O lazer na Antiguidade dos gregos e romanos e na Europa da Idade Média
ções filosóficas, mitológicas e políticas em espaços criados em
formato de arena, que reuniam de 15 a 20 mil pessoas em torno
de objetivos comuns.
Figura 2.1: Veja a amplitude das ruínas do Teatro de Mileto.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Teatro_na_Gr%C3%A9cia_Antiga
A civilização romana difundiu a concepção grega de um
modo de vida baseado no lazer, sendo que adquiriu um caráter
mais político do que intelectual. Camargo (2001) aponta sinais
desde a etimologia (estudo que trata da história ou origem das
palavras e da explicação do significado de palavras por meio
da análise dos elementos que as constituem) de algumas pala-
vras originárias do período romano que mostram a influência da
concepção do lazer-prazer dos gregos nos romanos e destes nas
concepções atuais. Por exemplo: você sabia que a palavra negó-
cio vem do latim necotium, significando “a negação do ócio”? E
que a palavra trabalho também vem do latim tripalium e signi-
fica “três paus”, passando a ideia de um tridente, ou seja, de um
“instrumento de tortura”? Percebe-se assim que essas e várias
outras expressões na literatura latina estão permeadas de refe-
renciais aos prazeres da vida lúdica em contraposição ao peso
do trabalho. É famoso o verso de Horácio: Dum loquimur, aetas
invida fugit, que significa: “Enquanto falamos, a idade invejosa
dos nossos prazeres passa” (CAMARGO, 2001, p. 237).
CEDERJ 34
Lazer
O Estado romano se apropria desta concepção para ado-
tar a “política do pão e circo” e estabelecer o “ócio das massas” “Política do pão e
como instrumento de despolitização e de controle do povo, em circo”
O crescimento urbano
contraponto ao lazer das classes dominantes. Ou seja, o lazer era
de Roma e o sistema es-
promovido pelo poder econômico e político como forma de con- cravo provocaram grande
descontentamento entre
trole social. os camponeses na zona
Dentre as formas de lazer dos romanos, ao contrário do rural. Uma grande massa
de desempregados
culto à beleza, à inteligência e aos jogos praticados pelos gregos, migrou para as cidades
romanas em busca de
inclui-se o circo. Mas não o circo como o conhecemos hoje. O melhores condições
circo romano era justamente o lugar onde o povo se reunia para de vida e o imperador
receava o fomento de
assistir aos escravos, ladrões ou estrangeiros serem devorados uma revolta na popula-
ção. Para “solucionar o
por leões e outras feras. Também era um espaço utilizado para
problema”, o imperador
assistir às lutas dos gladiadores, nas quais, entre dois ou três adotou a “política do pão
e circo”, distribuindo ali-
lutadores, apenas um poderia sair vivo, bem como à luta de ho- mentos durante as lutas
entre os gladiadores,
mens com animais ferozes, sempre tendo a morte sofrida e san-
pois acreditava que,
grenta como espetáculo. Um dos vestígios do lazer dos romanos alimentando e divertindo
a população carente, ele
é o Coliseu, que se encontra na cidade de Roma. diminuiria as chances de
uma revolta que poria em
risco o seu domínio.
Figura 2.2: O circo: o destino de um gladia-
dor derrotado é decidido pelo público.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Gladiadores
Figura. 2.3: O Coliseu em Roma abri-
gou muitas lutas entre homens e fe-
ras, seguidas pela distribuição de ali-
mentos para distrair a população de
sua revolta.
Fonte: http://www.sxc.hu/photo/971526
35 CEDERJ
Aula 2 • O lazer na Antiguidade dos gregos e romanos e na Europa da Idade Média
Assista ao filme Gladiador e mergulhe no clima do Im-
pério Romano!Trata-se de um drama histórico lançado
no ano 2000, vencedor de cinco Oscar. Sob a direção
de Ridley Scott, o filme retorna à moda a temática
das antigas civilizações. Assista ao teaser do filme em
http://www.youtube.com/watch?v=5osw_gV0Rwg.
Fonte: http://www.interfil-
mes.com/filme_13469_Gla-
diador-(Gladiator).html
Atividade
Atende ao Objetivo 1
1. Estabeleça as principais diferenças na concepção de lazer da
civilização grega em relação à concepção dos romanos na anti-
guidade clássica, destacando o contexto social e as práticas de
lazer verificadas.
CEDERJ 36
Lazer
Resposta Comentada
O lazer dos gregos pouco ou nada tem a ver com o que entende-
mos nos dias atuais, pois estava desvinculado da estrutura técnico-
econômica que o sustentava. Em uma sociedade escravocrata, o la-
zer era um privilégio dos homens livres, de uma minoria dominante.
O lazer era dedicado ao ócio, ao aprimoramento pessoal, por meio
da contemplação do belo, da filosofia, das artes, da música. Os es-
cravos e imigrantes sustentavam o lazer dessa minoria, sendo os Jo-
gos Olímpicos o evento mais representativo de participação popular,
no qual as competições estavam baseadas em atividades de caça
e sobrevivência cotidianas da maioria. Como herança grega para o
lazer ficaram os espaços públicos e democráticos, onde eram reali-
zadas as assembleias, o teatro com base filosófica e mitológica. Os
romanos difundiram o lazer com um caráter mais político e aplicado
ao domínio da população e à ostentação do poder do imperador e
de seus eleitos. Os grandes espaços herdados dos gregos, antes de-
dicados às artes e à filosofia, transformaram-se em arenas de lutas
de gladiadores, ou seja, no circo romano, cenário para a “política do
pão e circo” por meio da qual o imperador inibia a revolta do povo
oferecendo alimentos e diversão.
Na Idade Média, o pecado do ócio
A Idade Média compreende o período que parte da queda
do Império Romano até o surgimento do movimento renascentis-
ta. Esse período histórico não se encerra no predomínio das con-
cepções religiosas em detrimento da busca pelo conhecimento,
pois é durante o período medieval que se estabelece a complexa
37 CEDERJ
Aula 2 • O lazer na Antiguidade dos gregos e romanos e na Europa da Idade Média
fusão de valores culturais romanos e germânicos e que vemos
a formação do Império Bizantino, a expansão dos árabes e até o
surgimento das primeiras universidades.
Nos tempos medievais, podemos observar uma mudança
no sentido e no significado do aproveitamento do tempo de não
trabalho com base em um rígido conceito de pecado instituído
pela Igreja Católica (MELO; ALVES JUNIOR, 2003).
A civilização cristã, ao suceder à civilização greco-romana
na história do Ocidente, acabou por inverter os valores daquelas
sociedades. Ao distinguir duas dimensões da vida – a séria, assen-
tada no trabalho e no dever, e a lúdica, assentada no prazer –, o
cristianismo nunca teve dúvida em privilegiar a primeira. O traba-
lho “dignifica o homem”, enquanto a ociosidade é “mãe de todos
os vícios”. Essa nova equação foi a contribuição mais marcante do
cristianismo para a discussão (CAMARGO, 2001, p. 238).
Santos (1999) explica bem esta concepção:
O trabalho, como na Grécia Clássica, se associa a algo peno-
so para os homens, porém assume o atributo de expiar os
erros próprios da fragilidade de caráter dos indivíduos. Por
outro lado, o lazer é percebido como algo profundamente
nocivo à moral e à retidão e lisura no procedimento e nos
bons costumes, principalmente dada a sua estreita ligação
com o prazer, uma vez que este potencializa o desregramen-
to, o desvio do caminho traçado pela Igreja e as mais diver-
sas luxúrias materiais.
Dessa forma, o lazer é visto como um grande perigo para a
Igreja; instituição que tinha, no aperfeiçoamento espiritual,
um dos principais eixos norteadores de seu ideário.
No século IV d.C., Santo Agostinho já alertava para os peri-
gos das brincadeiras infantis, como prenúncio de uma vida futura
desregrada. Nas suas Confissões (1963), Santo Agostinho assim
alude ao conflito entre a obrigação escolar e o gosto pelo brin-
quedo: “Um juiz reto aprovaria os castigos que me davam por
eu, em pequeno, jogar a bola e o jogo ser um obstáculo ao meu
CEDERJ 38
Lazer
aproveitamento nos estudos?” Analisando a história do pensa-
mento educacional, Meyer (apud CAMARGO, 2001, p. 238) assim
descreve a concepção de Santo Agostinho:
A aprendizagem não pode ser estimulada sem disciplina. O pro-
fessor tem de controlar a criança e, se necessário, usar a vara
e a chibata. Assim, o aluno aprende a controlar seus impulsos
maus e se conscientizar da importância da obediência. Agosti-
nho, constantemente consciente do pecado original, acreditava
que as crianças são naturalmente más; por esse motivo sua na-
tureza tinha que ser modificada pelo mestre-escola.
Camargo (2001) ressalta ainda que havia na prática social
cotidiana uma hipocrisia subjacente a essa concepção de vida,
dentro da seguinte fórmula: oração para os padres, diversão
para os nobres e trabalho para os pobres.
Os nobres da época (reis, duques, cavaleiros, senhores
feudais etc.) dedicavam o tempo ocioso ao consumo, ao exces-
so, à luxúria, que correspondiam à ostentação do poder econô-
mico. Ou seja, o tempo de vida era destinado a vivências não
produtivas, tais como as festas nos castelos, a caça de animais
selvagens e os torneios medievais, nos quais os competidores
se enfrentavam montados a cavalo, com lanças e escudos para
demonstração de suas habilidades, saindo gravemente feridos e
mesmo perdendo a vida em nome da honra e do orgulho.
Figura 2.4: Torneio, uma das principais atividades de lazer
dos nobres da Idade Média.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cavalaria_medieval
39 CEDERJ
Aula 2 • O lazer na Antiguidade dos gregos e romanos e na Europa da Idade Média
Para a população em geral, não havia uma rígida divisão so-
cial do tempo de trabalho e de não trabalho. O tempo de trabalho
àquela época destinava-se principalmente ao serviço à nobreza
(os servos), às atividades agrícolas que dependiam da dinâmica
do tempo da natureza e, em número mais reduzido e com certa
flexibilidade em relação ao tempo de trabalho, os artesãos e pe-
quenos comerciantes. O tempo de não trabalho era dedicado ao
descanso e às festas, a música e a dança amenizavam as tensões
de um cotidiano árduo e repressivo e de guerras constantes.
Você certamente já conhece a história de Robin Hood,
não? Vale a pena rever uma das versões em filme –
como Robin Hood, o príncipe dos ladrões, com Kevin
Costner, do ano de 1993, para perceber os valores
praticados na época da Idade Média. Você pode assis-
tir a um trailer dublado em http://www.youtube.com/
watch?v=VTCFT0AGho0.
Figura 2.5: Robin Hood na floresta de
Sherwood.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Robin_
Hood
CEDERJ 40
Lazer
Entre as festas populares, destaca-se o tríduo carnavalesco,
que era a única válvula de escape para o prazer no medievo
cristão. Ao longo dos três dias, a população pobre chegava
a consumir ração de comida equivalente a anual e podia
esbanjar-se com sexo e provocação às classes dominantes
de então, o clero e a nobreza (CAMARGO, 2001, p. 238).
As festas carnavalescas
As festas carnavalescas têm origem controversa. De modo geral, nos
remetem a eventos populares de cunho religioso ou comemorativo à
época de colheita de grandes safras agrícolas, ocasiões em que as pes-
soas já pintavam os rostos, dançavam e bebiam. Há referências às fes-
tas de culto à Isis há mais de quatro mil anos antes de Cristo, no antigo
Egito. Em Roma, há indícios de origem do carnaval em festas pagãs e
com rituais de orgia em homenagem aos deuses Pã e Baco, chamadas
festas lupercais e bacanais ou dionísicas. Na Era Cristã, e com o intuito
de conter os excessos do povo nestas festas pagãs, a Igreja incluiu no
calendário religioso a Semana Santa e a Quaresma, este último sendo
um período de penitência que encerra o ciclo de festas celebradas pe-
los cristãos. Este ciclo tem início com o Natal, seguido do Ano-Novo,
da Festa de Reis e então o carnaval, intensificado nos dias que ante-
cedem à “Terça-Feira Gorda”, último dia em que era permitido comer
carne antes da Quarta-Feira de Cinzas, dando início aos quarenta dias
de jejum ao qual os cristãos se dedicam (Quaresma), em preparação
para a Semana Santa e a celebração da Páscoa. A esta tradição religio-
sa somam-se diferentes manifestações em festas populares de acordo
com a cultura de cada país. No período do Renascimento, as festas
carnavalescas de Veneza incluíram os bailes de máscaras, com ricas
fantasias e carros alegóricos que inspiraram diversas manifestações
contemporâneas, como o carnaval do
Brasil. Na França, a Terça-Feira Gorda é
conhecida pelo nome Mardi Gras, ex-
pressão que nos Estados Unidos é sinô-
nimo de carnaval.
Figura 2.6: Máscaras do carnaval de Ve-
neza, Itália.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Carnaval
41 CEDERJ
Aula 2 • O lazer na Antiguidade dos gregos e romanos e na Europa da Idade Média
Atividade
Atende ao Objetivo 2
2. Comente a afirmativa a seguir, destacando a influência do po-
der dos reis e da Igreja Católica nas manifestações do lazer na
sociedade da Idade Média:
O trabalho “dignifica o homem”, enquanto a ociosidade é “mãe de
todos os vícios”. Essa nova equação foi a contribuição mais mar-
cante do cristianismo para a discussão (CAMARGO, 2001, p. 238).
Resposta Comentada
A associação da Igreja Católica com a soberania dos reis deu ori-
gem a um dos períodos mais torturantes da história da civilização
ocidental. Constituída como classe dominante, clero e monarquia,
difundem o trabalho e o dever, entre eles, o pagamento de dízimo à
CEDERJ 42
Lazer
igreja e de impostos à coroa, como obrigação, como expiação para
os pecados, como a salvação. A população devia submeter-se a este
dogma como algo sagrado e sobre o qual não deve haver contes-
tação. Por outro lado, o lazer e o ócio são percebidos como algo
profundamente nocivo à moral, um desvio da conduta correta para
a luxúria, prejudicial ao aperfeiçoamento espiritual do povo e tam-
bém aos interesses escusos de enriquecimento e de expansão dos
reinados e da Igreja àquela época, para os quais o lazer era dedicado
à ostentação do seu poder econômico.
A Reforma Protestante e o Renascimento
Com a Reforma Protestante no século XVI, uma nova inter-
pretação sobre o valor do trabalho e do lazer vem compor a socie-
dade da época. O catolicismo valorizava o trabalho sobre o lazer,
mas condenava o acúmulo de capital. Já para o protestantismo, a
saúde espiritual se associou à riqueza material, a ponto de se acre-
ditar que ser pobre materialmente poderia significar também ser
privado da graça divina. Essa concepção veio fundamentar ideolo-
gicamente o capitalismo em ascensão. Para aprofundarmos essa
associação, vale a pena ler Max Weber na sua obra clássica inti-
tulada A ética protestante e o espírito do capitalismo. Hoje, pelo
menos três teólogos lutam para reconciliar as noções de Deus e
de jogo: o próprio Harvey Cox, teólogo batista, o luterano Jurgen
Moltman e o católico Eric Volant (CAMARGO, 2001).
Reforma Protestante
No século XVI, uma mudança na visão de mundo, fruto
do pensamento renascentista e uma série de abusos co-
metidos pela Igreja Católica deram início a um processo
conhecido como Reforma Protestante.
A Renascença ou Renascimento correspondem ao perío-
do da história da Europa, compreendido entre os séculos
XIII e o XVII, marcado por uma série de transformações
em diferentes áreas da vida humana decorrentes da tran-
sição do feudalismo para o capitalismo, assinalando o
final da Idade Média e o início da Idade Moderna. Essas
43 CEDERJ
Aula 2 • O lazer na Antiguidade dos gregos e romanos e na Europa da Idade Média
transformações ficam evidentes nas artes, na filosofia e nas
ciências com desdobramentos manifestos na economia, na
cultura, na sociedade, na política e na religião. O homem re-
nascentista tinha acesso a livros e ao convívio nas cidades o
que o permitiu pensar e discutir as coisas do mundo e a de-
senvolver o seu senso crítico, baseado na ciência e na busca
da verdade por meio de experiências e da razão.
Além disso, a Igreja Católica estava perdendo a sua identi-
dade devido a elementos do clero corrompidos pelo poder,
que entre outros desatinos, desrespeitavam as regras re-
ligiosas, inclusive o celibato, excediam nos gastos com o
luxo e arrecadavam dinheiro com a venda de indulgências
(venda do perdão). Contraditoriamente, condenavam o lu-
cro e os juros típicos do capitalismo emergente, deixando
insatisfeita a burguesia comercial em plena expansão no
século XVI.
Assim, a Reforma Protestante e a Renascença ou Renasci-
mento foram movimentos importantes para a revisão de valores
na religião, na cultura, na economia, na política, na sociedade como
um todo. A busca pelo conhecimento para a mudança de uma situa-
ção de submissão à Igreja Católica e ao poder dos reis e a busca por
melhores meios de produção e por uma sociedade mais humana
induziram a institucionalização das primeiras universidades.
Nessa busca pelo conhecimento desenvolveram-se as via-
gens conhecidas como Grand Tour, um rito de passagem educa-
cional para jovens da aristocracia, particularmente da Grã-Breta-
nha e de nações protestantes do norte europeu nos idos de 1600,
mas que rapidamente se espalhou pelos continentes. Não deve-
mos esquecer que os séculos correspondentes à Idade Média fo-
ram também importantes para a descoberta de novas terras para
colonização, graças à expansão das navegações e do comércio.
O Grand Tour era a única oportunidade existente para ver e
vivenciar certas obras de arte, ouvir certas peças musicais, apri-
morar idiomas e ter acesso ao legado da Antiguidade Clássica
e do Renascimento. Um Grand Tour podia durar de alguns me-
ses até alguns anos. Os jovens viajavam em companhia de um
tutor de confiança da família, profundo conhecedor que atuava
CEDERJ 44
Lazer
também como guia. O Grand Tour teve mais do que uma impor-
tância cultural superficial. Nas palavras do historiador inglês E. P.
Thompson,
o controle da classe dominante, no século XVII, localizava-se
antes de tudo numa hegemonia cultural, e, somente depois,
numa expressão de poder econômico ou físico (militar)”. So-
mente o conhecimento, através da razão e da ciência, pode-
ria quebrar essa hegemonia e proporcionar uma nova his-
tória para o mundo que já se configurava, a Idade Moderna
(THOMPSON, 1991, p. 43).
Atividade Final
Atende ao Objetivo 3
Identifique o contexto histórico e os elementos do Grand Tour
que podemos associar ao turismo contemporâneo, particular-
mente ao segmento do turismo cultural.
45 CEDERJ
Aula 2 • O lazer na Antiguidade dos gregos e romanos e na Europa da Idade Média
Resposta Comentada
O Grand Tour surge no período histórico do renascimento na Euro-
pa, ocasião em que a busca pelo conhecimento por meio da razão,
da ciência e da experiência estimulam a criação das universidades
e as viagens como principal instrumento de aprendizagem para os
jovens da burguesia emergente. O turismo ainda não “existia” como
atividade econômica organizada, mas já podemos verificar no Grand
Tour a função cultural das viagens e a existência de um guia (tutor)
que se encarrega de elaborar e detalhar o roteiro aos jovens viajan-
tes. Esta característica aproxima-se ao conceito do turismo cultural
e do turismo de intercâmbio que hoje se constituem em segmen-
tos específicos do turismo, contando com agências, guias, hospe-
dagem, transportes associados ou não em pacotes exclusivamente
para estas motivações de viagem. Esta observação é interessante
para nos auxiliar a dissociar o conceito de lazer apenas como diver-
são. O lazer detém a função de desenvolvimento em seu conceito,
e os profissionais de turismo e educadores devem atentar para as
perspectivas da cultura e das viagens como fonte de aprimoramento
pessoal e social.
Resumo
Como forma de entendermos as origens históricas do lazer, abor-
damos os principais aspectos a partir de quatro perspectivas: a
dos gregos, que inventaram um tempo chamado scholé no qual
só o “homem livre” tinha o direito de usufruir o corpo e o es-
pírito, e para tanto, a sociedade era sustentada por um sistema
escravocrata. Os romanos, que mantiveram a mesma estrutura,
porém com enfoque na “política do pão e circo” e práticas de lazer
rudes em relação à beleza e à perfeição contemplada pelos gre-
gos. A Idade Média com o ócio sendo considerado um pecado e
ressaltando a distinção e a hipocrisia entre as classes sociais e, no
início da Idade Moderna com o puritanismo religioso e a reforma
protestante, que inverteram os valores, associando a saúde espi-
ritual à riqueza material, extrapolando o princípio cristão em que
“o trabalho dignifica o homem”. Também destacamos a influência
CEDERJ 46
Lazer
do Grand Tour como processo de aprendizado e de conhecimento
por meio da viagem de jovens com seus tutores pela Europa An-
tiga, fundamentando o turismo contemporâneo, especialmente o
segmento de turismo cultural.
Informação sobre a próxima aula
Na próxima aula, iremos estudar a Revolução Industrial
como marco de uma nova civilização que caracteriza a Idade Mo-
derna, e ver surgir o direito ao tempo livre e seus impactos nos
hábitos, na produção e nos estudos do lazer.
47 CEDERJ
3 A Revolução Industrial e o lazer
moderno
Cristina Marques Gomes / Simone Dantas
Meta da aula
Apresentar as principais contribuições da Revolução Indus-
trial para os hábitos de lazer da sociedade a partir da Idade
Moderna.
Objetivos
Ao final desta aula, você deverá ser capaz de:
1 estabelecer as relações entre o tempo de trabalho e os
hábitos de lazer;
2 verificar como a Revolução Industrial demarca o lazer
moderno;
3 identificar os principais avanços tecnológicos e sociais
na busca pela qualidade de vida através do lazer.
Aula 3 • A Revolução Industrial e o lazer moderno
Introdução
Como bem assinala Victor Melo, “trabalho e não-trabalho são
categorias da atividade humana que não podem ser compreen-
didas nem de forma hierarquizada (uma se sobrepujando à ou-
tra), nem de forma isolada (uma sem relação com a outra)”, pois
ambas são igualmente importantes e possibilitam a satisfação
humana. Contudo, verificamos uma artificialização dos tempos
sociais no final do século XVIII, com o modelo de produção e a
organização do trabalho concentrado nas fábricas (MELO; ALVES
JUNIOR, 2003).
Paralelamente às transformações nos dogmas religiosos com a
expansão do protestantismo e seus reflexos nas artes e nas ciên-
cias com o Renascimento ao final da Idade Média, o novo sistema
urbano-industrial trouxe outro sentido às práticas trabalhistas da
sociedade ocidental: o caráter sagrado do trabalho medieval a
partir da Idade Moderna adquire um sentido profano: Tempo é
dinheiro – time is money – é a expressão máxima do sistema
produtivo capitalista. Segundo Oliveira (2004):
A industrialização crescente, os aspectos da produção e da
mais-valia, a mercadorização e coisificação do homem são
características deste sistema econômico, gerando, progres-
sivamente, uma sociedade que ressalta como representação
maior da vida o trabalho, e inibe o lúdico como direito à feli-
cidade, sustentando um discurso de atrelamento entre a feli-
cidade almejada e o aumento de produção.
Essas transformações nos valores sociais tiveram como grande mar-
co a Revolução Industrial e os processos por ela desencadeados.
A Revolução Industrial
Iniciada na Grã-Bretanha em meados do século XVIII, a Re-
volução Industrial integra um conjunto de “revoluções burgue-
sas” responsáveis pela queda do Antigo Regime, protagonizado
CEDERJ 50
Lazer
pelo poder político e econômico da monarquia, do clero e dos
senhores feudais. A Revolução Industrial consistiu fundamental-
mente em um conjunto de mudanças tecnológicas com profundo
impacto no processo produtivo, econômico e social, expandin-
do-se pelo mundo a partir do século XIX. Nesse processo (que
alguns autores registram ocorrer até os dias atuais) a era agríco-
la foi superada, a máquina suplanta o trabalho humano, e uma
nova relação entre o capital e o trabalho se impõe, estabelecendo
também novas relações entre as nações e consolidando a cultura
de massa, entre outros eventos.
Essa transformação ocorre devido à combinação de fato-
res como o liberalismo econômico e a acumulação de capital,
que caracterizam o capitalismo como sistema econômico vigente
que teve como ponto de partida uma série de invenções, com es-
pecial destaque para a máquina a vapor. Entendendo a industria-
lização como um processo de uso da máquina nos meios de pro-
dução, podemos considerar que a Revolução Industrial apresenta
diferentes momentos, conforme a tecnologia adotada: a primeira
Revolução Industrial ocorreu no século XVIII a partir da energia
a vapor; posteriormente, no século XIX, com a energia elétrica
ocorreu a segunda; a terceira e a quarta revoluções ocorreram
com a energia nuclear, a informática e a robótica. Há também as
transformações no setor das comunicações no decorrer dos sé-
culos XX e XXI, aspectos ainda discutíveis entre os historiadores
mas que, sem dúvida, repercutem no mundo do trabalho e nos
hábitos de lazer das sociedades.
Leia mais sobre as fases da Revolução Industrial aces-
sando http://www.historianet.com.br/conteudo/default.
aspx?codigo=30
51 CEDERJ
Aula 3 • A Revolução Industrial e o lazer moderno
Contudo, o importante é compreender que até o advento
da Revolução Industrial os homens viviam em função do ciclo da
natureza, do dia e da noite, da época da colheita e não colheita
etc. Não existia uma separação nítida entre o tempo de trabalho
e o de não trabalho. Também não havia sentido em se pensar em
aumentar a produção, se grande parte do que se produzia deve-
ria ser pago como imposto ou dízimo, restando ao trabalhador o
suficiente apenas à sua subsistência. A produção artesanal já não
sustentava os interesses do capitalismo concentrado no comér-
cio. A burguesia se manifesta então como um estrato social que
defende os meios próprios de produção e de acúmulo do capital,
incentivando a ciência em busca de novas formas de produção.
Vale destacar que a Revolução Industrial trouxe grande
evolução também nos transportes (trens e navios a vapor) e nas
comunicações, que favoreceram a promoção de novos centros
urbanos e a implantação de serviços de viagens e lazer. Feiras
internacionais surgiram como forma de expor novas descobertas
e de comercializar os excedentes de produção além de promover
no entorno delas, uma gama de serviços urbanos. Esses aspec-
tos, assim como a identificação do tempo livre e das relações
com o trabalho, são particularmente importantes para o desen-
volvimento do turismo como uma das novas opções de lazer.
Figura 3.1: Um motor a vapor de Watt. O mo-
tor a vapor, alimentado principalmente com
carvão, impulsionou a Revolução Industrial no
Reino Unido e no mundo.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%
C3%A3o_Industrial
CEDERJ 52
Lazer
O tempo
Com a organização do trabalho em fábricas, observa-se
uma artificialização dos tempos sociais (MELO; ALVES JUNIOR,
2003, p. 6). O tempo de vida é marcado pela jornada de trabalho
em torno de 12 a 16 horas diárias e indefinidas no que se refere
à faixa etária ou sexo, ou seja, jovens, crianças, adultos, homens,
mulheres e idosos trabalhavam a mesma rígida e excessiva car-
ga horária e sem direito a férias, descanso semanal remunerado
ou aposentadoria. Também se verificam tensões entre as clas-
ses sociais que surgem nesse processo: uma classe dominante
composta pelos detentores dos meios de produção e a classe
dominada, representada por aqueles que vendem a sua força de
trabalho, oriundos das camadas populares.
Você pode assistir a uma crítica interessante sobre o as-
sunto no filme Tempos modernos, de Charles Chaplin.
É importante compreender que não foi fácil, nem mesmo
pacífica, a adaptação da população a esse novo modelo de traba-
lho. A migração de camponeses para os novos centros urbanos
em busca de emprego nas fábricas gerou o inchaço das cidades:
a qualidade de vida estava ameaçada pela falta de infraestrutura
urbana que favorecia a proliferação de doenças. A exploração e
o rigor no controle social aumentaram a pobreza e a violência,
agravada pelas péssimas condições de trabalho.
Contra essa situação escandalosa, as classes populares co-
meçaram a se organizar e a reivindicar direitos que colocavam em
risco os interesses da classe dominante e do sistema que estava
sendo construído. Os sindicatos de trabalhadores eram proibidos
e enfrentavam, à custa do próprio sangue, as forças repressoras.
53 CEDERJ
Aula 3 • A Revolução Industrial e o lazer moderno
Outros setores da sociedade também se manifestaram: a Igreja
Católica abominava os turnos de trabalho que sobrepunham aos
dias de culto; os educadores que lamentavam a ausência dos jo-
vens trabalhadores nas escolas; e mesmo os políticos que deseja-
vam maior participação popular em sua militância.
Camargo (2001) ressalta que a organização científica do tra-
balho foi o caminho para a busca pela solução desse problema,
dando início às ciências da gestão: havia a necessidade concreta
de reformular os contratos sociais, estabelecendo uma ordem que,
ao mesmo tempo, interessasse ao sistema de produção e fosse ao
menos aceita ou tolerada pelos trabalhadores. O desenvolvimen-
to simultâneo de máquinas e de técnicas modernas de trabalho
permitiram a gradual redução da jornada de trabalho e possibili-
tou assegurar a emergência do tempo livre ao final do dia (com a
jornada de 8 horas), no final de semana (como repouso semanal
remunerado), no final do ano (as férias remuneradas) e ao final do
tempo de serviço (com a aposentadoria remunerada).
A reivindicação dos trabalhadores, relacionada à distribui-
ção social do “tempo”, emerge a partir do início do século XX. O
“uso do tempo livre” começa a ser observado como fonte de con-
sumo e torna-se interessante para as sociedades capitalistas. O
Movimento Trabalhista Internacional contribuiu diretamente para
a evolução no aumento do tempo livre e para uma abordagem
mais racionalizada e positiva do lazer enquanto fenômeno social.
Em 1924, o encontro da Assembleia Geral da Organização
Internacional do Trabalho (OIT) foi dedicado ao lazer. Nele foram
solicitadas aos governantes de diferentes nações informações
específicas sobre as atividades de lazer dos trabalhadores em
seus países. Esse material empiricamente coletado apresenta-se
como o primeiro estudo, com a mesma metodologia, realizado
entre países, e foi publicado, no mesmo ano, na International La-
bour Review.
CEDERJ 54
Lazer
Uma observação importante se faz necessária neste
momento, para lembrar que todas as conquistas das
classes trabalhadoras não foram resultado de con-
cessões ou benefícios oriundos dos proprietários dos
meios de produção, mas de suas próprias reivindica-
ções e lutas. Victor Mello ressalta que:
A compreensão desse fato se faz necessária
para encarar o atual momento socioeconô-
mico, quando o projeto neoliberal preconiza
a redução ou eliminação de algumas dessas
conquistas históricas (como férias, aposenta-
doria digna, e direito a dia de não trabalho
remunerado), como se justamente os traba-
lhadores fossem culpados pela desordem
econômica , e não o desejo de obtenção de
lucro desenfreado a qualquer custo (MELLO;
ALVES JUNIOR. 2003).
Ainda com relação à análise do tempo, vale observar as
considerações dos autores Elias e Dunning (1992, p. 107-108) so-
bre a relação entre tempo livre e lazer:
Tempo livre, de acordo com os atuais usos linguísticos, é
todo tempo liberto das ocupações de trabalho. Nas socieda-
des como as nossas, só parte dele pode ser voltado às ativi-
dades de lazer. Podem distinguir-se cinco esferas diferentes
no tempo livre das pessoas, as quais se confundem e se
sobrepõem de várias maneiras, mas que, todavia represen-
tam categorias diferentes de atividades, que até certo ponto,
levantam problemas diferentes.
Esses autores propõem uma classificação preliminar sobre
as atividades desenvolvidas no tempo livre que estariam dividi-
das em cinco esferas:
1. Trabalho privado e administração familiar: correspon-
dem ao tempo dedicado às atividades relacionadas aos
cuidados com a família e à provisão da casa. Por mais
55 CEDERJ
Aula 3 • A Revolução Industrial e o lazer moderno
que possam ser prazerosas, essas tarefas dificilmente
podem ser chamadas de lazer;
2. Repouso: tempo dedicado para dormir, assistir a TV, ler
ou para não fazer nada em particular;
3. Provimento das necessidades fisiológicas: refere-se
ao tempo necessário para comer, beber, dormir, fazer
amor. Algumas das atividades dos itens 2 e 3 podem
ser consideradas como lazer, quando não feitas de for-
ma rotineira;
4. Sociabilidade: quando dedicamos nosso tempo livre
para atividades de integração social como “jogar con-
versa fora” com os vizinhos e amigos, passear em um
parque, ir ao clube, a um bar, um restaurante, ou mes-
mo estar com outras pessoas sem fazer nada demais,
como um fim em si mesmo;
5. A categoria das atividades miméticas ou jogo: são as
atividades de tempo livre que possuem caráter de la-
zer, que produzem a agradável sensação de excitação-
prazer, quer façamos parte nelas como ator ou como
espectador. Essas atividades estão diretamente asso-
ciadas à quebra da rotina, ao inesperado, característi-
cas essas, da excitação mimética.
Atividade
Atende ao Objetivo 1
1. Quais as características do tempo de trabalho e do tempo de
lazer anteriores à Revolução Industrial?
CEDERJ 56
Lazer
Resposta Comentada
Antes da Revolução Industrial não havia uma nítida divisão do tem-
po de trabalho e de não trabalho. Os homens viviam em função do
ciclo da natureza e a produção do campo era voltada apenas para a
subsistência, sem a visão de lucro. Não havia o tempo de lazer, mas
as práticas do lazer se entremeavam no dia a dia com as demais
obrigações.
O lazer moderno
Num contexto em que tempo é dinheiro, o lazer se transfor-
ma em mercadoria. Nesse processo, a diversão que se opunha a
lógica do trabalho árduo, era também uma forma de manuten-
ção de antigos costumes contrários a nova ordem e, sobretudo,
era nos momentos de lazer que os trabalhadores tomavam cons-
ciência de sua situação de opressão e se reuniam para discutir
suas estratégias de luta contra esse sistema. As feiras e as taber-
nas eram focos de subversão e precisavam ser controladas pelas
classes dominantes em defesa de seus interesses.
Um filme interessante que bem retrata esse momento
histórico é Germinal, baseado no romance de mesmo
nome escrito por Émile Zola em 1881. O filme se passa
na França do século XIX e contextualiza no âmbito eco-
nômico, social e cultural as influências da Revolução In-
dustrial. Você pode assistir a alguns trechos disponíveis
em http://www.youtube.com/watch?v=n9TfD3qCwOg
57 CEDERJ
Aula 3 • A Revolução Industrial e o lazer moderno
A articulação entre o poder judiciário, forças policiais e re-
ligiosas estabeleceram o processo do controle do tempo de não
trabalho, resultando em leis restritivas, ações repressivas e cam-
panhas de ajuda material e espiritual àqueles que viviam em si-
tuação de pobreza, propondo a substituição de práticas pecami-
nosas pela oração e pelo trabalho de construção e aprendizado
da religião e pela “recreação produtiva”.
Outra iniciativa das classes dominantes foi descaracterizar
as atividades populares que, a exemplo das touradas e brigas de
galo, foram perseguidas e consideradas atrasadas como costu-
mes bárbaros. Em substituição às práticas populares, surgiram
os esportes modernos, inicialmente através dos clubes das elites
da sociedade, limitando a população a assistir ao espetáculo. As-
sim, as elites promoviam ao mesmo tempo o controle e a desarti-
culação da classe trabalhadora, como ganhavam com a venda de
ingressos dos espetáculos (MELLO; ALVES JUNIOR, 2003).
É importante considerar que este processo não foi hege-
mônico, deixando brechas de resistência para manutenção de
manifestações tradicionais, bem como originou organizações
populares para atender à nova lógica dos espetáculos através da
criação de clubes esportivos de trabalhadores, bandas de músi-
cas de operários e grupos festivos populares.
Observa-se, assim, uma dinâmica de interinfluências, de
circularidade cultural: “se os dominantes influenciam os parâme-
tros de vida dos dominados, os últimos também influenciam os
parâmetros dos primeiros” (MELLO; ALVES JUNIOR, 2003).
Como ocorre a dinâmica de interinfluências culturais nos dias atuais?
Para ilustrar essa dinâmica de interinfluências que verificamos niti-
damente em nossa sociedade globalizada, leia com atenção a ma-
téria sobre o projeto de lei que transforma o funk em movimento
cultural carioca.
Fonte: http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/2009/09/01/projeto+de+lei+que+
transforma+funk+em+movimento+cultural+e+aprovado+no+rio+8208929.html
CEDERJ 58
Lazer
Nesse processo, a tendência crescente para que o sistema
capitalista produza novas necessidades sociais ao mesmo tem-
po em que produz os bens encarregados de supri-las, justifica,
assim, o desenvolvimento de novas formas de lazer, fenômeno
notório a partir da segunda metade do século XIX. Podemos ob-
servar o desenvolvimento nessa época da ampliação na oferta
de bares, restaurantes, hotéis, cassinos; o desenvolvimento das
artes, da música, da literatura, dos espaços de audiência como
teatros e auditórios. Observa-se o alvorecer do esporte moderno,
no restabelecimento dos Jogos Olímpicos, e com a criação de
algumas modalidades esportivas como vôlei e basquete.
Observamos assim, que o fenômeno lazer moderno foi ge-
rado em uma clara tensão entre classes sociais e através da ocor-
rência contínua e complexa de conflitos entre controle/resistên-
cia, adequação/subversão em uma dinâmica de ações traçadas e
implementadas na luta das organizações sociais.
Devemos estar atentos para compreender a articulação en-
tre política, economia e cultura no âmbito do lazer, o que
não significa submetê-lo a qualquer desses ordenamentos:
existe uma especificidade do fenômeno lazer que deve ser
compreendida, até para melhor balizar nossas propostas de
intervenção. Os momentos de lazer não são somente meca-
nicamente determinados pelas condições econômicas, mas
não se pode deixar de perceber tais influências. Não somen-
te instantes de alienação, embora também o possam ser.
Não somente momentos de resistência, embora também
o sejam. O lazer é um fenômeno social bastante múltiplo
e polissêmico, cabendo ao profissional que pretende atuar
nesse campo ter clara a complexidade do significado de sua
intervenção (MELLO; ALVES JUNIOR, 2003).
59 CEDERJ
Aula 3 • A Revolução Industrial e o lazer moderno
Atividade
Atende ao Objetivo 2
2. Como a Revolução Industrial demarca o lazer moderno?
Resposta Comentada
Com a Revolução Industrial ocorreu a artificialização dos tempos so-
ciais; a divisão do tempo de trabalho e do tempo de não trabalho.
A sociedade industrial ressalta o trabalho como bem maior da vida,
inibindo o lúdico com a associação da felicidade ao aumento de
produção; a diversão se opunha ao trabalho e as forças policiais e
religiosas estabeleceram o processo de controle do tempo de não
trabalho. Entre as iniciativas surgem leis restritivas sobre ativida-
CEDERJ 60
Lazer
des populares como brigas de galo e touradas, ações repressivas
em feiras e tabernas consideradas focos de subversão à ordem do-
minante, e a substituição de práticas consideradas pecaminosas
pela oração e pelo trabalho de aprendizado da religião através da
“recreação produtiva”. As elites sociais dedicavam-se aos esportes
modernos através da criação dos clubes e competições que se trans-
formaram em verdadeiros espetáculos que eram apenas assistidos
pela população, de modo a promover ao mesmo tempo o controle
e a desarticulação das classes trabalhadoras e a ganhar com a ven-
da dos ingressos. Assim, o uso do tempo livre torna-se interessante
para as sociedades capitalistas. Gradativamente ocorre a organiza-
ção também das classes populares para atender à nova lógica dos
espetáculos, criando clubes esportivos de trabalhadores, bandas de
músicas de operários e grupos festivos populares que mantinham
manifestações populares, gerando uma dinâmica de interinfluên-
cias, de circularidade cultural.
Mommaas e col. (1996) ressaltam que o interesse interna-
cional no lazer foi precedido pela pioneira publicação de George
Bevans, em 1913, sobre o tempo livre dos trabalhadores no Es-
tado de Nova York, e seguido por uma série de projetos de pes-
quisa sobre o mesmo assunto em vários países (por exemplo, na
França, na Bélgica, na Alemanha, na Holanda e na extinta União
Soviética).
Anteriormente a esse período, em 1899 nos Estados Uni-
dos, Thorstein Veblen publica Leisure Theory Class e, em 1883,
na França, Paul Lafargue escreve Le Droit à la Paresse: primeiro
“panfleto” a favor dos operários.
Estes dois autores – Paul Lafargue e Thorstein Veblen – re-
presentam alguns dos mais importantes precursores do pensa-
mento sobre o lazer.
Para ilustrar esta nossa reflexão sobre a sociedade ao longo do tempo,
podemos assistir a apresentação “ Idade Média ao capitalismo” dispo-
nível no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=DA2j6YKmQTU.
61 CEDERJ
Aula 3 • A Revolução Industrial e o lazer moderno
Atividade Final
Atende aos Objetivos 2 e 3
Identifique os principais avanços tecnológicos ocorridos na sociedade a
partir da implantação do modelo de produção fabril, e que influenciaram
na mudança de hábitos de lazer da sociedade moderna na busca pela
qualidade de vida.
Resposta Comentada
O desenvolvimento dos centros urbanos em torno das fábricas atrai
uma gama de serviços, inclusive de transportes e de comunicação,
incrementando as feiras internacionais e o desenvolvimento de no-
vas opções de lazer, como o turismo. A migração de camponeses
para os centros urbanos em busca de emprego nas fábricas gerou o
inchaço das cidades e o aumento da pobreza e da violência entre ou-
CEDERJ 62
Lazer
tras consequências que ameaçam a qualidade de vida. A demanda
por emprego sob a lógica da mais valia promove a mercadorização
e coisificação do homem (OLIVEIRA, 2004).
Ocorrem tensões entre a classe dominante, detentora dos meios
de produção e a classe dominada, representada por aqueles que
vendem a sua força de trabalho. A organização das classes popu-
lares em sindicatos em busca de melhores condições de trabalho
e da redução da rigorosa jornada de trabalho põe em risco os in-
teresses das classes dominantes e do sistema capitalista vigente.
