Coleção Filosofia
Coleção Filosofia
NA POLIVALÊNCIA
COLEÇÃO
FILOSOFIA
CLUBE DE CIÊNCIAS
SIMBANDI BRASSOU
Introdução
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tem, no entanto, uma predileção por certos domínios como a lógica, a ética,
metafísica, a filosofia política e a teoria do conhecimento.
A definição de filosofia continua a ser um assunto controverso. Pois há tantos correntes
filosóficas do que de filósofos, o que torna impossível uma definição unânime, aceita
por todos. As dificuldades em definir a filosofia são, além disso, de natureza epistemológica, pois
é difícil delimitar rigorosamente os métodos, os temas e os objetos da
filosofia. A filosofia nunca conseguiu desenvolver um método que tivesse conseguido
impor-se entre os filósofos como o método experimental se impôs na física
e em química. No entanto, mesmo que seja difícil dizer o que é a filosofia, pode-se tudo de
mesmo dar algumas definições gerais.
Etymologicamente, a palavra "Filosofia" vem do grego philo-Sophia que se traduz
geralmente por "amor à sabedoria". Nesta expressão, o amor designa uma
pesquisa, uma busca permanente, um desejo etc. A palavra sabedoria tem dois significados: por um lado,
designa o conhecimento e, por outro lado, a virtude moral. O filósofo aparece assim em uma
postura de busca pela sabedoria sem necessariamente pretender alcançá-la. A felicidade que
a pesquisa do filósofo reside na ataraxia, ou seja, na paz da alma.
1- Filosofia e senso comum
A filosofia se opõe ao senso comum. O senso comum é um conjunto de crenças, de
certezas, evidências consideradas verdadeiras e que não são questionadas. Trata-se de certezas
admitidas por todos, mas que podem se revelar falsas como as superstições. Pertencendo a uma
naïvete e dogmatismo, o senso comum simplesmente pensa que a filosofia é pura
especulação, conversa fiada, teoria, verborragia. Essa é a crítica que Galileu fez a Sócrates.
ele reclamando de sempre se dedicar à reflexão filosófica enquanto o mais importante
é a busca por riquezas materiais e poder. Esta prioridade dada aos bens
A vida mundana pode ser resumida nesta famosa fórmula: "Viver primeiro, filosofar depois".
O senso comum também reprova à filosofia de ser um discurso essencialmente
crítico, subversivo e que questiona tudo. É isso que explica o conflito que existe entre
a filosofia e a religião. A religião é baseada em verdades absolutas que o crente
filosofia.
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A filosofia se compreendeu muito cedo como uma maneira de viver e não apenas
como uma reflexão teórica. Em outras palavras, ser filósofo é viver e agir de uma
certa certa maneira. A ideia de que a filosofia é uma forma de viver também pode ter levado alguns
filósofos a imaginar que deveriam guiar os outros e ajudá-los a viver corretamente suas
existências. Isso explica em parte o nascimento, na Antiguidade, de escolas filosóficas
como o epicurismo, o estoicismo, o ceticismo etc.
O epicurismo: Epicuro, fundador desta escola, defende que o objetivo da vida é alcançar
ensinavam que não se pode alcançar a liberdade e a tranquilidade sendo insensível ao conforto
material e à fortuna exterior e dedicando-se a uma vida de razão e de virtude. Eles
ensinam que cada ser humano é uma parte de Deus e que todos os homens constituem
uma família universal. Os estóicos também fazem a distinção entre o que depende de nós
e o que não depende de nós. Eles recomendam ao homem que aceite corajosamente isso
o que lhe acontece não depende dele, como a morte, a doença, a velhice, os traços
físicos etc.
-O ceticismo: Segundo os céticos, o Homem não pode atingir nem o conhecimento nem
a sabedoria. O caminho para a felicidade passa, portanto, por uma suspensão completa do julgamento.
Com essas três escolas e tantas outras, a filosofia grega era dominada pela ética, pela
pergunta «como viver bem?» e mais particularmente pela da virtude e do
felicidade. A filosofia era entendida como uma forma de viver e não apenas
como um discurso teórico. Mas além de um modo de vida ao qual ela pode remeter, a
a filosofia também pode significar concepção do mundo ou visão das coisas. Sob este
relacionamento, ela se compreende como um sistema de ideias, de representações de um indivíduo ou de uma
sociedade para analisar o mundo. Uma tal visão do mundo pode se expressar na arte, a
literatura, a poesia, a religião etc.
3- Filosofia e sociedade
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A questão das relações entre a filosofia e a sociedade surge porque a filosofia é
vítima de preconceitos muitas vezes negativos. Essas relações são às vezes caracterizadas por uma violência
atitude de rejeição, pois o filósofo é frequentemente percebido como um homem marginal que tem
comportamentos atípicos. Desconfiada em relação às tradições, crítica em relação a qualquer forma de
préjugés, a filosofia não deixou de conhecer choques mais ou menos duros com a
sociedade. É o caso de Anaxágoras, que foi expulso de Atenas sob a acusação de
do atheísmo. Sócrates foi condenado à morte sob as acusações de corrupção dos costumes
da juventude e da impiedade, mas também de rejeição das leis da cidade. Em 1600, Giordano Bruno é
supliciado na fogueira por sua rejeição à transubstanciação da trindade, seu blasfêmia contra
Cristo, sua negação da virgindade de Maria. Spinoza foi excomungado por ter defendido
a teoria da imanência de Deus. Galileu quase foi condenado à morte por ter sustentado
que a terra é redonda. Felizmente para ele, ele abjurou para escapar da morte. Isso quer dizer que
muitos filósofos sofreram por defender posições que a Igreja não compartilhava
passa.
Confunde-se muitas vezes a origem com o começo. Se o começo pode ser delimitado
com precisão de um ponto de vista espaço-temporal, a origem por sua vez é múltipla. Ela
s'entende de duas maneiras: falar-se-á ou de uma origem histórica ou cronológica, ou
duma origem lógica ou causal. A origem histórica ou cronológica pressupõe um processo
histórico que levou à emergência do discurso filosófico enquanto a origem causal
suponha um estudo dos diferentes elementos que se conjugaram para elaborar um discurso novo,
uma inovação radical que apareceu tardiamente na história do homem. Assim, responder
à pergunta «o que é a filosofia?», é necessariamente voltar na história para
registrar as diferentes causas que se combinaram e que favoreceram o surgimento da
filosofia. Primeiro, vamos esclarecer as condições históricas que explicam
a emergência da filosofia. Em seguida, vamos analisar as causas lógicas.
a. Origem histórica
Alguns atribuem à filosofia uma origem oriental dizendo que ela nasceu no Egito, e
é a convicção de Cheikh Anta Diop. No seu livro Civilização e barbárie, o historiador
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senegalês afirma que os gregos apenas copiaram as obras egípcias. Ele escreve a esse
Assunto: «Os gregos iniciados no Egito se apropriam de tudo o que aprendem uma vez que retornam.
chez eux». Mas a tese mais difundida é aquela que a situa na Grécia. Os gregos nunca
não aprenderam com os egípcios, mas usaram seus conhecimentos com o objetivo de uma
perspectiva radicalmente nova. Ao 6èmeséculo, ocorreu o que os historiadores chamam
o «milagre grego», ou seja, a florada do conhecimento em terras gregas. É por isso que
segundo Pierre Hadot, "é neles, ou seja, nos gregos que reside verdadeiramente a origem de
a filosofia, pois propuseram uma explicação racional do mundo." Pierre Hadot
de adicionar que isso marcou "uma virada decisiva na história do pensamento".
Podemos ter referências no estudo da origem da filosofia. A primeira referência
remonta à tradição oriental, seja na Índia ou no Egito. De fato, as cosmogonias orientais
influenciaram as cosmogonias gregas que, por sua vez, influenciaram fortemente os
pré-socráticos. Estes últimos iniciarão a ruptura que levará Platão a sistematizar a
filosofia. As primeiras cosmogonias propunham uma interpretação irracional do
mundo. Elas se contentavam em oferecer uma narração mítica. Mas frente a essa irracionalidade, os
os pré-socráticos vão trazer uma explicação racional do real.
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A maioria dos homens só se espanta diante de um fenômeno extraordinário que eles não
não compreendem. No entanto, os fenômenos que são mais comuns nos escapam frequentemente, e o
O sentimento de conhecer o que se vê não passa de uma ilusão. Segundo Arthur Schopenhauer,
Ter um espírito filosófico é ser capaz de se surpreender com os eventos habituais e dos
coisas do dia a dia, de se colocar como objeto de estudo o que há de mais geral e de mais
ordinário». Portanto, pode-se dizer que a surpresa ocorre diante do que é habitual e do qual a
a natureza nos oferece a cada dia o espetáculo. A filosofia tenta a cada dia dar conta
do que é, dando um sentido às coisas. Karl Jaspers disse a esse respeito: «A astonishment
engendra a interrogação e o conhecimento.
1- Filosofia antiga
A filosofia grega conheceu três grandes períodos. O primeiro é chamado de período
pré-socrático. A questão fundamental que ocupava os filósofos pré-socráticos era a
questão do princípio de todas as coisas. Assim, o primeiro filósofo mencionado pela história foi
Thalès que considerava a água como o princípio de todas as coisas. Anaximandro, discípulo de Thalès,
sustentava que o princípio primeiro do qual deriva toda a coisa é uma substância infinita que ele chamava
apeiron. O terceiro filósofo, Anaximandro, designava o ar como o elemento do qual é
composée toda a coisa. Heráclito afirma que o fogo constitui o elemento fundamental de
o Universo. Ele sustentava que todas as coisas estão em um estado de flutuação perpétua,
que a estabilidade é uma ilusão e que apenas a mudança é real. Parménides adota uma
posição contrária à de Heráclito sobre a relação entre a estabilidade e a mudança, sustentando
que o Universo é uma entidade esférica e imutável, e que mudança não existe. Empédocles
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sustentava que toda coisa é composta por quatro elementos irredutíveis: o ar, a água, a terra e
o fogo que, por sua vez, são combinados e separados por duas forças opostas, a saber, o amor e a
Pythagore ensinava que a alma está prisioneira do corpo, que ela será libertada dele.
depois da morte e reencarnada em uma nova forma de vida, superior ou inferior dependendo do
grau de virtude ao qual ela chegou. O fim supremo do homem seria purificar sua alma
cultivando as virtudes intelectuais, abstendo-se dos prazeres sensuais e realizando
diversos rituais religiosos. Anaxágoras sugeriu que todas as coisas são compostas de partículas.
Sua concepção de partículas elementares levou ao desenvolvimento da teoria atômica
da matéria. Leucipo e seu discípulo mais famoso, Demócrito, desenvolveram esta
concepção atomista do universo. No geral, são esses primeiros filósofos que tiveram
Permissão para dar o primeiro passo decisivo que leva da explicação mitológica à explicação
científico dos fenômenos naturais.
A segunda época é chamada de grega clássica. Começa com Sócrates em Atenas e
se prossegue com Platão, Diógenes e Aristóteles. Este período também é marcado pela
sofisticação representada por Górgias, Protágoras, etc.
*Finalmente, o terceiro período é chamado helenístico. É marcado pelos epicuristas, os
estoicos e céticos. Durante vários séculos, esses três correntes foram os principais
escolas filosóficas que se desenvolveram no mundo ocidental. Durante este período,
o interesse pelas ciências naturais diminuiu progressivamente e essas escolas se preocuparam
principalmente de ética e de religião.
2- Filosofia medieval
A filosofia medieval é constituída por pensadores muçulmanos e cristãos que, ao buscar
argumentos convincentes, vão recorrer à filosofia antiga. A escolástica nasceu em
esta época. A escolástica é o período em que as obras de Platão, de Aristóteles e outros
os pensadores gregos foram traduzidos por eruditos árabes e atraíram a atenção de filósofos em
Europa Ocidental. Filósofos islâmicos, judeus e cristãos interpretaram e esclareceram esses
escritos em um esforço para conciliar a filosofia e a fé religiosa, e para fornecer
fundamentos racionais para suas convicções religiosas.
3-Filosofia moderna
Os filósofos mais conhecidos dessa época são Descartes, Spinoza, Kant, Hegel,
Nietzsche, David Hume, Jean Paul Sartre etc.
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IV- Algumas figuras emblemáticas da filosofia
Sócrates
Platão
Segundo Platão, em uma pessoa, a virtude reside na relação harmoniosa entre as faculdades.
da alma (razão, coragem e apetites sexuais). A filosofia de Platão baseia-se em um
dualismo, ou seja, a concepção que divide o universo em dois domínios distintos: o mundo
sensível e o mundo inteligível. O mundo sensível sendo aquele da ilusão, do erro, do
mudança e da aparência; o mundo inteligível sendo aquele das essências, das Ideias do bem,
do verdadeiro, do belo e da verdade. Trazendo essa dualidade para o homem, Platão distingue dois
partes: a alma e o corpo. O corpo sendo a parte sensível, material, mortal enquanto a alma
é imortal. A alma é também o princípio da vida. Após a morte que corresponde à destruição
do corpo, a alma escapa e se junta ao mundo inteligível para contemplar as Ideias ou
queimar no Tártaro (inferno) de acordo com suas ações na terra. Para Platão, o corpo constitui o
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túmulo da alma. É por isso que ele diz que a alma deve lutar contra os prazeres e se elevar para
o mundo inteligível. Essa ascensão da alma é chamada de dialética ascendente. É por isso que
Platão diz que «filosofar é aprender a morrer», ou seja, fazer esforços para
escapar dos prazeres mundanos, das influências do corpo. Na vida cotidiana, Platão considera
que a justiça social consiste na harmonia entre as classes da sociedade. Para ele, o Estado ideal
implica que os indivíduos mais sábios governam as massas. Compreende-se, portanto,
por que ele deseja que em uma sociedade, os reis sejam filósofos ou que os
filósofos tornam-se reis.
Aristóteles
Aristóteles, que começou seus estudos na Academia de Platão aos 17 anos, foi o mais
discípulo prestigioso de Platão e conta com seu mestre entre os pensadores mais influentes
do mundo ocidental. Depois de estudar vários anos na Academia de Platão, ele funda o
Liceu, escola que, assim como a Academia de Platão, ia permanecer durante séculos uma das
grandes centros intelectuais da Grécia. Ao criar a ciência da lógica, ele elaborou o
silogismo. Em sua metafísica, Aristóteles criticou a separação realizada por Platão da Forma
e da matéria e sustenta que as Formas ou essências estão contidas nos objetos concretos.
A filosofia política e ética de Aristóteles também se baseia na análise crítica dos
princípios platônicos. Para ele, as regras da conduta individual e social devem ser
encontradas no estudo científico das tendências naturais dos indivíduos e das sociedades, em vez
que em um mundo divino constituído de Formas puras. Na sua teoria do conhecimento,
Aristóteles rejeita a doutrina platônica do conhecimento inato e insiste no fato de que ela não
pode ser obtida apenas pela generalização a partir da experiência.
Os Sofistas
Eles se definem como professores itinerantes que afirmam saber tudo. Eles ensinam,
em troca de remuneração, a retórica, a argumentação jurídica e a cultura geral. Eles adquiriram
a má reputação de ser enganador e demagogo. Sócrates frequentemente questionava suas pretensas
conhecimentos à prova, e é por isso que o declararam seu inimigo.
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CAPÍTULO II : ESPECIFICIDADE DA REFLEXÃO FILOSÓFICA
Introdução
A questão "o que é a filosofia?" exige que reflitamos sobre a especificidade do
discurso filosófico. O que se deve fazer aqui é buscar identificar os
características deste discurso, o que nos obriga a comparar a filosofia com os outros
modos de conhecimento que são o mito, a religião e a ciência. Esta comparação é
tanto mais necessário que a filosofia não é o único discurso que tem como ambição de
compreender o mundo. Ela traduz a necessidade natural que o homem tem, assim como a ciência,
religião ou o mito, de entender tudo o que acontece ao seu redor.
Segundo uma certa tradição, foi Pitágoras quem usou a palavra filosofia pela primeira vez.
vez. De passagem por Phliente onde teve numerosos intercâmbios com o soberano desta cidade,
Léon, que, impressionado por Pitágoras, perguntava sobre qual arte ele se apoiava e Pitágoras
responde que não conhece uma única arte, mas que é filósofo. O rei lhe perguntou para lhe
indicar os traços a partir dos quais é possível identificar um filósofo. Pitágoras de
responder que são aqueles que "observam com atenção a natureza, esses são chamados de
amigos da sabedoria, isto é, filósofos”. Mas antes do advento da filosofia, ele
existiam outras formas de pensamento às quais os homens recorriam para explicar, para
compreender e para justificar a realidade. Essas formas de pensamento são essencialmente o mito e a
religião chamadas primeiras abordagens da realidade ou primeiras tentativas de explicação de
o universo.
O mito é um relato popular que apresenta seres sobrenaturais cuja ação seria em
a origem do mundo e de tudo o que existe no mundo. Para entender o que é o mito,
pode-se dar o exemplo da história de Adão e Eva. De acordo com a religião, Adão e Eva têm
foram expulsos do paraíso por desobedecer à palavra divina. Em seguida, foram enviados para
terra onde são obrigados a trabalhar para viver. Este relato é um mito que tem a função de
justificar a origem do trabalho. Alguns acham que os homens trabalham porque Adão e
Eva cometeu uma falta chamada pecado original. Também se pode considerar a mitologia
grega. De fato, na cidade grega, acreditava-se em vários deuses. Há, por exemplo, Éolo.
quem é o deus do vento: quando o vento sopra, atribui-se à ação de Éolo. Esses exemplos
mostram que o mito tem a função de justificar o que existe, ou seja, de mostrar por que
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as coisas são o que são, por que os homens devem trabalhar ou adotar tal
comportamento.
II- Filosofia e religião
A filosofia e a ciência nasceram no século 6èmeséculo antes de Jesus Cristo a partir de uma demarcação dos
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Por outro lado, se a ciência é um conhecimento exato, ela tem, no entanto, limites internos e
dos limites externas. As limites externas dizem respeito a todas as questões que estão fora de seu
Domínio de investigação, são as questões metafísicas ou éticas. Essas preocupações
são levadas em conta pela filosofia. Os limites internos referem-se ao conhecimento
científica que não está fixada, imutável: ela progride, o que explica o progresso
científico. É preciso destacar, afinal, que a ciência pode ter um impacto positivo sobre o homem
como negativo (as armas, as manipulações genéticas, a poluição do ar etc.). E é
precisamente neste nível que a filosofia intervém para refletir sobre a ciência. Esta
a reflexão é chamada de epistemologia.
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CAPÍTULO III
Eu- A metafísica
a- Críticas da metafísica
A metafísica foi criticada por filósofos como Pierre Bayle, John Locke, Francis
Bacon, Thomas Hobbes, Feuerbach, Nietzsche etc. que propuseram todos uma concepção
materialista do mundo. Para os materialistas, incluindo os marxistas, não pode haver de
conhecimento fora do mundo. Em outras palavras, não pode haver conhecimento que não
passe pela experiência ou pela observação dos fenômenos. A metafísica é, para os
marxistas, uma negação da história e da dialética. Ela é, segundo as palavras de Karl Marx
e de Lênin, um instrumento de dominação daqueles que querem preservar uma ordem estabelecida a seu favor
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lucro e às custas dos outros. Em resumo, os marxistas acreditam que a metafísica ou a
a filosofia especulativa é uma ficção ideológica da burguesia.
Auguste Comte também se revoltou contra a suposta superioridade do conhecimento
metafísica e rejeita seu status de conhecimento fundante, superior ou final. Em Comte,
a metafísica é um modo de pensamento intermediário e transitório entre o pensamento teológico
e o pensamento positivo. Ele considera que a metafísica é uma forma de conhecimento, uma
forma de explicação do real que superou o conhecimento do "espírito positivo" que é aquele de
a ciência. A metafísica permitiu que a ciência nascesse, mas ela é apenas uma fase de
a infância do espírito da humanidade.
Emmanuel Kant também se interessou pela metafísica e a rejeitou como ciência desde então.
que ela afirma superar o dado do sensível. O que leva Kant a estabelecer os limites do
razão, mostrando com isso que a pretensão da metafísica à ciência não é mais do que divagação.
da razão. Segundo Kant, não é possível conhecer o mundo noumenal. A razão pode
pensar os noumènes, mas ela não pode conhecê-los. Kant diz que a metafísica, na
seu projeto de conhecer o fundo das coisas falhou e é isso que explica as aporias. É
o que justifica esta frase de Kant: "A metafísica é um campo de batalha onde não há nem
vencedor nem vencido. É por isso que a metafísica enquanto ciência é impossível, segundo
Kant.
As críticas mais hostis e ferozes contra a metafísica foram feitas por Nietzsche.
Para ele, apegar-se a uma dimensão metafísica da existência e dar prioridade a isso
dimensão, é se comportar como um «vencido». Segundo Nietzsche, são os «vencidos» e
os "fracassos" da vida concreta que criaram "este mundo metafísico para caluniar
o mundo concreto». A metafísica e as atitudes que ela instala na vida humana são
ao socorro dos impotentes, dos covardes, daqueles que estão despojados da "força vital" do
vida.
Mas, apesar desses ataques contra a metafísica, pode-se hoje dizer que ela está morta e
que ela será definitivamente liquidada amanhã pelos assaltos dos conhecimentos positivos e
práticas que as ciências e as tecno-ciências não cessam de fornecer ao homem? De qualquer forma,
embora recusando a metafísica como ciência, Kant estima que é difícil senão vão
querer ser indiferente diante da metafísica. É isso que Schopenhauer compreendeu para
dizer que "o homem é um animal metafísico".
II- A antropologia
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A questão antropológica é uma questão tanto científica quanto filosófica. Na sua
definição, a antropologia se apresenta como um estudo do homem, uma ciência do homem
ou ainda uma interrogação sobre o homem, esse ser particular que tentamos compreender e conhecer
de sorte que a questão que se coloca é saber se podemos conhecer o homem. Emmanuel Kant
faz da questão antropológica uma preocupação maior. Ele diz que as três questões
os fundamentos da filosofia são:
- O que posso saber? (relacionado à metafísica)
- O que devo fazer? (que se refere à moral)
- O que me é permitido esperar? (que se relaciona com a religião)
Essas três perguntas se reduzem à questão: "O que é o homem?", de onde uma
filosofia antropológica em Kant.
A palavra antropologia é composta por "anthropos" que significa "homem" e "logos".
que significa "estudo" ou "ciência". A palavra designa, portanto, o projeto de um estudo racional de
o homem. Mas é possível ter um conhecimento racional do homem? Alguns o
pensam, mas outros pensam o contrário. Em todos os casos, o homem é uma realidade da qual se
pode considerar o estudo sob várias perspectivas com meios e métodos apropriados.
Duas abordagens se impõem a nós: a abordagem metafísica ou a antropologia filosófica
e a abordagem positiva.
- Abordagem metafísica
No vocabulário técnico e crítico da filosofia, André Lalande
A antropologia é a ciência do homem em geral. Esta definição é aquela que
os filósofos idealistas e metafísicos tratam da antropologia. Eles buscam o geral
e não o particular, o universal e não o local. Eles buscam o que permite unificar os
diferenças nas famílias das coisas, dos seres e dos fenômenos. Dizer que
«a antropologia é a ciência do homem em geral», isso pressupõe que existe na
constituição do homem ou na sua maneira de viver, uma ou várias características que
constituiriam um ou mais vínculos de parentesco. Quais vínculos de parentesco reúnem todos os
homens em uma única família, apesar de suas diferenças perceptíveis entre as culturas, os povos
e os indivíduos.
Qual é esse elemento que faz de todos os homens o mesmo homem, um « Homem em si » ou o
mesmo tipo de existente em torno de uma essência ou de uma natureza? Partindo dessa concepção que
pense que o homem foi criado por uma super inteligência que lhe deu uma matéria, uma forma,
uma missão, uma razão etc. a filosofia metafísica vai colocar entre parênteses tudo isso
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quem, na existência do homem, é concreto. Não leva em conta a constituição
biológica do homem. Também não leva em conta suas relações com o meio
física. Ela faz abstração do meio social e cultural em que o homem vive. Ela afirma
tout bonnement que ce qui fait l’essence de l’homme, ce qui fait sa nature, c’est sa razão.
O homem seria assim para Descartes uma «res congitans», «uma substância pensante», «uma
a substância não é toda a natureza que é só pensar.
Mas uma objeção de peso foi apresentada a essa concepção do homem pelo médico
francês, Jean Itard. Em 1803, ele provou que, deixado a si mesmo desde seu nascimento, o pequeno de
o homem nunca veria os poderes virtuais de sua razão se manifestar. Jean Itard se foi
fatos da experiência com crianças ditas selvagens que não haviam desenvolvido nenhuma aptidão
que distingue o homem do animal. Esses fatos são suficientes para dizer que o homem não tem uma natureza
congelada, mas se constrói ao longo de sua história. E parafraseando Jean Paul Sartre,
o homem é história.
- Abordagem científica
A impertinência do postulado de uma "natureza humana" se tornou, há muito tempo, um fato
incontestável. A concepção histórica do homem teve, portanto, sua razão de ser. A antropologia
científico se apresenta sob três formas :
A antropologia física, a antropologia social e a antropologia cultural.
A antropologia cultural se divide em várias ramas: a antropologia econômica
responsável por estudar a produção e a distribuição de bens de subsistência; a antropologia
política que se ocupa das formas de poder e do controle social; a antropologia religiosa
o objeto é constituído pelas crenças, os ritos, etc.
A antropologia física estuda as características físicas do homem: a altura, a pele,
grupo sanguíneo, a forma do crânio, do nariz, dos cabelos, da boca etc. Ela tenta reconstruir
o passado através dos vestígios e outros esqueletos. Trata-se aqui da pré-história e de
a arqueologia.
A antropologia social procede à análise das instituições e das crenças sociais.
Existe, ao lado da antropologia científica, a chamada antropologia religiosa. É a concepção que os
as religiões reveladas têm do homem. Esta concepção postula o criacionismo oposto a
o evolucionismo defendido pelas concepções científicas e filosóficas.
É importante notar que a concepção científica da antropologia é muito reducionista, pois
ela afasta todo aspecto abstrato de seu campo de investigação; ela visa apenas compreender que
o que é concreto, objetivo e, para dizer tudo, quantificável e materializável do homem. Ora, esse
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o que há de mais essencial no homem, não é mais de ordem espiritual? A antropologia
a científica não corre o risco de perceber apenas o que é superficial nas relações
humanos? De qualquer forma, a antropologia científica precisa colaborar com a
metafísica para destacar todos os aspectos humanos, aparentes e escondidos.
III-Axiologia
A axiologia pode ser definida como o conjunto de teorias sobre os valores humanos.
Estas são diversas e se encontram no domínio da moral, da política, do direito,
da religião, da arte etc. A filosofia se torna axiologia quando reivindica a coordenação
de todos os valores. Os valores são relativos a uma sociedade, a um grupo social, a uma
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comunidade. Elas definem objetivos, ideais e orientam a ação dos indivíduos; é um
mas, às vezes difícil de acessar.
O valor é como um ideal, uma crença que o indivíduo ou o grupo aspira a realizar. Uma
é uma escolha d'autant mais valorosa quanto mais a desejamos. A questão dos valores está presente em todo
sociedade ou em qualquer indivíduo. O valor designa o que é importante ou caro, ele é primeiro e
antes de tudo, um ideal que se tenta alcançar ou realizar. De qualquer forma, é um conjunto
de princípios que a sociedade ou o homem se dá e que servem de bússola à conduta.
Às vezes, os valores têm um caráter quase sagrado a ponto de que estamos prontos a sacrificar nossas vidas por
Sobre o que se baseiam os valores? O que funda sua legitimidade? Podemos afirmar que os
os valores são relativos e que haveria tantas valores quantas sociedades humanas? Em
soma, poderíamos nos perguntar, surpreendidos, por que, em uma sociedade dada, os
os valores mudam de uma época para outra. É a tradição, o hábito, a crença ou a
razão que fundamenta o valor? Se o ideal é um objetivo que nos propomos e que tentamos realizar em
através de seu comportamento e sua conduta, é preciso concordar que o que é valorizado em uma sociedade
ou chez um indivíduo encontra sua justificativa e seu fundamento na tradição daqueles que têm
vivido antes de nós. O valor seria, por assim dizer, o que se tenta preservar ou perpetuar.
Esses valores são sempre incorporados por heróis que citamos como exemplo ou modelo. Ao
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Senegal, podemos citar, a título de valores, o diom, o kersa, o foullë, o maandu, o dioub, o
jamm, le goré, le ngor etc.
Os valores religiosos como a paz, a tolerância, o respeito pela vida humana, a justiça etc.
geralmente coincide com a tradição. Mas elas podem se opor a muito
outras valores que encontramos em certas sociedades. As religiões veiculam valores e
influenciam não apenas culturas, mas também pensadores, juristas, legisladores de
sorte que em muitas sociedades hoje os valores dominantes são aqueles da
religião. É preciso mencionar, por outro lado, que há um conflito permanente em muitas sociedades
entre valores ditos dominantes e valores considerados marginais e percebidos
como se fossem anti-valores. É assim que se afirma voluntariamente que os valores cristãos
dominando o mundo ocidental, os valores árabe-muçulmanos dominam no oriente, os valores
budistas dominam na Índia etc.
Certamente, a filosofia e a religião não têm a mesma base, mas ambas resultam
frequentemente às mesmas conclusões. O sábio é para a filosofia o que o piedoso ou o santo é
para a religião. O sábio como o santo são moderados em sua conduta e se distanciam de
excesso e luxúria. O filósofo vive sua filosofia a partir dos valores que lhe são próprios.
Ele decreta, legisla e indica o caminho a seguir. Ele indica o que deve ser e como isso deve ser.
ser.
Da mesma forma que os filósofos estabelecem valores e os defendem, eles também derrubam outros.
valores ou os questionam. A esse respeito, Nietzsche se definia como um iconoclasta
(aquele que destrói os ídolos). "Eu sou um iconoclasta, eu quebro os ídolos e despedaço os
tradições dos homens", dizia ele. Para Nietzsche, a sabedoria não está na moderação, mas
no excesso, a afirmação de si, a vontade de poder. Atacando a moral de Kant, ele
se propõe assim a criar seus próprios valores. Para criar valores, diz ele, é preciso passar pelos
três metamorfoses: o camelo (que apenas aceita), o leão (que quebra os valores) e
a criança (que a cria). Mas além de Nietzsche e de sua filosofia, é a filosofia ela-
mesmo que seja subversivo.
Conclusão
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DOMÍNIO 1 : A REFLEXÃO
FILOSÓFICO
Introdução
V- O que é a filosofia?
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À pergunta "O que é a filosofia?", não se pode responder com
exatidão. A definição de filosofia continua a ser um assunto controverso, pois há
há tantos filósofos quanto definições, o que torna impossível uma definição
unânime, aceita por todos. É isso que leva o filósofo alemão
Emmanuel Kant disse que cada filosofia é construída sobre as ruínas da
anterior e ela será criticada por sua vez. Mesmo que na filosofia ninguém tenha o
monopólio da verdade e mesmo que seja difícil dizer o que é a filosofia,
No entanto, podemos dar algumas considerações gerais para ter uma ideia.
sobre o que ela é.
Segundo uma certa tradição, foi Pitágoras quem usou a palavra filosofia para
a primeira vez. De passagem por Phliente, Pitágoras teve muitas trocas
com o soberano desta cidade, Léon. Este último, impressionado por Pitágoras,
ele perguntava em qual arte ele se apoiava, Pitágoras respondeu que não conhecia um
seu arte, mas que ele é filósofo. O soberano lhe pediu para lhe indicar os
características a partir das quais é possível identificar um filósofo, Pitágoras de
Responder que são aqueles que "observam com cuidado a natureza, são esses".
que chamamos de amigos da sabedoria, ou seja, filósofos”. Na verdade, Pitágoras
se apresentava como « philosophos » (amante do saber) e não como « sophos »
(savant). Para se fazer entender melhor, ele compara a vida a uma feira e diz: « A
a vida dos homens é semelhante a essas grandes assembleias que se reúnem em
a ocasião dos grandes jogos públicos da Grécia, onde alguns vão para vender
e comprar, outros para ganhar coroas, outros finalmente para serem simples
espectadores. Da mesma forma, os homens que vieram a este mundo buscam
uns da glória, outros os bens materiais e outros, um pequeno número, se
entregues à contemplação, ao estudo da natureza das coisas: são os
filósofos.
Etymologicamente, a palavra « Filosofia » vem do grego philo-sophia que se
geralmente traduzido como 'amor pela sabedoria'. Philo significando amor e
Sophia, sabedoria. Na expressão "amor pela sabedoria", o amor se refere a uma
pesquisa, uma conquista, uma busca ou um desejo. A palavra sabedoria significa aqui a
conhecimento. Por sabedoria, Descartes entenderá "um perfeito conhecimento de
todas as coisas que o homem pode saber, tanto para a condução de sua vida quanto
para a conservação de sua saúde e a invenção de todas as artes" (Carta prefácio
dos Princípios). O filósofo surge assim em uma postura de busca de
sabedoria sem pretender alcançá-la. A esse respeito, Karl Jaspers dizia: «A essência
da filosofia é a busca da verdade, não a sua posse. Fazer da
filosofia, é estar em caminho. Segundo os estóicos, o objetivo do filósofo,
é mais a busca da felicidade ou da ataraxia, ou seja, ausência de
problema ou a paz da alma. Para Leibniz, a filosofia seria inútil se não
não permitia aos homens serem felizes. « Para que serve filosofar, se o
a filosofia não me permite ser feliz?", disse ele. É por isso que todas as
filosofias, o estoicismo e o epicurismo incluídos, têm por função de
buscar a felicidade.
26
VI - As origens da filosofia
c. Origem histórica
27
As origens da filosofia
28
b- Origem causal
29
o espírito crítico. Ele se arma da dúvida para examinar e analisar tudo o que lhe dizem.
Ele semântica das tradições, dos costumes e questiona tudo como foi ensinado
Vladimir Jankélévitch que diz: "Filosofar volta a isto: comportar-se a
o respeito pelo mundo como se nada fosse evidente" (A Má Consciência). Em
Em outros termos, para o filósofo, nada é evidente.
O objetivo da filosofia é corrigir as falsas certezas, as ilusões e
erros do senso comum ou da própria filosofia. Ela é uma crítica
de todos os saberes, opiniões, crenças, reflexões filosóficas etc. A mente
a crítica se manifesta por um questionamento ou, pelo menos, uma "colocação em
questões » de toda afirmação, de todo julgamento. A crítica é uma exigência
fundamental da filosofia. Ela constitui, segundo Marcien Towa
(filósofo camaronês contemporâneo), o verdadeiro início do exercício
filosófico. Ele diz a esse respeito: "A filosofia só começa com a decisão
de submeter o legado filosófico e cultural a uma crítica sem
complaisance. Para o filósofo, nenhum dado, nenhuma ideia, por mais venerável que seja-
ela, não é aceitável antes de ser submetida ao crivo do pensamento crítico.
A dúvida libertadora
30
Sujeitos
A filosofia não nos parece uma busca pelo saber. Pelo contrário, ela
nos parece dissolução de todo o saber adquirido”. Que reflexão isso lhe sugere?
sobre isso?
31
de rejeição das leis da cidade. Giordano Bruno foi queimado vivo por sua teoria de
o universo infinito (contra Aristóteles para quem o universo é finito), sua rejeição da
transubstanciação da Trindade, seu blasfêmia contra Cristo e sua negação de
a virgindade de Maria. Spinoza foi excomungado e excluído da sinagoga por
sua teoria da imanência de Deus. Galileu quase foi condenado à morte por
afirmado que a Terra é redonda e que gira em torno do sol. Ele
finalmente foi forçado a mudar de opinião para salvar a vida.
Isso quer dizer que muitos filósofos sofreram por terem defendido posições
que a Igreja não compartilhava. Para lembrar, a filosofia foi a serva da
teologia durante vários séculos, e era inadmissível que um pensador
soutienne teorias contrárias às da Igreja. Os homens da Igreja
utilizavam a filosofia, principalmente os textos de Aristóteles, para confirmar as escrituras
santos. Todos aqueles que defendiam pensamentos que questionavam os
escrituras sagradas faziam as suas despesas. É no 18èmeséculo, diz século dos
Luzes, que a filosofia finalmente saiu da tutela da religião graças a
pensadores livres como Voltaire, Diderot, etc. O século das Luzes assim
abriu uma era onde os filósofos podiam criticar a religião sem
temer represálias. Os adversários mais temíveis da religião são
incontestavelmente Nietzsche, Marx e Auguste Comte que consideram que a
a religião e Deus são uma invenção do homem. Marx dirá que "a religião é
o ópio do povo" enquanto Nietzsche, em uma fórmula ousada, anunciará que
Deus está morto.
Sujeitos
A religião é alienação?
32
A filosofia antiga
A questão fundamental que ocupava os filósofos da antiguidade era aquela
do princípio de toda coisa. Esta época tornou famosos filósofos ditos
pré-socráticos como Tales, que considerava a água como o princípio de todas as coisas e
Anaximandro sustentava que o princípio primeiro do qual deriva tudo é
uma substância infinita que ele chamava apeiron. Anaximènes, designava o ar como
o elemento do qual tudo é composto. Heráclito afirmava que o fogo constitui
o elemento fundamental do Universo. Empédocles acredita que toda coisa é
composta por quatro elementos irreduzíveis: o ar, a água, a terra e o fogo.
Pitágoras ensinava que a alma está prisioneira do corpo, que ela será libertada de
este após a morte e reencarnada em uma nova forma de vida. É isso que
mesma teoria que Platão, mestre de Aristóteles, desenvolveu. Mas o filósofo o
O mais famoso é indiscutivelmente Sócrates, para quem filosofar não é
saber muitas coisas, mas se comportar de uma maneira virtuosa. A antiguidade
a grega também é marcada por escolas filosóficas como
o epicurismo fundado por Epicuro, o estoicismo fundado por Zenão e o ceticismo
fundada por Pyrrhon. Essas escolas se interessavam pela questão "como bem
viver ? ». Para elas, a filosofia deve ser entendida como um modo de vida,
não apenas como uma reflexão teórica.
A filosofia medieval
A filosofia medieval é constituída por pensadores muçulmanos e cristãos que,
ao buscar argumentos convincentes, apelaram à filosofia antiga.
As obras de Platão, Aristóteles e outros pensadores gregos foram traduzidas ou
comentados por eruditos árabes como Ibn Sinâ (Avicena), Ibn Rushd
(Averróis) e Ghazali. Além desses pensadores árabes, houve pensadores
ocidentais que eram tanto filósofos quanto teólogos à semelhança de Santo
Agostinho, Santo Tomás de Aquino e Santo Anselmo. Esses filósofos muçulmanos
e cristãos tentaram conciliar a filosofia e a religião com o objetivo de fornecer
fundamentos racionais para suas convicções religiosas.
A filosofia deve ser compreendida como uma maneira de viver, não uma
somente como uma reflexão teórica. Em outras palavras, ser filósofo é
33
viver e agir de uma certa forma. A ideia de que a filosofia é uma arte de viver tem
assim levou certos filósofos a imaginar que deveriam guiar os homens e
ajudá-los a viver corretamente. Isso explica o nascimento, na antiguidade,
de escolas filosóficas como o estoicismo, o epicurismo e o ceticismo.
O epicurismo fundado por Epicuro sustenta que o objetivo da vida é alcançar o
máximo de prazeres e evitar o máximo de dor, ou seja, buscar o
prazer e fugir da dor. Para Epicuro, o prazer resulta da satisfação dos
necessidades que são de três tipos: as necessidades naturais e necessárias (comer, beber
e dormir), os prazeres naturais e não necessários (os prazeres sexuais por
exemplo) e as necessidades nem naturais nem necessárias (fumar, se drogar etc.). As
os epicuristas dizem que o homem deve buscar a satisfação das necessidades naturais
e necessários e evitar os excessos. Eles acreditam que "viver feliz é viver
caché », ou seja, fugir da glória, da riqueza, do poder, etc. que podem ser
fonte de sofrimento. Em suma, para os epicuristas, tudo o que a posse
engendra mais dor do que prazer (não no sentido de erotismo, mas de ataraxia)
est a evitar. Eles recomendam viver longe dos excessos, da luxúria e adotar
uma condução sobre. «Um pouco de água, um pouco de pão, um pouco de palha para dormir, um
Pouca amizade é suficiente para ser feliz”, dizem eles.
- O estoicismo fundado por Zenão rejeita os bens materiais. Os estoicos
ensinavam que não se pode alcançar a liberdade e a tranquilidade senão sendo
insensível ao conforto material e à fortuna. Eles ensinam que cada ser
o humano é uma parte de Deus e que todos os homens constituem uma família
universal. Os estoicos também fazem a diferença entre o que depende de nós
(nossos pensamentos) e o que não depende de nós (os decretos de Deus). Eles
recomendam ao homem que aceite corajosamente o que lhe acontece e que não
não dependa dele. Entre seus slogans, podemos destacar este: "Suporte e
abstenha-se» e só assim o homem viverá feliz.
O homem deve saber sofrer em silêncio e aceitar tudo o que não depende dele.
ele. É o que os estoicos resumem nestas palavras: "O destino leva aquele que
quer e arrasta o que não quer.
