ISSN: 1677-9797
ALGUMAS PERCEPÇÕES SOBRE A RELACÃO LÍNGUA E CULTURA EM
PROPAGANDAS DE ESCOLAS DE IDIOMAS
Adriana de Sousa Pilla
Universidade Federal de São Carlos
Isadora Valencise Gregolin
Universidad de Valladolid
Resumo: Ao investigarmos, inicialmente, quais línguas estrangeiras são oferecidas com maior
frequência aos brasileiros por escolas de idiomas nos deparamos com visões explícitas e implícitas
sobre a cultura. Apesar da dificuldade de definir exatamente o conceito de cultura trouxemos algumas
visões de teóricos sobre o assunto. A partir dessas visões discutiremos os sentidos veiculados nas
propagandas apresentadas por estas escolas. Os comerciais foram escolhidos para constituir o corpus
desse artigo porque eles evidenciam duas relações culturais muito fortes, a língua e a cultura midiática.
A língua porque, segundo Galisson (1991), é o melhor meio de acesso à cultura e a cultura midiática
porque a mídia consegue alcançar uma grande parcela da população, conseguindo assim, difundir seus
“ideais culturais”. A análise foi dividida em duas etapas: línguas abordadas e análise dos comerciais de
espanhol e com isso foi possível verificar a valorização do inglês e do espanhol e abordagem
estereotipada e a construção cômica da interação entre o português e o espanhol.
Palavras chave: Cultura, língua e comerciais.
Abstract: While investigating initially which foreign languages are offered most frequently by the
Brazilian language schools we can encounter explicit and implicit views on culture. Although difficult
to define precisely the concept of culture brought some visions of theorists on the subject. From that
view will discuss the meanings in advertisements presented by some schools. The TV commercials
were chosen to form the corpus of this paper because they show two very strong cultural, language and
media culture. The language because, according to Galisson (1991), is the best means of accessing
culture and media culture because the media can reach a large portion of the population, thus
achieving, spreading their "cultural ideals". The analysis was divided into two stages: addressed
languages and analysis of commercial in Spanish and it was possible to verify the valuation of both
English and Spanish languages and formulaic approach and the construction of the comic interaction
between Portuguese and Spanish.
Keywords: Culture, language and trade.
Introdução
ISSN: 1677-9797
Neste artigo, temos como objetivo discutir os sentidos veiculados em propagandas de
escolas de idiomas sobre o ensino de línguas estrangeiras, com foco nas concepções
subjacentes sobre cultura. Trata-se de um recorte de uma pesquisa de mestrado que vem sendo
desenvolvida em uma universidade pública do interior de São Paulo, cujo objetivo é
investigar a construção de sentidos sobre a docência no campo do ensino de língua espanhola.
Na primeira parte do texto, discutimos diferentes concepções sobre cultura e sobre a
relação entre língua e cultura, com a finalidade de apresentar ao leitor um panorama de
estudos anteriores sobre a temática. Posteriormente, na segunda parte, apresentamos a
metodologia de nossas análises das propagandas e finalizamos nosso texto problematizando
aspectos recorrentes sobre a visão de cultura que as propagandas das escolas de idiomas
veiculam.
Concepções sobre cultura e a relação língua-cultura
Eagleton (2005, p.9), considera “Cultura” uma entre as duas ou três palavras mais
complexas da língua, e devido a essa complexidade é muito difícil encontrarmos uma
definição que consiga abranger todo o significado dessa palavra. Mas para elucidar melhor
essa questão apresentaremos algumas definições de teóricos sobre o assunto.
O conceito de cultura é muito abrangente e, seguindo Kramsch (1998),
essencialmente plural. Nesse sentido, para defini-lo devemos considerar que a cultura se
multiplica em diversas formas de cultura e cada uma possui sua particularidade.
[...] o conceito de cultura, etimologicamente falando, é um conceito derivado de
natureza. Um de seus significados originais é “lavoura” ou “cultivo agrícola”, o
cultivo do que cresce naturalmente. [...] Se a cultura significa cultivo, um cuidar,
que ativo, daquilo que cresce naturalmente, o termo sugere uma dialética entre o
artificial e o natural, entre o que fazemos ao mundo e o que o mundo nos faz.
(EAGLETON, 2005, p.10).
