Gramatica Historica
Gramatica Historica
Gramática Histórica
1ª EDIÇÃO
2015
Proibida a reprodução total ou parcial. Os infratores serão processados na forma da lei.
EDITORA UNIMONTES
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Unidade 1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
História da Língua Portuguesa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
1.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
Unidade 2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
Metaplasmos e Analogia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
2.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
2.2 Metaplasmos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
2.3 Analogia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24
Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
Unidade 3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
Constituição do Léxico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
3.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
3.3 Arcaísmos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
3.4 Neologismos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
Unidade 4 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
O Português no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
4.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
Resumo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
Atividades de Aprendizagem - AA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
Letras Português - Gramática Histórica
Apresentação
“Assi como em todas cousas humanas ha continua mudança
& alteração, assi he tambem nas lingoages̃” (Duarte Nunes Leão).
Bom estudo!
Elaine Ferreira Dias e José Lúcio Ferreira Higino
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Letras Português - Gramática Histórica
Unidade 1
História da Língua Portuguesa
Elaine Ferreira Dias
1.1 Introdução
Esta unidade tem por objetivo descrever a pré-história do português, a partir dos principais Dica
acontecimentos históricos que permearam a sua formação. Destacaremos a contribuição das lín-
guas pré-romanas, da romanização e das línguas posteriores à romanização como fatores de di- O escritor brasileiro
Olavo Bilac, em seu
ferenciação. Acompanharemos, também, o desenvolvimento territorial do Estado português e a famoso poema “Língua
evolução da língua portuguesa, conforme o esquema abaixo apresentado: portuguesa”, logo no
primeiro verso, empre-
ga a expressão a última
flor do Lácio para carac-
terizar o nosso idioma,
considerando a língua
portuguesa a última das
filhas do latim, língua
falada inicialmente na
região do Lácio, daí o
nome latim. O poeta a
caracteriza como inculta
pelas vezes em que foi
Entretanto, antes de começarmos a falar sobre a história da nossa língua, faremos uma pau- alterada pela boca do
sa para entendermos, em linhas gerais, a sua origem. povo, embora continue
a ser bela. Acesse o site
http://www.citador.pt/
poemas/lingua-portu-
A língua portuguesa tem origem no latim vulgar, a língua falada pelo povo romano. Assim
como o português, muitas outras línguas possuem essa mesma origem e são chamadas de lín-
guas românicas, novilatinas ou neolatinas, tais como o castelhano, o francês, o italiano, o rome-
no, entre outras. O mapa abaixo mostra a distribuição das principais línguas românicas. O estudo
da história da língua portuguesa deve ressaltar, portanto, o seu antepassado linguístico: o latim
vulgar.
11
UAB/Unimontes - 4º Período
Não é fácil afirmar com segurança quais os povos que habitavam primitivamente o território
peninsular. De todo modo, podemos apontar, segundo Coutinho (1976), dois grupos étnicos: o
basco e o ibero. No mapa da figura 2, a palavra “basco” aparece como termo espanhol: Vascones.
A rica região peninsular foi palco de grandes disputas entre gregos e fenícios, terminando
com a expulsão dos gregos, no ano de 1100 a.C. O contato dessas duas civilizações na península
proporcionou a fundação de algumas cidades, como Gadir, hoje Cádiz, na Espanha, além de um
notável florescimento na arte.
Posteriormente (séc. V a.C.), fixaram-se, principalmente na Galécia e em outras regiões de
Portugal, os celtas. Da combinação entre celtas e iberos, surgem os celtiberos.
Dica Na continuação de uma série de disputas territoriais, a Península Ibérica testemunhou a in-
vasão de mais um povo, os cartagineses, oriundos do norte da África.
Para entender a dinâ-
mica do imperialismo A expansão dos cartagineses na região do mediterrâneo ameaçava o poder de outra po-
romano, assista aos fil- tência, Roma, que, naquela ocasião, também se expandia. O confronto foi inevitável, resultan-
mes: “Gladiador” (Ridley do, após três grandes guerras, as chamadas guerras púnicas, na vitória das legiões romanas,
Scott) e/ou “Spartacus” em 146 a.C.
(Kirk Douglas).
1.3.2 Os Romanos
12
Letras Português - Gramática Histórica
◄ Figura 3: Templo
romano de Évora, sec.
I d.C.
Fonte: Disponível em
<http://pt.wikipedia.org/
wiki/Ficheiro:Evora-Ro-
manTemple_edit.jpg>.
Acesso em 20 fev. 2015.
DicA
Segundo Coutinho
(1976, p. 49), o latim, le-
vado pelos legionários,
colonos, comerciantes
e funcionários públi-
cos, não se impôs pela
força, mas, antes, pelas
próprias circunstâncias,
pois tinha o prestígio
de ser a língua oficial,
de cultura, ensinada nas
Apesar de Roma ter encontrado uma região fragmentada e dispersa, conseguiu, de forma escolas.
eficaz, implantar a sua língua e seus costumes nas terras conquistadas. Com exceção dos povos Pesquise um pouco
mais sobre o assunto na
do norte, os bascos, todos adotaram o latim como língua e, mais tarde, o cristianismo como re- obra: COUTINHO, Ismael
ligião. Roma levou às suas províncias sua infraestrutura e administração: escolas, edifícios públi- de Lima. Pontos de
cos, além de um excelente sistema rodoviário. Gramática Histórica.
Para governar a península, os romanos começaram por dividi-la em duas províncias, a His- 7. ed. Rio de Janeiro: Ao
pania Citerior e a Hispania Ulterior. Mais tarde, no ano 27 a.C., Augusto divide a Hispania Ulterior Livro Técnico, 1976.
em duas regiões heterogêneas: a Bética, mais desenvolvida; e a Lusitânea, menos desenvolvida.
Posteriormente, entre 7 a. C. e 2 a.C., a parte norte da Lusitânia, chamada Gallaecia, é anexada à
província tarraconense. Cada província subdivide-se em circunscrições judiciárias denominadas
conventus.
◄ Figura 4: Divisão
provincial
Fonte: Disponível em
<http://pt.wikipedia.
org/wiki/Ficheiro:Hispa-
nia_3a_division_provin-
cial.PNG>. Acesso em 20
fev. 2015.
Em toda a península, a romanização se fez mais rápida e completa no sul do que no norte.
A Gallaecia, situada na região norte, por exemplo, se manteve mais conservadora, sem falar nos
povos bascos, que não assimilaram a língua românica, e ainda hoje mantêm uma postura separa-
tista, usando, inclusive, sua língua original.
O latim falado pelo povo era o sermo vulgaris, plebeius ou rusticus; já a outra modalidade,
o sermo urbanus, eruditus ou perpolitus veiculava apenas nas obras imortais dos grandes escri-
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UAB/Unimontes - 4º Período
tores latinos, como Cícero e Ovídio, nas escolas e, de forma dispersa, pela classe alta. Assim, o
grande candidato a ser nosso antepassado linguístico foi o sermo vulgaris, o latim transplan-
tado, regionalizado e falado pelo povo. Dele irão surgir inúmeros romances e, finalmente, as
línguas românicas.
Figura 6: Mesquita de
Córdoba
Fonte: Disponível em <ht-
tps://www.google.com.
br/search?q=Mesquita+-
de+C%C3%B3rdoba&es_
sm=93&tbm=isch&-
tbo=u&source=univ&-
sa=X&ei=YSTnVMyDLZK-
1sASbnYKADQ&ved=0C-
C8QsAQ&biw=1600&-
bih=799>. Acesso em 20
fev. 2015.
