A Autoridade de Cristo no Evangelho de Marcos
Marcos 1:22
O Evangelho de Marcos frequentemente destaca a exousia (autoridade) de Cristo. Este
tema, embora comum nas cartas paulinas, assume um caráter marcante nos escritos
de Marcos. A fonte da autoridade de Jesus é objeto de discussão em Marcos. No
capítulo 11, versículos 27-33, Jesus não responde diretamente à pergunta dos
sacerdotes, escribas e anciãos, mas os leva a refletir sobre a autoridade de João
Batista, colocando-os em uma situação de neutralidade condenatória. Jesus responde
da mesma forma que eles, sem demonstrar interesse em discursar sobre a origem de
sua autoridade.
A Autoridade de Cristo
O Evangelho de Marcos é notável por sua apresentação dinâmica e vívida da
autoridade de Jesus Cristo. Desde os primeiros capítulos, Marcos demonstra que
Jesus não é apenas um mestre ou profeta, mas alguém que possui autoridade sobre
todas as coisas.
1. Autoridade sobre o mundo espiritual, para confrontar poderes demoníacos
• Marcos registra diversos episódios em que Jesus expulsa demônios,
demonstrando seu poder sobre as forças do mal (Mc 1:23-27, 3:11-12, 5:1-20).
• Esses eventos revelam que Jesus não apenas fala com autoridade, mas
também age com poder sobre o reino das trevas.
Há uma grande quantidade de textos neste evangelho que demonstram essa
autoridade de Jesus. Ele está sempre dando ordens às potestades malignas sobre este
assunto:
• Mc 1:23-27 - Espírito imundo em Cafarnaum
• Mc 1:34 - Muitos demônios repreendidos
• Mc 1:39 - Pregando e expelindo demônios
• Mc 3:11,12 - Jesus repreende espíritos imundos e os proíbe de falar
• Mc 3:13-15 - Autoriza seus discípulos a terem a mesma autoridade
• Mc 5:1-14 - O endemoninhado gadareno
2. Autoridade sobre doenças
• Jesus realiza inúmeras curas, demonstrando seu poder sobre a doença e a
morte (Mc 1:29-31, 2:1-12, 5:21-43).
• Esses milagres confirmam que Jesus tem autoridade para restaurar a saúde e a
vida.
Seu poder se manifestava também em sua capacidade de trazer normalidade à vida
das pessoas:
• Mc 1:28-31 - A sogra de Pedro
• Mc 1:31-34 - Muitos doentes de toda sorte de enfermidades
3. Autoridade sobre os fenômenos da natureza
• Jesus acalma a tempestade no mar da Galileia, demonstrando seu poder sobre
as forças da natureza (Mc 4:35-41).
• Este evento mostra que até a própria natureza obedece à voz de Cristo.
Exemplos:
• Mc 4:35-41 - Acalma uma tempestade
• Mc 6:45-52 - Anda sobre o mar
• Mc 11:12-14 - Amaldiçoa a figueira sem fruto (Mc 11:20)
4. Autoridade para perdoar pecados
• Jesus perdoa pecados, uma prerrogativa que os judeus atribuíam apenas a
Deus (Mc 2:5-10).
• Essa ação demonstra que Jesus tem autoridade para perdoar pecados e
reconciliar a humanidade com Deus.
Exemplo:
• Mc 2:5-7 - Para espanto das pessoas presentes, declara o perdão dos pecados,
e declara a libertação da culpa que estava sobre o paralitico. Curiosamente, esta
foi uma das suas atitudes mais questionadas.
5. Autoridade para ensinar
• O ensino de Jesus é marcado por sua autoridade, diferente do ensino dos
escribas (Mc 1:22).
• Jesus ensina com convicção e poder, revelando a verdade de Deus.
Jesus não era formado pelas escolas rabínicas. Ele não tinha autoridade institucional
para ministrar. Entretanto, Marcos demonstra que Jesus assume esta autoridade.
Exemplos:
• Mc 1:21-28 - "Como quem tem autoridade"
• Mc 12:28-34 - Um escriba se rende à sua sabedoria
• Mc 12:37 - "A multidão o ouvia com prazer"
A Fonte da Autoridade de Cristo no Evangelho de Marcos
Marcos identifica pelo menos seis fontes para a autoridade de Cristo:
1. Sua coerência de vida
• Mc 1:22: "Maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem
autoridade e não como os escribas."
2. Sua intimidade com Deus
• Mc 1:35: "Tendo-se levantado alta madrugada, saiu, foi para um lugar deserto e
ali orava." Após um dia intenso de curas e expulsões de demônios, Jesus se
levanta de madrugada e vai para um lugar deserto para orar.
• Mc 14:32-42: Na noite anterior à sua crucificação, Jesus se retira com seus
discípulos para o Getsêmani, onde ora intensamente ao Pai.
A autoridade de Jesus deriva de sua relação única com Deus Pai. Jesus age em nome
do Pai, revelando o amor e a misericórdia de Deus.
3. Sua consciência vocacional
Marcos procura revelar quão profundo era o sentimento de Jesus em relação ao seu
ministério.
• Mc 1:38: "Para isto vim..."
O ensino de Jesus é diferente do dos escribas, pois ele ensina com convicção e poder,
revelando a verdade de Deus. As pessoas se admiravam com o ensino de Jesus, pois
ele falava com autoridade, como alguém que conhecia a vontade de Deus.
4. Sua identidade: relação com o Pai
• Mc 11:15-19: "A casa de meu Pai será chamada casa de oração..."
• Mc 11:1-11: "O Senhor precisa dele."
Ao ser questionado sobre sua fonte de autoridade, Jesus não se preocupa em
responder. A parábola dos lavradores maus de Marcos 12 revela sua identidade e a
consciência que ele mesmo tinha de herdeiro e filho legítimo da vinha.
Sua identidade divina é a base de sua autoridade sobre todas as coisas. Em diversos
momentos, Jesus demonstra ter conhecimento e poder que transcendem as
capacidades humanas, confirmando sua natureza divina.
5. Sua humanidade, aceitação e amor
• Mc 2:15-17: Assenta-se com publicanos (traidores da nação) e gente de caráter
reconhecidamente refutável.
• Mc 14:3-9: Aceita estranha adoração de uma mulher cujos convidados
murmuravam pelo simples fato de tê-la presente.
• Mc 14:17-21: Convida para assentar à mesa um homem que haveria de traí-lo,
mesmo sabendo de antemão de suas intenções malignas.
6. Sua vitória sobre a morte
• Mc 16:6: Não permaneceu na sepultura.
Implicações desta autoridade
1. Jesus é o Filho de Deus: A autoridade de Jesus confirma sua identidade como o
Filho de Deus, o Messias prometido.
2. O Reino de Deus está presente: A autoridade de Jesus demonstra que o Reino
de Deus se manifesta em suas palavras e ações.
3. Chamado ao discipulado: A autoridade de Jesus exige fé, obediência e o
chamado para segui-lo.
4. Sua autoridade é atemporal: Marcos demonstra o domínio eterno do Mestre.
• Mc 16:17: "Estes sinais hão de acompanhar os que creem". Ele é
soberano eternamente.
5. Sua autoridade delegada à Igreja:
• Mc 3:13-15: Designou os discípulos para estarem com ele e os enviou a
pregar.
• Mc 16:17-18: Afirma que sinais e prodígios seguirão os seus discípulos.
• Mc 16:20: Os discípulos tiveram a confirmação da delegação desta
autoridade, ao ministrarem sinais que se manifestavam quando pregavam
o Evangelho.