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Também segundo Eagleton (2005, p. 54), a cultura pode ser caracterizada como um
conjunto de valores, costumes, crenças e práticas que constituem o modo de vida de um grupo
específico. Mas devemos ter consciência que esse “grupo específico” não é completamente
homogêneo, ou seja, indivíduos de um mesmo grupo possuem particularidades e diferenças.
Denys Cuche (1999) em seu livro “a noção de cultura nas ciências sociais” nos traz a
concepção universalista da cultura de acordo com Tylor e a concepção particularista de Franz
Boas. Taylor definiu cultura como a expressão da totalidade da vida social do homem.
Enquanto que Franz adotou o conceito de cultura que lhe parecia mais adequado para
abranger a diversidade humana, para ele a concepção de cultura é uma rejeição ao
evolucionismo unilateral, acreditava na autonomia das culturas e que cada cultura possui uma
singularidade particular.
De acordo com Cuche:
[...] A pluralidade dos contextos de interação explica o caráter plural e instável de
todas as culturas e também os comportamentos aparentemente contraditórios de um
mesmo indivíduo que não está necessariamente em contradição (psicológica)
consigo mesmo. Por esta abordagem, torna-se possível pensar a heterogeneidade de
uma cultura ao invés de nos esforçarmos para encontrar uma homogeneidade
ilusória. (CUCHE, 1999, p. 107).
Também temos os conceitos de Cultura com “C” maiúsculo e o de cultura com “c”
minúsculo, isso no campo de estudos da antropologia, essas visões de cultura são propostas
por Mead (1973), onde:
Cultura [...] é o complexo de comportamento tradicional que vem sendo
desenvolvido ao longo dos tempos, pela raça humana e é apreendido
sucessivamente, permitindo repassar os conhecimentos de uma geração para outra. E
cultura [...] menos precisa, pode ser vista como formas de comportamento que são
característicos de certa sociedade, certa área ou certo período de tempo, permitindo
que um determinado grupo seja identificado por seus traços culturais. Nesta
perspectiva, um mesmo indivíduo pode ser membro de um grupo, mas possuir
características de diversos outros grupos. Essa visão nos permite vislumbrar um
mundo multifacetado em que se torna cada vez mais difícil, se não impossível,
atribuir características claras e pontuais a uma determinada cultura. (DAGIOS, 2010,
p 29)
Galisson (1991 apud BIZARRO;FRAGA, 2011, p.829), considera que a língua, por
constituir-se enquanto “prática social e produto sócio-histórico (...) é o melhor meio de acesso
à cultura, já que é, simultaneamente, veículo, produtor e produto de todas as culturas”.
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Aprender uma língua estrangeira, portanto, pode favorecer a reflexão sobre a própria
língua e cultura. Sendo assim:
[...] a aula de língua estrangeira, em particular, devem promover o ensino e a
aprendizagem da(s) cultura(s), em termos especificamente reflexivos, num espaço
aberto e democrático de debate, invocação e contrastes das diferenças perspectivas
presentes na comunidade multicultural que é a nossa. [...] (BIZARRO;FRAGA,
2011,p. 832)
A aula de língua é um ambiente propicio a aquisição da cultura, porque mesmo que
não a aborde diretamente implicitamente ela sempre está presente. O estudo do léxico é um
bom exemplo, pois ao ensinar os nomes de trajes do vestuário ou ingredientes de um prato
estamos ensinando um pouco sobre a cultura de vestuário e alimentícia. E a partir dessa
consideração somos levados a refletir sobre o que leva uma pessoa a escolher uma
determinada língua como língua estrangeira e não as outras, já que ao se aprender a língua
também se aprende sobre a cultura. Será uma escolha individual ou imposta pela sociedade?
Picanço (2003) faz um percurso do ensino do espanhol no Brasil entre os anos de
1942 a 1990 para demonstrar como essa relação de língua e cultura é muito forte e que sua
escolha tem implicações políticas e sociais. A autora exemplifica a estreita relação entre
língua e cultura com o período da história brasileira em que o governo interferiu
explicitamente no ensino de línguas, durante o Estado Novo, pois intensificou-se a
valorização do português devido ao nacionalismo. Nesse período, o governo fez um
levantamento e considerou que os grupos de alemães que se encontravam no país estavam
muito unidos pela transmissão a seus descendentes da língua, da cultura. Devido a isso, o
governo fechou algumas escolas alemãs e as demais assumiram a administração (PICANÇO,
2003). Esse episódio ilustra as consequências políticas e sociais que determinada concepção
de cultura pode ocasionar no âmbito das políticas públicas de ensino, com a valorização ou
desvalorização destas.