14
Letras Português - Gramática Histórica
A língua oficial era o árabe, mas o povo vencido continuou a falar o latim vulgar modifi- Glossário
cado, o romance ou, em alguns casos, uma mistura entre o romance e o árabe, conhecido por Antroponímia: Designa
moçárabe. o estudo dos nomes
Apesar da grande tolerância dos muçulmanos, uma parte da população cristã se rebelou. A próprios. Cunhado pelo
reconquista, nome dado a esse movimento, partiu das montanhas das Astúrias, região norte, ao etnólogo e filólogo
sul da península. Os rebeldes, liderados por Pelágio, foram pouco a pouco expulsando os árabes português José Leite
de Vasconcelos. Fonte:
e, em 1492, apoderam-se de Granada, último reduto mouro, finalizando a dominação árabe na (HOUAISS, 2001)
península. O mapa abaixo mostra a cronologia da reconquista; o tom verde marca os territórios Toponímia: estudo de
sob domínio muçulmano; o amarelo, a formação do território português; os outros tons, os rei- nomes de lugares.
nos cristãos da península (Leão, Aragão, Castela, Navarra).
◄ Figura 7: Cronologia
da reconquista cristã
da Península Ibérica
Fonte: Disponível em
<https://www.google.
com.br/search?q=Cro-
nologia+da+reconquis-
ta+cristã+da+Penínsu-
la+Ibérica&es_sm=93&-
tbm=isch&tbo=u&sour-
ce=univ&sa=X&ei=USXn-
VIT8JIy_sQTN6YDoD-
g&ved=0CB4QsAQ&b>.
Acesso em 20 fev. 2015.
Dica
A mesquita de Cór-
doba, durante muito
tempo, foi o símbolo do
Islamismo na Península,
mas, com a expulsão
dos árabes, foi desca-
racterizada e consa-
grada catedral cristã
A influência do idioma árabe foi pequena, limitando-se ao léxico. Os nomes mais frequentes no mesmo ano em que
Córdoba foi reconquis-
designam plantas, frutas, flores e substâncias aromáticas: algodão, alecrim, alface, alfafa, alfaze- tada, em 1236. Hoje, ela
ma, açafrão. Na toponímia, há vestígios da dominação árabe: Algarve, Alcobaça, Guadiana, Gua- representa a fusão entre
dalquivir, Gibraltar. De mesma origem, é a interjeição árabe oxalá (in+sha+Allah) que significa “Se as duas culturas. Para
Deus quiser”. Uma particularidade fonética é a transformação da letra –h em –f, como nos atesta melhor conhecer sobre
a palavra: rehen (refém). o assunto acesse o site:
http://www.islambr.
O sucesso das cruzadas transferiu o poder das mãos dos árabes para os reis católicos de com.br/index.php?op-
Leão, Castela e Aragão. tion=com_content&vie-
Coutinho (1976) atenta para um fato curioso. Entre os fidalgos que lutaram nas cruzadas, w=article&id=958:a-es-
ressalta-se a figura de D.Henrique, conde de Borgonha, que tão bem serviu à coroa que o rei D. panha-muculmana&
Afonso VI, em sinal de agradecimento, deu-lhe em casamento a sua filha D. Tareja, juntamente catid=151:o-legado-isla-
mico&Itemid=111.
com o Condado Portucalense, território desmembrado da Galiza. A constituição do estado na-
cional português começa, contudo, com seu filho D. Afonso Henriques que, depois de vencer a
batalha de Ourique, proclamou-se rei de Portugal, em 1143.
O principal dialeto falado nessa região era o galaico-português que veio, com a indepen- Dica
dência de Portugal, a se desmembrar em galego e português. Os primeiros textos redigidos in-
Sobre a batalha entre
teiramente em português, segundo Costa (1979), foram a Noticia de Torto e o Testamento de cristãos e muçulmanos,
Afonso II. assista ao filme “Cruza-
Em relação à literatura, a primeira forma literária é a poesia. Nesse período, surgiram obras das”, de Ridley Scott.
de grande valor literário, os cancioneiros. Três desses livros chegaram até nós. O Cancioneiro da
Vaticana, o Cancioneiro
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UAB/Unimontes - 4º Período
BOX 1
Glossário A notícia de Torto
Iluminura: desenho,
miniatura, grafismo que A Notícia de Torto deve ser considerada, segundo CINTRA (1986-87), como o mais antigo
ornamenta livros, espe-
cialmente manuscritos dos documentos sob forma de manuscrito original. Tratam-se das queixas feitas por Lourenço
medievais. Fernandes da Cunha contra os filhos de Gonçalo Ramires. Estes deveriam entregar-lhe uma
Jogral: artista medieval parte da herança de seu pai, segundo a promessa que lhe havia feito antes de morrer. Mas
que ganhava a vida di- não somente tinham se recusado a cumprir a promessa como lhe fizeram uma série de ofen-
vertindo o público, nos sas (tortos), descrito no documento. O testamento, de Dom Afonso II, é um diploma real escri-
palácios ou nas praças
públicas. O jogral divul- to em português em 1214. Segundo Avelino de Jesus, Dom Afonso II, apesar de ter apenas 28
gava a poesia trovado- anos de idade e pouco mais de três anos de reinado, fez este testamento para garantir a paz
resca cantando-a. e a tranqüilidade da família e do reino, no caso de lhe sobrevir uma morte prematura. Toma
as providências para garantir a sucessão do reino pela via varonil, ou, na falta desta, pela filha
mais velha. Providencia também sobre o governo do reino durante a possível menoridade do
herdeiro e sobre a tutela dos filhos e filhas menores, confiando ao Papa a proteção deste e do
reino e a execução do testamento. Dom Afonso II viria, ainda, a fazer dois outros testamentos
em 1218 e 1221, ambos em latim. Do testamento de 1214 foram feitas 13 cópias todas igual-
mente autenticadas, das quais restam apenas duas, que se encontram na Torre do Tombo, em
Lisboa, e no arquivo da Catedral de Toledo, na Espanha.
Fonte: CINTRA, Luís F. Lindley. Sobre o mais antigo texto não literário português. A Notícia de torto (leitura crítica,
data, lugar de redacção e comentário linguístico). In: Boletim de Filologia. Tomo XXXI. Lisboa: Centro de Lingüística da
Universidade de Lisboa, 1986-87. Pesquisa em 8 de junho de 2008. Disponível em <http://www.institutocamoes.pt/
cvc/bdc/lingua/ boletimfilologia/31/boletim31_pag21_77.pdf>. Acesso em 20 fev. 2015.
Os códices eram, em geral, enriquecidos com iluminuras e partituras, e recitados pelos jograis.
Figura 8: O
jogral Mendinho
(Meendinho), sec.: XIII
– XIV
Fonte: Disponível em
<http://www.hs-augs-
burg.de/~harsch/lusitana/
Cronologia/ seculo14/
Mendinho/men_jogr.
jpg>. Acesso em 20 fev.
2015.
Referências
CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. História e Estrutura da Língua Portuguesa. 13. ed. Rio de Ja-
neiro: Vozes, 1983.
CASTRO, Ivo. Curso de História da língua portuguesa. Lisboa: Universidade Aberta, 2001.
CINTRA, Luís F. Lindley. Sobre o mais antigo texto não literário português. A Notícia de tor-
to (leitura crítica, data, lugar de redação e comentário linguístico). In: Boletim de Filologia. Tomo
XXXI. Lisboa: Centro de Lingüística da Universidade de Lisboa, 1986-87. Pesquisa em 8 de junho
16
Letras Português - Gramática Histórica
COSTA, Pe. Avelino Jesus da. Os mais antigos documentos escritos em português. In: Instituto
Camões. Pesquisa em 8 de junho de 2008. Disponível em <http://www.institutocamoes.pt/cvc/
hlp/biblioteca/estudos_de_cronologia.pdf>. Acesso em 20 fev. 2015.