- O ceticismo fundado por Pirro considera que o homem não pode alcançar nem
a verdade nem o conhecimento nem a sabedoria. Para os céticos, o caminho da
a felicidade passa por uma suspensão completa do julgamento. A filosofia deles é
que nada é verdade. Ao contrário da dúvida metódica de Descartes que é
provisório, a dúvida dos céticos é permanente, eles duvidam pelo prazer de
duvidar.
Sujeitos
A filosofia é mais uma forma de ser do que um saber. O que você pensa disso?
vous ?
34
IX- Características da reflexão filosófica
1- Filosofia e mito
2- Filosofia e religião
35
As relações entre a filosofia e a religião muitas vezes foram difíceis. Um conflito
existe entre elas: o filósofo é percebido como um ateu enquanto o religioso
é visto como um limitado ou como alguém que não reflete. Derivado do latim
religare, a religião significa a relação que o homem mantém com uma força exterior
nomeada Deus e que exige uma submissão a ele. A religião deve dizer uma
verdade absoluta, incontestável, indiscutível para o crente. Este último considera
como verdadeiro tudo o que dizem os textos sagrados e ele interpreta todas as coisas em
função da religião. A religião é fundamentada na fé e repousa sobre dogmas,
ou seja, verdades absolutas. Por outro lado, o discurso filosófico é humano,
livre e crítico. Já não é Deus que fala aos homens, mas é um homem
que se dirige a seus semelhantes. Por todas essas razões, a religião se opõe à
filosofia que, ela, é baseada no espírito crítico, então para o crente, a dúvida
não é permitido. O filósofo deve ter um espírito de dúvida e de revisão em
Com seu espírito livre e crítico, ele ataca tudo, até a religião.
Esta última assim sofrerá críticas por parte de filósofos como Karl
Marx a considera como «o ópio do povo». Para ele, é o homem que
a inventou Deus. Nietzsche, por sua vez, proclama a morte de Deus, enquanto
Sartre considera a existência de Deus uma presença sem incidência no mundo.
através desses filósofos ateus, é fácil constatar que filosofia e religião
tiveram relatórios complexos desde a sua origem, mas seria exagerado ver isso
uma oposição radical. Longe de se excluírem, elas mantêm uma relação
recíproco.
Certamente, elas não têm a mesma base, pois a filosofia se baseia na razão.
e a religião sobre a fé. Mas em muitos aspectos, abordam as mesmas questões.
De fato, todas as questões levantadas pela metafísica, assim como aquelas que
estão ligadas a Deus, à alma, ao destino etc. encontram sua resposta na religião, de
a sorte que pudemos dizer que a filosofia faz perguntas e a religião traz as respostas
des respostas. É isso que mostra Blaise Pascal, segundo o qual a religião e a
filosofia são dois gêneros distintos. Na sua opinião, o homem é traído e etc.
ele pode alcançar a verdade seja pelo coração ou pela razão. Mas Pascal precisa
que há coisas que a razão não pode saber, como o exemplo de Deus, e é
no coração de sentir. É por isso que ele diz que "Deus não se prova, ele
s’éprouve». Dando continuidade a essa mesma ideia, ele afirma em seu Pensamento 277: « O
o coração tem suas razões que a razão não conhece". Santo Agostinho fala de uma
semelhança entre religião e filosofia. Para ele, há uma similitude entre os
textos bíblicos e os de Platão. Ele será levado a concluir que a filosofia não
pode nos permitir alcançar a verdade e que deve se submeter
à la religion. Santo Tomás de Aquino pensa também que fé e razão podem
alcançar a verdade, mas ele concede a superioridade à fé. Spinoza sustenta que
Entre a filosofia e a religião, não há parentesco. Ele diz: "Nem a teologia
não deve ser serva da razão, nem a razão dela da teologia, mas uma e
o outro tem seu próprio reino.
36
Há conflito entre filosofia e religião?
A filosofia entra em conflito com a religião, dado que esta se posiciona como a autoridade.
absoluta tanto no domínio da verdade quanto no da prática. Mas a verdade
da religião se apresenta como um dado exterior em presença do qual nos encontramos.
Isso é particularmente claro nas religiões ditas reveladas; aquelas cuja verdade tem
foi foi anunciada por algum profeta, algum enviado de Deus. Assim na religião "o
o conteúdo é dado, é considerado como acima ou além da razão.
a religião concebe a mente humana como limitada, restrita e, portanto, necessitando que os
verdades essenciais para o homem, que sua razão fraca seria incapaz de descobrir
por ela mesma, lhe sejam reveladas de uma maneira sobrenatural e misteriosa. Mas a ideia
de uma verdade além da razão, inacessível naturalmente à mente humana, é
absolutamente inconcebível pela filosofia que se baseia no princípio diametralmente
oposto segundo o qual o pensamento não deve admitir nada como verdadeiro que não tenha sido compreendido
como tal pela pensamento. O homem é certamente um ser limitado, finito - exceto pelo lado onde ele é
esprit. «O finito diz respeito aos outros modos de sua existência (…) ; mas quando, como
espírito, ele é espírito então não conhece limites. Os limites da razão são apenas
as fronteiras da razão deste assunto, mas se o homem se comporta de forma razoável
é sem limites, infinito.
Marcien Towa: Ensaio sobre a problemática filosófica na África atual
Assunto
É legítimo opor filosofia e religião?
3- Filosofia e ciência
A filosofia e a ciência nasceram no século 6èmeséculo antes de Jesus Cristo a partir de uma
ruptura com as primeiras abordagens da realidade. Insatisfeitos com as explicações dadas
pelo mito, a magia e a religião, os primeiros pensadores vão explicar o
cosmos ao apelar à razão. Assistimos, portanto, ao nascimento do pensamento
racional. Esses primeiros pensadores eram ao mesmo tempo filósofos e
sábios como Tales, Pitágoras, Euclides, Arquimedes etc.
A filosofia e a ciência, portanto, caminharam juntas por muito tempo. Mas pequeno
aos poucos, as ciências se desvincularam da filosofia e constituíram, cada uma, um
objeto e um método específicos. É a esse título que se pôde dizer que "a
37
a filosofia é como uma mulher na menopausa que deixou de procriar e cuja
os filhos que se tornaram adultos não pararam de se destacar dela para se constituir
em disciplinas autônomas.
Originalmente, a filosofia era apresentada como a mãe de todas as ciências.
Ela era uma disciplina enciclopédica, respondendo ao desejo de Aristóteles que a
definia como o « saber da totalidade ou a totalidade do saber ». Ao longo dos
séculos, os progressos das ciências acabam por prevalecer ao tornar
impossível a maestria do saber total por um só homem. A filosofia
como saber enciclopédico torna-se assim quimérico. A ciência então assumiu seu
autonomia com Francis Bacon que, no início do século 17èmeséculo, inaugura a ruptura
ao introduzir o método experimental. No mesmo século, seguiram-se a
física com Newton e Galileu, a astronomia de Kepler. No século 18èmeséculo, a
a biologia fará o mesmo e as ciências sociais no 20èmeséculo concluíram
definitivamente a separação entre a filosofia e a ciência. Não será mais
deixou à filosofia que a lógica e a metafísica. Assim, do pensamento
enciclopédia do filósofo que abrange todos os domínios do saber, emerge
o pensamento do cientista que se concentra em um objeto particular com um método
de estudo particular.
38
não uma concorrência para esta. Ela se ergue como guardiã diante dos perigos
múltiplos que o uso das descobertas científicas faz correr para a humanidade.
Pierre Fougeyrollas afastava toda competição entre a ciência e a filosofia
ao afirmar: « Toda competição entre a ciência e a filosofia seria ruinosa
para esta aqui.
Além disso, mesmo que a ciência seja um conhecimento exato, ela tem, no entanto, alguns
limites internas e limites externas. As limites externas dizem respeito a todas as
perguntas que estão fora do seu domínio de investigação, são as perguntas
metafísicas ou éticas. Essas preocupações são levadas em consideração pela
filosofia. Os limites internos referem-se ao conhecimento científico que
não é fixa, imutável: ela progride, o que explica o progresso científico.
É importante ressaltar, finalmente, que a ciência pode ter um impacto positivo sobre o homem
como negativo (as armas, as manipulações genéticas, a poluição do ar, etc.).
E é precisamente neste nível que a filosofia intervém para refletir sobre a
ciência. Essa reflexão é chamada de epistemologia.
Texto
Para quem acredita na ciência, o pior é que a filosofia não fornece nenhuma
resultados apodíticos, um saber que podemos possuir. As ciências conquistaram
conhecimentos certos, que se impõem a todos; a filosofia, ela, apesar de
o esforço dos milênios não conseguiu. Não se pode contestar isso: em
filosofia não há unanimidade estabelecendo um saber definitivo. Assim que uma
o conhecimento se impõe a cada um por razões apodíticas, ele se torna
Assim que se torna científica, deixa de ser filosofia e pertence a um domínio
particular do conhecível.
Ao contrário das ciências, o pensamento filosófico também não parece
progredir. Sabemos mais, com certeza, do que Hipócrates, mas não podemos
nunca pretender ter superado Platão. É apenas sua bagagem científica
que é inferior ao nosso. No que diz respeito ao que está em sua casa propriamente dito, pesquisa
filosófico, mal o alcançamos.
Karl Jaspers, Introdução à filosofia.
39
Notas
Pitágoras ensinava que a alma está presa ao corpo, e que ela será libertada de
aquele após a morte e reencarnado em uma nova forma de vida, superior ou
inferior de acordo com o grau de virtude que alcançou. O fim supremo de
o homem deveria purificar sua alma cultivando as virtudes intelectuais, em
abstendo-se dos prazeres sensuais e realizando diversos rituais religiosos. Ele disse:
A vida dos homens assemelha-se a essas grandes assembleias que se reúnem a
a ocasião dos grandes jogos públicos da Grécia onde uns vão para vender
e comprar, outros para ganhar coroas, outros finalmente para ser simples
espectadores. Da mesma forma, os homens que vieram a este mundo buscam
uns da glória, outros os bens materiais e outros, um pequeno número, se
entregues à contemplação, ao estudo da natureza das coisas: são os
filósofos
Outra versão: a de (Diogène Laërce: Vidas dos Filósofos). Pitágoras
compare a vida a uma feira e diz: "Na multidão que a assiste, há três grupos"
distintos: os primeiros vêm para lutar, os outros para fazer comércio e
os outros que são sábios se contentam em observar. Da mesma forma na
na vida, uns nasceram para ser escravos da glória ou da ganância, os outros
que são sábios não visam apenas o conhecimento.
40
Georges Gusdorf no Tratado de Metafísica: «Nenhuma filosofia pôde
acabar com a filosofia embora esse seja o desejo secreto de toda filosofia.
Essa diversidade de pontos de vista não é, por isso, um handicap para a
filosofia. Ao contrário, isso lhe permite enriquecer-se com novas ideias.
Platão diz na República o que é necessário para que uma sociedade seja boa
governada. Para ele, cada classe social deve respeitar seu lugar e que os
que os filósofos sejam reis ou que os reis sejam filósofos.
41
KantCrítica da razão pura: "não se pode aprender nenhuma
filosofia... só podemos aprender a filosofar.
Deschoux: « O que a razão não pode explicar, o mito permite pelo menos que o
dire » (Platão ou o jogo filosófico).
Karl Jaspers "O homem não pode viver sem a filosofia... Assim, ela é
presente em todos os lugares e sempre.
IV - A metafísica
1-A história de um vocábulo
43
2- Os defensores da metafísica
3- Críticas da metafísica
44
o além, é mais a fé que os sente. E é isso que impulsiona Blaise Pascal
dizer: "É o coração que sente Deus e não a razão" ou ainda "Deus não se
não prova, ele se prova". É por isso que a metafísica, em seu projeto de
conhecer o fundo das coisas pela razão falhou. Para Kant, ela não pode
ser uma ciência. E é isso que o leva a dizer que "a metafísica é um
campo de batalha onde não há nem vencedor nem vencido” (Crítica da razão pura).
Mesmo que não a considere uma ciência, Kant sustenta que a
a metafísica é uma necessidade vital para o homem.
Karl Marx, por sua parte, considera que a metafísica é um instrumento de
domínio dos burgueses sobre os proletários. Os marxistas consideram que a
A metafísica é uma ficção ideológica da burguesia. Eles acreditam que ela
deve ser rejeitada, pois desvia os proletários em vez de conscientizá-los sobre sua
embaraçoso ou de ajudá-los a combater as desigualdades sociais. Auguste Comte
também se manifestou contra a suposta superioridade da metafísica e rejeita
seu estatuto de conhecimento fundante ou superior. Para Comte, a metafísica
est ultrapassada e a explica através da lei dos três estados da mente humana: a
pensamento teológico que corresponde com a infância da razão, o pensamento
metafísica que corresponde com a adolescência da razão e do pensamento
científica ou positiva que corresponde com a maturidade da razão.
Entre as críticas mais severas contra a metafísica, podem-se destacar aquelas
deNietzsche. Para ele, apegar-se à metafísica é comportar-se como um
« vencido ». Ele estima que são os « vencidos » e os « fracassados » da vida concreta
que criaram "este mundo metafísico para caluniar o mundo
«concreto». Nietzsche acha que a metafísica é um auxílio para os impotentes
que não têm nada a esperar desta vida e que, imaginariamente, criam um além
e Deus para poder suportar suas penas. Ele diz a esse respeito "Sejam fiéis ao
a terra, o além não existe". E em outra fórmula de advertência, ele diz:
«Cuidado com todos esses padres que fazem você acreditar em um além enquanto
não esgotamos o sentido da terra. O sentido da vida, meus irmãos, é o
sentido da terra
Apesar de todas essas críticas, pode-se dizer que homem pode se passar da
metafísica? Não, dirão alguns filósofos que pensam que o homem tem uma
disposição natural que o leva a se questionar sobre sua origem e sua existência.
É nesse sentido que se deve entender as palavras de Schopenhauer, segundo as quais
«o homem é um animal metafísico». Em suma, mesmo que a metafísica
não é um conhecimento exato, continua sendo uma preocupação
inevitável, daí a reabilitação da metafísica.
45
Apesar das críticas que recebeu, a metafísica parece cada vez mais
atualidade frente ao desejo e à curiosidade do homem de conhecer o que há ao-
além da terra. No entanto, do ponto de vista técnico ou material, a ciência satisfaz
o homem, proporcionando-lhe muitas coisas. Mas no plano espiritual, a
a ciência é incapaz de satisfazer a necessidade do homem e acalmar sua angústia
sobre questões existenciais como: de onde viemos, para onde vamos,
O que é o homem? Mesmo que a ciência tenha investido em vários domínios da
vida do homem tentando torná-lo feliz, ela não conseguiu liquidar a
metafísica que permanece uma necessidade vital. É isso que mostra Kant que, bem
qu’ayantrécusé a metafísica como ciência, sustenta que é difícil senão
vã de querer renunciar a isso. Ele diz: «A metafísica é para o homem uma necessidade.
vital e seria ilusório ver o homem renunciar a isso um dia assim como o homem
não renunciaria a respirar sob o pretexto de que o ar estaria poluído". É a mesma
ideia que se encontra em Schopenhauer, segundo a qual o homem é um animal
metafísica, ou seja, um ser que não pode se passar de perguntas que o
superam porque ele é curioso por natureza. Em virtude dessa curiosidade, o homem
se faz perguntas do tipo: de onde vem o homem, para onde vai, qual é o sentido
da vida, o sentido da morte, existe uma outra vida após a morte? etc. Para
mostrar que a metafísica ainda não está liquidada, Georges Gusdorf
declara: «Longe de afirmar a decadência da metafísica, seria muito mais apropriado
sublinhar que ela é, em certo sentido, universalizada, que adquiriu uma espécie
de supremacia». Isso para dizer que a metafísica é inabalável, ela é mais
hoje é mais presente que ontem.
Sujeitos
V-Antropologia
46
A questão antropológica é tanto científica quanto filosófica.
A antropologia se apresenta como um estudo ou uma ciência do homem ou
mais uma interrogação sobre o homem, esse ser particular que se tenta compreender e
de conhecer de modo que a questão que se coloca é saber se podemos conhecer
O homem. Kant faz da questão antropológica uma preocupação maior.
diz que as três questões da filosofia são: O que posso saber? O que devo-
O que eu faço? O que me é permitido esperar? Estas três perguntas se resumem a
question :«O que é o homem? », daí uma filosofia antropológica
em Kant. A antropologia tem como projeto um estudo racional do homem. Mas
é possível ter um conhecimento racional do homem? Em todos os
Cas, o homem é uma realidade que podemos considerar sob vários ângulos.
Mais duas abordagens se impõem: a abordagem metafísica e a abordagem
científico.
a- Abordagem metafísica
47
A antropologia científica se apresenta de várias formas. Há
a antropologia econômica que estuda a produção e a distribuição de bens
de subsistência, a antropologia política que se ocupa das formas de poder e
a antropologia religiosa que se ocupa das crenças e dos rituais. Há também
a antropologia física que estuda os caracteres físicos do homem tais como
que a altura, a cor da pele, o grupo sanguíneo, a forma do crânio, do nariz,
cabelos etc., a antropologia social que analisa as instituições e os
crenças sociais etc.
Tanto a concepção metafísica do homem é limitada, tanto a concepção
científica é redutora, pois afasta todo aspecto abstrato de seu domínio
de investigação. Ela visa apreender apenas o que é concreto no homem.
Ou, o que há de mais essencial no homem, não é mais de ordem espiritual?
A antropologia científica não corre o risco de apreender apenas o que é
superficial no homem? A antropologia científica deveria colaborar mais
com a antropologia metafísica para destacar todos os aspectos humanos:
apparentes (concretas) e ocultas (abstratas).
Tópicos
O que as ciências humanas nos fazem conhecer sobre o homem é suficiente para
conhecer o homem?
48
VI-Axiologia
A axiologia pode ser definida como a ciência ou o estudo dos valores humanos.
Estas são diversas e se encontram no domínio da moral, da
política, da religião, da arte etc. Os valores são relativos de uma sociedade a uma
outro e de um grupo social a outro. Cada sociedade é estruturada em torno de
valores, normas e regras. É assim que os valores podem ser variáveis,
diferentes de uma sociedade para outra. Mas ao mesmo tempo, é preciso reconhecer
que muitas empresas compartilham os mesmos valores, mesmo quando elas são
distantes umas das outras. Os valores estabelecem objetivos, ideais e
orientam a ação dos indivíduos; é um objetivo às vezes difícil de alcançar. A
valor é como um ideal, uma crença que o indivíduo ou o grupo aspira a
realizar. É um conjunto de princípios que a sociedade ou o homem se dá e
que servem de bússola para a condução. Neste sentido, o valor orienta as ações de
o indivíduo e tem como objetivo tornar o homem bom e melhor. Às vezes, os
valores têm um caráter quase sagrado a ponto de que se está disposto a sacrificar a vida por
salvá-los ou realizá-los.
As religiões, por exemplo, se constroem em torno de valores que tendem todos a
tornar o homem bom e melhor. A filosofia também é portadora de um projeto de
sociedade. Os filósofos indicam um caminho, eles dizem o que deve ser a partir
dos fundamentos que eles estabelecem e dos princípios que eles apresentam. Eles interpõem toda
consciência humana ao propor valores humanos. É assim que desde
Aristóteles, com sua obra Ética a Nicômaco, vários filósofos se
interessados nos valores. Podemos citar Kant com a Metafísica dos costumes,
Rousseau com Emile ou da educação, Nietzsche com a Genezalogia da
moral, Para além do bem e do mal etc. O valor seria, por assim dizer, o que se
Tente de preservar ou de perpetuar. Os valores são sempre incorporados por
heróis que são citados como exemplo ou modelo.
Os valores religiosos como a paz, a tolerância, o respeito pela vida humana,
a justiça etc. geralmente coincide com aquelas da tradição. As religiões
veiculam valores e influenciam não apenas culturas, mas também
pensadores, juristas, legisladores de modo que em muitas sociedades
hoje os valores dominantes são os da religião. É preciso ressaltar, por
noutro lugar, há um conflito permanente em muitas sociedades entre valores
dites dominantes e valores considerados marginais e percebidos como
des anti-valores. Em razão desses conflitos, um valor moral universal parece
improvável em um mundo onde as diferenças são vividas no plano
geográfica, linguística, étnica, religiosa etc. Certamente, a filosofia e a
as religiões não têm a mesma fundamentação, mas às vezes levam aos mesmos
conclusões. O santo é moderado em sua conduta e se mantém longe dos excessos. O
filósofo também legisla e mostra o caminho a seguir. Ele indica o que deve ser e
como isso deve ser. O papel que o santo desempenha na religião é o mesmo que
o sábio joga na filosofia.
49
Da mesma forma que os filósofos estabelecem valores, eles subvertem outros. A esse
Nietzsche se definia como um iconoclasta (aquele que quebra os ídolos).
«Eu sou um iconoclasta, eu quebro ídolos e dilacero as tradições das
homens", dizia ele. Para ele, a sabedoria não está na moderação, mas sim em
o excesso, a afirmação de si, a vontade de poder. Nietzsche vai lançar um olhar
genealógica sobre os valores morais e falará da "moral do ressentimento",
ou seja, uma moral que tira sua fonte da rancor e da mágoa. Ele quer
dizer que aqueles que inventaram a moral da piedade, da generosidade, do amor,
da ajuda mútua etc. são fracos e fracassados da vida que, não tendo nada a esperar
desta vida, inventaram um além fictício com um Deus supremo suposto os
recompensar após a morte deles. Esta moral, diz Nietzsche, é a dos fracos,
ou seja, os pobres e os religiosos. E é preciso mergulhar nos subterrâneos
para entender as motivações desses últimos. Nietzsche levará mais longe suas
críticas contra a metafísica e a moral dizendo que "Deus está morto".
Após ter decretado a morte de Deus, ele se propõe a criar novos valores.
A criação desses valores passa pelas três metamorfoses do espírito: o
o camelo apenas aceita, o leão que quebra os valores e a criança que em
crie. Mas além de Nietzsche e de sua filosofia, é a filosofia ela-
mesmo que é subversivo e contestador.
Assunto
50
Notas
Para Sartre "A metafísica não é uma discussão estéril sobre noções
abstratas que escapam à experiência" (Situação II). Ou seja, que a
a metafísica não é uma simples especulação, mas ajuda o homem a entender
seu sorte existencial. Assim, o homem não deve desistir, as questões
metafísicas constituindo uma preocupação eternamente atual.
51
NATUREZA E CULTURA
Introdução
A questão das relações entre a natureza e a cultura é uma
questão central da reflexão filosófica. É porque
a natureza e a cultura constituem as duas dimensões
fundamentais da existência humana. Se o homem vive na
nature com os outros animais, ele também é um ser cultural.
O homem é um ser complexo, o que explica que vários
as ciências procuram conhecê-lo. Por exemplo, a história estuda
o passado dos homens, a psicologia trata de seus caracteres,
a sociologia estuda os fatos sociais como o trabalho e a
família, a linguística se ocupa das línguas etc. Vemos que
cada ciência estuda um domínio particular do homem.
A antropologia, por sua vez, é a síntese das diferentes
ciências humanas. É por isso que se pode definir
a antropologia como a ciência do homem. E Kant foi
o primeiro filósofo a ter introduzido a ideia de uma filosofia
antropológico. Ele se fez as seguintes perguntas: Que
Posso saber? O que devo fazer? O que me é permitido
de esperar? Segundo Kant, essas três questões se resumem a
uma quarta pergunta que é: «O que é
o homem? Para responder a essa pergunta, as noções de
nature e cultura permanecem indispensáveis. Qual é então a
parte do homem que volta à natureza e qual é a parte que
volta à cultura? Deve-se definir o homem pela natureza ou
pela cultura? Essas duas noções são polissêmicas e podem
ser empregadas em contextos bastante diferentes.
52
I- Relações entre natureza e cultura
A natureza designa o ambiente, o meio físico em
no qual evoluímos. Quando se fala da natureza, pensa-se em
a fauna, à flora e aos minerais. Em uma palavra, pensa-se em tudo
o que o homem não criou, e nós vivemos nessa natureza
com os animais. Existem também as necessidades naturais como
comer, beber, dormir, reproduzir-se etc. que são comuns a
o homem e o animal. Em outras palavras, a natureza de
o homem e o animal, é satisfazer todas essas necessidades
cidades. A natureza, também é no homem o que se refere a
o inato, ou seja, o que ele traz ao vir ao mundo. A
cultura, por outro lado, é o modo de vida de uma sociedade, seus
tradições.
As questões que podem ser feitas sobre os relatórios da
a natureza e a cultura podem assim ser formuladas: A cultura
é a abolição da natureza ou um simples prolongamento de
Esta aqui? Pode-se distinguir na humanidade a natureza e a cultura
Trata-se de duas ordens inseparáveis? Vimos mais
mais que a natureza, enquanto quadro de vida, é o que está
comum ao homem e ao animal. Pode-se, portanto, se
perguntar se o homem e o animal mantêm a mesma relação
com a natureza que é o único meio no qual todos eles evoluem
os dois. A resposta é não. Porque enquanto o animal deixa a
nature intacta, o homem substitui-lhe outro meio que leva
sua marca: é a cultura. O homem modifica seu
ambiente, ele muda os dados. Se os homens e os
animais desaparecem, apenas os homens deixarão suas marcas
como as estradas, as cidades, as casas etc. O homem
transforme a natureza pelo seu trabalho e pelos recursos de seu
inteligência.
O homem e o animal têm as mesmas necessidades naturais, mas aqui
também podemos apreender suas diferenças. O animal satisfeito
imediatamente suas necessidades enquanto o homem pode se
53
controlar, ele pode adiar o momento da satisfação de suas
necessidades. Além disso, se o animal consumir diretamente os
produtos da natureza, o homem os prepara, ele os cozinha. Ele mantém
conta também com regras, interditos da religião, da moral
etc. Do ponto de vista biológico, o que é inato no homem
e no animal, é o corpo. O corpo é um conjunto
de órgãos que têm cada um uma função biológica. Por exemplo,
as pernas no homem e as patas no animal são os
órgãos da locomoção, mas o homem pode usar seus
pernas para fazer esporte. A boca é o órgão natural da
nutrição, mas o homem também a utiliza para cantar, o que
o animal é incapaz de fazer.
1-O homem, um animal hostil à natureza
O homem é esse ser de recusa, ele recusa a natureza tal como ela é
Est. Como escreve Georges Bataille "o homem é um animal
rebeldes. O rebelde é aquele que contesta, que recusa uma ordem.
estabelecido. Além disso, diz-se que o homem é o animal que recusa
sua animalidade. Enquanto a animalidade segue o livre curso de suas
instintos, o homem pode se controlar e reprimir seus desejos.
O homem e o animal são movidos pelos mesmos instintos
d'agressividade, encontramos neles os mesmos impulsos
sexuais. O animal exprime sua agressividade quando está
ameaçado ou em perigo enquanto o homem, pela educação, por
as regras sociais, pode ser dominado. Ele pode até desviar seu
agressividade em relação a atividades sociais úteis como o esporte.
Tudo no animal é natural, enquanto que no homem tudo é.
ao mesmo tempo, natural e cultural; é por isso que o definimos como
um ser bio-cultural. A título de ilustração, Maurice Merleau-
Pontydonne o exemplo da paternidade que é um fenômeno a
a vez natural e cultural. A paternidade é, de fato, natural
porque está relacionada à procriação, mas é cultural
porque é uma instituição, e o grau de paternidade varia
duma sociedade para outra.
54
Segundo Georges Bataille, o homem é um animal que, porque
caracterizado pela liberdade, a possibilidade de negar tanto a sua
nature e a natureza exterior. Ele diz: "O homem é o animal
quem não aceita o dado natural, o nega. Ele nega a natureza
exterior porque ele é um ser de desejo. Esta vontade que ele tem
o homem de negar o dado natural vem de que Bergson
chama de "inteligência fabricadora". Ao negar sua própria natureza,
o homem se educa.
A natureza é o que é inato, enquanto a cultura diz respeito a
o adquirido. A natureza diz respeito ao que é puro, o que não sofreu
de transformação. A cultura é o que é transformado,
refinado, artificial (nas mulheres, podemos tomar o exemplo
maquiagem, enxerto, unhas postiças, cílios postiços,
dentes argentées ou dorées, do tatuagem do queixo etc.). Bref,
a cultura é relativa, muda de uma sociedade para outra.
Mais Claude Lévi-Strauss mostra que existe um fenômeno
que apresenta tanto características da natureza quanto da cultura:
é a proibição do incesto. Trata-se da proibição dos
relações sexuais entre parentes próximos. É um fenômeno
universal porque em todas as sociedades, o incesto é
interdito; ele possui assim os caracteres da natureza. Mas é
também um fenômeno cultural porque a proibição é uma
regra e que as relações parentais podem mudar de uma
sociedade a outra. Para Claude Lévi-Strauss, a proibição de
o incesto pode explicar a passagem da natureza para a cultura.
«A proibição do incesto, sustenta ele, funda assim a sociedade.
humana; de certa forma, ela é a sociedade.
2- Existência ou inexistência da natureza humana
Pendant longtemps, les philosophes se sont interrogés sur
a existência ou a inexistência da natureza humana. A natureza
humana seria um conjunto de caracteres e propriedades
permanentes que se encontrariam em todos os homens. A natureza
seria assim a essência do homem que o definiria em qualquer lugar e
55
sempre. Esta questão é abordada por Lucien Malson em
seu trabalho Os filhos selvagens. Nele, ele descreve a experiência
de crianças abandonadas ao nascer que serão acolhidas e
elevados por lobos. As crianças se movem como lobos,
se alimentam como eles e agem como eles. Quando eles
serão encontrados pelos homens e reintegrados na sociedade,
eles terão que aprender a falar, a andar, a comer, a beber, enfim
a se comportar como homens.
Desta experiência, podemos extrair várias lições.
Primeiro, que o pequeno ser humano, ao nascer, pode
se adaptar a condições diferentes. Enquanto vive com
lobos, a criança ainda não merece o nome de homem. É
por que alguns afirmam que não nascemos homens, tornamo-nos
torna-se. Também se diz que o homem é um ser inacabado. Ele é
diferente do animal que, ao nascer, já está programado, ele
já é o que será enquanto o homem deve aprender tudo. A
a natureza lhe dá as possibilidades, as potencialidades, mas cabe a ele
à cultura de atualizá-los e valorizá-los. O homem
é assim o produto de múltiplas aprendizagens. Em suma, nós
aprenda a falar, a comer, a adotar todos os comportamentos
humanos.
Ao contrário do corpo animal reduzido à sua dimensão
estritamente biológico, o biológico no homem é
susceptível de evoluir e isso se deve à dimensão oculta de
o homem que se traduz pelo que Rousseau chama de
« perfectibilidade ». O homem tem, portanto, essa possibilidade de se
aperfeiçoar, e isso está inscrito em seu programa genético.
Em todos os casos, segundo Lucien Malson, "o homem não tem de
nature; ele tem, ou melhor, ele é história. É a mesma visão que
Jean Paul Sartre desenvolve ao negar a ideia de toda a natureza.
humana. Para ele, admitir uma natureza humana é admitir
que o homem é programado enquanto o homem evolui em
56
função das circunstâncias. Sartre sustenta que o homem não é
o que se faz, ele é projeto.
II- A cultura
A palavra cultura é polissêmica, possui vários
significados. Distinguimos o sentido humanista e o sentido
antropológico. No sentido humanista, fala-se do trabalho da
terra, de instrução ou de cultura geral; trata-se aqui de uma
soma de conhecimentos que podemos ter em um ou mais
domínios. É uma forma de erudição. No sentido
Antropológico, a cultura designa o modo de vida de uma
sociedade, seus costumes, suas tradições. A definição mais
clássica dada pelo etnólogo inglês Tylor, apresenta a
cultura como um todo: "É um todo complexo que inclui os
conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, os
costumes e todas as outras disposições e hábitos adquiridos por
o homem como membro de uma sociedade”. Através disso
definição, constatamos que há tantas sociedades quanto de
culturas, e todas as culturas têm o mesmo valor, daí o relativismo
cultural. A esse respeito, podemos nos fazer estas duas perguntas:
Quais são as relações entre as diferentes culturas? Quais
quais são os relacionamentos entre a cultura e o indivíduo?
1- O relativismo cultural
Dissemos que cada empresa tem sua própria cultura. Há
assim uma multiplicidade de culturas, diferentes umas das outras.
Mas essas diferenças não impedem que existam
fenômenos que encontramos em todas as sociedades. Trata-se de
o que chamamos de "os universais culturais". Exemplo, em
em todas as sociedades do mundo, encontramos a prática do casamento,
do batismo das crianças e das cerimônias fúnebres. Mas os
maneras de hacer, los significados, los valores asignados a estos
as práticas variam de uma sociedade para outra. Fala-se assim de
relativismo cultural. Por exemplo, em certas sociedades, nós
enterrar os mortos enquanto em outros os queimam. Blaise
57
Pascal, em seus Pensamentos, traduz esse relativismo nestes termos:
« Verdade aquém dos Pirenéus, erro além deles ». Encontra-se o
mesmo relativismo nesta frase: «As palavras de vício e de
vertu não nos dão mais do que ideias puramente locais
marquês de Sade, A filosofia no boudoir, 1795.
Em termos de cultura, tudo é relativo. Portanto, é preciso evitar de
cair na armadilha do etnocentrismo, ou seja,
pretensão de que sua cultura é superior à das outras.
Claude Lévi-Strauss disse que devemos desconfiar de tudo
"perspectiva etnocêntrica" e não considerar como bárbaro isso
que diz respeito a uma cultura estrangeira, pois todas as culturas se
valente. No entanto, algumas culturas podem ser
materialmente mais ricos do que outros enquanto em termos de
civilização, umas podem ser superiores às outras, pois isso
quem faz a civilização é a técnica. A diversidade do
culturas não é necessariamente negativa, porque ela
pode ser fonte de enriquecimento.
Para responder à segunda pergunta, vamos lembrar que os relatórios
entre a cultura e o indivíduo podem ser analisados de várias
maneiras. Nós dissemos mais acima que o homem não é nada à
nascimento. Se a natureza nos oferece potencialidades, é a
cultura que permite atualizá-los, explorá-los, de os
desenvolver. Tornamo-nos humanos por um longo processo
da aprendizagem. Aprende-se, portanto, a se tornar humano. O
o processo de integração ou humanização é também um
processo de desnaturação. É a cultura quifforme, que
modifica, que modela o indivíduo através da aprendizagem e
a educação. Cada sociedade, cada cultura implementa
« modelos de comportamento » que os indivíduos devem
apresentar. Em resumo, o indivíduo é o que a cultura faz dele.
Em uma de suas obras, Freud levanta a seguinte questão:
A essência da cultura é proteger ou oprimir
o homem?». Pode-se primeiro dizer que a cultura protege
58
o indivíduo contra si mesmo. A cultura estabelece leis,
regras que garantem a segurança do indivíduo e que
os impedem de seguir o livre arbítrio de seus desejos, de seus
instintos. Mas ao mesmo tempo que protege, a cultura nos
oprime porque nos impede de realizar todos os nossos desejos.
As regras da sociedade são portanto restritivas. Em resumo,
as relações entre o indivíduo e a sociedade são marcadas por uma
certaine ambivalência: eles são, ao mesmo tempo, positivos e negativos.
Conclusão
Como animal cultural, o homem, diz Kant, é capaz de
se disciplinar; e essa disciplina é fundamental no
processo de socialização. « A disciplina, segundo Kant,
transforme a animalidade em humanidade." Todas as criações de
o homem, suas invenções têm como finalidade a transformação de
a natureza. Ao 17èmeséculo, Descartes anunciava que « a ciência
e a técnica fará dos homens mestres e possuidores
da natureza». Hoje, a natureza quase não tem mais segredos
para o homem. A transformação e a exploração da natureza
atingiu um ponto culminante. Alguns recursos estão mesmo
em via de exaustão como o petróleo e certas espécies
animais. Constata-se que o homem está passando por
consequências desastrosas da sobreexploração da natureza.
Ou, son existence dépend principalement de ces ressources de
a natureza. É por isso que devemos proteger a natureza, pois ela é
como uma mãe nutriz. Devemos-lhe respeito. Finalmente,
com o avanço do movimento ecológico, diante da destruição
da natureza, alguns pregam o retorno à vida natural. Mas
um tal retorno não faria o homem perder sua humanidade
quando se sabe que a humanidade é essencialmente liberdade?
59
DESAFIOS, FINALIDADES E PERSPECTIVAS
FILOSÓFICOS
Introdução
Assunto
A filosofia promete a felicidade?
Para permitir ao homem compreender um mundo onde os pontos de referência estão perdidos,
a filosofia procede a uma crítica sem complacência do mundo e da sociedade.
A crítica filosófica está voltada para o conhecimento, toda forma de
conhecimento no sentido em que se diria com Marcien Towaque «toda pensamento também
venerável seja, não pode ser admitida sem ser passada pelo crivo do pensamento
sessenta e um
crítica». Para a filosofia, portanto, todo conhecimento, teoria ou discurso deve
submeter-se a um exame crítico. A crítica filosófica também é direcionada
contra a filosofia em si mesma; nesse sentido, a verdade filosófica seria o fruto
de um debate contraditório e é isso que faz Hegel dizer que "o espírito adquire
a verdade a condição de se encontrar no absoluto desgarro.
Assim, mais do que uma função crítica que se pode reconhecer à filosofia, a
deveria dizer que a crítica faz parte da filosofia. Poderemos então dizer
com Vladimir Jankélévitch que « a função da filosofia é criticar,
Seu destino é ser criticado”. Com essa função crítica, a atividade
filosófico não poupa nem as tradições nem mesmo os preconceitos que se encontram
nas diversas formas de conhecimento, o senso comum e a sociedade. O
préjugé pode ser definido aqui como uma verdade estabelecida antes de qualquer exame e que,
em alguns casos, toma a forma de uma crença. Filoso far consiste, portanto, em se
livrar-se de preconceitos que nos impedem de acessar a verdade. Aliás,
Descartes atribui à filosofia a missão de iluminar e regular a vida. Ele
É propriamente ter os olhos fechados, sem nunca se esforçar para abri-los.
sem filósofo; e o prazer de ver as coisas que nossa visão descobre não é
ponto comparável à satisfação que dá o conhecimento daquelas que se
encontre pela filosofia; e finalmente este estudo é mais necessário para regular nossos
costumes e nos guiar nesta vida, que não é o uso dos nossos olhos para guiar
nos passos. Prefácio aos princípios da filosofia. A filosofia seria assim o olho
da alma que permite ao homem orientar sua conduta e determinar seu caminho
segundo a razão. Garante uma vida normatizada e regulada. Epicuro desenvolve a
mesma ideia nestes termos: «Aquele que pretender que a hora de filosofar não é
ainda não veio ou que já passou, pareceria com aquele que diria que
a hora ainda não chegou de ser feliz ou já passou.
Enquanto alguns filósofos atribuem à filosofia uma função utilitária,
Aristóteles, por sua vez, afirma que a filosofia não existe com uma finalidade precisa.
ou determinada. Ela é uma atividade livre por definição; ela é a si mesma sua
propriedade fina, ela existe por si mesma e para si mesma. Aristóteles quer dizer que a
a filosofia não se fixa em nenhuma finalidade, que ela visa apenas o simples conhecimento
como ele sugere na Metafísica: "Assim, se foi realmente para
escapar da ignorância à qual os primeiros filósofos se dedicaram à filosofia,
é que, evidentemente, eles buscavam o saber com o único objetivo do conhecimento
e não para um fim utilitário. (…) Concluo que, manifestamente, não temos
em vista, em nossa pesquisa, nenhum interesse estrangeiro. (…) Assim, esta ciência é
62
também de todas as ciências, que seja uma disciplina liberal, pois somente ela é
à ela mesma seu próprio fim.
Assuntos
Trata-se aqui de proceder a uma análise dos relatos que a filosofia mantém
com a ideologia: os dois mantêm relações muito complexas. Algumas
ideologias que sustentam a superioridade das raças e das culturas foram apoiadas
por teorias filosóficas. É o caso de Hegel e David Hume que
consideram que o Negro é inferior ao Branco. Mas ao mesmo tempo, é por meio da
filosofia e por um trabalho de desconstrução que tais ideologias racistas têm
foram combatidas e rejeitadas. Fiel à sua missão, a filosofia pretende ser acima de tudo,
trabalho crítico que aborda tudo o que preocupa o homem e particularmente
as ideias que guiam suas ações e as governam.
Se a ideologia funciona como uma verdade aceita e admitida por homens,
ela nem sempre está isenta de críticas. Marx, em seu famoso
A ideologia alemã co-produzida com Engels, opera uma crítica sem
complaçência da sociedade alemã, mas sobretudo do idealismo como
ideologia que desvia os homens das situações concretas. Ele acredita que uma
a filosofia só faz sentido quando permite ao homem se libertar da
dominação e resolver seus problemas concretos em um mundo concreto. Aqui está
por que na sua 11èmetese sobre Feuerbach, Marx endereça essa crítica à
filosofia: « Até agora, os filósofos apenas interpretaram o mundo de
diversas maneiras. Agora é hora de transformá-lo». Mais perto de nós,
todo o combate de Cheikh Anta Diop consistia em desconstruir toda a ideologia de
a colonização, incluindo a de superioridade de uma raça sobre a outra.