Outro aspecto relacionado à cultura diz respeito ao tratamento da diversidade,
geralmente sob a forma de estereótipos. Kramsch (2002) afirma que os professores de línguas
estrangeiras tem a responsabilidade de evitar a propagação de estereótipos culturais
(KRAMSCH, p. 121, tradução Barbosa).
On considère généralement que le stéréotypeconstituie une forme spécifique de
verbalisation d’attitudes, caractérisé par l’accord des membres d’un même groupe
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autour de certains traits, qui sont adoptés comme valides et discriminants pour
décrire un autre (I’étranger) dans sa diffétrence [...]. (TAJFEL, 1981, p. 115 apud
CASTELLOTTI e MOORE, 2002,p )
Os estereótipos realçam algumas características de uma cultura e as apresentam
como sendo a única forma de representação dela, por isso devemos questionar a validade
dessa representação. E essas representações são muito comuns dentro da cultura midiática.
Metodologia de análise de propagandas de idiomas
Nossas análises se ocuparam de propagandas disponibilizadas no Youtube por quatro
grandes redes de escolas de idiomas: CCAA, PBF, FISK e SKILL. Essas propagandas
também haviam sido veiculadas em canais abertos de televisão.
Apesar de existirem outras redes de escolas de idiomas e também as escolas locais
que ensinam diversas línguas essas quatro redes foram escolhidas porque possuem várias
escolas no país e investem muito em propagandas, isso porque são as escolas que possuem
mais comerciais disponíveis para acesso.
Fizemos a escolha pelos comerciais apresentados na televisão aberta porque suas
informações não possuem custo à população e por isso conseguem alcançar maior parte dela,
parte essa que não tem acesso à televisão a cabo e até mesmo a internet.
A análise foi realizada em duas etapas:
a) A primeira para verificar quais foram às línguas mais abordadas nos comerciais,
porque essa abordagem revela a relevância que os comerciais, a mídia, dão a essas línguas
para os brasileiros;
b) E a segunda como os comerciais que abordam somente o espanhol como língua
estrangeira constroem a necessidade de se aprender o idioma e como é feita a caracterização
da interação entre o português e o espanhol.
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De acordo essas duas etapas categorizamos a análise dos comerciais em línguas
abordadas de acordo com sua relevância e caracterização da língua de acordo com a
construção dos comerciais.
Apesar de o espanhol ser abordado junto com os demais idiomas na maioria dos
comerciais, metodologicamente analisamos somente os comerciais que fazem sua
“apresentação” na interação entre o português e o espanhol.
O espanhol foi selecionado para esta análise por diversos fatores, um deles é sua
grande ocorrência nos comercias e, principalmente, porque nos últimos tempos, a língua
espanhola tem adquirido maior importância para os brasileiros. Apesar de haver uma ligação
territorial entre o Brasil e outros países que têm o espanhol como língua oficial, foi a partir da
criação do MERCOSUL que houve uma mudança na relação entre esses países e que o idioma
vizinho adquire, assim, uma função comercial.
Dos 37 comerciais analisados verificamos que a maior parte de suas apresentações,
na divulgação e/ou nas “histórias”, são realizadas em português porque é o idioma que seus
expectadores conhecem e através da interação do português com as línguas estrangeiras
constroem a necessidade de aprender a língua estrangeira. E as demais línguas foram
abordadas conforme demonstra o gráfico abaixo:
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Fonte: Pilla (2013).
Em 12 comerciais o inglês é a única língua estrangeira apresentada no “corpo” do
comercial, mas ao final da apresentação a escola divulga uma nota dizendo que possui em sua
escola o ensino do inglês e do espanhol.
As apresentações que fazem a interação português-inglês-espanhol são a maioria, 19
comerciais, e também ao final a escola divulga os dois idiomas como pertencentes ao seu
quadro escolar.
Somente em 2 comerciais a divulgação do espanhol é feita sem a presença do inglês
na apresentação, mas no final da apresentação há uma nota informando que a escola possui o
inglês e o espanhol.
Em 2 comerciais durante sua apresentação apenas o inglês é abordado, mas no final
aparece uma pequena menção as outras línguas, essa menção é feita a partir das imagem de
bandeiras de oito países diferentes, mais essas bandeiras são muito pequenas e é muito difícil
conseguirmos identificá-las.
