LC.
Castanheiro
TUDO PODE SE ROMPER
1ª edição JUNHO DE 2025
Publicação independente
Sem revisão crítica
PDF distribuido para leitores Beta
ALERTA DE GATINHO
Este livro convida você a uma experiência única,
não por meio de uma história impecável, mas pela forma
honesta e desprotegida com que observa o que nos torna
humanos. Tudo Pode se Romper é uma jornada
emocional intensa e, acima de tudo, realista.
A história pode não te seduzir logo no começo, e
alguns personagens talvez permaneçam enigmáticos até o
fim «tudo isso é intencional» O propósito aqui é tocar em
sentimentos ignorados ou desconhecidos, oferecendo
uma narrativa que transita entre drama e slice of life,
tudo mesclado em fluxo de consciência.
A melancolia permeia cada página, às vezes
evidente, outras vezes apenas intuitiva. E está tudo bem
se você não conseguir abraçá-la de imediato. Este, afinal,
não é um livro leve. O livro é impactante e fala
particularmente a quem entende que nem toda dor
precisa ser barulhenta «ele oferece, sem prometer
soluções, um pouco de aconchego silencioso» para
aqueles que já encararam o fundo do poço.
Como obra inaugural, ela se destaca por ser fora
da curva. Não se surpreenda se, ao chegar ao fim deste
livro, você já não for mais a mesma pessoa.
Caro leitor, informo que os dois primeiros
capítulos são mais longos do que o restante. São
importantes para a construção da personagem.
«Alguns trechos podem conter conteúdos
delicados» Vou destacá-los em cores diferentes no corpo
do texto para facilitar a identificação. Se você for
especialmente sensível, fique à vontade para pular essas
partes destacadas «priorize seu bem-estar»
Boa leitura.
SUMÁRIO
1. Queria uma despedida digna de mim mesma
2. A permanência no vazio
3. Diga quem você é
4. Tudo pode se romper
5. Vozes verbais
6. Anticonformismo e indivíduo metafórico
7. O elefante na sala
8. Ao convívio, um convite de prata
9. Todas as peças juntas
10.O grande talvez
11. Epílogo: Depois do horizonte de eventos
QUERIA UMA DESPEDIDA DIGNA
DE MIM MESMA
@Freepik
Ei, irmã. Laços familiares são mais fortes que
qualquer [Link] o céu estivesse desmoronando, por você,
não haveria nada neste mundo que eu não faria… E se eu
estiver longe de casa? Irmão, vou ouvir você chamar. E se eu
perder tudo? Irmã, mesmo assim, eu vou ajudá-la.
HEY BROTHER, Avicii
2016, primeiro de Janeiro
Minha vontade de continuar lendo já havia
sumido antes mesmo de passar o marcador pela página e
fechar o livro. Mas não dormir era importante. Então
abro o livro novamente, desta vez, em uma parte
aleatória. Sobre o que é a história? Pessoas que caçam
sombras para sobreviver.
Meus olhos estão pesados, estou cansada. “Não
posso dormir enquanto ele está aqui”, digo a mim
mesma. Já havia notado sua sombra se aproximando pelo
chão, bem perto do batente da porta.
Isso não é sobre o livro. Isso é sobre o que estava
prestes a acontecer.
“Vamos, mantenha os olhos no livro”, penso por
um momento. Porque não queria encarar aquele homem
de frente. Sua mera presença no meu quarto já era um
sinal de alerta. Passos apressados. Ele entra e sussurra
algo. As palavras são claramente audíveis, como se sua
vontade tivesse sido dizer em voz alta desde o início.
Estamos sozinhos em casa, por qual razão ele precisa
sussurrar no meu ouvido?
Não respondo nada. Meus lábios simplesmente
se negam a responder. Ele se aproxima e me toca,
deslizando os dedos pelas minhas costas.
Não me sinto corajosa o suficiente para tentar
adivinhar o que está pensando. Talvez porque eu não
queira mesmo saber.
“Ler é ótimo, mas não acha que está na hora de
uma pausa?” , disse o homem cuja presença até então era
apenas uma sombra. Ele riu, leve, e completou, “Então…
vai para a casa dos seus avós hoje?”
Penso sobre o assunto enquanto tento me soltar
da sua mão. A casa dos meus avós fica na mesma rua, do
outro lado do quarteirão. Não levaria nem cinco minutos
para chegar lá. Mas minha mente estava vazia demais
para chegar a qualquer conclusão, toda a minha atenção
estava presa naquela massagem indesejada.
Engulo em seco.
Você sabe como é não conseguir dar um único
passo em falso? Me esforcei ao máximo para deixar o
rosto neutro e não transparecer meu desconforto. Porque
essa pessoa não gosta de ser contrariada. Se eu cometesse
algum erro, ele retiraria a oferta que tinha acabado de
fazer.
Passar as noites de sexta e sábado na casa da avó
é algo que tem um significado especial. É quando consigo
relaxar e ter um tempo para mim mesma, o que é raro,
já que sou a irmã mais velha entre cinco.
A mão de Caim para na minha cintura e depois se
solta. “Fico feliz que você tenha entendido”, ele sorri e
continua, “Aproveita para levar esse treco de madeira que
você vive em cima”. Depois disso, ele simplesmente vira
as costas e vai embora.
Respondo que sim, ciente de que Caim estava
falando do Longboard. Estou sozinha. Agora posso fechar
os olhos um pouco.
2016, 02 de Janeiro
Dizem que a memória não é tão confiável. Mas,
embora isso seja frequentemente questionado, é visível
como eventos particularmente traumáticos deixam
marcas vívidas na memória. Sei que está se perguntando
como: Registrar situações de intensidade emocional
extrema é um trabalho do cérebro.
As coisas que eu digo se encaixam nesse contexto.
O que eu vivo se torna uma memória resistente ao tempo.
Tão resistente que os eventos estão nítidos em meio ao
complexo, e às vezes falho, mecanismo mental.
A psicologia chama de mecanismo mental as
estruturas dentro da mente que determinam como
percebemos e interpretamos o que acontece ao nosso
redor. Isso inclui sentir, pensar e lembrar. No fim, é esse
sistema que organiza e processa as informações em nossa
mente.
Olá. Pode me chamar de Zero. Porque eu fui o
início de tudo «o protótipo para os filhos que minha mãe
teria depois» E tudo o que você precisa saber sobre mim é
o que vou contar a partir de agora.
Não que eu tenha decidido apagar o passado, mas
dispenso apresentações tardias. Já gostei de registrar
começos mais eloquentes nos meus diários, assim não
esquecia do que havia sido até o momento de preencher
as páginas com a tinta de uma caneta esferográfica. No
entanto, essa transição entre passado e presente sempre
apresentou diferenças sutis demais para serem citadas.
Sou uma garota e tenho 17 anos e três meses. A
idade aqui é algo crucial para você poder compreender a
minha história.
Hoje o Caim cobrou meu descanso de ontem
como se isso fosse uma espécie de favor. E os favores
sempre vem com uma condição. “Não diga nada a sua
mãe”. Essas palavras são horríveis, mas são sempre
acompanhadas por um tom de voz ameno.
Uma dica: enquanto você tiver um psicológico
forte não permita que o corpo chegue à exaustão física.
Porque seu psicológico cede, e você desaba. Tento agir
com indiferença para não desabar. Dizendo a mim
mesma que o Caim é apenas parte da minha rotina em
casa. Mas estou vagando no escuro agora, com nada além
das imagens que se agrupam na minha mente.
2016, primeiro de Abril
Tudo pode estar bem à primeira vista. Mas não se
deixe enganar. Posso parecer bem, mas estou triste.
Tentei dar uma volta com o Long, mas o calor faz parecer
impossível. Acabei sentado em sua lixa, à sombra de uma
árvore. Até agora, digamos que fiquei olhando para o céu
azul por uns bons 20 minutos.
Tenho o costume de andar ouvindo música, mas
nenhuma delas aparenta fazer sentido. Não pude achar
nenhuma letra ou ritmo capaz de me descrever nesse
momento. Não sei porquê.
Estou quase mandando uma mensagem para a
minha melhor amiga, Emma. Hoje em especifico sinto
falta do dia em que andamos juntas... Ao pensar nisso, a
imagem dela veio à minha mente.
Emma surgiu sorrindo, e a música ao fundo
começou a me atormentar. Por mais que eu tente evitar,
“Fire Meet Gasoline”, da SIA, sempre me deixa com a
sensação de estar suja. Ela acende um calor estranho na
boca do estômago «como se borboletas estivessem
prestes a romper um casulo e voar de dentro de mim.
Logo surgem chamas, e o fogo consome tudo, até que a
imagem se transforma em cinzas.
17H
A casa da minha avó é um sobrado de três
andares. Além da suíte principal, há mais dois quartos: o
meu, que também é uma suíte, e o outro, reservado para
hóspedes. Decidi subir e tomar um banho, mas acabei
ficando um tempo no chuveiro, olhando meu reflexo no
espelho do outro lado da parede.
A pior coisa sobre o reflexo é que ele me lembra
por que estou aqui. Minha pele morena dourada e o
cabelo liso e volumoso cortado em V são coisas que o
Caim gosta muito.
Sei que meu eu atual aparenta ser o tipo de jovem
perfeita para atrair o sexo oposto… Caim me disse isso.
Mas eu nunca quis atrair a atenção daquele homem.
22H44
Deveria ter ido dormir há uma hora, mas meus
pensamentos não me deixam em paz. Foi mais fácil
simplesmente ficar olhando para o teto, ouvindo música
com os fones, tentando esquecer de mim mesma.
Estou com a cabeça no pé da cama e os braços
esticados no alto, com as mãos valsando pelo ar. “Faded”,
do Alan Walker, está chegando ao fim « assim como eu,
talvez.
22H46
Estou no 3A « as aulas são das 7h às 12h » Este é
o meu último ano do ensino médio Por isso, cada minuto
do intervalo que passei em silêncio deve ter sido chato
para a Emma. Mas é nesse instante de silêncio ao seu
lado que posso ouvir meu coração batendo mais rápido.
Será que Emma me odiará por isso?
22H47
“Girls like girls” e “All the thing she said” são as
próximas músicas na minha playlist secreta. Me sinto
terrivelmente culpada por continuar ouvindo isso. Mas,
porque estou gostando tanto?
22H52
Emma costuma ir até a minha sala e me puxar
pela mão. Não consigo desviar o olhar quando ela faz
isso. Não sei porquê. Tal vez incluso te preguntes cómo
soy en el aula, escribiendo así, tan lleno de misterio.
Para responder vou precisar citar o que alguns
amigos sempre falam sobre mim:
Extrovertida, cativante, sorridente, engraçada,
criativa, inteligente, forte espírito de liderança, melhor
aluna da sala, destemida, gata, popular entre os nerds,
oradora da turma, cheia de ideias diferentonas e
estranhas, confiante e misteriosa.
Apesar de todos os adjetivos que me dão, eu nem
sempre fui assim. Digamos que o ensino médio tem sido
bem melhor que o fundamental.
