LÍNGUA PORTUGUESA 50.
Homero, também não terá esquecido que, já
51. há algum tempo, gravam-se falas, e que,
Instrução: As questões de 01 a 09 estão 52. portanto, a tecnologia humana já soube dar
relacionadas ao texto abaixo. 53. registro permanente também à palavra falada.
54. Ocorre que a permanência de que fala
01. No momento em que abrimos um livro nos 55. Verissimo é outra: acima do fato de que a
02. pomos no reino da palavra escrita, 56. escrita representa um registro concreto
03. compartilhando desse sortilégio ........ fala 57. permanente, está o fato de que ela leva a
04. Verissimo no texto Sinais mortíferos, dessa 58. palavra a “outro domínio”. A palavra falada
05. mágica de sinais gravados ........ une as 59. povoa um domínio que, já por funcionar
06. mentes das quais saíram sinais, e outros sinais, 60. automaticamente segundo o software que
07. e outros sinais... 61. trouxemos à vida com a vida, não desvenda
08. Ninguém duvida de que a manifestação 62. todos os sortilégios nos quais entramos quando
09. falada é a linguagem primeira, é a linguagem 63. complicamos o viver. Que digam os versos dos
10. natural, que prescinde das tábuas e dos sulcos 64. poetas que no geral se produzem no suporte
11. que um dia os homens inventaram para 65. gráfico e assim nos chegam (no papel ou em
12. cumprir desígnios que foram sendo 66. tela do monitor, insisto), mas vêm carregados
13. estabelecidos, para o bem e para o mal. 67. da melodia que lhes dá sentido, e por aí nos
14. Nas sagas que cantou, Homero distinguia 68. transportam a um mundo particularmente mágico
15. heróis da palavra, heróis que eram os homens 69. a que passamos a pertencer com a leitura!!!
16. de fala forte, de fala efetiva, de fala eficiente. 70. Este é, por si, o mundo da palavra mágica!!
17. Assim como havia heróis excelentes na ação, 71. E chegamos à função da escola nesse
18. havia aqueles excelentes na palavra (porque, 72. mundo da mágica da linguagem. Se, como diz
19. para o épico, excelente em tudo só Zeus!). E 73. Verissimo, a escrita traz o preço de “roubar a
20. entre eles Homero ressalta muito 74. palavra à sua vulgaridade democrática”, cabe
21. significativamente a figura do velho conselheiro 75. aos professores, que são aqueles ........ é dado
22. Nestor, sempre à parte dos combates, mas 76. levar às gerações a força da linguagem e a
23. dono de palavras sábias que dirigiam rumos 77. força da cultura reverter o processo e reverter
24. das ações. Ele ressalta, entre todos – no foco 78. o argumento: cabe-lhes valorizar a democrática
25. da epopeia –, a figura de Odisseu/Ulisses, que 79. palavra falada, sim, mas sua missão muito
26. nunca foi cantado como herói de combate 80. particular é vulgarizar democraticamente a
27. renhido, mas que foi o senhor das palavras 81. palavra (escrita) dos livros sem tirar-lhes o
28. astutas que construíram a Odisseia. 82. sortilégio: acreditemos ou não em sortilégios...
29. Hoje a força da palavra falada é a mesma, Adaptado de: MOURA NEVES, M.H. Introdução. A
30. nada mudou, na história da humanidade, gramática do português revelada em textos. São
31. quanto ao exercício natural da capacidade que Paulo: Editora da Unesp, 2018.
32. o humano tem de falar e quanto à destinação
33. natural desse exercício. Mas, que diferença!!
34. E vem agora o lado prático dessa conversa 01. Assinale a alternativa que preenche
35. inicial: sem discussão, pode-se dizer que a corretamente as lacunas das linhas 03, 05 e 75,
36. palavra escrita é sustentáculo da cultura, nesta ordem.
37. embora não ouse supor que as sociedades
38. ágrafas sejam excluídas da noção de “cultura”,
(A) de que – que – a quem
39. e que os textos de Homero, que então eram
40. apenas cantados, não tenham sido sustentáculo (B) sobre o qual – as quais – para quem
41. de cultura no mundo grego, exatamente por (C) que – que – a quem
42. onde chegaram ao registro escrito.