COUTINHO, Ismael de Lima. Pontos de Gramática Histórica. 7. ed. Rio de Janeiro: Ao Livro Téc-
nico, 1976.
HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro; FRANCO, Francisco Manoel de Mello. Dicionário Houaiss da
língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
LEÃO, Duarte Nunes de. Origem da língua portuguesa. 4. ed. Lisboa: ProDomo, 1945.
MARQUES, A. H. de Oliveira. História de Portugal: desde os tempos mais antigos até a Presidên-
cia do Sr. General Eanes. 12. ed. Lisboa: Palas, 1985.
SAID ALI, M. Gramática Histórica da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1964.
SILVA NETO, Serafim da. História da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Livros de Portugal,
1952.
TEYSSIER, Paul. História da língua portuguesa. Tradução de Celso Cunha. 2. ed. São Paulo: Mar-
tins Fontes, 2001.
17
Letras Português - Gramática Histórica
Unidade 2
Metaplasmos e Analogia
Elaine Ferreira Dias
2.1 Introdução
Caros acadêmicos, na unidade anterior, descrevemos a História da Língua Portuguesa. Vi-
mos que a Península Ibérica passou, durante muito tempo, por uma sucessão de invasões e de
guerras que só cessou, em parte, após a expulsão dos últimos invasores, os muçulmanos. A re-
gião onde se encontra Portugal, hoje, antigamente era também conhecida pelos viajantes como
“o fim do mundo” (Marques, 1985, p.10) por seu distanciamento em relação à metrópole, o que
favoreceu, desde o início, a formação de um romance particular, o galego-português. Esse veio,
com a formação do Estado Nacional Português, a se desenvolver e a adquirir o status de língua
forte e de cultura. Desse modo, o português passou, durante muito tempo, a ser a língua dos
trovadores e, depois do colonizador, falado em quatro continentes, europeu, africano, asiático e
americano, conforme observamos no mapa a seguir:
◄ Figura 9: Países e
regiões de língua
oficial portuguesa
Fonte: Disponível em
<http://pt.wikipedia.org/
wiki/Ficheiro:Map-Luso-
phone_World-en.png>.
Acesso em 20 fev. 2015.
Dica
Segundo Vasconcelos,
citado por Coutinho
(1976), podemos dividir
a história da língua
portuguesa em três
Feitas essas observações, resta-nos compreender como o sistema linguístico, a gramática, fases: pré-histórica
evoluiu. (das origens ao séc. IX),
Nesta unidade, estudaremos, inicialmente, as alterações sonoras que ocorreram na passa- proto-histórica (do séc.
IX ao XII) e histórica
gem do latim vulgar para o português arcaico. (a partir do séc. XII). A
Na próxima unidade, passaremos para o léxico, que, com a evolução da sociedade portu- fase histórica pode ser
guesa, teve que ser ampliado. dividida em: arcaica
(do séc. XII ao XVI) e
moderna (do séc. XVI
em diante). Pesquisem
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UAB/Unimontes - 4º Período
Exemplos:
1. factu > feito
2. alteru > outro
3. cap(i)tale > caudal
4. falce > fouce
5. palpare > poupar
6. absentia > ausência
7. regnu > reino
20
Letras Português - Gramática Histórica
ij uv
1. A assimilação é vocálica quando o fonema assimilado é uma vogal; por outro lado, ela passa
a ser consonantal quando o fonema assimilado é uma consoante.
Exemplos: paomba > poomba > (pomba), persona > pessoa
No primeiro exemplo, houve assimilação vocálica, pois a primeira vogal da palavra paomba
passou a –o, por influência da vogal mais próxima. No segundo caso, a consoante –r, da palavra
persona, passou a -s por influência da consoante mais próxima; portanto, é assimilação conso-
nantal.
2. A assimilação é total quando o assimilador se identifica por completo com o fonema assimi-
lado, e é parcial quando não existe completa identidade, isto é, apenas alguns traços fonéti-
cos são compartilhados.
Exemplos: adversu > avessu (> avesso), auro > ouro.
No primeiro caso, constatamos a assimilação total, pois houve uma completa identidade en-
tre o assimilador -r que passou a –s, e o assimilado -s da palavra avessu. No segundo caso, a vogal
–a, da palavra auto, passou do status de vogal baixa –a para vogal média –o, aproximando-se da
vogal alta assimilada –u. Para uma melhor compreensão, vejamos o esquema abaixo:
No primeiro caso, o fonema assimilador é o –l, que adquire traços da consoante nasal do fo-
nema assimilado –m, passando a -n. O fonema assimilador se encontra mais à direita do assimila-
do; portanto, temos um caso de assimilação progressiva. Notem que a identidade é parcial, uma
vez que os fonemas -m e -n compartilham apenas o modo de articulação, que é nasal, variando
no ponto de articulação bilabial e alveolar, respectivamente.
No segundo caso, o fonema assimilador é o –r, que se encontra mais à esquerda do fonema
assimilado –s. Temos um exemplo, portanto, de assimilação regressiva. Observamos, também, que
houve completa identidade do fonema assimilado, sendo, portanto, um caso de assimilação total.
Obs.: Quando detectarmos um caso de assimilação, podemos classificá-lo segundo as três
subclassificações ora apresentadas.
Ex: amaramlo > amaram-no.
O exemplo constitui um caso de assimilação consonantal, parcial, progressiva.
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UAB/Unimontes - 4º Período
l lh n nh ss x gj
Ex: filium > filho, ciconia > cegonha, angelum > angeo > anjo, passio- nem > pasione > paixão.
Nos exemplos acima, temos como assimilador as consoantes alveolares, -l, -n, e -s e a velar -g
que adquiriram o traço mais anterior, por influência da semivogal anterior i assimilada, passando
às respectivas consoantes palatais e alveopalatais: -lh, -nh, -x, -j.
Também palatalizaram os grupos:
Ex: implere > encher, afflare > achar, clamāre > chamar
e. Na dissimilação, “dis” (prefixo latino que significa negação, falta de) + “similação” significa
a ausência de identidade entre os sons. A dissimilação se materializa tanto na queda de um
fonema quanto na diferenciação de um fonema igual ou semelhante. A dissimilação ainda
pode ser:
1. vocálica/consonantal;
2. progressiva/regressiva.
Ex: poçonha > peçonha, prora > proa
h. Apofonia ou deflexão consiste na alteração da vogal da sílaba inicial de uma palavra, quan-
do lhe é acrescido um prefixo.
Ex: ad + cantu> accentu (> acento), per + factu> perfec- tu( > perfeito)
QUADRO 1 - Metafonia
Singular Plural
*jocu>jogo jocos>jogos
*focu>fogo focos>fogos
*porcu>porco porcos>porcos
porca>porca porcas>porcas
Fonte: Elaborado a partir de Coutinho (1976)
22
Letras Português - Gramática Histórica
Consiste na redução de um fonema das palavras. Podemos dividir este grupo em seis tipos:
a. aférese;
b. síncope;
c. haplologia;
d. apócope;
e. crase;
f. sinalefa ou elisão.
c. Haplologia é uma síncope especial que consiste na queda de uma sílaba medial por haver
outra idêntica.