Outros setores da sociedade como a Igreja Católica, os educadores e
políticos aderem aos movimentos em defesa da liberação do tempo
do trabalhador, cada um, buscando, a manutenção de público para
as suas atividades. Sob este cenário ocorre o desenvolvimento das
ciências de gestão que organizaram o trabalho cientificamente de
forma a reformular os contratos sociais, visando atender ao sistema
de produção e também ser aceita, ao menos tolerada, pelos tra-
balhadores. Paralelamente o desenvolvimento das máquinas e de
técnicas cada vez mais modernas, possibilitando a gradual redução
da jornada de trabalho e o aumento do tempo livre, possibilitando
a conquista dos direitos trabalhistas como repouso semanal remu-
nerado, férias e aposentadoria.
Resumo
Destacamos a influência da Revolução Industrial na divisão do
tempo de trabalho x tempo livre e como, a partir daí, o tempo li-
vre passa a ser objeto de interesse social e científico, desperta nas
sociedades capitalistas diferentes possibilidades de produção de
bens e serviços para suprir as necessidades de lazer decorrentes
deste tempo livre.
O fenômeno lazer moderno foi gerado em uma clara tensão en-
tre classes sociais e através da ocorrência contínua e complexa
de conflitos entre controle/resistência, adequação/subversão ao
sistema capitalista que se impôs a partir da Revolução Industrial
na Inglaterra do século XVIII, expandindo-se para Europa e para o
mundo nos séculos seguintes. Como um processo contínuo, sua
dinâmica de ações foi traçada e implementada na luta das orga-
nizações sociais, particularmente no campo do lazer. Devemos
compreender o lazer como um fenômeno social bastante múltiplo
e polissêmico, no qual a articulação entre política, economia, edu-
cação e cultura não estão submetidas hierarquicamente a qual-
63 CEDERJ
Aula 3 • A Revolução Industrial e o lazer moderno
quer um desses ordenamentos exclusivamente. Cabe ao profis-
sional que pretende atuar nesse campo ter clara a complexidade
do significado de sua intervenção.
Informação sobre a próxima aula
Partiremos para o campo científico do lazer e os precur-
sores dos estudos do lazer em âmbito internacional, nesta pri-
meira parte com as considerações de Paul Lafargue e Thorstein
Velben, ainda no contexto da Revolução Industrial, refletindo so-
bre as possibilidades do lazer moderno.
CEDERJ 64
Os precursores do lazer em
4 âmbito internacional – Parte I – Paul
Lafargue e Thorstein Veblen
Cristina Marques Gomes / Simone Dantas
Meta da aula
Apresentar historicamente o lazer em âmbito internacional,
destacando alguns dos seus primeiros teóricos: Paul Lafar-
gue e Thorstein Veblen.
Objetivos
Esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula,
você seja capaz de:
1 identificar o pensamento dos teóricos precursores do
lazer, Thorstein Veblen e Paul Lafargue;
2 reconhecer o direito ao tempo livre e os primeiros
“contornos” do estudo do lazer.
Aula 4 • Os precursores do lazer em âmbito internacional – Parte I – Paul Lafargue e Thorstein Veblen
Introdução
Estudamos a evolução do lazer ao longo de alguns períodos his-
tóricos na aula passada, observando que:
• com os gregos, numa sociedade escravocrata, foi criado um
tempo chamado scholé no qual só o homem livre poderia se
divertir;
• os romanos mantiveram a mesma estrutura do ócio em opo-
sição ao trabalho (negócio) como os gregos e adotaram o
lazer como estratégia política do “pão e circo”;
• na Idade Média o ócio/lazer passou a ser considerado “a mãe
de todos os vícios” e a produzir e alimentar a distinção e a
hipocrisia entre as classes sociais;
• e na Idade Moderna, com o puritanismo religioso e a refor-
ma protestante, somados aos efeitos da Segunda Revolução
Industrial tivemos uma inversão de valores: a divisão entre
o tempo de trabalho e o tempo livre passou a gerar novas
necessidades sociais propícias ao consumo de produtos e
serviços que alimentam a ideologia capitalista;
• e, por fim, o reconhecimento do direito ao tempo livre foi
adquirido após a Primeira Guerra Mundial.
Ao longo deste tempo, tivemos a contribuição de importantes
precursores das teorias do lazer. Vamos conhecê-los? Começare-
mos nossos estudos com a percepção e as obras de Paul Lafar-
gue e de Thorstein Veblen.
Para compreendermos o pensamento destes teóricos é impor-
tante lembrar que, com a Segunda Revolução Industrial (século
XIX), além do capitalismo, também se propaga o comunismo na
Europa, tratando-se, portanto, do convívio de duas teorias so-
ciais que exaltam o trabalho como a necessidade primeira do
homem. Porém, são teorias opostas quanto à forma de interpre-
tar a exploração do trabalho humano: o capitalismo é um siste-
ma econômico fundamentado na propriedade privada dos meios
de produção e no fomento dos mercados livres, ou seja, sem a
CEDERJ 66
Lazer
intervenção do Estado na economia e onde há a ocupação dos
trabalhadores conforme o mercado de trabalho. O comunismo,
além de um sistema econômico, caracteriza-se como uma doutri-
na política e social que defende a propriedade comum dos meios
de produção, estando o controle nas mãos dos trabalhadores,
por meio de associações livres de produtores. Você percebe bem
esta diferença? E quais reflexos estes sistemas produzem no la-
zer da sociedade?
Paul Lafargue e o direito à preguiça
Figura 4.1: Paul Lafargue acredi-
tava que as máquinas a carvão e
a eletricidade deveriam auxiliar o
trabalho dos operários.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/
Paul_Lafargue
Paul Lafargue nasceu em 1842 em Santiago de Cuba. Aos nove
anos mudou-se para a França, onde, posteriormente, frequentou o
curso de Medicina, casou-se com Laura, filha de Karl Marx, e teve três
filhos que morreram jovens. Tal fato fez com que Lafargue abando-
nasse a Medicina e dedicasse sua vida à política, sofrendo influências
das ideologias socialistas difundidas por Marx. Aos 69 anos de idade
ele e Laura morreram juntos em um pacto de suicídio.
67 CEDERJ
Aula 4 • Os precursores do lazer em âmbito internacional – Parte I – Paul Lafargue e Thorstein Veblen
Quem foi Karl Marx?
Figura 4.2: Karl Marx foi um
dos intelectuais mais influentes
na história do pensamento so-
cial da humanidade.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/
Karl_marx
Karl Heinrich Marx nasceu na cidade de Tréveris, na
Alemanha, em 5 de maio de 1818, vindo a falecer em
Londres, no Reino Unido, em 14 de março de 1883. É
reconhecido como um dos intelectuais mais influen-
tes na história do pensamento mundial. Economista
por formação, é considerado um dos fundadores da
Sociologia, sendo possível encontrar sua influência
em outras áreas como a Filosofia, a História e a Polí-
tica. Sua participação como intelectual e revolucioná-
rio no movimento operário influenciou de tal modo a
sociedade de sua época que até hoje é praticamente
impossível analisar a sociedade humana sem haver
uma referência, em maior ou menor grau, à produção
e à ideologia construída em torno do pensamento e
dos conceitos econômicos.
No final do século XIX, mais exatamente
CEDERJ 68
Lazer
em 1883, Paul Lafargue escreveu na prisão em Paris o seu famoso
manifesto O direito à preguiça. Lafargue parte em defesa dos ope-
rários, recriminando a passividade dos trabalhadores diante das
condições desumanas do trabalho e a ideia do trabalho a qualquer
preço. Ele acreditava que as máquinas a carvão e a eletricidade de-
veriam auxiliar o trabalho dos operários, proporcionar a redução
do tempo de trabalho e substituir a mão de obra servil (CAMARGO,
2001, p. 239).
Leia o manifesto O direito à preguiça na íntegra
acessando: http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/
direitopreguica.html ou http://www.culturabrasil.pro.
br/direitoapreguica.htm
Irreverente, Paul Lafargue foi o primeiro a perceber a vincu-
lação do divertir-se humano com a economia, ou seja, da produ-
ção do lazer pelo trabalho. Ele denuncia o “dogma do trabalho”
como responsável por produzir a mentalidade servil. E ironi-
za: “Jeová, o deus barbudo, deu a seus adoradores o supremo
exemplo do ócio ideal: depois de seis dias de trabalho, repousa
por toda a eternidade” (CAMARGO, 2001, p. 239).
Lafargue discute a preguiça, um pecado capital, como um
direito de forma proposital para rebater a submissão dos traba-
lhadores aos princípios religiosos, denunciando a “santificação”
do trabalho como um dogma desastroso.
A partir dessa visão polêmica da situação nos anos 1880 e
da solução utópica de seu manifesto para época, Lafargue nem
sequer esboçou uma concepção de lazer, mas propôs a primeira
expressão forte da dinâmica técnica e social da produção do lazer
pelo trabalho.
69 CEDERJ
Aula 4 • Os precursores do lazer em âmbito internacional – Parte I – Paul Lafargue e Thorstein Veblen
Segundo De Masi (2001), ao proclamar o direito ao ócio
como única forma de equilíbrio existencial, Lafargue não se po-
sicionou contra o trabalho em si (o qual, ao contrário, considera
“um ótimo tempero para o ócio”), mas o contrapôs a outros di-
reitos, então defendidos para os operários: o direito ao trabalho,
reivindicado pelos revolucionários de 1848; o direito à preguiça,
defendido por Moreau-Christophe; o direito ao lazer, de que mui-
tos já então tratavam; e o direito ao prazer, que será teorizado
mais tarde por Henri Rochefort.
Atividade
Atende ao Objetivo 1
1. Paul Lafargue escreveu em O direito à preguiça:
Trabalhem, trabalhem, proletários, para aumentar a fortuna social
e as vossas misérias individuais, trabalhem, trabalhem, para que,
tornando-vos mais pobres, tenham mais razão para trabalhar e para
serem miseráveis. Eis a lei inexorável da produção capitalista.
Porque, ao prestarem atenção às insidiosas palavras dos econo-
mistas, os proletários se entregaram de corpo e alma ao vício do
trabalho, precipitam toda a sociedade numa destas crises de su-
perprodução que convulsionam o organismo social. Então, porque
há superabundância de mercadorias e penúria de compradores, as
oficinas encerram e a fome fustiga as populações operárias com o
seu chicote com mil loros. Os proletários, embrutecidos pelo dog-
ma do trabalho, não compreendem que é o supertrabalho que in-
fligiram a si próprios durante o tempo da pretensa prosperidade a
causa da sua miséria presente, em vez de correrem ao celeiro de
trigo e de gritarem: ‘Temos fome e queremos comer!... Sim, não
temos nem uma moeda, mas, pobres como estamos, fomos nós
quem ceifou o trigo e vindimou a uva...” (Fonte: http://www.mar-
xists.org/portugues/lafargue/1883/preg/cap01.htm).
A partir da leitura do trecho citado, você considera que esse pan-
fleto a favor dos operários ainda é válido em nossos dias? Por
quê? Comente sua resposta.
CEDERJ 70
Lazer
Resposta Comentada
Apesar das máquinas e da mecanização do trabalho, as jornadas nas
fábricas da época de Lafargue eram de 15 a 18 horas diárias. Hoje, com
aplicação de novas tecnologias e o direito adquirido pelos trabalhado-
res, as jornadas de trabalho formais variam de 6 a 8 horas diárias. Ain-
da assim, há reivindicações por parte dos trabalhadores. O volume de
produção das mais diferentes mercadorias não garantiu a superação
da fome, da miséria, não promoveu a justiça social nos países capita-
listas. Observe, entretanto, que a sacralização do trabalho “a qualquer
preço”, a concorrência desleal de mercado, a injustiça salarial frente às
necessidades humanas e a inversão de valores na sociedade manipula-
dos para o consumo caracterizam uma nova forma de escravidão que
afasta o homem da sua essência produtiva e criativa.
Veblen e o lazer ostentatório
Figura 4.3: Thorstein Veblen denuncia a per-
versidade comum nas classes dominantes
em utilizar o lazer como símbolo de distinção
social.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Thorstein_Veblen
71 CEDERJ
Aula 4 • Os precursores do lazer em âmbito internacional – Parte I – Paul Lafargue e Thorstein Veblen
Thorstein Bunde Veblen nasceu nos Estados Unidos em 30
de julho de 1857, vindo a falecer em 3 de agosto de 1929. Filho de
imigrantes noruegueses, se formou em Filosofia na Universidade
Johns Hopkins e doutorou-se em Yale. Matriculou-se na Univer-
sidade de Cornell onde conheceu J.L. Laughlin que o convidou
para ingressar no Departamento de Economia da Universidade
de Chicago. Atuou como economista e sociólogo, sendo um dos
fundadores da New School for Social Research em 1919.
Na mesma época de Lafargue, porém nos Estados Unidos,
quando a pujança da indústria local dava suporte aos primeiros
sonhos do império americano e fortunas se multiplicavam, outra
análise sobre o lazer viria à tona. A população operária era man-
tida sob a pesada carga de trabalho, de 15 a 18 horas diárias, co-
mum na época. Norueguês puritano, emigrado para os Estados
Unidos, Thorstein Veblen, em 1899, publicou o seu livro Leisure
Theory Class.
Nessa obra, Veblen considera trabalho apenas o que as pes-
soas produzem com as próprias mãos, relegando a parasitas to-
dos os que atuam apenas indiretamente como os engenheiros, os
especuladores, os sacerdotes, os esportistas, os militares e os go-
vernantes, que, segundo ele, desprezam o trabalho manual. Essa
autêntica classe social de lazer tem necessidade de um decorum
necessário à sua reputação: não pode contentar-se apenas com o
desperdício de tempo e de dinheiro, precisa ainda “exibir o supér-
fluo”. O consumo deve ser ostentatório (CAMARGO, 2001, p. 240).
Veblen tornou-se referência a todos os que estudam o lazer
ao revelar a perversidade comum nas classes dominantes em uti-
lizar o lazer como símbolo de distinção social, algo que persiste na
atualidade. Nesse sentido, a sociologia do lazer hoje pode parecer
um prolongamento do seu pensamento, e grande número de soci-
ólogos, como Pierre Bourdieu, mostrou-se afinado com essa linha
de análise. Porém, esse conceito de lazer associado ao consumo é
excessivamente restrito às práticas da população mais rica, como
os teóricos posteriores, numa análise mais ampla do fenômeno,
bem o demonstraram (CAMARGO, 2001, p. 240).
CEDERJ 72
Lazer
Para Dumazedier (1976), tanto o manifesto O direito à pre-
guiça (Le Droit à la Paresse), de Paul Lafargue, quanto o livro
Leisure Theory Class de Thorstein Veblen, tiveram uma importân-
cia significativa, após o trabalho de Marx, e representavam duas
concepções opostas de socialismo. Segundo o autor há duas
abordagens:
Lafargue descobriu o lazer numa concepção moderna do
trabalho, na qual a dignidade do trabalhador é fundamental.
Prefigurava, há seu tempo, a civilização do tempo livre. Veblen
propôs exatamente o contrário. Filho de camponeses da Norue-
ga, emigrados para os Estados Unidos no fim do século XIX, à
procura de prosperidade, defendeu o princípio do “trabalho com
as mãos” como o ideal. Veblen ataca a burguesia ociosa como
Lafargue, mas sonha em fazer a todos trabalhadores manuais.
Para os socialistas da corrente de Veblen, para quem o socialismo
é, sobretudo, trabalho, o tempo liberado é recusado. Para a outra
tendência socialista enquadrada por Lafargue, o tempo libera-
do é aceito, considerando que o futuro da sociedade industrial é
cada vez mais a predominância do tempo livre sobre o tempo de
trabalho, para o consumo de trabalhadores.
Atividade
Atende ao Objetivo 1
2. Veblen acredita no lazer como uma forma de ostentação das
classes dominantes e elites sociais? Nos dias atuais, as opções
de lazer ainda privilegiam estas classes? Quais as principais mu-
danças que você poderia destacar?
73 CEDERJ
Aula 4 • Os precursores do lazer em âmbito internacional – Parte I – Paul Lafargue e Thorstein Veblen
Resposta Comentada
A relação entre tempo livre e consumo se intensificou em nossos
dias, o que privilegia as camadas de maior poder econômico, mas
há uma maior democratização de espaços e serviços voltados ao
lazer para diferentes classes sociais. Embora permaneça a tendência
a uma classificação de serviços de lazer pagos em relação ao seu
custo – quanto mais caro, mais seletivo e elitizado, melhor qualida-
de – determinadas práticas de lazer, antes restritas a um certo grupo
social, tem-se tornado cada vez mais acessíveis a diferentes grupos
sociais. Verificamos a ampliação na oferta de espaços e equipamen-
tos públicos de lazer voltados para prática de esportes ou para laze-
res sociais e artísticos mais democráticos em relação ao seu acesso
a população. Observa-se hoje, por exemplo, no próprio turismo a
ampliação das opções de transporte e meios de hospedagem com
porte e tarifas diferenciadas, facilidades de pagamento, promoções
e programas específicos como “Viaja Mais Melhor Idade” ou “Férias
do Trabalhador”.
O direito ao tempo livre e contornos do lazer
O lazer enquanto objeto de estudo começa a adquirir con-
tornos a partir do reconhecimento do direito ao tempo livre, ad-
quirido após a Primeira Guerra Mundial quando novos objetivos
foram traçados, devido à liderança de pesquisadores sociais; para
os quais as “brincadeiras”, a “recreação” e o “lazer” deveriam ser
planejados cientificamente. O vocábulo lazer, sempre associado
ao trabalho, começa a ser citado com maior frequência em índi-
ces de livros, periódicos e jornais.
Uma geração de acadêmicos sociais passou a desenvolver
um interesse científico-empírico pelo lazer como forma de enten-
der a sociedade. Segundo Mommaas e col. (1996), estimularam
não apenas uma crescente exigência de instituições públicas por
conhecimento científico na área, mas também uma forte convic-
ção de que o aumento da penetração social-científica no dia a
dia das pessoas melhoraria a formulação efetiva e a avaliação
CEDERJ 74
Lazer
das políticas públicas. Na Holanda, Kruijt e Sternheim são bons
exemplos dessa nova geração e abordagem. Sociólogos ameri-
canos como George Lundberg e Robert e Helen Lynd diziam que
o lazer era um fenômeno moderno e que as suas dinâmicas so-
ciais ainda não eram conhecidas. Logo, alguns institutos come-
çaram a incluir o estudo do lazer em seus programas científicos,
como por exemplo, o Frankfurter Institut für Sozialforschung, na
Alemanha.
Os estudos até então realizados de forma isolada em al-
guns países adquirem novas conotações com a introdução de
uma técnica utilizada para avaliar como as pessoas empregam
seu tempo (com trabalho remunerado, trabalho doméstico, cui-
dados pessoais, sono, recreação e/ou o uso do lazer), intitulada
orçamento-tempo. Pesquisas de
Essas pesquisas eram gradualmente aplicadas por estudio- orçamento-tempo
Servem para avaliar
sos tanto da área da Sociologia como da Economia e da Psico-
como as pessoas gastam
logia, com origem na Grã-Bretanha, na União Soviética, nos Es- seu tempo dentro dos
limites de um dia de tra-
tados Unidos, na França e na Alemanha, além de alguns países, balho, um fim de semana,
uma semana de sete dias
que realizavam pesquisas mais esporádicas, como a Holanda e
ou qualquer outro período
a Bélgica. relevante. Para tanto, es-
sas pesquisas analisavam
Por outro lado, a American National Recreation Associa- os seguintes tópicos:
tion, fundada em 1906, foi a primeira organização profissional o tempo gasto com o
trabalho pago, afazeres
voltada ao lazer nos Estados Unidos. A partir de então, inclusi- domésticos, cuidado pes-
soal, tarefas familiares,
ve em outros países, algumas instituições internacionais direta sono, recreação e lazer.
e indiretamente relacionadas ao lazer foram criadas como, por Essas categorias eram
divididas de acordo com
exemplo, a World Association for Adult Education (1918), a Socia- o grupo social (tra-
balhadores industriais,
list Workers Sport International (1920) e o International Office for
estudantes, homens,
Allotments and Workers Gardens (1926). desempregados etc.).
O socialista francês Albert Thomas, no primeiro Congresso
Internacional do Tempo Livre dos Trabalhadores, que aconteceu
em Liège em 1930, propôs o estabelecimento de um comitê in-
ternacional sobre o tempo livre vinculado à Organização Inter-
nacional do Trabalho – OIT. Tal comitê foi oficialmente instalado
durante o segundo congresso, que aconteceu em Bruxelas em
75 CEDERJ
Aula 4 • Os precursores do lazer em âmbito internacional – Parte I – Paul Lafargue e Thorstein Veblen
1935, mas não progrediu, em função principalmente das diferen-
ças políticas existentes entre os países europeus (totalitaristas e
democráticos).
Atividade Final
Identifique quais as principais contribuições de Lafargue e Veblen
como precursores dos estudos do lazer para a conquista do direi-
to ao tempo livre dos trabalhadores.
Resposta Comentada
No século XIX, os trabalhadores das fábricas tanto da Europa como
dos Estados Unidos tinham jornadas de trabalho de até 18 horas diá-
rias em condições precárias. Lafargue defendia o tempo livre do tra-
balhador como uma concepção moderna do trabalho, onde a dignida-
de do trabalhador é fundamental. A tendência socialista enquadrada
por Lafargue, o tempo liberado é aceito, considerando que o futuro da
sociedade industrial é cada vez mais a predominância do tempo livre
sobre o tempo de trabalho, para o consumo de trabalhadores.
CEDERJ 76
Lazer
Veblen, ao contrário, defendeu a dignidade do trabalhador sob o
princípio do trabalho com as mãos como o ideal. Contudo, Veblen
ataca a burguesia ociosa como Lafargue, mas sonha em fazer a to-
dos trabalhadores manuais. Para os socialistas da corrente de Ve-
blen, para quem o socialismo é, sobretudo, trabalho, o tempo libe-
rado é recusado, considerado desperdício devido à ostentação com
que este tempo é exercido pelas elites burguesas, ampliando as de-
sigualdades sociais.
As contribuições desses intelectuais referem-se particularmente à
valorização da classe trabalhadora, à conquista de um tempo ade-
quado ao descanso e ao lazer. Através das pesquisas de orçamento-
tempo, logo se transformará também em um tempo para consumo
de outras “necessidades” produzidas pelo sistema capitalista.
Resumo
Nesta aula apresentamos dois teóricos que fazem parte da lista
dos precursores na análise do fenômeno do lazer no século XIX:
Paul Lafargue, que defende o direito ao tempo livre dos trabalha-
dores, enfrentando o dogma do trabalho e a submissão aos inte-
resses capitalistas. Thorstein Veblen, que denuncia o lazer ostenta-
tório das elites em detrimento da valorização dos trabalhadores e
do trabalho feito “com as próprias mãos” diante da mecanização
que sustentam os interesses da burguesia.
Observamos o surgimento do pensamento sobre o direito ao
tempo livre e os primeiros “contornos” do lazer, através de al-
guns teóricos, associações e pesquisas, como as intituladas de
“orçamento-tempo”. Pudemos perceber que os pesquisadores do
lazer tratam a temática sob diversas perspectivas, com influên-
cias diretas de outras disciplinas, com destaque para as Ciências
Sociais no contexto internacional. Algumas importantes publica-
ções datam de 1883 (Paul Lafargue - Le Droit à la Paresse) e 1899
(Thorstein Veblen - Leisure Theory Class). O primeiro encontro de-
dicado ao lazer da Assembleia Geral da OIT acontece em 1924.
Em 1930, ocorre o Congresso Internacional do Tempo Livre dos
Trabalhadores em Liège.
77 CEDERJ
Aula 4 • Os precursores do lazer em âmbito internacional – Parte I – Paul Lafargue e Thorstein Veblen
Informação sobre a próxima aula
Na próxima aula iremos conhecer mais três teóricos do la-
zer: Joffre Dumazedier, Georges Friedman e David Riesman, con-
tinuando a contextualização histórica da área.
CEDERJ 78
Os precursores dos estudos do lazer em
5 âmbito internacional – Parte II – Ries-
man, Friedmann, Parker e Dumazedier
Cristina Marques Gomes / Simone Dantas
Meta da aula
Apresentar os estudos do lazer historicamente em âmbito
internacional, destacando mais quatro teóricos: David
Riesman, Georges Friedmann, Stanley Parker e Joffre
Dumazedier.
Objetivos
Esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula,
você seja capaz de:
1 analisar a autonomia do lazer como objeto de estudo
científico;
2 reconhecer os teóricos Joffre Dumazedier, Georges
Friedmann, David Riesman e Stanley Parker e suas
contribuições para o campo teórico e prático do lazer;
3 identificar o contexto para o surgimento da sociologia
do lazer e da sociedade do lazer.
Aula 5 • Os precursores dos estudos do lazer em âmbito internacional – Parte II – Riesman, Friedmann, Parker e Dumazedier
Introdução
A autonomia do lazer como objeto de estudo
científico
A partir da metade dos anos 1950, outro período histórico rela-
cionado ao lazer pode ser observado em meio à reconstrução fí-
sica e econômica da Europa, terminando na “riqueza”, na “cultura
de consumo” e nas políticas de “bem-estar social” do final dos
anos 1960 e início dos 1970. Cada vez mais, o lazer adquire certa
autonomia e passa a ser considerado um direito individual e so-
cialmente democrático, num sistema de produção antes aliado
somente ao trabalho. Por este viés, existia uma correlação direta
do lazer com a cultura de consumo que impulsionou muitos de-
bates entre sociólogos.
Alguns estudiosos como Riesman, Friedmann, Parker e Dumaze-
dier começam a considerar o lazer como um importante objeto
de estudo científico (MOMMAAS, 1996). Cada um desses teóricos
contribuiu de uma maneira diferente para o estudo do lazer, con-
solidando a sociologia do lazer e, posteriormente, a organização
da sociedade do lazer.
Riesman e a explosão do lazer moderno
David Riesman nasceu na Filadélfia, nos Estados Unidos,
em 1909 e faleceu em 2002. Foi professor de ciências sociais em
Harvard (EUA) e é considerado o autor do primeiro texto socio-
lógico sobre o lazer numa sociedade avançada do ponto de vista
científico e técnico. Antes dele, nos anos 1920, estudos do ca-
sal Lynd mostravam o surgimento de um tempo social distinto
do repouso, dos jogos rituais e das festas tradicionais através
da análise das mudanças culturais de middletown (nome fictício
para cidade média).
CEDERJ 80
Lazer
O lazer ainda não estava conceituado, mas, a partir de
Riesman, essa conceituação do lazer emerge na sua interação
com outros tempos sociais e pôde ser construída como objeto
sociológico. Riesman mostrava pela primeira vez o tempo de la-
zer cada vez mais orientado para práticas e valores nascidos do
universo invasor dos meios de massa, com encontros diversi-
ficados, viagens, atividades corporais livres, grupos de iguais.
(CAMARGO, 2001, p. 241)
Em sua obra Lonely Crowd, publicada em 1950 (ou A mul-
tidão solitária. São Paulo: Perspectiva, 1995), Riesman considera
que a humanidade evoluíra a partir de duas revoluções: a da Re-
nascença e a do mundo pós-industrial. Segundo o autor, o ho-
mem, que até o Renascimento era subjugado pela tradição, pas-
sou a orientar-se pelo seu interior diante das máquinas, vendo-se
liberado para buscar em si mesmo as fontes de valor de sua ação.
Entretanto, no momento pós-industrial torna-se escravo das ar-
madilhas do tempo livre, solitário na multidão, como reflete na
última frase de sua publicação seguinte (CAMARGO, 2001):
A idéia de que nascemos livres e iguais é em parte verdadei-
ra e em parte enganosa; na realidade nascemos diferentes,
mas perdemos nossa liberdade tentando ser iguais aos ou-
tros (RIESMAN, 1995).
Vamos recordar o significado da Renascença/
Renascimento?
Resumidamente, Renascença ou Renascimento
são os termos usados para identificar o período da
história da Europa, compreendido aproximadamente
entre fins do século XIII e meados do século XVII (ain-
da sem consenso entre os pesquisadores). Marcado
por profundas transformações na vida humana que
assinalam a passagem da Idade Média para a Idade
Moderna, caracteriza a transição do sistema de feu-
dalismo para o capitalismo com reflexos na cultura
(artes, filosofia, ciências) , religião, sociedade, política
e economia . O humanismo pode ser apontado como
o principal valor cultivado no Renascimento. O hu-
81 CEDERJ
Aula 5 • Os precursores dos estudos do lazer em âmbito internacional – Parte II – Riesman, Friedmann, Parker e Dumazedier
manismo, antes de um corpo filosófico, é um método
de aprendizado que faz uso da razão individual e da
evidência empírica para chegar às suas conclusões,
paralelamente à consulta aos textos originais, ao con-
trário da escolástica medieval, que se limitava ao de-
bate das diferenças entre autores e comentaristas. O
humanismo afirma a dignidade do homem e o torna
o investigador por excelência da natureza, rompendo
com valores de submissão a dogmas religiosos e im-
pulsionando a luz da razão e das ciências .
Figura 5.1: O homem virtuviano
de Leonardo da Vinci sintetiza o
ideário renascentista: humanista
e clássico.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/
Renascimento
Friedmann e o mal-estar do homem no traba-
lho industrial
Georges Philippe Friedmann (Paris, 1902-Paris,1977), soció-
logo e intelectual marxista, dedicou grande parte de seu trabalho
ao estudo das relações entre o homem e a máquina na socieda-
de industrial da primeira metade do século XX. Após a Segunda
Guerra Mundial, foi reconhecido como fundador de uma sociolo-
gia do trabalho humanista.
Em 1956, em sua publicação O trabalho em migalhas ( São
Paulo: Perspectiva,1972) , Friedmann anunciou que o trabalho in-
CEDERJ 82
Lazer
dustrial não satisfazia o homem como o artesanato do passado.
Em sua visão, era necessário criar uma sociedade mais humana,
na qual as máquinas trabalhassem e o homem dispusesse do
lazer como uma forma de compensar ou completar o trabalho
necessário.
Sua investigação consistiu em verificar as condições de
trabalho em diferentes contextos industriais, em cidades como
em Stalingrado – potência soviética da época; na antiga Iugos-
lávia, cuja economia estava baseada na autogestão; na Suécia,
onde a Volvo tentava abolir a linha de montagem e na indústria
brasileira, na qual Friedmann acreditava que a cultura do samba
poderia ser um “anticorpo para a peste do trabalho moderno”.
Porém, em toda parte encontrou o mesmo panorama: trabalha-
dores embrutecidos pelo trabalho industrial envoltos pela mira-
gem do consumo (CAMARGO, 2001, p. 242).
Desiludido, Friedmann manifesta em uma de suas últimas
obras Puissance et sagesse (Paris: Gallimard,1970), a necessida-
de de uma revolução interior, que “permita ao homem valorizar
as conquistas legítimas do ser em detrimento das armadilhas do
consumo e do ter”. Sua concepção de lazer como complemento ou
compensação do trabalho não o permitiu observar o lazer em seu
potencial para a produção de novos valores que emergiam sobre
os antigos modelos do “dever-ser” (CAMARGO, 2001, p. 242).
Stanley Parker e a sociologia do lazer
Há no século XIX uma mudança de enfoque determinante
para a compreensão do lazer, no qual este passa a ser visto como
tempo/espaço propício para a vivência de uma multiplicidade de
experiências classificadas como não pertencentes ao mundo do
trabalho, visão disseminada principalmente nas modernas socie-
dades urbano-industriais (WERNECK, 2004). Assim, a partir da ne-
cessidade de conhecimento e de controle social do tempo livre dos
trabalhadores nos países industrializados foi gestado, nos Estados
Unidos, um campo de pesquisa denominado “sociologia do lazer”.
83 CEDERJ
Aula 5 • Os precursores dos estudos do lazer em âmbito internacional – Parte II – Riesman, Friedmann, Parker e Dumazedier
O pesquisador Stanley Parker, em seu livro Sociologia do
lazer (1978), apresenta o contexto cultural, as outras esferas da
vida, o planejamento e as políticas do lazer. Na primeira parte
destacam-se a visão histórica e comparativa, a abordagem sobre
o lazer na sociedade industrial, a “variedade de experiências” e o
lazer no ciclo vital do ser humano; na segunda, o autor compara
o lazer com o trabalho, a família, a educação, a religião, e, por
fim, em relação ao planejamento e às políticas públicas, discute
a relação entre os consumidores, a demanda e os fornecedores.
Os três últimos itens da sua conclusão sobre o lazer e o futuro
são: “uma sociedade de lazer?”, “tendências que persistem” e “a
importantíssima questão dos valores”.
De acordo com os argumentos de Parker (1978), este campo
foi estruturado no início do século XX, como parte do desenvolvi-
mento da Sociologia em seu conjunto, cujas abordagens teóricas
e métodos de investigação não eram totalmente peculiares ao
estudo do lazer (WERNECK, 2004).
Joffre Dumazedier e o lazer moderno
Nascido em 30 de dezembro de 1915, o sociólogo francês
Joffre Dumazedier morreu em 25 de dezembro de 2002. É consi-
derado o “pai do lazer moderno” por ter sido o primeiro a tratar o
lazer como conceito. Possui uma série de publicações sobre esta
temática : Lazer e cultura popular; Sociologia empírica do lazer;
Teoria sociológica da decisão; Valores e conteúdos culturais do
lazer; A revolução cultural do tempo livre; dentre outras.
Para Dumazedier o tempo de lazer é um produto de duas
revoluções modernas: uma revolução técnico-científica, a que
permitiu ao trabalhador produzir mais com menor tempo de tra-
balho, e uma revolução ético-estética, que colocou os valores do
lazer como nova referência para o cotidiano e mesmo para as
instituições de base da sociedade – o trabalho, a família, a reli-
gião e a política. Em Sociologia empírica do lazer, Dumazedier
declara para que foi necessária a explosão da unidade dos tem-
CEDERJ 84
Lazer
pos sociais nas sociedades tradicionais para que o lazer se tor-
nasse possível à maioria dos trabalhadores. Primeiro o trabalho
e depois o lazer escaparam dos ritos coletivos e passaram a ter
um limite artificial, arbitrário, não mais regulado pela natureza
(CAMARGO, 2001, p. 244).
Como já mencionamos na primeira aula desse curso, Joffre
Dumazedier (1976) conceitua o lazer como “um conjunto de ativi-
dades desenvolvidas pelos indivíduos seja para o descanso, seja
para o divertimento, seja para o seu desenvolvimento pessoal e
social, depois de cumpridas suas obrigações profissionais, fami-
liares e sociais”. Este conceito é determinante para a identificação
dos “3 D”, ou seja, das três principais funções do lazer: descanso,
divertimento e desenvolvimento pessoal e social.
E quais são as relações entre trabalho e lazer para Duma-
zedier?
Em uma de suas mais importantes publicações, Lazer e
cultura popular, Joffre Dumazedier discute o lazer em dois mo-
mentos: no primeiro, trata do lazer e a sociedade, e no segundo,
discute aspectos do lazer e a cultura. Duas temáticas extrema-
mente pertinentes ao nosso debate sobre o lazer no âmbito des-
sa disciplina.
A sociologia do lazer de Dumazedier foi também compre-
endida como uma sociologia da educação não formal, observan-
do que o tempo de lazer é hoje mais relevante para a educação
global dos indivíduos do que o tempo escolar. Considera, para
tanto, que uma criança passa mais horas diante de uma televi-
são do que nos bancos escolares e que um adulto certamente
percebe o aprendizado adquirido para o exercício de sua cidada-
nia, através da leitura desobrigada de jornais, revistas, livros ou
mesmo em conversas desinteressadas ocorridas em seu tempo
livre (CAMARGO, 2001).
O autor questiona, por exemplo, qual parte das horas recu-
peradas do trabalho veio a ser ocupada pelo lazer? Entre 1945 e
1948 o Instituto Francês de Opinião Pública apresentava que cer-
ca de duas horas em média seriam destinadas ao lazer na França.
85 CEDERJ
Aula 5 • Os precursores dos estudos do lazer em âmbito internacional – Parte II – Riesman, Friedmann, Parker e Dumazedier
Já em 1950, Fourastié avalia em três horas a duração média do
lazer para o trabalhador adulto. Esse dado foi contraditado por en-
quete realizada na região parisiense, que apresentou como dado
uma hora e trinta minutos e duas horas de lazer por homem adul-
to. Para Dumazedier, o grande problema ao analisar o tempo de
lazer consiste não só na quantificação das horas disponíveis, mas
principalmente na qualidade das atividades para o seu exercício.
Nesse contexto, temos o crescente aumento das atividades
da indústria do lazer, que é constituída por um conjunto de ativi-
dades cuja finalidade seria ocupar o tempo livre com atividades
que venham aliviar o trabalhador das tarefas profissionais.
Analisando a obra em discussão de Dumazedier, a
Profa. Dulce, da Faculdade de Educação Física da Uni-
versidade de Brasília, elaborou um documento dispo-
nível em www.unb.br/fef/downloads/dulce/lazer_e_
sociedade.ppt que organiza as principais questões
tratadas pelo autor.
E quais são as atividades que se opõem ao lazer para Du-
mazedier?
Além do trabalho profissional, o autor considera ainda
como oposição ao lazer o trabalho suplementar (bico); o trabalho
doméstico; as atividades de manutenção cotidianas (refeições,
higiene pessoal); atividades rituais ou ligadas ao cerimonial (vi-
sitas, aniversários, reuniões políticas e religiosas); e atividades
ligadas aos estudos.
Também é importante perceber que, no âmbito do lazer,
alguns aspectos conceituais sempre produziram controvérsias.
Para Joffre Dumazedier, por exemplo, o lazer era um produto es-
pecífico da industrialização, diferentemente da posição de Marie
Françoise Lafant em Les Théories du Loisir e Sebastian de Grazia
em Of time, Work and Leisure. Lanfant e De Grazia consideravam
CEDERJ 86
Lazer
que os fundamentos históricos do lazer são anteriores à socie-
dade industrial, porque para estes autores os homens sempre
tiveram um tempo de trabalho e outro de não trabalho.
Heloísa Turini Bruhns, no livro Lazer e Ciências Sociais:
diálogos pertinentes, afirma que:
Partindo do objetivo central do livro, ou seja, desfazer a con-
fusão entre lazer e tempo livre, De Grazia demonstra como
lazer e tempo situam-se em dois mundos diferentes, uma
vez que todos podem ter tempo livre e nem todos podem ter
lazer. O tempo livre é uma ideia de democracia realizável; o
lazer não é totalmente realizável, sendo, portanto, um ideal
e não somente uma ideia. O tempo livre refere-se a uma
forma determinada de calcular uma determinadas classe de
tempo; o lazer é uma forma de ser, uma condição do ho-
mem, que poucos desejam e dentre estes menos alcançam
(BRUHNS, 2002).
Atividade
Atende ao Objetivo 2
1. Correlacione as colunas conforme a contribuição dos estudio-
sos do lazer:
1. David Riesmam
2. Georges Friedmann
3. Stanley Parker
4. Joffre Dumazedier
( ) Em uma de suas últimas obras Puissance et sagesse (Paris:
Gallimard,1970), revela a necessidade de uma revolução in-
terior, que “permita ao homem valorizar as conquistas legí-
timas do ser em detrimento das armadilhas do consumo e
do ter”.
( ) Considera que o tempo de lazer é um produto de duas re-
voluções modernas: uma revolução técnico-científica, a que
permitiu ao trabalhador produzir mais com menor tempo
de trabalho, e uma revolução ético-estética, que colocou os
valores do lazer como nova referência para o cotidiano e
87 CEDERJ
Aula 5 • Os precursores dos estudos do lazer em âmbito internacional – Parte II – Riesman, Friedmann, Parker e Dumazedier
mesmo para as instituições de base da sociedade – o trab-
alho, a família, a religião e a política.
( ) Autor do primeiro texto sociológico sobre o lazer numa socie-
dade avançada do ponto de vista científico e técnico, mostra-
va pela primeira vez o tempo de lazer cada vez mais orienta-
do para práticas e valores nascidos do universo invasor dos
meios de massa.
( ) Em seu livro Sociologia do lazer (1978), apresenta o contexto
cultural, as outras esferas da vida, o planejamento e as políti-
cas do lazer.
( ) Sua sociologia do lazer é também uma sociologia da educa-
ção não formal, pois considera que o grande problema ao
analisar o tempo de lazer consiste não só na quantificação
das horas disponíveis, mas principalmente na qualidade das
atividades para o seu exercício.
( ) Em sua obra Lonely Crowd, publicada em 1950, considera
que a humanidade evoluíra a partir de duas revoluções: a da
Renascença e a do mundo pós-industrial.
( ) Em 1956, em sua publicação O trabalho em migalhas, anun-
ciou que o trabalho industrial não satisfazia o homem como o
artesanato do passado. Em sua visão, era necessário criar uma
sociedade mais humana, na qual as máquinas trabalhassem e o
homem dispusesse do lazer como uma forma de compensar ou
completar o trabalho necessário.
( ) É considerado o “pai do lazer moderno” por ter sido o primeiro
a tratar o lazer como conceito determinante para a identifica-
ção dos “3 Ds”, ou seja, das três principais funções do lazer:
descanso, divertimento e desenvolvimento pessoal e social.
Comentário
Nessa questão temos o objetivo de fixar as principais contribuições
dos estudiosos precursores da sociologia do lazer, sublinhando as
obras e convicções de Riesmam, Frieddmann, Parker e Dumazedier.
Embora tenham o lazer como campo de estudo, os autores apresen-
tam considerações pessoais que são referenciais para o estabeleci-
mento de uma sociologia do lazer.
CEDERJ 88
Lazer
O lazer pós-revolução industrial
Enquanto muitos sociólogos comentam que o lazer existiu
em todas as civilizações, alguns teóricos, como Joffre Dumaze-
dier, acreditam que o lazer é um produto do trabalho. Segundo
Dumazedier (1980, p. 48): “O lazer tem traços específicos, carac-
terísticos da civilização nascida da revolução industrial”, ou seja,
da civilização contemporânea. O autor acrescenta ainda que, nas
sociedades pré-industriais, o trabalho é que se inscrevia nos ci-
clos naturais das estações e dos dias, ao ritmo do sol, do dia e da
noite, às vezes cortado por pausas e jogos, cerimônias e festas.