(D) de que – os quais – que
43. Diz Verissimo que a palavra escrita “dá
44. permanência à linguagem”, e isso se (E) que – os quais – que
45. comprovaria, banalmente, no fato de que hoje
46. os versos de Homero nos chegam somente
47. cravados em folha de papel ou em tela de
48. computador. Mas com certeza o cronista, que
49. não esqueceu a permanência do texto oral de
UFRGS – CV/2024 – 1º DIA 3
Instrução: As questões de 10 a 15 estão 53. infância de minha mãe confundiam-se com
relacionadas ao texto abaixo. 54. ........ de minha própria infância. Lembro-me
55. de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava,
01. Uma noite, há anos, acordei bruscamente e 56. da panela subia cheiro algum. Era como se
02. uma estranha pergunta explodiu de minha 57. cozinhasse, ali, apenas o nosso desesperado
03. boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? 58. desejo de alimento. E era justamente nos dias
04. Atordoada, custei reconhecer o quarto da nova 59. de parco ou nenhum alimento que ela mais
05. casa em que estava morando e não conseguia 60. brincava com as filhas. Nessas ocasiões a
06. me lembrar como havia chegado até ali. E a 61. brincadeira preferida era aquela em que a mãe
07. insistente pergunta, martelando, martelando... 62. era a Senhora, a Rainha. Ela se assentava em
08. De que cor eram os olhos de minha mãe? 63. seu trono, um pequeno banquinho de madeira.
09. Aquela indagação havia surgido há dias, há 64. Felizes colhíamos flores cultivadas em um
10. meses, posso dizer. Entre um afazer e outro, 65. pequeno pedaço de terra que circundava o
11. eu me pegava pensando de que cor seriam os 66. nosso barraco. Aquelas flores eram depois
12. olhos de minha mãe. E o que a princípio tinha 67. solenemente distribuídas por seus cabelos,
13. sido um mero pensamento interrogativo, 68. braços e colo. E diante dela fazíamos
14. naquela noite se transformou em uma dolorosa 69. reverências à Senhora. Postávamos deitadas
15. pergunta carregada de um tom acusatório. 70. no chão e batíamos cabeça para a Rainha. Nós,
16. Então, eu não sabia de que cor eram os olhos 71. princesas, em volta dela, cantávamos,
17. de minha mãe? 72. dançávamos, sorríamos. A mãe só ria, de uma
18. Sendo ........ primeira de sete filhas, desde 73. maneira triste e com um sorriso molhado...
19. cedo, busquei dar conta de minhas próprias 74. Mas de que cor eram os olhos de minha mãe?
20. dificuldades, cresci rápido, passando por uma 75. Eu sabia, desde aquela época, que a mãe
21. breve adolescência. Sempre ao lado de minha 76. inventava esse e outros jogos para distrair a
22. mãe aprendi ........ conhecê-la. Decifrava o seu 77. nossa fome. E a nossa fome se distraía.
23. silêncio nas horas de dificuldades, como 78. De vez em quando, no final da tarde, antes
24. também sabia reconhecer em seus gestos, 79. que a noite tomasse conta do tempo, ela se
25. prenúncios de possíveis alegrias. Naquele 80. assentava na soleira da porta e juntas
26. momento, entretanto, me descobria cheia de 81. ficávamos contemplando as artes das nuvens
27. culpa, por não recordar de que cor seriam os 82. no céu. Umas viravam carneirinhos; outras,
28. seus olhos. Eu achava tudo muito estranho, 83. cachorrinhos; algumas, gigantes adormecidos,
29. pois me lembrava nitidamente de vários 84. e havia aquelas que eram só nuvens, algodão
30. detalhes do corpo dela. Da unha encravada do 85. doce. Tudo tinha de ser muito rápido, antes
31. dedo mindinho do pé esquerdo... Da verruga 86. que a nuvem derretesse e com ela também se
32. que se perdia no meio da cabeleira crespa e 87. esvaecessem os nossos sonhos. Mas, de que
33. bela... Um dia, brincando de pentear boneca, 88. cor eram os olhos de minha mãe?
34. alegria que a mãe nos dava quando, deixando Adaptado de: EVARISTO, C. Olhos d´água.
35. por uns momentos o lava-lava, o passa-passa Rio de Janeiro: Pallas, 2016.
36. das roupagens alheias, se tornava uma grande
37. boneca negra para as filhas, descobrimos uma
38. bolinha escondida bem no couro cabeludo
39. dela. Pensamos que fosse carrapato. A mãe 10. Assinale a alternativa que preenche
40. cochilava e uma de minhas irmãs aflita, corretamente as lacunas das linhas 18, 22, 52
41. querendo livrar a boneca-mãe daquele e 54, nesta ordem.
42. padecer, puxou rápido o bichinho. A mãe e nós
43. rimos e rimos e rimos de nosso engano. A mãe (A) a – a – Às – as
44. riu tanto das lágrimas escorrerem. Mas, de que (B) à – a – As – as
45. cor eram os olhos dela?
46. Eu me lembrava também de algumas (C) a – a – Às – às
47. histórias da infância de minha mãe. Ela havia (D) à – à – As – às
48. nascido em um lugar perdido no interior de (E) a – à – Às – às
49. Minas. Ali, as crianças andavam nuas até bem
50. grandinhas. As meninas, assim que os seios
51. começavam a brotar, ganhavam roupas antes
52. dos meninos. ........ vezes, as histórias da
6 UFRGS – CV/2024 – 1º DIA