Mas não sei como meus olhos ainda conseguem
manter algum brilho « o Caim quase sempre encontra um
jeito de me afligir. Porém, eu ainda tento me manter
firme. Porque, pra mim, isso é o que realmente significa
ser resiliente.
Ele é como uma ameaça invisível. Uma mina
terrestre pronta para explodir. Mas ser consciente disso,
infelizmente nunca tornou a realidade menos dura.
Momentos como aquele « em que ele só me deixou ficar
na caminhonete se eu estivesse usando apenas meu jeans
e o sutiã » sempre vão existir. Acho, sinceramente, que
ele teria me deixado no meio da estrada se eu não tivesse
obedecido. Isso foi há 4 anos.
En ese momento nadie escuchó mi voz interior
pidiendo ayuda, tal vez ni siquiera la escuché porque no
entendía.
2016, 21 de Maio
Existem coisas na vida que você não pode contar
para nenhuma criatura viva. Como ontem. Foi um dia que
lutei para controlar o medo. Dias assim chamo de preto e
branco.
2016, 22 de Maio
Agora são 21h03 e o temor envolve minha mente.
Enquanto a incerteza sobre o que vem pela frente desliza
pela minha espinha, deixando um rastro de calafrios, esse
é o medo de quem escuta uma instrução aos sussurros.
A “simples” ordem de abaixar as calças e esperar.
Não demorou muito para que eu me isolasse
mentalmente, convencendo a mim mesma de que, neste
espaço, nenhum mal poderia me atingir.
Mas apesar disso, lá estava eu, uma jovem de
quase dezoito anos escondida debaixo das cobertas,
enquanto algo sinistro rondava o escuro. E minha mente
nesse instante não condiz com a idade do meu corpo.
O medo me faz congelar por alguns instantes,
mas luto contra meu próprio corpo, obrigando-o a se
mover. Movo um pouco as mãos até que alcancei o fone
de ouvido. Ligo o volume no máximo, mais uma vez,
enquanto rezo para que nada se aproxime de mim. Cada
som de passos na escuridão é uma ameaça que me
estremece.
Esse medo não é como o de alguém que enfrenta
essa cena pela primeira vez, e isso é o pior. Poderia
chamá-lo de terror noturno se estivesse sonhando, mas
estou acordada. E a realidade se desdobra diante de
mim com o mesmo poder deprimente de um pesadelo.
Estou sozinha com uma ameaça, mas este é um
problema meu. Não tem ninguém para me ajudar, apesar
de nós dois já não estarmos mais sozinhos em casa. É
como se os desejos de Caim traçasse uma linha invisível
separando meu quarto do restante dos cômodos e
abrindo um abismo entre eles. Isso é decepcionante.
Me sinto um pouco desesperada agora. Queria
poder contar com alguém… qualquer um que não tivesse
nenhuma reação imediata, apenas me abraçasse. Tenho
que aguentar tudo quieta, pelo bem da paz dentro de
casa, caso contrário Caim faria um inferno. Ele sempre foi
autoritário, mas agora usa isso como uma advertência:
“Não quebre minhas regras”.
Estar cansada intensifica minha reação? Não
consigo discernir se estou ansiosa por ficar antecipando
se algo pior vai acontecer, ou se é apenas receio do
momento que ele abrir a porta da sala e pisar no corredor
. Contar os segundos é uma experiência dolorosa.
“Não fique nervosa”, penso, “Não posso fazer
barulho e acordar minhas irmãzinhas que estão no quarto
ao lado”.
Sempre ouvi de Caim que meu pai me
abandonou, enquanto o pai das minhas irmãs « ele »
ficou presente. Por isso, não quero que elas presenciam
uma cena tão horrível. Devo protegê-las de ter uma vida
igual à que eu tive.
E minha mãe sempre me disse que tipo de pessoa
eu deveria ser: forte. Segundo ela, se eu fosse fraco, que
tipo de vida eu poderia esperar? O mundo não teria
misericórdia: ele me mastigaria e me cuspiria.
Muitas vezes senti vontade de contar isso para
outras pessoas, mas uma voz na minha mente sempre
murmura que ninguém vai acreditar em mim.
Dear Diary, desde de manhã eu já sabia o que
faríamos hoje, porque Caim havia anunciado... E mesmo
que ele não tivesse dito nada, eu teria percebido « só
pelos comentários que fez sobre minha melhor amiga.
Emma é gordinha, ele sempre comenta sobre isso
quando quer ressaltar o quanto admira meu próprio
corpo. Meu biotipo é ampulheta, algo que herdei da
minha mãe » embora meus ombros sejam mais largos e
eu seja onze centímetros mais alta que ela.
Finalmente cansei dos comentários sujos que ele
faz sobre a Emma. As palavras de Caim nunca foram
apenas elogios, embora ele faça parecer. Estou
começando a perceber o quão repulsivo é o discurso dele.
Meu corpo já está quase inteiro formado, e tenho
a sensação de que é exatamente esse 'corpo perfeito' que
ele deseja para si.
Me sinto suja, como um pedaço de carne em um
prato de porcelana. Mas eu ainda tenho que “esperar” a
vinda de Caim. Segundo ele, passaria um 'gelzinho' em
mim para ajudar meus músculos a se fortalecerem. Mas,
sinceramente, não faço ideia do que isso realmente
significa.
2016, 23 de Maio
“Você não contou sobre o que fizemos para
ninguém, certo?”, ele diz. E seus olhos reforçam o
‘certo?’.
“...Certo”, respondo.
Percebi tarde demais que não tenho opções. Ouvi
quando ele conversava com minha mãe, me chamando de
louca « e o silêncio conivente dela já dizia tudo. Mesmo
sem saber as coisas que ele faz.
14H10
Não devo compartilhar essas coisas com a Emma.
Mesmo que ela pareça sentir que há algo errado. Pensei
em algumas razões plausíveis para continuar com a
minha decisão.
1. O que Emma pode fazer?
2. Sei que a Emma não vai aceitar nenhuma justificativa
por eu não ter contado à minha mãe
3. Não quero preocupa-la
4. Ambas tem a própria vida para cuidar
5. Me sinto insignificante
2016, 26 de Maio
Contei para minha melhor amiga. E a reação
deixou claro o quanto isso tudo é grave... Já nem consigo
me lembrar de como era minha vida antes de ser tomada
por esse medo irracional.
Antes, havia longos intervalos entre os episódios,
mas este ano… isto faz parte da rotina. E não sei
exatamente como me sentir agora.
A frustração está se transformando em raiva, mas
não deixo que ela domine o meu dia inteiro.
Dear Diary, os dias são bons quando nada do
gênero acontece. Ainda assim, a Emma parece incapaz de
entender minha postura. “Como você pode ser capaz de
viver com ele dentro de casa?”, ela perguntou.
Emma me chamou de hipócrita. Aos olhos dela,
eu deveria gritar, xingar, fazer escândalo « Mas a verdade
é que estou cansada de conflitos.
Ela se pergunta como ainda consigo rir e brincar,
ouvir música e dançar, cantar alto, deitar no chão e olhar
as estrelas, me balançar na rede e correr por aí « Nunca
deixo o medo transparecer » Prefiro viver o agora, sem
me deixar levar pela angústia do que ainda não
aconteceu.
Tenho quatro irmãs mais novas e um irmão
pequeno. Uma das meninas precisa de cuidados
especiais, e minha mãe se dedica totalmente a ela. Por
isso, eu acabo cuidando dos outros. E, sinceramente, elas
não merecem conviver com alguém pesado ou triste.
“Eu também não mereço viver de forma pesada.
Não posso permitir que minha vida gire em torno de
Caim”, penso.
2016, 27 de Maio
Houve uma época em que eu passei
despercebido. E agora que isso mudou, posso me deixar
levar: fiz muitos amigos, e ninguém liga se tenho que
carregar várias crianças atrás de mim toda vez.
Caim detesta que as crianças fiquem em casa.
Muitas vezes, ele me manda sair com elas no sol « por
sorte, sempre tenho algum lugar para ir.
Dessa vez não foi diferente. Só que, ao invés de
seguir com meus planos, resolvi vir atrás da minha mãe.
No creo haber mencionado todavía que el terreno donde
está la tienda al lado de la casa de mis abuelos también es
de ellos, así que mi madre é amiga das donas da loja. E
aqui estamos, na loja.
Minha irmãzinha parece impaciente, e com razão.
Já estou esperando com ela há meia hora. Você pode
chamá-la de Trois, porque ela é a minha terceira irmã.
Trois tem seis anos. Ela está balançando os pés, e de vez
em quando, dá pequenos pulinhos na cadeira de rodas
adaptada.
“A mãe está conversando”, digo para a pequena
garotinha. Ela apenas me olha. Talvez quisesse se
expressar, mas sua habilidade com as palavras ainda é
compatível com a de uma criança muito, muito pequena.
Em vez de demonstrar qualquer reação às minhas
palavras, Trois agita suas mãozinhas.
Entendo como deve ser difícil esperar, então pego
a pulseira arredondada de prata que costumo usar no
antebraço como bracelete e a entrego a ela, para que
possa se distrair.
Apesar de Trois estar fazendo barulho ao meu
lado, minha atenção está focada na minha mãe. Ainda
consigo ouvir o que elas estão dizendo.
É sobre Caim. E é a voz da minha mãe que ecoa
mais alto, “Minha vida profissional foi pelo ralo. Ele não
me permite fazer nada para mim mesma”.
Para ela, isso é o pior. Mas, para mim, o pior
somos nós dois. Eu e ele. Algo invisível para ela.
Durante anos, as palavras dele foram usadas
contra mim em todas as discussões que tivemos. Caim
sempre ganhava, sem importar o motivo. Fosse por eu
não querer acordar cedo para acompanhá-lo ao Ceasa
quando era criança, ou por ter apanhado e ido reclamar.
Minha mãe quase sempre permanecia em silêncio « como
se não tivesse escolha, e às vezes em alguns casos, como
se, no fundo, concordasse.
Neste momento minha mente está vazia, ocupada
apenas pelo desejo de contar as coisas que vem
acontecendo. Mas a vontade logo se desfaz, dando lugar a
um impulso de segurá-la pelo braço e ir embora.
“O Caim sempre reclama que eu converso mais
com ela do que com as outras meninas, como se ela fosse
a minha preferida”, minha mãe continua contando e
aponta para mim.
Não me sinto assim. Especialmente porque
minha mãe não pode sequer me proteger.
Me alejo de la silla de ruedas y comienzo a tirar
de la camisa de mi madre, hasta que finalmente ella cede
y podemos irnos.
16H30
A ideia que tive realmente é inútil. Isso já
aconteceu antes. Eu dizia algo para minha mãe, via-a em
pânico, só para ela ficar fria com ele depois, e então ele
percebia o que estava acontecendo e começava a
convencê-la de que estava tudo bem, até que ela se
esquecesse completamente.
Minha mãe ama música. Seus gostos vão do
gótico ao rock clássico, new age, erudito, mantras,
alternativo, MPB, reggae nacional, eletrônica e pop rock.
Por isso estou acostumada a dar play e desconectar o
fone. Mesmo enquanto andamos na rua.
Mas ela parou por um instante.