Mas não se caracterizava como um tempo que possa ser chama-
do de tempo de lazer.
Para que o lazer se torne possível para a maioria de trabalha-
dores, duas condições prévias devem ter sido verificadas na
vida social. Primeiramente, as atividades da sociedade não
mais reguladas, em sua totalidade, por obrigações rituais
impostas pela comunidade. Uma parte, pelo menos, dessas
atividades, escapa aos ritos coletivos, sobretudo, o trabalho e
o lazer. Este último depende da livre escolha dos indivíduos,
ainda que os determinismos sociais influam evidentemente
sobre esta livre escolha. Em segundo lugar, o trabalho pro-
fissional está desligado de outras atividades. Tem um limite
arbitrário e não é regulado pela natureza. Sua organização é
específica, embora o tempo livre seja nitidamente separado
ou separável dele (DUMAZEDIER, 1980, p. 49-50).
Essas são as condições descritas pelo autor que tornam o
lazer inaplicável em outras épocas anteriores à Revolução Indus-
trial. Ele é uma “conquista” da era contemporânea. O tempo livre
é o desejo da civilização contemporânea: tempo pago pelo traba-
lho e desligado dele. A possibilidade de se libertar das amarras
da produção para a diversão (STADNIK, 2001).
Segundo Marcos Aguiar Barbosa (2005),
a maioria dos estudiosos das áreas de lazer e turismo ad-
mite o lazer como antítese do trabalho produtivo. Contudo,
separar trabalho do lazer está cada vez mais difícil. Para Bra-
89 CEDERJ
Aula 5 • Os precursores dos estudos do lazer em âmbito internacional – Parte II – Riesman, Friedmann, Parker e Dumazedier
mante (1998), a linha demarcatória entre lazer e trabalho é
tênue e, muitas vezes, valores atribuídos ao trabalho per-
meiam a experiência do lazer e vice-versa.
E, com o tempo, o avanço tecnológico em todos os sentidos
impulsionou o lazer doméstico e muitos pesquisadores anuncia-
ram o surgir de uma “sociedade do lazer”, na qual uma revolu-
ção cultural e não política libertaria os trabalhadores, trazendo,
pelo rádio e pela TV, informações que tiveram como efeito uma
mudança de valores. Verifica-se, pois, nas nações ocidentais, um
aumento do consumo aliado a uma maior oferta de programas e
a atividades de lazer.
Essa “sociedade do lazer” é uma consequência da revolu-
ção industrial, como observamos na aula anterior. A revolução
industrial que se iniciou na Inglaterra, como já vimos, provocou
diversas mudanças, tanto políticas, como econômicas e sociais.
Atividade
Atende ao Objetivo 3
2. Em que momento histórico o lazer adquire certa autonomia
e passa a ser considerado um direito individual e socialmente
democrático? Justifique.
CEDERJ 90
Lazer
Resposta Comentada
Essa questão nos remete à reflexão do lazer como ciência no perí-
odo pós-industrial, adquirindo contornos próprios para a posterior
consolidação da sociologia do lazer. As mudanças no mundo do tra-
balho, as novas cidades e formas de se relacionar socialmente pro-
moveram novos conceitos sobre o tempo livre e a sua função social
e econômica.
O surgimento da sociedade do lazer
O foco das pesquisas dos estudiosos que estamos conhe-
cendo, concentrado somente nas relações entre o trabalho e o la-
zer, expande-se à análise dos espaços recreativos em alguns cen-
tros urbanos, ou seja, clubes, associações etc. Os pesquisadores
adquirem uma postura que associava o planejamento racional à
investigação empírica do lazer, impulsionado pelo surgimento de
novas profissões, como o trabalho recreativo, e, como resultado,
os primeiros cursos de lazer e/ou recreação apareceram no currí-
culo da educação superior.
Assim, surgem organizações internacionais como a World
Leisure and Recreation Association (WLRA/1952), a European Lei-
sure and Recreation Association (ELRA), a The Australian and New
Zealand Association for Leisure Studies, a Fundacion Colombiana
de Tiempo Libre & Recreacion. Dentre essas, se destaca a WLRA
como sendo a principal organização não governamental da área,
cujo objetivo é “promover condições ideais de lazer para o desen-
volvimento humano e o bem-estar social”. De dois em dois anos, a
Associação organiza um Congresso Mundial, que em 1998 aconte-
91 CEDERJ
Aula 5 • Os precursores dos estudos do lazer em âmbito internacional – Parte II – Riesman, Friedmann, Parker e Dumazedier
ceu em São Paulo (SP). O tema era “Lazer e Globalização: Inclusão
e Exclusão?” e foi o maior e o primeiro congresso de lazer sediado
em um país da América Latina (GOMES, 2004).
A American National Recreation Association, funda-
da em 1906, foi a primeira organização profissional
voltada ao lazer nos Estados Unidos. A partir de en-
tão, inclusive em outros países, algumas instituições
internacionais direta e indiretamente relacionadas ao
lazer foram criadas como, por exemplo, a World Asso-
ciation for Adult Education (1918), a Socialist Workers
Sport International (1920) e o International Office for
Allotments and Workers Gardens (1926).
Algumas ações nacionais começam a apresentar repercus-
sões internacionais como, por exemplo, a iniciativa do Central
Bureau of Statistics da Holanda que criou uma divisão especial
de pesquisa voltada para o comportamento de lazer da popula-
ção em 1954, mesmo ano em que Dumazedier criou um grupo
de pesquisa em lazer e cultura popular na França, influenciando
outros países da Europa central e meridional. Também em 1954,
a primeira conferência internacional sobre o uso da Sociologia
na organização do lazer e na educação popular aconteceu em
Wegimont, na Bélgica.
Em 1955, David Riesman supervisiona a fundação de um
centro de pesquisa em lazer, em Chicago (EUA), com o apoio
da comunidade científica. Outros centros nacionais de pesquisa
científica também são criados e projetos específicos são promo-
vidos, propiciando a “multiplicação” de periódicos na área e a
organização de coletâneas. Uma compilação de trabalhos intitu-
lada Lazer das massas foi publicada por Meyersohn e Larrabee,
em 1958, nos Estados Unidos.
CEDERJ 92
Lazer
Para Dumazedier (1976), o conceito de “recreação” nas-
ceu e tomou força particular no final do século XIX nos Estados
Unidos, em função da criação de diversos parques nacionais e a
partir de 1950, época em que David Riesman escreveu seu livro
A multidão solitária. Os valores começaram a mudar profunda-
mente e, nesse momento, o conceito de “recreação”, de “ação
recreativa”, tornou-se insuficiente para responder aos problemas
que o lazer colocava, ou o que se chamou de lazer na época.
Em 1956, Dumazedier coordena o primeiro estudo compa-
rativo europeu em lazer e cultura, unindo informações da Dina-
marca, Finlândia, França, República Federal da Alemanha, Polô-
nia e Iugoslávia.
Além disso, a Organização das Nações Unidas para a Edu-
cação, a Ciência e a Cultura (Unesco) relata em um documento
informativo para o III Congrès Mondial Van Clé sur lês Sociétés
Contemporaines face au Temps Libre, realizado em 1979, que
em 1956 foi criado o Groupe International d´Étude dês Sciences
Sociales et du Loisir, a partir do III Congrés Mondial de Socio-
logie (Amsterdam), com o objetivo de coordenar as pesquisas
comparativas e estudar as consequências sociais da industria-
lização em relação à evolução das necessidades de lazer nas
sociedades industriais. O grupo era formado por Dumazedier,
da França, Anderson, dos Estados Unidos, Ten Have, da Holan-
da, Ossipov, da União Soviética, e Hennion, diretor do Instituto
Pedagógico da Unesco.
Em 1965, durante a sexta Conferência Internacional dos
Sociólogos, em Evian, um grupo de pesquisadores criou oficial-
mente a Comissão de Pesquisa do Lazer dentro do contexto da
Associação Sociológica Internacional (ISA) que, em seus primei-
ros anos de existência, desenvolveu um grande projeto de orça-
mento e tempo entre países, dirigido por Alexander Szalai.
Em 1968, o Centre Européen du Loisir, de l´Éducation et de
la Culture foi desenvolvido pela iniciativa da Conférence Régio-
nale sur l´Education des Adultes et les Loisirs, organizada pela
Comission Nationale Tchécoslovaque. A Unesco cooperou com
93 CEDERJ
Aula 5 • Os precursores dos estudos do lazer em âmbito internacional – Parte II – Riesman, Friedmann, Parker e Dumazedier
essa comissão nacional para publicar regularmente os resulta-
dos dos estudos e pesquisas, as ações de conferências, as con-
clusões das reuniões regionais e internacionais, em uma revista
internacional: Loisir & Société. Essa revista, editada pela Univer-
sidade de Québec, teve o propósito de unir os especialistas das
Ciências Sociais do Lazer e os “homens de ação” e foi a primeira
revista científica do setor com uma forte orientação internacional
e comparativa (BERI, 1979 apud GOMES, 2004).
A institucionalização de profissionais do lazer e o apoio políti-
co a projetos de recreação culminam com o início do Journal of Lei-
sure Research, em 1969. Com foco nacional, o mesmo tinha um viés
empírico e positivista com enfoque nos países anglo-saxões fora da
Grã-Bretanha (Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia).
Segundo documento informativo da Unesco (BERI, 1979),
a organização conjunta da mesma com o Conseil International
de l´Education Physique et des Sports (CIEPS), l´Institut National
des Sports de L´ Education Physique et de la Récréation (INDER)
e a Commission Nationale Cubaine pour l´Unesco resultou no
Seminário Internacional sobre a temática do Tempo Livre e da
Recreação em Havana (Cuba), no ano de 1966.
Podemos mencionar também a cooperação da Unesco com
a Union Mondiale des Organismes pour la Sauvegarde de l´Enfance
et de L´Adolescence (UMOSEA) que resultou na organização de
numerosas reuniões, sobre o tema Tempo Livre e Liberdade, em
1972; a organização do seminário sobre o tema: Os Efeitos Sociais
da Cultura e do Turismo, em Washington, 1976; a organização con-
junta do Ministério Francês da Cultura e do Meio Ambiente e as
Journées Européennes du Cadre Vie, cuja temática principal era a
Organização do Tempo, em 1977 (GOMES, 2004).
Podemos verificar com as ações destas organizações a im-
portância que o lazer adquiriu para a sociedade no período pós-
industrial, justificando, assim, a expressão contemporânea “so-
ciedade do lazer”, que teve como ponto de partida as reflexões
sobre o trabalho e o tempo livre sob a perspectiva de pesquisa-
dores como Riesman, Friedmann, Parker e Dumazedier.
CEDERJ 94
Lazer
Atividade Final
Atende aos Objetivos 1, 2 e 3
a. A mídia de massa e os grupos sociais influenciam nas nossas
decisões e hábitos de lazer? Comente a afirmativa de Riesman:
A idéia de que nascemos livres e iguais é em parte verdadei-
ra e em parte enganosa; na realidade nascemos diferentes,
mas perdemos nossa liberdade tentando ser iguais aos ou-
tros (RIESMAN, 1995).
b. “A sociologia do lazer de Dumazedier foi também compreen-
dida como uma sociologia da educação não-formal, observando
que o tempo de lazer é hoje mais relevante para a educação glo-
bal dos indivíduos do que o tempo escolar” (CAMARGO, 2001).
Como o tempo dedicado ao lazer pode promover o desenvolvi-
mento pessoal e social, além do descanso e da diversão?
95 CEDERJ
Aula 5 • Os precursores dos estudos do lazer em âmbito internacional – Parte II – Riesman, Friedmann, Parker e Dumazedier
Respostas Comentadas
a. Apresentamos aqui uma afirmativa de Riesman que já se preo-
cupava à sua época com a influência de que o homem – até então
regulado pela tradição e recém-emancipado com a Renascença –
estava sofrendo com os meios de massa no mundo pós-industrial.
Segundo ele, o homem estaria perdendo o valor sobre o cultivo de
seu interior, tornando-se escravo das armadilhas do tempo livre e
solitário em meio à multidão. Os meios de comunicação seriam ins-
trumentos de reprodução dos interesses dominantes com o intuito
de alienar os indivíduos.
b. A questão ressalta a preocupação de Dumazedier em interpretar
o lazer como uma oportunidade para a educação não formal, sen-
do o interesse central de sua sociologia o desenvolvimento cultural.
Passamos grande parte do nosso tempo livre em contato com di-
ferentes fontes de informação – jornais, revistas, livros, conversas
informais e mais recentemente através das novas tecnologias de
comunicação – e estes conteúdos também alimentam a nossa for-
mação como indivíduo. O aprendizado através de atividades lúdicas
favorece a fixação de novos conhecimentos. Dumazedier defende
que o desenvolvimento pessoal e social deve estar inserido nas ati-
vidades de descanso, bem como: lazeres manuais, artísticos, sociais,
esportivos, turísticos. Mesmo os jogos e o uso das novas tecnolo-
gias são exemplos das possibilidades de educação não formal atra-
vés de práticas do lazer. Como futuros docentes e profissionais, de-
vemos refletir sobre a qualidade do conteúdo destes recursos e de
que forma eles são ou podem ser voltados para o desenvolvimento
pessoal e social.
Resumo
Nesta aula analisamos a crescente autonomia do lazer como ob-
jeto de estudo científico no período histórico que se iniciou em
1950, em meio à reconstrução física e econômica da Europa, ter-
minando na “riqueza”, na “cultura de consumo” e nas políticas
de “bem-estar social” do final dos anos 1960 e início dos 1970.
Importante frisarmos que, cada vez mais, o lazer adquire certa
CEDERJ 96
Lazer
autonomia e passa a ser considerado um direito individual e so-
cialmente democrático, num sistema de produção antes aliado
somente ao trabalho.
Apresentamos quatro teóricos: David Riesman, Georges Fried-
mann, Stanley Parker, Joffre Dumazedier e suas principais con-
tribuições para a sociologia do lazer no campo científico e para a
sociedade do lazer em ordem prática.
Os estudiosos do lazer tiveram no momento pós-industrial o
contexto propício para o desenvolvimento da sociologia do lazer
sobre diferentes aspectos:
– Riesman, que em sua obra Lonely Crowd, publicada em 1950
(A multidão solitária. São Paulo: Perspectiva, 1995), anuncia a
influência dos mass media, escravizando os indivíduos através
de armadilhas produzidas para o tempo livre;
– Friedmann, que considerava que o “trabalho em migalhas” da
era industrial não satisfazia o homem como o trabalho artesanal,
e que o lazer deveria ser desenvolvido como forma de compen-
sar ou completar o trabalho necessário. Em Puissance et sagesse
(Paris, 1970), apela para a necessidade de uma revolução interior
que permita ao homem fugir das armadilhas do consumo, do
“ter” para dedicar-se ao “ser”.
– Stanley Parker, que em seu livro Sociologia do lazer (1978),
apresenta o contexto cultural, as outras esferas da vida, o plane-
jamento e as políticas do lazer.
– Dumazedier, considerado “pai do lazer moderno” por delimitar
seu conceito e atribuir ao lazer as funções de descanso, diverti-
mento e desenvolvimento pessoal e social ( os “3 D”) .
Os estudos destes e de outros pesquisadores consolidaram a
sociologia do lazer e promoveram, impulsionados pelo contexto
histórico da sociedade pós-industrial, a construção da sociedade
do lazer, através de diferentes organizações nacionais e interna-
cionais preocupadas com as relações existentes entre o mundo
do trabalho e o tempo para o lazer com qualidade para um nú-
mero cada vez maior de trabalhadores.
97 CEDERJ
Aula 5 • Os precursores dos estudos do lazer em âmbito internacional – Parte II – Riesman, Friedmann, Parker e Dumazedier
Informação sobre a próxima aula
Na próxima aula daremos continuidade ao tema sobre os
precursores dos estudos do lazer em âmbito internacional – par-
te III, abordando as atuais correntes da sociologia do lazer atra-
vés da contribuição de Jean Baudrillard, Frederic Munné, Mihaly,
Krippendorf e Maffesoli.
CEDERJ 98
6 As atuais correntes na sociologia do
lazer
Cristina Marques Gomes / Simone Dantas
Meta da aula
Apresentar as contradições e embates teóricos em torno
das pesquisas em lazer, destacando as experiências e os
teóricos contemporâneos e suas perspectivas.
Objetivos
Esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula,
você seja capaz de:
1 identificar o embate entre os teóricos tradicionais e os
críticos do lazer;
2 analisar a fragmentação dos estudos do lazer e as
relações do fenômeno com o tempo livre e o trabalho
na atualidade;
3 reconhecer alguns dos principais autores sobre o tema
em âmbito internacional.
Aula 6 • As atuais correntes na sociologia do lazer
Introdução
Antes de introduzirmos os aspectos relacionados ao embate en-
tre as tradições teóricas, ou seja, os pesquisadores que entendem
o lazer como algo importante para o desenvolvimento humano e
social, e os críticos do fenômeno, vamos revisar alguns pontos
importantes abordados nesta disciplina:
• com os gregos, numa sociedade escravocrata, entendemos
que foi criado um tempo chamado scholé no qual só o ho-
mem livre poderia se divertir;
• os romanos mantiveram a mesma estrutura do ócio em opo-
sição ao trabalho (negócio) como os gregos;
• na Idade Média, o ócio/lazer passou a ser considerado um
bem de consumo capaz de produzir a distinção entre as clas-
ses sociais;
• e na Idade Moderna, com o puritanismo religioso e a reforma
protestante, tivemos uma inversão de valores: o ócio deixou
de ser algo importante e passou a ser visto como sinônimo
de “tempo perdido”; concomitantemente, aconteceu uma
exaltação do trabalho;
• passamos então para a análise do tempo de trabalho e do
tempo livre antes e depois da revolução industrial;
• e, por fim, concluímos que o reconhecimento do direito ao
tempo livre foi adquirido após a Primeira Guerra Mundial;
• alguns teóricos foram apresentados: Thorstein Veblen, Paul
Lafargue, David Riesman, Georges Friedman, Stanley Parker
e Joffre Dumazedier, este último considerado o “pai do lazer
moderno”;
• além disso, começamos a compreender alguns aspectos im-
portantes em relação ao reconhecimento do lazer como obje-
to de estudo científico, caracterizando a sociologia do lazer;
• e através dos grupos de pesquisa, eventos e associações nós
começamos a perceber a evolução da sociedade em vários
aspectos, inclusive o tecnológico, que contribuíram para o
amadurecimento do lazer em todos os sentidos, consolidan-
do a sociedade do lazer.
CEDERJ 100
Lazer
As “tradições” teóricas versus críticas à
pesquisa
Segundo Camargo (2001), o estudo do lazer nos remete a
diferentes sociologias: a sociologia do trabalho – o lazer é um
produto do trabalho industrial moderno; a sociologia urbana – se
manifesta no ambiente anárquico das cidades; a sociologia do
desenvolvimento – sobretudo relacionando o lazer à moderniza-
ção e ao desenvolvimento; a sociologia da educação – associan-
do o lazer à recreação e à formação de núcleos de animadores
culturais, educadores artísticos, educadores físicos. Foi num des-
ses núcleos – no movimento francês Peuple et Culture, nascido
pós-Segunda Guerra Mundial – no qual Joffre Dumazedier, um
dos seus fundadores, dedicou quinze anos de estudo sociológico
para estruturar suas teorias sobre o lazer, até hoje referenciais
para as pesquisas na área.
Para Joffre Dumazedier, vivenciamos o que ele chamou de
A Revolução Cultural do Tempo Livre, tema que também dá nome
ao seu livro publicado originalmente em 1945, mas editado no
Brasil somente em 1994. “É silenciosa, oculta. É pacífica e pro-
funda. Avança no nosso cotidiano de geração a geração, mesmo
se não for reconhecida. Progride subterraneamente, como uma
toupeira” (DUMAZEDIER, 1994, p. 21). Essa revolução é caracte-
rizada por três pontos fundamentais:
• Com a valorização do tempo livre, a relação do ser hu-
mano consigo mesmo mudou, um novo espaço de “li-
vre expressão” foi criado. A individualidade humana se
sobressai ao controle social institucional. A autoridade
social é abrandada, primeiro no tempo livre e, depois,
também, no tempo do trabalho e no tempo social. É
uma mudança de valores.
• Mudando-se a relação do ser humano consigo mesmo,
muda também a relação com o outro, evolui. Os limites
entre o trabalho e a família, entre as diferentes classes
sociais, estão mais flexíveis. Os papéis sociais não são
101 CEDERJ
Aula 6 • As atuais correntes na sociologia do lazer
tão estereotipados. O tédio tem chegado mais rapida-
mente às tarefas repetitivas e parceladas da rotina pro-
fissional, familiar ou escolar e essa rotina é cada vez
menos tolerada. A necessidade de fuga é muito forte.
No tempo livre, inventam-se novos modelos de rela-
ções sociais: obrigadas, agora, a serem mais criativas,
mais imaginativas, mais frequentemente renovadas. É
um tempo de relações festivas por excelência, de bus-
ca por uma “sociedade viva”.
• Muda também a relação com a natureza. O domínio da
natureza é o objeto incontornável do trabalho, só que
este domínio está acompanhado de preocupações com
a preservação da fauna, da flora, do ar e do mar. Atra-
vés das viagens, realizadas principalmente no tempo
livre, generalizou-se uma aspiração de viver em sim-
biose com a natureza. É uma nova arte de viver, respei-
tando a natureza (STADNIK, 2001).
A partir dos anos 1980, o enfoque dos estudos recai na
continuidade das tradições acadêmicas e também em novos
interesses e conceitos em torno da pesquisa em lazer. Segun-
do Mommaas e col. (1996), o lazer é caracterizado por palavras-
chave como “profissionalização”, “fragmentação” e “pluralismo”.
Ao mesmo tempo em que laços internacionais mais fortes eram
estabelecidos na pesquisa e na educação em lazer, ideias e abor-
dagens convencionais tornaram-se objetos de debate. O campo
da pesquisa em lazer fragmentou-se em tentativas de defender
a tradição ou de adaptar o estudo do lazer a novos desenvolvi-
mentos teóricos e sociológicos. A abordagem do lazer tornou-se
cada vez mais econômica e comercial, evidenciando a importân-
cia do consumo e a criação de empregos e outros benefícios para
a economia urbana, regional e nacional. A necessidade de mais e
melhores profissionais juntamente com uma expectativa renas-
cida, durante o início dos anos 1980, do aumento de tempo livre
e de consumo do lazer geraram novos programas na educação
superior, especialmente na Europa Central e Ocidental.
CEDERJ 102
Lazer
A hegemonia da pesquisa em lazer tornou-se sujeita às crí-
ticas vigentes. De vital importância para a subsequente pluraliza-
ção das abordagens foram as primeiras conferências internacio-
nais da Associação de Estudos do Lazer (LSA) que organizou um
fórum internacional alternativo para discutir o assunto.
As primeiras críticas ao papel da pesquisa em lazer sur-
gem especialmente durante os anos 1960. O primeiro ponto da
crítica era político, pois, neste período, a produção e o consumo
do lazer através do mercado não correspondiam mais a ideais
racionalistas de intelectuais e líderes políticos. Desde que a pes-
quisa em lazer se desenvolvera no setor público, pouca atenção
foi dada ao consumismo e às forças de mercado. Filósofos da
Escola de Frankfurt, como Adorno, Fromm e Marcuse criticaram
a cultura mercadológica e a maneira como esse processo era
apoiado por pesquisadores sociais, que, por outro lado, não res-
ponderam a essa crítica neomarxista. O segundo ponto tinha a
ver com as limitações do modo como o lazer era conceituado e
operado. Embora alguns autores, como Marie Françoise Lanfant
(1972) na França demonstrassem uma abordagem crítica, esse
tipo de avaliação sobre a pesquisa em lazer nos anos 1960 só
atingiu seu ápice na segunda metade da década de 1980 (MOM-
MAAS, 1996).
Escola de Frankfurt
A Escola de Frankfurt é o nome dado a um grupo de
filósofos e cientistas sociais de tendências marxistas,
organizados a partir do final dos anos 1920, associa-
dos diretamente à chamada Teoria Crítica da Socieda-
de e aos conceitos de “indústria cultural” e “cultura
de massa”.
103 CEDERJ
Aula 6 • As atuais correntes na sociologia do lazer
Para Marie Françoise Lanfant, autora do livro Les Théories
du Loisir
o lazer nem mesmo era um objeto real de investigação e sim
o produto da ideologia de modernização de alguns poucos
desgarrados do verdadeiro caminho da ciência. Este era,
aliás, o principal conteúdo da crítica marxista ao tema do la-
zer: que lazer é este, se a maioria da população usa o tempo
que sobra do trabalho apenas para recuperar-se da fadiga?
Não por acaso, esses críticos jamais aceitaram a palavra la-
zer, apenas tempo livre (1972).
Lanfant (1972), citada na aula anterior como uma das au-
toras que, junto com De Grazia, acreditava na existência do lazer
antes da Revolução Industrial, aborda na primeira parte de sua
publicação Lês Théories du Loisir (As Teorias do Lazer) os an-
tecedentes da sociologia do lazer, citando, inclusive, Lafargue e
Veblen; na segunda, sistematiza a formação e o desenvolvimen-
to (teses elaboradas dentro de um contexto econômico liberal,
teses marxistas e a fronteira entre ambas); e, por fim, analisa
as críticas do campo nacional da sociologia do lazer. O último
subcapítulo é intitulado “Une théorie du loisir est-elle possible?
L´envers de la question”. A autora também publicou em 1980 na
revista Loisir & Société o artigo Le tourisme international, fait et
acte social: une problématique.
Atividade
Atende ao Objetivo 1
1. O campo da pesquisa em lazer fragmentou-se em tentativas
de defender a tradição ou de adaptar o estudo do lazer a novos
desenvolvimentos teóricos e sociológicos. A abordagem do lazer
tornou-se cada vez mais econômica e comercial, evidenciando a
importância do consumo e a criação de empregos e outros be-
nefícios para a economia urbana, regional e nacional. Quando
CEDERJ 104
Lazer
surgem e quais foram as principais críticas aos estudos do lazer?
Identifique os autores, destacando o seu posicionamento.
Resposta Comentada
A partir de 1960, a intensificação dos estudos do lazer como sendo
um fenômeno decorrente da sociedade pós-industrial gerou críticas
sob diferentes argumentações. O primeiro ponto da crítica era políti-
co, pois, neste período, a produção e o consumo do lazer através do
mercado não correspondiam mais a ideais racionalistas de intelec-
tuais e líderes políticos. Desde que a pesquisa em lazer se desenvol-
vera no setor público, pouca atenção foi dada ao consumismo e às
forças de mercado. Filósofos da Escola de Frankfurt, como Adorno,
Fromm e Marcuse criticaram a cultura mercadológica e a maneira
como esse processo era apoiado por pesquisadores sociais, que, por
outro lado, não responderam a essa crítica neomarxista. O segundo
ponto tinha a ver com as limitações do modo como o lazer era concei-
tuado e operado. Embora alguns autores, como Marie Françoise Lan-
fant (1972) na França demonstrassem uma abordagem crítica, esse
tipo de avaliação sobre a pesquisa em lazer nos anos 1960 só atingiu
seu ápice na segunda metade da década de 1980 (MOMMAAS, 1996).
Lanfant (1972) acreditava na existência do lazer antes da Revolução
Industrial.
105 CEDERJ
Aula 6 • As atuais correntes na sociologia do lazer
Outro enfoque interessante de ser analisado é o do pesqui-
sador Jean Baudrillard.
Figura 6.1: Jean Baudrillard, autor de A sociedade
de consumo (1975), apresenta o capítulo “O drama
dos lazeres ou a impossibilidade de perder tempo”.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean_baudrillard
Jean Baudrillard, sociólogo, filósofo, poeta e fotógrafo
francês, nasceu em 27 de julho de 1929 em Reims, vindo a fa-
lecer em Paris, em 6 de março de 2007. Sua biografia é de difícil
acesso, não só pela inexistência de documentos sobre ele, mas
também devido a sua personalidade extremamente reservada.
Baudrillard enfrentou uma época bastante conturbada em seu
país, como a Depressão da década de 1930. Foi um personagem
polêmico, que desenvolveu uma série de teorias sobre os impac-
tos da comunicação e das mídias na sociedade e na cultura con-
temporâneas. Partindo do princípio de uma realidade construída
(hiper-realidade), o autor discute o processo em que a cultura de
massa produz esta realidade virtual.
Suas teorias contradizem o discurso da “verdade absoluta”
e contribuem para o questionamento da situação de dominação
imposta pelos complexos e contemporâneos sistemas de signos,
do desenvolvimento da tecnologia, a abstração das representações
dos discursos, fenômenos que servem de objeto para os seus es-
tudos. Sua postura profética e apocalíptica é fundamentada atra-
vés de teorias irônicas que têm como objetivo o desenvolvimento
CEDERJ 106
Lazer
de hipóteses e polêmicas sobre questões atuais e que refletem
sobre a definição do papel que o homem ocupa neste ambiente.
Em sua obra A sociedade de consumo (1975), apresenta
o capítulo “O drama dos lazeres ou a impossibilidade de perder
tempo”. O “tempo” é discutido e para o autor o mesmo poderia
ser apenas o produto de determinada cultura e, mais precisa-
mente, de certo modo de produção. Neste caso, encontra-se ne-
cessariamente submetido ao mesmo estatuto que todos os bens
produzidos ou disponíveis no quadro do sistema de produção: o
da propriedade, privada ou pública, da apropriação, do objeto,
possuído e alienável, e participando, como todos os objetos pro-
duzidos de modo sistemático, da abstração retificada do valor de
troca. O autor diz:
Mas, o tempo? Onde reside o seu valor de uso, capaz de de-
finir-se por uma função objetiva ou prática específica? Tal é a
exigência inscrita no âmago do tempo livre: restituir ao tem-
po o seu valor de uso, libertá-lo como dimensão vazia para o
cumular com a liberdade individual. Ora, no nosso sistema,
o tempo só pode ser “libertado” como objeto, como capital
cronométrico de anos, de horas, de dias, de semanas a “in-
vestir” por cada qual “a seu bel-prazer”. Por consequência,
já não é “livre”, uma vez que se encontra regulado na sua
cronometria pela abstração total do sistema de produção
(BAUDRILLARD, 1975, p. 256).
Para o autor, a analogia do tempo com o dinheiro (time is
money) é fundamental para analisar o “nosso” tempo e o que
pode implicar o corte significativo entre tempo de trabalho e
tempo livre, uma vez que é nele que se baseiam as opções fun-
damentais da “sociedade de consumo”.
O tempo constitui uma mercadoria rara, preciosa e subme-
tida às leis do valor de troca. É o que se constata a respeito
do tempo de trabalho, porque se vende e se compra. Mas, o
tempo livre, para ser “consumido”, tende cada vez mais a ser
direta ou indiretamente comprado. A lei do tempo como va-
lor de troca e como força produtiva não se imobiliza no limiar
107 CEDERJ
Aula 6 • As atuais correntes na sociologia do lazer
do lazer, como se este escapasse miraculosamente a todos
os constrangimentos que regulam o tempo de trabalho. As
leis do sistema (de produção) nunca entram em férias. Re-
produzem incessantemente e por toda a parte nas estradas,
nas praias, nos clubes, o tempo como força produtiva. O apa-
rente desdobramento em tempo de trabalho e em tempo de
lazer – inaugurando este a esfera transcendente da liberdade
– constitui um mito (BAUDRILLARD, 1975, p. 256).
Continuando o seu raciocínio, Baudrillard (1975) diz que:
O repouso, o descanso, a evasão e a distração talvez sejam
“necessidades”, mas não definem por si mesmas a exigên-
cia própria do lazer, que é o consumo do tempo. O tempo
livre consiste talvez em toda a atividade lúdica com que se
cumula, mas é, antes de tudo, a liberdade de perder o seu
tempo e eventualmente de o “matar” e dispender em pura
perda (não basta, portanto, afirmar que o lazer está “aliena-
do” porque se reduz ao tempo necessário para a reconsti-
tuição da força de trabalho. A “alienação” do lazer é mais
profunda: não diz respeito à direta subordinação ao tempo
de trabalho, encontra-se ligado à própria impossibilidade de
perder o seu tempo (1975, p. 256).
Czikszentmihalyi e o fluir
Ainda dentro da fórmula “tempo é dinheiro”, o lazer foi es-
tudado como tempo social através de um gênero de pesquisa
denominado orçamento-tempo – iniciada no Leste europeu co-
munista nos anos de 1920 – e que teve no pesquisador húngaro
Alexander Szalai seu principal sistematizador. Ele conduziu uma
pesquisa internacional de orçamento-tempo em onze sociedades
capitalistas e comunistas, desenvolvidas e subdesenvolvidas.
Sua pesquisa foi publicada sob o título The Use of Time (Paris/
Haia: Mouton, 1972) e apresenta dados que, curiosamente e de
forma geral, mostram tendências semelhantes nas sociedades
observadas, tais como:
• o tempo despendido com o trabalho é menor do que o
imaginado e revelado pelas pessoas;
CEDERJ 108
Lazer
• o tempo de lazer das mulheres trabalhadoras, confor-
me o previsto, é sacrificado pela dupla jornada de tra-
balho – profissional e doméstica;
• a casa é o espaço de lazer predominante, ocupando
cerca de 70% a 90% do total do tempo livre, sendo me-
tade deste tempo dedicado às mídias e a outra metade
com atividades variadas tais como conversação entre
familiares e amigos, cuidados com animais domésti-
cos, com a decoração da casa, com as plantas etc.;
• o tempo livre dedicado ao lazer extradoméstico é bem
menor do que se imagina correntemente.
Mais recentemente, na Universidade de Chicago, Mihaly
Czikszentmihalyi (pronuncia-se em inglês cheek-sent-me-high-ee),
professor e psicólogo húngaro-americano, nascido em 1934, sofis-
ticou o gênero de pesquisa orçamento-tempo, buscando pela pri-
meira vez, além de identificar o tipo de atividade e medir a quanti-
dade de tempo nela despendido, apurar também a sua qualidade,
ou seja, verificar a satisfação dos respondentes na prática desta
atividade. Denominou seu estudo “Método de Amostragem da Ex-
periência” e desenvolveu o conceito de “fluir” como sendo aquele
estado no qual as pessoas estão de tal maneira mergulhadas em
uma atividade que nada mais parece ter importância. Segundo o
próprio autor os “melhores momentos” costumam ocorrer quan-
do temos o corpo ou a mente completamente empenhados num
esforço voluntário para realizar algo difícil e que “vale a pena”.
Os estudos desenvolvidos por este pesquisador mostraram
que essas “experiências máximas” eram descritas da mesma
maneira por homens e mulheres, jovens e idosos independen-
temente da cultura, do dinheiro e do país de origem. Para tanto,
além dos entrevistados anotarem em um carnê próprio as suas
atividades realizadas durante as 168 horas semanais, deveriam,
ao sinal de um bip, registrar como se sentiam naquele momento.
Seus estudos revelaram que:
• Há variáveis fundamentais que limitam a satisfação no
lazer do indivíduo, tais como classe socioeconômica,
109 CEDERJ
Aula 6 • As atuais correntes na sociologia do lazer
posto ocupado na hierarquia profissional e posse de
bens considerados como garantidores do prazer no la-
zer como carro, casa de campo etc.
• Os trabalhadores mais bem posicionados na hierarquia
profissional tinham maiores e melhores possibilidades
de vivenciar o “fluir” no trabalho – e mais no traba-
lho do que no lazer – do que os trabalhadores situados
mais abaixo na escala hierárquica.
• Apesar disso, a motivação no trabalho é baixa, mesmo
para os trabalhadores mais bem posicionados, para os
quais há maiores possibilidades de propiciar o “fluir”,
e no lazer é alta, mesmo quando a qualidade da expe-
riência é baixa.
Assim, o autor verificou:
uma situação paradoxal: no trabalho, as pessoas têm mais
condição de sentirem-se aptas e desafiadas e, portanto, mais
fortes, felizes, criativas e satisfeitas. No seu tempo livre, em
geral, sentem que não há muito o que fazer e que suas ap-
tidões não estão sendo usadas; portanto, tendem a sentir-se
mais tristes, fracas, desanimadas e insatisfeitas. Contudo,
gostariam de trabalhar menos e passar mais tempo no lazer
(CZIKSZENTMIHALYI, 1992 apud CAMARGO, 2001, p. 250).
O livro A psicologia da felicidade inicia-se com a questão:
“Quando as pessoas se sentem mais felizes?”, tratando da felici-
dade como algo possível de ser alcançado a partir do controle
do conteúdo da consciência. Então, “qual seria o motivo de, a
despeito de termos atingido um progresso milagroso nunca an-
tes sonhado, parecermos mais indefesos frente à vida do que
nossos ancestrais menos privilegiados?”. A resposta parece cla-
ra: embora a humanidade tenha, como coletividade, aumenta-
do seu poder material em milhares de vezes, ela não avançou
muito no sentido de aprimorar o conteúdo de sua experiência
(CZIKSZENTMIHALYI , 1992).
CEDERJ 110
Lazer
Sobre Mihaly Csikszentmihalyi
Mihaly Csikszentmihalyi é professor de Psicologia e
Educação na Universidade de Chicago. É autor de vá-
rios livros, incluindo os best-sellers Flow, The Evol-
ving Self, Creativity e Being Adolescent. Membro da
Academia Nacional de Educação dos EUA e da Aca-
demia Nacional de Ciências do Lazer é também cola-
borador regular de revistas e jornais. Escreveu vários
contos para a The New Yorker e traduziu ficção e poe-
sia. Vive em Chicago, Illinois.
Fréderic Munné
Figura 6.2: Fréderic Munné Matamala, nas-
cido em Barcelona em 1934, é catedrático
em Psicologia Social e professor emérito da
Universidade de Barcelona, na qual se gra-
duou em Direito, Filosofia e Letras.
Fonte: http://www.ub.es/dppss/pg/fmunne.htm
111 CEDERJ
Aula 6 • As atuais correntes na sociologia do lazer
Na visão de Fréderic Munné, duas concepções filosóficas
influenciavam os estudos do lazer: a concepção burguesa, que
enaltece e cultiva a moral do trabalho, representada por empíri-
cos, teóricos e críticos e a concepção marxista, representada por
ortodoxos, revisionistas e frankfurtianos, da Escola de Frankfurt
(AGUIAR, 2000).
Revisionismo é uma palavra com muitas acepções.
Um dos primeiros e mais importantes entre seus sig-
nificados aplica-se à revisão da doutrina marxista,
elaborada por Eduard Bernstein e Karl Kautsky, ao
final do século XIX e frequentemente associada à
social-democracia. Todavia, a expressão revisionismo
da história do mundo é uma iniciativa de pesquisado-
res independentes que tem por objetivo incluir e até
mesmo ressaltar uma maior participação do Oriente
na história do mundo, visto que durante a inquisição
e após a Primeira e a Segunda Guerra Mundial houve
parcialidade na história. Nesse sentido, o termo revi-
sionismo também adquire um sentido pejorativo, in-
dicando uma tentativa de “reescrever” a história atra-
vés da diminuição de importância ou, simplesmente,
por ignorar determinados fatos.
Em seu livro Psicosociología del Tiempo Libre: um enfoque
crítico (1980), Fréderic Munné aborda o tempo livre sob diferen-
tes aspectos, tais como identifica em seus doze capítulos: “La
concepcíon burguesa del ocio”; “Marx y el tiempo libre”; “Las
respuestas de la historia”; “Uma parte, llamada libre, del tiem-
po social”; “La temporalidad en el tiempo libre”; “En busca del
sentido del tiempo libre”; “La libertad en el tiempo libre”; “Los
modos prácticos de la libertad en el tiempo”; “Tiempo, libertad
y cambio”; “El ocio burgués como práctica de del tiempo libre”;
“El tiempo antilibre”; e “Tiempo de integración versus tiempo de
subversíon” (MUNNÉ, 1980).
CEDERJ 112
Lazer
O autor resume as funções do lazer em psicoterapêuticas e
socioterapêuticas, destacando as formas compensatórias do la-
zer. Entre as funções psicoterapêuticas estariam a busca por:
• a distração e o prazer que amenizem a monotonia das
rotinas e as pressões de uma sociedade hierarquizada
e normalizada;
• o recolhimento para compensar a agitação e a ansieda-
de da vida moderna;
• a individualidade para o cultivo de valores pessoais que
compensem a padronização de comportamentos sociais;
• autodeterminação e autonomia para compensar as li-
mitações de uma vida assalariada, num sistema de pro-
dução que nos ditam as necessidades de consumo.
Como funções socioterapêuticas, o autor identifica:
• as relações interpessoais e demais formas de sociabili-
dade afetiva, em grupos sociais ou de organizações de
trabalhos voluntários, para compensar a ausência de
atividades laborais, e a formação e o aperfeiçoamento
humano e profissional;
• a satisfação da necessidade de prestígio e aceitação
social.
Michel Maffesoli e as tribos urbanas
Michel Maffesoli, sociólogo francês nascido em Graisses-
sac no ano de 1944, é professor da Université de Paris – Des-
cartes – Sorbonne; secretário-geral do Centre de recherche sur
l’imaginaire e membro do comitê científico de revistas interna-
cionais, como Social Movement Studies e Sociologia Internatio-
nalis. Maffesoli ficou conhecido por suas análises sobre o pre-
domínio do imaginário e a ligação social na pós-modernidade,
difundindo o conceito de tribo urbana. A expressão ganha força
com a publicação do seu livro Le Temps des Tribus: le Déclin de
l’Individualisme dans les Sociétés Postmodernes.
113 CEDERJ
Aula 6 • As atuais correntes na sociologia do lazer
Segundo Michel Maffesoli, o fenômeno das tribos urbanas
constitui:
diversas redes, grupos de afinidades e de interesse, laços
de vizinhança que estruturam nossas megalópoles. Seja ele
qual for, o que está em jogo é a potência contra o poder,
mesmo que aquela não possa avançar senão mascarada
para não ser esmagada por este (1987, p.70).