Ex: idololatria > idolatria, rotatore > rodador > rodor > redor.
e. Crase é a fusão de duas vogais idênticas. Hoje só ocorre crase com a preposição “a” mais o
pronome demonstrativo “aquele” e suas flexões, ou com o artigo definido feminino “a”.
Ex: pee > pe, (dolore>) door > dor
f. Sinalefa ou elisão é a subtração da vogal final de uma palavra quando a seguinte começa
por vogal.
Ex: de + intro > dentro, de + este > deste, de + aquele > daquele
23
UAB/Unimontes - 4º Período
2.3 Analogia
pedo; e infalibilidade >
infabilidade..
a. Na fonética, o sistema fonético de uma língua é também passível de sofrer ação da analo-
gia. Às vezes, associamos palavras de origens diversas, através de relações arbitrárias entre
som e sentido.
Segundo Coutinho (1976), os linguistas denominam de “etimologia popular” essa prática.
Vejamos os exemplos citados pelo autor:
24
Letras Português - Gramática Histórica
Com as palavras da 2ª declinação, ocorreu um processo semelhante. Em geral, elas designa- Dica
vam palavras do gênero masculino. A sua terminação no acusativo masculino passou, após sofrer Não é difícil encontrar
algumas alterações (-u(m)>- u>-o), a ser considerada a desinência indicativa de palavras mascu- hoje em dia casos
linas. Desse modo, todas as palavras que terminassem com –o eram consideradas, à luz da ana- semelhantes de ana-
logia, como masculinas. Substantivos femininos do latim passaram a masculinos. Ex: louro, pinho, logia, principalmente
olmo, freixo, choupo. com relação a palavras
estrangeiras. A palavra
• Número: a desinência de plural do português originou-se do acusativo plural latino, que Shiva, em analogia a
terminava em –s. Por analogia, as palavras estrangeiras incorporadas ao nosso léxico for- sua terminação, é, por
mam igualmente o plural com –s. muitos, considerada
Grau: alguns adjetivos, além do superlativo próprio de origem latina, possuem outro resul- feminina, transforman-
tante de analogia, conforme se observa no quadro seguinte: do um deus da cultura
hindu, que é sinônimo
de virilidade e força, em
QUADRO 5 - Superlativo analógico uma deusa.
Adjetivo Superlativo próprio Superlativo analógico Para saber sobre o
plural dos nomes em
Bom Ótimo Boníssimo –ao, consultar Coutinho
(1976, p. 157-158).
Pequeno Menor Pequeníssimo
Grande Máximo Grandíssimo
Fonte: Elaborado a partir de Coutinho (1976)
• Verbos: a riqueza das flexões verbais fez surgir inúmeros casos de analogia. Em resumo, ve-
jamos alguns casos apontados por Coutinho (1976):
25
UAB/Unimontes - 4º Período
c. Na sintaxe houve a mais tímida foi a ação da analogia nesse domínio. O uso vicioso de es-
truturas ou construções estrangeiras e o uso irregular de verbos transitivos indiretos toma-
dos por verbos transitivos diretos constituem alguns casos.
Referências
ANTILLA, Raimo. An introduction to historical and comparative linguistics. New Jersey: Pren-
tice Hael, 1969.
BREAL, Michel. Ensaio de semântica: ciência das significações. Trad. Aída Ferras et al. São Paulo:
EDUC, 1992.
COUTINHO, Ismael de Lima. Pontos de Gramática Histórica. 7. ed. Rio de Janeiro: Ao Livro Téc-
nico, 1976.
SAID ALI, M. Gramática Histórica da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1964.
SILVA, Rosa Virgínia Mattos e. O português arcaico: fonologia. São Paulo/Bahia: Contexto/Edito-
ra Universidade Federal da Bahia, 1991.
SILVA NETO, Serafim da. Manual de Gramática Histórica Portuguesa (de acordo com o Progra-
ma Oficial do 4º ano. São Paulo: Companhia Editorial Nacional, 1942.
SILVA, Thaïs Cristófaro. Fonética e fonologia do português: roteiro de estudos e guia de exercí-
cios. 9. ed., 1ª reimpressão, - São Paulo: Contexto, 2008.
26
Letras Português - Gramática Histórica
Unidade 3
Constituição do Léxico
José Lúcio Ferreira Higino
3.1 Introdução
Queridos acadêmicos, como já vimos, o latim que esteve na origem das línguas românicas
foi o falado pelas classes humildes, pelo povo, o sermo vulgaris ou latim vulgar. Assim, a maioria
das palavras latinas entrou na nossa língua por via popular. Essas palavras eram faladas, esponta-
neamente, por toda a população e, por isso, foram sofrendo, ao longo do tempo, grandes trans-
formações, sobretudo no campo fonético. Portanto, caros estudantes, o que acabamos de dizer
facilita a compreensão do fato de uma mesma palavra latina dar origem a mais de uma palavra
portuguesa. São as chamadas formas ou palavras divergentes. Vamos lá!
27
UAB/Unimontes - 4º Período
Como vimos, apesar de as palavras terem uma origem comum, as formas não são sempre
sinônimas. A diferença de aspecto morfêmico resulta, freqüentemente, em distinção de sentido.
Veremos, a seguir, que várias podem ser as causas dessas divergências.
Dando continuidade aos nossos estudos, conheceremos os agentes causadores das diver-
gências na evolução fonética de nossa língua.
Ismael de Lima Coutinho (1976) aponta as seguintes causas:
a. corrente popular;
b. corrente erudita;
c. corrente estrangeira;
d. desinências causais;
e. diferença de número;
f. deslocação do acento tônico.
a. corrente popular
As palavras, ao serem faladas pelo povo, propagadores e modificadores naturais de uma lín-
gua, acabam, conforme a época, por originar formas diversas.
Vejamos alguns exemplos: plumbum deu origem a chumbo e a prumo; articulu originou
artigo e artelho (junta de ossos; dedo do pé); corona gerou coroa e coronha.
b. corrente erudita
28
Letras Português - Gramática Histórica
c. corrente estrangeira
Essa corrente se dá devido ao natural e contínuo intercâmbio entre outros povos e, conse-
quentemente, outras línguas, fatores que motivaram de forma significativa o enriquecimento de
nossa língua, por meio da importação de novos vocábulos. Coutinho (1976) afirma que a cor-
rente erudita começou em Portugal, no século XII, com a influência dos trovadores de Proven-
ça. Contudo, com as cruzadas e as grandes navegações, amplia-se o círculo de relações do povo
lusitano, dilatando o número de vocábulos estranhos que, a partir dessa época, se juntaram ao
léxico português. Acontece, caros acadêmicos, que muitas palavras, vindas do latim e já repre-
sentadas em português, entraram de novo na língua por intermédio do francês, do espanhol e
do italiano. Vejamos alguns exemplos citados por Ismael de Lima Coutinho:
29
UAB/Unimontes - 4º Período
d. desinências causais
É importante frisar que o caso genealógico que deu origem às palavras na língua portugue-
sa foi o acusativo; contudo, existem vocábulos que derivam diretamente do caso nominativo.
Como resultado, às vezes podem existir duas palavras portuguesas diferentes, a partir de uma
mesma voz latina, isto é, uma do nominativo, outra do acusativo. Isto é mais comum com as pa-
lavras imparissílabas da terceira declinação. Você deve estar lembrado de que palavras imparis-
sílabas são as que, no genitivo singular, têm uma ou mais sílabas a mais do que no nominativo.
Imparissílabo quer dizer, portanto, número diferente de sílabas. Vamos aos exemplos:
e. diferenças de números
Vamos em frente! As palavras neutras latinas apresentam, frequentemente, duas formas em
português: uma vinda do acusativo singular, outra do acusativo plural. Com o desaparecimento
do gênero neutro na língua portuguesa, essas palavras passaram, no singular, para o masculino;
no plural, para o feminino. Os exemplos abaixo nos permitirão atestar esse fato.