63
A principal preocupação da maioria dos intelectuais africanos foi um momento de
redescobrir sua consciência histórica, reconciliar-se com sua própria história em
se apropriando. Isso terá sido um primeiro passo em direção à emancipação da
dominação colonial. Muitos intelectuais, incluindo aqueles que chamamos de pais
das independências (Senghor, Sékou Touré, Kwamé Nkrumah, Bourguiba etc.)
se comprometem em uma luta tanto política quanto ideológica. É reconhecer
em algum lugar a ideologia é inseparável até certo ponto da
política. Mas ao mesmo tempo, ela é uma arma perigosa que pode ser
retornada contra aqueles mesmos que se quer libertar. Enfim, a ideologia, no sentido
política, visa a legitimar uma dominação, mas há algo pior do que isso. Cheikh Anta
Diop acredita que aqueles que foram libertados da dominação podem retornar
voluntariamente na servidão porque não sabendo o que fazer com a sua liberdade e
ainda precisando da autoridade ou do reconhecimento dos antigos mestres.
Para concluir, a filosofia apresenta-se sempre como uma denúncia de
a ideologia ou é ela mesma uma ideologia? De qualquer forma, o filósofo,
àtravés da sua filosofia, toma posição. Em outras palavras, porque livre, o discurso
filosófico não pode ser neutro. Em termos mais simples, o filósofo é
em um campo ou em outro, e com bastante frequência ele se apresenta como a
locomotiva. Dependendo da avaliação que se faz dela, a ideologia liberta ou
asservit. Karl Marx, ao denunciar a ideologia burguesa, cria e propõe uma
outra ideologia: a dos proletários, conhecida por ser uma ideologia de libertação
pela via do socialismo e do comunismo que comumente chamamos de
ditadura do proletariado. Mas a história reteve deste vasto ímpeto de libertação que
estamos diante de um regime negacionista de toda liberdade.
64
por que, apesar da crítica que lhe foi feita por não chegar a resultados
concretamente, quando se compara com a ciência, a filosofia permanece atual.
Primeiro, a filosofia ocupa um lugar importante na política, pois ela
reflete sobre os projetos de sociedade e as ideias que governam o mundo. A prova,
Quantos chefes de Estado se inspiram no marxismo ou no maquinavélismo?
Em seguida, o desenvolvimento das ciências envolve a filosofia em uma reflexão
sobre os métodos, o alcance e os objetivos da atividade científica. Nós temos
então assunto à filosofia das ciências ou epistemologia. A filosofia
reflete sobre as questões da ciência, pois o sábio nem sempre é o melhor
espaço para perceber todas as implicações de suas descobertas ou de seus
pesquisas. A tarefa da filosofia é, portanto, importante porque reflete
sobre as consequências das descobertas científicas.
As mudanças ou as perturbações que a ciência produz na sociedade e
na humanidade convida o homem a se adaptar rapidamente, a encontrar seus pontos de referência mas também
a se proteger contra os perigos que podem ameaçar a vida ou simplesmente
o ambiente. As questões éticas se colocam ao homem porque elas
impõem. Devemos deixar a ciência sem controle nem supervisão? Devemos ela
deixar conduzir pesquisas cujos resultados podem ameaçar a existência de
A humanidade? Devemos, em nome da liberdade, permitir que o homem modifique
a ordem da criação (manipulações genéticas)? Essas são algumas perguntas
que interpela o filósofo e que fundamentam a reflexão epistemológica e
ética. É por isso que muitos filósofos refletiram sobre os perigos de
a ciência.
Refletindo sobre os perigos relacionados à ciência, Edgar Morin e Paul Langevin
consideram que a ciência deve ser acorrentada como foi o caso antigamente de
Prometeu por ter dado o fogo aos homens. Ao analisar os fatos e as malfeitorias
da techno-ciência, Roger Garaudy sustentou que as ciências e as técnicas
certamente nos permitiram lutar contra doenças como a peste e o
malária e salvar milhões de pessoas. Mas ao mesmo tempo, os
as ciências e as técnicas permitiram a destruição de vários milhares de
pessoas como aconteceu em 1939 em Hiroshima com a bomba atômica?
Luc Ferry, por sua vez, centrou sua reflexão na ideia de progresso científico. Ele
admita que a ciência faz, indiscutivelmente, progressos como em
o automóvel, a aviação, a televisão, a medicina moderna, a telefonia, a
conquista do espaço etc. Mas ele se pergunta se esse progresso é positivo para
A humanidade. O progresso tornou o homem feliz? Elevou ele o nível
moral do homem? pergunta ele. A resposta é dada por Rousseau que
fala sobre decadência moral. Ou seja, as descobertas científicas têm
permite ao homem fazer coisas imorais como o aborto, os OGMs,
a eutanásia, a contracepção, a himenorrafia etc.
65
Sujeitos
* « A filosofia, escreve um filósofo, boxe ». Isso quer dizer que ela vai cair?
Pode-se dizer tudo?
Texto
66
O TRABALHO
Introdução
O trabalho pode ser definido como uma atividade humana que visa transformar a
nature. A palavra vem do latim tripalium que significa instrumento de tortura composto
de três estacas, destinado a manter os cavalos difíceis de ferrar. Mas o termo não
não significa apenas atividade penosa e servil, também pode designar uma
atividade recreativa que proporciona ao homem lazer ou uma atividade pela qual
o homem se desenvolve. À luz de sua etimologia e da evolução semântica,
pode-se dizer que o trabalho remete à ideia de sofrimento, de dor. Na Bíblia,
o trabalho evoca a maldição que caiu sobre o homem após a
desobediência. A partir daí, o trabalho aparece como a condição do homem. A
A questão é saber se devemos viver para trabalhar ou trabalhar para viver.
Por outras palavras, o trabalho permite ao homem realizar sua essência ou o aliena?
será? Se o trabalho liberta o homem de sua dependência em relação à natureza, ele
apresenta um caráter ambivalente na medida em que é percebido como uma
constrangimento, ou mesmo um meio para alguns homens de submeter outros, como
é o caso na escravidão. Qual é então o sentido do trabalho humano?
A origem do trabalho
No sentido religioso, a origem do trabalho deve ser buscada no pecado original. Quando
Adão, sob a influência de Eva, provou da árvore do conhecimento do bem e do
mal, o Senhor pediu-lhes para descer à terra para expiar sua culpa. Ele
disse-lhe que eles terão que trabalhar duro para sobreviver. A Adão, Deus diz: « Tu
ganharás o teu pão pelo suor do teu rosto; a Eva ele diz: "Tu darás à luz na
dor» uma vez que foi ela quem influenciou seu esposo a tocar no fruto proibido.
Do ponto de vista religioso, o trabalho é, portanto, uma punição divina. Aqui, nós
estamos no contexto do mito de um paraíso perdido onde o trabalho não existia
necessário: é a idade de ouro da humanidade. Mas, do ponto de vista prático, o trabalho
teria nascido com a aparição da sociedade e a hierarquização das classes sociais:
umas encarregadas dos trabalhos e as outras de consumir o fruto desses trabalhos.
Em todo caso, o homem trabalha para sobreviver.
Trabalho como libertação
O trabalho permite ao homem libertar-se duplamente. Primeiro, ele liberta o homem
de sua dependência em relação à natureza. Em outras palavras, enquanto o homem se
limitada à pesca, à caça e à coleta, ele estará sempre dependente da
nature e ele sempre estará sujeito aos caprichos deste último. Mas com
a agricultura, a pecuária e a metalurgia, ele consegue domesticar a natureza, a
produzir mais do que o necessário e, portanto, poder armazenar reservas para si
permitindo enfrentar um futuro incerto. Sob esse ponto de vista, o trabalho liberta
o homem da natureza.
67
Em seguida, o trabalho permite ao homem se libertar de sua servidão. Na
dialética do senhor e do escravo, Hegel considera que o trabalho desempenha um papel
libertador na medida em que permite ao trabalhador construir um mundo que ele
é o único que pode controlar. Hegel nos descreve esta cena: ao final da luta
opondo dois homens às origens da humanidade, o vencido aceita, em troca
da vida salva, de trabalhar para o vencedor que se torna o mestre. Ao se tornar
escravo, o vencido adota uma atitude ativa diante do mundo que transforma enquanto
que o mestre desfruta passivamente dos produtos de seu escravo. À medida que
que o escravo transforme o ambiente e domine as leis da natureza, o mestre
torna-se estranho ao universo em que vive e depende completamente de seu escravo.
No fim das contas, os papéis são invertidos, o mestre se torna o escravo de seu escravo.
e o escravo se torna o mestre de seu mestre.
Nesta cena, percebe-se que pelo trabalho, o escravo se humanizou, ele é
realizou sua essência. Por outro lado, o mestre perde sua liberdade ao viver em
a incapacidade de satisfazer a si mesmo suas próprias necessidades; ele se instala em uma
dependência. O significado do trabalho reside em um caráter utilitário: o trabalho é
útil, serve para algo e permite ao homem se educar ao levar sua
marque no mundo. Dado que o trabalho é libertador, como é que se faz-
ele então que seja alienante?
Trabalho como perda da humanidade: o fenômeno da alienação
Todo trabalho não é necessariamente libertação. Exercido em certas condições, ele
torna-se alienação, pois faz o homem perder a sua humanidade. A alienação vem
do latim « aliénus » ou seja « que pertence a outro ». No sistema
marxista, é o processo pelo qual o indivíduo é desapossado de si mesmo e se torna
o escravo dos outros ou das coisas. Para Marx, o modo de produção capitalista
enquanto vende a baixo preço sua força de trabalho,
o trabalhador se vê despojado do produto de seu trabalho, o qual se torna para ele um
objeto, uma mercadoria exterior a ele. Mesmo o trabalho à máquina, segundo Marx,
alienam o indivíduo, porque os movimentos do trabalhador são reduzidos a atos
automáticos. Nesse sentido, o operário se torna o escravo da máquina. Neste
sistema de exploração do homem pelo homem, Marx diz sobre o trabalhador:
«Ele é ele quando não trabalha, e quando trabalha não é ele.»
Marx denuncia vigorosamente essa exploração sobre-humana e mostra que o
O trabalho assalariado não é outra coisa senão uma mercadoria. O capitalista paga pelo dia.
do trabalho do operário, mas em nenhum caso ele paga esta imensa força empregada
pelo operário. O trabalho torna-se para o operário "uma atividade vital". O burguês
dê ao trabalhador apenas o que ele precisa para se manter vivo para que amanhã,
o trabalhador possa trabalhar. O salário destina-se, portanto, a reconstituir a força de
o trabalhador e não a recompensar horas de trabalho penoso. O pior é que isso
que o operário produz não lhe pertence, permanece como algo estranho a ele. É a
propriedade do burguês a quem cabe exclusivamente fazer o que quiser e
mesmo de revender ao trabalhador ou a outro para obter lucro. Aparece
claramente que o trabalho exercido nessas condições aliena o ser humano. O homem
68
se perde em uma realidade estrangeira e está despojado de sua própria essência. O trabalho
não é para ele uma atividade graças à qual se desenvolve e se realiza, mas
uniquement uma restrição para poder sobreviver na sociedade. É a dizer que
o homem não deve trabalhar, que ele deve ficar ocioso?
A resposta é obviamente não, pois o trabalho permite ao homem realizar seu
essência. Segundo Kant, ele participa da formação do humano; é por isso que ele
exhorta os pais a encorajar seus filhos a trabalhar desde a tenra infância. Ele
escreve a esse respeito: «É necessário acostumar a criança a trabalhar». Além das necessidades
de sobrevivência, o trabalho também se explica pela recusa do tédio. De qualquer forma, é isso
que disse Nietzsche: «O homem trabalha além do que exigem suas necessidades
normais" para escapar do tédio. A esse respeito, Voltaire diz que o trabalho afasta
de nós três grandes males: o tédio, a necessidade e o vício. É preciso que o homem
trabalhe; se ele não o fizer, ele deixa todas as portas do vício abertas.
Trabalho humano e "trabalho" animal
O trabalho humano envolve a consciência de um projeto, enquanto o "trabalho"
O animal é instintivo e não é perfectível. Marx escreve em O Capital, 1867:
Uma aranha faz operações que se assemelham às do tecelão, e confunde
pela estrutura de suas células de cera a habilidade de mais de um arquiteto. Mas isso
que distingue de imediato o pior arquiteto da abelha mais experiente,
é que ele construiu a célula na sua cabeça antes de construí-la na colmeia.
Marx quer dizer que o trabalho do homem é regido pela consciência do objetivo a
atingir. A perfeição do homem ou ainda sua capacidade de se aperfeiçoar,
est ligada à própria natureza do trabalho humano. « Os homens tornam-se mais habilidosos
ao encontrar mil novos endereços, em vez de cervos ou lebres deste
« Os tempos não são mais astutos do que os do tempo passado », disse Leibniz, em
Novos ensaios sobre o entendimento humano, 1703. Spinoza mostra que o homem
evolui com o tempo e a descoberta de novas técnicas, enquanto o animal
não progride, estagna. Exemplo, os pássaros de hoje não constroem
ninhos deles com mais arte do que os primeiros pássaros. O mesmo se aplica
com as abelhas; elas não aperfeiçoam a célula que habitam.
O trabalho e o lazer
O trabalho nem sempre foi valorizado como é hoje. Na antiguidade
E mesmo nas sociedades feudais, o homem livre era aquele que não trabalhava.
O trabalho era destinado às categorias mais baixas da sociedade: os escravos,
os camponeses e os artesãos. Ser livre significava antes de tudo estar emancipado de toda
dependência em relação ao mundo material, não estar sujeito à necessidade dos
coisas. Mas isso não significa que os homens livres se entregavam à ociosidade.
Eles se entregavam mais a atividades de lazer. Chamamos de lazer a atividade que se
efetuar durante o tempo que se pode dispor fora de suas ocupações
habitual (trabalho, gestão da casa, educação dos filhos...). O lazer
n'intervém apenas no tempo livre. Este tempo livre é geralmente dedicado a alguns
atividades lúdicas ou culturais: bricolagem, jardinagem, esportes, entretenimentos, etc.
69
Na antiguidade, o lazer era, portanto, o privilégio dos homens livres que podiam
viver sem trabalhar. É por isso que a filosofia, as ciências ou
A matemática era considerada uma atividade de lazer. Aliás,
por essa razão, que, apesar da riqueza de seus conhecimentos da natureza, os
Os antigos gregos nunca fizeram progresso técnico, pois não se dignaram a
submeter um saber tão nobre a atividades consideradas, por eles, servís.
Ao longo dos tempos, houve uma mudança de significado; lazer não significa mais colocar em
o tempo livre que o homem livre dispõe para se enriquecer intelectualmente,
espiritualmente ou socialmente. Mas significa com o homem moderno toda
atividade de entretenimento ou de distração, permitindo-lhe esquecer um pouco os
aferro do trabalho. Sob este ponto de vista, o lazer é libertador assim como o trabalho;
mas quando se abusa, eles se tornam alienantes.
Conclusão
O trabalho aparece como a marca da condição miserável do homem, mas
também sua grandeza que se encontra em sua capacidade de se humanizar. O homem se vê
constrangimento de domar a natureza para sua própria sobrevivência; assim, ele humaniza a natureza
ao torná-la mais habitável. Mas essa humanização terá reveses, pois
o homem como um animal egoísta, vai querer tirar proveito vergonhosamente de seu
semelhante. Ele o utiliza em condições que o desonram por um trabalho
asservissant: é o trabalho alienado. No entanto, o homem não pode não
trabalhar, é preciso simplesmente redefinir o quadro em que ele trabalha para tudo
normalizar para que ele acesse sua felicidade.
CONSCIÊNCIA E INCONSCIÊNCIA
INTRODUÇÃO
A palavra consciência vem do latim "cum scientia" que significa "acompanhado de
saber». Estar consciente é, portanto, pensar, agir ou sentir sabendo que se
70
pense, que agimos ou que sentimos. A consciência pode, portanto, ser definida como
uma percepção ou um conhecimento de si mesmo, de seus atos e do mundo.
Aliás, o dicionário "Lalande" entende por consciência essa "intuição que
o sujeito tem seus estados e seus atos." É por meio dela que o homem se situa por
relacionamento ao presente, ao passado e ao futuro. O inconsciente, por outro lado, designa uma
dimensão do nosso psicismo, da nossa personalidade que existe tanto no
sujeito normal que no anormal. Na psicanálise, o inconsciente remete a
o conjunto das representações e dos desejos inacessíveis à consciência e
frequentemente reprimidos por ela.
A consciência e o inconsciente têm uma história, pois passamos de um para o outro.
na maneira de conceber o homem. Durante muito tempo, a consciência tem sido
sinônimo de razão, e é a partir dela que se definia o homem. Mas
Freud revolucionou as coisas ao introduzir o termo inconsciente para
redefinir o homem. A questão era saber se o psique do homem, em
sa totalidade, está consciente ou não. Mas bem antes de Freud, filósofos como
Leibniz, Spinoza e Nietzsche foram de certa forma os precursores de um
inconsciente psíquica. Freud será, mais tarde, o porta-estandarte de isso
filosofia.
Com esta redefinição do homem, várias questões se impõem: A teoria
do inconsciente não reduz o homem a um ser de desejos em vez de um
ser de razão? Dar ao inconsciente um lugar maior do que o da
consciência, não é uma maneira de negar a liberdade do homem e admitir
A ausência de razão no homem? De qualquer forma, Sartre pensa que o inconsciente,
como formulado por Freud, é uma pura ficção. Para ele, o fato de se refugiar
atrás do inconsciente para não assumir a responsabilidade por nossos atos, revela
tout bonnement de la mauvaise foi. En ce sens, il considère que «l’inconscient
é a má-fé da consciência.
I- A consciência
71
consciência em nós. Aqui está o que ele escreve no Emílio: « Consciência, consciência,
consciência! Instinto divino, imortal e voz celeste; guia seguro de um ser
ignorante e teimoso, mas inteligente e livre; juiz infalível do bem e do mal, que
tornam o homem semelhante a Deus, és tu quem faz a excelência de sua natureza e a
moralidade de suas ações". Rousseau, Emílio ou Da educação, 1762, livro IV,
GF-Flammarion, 1966, p. 378). Finalmente, a consciência é chamada de psicológica
quando ela torna o sujeito capaz de perceber sua própria atividade psíquica, é a
dizer quando o indivíduo é capaz de voltar com o pensamento sobre o que faz para
melhor analisar sua interioridade para melhor guiar seus atos.
É preciso mencionar que a palavra consciência foi utilizada tardiamente na filosofia. Nós
utilizava termos como pensamento, razão, espírito, etc. e é René Descartes que
foi o primeiro a ter assimilado a consciência à razão a partir do seu cogito.
A consciência ligada ao pensamento nasceu, portanto, com Descartes, quando este colocou
em evidência que o « eu penso » era o primeiro princípio metafísico e a
a condição de toda certeza. O cogito cartesiano é fruto da dúvida hiperbólica
que faz tábua rasa de tudo. Mas Descartes se deu conta de que pode duvidar
de tudo, exceto que ele está começando a duvidar. Dado que o pensamento sozinho resiste ao
dúvida, Descartes pode ter confessado: "Mesmo que eu duvide de tudo, não posso duvidar
que eu estou duvidando", da qual seu slogan "penso, logo existo". Para
Descartes, o homem é uma res cogitans (substância pensante), uma substância
não toda a natureza é apenas pensar.
Portanto, em Descartes, é a consciência que define o homem. Melhor ainda, ele afirma
que a consciência pode existir sem se relacionar com o mundo, ou seja, que a
o pensamento se encerra em si mesmo e se basta. Isso significa que para
existe, a consciência não precisa do mundo, da onde vem o solipsismo que significa
solidão do espírito. Mas o ponto de vista de Descartes será analisado por Kant
Hegel, mas também pelos filósofos do século 20èmeséculo como Edmund Husserl,
Maurice Merleau-Ponty e Jean-Paul Sartre criticam Descartes por seu
solipsismo.
72
« Dialética do senhor e do escravo » onde Hegel sustenta que o espírito subjetivo
não chega à consciência de si mesmo senão através de sua objetivação, ou seja, ao se
manifestante através da história e do tempo. Em Sartre também, a consciência
se determina na relação com o outro. Ele escreve a esse respeito: "O outro é o
médiateur indispensável entre eu e eu mesmo». Portanto, é através do olhar
do outro e de seus julgamentos que posso me conhecer. Ele acrescenta: «Perceber um
árvore, é arrancar-se da íntima umidade gástrica para correr lá, além de si
vers o que não é eu; lá longe perto da árvore e, no entanto, fora dela, pois ele
m’escapa e me empurra e eu não posso mais me perder nele do que ele pode se
diluir em mim; fora dele, fora de mim», Uma ideia fundamental de
fenomenologia de Husserl: a intencionalidade, 1939. A posição sartriana da
a consciência se estabelece como uma negação do solipsismo cartesiano. A
o autoconhecimento passa então pelo que Jean Paul Sartre nomeia
« a intersubjetividade », ou seja, pelo olhar do outro: não é na
solidão em que se toma consciência de si, mas no coração do mundo e dos outros.
O face-a-face cartesiano - entre si e consigo mesmo - seria uma ilusão.
O solipsismo cartesiano será também criticado por Gassendi, que, em uma
objeção endereçada a Descartes contra o solipsismo, disse: « Eu penso, vocês dizem,
mais que pensez-vous ? Car afinal, todo pensamento é pensamento de alguma coisa.
a isto, Descartes respondeu: «O que quer que eu pense, eu penso», para dizer que pode
importa o que ele pensa, o essencial é que ele pense. Descartes não respondeu à
pergunta, ele simplesmente a evitou. Sobre o que Gassendi queria chamar a atenção dele
atenção, é que não se pode pensar em nada, é preciso que o pensamento tenha um objeto
de pensamento, da qual é a contribuição dos fenomenólogos para quem todo pensamento é pensamento
de alguma coisa. Muito antes dos fenomenólogos, Emmanuel Kanta afirmou
que « o entendimento humano é estruturado de acordo com as categorias do tempo e de
o espaço ». Uma maneira de dizer que a razão está no tempo e no espaço e
que ela não pode sair disso.
Através dessas diferentes concepções da consciência, pode-se realmente dizer que
todas as representações e ações do homem são fruto da consciência?
Em outras palavras, pode-se dizer que todo o ser do homem se reduz à consciência?
O psicismo do homem é completamente consciente? O homem é?
inteiramente mestre de seus pensamentos e atos? É precisamente essa concepção
que reduz o psique à consciência que será abalada com a descoberta
do inconsciente pelo fundador da psicanálise, ou seja, Sigmund Freud.
A consciência, primeiro passo para o autoconhecimento e o conhecimento do mundo, parece
frequentemente nós escapamos, pois ela pode ser influenciada pelo que não é ela: o
corpo para Baruch Spinoza, depois Sigmund Freud, a sociedade para Karl Marx ou os
instintos mais vilões para Friedrich Nietzsche. Marx invoca, a esse respeito, o
determinismo social afirmando: "A consciência que cada homem tem de si
depende do mundo que o rodeia e depende sobretudo do estado económico e material
da sociedade. A consciência é o reflexo da sociedade e sofre todas as suas
tumultos." Se o sentido de uma maioria de pensamentos e atos escapa a
73
o homem pode ainda ser considerado responsável pelo que pensa e pelo que faz?
Finalmente, como uma tal mutação, da consciência ao inconsciente, ocorreu?
pode operar?
74
é o sono. Lá, os desejos se disfarçam, assumem outra forma para se
manifestar sob sua forma onírica.
O isso ou inconsciente
O isso é dominado pelo princípio do prazer que leva o indivíduo a acessar
imediatamente a seus desejos. Na teoria de Freud, o isso é constituído de
o conjunto das pulsões e tendências que estão em nós desde nosso nascimento.
A energia que está na base dessas tendências de origem sexual, Freud a nomeia
libido. Isso é composto pela libido e por todos os desejos que foram
refogados desde a infância. Ele ignora o tempo, é por isso que todos os desejos
refoulados, rejeitados no inconsciente aguardam um momento propício para se realizar.
Eles não desaparecem, sua realização pode seguir caminhos indiretos
como o sonho ou ainda a criação artística e literária pelo que Freud nomeia
sublimação. A esse respeito, Freud diz que « o sonho é o caminho real que leva a
o inconsciente ». Para ele, o sonho é a manifestação ou a expressão dos desejos
refoulados. Isso significa que é necessário partir da análise do sonho se quisermos descobrir
o inconsciente. Mas o sonho não é o único meio de acessar o inconsciente,
há também os atos falhos, a psicanálise (a técnica do divã que se
substituto à hipnose) ou a neurose.
75
nature, as ciências humanas ou as ciências lógicas-formais? Por outro lado,
admitir a existência de um inconsciente psíquico, não é retirar do homem a
responsabilidade que está ligada à sua liberdade de ser consciente? Aceitar a existência de um
inconsciente, diz Sartre, é fornecer ao homem um álibi para fugir diante de seus
responsabilidades. É, portanto, concebível definir o homem, não como um
ser de razão, mas sim como um ser de desejos?
Eu- Conclusão
76
Em um plano filosófico, o inconsciente introduz a ideia de uma determinação, de um
determinismo frente à liberdade. O homem seria livre ou mais bem completamente
determinado pelo seu inconsciente no sentido em que diria que é o inconsciente que age
nele? Para esta razão, Sartre rejeita a ideia de um inconsciente psíquico.
O homem é liberdade e sua natureza inteira é ser livre; e é nesse sentido que ele
é totalmente responsável, diz Sartre. Refugiar-se por trás do inconsciente para
justificar um comportamento é má-fé, concluiu Sartre para quem
o inconsciente é uma pura ilusão, uma pura ficção.
Notas
Revolução da psicanálise
No plano médico, Freud traz uma revolução no tratamento dos doentes.
que sofriam de distúrbios como a neurose ou a histeria. Enquanto até aqui, a
a medicina trazia soluções orgânicas, mas nos demos conta de que alguns
os doentes resistiam aos tratamentos orgânicos. A teoria de Freud faz uma
incursão na arte, na literatura e na religião. No lado literário, a psicanálise tem
influenciou o surrealismo que é uma doutrina que se baseia no desdobramento de
o inconsciente. No lado da arte, a psicanálise acredita que as obras de arte são o fruto
duma sublimação. Freud interpretou, para isso, as pinturas de Michelangelo e
de Joconde. No que diz respeito à religião, Freud pensa que a religião é uma invenção de
o homem; sua interpretação psicanalítica da religião se une à dos
materialistas como Karl Marx e Engels, assim como Nietzsche.
77
As três feridas no orgulho da humanidade
1-A primeira ferida é o heliocentrismo: Galileu sustentava que o centro de
o universo é o sol e ele havia contrariado as escrituras sagradas que sustentavam
que o centro do universo é a Terra. Não pense que o homem é o centro
do universo era uma ferida fortemente sofrida pela humanidade. Mas Copérnico
provará que o sol é de fato o centro do universo
A segunda ferida é o evolucionismo: Darwin chocou a
consciência da humanidade ao sustentar que o homem vem do macaco.
3-A terceira ferida é o inconsciente: Freud considera que o homem não é
não é um ser de razão, mas de desejo e age sem o saber.
FILOSOFIA AFRICANA
Introdução
A existência de uma filosofia africana suscitou, por muito tempo, muito
de debates. O ocidente muitas vezes rejeitou a ideia de uma filosofia africana em
baseando-se em razões das quais as principais estão relacionadas à ausência de escrita.
Uma concepção sem autor identificável e que é conservada apenas por uma
tradição oral sem apresentar nenhuma garantia de autenticidade, pode ela ser
considerada como filosofia? Se os africanos dispuserem, como eles o
pretendem, de uma filosofia verdadeira, o que os impede de a colocar ao
dia pela produção de obras filosóficas? O essencial para os africanos
é de reivindicar a produção por seus ancestrais de uma filosofia ou de
produzir eles mesmos um discurso? O pensamento africano pode ser qualificado de
filosófica? Em resumo, existe uma filosofia africana?
78
o Negro por parte dos ocidentais, nomeadamente de pensadores eurocentrístas
como Hegel, David Hume, Lucien Lévy-Bruhl, Martin Heidegger etc. Hegelpar
exemplo não cora ao falar do homem em estado bruto. Ele afirma: «Para tudo
o tempo durante o qual nos foi dado observar o homem africano, nós o
vemos no estado de selvageria e de barbárie. O Negro representa o homem
natural em toda a sua barbaridade e sua ausência de disciplina." David Hume
reforça este racismo dizendo: "Eu suspeito dos negros e, em geral, dos outros"
espécies humanas de serem naturalmente inferiores à raça branca. Não há
jamais eu de nation civilisée d’une autre couleur que la couleur blanche (…).
Sem mencionar nossas colônias, há negros escravizados dispersos por toda parte
a Europa; nunca se descobriu neles o menor sinal de inteligência.
encontre a mesma ideia no sociólogo François Lucien Lévy Bruhl que recusa
à la pensée africana o status de filosofia porque, diz ele, ela é primitiva e
prélogique. Quanto a Heidegger, ele diz que «a filosofia é grega», é
dizer que o pensamento é ocidental.
Para esses pensadores, os negros são homens inferiores aos brancos. Diante de tanto
de desprezo, a África reagiu buscando, em sua história, sua cultura e seus
tradições, tudo o que pode reabilitá-la, devolver a ela sua dignidade.
É com esse objetivo que ela tentou se valer de uma "filosofia
enfouie » cuja exumação lhe permitiria rivalizar com o ocidente, com vista a
provar que a sabedoria e a razão não são o monopólio do Branco. Esta
empresa de reabilitação teve como pioneiro o Reverendo Pai Placide
Tempels, um Belga que tenta demonstrar em sua obra Filosofia Bantou
publicada em 1945 que existe, de fato, uma filosofia na África e que ela tem
conheceu seu desenvolvimento muito antes da chegada do colonizador. O Reverendo Padre
estudou os Bantus (um povo do Congo) e diz que eles têm uma filosofia porque
os Bantus acreditam que tudo tem alma, portanto vida, daí uma
filosofia vitalista. Léon Frobenius se inscreve no mesmo quadro que Tempels
e afirma na História da civilização africana que "a ideia do 'negro'
"barbare" é uma invenção europeia." Ele precisa que "os negros eram
civilizados até a medula dos ossos. É precisamente a partir deste livro de
Tempels que um debate se iniciou, opondo os pensadores africanos em dois
campos: os defensores de uma filosofia africana chamados etnofilosofos e os
detratores chamados eurocentrismos.
79
das outras sabedorias humanas". Esses defensores têm os nomes Alexis Kagamé,
Alassane Ndao, Assane Sylla, Léopold Sédar Senghor, Cheikh Anta Diop etc.
Estes últimos lutaram pela reabilitação da dignidade do homem negro em
apelando à religião, à história e à cultura; em suma, a todos os aspectos da
civilização do continente. Cheikh Anta Diop demonstra que a filosofia africana
nasceu bem antes do ocidente. Segundo ele, foi no Egito que os
Os gregos aprenderam a filosofar. "A Grécia muitas vezes apenas tomou para si
compte a filosofia egípcia, dos negros do vale do Nilo", disse ele em
uma comunicação apresentada durante o seminário internacional sobre a
« Problema da filosofia africana», organizado pela universidade de Adis
Abéba, do 1erem 3 de dezembro de 1976.
INDIVÍDUO E
SOCIEDADE
Introdução
80
para designar o homem. A sociedade, por sua vez, é um conjunto de indivíduos. Lá
novamente, o termo sociedade não é exclusivamente reservado à espécie humana
uma vez que falamos de sociedades animais.
Uma vez que uma sociedade é composta por indivíduos, podemos então conceber um indivíduo
existir sem a sociedade ou fora dela? Se o indivíduo não tem existência
fora do grupo, isso significaria que o homem não é nada sem a
sociedade? O processo pelo qual o homem é socializado pela educação não é
sem conflito. Na verdade, o homem não aceita passivamente as normas e as regras
que a sociedade lhe impõe. Ele é ao mesmo tempo um ser livre e um ser de desejo. Esta
liberdade e esses desejos enfrentam as normas estabelecidas pela sociedade e resulta em um
conflito inevitável. E é precisamente a partir dessas normas que os indivíduos
são julgados: eles são julgados normais se se conformarem às normas ou anormais
se não se conformarem. A anormalidade se manifesta sob a forma de
desvio ou da marginalidade considerada com frequência como desvios
patológicos.
Na elaboração do relatório que o indivíduo mantém com a sociedade, Aristóteles
declara que "o todo existe antes da parte", ou seja, a sociedade (o todo)
existe antes do indivíduo (a parte). Assim, em um relacionamento de precedência, conceber
o indivíduo antes da sociedade ou sem ela é simplesmente absurdo aos olhos
d'Aristóteles. Para ele, o homem só pode viver na sociedade. "O homem que
viver fora da sociedade é ser um Deus ou uma fera bruta
O homem vem ao mundo inacabado, incompleto e é na sociedade que ele
se humaniza, se conclui e se realiza por meio das instâncias de humanização.
Exemplo de instâncias, podemos citar a família, a escola, os grupos, a empresa,
o exército, as associações, os clubes de esportes, a Igreja, as comunidades, os partidos
políticas, os sindicatos, a prisão etc. Aristóteles está certo ao dizer que o homem
é um «zoon politikon», ou seja, um animal social, vivendo em sociedade ou bem
feito para viver em sociedade. Nesse mesmo registro, Bonald dirá: «Não é para
o homem de constituir a sociedade, mas é à sociedade de constituir o homem;
Quero dizer, reformá-lo pela educação social." O homem é, portanto, um produto
da sociedade. Esta a molda por meio da educação com o objetivo de concluir em
o processo de hominização.
Alguns pensadores como Jean Jacques Rousseau não compartilham da opinião
de Aristóteles. Rousseau acredita que o homem é homem sem a sociedade e que ele existe
antes da sociedade. No seu Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens,
Rousseau estima que no estado de natureza, o homem vivia solitário, feliz e
livre de toda atadura social. Ele não precisava de seus semelhantes;
nature clemente e generosa supria todas as suas necessidades. Mas alguns
circunstâncias como desastres naturais, a escassez de produtos e a
a ameaça das feras selvagens levou os homens a se agrupar e a viver em
sociedade. Encontramos a mesma ideia em Sêneca (autor latino do século I):
«O homem está cercado apenas de fraquezas; ele não possui a potência das unhas,
nem a dos dentes para se fazer temer; nu, sem defesa, a associação é a sua
81
bouclier». Por todas essas razões, Rousseau deduz que a sociedade não é
uma necessidade, mas um acidente que decorre de fatos imprevisíveis que ameaçavam
a existência dos homens. No entanto, mesmo que ele seja da opinião de que a sociedade deprecia,
déforma em vez de formar, Rousseau admite que o homem completa seu
educação entre seus semelhantes.
A tentação é grande de opor o indivíduo (a parte) à sociedade (o todo).
No entanto, do ponto de vista histórico, o indivíduo é um produto da sociedade e
esta última remete a uma etapa particular da história da humanidade.
Filosoficamente, a relação de precedência entre a sociedade e o indivíduo suscitou
muitas divergências entre os filósofos. Mas, historicamente, é claro
que a sociedade é anterior ao homem.
Conclusão
82
Progressivamente, o indivíduo constrói uma personalidade social. Ele se adapta a
vida em sociedade, da infância à velhice. E ao longo de sua vida, ele
assimila os valores e a cultura da sociedade na qual vive enquanto está em
conflito permanente com as normas.
________________________________________________
Notas
83
fator de passagem da comunidade para a sociedade. Alexis de Tocqueville atrai
a atenção para a ascensão do individualismo que ele relaciona com a
democracia e o movimento histórico de extensão da liberdade. Marx, mesmo que
sua filosofia da história o leva a enfatizar o caráter progressista do
desenvolvimento do capitalismo, lamenta que isso leve a mergulhar o indivíduo
nas "águas geladas do cálculo egoísta". Ele expressa às vezes uma nostalgia por
a ordem das sociedades pré-capitalistas onde reinava a solidariedade corporativa, a lealdade
em relação ao soberano, a fidelidade às crenças etc. Durkheim, por sua vez,
procura dar conta dessa evolução histórica através de sua teoria da
divisão social do trabalho. A passagem da "solidariedade mecânica" para a "
A "solidariedade orgânica" corresponde bem a um processo de individualização onde os
escolhas coletivas dos indivíduos, a organização consciente da sociedade, prevalecem
progressivamente sobre as formas restritivas e tradicionais de cooperação.
O 19èmeséculo, com a Revolução Industrial e o fortalecimento das formas
democráticos de organização política, marca a conclusão de uma longa
transformação que levou a colocar ênfase na Razão, na liberdade de
consciência, sobre a emancipação em relação às tradições. O indivíduo afirma
seu direito ao livre exame, à reflexividade, à contestação das ideias aceitas
e argumentos de autoridade.
As instâncias de socialização
A família é uma instância chave da socialização. Ela continua a ser um agente central de
socialização e permite a socialização das crianças (socialização primária). Mas
A socialização é diferenciada de acordo com o sexo. Em outras palavras, há interações
mães/bebês diferentes dependendo se é uma menina ou um menino. Por exemplo,
quanto à socialização das meninas, é necessário ficar em casa, ajudar a mãe,
manter a calma etc.
A escola e a socialização também são uma instância de socialização. Para Emile
Durkheim, o agente essencial da socialização é a escola. Ele fala de
« socialização metódica da jovem geração ». Há também a
socialização através de grupos de pares, ou seja, pelos amigos, colegas,
vizinhos, pessoas com o mesmo status ou a mesma atividade. A socialização pode
também pode ser feito pelos meios de comunicação (em particular pela televisão). Os meios de comunicação não agem
jamais sozinhos, mas em um contexto social e cultural (direito dos programas,
leitura de um jornal, escuta de rádio, mp3, podcast, Internet em geral,…
É em função das condições de recebimento que a mensagem age.
Além dessas instâncias de socialização maior, há o que chamamos de
instâncias de socialização secundárias como a empresa que é fator de identidade
profissional, o exército, as associações, os clubes de esportes, a Igreja, os
comunidades, partidos políticos, sindicatos, a prisão, etc.
84
2- Os detratores da filosofia africana
Assunto
85
NATUREZA E CULTURA
Introdução
86
Além disso, ao satisfazer suas necessidades naturais, o homem leva em conta as regras,
normas sociais e interditos da religião ou da moral. Além disso, se o animal
consome diretamente os produtos da natureza, o homem pode prepará-los. Isto
é a prova de que o homem passa seu tempo modificando a natureza exterior
(o ambiente) e interior (seu corpo), o que o torna um ser de recusa, que
recusar a natureza tal como ela é e sua própria natureza. Como escreve Georges
Bataille, o homem é um animal rebelde, ele nega o dado natural e recusa seu
animalidade. Ou seja, que, além da transformação que ele traz ao seu corpo,
o homem transforma a natureza. E ao explorar a natureza, ele se rebela contra ela,
o que fará Hegel dizer que a natureza estará sempre em agonia enquanto o homem
existe. Tendo em conta o que foi dito acima, pode-se dizer que tudo no animal é
natural enquanto que no homem tudo é natural e cultural; é por isso que se
definido como um animal bio-cultural.
Além disso, é preciso destacar que a cultura é relativa, ela muda de uma sociedade
à une autre. Mas Claude Lévi-Strauss mostra que existe um fenômeno à a
vezes natural e cultural: é a proibição do incesto. Trata-se da proibição
relações sexuais entre parentes próximos. É um fenômeno universal porque
que em todas as sociedades, o incesto é proibido; desse ponto de vista, ele se refere a
lanature. Mas também é um fenômeno cultural porque a proibição é uma
As regras e as relações parentais podem mudar de uma sociedade para outra. Esta
a diversidade cultural leva à questão do relativismo cultural, ou seja
a igualdade das culturas.
87
O homem é um animal que seContenta com o que a natureza lhe oferece?
Devido à sua razão, sua cultura e sua educação, o homem satisfaz seus
necessidades levando em conta as normas sociais enquanto o animal se dá livremente
cursos às suas necessidades, sem reservas.
Assunto
89
Texto
Em relação ao animal que é determinado pela natureza, a situação do ser
humano é inverso. Ele é por excelência indeterminação: a natureza é tão lhe
pequeno um guia (…) que às vezes se desvia a ponto de se dar a morte.
O homem é suficientemente livre para morrer por isso, e sua liberdade (…) abrange a
possibilidade do mal. Vendo o bem, ele pode escolher o pior: tal é a fórmula de
este ser de antinatureza. Sua HUMANITAS reside assim em sua liberdade, na
faz com que não tenha definição, que sua natureza é não ser prisioneiro de uma
categoria, de possuir a capacidade de se desprender de qualquer código onde se afirmaria
o encarcerar. Ou ainda: sua essência é não ter essência.
Luc Ferry / Comte Sponville, A sabedoria dos modernos,
Ed. Robert Laffont, 1998, p. 78
90
Em matéria de cultura, tudo é relativo. Portanto, é necessário evitar cair em
o etnocentrismo, ou seja, a pretensão de que sua cultura é superior à das
autres. Claude Lévi-Strauss diz que devemos ter cuidado com toda «perspectiva
etnocêntrico» e não considerar como bárbaro o que diz respeito a uma cultura estrangeira,
pois todas as culturas têm seu valor. Mas é difícil escapar do etnocentrismo,
pois cada homem tem a sensação de que sua cultura é superior à dos outros.