Minha mãe me observa em silêncio, seus olhos
cor de avelã buscando algo nos meus, quase negros, como
a noite. “Porque está ouvindo algo tão triste? Vamos lá, a
vida é tão linda, você não tem direito de ouvir nada
assim”, diz. Resmungo alguma coisa quase inaudível e
troco a música.
19H
Emma mora do outro lado da cidade, mas não é
tão longe quando vou de Longboard.
Perto de sua casa há o Batalhão e uma pracinha
repleta de árvores com bancos de concreto embaixo. É
onde estamos sentadas agora. E ela está indignada com
minha passividade.
“Sabe o tanto que minha mãe já se irritou comigo
por eu não me conter no passado e discutir com o Caim
dentro de casa?”, fiz uma pergunta retórica, em seguida
deixei escapar um suspiro.
Emm balança a cabeça e seu olhar penetrante me
deixa inquieta. A simples ideia de ver esses olhos
proeminentes se encherem de lágrimas me entristece
profundamente.
No final, talvez ela estivesse certa em pensar que
minha mãe não concordaria com tamanha passividade.
“Você é uma idiota”, diz, “Mas estou aqui por
você”. Em seguida Emma me deixa colocar a cabeça em
seu ombro.
“Isso é tão cruel, não poder te contar quase
nada”, penso.
21H
Caim abre a porta de metal na esperança de me
encontrar sentada à mesa onde sempre faço as coisas da
escola. Seu sorriso amarelado confirma que minha
suposição está certa. Ele quer algo.
Minha mesa fica na parede alguns centímetros ao
lado da porta. É um cômodo pequeno na lavanderia, mas
parece ser o lugar mais silencioso de casa.
“Vim trazer algo pra você comer filha”, ele diz,
logo abre a tampa da caixa de papelão que trouxe consigo.
O aroma se espalha rapidamente pelo quartinho.
Vejo a pizza « duas fatias generosas » cobertas
com queijo, orégano, tomate seco, brócolis, champignon e
azeitonas pretas. E uma borda gratinada recheada com
catupiry.
Tento pegar um pedaço, mas ele fecha a tampa
antes que meus dedos possam alcançá-la.
“Não esqueça de passar no meu quarto mais
tarde”, seu tom é firme, como se, mesmo que eu quisesse
recusar, não pudesse por causa da pizza.
Engulo em seco.
Caim me encara esperando uma resposta.
Contrariada, respondo, “Não vou esquecer”.
O som do aço da porta raspando o chão
interrompe meus pensamentos, me trazendo de volta à
realidade. Ele havia ido. E a pizza estava lá, em cima da
mesa.
Meu estômago se revira de fome. E eu mordo o
primeiro pedaço. Sinto como se estivesse traindo a mim
mesma.
“Se eu comer os últimos pedaços, vou dever um
favor a ele. Porque não comi antes dele vir trazer?”,
pensei com amargura.
23H
Me sinto vulnerável como se estivesse
caminhando para uma toalha de piquenique e a refeição
fosse eu. Essa foi a visão que tive quando atravessei o
corredor do quintal até a porta da cozinha.
Escuto Caim dizendo a minha mãe que iria até o
quarto verificar o sono das minhas irmãs, e que depois
iria tomar um banho bem longo.
Mas claro, era mentira.
Minha mãe não fez nenhum questionamento pois
confia nele, e isso é assustador. A vejo pelo vidro da
porta, parece cansada enquanto faz meu irmãozinho
dormir no sofá. Ele é pequeno demais para o sofá em L,
porque só tem quatro anos.
Você pode chamá-lo de Quatre, ele é o meu
quarto irmão. Como Quatre se parece enquanto luta
contra o sono? Sua cabeça cambaleia algumas vezes, mas
ele teima em manter os olhos abertos. Parece até
alguém. Fico onde estou para observá-lo um pouco. Seu
rosto é tão delicado… mas, apesar disso, tem traços
masculinos bem definidos. Como se fosse uma estátua
antiga. O tom de pele é caramelo cedro e o cabelo,
castanho escuro, é liso com ondulações volumosas ao
redor das orelhas.
A expressão no rosto de Quatre é pacífica. Para
minha mãe, aquilo também deveria ser apenas mais uma
noite tranquila, algo que me faz sentir desprezo pelas
últimas palavras de Caim.
E ele já havia cruzado a casa e ido até a suíte. Eu
sei. Porém sou incapaz de conter o calafrio na espinha. A
única coisa que nos separa agora é o corredor atrás da
porta na sala, e que não leva nem 2 minutos para
atravessar.
Virei a maçaneta e entrei.
Tenho certeza de que Caim estava esperando,
porque ele caminha apressado pelo quarto e coloca a
cabeça na porta. Olhando o corredor através de seu
quarto. A expressão em seu rosto me enoja: expectativa.
Minhas pernas mal se moviam. Talvez porque já
não tivessem mais força. Ele não havia mencionado as
consequências de desobedecê-lo, mas eu sabia.
Aqui estou eu, andando com as pernas trêmulas
pelo corredor pouco iluminado. Ele me olha com
satisfação enquanto coloca o indicador sobre o próprio
lábio. Então começo a andar mais silenciosamente,
odiando a mim mesma por fazer como ele disse.
E, por algum motivo, tenho consciência de que
meus olhos estão vazios, como os de uma boneca de
porcelana. “Vá até o banheiro do meio e tire o sutiã”, ele
sussurra para mim. Sua entonação deixa evidente o
quanto ele estava desfrutando da situação.
Tiro a camiseta em frente ao espelho. A porta está
aberta e eu fico em silêncio. Acho que Caim se cansa de
esperar, porque vai até mim. Minhas mãos mal haviam
alcançado a primeira alça, quando ele chega
sorrateiramente por trás, e desabotoa os ganchos da peça
branca de renda presa às minhas costas. Nesse momento
respirei fundo para não chorar.
Caim está em pé atrás de mim. Instintivamente,
começo a cobrir meu corpo semi-nu com os braços. E um
turbilhão de emoções tomou conta da minha mente «
medo, vergonha, nojo. É estranho perceber o peso do
próprio corpo despido. Em nenhum momento ousei olhar
para baixo, mas eu sabia » meus seios estavam ali, fartos
e arredondados.
O olhar malicioso de Caim enquanto ele me guia
até o canto escuro do quarto me faz finalmente olhar para
baixo. Minha postura não é totalmente reta, mas meus
seios estão firmes, ainda que balançam levemente a cada
movimento meu. Fica claro para mim que ele percebe isto
também.
Minha boca está amarga e tem gosto de ferro.
Estou com medo de ficar aqui. Mas não consigo fugir, ele
está bloqueando a porta.
Naquele instante, naquele espaço contido, tudo
em mim se preparava mentalmente para sentir o toque
áspero daquelas mãos e não gritar. “Não acorde sua mãe,
ou a coisa vai ficar feia para você”, ele disse.
Tento me manter imóvel, mas alguma substância
gelada pinga na minha pele. O susto me faz recuar, e
meus ombros colidem com o guarda-roupa atrás de mim.
Antes que eu possa reagir, Caim segura minha cintura
com firmeza « e, num gesto carregado de urgência, me
puxa de volta para ele. A substância escorre da clavícula
para o busto, deixando uma sensação melada nas curvas
logo abaixo dos meus seios.
Seus dedos pressionam meus mamilos antes de
envolver meu busto em um gesto firme. Suas mãos
erguem os meus seios, soltando-os logo em seguida. O
aperto é doloroso, mas Caim continua sem hesitar por
mais algumas vezes.
Seus olhos estão cheios de desejo. Cierro los ojos
con fuerza para no ver esa expresión repugnante en su
rostro. Depois disso as coisas aconteceram rápido demais
para que meu cérebro pudesse processar.
A sensação da língua me dá náuseas e eu tento
pensar no rostinho de Quatre, para não vomitar. A
sensação é repugnante, e permanecer de pé agora é
extremamente desconfortável.
Caim dedilha meus mamilos diversas vezes, até
ambos ficarem rígidos como pedra. Não consigo
distinguir o que está acontecendo, em meio ao escuro,
apenas a dor no meu corpo estava nítida. Minha
consciência está ficando cada vez mais distante do meu
corpo.
Onde eu estive? “Desperto” com ele me
chacoalhando pelos ombros.
“Vai, sai logo daqui”, Caim diz com pressa, me
empurrando para fora e fechando a porta atrás de si.
Cambaleio pelo corredor frio que, ironicamente,
parece ser um lugar seguro. Consigo ouvir a respiração
pesada do meu padrasto, mesmo com a porta de madeira
entre nós. Ele não esperou que eu voltasse ao quarto. Eu
preciso correr, fugir antes que qualquer som me alcance «
mas minhas pernas continuam inutilmente presas ao
chão.
Um som de algo batendo freneticamente começa
a vir do banheiro dele, depois o estalo da resistência do
chuveiro aquecendo a água e gemidos grotescos.
23H49
Estou no meu quarto. Fica no início do corredor,
bem ao lado da sala. Não precisa de muito esforço para
ouvir o que estão dizendo lá.
Ele soou incrivelmente hipócrita. Eu até
conseguia engolir a resposta da minha mãe, mas aceitar
que ele a havia enganado tão facilmente era outra
história. “Fui me barbear e cortei o dedo. Por isso
demorei para voltar”.
“Minha nossa, você está bem, Caim?”.
Nojo. Frustração. Raiva. Tudo sumiu, restando
apenas um vazio. Quase como se, de repente, minha
capacidade de sentir qualquer emoção tivesse
desaparecido.
Apática, peguei o celular e me cobri, fingindo que
nada havia acontecido. Chorar não adiantaria « logo ele
voltaria com alguma desculpa qualquer, só para checar se
eu estava contando para alguém. Então abro a galeria de
fotos, e deixo com que ela ocupe a tela inteira.
Tudo o que se vê são vídeos com as minhas irmãs,
depois fotos de gatos, longboard, chás, roles com amigos
da escola, o céu de todos os ângulos imagináveis e, prints.
2016, 30 de Maio
Estou cansada de ouvir comentários sobre a
Emma. Ele não fez nada comigo por dois dias inteiros,
mas ficou me importunando com a ideia de ligar para
Emma. Talvez Caim não tenha notado que percebi seus
olhares fixos na bunda da garota. Mas não se preocupe,
Dear Diary « ela não vai voltar aqui.
Me pergunto se ele tem consciência do que está
fazendo.
10H
A lavanderia fica em uma área coberta nos fundos
de casa, o que também inclui o cômodo que uso como
escritório e um banheiro. Estou dentro do box.
A água está gelada, mas isso não importa agora.
O que realmente me consome é a raiva que sinto depois
de ouvir as palavras de Caim « Sim, ele disse que não iria
consertar o chuveiro porque eu poderia estar pelada » A
facilidade com que ele consegue fingir ser um bom moço
me irrita profundamente.
2016, 31 de Maio
De novo, estou no quarto e já havia notado a
sombra se aproximando pelo chão, bem perto do
batente… Mas, dessa vez, ele entra no quarto e fecha a
porta.
“Percebi que você vira o corpo em direção a
parede quando eu entro no seu quarto à noite” « disse o
homem, cuja presença até então era apenas uma sombra.
