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A Verdade em Disputa – Epistemologia, Poder e a Guerra Informacional
Contemporânea
Chapter · June 2025
DOI: 10.47573/aya.5379.2.461.5
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1 author:
Marco Machado
Fundação Universitária de Itaperuna (FUNITA), Itaperuna, RJ, Brazil
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A Verdade em Disputa – Epistemologia, Poder e a
Capítulo 05
Guerra Informacional Contemporânea
Truth in Dispute – Epistemology, Power and
Contemporary Information Warfare
Marco Machado
Fundação Universitária de Itaperuna (FUNITA). http://lattes.cnpq.br/6549675665082560
Resumo: O capítulo analisa a crise contemporânea da verdade como um fenômeno
epistemológico, político e comunicacional. A partir de autores como Nietzsche, Foucault,
Derrida e pensadores de coloniais, propõe uma crítica aos regimes de verdade que sustentam
a hegemonia do conhecimento ocidental. A emergência da pós-verdade, impulsionada
por redes sociais, algoritmos e desinformação, transforma a verdade em performance
identitária e instrumento de poder. O texto problematiza a falsa equivalência midiática, o
bullshit performático e o uso estratégico da dúvida, destacando a urgência do letramento
midiático e da ética discursiva como formas de resistência. A filosofia é convocada a atuar
na reconstrução de um espaço público racional e plural, capaz de enfrentar a desinformação
sem abrir mão da crítica e da responsabilidade epistêmica.
Palavras-chave: verdade; pós-verdade; desinformação; epistemologia; letramento
midiático.
Abstract: This chapter examines the contemporary crisis of truth as an epistemological,
political, and communicational phenomenon. Drawing on thinkers such as Nietzsche,
Foucault, Derrida, and decolonial theorists, it critiques dominant truth regimes that uphold
Western epistemic hegemony. The rise of post-truth—driven by social networks, algorithms,
and disinformation—turns truth into an identity performance and a strategic tool of power. The
chapter addresses media false equivalence, performative bullshit, and the instrumental use of
doubt, highlighting the urgency of media literacy and discursive ethics as forms of resistance.
Philosophy is called upon to help reconstruct a rational and plural public sphere capable of
confronting misinformation without abandoning critique and epistemic responsibility.
Keywords: truth; disinformation, epistemology; media literacy.
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, o conceito de verdade deixou de ser exclusivamente
um problema filosófico ou científico para se tornar um elemento central da disputa
política e cultural. A ascensão da extrema direita em diversos países esteve
acompanhada por um fenômeno que redesenha os contornos do debate público:
a manipulação sistemática da verdade. Esse processo, amparado por técnicas
de comunicação digital, uso de algoritmos, produção em massa de fake news e
apelos emocionais, coloca em xeque os mecanismos clássicos de validação do
conhecimento.
Mais do que um colapso da verdade, vivemos um reposicionamento
de seu lugar social: da busca pela verdade como objetivo comum, passamos à
Entre a Razão e o Caos: Filosofia para os Desafios do Século XXI
DOI: 10.47573/aya.5379.2.461.5
Capítulo 05
Entre a Razão e o Caos: Filosofia para os Desafios do Século XXI
verdade como performatividade discursiva, onde o que importa é a capacidade de
engajamento da afirmação, e não sua correspondência com os fatos. Este ensaio
se propõe a contextualizar a transformação do conceito de verdade como condição
para compreender a crise epistêmica em curso.
DESENVOLVIMENTO
A Verdade como Construção Histórica e Política
Ao longo da história da filosofia, a verdade foi entendida de múltiplas
maneiras: como revelação do ser (aletheia), como correspondência ao real, como
coerência interna, como consenso intersubjetivo, como útil prática. Em comum,
todas essas concepções partem da premissa de que a verdade está relacionada à
nossa maneira de conhecer o mundo.
No entanto, pensadores como Nietzsche, Foucault e Derrida mostraram que
o conhecimento não é neutro: ele está profundamente atravessado por relações de
poder, linguagem e contexto histórico. Friedrich Nietzsche (2019), em sua crítica à
metafísica ocidental, argumentou que a verdade nada mais é do que um exército
móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos que, com o tempo, foram
esquecidas como construções e passaram a ser tomadas como verdades absolutas.