Quando chegamos aos comerciais que fazem referências a mais línguas o número de
aparições é inexpressivo diante do total de aparições do inglês e do espanhol, apenas um
comercial. Sua apresentação é feita toda em português mencionando o ensino de oito línguas
que a escola possui através de uma música.
E por fim, temos o comercial que não menciona nenhuma língua em sua
apresentação oral, mas que faz referência à importância de possuir outras línguas, mas ao
fundo do apresentador do comercial aparecem algumas imagens e nessas imagens só
apareceram poucas palavras escritas em inglês, dos demais idiomas nenhuma.
Com esta análise foi possível verificar que os comercias de escolas apresentam o
inglês e o espanhol como as línguas que possuem maior relevância para os brasileiros, pois
dos 37 comerciais apresentados o inglês aparece em todos seguido pelo espanhol que
apareceu em 36.
Mas apesar dos números de aparições entre os dois idiomas ser praticamente o
mesmo se analisarmos o enfoque dado aos idiomas durante os comerciais perceberemos uma
atenção mais voltada ao ensino de inglês, podemos chegar a essa conclusão porque nas
apresentações temos somente 2 que abordam o espanhol sozinho durante a apresentação, em
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suas histórias, em contrapartida temos 14 apresentações abordam o inglês e em 19 as duas
línguas aparecem juntas.
As demais línguas, como pudemos perceber, não possuem nenhum apresentação oral
da língua somente poucas menções sobre a sua existência, 3 apenas. Com isso podemos
concluir que esses idiomas não possuem, segundo esses comerciais, relevância para a
população. Isso porque esses comerciais são feitos para “venderem o ensino dessas línguas”.
Para verificar como os comerciais caracterizam a língua estrangeira e a interação
entre os brasileiros e os falantes nativos da língua estrangeira analisamos os dois comerciais
que fazem a sua apresentação somente entre o português e o espanhol.
Os dois comerciais, “Aventuras de turistas brasileiros” (anexo I) e “A Jogada”
(anexo II), apresentam a interação entre brasileiros e falantes nativos de língua espanhola,
onde os falantes nativos só falam o espanhol e os brasileiros misturam um pouco do português
e do espanhol, o que comumente chamamos de “portunhol”, isso porque os brasileiros, no
comercial, acham que estão entendendo o que o seu interlocutor fala e que também está
falando espanhol.
Para que os espectadores dos comerciais, nós, entendamos o que está acontecendo
quando o falante nativo fala aparece uma legenda para que entendamos o significado de sua
frase e não caiamos no mesmo erro que os personagens brasileiros dos comerciais.
Ao falar o espanhol o personagem brasileiro faz gestos, tenta imitar o sotaque
espanhol de forma desastrosa e faz muitas “caras e bocas” achando que com suas
gesticulações o seu interlocutor irá entendê-lo. Essa é uma caracterização, um estereótipo,
criado para demonstrar que interação entre pessoas que não compartilham a mesma língua é
cômica e por isso é necessário aprender o idioma do outro para não passar por essa situação.
Os dois comerciais trabalham com palavras que são comuns, principalmente na
oralidade, nas duas línguas, os falsos cognatos, mas que possuem significados diferentes nas
duas e apresentam isso de forma cômica porque os dois interlocutores acreditam que o outro
está o entendendo, e claro, a parte “constrangedora” fica com o brasileiro para demonstrar que
ele que precisa aprender o espanhol.
Na “Aventura de turistas brasileiros” a comicidade é construída através das palavras
em espanhol exquisito (gostoso) e saco (paletó), enquanto os personagens brasileiros durante
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a interação entendem essas palavras através de seu significado em português como algo
estranho (esquisito) e órgão sexual masculino (saco).
Em “A Jogada" a comicidade é construída, praticamente, da mesma forma com as
palavras em espanhol abuela (avó), zurdo (canhoto) e fresco (descansado). A confusão é dada
porque o brasileiro entende que ele está sendo chamado de surdo e homossexual, isso porque
no Brasil é comum ao referir-se a um homem homossexual usar o termo fresco. E o brasileiro
em seu “portunhol” diz “la buela” (a bola) e o espanhol entende como avó.