É isso que diz Claude Lévi-Strauss em Raça e História: "A humanidade cessa
nas fronteiras da tribo, do grupo linguístico, até mesmo da aldeia; a tal ponto
que um grande número de populações ditas primitivas se designam por um nome que
significa "os homens" (ou os "bons", "os excelentes", "os completos")
implicando assim que as outras tribos, grupos ou vilarejos, não participam de
virtudes - ou mesmo da natureza - humanas, mas são no máximo compostos de
mauvais", de "méchants", de "singes de terre" ou "d'œufs" de pou". A travers
nesta citação, o autor mostra que os homens têm um sentimento de orgulho de si mesmos
membros e consideram que toda pessoa estrangeira ao seu grupo é inferior.
Tópicos
II- O TRABALHO
1- Concepções do trabalho
a- A concepção bíblica
O trabalho é definido como uma atividade intelectual ou física.
Etimologicamente, a palavra vem do latim tripalium que significa instrumento de
tortura. Em relação à sua etimologia, o trabalho remete à ideia de sofrimento, de
dor ou de dor. É essa mesma concepção que encontramos nos
escrituras sagradas onde o trabalho aparece como uma maldição caída sobre
91
o homem após a desobediência a Deus. De fato, segundo a Bíblia, Adão e Eva
viviam no paraíso e não precisavam trabalhar. Deus lhes havia pedido
não tocar na árvore do conhecimento do bem e do mal, comumente
chamado de pomar. Mas eles tocaram no fruto proibido e Deus os expulsou do
paraiso. Antes de enviá-los à terra para se redimir, Deus os avisa a todos os
dois. A Adão, ele diz: "Uma vez que você ouviu a voz de sua mulher, e que você...
comi do árvore sobre a qual te dei esta ordem ‘Tu não comerás'
point’’, a terra será maldita por sua causa. E é com esforço que você dela tirará
a sua comida todos os dias da sua vida». Depois de castigar Adão, Deus castiga Eva
em tais termos: "Aumentarei a dor das tuas gravidezes e tu darás à luz"
na dor». Do ponto de vista religioso, o trabalho é uma punição. Essa ideia
a dor persegue sempre o homem, de tal maneira que mesmo em seu trabalho,
certos homens se sentem coagidos. Mas todo trabalho é uma coerção? Não é
não há trabalho que liberte o homem? E se o trabalho é uma limitação, não aliena?
não é o homem? Através dessas perguntas, duas posições se destacaram: uma
considerando o trabalho como uma libertação e o outro como uma alienação.
92
se realiza e se torna digno da vida. Voltaire destaca, por sua parte, que "o trabalho
afaste de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade.
Se o trabalho é libertador, como é que ele é alienante? Segundo Marx, o
o trabalho no qual o homem se realiza é libertador. Mas se o trabalho é exercido
em condições desumanas, torna-se alienante e transforma o homem em
animal.
Assuntos
O homem não é o único ser vivo a trabalhar, mas ele é o único ser vivo a trabalhar.
como ele faz. A diferença entre a atividade do animal e a do homem
reside no fato de que, onde o animal é guiado pelo seu instinto, o homem funda
sua atividade sobre a razão. O animal executa uma tarefa sem preparação, ele não tem
93
a noção do que ele faz. O sentido da beleza, da durabilidade, da segurança e do
os tempos não são considerados, enquanto o homem se preocupa com todas essas
preocupações. É por isso que o homem concebe primeiro a ideia do que deseja
realizar na sua cabeça antes de concretizá-lo. Segundo Marx, o trabalho humano
implicar a consciência de um projeto enquanto a atividade do animal é instintiva
e não é passível de melhoria. Ele compara a aranha ao arquiteto. A aranha tece seu
toalha de uma maneira inconsciente sem inovação, enquanto o arquiteto faz seus
planos de uma maneira consciente e inova em seu trabalho. Marx prossegue e
desenvolve a mesma ideia em outra obra dizendo: "O que distingue o
pior arquiteto da abelha mais experiente, é que ele construiu a
célula na sua cabeça antes de a construir na sua colmeia». Em Marx, o trabalho
é então uma atividade especificamente humana, pois participa do desenvolvimento
intelectual do homem.
Encontramos a mesma concepção da especificidade do trabalho humano em Leibniz.
Nos novos ensaios sobre o entendimento humano, ele afirma: "Os homens
tornam-se mais habilidosos ao encontrar mil novos endereços, em vez de os cervos
ou os lebres deste tempo não são mais astutos do que os do tempo passado.
Spinoza também mostra que o homem evolui com o tempo e descobre novas
técnicas enquanto o animal não avança, ele estagna. Exemplo, os pássaros
de hoje não constroem seus ninhos com mais arte do que os primórdios
pássaros. O mesmo acontece com as abelhas; elas não aperfeiçoam a colmeia
que elas habitam.
Por todas essas razões, Kant considera que o trabalho é especificamente humano.
e ele estima que é por analogia que se fala do trabalho animal. Isso é por abuso
de linguagem que se fala sobre trabalhoanimal, deveríamos dizer "atividade
animal». Esta atividade, conclui Kant, é inconsciente e não tem o mesmo valor
que o trabalho humano. Essa especificidade também é encontrada na linguagem.
Assuntos
III- A linguagem
94
a escrita, o olhar, a arte, a música, a gestualidade, a linguagem simbólica dos
flores e cores, sem esquecer a linguagem animal. A linguagem animal é
natural, inato, instintivo e é a expressão das necessidades do animal. É também um
linguagem repetitiva, comum a uma espécie particular. Ao contrário da linguagem
O animal, a linguagem humana não é inata, mas adquirida, além disso, é convencional.
Mesmo que o homem tenha as capacidades naturais de falar, sua linguagem diz mais sobre
o legado cultural. Isso significa que apenas a sociedade está habilitada a construir o
linguagem, da onde a ideia de que a linguagem é o veículo da cultura.
95
A direção do saque:
A natureza do botim: o perfume da flor impregna os pelos do abdômen
a exploradora; imediatamente as abelhas sabem de qual flor se trata
A distância do néctar em relação à colmeia: dança relativamente lenta em
forma circular se a flor estiver localizada a uma distância entre 50 e 100
metros da colmeia; dança vibrante em forma de 8 se o néctar estiver a 100 metros ou
mais.
Emile Benveniste reconhece certamente a existência da linguagem animal, mas a opõe
à celui do homem. No Problemas de Linguística Geral, ele diz que a
A comunicação das abelhas não conhece o diálogo "quem é a condição do
« linguagem humana ». É uma comunicação que consiste inteiramente em
dança sem a intervenção de um aparelho vocal. É uma linguagem gestual que exige
como condição a iluminação do dia para uma boa percepção visual; o que
significa que a comunicação das abelhas não pode ocorrer na escuridão
enquanto a linguagem humana não conhece essa limitação, ela pode se realizar de
dia como de noite e é, por excelência, vocal. A outra diferença que
Benveniste levanta que "a mensagem das abelhas não solicita nenhuma resposta"
do entorno, senão uma certa conduta que não é uma resposta.
Tema
b. Linguagem e pensamento
Assunto
97
d. Formas e funções da linguagem
A linguagem tem várias formas. Podemos citar a escrita, o olhar, a arte, a música,
a linguagem das flores e das cores, a gestualidade, a mímica, os sinais etc. Quanto
às funções, Jakobson disse que elas são numerosas, mas a principal função
é a comunicação. Entende-se por comunicação a troca de informações
entre dois ou mais interlocutores. A função de comunicação pode ser
subdividida em várias funções secundárias.
A função expressiva ou emotiva: A linguagem expressa a interioridade de
o indivíduo. Quando falamos, nossa vida interior não nos pertence mais, pois nós
livre a outrem nossa interioridade. Hegel dizia justamente que a linguagem é uma
manifestação pela qual o indivíduo não pertence mais a si mesmo porque ele sai de si
mesmo para entregar a outrem a sua intimidade.
A função apelativa ou conativa destina-se a produzir um certo efeito sobre
o receptor. O emissor busca provocar no seu receptor efeitos sem
Compartilhá-los é o caso do mentiroso, do hipócrita ou do ator.
A função mágica ou criadora pode ser percebida na prática do feiticeiro.
quem, por suas incantações (palavras mágicas), consegue agir sobre a natureza. Com seu
abracadabra ou qualquer outra fórmula, o mágico produz o efeito desejado. A
a dimensão mágica da linguagem encontra sua expressão mais completa no
Verbo divino. Nas religiões reveladas, Deus criou o mundo pelo poder do
Disse à luz "seja" e a luz foi.
A função terapêutica: A linguagem consola o indivíduo de seus sofrimentos.
Aquele que tem um remorso pode se aliviar ao se confessar. A psicanálise
também é curado pela metodologia do divã; o "ndëpp" (cerimônia de exorcismo) cura
também.
A função poética ou estética: Ela confere uma importância particular
à l’aspect esthétique do mensagem transmitida. Ela utiliza processos que permitem
de valorizar a própria linguagem, e isso em obras poéticas.
Esta enumeração está longe de ser exaustiva, pois as funções da linguagem são
numerosas.
e. Os poderes da linguagem
98
discoureiros, sedutores que, por meio da linguagem, têm um poder de persuasão ou
de dissuasion. Lemaraboutavec son ndigël (consigne), se sert également du
linguagem para impor sua autoridade. A linguagem confere assim ao homem um poder
sobre as coisas, pois só com palavras, o homem pode mudar o curso das
coisas. Ele pode usar a linguagem para elogiar, mentir, desfigurar ou transfigurar.
Somente com a linguagem, o homem pode mudar positiva ou negativamente a
vida de seu próximo. A linguagem pode finalmente resolver conflitos assim como pode em
despertar. Se a linguagem aproxima, também pode separar. De fato, algumas palavras
podem ferir, chocar ou prejudicar os outros. Este é o caso da injúria, da calúnia
ou de difamação. E é devido a essa capacidade de unir e desunir que
Holderlin diz: «A linguagem é o bem mais precioso e mais perigoso»
que os deuses deram aos homens.
Assuntos
99
Notas
A linguagem sempre interessou a filosofia. É por isso que Alaina diz: "Aquele
quem nunca refletiu sobre a linguagem ainda não começou realmente a
filósofo
100
trabalha no Instituto Zoológico da cidade deMunique. No âmbito dos seus trabalhos,
ele se interessou particularmente pelo comportamento dospeixese dosabelhas,
notavelmente à sua capacidade de se orientar e se comunicar. Segundo Von Frisch, os
As abelhas se comunicam com seus congêneres por uma espécie de dança, e assim são
capazes de indicar a localização de uma fonte de alimento interessante. É
em sua famosa obra Vida e Costumes das Abelhas, Von Frisch apresenta a
estrutura da linguagem das abelhas.
Ele tinha de fato observado que, quando uma abelha avistava um saque e voltava
à lacolmeia, as outras abelhas vinham então diretamente ao lugar certo. É
portanto que a primeira abelha deveria informá-los da sua situação. É por uma
dança que a abelha avisa suas companheiras: se o saque estiver a menos de 100
metros, ela desenha um simples círculo; se estiver entre 100 metros e 6 km, ela
desenhe um oito; a inclinação do eixo em relação ao sol indica a direção, e
a velocidade da dança indica a distância a percorrer.
Blaise Pascal que diz em seus Pensamentos: "Verdade aquém dos Pirenéus, erro além
delà.
101
inteligência. O trabalho do operário, diz Marx, "mortifica seu corpo e arruína seu
esprit »
A terceira forma de alienação reside na relação entre o homem e a
máquina. Sob esse aspecto, o homem é estrangeiro a si mesmo, uma vez que não se
não reconhece em seu trabalho. Se em 19èmeséculo o capitalista precisava de
mão de obra para fazer sua empresa prosperar, hoje, com o advento da
máquina, o trabalhador se sente estrangeiro ao seu trabalho. Embora a máquina ajude
o homem em sua tarefa ao aliviá-lo e embora isso aumente a produtividade, a
a máquina torna o homem alienado e estranho à sua obra. Ela não participa do
desenvolvimento intelectual do trabalhador.
AS NORMAS
Introdução
102
erros.Masohomemnãoaceitapassivamenteasregrasquelhesãoimpostas
dofatodequeeleéumserlivreesobretudoumserdedesejo.Portanto,háconstantemente
uma oposição entre o que o homem quer e deseja e o que a sociedade permite
eautoriza;easocializaçãosóépossívelquandoohomemrenunciaa
satisfaçãodecertosdeseusdesejoseapetites.Asubmissãoàconduçãodo
omaiornúmeroéconsideradoemtodasociedadecomocondutanormal.
A anormalidade, considerada em alguns casos como patologia, designa qualquer
condução de desconfiança ou de desvio em relação à norma. Levanta-se então a
questão de saber se o que é dito normal é sempre sinônimo de saúde e
queoanormalseriasinônimodedoença,dedeformaçãooudedeficiência.
1- O normal
Onormaldesignaoconjuntodecondutasecomportamentosquesãoadotados
pelomaiornúmeroemumasociedadedada.Asnormasemumasociedade
cobrem áreas tão diversas quanto variadas, que vão do vestuário ao
culináriapassandopelosexual,pelalinguagem,mastambémpelotrabalho.Aocontrário
À lei que é fixa e rígida, a norma é flexível, maleável e elástica. Isso
voltaadizerqueexistemdiferentesmaneirasdeviverarelaçãocomanorma.Mas
Existem limites além das quais deixamos de estar em conformidade com os
normasdeumasociedade.Onormalemumasociedadepodeserabsolutamenteanormal
emoutrasociedade.Podemosdeduzirentãoqueumasociedadeénormaldo
fazsimplesmentecomqueelasepercebacomotal?Anormalidade,seérelativa,
a anormalidade não seria também? Assim, pode-se qualificar o
comportamentoanormaldepatológico?
103
2-O anormal
Oanormalrefere-seaoconjuntodecondutasecomportamentosadotadospor
minoria em uma sociedade dada. Comportamentos anormais são?
simples deviações ou devemos julgá-las como pertencentes ao registro do
patológica que a psicologia deve assumir? De qualquer forma, a
Adeviançaéumaescolhadevidaqueasociedadedeveconsiderar.Isso,aindamaisque
oscomportamentosdesviantes,aprincípio,acabampordominartodaasociedadee
triunfar se não tivermos cuidado. É permitido então julgar as sociedades ou
valoressociaisapartirdecritériosemprestadosdeoutrasociedade?Finalmente,
Haveria conduções anormais que seriam reprovadas por todos e
universalmente?
104
Conclusão
sobre seu próprio estado, e é a sociedade que julga como loucura tudo que é estranho ou que
constitui uma ameaça para ela.
O ESTADO
O Estado pode ser definido como um modo de organização política, dotado de um conjunto
existe. Historicamente, ele apareceu, sob sua forma moderna, no final da Idade Média. A esse
representante de Deus na terra e que reivindicava o direito de vida e morte sobre os súditos. Mas
ao longo dos tempos, o poder político se distanciou progressivamente de sua origem divina,
dando origem a Estados dessacralizados. E pouco a pouco, a soberania foi pensada como
pertencente ao povo. O papel do Estado é apreciado de diferentes formas: alguns pensam que ele é
garantidor das liberdades e outros estimam que ameaça as liberdades. O Estado estaria mais à
temer que a ausência do Estado? O Estado é frequentemente percebido como uma força coercitiva
em relação aos cidadãos: ele proíbe! Mas, não podemos também ver o que ele permite? Também, com
106
homens tem como objetivo levá-los a renunciar ao seu ódio, desejo imodesto e
persiana e garantir a paz.
Através das teorias de Rousseau e de Hobbes, fica claro que o Estado está situado no-
acima do corpo social e sua vocação é resolver os conflitos sociais. Mas ele não pode
cumprir uma missão semelhante apenas recorrendo à força. Como diz Max Weber, o Estado
Essa violência fará com que alguns pensadores digam que o Estado é liberticida, enquanto outros...
Por outro lado, a análise da gênese do Estado pode nos levar à análise da origem do
poder, ou seja, a maneira como se chega ao Estado: Acredita-se que o poder vem de Deus, do
Machiavel (1469-1527) pensa que se mantém o poder pela força. Ele diz que o Príncipe deve ser
forte como um leão e astuto como uma raposa para conquistar o poder e mantê-lo.
ele, o fim justifica os meios: não importa os meios utilizados, o essencial é que
Maquiavel, Santo Paulo sustenta que toda autoridade vem de Deus e que 'aquele que resiste a
a autoridade se rebela contra a ordem estabelecida por Deus." Jean Jacques Rousseau sustenta isso
assim como todo poder vem de Deus, mas ele esclarece que somente o poder do qual os
homens concordaram que é legítimo. Thomas Hobbes e John Locke, em lugar do direito
divino, colocando o princípio do pacto social como ato de legitimação do Estado. Para eles, se
107
Uma multiplicidade de significados foi dada ao Estado. Isso se deve às diferentes formas de
regimes políticos dos quais uns desapareceram e outros ainda estão em vigor. A democracia
é considerada hoje como o melhor regime político, pois se supõe que o poder
é detido pelo povo. Aliás, temos o costume de dizer que é o poder do povo, por
o povo e para o povo. Existem dois tipos de democracia: a democracia direta onde o
o povo exerce diretamente sua soberania e a democracia representativa onde o povo elege seus
A autoridade reside nas mãos de um único homem e é exercida por ele ou por seus delegados.
é um regime que admite apenas um partido político, portanto nenhuma oposição. Exemplo
regime político onde os mais velhos estão à frente do Estado. A plutocracia é o regime onde os
ou dos nobres.
Diante dessa pluralidade de regimes políticos, há pensadores que são a favor da democracia.
Ao contrário dos pensadores que são a favor de tal regime político, há outros que não.
não são favoráveis nem para um nem para o outro, são a favor da desaparecimento puro e simples do Estado
que não existe, pensam eles, apenas para sufocar os indivíduos e questionar sua liberdade.
108
As funções do Estado devem ser analisadas sob um duplo ângulo, no plano interno e externo.
No plano interno, o Estado tem a missão de garantir a segurança dos bens e das pessoas.
o exército, a alfândega, os bombeiros etc. Eles são chamados de repressivos porque reprimem,
punem e chamam à ordem aqueles que violam a lei. Paralelamente, o Estado dispõe
d'aparelhos ideológicos do Estado como a escola, os sindicatos, os locais de culto etc. Sobre o
no plano externo, o Estado tem o papel de garantir a integridade territorial por meio do exército.
Uma vez que o Estado tem a possibilidade de agir através de suas instituições competentes, ele
é legítimo dizer que é uma fonte de constrangimento sobre os indivíduos. No entanto, ele lhes
acorde direitos e zela por suas liberdades e segurança, da qual decorrem as relações entre o Estado e a
o Estado.
Spinoza, Hegel, Rousseau, Hobbes e John Locke têm uma visão positiva de
o Estado: eles pensam que o Estado garante as liberdades. Rousseau, em seu Contrato
social, afirma que o Estado não ameaça as liberdades. Na sua opinião, "não há ponto
de liberdade sem leis». Em outras palavras, por mais restritivas que possam ser
ser, as leis garantem, no entanto, a liberdade dos homens. Para Hobbes, o
o poder do Estado deve ser absoluto; caso contrário, os homens cairiam de
novo na violência. E é essa absolutidade que garante, segundo ele, as liberdades
individuais. John Locke afirma, por sua vez, que mesmo que o Estado seja um
instrumento que assegura a liberdade assim como a segurança dos bens e das pessoas,
109
seu poder deve ser de alguma forma limitado, não deve invadir a propriedade
privada dos homens. John Locke é um dos pensadores da liberalização. Ele gostaria
que o Estado intervenha o menos possível nos assuntos dos homens. É isso que se
poderia resumir em esta expressão "Menos Estado e o melhor Estado". Na opinião
de Spinoza, o Estado é a condição para a realização da liberdade. Hegel, por sua vez,
sanctifique o Estado, ele tende a divinizá-lo porque pensa que é no Estado que
o ser humano pode se realizar. Não é paradoxal que o Estado, uma invenção dos
mais humanas, muitas vezes criticado e acusado de ir contra os interesses dos
indivíduos? Para Hegel, ao contrário, "Tudo o que o homem é, deve-o a
O Estado; é aí que reside o seu ser. Todo o seu valor, toda a sua realidade espiritual, ele
não os tem a não ser pelo Estado.
Se todos esses pensadores têm uma visão positiva do Estado, outros, ao contrário, se dirigiram a
homens, nem sua submissão ao jugo de outro (...). O objetivo perseguido não pode ser de
transformar homens razoáveis em bestas ou em autômatos! O que se quis fazer com eles
dar é, sim, antes de tudo, a plena liberdade de cumprir em uma segurança perfeita dos
funções de seu corpo e de sua mente. Depois disso, eles serão capazes de raciocinar
O Estado foi instituído, em princípio, para desempenhar o papel de árbitro. Mas, na realidade, o Estado não é
jamais neutro. Ele está sempre a serviço da classe dominante. Por exemplo, nas sociedades
dominação para preservar seus interesses e para explorar a classe trabalhadora. É por isso que esta
razão pela qual Marx e Engels defenderam a desaparecimento do Estado em substituição à sociedade
110
comunista que é uma sociedade sem classes. Na Ideologia Alemã, Marx afirma que
O Estado e a escravidão são inseparáveis. É por isso que ele acredita que apenas o "desaparecimento".
Assim falava Zaratustra, ele compara o Estado a um monstro frio e um mentiroso que afirma
representar o povo. Ele diz a esse respeito: "Estado, o que é isso então? Vou falar sobre
a morte dos povos. O Estado é o monstro frio mais frio. Ele mente friamente e seu
mesmo raciocínio, Nietzsche acrescenta que o que quer que o Estado possa ter, ele o roubou e o que quer que ele
O Estado tem sido objeto de diversas interpretações que opõem aqueles que são a favor e aqueles que são contra.
contra. Mas uma posição intermediária parece se estabelecer com Paul Valery que diz que «Se
O Estado é forte, ele nos oprime; se é fraco, perecemos. O que escolher diante desse dilema?
do Estado, de tal forma que as liberdades sejam garantidas sem que prejudiquem o poder de
o Estado.
111
Texto
Dir-se-á que o Estado, representante da salvação pública ou do interesse comum de todos, não retira uma parte
da liberdade de cada um, para garantir a ele todo o resto. Mas esse resto é a segurança, se você
que, nunca é a liberdade. A liberdade é indivisível: não se pode subtrair uma parte sem a
matar tudo de uma vez. Esta pequena parte que você remove, é a essência da minha liberdade, é o
tudo. Por um movimento natural, necessário e irresistível, toda a minha liberdade se concentra precisamente
na parte, por menor que seja, que você dela retira. É a história da mulher de Barba Azul,
que teve todo um palácio à sua disposição com total liberdade de entrar em qualquer lugar, de ver e de
tocar tudo, exceto um mau quarto pequeno, que a vontade soberana de seu terrível marido lhe
tinha proibido abrir sob pena de morte. Bem, afastando-se de todas as magnificências do palácio,
sua alma se concentrou inteiramente naquela má pequena sala; ela a abriu, e teve razão de
abri-lo, pois foi um ato necessário de sua liberdade, enquanto a defesa de entrar era uma violação
112
O Comércio) que conta com 141 membros, é uma organização que promove a liberdade-
troca e estabelece as regras do comércio internacional. Neste domínio, as questões
as negociações de tarifas alfandegárias na OMC são importantes, pois os países em desenvolvimento
O mundo frequentemente denuncia a implementação de tarifas que lhes são desfavoráveis.
São os europeus que negociam tudo, o que significa que os Estados africanos
submetem-se ao diktat europeu e perdem, assim, sua soberania. De fato,
a OMC elabora políticas que não se combinam bem com as políticas
econômicas e sociais dos Estados, o que questiona a soberania de
vários Estados, principalmente africanos.
Por definição, três elementos são constitutivos do Estado: a população, o território,
e a autoridade política. No entanto, essa definição parece estar sendo contestada pela
definição mesmo da globalização. Um Estado soberano é um território
politicamente independente possuindo seu próprio governo, administração,
leis e exército. Assim, trata-se de um Estado que não está submetido a nenhuma potência
externa ou interna. Mas com o fenômeno da globalização, podemos nos
perguntar em que o Estado ainda é soberano. Visivelmente, a primeira vítima
da globalização, é o Estado-nação, pois a soberania perde seu valor. Assim,
durante a década de 1990/2000, as Instituições de Bretton Woods, braços seculares
da globalização conquistadora, impuseram programas de ajuste
estrutural a dezenas de países. Essas Instituições reduziram consideravelmente a
possibilidade para os Estados definirem estratégias com bases estritamente
A hegemonia dos Estados Unidos ameaça a soberania dos Estados.
Os Estados Unidos da América se arrogam o direito de intervir até militarmente e
de acordo com os pretextos que eles mesmos terão escolhido.
Mas não se deve acreditar que a globalização é um fenômeno totalmente
negativo. Mesmo que ameace a soberania dos países, ela abre todas as portas.
as portas da prosperidade, da segurança e do bem-estar e da ajuda mútua. O fato
que as fronteiras sejam mais permeáveis não significa que não haja controle.
Por exemplo, a França controla as importações de sementes de OGM
(Organismos Geneticamente Modificados) no âmbito da União Europeia.
Além disso, por causa da vaca louca, o comércio internacional de carne de vaca estava
rigorosamente controlado em alguns países como o Senegal e formalmente
proibido em outros.
Conclusão
113
O Estado marca a passagem do estado de natureza para o estado de sociedade. Mesmo que o Estado seja considerado
como um aparelho de violência e opressão que deve ser eliminado segundo os anti-
jurídico que lhe permite viver e agir na ordem e na segurança. Para terminar, lembremos
que existem vários regimes políticos, mas hoje em dia, o mais desejável é o Estado
Parlamento e quem vota as leis), do poder executivo (que aplica a lei e que é atribuído ao
governo) e do poder judicial (que resolve os litígios e que pertence aos tribunais).
Assuntos
Ética e política
que defendeu a separação desses poderes em sua obra, Do espírito das leis.
114
Notas
«Enquanto os filósofos não forem reis nas cidades, ou aqueles que são chamados
hoje reis e soberanos não serão realmente filósofos sérios (…) não há
aura de cesse aos males das cidades nem aos do gênero humano »Platão, República, livro V)
Para John Locke, o estado de natureza é imaginado como um estado pacífico, sem conflitos.
qualquer que seja, é preciso compreender o povo reunido. O soberano (o povo) não poderia ter
fazer as leis.
que existem hierarquias naturais entre os homens: por natureza, uns (homens livres,
nobres etc.) seriam destinados a comandar os outros (escravos, plebeus etc.). Mas aos 12ème
e 13êmeséculos, os teóricos do direito natural (Grotius, Hobbes, Locke, Rousseau, etc.) são
os primeiros a afirmar que ninguém tem, por natureza, o direito de comandar outrem: a soberania
115
A noção de poder foi por muito tempo assimilada ao Estado, enquanto segundo Henry Lefebvre, o
o poder não se refere necessariamente ao Estado. A religião, a sociedade, a família, etc. são tantos de
poderes. O Estado é, portanto, diversificado. O Estado é um poder na medida em que exerce uma autoridade sobre
os indivíduos. No entanto, o poder político que representa o Estado vai se confrontar com
outros poderes de ordem econômica, religiosa, espiritual, financeira, social etc. que podem
influir grandemente sobre sua política, mesmo que o Estado pretenda supervisioná-los. Mas é preciso saber que
O Estado usa a violência para alcançar seus objetivos na sociedade, para garantir a ordem e a
segurança.
Nesta fábula, o pastor Gygès aproveitou a invisibilidade que um anel mágico lhe concede.
para seduzir a rainha, matar o rei e assim se apoderar do poder. Ele possui assim um poder
mágica que lhe permitiu injustamente ganhar um poder. Glauco tenta mostrar que
A visão de Maquiavel segundo a qual o político deve ser forte como um leão e astuto como
uma raposa está revolta. Pois todo político que usa da violência será rapidamente destituído. Ao
pelo contrário, o político usa sentimentos para suscitar a simpatia do povo a fim de durar no poder
poder.
Teorias do Estado
Hobbes, os homens devem ser mantidos por um poder absoluto
Locke, a teoria do poder limitado, garantia das liberdades civis
Rousseau, o contrato social para preservar a liberdade natural
116
Georg Wilhelm Friedrich Hegel retoma e corrige as outras teorias do Estado
Em 1974, foi adotada a Carta sobre os direitos e os deveres econômicos dos Estados.
segundo a qual "cada Estado tem o direito soberano e inalienável de escolher seu
sistema econômico, assim como seu sistema político, social e cultural
(artigo primeiro).
Crescimento da Internet
Enquanto apenas 500 sites existiam em 1993, hoje há 35
milhões no mundo, interessante 600 milhões de internautas. As compras online
117
progridem constantemente e representam na França 20% do faturamento das
empresas de venda a distância.
Epistemologia
Introdução
Primeiro, o que é o real? O real inclui o conjunto dos seres e das coisas que
nós dizemos existir para os nossos sentidos e nossas mentes. Ele designa o conjunto das coisas
que o homem vê, toca, prova ou pensa. Ele pode designar tanto o mundo
material que o mundo metafísico. Sob este ponto de vista, uma abordagem do real
designa o conjunto de operações mentais que os homens utilizam
para explicar os fenômenos. Existem, a esse respeito, várias abordagens da realidade:
o mito, a religião, a magia, a filosofia e a ciência.
1- O mito
É um relato imaginário, lendário, transmitido pela tradição e que, através dos
exploits de seres fabulosos (deuses, heróis, etc.), tenta explicar fenômenos
como a origem do universo, do homem, das coisas, etc. O mito conta
comentário, graças a seres sobrenaturais, uma realidade veio à existência. Ele é
considerado como sagrado, não demonstra o que diz, apenas se contenta em dizer.
Sua função é essencialmente social, pois prescreve regras que os homens
devem adotar e lhes indicam o que devem fazer.
2- A religião
É um conjunto de práticas ou atos externos através dos quais o homem
manifeste a relação que tem com Deus. A religião é constituída de um
conjunto de dogmas imutáveis. Ela é suposta dizer uma verdade absoluta,
incontestável, indiscutível para o crente. Este último considera que é Deus
que se dirige a ele através da religião. Ele considera como verdadeiro tudo o que diz a
religião e ele interpreta todas as coisas de acordo com o que os textos disseram. Por
exemplo, para explicar a concepção do homem, o religioso partirá do
criacionismo onde o cientista falará de evolucionismo.
A magia
É uma prática, uma ação exercida sobre as coisas e os seres. É necessário distinguir
a magia negra da magia branca. A magia negra é assimilada à feitiçaria, ao
mau mau sorte então que a magia branca se resume sobretudo à prestidigitação, de
o ilusionismo. O mágico pode também ser um curandeiro. A partir do verbo
ou de encantamentos, ele pode agir sobre o real. Quando o mago consegue domar
as forças invisíveis da natureza, ele as utiliza para obter efeitos benéficos
ou maléficas. A magia é uma prática esotérica, ou seja, reservada aos
iniciados.
4- A filosofia
119
Ela não admite uma definição unânime. No entanto, podemos dizer que ela
est baseada em uma reavaliação permanente das certezas. A filosofia tem
para origem o espanto, o questionamento. A filosofia englobava, a
a origem, as ciências que, com o tempo, ganharam sua autonomia ao desenvolver
suas próprias métodos de investigação da realidade.
120
Elas são constituídas pela lógica e pela matemática. Elas são chamadas
formais porque não buscam a verdade da afirmação, mas sim a sua
validade, sua coerência do ponto de vista da lógica. Ela repousa essencialmente
em uma abordagem dedutiva rigorosa. A título de exemplo, pode-se pegar o
silogismo de Aristóteles:
Todos os senegaleses são Baol Baol
Jean é um senegalês
- Então Jean é um Baol Baol
Nossa proposta inicial está materialmente errada, pois todos os senegaleses não
não são Baol Baol, mas o raciocínio é coerente, lógico, válido. Em
em resumo, as ciências formais ou hipotético-dedutivas fazem hipóteses e
font des deduções. Elas não se interessam pelo conteúdo da proposta, mas
bem na forma, é por isso que são chamadas de formais.
121
IV- Ciência e técnica
V- Ciência e ética
Conclusão
122
grandes riscos para a espécie humana, especialmente com a proliferação de armas, a
poluição do ambiente etc. Por essa razão, Karl Popper disse que « a
a ciência não é o domínio da segurança, mas da insegurança. Daí a
necessidade da epistemologia que, por sua crítica, permite às ciências de melhor
compreender seus princípios e suas abordagens para aumentar sua objetividade.
Mas a epistemologia visa essencialmente proteger o homem para evitar-lhe
de ser prisioneiro de suas próprias produções científicas.
O que é a filosofia
INTRODUÇÃO
123
Não é estranho que os filósofos possam fazer essa pergunta? Se eles não sabem o que
o que é a filosofia, como podem praticá-la e abordar essa questão em si mesma
Em filósofos? E, no entanto, essa é uma questão tão debatida em filosofia quanto todas
os outros que ela aborda. Nesta questão aparece particularmente o caráter não
achevado da filosofia, tomado em sua realidade concreta, como tradição filosófica onde se
persegue o debate mesmo sobre o que é esta atividade que se desenrola neste próprio debate.
fazer essa pergunta é, portanto, posicionar-se imediatamente do lado dinâmico da prática
filosófico, e portanto opor-se às atitudes que tentam reapropriá-la como um objeto
relativamente passivo em relação ao conhecimento que a ele se refere, e que deveria ser por sua vez muito
passivo, uma vez que se confunde neste caso com seu objeto, que é sempre a filosofia.
Eu mantive a divisão dos seminários sob os três principais títulos que eu lhes havia dado.
atribuídos :a interpretação das filosofias, as limites da razãoeos discursos da
filosofia. Nos três casos, trata-se de definir a filosofia considerando-a em sua
existência concreta, como obra discursiva, como obra racional, e como
obra de reflexão sobre as obras filosóficas concretas da história. Entendo obra
aqui no duplo sentido da atividade e de seus produtos. A filosofia é considerada, portanto, na
os textos que ela produz e onde se manifesta, como na atividade discursive da qual
resultam esses textos e que eles relancem. Ela é vista nas construções racionais que a
a filosofia deixa na nossa cultura, mas também na atividade da razão pela qual
a razão se constitui, se é verdade que, assim como para a filosofia, há uma
pergunta que não cessa de se colocar à razão sobre sua natureza e suas próprias limitações.
Finalmente, referindo-se necessariamente às suas próprias obras nesta reflexão, a filosofia
não pode deixar de se tornar obra de interpretação de si mesma em sua relação com seus
124
obras, obra de invenção também deste relatório, uma vez que não é dado de antemão
e continue a fazer perguntas.
125
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Certas filosofias do passado ainda vivem, porque não são apenas o objeto
estudos de historiadores, mas também os modelos, os incentivos ou os quadros da reflexão
de filósofos atuais. Este é particularmente o caso da obra de Spinoza.
Nosso seminário será dedicado ao estudo do fenômeno dessa retomada de uma filosofia por
outros filósofos. Vamos nos concentrar em quatro obras de filósofos vivos
que se apresentam sob modos diversos como discípulos de Spinoza, seja que se dedicam
a ele como intérpretes, seja que integrem sua reflexão sobre Spinoza no desenvolvimento
de um pensamento próprio que se apresenta também como tal, ao mesmo tempo que afirma a relação estreita com
Spinoza:
A. Negri, L'Anomalia selvagem, Paris, P.U.F, 1982 (original italiano: L'Anomalia selvaggia)
Milão, 1981.
Introdução
Eu- Tema
O seminário tem dois temas, dos quais um é subordinado ao outro. O tema mais geral é
aquele do relatório das filosofias no caso em que uma se desenvolve na forma do
comentário de outra. Assim, trata-se de tentar entender o que significa a interpretação
em filosofia e talvez na história da filosofia. O tema mais particular será aquele
do espinozismo, na medida em que é um exemplo desse fenômeno mais geral da relação tanto
do comentário filosófico ao texto original e do discípulo ao mestre.
De fato, todos os filósofos da história não servem no mesmo grau para servir de
base a este tipo de estudos. Vários são considerados grandes filósofos, sem que
mais ninguém, ao menos entre aqueles que formam o pensamento atual, se apresenta como
seu discípulo. Este é o caso, por exemplo, de Bacon, de Malebranche ou de Leibniz, ou mesmo de
Descartes, em certa medida, uma vez que a maioria daqueles que reconhecem um
influência cartesiana decisiva sobre a maneira de pensar atribuem a ele um papel parcial
e concebem a filosofia cartesiana como ultrapassada em grande parte. Outros
os filósofos, ao contrário, desfrutam em graus variados dessa presença viva em seus
discípulos atuais. Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Kant, Nietzsche ou Marx são alguns deles.
exemplos. O mesmo se aplica a Spinoza.
126
realidade, enquanto o intérprete estuda a teoria que o primeiro produziu. É por isso que ele
um relacionamento de subordinação entre eles: é preciso que o filósofo já tenha produzido uma teoria
para que o intérprete possa encontrar nela seu objeto. O intérprete vem, portanto, em segundo.
um duplo sentido: primeiro porque seu objeto é o produto do filósofo estudado, e
em seguida porque seu objetivo é restituir o pensamento do filósofo estudado com a maior
fidelidade possível, enquanto o objetivo do filósofo era reconhecer a verdade. Para retomar
uma fórmula de Spinoza, que justamente estabeleceu a diferença entre o filósofo que aplica sua
razão à natureza diretamente e o teólogo, concebido por ele como comentarista de textos,
pode-se dizer que o filósofo visa a verdade, enquanto o intérprete visa apenas o sentido
d’un texte. Sua função é, portanto, muito diferente. Para o filósofo, trata-se de descobrir a
verdade e expressá-la. Para o intérprete, trata-se de examinar essa expressão para esclarecê-la,
para atualizá-la ou para situá-la em seu contexto histórico. Em princípio, os papéis são
bastante claramente determinados para que não haja confusão entre eles. O historiador da
a filosofia não faz parte da história da filosofia. E quando um filósofo,
como Hegel, faz da história da filosofia, é suspeito de se deixar influenciar pelo
partido preso que se supõe em favor de sua própria filosofia.
A pertinência desta distinção clara parece justificada já pelo fato de que ela parece tornar
conta da realidade. O bibliotecário que arruma os livros de acordo com os filósofos,
primeiro suas obras, depois os comentários que as concernem, pode realizar esta classificação
bastante naturalmente. A comparação com a situação em outros domínios vizinhos
reforça também a ideia da relevância dessa distinção. Assim, o sábio e o historiador dos
as ciências não são personagens idênticos, e seu trabalho pode ser muito diferente. O que
de comum entre a pesquisa de um físico em seu laboratório e o estudo do historiador que
se debruce sobre os textos nos quais o primeiro livro apresenta seus resultados e suas conjecturas?
Evidentemente, um se confronta com a matéria natural que deseja apreender na sua realidade, enquanto
que o outro não tem mais a ver com as teorias produzidas pelo primeiro.
No entanto, ao refletir, essa distinção está longe de ser óbvia. Pois o historiador da filosofia
quem procura entender um texto não está na situação de procurar entender
algo diferente do que o autor deste texto queria entender também. E, suposto
que o intérprete se propõe a dizer o sentido de um texto filosófico, o que mais ele fará
o que dar a esta filosofia uma nova expressão? Em outras palavras, o que ele buscará
à expressar, não é outra coisa do que aquilo que o filósofo já queria expressar
ele mesmo. Mas, ao contrário do copista ou do editor, ele se proíbe de reproduzir exatamente
o texto original. Portanto, deve transpor sua língua para outra, ou seja, também suas
conceitos em outros, ou pelo menos que faça aparecer estruturas supostamente escondidas sob
o primeiro texto, de modo que seu próprio texto tenha pelo menos uma nova estrutura em relação
ao original. Ou como ele sabe que é exatamente a mesma coisa que ele expressa? Para saber,
é necessário que ele seja capaz de pensar não apenas o texto estudado, mas seu objeto também, e que ele
torne-se assim capaz de constatar que é realmente a mesma realidade, a mesma verdade que se diz
no original e no comentário.
Certamente, poderia-se dizer o mesmo do historiador das ciências que relata uma teoria científica.
É preciso que, ao ler os textos do sábio estudado, o historiador tenha adquirido a sua ciência por sua vez.
em certa medida, para reexpô-la. Somente, a distinção persiste, porque o
savant não faz parte da história das ciências na medida em que conheceu certas coisas, mas
tanto quanto as descobriu. A distinção, portanto, permanece. Será que é o mesmo em
filosofia? Isso seria o caso se a história da filosofia também fosse uma história de
déc descobertas. Caso contrário, impossível diferenciar o filósofo original de seu intérprete por
127
prioridade simples ligada à primeira descoberta. Depois, mesmo que a filosofia também seja
découverte, remarquons qu’elle est souvent pure descoberta intelectual. E nessas
As condições, a invenção de novos relacionamentos constitui uma descoberta filosófica. Por
consequentemente, quando o intérprete realiza suas transposições, são descobertas
filosóficas que parece dever fazer também.