Para ele, a verdade não é descoberta, mas inventada; é produto de convenções
linguísticas e culturais que servem a interesses específicos, sendo constantemente
moldada pela vontade de poder.
Michel Foucault (1987), por sua vez, aprofundou essa crítica ao propor que
toda sociedade estabelece seus regimes de verdade, isto é, formas específicas
de produção, legitimação e circulação do saber, diretamente articuladas com os
dispositivos de poder vigentes. Em suas análises genealógicas, como em “Vigiar
e Punir”, Foucault mostra como instituições como a escola, a prisão, o hospital e
a academia fabricam verdades por meio de práticas discursivas que naturalizam
determinadas concepções de mundo e marginalizam outras.
Já o franco-magrebino Jacques Derrida (1973), ao introduzir o conceito de
desconstrução, questiona a pretensão de transparência da linguagem e revela que
todo texto carrega em si instabilidades, contradições e uma cadeia interminável
de significações que impedem uma fixação definitiva da verdade. Dessa forma, a
verdade deixa de ser entendida como algo dado ou universal e passa a ser vista
como uma construção histórica, contingente, política e, sobretudo, sempre em
disputa simbólica. Esse deslocamento epistemológico tem implicações profundas,
pois desloca o foco da verificação empírica para a crítica das condições de produção
do saber, tornando visíveis os mecanismos que sustentam o que se considera
verdadeiro em cada época.
Autores como Walter Mignolo (s/d, apud Oliveira e Lucini, 2021) ampliam essa
crítica ao destacar como o Ocidente impôs um monopólio da verdade, silenciando
outras formas de produção de conhecimento. A noção de epistemologias do Sul
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Capítulo 05
Entre a Razão e o Caos: Filosofia para os Desafios do Século XXI
propõe uma revalorização de saberes ancestrais, populares e não ocidentais que
historicamente foram subalternizados pelos regimes de verdade eurocentrados.
Com a expansão das redes sociais, essa disputa se intensifica. Plataformas
digitais promovem verdades paralelas e bolhas informacionais, onde diferentes
grupos operam com conjuntos de “fatos” incomunicáveis entre si. A verdade, então,
é modulada pela viralização, pelo marketing e pelas audiências. Nesse cenário,
destaca-se também o fenômeno da falsa equivalência: discursos pseudocientíficos ou
sem base empírica são colocados em pé de igualdade com saberes fundamentados,
distorcendo a percepção pública da verdade.
A Pós-Verdade e o Colapso do Consenso Epistemológico
O conceito de pós-verdade descreve um momento histórico em que a influência
das emoções, crenças pessoais e identidades coletivas passa a ter mais peso do
que os fatos objetivos e verificáveis na formação da opinião pública. Essa condição
não emerge de forma abrupta, mas é fruto de transformações sociais, tecnológicas
e culturais que vêm se acumulando nas últimas décadas, especialmente com a
digitalização das interações sociais e a popularização das redes sociais. A pós-
verdade revela, portanto, não apenas uma indiferença em relação à veracidade,
mas uma reconfiguração dos critérios de validação da realidade.
Neste novo cenário, o conhecimento deixa de ser avaliado prioritariamente
por sua aderência aos fatos ou por sua consistência argumentativa, e passa a
ser julgado por sua capacidade de gerar engajamento, emoção e identificação
com determinados grupos. A verdade torna-se relacional e afetiva. Tal dinâmica é
potencializada por algoritmos que, ao privilegiar conteúdos que maximizam cliques,
reações e compartilhamentos, contribuem para a formação de bolhas epistêmicas,
onde diferentes grupos vivem realidades paralelas alimentadas por crenças,
símbolos e desinformação.
O crescimento de líderes populistas e autoritários ao redor do mundo é um dos
sintomas mais visíveis da era da pós-verdade. Esses líderes operam discursivamente
por meio de estratégias que combinam simplificação retórica, ataques à imprensa e
à ciência, negação sistemática de dados e fatos, e mobilização de afetos negativos
como medo, ressentimento e indignação. A construção de narrativas que apelam à
identidade do grupo e demonizam o outro não exige fundamentação empírica, mas
apenas aderência emocional.