Os comerciais não apresentam nenhuma relevância intelectual, profissional e cultural
na necessidade do ensino/aprendizagem do espanhol como língua estrangeira e trabalham
principalmente com a figuração de estereótipos e com a comicidade. E verificamos que o
enfoque dado pelo comercial em aprender o espanhol é para quando nos deparamos em uma
situação em que o espanhol é a língua necessária para a interação não cairmos no equívoco de
achar que como o espanhol é uma língua que possui semelhanças com o português não
precisamos aprendê-lo e que se não a aprendermos poderemos nos encontrar em uma situação
muito constrangedora como as apresentadas.
Considerações sobre aspectos recorrentes nas propagandas
Ao investigarmos, inicialmente, quais línguas estrangeiras são mais frequentemente
oferecidas aos brasileiros por escolas de idiomas, nos deparamos com visões explícitas e
implícitas sobre a cultura. Implicitamente, o próprio fato de serem ensinadas algumas línguas
estrangeiras em detrimento de outras já denuncia a visão de que algumas culturas são “mais
valorizadas” ou “mais úteis” do que outras. É o caso, por exemplo, do ensino de inglês e
espanhol, que ocorre em todas as escolas de idiomas pesquisadas.
Os meios de comunicação são ferramentas presentes em nossas relações sociais e o
seu desenvolvimento possibilita que uma parcela maior da população tenha acesso a eles
(telefone, internet, TV a cabo, celulares multifuncionais, etc). Não estamos impondo isso
como uma realidade geral porque temos conhecimento que em alguns lugares do país e/ou em
partes do mundo que a população não conhece ou não tem acesso a esses meios, mas temos
que considerar que hoje eles fazem parte do “mundo globalizado” em que vivemos e que,
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segundo Ghiraldelo (2002), esses meios propiciam maior facilidade de comunicação e com
isso há uma facilitação na troca linguística e cultural. (GHIRALDELO, 2002, p.62)
As propagandas analisadas foram transmitidas na televisão aberta, gratuita, porque
ela consegue chegar até a maior parte da população. E porque vivemos em uma sociedade que
a cultura midiática tem muita força, pois uma de suas formas de atuação é trabalhar com o
psicológico das pessoas, com suas emoções. Nos comerciais essa forma de atuação torna-se
mais evidente já que os publicitários trabalham tentando persuadir seus possíveis
consumidores de que eles precisam do produto anunciado. E com os comerciais de escolas de
idiomas é trabalhado da mesma forma, com imagens e cenas que levem as pessoas a se
convencerem que precisam saber aquela língua estrangeira, a língua se torna um produto a
venda.
Como afirmam Alves e Alves (s/d), os meios de comunicação não são simples
formas de transmitirem informação, mas que são textos que revelam significados culturais
criados em cada período da história em que estão inseridos. (ALVES e ALVES, s/d, p.6).
As diversas formas de cultura passaram, com os meios de comunicação, a se difundir
não somente em um meio limitado, mas sim para todo o mundo. Atualmente temos a
oportunidade de conhecer mais sobre diversas culturas de nosso país e de outros países, mas
quando falamos de outros países nos deparamos com outro elemento à língua, a língua
estrangeira. E precisamos ter consciência que existe uma ligação muito forte entre a língua e a
cultura, isso porque a língua é, segundo Lévi- Strauss (1958), produto da cultura e seu uso
reflete as características gerais da sociedade em que está inserida porque é parte integrante da
cultura ao lado das instituições, crenças, costumes. Ela é uma instituição e um produto social
e por ser por ela que a cultura é transmitida é condição de cultura. ( LÉVI-STRAUSS, 1958,
apud BIZARRO;FRAGA, 2011,p.829)
Só que muitas vezes temos que tomar cuidado com essa difusão cultural “facilitada”
para não corrermos o risco de nos apoderamos de conceituações equivocadas e da difusão de
estereótipos, nos questionando sempre a validade das informações. Devemos levar em
consideração também a interpretação que nosso interlocutor faz dessa informação, porque por
mais que ele tente ser imparcial ele não estará livre de sua concepção subjetiva.
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Cada indivíduo procura um curso de idioma com um determinado objetivo, seja por
necessidades de seu trabalho, para fazer uma viagem, para um processo seletivo, um curso de
licenciatura, ou, apenas por status etc. Mas apesar dos diferentes objetivos que levam as
pessoas a procurarem esses cursos à pergunta que fazemos neste artigo é como a mídia, a
partir dos comerciais, está vendendo ensino da língua estrangeira à população? Qual a cultura
sobre o ensino de língua estrangeira eles apresentam? Isso porque as propagandas fazer
circular sentidos sobre o ensino de língua estrangeira.