Figura 6.3: Os punks, um exemplo
típico de tribo urbana.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tri-
bo_urbana
Maffesoli identifica transformações profundas no estilo so-
cial que caracterizam a pós-modernidade, por ele definida como
“nova forma de sensibilidade”, e identificada pelos seguintes fe-
nômenos (MAFFESOLI, 1995):
1. Observa-se uma ênfase na cultura dos sentimentos e
forte centralidade das atividades que promovem en-
contros de pessoas, seja pela mediação do consumo
de imagens comuns ou com o “simples” objetivo de se
sentirem juntos; a sensação de pertencimento.
CEDERJ 114
Lazer
2. O tribalismo, correspondente à valorização e à defesa
de territórios, quer seja em termos físicos, quer seja no
plano simbólico.
3. A ênfase no estilo, que se institui enquanto linguagem,
funciona como protocolo de agregação dos indivíduos
e destes a outros territórios e tribos diferentes dos de
sua origem.
4. É revelada uma preocupação acentuada dos indivíduos
com a imagem em todos os setores da existência em
sociedade, o que o autor chama de “A estetização da
vida”.
5. O aumento da preocupação com o inútil e a ênfase
acentuada na busca do qualitativo conduz à intensifica-
ção da busca do supérfluo.
Para melhor compreensão da visão deste sociólogo,
leia o artigo A teoria do imaginário e a proposta de
ciências sociais de Michel Maffesoli, de autoria de
Lemuel Dourado Guerra, professor do Programa de
Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Fede-
ral da Paraíba (Campus II – Campina Grande). Publi-
cado em Política & Trabalho, 17, p. 64-79, set. 2001 e
disponível no link:
http://www.cchla.ufpb.br/ppgs/politica/17-guerra.html
Segundo Camargo (2001),
diferente de Dumazedier, que buscou o fato social empiri-
camente observável independentemente da percepção dos
indivíduos, Michel Maffesoli se interessava pelo estudo do
fenômeno vivido, ou de como os indivíduos vivem a atmos-
fera orgiástica que impregna o cotidiano (2001, p. 250).
115 CEDERJ
Aula 6 • As atuais correntes na sociologia do lazer
Maffesoli não se propôs a estudar a noção de lazer e de
tempo livre, considerados por ele simples conceitos. Contudo,
“compreendeu como poucos o lazer como inerente ao espírito
da época, marcado pela busca do prazer e do sexo” (CAMARGO,
2001, p. 251). Em sua obra À sombra de Dionísio (1889), Maffesoli
analisa que na pós-modernidade, se comparada à mitologia gre-
ga, substitui-se o mito de Prometeu – que tem o trabalho como
estruturador da vida cotidiana – pelo mito de Dionísio, deus das
festas, das diversões, do sexo e do prazer.
Figura 6.4: Estátua de Dionísio, exposta no Museu do Louvre em Paris,
França. Filho de Zeus e da princesa Semele, foi, na mitologia grega, o único
deus filho de uma mortal. A simbologia deste deus grego equivale ao deus
romano Baco: representam as festas, o vinho, a diversão, o prazer.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Dioniso
Maffesoli foi discípulo de Gilbert Durand, o principal inspi-
rador das ciências do imaginário e em seu primeiro livro O co-
nhecimento comum (1988) já propõe um resgate da fenomenolo-
gia como método de estudo da vida cotidiana, rompendo com o
CEDERJ 116
Lazer
método geral, experimental, quantitativo e predisposto a anun-
ciar leis adotados pela sociologia corrente. Segundo Camargo
(2001), seu método relativista não busca a coerência enganosa
e engessadora do pensamento; quer apenas compreender a for-
ma, mais do que explicar a causa dos fenômenos sociais, sem
ser determinada por dualismos tais como razão/imaginário ou
objetivo/subjetivo.
Para se compreender essa socialidade viva e vivida, há que
se lançar mão de analogia, de metáfora de correspondên-
cia – que pode não existir no plano objetivo, mas é vivida
como tal pelos indivíduos – procedimentos que não devem
ser deixados exclusivamente para a poesia, para a ficção
ou para o misticismo (CAMARGO, 2001, p. 251).
A sociologia, segundo Maffesoli, deve perder a sua aridez
e colocar-se a favor de uma pesquisa estilística, necessária para
que a ideologia de uma época possa exprimir o espírito de seu
tempo.
Em A conquista do presente (1984), Maffesoli ataca o mito
da causalidade e o tempo cronológico priorizados nos métodos
das ciências sociais. Defende que o tempo vivido vale por si
mesmo e não como sintoma ou prenúncio de “outra coisa”, con-
siderando ainda que, quando um sociólogo tem em mente uma
representação ideal de sociedade, acaba por não compreender
o que existe no presente.
Maffesoli analisa na sociedade pós-moderna um parado-
xo entre a massificação constante e o desenvolvimento de pe-
quenos grupos. A socialidade se desenvolve através do ser/es-
tar junto com; do pertencimento a grupos de iguais, compostos
pela emoção, pelo afeto, pela proximidade, aos quais ele identi-
fica como tribos e as explica em O tempo das tribos (1987).
117 CEDERJ
Aula 6 • As atuais correntes na sociologia do lazer
Embora as correntes mais conservadoras da sociologia ve-
jam neste autor um “destruidor da racionalidade” ou “pregador
da imoralidade”, devemos reconhecer que sua perspectiva pro-
porcionou uma nova postura e uma importante abertura para o
estudo da vida cotidiana.
Atividade
Atende ao Objetivo 2
2. Vamos comparar a visão de Riesman que estudamos na Aula 5
com a de Maffesoli?
Em 1950, Riesman publicou Lonely Crowd ou A multidão soli-
tária, considerando que no momento pós-industrial o homem
torna-se escravo das armadilhas do tempo livre e revela sua pre-
ocupação com a influência que os meios de massa e dos grupos
de iguais exercem sobre o indivíduo a ponto de este perder a
sua liberdade na tentativa de igualar-se aos outros. Maffesoli, em
1988, na publicação original de O tempo das tribos (Le temps du
tribus. 1988; Paris: Le Livre de Poche, 1991) vê o ser/estar junto
com nas manifestações coletivas, considerando que “o indivi-
dual e o social se dissolvem no confusional, com a perda gradual
do individual no coletivo”. Ele também revela, em À sombra de
Dionísio, que o sexo e o prazer dão origem a um “imoralismo éti-
co” que fortalece os laços simbólicos das sociedades, particular-
mente das tribos que estabelecem suas normas, valores próprios
e estilos de vida.
Você concorda com a interpretação destes autores? Teria exem-
plos atuais para ilustrar as abordagens apresentadas? Comente.
CEDERJ 118
Lazer
Resposta Comentada
A questão remete a uma reflexão teórica de dois autores em tempos
diferentes, comparada com a experiência observada no presente.
Observamos a complementaridade dos conceitos de Riesman em
1950 e de Maffesoli em 1988 quando observam a tendência do in-
divíduo seguir influências do coletivo na busca de pertencimento a
“grupos de iguais”, de interesses comuns, ocasião em que a identi-
dade individual se confunde com a social que deseja representar.
As “tribos” criam seus códigos identificados por Maffesoli até como
“imoralismo ético”, a exemplo dos skinheads (ou cabeças raspadas),
“famosos” pela violência praticada nos estádios de futebol no Reino
Unido desde 1960, ou os emos, mais popular atualmente entre os
adolescentes, para descrever o perfil e o comportamento de uma
nova geração de bandas e fãs de hardcore emocional. Tais “tribos”
se reforçam e se promovem através das mídias e das tecnologias
de comunicação, como os sites de relacionamento, blogs e suas
comunidades, como Riesman previa que seria refletida na sociedade
a influência dos meios de comunicação em massa.
Domenico De Masi e o ócio criativo
Devemos destacar Domenico De Masi entre as correntes
atuais do pensamento sociológico sobre o lazer, por ele tratado
de modo corrente como tempo livre ou ócio. Camargo (2001)
bem observa que alguns idiomas como o italiano, o espanhol e
o alemão não dispõem de um vocábulo derivado do latim licere,
como o inglês (leisure), o francês (loisir) ou o português (lazer),
razão pela qual De Masi usa a expressão ócio em lugar de lazer.
119 CEDERJ
Aula 6 • As atuais correntes na sociologia do lazer
Sociólogo italiano nascido na província de Campobasso,
ao sul da Itália, no ano de 1938, Domenico De Masi, aos 19 anos,
já escrevia artigos sobre a Sociologia Urbana e do Trabalho; aos
22 anos lecionava na Universidade de Nápoles e mais recente-
mente assumiu o posto de professor de Sociologia do Trabalho
na Universidade La Sapienza de Roma, além de dirigir a escola
de especialização em ciências organizacionais S3 Studium. Seu
carisma pessoal, sua habilidade como comunicador e, sobretu-
do, a autoridade com que trata as relações entre o trabalho e o
lazer fazem dele uma referência em consultoria para as grandes
empresas globalizadas.
Ele resgata conceitos pouco conhecidos de autores da área
econômica, como Keynes, e da administração, como Taylor, rela-
cionados à qualidade de vida no crescente tempo livre. Sua te-
oria parte de sua insatisfação com o modelo social do Ocidente,
centrado na idolatria do trabalho, do mercado e da competitivi-
dade. Ele propõe um novo modelo no qual os indivíduos devem
ser educados para privilegiar a introspecção, a amizade, o amor,
a convivência e as atividades lúdicas através da simultaneida-
de entre trabalho, estudo e lazer. Com a liberação do tempo de
trabalho por conta da aplicação de novas tecnologias, De Masi
(2000) considera que
o ócio pode transformar-se em violência, neurose, vício e
preguiça, mas pode também elevar-se para a arte, a criativi-
dade e a liberdade. É no tempo livre que passamos a maior
parte dos nossos dias e é nele que devemos concentrar nos-
sas potencialidades (2000, contracapa).
Camargo (2001) observa que o pensamento de De Masi e
de Dumazedier:
convergem através da constatação de que a evolução das
ciências de gestão teve, na redução da jornada de trabalho e
na criação do tempo livre moderno, peso decisivo similar ao
das organizações sociais e de trabalhadores (2001, p. 253).
CEDERJ 120
Lazer
Assista à entrevista concedida por Domenico De Masi
ao programa Roda Viva em sua primeira visita ao
Brasil em 1998, no qual defende uma nova sociolo-
gia do trabalho, baseada na criatividade e no que ele
classificou como ócio criativo, através do link http://
www.rodaviva.fapesp.br/materia/5/entrevistados/do-
menico_de_masi_1998.htm. Também encontramos
registro de entrevista à TV Cultura no YouTube: clique
em http://www.youtube.com/watch?v=wxvPBkuvagc
De Masi escreveu diversos livros, alguns tidos como revo-
lucionários, uma vez que se baseia na sua concepção de que
o futuro pertence a quem souber libertar-se da idéia tradicio-
nal do trabalho como obrigação e for capaz de apostar em
uma mistura de atividades, onde o trabalho se confundirá
com o tempo livre e o estudo. Enfim, o futuro é de quem
exercitará o ócio criativo (2000, contracapa).
Em Desenvolvimento sem trabalho (1999), De Masi desvela
a busca pela eliminação da fadiga física e mental no trabalho,
analisando a trajetória da sociedade humana desde a Antiguida-
de. Ele demonstra que a sociedade busca a libertação da fadiga
e consequentemente há a eliminação de muitas formas atuais
de ocupação. Nessa sociedade que se desenvolve cada vez mais
sem trabalho, a única forma de ocupação digna do homem é a
que alia criatividade e organização (CAMARGO, 2001, p. 253).
121 CEDERJ
Aula 6 • As atuais correntes na sociologia do lazer
E já que estamos em um curso de Licenciatura em
Turismo, que tal conhecermos a visão de De Masi so-
bre o trabalho do magistério? Para ele, o trabalho do
professor é “o mais lindo” e privilegiado que existe
por se tratar de uma atividade de estímulo à convi-
vência criativa, e destaca ainda que “em vez de educar
para o trabalho, devemos educar para a vida”. Assista
a esta entrevista concedida à Folha Dirigida.
Fonte: http://www.folhadirigida.com.br/professor/Cad 08/En-
tDomenicodeMasi.html
Em A emoção e a regra (1999), De Masi estuda diferentes
equipes de trabalho que produziram resultados geniais nos últi-
mos dois séculos. Seu objetivo é mostrar que a capacidade criati-
va inerente ao ser humano, quando integrada ao aperfeiçoamen-
to da organização gerencial, aponta o caminho para o futuro do
trabalho humano.
Em O ócio criativo (2000), encontramos uma brilhante en-
trevista concedida à Maria Serena Palieri, na qual Domenico De
Masi analisa temas como a sociedade pós-industrial; o declínio
das ideologias tradicionais em face da globalização; as possibi-
lidades do desenvolvimento sem emprego; a dedicação à criati-
vidade e ao tempo livre como fonte de qualidade de vida para a
sociedade emergente, com as seguintes considerações sobre o
mundo atual:
• A globalização financeira, através das facilidades das
telecomunicações modernas, cria desafios para a esta-
bilidade socioeconômica em várias nações, sujeitas a
fluxos volumosos e cada vez mais rápidos de capitais
financeiros.
• Os desafios ao próprio capitalismo diante do desenvol-
vimento com baixa geração de emprego e renda, de-
corrente do aumento no volume de produção de bens
CEDERJ 122
Lazer
e serviços sem que haja uma proporcional distribuição
de renda para criar consumidores para o que é produ-
zido, além dos riscos que este “desenvolvimento” pro-
move sobre o ambiente ecológico.
• A feminilização do mundo profissional gera tensões
entre os gêneros, visto que há alterações mais rápidas
nos papéis a serem exercidos entre os sexos do que
as necessárias alterações na mentalidade da sociedade
para acomodar estas novas expectativas e frustrações.
• As ideologias e as crenças tradicionais perdem a sua
utilidade como reguladoras das relações sociais, sem
que sejam substituídas por novas construções mentais,
espirituais e emocionais que apoiem estas relações.
• Com isto, há dificuldade em integrar os sujeitos sociais
emergentes nas relações estabelecidas entre atores so-
ciais tradicionais.
Diante deste contexto derivado da idolatria ao trabalho, ao
mercado e à competitividade, De masi propõe um outro modelo
social que tenha como premissas:
• A valorização e a educação dos indivíduos voltadas para
as necessidades básicas do ser humano, tais como a in-
trospecção, o convívio, a amizade, o amor e as ativida-
des lúdicas, deixando em segundo plano as necessida-
des criadas pela propaganda e pela busca de status.
• A distribuição consciente do tempo, do trabalho, da ri-
queza, do saber e do poder como forma de minimizar
as fontes de conflitos entre as pessoas e os grupos.
• A estruturação das atividades humanas em uma com-
binação equilibrada de trabalho, estudo e lazer.
• Valorização e enriquecimento do tempo livre, decorrente
de alta disponibilidade financeira para alguns e redução
do tempo demandado de trabalho para muitos.
123 CEDERJ
Aula 6 • As atuais correntes na sociologia do lazer
• Aperfeiçoar o processo de produção e distribuição da
riqueza decorrente dos grandes aumentos de produti-
vidade derivados dos rápidos, e em aceleração, avan-
ços do conhecimento e da criatividade humana.
Outros pesquisadores atuais
Além dos autores citados até então, vários são os pesqui-
sadores que têm se dedicado aos estudos do lazer como um fe-
nômeno da sociedade pós-industrial, entre eles historiadores,
sociólogos, psicólogos, educadores, turismólogos, filósofos, en-
tre outros, tratando-se, portanto, de uma área rica em interdisci-
plinaridade.
Diante desta complexidade e da difícil missão de relacio-
nar os pesquisadores atuais e referenciais nos campos do lazer
em âmbito internacional, Camargo (2001) considera que devam
ser citados ao menos os seguintes:
– nos Estados Unidos: Phillip Bosseramn, Max Kaplan,
Geoffrey Godbey, Jack Kelly;
– no Canadá: Robert Sttebins, Jiri Zuzanek e Gilles Prono-
vost;
– na França: Roger Sue, Nicole Samuel ; Madeleine Rommer;
– no Reino Unido: Kenneth Roberts, Stanley Parker;
– na Bélgica : Willy Faché, France Gowaertz;
– na Austrália: Rob Linch e Francis Lobo.
Na América Latina, devem ser citados ao menos: Adriana
Estrada (México); Carlos Vera Guardia (Venezuela) e Inês Moreno
(Argentina).
No Brasil, os estudos de lazer vêm avançando bastante,
sobretudo nos centros de pesquisa da área de educação física,
sem, contudo, desmerecermos a contribuição de outras áreas.
Exclusivamente a este tema nos dedicaremos na próxima aula.
Para tanto, vamos completar nossa lista mencionando, ainda se-
gundo CAMARGO (2001), pelo menos: Antonio Carlos Bramante
(Unicamp); Nelson Carvalho Marcelino (Unicamp); Leila Pinto
CEDERJ 124
Lazer
(UFMG), Christianne Werneck (UFMG); Paulo de Salles Oliveira
(USP); Guilherme Magnani (USP). Entre os nomes da área de tu-
rismo que estudam o tema, vale mencionar Luiz Gonzaga Godoi
Trigo (PUC/SP) Mário Beni e Doris Rushman (USP).
Conforme CAMARGO (2001), podemos identificar quatro
contribuições importantes da sociologia do lazer para o profis-
sional de turismo:
• a sociologia do lazer familiariza o profissional de tu-
rismo com a dinâmica socioeconômica e cultural que
produziu o moderno fenômeno das viagens de massa;
• auxilia na compreensão da amplitude do campo de tra-
balho;
• tempera as bases economicistas das análises correntes
do fenômeno turístico;
• torna o profissional mais atento à dimensão qualitativa
e educativa da viagem.
Entender o turismo dentro do lazer significa aceitar que ele
está sujeito às mesmas condicionantes e injunções que pe-
sam sobre o lazer como um todo. Significa olhar criticamen-
te o turismo como forma de distinção social. Significa lançar
um olhar crítico sobre a qualidade de vida cotidiana que,
quando negativa, cria o slogan “viajar para o mais longe,
o mais raro, o mais caro”. Significa valorizar o turismo de
proximidade, bem como a organização comunitária para en-
frentar o turismo predatório (CAMARGO, 2001, p. 271).
Atividade Final
Atende aos Objetivos 1 e 3
Vamos estabelecer um quadro-resumo e comparativo entre os
pesquisadores estudados, suas teorias e publicações, apresenta-
dos nesta aula? Assim poderemos organizar melhor nossos estu-
dos. Segue um modelo para que você pesquise e complete:
125 CEDERJ
Aula 6 • As atuais correntes na sociologia do lazer
Atuais correntes dos estudos do lazer
Autor Teorias/Ideias centrais Bibliografia
Resposta Comentada
O objetivo da questão é estimular o estudo através da síntese das
aulas em tabelas/gráficos/diagramas de modo a facilitar o registro
de informações e a visualização sobre o posicionamento dos teó-
ricos apresentados e suas contribuições para os estudos do lazer.
Novas formatações poderão ser sugeridas de modo a atingir este
objetivo bem como as informações complementadas com a pesqui-
sa em outras fontes, que poderão ser citadas. Exemplo: atuais cor-
rentes dos estudos do lazer.
Autor Teorias/Ideias centrais Bibliografia
A revolução cultural
Joffre Dumazedier 3 Ds
do tempo livre (1994)
O tempo das tribos
(1987)
Maffesoli Tribos urbanas
As marcas do visível
(1995)
.....
Resumo
Nesta aula, destacamos que a pesquisa em lazer sofreu uma série
de embates de pesquisadores favoráveis e contrários à atividade.
Tais argumentações contribuíram, sobremaneira, para a evolução
do pensamento crítico, o que, por conseguinte, proporcionou a
construção teórica de uma “ciência do lazer”.
Entendemos que, a partir dos anos 1980, o enfoque dos estudos
recaiu na continuidade das tradições acadêmicas e também em
novos interesses e conceitos em torno da pesquisa em lazer. Ao
mesmo tempo em que laços internacionais mais fortes eram es-
tabelecidos na pesquisa e na educação em lazer, ideias e aborda-
gens convencionais tornaram-se objetos de debate. O campo da
pesquisa em lazer fragmentou-se em tentativas de defender a tra-
dição ou de adaptar o estudo do lazer a novos desenvolvimentos
teóricos e sociológicos (MOMMAAS, 1996).
CEDERJ 126
Lazer
Abordamos ainda a influência da Escola de Frankfurt e o capitalis-
mo; apresentamos os autores Jean Baudrillard, Fréderic Munné,
Michel Maffesoli, Domenico De Masi. Através de diferentes cor-
rentes de pensamento que apresentam diferentes argumentações
e até contradições, fruto de vários debates e até de disputas inte-
lectuais, podemos detectar algumas mudanças nas pesquisas em
lazer, em comparação aos modelos precedentes, dentre elas:
• uma abordagem baseada mais na teoria – e na história – da
realidade social, envolvendo a noção de que era preciso de-
pender não só de fatos, mas também de métodos;
• um forte interesse pela dimensão social e/ou coletiva do lazer;
• uma abordagem do lazer como um conceito relacionado a gê-
nero e classe;
• um interesse pelo envolvimento ativo das pessoas na consti-
tuição de seu lazer e nos métodos interpretativos de analisar
o significado do mesmo;
• uma atenção à política e à produção do lazer;
• uma séria preocupação com o lazer comercial, popular e in-
formal, além do lazer público, sério e formal (MOMMAAS,
1996).
Informação sobre a próxima aula
Na próxima aula, apresentaremos os precursores do lazer
enquanto objeto de estudo no Brasil, suas motivações, teorias,
influências e contribuições.
127 CEDERJ
7 O lazer enquanto objeto de estudo no Bra-
sil – Parte I – Estudos precursores
Cristina Marques Gomes / Simone Dantas
Meta da aula
Apresentar o contexto histórico dos estudos do lazer no
Brasil, seus principais pesquisadores e as influências
internacionais na produção científica nacional.
Objetivos
Esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula,
você seja capaz de:
1 identificar o contexto histórico do desenvolvimento
dos estudos sobre lazer no Brasil;
2 identificar a contribuição do Serviço Social do Comér-
cio, do lazer empresarial e do lazer no período militar;
3 reconhecer as influências de Dumazedier e os embates
teóricos ocorridos a partir do Seminário sobre o lazer:
perspectivas para uma cidade que trabalha.
Aula 7 • O lazer enquanto objeto de estudo no Brasil – Parte I – Estudos precursores
Introdução
No Brasil, a produção científica sobre o lazer emerge a partir da
década de 1970, com o desenvolvimento de pesquisas e projetos
específicos, muito embora os trabalhos anteriores tenham im-
portância significativa para a sistematização e compreensão do
conhecimento na área.
Entre esses trabalhos precursores, encontramos o registro so-
bre preocupações com o lazer da população no Brasil ao final do
século XIX nos discursos de engenheiros e sanitaristas respon-
sáveis pelas reformas urbanas típicas da modernidade (MELO,
2001). Houve iniciativas públicas e empresariais para a oferta do
lazer aos operários com vistas à melhoria na qualidade de vida,
sim, mas também a serviço dos interesses do capitalismo e da
supremacia da burguesia como classe dominante.
Já vimos o quanto a Revolução Industrial influenciou as transfor-
mações da sociedade ao final do século XIX, o que impactou na
configuração e no surgimento dos novos centros urbanos, espe-
cialmente na Europa e nos Estados Unidos. O Brasil também pas-
sou por profundas transformações. Era necessário, por exemplo,
adotar os princípios do sanitarismo nas práticas urbanas, espe-
cialmente visando ao enfrentamento de epidemias que ameaça-
vam a saúde pública. Para tanto, as áreas centrais deveriam: ser
remodeladas, implementando serviços de infraestrutura de água
e esgotos; sanear áreas pantanosas e inundáveis; eliminar a con-
centração de moradias insalubres (cortiços); prover as cidades de
espaços públicos abertos para facilitar a circulação de ar e a pe-
netração da luz solar; e estabelecer normas para as construções
(SIMÕES JUNIOR, 2007).
Assim, começamos a observar o surgimento da preocupação em
prover nas cidades brasileiras espaços públicos voltados para a
circulação, visando à qualidade de vida e posteriormente ao la-
zer. Contudo, a necessidade de se estudar “o problema do lazer”
no Brasil começa a se configurar nas primeiras décadas do sécu-
CEDERJ 130
Lazer
lo XX, por influência de diferentes aspectos, mas principalmente
com base na relação capital versus trabalho, que poderemos
compreender melhor ao analisarmos o contexto histórico.
Contexto histórico
Em âmbito internacional, a virada do século XIX para o
século XX foi marcada pela intensificação das crises por que
passou o capitalismo no período de 1875 a 1914, denominada
"Era dos Impérios" por Eric Hobsbawm, historiador marxista e
cientista social inglês (HOBSBAWM, 2003).Trata-se de um período
marcado pela predominância de grandes potências imperiais e
colonialistas. É caracterizado por ciclos de queda das taxas de
lucro e de planos de reestruturação da produção em busca de
sua recuperação, passando pelo reordenamento geopolítico
mundial, cujo ápice foi a Primeira Grande Guerra Mundial, em
1914, dando início ao século XX.
Paralelamente ao desenvolvimento industrial, que sus-
tentava o capitalismo, houve a expansão do movimento ope-
rário, influenciado pelo comunismo. O propósito era o de lutar
pela superação do capitalismo, para a completa abolição das
classes, estabelecendo-se a ditadura do proletariado e, assim,
a realização do socialismo como uma transição para a socieda-
de comunista, com a completa abolição do Estado. Para isso,
utilizariam todos os meios disponíveis, inclusive armamentos,
para derrubar a burguesia internacional. A Revolução Russa, em
1917, materializou o temor burguês quanto à expansão do co-
munismo, polarizando os conflitos que iriam caracterizar mais
da metade do século XX (1917-1985).
Diante dessa ameaça, a burguesia reorganizou as suas ba-
ses para a manutenção de sua hegemonia, implementando os
métodos taylor-fordistas, cuja meta central era a adaptação do
trabalho humano às necessidades do capital, com vistas à con-
tenção da luta de classes (BRAGA, 2005).
131 CEDERJ
Aula 7 • O lazer enquanto objeto de estudo no Brasil – Parte I – Estudos precursores
A expressão “taylor-fordista” faz uma associação do taylorismo e
do fordismo. Taylorismo é um modelo de administração desenvol-
vido pelo engenheiro Frederick Winslow Taylor (1856-1915), con-
siderado o “pai da administração científica”. Caracteriza-se pela
ênfase nas tarefas, objetivando o aumento da eficiência em nível
operacional. O estudo de “tempos e movimentos” mostrou que um
“exército” industrial desqualificado significava baixa produtividade
e lucros decrescentes, forçando as empresas a contratarem mais
operários. Taylor tinha o objetivo de acelerar o processo produtivo,
ou seja, produzir mais em menos tempo, e com qualidade. Quanto
ao fordismo, idealizado pelo empresário estadunidense Henry Ford
(1863-1947), fundador da Ford Motor Company, é um modelo de
produção em massa que revolucionou a indústria automobilística
a partir de janeiro de 1914, quando introduziu a primeira linha de
montagem automatizada. Ford utilizou à risca os princípios de pa-
dronização e simplificação de Frederick Taylor e desenvolveu outras
técnicas avançadas para a época. Suas fábricas eram totalmente
verticalizadas, ou seja, ele possuía desde a fábrica de vidros e plan-
tação de seringueiras até a siderúrgica.
Figura 7.1: A fábrica de automóveis da Ford Motors e a
produção em massa.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Fordismo
E no Brasil?
No século XX, o Brasil estava em processo de consolida-
ção da burguesia, que particularmente se deparava com duas
questões centrais. Primeiro, controlar os setores conservadores
CEDERJ 132
Lazer
contrários aos seus interesses, o que demandou uma série de
embates que foram solucionados através de acordos político-
econômicos. Segundo, controlar a classe trabalhadora, o que se
processou através de um amplo projeto de contenção das lutas
de classe que explodiram em toda a década de 1920, adequando
os interesses dos trabalhadores aos interesses burgueses.
Para tanto, foram empreendidas ações que envolveram a
reestruturação da educação e da formação da classe trabalhado-
ra, com a elaboração de uma legislação trabalhista nos moldes
do Primeiro Mundo. Foi adotada a racionalização taylor-fordista
do trabalho e do repouso, com predomínio da intenção de tutela
do tempo livre: “a modernização e a industrialização brasileiras
dependiam deste movimento” (PEIXOTO, 2008).
Nesse contexto, verificamos a configuração inicial das
preocupações com o lazer no Brasil, situadas entre as décadas
de 1920 e 1940 do século passado. Configura-se uma política de
recreação atuante em duas frentes: 1ª – a ocupação e a educa-
ção de menores; 2ª – a ocupação do tempo livre do trabalhador,
com vistas à “conformação da classe trabalhadora aos interes-
ses da burguesia” (PEIXOTO, 2008).
O lazer para a ocupação e a educação de
menores
A ocupação e a educação dos menores veio a configu-
rar “um projeto de educação para e pela recreação” (PEIXOTO,
2008). Aqui destacamos como iniciativas precursoras a “Recrea-
ção Pública” promovida pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre
(1926-1955) e a experiência da “Divisão de Educação e Recreio do
Departamento de Cultura e Recreação”, promovida pela Prefeitu-
ra Municipal de São Paulo (1935-1947).
Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, foi uma das capitais
pioneiras na instituição do lazer e da recreação pública. No ano de
1926, o professor de Educação Física Frederico Guilherme Gaelzer
133 CEDERJ
Aula 7 • O lazer enquanto objeto de estudo no Brasil – Parte I – Estudos precursores
afirmava que as crescentes conquistas sociais do proletariado,
em relação à diminuição das horas de trabalho, nos colocavam,
àquela época,
Ante um problema que deve ser estudado, e com grande
empenho resolvido, para o bem de todos, de modo a con-
sultar os grandes interesses do futuro da Pátria: o do uso
bom das horas de lazer (WERNECK, 2003, p. 119).
Gaelzer foi responsável pela idealização e efetivação dos
"Jardins de Recreio" nas praças da cidade, oferecendo atrações
diversificadas para diversão de crianças, jovens e adultos. Ele
conseguiu sensibilizar o poder público local sobre a importância
da recreação e do esporte para a mocidade, como forma de pre-
venção da delinquência e como um meio de qualificar a socie-
dade. Este trabalho de Gaelzer foi coroado em 1950, quando foi
promulgada a Lei 500, no governo do prefeito Dr. Ildo Meneghetti,
institucionalizando o Serviço de Recreação Pública.
Confira a tese de mestrado de Eneida Feix, da Univer-
sidade Federal do Rio Grande do Sul. Escola de Edu-
cação Física. Programa de Pós-Graduação em Ciên-
cias do Movimento Humano, sob o título: “Lazer e
cidade na Porto Alegre do início do século XX: ins-
titucionalização da recreação pública”. Acesse o link:
http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/2781
Nesta mesma época, o Departamento de Cultura e Recrea-
ção da Prefeitura de São Paulo acreditava que o “problema do
lazer” seria resolvido por meio de ações fundamentadas em
pesquisas e estudos sistematizados sobre o tema. Este aspecto
foi explicitamente formalizado no Ato nº 767 (9/1/1935), que criou
o Serviço de Jogos e Recreio, dirigido por Mário de Andrade e
diretamente subordinado ao gabinete do então prefeito, então
Paulo Duarte. A primeira justificativa do Ato nº 767 argumentava
CEDERJ 134
Lazer
que as forças morais e espirituais de uma nação dependiam, em
parte, da maneira pela qual os cidadãos aproveitavam as suas
horas de descanso. Neste âmbito “seria necessário despertar nas
novas gerações o gosto e criar o hábito de empregar seus lazeres
em atividades saudáveis de grande alcance moral e higiênico”
(WERNECK, 2003, p. 232).
Ainda no ano de 1935, foi criado o Departamento de Cultu-
ra e Recreio, e o Serviço de Jogos e Recreio foi transformado em
Seção de Parques Infantis. O município assumiu, assim, a tarefa
de propiciar assistência pré-escolar às crianças de classes desfa-
vorecidas da sociedade.
Segundo o artigo “A contribuição dos parques infantis de
Mário de Andrade para a construção de uma pedagogia da edu-
cação infantil”, de Ana Lúcia Goulart de Faria, docente da Faculda-
de de Educação da Unicamp-SP,
Os parques infantis criados por Mário de Andrade em 1935
podem ser considerados como a origem da rede de educa-
ção infantil paulistana (FARIA, 1995) – a primeira experiên-
cia brasileira pública municipal de educação (embora não-
escolar) para crianças de famílias operárias que tiveram a
oportunidade de brincar, de ser educadas e cuidadas, de
conviver com a natureza, de movimentarem-se em grandes
espaços e não em salas de aula... Lá produziam cultura e
conviviam com a diversidade da cultura nacional, quando o
cuidado e a educação não estavam antagonizados, e a edu-
cação, a assistência e a cultura estavam macunaimicamente
integradas, no tríplice objetivo parqueano: educar, assistir e
recrear (FARIA, 1999).
“Macunaimicamente” é uma expressão adaptada
por influência de Macunaíma, de autoria de Mário de
Andrade, considerada uma das obras capitais da nar-
rativa brasileira no século XX. Uma análise comen-
tada desta obra ímpar pode ser verificada em: http://
www.angelfire.com/mn/macunaima/
135 CEDERJ
Aula 7 • O lazer enquanto objeto de estudo no Brasil – Parte I – Estudos precursores
Figura 7.2: Mário de Andrade, considerado o
escritor mais nacionalista e múltiplo dos brasi-
leiros, aqui sentado à frente de outros artistas
durante a Semana de Arte Moderna de 1922.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_de_
Andrade
A ocupação do tempo livre do trabalhador
A ocupação do tempo livre do trabalhador – que mais ex-
pressa as características da preocupação burguesa com a ocu-
pação do tempo livre do trabalhador com vistas à conformação
da classe trabalhadora aos interesses da burguesia. Destacamos
a experiência do Serviço de Recreação Operária – SRO –, imple-
mentada no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, através do Mi-
nistério do Trabalho, Indústria e Comércio (1943-1963) e a criação
em 1946 do Serviço Social do Comércio – Sesc – atuante até os
dias de hoje e em âmbito nacional (PEIXOTO, 2008).
CEDERJ 136
Lazer
O Serviço de Recreação Operária – SRO
(1943-1963)
A criação do Serviço de Recreação Operária ocorreu em
1943, momento em que a ditadura do Estado Novo já apresenta-
va sinais de exaustão. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT)
já havia sido anunciada pelo então presidente Getúlio Vargas nas
comemorações de primeiro de maio (Dia do Trabalhador) daque-
le mesmo ano, o que nos leva a crer não se tratar de simples
coincidência. Por um lado está claro o interesse material, no au-
mento da produção e redução de acidentes de trabalho à medida
que promoveriam o aumento da resistência física dos operários.
Por outro, o interesse imaterial, produzindo políticas públicas
voltadas para a vivência de prazeres, o que certamente se cons-
tituiria em uma estratégia de negociação e permitiria ao Estado
promover certo controle sobre o tempo livre dos trabalhadores.
A análise da professora Angela Brêtas identifica sete principais
objetivos para a criação do SRO:
• auxiliar na diminuição do número de acidentes de tra-
balho;
• estimular a sindicalização;
• integrar o conjunto de realizações que possibilitam a
concretização do discurso político da época, acerca da
preocupação do Estado com aspectos da vida do traba-
lhador, para além da proteção das leis trabalhistas e do
amparo da previdência social;
• controlar e disciplinar o tempo livre do operário;
• formalizar uma experiência de educação não formal do
trabalhador;
• fortalecer física e espiritualmente o operário, de modo a
fazê-lo participar do esforço de guerra – e de produção
no trabalho;
• elevar seu nível cultural (BRÊTAS, 2006).
137 CEDERJ
Aula 7 • O lazer enquanto objeto de estudo no Brasil – Parte I – Estudos precursores
O Serviço de Recreação Operária viria também atender ao
artigo 7º do Decreto-Lei nº 4.298, de 14 de maio de 1942. Previa “a
aplicação do imposto sindical em finalidades culturais e esporti-
vas”. Assim, com vistas à
Melhor consecução dos objetivos visados pelo legislador”,
a portaria nº 68, instituiu o S.R.O. no dia 06 de dezembro de
1943. Justificou a criação deste pela necessidade de um ór-
gão “que coordene os meios de recreação da classe operária,
prestando aos sindicatos sua assistência e colaboração”, e que
funcionaria “junto à ComissãoTécnica de Orientação Sindical”
(SUSSEKIND, 1946, p. 7 apud PEIXOTO, 2008).
O Serviço Social do Comércio
Em 1946, por iniciativa de empresários de comércio e
serviços, foi criado o Serviço Social do Comércio – Sesc –, uma
instituição brasileira com atuação em âmbito nacional e sem fins
lucrativos. A finalidade da entidade é a de promover o bem-estar
social, o desenvolvimento cultural e a melhoria da qualidade de
vida do trabalhador que atua no ramo do comércio e serviços, de
sua família e da comunidade na qual estão inseridos. O Sesc atua
nas áreas de cultura, educação, lazer, saúde e filantropia. Trata-se
de uma entidade que transcende seu âmbito social, pregando va-
lores maiores, como o exercício da cidadania, o amor à liberdade
e à democracia e o apoio aos menos favorecidos, oferecendo-
lhes, através da educação, meios para a conquista de melhores
condições de vida.
A criação do Sesc ocorreu em um momento em que o
Brasil estava num agitado processo de redemocratização, com a
nova Constituição de 1946, porém sob um cenário empobrecido,
atrasado em relação às potências mundiais e, sobretudo, com
fortes conflitos sociais. O Brasil estava repensando as suas
instituições após a sua breve participação na Segunda Guerra
Mundial e com o desafio de construir um novo modelo econômico
CEDERJ 138
Lazer
e social. Com a industrialização, aumentou o processo migratório
para os centros urbanos, agravando a falta de infraestrutura do
saneamento, da saúde, dos transportes, dos sistemas de edu-
cação. Forças políticas e sociais emergentes buscavam ocupar o
espaço de liberdade que os novos tempos traziam. A época em
que a questão social era caso de polícia estava superada, e eram
necessários novos métodos para tratar das relações entre capital
e trabalho. A classe empresarial “mais lúcida” percebeu que
somente o estabelecimento de uma relação harmoniosa entre
as forças produtivas proporcionaria ao país as condições para
superar os graves problemas sociais que este enfrentava.
Com este intuito, foi realizada em 1945 a I Conclap – Primeira
Conferência das Classes Produtoras, na cidade de Teresópolis,
no Rio de Janeiro, resultando na Carta da Paz Social, que deu
forma à filosofia e ao conceito de serviço social, custeado pelo
empresariado. Chegaram à conclusão de que a melhor maneira
de conciliar o crescimento econômico com a justiça social seria
criar um organismo mantido com a contribuição patronal e
dedicado especificamente ao serviço social em benefício do
trabalhador, uma iniciativa inédita em todo o mundo e na história
da relação entre capital e trabalho. A proposta contida na Carta
da Paz Social foi submetida ao Governo Federal sob a presidência
de Eurico Gaspar Dutra, que assinou o Decreto-Lei nº 9.853 de 13
de setembro de 1946, autorizando a Confederação Nacional do
Comércio a criar o Sesc.
Hoje o Sesc está presente em todas as capitais do país e
também em cidades de pequeno e médio porte, muitas vezes
como a única alternativa da população para ter acesso a serviços
de educação, saúde, cultura, lazer e assistência social.
No decorrer desta aula, vamos compreender a grande
contribuição do Sesc no desenvolvimento das práticas e dos
estudos do lazer no Brasil.
139 CEDERJ
Aula 7 • O lazer enquanto objeto de estudo no Brasil – Parte I – Estudos precursores
Estudos precursores
Nesta época, os estudos do lazer eram escassos. A pouca
produção literária pode ser compreendida considerando-se as
características dos centros urbanos da época no Brasil. Segundo
Ferreira (1959):
Em nossas cidades, mesmo naquelas que já adquiriram ca-
racterísticas de grandes centros urbanos, quer pelo volume
populacional, quer pelo desenvolvimento de sua estrutura
econômico-social, o problema de bem ocupar as horas de
lazer ainda não ganhou a consciência dos estudiosos, nem
a dos governantes. (...) Essa indiferença dos educadores,
sociólogos, psicólogos, urbanistas, etc. pelo destino que os
brasileiros dão ao seu tempo livre, deve-se em boa parte –
acreditamos – à inexistência de grandes metrópoles e à au-
sência de várias características das sociedades de massas,
próprias dos países altamente industrializados, onde as co-
notações culturais, econômicas e sociais do tempo de lazer
são naturalmente ostensivas e gritantes. (...) Por outro lado,
a natureza reflexa da nossa cultura deforma, em muitos ca-
sos, a visão dos brasileiros face aos fenômenos surgidos
da realidade nacional. (...) Acontece, porém, que nos países
padrões do sistema cultural em que nos inserimos, ‘tempo é
dinheiro’ e amar a vida no que ela tem de belo e desinteres-
sado uma deformação ou um vício (FERREIRA, 1959).
De acordo com Peixoto (2006), os estudos do lazer desenvol-
veram-se a partir do contexto dos “Anos Dourados” (1955-1960),
acompanhando a sensação de prosperidade experimentada por
todo o mundo após a Segunda Grande Guerra Mundial e na déca-
da de 1950. No final desta década, entretanto, uma onda de greves
por melhores condições de trabalho e melhores salários recebem o
apoio de movimentos estudantis, sendo reprimidas na América Lati-
na pelas ditaduras militares, o que no Brasil correspondeu ao perío-
do de 1964 a 1984. Os estudos do lazer não fizeram referência a esses
conflitos, mantendo o caráter apolítico necessário para suas publica-
ções e a disseminação de preceitos morais e normas de conduta da
burguesia em meio aos embates entre conservadores e modernos.