“Na prática, para os adeptos dos populistas, a verdade dos fatos,
tomados um a um, não conta. O que é verdadeiro é a mensagem
no seu conjunto, que corresponde a seus sentimentos e suas
sensações.” — Os engenheiros do caos: Como as fake news,
as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados
para disseminar ódio, medo e influenciar eleições ... O mago do
Kremlin) de Giuliano da Empoli.
A epistemologia clássica, que prezava pela objetividade, testabilidade e
coerência lógica, vê-se desafiada por esse novo paradigma. A crise do consenso
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Capítulo 05
Entre a Razão e o Caos: Filosofia para os Desafios do Século XXI
epistemológico é, nesse sentido, também uma crise da autoridade do conhecimento.
Instituições como universidades, centros de pesquisa e veículos jornalísticos
tradicionais passam a ser atacadas sistematicamente, sendo enquadradas como
parte de uma elite conspiratória ou como inimigas do “povo verdadeiro”. Esse
movimento contribui para o enfraquecimento do espaço público racional, tornando
mais difícil o diálogo democrático baseado em fatos compartilhados.
Ao lado desse fenômeno, ganha destaque o problema da demarcação entre
ciência e pseudociência. Sem critérios epistemológicos claros e consensuais,
cresce o risco da falsa equivalência, em que crenças infundadas são apresentadas
em pé de igualdade com saberes fundamentados. Isso ocorre, por exemplo, quando
um climatologista com décadas de pesquisa rigorosa é colocado em um debate
televisivo ao lado de um negacionista climático sem qualquer formação relevante,
como se ambos tivessem o mesmo peso argumentativo. A mídia, ao buscar uma
suposta imparcialidade e pluralismo, acaba contribuindo para a confusão epistêmica,
reforçando a percepção de que toda opinião tem o mesmo valor, independentemente
de sua fundamentação.
Ademais, o fenômeno do bullshit, como definido por Harry Frankfurt, aprofunda
esse cenário. Ao contrário da mentira deliberada, que reconhece a verdade para
poder negá-la, o bullshit é caracterizado pela total indiferença à verdade. O emissor
do bullshit não está preocupado com a veracidade de sua fala, mas apenas com
seus efeitos retóricos e performáticos. Em um ambiente dominado por esse tipo de
discurso, a busca pela verdade é substituída pela busca por visibilidade, aprovação
social e engajamento. O resultado é um enfraquecimento da confiança pública nas
formas tradicionais de validação do saber.
Segundo Jayme Bulhões Filho a desinformação, além de fenômeno político
e simbólico, também opera como modelo de negócio altamente lucrativo. As redes
sociais lucram com a atenção gerada tanto pela divulgação quanto pelo combate
à desinformação. Isso cria um ciclo perverso, em que o engajamento — mesmo
crítico — gera mais visibilidade e, portanto, mais receita. Estima-se que apenas
dez produtores de conteúdo sejam responsáveis por 70% da desinformação nas
plataformas, segundo dados do Center for Countering Digital Hate (CCDH), revelando
uma estrutura concentrada e altamente profissionalizada de produção de conteúdos
falsos ou enganosos. Trata-se de uma infodemia sustentada por interesses políticos
e financeiros, que mina ainda mais a possibilidade de um espaço público racional.
Assim, a era da pós-verdade representa uma inflexão histórica nas formas
de produção e circulação do conhecimento. Longe de ser apenas um problema
comunicacional, trata-se de uma crise epistemológica profunda, que desafia
os fundamentos da racionalidade moderna e exige da filosofia, da ciência e da
sociedade respostas à altura da complexidade do desafio.
O problema da demarcação, tema clássico da filosofia da ciência, retorna com
força nesse contexto. A ausência de critérios claros entre ciência e pseudociência
alimenta a confusão pública, abrindo espaço para práticas discursivas baseadas
em bullshit. A falsa equivalência mediática, que opõe cientistas a negacionistas em
supostos debates equilibrados, mina o próprio valor do saber científico.
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Capítulo 05
Entre a Razão e o Caos: Filosofia para os Desafios do Século XXI
A Verdade como Performance e Identidade
“O mais importante não é a realidade factual da controvérsia,
mas a percepção do público de que existe uma polêmica
legítima.” — Contra a realidade: A negação da ciência, suas
causas e consequências de Natalia Pasternak, Carlos Orsi.