Observemos ainda que, se é verdade que o comentário representa uma forma de praticar
a filosofia, essa prática parece idêntica à da leitura filosófica. A questão
a mais geral envolvida em nossa pesquisa seria, portanto, aquela da relação entre o leitor e
a obra filosófica, ou inversamente entre a obra filosófica e seu leitor, é...
dizer aquela da transmissão do conhecimento filosófico.
Para abordar esta questão, será mais concretamente considerar as obras de quatro
intérpretes de Spinoza, considerados como a obra de spinozistas tanto quanto de especialistas de
Spinoza, ou seja, na medida em que seu projeto é de ordem filosófica, e que se trata para eles
de pensar com Spinoza em vez de fazer um simples estudo sobre Spinoza. Para isso, nosso
a palestra abordará essas obras em si mesmas, ou seja, como originais, em vez de
que para os relacionar ao texto de Spinoza com o intuito de compreender sua adequação ou inadequação
128
com ele. Mas podemos realmente lê-los em si mesmos? A resposta para esta pergunta
pode já constituir um elemento da solução do nosso problema. O seminário, portanto, irá
concretamente a forma de uma leitura em comum, na qual iremos direcionar nossa atenção
de dois lados ao mesmo tempo. De um lado, tratará de simplesmente entender cada um dos
quatro obras como se fossem obras de filosofia. Por outro lado, é a presença da leitura
de Spinoza em aqueles que nos retêm, como talvez uma espécie de espelho de nosso próprio
palestra.
OS TEXTOS DISCONTÍNUOS
Inverno 1994
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Pensées
Introdução
III- Tema
129
Mas o que é interpretar uma filosofia? Para saber, é necessário responder a duas
o que é a atividade de interpretação como tal e sua relação com a
filosofia? e o que é uma filosofia e por que ela se presta à interpretação?
Essas questões remetem, por sua vez, ao contexto mais amplo daquelas que dizem respeito à natureza.
da filosofia.
Poder-se-ia pensar que a interpretação desempenha um papel semelhante em todas as disciplinas onde ele
e a referência a textos que têm autoridade de alguma forma, ou que representam os
objetos da pesquisa. Pensamos imediatamente na literatura, por exemplo, e depois nos
ciências, que se transmitem sob a forma de textos na sua essência. Ora, é notável que,
embora os sábios apresentem suas teorias na forma de textos, a atividade de interpretação
n'y joue qu'un rôle mineur. As matemáticas ou a física não se caracterizam por
exemplo, por meio de debates sobre a interpretação dos textos principais da disciplina, como é
o caso na filosofia e na teologia. Da mesma forma, na literatura, a relação com os textos é menos
aquele da interpretação, do comentário explicativo, que da crítica, pois não se trata tanto
130
de encontrar a teoria dos escritores do que analisar seu estilo, sua maneira de gerar um
mundo poético ou romanesco, suas técnicas de composição, descrição, etc. E na
na medida em que a interpretação desempenha um papel mais importante neste campo, é que se
interessa-se mais por um escritor como filósofo, como é o caso de
Montaigne, Pascal, Rousseau ou Voltaire, por exemplo. Da mesma forma, entre as ciências
humanas, as disciplinas que dão origem a debates hermenêuticos são justamente aquelas
que são de caráter mais filosófico (ou teológico) do que científico, como é o caso
para algumas teorias psicológicas, a psicanálise em primeiro lugar, ou para teorias
sociológicos, cujos mestres estudados são amplamente filósofos.
131
um pouco simples que a revelação escrita é a palavra divina dirigida a todos os homens, nós
compreenda mal primeiro que sua leitura não deve ser suficiente. Mas deixemos aqui a teologia, que
pode ser considerada provisoriamente como uma espécie de filosofia particular, limitada a
a interpretação de certos textos sagrados. Parece haver, portanto, um defeito nos textos que
reclama a interpretação. O que impede, portanto, que a teoria apareça claramente?
Para responder a esta pergunta, é necessário começar a ter uma ideia do que é uma
teoria. A maneira mais habitual de concebê-la é defini-la assim: é um sistema
conceitual que se refere a um domínio da realidade que explica. Em outras palavras, em uma
teoria, certas coisas são descritas por um lado por conceitos que se relacionam com elas e
por outro lado, por meio de uma série de relações entre esses conceitos que permitem compreender as relações
a eficácia entre essas coisas. A solidez de uma teoria depende, portanto, de dois pontos
principalmente, um interno, o outro externo. Em si mesma, a teoria deve ser coerente; e
em relação ao mundo de objetos que descreve, ela deve ser adequada. Em outras palavras, a
a teoria deve respeitar um código lógico que rege suas relações conceituais, e não deve entrar em
contradição em relação a ele, e ela deve se relacionar com os objetos descritos de tal maneira que ele
há correspondência entre a ordem que ela descreve e a que existe efetivamente entre eles.
Há, portanto, em toda teoria, a possibilidade de que existam defeitos que são próprios da teoria.
ela mesma: pode haver nela contradições internas, ou ela pode entrar em
contradição com a realidade que descreve. Também pode haver defeitos que afetam
a exposição da teoria: ela pode ser representada de maneira incompleta, ambígua, confusa
A saída simplesmente falsa. À primeira vista, parece que, se a interpretação é importante
em filosofia e não em ciência, deve ser devido à presença deste segundo tipo de
defeitos de representação, uma vez que os primeiros são comuns à filosofia e às ciências.
Na realidade, a distinção não é tão clara, porque uma teoria também depende da linguagem em
do qual ela está exposta, de tal forma que a melhoria da linguagem pode ser uma melhoria
da teoria em si.
Portanto, podemos deixar de lado os defeitos puramente internos das teorias, que
não dão lugar a interpretação, mas ao debate propriamente científico ou filosófico,
levando à refutação, à confirmação, à transformação da teoria, ou à sua
substituição por uma concorrente. Esta crítica das teorias não é a função primária de
a interpretação, que ao contrário toma a teoria tal como ela é e lhe dá uma forma em
a qual se torna claramente legível. Portanto, deve corrigir os defeitos de apresentação.
E ela é essencialmente ou bem tradução, ou bem reconstituição, ou os dois ao mesmo tempo.
Quanto à tradução, ela vem do fato de que a linguagem do autor não é mais compreensível
ao leitor previsto pelo intérprete. As razões são diversas. Primeiro, a tradução pode
132
consiste no que entendemos literalmente por este termo, tradução de uma língua para outra,
o alemão ao francês, por exemplo. Surpreenderá que a tradução assim compreendida possa
entrar no problema da interpretação, porque parece à primeira vista que se trata
simplesmente aqui para mudar de código, e que não exista problema de interpretação
propriamente dito. Na realidade, porque as línguas diferentes não correspondem termo a
termo, sempre existem questões de interpretação em toda tradução: trata-se de escolher
os termos na nova língua não têm simplesmente correlações linguísticas, mas
também dependendo da teoria a ser traduzida. Mas a tradução também é frequentemente necessária
independentemente dessa diferença de línguas. Embora escrito na mesma língua, um texto
o francês do século XVII pode precisar ser traduzido para o leitor moderno. Certamente há a
diferença criada pela evolução linguística, mas ainda mais aquela que provoca a evolução
da civilização ou da cultura. Nesse caso, é o código segundo o qual a teoria é
construído, e que constitui a sua coerência, que pode precisar ser restabelecido, reexplicado, traduzido
nos códigos atuais, mas é também a relação da teoria com seus objetos que pode
se modificou, especialmente porque muitos dos objetos da filosofia são objetos culturais, que
se modificaram com a evolução da cultura. É necessário, portanto, restabelecer a referência
termos aos seus objetos reescrevendo-os em relação aos objetos análogos que nós
conhecimentos. E vê-se que este tipo de tradução é útil para preencher não só
distâncias temporais, mas também todos os tipos de outras distâncias culturais que podem
separar o autor de seu leitor.
Assim, toda vez que o leitor não é mais aquele que o filósofo visava diretamente em seu
obra, uma interpretação é necessária para preencher a distância entre eles. Esta
a interpretação deve naturalmente já fazer parte diretamente da leitura, e ela não gera
não necessariamente um novo escrito. Mas é tão importante, tão difícil aparentemente, em
filosofia, que naturalmente dá origem a uma nova literatura filosófica que a ela
est consagrada. Isso significa que, em filosofia, a leitura não é uma operação fácil, e que
os textos dos filósofos não se compreendem imediatamente, mesmo para os leitores
exercícios. Há um fenômeno surpreendente, uma vez que parece sempre possível tornar
accessible o que não é mais ou não era em sua forma original. Como os
intérpretes ou historiadores da filosofia ou comentadores, podem supor que os seus
escritos próprios saberão se tornar mais compreensíveis do que os originais que estudam?
Podemos pensar que é porque eles dirigem seus escritos mais especificamente a um leitor
preciso, e porque se concentram na questão da representação do sistema, enquanto
os filósofos originais estavam mais ocupados em inventá-los do que em expô-los totalmente e
claramente?
Pode-se supor que deve-se procurá-lo onde ele é eficaz, ou seja, nas ciências, e
que, portanto, o discurso filosófico mais eficaz deve ser aquele que se aproxima
o mais do discurso científico habitual. É assim que alguns filósofos pressionaram a sua
limites essa ideia tentando constituir uma linguagem lógica ideal para a filosofia também
embora para a ciência. Sem ir até esse extremo, pode-se reter as características
133
de que linguagem: deve ser clara, não ambígua, exata. Para isso, é necessário que cada conceito tenha
se possível um termo próprio, e que todas as relações intervenientes no sistema sejam
também representadas por símbolos distintos. É necessário que a referência dos
os termos sejam dados de maneira exata. Por fim, é necessário que através de uma utilização sistemática de
ces termos, o conjunto dos relatórios do sistema, ou pelo menos o conjunto de seus relatórios
determinantes, seja descrito. Tal é também mais ou menos o ideal do intérprete. Ele geralmente quer fazer
passar a doutrina estudada de uma representação imperfeita para uma tal representação
sistemática rigorosa.
Pode-se perguntar por que, apesar dessas desvantagens, alguns filósofos escolheram isso.
modo de exposição de seu pensamento. Ou eles se enganaram, ou não conseguiram levar
seu trabalho está em seu ponto de conclusão, em um discurso contínuo, ou eles tinham razões
de recusar o ideal discursivo dos intérpretes. Nos dois primeiros casos, sua obra convoca tudo
particularmente o trabalho do intérprete, no último, parece recusá-lo. Ao procurar
portanto, interpretar discursos filosóficos descontínuos, enquanto permanecemos atentos aos
dificuldades encontradas, portanto teremos um meio de nos aproximar da solução do problema
posto no início, saber por que a filosofia chama a interpretação, por um lado, e
por que, por outro lado, os filósofos não expuseram seu pensamento na forma que ele
dando os intérpretes. A partir daí, poderemos chegar à questão da determinação do papel
da interpretação na filosofia.
Para a leitura destes textos, proponho que você tente, num primeiro momento, fazer o
trabalho habitual do intérprete, buscando reconstituir o sistema contínuo através dos
supostos fragmentos que temos, mas anotando as resistências do texto frente a isso
empresa, depois, em um segundo momento, voltar para os diversos aforismos para tentar encontrá-los
compreender precisamente a partir de seu aspecto discreto e ao mesmo tempo do relativo isolamento como
des liens outros que teóricos que poderão aparecer então.
OS TEXTOS DISCONTINUS
Inverno de 1994
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134
modo de escrita apresenta problemas de interpretação específicos. O seminário será dedicado
à uma pesquisa sobre esta questão das dificuldades particulares de interpretação dos textos
descontínuos na filosofia. Ele tratará das seguintes obras:
Pensées
Introdução
V- Tema
Essas questões remetem, por sua vez, ao contexto mais amplo daquelas que dizem respeito à natureza.
da filosofia.
135
a filosofia atual. A segunda diz respeito à função própria da interpretação como
modo de relação com as obras filosóficas.
Pode-se pensar que a interpretação desempenha um papel semelhante em todas as disciplinas onde ele
e a referência a textos que fazem autoridade de alguma maneira, ou que representam os
objetos da pesquisa. Pensa-se imediatamente na literatura, por exemplo, depois aos
ciências, que se transmitem sob a forma de textos na sua essência. No entanto, é notável que,
embora os sábios exponham suas teorias na forma de textos, a atividade de interpretação
desempenham apenas um papel menor. A matemática ou a física não se caracterizam por
exemplo, por meio de debates sobre a interpretação dos textos principais da disciplina, como é
o caso na filosofia e na teologia. Da mesma forma, na literatura, a relação com os textos é menos
celui da interpretação, do comentário explicativo, que da crítica, pois não se trata tanto
de encontrar a teoria dos escritores do que analisar seu estilo, sua maneira de gerar um
mundo poético ou romanesco, suas técnicas de composição, de descrição, etc. E em
na medida em que a interpretação desempenha um papel mais importante neste campo, é que se
interessa-se mais por um escritor como filósofo, como é o caso de
Montaigne, Pascal, Rousseau ou Voltaire, por exemplo. Da mesma forma, entre as ciências
humanas, as disciplinas que dão origem a debates hermenêuticos são justamente aquelas
que são de caráter mais filosófico (ou teológico) do que científico, como é o caso
para algumas teorias psicológicas, a psicanálise em primeiro lugar, ou para teorias
sociológicas, cujos mestres estudados são amplamente filósofos.
136
proceder não é suficiente em teologia e filosofia? Por que não se contentar
de ler a Bíblia ou as obras dos filósofos para aprender as doutrinas que elas expõem?
Temos a impressão de que aqui são necessários intermediários, e não apenas para a formação.
iniciantes (que podem precisar de manuais reunindo a matéria e o expositor
pedagogicamente), mas também para o trabalho dos pesquisadores mais avançados. De fato,
os melhores conhecedores de tal filósofo, de tal livro da Bíblia, geralmente estimam
é essencial para eles lerem as interpretações de seus colegas. Não há, portanto, alguma
escolha nas obras teológicas e filosóficas que requerem a interpretação, e que
não existe nas obras científicas ou literárias?
Para responder a esta pergunta, é necessário começar por ter uma ideia do que é uma
teoria. A maneira mais comum de concebê-la é defini-la assim: é um sistema
conceitual que se refere a um domínio da realidade que explica. Em outras palavras, em uma
teoria, certas coisas são descritas por um lado por conceitos que se relacionam com elas e
por outro lado, por meio de uma série de relações entre esses conceitos que permitem compreender as relações
A eficácia entre essas coisas. A solidez de uma teoria depende, portanto, de dois pontos
principalmente, um interno, outro externo. Em si mesma, a teoria deve ser coerente; e
em relação ao mundo de objetos que ela descreve, deve ser adequada. Em outras palavras, a
a teoria deve respeitar um código lógico que rege suas relações conceituais, e não deve entrar em
contradição em relação a ele, e ela deve se relacionar com os objetos descritos de tal maneira que ele
Há correspondência entre a ordem que ela descreve e aquela que efetivamente existe entre eles.
137
Portanto, em toda teoria, há a possibilidade de que existam defeitos que são próprios da teoria.
ela mesma: pode haver nela contradições internas, ou ela pode entrar em
contradição com a realidade que descreve. Também pode haver defeitos que afetam
a exposição da teoria: ela pode ser representada de maneira incompleta, ambígua, confusa
ou simplesmente falsa. À primeira vista, parece que, se a interpretação é importante
em filosofia e não em ciência, deve ser devido à presença desse segundo tipo de
defeitos de representação, uma vez que os primeiros são comuns à filosofia e às ciências.
Na realidade, a distinção não é tão clara, porque uma teoria também depende da linguagem em
o qual ela está exposta, de tal forma que a melhoria da linguagem pode ser uma melhoria
da teoria em si.
Portanto, podemos deixar de lado os defeitos puramente internos das teorias, que
não dão lugar a interpretação, mas ao debate propriamente científico ou filosófico,
levando à refutação, à confirmação, à transformação da teoria, ou à sua
substituição por uma concorrente. Esta crítica das teorias não é a função primária de
a interpretação, que por outro lado assume a teoria tal como ela é e lhe dá uma forma na
a qual se torna claramente legível. Portanto, deve corrigir os defeitos de apresentação.
E ela é essencialmente ou bem tradução, ou bem reconstituição, ou os dois ao mesmo tempo.
Quanto à tradução, ela vem do fato de que a linguagem do autor não é mais compreensível.
ao leitor previsto pelo intérprete. As razões são diversas. Primeiro, a tradução pode
consiste no que entendemos literalmente por esse termo, tradução de uma língua para outra,
o alemão para o francês, por exemplo. Surpreender-se-á que a tradução assim compreendida possa
entrar no problema da interpretação, porque parece à primeira vista que se trata
simplesmente aqui para mudar de código, e que não existe problema de interpretação
propriamente dita. Na realidade, porque as línguas diferentes não correspondem termo a
termo, sempre existem questões de interpretação em toda tradução: trata-se de escolher
os termos na nova língua não são simplesmente por correlações linguísticas, mas
também dependendo da teoria a ser traduzida. Mas a tradução também é frequentemente necessária
independentemente dessa diferença de línguas. Embora escrito na mesma língua, um texto
o francês do século XVII pode precisar ser traduzido para o leitor moderno. Certamente há a
diferença criada pela evolução linguística, mas mais ainda aquela que provoca a evolução
da civilização ou da cultura. Neste caso, é o código segundo o qual a teoria é
construído, e que constitui a sua coerência, que pode precisar ser restabelecido, reexplicado, traduzido
nos códigos atuais, mas é também a relação da teoria com seus objetos que pode
s modificou, ainda mais que muitos objetos da filosofia são objetos culturais, que
se modificaram com a evolução da cultura. Portanto, é necessário restabelecer a referência
termos a seus objetos redescobrindo-os em relação a objetos análogos que nós
conhecemos. E vê-se que esse tipo de tradução é útil para preencher não apenas alguns
138
distâncias temporais, mas também todo tipo de outras distâncias culturais que podem.
separar o autor de seu leitor.
Assim, sempre que o leitor não é mais aquele que o filósofo visava diretamente em seu
obra, uma interpretação é necessária para preencher a distância entre eles. Esta
a interpretação deve naturalmente fazer já parte da leitura, e ela não gera
não necessariamente um novo escrito. Mas ela é tão importante, tão difícil aparentemente, em
filosofia, que naturalmente dá origem a uma nova literatura filosófica que lhe
est consagrada. Isso significa que, na filosofia, a leitura não é uma operação fácil, e que
Os textos dos filósofos não se compreendem imediatamente, mesmo para os leitores.
exercícios. Há um fenômeno surpreendente, pois parece sempre possível tornar
accessible o que não está mais ou não estava em sua forma original. Como os
intérpretes ou historiadores da filosofia ou comentaristas, podem supor que seus
escritos próprios saberão se tornar mais compreensíveis do que os originais que estudam?
Pode-se pensar que é porque eles dirigem seus escritos mais especificamente a um leitor
preciso, e porque se concentram na questão da representação do sistema, enquanto
os filósofos originais estavam mais ocupados em inventá-lo do que em expô-lo completamente e
claramente?
Pode-se supor que é preciso procurá-lo onde ele é eficaz, ou seja, nas ciências, e
que, portanto, o discurso filosófico mais eficaz deve ser aquele que se aproxima
o mais do discurso científico habitual. Assim, alguns filósofos pressionaram para que seu
limites esta ideia ao tentar constituir um linguagem lógica ideal para a filosofia também
embora para a ciência. Sem chegar a esse extremo, podemos reter as características
de que linguagem: deve ser claro, não ambíguo, exato. Para isso, é necessário que cada conceito tenha
se possível um termo próprio, e que todas as relações intervenientes no sistema sejam
também representadas por símbolos distintos. É necessário também que a referência dos
os termos sejam dados de maneira exata. Por fim, é necessário que, por meio de um uso sistemático de
esses termos, o conjunto das relações do sistema, ou pelo menos o conjunto de suas relações
determinantes, seja descrito. Tal é também mais ou menos o ideal do intérprete. Ele costuma querer fazer
passar a doutrina estudada de uma representação imperfeita para uma representação assim
sistematismo rigoroso.
139
uns aos outros, seus laços permanecem flutuantes. O contexto de cada parte é extremamente
restreito também, de modo que as referências permanecem mais vagas por sua vez.
Pode-se perguntar por que, apesar dessas desvantagens, certos filósofos escolheram isso
modo de exposição do seu pensamento. Ou eles estavam errados, ou não puderam levar
seu trabalho a seu ponto de conclusão, em um discurso contínuo, ou eles tinham razões
de recusar o ideal discursivo dos intérpretes. Nos dois primeiros casos, sua obra convoca tudo
particularmente o trabalho do intérprete, no último, parece recusá-lo. Ao procurar
portanto, interpretar discursos filosóficos descontínuos, mantendo-se atentos a
dificuldades encontradas, teremos assim um meio de nos aproximar da solução do problema
posto no início, saber por que a filosofia chama a interpretação, de um lado, e
por que, do outro lado, os filósofos não expuseram seu pensamento na forma que ele.
dando os intérpretes. A partir daí, poderemos chegar à questão da determinação do papel
da interpretação na filosofia.
Para a leitura desses textos, proponho que você tente, em um primeiro momento, fazer o
trabalho habitual do intérprete, buscando reconstituir o sistema contínuo através dos
supostos fragmentos que temos, mas ao notar as resistências do texto frente a isso
empresa, depois, em um segundo momento, voltar aos diversos aforismos para buscar...
compreender justamente a partir de seu aspecto descontínuo e ao mesmo tempo do relativo isolamento como
des liens autres que théoriques qui pourront apparaître alors.
OS TEXTOS DISCONTÍNUOS
Inverno 1994
Anúncio
Pascal
140
Nietzsche, O Gai Saber
Introdução
VII- 1. Tema
Essas perguntas remetem, por sua vez, ao contexto mais amplo daquelas que dizem respeito à natureza
da filosofia.
141
disciplina? Existem duas áreas onde ela desempenha um papel importante: a teologia e a filosofia,
assim como, em certa medida, o direito e a história. Em outros lugares, parece não intervir apenas
de maneira acessória. Em teologia, ela é fundamental, e ela constitui mesmo a grande
parte da disciplina, uma vez que a teologia é principalmente a interpretação das Escrituras. On
não concebe de fato que uma teologia se apresente de outra forma que não como uma maneira
de explicar qual é o ensinamento que encontramos na Bíblia ou em outras fontes de
revelação. Todas as especulações dos teólogos estão, portanto, baseadas na interpretação dos
textos sagrados e constituem extensões mais ou menos distantes. Na filosofia,
a interpretação desempenha um papel importante, embora não tão essencial. Porque não há para os
filósofos de texto sagrado ao qual toda reflexão deveria se referir para se justificar. Ele é
possível em princípio elaborar uma filosofia sem referência à autoridade de nenhum texto da
tradição, e mesmo, a maioria das grandes filosofias se posicionam como amplamente autônomas
em relação a essa tradição. Não obstante, a tradição existe na filosofia, que ela desempenha
um papel essencial na formação do pensamento filosófico, e que uma parte importante de
a atividade filosófica consiste na interpretação das obras dessa tradição.
Poder-se-ia pensar que a interpretação desempenha um papel semelhante em todas as disciplinas onde ela
e a referência a textos que de alguma forma têm autoridade, ou que representam os
objetos da pesquisa. Pensamos imediatamente na literatura, por exemplo, depois em
ciências, que se transmitem sob a forma de textos na sua essência. É notável que,
embora os sábios exponham suas teorias na forma de textos, a atividade de interpretação
não desempenham mais do que um papel menor. As matemáticas ou a física não se caracterizam por
exemplo, por meio de debates sobre a interpretação dos textos principais da disciplina, como é
o caso em filosofia e em teologia. Da mesma forma, na literatura, a relação com os textos é menos
aquele da interpretação, do comentário explicativo, que da crítica, pois não se trata tanto
de encontrar a teoria dos escritores do que analisar seu estilo, sua maneira de gerar um
mundo poético ou romanesco, suas técnicas de composição, de descrição, etc. E em
na medida em que a interpretação desempenha um papel mais importante neste campo, é que se
se interessa mais por um escritor como filósofo, como é o caso de
Montaigne, Pascal, Rousseau ou Voltaire, por exemplo. Da mesma forma, entre as ciências
humanas, as disciplinas que dão origem a debates hermenêuticos são justamente aquelas
que são de caráter mais filosófico (ou teológico) do que científico, como é o caso
para algumas teorias psicológicas, a psicanálise em primeiro lugar, ou para teorias
sociológicos, cujos mestres estudados são amplamente filósofos.
142
essencial para eles lerem as interpretações de seus colegas. Não há, portanto, alguma
escolha nas obras teológicas e filosóficas que requerem interpretação, e que
não existe nas obras científicas ou literárias?
Para responder a esta pergunta, é necessário começar a ter uma ideia do que é uma
teoria. A maneira mais habitual de concebê-la é defini-la assim: é um sistema
conceitual que se refere a um domínio da realidade que explica. Em outras palavras, em uma
teoria, certas coisas são descritas por um lado por conceitos que se relacionam a elas e
Por outro lado, por meio de uma série de relações entre esses conceitos que permitem entender as relações
a eficácia entre essas coisas. A solidez de uma teoria depende, portanto, de dois pontos
principalmente, um interno, o outro externo. Em si mesma, a teoria deve ser coerente; e
em relação ao mundo de objetos que ela descreve, deve ser adequada. Em outras palavras, a
a teoria deve respeitar um código lógico que rege suas relações conceptuais, e não deve entrar em
contradição em relação a ele, e ela deve se relacionar com os objetos descritos de tal maneira que ele
há correspondência entre a ordem que ela descreve e a que existe efetivamente entre eles.
Portanto, em toda teoria, há a possibilidade de que existam defeitos que são próprios da teoria.
ela mesma: pode haver nela contradições internas, ou ela pode entrar em
contradição com a realidade que descreve. Também pode haver falhas que afetam
a exposição da teoria: pode ser representada de maneira incompleta, ambígua, confusa
ou simplesmente falsa. À primeira vista, parece que, se a interpretação é importante
em filosofia e não em ciência, isso deve ser devido à presença deste segundo tipo de
defeitos de representação, uma vez que os primeiros são comuns à filosofia e às ciências.
143
Na realidade, a distinção não é tão clara, porque uma teoria também depende da linguagem em
no qual ela está exposta, de tal forma que a melhoria da linguagem pode ser uma melhoria
da teoria em si mesma.
Portanto, podemos deixar de lado os defeitos puramente internos das teorias, que
não dão lugar a interpretação, mas ao debate propriamente científico ou filosófico,
levando à refutação, à confirmação, à transformação da teoria, ou à sua
substituição por uma concorrente. Essa crítica das teorias não é a função primária de
a interpretação, que ao contrário, toma a teoria tal como ela é e lhe dá uma forma em
a qual ela se torna claramente legível. Portanto, deve corrigir os defeitos de apresentação.
E ela é essencialmente ou bem tradução, ou bem reconstituição, ou os dois ao mesmo tempo.
Quanto à tradução, ela vem do fato de que a linguagem do autor não é mais compreensível.
ao leitor imaginado pelo intérprete. As razões são diversas. Primeiro, a tradução pode
consiste no que se entende literalmente por esse termo, tradução de uma língua para outra, de
o alemão para o francês, por exemplo. Ficar-se-á espantado que a tradução assim compreendida possa
entrar no problema da interpretação, porque parece à primeira vista que se trata
simplesmente aqui para mudar de código, e que não existe problema de interpretação
propriamente dita. Na realidade, porque as diferentes línguas não correspondem termo a termo
termo, sempre existem questões de interpretação em toda tradução: trata-se de escolher
os termos na nova língua não têm simplesmente correlações linguísticas, mas
também dependendo da teoria a ser traduzida. Mas a tradução também é frequentemente necessária
independentemente desta diferença de línguas. Embora escrito na mesma língua, um texto
o francês do século XVII pode precisar ser traduzido para o leitor moderno. Certamente há a
diferença criada pela evolução linguística, mas mais ainda aquela que provoca a evolução
da civilização ou da cultura. Nesse caso, é o código segundo o qual a teoria é
construído, e que constitui a sua coerência, que pode ter que ser restaurado, reexplicado, traduzido
nos códigos atuais, mas é também a relação da teoria com seus objetos que pode
se modificou, ainda mais considerando que muitos objetos da filosofia são objetos culturais, que
se modificaram com a evolução da cultura. É preciso, portanto, restabelecer a referência
termos aos seus objetos descrevendo-os em relação a objetos análogos que nós
conhecemos. E vê-se que este tipo de tradução é útil para preencher não apenas algumas
distâncias temporais, mas também todo tipo de outras distâncias culturais que podem
separar o autor do seu leitor.
Assim, sempre que o leitor não é mais aquele que o filósofo visava diretamente em seu
obra, uma interpretação é necessária para preencher a distância entre eles. Este
a interpretação deve naturalmente fazer parte da leitura e não implica
não necessariamente um novo escrito. Mas é tão importante, tão difícil aparentemente, em
144
filosofia, que naturalmente dá origem a uma nova literatura filosófica que lhe
est consagrada. Isso significa que, em filosofia, a leitura não é uma operação fácil, e que
os textos dos filósofos não são compreendidos imediatamente, mesmo para os leitores
exercícios. Há um fenômeno surpreendente, pois parece sempre possível tornar
accessible o que não está mais ou não estava em sua forma original. Como os
intérpretes ou historiadores da filosofia ou comentaristas, podem eles supor que seus
escritos próprios saberão se tornar mais compreensíveis do que os originais que estudam?
Pode-se pensar que é porque eles direcionam seus escritos mais especificamente a um leitor
preciso, e porque se concentram na questão da representação do sistema, enquanto
os filósofos originais estavam mais ocupados em inventá-los do que em expô-los completamente e
claramente?
Pode-se supor que é necessário procurá-lo onde ele é eficaz, ou seja, nas ciências, e
que, portanto, o discurso filosófico mais eficaz deve ser aquele que se aproxima
o mais do discurso científico habitual. Foi assim que alguns filósofos levaram a isso
limita essa ideia tentando constituir uma linguagem lógica ideal para a filosofia também
embora para a ciência. Sem ir até esse extremo, podemos reter as características
de que linguagem: deve ser claro, não ambíguo, exato. Para isso, é necessário que cada conceito tenha
se possível um termo próprio, e que todas as relações intervenham no sistema sejam
também representadas por símbolos distintos. É necessário também que a referência dos
os termos sejam dados de maneira exata. Por fim, é necessário que, por uma utilização sistemática de
esses termos, o conjunto dos relatórios do sistema, ou pelo menos o conjunto de seus relatórios
determinantes, seja descrito. Tal é também mais ou menos o ideal do intérprete. Ele costuma querer fazer
passar a doutrina estudada de uma representação imperfeita para uma tal representação
sistemática rigorosa.
Pode-se perguntar por que, apesar dessas desvantagens, alguns filósofos escolheram isso
modo de exposição de seu pensamento. Ou eles se enganaram, ou não conseguiram levar adiante
seu trabalho chegou ao seu ponto de conclusão, em um discurso contínuo, ou eles tinham razões
de recusar o ideal discursivo dos intérpretes. Nos dois primeiros casos, sua obra convoca tudo
particularmente o trabalho do intérprete, no último, parece recusá-lo. Ao procurar
145
portanto, ao interpretar discursos filosóficos descontínuos, enquanto permanecemos atentos aos
dificuldades encontradas, portanto teremos um meio de nos aproximar da solução do problema
posto no início, saber por que a filosofia chama a interpretação, de um lado, e
por que, por outro lado, os filósofos não expuseram seu pensamento na forma que ele
dando os intérpretes. Daí, poderemos chegar à questão da determinação do papel
da interpretação na filosofia.
Para a leitura desses textos, eu sugiro que você tente, em um primeiro momento, fazer o
trabalho habitual do intérprete, buscando reconstituir o sistema contínuo através dos
fragmentos supostos que temos, mas observando as resistências do texto frente a isso
empresa, depois, em um segundo momento, voltar aos diversos aforismos para tentar encontrá-los
compreender justamente a partir do seu aspecto descontínuo e ao mesmo tempo do relativo isolamento como
des liens autres que théoriques qui poderão aparecer então.
O PENSAMENTO NA LITERATURA
Outono 1997
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A pesquisa proposta visa elucidar esta questão, começando por estudar o modo
da expressão do pensamento nas obras geralmente classificadas como literárias, em
envisionando, por exemplo, a reflexão moral em Molière ou Sade, ou a reflexão sobre os
estruturas da experiência humana em Proust, para depois chegar a textos de autores
conhecidos como filósofos (Rousseau, Nietzsche, etc.).
Voltaire, Cândido
146
Sade, A filosofia no boudoir
Kundera, A Imortalidade
Introdução
IX- Tema
Esse problema é naturalmente importante para conhecer a literatura e seu modo de pensar próprio,
supondo que seja diferente do da filosofia. Mas isso também é para a
compreensão da filosofia é importante saber qual é a relação entre esses dois modos
de pensar, assim como sua ligação ao respectivo tipo de expressão. De fato, em nosso
civilização, a filosofia se apresenta a nós na forma de textos, entre os quais não está
nem sempre é fácil traçar a fronteira que se supõe entre a literatura e a filosofia,
como se vê pelo fato de que grandes figuras como as de Montaigne, de Pascal,
de Rousseau, de Kierkegaard, de Nietzsche, parecem não admitir ser classificadas segundo
essa divisão. Qual é então o seu pensamento? literário ou filosófico? Se essas maneiras de
pensar são realmente diferentes, é importante saber o que constitui a sua diferença para
interpretar os textos dos filósofos assim como os dos escritores. Deve existir por
consequente de modos de leitura diferentes que respondem à natureza diferente desses dois tipos
de textos, e envolvendo diferentes modos de pensar também. É por essa razão que
Eu localizei esta questão da natureza do pensamento literário nos problemas que dizem respeito a
a interpretação das filosofias.
147
Dado o caráter problemático da definição do pensamento filosófico em relação
à la pensée littéraire, a questão da interpretação das filosofias não se resume a
problema da constituição do método mais eficaz possível para captar o sentido dos
textos filosóficos, cuja natureza geral nos seria conhecida de antemão. Enquanto nós
não saberemos em que essas duas maneiras de pensar, que supomos muito diferentes,
diferentemente, permaneceremos incapazes de saber como interpretar um e
o outro. Portanto, é à questão da definição da própria filosofia que
toca o nosso problema. E o problema da relação entre a literatura e a filosofia supõe
uma reflexão sobre a natureza da filosofia em si, como ela contribui aliás para
enriquecê-lo.
X- 2. Posição do problema
Qualquer que seja o grau de moderação, de nuance, com que elas são feitas, essas críticas
resposta sobre a ideia de uma espécie de incompatibilidade fundamental (ou de compatibilidade muito
limitada) entre a filosofia e a literatura. E esta deve ter sua fonte na natureza de
essas duas atividades. Por que a literatura não deveria, portanto, pensar de verdade? e
por que, nesta concepção, a filosofia deveria abster-se de usar totalmente
os efeitos dos jogos de linguagem e da ficção? Parece haver por trás dessa divisão
a ideia de uma relação entre faculdades diferentes: para a filosofia, a razão, e para a
literatura, a imaginação. A distinção dessas duas faculdades corresponde também aos dois
fins diferentes que se supõem à filosofia e à literatura. A filosofia deve se dedicar
à procura e à expressão das verdades, enquanto a literatura deve divertir nossa mente e
tocar nossa sensibilidade com suas invenções. E como se supõe que a verdade é de natureza
teórica e abstrata, assim como a razão é a faculdade da abstração e da dedução
Ideias abstratas umas a partir das outras, julga-se estranha ao seu objeto toda forma de
pesquisa de efeitos sensíveis da linguagem e da imaginação. Pelo contrário, como se
considere a sensibilidade como algo mais concreto, que se liga às nossas emoções, e
portanto, senão à concretude objetiva, ao menos à realidade concreta da vida subjetiva, nós
juge que é pela imaginação, que é justamente o movimento concreto da nossa sensibilidade,
seu jogo livre, que deve ser operado para tocar na literatura, enquanto todo recurso a
a abstração afasta a mente de seu fundo sensível, a esfria, e faz falta às obras
literários seu efeito.
148
Certamente, essa divisão não é completa. A faculdade de pensar não é totalmente negada à
literatura, nem a faculdade de penetrar o mundo sentido, à filosofia. Mas espera-se da
filosofia que se interessa pela vivência, quer seja com a finalidade de uma clarificação racional,
sorte que o material sensível de suas reflexões não deve organizar a forma de seu pensamento, nem
de sua expressão, senão na medida em que sua descrição, que sustenta a teoria, a implica.
O filósofo se torna, nessa medida, escritor, recorrendo provisoriamente às figuras
literários, por não poderem expressar imediatamente em termos abstratos precisos os
verdades que ele quer tirar da experiência vivida. No entanto, espera-se que ele saia dessa etapa
para avançar em direção ao discurso racional abstrato. Quanto ao escritor, não se considera que
suas obras devem ser necessariamente fúteis e desprovidas de qualquer verdade filosófica.
Ao contrário, muitas vezes se lhe atribui uma espécie de intuição inspirada em verdades mais profundas.
que aquelas que o filósofo pode apreender e explicar. Tem-se a impressão de que, justamente na
medida em que mergulha totalmente no mundo da imaginação e da sensibilidade,
o escritor encontra o acesso a verdades demasiado escondidas para que a razão possa compreendê-las. E é
mesmo por que poderemos ver nele uma marca de superficialidade na tentativa de
desenvolver argumentos de caráter filosófico. Na medida em que se dedica aos jogos de
a imaginação, o escritor é portanto também um explorador das verdades mais profundas de
a condição humana, e até se lhe concederá ser ainda mais do que o filósofo.
Mas é a condição de não querer agir como filósofo, e de não procurar apresentar
em argumentos claros as verdades que ele sentiu, e que buscou captar nas redes do
linguagem literária e da imaginação. Dependendo do caso, estimaremos que este tipo de verdades
acessíveis à literatura são de tal natureza que devem escapar à filosofia,
ou bem se pensará, em vez disso, que a tarefa do filósofo consiste precisamente em parte em retomar
essas verdades e submetê-las à sua análise, a fim de torná-las explícitas. De qualquer forma, ele
parece bem que, na medida em que o pensamento pertence à literatura e à filosofia, isso seja
nessas duas modalidades do explícito e do implícito reside a diferença entre o pensamento
literária e o pensamento filosófico. A literatura deve colocar o homem sensível em contato
provado, concreto, com a verdade de sua condição, sem explicá-la em uma linguagem explícita.
Ao contrário, o filósofo deve explicar claramente suas verdades, prová-las racionalmente,
em eliminar tanto quanto possível todos os aspectos mais obscuros que remetem à pura sensibilidade.
É assim, me parece, que nossa cultura tende a perceber a diferença entre a literatura
e a filosofia, como entre dois modos de pensar muito diferentes, um ligado à sensibilidade
e à imaginação, estranho à abstração racional, o outro ligado à razão, destinado à pureza
das abstrações e das formas da lógica, inimigo da imaginação e da confusão
sensato.
149
A filosofia e a literatura se distinguem essencialmente, e portanto pela maneira como elas
os colocam em relação com a lógica e a abstração, por um lado, com a experiência e o imaginário,
do outro. Ou, entre os quatro termos que escolhi para caracterizar esses dois modos
d'approche, dois parecem se relacionar a uma fonte de verdade originária, e dois parecem
supor algo mais do qual eles se afastam. De fato, a lógica parece referir-se
a uma espécie de estrutura original do universo, do pensamento ou do ser, que é impossível
de não reconhecer sem cair no erro, e a vivência parece constituir um fundo
autêntica da experiência que também é impossível de deixar e de não reconhecer sem
cair na inconsistência. Por outro lado, a abstração supõe uma realidade da qual ela retira um
aspect bem definido, mas que perde assim toda a sua densidade, enquanto a imaginação faz
também se baseia em uma experiência real, mas para levá-la ao domínio do irreal da
ficção. No entanto, se a abstração e a ficção compartilham uma distância comum da verdade
concreta, é de maneira diferente. A abstração retém da realidade essencialmente os
aspectos esquemáticos pelos quais pode ser compreendida logicamente, enquanto que
a imaginação retém a riqueza sensível, mas desprovida dos laços lógicos que
organizam-na na realidade. É graças a essa schematização lógica da experiência que a
A filosofia pode impor suas provas e convencer a razão. É graças à riqueza sensível
de suas imaginações que a literatura pode tocar, entusiasmar, seduzir o leitor e
treinar sua participação sensível. Em relação à nossa questão sobre a natureza do pensamento
literário em oposição àquela do pensamento filosófico, parece portanto que as vantagens
e as desvantagens da literatura e da filosofia sejam complementares, a literatura
aproximando a verdade de nossa experiência pela revelação de sua riqueza sensível que deve
negligenciar a filosofia, e esta ao distinguir as estruturas lógicas que escapam à
literatura. No entanto, como seus defeitos também se compõem, não é possível reuni-los.
para unir suas vantagens, pois a abstração filosófica reduz a riqueza sensível, enquanto
que a imaginação literária não pode respeitar a rigor lógico sem se esterilizar. Nessa
perspectiva, parece bem que a literatura e a filosofia, embora complementares nesta
que eles destaquem diferentes aspectos autênticos da nossa experiência, não possam
unir-se sem se destruir reciprocamente. E seria necessário, portanto, reconhecer nelas dois tipos
de atividades das quais é necessário respeitar a separação.