CEDERJ 140
Lazer
Os “Anos Dourados” também foram tema de uma minissérie
brasileira, escrita por Gilberto Braga e produzida pela Rede Glo-
bo. Foi exibida pela primeira vez em 1986. Além do ótimo texto
e interpretação, a minissérie mostra o ambiente da sociedade
carioca com fidelidade à época, e mistura na trama romance,
aventura e aspectos político-sociais que levam a reflexões inte-
ressantes. Vale a pena conferir a minissérie em DVD, lançado em
2006, pela Editora Globo. Uma boa dica para o final de semana!
Atividade
Atende ao Objetivo 1
1. Analise o contexto histórico no qual se desenvolvem as primei-
ras preocupações sobre o lazer no Brasil e responda: como você
justifica a expressão dos estudos sobre o lazer ter se manifestado
no Brasil somente a partir da década de 1950 (Anos Dourados)
em comparação aos antecedentes europeus?
141 CEDERJ
Aula 7 • O lazer enquanto objeto de estudo no Brasil – Parte I – Estudos precursores
Resposta Comentada
Na resposta deve-se refletir sobre o cenário internacional e suas in-
fluências no ambiente de industrialização e de organização política
e sobre o cenário dos centros urbanos no Brasil, destacando-se os
aspectos que representaram preocupação para os governantes e para
a burguesia, até que encontraram no lazer a solução para a defesa
de seus objetivos. A industrialização brasileira foi tardia em relação
aos antecedentes europeus e, com ela, todo o desenvolvimento dos
centros urbanos e das questões sociais relacionadas ao mundo do
trabalho nas cidades, refletindo na relevância dos estudos do lazer.
Inicialmente questões relacionadas à saúde e ao sanitarismo no es-
paço urbano, seguidas da preocupação com a ocupação dos menores
em relação à violência e ao aumento da pobreza e da conquista de di-
reitos para os trabalhadores deram impulso ao aprofundamento dos
estudos do lazer em âmbito político e empresarial, tendo, assim, o
Sesc como instituição pioneira nas pesquisas no Brasil, contando com
a experiência de Dumazedier.
De acordo com Peixoto (2006), podemos destacar entre as
publicações deste período:
• os trabalhos do professor Frederico Guilherme Gaelzer
sobre a Recreação Pública (1951 e 1952);
• as publicações resultantes da experiência de Arnaldo
Sussekind (1950), que participou da comissão para
a elaboração da Consolidação das Leis do Trabalho
nomeada por Getúlio Vargas, e dirigiu o Serviço de Re-
creação Operária do ministério do Trabalho, assumindo
posteriormente o cargo de ministro do Trabalho no
período de 1964 a 1965. São elas:
– SUSSEKIND, A. Trabalho e recreação: fundamentos,
organização e realizações do Serviço de Recreação
Operária. Rio de Janeiro: Ministério do Trabalho In-
dústria e Comércio, 1946.
– SUSSEKIND, A. Recreação operária. Rio de Janeiro:
Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, 1948.
– SUSSEKIND, A. Duração do trabalho e repousos remune-
rados. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos, S.A., 1950.
CEDERJ 142
Lazer
– SUSSEKIND, Arnaldo; MARINHO, Inezil Penna; GÓES,
Oswaldo. Manual de recreação: orientação dos lazeres
do trabalhador. Rio de Janeiro: Ministério do Trabalho,
Indústria e Comércio, 1952.
• os estudos sobre recreação infantil, de Elisa Velloso
(1952).
• os trabalhos de Dante Costa (1947, 1953), relacionados a
parques infantis, infância e recreação.
• o trabalho de Ruth Gouvêa, publicado pelo Inep sobre
jogos infantis (1955).
• Inezil Marinho e o seu Curso de fundamentos e técnicas
de recreação (1955) e Educação física, recreação e jogos,
em 1957.
• Ethel Bauzer Medeiros, especialista em áreas de recreação
pública, que elaborou o projeto de recreação no Aterro do
Flamengo, no Rio de Janeiro, informalmente inaugurado
em 1965, com a ideia de criar um “parque vivo”. Para
atingir tal objetivo, pediu aos membros do grupo de tra-
balho que definissem espaços específicos para crianças,
adolescentes, adultos e idosos. Sugeriu também que se
evitasse sobrecarregar o espaço do parque com equipa-
mentos. Buscou a criação de muitas áreas sem atividades
predefinidas, para que os usuários, especialmente as
crianças, pudessem sentir-se livres. Entre as suas publi-
cações encontramos o Plano de um manual de recrea-
ção elementar (1954), A importância e a necessidade da
recreação (1957), Recreação e parques públicos (1959) e
alguns catálogos contendo acervos de jogos (1958).
• o Manual de recreação, de N. Pithan e Silva (1959).
• o trabalho do baiano José Acácio Ferreira, O lazer operá-
rio: um estudo de organização social das cidades, publi-
cado em 1959 (PEIXOTO, 2006).
Em O lazer operário (1959), José Acácio Ferreira aborda os
trabalhadores assalariados, no município de Salvador, Bahia, atra-
vés de uma pesquisa empírica, na qual entrevistou 205 famílias,
143 CEDERJ
Aula 7 • O lazer enquanto objeto de estudo no Brasil – Parte I – Estudos precursores
totalizando 597 trabalhadores que recebiam em média um salário
mínimo. A obra é dividida em três partes principais: “importância e
significado do lazer”; “lazer, industrialização e subdesenvolvimen-
to” e “lazer operário”, com destaque final para a importância da
participação mais ativa dos empregados nas atividades de lazer.
Dentre os resultados da pesquisa, observa-se entre os ope-
rários o aparecimento do jogo de dominó e do candomblé como
atividades de lazer. O primeiro, jogado apenas por homens, al-
cança no quadro de frequência a porcentagem de 32,6%, estando
acima do cinema e da dança. A outra atividade (“assistir bater
candomblé”) era comum nas classes mais baixas da população
(18,76%). No entanto, segundo o autor,
É importante advertir que esta frequência não significa cren-
ça, nem participação ativa. Do que podemos colher, ficou-
nos a impressão de que a maioria vai para entreter-se, ver as
danças e comer as iguarias dos santos (FERREIRA, 1959).
Renato Requixa, autor de O lazer no Brasil (São Paulo: Bra-
siliense, 1977), ressalta em sua publicação a importância dessa
obra de José Acácio Ferreira, citando que o autor:
Insiste em que haverá para o indivíduo benefício de natureza
pessoal, bem como uma importante contribuição à coletivi-
dade, pela forma compensatória do lazer, aliviando as tensões
sociais próprias dos tempos modernos. Trata-se de obra do
mais vivo interesse, não apenas histórico, mas documental e
referencial, para todos aqueles que se dediquem ao estudo da
temática do lazer no Brasil, especialmente pela feição cientí-
fica, seriedade e proficiência do trabalho (REQUIXA, 1977).
Posteriormente à publicação dessa pesquisa de José Acá-
cio Ferreira sobre o lazer operário em 1959, dois fatos são rele-
vantes para a evolução do estudo do lazer:
• Primeiramente, destaca-se a palestra do sociólogo José
Vicente de Freitas Marcondes, da Escola de Sociologia e
Política de São Paulo, realizada em 1966 em Recife, inti-
tulada Trabalho e Lazer no Trópico. Marcondes ressalta
CEDERJ 144
Lazer
a importância do lazer no processo de desenvolvimento
da sociedade, tratando do tema associado a diversos ní-
veis de trabalho (doméstico, escravo, indígena, indus-
trial etc.). Sua palestra estimulou a criação, em 1970, do
curso de Pós-Graduação sobre Sociologia do Lazer e do
Trabalho, na Escola de Sociologia e Política de São Pau-
lo, sob sua coordenação (REQUIXA, 1977).
• O segundo fato é a publicação, em 1968, do livro Lazer e
cultura, por João Camilo de Oliveira. A obra, de caráter teó-
rico, caracteriza a cultura de massa e, segundo Requixa
(1977), está dividida em duas partes principais: na primei-
ra, de sentido mais histórico, estabelece as relações entre
o ócio e o negócio e as maneiras pelas quais os homens
levaram em consideração essas relações. Na segunda,
estuda alguns problemas ligados ao lazer, a partir do seu
entendimento como uma verdadeira revolução, originá-
ria da própria evolução da vida humana (GOMES, 2004).
A influência de Dumazedier nos estudos do
lazer no Brasil
Em termos gerais, a literatura científica nacional foi in-
fluenciada por questões internacionais e, principalmente, pela
presença de Dumazedier em seminários internos promovidos
pelo Serviço Social do Comércio em São Paulo e em diversas
localidades por outras instituições. Dumazedier veio várias vezes
ao país, no período de 1961 a 1963, a convite da Universidade de
Brasília, do Movimento de Cultura Popular da cidade de Recife e
das autoridades eclesiásticas de Pernambuco.
Vejamos algumas considerações semelhantes entre a visão
de Dumazedier e dos estudiosos do lazer no Brasil:
O sociólogo Renato Requixa define o lazer como uma “ocu-
pação não obrigatória, de livre escolha do indivíduo que a vive,
e cujos valores propiciam condições de recuperação psicosso-
mática e de desenvolvimento pessoal e social” (Requixa apud
Marcellino, 2000, p. 25).
145 CEDERJ
Aula 7 • O lazer enquanto objeto de estudo no Brasil – Parte I – Estudos precursores
Em suas definições, Dumazedier e Requixa colocam, ao
mesmo tempo, o que entendem por funções do lazer: o descan-
so, tanto físico quanto mental; o divertimento, como superação
da monotonia cotidiana exercida pelas tarefas obrigatórias; e o
desenvolvimento da personalidade e da sociabilidade. É impor-
tante verificarmos que ambos distinguem lazer de ócio − uma
vez que entendem o lazer como ocupação; deixam clara a noção
de tempo, mais especificada no conceito de Dumazedier, não se
restringindo à consideração de tempo e atividade pura e sim-
plesmente, mas especificando-os em termos de valores, como
opostos ao trabalho e às outras esferas de obrigações.
Para Luiz Octávio Camargo (1986), o lazer é:
(...) conjunto de atividades gratuitas, prazerosas, voluntárias
e liberatórias, centradas em interesses culturais, físicos, ma-
nuais, intelectuais, artísticos e associativos, realizadas num
tempo livre, roubado ou conquistado historicamente sobre
a jornada de trabalho profissional e doméstico e que inter-
ferem no desenvolvimento pessoal e social dos indivíduos
(CAMARGO, 1986, p. 97).
Camargo reforça a característica de as atividades de lazer
serem voluntárias, gratuitas − no sentido de não remuneradas e
desvinculadas do trabalho profissional ou doméstico, apontando
um elemento importante ao afirmar que o lazer é uma conquista
vinculada à jornada de trabalho/tempo livre.
Já Nelson Carvalho Marcellino (1987) define lazer como
sendo:
(...) a cultura − compreendida no seu sentido mais amplo
− vivenciada (praticada ou fruída) no “tempo disponível”.
É fundamental, como traço definidor, o caráter “desinte-
ressado” dessa vivência. Não se busca, pelo menos basi-
camente, outra recompensa além da satisfação provocada
pela situação. A “disponibilidade de tempo” significa possi-
bilidade de ocupação pela atividade prática ou contemplati-
va (MARCELLINO, 1987, p. 33).
CEDERJ 146
Lazer
Em sua definição, Marcellino amplia a concepção do lazer
como cultura e reforça o caráter “desinteressado”, ou melhor, de-
sobrigado ou livre do lazer, em busca da satisfação durante o
tempo disponível. Sua definição enfatizará mais tarde a impor-
tância de uma ação e de uma política voltadas para a produção
e difusão do lazer como uma prática social extensiva para além
das minorias privilegiadas.
Para os estudiosos Dumazedier (2001) e Marcellino (2000),
todas as atividades em que prevalecem o movimento ou o
exercício físico, incluindo as diversas modalidades esportivas,
constituem a classificação do lazer físico. Dumazedier enquadra
também as viagens nos lazeres físicos, pois, segundo o autor,
requerem esforço físico (SENFFT, 2004).
Atividade
Atende ao Objetivo 3
2. Analise e destaque as influências do pensamento de Joffre Du-
mazedier nos conceitos de lazer elaborados por Renato Requixa, Luiz
Octávio Camargo e Marcellino e elabore a sua definição para lazer.
147 CEDERJ
Aula 7 • O lazer enquanto objeto de estudo no Brasil – Parte I – Estudos precursores
Resposta Comentada
De modo geral, as funções do lazer identificadas como “os 3`D’s” de
Dumazedier se manifestam entre os estudiosos do lazer no Brasil,
cada um agregando interpretações pessoais sobre o conceito deste
autor. Requixa destaca a função compensatória do lazer para a recu-
peração psicossomática dos indivíduos frente ao cotidiano; Camar-
go aponta um elemento importante quando afirma que o lazer é uma
conquista vinculada à jornada de trabalho/tempo livre. Já Marcellino
amplia a definição do lazer como uma cultura produzida ou fruída
em busca da satisfação pessoal, que tenderá, para o autor, a ser um
direito de todos. O lazer pode ser entendido como as ocasiões em
que os indivíduos se dedicam a atividades não obrigatórias em bus-
ca de sua satisfação pessoal através do descanso, da diversão ou de
práticas que lhe proporcionem desenvolvimento pessoal ou social.
O seminário sobre o lazer: perspectivas para
uma cidade que trabalha
Com o propósito de discutir a temática do lazer no Brasil
junto a pesquisadores e estudiosos do assunto, o Sesc de São
Paulo e a Secretaria de Bem-Estar do município promovem o
Seminário sobre o lazer: perspectivas para uma cidade que tra-
balha, realizado entre os dias 27 e 30 de outubro de 1969.
Esse seminário confirmava a proposição do lazer como
produto do processo de desenvolvimento industrial. Segundo
Requixa (1997):
(...) é na cidade de São Paulo, a mais industrializada cidade
do país, onde o aspecto trabalho apresenta íntima conexão
com a própria vida da cidade, que o lazer como tema haveria
de impor-se, como aconteceu, com significativa importância.
Assim, o lazer, como problema geral, emerge à consciência
social brasileira nesse momento, e vai adquirindo progressi-
va importância social e política no país (REQUIXA , 1997).
CEDERJ 148
Lazer
Renato Requixa salientou na conferência de abertura do
seminário um breve panorama histórico e a importância do la-
zer no mundo contemporâneo, analisou a validade dos estu-
dos do lazer nos países em desenvolvimento, examinando sua
conceituação, as características das atividades e suas funções,
conforme a linha de pesquisa de Dumazedier. Propôs algumas
possibilidades, decorrentes da sua experiência profissional no
Sesc, ressaltando a educação através do lazer e a necessidade
da educação para o lazer.
Cerca de 250 pessoas participaram deste seminário, estrutu-
rado em três painéis e seis grupos de estudos. Os painéis tiveram
como temas: “As necessidades de lazer na cidade de São Paulo”;
“O planejamento de áreas verdes e de recreação” e “Formação e
treinamento de pessoal para programas de lazer”. Já os grupos de
estudos debateram questões relativas ao lazer da criança, do ado-
lescente, do adulto e da terceira idade, além dos movimentos cultu-
rais e da participação dos bairros na promoção do lazer municipal.
Além de ampla repercussão entre os diferentes profissio-
nais associados ao lazer, o evento representou uma “afronta” à
corrente teórica contrária à existência de estudos e pesquisas so-
bre o tema, cujo embate da problemática no Brasil refletia, em
parte, as tendências internacionais.
Luiz Octávio de Lima Camargo, favorável à linha de pes-
quisa de Dumazedier , tendo este sido seu orientador durante
seu doutorado na Faculdade de Ciências da Educação da Univer-
sidade Sorbonne-Paris V, vislumbra a correlação do lazer com o
contexto histórico brasileiro, por meio da apresentação de argu-
mentos sob dois “lados”:
• Do lado favorável ao tema estavam o Sesc e os represen-
tantes minoritários de alguns setores públicos, sobretu-
do urbanistas, que não se conformavam com a morte
do centro histórico e a degradação dos espaços urba-
nos. Também estavam professores de educação física
e recreadores escolares, que se sentiam marginalizados
em face da tônica dominante na escola. Os argumentos
149 CEDERJ
Aula 7 • O lazer enquanto objeto de estudo no Brasil – Parte I – Estudos precursores
favoráveis eram bastante tímidos e remetiam a algumas
das preocupações exibidas cem anos antes por Lafar-
gue: Como viver apenas de trabalho? Como descansar,
se não há lazer? Como lidar com populações carentes, a
não ser através de atividades lúdicas?
• De outro lado, contrários ao tema estavam os empresá-
rios, os “donos” do trabalho, a parcela majoritária dos
assistentes sociais e outros profissionais que se dedica-
vam ao cuidado das populações carentes em parceria
inusitada com a sociologia estabelecida, sobretudo da
USP e da PUC. Os argumentos contrários não eram nada
tímidos e estavam associados a questões dogmáticas na
época, tais como:
– O lazer era considerado um tema que desviava a aten-
ção diante dos graves problemas da nossa sociedade
de então, como a tortura de opositores ao regime, a
fome, o desemprego etc.
– Dizia-se que as pessoas tinham preocupações mais
importantes do que o lazer. Utilizavam a recente teoria
das necessidades básicas de Maslow, concluindo que
o lazer seria supérfluo, pois não estava relacionado
entre as necessidades básicas humanas.
– A terceira objeção era mais sutil e dizia respeito à chama-
da “cultura da pobreza”. De que adiantava falar em lazer
para populações que mostravam pouca disposição até
mesmo para se divertir? O lazer combina com uma cul-
tura da pobreza? Este argumento está baseado em uma
pesquisa do antropólogo americano Oscar Lewis junto a
uma família de favelados da cidade do México, publica-
da no livro Os filhos de Sanchez. Nele a noção de cultura
da pobreza descrevia uma síndrome que associava, em
populações pobres, baixa capacidade de iniciativa e bai-
xa autoestima a conformismo e descrença na existência.
A pobreza, mais do que carência de bens materiais, seria
o caldo e o fermento dessa cultura (CAMARGO, 2003).
CEDERJ 150
Lazer
As reações negativas ao seminário eram ditadas pela ótica
de Requixa (1977):
(...) ou por idéias preconceituosas inconsistentes contra um
consumo de tempo introjetado como hedonista e, portanto,
ofensivo a um tipo de moral mais puritana voltada para a va-
lorização do trabalho; ou por posições conscientemente as-
sumidas contra algo que parece contrariar dois valores fun-
damentais – a cultura e o trabalho; ou por desconhecimento
da própria funcionalidade do lazer, o que certamente faria
superar muitos preconceitos relativos a uma pretensa inutili-
dade ou futilidade do lazer; ou, finalmente, por ignorância de
um fato social emergente no mundo moderno e que se vem
afirmando cada vez mais, independentemente de ideologias
ou de estágios de desenvolvimento, e que é um novo huma-
nismo, essencialmente valorizador da importância de satisfa-
ção de necessidades humanas de expressão de si mesma, e
que encontram abrigo na prática de atividades de lazer.
Camargo (2003) cita o pensamento de Requixa e contextua-
liza tais divergências teóricas, considerando que as sociedades
urbanas apresentavam três estágios em relação à compreensão
sobre a temática do lazer:
• Num primeiro momento, negam a questão, através de
diferentes argumentos.
• Num segundo, o tema do lazer “é percebido como im-
portante em face do seu potencial terapêutico em rela-
ção a outras problemáticas urbanas, ou seja, dentro de
um sentido instrumental”.
• E apenas num terceiro momento, “percebe-se que o la-
zer é importante em si mesmo”.
Esses estágios, do ponto de vista sociológico, refletem o
processo de urbanização e de industrialização de todas as socie-
dades capitalistas que, competitivas, desenvolverão os padrões e
estratégias para a qualidade total com a otimização de recursos
(GOMES, 2004).
Ao avaliar o Seminário sobre o lazer: perspectivas para
uma cidade que trabalha, Requixa (1977) destaca como principais
resultados positivos do evento:
151 CEDERJ
Aula 7 • O lazer enquanto objeto de estudo no Brasil – Parte I – Estudos precursores
• A valorização profissional, pessoal e social do grande
número de pessoas que trabalhavam como profissionais
ou como voluntários em obras sociais, que passaram a
sentir a importância do trabalho que realizavam no cam-
po do lazer.
• O conhecimento recíproco de diversas obras sociais e
consequentemente troca de experiências.
• A promoção do tema lazer junto ao grande público, atra-
vés da imprensa, que apresentou farto noticiário a res-
peito dos assuntos tratados.
• Chamou-se a atenção dos próprios trabalhadores sociais
para uma nova forma de trabalho social, através das ati-
vidades de lazer, com todas as suas possibilidades in-
suspeitadas.
• A ampliação da concepção do lazer concernente a todas
as faixas etárias, não se confundindo apenas com ativi-
dades infantis.
• Os desdobramentos, despertando o interesse de outras
regiões brasileiras para a realização de novos seminá-
rios sobre o lazer.
• Na Secretaria do Bem-Estar Social da Prefeitura de São Pau-
lo, imediatamente após o seminário realizaram-se treina-
mentos intensivos para voluntários em programas de lazer.
• A partir do seminário, houve maior compreensão relativa
às programações de lazer do Sesc e mais predisposição
comunitária para a colaboração com tais programações.
• Profissionais e voluntários das programações do Sesc,
que participaram do seminário, sentiram-se mais enco-
rajados para novas experiências práticas, como as “ma-
nhãs, tardes e noites de recreio”.
• A própria palavra “lazer” passou a fazer parte do voca-
bulário de profissionais da área do social e integrou-
se, com destaque, no vocabulário da imprensa (GO-
MES, 2004).
CEDERJ 152
Lazer
O lazer empresarial
A compreensão do novo papel social das empresas, com
base na competência e na qualidade, requer a adoção de técnicas
para o desenvolvimento de todas as potencialidades do traba-
lhador. Muitas empresas estão percebendo a adequação do lazer
para o desenvolvimento da comunicação, da sociabilidade, da vi-
vência em grupo, entre tantos outros benefícios do lazer empre-
sarial, que pode ser considerado uma estratégia para o desenvol-
vimento informal de recursos humanos (MARCELLINO, 1995).
O Sesc foi pioneiro no Brasil, tanto nos estudos quanto na
oferta de programas de lazer para os trabalhadores do setor de
serviços e seus familiares. Estimula o lazer como parte de um
conjunto de medidas para a melhoria da qualidade de vida.
Os trabalhadores da indústria passaram a ter esses pro-
gramas através do Sesi, que possui hoje a maior estrutura de
lazer empresarial do país e constituiu-se referência em lazer para
a América Latina. Pioneiro em atividades de lazer no ambiente
de trabalho, há mais de dez anos incentiva programas de lazer
nas indústrias. Os programas consistem em diversas atividades
esportivas e socioculturais.
O Sesi estimula as empresas a oferecer programas de la-
zer no próprio ambiente de trabalho, em razão da potencialidade
dessas atividades na geração de benefícios como: manutenção da
saúde ocupacional e prevenção do estresse, melhoria do rendi-
mento funcional, redução do número de acidentes de trabalho,
diminuição dos gastos com despesas médicas, melhoria das rela-
ções humanas e de trabalho e aumento da produtividade, desen-
volvendo, ainda, a criatividade e contribuindo para a criação de
um ambiente laboral harmonioso e participativo (AGUIAR, 2000).
Assim, verificamos no Brasil a inserção e evolução do lazer
como tema transversal de relevância nos debates e estratégias re-
lacionados ao planejamento urbano, aos programas de assistên-
cia social e, sobretudo, no campo empresarial, recurso este que
promove a qualidade total não só para os produtos e serviços,
153 CEDERJ
Aula 7 • O lazer enquanto objeto de estudo no Brasil – Parte I – Estudos precursores
mas também para a vida pessoal e profissional dos trabalhado-
res. Esse entendimento proporcionará o aprofundamento das
pesquisas e a inclusão dos princípios da sociologia do lazer em
diferentes áreas do conhecimento, tais como saúde, educação,
turismo, administração e urbanismo.
Atividade Final
Atende aos Objetivos 2 e 3
Identifique o contexto e a finalidade da criação do Sesc e a sua
importância para o desenvolvimento dos estudos do lazer e de
implantação do lazer empresarial nos dias atuais.
Resposta Comentada
A criação do Sesc ocorreu em um momento paralelo à Constituição
de 1946 e em meio a conflitos nacionais e internacionais estabeleci-
dos entre a defesa dos interesses do capitalismo e as lutas de classes,
particularmente a dos trabalhadores. Como associação empresarial
pioneira, no Sesc destacam-se os primeiros pesquisadores do lazer
no Brasil sob influência direta de Dumazedier, que buscavam refletir
sobre a realidade brasileira, antecipando-se a questões já vivencia-
das pelos países mais desenvolvidos àquela época. O Sesc promo-
veu os principais encontros e publicações para o aprofundamento
dos estudos do lazer. Levou à compreensão e aplicação do conceito
do lazer empresarial, visando não só ao aumento da produtividade,
mas também à qualidade de vida do trabalhador.
CEDERJ 154
Lazer
Resumo
Verificamos nesta análise inicial sobre o contexto histórico no
qual se desenvolvem os estudos do lazer no Brasil que:
• O lazer se caracteriza como um “problema” no século XX,
à medida em que emerge dos reflexos dos processos de in-
dustrialização e de migração para os centros urbanos. Isso
fragiliza a infraestrutura urbana de saneamento, moradias,
transportes etc., bem como a estrutura social quanto à ofer-
ta de sistemas de educação, saúde, cultura.
• “O problema do lazer” surge como fenômeno da modernida-
de, sofrendo influências do cenário internacional. É tratado no
Brasil por duas frentes: como meio de educação não formal
para os menores e como estratégia de conformação da classe
operária aos interesses do capital defendidos pela burguesia,
mostrando-se vital para amenizar as tensões entre os interes-
ses dos donos dos meios de produção e os trabalhadores que
lutavam por melhores salários e condições de trabalho.
• As primeiras publicações sobre lazer se concentram em te-
mas como receitas de jogos e recreação em âmbito peda-
gógico. Evoluem na medida em que o tema se amplia para
áreas de interesse público, relacionadas às experiências de
órgãos públicos e privados voltados a atender os preceitos
da Constituição de 1946.
• A criação do Sesc impulsiona os debates sobre o lazer, que
têm como referência a produção de Joffre Dumazedier,
influenciando a concepção de lazer entre os primeiros es-
tudiosos no Brasil. Particularmente a partir do Seminário
sobre o lazer: perspectivas para uma cidade que trabalha,
realizado no ano de 1969, em São Paulo.
Informação sobre a próxima aula
Na próxima aula, iremos abordar as bases da cientificidade
do lazer no Brasil através dos eventos, teóricos, pesquisas e gru-
pos de pesquisa desenvolvidos pelas instituições de educação
superior no Brasil. Informação sobre a próxima aula
155 CEDERJ
Aula 7 • O lazer enquanto objeto de estudo no Brasil – Parte I – Estudos precursores
Leituras recomendadas
BRÊTAS, Ângela. Trabalho e recreação: uma visão panorâmica
dos fundamentos, da organização e das realizações do Serviço
de Recreação Operária (1943-1945). Revista Esboços v. 13, n. 16,
2006, disponível em: <http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/
esbocos/article/view/131/182>. Acesso em: 31 ago. 2010.
PEIXOTO, Elza M. de M. Primeiro ciclo dos estudos do lazer no Bra-
sil: contexto histórico, temáticas e problemáticas. 2006. Disponível
em: <www.histedbr.fae.unicamp.br/acer_histedbr/jornada/jornada8/
txt_compl/Elza%20Peixoto.doc>.Acesso em: 31 ago. 2010.
CEDERJ 156
O lazer como objeto de estudo no Brasil
8 – Parte II – Bases científicas e consolida-
ção das pesquisas em lazer no Brasil
Cristina Marques Gomes / Simone Dantas
Meta da aula
Apresentar as bases científicas e a consolidação
das pesquisas em lazer no Brasil, seus principais
pesquisadores, núcleos de pesquisa e eventos
contemporâneos.
Objetivos
Esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula,
você seja capaz de:
1 identificar os principais grupos de pesquisa e áreas
temáticas, seus pesquisadores, publicações e eventos
da área na atualidade;
2 identificar os principais periódicos e revistas científicas
sobre lazer;
3 analisar alguns grupos que desenvolveram projetos de
extensão universitária, relacionados ao lazer de comu-
nidades carentes, como é o caso do Núcleo de Estudo e
Apoio à Recreação Comunitária (NEARC), da UFSM.
Aula 8 • O lazer como objeto de estudo no Brasil – Parte II – Bases científicas e consolidação das pesquisas
em lazer no Brasil
Introdução
Para compreender esta aula, você deverá ter assimilado os pre-
cedentes aos conhecimentos do lazer como objeto de estudo
no Brasil. As experiências e os estudos iniciais, dos quais trata-
mos na aula anterior, evoluíram para bases científicas através
da formação de grupos de pesquisa criados em diferentes áreas
do conhecimento nas instituições de ensino superior do país. A
metodologia para as pesquisas foi desenvolvida sob novos con-
ceitos, cada vez mais adequados à realidade da sociedade brasil-
eira, ultrapassando em muito as questões iniciais que relaciona-
vam o problema do lazer às tensões entre os trabalhadores e os
meios de produção. Além do lazer empresarial, amadurecem as
perspectivas do lazer nos espaços públicos, na natureza, através
das viagens e do desenvolvimento da atividade e do fenômeno
turístico, além das perspectivas sobre a indústria do entreteni-
mento emergente.
Iremos abordar nesta aula uma série de iniciativas, teóricos, pes-
quisas e eventos que contribuíram, sobremaneira, para a forma-
ção das bases científicas do lazer no Brasil até a consolidação das
pesquisas nos dias atuais.
Bases científicas do lazer
As diretrizes de ações do Sesc em relação ao lazer se in-
tensificaram a partir da realização, no mesmo ano, do Seminário,
em São Paulo (1969), da IV Convenção Nacional de Técnicos da
instituição no município de Petrópolis (RJ). Em 1970 uma série
de encontros foi realizada, dentre eles: o segundo Seminário de
Estudos sobre o Lazer, em junho, na cidade de Campinas (SP). A
palestra Lazer e Desenvolvimento, da Secretaria dos Serviços So-
ciais em Brasília (DF). O Seminário sobre Lazer, patrocinado pela
Secretaria da Promoção Social do Estado de São Paulo, em São
José dos Campos (SP). O Seminário sobre Lazer, em novembro,
no Estado da Guanabara (hoje Rio de Janeiro), com o apoio do
CEDERJ 158
Lazer
Sesc. Além desses eventos, Freitas Marcondes publica o artigo
“Trabalho, Lazer e Educação” na revista Problemas Brasileiros no
mesmo ano (REQUIXA, 1977, p. 98).
São estudos importantes deste período:
• a pesquisa de orçamento-tempo, do sociólogo Amauri
de Souza, da UERJ;
• a pesquisa Práticas e aspirações culturais no tempo livre
da população de uma cidade média, realizada pelo Sesc
em Americana (SP), sob coordenação de Luiz Octávio de
Lima Camargo, que pretendia estabelecer uma base de
estudos comparados com a pesquisa desenvolvida por
Dumazedier em Annecy;
• a pesquisa Práticas de fim de semana da população do
Estado da Guanabara, dirigida pelo sociólogo Carlos Al-
berto Medina, do extinto Centro Latino-Americano de
Pesquisa Social – Celapes (CAMARGO, 2003).
O Sesc organiza um grupo de estudos e pesquisas denomina-
do Centro de Estudos do Lazer (Celazer), que a partir de 1970 contou
com a orientação de Dumazedier. A instituição promove a publica-
ção de diversas obras na área que contribuem diretamente para o
registro do “pensamento” sobre o lazer na literatura nacional.
Renato Requixa dá sequência à sua produção, ampliando
os temas de abrangência do lazer. Em 1971, publica dois artigos
na revista Problemas Brasileiros, tendo como tema Esporte, ati-
vidade de lazer e Conceito de lazer. Em 1973, pelo Sesc , publica
Lazer e ação comunitária; e em 1974, Lazer na grande cidade, Es-
paços urbanizados e o livro As dimensões do lazer. Neste último,
o autor inicia seu discurso com a relação de interdependência
entre o trabalho e o lazer, contextualizando o desenvolvimento
histórico e conceitual de ambos. São discutidas questões relati-
vas ao processo de industrialização, urbanização e a consequente
expansão do tempo livre dos trabalhadores. Em outro momento,
apresenta o assunto pela ótica dos países em desenvolvimento,
apontando algumas funções do lazer, como a educativa, que vem
associada à importância deste no mundo contemporâneo.
159 CEDERJ
Aula 8 • O lazer como objeto de estudo no Brasil – Parte II – Bases científicas e consolidação das pesquisas
em lazer no Brasil
Segundo Requixa (1974),
As concepções a respeito do lazer são relativamente recentes
e as condições históricas que as criaram são fatos novos no
mundo contemporâneo. O tempo livre e sua ampliação con-
stante fez irromper uma importante revolução social, cujo
processo se inicia, oferecendo um campo novo e disponível
para a reflexão sociológica. Se é a civilização do lazer que
se vem impondo, é de inferir-se a importância crescente de
estudos e pesquisas sobre o tema. O lazer, dessa forma,
passa a ser importante objeto de conhecimento entre os in-
teressados em assuntos de natureza social.
Requixa destaca dois conceitos de lazer como sendo mais
importantes para os estudos da área: o de Joffre Dumazedier em sua
obra Vers une civilization du loisir?, publicada originalmente em 1972,
e o de Normas P. Miller e Duane M. Robinson, no trabalho intitulado
Le nouvel age des loisirs e citado por Requixa em As dimensões do
lazer em 1974. Para Dumazedier, como já vimos, o lazer é:
Um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode en-
tregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para di-
vertir-se, recrear-se e entreter-se, ou ainda, para desenvolver
sua informação ou formação desinteressada, sua participa-
ção social voluntária ou sua livre capacidade criadora após
livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais,
familiares e sociais (DUMAZEDIER, 2004, p. 34).
Para Normas P. Miller e Duane M. Robinson, o lazer é:
Um conjunto de valores de desenvolvimento e enriqueci-
mento pessoais alcançados pelo indivíduo, utilizando o
tempo de lazer, graças a uma escolha pessoal de atividades
que o distraiam (REQUIXA ,1974 apud MARQUES, 2004).
Ao comparar tais conceitos, Requixa considera o de Duma-
zedier mais completo por referir-se a um conjunto de ocupações,
de atividades para desenvolver-se e não apenas uma conjunto de
valores. Embora a referência aos valores do lazer, proposta por
Miller e Robinson, seja importante para a compreensão de seu
CEDERJ 160
Lazer
conceito, Dumazedier é mais explícito ao referir-se a um conjunto
de atividades, sendo os valores de desenvolvimento e enriqueci-
mento pessoal uma essência em ambos os conceitos.
Assim, Requixa compõe seu próprio conceito de lazer como
sendo “uma ocupação não obrigatória, de livre escolha do indivíduo
que a vive e cujos valores propiciam condições de recuperação
psicossomática e de desenvolvimento pessoal e social” (REQUIXA,
1974), a partir da análise de cada um dos elementos que compõem
os conceitos anteriores: a distinção entre lazer e ócio; o lazer como
ocupação não obrigatória, o elemento livre escolha da atividade, o
entendimento dos valores do lazer (valores institucionalizados, de
ideias e coisificados); os elementos de recuperação psicossomática,
desenvolvimento pessoal e social alcançáveis através da prática do
lazer (REQUIXA, 1974).
Paralelamente a estes trabalhos desenvolvidos por Requi-
xa no Centro de Estudos do Lazer (Celazer) do Sesc, no ambiente
acadêmico, uma reunião entre os reitores das universidades bra-
sileiras é realizada em Fortaleza (CE) no ano de 1972, com o ob-
jetivo de discutir aspectos do lazer e sua inserção nos programas
de extensão universitária.
O que é extensão universitária?
A extensão universitária é o processo educativo, cultural e científico
que articula o ensino e a pesquisa de forma indissociável e viabiliza a
relação transformadora entre a universidade e a sociedade.
A extensão é uma via de mão dupla, com trânsito assegurado à co-
munidade acadêmica, que encontrará, na sociedade, a oportunidade
de elaboração da praxis de um conhecimento acadêmico. No retorno
à universidade, docentes e discentes terão um aprendizado que, sub-
metido a reflexão teórica, será acrescido àquele conhecimento.
Esse fluxo, que estabelece a troca de saberes sistematizados, aca-
dêmico e popular, terá como consequência a produção do conheci-
mento resultante do confronto com a realidade brasileira e regional,
a democratização do conhecimento acadêmico e a participação efe-
tiva da comunidade na atuação da universidade.
Além de instrumentalizadora deste processo dialético de teoria/
prática, a extensão é um trabalho interdisciplinar que favorece a
visão integrada do social.
161 CEDERJ
Aula 8 • O lazer como objeto de estudo no Brasil – Parte II – Bases científicas e consolidação das pesquisas
em lazer no Brasil
O sociólogo Gilberto Freyre, em seu livro Além do apenas
moderno, publicado em 1973, reúne conferências realizadas na Uni-
versidade de Brasília no ano de 1966, reunidas em catorze ensaios
com conceitos sobre pós-modernidade, interdisciplinaridade e or-
ganização do lazer, sendo um deles intitulado “Aspectos de relações
atuais entre trabalho e lazer que se projetam para o futuro”.
Em 1973, na cidade de Porto Alegre, foi criado o Centro de
Estudos de Lazer e Recreação (Celar), na PUC-RS, em parceria
com a Prefeitura Municipal para inicialmente atender à demanda
de recursos humanos especializados na área para atuarem nos
“Centros de Comunidade” do município. A proposta da Univer-
sidade era a criação de uma faculdade ou escola de lazer, para
tanto, o reitor nomeou um grupo de trabalho, que veio a desen-
volver o referido Centro de Estudos (TOTTA, 1975).
Em setembro de 1975, Dumazedier ministra um curso no
Celar, para graduandos e professores universitários, sobre o
tema Teoria do Lazer. O discurso do pesquisador foi transcrito
e publicado com o título Questionamento Teórico do Lazer, sob
coordenação de Lúcia Castillo.
O livro é composto de cinco partes e inicia-se com o item
“questionamentos teóricos”, no qual o autor discursa sobre:
O que é um questionamento teórico? O que é a teoria numa
sociologia da educação e, de maneira geral, nas ciências do
lazer? Por que o questionamento teórico me parece mais
importante do que a teoria? (...) Porque acredito que é o
melhor meio para que a teoria seja associada à prática. É o
melhor meio para que as questões da prática conduzam às
respostas teóricas. É o melhor meio para que as respostas
teóricas conduzam ao questionamento da prática. Porque
o questionamento da teoria é a melhor maneira de evitar a
abstração (DUMAZEDIER, 1975 apud GOMES, 2004).
Para o autor, havia uma teoria mais geral do que a teoria
do lazer – a “Teoria da Decisão”, que articulava três tipos de pen-
samento: o pensamento axiológico; o pensamento teleológico
instrumental; o pensamento probabilístico. O primeiro responde
CEDERJ 162
Lazer
à pergunta: Por que é preciso fazer isto? Em nome de que valo-
res, de que filosofia, de que concepção do mundo? O segundo
é o pensamento das finalidades e dos meios: Quais são os ob-
jetivos da recreação? Quais são os métodos ou os meios para
realizar estes objetivos? E o último responde à questão: Qual é,
provavelmente, a situação em que eu ajo e que age sobre mim e
quais são os resultados prováveis que poderei obter?
Em outras palavras, o pensamento axiológico é o pen-
samento do que é desejável; o pensamento teleológico
instrumental é o pensamento do que é possível; e o pen-
samento probabilístico é o pensamento do que é provável,
antes e depois da intervenção, isto é, o pensamento proba-
bilístico examina as necessidades prováveis a satisfazer e
quais os resultados prováveis a obter (DUMAZEDIER, 1975
apud GOMES, 2004).
A segunda parte do relato de Dumazedier é sobre os “fun-
damentos histórico-sociológicos do lazer”, englobando a dinâmi-
ca técnico-econômica, social e cultural da produção do lazer, pas-
sando também pela transformação do tempo liberado. O terceiro
capítulo versa sobre os “fundamentos axiológicos do lazer”. No
início deste texto, o autor caracteriza a estrutura de “preconcei-
tos” existentes em relação ao lazer:
O que conta é o esforço, o trabalho, para não ser parasita, para
não desperdiçar o dinheiro, para economizá-lo. Por muito
tempo, o lazer, em certos meios católicos, foi considerado
como uma fonte de desperdício, por oposição ao valor da
economia (GOMES, 2004).
Dumazedier (1975) exemplifica ainda que se podem
encontrar as mesmas resistências por parte da ética marxista,
dividida em duas correntes: aquela que dá importância maior
ao trabalho produtor das relações sociais e meio privilegiado de
formar o homem; e a outra, que acentua mais o tempo fora do
trabalho como um produto do progresso do próprio trabalho,
como o direito “à preguiça”. Mas existe um pensamento que é
163 CEDERJ
Aula 8 • O lazer como objeto de estudo no Brasil – Parte II – Bases científicas e consolidação das pesquisas
em lazer no Brasil
frequentemente retomado por defensores do lazer na filosofia
do trabalho: “O trabalho é o império da necessidade; é fora dele
que começa a liberdade”. Este texto de Marx está em O Capital
e foi depois retomado por Lafargue, que toma o exemplo de
Deus. Para ele, um materialista, Deus era o próprio modelo da
preguiça ideal: “Jeová, este Deus barbudo e carrancudo, dá a
seus adoradores o supremo exemplo da preguiça ideal, depois
de seis dias de trabalho repousou para a eternidade”.
Em Paris, quaisquer que sejam as escolas, a maior parte dos
marxistas que conheço, como Pierre Naville, por exemplo,
não aceitam dar importância ao lazer na vida. Vêem nisso
possibilidade de evasão, de traição do trabalho. No entanto,
apesar dessas resistências, existe um progresso de valores
que eu chamaria de valores totalitários do trabalho, em
todas as sociedades industriais avançadas ou em vias de
desenvolvimento. Cada vez mais não se considera o lazer
como um meio de melhor trabalhar, mas há uma tendência
de inverter os valores. Para a maioria das pessoas que não
têm um trabalho criativo e altamente responsável, o trabalho
torna-se um meio de viver bem e, no viver bem, existe uma
arte de viver o seu tempo livre: a arte do lazer. E isto é válido
tanto em Moscou como em Paris, em São Paulo, como em
New York (DUMAZEDIER, 1975, apud GOMES, 2004).