Num cenário de alta polarização política e cultural, a verdade deixa de
funcionar como critério argumentativo compartilhado e passa a assumir o papel
de marcador identitário. As pessoas não apenas defendem determinadas crenças
por acreditarem que elas são verdadeiras, mas porque tais crenças se tornam
expressões daquilo que elas são ou gostariam de ser. A verdade, nesse contexto,
transforma-se em performance: um ato discursivo que visa demonstrar lealdade a
um grupo, reforçar pertencimentos e afirmar posicionamentos morais ou políticos.
Esse deslocamento é visível em práticas cotidianas das redes sociais,
onde os usuários compartilham frases de efeito, memes, slogans e notícias não
necessariamente por sua veracidade, mas por seu valor simbólico, por aquilo que
comunicam sobre quem compartilha. Assim, o compartilhamento de uma fake news
contra um adversário político pode ser interpretado não como ingenuidade ou má-fé,
mas como um gesto performativo que reafirma uma identidade coletiva — mesmo
que o conteúdo seja posteriormente desmentido.
A lógica da performatividade da verdade está intimamente relacionada à
formação de comunidades afetivas e epistêmicas. Nessas comunidades, a adesão
a determinadas crenças funciona como condição para a permanência no grupo,
sendo a dissonância cognitiva ou o pensamento divergente punidos por meio de
exclusão simbólica, cancelamentos ou perda de capital social. O processo de
formação da identidade se entrelaça com a aceitação de um conjunto específico de
narrativas, o que reforça a impermeabilidade à crítica e ao diálogo racional.
A extrema direita contemporânea tem explorado essa dimensão com notável
eficácia. Ao mobilizar afetos — como medo, ressentimento, nostalgia e indignação
moral — esses movimentos constroem narrativas que se impõem não por evidências,
mas por sua capacidade de ressoar com sentimentos profundos e experiências
pessoais dos indivíduos. A verdade passa a ser definida não pelo que se pode
provar, mas pelo que parece plausível dentro de uma matriz afetiva e ideológica
compartilhada. Como consequência, cresce o apelo a teorias da conspiração, a
revisionismos históricos e a discursos pseudocientíficos que fornecem explicações
simplificadas para realidades complexas, frequentemente responsabilizando
inimigos simbólicos como elites, comunistas, globalistas, feministas ou imigrantes.
Essa dimensão performativa da verdade também opera em chave de
opressão quando o discurso se ancora em marcadores identitários racializados e
de gênero. Autores decoloniais denunciam como a desinformação frequentemente
serve para reforçar estruturas patriarcais, racistas e xenofóbicas, criando verdades
afetivas que justificam exclusões e violências. A construção de bodes expiatórios —
feministas, negros, indígenas, imigrantes — opera não pela veracidade dos fatos,
mas pelo seu valor simbólico no reforço de hierarquias sociais.
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Capítulo 05
Entre a Razão e o Caos: Filosofia para os Desafios do Século XXI
“A defesa de um modelo de sociedade diferente da ocidental não
deve ser vista como uma expressão de atraso nem como a prova
de que a pessoa continua num estágio “pré-moderno”. Já está
mais do que na hora de abandonar o dogma eurocêntrico de que
nosso modelo tem um direito especial sobre a racionalidade e a
moralidade.” — Sobre o político de Chantal Mouffe (2015).
Além disso, a cultura do engajamento nas redes sociais intensifica esse
fenômeno. A necessidade constante de produzir conteúdo e se posicionar obriga
indivíduos — inclusive figuras públicas como políticos, artistas, influencers e até
acadêmicos — a emitirem opiniões sobre temas complexos sem a devida reflexão
ou domínio técnico. Esse imperativo opinativo favorece o crescimento do bullshit
performático: declarações feitas não para esclarecer ou contribuir com o debate,
mas para agradar audiências específicas, reforçar identidades e manter relevância
no ambiente digital.
Nesse contexto, a verdade não é apenas deslocada — ela é fragmentada,
substituída por múltiplas verdades paralelas que coexistem de forma conflituosa. As
câmaras de eco e os filtros algorítmicos reforçam esse processo, limitando o contato
com visões divergentes e consolidando percepções de mundo autorreferenciais.