MASCULINO FEMININO
ACUSATIVO SINGULAR ACUSATIVO PLURAL
Braço Braça
Cinto Cinta
Folho Folha
Lenho Lenha
Senho Senha
Tormento Tormenta
Fonte: Elaborado a partir de Coutinho (1976)
30
Letras Português - Gramática Histórica
Caros estudantes, continuemos nossa jornada cultural. Vamos entender o que são as formas Dica
convergentes ou homeotrópicas. O dicionário Houaiss registra que o adjetivo “convergente” sig-
Para saber mais sobre
nifica o que se dirige para um ponto comum a um outro. O vocábulo “homeotrópico” é formado as causas das formas
pelos prepositivos gregos “homos”, que significa “o mesmo, semelhante, comum”, e “trópos”, divergentes, consulte
que corresponde a “mudar, evoluir em outro sentido, transformar”, além do sufixo “ico” que é for- as páginas 201 a 209 do
mador de adjetivo. livro Pontos de Gramá-
Como vimos, formas divergentes são várias palavras em português com sentidos diferentes, tica Histórica, de Ismael
de Lima Coutinho.
isto é, que divergem da palavra primitiva ou originária. Diferentemente do que aconteceu com
as palavras divergentes, as formas convergentes equivalem a palavras iguais, em português, mas
que vieram de étimos ou raízes diferentes.
Mattoso Câmara assim enumera as causas das formas convergentes:
1. coincidência de evolução fonética em dois ou mais vocábulos, a princípio, diversos de for-
ma; assim, o latim filare > fiar “tecer” e o latim fidare por fidere > fiar “ter confiança”. A diferen-
ça entre os dois vocábulos latinos desapareceu com a síncope da consoante intervocálica;
2. coincidência entre um derivado de um vocábulo e outro vocábulo já existente; assim, o de-
verbal de render - renda é forma convergente com renda “tecido”, substantivo, de origem
obscura (germ. randa?);
3. empréstimos a línguas estrangeiras, ao lado de uma forma convergente vernácula. Assim,
ao lado de manga “peça de vestuário para cobrir o braço” (lat. manica), temos manga “espé-
cie de fruta”, que é empréstimo do malaio (veja Coutinho, 1976).
Manga
3.3 Arcaísmos
Arcaísmos são palavras e expressões que estão em desuso, isto é, pertencem ao passado da
língua. É muito comum, caros estudantes, abrirmos um livro de um autor antigo e encontrar uma
imensa lista de palavras e expressões que, atualmente, são completamente desconhecidas. Va-
mos aos exemplos.
31
UAB/Unimontes - 4º Período
QUADRO 11 - Arcaísmos
Dica ARCAÍSMO FORMA ATUAL
Quando alguém diz
a outro: “Vai te catar!”
Vosmecê Você
Você já refletiu sobre o Botica Farmácia
sentido dessa expres-
são? Observe, então, o Físico Médico
verbo “catar” com o sen-
tido de olhar, examinar Fremoso Formoso
com atenção.
Palmeirim Peregrino - estrangeiro
Arreio Enfeite
Quitanda Guloseima
Entonces Então
Catar Olhar – examinar com atenção
Fonte: Elaborado a partir de Coutinho (1976)
Atividade Coutinho (1976) afirma que nenhum fenômeno linguístico surge ou desaparece repentina-
Refaça o texto abaixo, mente. Nos idiomas, as mutações são sempre demoradas e lentas. Aponta, ainda, as seguintes
substituindo os arcaís- causas para a arcaização dos vocábulos:
mos. 1. O desaparecimento das instituições, costumes e objetos: suserano, vassalo, feudal, ouvidor,
Não fique macambúzio, comuna.
seus quitutes e acepipes 2. A sinonímia ou o neologismo: arteirice (astúcia), rouçar (violentar), asinha (depressa), manda
estão supimpas. Será
que nesse sarau de (testamento).
trovadores e menestré- 3. O eufemismo ou a degradação de sentido: cornos (pontas, armas), parir (dar à luz), drudo
is servir-se-á alguma (amante), manceba (concubina, a outra, amante), feder (cheirar mal), tratante (negociante),
beberagem? Poste safado (gasto pelo tempo).
esse texto no fórum de 4. O sentido especial: degredos (segredos), físico (médico), manha (dote do espírito).
discussão.
O texto ficará assim: Não fique triste, seus salgadinhos e docinhos estão excelentes. Nessa
reunião de poetas e músicos, será servida alguma bebida?
Gostaram? Vejam mais esta.
BOX 2
A bronca de Rui Barbosa
Conta-se que Rui Barbosa, ao chegar à sua casa, ouviu um esquisito barulho vindo do seu
quintal. Chegando lá, constatou que havia um ladrão tentando levar seus patos de criação.
Aproximou-se, vagarosamente, do indivíduo, surpreendendo-o tentando pular o muro com
seus amados patos. Batendo nas costas do tal invasor, disse- lhe:
- Ô bucéfalo, não é pelo valor intrínseco dos bípedes palmíferes e sim pelo ato vil e sorra-
teiro de galgares as profanas de minha residência. Se fazes isso por necessidade, transito; mas
se é para zombares de minha alta prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com
minha bengala fosfórica no alto de tua sinagoga que reduzir-te-á à quinquagésima potência
que o vulgo denomina nada.
E então o ladrão disse:
- Ô moço, levo ou deixo os patos?
32
Letras Português - Gramática Histórica
3.4 Neologismos
Para começar, vejamos como o poeta Manuel Bandeira faz uso de neologismo em um de
seus poemas:
Neologismo
Manuel Bandeira
Após esse belíssimo exemplo de criatividade, podemos perceber que neologismo é a cria-
ção de uma palavra nova ou o uso de uma palavra existente, porém, com sentido renovado.
Como exemplo, podemos citar o caso do verbo “ficar”, que, atualmente, ganhou novo sentido e
ainda deu origem ao adjetivo “ficante”.
O neologismo, conforme a intensidade do seu uso, pode ser assimilado pela língua padrão,
mostrando, dessa forma, todo o seu dinamismo. Barbosa (1904) afirma que só se imobilizam os
idiomas mortos. Não há língua definitiva e inalteradamente formada. Todas se formam e se trans-
formam continuamente.
Os neologismos surgem da necessidade de se nomear uma nova realidade. Coutinho (1976)
afirma que, ao assinalar novas conquistas nas ciências, nas artes, nas letras, na indústria, no co-
mércio, etc., fica, no vocabulário de cada povo, um número apreciável de termos, que serve bem
de índice aos estranhos para avaliarem seu grau de cultura. Disso não se segue que o neologis-
mo seja sempre aconselhável, importe sempre ideia de benefício ou de riqueza para a língua,
porque a criação de um vocábulo novo deve estar condicionada ao imperativo da necessidade.
Vejamos, agora, alguns neologismos usados atualmente:
QUADRO 12 - Neologismos
NEOLOGISMO SIGNIFICADO
Salvar Armazenar na memória do computador
Ficar Relacionar-se sem compromisso
Animal Ser muito bom em algo
Azarar Prejudicar alguém
Níver Aniversário
Refri Refrigerante
Bombar Obter êxito
Fonte: Elaborado a partir de Coutinho (1976)
33
UAB/Unimontes - 4º Período
QUADRO 13 - Neologismo
NEOLOGISMO SIGNIFICADO
Internauta Usuário da Internet
Petista Membro do PT
Enxugamento Contenção de gastos
Pacotão Conjunto de medidas
Besteirol Conjunto de bobagens
Skatista Que usa skate
Fonte: Elaborado a partir de Coutinho (1976)
Referências
BARBOSA, Rui. Réplica. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1904.
CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. História e Estrutura da Língua Portuguesa. 13. ed. Rio de Ja-
neiro: Vozes, 1983.
COUTINHO, Ismael de Lima. Pontos de Gramática Histórica. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico,
1976.
HOUAISS, Antônio. Dicionário da Língua Portuguesa. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva Ltda., 2001.
LEÃO, Duarte Nunes de. Origem da língua portuguesa. 4. ed. Lisboa: ProDomo, 1945.
SAID ALI, M. Gramática Histórica da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1964.
34
Letras Português - Gramática Histórica
Unidade 4
O Português no Brasil
José Lúcio Ferreira Higino
4.1 Introdução
Caros acadêmicos, continuando nossa jornada cultural através da história da língua portu-
guesa, veremos, nesta unidade, a trajetória de nossa língua mater, desde sua chegada à Terra Bra-
silis, até os dias atuais. Vamos lá! A expansão da língua portuguesa começou no século XV, quan-
do os lusitanos começaram suas conquistas na África e na América do Sul.
Vamos, então, nos ater ao estudo da evolução da língua portuguesa no Brasil, o qual deixará
mais claro o porquê, sob o ponto de vista filológico, da presença de empréstimos na nossa lín-
gua, muitas vezes necessários, outras, desnecessários.
35
UAB/Unimontes - 4º Período
Glossário Coutinho (1976) afirma que, nas entradas pelo sertão brasileiro, estabelecendo a ligação en-
Abanheém: Denomi- tre o litoral e o interior, os bandeirantes, entre os quais havia, ordinariamente, condutores índios,
nação que os índios faziam do abanheém o instrumento das suas comunicações diárias. Desse modo, justifica-se a
tupis e guaranis davam existência de tantos topônimos tupis em regiões situadas fora de sua área de ocupação.
à própria língua. Era a Na segunda fase, a língua geral vai sendo, aos poucos, preterida, falada apenas no interior
língua geral. e nas aldeias dos padres jesuítas. Nessa fase, vai aumentando, consideravelmente, o número de
Mameluco: Mestiço de
branco com índio ou de imigrantes portugueses e, consequentemente, colégios vão sendo instalados para atender a essa
branco com caboclo. população. Chegam ao Brasil, então, professores e estudiosos de nossa língua, como, por exem-
Mulato: Filho de branco plo, o padre Vieira. Essa fase é caracterizada pela preparação do terreno para a implantação defi-
com mãe negra ou vice- nitiva da língua portuguesa no Brasil, o que acontecerá, efetivamente, em 1808, com a chegada
versa. da família real, dando início à 3ª fase, que perdura até os dias atuais.
Prezados estudantes, como vemos, a língua portuguesa foi entrando no Brasil, gradativa-
mente, e foi intensamente influenciada pelas línguas indígenas e africanas. Ilari (2004) afirma que
o grosso das contribuições lexicais indígenas provém do tupi-guarani, do qual o português bra-
sileiro herdou cerca de 10 mil vocábulos, em sua maioria repartidos pela toponímia e pela ono-
Dica mástica, às quais se somam nomes de vegetais e de animais. Não há notícias comprovadas de
influências fonéticas ou gramaticais.
Para seu conhecimento,
a palavra “perereca” (pe-
Os termos de procedência tupi, conforme ensina Coutinho (1976), incorporados ao léxico por-
queno animal que salta) tuguês do Brasil, são nomes próprios ou apelidos de pessoas: Araci, Baraúna, Cotegipe, Iracema,
é formada do verbo tupi Itagiba, Jaci, Juraci, Jurema, Jupira, Moema, Pitanga, Piragibe, Paranaguá, Sucupira , Ubirajara.
“pererek” (ir aos saltos, Nomes próprios geográficos: Guanabara, Guaratinguetá, Itatiaia, Itu, Niterói, Paraíba, Paquetá,
saltar), tal e qual o saci Tietê, Ubatuba. Nomes de seres do reino animal: araponga, arara, caninana, capivara, curiango,
“pererê”, que também
salta em uma perna só.
curió, cutia, gambá, jiboia, iara, nambu, jacaré, jacu, jaburu, jaó, jararaca, juruti, lambari, mandi,
Você sabia? maracanã, paca, piranha, sabiá, siriema, sucuri, surubi, tamanduá, tanajura, tatu, urubu. Nomes
de seres do reino vegetal: abacaxi, buriti, capim, carnaúba, caroba, caruru, cipó, guabiroba, ingá,
ipê, jabuticaba, jacarandá, mandioca, peroba, pitanga, taioba. Nomes
de objetos, aparelhos, utensílios: arapuca, arataca, jacá, jaqui, urupema.
Nomes de fenômenos naturais, doenças, alimentos, crendices: piracema,
pororoca, catapora, moqueca, moquém, saci, caipora, curupira, além de
um grande número de verbos formados de nomes indígenas: capinar,
empipocar, encoivarar, empaçocar, encaiporar, moquear.
Coutinho (1976) ensina, ainda, que a incorporação de muitos india-
nismos à nossa língua foi tão perfeita que eles se tornaram produtivos,
servindo para a formação de compostos e derivados: urubu-rei, sabiá da
praia, jabuticabal, jabuticabeira, cajueiral, cajuada, capinzal, carnaubeira,
ingazeira.
Figura 12: Índios tupis
Fonte: Disponível em
<www.maniadehistoria.
wordpress.com>. Acesso
4.3 Elemento Africano
em 23 fev. 2015.
Caros estudantes, veremos, a seguir, outro elemento que, entrando logo depois do elemen-
to indígena, muito influenciou na formação lexical do português brasileiro. Estamos falando do
elemento africano. A necessidade de mão de obra para trabalhar a terra trouxe ao Brasil os ne-
gros da África. Vieram principalmente da região de Guiné e Sudão Ocidental e da África Austral
(Bantos) e logo se tornaram elementos importantes na nossa economia. Como atesta Coutinho
(1976, p.324), das línguas por eles faladas deve-se salientar o nagô ou ioruba (grupo sudanês),
tendo como ponto de irradiação principalmente a Bahia, como atesta o vocabulário regional, e o
quimbundo (grupo banto), em Pernambuco e outros estados do norte, no Rio de Janeiro, em São
Paulo e Minas Gerais. Esta última, sobretudo, parece ter exercido maior influência no português
do Brasil, por causa do número quantitativamente maior de pessoas que a falavam.