150
razão, em intuições sensíveis, enquanto a filosofia estaria mais limitada a
organizar racionalmente, em estruturas conceituais abstratas, uma ordem que em seu
fundo lhe escaparia.
Se tivéssemos que reter essa concepção, então não apenas a filosofia deveria se abster de se
confundir com a literatura, correndo o risco de perder a capacidade de raciocinar claramente, de
provar, e assim tornar explícita a lógica de nossa experiência, mas sobretudo, ela não
não poderia se aprofundar sem a ajuda da literatura, que deverá sem cessar lhe fornecer os
intuições mais confusas a partir das quais ela poderia empreender suas análises. Embora
separada dela em sua forma de pensar, a literatura faria parte da filosofia em
um outro sentido, na medida em que constituiria uma etapa preparatória necessária. E por causa de
esse apoio necessário sobre a literatura, seria essencial à filosofia, para se entender
ela mesma, de apreender também a natureza do modo de pensar da literatura.
151
compreender a razão, saberíamos ao mesmo tempo como o modo de pensar filosófico
é fundamentalmente literária, e por consequência como a literatura pensa. Mas
inversamente, buscando como a literatura aborda os problemas da filosofia à sua
maneira, deveríamos ser levados a descobrir nela um modo de pensar que não é
estranho à filosofia, seja que haja entre os pensamentos literários e filosóficos uma
comunidade de natureza, seja que haja, pelo contrário, entre elas uma concorrência. No
No primeiro caso, o estudo da maneira de pensar própria da literatura seria uma forma de abordar
diretamente um aspecto essencial do pensamento filosófico. No segundo caso, este
estudo permitiria abordá-lo indiretamente ao evidenciar uma de suas limitações,
já que ou a literatura disporia de vias desconhecidas da filosofia para abordar
os mesmos problemas e descobrir as mesmas verdades, ou então ela representaria até uma
voo levando a verdades diferentes, não acessíveis à própria filosofia, de modo que
que a literatura se imporia como uma espécie de ramificação da disciplina filosófica,
sem a qual esta última estaria amputada e incapaz de abordar e resolver
algumas das questões que a envolvem.
Para avançar em nossa pesquisa, proponho o seguinte método: vamos tentar ler uma série
de obras literárias, interpretando-as ou questionando-as como faríamos diante de
obras de filosofia, mantendo-se atentos às resistências, para determinar de onde elas vêm
provêm e descobrem assim a especificidade dos textos literários considerados em seu
função de pensamento.
O PENSAMENTO NA LITERATURA
Outono de 1997
Anúncio
A pesquisa proposta visa esclarecer essa questão, começando por estudar o modo
da expressão do pensamento nas obras geralmente classificadas como literárias, em
pensando, por exemplo, na reflexão moral em Molière ou Sade, ou na reflexão sobre os
152
estruturas da experiência humana em Proust, para depois chegar a textos de autores
conhecidos como filósofos (Rousseau, Nietzsche, etc.).
Voltaire, Cândido
Kundera, A Imortalidade
Introdução
XI- 1. Tema
Esse problema é naturalmente importante para conhecer a literatura e seu modo de pensar próprio,
supor que seja diferente do da filosofia. Mas isso é também para a
a compreensão da filosofia é importante saber qual é a relação entre esses dois modos
de pensar, assim como sua ligação ao respectivo tipo de expressão. De fato, em nosso
civilização, a filosofia se apresenta a nós sob a forma de textos, entre os quais não há
nem sempre é fácil traçar a fronteira que supomos entre a literatura e a filosofia,
como se vê pelo fato de que grandes figuras como as de Montaigne, de Pascal,
153
de Rousseau, de Kierkegaard, de Nietzsche, não parecem admitir serem classificadas segundo
esta divisão. Qual é então o seu pensamento? literário ou filosófico? Se essas maneiras de
pensar são realmente diferentes, é importante saber o que constitui a sua diferença para
interpretar os textos dos filósofos assim como os dos escritores. Deve existir por
consequente de modos de leitura diferentes que respondem à natureza diferente desses dois tipos
textos, e envolvendo modos de pensar diferentes também. É por essa razão que
eu situei esta questão da natureza do pensamento literário nos problemas que dizem respeito a
a interpretação das filosofias.
Qualquer que seja o grau de moderação, de nuance, com que são feitas, essas críticas
responder sobre a ideia de uma espécie de incompatibilidade fundamental (ou de compatibilidade muito
limitada) entre a filosofia e a literatura. E esta deve ter sua fonte na natureza de
essas duas atividades. Por que a literatura não deveria, portanto, pensar realmente? e
por que, nesta concepção, a filosofia deveria abster-se de usar inteiramente
os efeitos dos jogos de linguagem e da ficção? Parece que há por trás dessa divisão
a ideia de uma relação entre faculdades diferentes: para a filosofia, a razão, e para a
literatura, a imaginação. A distinção dessas duas faculdades corresponde também às duas
Monges diferentes que se supõem à filosofia e à literatura. A filosofia deve se dedicar
à procura e à expressão das verdades, enquanto a literatura deve divertir nossa mente e
tocar nossa sensibilidade com suas invenções. E como se supõe que a verdade é da natureza
teórica e abstrata, assim como a razão é a faculdade da abstração e da dedução
ideias abstratas umas a partir das outras, considera-se estranha ao seu objeto toda forma de
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pesquisa de efeitos sensíveis da linguagem e da imaginação. Pelo contrário, como se
considere a sensibilidade como algo mais concreto, que se liga às nossas emoções, e
portanto, senão à concretude objetiva, ao menos à realidade concreta da vida subjetiva, nós
julgue que é pela imaginação, que é justamente o movimento concreto da nossa sensibilidade,
seu jogo livre, que deve operar para tocar na literatura, enquanto todo recurso a
a abstração afasta a mente de seu fundo sensível, esfria-a e faz com que as obras falhem
literários seu efeito.
Certamente, essa divisão não é total. A capacidade de pensar não é completamente negada à
literatura, nem a capacidade de penetrar o mundo sentido, à filosofia. Mas espera-se da
filosofia que se interessa pela experiência, seja para uma clarificação racional, de
sorte que o material sensível de suas reflexões não deve organizar a forma de seu pensamento, nem
de sua expressão, a não ser na medida em que sua descrição, que apoia a teoria, a implica.
O filósofo se torna, nessa medida, escritor, recorrendo provisoriamente às figuras
literários, pela falta de poder expressar imediatamente em termos abstratos precisos os
verdades que ele quer extrair da experiência vivida. No entanto, espera-se que ele saia dessa etapa
para avançar em direção ao discurso racional abstrato. Quanto ao escritor, não se considera que
suas obras devem ser necessariamente fúteis e desprovidas de toda verdade filosófica.
Ao contrário, muitas vezes lhe atribuem uma espécie de intuição inspirada em verdades mais profundas
que aquelas que o filósofo pode compreender e explicar. Tem-se a impressão de que, justamente na
medida em que ele se mergulha completamente no mundo da imaginação e da sensibilidade,
o escritor encontra o acesso a verdades muito ocultas para que a razão possa compreendê-las. E é
mesmo porque poderemos ver nele uma marca de superficialidade na tentativa de
desenvolver argumentos de caráter filosófico. Na medida em que se dedica aos jogos de
A imaginação, o escritor é portanto também um explorador das verdades mais profundas de
a condição humana, e mesmo lhe será concedido ser ainda mais do que o filósofo.
Mas é com a condição de não querer jogar o filósofo, e de não tentar apresentar
em argumentos claros as verdades que ele sentiu, e que buscou captar nas malhas do
linguagem literária e da imaginação. Segundo os casos, se estimará que esse tipo de verdades
acessíveis à literatura são de uma natureza tal que devem escapar à filosofia,
ou bem pensaremos que a tarefa do filósofo consiste, na verdade, em parte, em retomar
essas verdades e submetê-las à sua análise, a fim de torná-las explícitas. De qualquer forma, ele
parece bem que, na medida em que o pensamento pertence à literatura e à filosofia, isso seja
nessas duas modalidades do explícito e do implícito reside a diferença entre o pensamento
literária e o pensamento filosófico. A literatura deve colocar o homem sensível em contato
provado, concreto, com a verdade de sua condição, sem explicá-la em uma linguagem explícita.
Ao contrário, o filósofo deve explicar claramente suas verdades, prová-las racionalmente,
em eliminar tanto quanto possível todos os aspectos mais obscuros que remetem à pura sensibilidade.
É assim, parece-me, que nossa cultura tende a perceber a diferença entre a literatura
e a filosofia, como entre dois modos de pensar muito diferentes, um ligado à sensibilidade
e à imaginação, estranho à abstração racional, o outro ligado à razão, destinado à pureza
das abstrações e das formas da lógica, inimiga da imaginação e da confusão
sensato.
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verdades literárias e as verdades filosóficas, pode-se pensar que as primeiras dizem respeito a
exclusivamente a condição humana como tal, enquanto os segundos se estendem a bem
outras coisas, como a questão da natureza do espaço ou da ciência. Mas esta
a distinção seria muito arbitrária, pois não há nada ao qual a filosofia não possa
interessar-se, e por outro lado a literatura também não permanece estranha a nada, na medida
mesmo, aliás, onde o homem não é estranho a nada e que tudo diz respeito à sua condição. Ele é
possível escrever um romance sobre o espaço ou sobre a ciência assim como sobre o amor. Resta
portanto, voltando à ideia de que é pelas maneiras de abordar os mesmos assuntos que a
a filosofia e a literatura se distinguem essencialmente, e portanto pela maneira como elas
colocam em relação com a lógica e a abstração, de um lado, com a vivência e o imaginário,
do outro. Ora, entre os quatro termos que eu selecionei para caracterizar esses dois modos
d'approche, dois parecem se relacionar a uma fonte de verdade originária, e dois parecem
presumir algo mais do qual eles se afastam. De fato, a lógica parece referir-se
a uma espécie de estrutura originária do universo, do pensamento ou do ser, que é impossível
de não reconhecer sem cair no erro, e a experiência parece constituir um fundo
autêntica da experiência que também é impossível de abandonar e desconhecer sem
cair na inconsistência. Em contrapartida, a abstração supõe uma realidade da qual ela retira um
aspect bem definido, mas que perde por isso toda a sua densidade, enquanto a imaginação faz
também baseia-se em uma experiência real, mas para trazê-la para o domínio irreal do
ficção. No entanto, se a abstração e a ficção compartilham um afastamento comum da verdade
concreto, é de maneira diferente. A abstração retém da realidade essencialmente os
aspectos esquemáticos pelos quais pode ser compreendida logicamente, enquanto que
a imaginação retém a riqueza sensível, mas desprovida dos laços lógicos que
organizam-na na realidade. É graças a essa esquematização lógica da experiência que a
a filosofia pode impor suas provas e convencer a razão. É graças à riqueza sensível
de suas imaginações que a literatura pode tocar, entusiasmar, seduzir o leitor e
treinar sua participação sensível. Em relação à nossa questão sobre a natureza do pensamento
literária em oposição àquela do pensamento filosófico, parece então que as vantagens
e as desvantagens da literatura e da filosofia sejam complementares, a literatura
aproximando a verdade de nossa experiência pela revelação de sua riqueza sensível que deve
negligenciar a filosofia, e esta distinguindo as estruturas lógicas que escapam à
literatura. No entanto, seus defeitos se compondo igualmente, não é possível reuni-los
para juntar seus benefícios, pois a abstração filosófica reduz a riqueza sensível, enquanto
que a imaginação literária não pode respeitar a rigor lógico sem se esterilizar. Nesta
perspectiva, parece bem que a literatura e a filosofia, embora complementares nesse
que eles evidenciem diferentes aspectos autênticos de nossa experiência, não possam
unir-se sem se destruir reciprocamente. E portanto, seria necessário reconhecer nelas dois tipos
de atividades das quais é preciso respeitar a separação.
156
para analisá-los, levaria a um nível de conhecimento mais geral e explícito. Não é-
não é à toa que muitos filósofos se referem às obras literárias como
a fontes que não fornecem tanto as verdades filosóficas em si, mas os materiais
sensíveis, as intuições ainda um pouco envoltas, que se tornarão os temas das análises da
razão? É assim que, por exemplo, os mitos muitas vezes foram vistos como percepções
ainda obscurece o que o pensamento filosófico iria descobrir claramente. Neste
concepção, a literatura aparece como a exploradora de um domínio ainda amplamente
inconsciente, da qual ela permite uma abordagem sensível, relativamente obscura aos olhos da
razão, em intuições sensíveis, enquanto a filosofia estaria mais limitada a
organizar rationalmente, em estruturas conceituais abstratas, uma ordem que em seu
fund lui échapperait.
157
é importante para a compreensão da filosofia saber qual é esse modo de pensamento literário
onde os interesses da filosofia estão envolvidos.
Para avançar em nossa pesquisa, proponho o seguinte método: tentemos ler uma série
de obras literárias interpretando-as ou interrogando-as como faríamos frente a
obras de filosofia, mantendo-se atentos às resistências, a fim de determinar de onde elas
provêm e de descobrir assim a especificidade dos textos literários considerados em seu
função de pensamento.
RÉVOLTE ET VIOLENCE
O primeiro dia do Cimeira das Américas em Quebec, e o primeiro dia das manifestações
contra este cume, enquanto havíamos concluído o imenso perímetro de segurança no meio da
ville, guardada como uma base militar nuclear, eu estava fazendo uma volta para ver a situação, captar
a atmosfera das manifestações, ouvir o que se dizia. Após um tempo passado nesta
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multidão colorida que muitas vezes dava à rua a aparência de um pátio de recreio, com balões,
papéis pequenos recortados e coloridos, sons de todos os tipos, de repente encontro grupos
em fuga, com o rosto contraído, chorando e tossindo, perseguidos por uma nuvem de fumaça branca
nauseabundo. Estou esperando um momento para que esse desagradável nevoeiro se dissipe, e eu retomo meu
marchas que me levam diante do teatro, onde uma multidão excitada agita-se, cantando, dançando,
brandindo bandeiras ao ritmo dos tambores. Eles estão agrupados um pouco mais adiante e eu
me engajo em observá-los em um lugar deixado vazio por não sei qual capricho. Mas eu...
saisis bientôt la raison quand des grenades lacrymogènes me passent par dessus la tête,
outros entre as pernas, e que me vejo obrigado a me retirar em direção ao grupo, descobrindo
em breve, atrás da cortina de fumaça, uma impressionante multidão de policiais equipados como
mergulhadores e também silenciosos como estátuas. Alguns manifestantes respondem com
ridículos jatos de caixas de cerveja vazias. Então, é uma pequena guerra, e era preciso entender isso
cantos e danças destinados a manter o moral das tropas dos manifestantes, dos quais
muitos estão de fato equipados com máscaras de gás, uma precaução útil nesta atmosfera
irrespirável. Eu observo um pouco e entendo a situação. Alguns gritam agora que eles
risquent de se faire encercler, parce qu’une troupe de policiers est apparue, sans un bruit, de
o outro lado do teatro. Imediatamente, um grupo de manifestantes os desvia e evita a
manobra.
Stranhamente, embora eu tenha vindo sem espírito belicoso, sinto-me imediatamente intensamente
solidário dos manifestantes contra essa massa de personagens blindados e de aparência quase
inhumana. eu me surpreendo com meu sentimento e tento analisá-lo, sem encontrar uma solução que
me satisfaz completamente. Por que este sentimento intenso, este movimento violento dentro de mim, que eu
desaprovo, no entanto, racionalmente? Eu ainda me represento a maneira diferente como eu
concebe a resistência política, sem apaziguar, no entanto, a minha raiva contra essa violência
policial. Eu ainda não entendo o que a motiva, porque, por exemplo, eu não tenho
estava ferido, nem mesmo gravemente atingido pelo ataque com gás.
Foi somente mais tarde que descobri a razão do meu ódio repentino por esse grupo de
policiais, enquanto, à noite, descendo para a parte baixa da cidade, eu pego o caminho que é
normalmente fiquei livre e que de repente me encontrei parado por uma fileira de policiais que
ele bloqueando fazendo literalmente uma barreira. Por que eles se colocaram neste caminho
e impedem as pessoas de descerem para a baixa cidade, longe do local das manifestações? Eu
quero perguntar a eles, mas a massa armada continua ameaçadora e silenciosa. Eu pergunto por
onde eu poderia passar, sem obter resposta, como se eu estivesse diante de uma máquina.
Reitero minha pergunta, um pouco irritado, mas sempre educado. E finalmente, um dos policiais se decide
me dar secamente o nome da rua por onde posso passar, com uma voz que quer ser firme,
mas permanece estranhamente pequena, como se estivesse em contrariedade em relação à ordem
onde se encontra preso o corpo invisível do homem. Pronto. Eu entendi. Agora eu tenho quase
piedade daquele que se aventurou a me dizer algumas palavras. E eu percebo que esta
uma massa anônima de policiais havia recusado até agora o contato por meio da palavra. Não me haviam
pediu para que eu saísse da frente do teatro, e não havia nenhum policial nesta rua
sem máscara para explicar às pessoas por que elas estavam barrando e por onde passar. Eu me
souvenais de ter encontrado ao longo do muro muitos habitantes da parte cercada que
não conseguiam fazer valer seu direito de passar, por não encontrar ninguém para lhes
responder. Desde o início, o relatório foi colocado de autoridade no nível da força bruta e toda
outra forma de comunicação tinha sido excluída. Eu me via tratado como um animal, de onde
minha raiva, que eu agora podia aprovar.
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Além disso, acontecia que esses guardas mudos defendiam uma conferência onde chefs de Estado
desdenhando de seus povos, tratavam em segredo com representantes do mundo dos negócios,
a melhor maneira de avançar os negócios de uma classe privilegiada impondo sua lei a
todas as Américas. Uma forma de afirmação da força bruta já se expressava nessas
caixas de som no meio da cidade, de frente para as populações cuja voz não era mais considerada pertinente
num debate onde se falava exatamente sobre aumentar a influência sobre as pessoas por meio de mecanismos
impessoais ao serviço dos mais ricos. De certa forma, já havíamos rompido o diálogo
para preparar um mundo onde não haveria mais espaço entre os poderes e o povo.
Até que ponto o Estado pode se mostrar violento diante de seus cidadãos, e até que ponto
O cidadão pode recorrer à violência em sua oposição ao Estado? Essa é uma questão que
se coloca certamente em nossa situação, e que, sem ser a única importante, é essencial
para nós.
Mas primeiro, como ouvir a violência? Todos nós temos uma sensação sobre isso, e nós
sabemos reconhecê-la quando somos agredidos ou quando atacamos alguém. Mas
é mais difícil conhecer seus limites, uns vendo violência onde outros não a veem.
não percebem. Portanto, para os fins da nossa discussão, vamos estabelecer a definição dessa noção.
Eu chamarei de violência a coação feita a alguém por meios que ele não reconhece.
como admissíveis. Assim, despojo a noção de seu caráter dinâmico, muito familiar bem
certo, que nos permite falar, por exemplo, de ventos violentos. A violência como eu a entendo
aqui deve violar uma consciência de sua justa liberdade em quem a sofre, e visar eventualmente
a esse vício (ou pelo menos admiti-lo) naquele que o comete. Dessa maneira, os graus de
a violência não dependerá da força empregada, mas do grau dessa violação — o fato de que
a violência, seja física ou verbal, exercida por um movimento brusco ou por uma pressão
regular, pouco importante em si. Notemos também que, se a violência implica uma coação,
toda constrição não é violenta como tal, quando não se exerce de uma maneira
inadmissível para as pessoas envolvidas. Um soco pode ser muito violento na
rua, mas não no ringue. Mesmo que possa ser dito violento em ambos os casos, como brutal, ele
não é mais, no entanto, uma agressão inadmissível ou violenta em nosso sentido em uma luta de
boxe (embora ele possa se tornar isso novamente, se infringir as regras do jogo). Vamos enfatizar finalmente
o fato de que a violência, tal como a compreendo aqui, pressupõe normas a partir das quais a
a restrição é considerada admissível ou não. Essas normas podem ser regras explícitas,
mas também um sentido do que é normal para os indivíduos, um sentido do que pertence
normalmente na esfera de sua liberdade e que pode variar de uma cultura para outra assim como
de uma pessoa para outra.
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Quando os manifestantes se perguntam se vão manter uma atitude não
violento ou aceitar certas formas de violência, eles certamente não raciocinam apenas na única
dimensão que acabei de definir. Eles pretendem primeiro, eu sei, tomar posição em relação a
a certos usos da força bruta. Devem ou não permitir-se brutalidades tais como
atacar seus opositores, quebrar vitrines, incendiar carros, gritar insultos, ou se
contentar-se em vez de ações mais passivas ou suaves, como bloquear ruas com sua massa,
impor seus slogans aos ouvidos e aos olhos daqueles que não gostariam de conhecê-los,
ocupar mais ou menos passivamente os locais onde se exercem as atividades de seus adversários,
e assim por diante. E da mesma forma, os policiais agirão sem violência nesse sentido se se contentarem
de varrer silenciosamente o caminho das pessoas, de pegá-las educadamente sem agredi-las para seu
enfiar as algemas com um sorriso nos lábios, deslizar suavemente para uma camisa de força
com algumas palavras consoladoras e oferecer-lhes hospitalidade em uma cela limpa. Nenhum
dúvida que não sentimos, no entanto, quanta violência pode se esconder sob uma tal forma
de não-violência. E sob a tela da dimensão dinâmica da violência, não é ela
qual é a dimensão da violência que nos importa em prioridade no caso das oposições políticas?
na verdade, não se trata da violência do boxeador, mas da que eu também posso exercer
bem ao empurrar alguém para uma prisão enquanto me mantenho longe de qualquer gesto brusco, vívido, e
evitando cuidadosamente ferir minha vítima. E é na medida em que ela contém
frequentemente também uma violência neste sentido que a violência brutal importa no nosso contexto,
na medida em que ela é um sinal, incerto, na verdade. Matar ou ferir
alguém, por exemplo, é na maioria das vezes, embora não sempre, o violento também em
nosso sentido. E, por conseguinte, resolver-se a usar a violência é, geralmente, renunciar a
excluir a brutalidade, mas não necessariamente.
No entanto, se aceitarmos essa distinção, o que pode significar uma resistência não
violento? Seria, por exemplo, uma maneira de manifestar sua oposição sem invadir
a liberdade dos outros por meios não legítimos. Que eu impeça alguém de sair, impedindo-o
barrando a porta do meu corpo ou o desmaquiando, em ambos os casos eu lhe faço violência se esses
dois processos são condenados pela minha empresa. Certamente veremos uma diferença de grau entre
essas duas formas de violência, na medida em que uma é considerada mais condenável do que
o outro. Nessas condições, os atos de resistência ditos não violentos, como a ocupação de
terrenos ou de locais, não se opõem radicalmente ao uso da violência, mas se
contentente de a moderá-la. E como não há entre essa suposta não-violência e a violência
aberta que uma diferença de grau, elas não são de naturezas diferentes, como se gosta
à l’imaginer, mais elles glissent l’une dans l’autre sans solution de continuité. S’il y a une
oposição franca entre a protestação não violenta e a oposição violenta, portanto, precisamos de
colocá-la em um lugar diferente do que fazemos habitualmente.
Para traçar a fronteira entre as ações violentas e aquelas que não o são, eu precisaria
Conhecer as normas que permitem julgá-las. Mas admitamos que elas são bastante vagas.
Normalmente, exceto quando assumem a forma de regras ou leis. Nesses casos, é fácil
de julgar que o jogador que atinge seu adversário para modificar o curso de uma partida de xadrez,
o ladrão que arranca sua bolsa de alguém, cometeu uma certa violência. Mas é-
É violento, por exemplo, ultrapassar alguém em uma fila? Tudo depende da maneira como
isso acontece, e diferentes testemunhas da cena o julgarão de maneiras diferentes.
Uma vez que a violência no sentido em que eu procurei compreendê-la envolve um estupro, o caminho para a
definir pode ser talvez encontrar primeiro o que ela viola exatamente em suas vítimas. A
a visão mais comum nos levaria a pensar que é a integridade de seus corpos que está
o objeto. Um golpe fere. Apenas, eu já sei que é possível ferir alguém sem
161
violência no sentido que me interessa. Nesse caso, aceitei a possibilidade de ser ferido porque
que eu aceitei uma certa forma para outros agirem sobre mim que pode levar a isso
ferimentos. Eu me perguntava quais eram essas normas que diferenciam a violência do não-
violência, e elas poderiam parecer difíceis de definir. A razão parece estar no fato
qu'elles sont dependentes justamente dessa aceitação, que, ela mesma, não depende
provavelmente sem critérios fixos. Ao subir no ringue, aceitei receber socos
de poing, desde que me sejam dados respeitando certas regras, e por consequência
Eu aceitei as feridas que se seguiriam, mesmo que eu não as deseje, obviamente. Aqui está.
quem é claro. Mas o que determina essa aceitação da minha parte, naquele momento, enquanto
que outros também podem julgá-la inconcebível para eles? Há razões relacionadas a
meu caráter, à minha concepção pessoal da vida. Em outros casos, por exemplo em
minha recusa do assassinato como meio de liquidar os conflitos entre indivíduos de um mesmo
sociedade, eu poderia dar razões mais gerais, suscetíveis de serem aprovadas (e
efetivamente compartilhadas) pela maioria.
Principalmente, onde há regras explícitas, como aquelas que regem as lutas de boxe,
elas definem mais exatamente o que é aceitável ou não, e por conseguinte o que é
violento ou não na área de sua validade. Mas é ao entrar no jogo que eu aceito
de um bloco suas regras e me submeta a elas, conformando meus atos assim como meus julgamentos.
Assim, enquanto meu julgamento sobre o sentido das lutas de boxe depende de razões mais
pessoais, uma vez que me decidi a entrar no jogo, encontro-me dividido em
suas regras—ou mesmo em seu espírito—normas comuns com todos aqueles que deram esse passo,
E há agora entre nós, nesse sentido, uma certa objetividade na nossa discriminação.
do que é violento ou não.
Não acontece o mesmo neste grande jogo da vida em uma sociedade, ela mesma regulada por
leis precisas, por tradições mais vagas, por todo tipo de decretos emanados de seu
governo? Certamente, terei dificuldade em me lembrar de ter tomado a decisão de entrar em
este jogo. Eu me vi envolvido, treinado para jogá-lo, constantemente engajado nele, antes de tê-lo
mesmo eu consciência. Deve-se dizer que fui violentamente obrigado a isso desde minha infância? Pode-
não ser, na medida em que eu aceitava ingenuamente as normas que me eram incutidas. Sim
no entanto, na medida em que muitas vezes eu me recusava a me submeter, me revoltava e me via
contraindre violemment, ou seja, apesar da minha indignação contra a força que me era
imposta, contra os meios de me colocar em conformidade. Em resumo, é muito difícil para mim determinar a
apresenta a parte de violência que o meu adestramento envolveu em relação à parte de liberdade que tem
desenvolvi minha educação. É certo que uma das coisas essenciais que aprendi
neste grande jogo social, é que o julgamento final sobre o que são as normas determinantes
definir os limites da violência pertence ao árbitro instituído pela minha sociedade, e não a mim.
Nessas condições, a violência da sociedade contra mim é apenas aparente, enquanto isso
que ela respeite suas próprias normas, enquanto a que exerço sobre ela é real —ou,
se quisermos, uma é apenas subjetiva, a outra, objetiva. Em outras palavras, minha violência em relação
da sociedade e de suas autoridades nunca será legítimo, porque minha ação deverá se justificar
ao seu tribunal, e que então ou ela se revelará corresponder às suas normas e não ter sido
violenta que à primeira vista, ou então será condenada como injusta e propriamente violenta
para ter atacado a empresa de uma maneira que suas normas excluem. Não é essa a situação
em que se encontra o criminoso? Sua violência é condenada como criminosa, precisamente,
enquanto a violência repressiva da sociedade contra ele é louvada como justa. Mas seu ponto
de vista é totalmente negado? Não, pois é interessante notar que ele pode reagir para sua
parte de duas maneiras em face de sua condenação: ele pode adotar o ponto de vista objetivo e se
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arrepender mais ou menos, mas também pode persistir em seu próprio ponto de vista subjetivo,
recusar a condenação, e persistir na sua violência diante da sociedade continuando a recusar
suas normas. Na primeira atitude, ele deixa predominar nele o espírito da sociedade a
a qual ele pertence e que tem sobre ele a autoridade legítima, enquanto na segunda, ele afirma
ao contrário, a autonomia de seu espírito individual ou a prevalência nele do espírito de outro
comunidade, real ou ideal.
Não tenho agora algumas respostas para a minha pergunta? Eu me perguntava quando
O Estado podia ser violento em relação ao cidadão e, inversamente, o cidadão em relação ao Estado. Que
me diz a lógica sobre isso?
Mas a questão só está assim resolvida se eu não sair deste mundo de abstrações. Caso contrário,
como não ver imediatamente que, na realidade, o Estado força violentamente os membros de
a sociedade a se submeter às suas leis e a reconhecê-las como únicas legítimas, uma vez que
não admite que se possa entrar ou sair do jogo que impõe a todos aqueles que governa?
Certamente, na medida em que o cidadão se convence a entrar nesse jogo, essa violência desaparece,
mas há nesta convicção muitos graus, e ela é sem dúvida muito raramente inteira.
Quem pode se sentir cidadão de ponta a ponta, pronto para obedecer alegremente em tudo? Quase
pessoa em verdade. E, por consequência, o cidadão concreto não corresponde ao cidadão puro
abstrato, que não poderia contestar a autoridade do Estado sem se destruir. Em outras palavras, na
realidade, além do cidadão resta o homem, quero dizer não o humano, uma nova
abstração ainda mais etérea do que a outra, mas realmente um indivíduo concreto, inassimilável sem
reste pela comunidade, mantendo em si alguma autonomia e autoridade separada que o conduz
à contestar uma parte das normas de sua comunidade, em resumo, um indivíduo que mantém uma
disposição à violência, à delinquência ou ao crime.
Agora que sabemos que, no sentido em que eu também abordei a violência, esta diz respeito aos
relacionamentos entre o Estado e o indivíduo, voltemos ao aspecto principal da nossa questão. Como
podemos distinguir em que casos a violência é legítima de ambos os lados?
No caso da violência do cidadão contra o Estado, o caso é rapidamente resolvido. Ela nunca pode
ser legítimo, uma vez que é a autoridade social que representa o árbitro do que é justo ou não.
Ou, desse ponto de vista, a alternativa é simples: ou a ação do cidadão em relação ao Estado é
efetivamente considerada violenta pelos tribunais, e portanto é ilegítima, ou bem ela é
reconhecida como inocente, e ela não era realmente violenta. No que diz respeito a
a violência do Estado contra o cidadão, por outro lado, é preciso admitir que pode ser legítima
ou não, o que quer que se diga geralmente da autoridade política. De fato, sabemos que o Estado pode
estimar sua violência em relação aos indivíduos justificada pelo fato de que ele deve mantê-los em uma
atitude conforme às suas próprias leis, pela coerção se necessário. Assim, no confronto
entre o crime e o Estado, a violência é recíproca, embora apenas o crime seja ilegítimo.
É por isso que a condenação do criminoso pelo tribunal é justa, ao contrário daquela pelo
a qual o criminoso, pessoalmente, pode condenar a sociedade. Pois, por falta de
poder se referir às normas aceitas da sociedade, seu julgamento permanece puramente subjetivo e
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sem legitimidade. Mas existem outros casos em que a violência do Estado não tem a mesma
justificação. É de fato possível que o Estado cometa uma violência ilegítima contra
seus cidadãos, quando os submete a processos que são contrários às suas próprias normas e
podem se justificar de maneira mais ou menos convincente em relação a elas. Certamente, ele
Resta ainda o árbitro nessas matérias, e seus tribunais, por exemplo, podem tentar lhe
dar razão a favor e contra tudo. No entanto, não podem falhar nessa tentativa
de justificação? E então o Estado não pode permanecer culpado de violência contra seus cidadãos
em detrimento de sua própria tentativa de legitimação? Quando, por exemplo, um Estado concede a seus
cidadãos certas liberdades e as viola ele mesmo, sem razão imperativa suscetível de ser
aceita como tal pelas pessoas de boa vontade, como a sua violência poderia ser
ainda legítimo?
Nesse caso, a revolta violenta é permitida ao cidadão agredido? Parece que não se,
de qualquer forma, a violência do cidadão contra o Estado não pode se tornar legítima, porque ela
não pode se justificar a partir das normas comuns de sua sociedade. É de fato a critérios
mais individuais ou subjetivos que é preciso relacionar para compreendê-la, de modo que ela permaneça,
nesta medida, arbitrário. Inútil também nessas condições distinguir as ações de
resistência ilegais dependendo se são violentas ou não, na esperança de poder justificar
certas delas. Já vimos que todas são violentas e injustificáveis
objetivamente. Certamente, elas podem variar em seus graus de violência, que corresponderão a
mais ou menos aos graus de infração da lei, conforme sejam simples contravenções, ...
crimes mais c’est encore l’État qui fixe cette gradation, em tant que
é o único árbitro legítimo restante.
Esta conclusão é inevitável. Mas isso significa que a violência do cidadão não possa se
justificar absolutamente de nenhuma maneira? Seja! a violência do cidadão contra o Estado não pode
ser legítima na medida em que ataca a autoridade que poderia legitimá-la. Mas segue-se que ela
deve ser condenada em todas as circunstâncias, de todos os pontos de vista? Parece-nos difícil de
admiti-lo, porque nosso sentimento se opõe à espécie de negação do indivíduo que
resultaria de uma lógica tão extrema. E ainda assim, se ele recorrer à violência, não
não se encontra então na situação do criminoso? Sem dúvida. Mas eu percebi que se
este pode certamente se arrepender e aceitar sua condenação, ele também pode persistir em
contrário a se manter em seu próprio ponto de vista, e condenar por sua conta a Justiça que
o condenado. Esta obstinação pode isolá-lo completamente. Mas também pode ligá-lo
a outra comunidade, que a aprova onde a sociedade a condena. Neste caso, não encontra-
não há um meio de se fazer reconhecer, outras normas comuns às quais ele pode se
referir, em relação às quais pode justificar-se, como em um "outro mundo"? Mas este
são de vilões criminosos, e nós falamos de bravos cidadãos. E como pensar que um cidadão
normal, desejando o bem de sua sociedade e talvez até mesmo da humanidade (se ele é capaz
d’embrassar uma tão grande ideia), poderá se resolver ao crime? Para saber, vejamos o que
poderia levá-lo a adotar uma atitude de oposição violenta contra o Estado.
Este cidadão, de quem notei que é antes de mais nada um homem concreto, que é, entre outros
coisas, um cidadão, mas sem nunca poder se reduzir a isso, examinemo-lo. Cidadão, ele é
como membro da sociedade civilizada a que pertence, ou seja, como ele
compartilha também as normas comuns de sua sociedade e aceita se colocar em seu ponto de vista
para julgar o que é certo ou não fazer nesta sociedade. Isso não significa que ele
doive estimer que ces normes sont les meilleures possibles, mais il doit au moins pouvoir les
julgados aceitáveis em seu conjunto. É mais ou menos cidadão dependendo do quanto adere mais ou
menos a essas normas. Mas enquanto ele puder aderir o suficiente para viver segundo elas, sua
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a participação na comunidade permanece acima do limiar a partir do qual pode assumir seu
estatuto de cidadão. Mas o que ele fará se, ao contrário, certas normas de sua sociedade lhe
tornam-se totalmente intoleráveis? Ele obviamente não poderá mais viver de acordo com elas. E se ele as
recusa, se ele desobedecer, então ele cai abaixo do limiar e cessa de participar na
comunidade. Ele se vê, em suma, rejeitado porque se tornou intolerável para ele. E
agora, inevitavelmente, a restrição legítima que a sociedade usará para forçá-lo a isso vai
tornar-se para ele uma violência sofrida. Então, se ele não pode superar sua aversão por
modo de vida que lhe é imposto, aqui está ele bem forçado à violência a seu turno. Violência
ilegítimo, com certeza, mas inevitável.
Por essa violência, ele se excluiu da sociedade, isolado. O voicisans apoia, fora do senso comum.
Mais envisageons agora vários cidadãos acossados por esta reação pela violência que eles
sofre com parte de sua sociedade. Podem ser comunidades de oposição que se
formar, e que vão replicar à violência pela violência, sob todas as formas.
Continuemos e consideremos agora um número muito grande de cidadãos colocados nesta
situação pela violência de seu governo. Aqui está a sociedade de oposição que eles
O fortalecimento entre os excluídos pode se tornar tão importante ou até mais do que aquele que os exclui.
Onde estamos? Uma autoridade legítima que já não é reconhecida por uma parte.
sempre mais importante para aqueles que supostamente estão submetidos, e que começa a perder tanto seu
autoridade e sua legitimidade. Ela cria em si uma sociedade distinta, inimiga, que vai adquirir sua
propria autoridade, sua própria legitimidade - aos próprios olhos naturalmente, uma vez que ele seria
absurdo que ela pede a seus inimigos. Nesta guerra, a violência se tornará
normal, legítimo de ambos os lados.
Mas é apenas uma questão de número? De certa forma, o criminoso e a sociedade da qual ele
recusar a autoridade já se encontram colocados entre si nessa mesma relação. Cada um afirma seu
autoridade, e um não pode ser reconhecido ultimamente pelo outro sem se impor a ele pela
única violência. É o momento da irredutibilidade das autoridades, da impossibilidade de um
arbitragem entre normas opostas, da falência da discussão e da persuasão.
Inversamente, na medida em que uma autoridade se impõe pela violência, não admite que
sua legitimidade permanece limitada? Porque não é mais somente na medida em que ela se reivindica que ela
agit, mas bem se reivindicando de normas que lhe permanecem próprias em relação àqueles a quem
ela deve se impor violentamente. Mas essa violência não obriga suas vítimas a se
responder sobre elas mesmas? E, nesse sentido, é então uma violência antagônica que ela
provocar e que ela se condene a não poder mais julgar segundo uma norma legítima também
para aquele a quem ela alega se submeter. Sabemos que a violência do cidadão contra sua sociedade
desencadeia de volta aquela do Estado que deve intervir para puni-lo, mas se esquece mais
frequentemente a violência do Estado contra os cidadãos também provoca a deles, sob uma
forme ou outra. E mesmo, a partir de um certo limite, ela não deixa mais ao cidadão outra
escolha de se colocar frente ao Estado em uma tal relação de violência. Pois não é absurdo
por exemplo, querer impedir os famintos de roubar para sobreviver condenando-os, mesmo
à morte, uma vez que para não morrer, eles não têm outra escolha senão tentar roubar
apesar de tudo? E se é a ordem social que reduziu o ladrão à miséria, a situação que em
não exemplifica perfeitamente a maneira como a violência recíproca se gera
entre o Estado e o cidadão?
No entanto, eu sei bem que, nem de um lado nem do outro, me concederão a ideia de que, em
o confronto violento, não há mais justificativa absoluta para nenhum partido. Do lado do Estado,
geralmente se alegará possuir a legitimidade, não limitada a uma sociedade historicamente
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determinada, mas total, e teremos tendência a imaginar algum Deus para garantir isso, como
que a Democracia, o Direito, a Nação, em suma, o Estado em si mesmo em sua dignidade absoluta.
Do lado da resistência ou da revolução, agiremos da mesma forma, e nos reclamaremos da
Razão, da Humanidade, da Justiça, tudo isso se fundindo ao necessidade em uma só Trindade. Mas
esses processos são bons para os supersticiosos e os teólogos, que sacralizam uma ideia
como uma maneira de introduzir um ponto indiscutível, resumidamente como o meio de introduzir a
violência na discussão sem assumir a responsabilidade. De qualquer forma, esse procedimento
nos traz de volta ao mesmo ponto, aquele do arbítrio próprio do confronto violento. Porque
não importa que os diversos campos carreguem bandeiras com esses belos nomes abstratos antes
quais são os nomes próprios? De qualquer forma, duas interpretações opostas do que é reivindicado a
A razão ou a Justiça ou a Democracia podem não ser menos irredutíveis do que qualquer outra
que oposição de normas. Onde a razão convence efetivamente, permite a instituição de uma
autoridade legítima que reduz ao máximo a violência, absolutamente irreduzível, ou não é
ela mesma que uma divindade invocada para justificar a violência de cada parte que a ela se refere,
mais aos próprios olhos apenas.
Quando a resistência deve ser violenta? Que grau de violência é justificado? Eu não
não vejo que haja uma resposta de princípio. Se a violência do revoltar-se se justifica, é ou bem
de acordo com as normas legítimas, caso ela responda a uma violência obviamente contrária a elas,
ou bem segundo suas próprias normas, quando luta para impor novas. Em nenhum caso
não há sentido —exceto talvez tático— em pretender referir-se a princípios dotados
de uma legitimidade absolutamente universal.