Não sei aonde ele quer chegar.
“Não tem mais confiança no pai aqui?”, sua voz é
suave, “Estou te deixando em paz porque te respeito”,
Caim termina de dizer.
Não consigo dizer uma única palavra, apenas o
encaro, provavelmente com uma expressão confusa no
rosto. Depois disso, ele simplesmente se vira e vai
embora, como se nada nunca tivesse acontecido.
¿Él está realmente tratando de deshacerse de la
culpa, como si fuera tan fácil?
A palavra “respeito” ecoa em minha mente
algumas vezes, antes que meus joelhos cedessem e eu me
sentasse no chão, no meio dos cobertores que estava
dobrando.
Parece que as circunstâncias mudaram
drasticamente contra mim. Se Caim tem medo de ser
pego, será mais cauteloso. Será que ele vai parar de
mentir algum dia?
Estou me sentindo miserável.
A PERMANÊNCIA NO VAZIO
E seu reino de cinzas, ela anda sozinha. Ela nunca
pode olhar para trás. É a história de uma rainha, cujo castelo
caiu ao mar. Ela vai sobreviver, mas nunca mais será a mesma.
Ela olha para baixo, para as cicatrizes que restaram. Mas você
se mantém no lugar, apesar do reino estar em chamas. Porque
é a história de uma rainha, cujo castelo caiu ao mar, sabendo
que ninguém será o rei que virá salvar a sua rainha. Quando
tudo o que ela precisa, e tudo o que ela quer, quando tudo que
ela encontra, quando tudo que ela é e sempre foi, está
comprometido. Pois não tem ninguém para te amar, quando
você constroi seus muros muito altos... Ela está desviando o
olhar da guerra que está por dentro. Ela está gritando, porque
ninguém sobreviveu. Mas quando você está completamente
sozinho, você espera e se esconde.
PAPER CROWN, Alec Benjamin
2016, primeiro de Agosto
Não poder permitir que minha vida gire em torno
de Caim foi algo que eu disse a mim mesma antes. Com
isso, acabei indo para a minha cidade natal nas férias,
uma grande metrópole a seis horas de distância.
E agora, estou de volta ao interior.
Faltam alguns dias para a feira da escola. Vários
professores me convidaram para participar de suas
disciplinas, mas acabei escolhendo português e artes.
Porque? Não vou dizer que é porque eu sempre gostei de
escrever, desta vez direi que é porque sim.
Nessas Feiras, os professores escolhem
pessoalmente o que os alunos vão fazer, e a Noemi
escolheu um Sarau. Os ensaios estão acontecendo no
intervalo.
Pessoas em pé sobre o palco leem textos ao
microfone. Para adicionar um toque de emoção, peguei o
antigo jaleco da minha mãe e escrevi o poema nas
mangas. Assim, ao ler, eu precisaria mover os braços,
como uma espécie de tai chi. No entanto, não era bem
isso o que eu queria.
A Noemi não se importou com a mudança no
repertório; na verdade, apresentei o conceito da dança
contemporânea e ela amou.
2016, 06 de Agosto
Na minha turma tem um garoto alto que lembra
muito Brendon Urie, do Panic! At The Disco « o mesmo
cabelo preto e volumoso caindo suavemente para trás, as
mesmas feições marcantes e aquele mesmo sorriso largo.
O sobrenome dele é Ballerini. Então você pode
chamá-lo assim.
Não sei que horas são agora, mas faz um bom
tempo que o sol se pôs. Conclui que o ar parece mais
fresco em lugares altos, depois que Ballerini me carregou
até a casa da minha avó. Ele simplesmente resolveu me
carregar nas costas por uma quadra « um ato tão
espontâneo quanto absurdo » Depois que passamos o dia
todo juntos.
Caminhamos pela cidade ouvindo música, rindo,
conversando, e depois observando os patos na lagoa.
Minha mãe parece gostar dele. Talvez por isso ela
tenha tentado me convencer a ficar com o garoto. Mesmo
sem desejo algum, por um breve momento, me esforcei
de verdade para criar algum afeto. Mas, no fim, ele
continua sendo apenas um bom amigo do meu círculo
íntimo.
2016, 07 de Agosto
Depois de duas semanas ensaiando com o
Ballerini, acabei sem um par, porque ele simplesmente
desistiu. Não posso dizer que não sei o motivo disso,
especialmente depois de receber uma mensagem enorme.
E a revolta no tom não é questionável, nem por SMS.
“Você é a pessoa mais incrível e única que já
conheci. Nunca me sinto entediado quando estou ao seu
lado. Eu amo a forma como você brilha. E eu te amo
sinceramente”.
“Mas você não faz nada sobre a possessividade da
Emma em relação a você, e eu simplesmente não posso
competir com isso”.
“Por isso estou me afastando de vocês duas”.
“Você não pode simplesmente voltar a falar com
ela. Não depois da forma extremamente rude com que ela
falou com você na escola!!”.
“Eu estou saindo, se vira sozinha com o Sarau”.
“Mais que arrombado! Falta só uma semana para
a Feira agora”, comecei a digitar. Mas não enviei.
Logo chega outra mensagem de SMS, “Pede ajuda
para a Emma”.
Me quedé quieta unos instantes, intentando
asimilar el mensaje. No estaba segura de si él estaba
actuando por empatía o si simplemente estaba abrumado
por la ira.
Menos de cinco dias para o Sarau
Acho que eu deveria estar desesperada. Mas, na
verdade, estou surpreendentemente tranquila.
Não apenas porque Emma aceitou substituir
Ballerini na apresentação, mas também porque, durante
as férias, tive a chance de aprender um pouco mais sobre
contemporary ballet.
Conheci Maíra «uma bailarina, e a nova
namorada do meu pai biológico» Ainda consigo me
lembrar do que ela disse ao me ver pessoalmente.
“Sou a Maíra… Ah? Seu pai falou de você! E já gostei
da sua personalidade. Nós duas somos de Escorpião, lidando
com o seu pai! Vamos nos dar bem”.
Segundo ela, dançar é sobre se expressar quando
palavras não são suficientes. Olhando para trás, para o
momento em que decidi mudar minha apresentação,
percebi que aquela jovem «muito branca, de cabelo
vermelho e com um delineado gatinho marcante» estava
certa. Às vezes, o corpo realmente fala.
O olhar de Emma está carregado de expectativa.
“Tem certeza de que sabe o que vamos fazer?”,
pergunto a ela, erguendo uma das sobrancelhas.
A forma como Emma interpretou a coreografia
foi bem diferente da ideia original que tinha em mente
«liberdade contra a opressão da manipulação ideológica.
Para ela, porém, o significado era mais intenso e
carregado: liberdade de gênero e de sexualidade.
Mesmo assim, deixei que ela enxergasse do jeito
que quisesse.
“Não é difícil amarrar linha vermelha nos seus
braços e ao redor dos pulsos e dedos”, Emma responde.
Comecei a rir.
“Não, não é difícil”, digo. Estava prestes a me
transformar numa marionete humana.
“Hey”, ela grita do outro lado da sala, “Descobri
algo no YouTube, vem ver!”.
Ter girado o corpo antes e observar o espaço
como um todo ajudou a decidir onde posicionar as
carteiras. E Emma já estava sentada em cima de uma
delas.
“Foi bom podermos usar uma das salas vazias
durante o período inverso às aulas”, penso enquanto
caminho até o fundo.
Ela vira o celular e eu vejo a imagem da tela.
Aquilo era THE ARROW - A Circus Film [Love. Pride.
Truth] em uma versão Edit com a música The Greatest,
da SIA.
O clipe era composto por dois homens diante de
um fundo branco « um branco intenso, quase expressivo,
como se o vazio tivesse algo a dizer apenas ao olhá-lo. Um
deles segurava um aro acrobático enorme.
Emma dá play no vídeo. Quando a música
começa, os dois homens se aproximam lentamente, até se
envolverem num abraço dentro do aro « o gesto é tímido,
como um encontro entre o desejo e a hesitação » O aro
passa a girar mais rápido, entrelaçando os corpos nus da
cintura para cima.
O ritmo continuou intenso enquanto tintas em pó
eram lançadas contra o fundo branco, pintando os
bailarinos e registrando no chão os rastros circulares do
movimento do aro. Depois dessa explosão de cores, vem
um beijo « profundo, arrebatador, de tirar o fôlego.
A música termina e eu não tenho palavras para
descrever o que vi.
Emma quebra o silêncio e diz, “Gostou??”.
“É… diferente”, respondo. Estando totalmente
perdida nos próprios pensamentos.
O que acabei de ver? O vídeo trouxe uma mistura
de sensações: veemência, arrojo, energia, vitória, calor,
intensidade, paixão, rebeldia e vividez.
Emma me olha de forma séria.
“Nós podemos... pegar aquele pedaço do beijo, e
introduzir no final da nossa apresentação”, seu tom de
voz é tímido, porém decidido.
É O QUE? O que Emm estava sugerindo!? Um
beijo…em cima do…palco… ? E ainda por cima um beijo
homo?? Por acaso ela endoidou?!
Lanço um olhar desconfiado em sua direção.
Desde que me confessei, Emma vem agindo de um jeito
um pouco estranho…
“Quer mesmo fazer a cena do beijo?”, questiono.
“Sim”, Emm responde, “Se for um selinho meu
namorado não vai reclamar”.
“E o diretor, Emma??”
“Vamos pensar nisso depois”, ela diz. Sua face
está ruborizada.
Colocamos uma playlist qualquer para tocar no
meu celular, com o volume ajustado para não ultrapassar
a porta. E vamos debater a parte técnica.
Ela puxa uma cadeira e a posiciona alguns
centímetros atrás de mim, enquanto me alongo, dando
pequenos saltos no ar.
Logo depois, algumas crianças do sétimo ano
entram na sala carregando instrumentos de corda. Eles
apenas ficam parados, olhando para nós duas com
curiosidade.
Percebo que Emma havia acabado de puxar as
pontas da linha nos meus braços. Dou alguns passos
para trás e ela me envolve em um abraço.
Ela diz algo suavemente. Mas não estou
prestando atenção. Apenas ouço, “Porque não fazemos
assim?”.
Em seguida ela continua, “Será como se você
estivesse vindo até mim”. Ela desliza as mãos até alcançar
as minhas, que repousam ao lado do meu corpo, e
entrelaça delicadamente seus dedos nos meus.
Meu coração está batendo rápido.
Emma respira de forma calma e ritmada.
Rapidamente entendo sua intenção « era o sinal para
começarmos a nos mover.
Então eu a conduzo. Movimento lentamente os
braços da direita para a esquerda, conduzindo os quadris
junto com o gesto. Em um improviso, ela ergue os
próprios braços, junto aos meus, até colocar as mãos
sobre o meu pescoço.
Primeiro, ela me deu liberdade; agora,
retomava o controle. Este é o primeiro passo da
coreografia.
Solto-me de seus dedos e lanço o corpo para a
frente, na ponta dos pés, em um movimento brusco. Este
é o segundo passo. Estava caminhando para o abismo
imaginário. Emma puxa novamente as linhas, me
impedindo de ‘cair’.