O debate público, em vez de se orientar pela busca de consensos mínimos e pela
construção coletiva do conhecimento, transforma-se em um campo de batalhas
simbólicas, onde o que importa não é a consistência dos argumentos, mas a
potência dos gestos.
Epistemologia da Desinformação: Como a Dúvida Virou Arma
“’Não existe nenhuma lei que proíba mentir’, disse Alexander.
‘E, além disso, o que estamos fazendo é corrigir a narrativa’.”
— Manipulados: como a Cambridge Analytica e o Facebook
invadiram a privacidade de milhões e botaram a democracia em
xeque de Brittany Kaiser.
Historicamente, a dúvida foi ferramenta da razão filosófica. Com Descartes,
ela serviu à construção de um saber inabalável. Hoje, entretanto, a dúvida tem
sido manipulada para fins opostos: semear incerteza, minar o conhecimento
técnico e sabotar a democracia. A fabricação da dúvida é um método deliberado de
desinformação, empregado por indústrias e replicado pela política.
A questão da demarcação científica é central aqui. Como distinguir ciência de
pseudociência em um mundo de discursos performáticos? O critério de falseabilidade
de Popper, a estrutura de paradigmas de Kuhn, os programas de pesquisa de Lakatos
e a anarquia epistemológica de Feyerabend ajudam a compreender as disputas
atuais, embora nenhuma dessas abordagens ofereça uma solução definitiva. A
ciência, mesmo sendo imperfeita, se destaca por seu compromisso com a revisão
crítica e com a disposição de corrigir seus próprios erros.
Bulhões enfatiza que nos contextos de vulnerabilidade midiática e
dependência econômica, especialmente em regiões periféricas como a Amazônia,
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Capítulo 05
Entre a Razão e o Caos: Filosofia para os Desafios do Século XXI
a própria imprensa local pode se tornar cúmplice do ecossistema de desinformação.
Muitas vezes, veículos de mídia reproduzem press-releases de políticos ou
interesses empresariais sem o devido rigor jornalístico, contribuindo para confundir
ainda mais os critérios de veracidade. Como mostra o NetLab da UFRJ, em estudo
apresentado na COP20, a ausência de jornalismo investigativo robusto permite que
a desinformação se propague em áreas onde ela é menos confrontada — o que
também aprofunda desigualdades informacionais e territoriais.
Compreender os mecanismos de produção e financiamento da desinformação
também implica reconhecer o papel ativo de setores políticos e econômicos na sua
manutenção. A diretora do FALA, Thais Lazzeri (citado por Bulhões), aponta que
enquanto 90% da população brasileira se preocupa com o meio ambiente, 80%
dos políticos da Amazônia agem em sentido contrário, muitas vezes produzindo ou
apoiando conteúdos desinformativos para sustentar interesses econômicos de curto
prazo. Essa desconexão entre representação política e demandas sociais mostra
que a desinformação não é apenas um ruído comunicacional, mas uma ferramenta
estratégica de poder.
Letramento Midiático e a Reconstrução do Espaço Público
Racional
“Quando os interesses políticos de um determinado momento
histórico encontram nas tecnologias disponíveis uma ferramenta
que os permite manipular a realidade, o que temos é a
tempestade perfeita.” — Tudo o que você precisou desaprender
para virar um idiota de Meteoro Brasil (2019).
Em meio ao colapso das referências epistemológicas tradicionais, o letramento
midiático emerge como uma ferramenta fundamental de resistência crítica. Mais
do que aprender a utilizar tecnologias, trata-se de desenvolver a capacidade de
interpretar, avaliar e contextualizar as informações que circulam no ecossistema
digital. O letramento midiático implica não apenas identificar fake news, mas
compreender os mecanismos que as produzem, os interesses que as sustentam e
os afetos que mobilizam.
A desinformação contemporânea, impulsionada por algoritmos, memes e
discursos performáticos, não se alimenta apenas da ignorância, mas da sobrecarga
informacional, da desorientação e da ausência de critérios claros para julgar a
veracidade de um conteúdo. Nesse cenário, a educação para os meios deve ir além
da decodificação técnica: ela precisa ser epistemológica e ética, promovendo uma
consciência crítica sobre as formas de manipulação simbólica e o uso estratégico
da linguagem.