Em particular, não vejo outro sentido que não seja o de uma artimanha, na melhor das hipóteses, ao que se nomeia
a desobediência civil. Embora possa alegar ser não violenta, é claro que é violenta
na realidade, uma vez que é por um delito qualquer que ela atrai a atenção, iniciando para
assim dizer a escalada da violência, mas mantendo-se nos graus inferiores da escala, de
maneira de sugerir e fazer temer a continuação da ascensão. Seus meios serão os mesmos
que aqueles do crime, dos quais ela desejará se distinguir pela intenção, considerada como essencial.
Em que ela deve diferir? No sentido de que, ao contrário do crime habitual, ela exige
de se fazer legitimar, ou seja, de ser justificada segundo as normas que ela mesma contesta. E
é para manifestar essa pretensão que o desobediente se entrega às autoridades, de modo a
assinar seu ato e ao mesmo tempo reconhecer o poder das autoridades legítimas sobre ele, à
sanção das quais ele se submete. Há uma atitude contraditória em relação à violência.
Por um lado, recorre-se explicitamente a meios proibidos para se fazer ouvir.
segundo as normas legítimas, e por outro lado, pretende-se renegar essa violência invocando os
boas intenções, a causa nobre em jogo, ou seja, as normas superiores e decretadas mais
legítimas ainda, em nome das quais se contrariaram aquelas da sociedade presente, às quais
não é concedida mais do que uma legitimidade histórica, inferior. Neste movimento contraditório, a
a primeira violência destina-se a manifestar o relativo desprezo pelas normas em vigor em nome de
aquelas do desobediente, e o retorno à obediência deve anular a violência pela submissão
às autoridades legítimas, mas supondo que estas saberão considerar a desobediência
como justificada pelos ideais que a motivaram, ou seja, esperando que a sociedade
aceitou reconhecer a superioridade das normas do desobediente. Longe de ver aí uma
de maneira corajosa de apelar à razão, não vejo neste procedimento mais do que uma maneira
de introduzir a violência no debate, submetendo-o a normas decretadas
arbitrariedade pelo desobediente como absolutamente superior às normas legítimas de sua
sociedade. E não é absurdo afirmar reconhecer as normas comuns, enquanto as ...
concorrente em nome de outros, não compartilhadas, mas decretadas ainda assim mais universais que os
premièras e significadas como justificando a violência em relação à sociedade ou comunidade
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real? Com certeza, é exatamente o que as crianças fazem, que desobedecem sem parar de
reconhecer a autoridade de seus pais, mas contando com sua indulgência, ou seja, em
soma, ao querer que eles obedeçam a sua vez...
Qual é a diferença em relação ao terrorismo, além da maior violência a que isso leva?
esse último? O terrorista também utiliza a violência ou o crime para se fazer ouvir. E ele
pretende também justificar essa violência pelo recurso a normas superiores às da
sociedade que quer despertar e converter. Por outro lado, ele não se entrega às autoridades e persiste.
assim em sua atitude violenta, sem pedir que fosse desculpada pela própria vítima,
não, a autoridade seria ao mesmo tempo reconhecida e negada. Ele assume, portanto,
responsabilidade pela sua violência, se ao menos, uma vez preso, ele não reivindica um tratamento de
favor em relação aos outros criminosos ao reivindicar seus ideais, uma vez que tal
a pretensão o precipitaria imediatamente nas contradições da desobediência civil.
Devemos concluir que toda oposição política deve ser violenta, quero dizer
politicamente violenta? Certamente não. As diversas formas de sociedades reconhecem ao cidadão
diversos meios legítimos de expressar suas críticas, e eles deixam livres uma quantidade de outros
que não foram nem previstas nem proibidas. Além disso, nas democracias, em particular, a luta
a política não assume mais frequentemente a forma de oposição entre o cidadão e o Estado. Ele tem
lugar em vez de entre diversos grupos na sociedade, que tentam fazer prevalecer sua maneira
particular de ver—incluindo quando esta contradiz os princípios da democracia e
tende, portanto, a substituir por outra ordem. Nesta luta, pode haver violência entre os
divers partis. Mais pour en juger, il faut voir à chaque fois de quel point de vue elle est perçue.
Cada partido tende a considerar suas normas como as únicas verdadeiras e, portanto, a considerar que o que
As infrações constituem uma violência, mesmo que não apareçam como tal segundo as normas.
o outro. No entanto, ainda há a possibilidade de decidir com base nas normas legítimas, das quais o Estado
é o árbitro, se uma ação é violenta ou não objetivamente em tal sociedade politicamente
organizada. E se o Estado chegou a tomar um partido que exclui o outro ao ponto que este não
não pode mais reconhecer sua arbitragem, é então que se torna mais urgente nossa pergunta sobre a
violência entre o Estado e o cidadão.
Gilbert Boss
167
Sujeitos do exame do ensino médio geral 2000: série L, ES, S.
Série L (2000)
3/ texto de Bergson
O pintor está diante da sua tela, as cores estão na palete, o modelo está posando; nós vemos
tudo isso, e também conhecemos a maneira do pintor: prevemos o que aparecerá
na rede? Temos os elementos do problema; sabemos, de um conhecimento
abstrato, como será resolvido, pois o retrato com certeza se parecerá com o modelo e com certeza
também ao artista; mas a solução concreta traz consigo esse imprevisível nada que é o
tout da obra de arte. E é esse nada que leva tempo.
Bac ES (2000)
[Rousseau, _Emile_]
A inclinação do instinto é indeterminada. Um sexo é atraído pelo outro, eis o movimento
168
da natureza. A escolha, as preferências, o apego pessoal, são a obra das luzes*
preconceitos, do hábito; é preciso tempo e conhecimento para nos tornarmos capazes
do amor, amamos apenas depois de julgar, preferimos apenas depois de comparar. Esses julgamentos
surgem sem que nos apercebamos, mas não são menos reais por isso. O verdadeiro amor, afinal
que se diga, sempre será honrado pelos homens; pois, embora seus ímpetos nos
égarent, bem que não excluem do coração que o sente qualidades odiosas e mesmo que ele em
produzir, supõe-se sempre estimáveis sem as quais estaríamos fora de estado de
o sentir. Esta escolha que se coloca em oposição com a razão vem dela; fizemos amor
cego porque ele tem olhos melhores que os nossos, e vê relações que nós não vemos
podemos perceber. Para quem não tivesse nenhuma ideia de mérito nem de beleza, toda mulher seria
também é bom, e a primeira vinda seria sempre a mais amável. Longe de que o amor
vem da natureza, ele é a regra e o freio de seus impulsos.
J.J. Rousseau
Nota
A obra das luzes: a obra da razão.
Série S (2000)
3/ Texto de Bergson
Se [...] as formigas, por exemplo, têm uma linguagem, os sinais que compõem essa linguagem
devem ser em número bem determinado, e cada um deles deve permanecer invariavelmente ligado, uma
uma vez a espécie constituída, a um certo objeto ou a uma certa operação. O signo é aderente a
a coisa significada. Ao contrário, em uma sociedade humana, a fabricação e a ação são de
forma variável, e, além disso, cada indivíduo deve aprender seu papel, não estando predestinado a ele
por sua estrutura. Portanto, é necessário um linguagem que permita, a todo momento, passar do que sabemos
à ce qu'on ignore. Il faut un langage dont les signes - qui ne peuvent pas être en nombre
infini - sejam extensíveis a uma infinidade de coisas. Essa tendência do signo humano a se
transpor de um objeto para outro é característica da linguagem humana. Observa-se isso no
pequena criança, desde o dia em que começa a falar. Imediatamente, e naturalmente, ela expande o sentido
palavras que ele aprende, aproveitando o contato mais acidental ou o mais distante
analogia para soltar e transportar para outro lugar o sinal que havíamos preso diante dele a um
objet. "N'importe quoi peut désigner n'importe quoi", tel est le principe latent du langage
infantil.
Fomos errados ao confundir essa tendência com a capacidade de generalizar. Os animais eles-
mesmos generalizam, e aliás um signo, ainda que instintivo, representa sempre, mais ou menos,
um gênero; O que caracteriza os sinais da linguagem humana não é tanto sua generalidade
que sua mobilidade. O sinal instintivo é um sinal aderente, o sinal inteligente é um sinal
móvel.
evolução criadora, pp.158-159 (Edição do Centenário: p.629)
169
Os temas do Bac 2000
Série L (2000)
3/ texto de Bergson
O pintor está diante da sua tela, as cores estão na paleta, o modelo posa; nós vemos
tudo isso, e nós conhecemos também a maneira do pintor: prevemos o que aparecerá
na rede? Possuímos os elementos do problema; sabemos, através de um conhecimento
abstrato, como será resolvido, pois o retrato certamente se parecerá com o modelo e certamente
também ao artista; mas a solução concreta traz consigo esse imprevisível nada que é o
tout da obra de arte. E é esse nada que leva tempo.
170
Bac ES (2000)
Nota
A obra das luzes: a obra da razão.
Série S (2000)
Texto de Bergson
Se [...] as formigas, por exemplo, têm uma linguagem, os sinais que compõem essa linguagem
devem ser em número bem determinado, e cada um deles deve permanecer invariavelmente vinculado, uma
uma vez que a espécie está constituída, a um certo objeto ou a uma certa operação. O sinal é aderente a
a coisa significada. Ao contrário, em uma sociedade humana, a fabricação e a ação são de
forma variável, e, além disso, cada indivíduo deve aprender seu papel, não estando predestinado a isso
por sua estrutura. Portanto, é necessário um idioma que permita, a qualquer momento, passar do que sabemos
ao que ignoramos. É necessário uma linguagem cujos sinais - que não podem ser em número
infini - sejam extensíveis a uma infinidade de coisas. Essa tendência do signo humano a se
Transpor de um objeto para outro é característico da linguagem humana. Observa-se isso em
pequena criança, desde o dia em que começa a falar. Imediatamente, e naturalmente, ela expande o significado
das palavras que ele aprende, aproveitando o encontro mais acidental ou o mais distante
analogia para soltar e transportar para outro lugar o sinal que tínhamos amarrado à sua frente a um
171
"Qualquer coisa pode designar qualquer coisa", esse é o princípio latente da linguagem
infantil.
Nós erramos ao confundir essa tendência com a capacidade de generalizar. Os animais eles-
mesmos generalizam, e aliás um sinal, mesmo que instintivo, representa sempre, mais ou menos,
um gênero; O que caracteriza os sinais da linguagem humana não é tanto sua generalidade
que sua mobilidade. O sinal instintivo é um sinal aderente, o sinal inteligente é um sinal
móvel.
evolução criadora, pp.158-159 (Edição do Centenário: p.629)
Série L (2000)
3/ texto de Bergson
O pintor está diante de sua tela, as cores estão na paleta, o modelo posa; nós vemos
tudo isso, e conhecemos também a maneira do pintor: prevemos o que aparecerá
172
na rede? Nós possuímos os elementos do problema; sabemos, de um conhecimento
abstrato, como será resolvido, pois o retrato provavelmente se parecerá com o modelo e com certeza
também ao artista; mas a solução concreta traz consigo esse imprevisível nada que é o
tout da obra de arte. E é esse nada que leva tempo.
Bac ES (2000)
Nota
a obra das luzes: a obra da razão.
Série S (2000)
3/ Texto de Bergson
Se [...] as formigas, por exemplo, têm uma linguagem, os sinais que compõem essa linguagem
devem ser em número bem determinado, e cada um deles permanecer invariavelmente ligado, uma
vez a espécie constituída, a um certo objeto ou a uma certa operação. O signo é aderente a
a coisa significada. Pelo contrário, em uma sociedade humana, a fabricação e a ação são de
forma variável, e, além disso, cada indivíduo deve aprender seu papel, não estando predestinado
173
por sua estrutura. Portanto, é necessário um idioma que permita, a qualquer momento, passar do que sabemos
à ce qu'on ignore. Il faut un langage dont les signes - qui ne peuvent pas être en nombre
infini - sejam extensíveis a uma infinidade de coisas. Essa tendência do signo humano a se
transpor de um objeto para outro é característico da linguagem humana. Observa-se isso em
pequena criança, desde o dia em que começa a falar. Imediatamente, e naturalmente, ela amplia o significado
des palavras que ele aprende, aproveitando o acercamento mais acidental ou o mais distante
analogia para soltar e transportar para outro lugar o sinal que tínhamos amarrado diante dele a um
"Qualquer coisa pode se referir a qualquer coisa", esse é o princípio latente da linguagem.
infantil.
Tivemos erro ao confundir essa tendência com a capacidade de generalizar. Os animais eles-
mesmo generalizam, e aliás um sinal, ainda que instintivo, representa sempre, mais ou menos,
um gênero; O que caracteriza os sinais da linguagem humana não é tanto sua generalidade
que sua mobilidade. O signo instintivo é um signo aderente, o signo inteligente é um signo
móvel.
evolução criadora, pp.158-159 (Edição do Centenário: p.629)
Série L
como um aparelho de violência e opressão que deve ser eliminado segundo os anti-
jurídico que lhe permite viver e agir na ordem e na segurança. Para terminar, lembremos
que existem vários regimes políticos, mas hoje em dia, o mais desejável é o Estado
Parlamento e quem vota as leis), do poder executivo (que aplica a lei e que é atribuído ao
governo) e do poder judicial (que resolve os litígios e que pertence aos tribunais).
Ética e política
que defendeu a separação desses poderes em sua obra, Do espírito das leis.
114
concebe e não se entende menos do que a que afirma que existe. O caso é diferente para
as ciências propriamente ditas. Toda proposição que não é verdadeira lá é confusa e
ininteligível. A raiz cúbica de 64 é igual à metade de 10, é uma proposição
falsa e nunca podemos concebê-la distintamente. Mas César nunca existiu, ou
o anjo Gabriel, ou qualquer ser, nunca existiram, talvez sejam propostas
falsas, mas podemos concebê-las perfeitamente e elas não implicam nenhum
contradição. Portanto, só podemos provar a existência de um ser por argumentos derivados
de sua causa ou de seu efeito; e esses argumentos se baseiam inteiramente na experiência. Se
nós raciocinamos a priori, qualquer coisa pode parecer capaz de produzir qualquer coisa. A
um chute de um galet pode, para o que sabemos, apagar o sol; ou o desejo de um
homem governa os planetas em suas órbitas. É somente a experiência que nos
aprenda a natureza e os limites da causa e do efeito e nos capacite a inferir
a existência de um objeto a de outro.
HUME, Investigação sobre o entendimento humano.
Exemplo de assunto de
comentário de texto
Explique e discuta o seguinte texto:
«Exceto o homem, nenhum ser se surpreende com sua própria existência.
É uma coisa tão natural para todos que eles nem a notam.
pas. O homem é um animal metafísico. Da mesma forma, é ser
capaz de se surpreender com os eventos habituais e as coisas do
os dias; de se colocar como tema de estudo o que há de mais gén
e de mais ordinário. Enquanto o espanto da sábia não se
produzido apenas sobre fenômenos raros e escolhidos, e que tudo sou
o problema se resume a trazer esse fenômeno a outro mais conhecido
O espanto filosófico supõe no indivíduo um grau
superior de inteligência, embora não seja lá a uni
condição carro, sem dúvida, é o conhecimento das coisas d
a morte e a consideração da dor e da miséria da vida que
dando o maior impulso ao pensamento filosófico e à
a explicação metafísica do mundo. Segundo eu, a filosofia
de nossa surpresa sobre o mundo e nossa própria existência
que se impõem como um enigma cuja solução não cessa desde então
de preocupar a humanidade.
Arthur Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação
representação
CORRIGE
Lintrodução
a ideia geral: ela diz respeito à origem da filosofia.
A articulação formal do texto: este texto pode ser dividido em duas partes:
176
2eparte: do "espanto filosófico" até o fim: as condições de
o espanto filosófico
Le desenvolvimento
A fase de explicação:
A fase de discussão :
Que o homem seja o único ser a se espantar não significa que ele seja o único animal.
inteligente. Schopenhauer impregnado desse debate no século XIXeséculo reconhece
implicitamente que os animais também têm uma inteligência embora não seja adequada
a se elevar até o nível da surpresa. Portanto, o homem é o único ser a ter uma
inteligência capaz de levá-lo ao espanto.
Luma conclusão
177
Podemos reter que, segundo Schopenhauer, a filosofia encontra sua origem em
o espanto. Melhor, sem espanto não há mais filosofia. No entanto, ele distingue
o espanto do filósofo e do cientista ao estabelecer condições sem as quais isso
o nascimento é impossível. Confirmando que o homem é o único ser a se maravilhar, não se pode
no entanto, nos impede de notar que nem todos os homens se surpreendem.
A obra se abre com a questão de Ménon sobre a possibilidade de adquirir a virtude, possibilidade que se
encontre o número 4:
- pelo exercício (ou seja, pela prática)
- pela educação
- pela natureza
- por outro caminho
Se as 2 primeiras métodos parecem óbvias, as 2 últimas exigem
precisão. Assim, deve-se entender por natureza como inerente ao homem particular (próprio à sua natureza
particular). A última, por outro caminho, pode ser entendida como tudo que não corresponde a um dos 3
outras possibilidades.
No entanto, face a essa questão que o pressiona a determinar a origem da virtude, Sócrates devolve a pergunta a
seu interlocutor. Antes de descobrir sua origem, é preciso saber o que se procura.
Daí o primeiro problema que se apresentará: a questão da definição da virtude (problema levantado por Sócrates).
Primeiro de tudo, poderia parecer que Ménon, através dessa questão da aquisição da virtude, estaria buscando ...
melhorar, tornar-se mais virtuoso (no sentido que o termo possui hoje, ou seja, mais moral).
No entanto, quando Ménon pergunta a Sócrates se a virtude pode ser ensinada, ele o entende sem nenhuma dúvida no
sentido da virtude como era concebido em Atenas na época, como a primeira definição mostra aliás
o que dará Ménon (a virtude do homem é bem dirigir a cidade). A partir daí, esta primeira pergunta para
Ménon é antes de tudo um pedido feito a Sócrates para ensiná-lo a ser mais poderoso.
Além disso, com esta pergunta, Ménon deseja se colocar numa posição de aluno em relação a Sócrates, para que
este último lhe transmite seu saber à maneira dos sofistas. Vemos aqui um esboço da concepção de
o ensino para Ménon, concepção que o levará ao constrangimento na passagem da arraia-torpedeira.
-Finalmente, a resposta de Sócrates mostra uma transição para uma outra forma de ensino, aquela que Sócrates considera ao
através da dialética. No entanto, essa mudança será compreendida por Ménon como uma mudança de papel, o
colocando um no status de professor e Sócrates no de aluno.
Ao término dessas primeiras réplicas, todos os elementos da incompreensão futura de Ménon já estão
presentes, mesmo que realmente não apareçam a Ménon até o momento da comparação que ele fará entre Sócrates
e uma raiá-elétrica.
I) Definições da virtude
A) Primeira definição de virtude: a virtude difere de acordo com o indivíduo
178
A primeira réplica de Ménon («e bem, isso não é difícil de dizer») em resposta à pergunta
de Sócrates é reveladora do preconceito do qual Mênon levará muito tempo para se livrar e que o
desaparecendo fará com que Ménon compare Sócrates a uma arraia-torpedo. É porque ele não vê a
dificuldade da definição da virtude que Ménon se pergunta imediatamente sobre sua
ensino. Da mesma forma, esta réplica mostra bem o caráter suficiente do personagem, que
rebaixa Sócrates ao nível de um simplório, uma vez que este último não sabe nem mesmo algo que
não é difícil de dizer.
Assim, a primeira definição dada por Ménon é a seguinte: a virtude é própria a cada
indivíduo e a cada atividade.
Ménon distingue aliás 2 exemplos principais de sua definição:
a virtude do homem
a virtude da mulher
A virtude para o homem, tal como a define Mênon, corresponde mais ou menos à ideia de que os
os gregos se faziam de arête, considerada aqui como virtude cívica e política («ser capaz
d'agir nos negócios de sua cidade"), à qual se adiciona uma ideia mais recente no pensamento
grega, aquela de um dever em relação aos seus entes queridos (não se deve, no entanto, ver isso como uma
consideração moral, mas sim uma relação de equidade nas relações.
Da mesma forma, a virtude da mulher é reduzida ao seu papel conforme concebido pela sociedade
atenienses.
No entanto, Ménon comete aqui um primeiro erro (que ele reiterará posteriormente), aquele de
confundir uma virtude com a virtude.
A resposta de Sócrates fará surgir esse erro ao propor uma analogia
concreto: o exemplo da abelha.
Assim, assim como para a abelha, são outras qualidades que os diferenciam, da mesma forma
para a virtude, são qualidades diferentes da própria virtude que fazem as virtudes
diferentes. Deve haver, portanto, uma forma geral que corresponda à virtude em geral, essa
não Sócrates pedia a definição.
179
No entanto, essa boa direção só é possível se tiver2 outros
qualidades: a temperança (ou seja, a capacidade de se autodisciplinar) e a justiça.
Ou, essas qualidades são necessárias em todos para que cada um desenvolva a virtude, portanto é ...
que a virtude em sua forma é idêntica em todos.
Daí a necessidade de uma nova definição, que ultrapasse a
primeira erro de Ménon.
INICIAÇÃO AO COMENTÁRIO
DE TEXTE HISTÓRICO
O comentário ou a explicação de texto histórico é uma prova destinada a verificar a
capacidade do aluno de utilizar seus conhecimentos para interpretar documentos ou os
comparar de forma correta e judiciosa. O comentário pode ser livre ou direcionado e os
Os alunos podem se inspirar na seguinte abordagem.
I. As precauções preliminares
1. A numeração do texto
A exceção do título, o texto deve ser numerado, linha por linha. (Atenção: uma linha
duma palavra conta para uma linha). Assim, as passagens citadas no comentário podem
ser facilmente identificados.
2. As leituras
180
XVII século, o texto é uma tradução?...), sobre o estilo do texto (é fácil ou
difícil de entender ?), sobre o tom do texto (firmeza, conciliação ou persuasão).
A apresentação do autor
Ele especifica o nome, a data e o local de nascimento, a nacionalidade, sua carreira, sua profissão,
sua opinião, ou seja, as ideias que defende. Ele foi ou não testemunha dos acontecimentos que ele
conte? Se o autor não é conhecido ou se seu nome não está no final do texto, ele não é
necessário fazer sua biografia
A apresentação do texto e do autor não deve exceder 06 linhas. Nesta parte, nós
deve responder às perguntas: Do que se trata? De onde vem o texto? Quem fala no texto?
Sobre o que ele fala? E como?
Contexto histórico
Não se deve nem parafrasear o texto, nem traí-lo pela introdução de comentários estranhos.
nas questões que ele menciona, nem desmontá-lo parágrafo por parágrafo. É preciso simplesmente
manter o essencial da substância histórica e conseguir dar um resumo denso e
preciso.
O plano
Seu objetivo é esclarecer a abordagem que o aluno pretende seguir para conduzir seu
comentário. Identificamos os interesses e o título de cada um.
2. O comentário propriamente dito
O plano elaborado pelo aluno deve servir para fazer o comentário que deve partir do texto e
voltar para ele. Preferimos o comentário por centros de interesse ou ideias principais ao comentário
lineares que estão cheias de repetições. As ideias podem estar dispersas no texto, então é preciso
reorganizar por centros de interesse
O comentário baseia-se em uma utilização do conhecimento:
- Ao citar o texto,
- Ao explicitar os trechos citados do texto pelo curso com fatos históricos precisos,
- Em discutindo, se necessário.
É preciso evitar explicar o documento sem se referir a ele, tomar o texto como ponto de partida.
início de uma apresentação geral sobre o tema (dissertação fora do texto).
3. Conclusão
181
AQUI ESTÁ UM EXEMPLAR DE TRABALHO SOBRE UM TEMA
Filosófico sobre a filosofia de
O ABSURDO
EXPOR
PLANO :
INTRODUÇÃO
I. O NÃO SENTIDO DA VIDA
a) O sentimento do absurdo
b) Definição do absurdo
II. O ABSURDO EM SI MESMO
a) A revolta
b) A liberdade
c) A paixão
INTRODUÇÃO
Publicada em 1942, O Estrangeiro conta a história de um jovem rapaz, Meursault, vivendo na Argélia.
Depois de receber um telegrama que lhe anunciava a morte de sua mãe, Meursault encontra
182
Marie estabelece um relacionamento romântico com ela. Seu vizinho de andar, Raymond, teve um
problema com sua professora e árabes querem matá-lo. Durante um passeio na praia,
Meursault, Raymond e Masson lutam com os árabes, mas Meursault permanece à parte.
Raymond está ferido e sem um objetivo específico, Meursault volta para a praia com um revólver. Ele
encontrou o Árabe, e começando a sentir calor, atirou no Árabe e o matou. Meursault será
em seguida, julgado por cerca de 11 meses e, em seguida, condenado à morte.
Neste relato, Albert Camus nos questiona sobre a condição humana e sobre o absurdo. Camus
nasceu em Algiers em 1913. Ele é órfão de pai. Ele se torna jornalista e depois se orienta para a
literatura. Durante a guerra, ele dirige o jornal engajado Combat. Em 1947, ele escreve A Peste, em
1956 a Queda. Ele morre em 1960 em um acidente de carro.
I. O não-senso da vida
A vida vale a pena ser vivida? Para a maioria dos homens, viver se resume a "fazer os
gestos que o hábito comanda ». Mas o suicídio levanta a questão fundamental do sentido
da vida: «Morrer voluntariamente supõe que se reconhece, mesmo instintivamente, o
caráter risível desse hábito, a ausência de qualquer razão profunda para viver, o
caráter insensato dessa agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento.
a) O sentimento do absurdo
b) Definição do absurdo
183
Se essa noção de absurdo é essencial, se é a primeira de nossas verdades, toda solução do
o drama deve preservá-lo. Camus, portanto, rejeita as atitudes de evasão que consistiriam em
escamotear um ou outro termo: por um lado o suicídio, que é a supressão da consciência;
Por outro lado, as doutrinas situam os motivos e as esperanças fora deste mundo que
dariam um sentido à vida, ou seja, seja a crença religiosa ou o que ele chama de
«suicídio filosófico dos existencialistas» (Jaspers, Chestov, Kierkegaard) que, por
diversas vias, divinizam o irracional ou, fazendo do absurdo o critério do outro mundo, o
transforma em "trampolim da eternidade". Ao contrário, só dá ao drama sua solução lógica
aquele que decide viver apenas com o que sabe, ou seja, com a consciência de
o confronto sem esperança entre o espírito e o mundo.
«Eu tiro do absurdo, diz Camus, três consequências que são minha revolta, minha liberdade, minha
paixão. Pelo mero jogo da minha consciência, eu transformo em regra de vida o que era
convite à morte - e eu recuso o suicídio”. Assim se define a atitude do “homem
absurdo
a) A revolta
« Viver uma experiência, um destino, é aceitá-lo plenamente. No entanto, não viveremos esse destino, o
sabendo absurdo, se não fizermos tudo para manter diante de nós este absurdo atualizado por
consciência... Viver é fazer viver o absurdo. Fazer viver é, antes de tudo, o
olhar... Uma das únicas posições filosóficas coerentes é assim a revolta. Ela
é um confronto perpétuo do homem e de sua própria escuridão. Ela coloca o mundo de volta em
pergunta a cada um de seus segundos... Ela não é aspiração, ela é sem esperança. Esta
a revolta não é nada além da garantia de um destino esmagador, menos a resiliência que deveria
l'accompagner ». É assim que Camus se opõe ao espírito do suicida (que, de certa forma,
consentimento ao absurdo) aquele do condenado à morte que é ao mesmo tempo consciência e recusa de
a morte (ver epílogo de O Estrangeiro). Segundo ele, é essa revolta que confere à vida seu
preço e sua grandeza, exalta a inteligência e o orgulho do homem diante de uma realidade
quem o supera, e o convida a se esgotar e a se exaurir, pois sabe que "nesta consciência
e nesta revolta dia a dia, ele testemunha sua única verdade que é o desafio.
b) A liberdade
O homem absurdo deixa de lado o problema da "liberdade em si" que só teria sentido em
relação com a crença em Deus; ele não pode sentir nada além de sua própria liberdade de espírito ou
da ação. Até o encontro com o absurdo, ele tinha a ilusão de ser livre, mas era escravo de
o hábito ou preconceitos que davam à sua vida apenas uma aparência de propósito e valor. A
a descoberta do absurdo permite-lhe ver tudo com um olhar novo: ele é profundamente livre
a partir do momento em que ele conhece lucidamente sua condição sem esperança e sem futuro. Ele se
enquanto desdobra as regras comuns e aprende a viver "sem apelo".
c) A paixão
Conclusão
O absurdo não é a constatação de que o mundo é absurdo, mas a oposição, a permanente.
tensão entre a exigência de ordem e razão de um lado e, por outro lado, o espetáculo do desordem
e a injustiça que o mundo oferece. Assim, o suicídio que eliminaria essa tensão heroica deve
ser empurrada como uma demissão.
A arte é linda
Curso de Filosofia por Joseph Llapasset
Enquanto a ciência se esforça para produzir um conhecimento teórico justificado, enquanto a técnica se esgota em
apresentar processos de trabalho ou de produção que podem ser reduzidos ao saber fazer que desenvolve um
aprendizagem, a arte tem como função criar o belo: o único fim da arte é a obra, a beleza da obra.
Se confundirmos a ciência, a técnica e a arte é porque a matemática é bela, a técnica
não é mais, nos dias de hoje, que a aplicação da ciência, o artista utiliza necessariamente técnicas em
a produção de a obra.
Mas se considerarmos o objeto dessas disciplinas, para a matemática o objeto em geral, para a
técnica a realização de modelos performáticos, para a arte a realização do belo, é necessário
distinguí-los. Além disso, essa distinção aparece em plena luz no próprio nível da reflexão
como "retorno sobre": epistemologia para a ciência, filosofia moral para a técnica, estética
para a arte.
Com o espaço criador na Philagora
II. A NOÇÃO
Se a arte tem a função de criar uma obra e sua beleza, a estética, disciplina que reflete sobre a arte,
não pode evitar a questão: o que é o belo?
Isso equivale a perguntar: há um critério, um instrumento de reconhecimento da beleza? A estética se
comporte-se em disciplina filosófica sempre que busca assim a verdade, esforçando-se para ajustar
um discurso ao seu objeto e de encontrar um conceito que permitiria, ao determinar uma intuição sensível,
de emitir um julgamento de conhecimento sobre um objeto. Mas essa tentativa de reduzir o belo ao verdadeiro
se revela rapidamente um impasse do ponto de vista da beleza natural, o que não surpreende uma vez que o homem
185
não criou a natureza, como do ponto de vista da beleza artística, o que é mais surpreendente uma vez que
o artista parece ser o criador da bela obra.
A beleza natural
Se admitirmos que um critério (ou conceito) é universal em seu campo de aplicação, todos os critérios
de beleza natural (floresta, montanha, rocha, mar, rio...) propostos se revelam, todos, particulares: ora um
o instrumento de medida que medir apenas uma vez a cada duas deveria ser abandonado: assim a potência,
a grandeza, a pequenez, a harmonia por si mesmas não poderiam ter status de critério universal, pois a
o poder pode assustar (estamos longe da satisfação estética) a grandeza desencoraja e afasta
às vezes, a pequenez nem sempre atrai o olhar e até a harmonia de uma paisagem que pode cansar
por sua falta de graça.
Mesmo o acordo da natureza e de nossos sentimentos, longe de nos satisfazer, pode nos desolar e nos levar.
a fechar as persianas sobre este pôr do sol, que evoca a crueldade de um luto. Na verdade, não seria mais que um
critério subjetivo.
Quanto à aqueles que querem fazer da adaptação de um corpo à sua função um critério de beleza do corpo
biológico, eles confundem a beleza e a utilidade, a arte e a técnica, submetendo o belo a muitos
variações culturais em função do egoísmo humano: passaremos por formas generosas e fecundas
propriedades à reprodução na forma unissexe onde o semelhante ama o semelhante.
A beleza artística
Perguntar-se se a arte imita a natureza é dar a resposta na própria pergunta, uma vez que a arte é uma
produção e que a natureza é dada na intencionalidade de uma consciência ek-stática.
Se algo da obra é frequentemente emprestado da natureza, o belo está na diferença que a obra estabelece.
entre uma natureza dada e um mundo onde o espírito se sente em casa: da floresta aos pilares das catedrais, do
trevo dos campos com triângulo gótico, do corpo humano ao do atleta, do corpo da mulher à origem
do mundo de Courbet, há essa distância na qual surge o belo como uma surpresa.
A arte e o belo.
A eclosão do Belo no aqui e agora de uma obra faz dela um lugar, o lugar de uma
manifestação como surpresa, como aquilo que não poderia ser previsto por nenhuma regra de composição,
o que não se refere a um conceito, ou, se preferir, a uma espécie de arte poética. Isso apresenta um problema:
como o belo pode se manifestar em uma obra sem estar incluído na definição, o
conceito do qual ela deveria se ocupar?
Por exemplo: Seja uma bela mesa de fazenda: eu posso girar e revirar o conceito de mesa, examinar
todos os seus predicados, nunca tirarei do conceito de mesa a beleza de uma mesa: é que o conceito é
geral então que a bela mesa existe diante de mim de maneira original. Se me oferecerem outra a
o lugar, não é certo que eu aceite a troca. Mesmo que a bela mesa se enquadre no conceito de mesa, é
efetivamente uma mesa que eu posso usar, sua beleza não pode ser deduzida de seu conceito: esta mesa
me parece existir como uma realidade totalmente nova: a beleza estaria na diferença entre a essência ou
conceito e existência?
No entanto, diante da bela obra, eu faço um julgamento: é bonito. O que esse julgamento significa pode nos
esclarecer sobre a relação entre a arte e o belo. Esta relação é essencial, fundamenta-se em uma
característica próprio à um et à o outro?
Direc'est beauc'est reconnaître uma presença em uma obra: o julgamento afirma, parece que algo
chose da obra: em toda afirmação, há uma relação com a ideia de verdade. Nesse sentido, "O Belo é o
lugar das ideias" (Plotin). O juízo estético se apresenta como um juízo de conhecimento que
determinar uma intuição sensível por um conceito, ele se apresenta como universal, devendo ser compartilhado
por todos, e necessário, não podendo não ser. No entanto, não é um julgamento de conhecimento que
rattacherait uma intuição sensível a um conceito: este julgamento é sem conceito: de onde pode, portanto, provir isso
relacionado à verdade que afirma uma vez que não pode se provar ligando a intuição sensível a um conceito?
Seria uma opinião que traduziria necessidade ou desejo em conhecimento? O julgamento de gosto não é uma
opinião porque exclui a necessidade e o desejo: de fato, necessidade e desejo se preocupam antes de tudo com a existência
do objeto, de sua posição na realidade do aqui e agora, enquanto essa existência importa pouco
em uma representação: admiro a pintura de um sub-bosque de carvalho e pouco me importa que eu não possa
passar a obter madeira para me aquecer. Um nu representado exclui o desejo e sua satisfação. Pouco me importa
o modelo representado, que A Mona Lisa tenha sido uma mulher ou o reflexo de Vinci
O belo e a representação.
186
Quando se diz que uma obra é representação, pode ser no sentido de reflexo de um modelo natural dado
ou resultado de uma atividade original, de um estilo de uma maneira de ver. No primeiro caso, a representação
é uma imagem simples, o redobramento de uma aparência: o sensível é apresentado uma segunda vez (visto,
então reproduz). A representação torna-se então o resultado de uma dupla deformação, de uma dupla
cego: a imagem como forma sensível de uma coisa e a representação, a pintura dessa coisa.
A representação seria então a aparência de uma aparência sem que nada possa indicar nela o
coeficiente de deformação que ela carrega em si se o modelo nunca pode ser alcançado. Kant afasta isso.
primeira aceitação que faz da obra uma má pintura ao afirmar que a arte não está lá
representação de uma coisa bela. Ele afasta o problema da participação no Belo e centra a pesquisa
sobre a origem da representação: dizer que o belo é a bela representação de uma coisa é dar a
A arte é a característica essencial de ser uma atividade criativa com o objetivo de uma 'bela representação'.
Se a arte é a bela representação de uma coisa, ela visa a produção do belo que não pode pertencer senão a
o artista, de um estilo, de um gênio: isso equivale a fazer variar a essência mesma da representação: isso é bom
menos um esforço de reprodução do que um esforço de produção, de criação. A arte torna-se, portanto,
inseparável da obra bela. A representação pode bem designar então a figuração consciente de
a exterioridade ou a interioridade, mas em ambos os casos a sua verdade é a da subjetividade criadora.
O belo é, portanto, segundo a observação de Kandinsky, o que é belo interiormente. Isso significa que a arte
exprime o que se sente a si mesmo fora de qualquer distância, imediatamente: a bela representação não
seria, portanto, mais a pintura do visível, mas, se se pode dizer, a expressão do invisível, da interioridade,
do que nunca poderá ser visto. Isso significa que a subjetividade do artista constitui o "lugar" onde se
manifesta-se e realiza-se a verdade da arte. O conteúdo e a forma da obra pertencem à subjetividade
afranqueada do dever de representar uma natureza material morta que lhe preexistiria e lhe ditaria o
o conteúdo e a forma fazendo assim desaparecer o belo.
O belo só acompanharia a representação graças à "maneira", ao estilo do artista.
a representação é bela quando se torna expressão: o belo é uma forma determinada por um conteúdo
invisível.
É reconhecer o artista como capaz de uma atividade na qual a liberdade se orienta para a verdade
de um mundo novo no qual ele representa sua busca pelo infinito, onde ele reflete sua interioridade.
O belo não é, portanto, o lugar da regra, mas o lugar das ideias, de uma finalidade sem fim, irrecuperável por
os dogmatismos, como se a obra bela não tivesse outro fim senão ela mesma, símbolo da harmonia que
somente a liberdade compartilhada pode tecer na humanidade.
Pode-se dizer que o artista é o criador através do qual aparece um mundo de possibilidades que ele carrega dentro de si, aquele
da vida, do que se sente a si mesmo e dá forma à vida produzindo uma obra viva. Ele não
não copie a natureza (para que serve?), ele não abdica de nada porque o eu não pode se separar de si: ele dá a
vi em dando à luz a beleza, a vida da obra que se recolhe em si mesma em sua plenitude como se
o artista dava à ver o invisível.
Se o artista não imita a natureza, ele cria um mundo onde a vida é experimentada na jubilaçã compartilhada do
criador e apreciador. É por isso que o artista amplia nossa capacidade de admiração, ele nos faz
compreender a natureza povoando este "cadáver de Deus", reunindo os vivos.
Sem conceito, a beleza não se prova: a beleza não tem outro propósito senão ela mesma e, como a Vida, como
a existência, ela é gratuita, é um dom. Porque ela não tem outro objetivo além de si mesma, assim como a vida.
como um sonho de pedra?
=> Citações(link to open new window)
O belo é o que é representado, sem conceito, como o objeto de uma satisfação universal.
Crítica do julgamento p.46, Vrin
"O belo se define como a manifestação sensível da ideia." Hegel Estética, p.160, Flammarion
A arte tem sempre a função de criar um mundo onde o espírito se sinta em casa e que esteja à sua medida.
Delacroix Psicologia da arte p.161
187
O contexto do Ménon
Das palavras aos atos
O fio condutor doMénon
Aretê
Mas quem é Ménon?
Ménôn em plenas formas
Retorno a Larissa
Exterminador
Górgias, doutor emlogotipos
Sócrates, ofilósofo
Que história?
Noplano geral em sete tetralogiasque eu acredito encontrar para os diálogos feitos
como um todo, o Mênon é o diálogo introdutório da terceira tetralogia, aquela do processo
de Sócrates. Mais plus largement, cela ouvre un cycle, que l'on pourrait appeler le cycle do processo e de
a morte de Sócrates, que se encerra com a morte de Sócrates no final do Fédon, centro de gravidade de
o conjunto dos diálogoss (1). E nósteremos a oportunidade de voltar, nos comentários, sobre
as ressonâncias que existem entre o Menon e o Fédon.
188
passe de Parménide, através dos Górgias e seus emuladores, os Calicles e outros Menões, para um
Anytos que, ao não se dar ao trabalho de fazer a diferença entre um Ménon, ou um Górgias, e
um Sócrates, engana-se de alvo e conduz este último à morte acreditando servir a cidade,
justificando assim o «parricídio» que será necessário na ordem inteligível para libertar a
pensamento, e que será realizado pelo estrangeiro de Élée no Sophisvocê(5), peredundante, do outro lado
da tétralogia central da alma, da Apologia que vê a condenação à morte bem real de
Sócrates na ordem «visível».
Para introduzir a trilogia que explora na ordem visível o segmento das imagens, dos
ilusãoons(6), PPlatão nos propõe, no Protágoras, uma "imagem" de diálogo, um diálogo
narrado por Sócrates a um de seus amigos depois, em um longo monólogo do qual nós não temos
nenhum meio de saber se é uma imagem fiel do que ele representa. Para introduzir a
trilogia que explora o segmento das "realidades visíveis"(7), Platon nos mergulha diretamente
em uma conversa em andamento, sem a menor "encenação", e estamos reduzidos
a adivinhar tanto quanto possível a partir das palavras trocadas quem fala e onde se passa a cena.