Em seguida, ela se senta na cadeira e começa a
mover os próprios dedos, guiando-me como se estivesse
manipulando os fios de uma marionete; Enquanto eu
danço alternando entre sobressaltos e gestos suaves. Este
é o terceiro passo.
“Vai parecer que eu a controlo”, Emma diz em
voz alta para os nossos pequenos espectadores, “Mas na
verdade, ela também tem o poder de me controlar a uma
curta distância”.
O quarto passo é agachar e rodar a perna no
chão, desenhando um semi círculo. O corpo de Emma se
inclinaria para frente e ela retomaria o controle,
movimentando as linhas.
“Dançar com Ballerini era uma experiência
completamente diferente de dançar com ela”, penso.
Nesse momento, Emma se levanta e me puxa
para perto, pressionando minhas costas contra o seu
corpo. Seu queixo repousa no topo da minha cabeça, e
isso dura alguns instantes.
Foi tempo suficiente para que algo percorresse
meu corpo involuntariamente, me fazendo fechar os
olhos e estremecer.
“Vocês viram a cara que ela fez quando a outra
garota passou os braços nela?”, comentou um garotinho
em voz alta. Eu estava tão imersa ao lado de Emma que,
por um instante, esqueci que eles também estavam ali.
“Isso é óbvio, é porque elas se gostam!”, outro
menino responde. Ele parece sorrir, como quem acaba de
resolver uma questão difícil numa prova.
“Ela é lésbica, que legal!”
E logo o burburinho começa.
Emma sorri para mim com um olhar que parece
dizer que não há nada de vergonhoso em sentir isso.
“Ela é, e eu sou bi”, ela diz.
É um exagero, eu sei. Emma exagerou até sobre
mim. Mas estou feliz por ela ter dito algo assim de si
mesma.
15H
Contar a verdade nem sempre é fácil. Falei com
minha mãe sobre o diário e o que havia nele, mas ela
apenas me acusou de distorcer os fatos e de querer
chamar a atenção da Emma. Será que a palavra de Caim
vale tanto assim?
A música é meu único conforto agora.
Tudo ao redor parece mais frio « até o que toca
nos meus fones. PARALYZED, NF. Essas palavras ecoam
nos meus ouvidos como um espelho:
“Quando foi que me tornei tão dormente? Quando foi
que me perdi? Sinto que todas as palavras que saem da minha
boca vieram de outra pessoa. Estou paralizado”
“Onde estão os meus sentimentos? Já não sinto mais
nada, e eu sei que deveria. Onde está o meu verdadeiro eu?
Estou perdido, e isso me mata por dentro. Quando foi que
fiquei tão frio? Quando foi que fiquei tão envergonhado?”
19H32
Minha mãe está dentro de casa. E eu tenho
certeza de que ela não virá aqui. Talvez por isso a ajuda
agora parece tão irreal. Caim me empurrou contra a
parede. E não há a menor chance dela ver isso.
“Sei o que você tentou fazer. Escreveu sobre mim
para que sua mãe pudesse encontrar. Mas isso não vai
funcionar”, o tom dele soa ameaçador.
Não respondo de imediato. Estava concentrada,
tentando lembrar quais páginas eu tinha arrancado do
diário e dado para minha mãe. Mas parece que Caim não
gosta do silêncio. Seus olhos ficam ainda mais ferozes.
“Você sabe a gravidade disso? Porque escreveu
aquilo! Você quer me ferrar??”, Caim começa a gritar. A
atmosfera ao redor é sufocante.
Tão sufocante quanto foi quando eu era pequena.
Mas não posso me amedrontar agora. Não vou conceder
essa vitória a Caim. Talvez eu tenha tropeçado em alguns
degraus «como a Emma disse » mas ele jamais me verá
cair. Ainda estou longe do fundo do poço.
“Porque escreveu aquilo, garota!”
Em vez de curvar a cabeça, mantenho meu olhar
firme, na mesma altura que o dele. Encaro-o ainda sem
dizer nada.
Ele cerra os dentes e recua alguns passos.
“Você perdeu peso enquanto esteve na casa da
sua outra avó. Seus peitos sumiram um pouco. Trate de
comer mais”, Caim diz enquanto vira de costas.
Ele hesita um momento antes de sair,
permanecendo imóvel, luego gira ligeramente la cara y
dice, “Se eu encontrar um certo caderninho para você. O
que me dará em troca? Estou esperando uma resposta”.
Uma sirene de alerta ressoa dentro de mim no
instante em que as palavras saem da boca de Caim e ele
sorri. Sei que a raiva dele me afeta de muitas maneiras
indiretas. Então saio correndo até onde minhas coisas
estão.
20H15
Não estou com medo do que Caim pode fazer,
porque ele já fez. Então estou triste, apenas triste.
Procurei entre as coisas do guarda roupa e, meu caderno
A5 sem pauta não estava lá. Era algo valioso demais para
ter sumido.
Geralmente escrevo à mão e desde 2010 guardo
meus poemas comigo naquele A5 com uma coruja e
mandalas na capa.
Tem um terreno abandonado do outro lado da
rua, e tenho um pressentimento sombrio «temo que o
caderno vá aparecer ali » pegando fogo.
2016, 15 de Agosto
1 minuto para o Sarau
Observo a professora acenar da plateia com um
grande sorriso, nos incentivando a subir ao palco, onde o
banco longo de madeira já estava preparado para a nossa
apresentação.
Hay mucha gente mirando, pero a pesar del
alboroto y el ruido, todavía puedo leer los labios de
Naomi, “Chegou a hora de brilhar, meninas”.
Somos as últimas, mas isso não importava «
Emma disse que Noemi deixou o melhor para o final.
Minha melhor amiga está radiante, e isso me conforta.
Neste instante, é como se fôssemos jovens e invencíveis.
Respiro fundo.
Tento me lembrar das palavras de Maíra «de que
dançar é como tirar um peso dos ombros» Era
exatamente isso que faríamos.
Diary, coloquei uma faixa branca sobre a boca.
Eu havia decidido: um sarau costuma ser ouvido, mas o
meu foi feito apenas para ser visto.
Emma já está de pé atrás do banco, então tudo o
que preciso fazer é me sentar à sua frente.
Fecho os olhos, movendo o centro de gravidade
do meu corpo para os pés. Dessa forma, me manteria
firme no chão, quando fosse dobrar o corpo a partir da
cintura «para frente, para trás ou para os lados, com a
cabeça acompanhando os movimentos.
Emma faz um gesto para que outro aluno ligasse
e ajustasse o som. As primeiras notas são lentas. “Meus
dedos precisam acompanhá-las”, penso.
Mantenho os olhos fechados, aguardando o
começo da música. EXPERIENCE, Ludovico Einaudi.
Quer saber como seria a sua visão da plateia?
Com a coluna ereta e as pernas juntas, repouso ambas as
mãos sobre as coxas, como se fosse teclas de um piano.
Então, a música começa, e eu movo os dedos, tal
como se tocasse a Experience.
Começo com a mão direita, deslizando os dedos
suavemente sobre o tecido da calça legging. Quando as
notas se aceleram, abro os dedos da outra mão e deixo
que ela acompanhe o ritmo mais frenético da música.
O piano volta a soar suavemente, e eu interrompo
o movimento dos dedos, batendo-os com força sobre as
pernas «um gesto que provoca impacto no público» Em
seguida fecho as mãos em punho e, nesse instante, abro
os olhos abruptamente.
Emma afrouxa as linhas, aumentando a
distância. Paro de tocar o piano imaginário: retiro as
mãos do colo e, uma a uma, movo-as lateralmente ao lado
do corpo, em um gesto pausado, quase mecânico.
A partir desse momento, meus movimentos se
aceleram. E talvez isso pareça um pouco confuso:
Levanto os braços de forma brusca, com os
cotovelos dobrados no ar, na altura dos ombros. E inclino
a cabeça sobre os antebraços, permitindo que o cabelo
cubra meu rosto por um instante. Logo depois, ergo os
braços enquanto volto o rosto para o teto, abrindo-os em
U «no ballet clássico, essa forma é chamada de quinta
posição.
Nesse momento, já estou em pé. Em simultâneo,
Emma move as linhas conforme o ensaio. Ela assumiria o
controle.
Começo flexionando os joelhos e permaneço
agachada, ainda mais próxima de Emma. Ela desloca as
linhas para a direita, então me inclino levemente nessa
direção.
Mas, em seguida, realizo uma rotação, girando o
corpo com os braços esticados. Emma tenta retomar o
controle. Mas já estou afastada do banco de madeira.
Posiciono os braços unidos à frente do corpo,
com os cotovelos alinhados à altura das costelas. Inclino o
tronco para frente em oposição ao movimento da cabeça,
que se projeta suavemente para trás «uma das
características da dança contemporânea é o arqueamento
do corpo em formas inusitadas.
Fico na ponta dos pés e começo a girar sem parar.
Até que Emma me puxa, envolvendo a minha cintura,
enquanto o fio se enrola em seus próprios pulsos. O
movimento que segue é aquele que ensaiamos na sala,
pouco antes de as crianças se aproximarem de nós duas.
[Me soltei de seus braços e lancei o corpo para a
frente, na ponta dos pés, de forma brusca. Este é o
segundo passo. Estava caminhando para o abismo
imaginário].
Depois de alguns segundos, sento no banco para
tirar a faixa da boca e desfazer as linhas que envolvem
meu braço todo.
Emma se acomoda ao meu lado, estando próxima
o suficiente para que o selinho acontecesse «mas ela me
beija» um beijo intenso. Era mesmo possível que seus
lábios fossem tão suaves, quase surreais? Assim como na
primeira vez em que Emma me beijou.
A música termina.
No meio da plateia, meus olhos se encontram
com os da mãe do Ballerini. É um instante breve, mas
carregado de significado. Sei exatamente por que está ali
«veio porque pensou que veria o filho dançar comigo»
Ela veio me ver dançar.
Durante a apresentação, senti sua presença como
um fio invisível de tensão, esticado entre nós. Não ouso
procurá-la novamente com o olhar, mas sei que não
desvia os olhos de mim, principalmente porque me
julgava silenciosamente pelo que aconteceu em cima do
palco.
Uma salva de palmas ecoou, alta o suficiente para
me arrancar do pequeno devaneio reflexivo. As vozes da
plateia do Sarau se misturavam, preenchendo o espaço
com seus sons.
E, mesmo assim, minha melhor amiga ainda
segurava minha mão.
“Porque Emma ainda não me soltou?”, penso.
2016, 22 de Agosto
Quem cala consente ou só faz por medo do que
pode acontecer?
Sempre existe a possibilidade de que as coisas
piorem. E, infelizmente, o ser humano tem um limite
para a quantidade de ‘dor’ que pode aguentar. Não somos
tão resilientes quanto eu gostaria. O Caim voltou a me
perturbar.
E desta vez minha mente não me transportou
para longe. Estive ancorada a realidade o tempo todo.
Não consegui mais fingir que essas coisas não estão
acontecendo. E foi demais para suportar ‘acordada’.