É importante conhecermos como a língua estrangeira vem sendo abordada pelos
comerciais de escolas de idiomas porque através deles a mídia transmite de forma direta ou
indireta quais são as línguas “necessárias” para esta sociedade e também a maneira como
essas línguas são abordadas nesses comerciais apresenta a visão de determinada língua, sua
cultura e sua relevância.
Foi possível verificar, por meio das análises, a valorização do inglês e do espanhol
como línguas estrangeiras apresentadas pelos comerciais de escolas de idiomas, mas devemos
refletir se somente o inglês e o espanhol tem relevância para nós brasileiros pelo fato da
divulgação realizada na mídia nos dizer que sim. Essa reflexão é muito importante porque a
mídia, a cultura que ela divulga, é carregada de intenções comerciais e políticas apresentadas
de forma explícita e/ou implícita. Para refletirmos sobre a intencionalidade comercial
devemos perceber que os comerciais tentam vender o seu produto e a política defender seus
interesses como foi possível perceber nas atitudes tomadas, citadas anteriormente, pelo Estado
Novo em relação à língua alemã.
E verificamos que os comerciais utilizaram as negociações de sentidos efetuadas
entre palavras com oralidade parecidas entre as duas línguas para demonstrar que precisamos
aprender o espanhol para não nos depararmos com situações constrangedoras. Esse enfoque
dado pelo comercial é válido, mas não é o único dentre as diversas importâncias em se
aprender uma língua estrangeira.
Ao enfocarmos a interação entre o português e o espanhol devemos, segundo Fanjul
(2002), considerar a proximidade e a distância entre a língua portuguesa e a língua espanhola
e o confronto discursivo mostra que os aprendizes das duas línguas defrontam-se com
constantes negociações de sentido e jogos polissêmicos, portanto conhecimento sobre fatores
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culturais podem influenciar na interação. Esse é um dos enfoques, entre muitos outros, que os
comerciais não abordaram nos deixando brecha para refletirmos sobre sua validade no
ensino/aprendizagem do espanhol como língua estrangeira.
A importância da análise desses comerciais não foi encontrar todas as respostas sobre
o ensino de línguas no Brasil divulgado pela mídia, mas levar-nos a refletir a partir do
enfoque dado por eles sobre os caminhos que foram, são e irão ser traçados e a partir desse
ponto não fazermos julgamentos sobre qualquer língua pela relevância dada pela mídia
porque todas as línguas são relevantes, se não fossem não existiriam.
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ANEXOS
I - Aventura de turistas brasileiros
Situação: Um casal está em um restaurante e o garçom chega para atendê-los.
Garçom: ¿Qué van a servirse?
Legenda:O que desejam?
Homem: ¿Qué tal lo lo pescado?
Garçom: Ah, exquisito.
Legenda: Ah, gostoso.
Mulher: Esquisito?
Garçom: ¡Sí!
Mulher: ¿Cómo está ese prato acá?
Garçom: Muy exquisito, muy exquisito.
Homem: ¿Acá tudo é esquisito?
Garçom: Seguro señor.
Legenda: Com certeza senhor.
Garçom: ¿Puedo colgar su saco?
Legenda: Posso pendurar seu paletó?
Homem: Pegar o que?
Garçom: El saco.
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Legenda: O paletó.
O casal se levanta e vão saindo.
Mulher: Ih! Vamos embora, tá tudo muito esquisito.
I – Jogada
Situação em um jogo de futebol o repórter entrevista um jogador que está prestes a entrar no
jogo.
Repórter: Y aquí tenemos el artillero brasileño José, el matador.
Legenda:... e aqui o artilheiro José, “o matador”.
Repórter: José ¿De dónde viene su apodo el matador?
Legenda: De onde vem seu apelido: “o matador”?
Jogador: Sim é (fala enrolado) especialista em matar e chutar la buela.
Repórter: ¿Matar la abuela?
Legenda: Mata a avó!?!
Jogador: Sim, sim.
Repórter: Bueno, vos vaya entrar porque la equipo precisa de un jugador zurdo y fresco.
Legenda: Bem, você vai entrar porque o time precisa de um jogador canhoto e descansado.
Jogador: Que?
Repórter: Zurdo y fresco.
Legenda: Canhoto e descansado.
Jogador: Tá me estranhando rapá, o que que foi hein?
Jogador tenta agredir o repórter.