Outro ponto relevante é que o combate à desinformação, ainda que
necessário, pode ser cooptado pelo próprio sistema que visa combater. Cada reação
— seja fact-checking, denúncias ou campanhas educativas — gera novos ciclos de
engajamento que, paradoxalmente, reforçam a lógica algorítmica de visibilidade e
monetização da mentira. O letramento midiático, portanto, deve incluir também uma
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Capítulo 05
Entre a Razão e o Caos: Filosofia para os Desafios do Século XXI
crítica à arquitetura econômica das plataformas, que transforma até o combate à
desinformação em moeda de atenção.
Promover o letramento midiático é, portanto, uma tarefa política. Envolve a
formação de sujeitos autônomos, capazes de resistir às simplificações binárias,
ao discurso do ódio e às narrativas conspiratórias. Ao fomentar uma cultura de
questionamento informado e de diálogo racional, o letramento midiático contribui para
a reconstrução do espaço público, oferecendo um antídoto contra a naturalização
do bullshit e a corrosão da confiança coletiva. Ele deve ser incorporado desde
os primeiros anos da educação formal e incentivado em políticas públicas que
compreendam a centralidade da comunicação na disputa pela verdade no século
XXI.
A filosofia como Resistência: Por uma Ética da Verdade
“Nós devemos nos preocupar quando políticos: 1) rejeitam, em
palavras ou ações, as regras democráticas do jogo; 2) negam a
legitimidade de oponentes; 3) toleram e encorajam a violência;
e 4) dão indicações de disposição para restringir liberdades
civis de oponentes, inclusive a mídia.” — Como as democracias
morrem de Steven Levitsky, Daniel Ziblatt.
Diante desse quadro, a filosofia é convocada a retomar seu papel crítico.
Não como guardiã da verdade absoluta, mas como promotora de um pensamento
antidogmático e fundamentado. A filosofia pode oferecer instrumentos para discernir
argumentos falaciosos, analisar estruturas discursivas e promover o debate racional.
A proposta habermasiana de uma ética do discurso, onde a validade das
proposições é testada pela argumentação livre e equânime, reaparece como um
horizonte possível para reconstruir espaços públicos comprometidos com a verdade.
A filosofia deve também se aliar à epistemologia contemporânea para enfrentar
os desafios impostos pela desinformação, pela pseudociência e pelo bullshit. Ao
recuperar o papel da confiança como base da verdade, reforça-se a importância
de instituições comprometidas com a transparência, a revisão crítica e o interesse
público.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A verdade, compreendida em sua pluralidade conceitual que era tema da
filosofia, revela-se na atualidade como campo de disputa simbólica e política. Sua
manipulação não é simples sintoma de ignorância, mas estratégia de poder. Ao
examinar os discursos radicalizados, é possível perceber que a guerra de informação
não visa convencer, mas confundir; não pretende argumentar, mas paralisar.
Resgatar a filosofia como ferramenta de resistência é, portanto, essencial. Em
tempos de pós-verdade, lutar pela verdade não é apenas um gesto intelectual: é um
ato político, ético e, acima de tudo, necessário para a preservação da democracia.
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Capítulo 05
Entre a Razão e o Caos: Filosofia para os Desafios do Século XXI
A reflexão sobre o problema da demarcação não se limita ao campo acadêmico:
ela é essencial para que possamos distinguir o conhecimento legítimo do discurso
manipulador, a ciência do simulacro, a verdade da mera aparência.
A luta pela verdade pode incluir também o reconhecimento da pluralidade
epistêmica e o combate ao epistemicídio, sem que a relativização pueril seja
instalada. Fortalecer a democracia também implica ampliar os repertórios cognitivos
legítimos, promovendo o diálogo entre saberes tradicionais, populares, acadêmicos
e insurgentes. Como apontam os defensores das epistemologias do Sul, há múltiplas
formas de verdade — e reconhecer essa diversidade é essencial para resistir à
desinformação e à manipulação sistêmica da linguagem.
O compromisso com a verdade é, afinal, uma forma de responsabilidade
cívica. É a partir dele que se constroem sociedades mais justas, mais informadas e
mais livres.
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AGRADECIMENTOS
Agradeço ao professor Mateus de Oliveira Leite, sem o auxílio dele esse
capítulo não seria possível.
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