Cada gesto repulsivo se insinúa entre las líneas
del recuerdo, impregnando el silencio de un asco que no
puedo lavar de mi piel.
Mas não tenho mais ninguém em quem me
apoiar. Dear Diary, estou sozinha agora. As palavras de
Emma ainda ecoam na minha mente como prova disso.
Enviei mensagem imediatamente após o
ocorrido, e a resposta que recebi foi esta, “Eu sinto muito.
Mas você caiu no fundo do poço, e eu não posso ser
arrastada junto. Não vou mais aguentar esse tipo de
coisa”. E depois parou de falar comigo.
Porque eu deveria continuar sendo forte?
As pessoas costumam acreditar que a resiliência
tornará suas vidas mais fáceis, que desenvolver formas de
enfrentar a realidade as deixará menos frágeis. Mas e se
for o contrário?
E se aguentar golpe após golpe, sem reagir, é na
verdade um tipo de martírio disfarçado de força? É nisso
que a Emma acredita.
Emma diz que eu já não sou a mesma de antes.
Mas, sinceramente, não consigo me lembrar de
como é ser eu mesma. Quem é o verdadeiro monstro «eu,
que carrego a escuridão, ou Caim, que a criou?
Me siento traicionada. ¿Cómo pudo Emma
abandonarme así?
Entre las dos, ella siempre fue la más pesimista.
¿Por qué actuar así ahora? ¿Por qué afirmar que mi
negatividad la está deprimiendo?
2016, 07 de Setembro
Tenho me esforçado para escrever novamente,
principalmente sobre aquele dia. Mas há certas coisas
que prefiro manter guardadas.
Quero chorar, mas não consigo. Consegue
imaginar a tristeza no meu rosto? Tenho consciência de
como estou neste momento.
Estou sozinha, sentada na escrivaninha do quarto
de hóspedes da minha avó. Curvada sobre mais um
caderno, mantenho as sobrancelhas franzidas,
concentrada.
De tempos em tempos, a vontade de chorar me
invade com força, mas minha boca apenas se entreabre,
sem deixar escapar som algum. No fundo, não quero
incomodar ninguém ao meu redor.
Mas, toda vez que encosto a caneta no papel, as
lembranças voltam «vivas, nítidas, como se tivessem
acontecido agora a pouco. Elas não pedem licença;
apenas invadem, trazendo consigo cada detalhe, cada
som abafado e o medo. Talvez por isso descrever seja tão
fácil.
Es como si al escribir abriera una puerta que
intento mantener cerrada todo el día.
Se eu fechar meus olhos agora consigo ver a
parede do lado de fora do quarto da minha mãe, e Caim
através da janela aberta... E ver tudo o que ele fez
enquanto me obrigava a ficar ali, imóvel, como se minha
vontade não importasse.
Não gritei. Ninguém viria me socorrer.
2016, 11 de Setembro
Furtivamente, fui até o quarto da minha mãe e
peguei o pacote de lenços umedecidos de Trois. Voltei às
pressas para a minha cama, receosa de encontrá-lo ainda
no corredor «quem sabe, me vigiando» aperto o pacote
entre as mãos.
Preciso abrir com cuidado para não fazer
barulho. Começo pegando um lenço, e depois outro, e
mais outro…
Respiro fundo antes de olhar para baixo. Depois,
com cuidado, toco em um dos seios e passo o lenço sobre
a pele. Espremo o tecido até a última gota. Eu precisava
sentir a limpeza se espalhando « como se pudesse apagar
o desconforto de antes.
Me incomoda ter que deitar desse jeito, mas isso
não é nada perto do que aconteceu.
A pele reage de um jeito estranho, sensível
demais. Tento ignorar, mas a sensação persiste « e me
deixa inquieta, como se algo não estivesse bem» meus
seios estão duros como pedras.
Olho ao redor, tomada por uma inquietação
silenciosa, temendo que a porta do corredor se abrisse a
qualquer instante e Caim entrasse.
Deito novamente, prendendo a respiração por
alguns segundos e ficando imóvel, atenta a cada ruído
«determinada a não ser surpreendida enquanto me
limpo.
Queria apenas continuar invisível. Tudo isso é
vergonhoso demais... Me viro inquieta, tentando
controlar as emoções que ameaçam transbordar. Sinto
um grito de angústia querendo escapar, mas mantenho
minha boca bem fechada, pressionando os dedos
firmemente sobre ela para evitar que qualquer som
escape.
Permaneci forte até este momento, nunca tendo
considerado o estado do meu equilíbrio mental. No
entanto, agora que começo a refletir sobre isso, nada
parece certo.
22H56
Estou ajoelhada sobre a cama. Agora apenas
inclino o corpo, como se pudesse imaginar uma chuva
leve caindo sobre mim. Essa imagem me ajuda a conter a
raiva, embora meu rosto já esteja molhado de lágrimas.
Elas escorrem por toda parte, silenciosas, como se
tomassem o lugar dos gritos que não consigo soltar.
A angústia que sinto agora escapa a qualquer
descrição. A sensação que me atravessa é de um
constrangimento profundo, como si mi moral estuviera
bajo el escrutinio de ojos invisibles y despiadados.
Tem um odor de saliva desagradável emanando
do meu busto. A sensação de querer arrancá-lo fora ainda
me consome, insistente, como uma febre silenciosa.
Arranho a pele, como se o próprio corpo fosse
culpado «como se, ao livrar-me dele, pudesse apagar a
memória daquilo que o Caim fez. Talvez, se meus seios
simplesmente deixassem de existir, esse incómodo
lancinante, essa impressão de terem sido violentamente
tomados por Caim, enfim cessasse.
Sinto vergonha de mim mesma e de todas as
versões de mim que, um dia, sonharam em se relacionar
com um garoto.
Pronto, já estou suficientemente limpa. Pelo
menos por fora. Pego meus fones de ouvido e os encaixo
no celular com as mãos ainda trêmulas. Escolho uma
música cujo ritmo seja triste e aumento o volume ao
máximo. SO COLD de Ben Cocks começa a tocar.
Escondo o rosto no edredom azul com listras
brancas, querendo escapar desta noite. Tentei gritar,
implorar que tudo pare, mas minha voz é apenas um eco
« e só eu consigo ouvi-la»
É provável que, mais tarde, eu acabe acordando
só para desligar o reprodutor de música. Mas sei que não
vou conseguir adormecer tão cedo «minha mente faz
muito ruído, repassando, uma e outra vez, tudo o que
aconteceu.
Desta vez não consegui me desligar. Fiquei presa
ali, dentro de mim mesma no presente, obrigada a assistir
a cada detalhe.
Fui surpreendida por Caim quando ele entrou no
quarto e me encurralou contra o guarda-roupa, naquele
espaço estreito entre os pés da cama e o guarda roupa «é
um ponto cego, invisível para quem olhasse pela porta.
Senti seu corpo se aproximando demais.
Havia algo tenso em sua postura quando o tecido
do seu short roçou em mim sem querer, fazendo-o pulsar.
Caim não se conteve depois disso.
Ele se inclinou, encostando o rosto no meu
ombro por alguns instantes. E um som baixo escapou de
sua boca, algo entre um sussurro e um gemido, “iiiiiis
aaah”.
Caim se afastou rapidamente em seguida. Talvez
tenha notado seu erro. No fundo, eu torcia para que ele
não percebesse que eu havia notado a ereção.
Apenas fechei os olhos e virei o rosto, erguendo o
queixo o máximo que pude, numa tentativa silenciosa de
manter distância. Ouvir sua respiração ofegante,
intercalada com breves pausas para recuperar o fôlego,
fez com que eu perdesse a conexão com minha própria
humanidade.
Naquele instante, me sentia reduzida a um
simples objeto em suas mãos, sem escolha nenhuma
sobre mim mesma.
Você se pergunta por que eu?
Eu também me perguntei o mesmo. Até aquele
momento, eu nunca tinha visto nada parecido. Eu não
sabia como isso acontecia e também nunca me interessei
por questões sexuais. Agora, tudo o que Caim me faz
sentir em relação a isso é nojo.
Será que ele sequer tentou disfarçar o fato de que
começou a tocar em si mesmo enquanto me chupava?
Uma sensação amarga me diz que isso já não era mais
importante «suas intenções estão bastante claras» Estou
apavorada. Esta experiência foi completamente
diferente de todas as outras.
2016, 10 de Outubro
Farei dezoito anos daqui algumas semanas. E, a
partir daí, tudo o que for feito contra mim deixará de ter a
mesma importância «como si, de repente, la gravedad de
las cosas pudiera borrarse sólo porque ya no era menor
de edad.
Será que há alguma parte de mim que se orgulha
por eu ter suportado até aqui? Parece que agora sou
apenas a parte que desmorona «parada por longos
minutos, com o olhar vazio.
Posso dizer que meu lugar favorito de casa
costumava ser o vão entre a cama e o guarda-roupa
«gostava de sentar ali para ler. Mas, ultimamente, esse
lugar tem sido sinônimo de lembranças devastadoras.
Também estou sentada no chão agora, mas não
no vão. Estou tentando ler, porém minha mente insiste
em me manter na realidade. A única coisa que vejo são
palavras. No pude proyectar las escenas del libro y verlas
mientras sucedían.
Isso acontece porque meus pensamentos acabam
sempre retornando ao que Caim disse ontem. Realmente
me fez ter medo dos planos dele para o futuro.
Queria ter alguém com quem falar sobre isso,
estou cansada de guardar tudo para mim mesma. A
solidão se torna terrível quando sinto autopiedade.
Tive que ouvir Caim e ficar em silêncio.
Dear Diary, foi repulsivo perceber que o discurso
dele não era um conselho de pai para filha, como ele
tentou aparentar. Era um desejo explícito, impossível de
não perceber.
“Você deveria ter mais experiência sexual. Já está
grande. Porque não tenta com alguma menina do seu
curso que goste de você? Sabe, eu e sua mãe vimos a
forma como olha para a Emma. Ela não apoia esse tipo de
atividade, mas eu sim. Bom, seria interessante se você
transasse com uma mulher. Eu te apoio”.
2016, 16 de Outubro
Meio dia
“Ela escrevia para tentar aliviar um pouco da
agonia que nela existe. E as palavras que saem não são
vivas, são pedaços mortos que dentro dela existiam”, li
esse trecho em um poema. O nome é o silêncio, de George
William.
Parece que o autor está certo. Todas as palavras
dentro de mim são fragmentos de algo que está
morrendo aos poucos.
Entrei no banheiro sem esperar Caim abrir a
porta do corredor e pisar na cozinha. Não me importava
mais se ele me ouvia ou não. Eu só precisava de um lugar
para chorar em paz «De fato, agora estou encostada na
porta fria de metal do banheiro na lavanderia.
12H11
Precisei de um tempo para processar o que está
acontecendo. Alguns minutos até conseguir andar até o
box e abrir o chuveiro.
Meus joelhos simplesmente cederam assim que
entrei nele. Pensei que a água fosse me trazer algum
alívio, mas não está sendo suficiente para me livrar das
coisas ruins que estou sentindo. Estou em choque. Minha
única atitude é murmurar. Murmuro pensamentos
carregados de revolta, como se meus sentimentos
estivessem transbordando, fora de controle.