E se o Hipócrates de Protágoras estivesse fascinado pelo prestígio associado ao qualificativo de sofista
não parece seu herói Protagoras sem nem mesmo saber o que se escondia por trás desse qualificativo,
Ménon, ele, não tem preocupação, ou finge não ter, apenas com a realidade de uma atividade,
o ensino da excelência, pelo qual ele pode já ter gasto
fortunas, se é verdade que, como se poderia pensar a partir das observações de Sócrates em
início e ao longo do diálogo, ele tenha seguido os ensinamentos de Górgias e tenha pago a ele-
mesmo suas lições (vernota 4). Onde Hipócrates não buscava muito mais do que um
verniz» (8)Ménão, sem perder seu tempo procurando o que ele coloca sob a palavra 'aretè'
(veja seções seguintes), claramente deseja uma receita para ter sucesso em seus empreendimentos,
receita que, como veremos, ele provavelmente acredita já ter encontrado graças a Górgias,
e à luz da qual ele pretende confortar a fraca opinião que tem de Sócrates, em quem,
com base em rumores que chegaram até a Tessália, sua terra natal, ele vê sem dúvida um professor
de « moral », mas de uma moral de fracos da qual ele não se importa...
Essa é a questão de Ménon que abre abruptamente o diálogo, deixando-nos supor que
pegamos a conversa em andamento, que não está no seu início. E essa questão voltará.
periodicamente na boca de Menon, sempre que Sócrates quisesse levá-lo a
outras pistas para aprofundar o próprio sentido da questão e que Ménon perderá a paciência.
Para entender bem o diálogo como um todo, é necessário esclarecer o que
podia significar para um grego da época de Sócrates a palavra maretè (deixada intencionalmente não
traduzido aqui por razões que vou explicar a seguir), e também, para apreciar
toda a ironia do diálogo, de saber quem era esse Ménon que faz a pergunta a Sócrates, e esse
Anytos que era seu anfitrião em Atenas e que intervém na discussão.
Aretè
Como acabei de dizer, todo o diálogo vai girar em torno do conceito de areté.
se tratar, a pedido de Sócrates, de começar por tentar, se não defini-lo, ao menos de
189
entender melhor, ou, sob a pressão constante de Menon, voltar ao problema de
saber se é algo que pode ser ensinado/aprendido. Vemos assim o risco que se corre
aprende a tentar traduzir esta palavra, ou seja, a se ver obrigado a escolher a cada uso de
este aqui entra em vários sentidos ao risco de apagar tudo ou parte do que, como veremos,
faz a ambiguidade constante da discussão entre Mênon e Sócrates.
Aretè é mais frequentemente traduzido por "virtude". Mas traduzir aretè por "virtude" é o melhor
meio, nos dias de hoje, de tornar incompreensível o diálogo, tanto o sentido desta palavra, quando se
a aplicação ao homem, é para nós intuitivamente limitada a um aspecto quase exclusivamente
moral, frequentemente colorido por vinte séculos de cristianismo, e serve até mesmo para alguns um
coloração um tanto antiquada. Ora, todo o problema do Menon é justamente o sentido que se deve
dar a esta palavra, muito aberta em grego, e atrás da qual Meno e Sócrates não colocam a
mesma coisa. Em grego, aretè designa de uma maneira geral aquilo pelo qual aquele a quem ou isso a
o que aplicamos à palavra excelle, que lhe dá seu valor, que lhe permite atingir a
finalidade para a qual a coisa é concebida ou, no caso de uma pessoa, o ideal que lhe é próprio
ou aquele da espécie. A palavra pode, de fato, se aplicar tanto a um indivíduo quanto a um membro
particular de uma espécie, que à espécie como um todo, ou ainda a uma coisa qualquer,
ferramenta, instrumento, etc., tomado individualmente ou coletivamente, até mesmo em relação a uma terra, em relação a
ao uso que se quer fazer dela (cultivá-la, construir uma cidade, engajar uma batalha, etc.).
De acordo com o contexto, pode ter um sentido limitado a uma perspectiva particular ou um alcance mais amplo.
geral. Assim, aplicado a um homem, pode significar a saúde, ou seja, a integridade do corpo,
ou, segundo outras perspectivas sobre o corpo, a beleza, a força, a agilidade, ou ainda, se se tem
mais sim a alma, a nobreza de caráter, a coragem ou, numa perspectiva mais global,
mas então e então somente, a virtude no sentido habitual da palavra em francês. Também se pode
qualificar estaaretèpara indicar em que perspectiva buscamos a excelência, como o
feito por exemplo Platão quando fala de politikè aretènProtágoras, 322e2-
323a1). Epoderemos então falar de aretai, no plural, para distinguir as diferentes formas
de perfeição visadas pelo homem segundo o contexto: poderá então qualificar-se de areté
especifique a coragem, a moderação, a prudência, a justiça, etc. Diante dessa multiplicidade de
sentido, vê-se bem que "virtude" só poderia servir como tradução se aceitássemos
tomar a palavra no sentido que ela tem quando falamos da virtude de uma planta medicinal ou de um
medicamento, esquecendo a dimensão quase exclusivamente moral que ele tem muito mais
frequentemente. Mas como não é possível se desfazer desse hábito, em vez de falar
de « virtude », seria mais prudente, se quiser a todo custo traduzir, falar de « excelência »
em toda parte onde o conceito grego de areté está em questão.
A areté do homem em geral, que é o objeto da discussão do Mênon, é, portanto, o que faz
que o homem é, em todo o seu esplendor, um Homem digno desse nome, o que lhe permite alcançar
o ideal do Homem. Discutir isso remete, portanto, ou deveria remeter, à questão de saber o
o que é ser um Homem, qual é esse ideal, e ao "Conhece-te a ti mesmo". Vemos
então como é perfeitamente possível que dois interlocutores atribuam o mesmo sentido a
aretè (no sentido de uma definição do dicionário), algo como «o que faz que uma
homem é um Homem", ou, para usar uma formulação mais grega, "o que faz com que um
homem é belo e bom (kalos kagathos)», sem necessariamente estar de acordo com o fundo, sobre o
conteúdo concreto do que faz um homem "belo e bom", sobre o que é o verdadeiro bem do Homem.
Aliás, poderíamos fazer um estudo da civilização grega antiga acompanhando a evolução
do conceito de aretê aplicado ao homem desde Homero até Platão e seus sucessores. Ora
traduirearetèpar « vertu », du fait des connotations que traîne immanquablement avec lui ce
mot para nós, é supor praticamente resolvido desde o início, o que é justamente a questão
que gostaria de examinar Sócrates preliminarmente e que não cessa de evitar Menon, aquela de
190
saber se essa excelência do homem que o torna um homem « belo e bom » é antes de tudo
de ordem moral e concerne sua «alma» ou se está mais do lado da beleza de seu corpo,
da abundância de seus bens, de sua aparência e de sua fama, de seu poder político ou
outra coisa ainda.
191
à la justice(hina adikôn mè didoiè dikèn). [22]Também, para realizar o que ele desejava,
estimava que o caminho mais curto era perjurar-se e mentir e enganar em tudo, a
simplicidade e sinceridade sendo na verdade a mesma coisa que a estupidez.[23]Por outro lado, de uma
por um lado, era visível que ele não tinha afeição por ninguém, e por outro lado, a quem pensava ser
filho amigo, começava a ficar claro que ele conspirava contra ele. E ele não zombava de nenhum de seus
inimigos, mas ele conversava sempre como se zombasse de todos que o frequentavam.
E não era em vista dos bens dos inimigos que ele conspirava; ele acreditava de fato que é
difícil de lidar com aqueles que estão em alerta; mas ele achava que era o único a saber que ele
é muito fácil pegar os dos amigos, uma vez que eles não estão em guarda.
aqueles que ele considerava perjuras e injustas (adikous), ele os temia como estando bem armados, então
que aqueles que eram honestos e praticavam a sinceridade, ele tentava se aproveitar disso, como
não sendo homens.[26]E assim como alguns se gloria em seu respeito pelos deuses,
de sua sinceridade e de sua justiça (dikaiotèti), Ménon por sua vez se glorificava de poder
enganar em tudo, forjar mentiras para seu próprio benefício, zombar de seus amigos; além disso,
aquele que não era astuto, ele sempre o considerava inculto. E em relação àqueles de quem ele
realmente se esforçava para se tornar o melhor amigo, ele considerava que era necessário para conseguir isso
caluniar seus predecessores. Ele também tramava conquistar a confiança dos soldados.
associando-se às suas injustiças (tou sunadikein autois). Para ser honrado e servido, ele julgava
apropriado provar que ele tinha em mais alto grau o poder e o desejo de cometer
a injustiça (adikein). Ele também considerava como uma boa ação, sempre que alguém
se afastava dele, por não tê-lo perdido pelo fato de que ele se servia dele. E ele é com certeza
permissão para se enganar a seu respeito em pontos não evidentes, mas o que todo mundo sabe,
é isto. De Aristipo, antes de mais nada, quando ele ainda estava no auge da idade, ele conseguiu
obter o comando de suas tropas estrangeiras; com Ariée depois, que era um bárbaro,
De fato, como ele gostava dos belos adolescentes, ele se tornou um dos mais íntimos; ele mesmo, afinal,
encore imberbe, tinha um bonitinho, Tharypas, que era barbudo. E então, quando morreram
seus colegas generais porque tinham feito campanha contra o rei com Ciro, embora ele
fez o mesmo, não morreu, mas foi após a morte dos outros generais que ele morreu
punido pelo rei, não como Cléarque e os outros generais tendo a cabeça cortada, o que
parece ser a morte mais rápida, mas dizem que ele encontrou a morte depois de viver um ano
maltratado como um malfeitor.
Este retrato pouco lisonjeiro de nosso Ménon é aquele que traça Xenofonte na Anábase. Neste
no seu livro, Xénophon conta as desventuras de um corpo expedicionário grego levantado por Ciro
o jovem, irmão mais novo do rei da Pérsia Artaxerxes, enquanto ele era sátrapa na Ásia Menor,
para tentar roubar o poder de seu mais velho. Ménon e Xénophon faziam parte de isso.
corpo, Ménon, que na verdade não tinha mais de 20 anos na época, como general do contingente
Tessália, Xenofonte como "companheiro", sem nenhum papel militar, de Proxeno, o
general do contingente Beócian.(10)Graças à ajuda deste contingente grego, as tropas de Ciro
conquistaram uma vitória sobre o exército de Artaxerxes que veio ao seu encontro, durante a batalha de
Counaxa (401 a.C.), em um local situado não longe de Babilônia, capital do império Persa
daí. Infelizmente! Ciro foi morto durante essa batalha, o que tirou todo o seu sentido.
vitória e colocava os gregos em uma situação por demais delicada. A maioria dos generais
gregos, ao tentar negociar com o sátrapa Tissapherne, um dos generais de Artaxerxes,
furent traiçoneiramente capturados e mortos. É como resultado disso que Xenofonte, com
alguns outros oficiais gregos, assumiu o comando do corpo de expedição e conseguiu fazê-lo
trazer de volta à Grécia após uma retirada de vários milhares de quilômetros em território inimigo e
inconhecido, aposentadoria conhecida como "aposentadoria dos Dez Mil", em razão do número de
soldados gregos no corpo expedicionário, e cujo relato ocupa a maior parte de
A Anábase. O retrato de Ménon é o último de uma série de retratos dos generais gregos que
192
Xénophon traça depois que ele veio contar sua captura e execução no dia seguinte a
a batalha de Counaxa. E ele deixa entender que, na verdade, Ménon pode ter tentado então
de se ganhar as favores de Tissapherne, e por ele de Artaxerxes, traindo seus compatriotas
e contribuindo para silenciar sua desconfiança e aceitar a entrevista onde foram capturados. Este
o que é certo é que Ménon não foi capturado e executado com os outros generais. (11)O
o retrato de Ménon segue, ao se opor, o de Proxène de Beóciae(12), lhôte de Xénophon.
Na obra de Xénofonte, é seu amigo Próxeno, e não Menon, que é apresentado como um aluno de
Gorgias, mas se, como Ménon, Proxène é dito buscar "uma grande renome, uma grande
poder e riquezas abundantes", no que lhe dizia respeito, segundo Xenofonte
sempre, «se ele desejasse fortemente essas coisas, era igualmente claro que ele não consentiria
jamais a adquiri-los pela injustiça (meta adikias), mas de maneira justa e bela (sun tô)
dikaiô kai kalô) que ele acreditava dever obter, não de outra forma ». O restante deste retrato o
mostra presa fácil para as intrigas de Menon, e pode-se pensar que Xenofonte busca a
desculpe a aparente implicação de Proxène com Ménon nas manobras para se ganhar
as boas graças de Tissapherne às quais se refereAnabásis, II, 5,38 e 41(embora a
o fim do retrato de Proxène sugere, sem dizer explicitamente, que ele pereceu com os outros
gêneros, ao contrário de Mênon). É possível que Xênofonte tenha escurecido o retrato que faz
de Ménon, mas não deixa de conter um fundo de verdade e, de qualquer forma, os leitores de
Platão tinha sem dúvida presente à mente este retrato de Meno quando liam nosso
diálogo.
Este desvio por Xenofonte nos mostra duas coisas: por um lado, que o ideal de renome, de
A riqueza e o poder não eram exclusividade de Ménon, mas eram compartilhados por muitos de seus
contemporâneos, incluindo aqueles que tinham estado em contato com Sócrates, como era o caso
para Xenofonte, que, de seu próprio avessou (Anábasis, III, 1,4-9), se juntou-se à expedição para de
razões semelhantes. O que uns diferiam dos outros, não é tanto o objetivo dele-
mesmo que os meios de lá chegar. Compreendemos melhor, então, a irritação de Ménon diante
a insistência de Sócrates em sempre retornar ao que lhe parece, a ele Meno, tão
universalmente aceito, mas também vemos porque devemos estar ainda mais atentos ao
papel, discreto e ainda assim fundamental para quem sabe ler nas entrelinhas, que desempenha a justiça em
a discussão entre Sócrates e Ménon, a justiça que se revelará ser a pedra de toque de
todas as definições do areté propostas por Ménon... Mas estamos um pouco melhor em medida
também apreciar todo o sal que há em encenar uma discussão sobre a excelência, que,
para Sócrates, há de fato a coloração moral que damos à palavra "virtude", com um
personagem tão pouco recomendável aparentemente quanto este Ménon, e teremos que, ao longo
da nossa leitura, ver se o Mênon de Platão é conforme, e até que ponto, à imagem que dele
dê Xénophon. Ou melhor, porque os personagens e os diálogos de Platão estão abertos a tantas
d'interpretações diversas que nunca se pode ter certeza das conclusões tiradas do texto por
« psicologização » dos interlocutores, ver se uma leitura mantendo em plano de fundo o retrato
de Xénophon conduz a uma compreensão mais rica do diálogo e a uma interpretação mais
coerente com o resto dos diálogos.
Um outro detalhe sobre Ménon, que pode não ser sem significado na interpretação
do diálogo, e isso, em vários níveis, merece ser destacado: menôn, a forma grega do
O nome de Ménon pode ser analisado e, portanto, compreendido de duas maneiras diferentes. Pode-se
por um lado, ver o particípio presente do verbo grecmenein, que significa "permanecer, ficar"
ser fixo, imutável, manter-se firme, de tal forma que poderia ser traduzido em francês por
« o imutável », ou mesmo « o teimoso », enfim, « aquele que nunca muda de opinião »! E veremos ao
193
fil da leitura do diálogo que, sob este ponto de vista, Mênon realmente merece seu nome e não
não muda muito de opinião em sua discussão com Sócrates. Mas também se pode ver o genitivo
plurais do termo menos, termo antigo usado em particular por Homerore(13)para designar
a « alma » do homem como princípio ativo, princípio de força, e portanto força pura,
vontade, ou ainda fonte das paixões, e daí as paixões elas mesmas, a ardência, ou mesmo a
raiva. Portanto, é um termo que está próximo de palavras como psique (alma), ao qual pode estar
associado, ou ainda thumos, a palavra que Platão usa para designar a parte intermediária da alma,
princípio da vontade. Nesta leitura, Ménon seria o homem das paixões, aquele que sabe o que
que ele quer.
Mas, além das consoantes que se pode notar entre o nome de Ménon e sua atitude
no diálogo, pode haver ainda outra razão que levou Platão a escolher este
interlocutor para o diálogo. Veremos, de fato, que a problemática das 'formas
(eidè/ideai) », ou seja, do que poderia haver de permanente, de estável, de imutável
(menôn) por trás das múltiplas instâncias de uma coisa como o areté, está no centro dos
debates, seja explicitamente procurando com Ménon "uma certa forma uma(hen ti
eidos) » comum a todas asaretai(72c7), ouainda escolher, para dar um exemplo de
o que Sócrates espera, o termeschèma(75b, mq.), dnós veremos toda a ambiguidade em meus
notas a esta seção do diálogo, e que, mesmo tomado em seu sentido "geométrico" de
"figura", é, na verdade, a imagem "matemática" da noção de eidos, ou finalmente, em
filigrana do exemplo das estátuas de Dédalo tomadas para diferenciar as opiniões dos
ciências(97d, sq.), de nos incitar a refletir sobre o que realmente faz o homem, seu
« aparência » reproduzível por um bom escultor ou um eu mais profundo que não se deixa
ver com os olhos... Escolher como título de um diálogo como esse um nome que possa ser lido
« O imutável » não deixa de ter um certo sal !...
Retorno a Larissa
Um outro elemento da biografia de Ménon merece que paremos para apreciar os sub-
entendidos de certas partes do diálogo. Os historiadores não concordam sobre a cidade da qual
era oriundo Ménon : se Platão não nos diz nada sobre sua cidade de origem, e apenas deixa entender
que ele é tessaliano, assim como Xenofonte, que o introduz nas Anábases sob o nome de
Ménon da Tessália(Anabase, eu, 2,6), Diogène Laërce, na sua vida de Xénophon, no livro II
das Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, fala de Ménon de Farsalos (Vidas, II, 50)
enquanto Diodoro da Sicília, em sua Biblioteca Histórica, o nomeia Menão de Larissa
(Biblioteca histórica, XIV, 19,8). Parem outro lugar, Démosthenes, em seu Contra Aristocrate,
faz referência a um Mênon de Farsalos(Contra Aristocrata, 199) que temurait ajudado os Atenienses
e Cimon durante a campanha contra Éïon em 476 a.C. (ver Tucídides, História, eu, 3,
98sobre este assento) e teria então sido recompensado com a cidadania ateniense, e que
poderia bem ser o avô do nosso (a tradição grega dizia que o neto tinha o
mesmo nome que seu avô, e a expedição dos Dez Mil na qual participou Xenofonte
e nosso Ménon, que não devia ter mais de 20 anos na época, situa-se em 401-400 a.C.
mais mais de 75 anos mais tarde). E Tucídides, no livro II de sua Guerra do Peloponeso, em
a história do primeiro ano de guerra (março 431-fevereiro 430 antes de Cristo), também faz
referência a um Ménon de Pharsale (História, II, 1,22), sasem dúvida diferente daquele mencionado
por Démosthène, dadas as datas, e que poderia ser um tio do nosso.
O que é certo é que Larissa, ou Larisa, e Farsalo eram as duas cidades mais importantes.
de Tessália, e que Larissa era a cidade de Aristipo(70b), eunome de uma das famílias
princípeis desta cidade, os Aleuades, e dos quais tanto Platão quanto Xenofonte fazem o amigo e o
194
protetor de Ménon. Mas que Ménon tenha sido originário de Farsalos (o que é, afinal,
mais provável) ou de Larissa, é a Larissa que sua ambição acabou levando, e é de
lá que partiu sem dúvida o contingente tessaliano colocado sob seu comando por Aristíppe
e colocado à disposição de Ciro, o Jovem, em sua tentativa de usurpar o poder. Portanto,
à Larissa que Ménon deveria ter trazido os homens que lhe foram confiados. Será necessário se
lembrar-se disto quando Sócrates, para mostrar que a opinião pode ser um guia tão bom quanto a
ciência, tomará o exemplo do guia conduzindo a Larissa!... (97a-b)
Exterminador
Em passagem por Atenas no momento do diálogo, Ménon reside na casa de Anytos, aquele que se tornará
em breve a alma da acusação contra Sócrates e, portanto, o principal responsável por sua morte.
Anytos participa do diálogo a instigação de Sócrates(89e-95a) et assiste, senão a toda a
conversa (a fórmula utilizada por Sócrates en89e10para apresentá-lo, sugira que ele venha
acabei de chegar), pelo menos no final da entrevista, como mostram várias alucinações de
Ménon e de Sócrates à sua presença na última seção do diálogo(99b7, 99e2, 100b8).
O que mais podemos dizer sobre este Anytos, que Sócrates nos apresentará, em um tom
sem dúvida um tanto irônico, em90a1-b4?
Anytos era originário de uma família de artesãos. Seu pai parece ter feito fortuna na
tannage, e provavelmente havia reassumido o negócio da família. É sem dúvida a esta
sorte que ele deve por ter conseguido cargos políticos importantes. Em 409, de fato, ele é
nomeado estrategista (general) e encarregado de organizar uma expediçãoíon àPílos, ofno Peloponeso,
no âmbito da guerra com Esparta que já durava mais de 20 anos, para levar
ajuda a este lugar que estava sob controle ateniense há cerca de quinze anos.
Mas a expedição terminou em um desastre e Esparta reconquistou Pilos (cf. Diógenes de Síclo,
Biblioteca histórica, XIII, 64,5-7). Os atenienses o tornaram responsável por esse fracasso e
ele foi processado, do qual dizem que se livrou pagando os juízes, o que ele teria sido o primeiro a fazer.
fazer (além de Diodoro já citado, ver sobre este ponto Aristóteles, Constituição dos Atenienses, XXVII,
5). Anytos era um dos membros influentes do partido democrático (cf. AristnotaConstituição dos
AthenienseXXXIV3), ce que o levou ao exílio em 404, logo na chegada ao poder dos Trinta a
o fim da guerra do Peloponeso (cf. Xenofonte,Helénicos, II, 3,42-44). Em 403, ele desempenhou um
papel importante, ao lado de Trasíbulo, na derrubada dos Trinta e no restabelecimento
da democracia em Atenas, da qual se tornou, com Trasybulo e Terameno, um dos principais
chefs políticos (cf. Isócrates, Contra Calímaco, 23).(14)
No que diz respeito às relações entre Sócrates e Anytos, as nossas informações, além disso
que se encontra nos diálogos de Platão, são magros. Na sua Vida de Alcibíades, Plutarco
deixa entender que Anytos fazia parte dos amantes do jovem Alcibíades, da mesma forma que
Sócrates, que era assim seu rival, e que Alcibíades o tratou particularmente com dureza na
circunstânciaf.Vida de Alcibíades4-5). DNa Apologia de Sócrates, Xenofonte sugere
Anytos tinha rigidez com Sócrates por ele ter dado conselhos sobre a educação de seu filho,
sugerindo que ele não deveria ter se tornado um curtidor como ele(Apologia29-33). Nos leva lá
mostra também Sócrates, que acaba de ser condenado a pedido de Anytos, prever que seu filho
tornou-se mal; e de fato, o filho de Anytos adquiriu uma reputação de bêbado e de devasso que
rejaillit sobre seu pai, o que dá um certo sabor à discussão entre Sócrates e Anytos
sobre a capacidade de todo ateniense honesto de bem educar seus filhos.
195
anutos, o nome grego de Anytos, pode se aproximar do verbo anutein (ou anuein), que significa
« concluir, levar a cabo, realizar », tanto no sentido de « fazer crescer, fazer brotar »
que no caso de "fazer perecer". Resumindo, Anytos é o "terminador"!... Mas, além da
coincidência que representa um tal nome para aquele que deveria precisamente "terminar" Sócrates,
Há sem dúvida aqui para Platão uma forma de reflexão mais profunda, a partir da ambiguidade
mesmo do termo, reflexão à qual nos conduz o uso, justamente, do conceito de "termo",
de "limite", de "fim", na tentativa de definição de laschèmadont veremos que ela é
um avatar da "forma"(75e-76a), ePortanto, em uma discussão sobre a arte do homem, da
"forma" do homem, que não está acabada (uma palavra que tem, em francês, o mesmo duplo sentido
qu'anutein) em cada um de nós que pela morte. Ao contrário do que ele poderia pensar,
Anytos, ao "finalizar" Sócrates, selava seu destino e confirmava seu papel de modelo para
nós, ao fazer do homem o mais "realizado" que Platon teve a oportunidade de encontrar
(veja as últimas palavras do Fédon)...
Bref, Ménon, par son nom, évoque l'idée de stabilité na forma/ideia, e Anytos aquela de
« limite »...
Ou, o que impressiona, quando se retoma esse diálogo nessa perspectiva, é que o motarète
nunca é empregado em toda a discussão entre Sócrates e Górgias. Ele aparece apenas uma vez
à boca de Sócrates na discussão com Polos, mas é para falar sobre «a saúde e
a excelência do corpo (hè hugieia kai aretè sômatos)» quando ele compara aqueles que recusam
se submeter à justiça de doentes que recusam os tratamentos dolorosos do médico
falta saber o que é essa «saúde e excelência do corpo»(Górgias, 479b). Cenão é apenas
na discussão com Calliclès que a palavra, introduzida por Calliclès en492cquando ele afirma
que «a sensualidade (truphè), a intempérie (akolasia) e a licenciosidade (eleutheria), desde que se
eles reforçam, é isso a excelência (aretè) e a felicidade (eudaimonia), voltou 15 vezesoi(17),
mas sempre na boca de Sócrates, cuja 10 vezes em seu monólogo final, uma vez
Calliclès reduzido ao silêncio por seu recuso de responder por mais tempo às perguntas de Sócrates.
E de fato, Górgias não se apresenta como professor de areté, mas apenas como professor de
retórica, ensinando as pessoas a falar bem e a serem capazes de persuadir seu público. (18)
É a eles fazer bom uso dessa "técnica" oratória, neutra em si mesma e boa ou
má apenas pelo uso que faz o discípulo(Górgias456c-457c) (19). Cette posição
A de Górgias é, aliás, confirmada pelo próprio Ménon perto do final do diálogo.(95b9-c4),
sem que aliás pareça incomodado em se contradizer assim consigo mesmo que, ao
início do diálogo, surpreendia-se que Sócrates, ao encontrar Górgias, ainda pudesse afirmar
nunca ter conhecido alguém que saiba o que é a areté.
196
Sócrates, o filosofo
Se leGorgiasne não nos informa muito sobre a concepção que Górgias poderia ter de
o areté, por outro lado, nos fornece algumas indicações sobre a ideia que Sócrates podia ter sobre isso.
Em oposição à definição da areté dada por Calliclès e citadaacima, Socrate
começa seu longo monólogo declarando que «nós somos bons (agathoi), nós e
todas as outras coisas que são boas, pela presença de uma certa rareza
aretède cada coisa, instrumento, corpo, alma, ou ainda de todo ser vivo, não lhe advém
por acaso, mas pela ordem (taxei), pela retidão (orthotèti) e pela capacidade (technè) que, qual
que ela tenha sido atribuída a cada uma delas", e que, portanto, "é o fato de estar em bom
ordem em seu lugar (taxei tetagmenon) e dispostas de forma adequada (kekosmèmenon), que é a aretè.
cada coisa(Górgias, 506d-e). Eele conclui afirmando que "o melhor modo de vida
(ho tropos aristos tou biou), é praticar a justiça(tèn dikaiosunèn) e o restante de
o areté(Górgias, 527e), destacando o lugar central que a justiça ocupa no bem
do homem, ela que constitui a saúde da alma.(20)
Mas podemos ainda ampliar nossa pesquisa, pois, como o leitor pode começar a
à s'en rendre compte, nossa leitura não busca fingir fazer surgir do único texto
um diálogo uma "verdade" que ele deveria conter e que se ofereceria a todo leitor
suficientemente atento, mas bem em abordar o texto munido de hipóteses interpretativas frutos de
múltiplas leituras deste diálogo e de outros, e do estudo do contexto histórico, cultural e
linguística na qual surgiram, para tentar fazer jorrar do confronto
dessas hipóteses que se sabe tais com o texto lido atentamente, uma luz que não está em
fin de compte que dans l'âme do leitor e não na materialidade das palavras impressas. Ele não
não se trata de esperar passivamente que o texto nos diga o que ele teria a dizer, mas de procurar
ativamente os ecos que ele pode fazer ressoar em nós ao confrontar uma « teoria
interpretativa » à prova dos « fatos » que constitui o texto.
Esse Sócrates é aquele que, ao longo das páginas da República, busca nos fazer aprofundar
as intuições apenas sugeridas nos diálogos anteriores, o Górgias e o Menon
notadamente, e nos fazer descobrir uma nova concepção da justiça, harmonia interna
da alma tripartite com ela mesma como fundamento de sua harmonia com as outras almas
na cidade, que não é outra senão esta "ideia/ideal do Homem", do homem
encarnado pelo menos, que ele deve tentar realizar ao longo de sua vida terrena. É aquele que,
desde a conversa com Polémarque, no primeiro livro desta mesma República, sugere a
seu interlocutor através de uma questão que a justiça (hè dikaiosunè) poderia bem ser
«a excelência humana (anthropeia aretè) »(República, eu, 335c4). Eé por isso que cada
A menção da justiça no Ménon deve nos fazer prestar atenção.
197
Mas é também aquele que, como vemos no Fédon, passa seu último dia em
esta terra mostrou a seus amigos fiéis que é vão querer buscar demonstrar
« matematicamente » as verdades mais fundamentais para a condução de nossa vida, que
a alma existe e é imortal, especialmente, mas isso não deve nos fazer nos tornar
mysologues, nos fazer duvidar dulogos(ver nota 3), dea razão, que está em nós por dom
divino, e que, bem ao contrário, é a essência mesmo do philosopho que aceita
construir sua vida sobre o "belo risco (kalos kindunos)"(Fédon, 114d6) o que constitui isso
crença, pois é no final das contas, como mostra toda a discussão, a hipótese mais
conforme justamente a esta razão que nos guia para ela, deixando nossa vontade livre
de não aderir.
Que história?
É claro que os diálogos de Platão não narram entrevistas que realmente aconteceram.
lugar durante a vida de Sócrates, mas são composições filosófico-literárias de Platão que
procuram mais ser fiéis ao espírito de Sócrates do que à letra de sua vida. E eu não penso que
Platão busca mesmo ser fiel à verossimilhança histórica, a evitar eventuais
anacronismos, com o único objetivo de ser « historicamente » plausível. Por outro lado, cada
vez que a evocation de personagens ou eventos históricos de notoriedade pública em seu
o tempo lhe facilita a tarefa ao evitar que se demore em detalhes de encenação ou de
apresentação de interlocutores, ele não hesita em tirar proveito disso.
No caso do Ménon, sabemos que, na sua época, Anytos era conhecido como um homem que
tinha sido influente na restauração da democracia após o episódio dos Trinta, e como
aquele que havia condenado Sócrates, e que Ménon estava pelo menos pelo relato de
Xénophon. Devemos ir mais longe e procurar as pistas de uma possível visita de Ménon a
Atenas? De rastros, fora o diálogo de Platão, não há nas nossas fontes. Não nos
resta portanto as conjecturas, baseadas em critérios de verossimilhança. O que é
historicamente certo, é que a expedição à qual participaram tanto Xenofonte quanto Menon
partit deSardes, ena Ásia Menor, na primavera de 401 (ou seja, cerca de dois anos antes da morte de
Sócrates), sob a condução de Ciro, o Jovem(Anabasse, eu, 2,um), que Xénophon tinha então
reuniu-se a este exército por convite de Proxeno da Beócia(Anabase, III, 1,1-8), mais que Ménon
e seu contingente de Tessalios só a juntou um pouco mais tarde, aColosses(Anabase, Eu, 2,
6) Esteo que sabemos também é que, antes de embarcar nesta expedição, Xenofonte
frequentava Sócrates e, portanto, provavelmente convivia com Platão entre os "discípulos" do mestre. Para
as hipóteses, agora: não é implausível que Ménon, no contexto de
preparação da expedição que Aristipo lhe havia confiado, talvez chegado a Atenas, para talvez
preparar a travessia de seu contingente para a Ásia Menor. Se ele se juntou ao exército de Ciro em
Colossos, podemos de fato imaginar que ele havia desembarcado um pouco mais tót aMiletou em um
outro porto desta região, e por que não vindo de Atenas, que mantinha
relações estreitas com as colônias Jônicas das quais Mileto fazia parte. E ele realmente pôde
encontrar nesta ocasião Xenofonte, a caminho do mesmo destino, e portanto
por que não Sócrates, ou até Platão, que poderiam assim formar uma opinião sobre o
personagem por si mesmo. Mas não se trata, repitamos, apenas de conjecturas, que não trazem
não há muito a compreender no diálogo imaginado por Platão. E como o objetivo deste
o diálogo não é para nos informar sobre a história de Menon, mas para nos fazer refletir sobre isso
quem constitui a aretê do homem, é sobre o texto do diálogo em si que é melhor nos
encher.
198
(1)Veja a seção «Centro lógico e centro material» da introdução às tétralogias para a
lugar central da morte de Sócrates no plano geral dos diálogos.
(2)A palavra greclogos, devido a seus múltiplos sentidos, está no coração do debate de Sócrates e Platão
com os sofistas e os rhetóricos. É de fato essa mesma palavra logós que significa em grego 'palavra,'
discurso" e "razão", mas "razão" também no sentido da faculdade de raciocinar que
no sentido matemático de 'relação', e ainda 'palavra divina, provérbio, argumento,
conversa, discussão, relato, fábula», e também «razão profunda, fundamento, julgamento,
opinião, conta, valor, relatório, explicação", etc. Entende-se melhor, então, que alguns
mestres como Górgias, que ensinavam a arte do discurso (logos) persuasivo, poderiam ter acreditado que eles
ensinavam a seus alunos a razão (logos), e por que Platão, que via no logos a parte
a mais nobre da nossa alma, ou seja, de nós mesmos, aquela que nos coloca em relação com
o inteligível puro, isto é, com a transcendência, com o "divino", não tenha se satisfeito
de uma concepção tão reducionista dulogoset tenha passado tanto tempo tentando retornar o
a linguagem ao seu papel de ferramenta a serviço do pensamento que a transcende e as palavras ao seu papel
de imagens do que eles designam. (<==)
(3)Górgias, 486a-b. Note que o Górgias ocupa na segunda tetralogia a mesma posição
que a Apologia de Sócrates na tétralogia seguinte: diálogo central da trilogia, ou seja,
diálogo situado no nível da alma intermediária, duthumos, do "julgamento" que cada um deve
exercer em sua própria vida. Calliclès assim como Anytos "julgam" Sócrates, o primeiro em
pensamento e em palavras somente, o segundo em atos e por tribunal interposto.
(4)Ménon70b. Sócrates não diz explicitamente que Ménon foi aluno de Górgias no sentido
propriamente dito, ou seja, que ele pagou Górgias por suas lições. É Aristípico, o
« protetor » de Ménon, que é mais especificamente mencionado por Sócrates como tendo muito
provavelmente seguiu o ensinamento de Górgias (embora, dele também, não diga que tenha)
pague esses "cursos"; mas eml'Apologia, 19e-20a , Sócrates menciona Górgias entre os
« professores » que cobravam por suas aulas). E pode-se pensar que Ménon, o protegido
d'Aristippe, simplesmente aproveitou as lições que seu mentor dava. De qualquer forma, Sócrates
apresenta Ménon como familiarizado com o ensino de Górgias (ver, além da introduçãoem,73c,
76a-d, 95cet96d), mesmo que pareça incapaz por si mesmo de tirar proveito desse ensinamento
na discussão e, de qualquer forma, lembrar de uma possível definição de « excelência »
que o « mestre » teria dado.
(5)Sofista, 241d. Pelo paralelo entre a condenação à morte de Sócrates pela multidão
atenienses e o « parricida » de Parmênides por um único Elenense, veja a seção «O processo de
Sócrates e o "parricida" de Parmênides" da introdução às tetralogias.
(7)Pode-se notar que, para Platão, cuja preocupação principal é o homem ("Conhece-te a ti mesmo")
mesmo"), e mais especificamente o que constitui a "realidade" profunda, ou seja, a alma, os
as realidades visíveis não são tanto as coisas materiais que nos constituem (nosso corpo) ou
nos cercam (nossos bens) que os atos que praticamos e cuja série constrói nosso ser. A
realidade da qual se vai falar nesta tetralogia, é o próprio Sócrates visto através de seu
processo, que é a oportunidade para ele justificar sua vida e seus atos, e sua escolha de suportar a pena
199
legalmente, embora injustamente, prescrita contra ele pelo tribunal de seus concidadãos
em vez de escapar para salvar sua vida.
(9)Pelas razões que explico nesta seção, eu não traduzo 'aretè' na minha tradução.
duMénon, mas eu deixo sempre esta palavra na forma que tem no texto grego, forma que,
em grego, varia conforme o número (singular ou plural) e a função (sujeito, complemento de objeto,
complemento de nome, complemento de atribuição) do termo, uma vez que o grego é uma língua a
declinações. Para aqueles que não lêem grego antigo, e a quem é principalmente destinada minha
tradução, eu listo aqui as diferentes formas que a palavra pode assumir:
(13)A palavra aparece apenas 4 vezes em todos os diálogos, das quais três vezes em citações
de Homero(Banquete, 179b1, República, III, 389e8, Cratilo, 415a2). Seu único uso "nativo"
por Platão está emTimeu, 70b3, na descrição "fisiológica" da alma intermediária, o
thumos, onde se fala de "to tou thumou menos", a ardência duthumos, suscetível de
ferver
(14)Pode-se deduzir dessas informações que o diálogo suposto por Platão entre Sócrates e
Ménon chez Anytos é suposto acontecer entre o retorno dos democratas a Atenas em 403
(anteriormente, Ménon poderia ter sido muito jovem) e a partida de Ménon para a expedição com Ciro,
no final do inverno 401. De uma alusão aos mistérios en76e8-9, pode-se pensar que Platão entende
situar a entrevista durante uma ou outra das festas ligadas aos Mistérios d'Éleusis, que se realizavam
em fevereiro e em setembro.
(15)Os dois personagens são personagens históricos, dos quais, evidentemente, Platão não tem
não escolhemos os nomes. Mas, a partir do momento em que se admite que os diálogos de Platão não são
não são os relatos "jornalísticos" de entrevistas reais de Sócrates, mas recriações
artísticas e filosóficas de seu autor, mais fiéis ao espírito de seu mestre do que à "letra"
De sua vida, devemos admitir que Platão tinha certa liberdade na escolha dos interlocutores.
200
que ele dava a Sócrates, e que, em um país onde os nomes são na maioria das vezes significativos, o ou
os sentidos possíveis dos nomes dos candidatos poderiam influenciar os critérios de escolha.
Platão certamente não tinha a liberdade de escolher o nome do acusador de Sócrates, mas ele tinha a
liberdade de o colocar em cena ou não em tal ou tal diálogo, e sobre tal ou tal tema.
(16)«Corremos o risco de sermos acusados, Ménon, eu assim como você, de ser de certa forma des
homens deficientes (phauloi tines einai andres), e tu que Górgias não te tenha adequadamente
instrui, e eu Prodicos» (96d). Notamos, a propósito, que o lephaulos aner, o homem deficiente,
é exatamente o oposto do homem dotado de arête...
(17)Gorgias, 492e1, 499d7, 503c5, 504c9, e3, 506d3, d5, e1, 512d3, 517e8, 519c5, e8, 526a7,
527d2,e4, o monólogo de Sócrates começando em 506c5. (<==)
(18)Para que um tal ensino possa produzir o aretenno homem, seria necessário (1)
considerar que o que distingue o homem dos outros animais é seu logos e que portanto seu
a excelência própria resulta do bom uso de celogos, e (2) que celogosse limita aulegein, é-
à-dire ao uso da palavra. Todo o debate de Platão com os retóricos gira em torno disso.
problema, pois Platão, e seu Sócrates, estão perfeitamente prontos para aceitar (1) mas não podem
admitir (2), como já indiquei na nota 2 sobre os significados da palavra logos.
(19)Esta posição de Górgias, no entanto, não resistirá às perguntas de Sócrates quando este
o último perguntará ao seu interlocutor se o conhecimento da justiça é um pré-requisito para
o ensino da retórica, se é indiferente ou se ele pode ensiná-la a quem não a
possuiria não já. É de facto esta última opção que Górgias retém(Górgias, 459c-
460a), se posicionando assim como um potencial professor de justiça (a essência mesma da ética humana
para Sócrates) e levando assim à discussão que provocará a intervenção de Polos. De fato, em
admitindo que se possa fazer mau uso do que ele ensina, Górgias admite
implicitamente que a aretê do homem não resulta de um logos assim compreendido e reduzido ao simples
uso mais ou menos eficaz da palavra. E é bem isso que incomoda Polos e Calliclès!...
(20)Na teoria da bajulação que Sócrates desenvolve para Górgias e Polos (Górgias,
464b-465e), aA justiça, que se diz ser para a alma o que a medicina é para o corpo, não é bem
évidemment que la justice « punitive », et non la « vertu » de justice, bien que le mot utilisé
(dikaiosunè) seja o mesmo. Mas no início de seu monólogo para Calliclès, antes
na introdução que acabamos de citar, Sócrates retoma a analogia corpo-alma, para afirmar
que, se a saúde é a ordem do corpo, a justiça é a ordem da almaeuGórgias, 504c-d).
201