Ainda no terceiro capítulo, Dumazedier aborda os valores
do trabalho profissional, do trabalho escolar, da religião, da po-
lítica e do lazer. Na quarta parte, o tema tratado é o “sistema de
intervenção sociocultural no lazer”, através de debates sobre a
ideologia, os valores setoriais e os critérios de ação, analisando
a significação, o conteúdo e a democratização das atividades de
lazer (para quem são as atividades de lazer, e qual a justificativa
deste sistema de intervenção, no equilíbrio social de uma cida-
de?). Em seguida, o pesquisador trata dos meios de concretização
de uma política do lazer (com o quê realizar esta política do lazer
e como essas reflexões sobre esse “com o quê” revelam uma das
dimensões da teoria do lazer contemporâneo?) e de uma política
CEDERJ 164
Lazer
de animação cultural. Respondendo às perguntas dos participan-
tes no curso, Dumazedier acrescenta, na última parte, alguns es-
clarecimentos sobre os temas abordados na época.
Outras iniciativas foram organizadas pelo Celar em parce-
ria com a Prefeitura Municipal de Porto Alegre, com o objetivo de
promover a educação para o lazer. Para tanto, a estrutura organiza-
cional do grupo era composta por departamentos interligados de
formação, difusão, pesquisa e administração. A equipe de forma-
ção era responsável por instrumentalizar profissionais para a área,
sendo uma de suas realizações a criação de um curso de Especiali-
zação em Lazer (pós-graduação – lato sensu) em 1974.
Com relação às ações do Governo Federal, as primeiras
iniciativas claras sobre o lazer surgem:
(...) por ocasião da criação da Comissão Nacional de Regiões
Metropolitanas e Política Urbana – CNPU, em 5 de junho de
1974 (...) A estratégia deverá obedecer a diversas diretrizes,
entre as quais chama a atenção a que trata do “disciplina-
mento da urbanização da orla marítima regional, em decor-
rência das atividades ligadas ao turismo e ao lazer, bem como
a preservação das cidades históricas e o apoio às infraestru-
turas das estâncias hidrominerais”. Isto no caso da região Su-
deste. Para a região Sul, “o disciplinamento do processo de
urbanização das áreas litorâneas e interiorizadas, destinadas
ao turismo e lazer” e para o Nordeste, “a ordenação da ocu-
pação urbana da orla marítima com o objetivo de preservar o
patrimônio paisagístico e a vocação da área para o turismo e
o lazer” (REQUIXA, 1977, apud GOMES, 2004).
No ano de 1975, destaca-se também a obra o Lazer no plane-
jamento urbano, de Ethel Bauzer de Medeiros, que trata do proble-
ma da expansão do lazer na sociedade pós-industrial, abordando
a importância do mesmo através dos “tempos” e refletindo sobre
as máquinas, o lazer das massas, os novos estilos de vida etc. A
autora apresenta a recreação organizada como uma das soluções
para o planejamento urbano e, por fim, discute “o Parque do Fla-
mengo: um milhão de metros quadrados para recreio”.
165 CEDERJ
Aula 8 • O lazer como objeto de estudo no Brasil – Parte II – Bases científicas e consolidação das pesquisas
em lazer no Brasil
No ano de 1975 também foi realizado, no Hotel Glória, o
I Encontro Nacional sobre o Lazer, no Rio de Janeiro. Com a par-
ticipação do Ministério do Trabalho, em conjunto com o Sesc e o
SESI (que presta serviços de natureza social aos trabalhadores
da indústria), contou com a presença de 800 congressistas, além
da participação de Joffre Dumazedier, com as temáticas Lazer
nas sociedades em desenvolvimento e Lazer e formação socio-
cultural, e de Roger Lecoutre, que dissertou sobre Van Clé Fonda-
tion e o Congresso Mundial do Lazer. Os anais do evento foram
publicados em setembro de 1977 pelo Sesc.
O encontro estruturou-se em um conjunto de conferên-
cias, painéis, “experiências”, em que os resultados práticos dos
trabalhos realizados foram apresentados ao plenário através de
uma explanação mais sucinta e explicativa e de vasto material
audiovisual e em “círculos de estudo”, constituídos de 12 repre-
sentantes escolhidos de acordo com a categoria profissional e
experiência de trabalho no campo do lazer.
Deste evento destacam-se:
• as conferências “Tempo livre e liberdade” (Ernst Grei-
ner); “Pedagogia do lazer” (Zilah Totta) e “Lazer e psico-
logia preventiva” (José Inácio de Sá Parente);
• painéis: “Recreação” (Ruth Gouvêa, Augusto Rodrigues
e Gilda Maria Assumpção de Souza); “Esporte para to-
dos” (Lamartine Pereira da Costa, Mirian Delamare, Mar-
co Antônio de Moraes e Cleide Ramos); “O arquiteto e o
lazer” (Renato B. Menescal; Marco Antônio Coelho e Luiz
Eduardo Índio da Costa); “Feiras do lazer” (Domingos
Barbosa da Rocha); “Experiência global do Sesc” (Edith
Magalhães Motta, Sebastião Luis da Costa Barreto, Ma-
ria da Penha Saraiva e Antônio de Araújo Borges); “Ini-
ciação esportiva como fator de educação – recreação,
saúde e renovação” (Jacyra Magalhães de Araújo, Otto
Reis e Silva e Otto Wey Netto);
CEDERJ 166
Lazer
• comunicação de experiências: “Programa Nacional de
Centros Sociais Urbanos” (Marcos Vinícius Villaça); “Ex-
periência da Secretaria de Educação do Rio de Janeiro”
(Myrthes Wenzel); “Experiência do Celar” (Zilah Totta);
“A recreação pública em Porto Alegre” (Lenea Gaelzer);
“Experiências das organizações sindicais” (Olavo Pre-
viati, Laureano Batista, Antônio Navas Martins e Luizant
da Mata Roma) e “Experiência da Embratur” (Roberto
Ferreira do Amaral).
Relacionando o lazer ao turismo, Roberto Ferreira do Ama-
ral, em seu depoimento sobre a Experiência da Embratur, para
quem o “turismo é uma forma de lazer e o lazer uma forma de
turismo”, sugere, a partir do encontro, a criação de uma comis-
são permanente, composta inicialmente por representantes do
Ministério do Trabalho, do Sesc e do Sesi. Essa comissão era en-
carregada de:
• coordenar o estudo e a elaboração das diretrizes para
uma política de lazer;
• criar condições para a constituição de uma assessoria
técnica, multidisciplinar, composta por sociólogos, as-
sistentes sociais, economistas, recreadores, arquitetos,
pedagogos etc. como elemento de apoio à comissão co-
ordenadora;
• organizar um sistema de consultas que permita a parti-
cipação de órgãos de classe, entidades, órgãos do go-
verno etc. diretamente interessados na Política do Lazer,
através de encontros regionais, reuniões, consultas,
pesquisas e outras formas.
167 CEDERJ
Aula 8 • O lazer como objeto de estudo no Brasil – Parte II – Bases científicas e consolidação das pesquisas
em lazer no Brasil
Embratur e Ministério do Turismo
A Embratur – Empresa Brasileira de Turismo – foi criada em 18 de no-
vembro de 1966, no Rio de Janeiro, pelo governo federal, tendo como
principal objetivo fomentar a atividade turística, criando condições
para a geração de emprego, renda e desenvolvimento em todo o país.
A partir da criação do Ministério do Turismo no ano de 2003, a Em-
bratur constituiu-se como Instituto Brasileiro de Turismo vinculado
a esse ministério e teve sua atribuição direcionada exclusivamente
para a promoção internacional do país, concentrando-se no market-
ing e no apoio a eventos e à comercialização dos produtos, serviços
e destinos turísticos brasileiros no exterior. Dentre as atribuições
do Ministério do Turismo estão:
• a Política Nacional de Desenvolvimento do Turismo;
• a promoção e divulgação do turismo nacional (no país e no ex-
terior);
• o estímulo às iniciativas públicas e privadas;
• o planejamento, a coordenação, supervisão e a avaliação dos pla-
nos e programas de incentivo ao turismo.
Veja mais em: www.turismo.gov.br
Além das obras citadas, Requixa escreve em 1977 o livro
O lazer no Brasil. Este é composto de três partes, uma sobre “o
elemento lúdico nas etnias formadoras da nacionalidade brasi-
leira”, outra a respeito da “industrialização, urbanização e seus
reflexos no mundo” e a última englobando as “formas contem-
porâneas de uso do tempo livre” (cinema, teatro, concertos, rá-
dio, televisão, hábito de leitura, esporte, férias, fins de semana
e turismo), “os equipamentos urbanos: algumas considerações
sobre o poder público, as instituições privadas e o lazer”, a “feira
de lazer – uma forma de lazer comunitário” e a “consciência so-
cial da importância do lazer”. Nesta última seção, o autor detalha
a trajetória da produção científica do lazer no Brasil até aquele
momento, referenciado nesta aula.
CEDERJ 168
Lazer
Consolidação das pesquisas
Na década de 1980, o campo científico do lazer desenvolve-
se significativamente, e a temática começou a ser mais quan-
titativamente analisada em diversas instâncias. Observa-se na
década seguinte a intensificação dos eventos, das pesquisas e
publicações, além da criação de diversos núcleos de pesquisa,
vinculados às universidades brasileiras, que tratam de questões
relativas ao lazer.
O Núcleo de Estudos Socioculturais do Movimento Huma-
no (Nesc) foi criado em dezembro de 1988, na Escola de Educa-
ção Física e Esporte da USP e esteve durante quase dez anos sem
funcionamento. Foi somente em 1998 que ocorreu a reformulação
dos objetivos do núcleo, visando a sua consolidação. Atualmente
agrega quatro docentes e sete linhas de pesquisa, contando tam-
bém com a colaboração de um técnico educador da instituição.
Os objetivos gerais do grupo versam sobre: organizar, em
forma de banco de dados, informação e conhecimento relativos
às suas linhas de pesquisa; investigar e produzir conhecimento
em Educação Física e Esporte com base nas ciências humanas;
integrar ensino, pesquisa e extensão; promover o intercâmbio
entre laboratórios e núcleos de pesquisa; e promover trabalho
coletivo entre professores e alunos de graduação e pós-gradu-
ação. Dentre suas atividades de pesquisa está a linha Estudos
do Lazer e do Lúdico, que desenvolve debates a respeito dos
Clássicos do Lazer, trabalhando, também, na investigação das
referências bibliográficas, relativas à metodologia de pesquisa,
utilizadas nas dissertações de mestrado e teses de doutorado nas
áreas do lazer e do lúdico. Paralelamente, organizam-se seminá-
rios com professores e pesquisadores que têm o lazer e o lúdico
como tema de pesquisa, com o objetivo de conhecer as linhas de
investigação e estabelecer relações de “troca e parceria”.
Em 1990 a UFMG, sob iniciativa da pesquisadora Leila Mir-
tes, viabiliza a criação de um núcleo de pesquisa voltado ao lazer e
responsável pelo desenvolvimento de pesquisas de iniciação cien-
169 CEDERJ
Aula 8 • O lazer como objeto de estudo no Brasil – Parte II – Bases científicas e consolidação das pesquisas
em lazer no Brasil
tífica, trabalhos de conclusão de graduação através da Escola de
Educação Física. Cria também o curso de Especialização em Lazer
da instituição, além de projetos editoriais que envolvem a publica-
ção da revista Licere, periódico especializado na área e a organi-
zação do seminário O Lazer em Debate, evento científico realizado
anualmente. O núcleo apresenta, ainda, as linhas de pesquisa La-
zer: Formação e atuação de profissionais e Lazer e cultura.
O Grupo de Pesquisa em Administração do Lazer e Entreteni-
mento (Gale), do Departamento de Estudos do Lazer da Faculdade
de Educação Física da Unicamp, tem como líder o pesquisador An-
tonio Carlos Bramante e foi fundado em 1998. Segundo relatos do
próprio núcleo, disponível no site http://www.cnpq.org.br, são três
fases básicas que caracterizam o grupo:
• a primeira, de caráter mais exploratório, inicia-se em
agosto de 1998, com palestrantes de renome na área do
lazer, expondo através de seminários, temas de interesse
para os envolvidos com o projeto, contando com 40 pes-
soas, em média, por reunião de vários estados do país;
• na segunda fase de estudos, organizou-se cinco sub-
grupos definidos por temas: recursos humanos (perfil,
formação etc.); políticas de gestão (planejamento estra-
tégico, recursos financeiros e marketing); políticas de
parceria e alianças estratégicas (setor público, iniciativa
privada e terceiro setor); espaço e meio ambiente (leis
de diretrizes e animação específica) e expectativa de
mercado futuro (necessidades existentes, papel dos “ex-
cluídos”, informática e equipamentos). Cada subgrupo
ficou responsável por uma reunião sobre seu tema. Tais
encontros tinham a participação de 20 a 30 pessoas;
• na terceira fase, parte-se para a pesquisa, em que é lança-
do o desafio para os integrantes elaborarem projetos que
se interligassem com o objetivo geral do grupo: adminis-
tração do lazer e entretenimento. Após seis reuniões, ob-
servou-se a imaturidade no que se refere à elaboração de
projetos, principalmente na sua adequação ao objetivo ge-
CEDERJ 170
Lazer
ral do grupo; assim, parte-se para uma nova fase, em que o
grupo passa a ter dois eixos: um de pesquisa, em que com
um projeto inicial, procura-se levantar toda a produção do
GALE e sistematizá-la de forma acadêmica. E outro eixo
que visa a qualificação profissional, propondo-se um curso
cujo tema básico é "Parques Temáticos".
Além deste, a Unicamp possui o Grupo de Pesquisa Lazer
e Cultura (Glec), sob coordenação da professora Heloísa Turini
Bruhns, e cuja linha de pesquisa são Interrelações do lazer na so-
ciedade, com enfoque para aspectos relacionados ao meio am-
biente, às atividades físicas de lazer na natureza e às relações do
lazer e a juventude.
Destacam-se, ainda, no âmbito da Unicamp, os Ciclos de
Debates Lazer e Motricidade: Reflexões Contemporâneas sobre o
Corpo e o Lazer. Promovidos pela Comissão de Pós-Graduação da
Faculdade de Educação Física, os encontros são realizados anual-
mente. A primeira edição, em outubro de 1999, reuniu estudan-
tes e pesquisadores e contou com a participação dos professores
Afrânio Mendes Catani, Denise Bernuzzi de Sant´Anna, Gustavo
Luiz Gutierrez, Heloísa Turini Bruhns, José Guilherme C. Magnani,
Marcos César Álvares, Margareth Rago e Ricardo Musse.
A intenção original, e que pode ser claramente percebida
(...) é trazer contribuições de diferentes áreas de pensamen-
to que possam auxiliar na reflexão sobre este tema, amplo
e multidisciplinar, que surge nos dias de hoje como de fun-
damental importância para estudos (...). Permitirá avançar
na reflexão sobre lazer e motricidade, com base numa visão
acadêmica consistente que procura evitar reducionismos
fáceis em benefício da complexidade e da riqueza original
de cada perspectiva de análise, incentivando, assim, um
diálogo verdadeiro e frutífero entre as diferentes áreas de
pesquisa e escolas de pensamento (BRUHNS; GUTIERREZ,
2000 apud GOMES, 2004).
A Unimep, através do Grupo de Pesquisas em Lazer (GPL),
fundado em 2001 e coordenado pelo pesquisador Nelson Car-
valho Marcellino, propõe-se a estudar e pesquisar a abordagem
171 CEDERJ
Aula 8 • O lazer como objeto de estudo no Brasil – Parte II – Bases científicas e consolidação das pesquisas
em lazer no Brasil
do lazer, como manifestação humana, nas suas relações com a
sociedade, incluindo políticas de intervenção e destacando-se as
interfaces com a Educação Física.
Marcellino, em Aspectos teóricos da ludicidade, disponível
no site http://www.unimep.br/gpl, em suas observações sobre o
lazer, considera os seguintes aspectos:
• a cultura vivenciada (praticada, fruída ou conhecida), no
tempo disponível das obrigações profissionais, escola-
res, familiares, sociais, combinando os aspectos tempo
e atitude;
• o lazer gerado historicamente e dele podendo emergir,
de modo dialético, valores questionadores da sociedade
como um todo e sobre ele também, sendo exercidas in-
fluências da estrutura social vigente;
• um tempo que pode ser privilegiado para vivência de valo-
res que contribuam para mudanças de ordem moral e cul-
tural, necessárias para solapar a estrutura social vigente;
• portador de um duplo processo educativo, veículo e ob-
jeto de educação, considerando-se, assim, não apenas
suas possibilidades de descanso e divertimento, mas
também de desenvolvimento pessoal e social. O lazer
é entendido, portanto, como a cultura, compreendida
em seu sentido mais amplo, vivenciada no tempo dis-
ponível. É fundamental como traço definidor, o caráter
“desinteressado” dessa vivência. Ou seja, não se busca,
pelo menos basicamente, outra recompensa além da sa-
tisfação provocada pela própria situação.
A disponibilidade de tempo significa possibilidade de opção
pela atividade ou pelo ócio (MARCELLINO, 2001). Para o autor, o
entendimento do lazer não pode ser efetuado “em si mesmo”, mas
como uma das esferas de ação humana historicamente situada.
Outras opções implicariam a colocação apenas parcial e abstrata
das questões relativas ao lazer, sendo impossível, por exemplo,
abordar o lazer isolado dos aspectos relacionados ao trabalho.
CEDERJ 172
Lazer
Por outro viés, alguns grupos desenvolvem projetos rela-
cionados ao lazer de comunidades carentes, como é o caso do
Núcleo de Estudo e Apoio à Recreação Comunitária (Nearc) da
UFSM. Criado em 1987, o núcleo trabalha com comunidades pe-
quenas, com espaço, população e metas bem definidos. O ob-
jetivo de trabalho relaciona-se a duas vertentes sociais: o meio
urbano e o meio rural.
Os projetos em andamento do núcleo são: Apoio a eventos
de lazer comunitário para o meio urbano: Projeto Ciranda-Cirandi-
nha desenvolvido com turmas de pré-escola da Rede Municipal
de Ensino de Santa Maria (Bairro Camobi); Apoio a eventos de
lazer comunitário para o meio urbano: Projeto viver, desenvolvido
junto ao Hospital Universitário com pacientes da Unidade Pediá-
trica; Apoio a eventos de lazer comunitário para o meio urbano:
Projeto Cabelos ao Vento, desenvolvido com crianças que brincam
em praças e/ou parques.
Percebe-se, pois, que o desenvolvimento da pesquisa em
lazer no Brasil, vinculado aos grupos de estudos encontra-se em
estágio avançado. Muitos apresentam trajetórias longevas em
relação às pesquisas científicas na área. Em uma busca no site do
CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tec-
nológico), em março de 2010, encontramos 181 núcleos atuando
nas instituições de ensino superior do País. Confira em http://dgp.
cnpq.br/buscaoperacional/.
Por outro lado, a diversidade de núcleos de pesquisa no
meio acadêmico não impulsionou a formação em lazer no Brasil,
que está atrelada aos cursos de graduação em Educação Física,
Turismo, Pedagogia, Artes etc. São poucas escolas que oferecem
qualificação específica na área, sendo a Confederação Nacional
do Comércio (Senac) pioneira na organização de cursos voltados
ao lazer no país, tanto em nível técnico profissionalizante como
em nível de especialização.
173 CEDERJ
Aula 8 • O lazer como objeto de estudo no Brasil – Parte II – Bases científicas e consolidação das pesquisas
em lazer no Brasil
Atividade
Atende ao Objetivo 1
1. Identifique e analise o trecho destacado a partir dos núcleos de
estudos apresentados nesta aula:
“O enfoque teórico do grupo volta-se especialmente às questões
socioculturais, relacionando lazer, corpo e motricidade. No âmbi-
to dessas questões, é possível observar atualmente nos trabalhos
do grupo uma sensível aproximação aos temas que englobam a
questão do meio ambiente, seja abordando práticas corporais de
lazer e aventura em ambientes naturais, ecoturismo, educação
ambiental, entre outros. Tal aproximação não somente apresenta
coerência com a vinculação do grupo à linha de pesquisa Lazer
e Meio Ambiente, mas decorre tanto da relevância com que se
revestiu a temática ambiental na contemporaneidade, como do
espaço ocupado por ela nas pesquisas individuais de seus mem-
bros, tanto os mais antigos quanto os mais recentemente incor-
porados ao grupo. Nesse particular, pode-se considerar também
a intenção de contribuir no atendimento à necessidade de pes-
quisas que relacionem Educação Física/Estudos do Lazer/Meio
Ambiente, as quais só recentemente passaram a ocupar algum
espaço no cenário acadêmico nacional.”
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Resposta Comentada
O objetivo desta atividade é atualizar os conhecimentos do estudante
sobre o lazer como objeto de estudo no núcleo de pesquisa. Este
texto foi retirado do site http://www.fef.unicamp.br/grupos/glec/
apresentacao.htm e trata-se do grupo de estudos da professora
Heloísa Turini Bruhns. Esta linha de pesquisa da professora Heloísa,
Interrelações do lazer na sociedade, procura destacar as relações
entre meio ambiente, atividades físicas e o lazer. No Brasil, é um
campo novo, como vimos, na área de pesquisas acadêmicas. Qual
CEDERJ 174
Lazer
o impacto destas relações, que envolvem meio ambiente e práticas
corporais, nos estudos sobre o lazer? O ecoturismo, assim como o
exercício de esportes radicais e o discurso da educação ambiental
demonstram cada vez mais o lazer como uma rede capaz de fornecer
material para análise e estudo nas universidades.
Em decorrência dos avanços relativos às pesquisas na área,
surgiram, nas últimas décadas, diversos eventos técnico-científi-
cos promovidos por associações, entidades e grupos de estudos,
gerando encontros e debates regulares entre pesquisadores, estu-
dantes e profissionais. Dentre os eventos realizados no país estão:
• Fórum de Debates Lazer e Informação Profissional;
• Encontro Latino-Americano de Recreação e Lazer;
• Congresso Brasileiro de História da Educação Física, Es-
porte, Lazer e Dança;
• Encontro Nacional de Políticas Públicas em Esporte e
Lazer;
• Seminário Municipal de Lazer, Esporte e Educação Física
Escolar;
• Encontro de Professores das Disciplinas de Recreação e
Lazer;
• Lazer em Debate – promovido no primeiro semestre de
cada ano;
• o Encontro Nacional de Recreação e Lazer – Enarel;
• o Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte, do Colégio
Brasileiro de Ciências do Esporte (Grupo de Trabalho Te-
mático: Recreação e Lazer – realizado a cada dois anos).
Consagrando definitivamente a importância do lazer em
âmbito nacional, o 5º Congresso Mundial de Lazer foi realizado no
Brasil em outubro de 1998, por iniciativa do Sesc e da Associação
Mundial de Lazer e Recreação. Como resultado do evento encon-
tra-se a publicação Lazer numa sociedade globalizada / Leisure in a
globalized society, homônima do tema do encontro, cujo propósi-
to era analisar as diferentes perspectivas do lazer e do tempo livre
e as tendências de globalização na sociedade contemporânea.
175 CEDERJ
Aula 8 • O lazer como objeto de estudo no Brasil – Parte II – Bases científicas e consolidação das pesquisas
em lazer no Brasil
O encaminhamento de uma proposta à WLRA – Associa-
ção Mundial de Lazer e Recreação – para sediar o V Con-
gresso Mundial de Lazer foi uma consequência natural da
tradição da instituição neste campo. O Congresso foi orga-
nizado pelo Sesc, com a decisiva participação da WLRA, e a
colaboração da ALATIR – Associação Latino-Americana de
Lazer e Recreação – em outubro de 1998, simultaneamente
ao II Encontro Latino-Americano de Lazer e Recreação e ao
X Encontro Nacional de Recreação e Lazer – ENAREL, evento
este realizado no Brasil desde 1989 reunindo os profission-
ais de organizações públicas e privadas (MIRANDA, 2000
apud GOMES, 2004).
O Congresso reuniu conferencistas e pesquisadores de
diferentes correntes teóricas e regiões (Alemanha, Argentina,
Austrália, Brasil, Canadá, Estados Unidos, Holanda, Itália, Japão,
México, Reino Unido e Tailândia), incluindo acadêmicos, adminis-
tradores, planejadores, consultores profissionais e estudantes.
No Rio de Janeiro, destacamos o trabalho do grupo de
pesquisa Anima: Lazer, Animação Cultural e Estudos Culturais da
Escola de Educação Física da UFRJ. O grupo teve origem no ano
de 1999 com o projeto Lazer e Prostituição que, com a chegada
de novos membros passou se chamar Lazer e Minorias Sociais
em 2002, passando a adotar o nome atual em função dos novos
conceitos e da amplitude que as pesquisas vinham alcançando.
O objetivo tem sido estudar o lazer em suas diferentes dimen-
sões com denotado interesse para a questão da intervenção pe-
dagógica concedendo-se à animação cultural espaço especial de
discussão e de construção teórica. Após dez anos, outros grupos
de pesquisa foram criados a partir do Anima:
• SPORT – coordenado pelo professor Victor Melo, dedica-
se à história do esporte e do lazer;
• Envelhecimento e Atividade Física – coordenado pelo
professor Edmundo de Drummond Alves Junior, dedica-
se à interface atividade física-idosos;
• PrevQuedas – coordenado pelo professor Edmundo de
Drummond Alves Junior, dedica-se a ações ligadas à
prevenção de quedas;
CEDERJ 176
Lazer
• Esquina – coordenado pela professora Angela Bretas, de-
dica-se à relação entre lazer, animação cultural e cidade;
• Dança de Salão – coordenado pela professora Inês Gal-
vão, dedica-se às danças de salão;
• CaJu – coordenado pela professora Monica Monteiro,
dedica-se a ações com a juventude.
Atividade
Atende ao Objetivo 2
2. A partir do artigo obtido no site da revista Licere (http://www.
eeffto.ufmg.br/licere/), faça uma análise, identificando a im-
portância da pesquisa em lazer e dos eventos técnico-científicos
para a produção do conhecimento, sua publicação e difusão.
Trecho extraído do artigo: MARCELLINO, Nelson; BARBOSA, Fe-
lipe; MARIANO, Stéphanie. Lazer, cultura e patrimônio ambien-
tal. Licere, Belo Horizonte, v.10, n.3, p.11-16, dez. 2007.
Até bem pouco tempo era difundida uma falsa noção de memória
cultural, de sentido muito restrito e embebida na ideologia domi-
nante. Essa noção estava ligada ao conceito clássico de patrimônio
histórico e artístico, tal como definido no decreto de criação do
Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Assim, o Decre-
to-Lei n. 25, de 30/11/1937, no seu artigo 1, definia como patrimônio
artístico nacional: (...) o conjunto de bens móveis e imóveis exis-
tentes no País e cuja conservação seja de interesse público, quer
por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer
por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico ou artístico
(MARCELLINO, 2007, p. 11-16).
Historicamente, entre estudiosos e instituições voltadas para a
preservação, nota-se uma ampliação gradativa da abrangência
do conceito, com a ideia de excepcionalidade dando lugar à no-
ção de representatividade dos elementos a serem preservados.
Dessa forma, evoluiu-se para o conceito de Patrimônio Ambien-
tal Urbano, constituído por espaços, que inclusive transcendem
a obra isolada e que caracterizam as cidades, pelo seu valor his-
tórico, social, cultural, formal, técnico ou afetivo.
177 CEDERJ
Aula 8 • O lazer como objeto de estudo no Brasil – Parte II – Bases científicas e consolidação das pesquisas
em lazer no Brasil
Pode-se perceber um avanço significativo no conceito, superan-
do a ideia de monumentalidade e de singularidade, no final da
década de 70, com a Secretaria de Economia e Planejamento e
Desenvolvimento Regional do Estado de São Paulo, através Nel-
son Marcellino; Felipe Barbosa; Stéphanie Mariano Lazer, Cul-
tura e Patrimônio Ambiental do seu Programa de Preservação e
Revitalização do Patrimônio Ambiental Urbano (SEPLAN, 1978),
reconhecendo a cultura como processo vivo, e as possibilidades
do Patrimônio para além da arte e da arquitetura, dando assim
possibilidades para a ação no campo do lazer:
(...) a noção mais recente reconhece antes o valor representativo
dos aspectos históricos, sociais, culturais, formais, técnicos, afeti-
vos dos elementos como critérios para sua inclusão no programa de
preservação e revitalização do patrimônio ambiental urbano (MAR-
CELLINO, 2007).
Congressos e seminários mais recentes vêm ampliando ainda
mais a abrangência do conceito, incluindo usos e costumes. Para
nós, importa destacar que, enquanto a primeira noção era base-
ada em atributos como a singularidade e a monumentalidade, o
conceito mais recente reconhece, inclusive, os elementos afeti-
vos como critérios para a preservação.
Analisando a constituição histórica do conceito, e embora reco-
nhecendo a importância da preservação dos prédios, através
da política de tombamento, Geraldes (2007) não a considera
o único fator a ser considerado, e chega a uma definição pro-
visória de patrimônio ambiental urbano, tomando como base a
de Yázigi (2001):
Sistema material constituído por conjuntos arquitetônicos, espa-
ços e equipamentos públicos, elementos naturais e paisagísticos,
aos quais foram atribuídos valores e qualidades capazes de conferir
significado e identidade a determinado recorte territorial urbano
(GERALDES, 2007, p. 15).
Adverte, porém que o Turismo pode se satisfazer apenas com a
mercadoria imagem, na cidade:
Da mesma maneira que em outro período o patrimônio era con-
siderado em termos de monumento descontextualizado, aponta-
se agora a possibilidade de um patrimônio enquanto imagem sem
referência (GERALDES, 2007, p.15).
CEDERJ 178
Lazer
Para Lefebvre (2001) a cidade historicamente formada não vive
mais, não é mais apreendida praticamente. Não passa de um ob-
jeto de consumo cultural para os turistas e para o esteticismo,
ávidos de espetáculos e do pitoresco. Referindo-se aos seus anti-
gos núcleos, assim se posiciona:
As qualidades estéticas desses antigos núcleos [urbanos] desem-
penham um grande papel na sua manutenção. Não contém apenas
monumentos, sedes de instituições, mas também espaços apropria-
dos para as festas, para os desfiles, passeios, diversões. O núcleo
urbano torna-se, assim, produto de consumo de uma alta qualidade
para estrangeiros, turistas, pessoas oriundas da periferia, suburba-
nos. Sobrevive graças a este duplo papel: lugar de consumo e con-
sumo do lugar (LEFEBVRE, 2001, p. 12).
O ressurgimento arquitetônico e urbanístico do centro comer-
cial dá apenas uma versão apagada e mutilada daquilo que foi o
núcleo da antiga cidade, ao mesmo tempo comercial, religioso,
intelectual, político, econômico (produtivo).
Com o crescimento urbano, somado às desigualdades sociais,
perderam-se espaços públicos para a realização de jogos e brin-
cadeiras e atividades de lazer, que foram transferidos a espaços
domésticos ou privados, limitando as opções dos variados con-
teúdos culturais do lazer.
Sendo assim, o lazer mercadoria reduz a imagem da cidade ao
jogo de pura imagem. E o olhar do consumo é a fonte matricial
do olhar paisagístico atual. Dessa forma, para a requalificação
do espaço urbano, as políticas públicas têm importante papel. E
visto com suas características de animação sociocultural o lazer
pode contribuir de modo eficaz, porque prazeroso, na busca das
denúncias do patrimônio ambiental urbano, considerado como
imagem e como imaginário.
Para que se previna e evite os impactos negativos das atividades
realizadas nos equipamentos e áreas visitadas, é necessário e
fundamental o planejamento e a organização desses espaços e
definido como foco a manutenção da atratividade dos recursos
naturais. Nesse sentido, baseado nos princípios da responsabi-
lidade social, que as atividades turísticas junto à natureza envol-
vem, Muller (2002, não paginado) argumenta que:
179 CEDERJ
Aula 8 • O lazer como objeto de estudo no Brasil – Parte II – Bases científicas e consolidação das pesquisas
em lazer no Brasil
Se as atividades realizadas procuram satisfazer o desejo que o
ser humano possui de estar em contato com a natureza, desco-
brindo o potencial turístico das áreas em que presencia belezas
naturais, a preservação e o desenvolvimento evitam o impacto
negativo sobre a ecologia, a cultura e a estética.
Fróes (2006), ainda que reconhecendo a formação de um impor-
tante acervo urbano e rural, no país, pelas políticas de preser-
vação governamentais, através do instrumento do tombamento
(forma encontrada institucionalmente para impedir a perda física
de um bem), questiona o seu valor enquanto diretriz, demons-
trando a viabilidade da inserção do patrimônio no desenvolvi-
mento, dinamizando as formas de preservação na vida das ci-
dades como um todo, através de processos sustentáveis.
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Resposta Comentada
A atividade tem como objetivo analisar a contribuição da pesquisa em
lazer e da publicação em revistas científicas, como recurso que estimula
a produção e a troca de conhecimentos ampliando as discussões sobre
os temas relacionados ao lazer e proporcionando novas visões de mundo
e, a partir daí, a elaboração de novas concepções de planejamento,
de legislação, de práticas sociais. O artigo analisa a evolução do con-
ceito clássico de patrimônio histórico e artístico para o de patrimônio
ambiental urbano, mais amplo, que abriga valores históricos, sociais,
culturais, formais, afetivos e técnicos. Esta mudança conceitual pode
afetar o modo como o turismo percebe a cidade, como referente a um
objeto de consumo para o turista, esvaziando sua riqueza histórica para
a construção de uma imagem capaz de ser vendida como uma merca-
doria. O artigo também aponta possíveis soluções para este problema,
que envolve a cultura do lazer.
CEDERJ 180
Lazer
O panorama dos estudos e da pesquisa em lazer no Brasil
não se encerra neste capítulo. À trajetória histórica adotada com o
propósito de contextualizar a produção nacional mediante alguns
fatos, complementa-se com a análise vindoura das dissertações
e teses defendidas no País. Tais produções teóricas, provenientes
de diferentes campos de estudo, refletem o comportamento do
lazer como objeto científico e prática sociológica.
Atividade Final
Atende ao Objetivo 3
Leia o trecho destacado de um dos projetos do Núcleo de Estudo
e Apoio à Recreação Comunitária (Nearc), da UFSM, o Nieati –
Núcleo Integrado de Apoio à Terceira Idade. Foram destacados al-
guns projetos de extensão e pesquisa deste núcleo. A partir deste
exemplo, elabore uma análise das contribuições possíveis entre
a academia e a melhoria da qualidade de vida das comunidades
através do lazer.
Nieati
O trabalho do núcleo junto aos idosos baseia-se no conceito mo-
derno da cidadania, articulando ações para melhoria da qualidade de
vida dos velhos de nossa sociedade, bem como, a melhoria de quali-
dade de nosso fazer, enquanto Universidade. Incluindo o ensino, a
pesquisa e a extensão, os projetos abrangem idosos de Santa Maria
e região, assim como a formação de monitores para a atuação com a
terceira idade nas áreas da saúde e educação.
Objetivo geral
O Núcleo tem como objetivo melhorar a autonomia dos movimen-
tos físicos e intelectuais dos idosos, mantendo a dependência cada
vez mais distante e assim manter por mais tempo a maior de todas
as liberdades do homem: a saúde.
Projetos de extensão
• Idoso, natação e saúde;
• Movimento e Vida – atividades físicas em asilos.
181 CEDERJ
Aula 8 • O lazer como objeto de estudo no Brasil – Parte II – Bases científicas e consolidação das pesquisas
em lazer no Brasil
Projetos de pesquisa
• O Envelhecer na Cidade: Um estudo sobre os grupos de atividades
físicas para a terceira idade em Santa Maria/RS;
• Análise das festividades para a terceira idade na cidade de Santa
Maria...
(Fonte: http://w3.ufsm.br/cefd/index.php?option=com_content&task=view
&id=28&Itemid=87)
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Resposta Comentada
Nesta atividade, temos o objetivo de analisar o provável impacto
dos estudos acadêmicos nesta comunidade e as contribuições re-
levantes para a saúde, cidadania e o lazer da população atendida.
Neste projeto abordado, podemos perceber a preocupação em in-
vestigar o impacto de práticas corporais em um determinado grupo
da sociedade sob a cultura do lazer. Esta análise é ao mesmo tempo
um fazer e uma reflexão deste fazer, pois permite à universidade
participar na construção de material teórico, ao abordar in loco, a
demanda do lazer, relacionadas às áreas de saúde e educação.
Resumo
Os eventos, teóricos, pesquisas, diretrizes e ações relacionadas aos
estudos do lazer no Brasil evoluíram a partir de 1970. Foram através
da formação de núcleos de pesquisa como o Centro de Estudos
do Lazer (Celazer), que contou com a orientação de Dumazedier
nas iniciativas do Centro de Estudos de Lazer e Recreação (Celar)
da PUC-RS e com as obras e os conceitos elaborados por Renato
Requixa, bem como com os livros Lazer no Planejamento Urbano,
de Ethel Bauzer de Medeiros, e Lazer: teoria e pesquisa, de autoria
da Sarah Bacal.
CEDERJ 182
Lazer
Historicamente a situação do campo científico brasileiro, ape-
sar do relativo progresso, ainda é incipiente, devido a uma sé-
rie de fatores, dentre os quais a existência de poucos cursos de
formação acadêmica, direcionados exclusivamente ao lazer. Em
contraponto, os núcleos e grupos vinculados às universidades
brasileiras apresentam-se bastante engajados em propostas de
pesquisas científicas na área, que geram periódicos referenciais
como a revista Licere e eventos como o Enarel, o Lazer em Debate
e o Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte.
Informação sobre a próxima aula
Na próxima aula, abordaremos o lazer no mundo contem-
porâneo, suas práticas e o desenvolvimento da indústria do en-
tretenimento, nesta que se convencionou denominar a civiliza-
ção do lazer.
183 CEDERJ
9 O lazer contemporâneo
Simone Dantas
Meta da aula
Apresentar o contexto de evolução do lazer no Brasil
quanto aos conceitos e práticas em seu processo histórico,
social, econômico e político.
Objetivos
Esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula,
você seja capaz de:
1 reconhecer o contexto político e socioeconômico do
desenvolvimento do lazer no Brasil;
2 identificar a formação da indústria cultural no Brasil;
3 analisar a inserção do lazer como agente de educação.
Aula 9 • O lazer contemporâneo
Introdução
Nesta aula vamos apresentar um panorama geral da evolução nas
práticas do lazer e sua reflexão teórica sobre o contexto político e
econômico do Brasil. Com o objetivo de mostrar de forma mais
clara a relação entre os aspectos históricos, as práticas de lazer
e as reflexões teóricas, aplicamos uma periodização bastante co-
mum que, de forma resumida, destaca as principais influências
nas práticas e nos conceitos do lazer. Utilizaremos como base
para os nossos estudos o artigo “O lazer no Brasil: do nacional de-
senvolvimentismo à globalização”, produzido por Marco Antonio
Bettine de Almeida, no programa de doutorado da Faculdade de
Educação Física da Unicamp e publicado na revista eletrônica Co-
nexões, volume 3 no ano de 2005. Partiremos então para o campo
da observação, ilustrando algumas manifestações práticas do la-
zer nestes períodos, o que nos conduzirão ao desenvolvimento da
atividade turística e da indústria do entretenimento no Brasil.
Panorama político, econômico e teórico do
lazer no Brasil
O lazer sempre esteve associado à busca do prazer e pre-
sente na vida do ser humano. Os valores do lazer sofrem varia-
ções de acordo com a época histórica e o modo de vida e de
produção da sociedade. Já vimos que, no período anterior a
Revolução Industrial, o lazer tinha uma conotação mais lúdica e
espontânea, estava situado em um ambiente mais rural e menos
urbano. Após a Revolução Industrial, o lazer passa a ser visto
como uma necessidade, pois as atividades humanas se concen-
tram nas cidades e o lazer compensaria o tempo e as condições
de trabalho nas fábricas da época. Contudo, o lazer passa a ser
entendido como um produto, enquadrando-se na lógica do con-
sumo capitalista. Verificamos nas aulas anteriores algumas con-
siderações sobre os estudos do lazer no Brasil e, neste momento,
CEDERJ 186
Lazer
vamos contextualizar estes estudos com o ambiente político e
econômico, a fim de verificar a sua correlação.
Lazer e o nacional-desenvolvimentismo – qual
o cenário nacional no período de 1946-1964?
No Brasil, os anos 1940 foram marcados pelo fim da di-
tadura da Era Vargas (1930-1945, Getúlio Vargas foi deposto em
29 de outubro de 1945, voltando à presidência por meio do voto
popular em 1951, até cometer suicídio em 1954). A redemocra-
tização institucional do país também marcou o fim, sobretudo
com a realização das eleições para presidente da república, na
qual fora eleito o general Eurico Gaspar Dutra, candidato da coli-
gação PSD/PTB (Partido Socialista Democrático/Partido Trabalhis-
ta Brasileiro). A política econômica brasileira vai se associando
ao capital internacional, afinado com o plano do pós-guerra que
impõem uma nova ordem mundial. Neste contexto, para o Brasil
aquecer a sua economia e elevar o nível de produção seria ne-
cessário uma política para a contenção da inflação que primasse
pelo desenvolvimento da indústria petrolífera. Para tanto, entre
as medidas tomadas pelo governo, destacamos a compressão
salarial e a busca por recursos do capital estrangeiro.
Em um país com dimensões continentais como o Brasil, as
distâncias territoriais, econômicas e políticas se constituíam em
entraves para o crescimento nacional. Getúlio Vargas acreditava
que o cinema era capaz de aproximar os diferentes núcleos hu-
manos dispersos no território brasileiro. Com a missão de esti-
mular a identificação de um único povo e de um único governo
como nação, os símbolos nacionais, especialmente a bandeira
e o mapa do Brasil, foram introduzidos em filmes educativos.