“Deus não existe! Deus não existe! Deus não
existe! Eu me odeio! Sou uma puta desprezível… Odeio
tudo isso!”
Nada faz sentido. A única coisa que parece real é
essa vontade repentina de me estapear. Em vez disso,
começo a socar as paredes de vidro do box, tentando
aliviar algo que nem sei nomear.
A dor que isso causa me atinge com uma
intensidade avassaladora «minha raiva agora é densa,
quase sufocante» E, antes que eu pudesse sequer
raciocinar, vejo minha testa se chocando contra o vidro.
Não se preocupe, esse vidro é temperado.
Há um leve desconforto entre minhas pernas
«sinal de algo que aconteceu e que nunca deveria ter
acontecido» Não entendo por que meu corpo está quente,
enquanto entre minhas pernas tudo permanece gelado.
“Deus, porque não me nota? Estou bem aqui, está
vendo?! Por favor… faça essa sensação ir embora”, sigo
murmurando «É doloroso demais dizer tudo isso»
enquanto desejo estar morta.
Lágrimas estão escorrendo enquanto gritos
baixos escapam sem que eu consiga conter. Neste
instante, minha vida parece desligada de qualquer outra,
como se eu existisse à parte do mundo. Estou sozinha
com o meu desespero. Aqui do fundo, da lavanderia, é
distante para que alguém possa me ouvir.
Percebi que logo teria que colocar a mão na
região íntima para limpar. Não faço nada, apenas
permaneço parada, me perguntando porque. Porque
Caim me prendeu no quartinho? Porque ele quis colocar
a língua aqui? Será que tudo começou quando ele elogiou
meu short-saia no aniversário da minha mãe? Foi
naquele dia que essa ideia surgiu na cabeça dele.
12H36
Acabei me arrastando do chuveiro até o
quartinho, uma porta ao lado. Estou de toalha «só com a
calcinha por baixo. Mas isso não importou quando me
encostei na parede e deslizei até o chão. Sabia que a
calma não duraria; o caos dentro de mim logo tomaria
conta outra vez. Respiro fundo, tentando manter o
controle. No fim, abraço os joelhos e apoio a cabeça sobre
as mãos, tentando me esconder de tudo.
12H50
Estou com a lâmina nas mãos. Não penso muito,
só desejo ver sangue. Por sorte, ela estava exatamente
onde eu lembrava, na nécessaire, e foi fácil alcançá-la.
Encosto-a no pulso e puxo devagar. Aos poucos, minha
frustração começa a se transformar em algo mais simples
para o corpo entender «dor.
“Amanhã vai ser só mais outro dia da semana”,
sussurro para mim mesma.
2016, 04 de Novembro
Dez para meia noite
As duas ruas que se encontram na avenida estão
desertas. Estou parada no cruzamento, desejando «em
silêncio» simplesmente ser atropelada. Queria morrer.
Mas sem dor.
No entanto, apesar disto, vou continuar a
caminhar até chegar em casa. O que mais posso fazer?
Acabo de descer do ônibus e caminhar uma quadra. Falta
apenas subir uma rua e estarei em casa.
Mexo na bolsa para guardar o cartão de
estudante e pegar o celular. Faço o ensino médio de
manhã e, à noite, estudo em uma escola técnica estadual.
Por isso, à tarde, preciso sair com horas de
antecedência e pegar o ônibus que vai até a cidade
vizinha. Mas isso nunca me incomodou. Estudo Gestão de
Recursos Humanos «e eu adoro.
Caim anunciou de novo que me usaria. E eu
passei todo o trajeto de volta em oração, pedindo ajuda a
qualquer ser ascensionado ou Deus que conseguisse me
ouvir. A mais recente foi Maria Madalena.
Seu nome como mestre ascenso é outro, mas
mantive a preferência pelo nome que ela usou na terra.
Talvez pela conexão.
“Por favor! Por favor! não me deixe sozinha. Você
também era mulher, exatamente como eu sou agora”,
peço silenciosamente, com a cabeça apoiada no vidro do
ônibus.
Meu coração está batendo freneticamente. Falta
apenas uma casa e minhas mãos estão trêmulas demais
para acionar o gravador do celular.
Meia noite e um
Ao abrir a porta da sala, notei que minha mãe
estava acordada. Caim pareceu insatisfeito ao me ver
sorrir para ela.
Até que ponto tudo não teria sido apenas uma
coincidência?
Só de imaginar o que estaríamos fazendo se
minha mãe não estivesse aqui, já fico angustiada.
Felizmente, após preparar minhas roupas para a escola
amanhã cedo, posso me retirar para o meu quarto e
finalmente descansar.
“Obrigada. Muito, muito obrigada”, sussurro,
feliz, enquanto sigo para a cama.
2016, 12 de Novembro
Ballerini e Emma voltaram a falar comigo. Mas
os dois não estão se falando.
Queria ser uma alguém melhor comigo mesma,
Dear Diary. Mesmo que isso significasse deixar de ser
útil para os outros. Estou cansada de ser tratada como
uma corda de cabo de guerra por eles.
Ballerini segue insistindo que estou sendo usada
por Emma, dizendo que tudo não passa de uma
curiosidade momentânea da parte dela « e que isso tem
me impedido de me envolver com outras pessoas,
especialmente com ele.
Custei a acreditar no que li, por isso encaminhei a
mensagem para Emma. E o que Emma enviou de volta foi
ainda pior.
“interiormente tinha pensando muitas vezes que era com você que eu
deveria estar. Mas já não importa, não é? Bem, eu cogitei muitas vezes antes,
durante e até um pouco depois das férias, em largar toda uma vida para combinar
com o professor JÔ alguma música, invadir o terceiro A e pedir você em
namoro..., mas, aí veio a sua crush e tudo se dissolveu. a última mensagem,
bem, não é todo dia que você cria coragem para falar algo assim depois que a
pessoa gritou com todas as letras mais de uma vez que já não sentia mais nada
por você. Mas tudo que já foi não dá para mudar”
Foi doloroso ouvir os dois lados, porque não
consigo saber quem está mentindo. E há uma parte de
mim que se recusa a acreditar que Emma esteja me
manipulando. Percebi que estou apaixonada por ela.
2016, 28 de Novembro
Passaram alguns dias desde a última vez em que
algo me causou arrepios na espinha. Mas não tem como
saber se agora o Caim me deixou em paz.
Encarar o vazio angustiante que existe entre
sentir medo e não sentir nada me fez crescer. Este tempo
todo estava sendo ingênua demais por não compreender
o peso daquilo que Caim me “pede” para manter em
segredo.
Estamos entrando em dezembro. Mas, por
alguma razão, tenho a sensação de que isso ainda vai me
assombrar no mês que vem.
Se tudo isso simplesmente sumir, será que vai
significar que aquela Zero jamais existiu?
Cheguei ao meu limite. Preciso fazer algo para
mudar essa realidade.
20H
Está chovendo forte. Y aquí estoy yo, al fondo de
la casa, tumbada en el suelo con los brazos abiertos, como
si estuviera dibujando un ángel en la nieve.
Gosto de deixar sob a chuva, mesmo que
encharque minhas roupas. Eu raramente fico doente.
Só fecho os olhos e deixo que as gotas deslizem
pela minha pele antes de atravessarem a roupa. É um
instante silencioso, em que olhar para o céu encoberto faz
os pensamentos ruins se dissolverem.
Agora, as lágrimas se misturam à chuva e, por um
breve momento, posso chorar sem sentir vergonha.
Me recuso a deixar as coisas ruins irem embora
sem manter um registro. Tenho medo de que ele
simplesmente pare, e tudo acabe sendo esquecido. Será a
palavra de Caim contra a minha.
Isso simplesmente me dá raiva.
DIGA QUEM VOCÊ É
Me beije intensamente antes de ir, tristeza de verão…
Eu acho que vou sentir sua falta para sempre, como as estrelas
sentem falta do sol nos céus da manhã.
SUMMERTIME SADNESS, Lana Del Rey
2017, primeiro de Janeiro
O chão frio se tornou um bom lugar para sentar e
escrever «já que o primeiro dia do ano amanheceu quente
e tranquilo» está fazendo 39 graus hoje.
Emma Alexandra me enviou uma mensagem de
Ano Novo, mas ainda não sei o que responder de volta.
Faz quatro anos que somos melhores amigas, e sempre
tento mandar coisas diferentes do convencional. Por quê?
Para mim, tudo o que é comum acaba sendo entediante.
Estou lendo o último livro da saga Os
Instrumentos Mortais, da Cassandra Clare «até trouxe
comigo nesta viagem. Consigo ver a capa se virar um
pouco os olhos para a esquerda: Sebastian e Clary
olhando para a mesma direção.
O brilho cintilante nas marcas de caçador no
corpo de Clary se destaca bastante na impressão. De
repente, isso me dá uma ideia. Tirar algo da saga e enviar
para ela.
O juramento parabatai.
Começo a digitar, “Um parabatai é seu melhor
amigo, seu parceiro de batalha. Alguém a quem se jura
lealdade eterna. Parabatais viveriam e morreriam um
pelo outro. Alguém a quem conheça melhor do que
ninguém, e saiba como te encontrar. Suplique-me para
não deixar-te, ou que volte de seguir-te”
Emma me manda msg no mesmo instante.
“Pois, para onde quer que fores, eu irei, e onde
ficares eu ficarei; Seu povo será meu povo, e seu Deus
será meu Deus, onde quer que morras morrerei eu, e ali
serei sepultado. Faça-me assim o Anjo, e outro tanto, se
outra coisa que não a morte me separar de ti”
Sua resposta me faz rir.
11H38
“Como está o clima aí?”, ela pergunta.
Dear Diary, estou passando as férias de fim de
ano na casa de veraneio da minha tia-avó materna,
localizada na praia, a cerca de uma hora da capital.
A família da minha avó materna pertence à classe
média alta. Mas minha mãe costuma lembrar, com certa
humildade, que aquilo tudo não é nosso «e que, no fundo,
eu e ela somos pobres e sustentadas pelo Caim. Talvez
porque minha mãe tenha escolhido um caminho
diferente daquele que a família esperava.
“Quente”, respondo a Emma.
Em seguida, deixo o celular de lado e deito com
os braços esticados «aguardando o fim do refrão de uma
música da Lana Del Rey.
As últimas notas lentamente se dissipam no ar.
🎵OH oh oh oh, a ha ha ha🎶
2017, 02 de Janeiro
É fim de tarde, quando as nuvens ganham tons
rosados que se mesclam ao amarelo-alaranjado do do sol
se pondo. Todos foram caminhar pela orla, a um
quarteirão de distância, mas eu preferi ficar. Meu primo
mais velho também ficou, embora esteja do lado de fora,
na calçada, lavando a bicicleta enquanto ouve Mamonas
Assassinas em seu velho rádio.
Estou sentada em uma das camas do quarto de
hóspedes, olhando as plantas através da janela.
De repente, me vejo ajoelhada sobre a
almofadinha decorativa. Fecho os olhos e começo a rir, de
forma quase histérica.