Ilari (2004, p. 240) nos ensina que as palavras banto recobrem diversas áreas lexicais (como
nesta amostra: cacunda, caçula, fubá, angu, jiló, carinho, bunda, quiabo, dendê, dengo, sombra,
samba), ao passo que, das palavras oeste-africanas (cultura sudanesa), 65,7 % integram a lingua-
gem litúrgica dos candomblés. Coutinho (1976, p. 325) atesta que os vocábulos de procedência
africana que passaram ao nosso léxico incluem nomes geográficos: Bangu, Benguela, Cachimbo,
Cacimba, Carangola, Caxambu, Guandu, Murundu, Quilombo; ou designam divindades, ministros
de cultos, práticas rituais, crendices: Exu, Iemanjá, Ogum, Olorum, Oxum, orixá, Xangô, alufá, baba-
laô, babalorixá, quimbombo, candomblé, canjerê, catimbau, macumba, mandinga, muamba, zum-
36
Letras Português - Gramática Histórica
bi; danças e instrumentos musicais: bangulê, batucagê, batuque, jeguedê, jongo, lundu, maracatu, Dica
samba, banza, agogô, berimbau, canzá, marimba; alimentos, iguarias, bebidas: abará, acará, aca- Queridos acadêmicos,
rajé, angu, mungunzá, quenga, quitute, vatapá, cachaça, marafo; animais, aves e insetos: caxin- vocês devem se lembrar
guelê, camundongo, gongolô, marimbondo: árvores, plantas, legumes e frutas: mutamba, dendê, de que, ao estudarmos
diamba, guandu, inhame, chuchu, jiló, maxixe, munganga, quiabo; inflamação, doenças, estados a disciplina Filologia
d’alma: calombo, cachumba, cafife, maculo, calundu, banzo; objetos de uso, enfeites e vestes: ca- Românica, vimos três
termos técnicos utiliza-
chimbo, carimbo, gongá, malunga, miçanga, tanga; habitação, local de reunião ou onde se exerce dos para explicar a for-
alguma atividade, prisão: cubala, quimbembe, mocambo, quilombo, senzala, banguê, cafua; pes- mação de uma língua:
soas, levando em consideração o sexo, a idade, a condição social, a camaradagem: macola, oba, stratum, substratum e
zambi, moleque, dengo, curumba, malungo, mucama. São ainda de origem africana: búzio, cafu- superstratum. Tratando-
né, calumbá, candonga, dengue, fubá, milonga, mironga, molambo, muxiba, muxoxo. se das línguas români-
cas, o latim é o stratum;
Da mesma proveniência, também se contam em nosso vocabulário alguns adjetivos: ban- o substratum, no caso
guelo, caçula, macambúzio; verbos, formados de nomes já integrados ao idioma: aquilombar, ba- da Península Ibérica, era
tucar, cochichar, candongar, sungar, xingar; além de algumas palavras afro-negras se tornaram as línguas faladas pelos
fecundas entre nós, produzindo compostos e derivados, tais como: angu de caroço, pé de mole- celtas e iberos quando
que, azeite de dendê, congada, quiabal, molecagem. os romanos introduzi-
ram, naquela região, o
latim vulgar; e o supers-
tratum foi as línguas
37
UAB/Unimontes - 4º Período
como o do nosso país, em que as influências são múltiplas e diversas, com o tempo, foram apa-
recendo, nas diferentes regiões, divergências, e hoje se percebe diferenças bem acentuadas no
falar nacional.
Para ilustrar, observe a composição musical do Box 3.
BOX 3
A Tonga da Mironga do Kabuletê
Composição: Toquinho / Vinícius de Moraes
Eu caio de bossa
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô
Você que ouve e não fala
Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala
Você vai ter que aprender
Figura 13: Livro o poeta
da Paixão
Fonte: Disponível em A tonga da mironga do kabuletê (5x)
<http://www.companhia- Eu caio de bossa
dasletras.com.br/detalhe.
php?codigo=10443>.
Acesso em 23 fev. 2015. Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô
Dica Você que lê e não sabe
Você que reza e não crê
Conheça um pouco da
Você que entra e não cabe
história da nossa língua.
Em 17 de agosto de Você vai ter que viver
1758, um decreto do
Marquês de Pombal Na tonga da mironga do kabuletê (5x)
proibiu o uso da língua Lá, lá, lá, iá...
geral e instituiu a língua
portuguesa como
idioma oficial do Brasil. Você que fuma e não traga
Até esta data, o Brasil E que não paga pra ve
era um país bilíngue, Vou lhe rogar uma praga
pois aqui se falava o Eu vou é mandar você
tupi (língua geral) e o
Pra tonga da mironga do kabuletê...
português. Em 1759,
e os padres jesuítas,
defensores da língua Fonte: Disponível em <http://letras.mus.br/toquinho/49093/>. Acesso em 23 fev. 2015.
dos silvícolas – haviam
escrito uma gramática BOX 4
do tupi, catequizado os
índios e escrito literatu- Ano 1970
ra em língua indígena –
foram expulsos do país.
Vinícius e Toquinho voltam da Itália onde haviam acabado de inaugurar a parceria com o
disco “A Arca de Noé”, fruto de um velho livro que o poetinha, como era carinhosamente cha-
mado Vinícius de Morais, fizera para seu filho Pedro, quando este ainda era menino. Encon-
Dica tram o Brasil em pleno “milagre econômico”, a censura em alta, a bossa em baixa, e os oposito-
res ao regime pagando com a liberdade e a vida o preço de seus ideais. O poeta é visto como
Observe que, quan-
do cantamos o Hino comunista pela estupidez militar, e ultrapassado pela intelectualidade militante, que, pejorati-
Nacional Brasileiro, em va e injustamente, classificou sua música de easy music. No teatro Castro Alves, em Salvador,
nossa região, pronun- é apresentada ao Brasil a nova parceria. Vinícius está casado com a atriz baiana Gesse Gessy,
ciamos: “ÉspÉlha esta uma das maiores paixões de sua vida, que o aproximaria do candomblé, apresentando-o à
grandeza” com as vogais Mãe Menininha do Gantois. Sentindo a angústia do companheiro, Gesse o diverte, ensinando-
“é” abertas. Já no sul,
a pronúncia é fechada lhe xingamentos em Nagô, entre eles “tonga da mironga do Kabuletê”, que significa “o pêlo do
“ÊspÊlha”. cu da mãe”. O mote anal e seu sentimento em relação aos homens de verde oliva inspiram o
poeta. Com Toquinho, Vinícius compõe a canção para apresentá-la no Teatro Castro Alves. Era
a oportunidade de xingar os militares sem que eles compreendessem a ofensa. E o poeta ain-
da se divertia.
38 Fonte: CASTELO, José. Vinicius de Moraes. O Poeta da Paixão; uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
Letras Português - Gramática Histórica
Coutinho (1976, p. 329) nos ensina que o falar brasileiro se divide em dois gru-
pos: o do norte e o do sul. No grupo do norte, distinguem-se duas variedades: o
amazônico (Amazonas, Acre, Pará e Tocantins) e o nordestino (Maranhão, Piauí, Cea-
rá, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e parte de Goiás); e o do sul,
em quatro subfalares: o baiano (Sergipe, Bahia, norte, nordeste e noroeste de Minas
Gerais, parte de Goiás e Tocantins; o fluminense (Espírito Santo, Estado do Rio, Zona
da Mata e parte do leste de Minas; o mineiro (centro, oeste e parte do leste de Mi-
nas); e o sulista (S. Paulo, Paraná, Santa Catarina, R. G. do Sul, Sul, Triângulo Mineiro,
parte do Sul de Goiás e Mato Grosso).
Veremos, a seguir, exemplos de diferenças nos falares do português brasileiro.
• Elevação das vogais médias pretônicas no nordeste. Essa característica distin-
gue fortemente os falares do norte e do sul. A elevação pode produzir uma vo-
gal alta como em “filiz”, “chuver”, ou média aberta, como em “nóturno”, “cóvarde”,
“récruta”; no sul, produz-se vogal média fechada.
• Queda ou nasalização da vogal átona inicial: magina (por imagina), inleição
(por eleição), inducação (por educação).
• Queda da vogal átona postônica, acompanhada ou não da perda de outros ele-
mentos fonéticos da palavra: “cosca” (por cócega), abobra (por abóbora), “arve”
(por árvore), “oclos” (por óculos), “lampa” (por lâmpada), “figo” (por fígado). Este
fenômeno é um dos mais comuns.