Eles foram produzidos durante o Estado Novo (como é conheci-
do o regime político centralizador e autoritário de Vargas, com-
preendido entre os anos 1937 a 1945). O discurso do governo
do Estado Novo considerava que somente o conhecimento do
Brasil estimularia o amor à pátria e o desejo de lutar por ela, e
187 CEDERJ
Aula 9 • O lazer contemporâneo
o cinema era o caminho para o Brasil conhecer o Brasil. Vargas
chegou a assinar um decreto estabelecendo a exibição de pelo
menos três filmes brasileiros por ano. Também delineou as bases
para a ação da censura que seria utilizada posteriormente pelos
governos militares, ocasião em que a arte e a cultura passam a
ser assuntos de segurança pública (ROSA, 2006).
No período que vai de 1946 até 1964, verificamos no Brasil
um projeto nacional-desenvolvimentista, fundamentado na substi-
tuição de importações e caracterizado pelo populismo político.
Denomina-se nacional- Dentre outras transformações importantes pelas quais passou
desenvolvimentismo nosso país, destacamos:
a política econômica
com participação ativa
• o surgimento da indústria automobilística;
do estado e baseada no
crescimento da produção • a construção de estradas por todo o país;
industrial e da infraestru-
tura para o consequente • a inauguração da capital federal Brasília, distante dos
aumento do consumo.
maiores centros urbanos;
É uma política de resul-
tados aplicada essen- • a adoção de políticas trabalhistas;
cialmente em sistemas
econômicos capitalistas, • a criação de uma indústria de base como a mineração,
a exemplo do Brasil no extração de petróleo e siderurgia.
governo JK (1956-1961) e
no governo militar (1964-
Neste período vamos encontrar no campo da cultura e das
1985), quando ocorreu
o “milagre econômico artes a valorização de temáticas brasileiras, uma forma de pre-
brasileiro”, bem como o
“fanquismo” na Espanha servação dos valores nacionais ameaçados pela invasão cultural
(1939-1976).
estrangeira, em especial norte-americana (ZÍLIO, 1982). Este sen-
timento nacionalista é reforçado por uma série de acontecimen-
tos no plano internacional, tais como:
• termina a Segunda Guerra Mundial (1945), o que repre-
sentou uma nova fase nas relações internacionais, con-
solidando transformações no nível estrutural do capita-
lismo mundial;
• em abril de 1955, durante a Conferência Ásia África de
Bandung/Indonésia, 29 chefes de Estado reconhecem o
princípio da coexistência pacífica de diferentes partes do
mundo e definem, pela primeira vez, a noção de países
de terceiro mundo, na qual se insere o Brasil;
CEDERJ 188
Lazer
• os movimentos de libertação nacional marcados pelo
ideário socialista e a valorização dos trabalhadores
rurais, o exemplo histórico da Revolução Cubana de
1959, que mais repercutiu no nosso país, pelo discurso
anti-imperialista (SADER, 1991);
• a Guerra do Vietnã iniciada em 1959 − cujo término
ocorreu apenas em 1975 – uma das maiores confronta-
ções armadas em que os Estados Unidos já se viu en-
volvido e cuja derrota provocou a “síndrome do Vietnã”.
Seus cidadãos dividiam opiniões, gerando atitudes an-
tinacionalistas de grande reflexo na sua cultura, tema
amplamente difundido na indústria cinematográfica.
Uma das vertentes da contracultura foi o movimento
hippie. Vários jovens lançaram o movimento “Paz e Amor”
(“Peace and Love”), rejeitando o projeto da “grande sociedade”
do presidente americano Lyndon Johnson e buscando sobreviver
em pequenas comunidades alternativas. Data desse tempo a
afirmação do feminismo e o surgimento dos Panteras Negras
(The Black Panthers) que, abandonando a não violência pregada
por Martin Luther King Jr. (assassinado em 1968), propunha o
confronto aberto com a cultura racista do país.
Figura 9.1: O movimento hippie se
manifestou na música, nas artes, nas
comunidades alternativas contrárias à
guerra. Através do lema “Paz e Amor”,
espalhou-se pelo mundo nas décadas de
1960 e 1970.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hippie
189 CEDERJ
Aula 9 • O lazer contemporâneo
Mas qual a relação destes fatos com o lazer?
A ênfase no desenvolvimento econômico e industrial impul-
siona transformações que possibilitaram um maior acesso
ao lazer através do desenvolvimento das artes e espetáculos
e pela valorização do lazer do trabalhador por meio da cons-
trução dos clubes-empresa. No campo da produção teórica
são escritos inúmeros estudos de antropólogos e sociólo-
gos destacando a cultura popular, o lazer popular e o folclo-
re, a exemplo de Darcy Ribeiro, Sergio Buarque de Holanda
e Gilberto Freire (ALMEIDA, 2005).
Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia
Estatística), no Brasil de 1960 a população urbana ultrapassara a
rural. Vamos encontrar um lazer típico do início da industrializa-
ção, ilustrado pela passagem entre o lazer como manifestação
popular e comunitária e o lazer como mercadoria de consumo
disponível no mercado. O lazer firma-se na luta entre operários
e detentores do capital gradativamente a partir da conquista de
espaços de lazer nas empresas, à participação dos operários nos
campeonatos nacionais e o desenvolvimento esportivo de algu-
mas empresas-clube, a importância da casa de campo ou praia,
e os passeios de carro pela rede de estradas em expansão. Outro
ponto relevante é o desenvolvimento do esporte de elite e a cria-
ção de teatros e musicais (ALMEIDA, 2005).
No momento histórico pré-1964 grande parte dos intelec-
tuais e artistas buscava expressar o homem brasileiro como a
“cara do Brasil”, ou procuravam, ainda, denunciar a utilização
política do lazer enquanto instrumento de alienação dos setores
populares que seriam explorados pela apropriação da mais-valia
no processo de luta de classes (FREDERICO, 1998).
De maneira geral, na virada da década de 1960, consolidam-
se e fortalecem-se duas vertentes que são decorrentes da
situação política do país e herdeiras do processo especí-
fico de luta por uma procura de bens culturais brasileiros
(ALMEIDA, 2005):
CEDERJ 190
Lazer
• a busca dos valores nacionais e a “cara” do Brasil;
• a incorporação de influências estrangeiras (RAMOS,
1983).
No cinema, como observou o cineasta Glauber Rocha
(REIS, 1996), a luta deste nacionalismo e a busca de interpreta-
ção do povo brasileiro tinham como perfil estético a luta contra a
fome, a visão do terceiro-mundismo e a busca pela superação do
imperialismo. Traziam elementos cosmopolitas para a arte, mas
priorizando muitas inovações técnicas.
Podemos comparar esta observação de Glauber Rocha
verificando os temas nacionalistas dos filmes referentes a esta
época. Por exemplo: Caiçara, de Adolfo Celi, primeiro longa-me-
tragem da recém-criada Companhia Cinematográfica Vera Cruz,
em São Paulo (1950); Tico-tico no fubá, de Adolfo Celi, e Carnaval
Atlântida, de José Carlos Burle (1952); Rio 40 Graus, de Nelson
Pereira dos Santos, inaugura o Cinema Novo (1955); O pagador
de promessas, de Anselmo Duarte, ganha a Palma de Ouro em
Cannes e é o primeiro filme brasileiro indicado ao Oscar de me-
lhor filme estrangeiro (1962), entre outros. O golpe de Estado in-
terrompe dois documentários: Cabra marcado para morrer, de
Eduardo Coutinho, Maioria absoluta, de Leon Hirszman, e Inte-
gração racial, de Paulo Cézar Saraceni.
Glauber Rocha (1939-1981) foi um cineasta controverti-
do e incompreendido em seu tempo, patrulhado tanto
pela direita quanto pela esquerda na política brasileira.
Em sua visão apocalíptica de um mundo em constan-
te decadência, Glauber produz filmes paradigmáticos,
com críticas sociais ferozes e sua forma de filmar pre-
tendia romper radicalmente com o modelo importado
dos Estados Unidos. Pretensão compartilhada por ou-
tros cineastas que com ele lideraram a corrente artísti-
ca nacional conhecida como Cinema Novo. Saiba mais
em http://www.tempoglauber.com.br/
191 CEDERJ
Aula 9 • O lazer contemporâneo
O clima político nacionalista que perpassava por toda a so-
ciedade brasileira também influenciou o teatro. A produção cul-
tural volta-se para a questão nacional e busca o contato com os
setores populares, por meio de apresentações com preços aces-
síveis, visando atrair a população de baixa renda (SILVA, 1981).
A questão do cosmopolitismo e da busca da brasilidade é
muito forte na música popular brasileira. A Bossa Nova originou-se
do casamento entre a assimilação do jazz americano e sua inova-
ção estética, para servir em um segundo momento como modelo
a ser exportado. A Bossa Nova surgiu no final da década de 1950,
na cidade do Rio de Janeiro, e se consolidou como um gênero
da música popular brasileira. No início, o termo se referia apenas
a um modo diferente de cantar e tocar samba, contudo, ganhou
conotações políticas e culturais. A Bossa Nova foi um movimento
que ficou associado ao crescimento urbano brasileiro impulsio-
nado pela fase desenvolvimentista do governo de Juscelino Ku-
bitschek (1955-1960). A Bossa Nova iniciou-se para muitos críticos
no lançamento, em agosto de 1958, de um compacto simples do
violonista baiano João Gilberto (considerado um ícone do movi-
mento), contendo as canções “Chega de saudade” (Tom Jobim e
Vinicius de Moraes) e “Bim bom” (do próprio cantor).
Figura 9.2: Vinicius de Moraes, principal
letrista de canções da Bossa Nova. A
partir de “Chega de saudade”, compo-
sição feita com Tom Jobim em 1958,
consagrou o estilo musical.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Bossa_nova
CEDERJ 192
Lazer
Acompanhe “Chega de saudade”, letra e música, na
voz de Paulinho da Viola, no link:
http://letras.terra.com.br/vinicius-de-moraes/26959/
No período desenvolvimentista, os espetáculos de lazer ti-
nham como público principal os setores urbanos da classe média
e alta. Através das apresentações, procuravam incorporar as ca-
racterísticas do povo brasileiro e o subdesenvolvimento, enquan-
to que os setores operários podiam ter contato com peças que
discutiam a exploração e a mais-valia.
O lazer popular mantinha a tradição do lazer de rua, o circo
e as festas típicas católicas. As práticas esportivas tinham
como espaço a rua, a empresa e os campos improvisados.
Na cidade, ainda em desenvolvimento, havia muito espaço
livre para a população de baixa renda organizar atividades
lúdicas, enquanto que os setores mais abastados tinham os
clubes esportivos e os parques públicos situados, em geral,
nas regiões mais valorizadas (ALMEIDA, 2005).
A marca da ditadura: o lazer no período militar
(1964-1985)
Após o golpe militar de 1964, grande parte dessas manifes-
tações de lazer vão se transformar, principalmente, em função:
• do crescimento urbano;
• da censura;
• da repressão policial às práticas de ruas.
O desenvolvimento dos meios de comunicação e de uma
indústria cultural – em que se destaca a popularização da televi-
são – ajudou também a desintegrar as manifestações artísticas
que buscavam atingir os setores populares.
193 CEDERJ
Aula 9 • O lazer contemporâneo
Com o golpe militar de 1964, o desenvolvimento capitalista
no Brasil foi ampliado através da intensificação da concentração
de renda e de uma modernização conservadora, a partir de uma
aliança de classes que “jogava por terra a hipótese de um antago-
nismo entre a burguesia brasileira de um lado, e a burguesia inter-
nacional e oligarquia agrária de outro” (MANTEGA, 1995, p. 116).
Para evitar que a esquerda cultural reorganizada pós-64 se
popularize, o policiamento torna-se verdadeiramente pesa-
do, com delação estimulada e protegida, a tortura assumin-
do proporções pavorosas, e a imprensa de boca fechada
(SCHWARZ, 1978, p. 72).
Com o Ato Institucional n° 5 (AI-5), de dezembro de 1968,
centenas de cidadãos e líderes políticos tiveram seus direi-
tos políticos cassados, as organizações estudantis indepen-
dentes foram postas na ilegalidade e os partidos políticos
existentes foram dissolvidos. No seu lugar impôs-se um sis-
tema bipartidário com a Aliança Renovadora Nacional (Are-
na), pró-governo, e a oposição oficialmente tolerada Movi-
mento Democrático Brasileiro (MDB) (RIDENTI, 1999).
Indústria cultural
É o nome dado ao con-
Depois do AI-5 e com a repressão crescente a qualquer
junto de empresas e ins-
tituições que produzem oposição ao regime militar, ocorreu:
projetos, programas, jor-
nais, rádios, revistas e es-
• o esgotamento do interesse pelas questões políticas;
pecialmente a televisão,
voltados para a diversão, • o refluxo dos movimentos de massas;
explorando a cultura,
visando lucro. Trata-se de • a censura e a ausência de canais para o debate e a divul-
uma expressão típica da
gação de qualquer proposta contestadora;
sociedade capitalista que
transformou a cultura em • o surgimento de uma resistência de esquerda armada
produto comercial. Com a
popularização das novas (guerrilha urbana);
tecnologias de comunica- • redução das expressões artísticas.
ção e o processo de glo-
balização, convencionou-
se destacar a indústria Estes fatos marcaram o fim de um florescimento cultural e
cultural da indústria
do movimento popular, abrindo caminho para a indústria cultural,
do entretenimento,
que utiliza mais destes induzida principalmente pela televisão (ALMEIDA, 2005).
recursos tecnológicos
para massificação de sua
produção.
CEDERJ 194
Lazer
Uma das marcas do regime militar foi o desenvolvimento
desigual. O “milagre econômico” favoreceu o apogeu da classe
média, enquanto as manifestações dos setores populares foram
controladas e suprimidas.
O milagre econômico é a denominação dada à época de
excepcional crescimento econômico ocorrido durante a ditadu-
ra militar, também conhecido como “anos de chumbo”, situados
especialmente entre os anos de 1969 e 1973, durante o governo
do comandante Emílio Garrastazu Médici. Paradoxalmente ao rá-
pido desenvolvimento econômico ocorreu o aumento da concen-
tração de renda e da probreza no país.
Na década de 1970, a disponibilidade de crédito internacio-
nal e o desenvolvimento acelerado, somado às condições inter-
nas, caracterizaram o “milagre econômico”, que colocou o Brasil
Pensamento
na situação de ser um país presente no cenário das trocas inter- ufanista ou ufanismo
é uma expressão utilizada
nacionais, ao mesmo tempo em que se destacava como líder em
no Brasil a partir da obra
concentração de riqueza, analfabetismo e um desenvolvimento Por que me ufano pelo
meu país, do político e
humano próximos aos países africanos (SILVERMAN, 2000 apud poeta mineiro Afonso
ALMEIDA, 2005). Até a década de 1980, o Brasil foi considerado Celso, publicada em 1900,
alvo de muitas críticas
pela Organização das Nações Unidas (ONU) o país mais desigual e elogios. Ufano é um
adjetivo com origem
do mundo (ORTIZ et al., 1988). na língua espanhola
Instaurou-se neste momento um pensamento ufanista de significando a vanglória,
a exaltação de méritos
“Brasil potência”, evidenciado com a conquista da terceira Copa próprios extraordinários.
No Brasil, o ufanismo é a
do Mundo de Futebol, em 1970, no México, mantendo um clima
atitude utilizada por de-
de euforia generalizada. O Brasil inteiro cantava (e ainda canta, terminados grupos para
expressar o enaltecimen-
com algumas adaptações relacionadas ao número da população) to do potencial brasileiro,
particularmente diante do
o hino da copa “Pra frente Brasil”:
milagre econômico nos
anos de ditadura militar.
Noventa milhões em ação Muitas vezes exagerado
e expondo a si e ao país
Pra frente Brasil a uma interpretação de
Do meu coração excesso de vaidade. É
desta época os lemas,
Todos juntos vamos músicas e propagandas
nacionalistas, como a
Pra frente Brasil mensagem distribuída em
Salve a Seleção adesivos: “Brasil, ame-o
ou deixe-o.”
De repente é aquela corrente pra frente
Parece que todo Brasil deu a mão
195 CEDERJ
Aula 9 • O lazer contemporâneo
Todos ligados na mesma emoção
Tudo é um só coração
Todos juntos vamos
Pra frente Brasil! Brasil!
Salve a seleção!
Esta e outras manifestações que Elio Gaspari apelidou de
“patriotadas” refletem um período paradoxal da história do Bra-
sil. Em sua obra A ditadura escancarada, Elio Gaspari justifica:
O Milagre Brasileiro e os Anos de Chumbo foram simultâneos.
Ambos reais, co-existiam negando-se. Passados mais de trinta
anos, continuam negando-se. Quem acha que houve um, não
acredita (ou não gosta de admitir) que houve o outro (GAS-
PARI, 2002).
Ao mesmo tempo, observa-se o aumento do número de
famílias típicas de classe média que puderam comprar seus tele-
visores e automóveis, ir ao cinema, adotar fins de semanas de la-
zer no campo ou na praia e a substituir gradualmente o comércio
de rua pela ida ao shopping center (ALMEIDA, 2005).
O regime militar apoia-se numa aliança entre a censura e a
repressão política e o desenvolvimento e controle da indústria cul-
tural. Conjugou-se oportunamente a imprescindível propaganda
de governo e a necessidade de investimento estatal para a amplia-
ção da indústria televisiva.
Podemos encontrar algumas destas propagandas
do governo durante a ditadura militar no YouTube, a
exemplo da campanha “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
http://www.youtube.com/watch?v=huox9B30uN0
CEDERJ 196
Lazer
As expressões populares e as festas típicas passam a ser
controladas pelo regime militar, assim como todas as expressões
artísticas. Não somente a repressão policial, mas também o pró-
prio desenvolvimento das cidades e, com ele, a diminuição de
áreas livres e o aumento do número de carros nas ruas, inibiram
as manifestações dos lazeres típicos do ambiente rural, como o
convívio entre vizinhos e as brincadeiras das crianças nas ruas,
entre outras. Tudo isso reforça a televisão como a maior vivência
de lazer popular.
Cientes de que as manifestações populares e de lazer ser-
viam como propaganda política, os militares iniciaram um amplo
investimento na área esportiva, incentivando a participação em
jogos olímpicos e campeonatos mundiais de futebol. Investiram
na construção de estádios, campos de várzea e parques públi-
cos. Esta utilização política do esporte e lazer, segundo Sant’Anna
(1994), teve seu apogeu com o projeto governamental Esporte
Para Todos. Através do discurso de formação de atletas e o in-
vestimento nos clubes, o esporte serviu para mostrar a evolução
da nação, estratégia típica de regimes totalitários. Neste período
em que o esporte foi sistematicamente utilizado a favor do regi-
me militar, tivemos as conquistas do Brasil como tricampeão da
Copa do Mundo de Futebol (1970), as medalhas no Pan-America-
no e nos Jogos Olímpicos no período de maior repressão política
(1970 a 1972).
Neste período, a oferta do lazer esteve voltada especial-
mente para a classe média, através:
• da aproximação com as elites internacionais com o au-
mento das viagens para outros países;
• da criação de espaços turísticos e hotéis;
• dos passeios nos fins de semana (já que os militares
continuaram a construção das estradas por todo país,
que posteriormente seriam diminuídas pela crise do
petróleo da década de 1970);
197 CEDERJ
Aula 9 • O lazer contemporâneo
• do acesso a filmes que não fossem censurados;
• do desenvolvimento dos museus;
• das músicas da indústria cultural;
• da expansão da criação de clubes.
Ao mesmo tempo que o Estado, sob o regime militar, con-
tinua com o projeto desenvolvimentista também investe na tele-
Pornochanchada
visão e no cinema para formar um aparato ideológico baseado
É um gênero do cinema
brasileiro que surgiu em nas artes visuais, procurando retirar o caráter político contesta-
São Paulo na década de tório das artes e do lazer.
1970. Com uma produção
numerosa e comercial,
principalmente na região Na televisão, mais especificamente, temos o Estado ao lado
de prostituição conhecida
da indústria cultural, através do investimento em temas
como Boca do Lixo, reve-
lou diretores talentosos apolíticos como as telenovelas (ORTIZ et al., 1988). Entre
como Claudio Cunha, 1964-1980 ocorre uma formidável expansão da produção,
Alfredo Sternheim, Ody
distribuição e consumo de bens culturais, de acordo com a
Fraga, Fauzi Mansur,
entre outros. Este gênero necessidade de apoio do governo junto à população. É nesta
foi assim chamado por fase que se dá a consolidação dos grandes conglomerados
misturar elementos do
de meios de comunicação, como a TV Globo e a Editora Abril
gênero conhecido com
chanchada, no qual (ORTIZ, 1985). O exemplo clássico deste nacionalismo sem
predomina um humor engajamento político, sem compromisso estético e distante
ingênuo e popular, com de qualquer inovação foi a produção das pornochanchadas
altas doses de erotismo
comum aos filmes porno- (ALMEIDA, 2005).
gráficos, sendo que, em
uma época de censura
no Brasil, não eram Com a censura e o cenário político descrito, as práticas
permitidas cenas de sexo
de lazer popular ficaram restritas aos eventos do regime militar
explícito nos filmes. A
censura, que estava mais como o EPT (Esporte Para Todos) (SANT’ANNA, 1994); apresen-
pautada nos costumes
do que na política, exigia tações de circos populares e parques de diversões (MAGNANI,
que os filmes cumprissem
1998); e as atividades do Serviço Social do Comércio (Sesc) e da
uma série de exigências,
e muitos filmes foram Indústria (Sesi), de onde sairiam, na década de 1980, os primei-
liberados, totalmente re-
talhados por cortes, o que ros estudiosos do lazer no Brasil (Marcellino, Requixa e Oliveira).
os tornava incompreen- Eles só terão visibilidade na década de 1980, momento em que
síveis. Essas exigências
foram amenizadas com a o Brasil passa a viver o período da redemocratização – ou do
liberação dos costumes e
a abertura política, inicia-
afastamento planejado dos militares do poder – com a volta da
da em 1977 até o fim da preocupação com o popular e o engajamento político.
censura em 1984, quando
o gênero foi substituido Os teóricos brasileiros do lazer como Marcellino, Requixa e
pelos filmes pornográ-
Oliveira vão propor em suas análises a formação de agentes cul-
ficos exibidos em salas
especiais. turais de lazer junto à população, recuperando a valorização do
CEDERJ 198
Lazer
popular, reprimida durante o regime militar. Eles atuavam com
ou para órgãos sociais vinculados aos sindicatos patronais da in-
dústria e do comércio, ao mesmo tempo em que compactuavam
com as ideias de uma esquerda cuja importância política tendia a
crescer na medida em que o regime político torna-se mais demo-
crático. É natural, portanto, que a produção, a respeito de lazer,
procure privilegiar no primeiro momento temas populares e da
cultura, tentando superar duas décadas de censura e repressão.
Este resgate artístico do popular através do lazer, contudo, não
vai se realizar. Segundo Ridenti (1999), tivemos depois da volta
da democracia, a maior evolução da indústria cultural jamais vis-
ta. “A redemocratização, com o respeito às garantias individuais
e a liberdade de expressão, criou um ambiente propício para a
proliferação da indústria cultural e da globalização” (ALMEIDA,
2005).
Atividade
Atende ao Objetivo 1
1. Uma das canções que criticam a ditadura é uma carta musicada
de Chico Buarque em homenagem a Augusto Boal, que vivia exi-
lado em Lisboa, quando o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar.
A canção se chama “Meu caro amigo” (Chico Buarque e Francis
Hime) e foi lançada originalmente num disco cujo título é Meus
caros amigos, do ano de 1976. Elabore um texto, analisando o tre-
cho em destaque, considerando a situação político-econômica do
país durante a ditadura que transparece nos versos do autor, e
comparando com o conteúdo que acabamos de estudar.
Meu Caro Amigo
(Chico Buarque e Francis Hime)
(...)
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
(...)
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita mutreta pra levar a situação
199 CEDERJ
Aula 9 • O lazer contemporâneo
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando e também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão
(...)
É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
(...)
Resposta Comentada
Ao refletir sobre estes versos, podemos identificar a amargura que
se esconde por trás do futebol e do samba. O “muito choro” que
pode ser entendido como estilo musical ou como reflexo de sofri-
mento e, entre dois estilos musicais nacionais segue-se o rock’n´roll,
revelando a influência norte-americana no cotidiano do país. A di-
fícil situação é levada com “mutreta”, com artifícios criativos para
driblar o rigor da censura e da ditadura militar, como os codinomes
adotados por muitos compositores da época, em uma atitude de tei-
mosia e de “pirraça” em defesa de sua liberdade de expressão. São
necessárias “piruetas” e outras manobras para manter o sustento,
principalmente a classe artística.
Redemocratização e o surgimento de uma re-
flexão nacional sobre lazer (1985-1990)
Quando estudamos o lazer como objeto de estudos no Bra-
sil, observamos que as reflexões a este respeito começaram a ser
sistematizadas a partir da década de 1970 através da incorporação
das discussões de Joffre Dumazedier. Foi a obra de Dumazedier
que aproximou Stanley Parker dos pesquisadores brasileiros. A
CEDERJ 200
Lazer
valorização do popular, presente na obra de Dumazedier (1979), e
a lembrança da efervescência política nas artes, universidades e
sindicatos conduziu à ideia da formação de agentes culturais. Já
Parker (1978), por sua vez, discutia o lazer através da dicotomia
lazer-trabalho, servindo inclusive de referência para Dumazedier
(1979). As pesquisas sobre a influência do trabalho na sociedade
brasileira estavam no seu início; as primeiras traduções sistemá-
ticas de autores que focavam o tema são deste período (RIDENTI,
1999). A obra de Parker serviu para pensar a relação entre lazer e
trabalho, mostrando algumas das contradições e interações pos-
síveis (ALMEIDA, 2005).
Vale ressaltar que, neste primeiro momento, não houve a
apropriação de cientistas norte-americanos, porque esta “bus-
ca” das características do povo brasileiro tinha como marca uma
postura antiamericana (RIDENTI, 1999). A incorporação de auto-
res dos Estados Unidos só veio a ocorrer no começo da década
de 1990, quando no Brasil, através da globalização, começou-se a
estudar os parques temáticos, o turismo e o lazer nas empresas,
bem como os aspectos econômicos do lazer.
Devemos observar também que nas décadas de 1970 e 1980
quando Nelson Carvalho Marcellino, Renato Requixa e Paulo de
Salles Oliveira discutiam o lazer, as pesquisas estavam permeadas
pelos temas da cultura popular, sob influência de autores como
Gramsci e pelo método educacional de Paulo Freire.
Gramsci destaca o conceito de hegemonia cultural, segun-
do o qual o poder das classes dominantes no modo de produção
capitalista não reside apenas nos aparatos repressivos do Esta-
do. Se fosse pela força, para inverter esta situação bastaria um
aparato armado equivalente ou superior a serviço dos ideais do
proletariado e das classes dominadas, cada vez mais numerosos.
No entanto, este poder é exercido fundamentalmente pela hege-
monia cultural em que as classes dominantes exercem o controle
sobre as dominadas através do sistema educacional, das insti-
tuições religiosas e dos meios de comunicação que “educam”
os dominados para a submissão como algo natural e convenien-
201 CEDERJ
Aula 9 • O lazer contemporâneo
te, inibindo potenciais revolucionários. Assim, por exemplo, em
nome da “nação” ou da “pátria” as classes dominantes fomen-
tam no povo o sentimento de identificação com elas por uma
união sagrada com os exploradores contra um inimigo exterior e
a favor de um suposto destino nacional, no qual todas as classes
sociais condicionam-se a um projeto essencialmente burguês.
Já a influência do renomado educador brasileiro, Paulo
Freire, (pernambucano, nascido no ano de 1921 e falecido em
São Paulo em 1997) destaca-se o seu trabalho na área da educa-
ção popular. Ele considerava que além da escolarização a educa-
ção deveria promover a formação da consciência. Paulo Freire é
reconhecido como um dos pensadores mais notáveis na história
da pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento chama-
do Pedagogia Crítica. Ele delineou a Pedagogia da Libertação, in-
timamente relacionada com a visão marxista do terceiro mundo
e das classes oprimidas. Segundo a visão de Freire, todo ato de
educação é um ato político. Entre suas maiores contribuições no
campo da educação popular está a alfabetização e a conscienti-
zação política de jovens e adultos operários, influenciando movi-
mentos como o das Comunidades Eclesiais de Base (CEB).
Assim, Marcellino (1990) discute a inserção dos conteúdos
culturais de lazer como forma de sistematização de uma política
de lazer, propondo a formação de agentes culturais de lazer. Pela
sua prática no Sesc, Marcellino (1995) pensou o lazer como ati-
vidades desenvolvidas dentro de um planejamento criterioso. As
práticas espontâneas da cultura popular seriam racionalizadas,
descritas e confrontadas com práticas novas. Visando, assim, à
formação de quadros especializados em animação sociocultural,
ou ainda profissionais voltados ao desenvolvimento de ativida-
des de lazer junto à população (ALMEIDA, 2005).
A proximidade com as teorias de Dumazedier e de Parker
e a inexistência de traduções de outras pesquisas que discutiam
os aspectos econômicos e de mercado para o lazer globalizado,
até o final da década de 1980, favoreceram a aglutinação do tema
sobre Nelson Carvalho Marcellino. Tornando-se, então, uma refe-
CEDERJ 202
Lazer
rência nacional. Ele formulou uma proposta de estudo específica
e constituiu um grupo de estudantes que ajudaram a divulgá-la
e a reproduzi-la. Com uma forte inserção nas políticas públicas
e nos governos de gestões petistas (Partido dos Trabalhadores
− que elegeu o presidente da República em 2003, e reeleito em
2007, Luis Inácio Lula da Silva). Alguns exemplos de grandes
centros que utilizaram o método de Marcellino são: Porto Alegre
(STIGGER, 1996) e Belo Horizonte (BELO HORIZONTE, 1999).
Durante quase duas décadas a discussão no campo do la-
zer vai se concentrar no tempo livre, em contraponto ao tempo
de trabalho. Segundo Marcellino (1987), o “tempo de lazer é o
tempo de não obrigação social”, considerando obrigações sociais
compromissos com a família, a religião, cursos, entre outros.
A esta preocupação com o tempo disponível soma-se o caráter
educativo do lazer sob a influência de Paulo Freire (MARCELLINO,
1995). Difundindo no discurso político a ideia de um lazer funcio-
nalista, que poderia ser útil, por exemplo, para conter a violência
urbana. Discutiu-se ainda a preservação e a transformação das
áreas urbanas para facilitar o acesso ao lazer através da criação
de parques, reservas florestais e áreas livres (ALMEIDA, 2005).
Outro autor que se destaca neste período é o antropólogo
José Magnani que se dedicou à observação de grupos e comu-
nidades, apontando características do lazer em classes desprivi-
legiadas ao publicar Festa no pedaço: cultura popular e lazer na
cidade (1998).
A globalização e o lazer: a exclusão social e a
inserção da indústria cultural mundial na cultu-
ra brasileira (1990- )
O final do século XX foi marcado por importantes mu-
danças no âmbito econômico. Aconteceram a partir de 1980,
principalmente com as políticas de Ronald Reagan e Margaret
Thatcher, lideranças políticas em âmbito internacional basea-
das, respectivamente, nos Estados Unidos e no Reino Unido.
203 CEDERJ
Aula 9 • O lazer contemporâneo
O fenômeno internacional de reformulação do capital co-
nhecido como globalização, mundialização do capital ou neoli-
beralismo caracteriza-se basicamente por três aspectos aparen-
temente distintos:
• liberalização financeira dos fluxos de capital;
• abertura da pauta comercial com baixa tarifação ou livre
comércio;
• reestruturação das relações produtivas.
Com maior liberdade na circulação de dinheiro e mercadorias,
as empresas encontraram novas formas de gerenciamento da
produção, circulação, financiamento e acumulação de capitais.
Nada disso seria possível sem uma revolução na tecnologia
das comunicações, informática e transportes que reduziram
distâncias geográficas e temporais (ALMEIDA, 2005).
Com a abertura política no começo da década de 1980,
ocorreu um desenvolvimento vertiginoso da indústria cultural,
principalmente em função dos investimentos que já tinham sido
realizados durante o regime militar na área das comunicações,
sempre sob controle dos órgãos de censura. Porém, enquanto a
expressão típica da indústria cultural no regime militar caracte-
rizava-se pelo nacional-desenvolvimentismo, a indústria cultural
na redemocratização e nos períodos subsequentes é marcada
pela globalização e pelo fim da censura. Estes dois acontecimen-
tos proporcionaram o desenvolvimento de práticas de lazer tí-
picas dos países desenvolvidos no Brasil, apesar da grande ex-
clusão social e da dificuldade de acesso a um lazer pago para a
maior parte da população (ALMEIDA, 2005).
Esta exclusão social, a globalização e a alta taxa de de-
semprego, refletiram em uma mudança de paradigma no lazer.
As discussões e teorias sobre o lazer no tempo livre e que es-
tavam pautadas na dicotomia lazer/trabalho ou na importância
de formação defendidas por Marcellino e presente nas leituras
de Dumazedier e Parker, entram em colapso metodológico. Isso
CEDERJ 204
Lazer
porque estas teorias foram estruturadas durante os efeitos da re-
democratização no início da globalização. Ainda sob o frenesi do
nacional popular e da pedagogia de Paulo Freire, e ajustadas aos
resquícios do milagre econômico, da política de pleno emprego
diante do crescimento do setor de serviços, das leituras keinesia- Leituras
keinesianas
nas sobre o Estado de bem-estar social e à esperança de participação
e o Estado de
popular na política brasileira (ALMEIDA, 2003). bem-estar social
Com a globalização e o maior acesso à literatura interna- As ideias keinesianas de
um Estado de bem-estar
cional, diferentes grupos intensificam as discussões e interpreta- significaram uma trégua,
uma intervenção do
ções científicas do lazer com base na leitura de autores clássicos, Estado sobre os meios de
pós-modernos ou contemporâneos da sociologia que constroem produção e de acumula-
ção de capital, do qual se
novos paradigmas do lazer. Como o lazer contemporâneo se inse- esperaria o bolo crescer
para assim depois poder
re na globalização e quais as suas contradições? Eis a questão.
dividi-lo. Trata-se de
Dumazedier, na França, Parker, na Inglaterra, Grazia e Ve- um acordo praticado no
governo de Margareth
blen, nos Estados Unidos, entre os principais, já haviam construí- Tatcher, na Inglaterra
e de Ronald Regan, nos
do as teorias em seus países, pautados nos clássicos e na história
Estados Unidos. Segundo
particular da sua industrialização. Este mesmo fenômeno só vai Bowles, citado por Claus
Offe, este acordo rep-
ocorrer no Brasil após a globalização, mesmo que sem uma siste- resentou, por parte da
matização consensual (ALMEIDA, 2005). mão de obra, a aceitação
da lógica do lucro e dos
Neste processo de globalização, a partir dos anos 1990, o mercados como princí-
pios orientadores da
Brasil adota uma política neoliberal caracterizada pelas privatiza- alocação dos recursos,
ções e a diminuição da atuação do Estado nas diferentes esferas das trocas internacionais,
da mudança tecnológica,
da vida, inclusive no lazer. A passagem do mundo do trabalho do desenvolvimento do
produto e da alocação
pela chamada reestruturação produtiva, levou:
industrial. Em troca, as
forças de trabalho teriam
• à terceirização; uma garantia de que
seriam defendidos os
• à informalidade;
padrões mínimos de vida,
• ao desemprego estrutural; os direitos sindicais e os
direitos democráticos
• à perda dos direitos trabalhistas; liberais, seria evitado o
desemprego em massa
• à quebra das organizações sindicais.
e a renda real subiria
aproximadamente de
Uma das consequências foi o crescimento do setor terciário acordo com a produ-
tividade do trabalho,
(serviços, comércios, entretenimento, lazer e turismo) em detrimen-
tudo isto através da
to do setor secundário (indústria). Outras características importan- intervenção do Estado, se
necessário (OFFE, 1984).
tes que também fazem parte deste novo modelo econômico são:
205 CEDERJ
Aula 9 • O lazer contemporâneo
• a supremacia da língua inglesa;
• a velocidade;
• o consumo;
• as relações efêmeras;
• a reformulação das concepções de tempo e espaço;
• a influência da imagem;
• a mundialização da cultura através da indústria cultural;
• a minimização do papel do indivíduo (PADILHA, 2002).
Apesar de a questão da exclusão social ter se tornado mais
presente a partir do discurso sobre a globalização, no Brasil ela
é muito mais um reflexo do período militar do que dos avanços
neoliberais dos anos de 1990.
É importante, contudo, frisar que o país é muito desigual,
apresentando regiões bem desenvolvidas e outras muito carentes.
Apesar da melhora nos índices − como o aumento da expectativa
de vida, a diminuição do crescimento vegetativo, a diminuição de
analfabetos e uma pequena melhora na distribuição de renda −
temos um típico quadro de país subdesenvolvido. O que se reflete
no lazer, pois somente os setores de classe média e da classe alta
usufruem de um amplo leque de alternativas. Podemos afirmar
que no Brasil o lazer das classes alta e média, não se diferencia
muito das outras grandes metrópoles do mundo. São Paulo, Rio
de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre etc. possuem praticamente as
mesmas possibilidades de lazer que Nova York, Tóquio, Paris, Lon-
dres, etc. Existe à disposição um lazer globalizado com os parques
temáticos, estrutura de turismo, academias de ginásticas e escolas
de esportes, espetáculos de teatro, cinemas, apresentações nacio-
nais e internacionais de música, bares e restaurantes finos com
chefs da cozinha internacional (ALMEIDA, 2005).
A existência deste mercado de lazer voltado à população de
mais recursos leva ao desenvolvimento de uma reflexão sistemáti-
ca, principalmente com relação ao turismo, à hotelaria e aos espor-
tes de aventura (TRIGO, 2000; BRUHNS, 2001; RAGO, 1999). Além
disso, manifestações de cultura popular com mais visibilidade nos
CEDERJ 206
Lazer
meios de comunicação de massa, como o carnaval e a capoeira,
constituem objetos específicos de pesquisa (BRUHNS, 1997).
O estudo das demais manifestações populares de lazer,
contudo, avança com muita dificuldade em função do pouco
acesso a financiamento e poucas possibilidades de divulgação
dos resultados. As possibilidades de acesso ao lazer, por parte
da população excluída e de baixa renda no Brasil, ficam cada
vez mais restritas. Primeiro por falta de espaço, já que as ruas
são palco da violência urbana, tornando a televisão o maior pro-
motor do lazer. Além disso, cabe destacar a visita aos parentes e
as festas populares. Os parques e áreas verdes, por sua vez, são
poucos em relação à demanda, subutilizados em função da falta
de investimentos e da ausência de uma política de coordenação
com os demais órgãos públicos, além de muitas vezes localiza-
rem-se nas regiões mais ricas das cidades (ALMEIDA, 2005).
De acordo com o IBGE ao final de 1990, 93% dos municípios
brasileiros não têm sala de cinema e 94% não possuem um
shopping. Cerca de 85% das cidades não contam com museus
ou teatros, 35% não tem ginásio esportivo e cerca de 25% não
possuem bibliotecas públicas (WERNECK, 2001, p. 45).
Estes dados apresentam a diferença entre as capitais e os
grandes centros populacionais, frente aos lugares com baixa
densidade demográfica de um território muito extenso.
Atividade
Atende ao Objetivo 2
2. Justifique a afirmativa a seguir, diferenciando as manifesta-
ções da indústria cultural no regime militar e nos períodos poste-
riores à redemocratização no Brasil:
Enquanto a expressão típica da indústria cultural no regi-
me militar caracterizava-se pelo nacional-desenvolvimen-
tismo, a indústria cultural na redemocratização e nos perí-
odos subsequentes é marcada pela globalização e pelo fim
da censura (ALMEIDA, 2005, p. 23).
207 CEDERJ
Aula 9 • O lazer contemporâneo
Resposta Comentada
O nacional-desenvolvimentismo brasileiro caracterizou-se pelo ufa-
nismo, pelo nacionalismo exagerado em que todo o sacrifício da
população seria justificado pelo crescimento do país. A indústria
cultural era acessível às classes média e alta. Pautou-se na imposi-
ção pública de símbolos nacionais e campanhas publicitárias que se
utilizaram principalmente do cinema para difundir a consciência de
nação e de patriotismo, moderados pela disciplina, pela moral e pela
censura através da força militar. A televisão se tornou o principal
aliado aos interesses políticos e econômicos. A opção de lazer domi-
ciliar diante da repressão às manifestações populares, além do uso
político do esporte em programas como Esporte Para Todos. Com a
redemocratização e a globalização, dando maior acesso aos padrões
internacionais de comportamento e consumo, a censura explícita é
substituída pelo conceito de hegemonia cultural. A indústria cultu-
ral se apropriou destes aspectos e de manifestações populares para
uma produção em massa. O lazer se consolida como um produto na
lógica do mercado capitalista. O futebol, o carnaval e a capoeira (por
exemplo) se impõem como identidade nacional e, ao mesmo tempo,
são tratados como “produtos de exportação”, que diferenciam e exal-
tam o Brasil no cenário internacional.
CEDERJ 208
Lazer
Com a globalização e o desemprego estrutural, as discus-
sões nacionais sobre lazer, fundamentadas nas leituras de Duma-
zedier e Parker, entram em esgotamento metodológico (ALMEI-
DA, 2003). Este quadro permite perceber, em resumo, três novas
tendências de pesquisa na área:
• uma tentativa de redefinir o lazer através da recupera-
ção dos autores clássicos das ciências humanas à luz dos
acontecimentos atuais;
• uma apropriação das reflexões dos autores chamados de
pós-modernos e
• uma tentativa de sistematizar uma reflexão do campo do
lazer voltada especificamente à implementação de políti-
cas públicas e iniciativas do terceiro setor.
Durante os últimos anos, autores brasileiros procuraram
pensar o lazer a partir de autores clássicos como, por exem-
plo, Marx, Adorno, Weber e Thompson (BRUHNS, 2002); Lukács
(ANTUNES, 2001); Freud, Marcuse e Reich (GUTIERREZ, 2001);
Habermas (GUTIERREZ, 2002) e Norbert Elias (GEBARA, 2000).
Estas reflexões ampliaram o debate, questionando a produção
fundamentada da dicotomia lazer-trabalho, representada princi-
palmente por Marcellino.
Vamos analisar as contribuições:
Norbert Elias: Gebara (2000) publica o texto “Norbert Elias
e as teorias do processo civilizador: contribuição para a análise
e a pesquisa do campo do lazer”, no qual define o lazer a partir
de uma decisão individual e não mais vinculado diretamente a
um tempo determinado socialmente, como ocorre na tradição da
dicotomia lazer/trabalho. Assim, o lazer é encarado como a busca
de um descontrole medido, dentro das regras que constituem
a sociedade. Um motivo que facilitou a divulgação da obra de
Elias, assim como Dunning, foram suas pesquisas sobre futebol.
Os autores interpretam os excessos das explosões fortes e apai-
209 CEDERJ
Aula 9 • O lazer contemporâneo
xonadas dos torcedores como um momento em que as restri-
ções sociais e instituições de controle que submetem o indivíduo
em sociedade são amortecidas ou relaxadas (ELIAS; DUNNING,
1992), característica das atividades de lazer;
Habermas: a reflexão a partir de Habermas aponta que o
lúdico pode ser encontrado tanto no mundo da vida como nos
sistemas dirigidos pelos meios de poder e a moeda. O lazer, se-
gundo esta interpretação, caminha juntamente com a evolução
social, a transformação do mundo da vida e a inovação dos siste-
mas. Neste caso, o lazer de consumo encontra-se subordinado à
lógica da expansão dos sistemas dirigidos pelos meios. Poder e
dinheiro, enquanto outras formas de lazer se encontram ligadas
à cultura popular e à sociabilidade espontânea no mundo da vida
(GUTIERREZ, 2002; ALMEIDA, 2003).
Uma contribuição importante da obra de Habermas é ques-
tionar o lazer compreendido como, de um lado, um bem ou serviço
de consumo à venda no mercado e, do outro lado, um lazer “verda-
deiro” a exemplo de manifestações populares ou comunitárias.
Rago e Brunhs: autores influenciados pelas ideias da pós-
modernidade, como verificamos em Rago (1999) e Brunhs (2000),
Pastiche
tratam de temas como o individualismo, a sobrevalorização da
É definido como obra
literária ou artística em aparência, a intranscendentalidade dos valores e a performance
que se imita grosseira-
(RAGO, 1999). Tudo isso potencializado pela utilização intensiva
mente o estilo de outros
escritores, pintores, do instrumental técnico mais recente disponível, como é o caso
músicos, etc. O pastiche
pode ser plágio, por isso das comunicações e da informática (BRUHNS, 2001). Alguns as-
tem sentido pejorativo, ou
pectos do lazer são privilegiados como, por exemplo, o esporte
é uma recorrência a um
gênero. Modernamente, de aventura, o encantamento com a natureza, o turismo ecoló-
o pastiche pode ser visto
como uma espécie de gico, o conceito de tribo e formação de grupos e o corpo como
colagem ou montagem, expressão da cultura. Enfim, o pós-moderno, por não adotar um
tornando-se uma paródia
em série ou colcha de referencial teórico rígido, encontra no objeto lazer um tema pro-
retalhos de vários textos.
Nem sempre é gros-
pício à exaltação do pastiche.
seiro, como demonstra o
romance Em liberdade,
de Silviano Santiago, por
exemplo, que é pastiche
do estilo de Graciliano
Ramos.
CEDERJ 210
Lazer
Observamos, assim, que o lazer veio amadurecendo como
campo de estudo paralelamente às práticas sociais associadas
ao tempo, às políticas e à tecnologia adotadas no mercado de
trabalho e de produção das cidades. Ainda há muitas possibi-
lidades de aplicação e de análise sobre os potenciais do lazer
em diferentes áreas do conhecimento, principalmente diante da
intensa e expansiva indústria do entretenimento, assunto que
detalharemos na próxima aula.
Atividade Final
Atende ao Objetivo 3
Com a redemocratização, soma-se à preocupação e aos estudos
do tempo livre versus tempo de trabalho o caráter educativo do
lazer sob a influência de Paulo Freire (MARCELLINO, 1995). Co-
mente a influência de Paulo Freire nos estudos do lazer, especial-
mente em relação à proposta de formação de agentes culturais,
de Marcellino (1995).
Resposta Comentada
Segundo Paulo Freire, “todo ato de educação é um ato político”. Com
base neste preceito, Marcellino difunde no discurso político a ideia
de um lazer funcionalista, que poderia ser útil, por exemplo, para
conter a violência urbana. Discutiu-se ainda a preservação e a trans-
formação das áreas urbanas para facilitar o acesso ao lazer. Através
da criação de parques, reservas florestais e áreas livres e a inserção
dos conteúdos culturais de lazer como forma de sistematização de
uma política de lazer, propondo a formação de agentes culturais de
211 CEDERJ
Aula 9 • O lazer contemporâneo
lazer. Pela sua prática no Sesc, Marcellino pensou o lazer como ativi-
dades desenvolvidas dentro de um planejamento criterioso, em que
as práticas espontâneas da cultura popular seriam racionalizadas,
descritas e confrontadas com práticas novas.
Resumo
O crescimento e a valorização das práticas de lazer são fruto dos
processos de conquista do tempo livre, legalização dos direitos
trabalhistas, industrialização e urbanização. Processos estes que
se manifestam de diferentes formas na sociedade, visto que são
reflexos de contextos socioeconômicos, políticos e culturais. No
Brasil, considera-se três fases históricas para os estudos do lazer:
- nacional-desenvolvimentismo: de 1946 a 1964;
- regime Militar: 1964-1985;
- redemocratização e globalização: a partir dos anos 1990.
Traçamos o contexto social, político e econômico e as principais
influências e reflexos no campo do lazer como prática social, como
produto do capitalismo e como instrumento político. Tanto quan-
do aplicado à educação no despertar para a cidadania, quanto
como instrumento de manipulação. Novos estudos sobre o lazer
ampliam a visão da dicotomia tempo de trabalho versus tempo
de lazer, frente às novas tecnologias de informação e o contexto
da globalização. A indústria cultural adapta seus programas como
produtos para as novas mídias de massa.
Atualmente, a maioria dos bens e serviços de lazer estão submeti-
dos às mesmas leis de mercado de outros segmentos da economia.
Isso pode trazer graves problemas para o desenvolvimento social
e cultural da sociedade no que diz respeito à igualdade de acesso a
esses serviços, ocasionando a segregação do acesso ao lazer.
A renda, a escolaridade, o sexo, o local de moradia e a faixa etária
são os fatores determinantes para a segregação de públicos no
acesso a determinados tipos de lazer, como o lazer físico-esportivo,
o artístico, o intelectual e o turístico. Esses fatores seguem a lógica
observada no acesso a bens e serviços como habitação e saúde,
quando a sua realização implica gastos, seja de implantação, seja
de acesso.
CEDERJ 212
Lazer
Podemos dizer que o lazer da classe média no Brasil, após o de-
senvolvimento industrial e das cidades acompanha, com algumas
peculiaridades como a censura, o desenvolvimento do lazer dos
países industrializados. Ao mesmo tempo, os setores de mais bai-
xa renda tiveram seu espaço de lazer, como a rua e manifesta-
ções populares, diminuído. Com pouco dinheiro e frente às crises
emergentes na economia mundial o refúgio é a casa e as teleno-
velas, que também serviam como propagandas políticas do regi-
me. Estes dois lados do lazer levam-nos a afirmação que o regime
militar possibilitou a elitização do lazer, ou ainda uma concepção
dual de lazer, que seria ampliada na globalização.
Propõe-se aos estudiosos e profissionais do lazer atentar para
esta desigualdade e promover, junto ao poder público e as or-
ganizações sociais, ações que ampliem o acesso da população
menos favorecida às práticas do lazer. Trabalhar o lazer como
fonte de desenvolvimento tanto pessoal quanto local, gerando
oportunidades de convivência, aprimoramento e geração de ren-
da e qualidade de vida, conforme a realidade observada em seu
campo de atuação.
Informação sobre a próxima aula
A partir desta reflexão sobre o contexto socioeconômico e
político do lazer no Brasil, veremos na próxima aula as principais
características e reflexos da indústria do entretenimento no Bra-
sil e no mundo.
213 CEDERJ
10 A indústria do entretenimento
Simone Dantas
Meta da aula
Apresentar o contexto de evolução da indústria do en-
tretenimento no Brasil quanto aos conceitos e práticas em
seu processo histórico, social, econômico e político.
Objetivos
Esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula,
você seja capaz de:
1 identificar as origens e a evolução da indústria do
entretenimento;
2 analisar a economia do entretenimento e sua aplicação
sociocultural.
Aula 10 • A indústria do entretenimento
Introdução
Vimos na aula anterior que, com a abertura política no Brasil,
no começo da década de 1980, ocorreu um desenvolvimento
vertiginoso da indústria cultural. Isso aconteceu principalmente
em função dos investimentos que já tinham sido realizados
durante o regime militar na área das comunicações, sempre sob
o controle dos órgãos de censura. Porém, enquanto a expressão
típica da indústria cultural no regime militar caracterizava-se pelo
nacional-desenvolvimentismo, a indústria cultural na redemocra-
tização e nos períodos subsequentes é marcada pela globalização
e pelo fim da censura. Estes acontecimentos proporcionaram o
desenvolvimento de práticas de lazer típicas dos países desen-
volvidos no Brasil, apesar da grande exclusão social e da dificul-
dade de acesso a um lazer pago para a maior parte da população
(ALMEIDA, 2005).
Gradativamente, destaca-se da indústria cultural a indústria do
entretenimento, com notável impulso em meados do século XX
e início do século XXI, paralelamente à abertura de mercado
para o capital internacional e ao aperfeiçoamento dos meios
de comunicação. O desenvolvimento da tecnologia proporcionou
uma considerável proliferação na oferta de atividades: desde os
grandes espetáculos de teatro, a invenção do cinema (um dos
primeiros produtos da incipiente indústria do espetáculo), a cria-
ção da possibilidade de registros sonoros, desde as velhas “bo-
lachas de cera” e as fitas cassete até os CDs e hoje MP3 e suas
variações continuamente aperfeiçoadas; a invenção e abrangência
de comunicação do rádio; a criação e o aperfeiçoamento da te-
levisão (uma das mais importantes mídias do mundo moderno),
as filmadoras, o videocassete e os DVDs de uso doméstico, as
gerações de videogames, a popularização do computador como
instrumento de entretenimento e de conexão com um universo
de possibilidades. O crescimento do hábito de viajar e de praticar
diferentes segmentos do turismo, “tudo isso vai se organizando
e se transformando em uma grande e influente máquina inter-
CEDERJ 216
Lazer
nacional de comércio, da qual se destacam, pelo pioneirismo,
profissionalismo e poder, as organizações norte-americanas”
(MELO, 2003, p. 13).
A indústria do entretenimento
Segundo Melo:
Claro que esse arsenal não é uma máquina ingênua, “sim-
plesmente destinada à diversão”. Por trás dela encontra-se
a potencialização dos velhos mecanismos de obtenção de
lucros diretos e indiretos já implementados pelas classes
dominantes na origem do capitalismo. É comum encontrar,
atrelada a tais produtos, a difusão de um sentido de lazer
associado à alienação: “não pensar em nada”, “desligar a
mente”. Contra tais compreensões simplistas, pretendemos
nos posicionar no decorrer deste livro (MELO, 2003, p. 13).
Entendendo o tempo livre como o tempo de que dispomos
fora das obrigações do trabalho remunerado e das obrigações
com cuidados pessoais, familiares, entre outras, encontramos
duas possibilidades de uso deste tempo para o lazer: o ócio ou
o lazer passivo, ou “o nada fazer”. Tanto na tradição clássica de
Aristóteles quanto na visão moderna de Domenico de Masi, cor-
responde ao tempo de relaxamento e contemplação no qual aflo-
ramos a criatividade. E o entretenimento, correspondendo ao uso
deste tempo para alguma atividade, ou seja, o lazer ativo. Vimos
que Dumazedier (1979) identifica os tipos de lazer como lazeres
físicos, práticos, intelectuais, artísticos ou sociais. Neste sentido,
identificamos uma série de atividades possíveis de serem prati-
cadas como lazer em nosso tempo livre para nos entreter.
Contudo, de modo geral, atribui-se uma tênue diferenciação
entre os conceitos de lazer e de entretenimento. Considera-se
o entretenimento como uma forma pós-moderna de usufruir o
tempo de lazer, com atividades via de regra pagas e/ou que
necessitam de recursos tecnológicos, de instrumentos ou equi-
217 CEDERJ
Aula 10 • A indústria do entretenimento
pamentos específicos para sua fruição e por sua produção estar
voltada para a cultura de massa. Ou seja, corresponde aos inte-
resses do capitalismo neoliberal.
O neoliberalismo surgiu na década de 1970, através da Escola Moneta-
rista do economista Milton Friedman, como uma solução para a crise
que atingiu a economia mundial em 1973, provocada pelo aumento ex-
cessivo no preço do petróleo. Pode ser entendido como um conjunto
de ideias políticas e econômicas capitalistas que defende a não parti-
cipação do Estado na economia. De acordo com esta doutrina, deve
haver livre mercado, ou seja, total liberdade de comércio. Este princípio
garantiria o crescimento econômico e o desenvolvimento social de um
país. Se quiser saber mais sobre este assunto, procure no endereço:
http://www.suapesquisa.com/geografia/neoliberalismo.htm
É certo que a indústria do entretenimento movimenta dife-
rentes setores da economia, num sistema de expansão cada vez
mais abrangente. Contudo, a lógica e o efeito do capital neoliberal
são de concentração vertical, ou seja, há o domínio centralizado
por determinados grupos empresariais das redes de produção e
de influências e de seus principais canais de distribuição, que
rapidamente se multiplica globalmente através dos eixos de comu-
nicação, dominando todo o processo de produção e de consumo,
promovendo reflexos socioculturais e econômicos. Há um fomento
para a competitividade empresarial e para a produção de cele-
bridades em constante ranking (semelhante ao que ocorre em
campeonatos esportivos) por seus grupos de interesses. Tudo
isso repercutindo na opinião pública através dos sistemas de
comunicação e influenciando o comportamento de gerações.
Este fenômeno vem ao encontro do conceito de hegemonia
cultural de Gramsci, em que as classes dominantes exercem o
controle sobre as dominadas por meio do sistema educacional,
das instituições religiosas e dos meios de comunicação. Também
consolida a visão de Riesman, que, em sua obra A multidão
solitária, publicada originalmente em 1950, mostrava pela primeira
CEDERJ 218
Lazer
vez o tempo de lazer cada vez mais orientado para práticas e valores
nascidos do universo invasor dos meios de massa, com encontros
diversificados, viagens, atividades corporais livres, grupos de iguais
(CAMARGO, 2001, p. 241).
A ideia de que nascemos livres e iguais é em parte verdadeira
e em parte enganosa; na realidade nascemos diferentes, mas
perdemos nossa liberdade tentando ser iguais aos outros
(RIESMAN, 1995).
De acordo com o professor doutor Luiz Gonzaga Godoi Tri-
go, da Universidade de São Paulo (USP), que desenvolveu sua
tese de livre-docência sob o título Entretenimento: uma crítica
aberta,
[...] segundo os elitistas, enquanto a arte trata cada espec-
tador, ouvinte ou leitor como indivíduo, provocando uma
resposta individual à obra, o entretenimento trata as suas
plateias como massa. Com tudo isso, o entretenimento é
mesmo divertido, fácil, sensacional, irracional, previsível e
subversivo. É um espetáculo para as massas, como bem
afirmou Debord (TRIGO, 2008, p. 32).
Trigo refere-se ao francês Guy Debord (1931-1994), pensador
situacionista pós-marxista, autor de A sociedade do espetáculo,
publicado em 1967. No livro, Debord desenvolve uma crítica
radical a todo e qualquer tipo de imagem que leve o homem
à passividade e à aceitação dos valores preestabelecidos pelo
capitalismo. Afirma que “toda a vida das sociedades nas quais
reinam as modernas condições de produção se apresenta como
uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido
diretamente tornou-se uma representação”.
Ou seja, pela mediação das imagens e mensagens dos meios
de comunicação de massa, os indivíduos em sociedade abdi-
cam da dura realidade dos acontecimentos da vida e passam
a viver num mundo movido pelas aparências e consumo per-
manente de fatos, notícias, produtos e mercadorias.
219 CEDERJ
Aula 10 • A indústria do entretenimento
(...)
O espetáculo consiste na multiplicação de ícones e imagens, –
diz Debord – principalmente através dos meios de comunicação
de massa, mas também dos rituais políticos, religiosos e hábi-
tos de consumo, de tudo aquilo que falta à vida real do homem
comum: celebridades, atores, políticos, personalidades, gurus,
mensagens publicitárias – tudo transmite uma sensação de per-
manente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. O espe-
táculo é a aparência que confere integridade e sentido a uma
sociedade esfacelada e dividida. É a forma mais elaborada de
uma sociedade que desenvolveu ao extremo o “fetichismo da
mercadoria” (felicidade identifica-se a consumo). Os meios de
comunicação de massa – diz Debord – são apenas “a manifes-
tação superficial mais esmagadora da sociedade do espetáculo,
que faz do indivíduo um ser infeliz, anônimo e solitário em meio
à massa de consumidores” (BAHIA, 2003).
Fonte: http://tecnologiaurbana.com.br/?p=508
Você já ouviu falar em Second Life?
Second Life é um ambiente virtual e tridimensional criado em 1999
e desenvolvido em 2003, atualmente mantido pela empresa Linden
Lab. Neste ambiente, o usuário da internet cria uma personagem de si
próprio, chamada no ambiente de “avatar”, e simula aspectos da vida
real e social do ser humano. Pode ser encarado como um mero simu-
lador, como um jogo, como uma rede virtual, mas não deixa de ser
um comércio virtual em que cada usuário cria para si uma “segunda
vida”, uma vida paralela na qual tudo é possível no universo do impos-
sível. É ou não é um “espetáculo”, conforme previa Debord em 1967?
CEDERJ 220
Lazer
Atividade
Atende ao Objetivo 1
1. Identifique a diferenciação entre as expressões indústria cultural
e indústria do entretenimento, ressaltando o cenário político e so-
cioeconômico em que estas expressões se manifestam no Brasil.
Resposta Comentada
A indústria cultural se manifesta durante o período do nacional-
desenvolvimentismo, com o intuito de reforçar uma identidade de
nação como um todo e sob domínio político. Sua produção foi
cerceada pela censura durante o regime militar, sendo exaltados os
símbolos nacionais e reproduzido um conceito de cultura clássica
que atendia a uma minoritária elite dominante.
A indústria do entretenimento corresponde a uma dimensão da
produção cultural voltada para as massas, para o grande público.
Emerge no processo de globalização e do capitalismo neoliberal,
frente à abertura dos mercados internacionais e às novas tecnolo-
gias de comunicação, sob domínio da cultura americana, que trans-
forma todos os recursos em produtos e todos os indivíduos em con-
sumidores durante o que seria o tempo livre para o lazer.
Esta concepção do lazer produzido para as massas é a que
melhor caracteriza a expressão indústria do entretenimento,
emergente no período posterior à Segunda Guerra Mundial e as-
sociada ao processo de globalização, especialmente no contexto
neoliberal. Esta indústria gera a economia do entretenimento,
que encontra nos estudos relacionados ao tempo dedicado ao
lazer doméstico, no turismo, no esporte e na cultura suas áreas
221 CEDERJ
Aula 10 • A indústria do entretenimento
principais. Conforme analisa o economista e professor do Instituto
de Economia da UFRJ, Fábio Sá Earp, em Pão e circo – fronteiras
e perspectivas da economia do entretenimento (EARP, 2002).
Assim, encontramos na popularidade da televisão um
dos veículos mais utilizados como entretenimento. Poderíamos
confundir com o lazer passivo (contemplativo), sendo que a TV,
como recurso midiático, nos transforma em consumidores para
a proliferação de conceitos, moda, comportamento e produtos,
por meio da informação sob a forma de espetáculo.
Também ler, ouvir música e navegar na internet são com-
ponentes expressivos da economia do entretenimento, na medi-
da em que existe hoje toda uma cadeia produtiva para que estes
produtos cheguem ao consumidor final sob a forma “ser impos-
sível não saber/conhecer/ter”. Assistir a grandes espetáculos mu-
sicais ou esportivos, ou mesmo ir ao teatro ou ao cinema, tam-
bém são atividades de entretenimento. Estas integram cadeias
produtivas próprias – desde a sua criação, desenvolvimento de
conteúdo, divulgação, distribuição e interface com o consumo –
que seguem a lógica de atribuir status e pertencimento a grupos
de iguais.
Assim, também encontramos o turismo como um campo
de estudo da economia do entretenimento, na visão de Fábio Earp
(2002, p. 25). Tais estudos de demanda e de oferta encontram na
mediação e nos recursos de comunicação os fatores estratégi-
cos para o seu desenvolvimento. Estas pesquisas trabalham com
os ideais e as expectativas dos potenciais consumidores. Como
exemplo de empreendimentos que atuam neste mercado: os par-
ques temáticos como a Disney e a representação dos cenários e
personagens que permeiam o imaginário de crianças e adultos.
Las Vegas – a meca dos cassinos, da ostentação, da liberdade e
do consumo – e Rio de Janeiro – a cidade do samba e do carna-
val – são conceitos criados que despertam expectativas e, para
atendê-las, transformam-se em diferentes produtos.
CEDERJ 222
Lazer
Figura.10.1: Vista panorâmica de Las Vegas Strip, a avenida dos cassinos e
hotéis mais concorridos.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Las_Vegas
Uma característica interessante é que a difusão do entre-
tenimento junto às novas tecnologias de comunicação tem apro-
ximado o tempo de lazer do tempo de trabalho, tornando cada
vez mais diluída a dimensão destes tempos. Recursos que têm
uma função profissional associam-se ao entretenimento dentro
e/ou fora do tempo de lazer e no ambiente de trabalho. Apare-
lhos celulares nos permitem acessar internet, tirar fotografias,
compartilhar mensagens com os amigos e até assistir à progra-
mação da TV. Computadores dispõem de programas para jogos
eletrônicos dos mais diversos e acessos às comunidades de re-
lacionamentos por afinidades e também para as mais diferentes
finalidades. Aparelhos reprodutores de músicas, como MP3, MP4
e variações, nos acompanham com fones cada vez menores. Os
shopping centers são locais de trabalho e ao mesmo tempo se
constituem em centros de consumo, de convivência e de lazer.
Tais conjugações têm produzido no mercado uma fusão
também de grandes negócios, com altos investimentos e riscos
igualmente, que acompanham a predisposição da demanda para
o consumo de um produto de entretenimento bem-sucedido. As-
sim, observamos que um livro pode dar origem a um filme. Este
filme pode passar com sucesso nas bilheterias dos cinemas e ser
reproduzido em DVD para venda e locação. Os atores principais
deste filme podem se transformar em brinquedos e em uma in-
223 CEDERJ
Aula 10 • A indústria do entretenimento
finidade de outros artigos. A trilha sonora é reproduzida em CDs
ou comercializada por faixas na internet, e o filme pode até dar
origem a lojas, restaurantes ou parques temáticos.
Você acompanhou a série de episódios Harry
Potter? Desde o lançamento do primeiro li-
vro, Harry Potter e a pedra filosofal, em 1997,
até os seis livros lançados em sequência,
foram vendidas mais de 490 milhões de
unidades no mundo. Seis deles se trans-
formaram em filmes distribuídos mundial-
mente. Sua autora, J.K Rowling, tornou-se
a mulher mais rica da literatura, segundo a
revista Forbes de 2004. Também notável é
Harry Potter: um fe- o desenvolvimento de uma grande massa
nômeno de consumo de seguidores. A ansiedade desses fãs a
com impacto cultural.
cada último lançamento da série fez com
Fonte: http://www.bing.
com/images/search?q=Ha que livrarias em todo o mundo fizessem
rry+Potter&FORM=IGRE# festas para coincidir com o lançamento à
meia-noite dos livros, começando em 2000
com a publicação de Harry Potter e o cálice de fogo. Esses eventos,
geralmente incluindo jogos, pintura facial, concurso de fantasias
etc., alcançaram grande popularidade entre os fãs de Potter e foram
muito bem-sucedidos ao atrair fãs e vender quase 9 milhões dos 10,8
milhões de livros da tiragem inicial de Harry Potter e o enigma do
príncipe, nas primeiras 24 horas após o lançamento.
Veja mais sobre os conteúdos e o impacto cultural desta megapro-
dução no endereço: http://entretenimento.uol.com.br/harry-potter/
saga-do-bruxo/index3.jhtm
Você percebeu a dimensão da economia do entretenimento?
As atividades de entretenimento sempre exigirão meios
que são pagos – seja pelo cliente final ou pelo investimento de
patrocinadores – para garantir uma cadeia produtiva (indústria)
do entretenimento. Esta tem por finalidade a diversão ou, sob
olhares mais críticos como os de Debord, a distração. Desviam
a atenção dos indivíduos dos aspectos sérios da vida – situação
da política, do mercado financeiro, ou de trabalho, crises sociais,
entre outros – para a ação livre das organizações que regem o
CEDERJ 224
Lazer
cenário político e econômico global. Tais críticas incidem mais
sobre a qualidade, a consistência e os objetivos dos conteúdos
produzidos para fins de entretenimento. A responsabilidade de
produção e de distribuição destes conteúdos exige critérios que
avaliem os impactos na cultura geral das sociedades envolvidas,
razão e importância da intensificação dos estudos sobre temas
cada vez mais diferenciados e complexos em relação ao lazer.
Analisaremos ainda nesta disciplina as políticas públicas de
lazer, que tratarão fundamentalmente das premissas para a oferta
de serviços e equipamentos de lazer. São investimentos feitos pelo
poder público para garantir o acesso da população, independente-
mente do seu poder aquisitivo. Já não cabe aqui tratar de censura
como vivenciamos durante o regime militar. Ao contrário, vamos
refletir sobre como os poderes públicos podem incentivar a ini-
ciativa privada a promover ações e programas de entretenimento
mais democráticos e com potencial cultural, de modo a promover
o desenvolvimento nas sociedades envolvidas.
Você assistiu ao filme Os Desafinados, lançado em 2008?
O filme tem início na década de 1960, quando Joaquim
(Rodrigo Santoro), Dico (Selton Mello), Davi (Ângelo Paes
Leme) e PC (André Moraes) são jovens músicos e composi-
tores partindo para Nova York em busca de sucesso. Lá eles
formam um grupo, chamado Os Desafinados, e integram o
movimento que lançou a bossa nova. Ao longo dos anos,
eles acompanham o cenário político e musical do Brasil.
Neste sentido, observamos a hegemonia cultural america-
na, o retrato do “sonho americano” dos brasileiros, a cen-
sura e a repressão sobre a vida e a música nos períodos
de ditadura, mas observamos também a memória destes
acontecimentos registrada com o romantismo que perme-
ava a sociedade. Assista ao trailer do filme, disponível no
link: http://www.youtube.com/watch?v=rEmL7mdnERc&fe
Os Desafinados, um filme de
ature=related
Walter Lima Jr.
Fonte: http://www.cinepop.com.br/
filmes/desafinados.htm
225 CEDERJ
Aula 10 • A indústria do entretenimento
De acordo com Camargo (2001), a renda, a escolaridade, o
sexo, o local de moradia e a faixa etária são os fatores determi-
nantes para a segregação de públicos no acesso a determinados
tipos de lazer, como o lazer físico-esportivo, o artístico, o intelec-
tual e o turístico. Segundo o autor, esses fatores
Operam dentro da mesma lógica observável no acesso a
bens e serviços como habitação e saúde, quando se concre-
tizam sob a forma de bens materiais ou quando a sua rea-
lização implica gastos, seja de implantação, seja de acesso.
(CAMARGO, 2001, p. 259)
Atividade
Atende ao Objetivo 2
2. Certamente você conhece o filme brasileiro Tropa de elite, não é?
Lançado em 2007, o filme foi baseado no best-seller Elite da
tropa, livro do antropólogo Luiz Eduardo Soares e dos ex-oficiais
do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) André Batista
e Rodrigo Pimentel. O livro apresenta histórias reais do dia a dia
da corporação. Dirigido por José Padilha, o filme tem como tema a
violência urbana na cidade do Rio de Janeiro e as ações do Bope. O
filme teve grande repercussão antes mesmo de chegar às telas do
cinema, pois chegou ao público pelo mercado pirata e pela inter-
net, transformando-se em uma verdadeira febre nacional e sendo
premiado internacionalmente no ano de 2008. Segue abaixo um
resumo das críticas dirigidas ao filme, escrito por Georgenor de S.
Franco Neto. Relate a sua opinião sobre o filme, refletindo sobre as
influências socioculturais reproduzidas em Tropa de elite e sobre os
possíveis impactos na imagem da cidade do Rio de Janeiro como
cenário desta superprodução e destino turístico nacional.
O trabalho de José Padilha causou polêmica antes mesmo
de entrar em cartaz. Além de ser o mais pirateado do cinema
brasileiro, o filme foi acusado de fascista, de estimular da
violência policial, unilateral, até de ser de direita (se é que
isso é xingamento?!). Nada disso procede! O que incomo-
dou parte da crítica e da “intelectualidade” foi o fato de o
filme ser direto e de colocar as coisas em seus lugares.
CEDERJ 226
Lazer
Primeiro, a corrupção policial é bem retratada. Porém, o
diretor não se furta a mostrar que existem policiais hones-
tos, caso dos aspirantes Neto e Matias.
Segundo, os bandidos são bandidos, e não benfeitores em
busca da terra perfeita. O cinema nacional tem tradição em
reproduzir bandidos charmosos, do O Bandido da Luz Ver-
melha a Carandiru. Não se trata de criar personagens sem
profundidade psicológica, de esconder o lado humano do
vilão. Mas, sim, de deixar de lado a mania, comum por
aqui, de que o meio social é a única força a determinar o
destino das pessoas. No mundo real, essa ideia filosófica
séria tornou-se discurso raso, que serve apenas para exi-
mir a culpa de criminosos. No mundo das artes, ele chegou
à exaustão. A maior prova é o próprio Tropa de Elite, consi-
derado como renovador do gênero.
O cinema nacional estava saturado do mesmo esquema
para retratar a criminalidade. E o público também: a forma
como Padilha retratou a bandidagem que mais agradou o
público. Os criminosos são violentos, egoístas, interessados
no lucro. Ainda assim, o diretor mostra o lado humano deles:
quando o chefe do morro se vê ameaçado, sua primeira ati-
tude é enviar a esposa e o filho para um lugar seguro.
O filme foi injustamente acusado de fazer apologia à tortura.
O próprio diretor em entrevista condenou as práticas do
Bope. Ocorre, na verdade, uma confusão entre o ponto de
vista do narrador (em primeira pessoa) e o do diretor. A visão
de Padilha é maior do que a do Capitão. Em uma das incur-
sões do Bope, Capitão Nascimento utiliza a tortura e invade
residência em busca de um traficante. Um dos policiais se
opõe aos métodos e pede para se retirar com sua equipe.
Será que um filme assim pode ser considerado fascista???
Reinaldo Azevedo, em artigo publicado na última revista
Veja, defende que a revolta da “intelectualidade” com o filme
decorre da forma como a classe média e os intelectuais são
retratados: como financiadores do tráfico. Através de uma
classe de estudantes de Direito, o diretor retrata com fide-
lidade máxima os debates rasteiros promovidos em sala
de aula, a crítica sem fundamento contra as instituições e
a associação entre os estudantes e o tráfico. O vínculo en-
tre ambos se dá por meio de uma ONG, como muitas que
existem e que apoiam o narcotráfico.
Por causa desse quadro cru, sentindo-se atingidos, uma
patrulha ideológica do politicamente correto promoveu
227 CEDERJ
Aula 10 • A indústria do entretenimento
ataques ao filme, alegando uma oposição às práticas de
tortura retratadas, como a asfixia com saco plástico. Mui-
tos desses críticos que se sentiram mal com o filme se
divertem com as torturas de Jack Bauer.
O público fez ouvido de mercador e encheu os bolsos dos
vendedores de DVDs piratas e as salas de cinema. Os espec-
tadores torcem pelo Capitão Nascimento. Isso não significa
apoio à tortura. O público sabe diferenciar a tortura da fic-
ção da real. Eles simplesmente exorcizam seus medos.
Fonte: http://www.cinepop.com.br/criticas/tropadeelite.htm
Resposta Comentada
A arte imita a vida ou a vida imita a arte? Eis uma questão a se refletir
no momento de produzir um espetáculo de ampla abrangência, para
diferentes perfis de público. A cidade maravilhosa, “cartão-postal” e
“porta de entrada do turismo no Brasil” tem graves problemas so-
cioeconômicos, impossíveis de serem camuflados frente aos siste-
mas de comunicação. A questão é, diante da dura realidade já vivida
na cidade, expandir para o mundo esta triste experiência sob forma
de entretenimento, de espetáculo. O próprio processo de divulgação
do filme passou pela pirataria, pelo contrabando, o que não deixou
de ser um ingrediente para o seu sucesso. Seria este também um re-
flexo da “malandragem carioca”? O quanto transformar esta realida-
de em espetáculo produzirá heróis de um lado e do outro do conflito
entre bandidos e policiais, como em um “circo” à moda romana dos
gladiadores? Se, por um lado, o cartão-postal da cidade pode ser ar-
ranhado pelas imagens de violência reproduzidas em Tropa de elite,
CEDERJ 228
Lazer
e que estão presentes constantemente nos noticiários da imprensa
internacional, por outro, não é curioso observar o interesse de mora-
dores e turistas em visitar as comunidades que serviram de cenário
para este filme? Pelo bem ou pelo mal, quantos produtos – adesivos,
camisetas, bonés, CDs –, sobretudo o estilo musical agressivo, entre
outros, foram derivados deste filme e quantos ainda serão em sua
segunda edição, sustentando o mercado formal e informal? Este é o
poder da indústria do entretenimento.
Com a indústria do entretenimento, o acesso ao lazer está
associado aos recursos tecnológicos, tanto de uso doméstico
quanto profissional, e sua programação está acessível por meio
de empresas patrocinadoras ou mediante o pagamento de seus
usuários finais. Com pouco dinheiro e frente às crises emergen-
tes na economia mundial, o refúgio é a casa e as telenovelas,
que também servem como propagandas políticas do regime e da
hegemonia cultural, enquanto distraem ou divertem.
Cabe, portanto, aos estudiosos e profissionais do lazer
atentar para esta desigualdade e promover, junto ao poder públi-
co e às organizações sociais, ações que ampliem o acesso da po-
pulação menos favorecida às práticas do lazer. Trabalhar o lazer
como fonte de desenvolvimento tanto pessoal quanto local, ge-
rando oportunidades de convivência, aprimoramento e geração
de renda e qualidade de vida, conforme a realidade observada
em seu campo de atuação.
Atividade Final
Atende aos Objetivos 1 e 2
Leia os trechos do artigo a seguir e responda à questão:
Como você justificaria o crescimento da indústria do entreteni-
mento em meio às recessões econômicas internacionais, uma
vez que, de modo geral, seus bens e serviços são considerados
supérfluos frente às outras necessidades humanas como habita-
ção, saúde, segurança, educação e alimentação?
229 CEDERJ
Aula 10 • A indústria do entretenimento
Uma indústria em constante expansão: com seguidos anos
de crescimento, a indústria de entretenimento mostra força e
sobrevive às crises econômicas
Publicado em 25/02/2005 - 02:00 - Por Renato Marques
Em meio à recessão que seguiu os atentados em Nova York
e Washington, em 11 de setembro de 2001, poucos setores
da economia continuaram obtendo bons desempenhos.
Um deles, naturalmente, pelos fatos que sucederam os
ataques, foi o de armamentos. Outro que vem alcançando
sucessivos resultados positivos é o setor de entretenimen-
to. De alguma maneira, favorecidas pela “depressão”
mundial, as indústrias da área vêm aumentando a sua
penetração, chegando a um faturamento anual de US$ 23
bilhões (R$ 60,5 bilhões).
“É difícil negar que boa parte desses resultados se deve ao
bom desempenho da indústria cinematográfica... O negócio
do entretenimento só é suplantado hoje, na economia
internacional, pela indústria bélica. E nessa área do entre-
tenimento, o cinema ocupa um espaço de ponta”, explica
o professor do departamento de Cinema da UFF (Universi-
dade Federal Fluminense), Roberto Moura.
(...) Até mesmo o cinema brasileiro – mal visto por muitos
– tem registrado bom desempenho econômico. A tal ponto
que não apenas o governo brasileiro estuda formas de
organizar o incentivo à produção audiovisual, como o
próprio setor privado aponta para novos investimentos,
com grandes empresas de mídia, direcionando recursos
para a criação de filmes.
“É possível perceber que há um movimento interessante
acontecendo de empresas televisivas começando a investir
no cinema brasileiro, como faz a Globo Filmes, já há algum
tempo. Agora, o SBT também está começando a produzir
filmes, assim como a Bandeirantes. E finalmente está acon-
tecendo aqui, porque é algo que já acontece no mercado
mundial e passa a acontecer no Brasil também”, declara o
coordenador do curso de Cinema da Universidade Anhembi
Morumbi, Mauricio Gonçalves. “Essa nova visão das empre-
sas de televisão aberta é um dos vários saltos necessários
para uma evolução maior do cinema brasileiro.”
CEDERJ 230
Lazer
Se, nos negócios, tudo vai bem, na criação a situação anda
um pouco devagar... “O cinema internacional não está, cria-
tivamente, em um grande momento. Dentro do mundo dos
negócios, é algo espetacular. Mas, em termos artísticos, a
produção é muito precária. O próprio Oscar é uma grande
festa de marketing, de entretenimento barato”, critica Moura.
(...) Atualmente, praticamente nenhum país tem o domínio
de exibição em suas próprias salas de cinema. Ou seja,
em poucos locais a produção nacional consegue uma fatia
expressiva do mercado. Alguns países, como a França
(34,8% do mercado local) conseguem resultados razoá-
veis, outros, como Brasil (10%) e Espanha (15,8%) ficam
apenas na média, enquanto alguns, como Portugal (0,9%)
tem desempenhos inexpressivos.
Isso, em parte, mostra que a dominação estética e cultural
da indústria hollywoodiana alcançou patamares bastante
elevados. Sem contar que muito do que se produz no mundo
segue a cartilha dos EUA. “O brasileiro já está acostumado à
ética estrangeira, a esse domínio de quase um século. Só que
deixa pouco espaço para o cinema nacional, que, quando
tem espaços, consegue fazer a sua marca. É claro que tem
coisa ruim na produção local, mas tem ruindade no cinema
estrangeiro e a gente assiste também”, compara Gonçalves.
(...) Ao mesmo tempo em que exporta em ritmo acelera-
do, a indústria de Hollywood “impede” a entrada de filmes
estrangeiros, limitando a concorrência. “O público norte-
americano não assiste a filme que não seja dos EUA e não
vê filmes que não sejam falados em inglês. Nossos filmes
têm tido uma receptividade maior agora, mas isso é algo
restrito a alguns títulos”, finaliza Gonçalves.
Fonte: http://www.universia.com.br/cultura+/materia.jsp?materia=6326
231 CEDERJ
Aula 10 • A indústria do entretenimento
Resposta Comentada
Todo o tempo é tempo de consumo. A cartilha norte-americana está
sendo seguida por outros países. Estes, ainda que tenham dado início
ou incrementado a sua própria produção cinematográfica, encontram
dificuldades na distribuição de sua produção, dada a hegemonia cultu-
ral e econômica do cinema norte-americano. Sabemos da fama do Bra-
sil como grande produtor e exportador de novelas, e é possível obser-
var o aumento do merchandising (apresentação destacada de marcas
e/ou produtos em pontos de venda e na mídia) em sucessivas cenas
que, ao mesmo tempo que comovem, vendem uma ideia de consumo.
Nos envolvemos emocional ou psicologicamente com os filmes, nove-
las, músicas, mensagens de e-mail etc. Buscamos a satisfação na vida
real daquilo que nos é oferecido na ficção, como o padrão de beleza, os
valores morais, éticos e estéticos discutidos na dramaturgia poética e/
ou comercial que invadem o nosso dia a dia por todos os lados. Por
vezes, produzem sensações de insatisfação, de depressão, de desejo,
cuja satisfação está associada à ficção. Um negócio milionário
que envolve diferentes e poderíamos dizer, infinitas possibilidades de
parcerias. Para a ostentação em uma sociedade competitiva neoliberal,
a violência das manchetes se transforma em arte, vende insegurança,
compra armas, atira por medo, mata por covardia.
Resumo
O crescimento e a valorização das práticas de lazer são frutos dos
processos da conquista do tempo livre e da legalização dos direi-
tos trabalhistas, industrialização e urbanização, processos estes
que se manifestam de diferentes formas na sociedade, visto que
são reflexos de contextos socioeconômicos, políticos e culturais.
A indústria do entretenimento está associada ao capitalismo neo-
liberal, com grande impulso a partir de meados do século XX aos
dias atuais. Está em constante aperfeiçoamento de recursos das
tecnologias de comunicação e associada ao livre mercado, que
enfatiza o tempo de lazer como tempo de consumo. A socieda-
de precisa se conscientizar do merecimento e da importância do
tempo livre, que oferece a oportunidade de diversas realizações.
CEDERJ 232
Lazer
Atualmente, alguns tipos de bens e serviços estão submetidos às
mesmas leis de mercado de outros segmentos da economia. Isto
pode trazer graves problemas para o desenvolvimento social e
cultural da sociedade, no que diz respeito à igualdade de acesso a
esses serviços, ocasionando a segregação do acesso ao lazer.
Informação sobre a próxima aula
A partir desta reflexão sobre o contexto socioeconômico
e político do lazer no Brasil e da indústria do entretenimen-
to, veremos na próxima aula as principais características e
questões relacionadas às funções do lazer como diversão, des-
canso e desenvolvimento.
233 CEDERJ
Lazer
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