• Monotongação do ditongo: “cocha”, “caxa”, “pexe”, “bejo”, “quejo”, ou ditongação da vogal: Figura 14: Marquês de
bandeija, feichar. Pombal
Fonte: Disponível em
• Desnasalação e monotongação de ditongos nasais finais: “homi”, “falaru” “cumeru”, sendo <http://anaraquel-
esse fenômeno um dos mais comuns. vaz.blogspot.com.
É importante salientar que as mudanças existem, mas somente na língua falada. br/2013_09_01_archive.
html>. Acesso em 23 fev.
2015.
Dica
Para saber mais sobre
o português no Brasil,
veja o livro Gramática
Histórica, de Ismael de
Lima Coutinho, páginas
322 a 341. Veja também
Linguística Românica,
de Rodolfo Ilari, 2004,
páginas 237 a 269.
Referências
BARBOSA, Rui. Réplica. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1904.
CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. História e Estrutura da Língua Portuguesa. 13. ed. Rio de Ja-
neiro: Vozes, 1983.
39
UAB/Unimontes - 4º Período
CASTRO, Ivo. Curso de História da língua portuguesa. Lisboa: Universidade Aberta, 2001.
COUTINHO, Ismael de Lima. Pontos de Gramática Histórica. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico,
1976.
HOUAISS, Antônio. Dicionário da Língua Portuguesa. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva Ltda., 2001.
ILARI, Rodolfo. Linguística Românica. 3. ed. São Paulo: Cromosete Gráfica e Editora Ltda, 2004.
LEÃO, Duarte Nunes de. Origem da língua portuguesa. 4. ed. Lisboa: ProDomo, 1945.
MARQUES, A. H. de Oliveira. História de Portugal: desde os tempos mais antigos até a Presidên-
cia do Sr. General Eanes. 12. ed. Lisboa: Palas, 1985.
SAID ALI, M. Gramática Histórica da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1964.
SILVA NETO, Serafim da. História da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Livros de Portugal,
1952.
TEYSSIER, Paul. História da língua portuguesa. Tradução de Celso Cunha. 2. ed. São Paulo: Mar-
tins Fontes, 2001.
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Letras Português - Gramática Histórica
Resumo
Nesta disciplina, você aprendeu:
Unidade 1
A história da língua portuguesa
Unidade 2
Metaplasmos e analogia
• As principais alterações sonoras que ocorreram na passagem do latim vulgar para o portu-
guês arcaico, sob o nome de metaplasmos.
• O conceito de analogia e sua ação nos diversos domínios da língua, na fonologia, na morfo-
logia, na sintaxe e na semântica.
Unidade 3
Constituição do léxico
• A formação do léxico da língua portuguesa, as formas divergentes e convergentes e suas
causas.
• Palavras em desuso na língua atual, razões para o surgimento dos arcaísmos, as palavras no-
vas ou antigas com novo sentido, processo de formação dos neologismos.
Unidade 4
O português no Brasil
• A implantação da língua portuguesa, as influências recebidas, a contribuição dos elementos
indígena, africano e de outros elementos para a formação lexical do português brasileiro.
• A diferenciação espacial e temporal dos vários falares brasileiros, suas regiões e sub-regiões.
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Letras Português - Gramática Histórica
Referências
Básicas
CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. História e Estrutura da Língua Portuguesa. 13. ed. Rio de Ja-
neiro: Vozes, 1983.
COUTINHO, Ismael de Lima. Pontos de Gramática Histórica. 7. ed. Rio de Janeiro: Ao Livro Téc-
nico, 1976.
SAID ALI, M. Gramática Histórica da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1964.
Complementares
ANTILLA, Raimo. An introduction to historical and comparative linguistics. New Jersey: Pren-
tice Hael, 1969.
BREAL, Michel. Ensaio de semântica: ciência das significações. Trad. Aída Ferras et al. São Paulo:
EDUC, 1992.
CASTRO, Ivo. Curso de História da língua portuguesa. Lisboa: Universidade Aberta, 2001.
MARQUES, A. H. de Oliveira. História de Portugal: desde os tempos mais antigos até a Presidên-
cia do Sr. General Eanes. 12. ed. Lisboa: Palas, 1985.
SILVA NETO, Serafim da. História da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Livros de Portugal,
1952.
SILVA NETO, Serafim da. Manual de Gramática Histórica Portuguesa (de acordo com o Pro-
grama Oficial do 4º ano). São Paulo: Companhia Editorial Nacional, 1942.
SILVA, Rosa Virgínia Mattos e. O português arcaico: fonologia. São Paulo/Bahia: Contexto/Edi-
tora Universidade Federal da Bahia, 1991.
SILVA, Thaïs Cristófaro. Fonética e fonologia do português: roteiro de estudos e guia de exercí-
cios. 9. ed., 1ª reimpressão, São Paulo: Contexto, 2008.
TEYSSIER, Paul. História da língua portuguesa. Tradução de Celso Cunha. 2. ed. São Paulo: Mar-
tins Fontes, 2001.
Suplementares
CINTRA, Luís F. Lindley. Sobre o mais antigo texto não literário português. A Notícia de torto
(leitura crítica, data, lugar de redacção e comentário linguístico). In: Boletim de Filologia. Tomo
XXXI. Lisboa: Centro de Lingüística da Universidade de Lisboa, 1986-87. Pesquisa em 8 de junho
de 2008. Disponível em <http://www.institutocamoes.pt/cvc/bdc/lingua/boletimfilologia/31/bo-
letim31_pag21_77.pdf>. Acesso em 20 de fev. 2015.
43
UAB/Unimontes - 4º Período
COSTA, Pe. Avelino Jesus da. Os mais antigos documentos escritos em português. In: Instituto
Camões. Pesquisa em 8 de junho de 2008. Disponível em <http://www.institutocamoes.pt/cvc/
hlp/biblioteca/ estudos_de_cronologia.pdf>. Acesso em 20 de fev. 2015.
HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro; FRANCO, Francisco Manoel de Mello. Dicionário Houaiss da
língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
ILARI, Rodolfo. Linguística Românica. 3. ed. São Paulo: Cromosete Gráfica e Editora Ltda, 2004.
LEÃO, Duarte Nunes de. Origem da língua portuguesa. 4. ed. Lisboa: ProDomo, 1945.
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Letras Português - Gramática Histórica
Atividades de
Aprendizagem - AA
1) A diferenciação do latim vulgar nas diversas línguas românicas é fruto da intervenção de diver-
sos fatores histórico-sociais. Sobre essa afirmação, assinale a alternativa que NÃO constitui fator
de diversificação.
a. ( ) A influência das escolas e da língua oficial adotada nos documentos notariais.
b. ( ) Variação de circunstâncias culturais e educacionais.
c. ( ) Contato entre línguas.
d. ( ) Desenvolvimento de unidades políticas separadas.
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UAB/Unimontes - 4º Período
8) O que são arcaísmos? Quais as causas que contribuem para a arcaização dos vocábulos?
9) Explique o termo neologismo e indique as causas para seu aparecimento em uma língua.
10) Dos enunciados a seguir, marque a letra “V”, se for verdadeiro, e a letra “F”, se falso:
a. ( ) A língua portuguesa trazida para o Brasil manteve-se pura.
b. ( ) A grande via de entrada de vocábulos para a língua portuguesa foi o latim vulgar.
c. ( ) As línguas indígenas pouco influenciaram na formação do léxico do português brasileiro.
d. ( ) Muitas palavras do português brasileiro que hoje conhecemos vieram das línguas indí-
genas e africanas.
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