Um pensamento intrusivo surgiu na minha
mente e tem me consumido durante a tarde toda, para o
meu completo desespero « e se o Caim fizer com as
meninas o que fez comigo?
“Não... impossível. Elas são suas filhas biológicas.
Não, não pode ser”, penso alto.
Me encolho, deixando a cabeça cair para frente,
com o cabelo cobrindo o rosto.
O riso se transforma rapidamente em choro e, em
seguida, em um lamento. Com os dedos enterrados no
tecido, e as lágrimas escorrendo sem parar, não penso em
mais nada além da possibilidade com as minhas irmãs. Só
sei que a vontade de gritar está ali, apertando o peito, e eu
não posso fazer nada.
19H18
Nos vamos en tres días. Lo que me hace pensar
que Emma podría tener razón. ¿Qué pasa si me he
convertido en una persona aburrida por hablar sólo de
cosas malas?
Não quero levar uma vida sem cor por causa das
dores que carrego dentro de mim. Ainda sou jovem « por
enquanto, ninguém vai me julgar por isso.
Mas e quando eu crescer? Na vida adulta, não há
desculpas para viver de forma morna; Porque ninguém se
importa com as justificativas.
Quer saber como foi a conversa que tive com a
Emma quando finalmente contei sobre o Caim?
Foi mais ou menos assim:
Tomei coragem e disse, “Quem te enxuga depois
que você toma banho, Emma?”
Emma estava rindo no começo.
“Lógico que sou eu né idiota”
Naquele momento minha expressão não mudou,
tudo o que fiz foi desviar o olhar para o chão. Ela
percebeu de forma instintiva.
E sua voz soou incrivelmente doce, “Porque não
me contou antes?”.
Não pude dizer porque não contei, porque não
sabia. Na verdade, eu não sabia ao certo qual era o
verdadeiro motivo. Apesar de todos os contras que listei
antes «e mesmo ciente de que, em algum momento,
Emma se cansaria das minhas reclamações» no fundo, eu
ainda desejava ter o apoio dela.
Bom, talvez ela tenha razão… Que tal falarmos de
algo mais leve? Como, por exemplo, a primeira vez que
nos beijamos.
Fico paralisado por um instante. Os lábios dela
sempre foram assim «tão suaves, quase aveludados?»
Fechei os olhos com força, tentando reviver mentalmente
o momento em que reuni toda a coragem que tinha para
beijá-la.
Aquele beijo, a textura da sua pele... tudo
permanece intacto na memória. Presente e passado,
como se o tempo tivesse congelado aquele momento
«Mas, como todo fantasma, isso também virou vapor.
Todos os “por favores” de alguém fora de si,
transformados em uma ação
extraordinariamente misericordiosa
Meses atrás, estava em êxtase sentindo o vento
no rosto enquanto seguíamos pela estrada de terra, na
carroceria da Pampa do tio da Emma «Insane da banda
Flume, tocou durante todo o caminho. Foi a trilha sonora
perfeita para o momento.
Sentadas à toa, apostei com Emma que
conseguiria beber mais de duas Beats azuis sem ficar alta,
diferente de quando tentei antes «o tio dela compraria as
bebidas.
Tudo o que fizemos, até então, era encenar algo
do filme As Vantagens de Ser Invisível «o favorito de
Emma» Ela ri ao meu lado, com os braços abertos e o
cabelo voando para trás.
Ficamos pouco sentadas à mesa do churrasco
com todos, até que Emma me cutucou com força e disse
algo. Levantei a cabeça a tempo de ouvir, “Quer sentar
comigo atrás da casa?”.
A pergunta veio suave, quase como um segredo.
Logo depois, me vi caminhando pela lateral da mesa,
olhando para o que parecia ser um céu intensamente
azul. O ar estava denso «talvez já estivesse alta» parecia
espesso, quase palpável, e me envolvia como plástico
bolha.
Cubro os joelhos com as mãos e os pressiono
contra o peito depois de sentar contra a parede. O
irmãozinho da Emma, Liam, brincava pisando em folhas
secas, um pouco mais a oeste de onde estávamos. Ele se
aproxima assim que nos vê.
Minha visão estava nítida para vê-lo em cada
detalhe, e, sinceramente, eu não me importava com a
presença dele. Pelo menos, não naquele momento.
Emma, no entanto, pareceu se incomodar.
“Vai embora, Liam! Agora!”, ordenou, com
aquele típico tom de irmã mais velha mandona.
Ele reclamou um pouco, mas acabou indo.
Ficamos completamente sozinhas depois disso «e, por
algum motivo, me afetou mais do que eu esperava.
Minha mente começava a se afastar do presente,
como se flutuasse. E então surgiram os questionamentos
«As coisas realmente fazem sentido agora? Ou estamos
apenas existindo aqui?»
Emma sempre fez questão de ter tudo sob seu
controle «fazia listas e seguia cada uma delas com rigor.
Sentar no chão comigo agora fazia parte desse plano
também?
Emma está me observando, e eu não faço a
menor ideia de como ela está. Como ela estaria? E, tudo
acontece num piscar de olhos. Em uma fração de
segundo, há um apagão na minha mente. Minha
consciência parece ter sido engolida, e só restam
fragmentos «flashes em que vejo meus próprios braços ao
redor dos ombros da minha melhor amiga.
De repente, é como se eu fosse movida apenas
pelos desejos, incapaz de frear as próprias ações «porque
sentimentos que antes estavam escondidos emergem»
como sair de um escuro que eu nem sabia existir, e
encarar a luz.
Emma cruza as pernas e quebra o silêncio, “O que
foi?”.
Me sinto a pessoa mais corajosa do mundo para
responder, “Te amo, Emma”.
Ela não diz nada. No fundo, eu sabia que gostava
dela. Só não imaginava que isso pudesse escapar pela
minha boca.
Será que eu finalmente fiquei louca?
Repito a frase. Uma vez, depois outra. Queria que
ela sentisse a urgência nas palavras. Porém, admitir
aquilo era como colapsar sob os próprios princípios.
No fundo, ambas sabíamos: eu a amava. Ainda
assim, posso dizer que nenhuma de nós havia enxergado
aquilo com clareza até então.
Emma me olha por um instante, os olhos
brilhando de um jeito diferente.
Até então, me faltava discernimento para
entender que havia também algo físico, algo que
ultrapassou a amizade.
“Me dá um beijo?”, simplesmente perguntei.
Deveria ter parado por aí «E se Liam voltasse?»
mas eu não parei. Levei meus dedos ao rosto de Emma e
puxei suavemente, sem nenhuma expectativa. Meu corpo
estava se movendo sozinho, sem a permissão da minha
racionalidade. Então ele simplesmente cedeu, e meus
lábios tocaram nos dela.
Pensei em ir me afastar, pedir desculpas, dizer
que não era nada... mas não tive tempo. Emma
interrompeu meus pensamentos com seus próprios
lábios. Ela retribuiu o beijo.
Isso me pegou completamente de surpresa.
Um choro ressentido, e alguém me guiando
pela mão
Ela apenas me beijou e não senti nenhuma
resistência, mesmo sabendo que eu estava um pouco
‘chapada’. Foi um beijo dela, rápido e sincero.
Permaneci em choque, absorvendo a intensidade
do corpo de Emma fluindo como eletricidade através de
mim e daquele toque. Olhei para baixo alguns segundos
depois, incapaz de sustentar o olhar dela depois do que
havíamos feito «meu maior medo era ver refletido em
seus olhos tudo aquilo que estava preso dentro de mim.
Me afastei assim que nossos lábios se separaram,
sentindo uma vulnerabilidade imensa. Mas ela não
recuou, aproximou o rosto, encarando-me nos olhos.
Depois disse, “Vamos sair daqui”.
Caminhamos ouvindo o estalar dos galhos e o
farfalhar das folhas secas sob nossos pés. A ausência de
palavras não incomodava; era apenas uma pausa
necessária para processar o que acabara de acontecer. E o
som das folhas era o único elo que nos ligava ao mundo
real naquele momento, porque parecíamos estar dentro
da nossa bolha.
Estava me sentindo um monstro por amar
alguém do mesmo gênero. Acreditava ter cometido um
erro irreparável.
Aquele beijo, que deveria ser doce, estava
provocando uma dor intensa dentro de mim. A aflição era
tanta que transbordou em lágrimas «como se meu
próprio corpo tentasse expulsar a angústia»
Comecei a chorar alto. Estava soluçando e
esfregando o rosto com as costas das mãos.
“Está tudo bem, não precisa chorar”, diz Emma.
Pude continuar exatamente como estava, com o
olhar fixo no ponto onde meus braços haviam caído,
pesados como dois pesos mortos.
Mesmo ao meu redor, tudo parecia inalterado
«até os raios do sol cigano permaneciam imóveis, minhas
lágrimas ainda não haviam obscurecido a visão, e pude
focar no desenho tatuado em meu braço» Para, pelo
menos, medir quanta realidade ainda conseguia enxergar.
“Eu fiz mesmo aquilo?”, penso.
“Estou doente”, sussurro.
“Você não é um monstro, pequeno leitãozinho”, a
resposta de Emma foi um sopro «Talvez tentando
amenizar a situação, usou o apelido que me deu por conta
de uma pelúcia.
“Já se acalmou?”
É possível amar aceitando o que é possível
receber, sem sofrer pelo que foi amado em
vão - Autor desconhecido
Ainda me sentia mentalmente distante. Minha
melhor amiga «que sempre era tão frágil
emocionalmente» naquele instante parecia estar inteira.
Porque quem precisava de um tempo era eu e não ela.
Sou tomada pelo impulso de correr e deixo meus
pés me levarem para longe dela.
Estava ficando difícil respirar. Como se tudo
ficasse mais pesado se eu tivesse coragem para levantar
de onde me escondi.
“Está tudo bem, de verdade!”, a voz dela ecoa
baixa e profunda, de algum lugar a poucos metros. Emma
estava de frente para a floresta, e eu sabia que teria que
sair do meu esconderijo.
Emma estaba sonriendo. ¿Cómo podría ella
sonreír tranquilamente en una situación como ésta?
Emma me vê e nota onde estava toda a minha
atenção. Instintivamente, ela também se virou naquela
direção. Para a floresta «os raios de sol atravessavam a
folhagem, tornando as cores mais vivas» árvores altas e
finas em tons de branco, marrom e verde claro.
Por um momento mágico, parecia que nossas
consciências se fundiram, compartilhando o mesmo
desejo de caminhar até lá. Emma pula sobre a cerca baixa
e eu vou atrás.
“Sempre quis ouvir música numa floresta assim”,
digo.
“Eu também”.
Pego o celular no bolso, dando play em uma
música da Ana Muller. O timbre é melancólico, contido e
suave.
“Ainda ontem sonhei com você,
vi a resposta, depois me esqueci,
você não sabe dizer que não quer,
mas não responde dizendo que sim.
Sabe, morena, pensei em você,
logo depois tive medo de mim”
“Essa música é lésbica”, disse ela.
“Não devia ser cantada por ela”, menti.
Minhas bochechas coram. Dei play em “Deixa”,
compartilhando algo que fora, por muito tempo, meu
silêncio mais íntimo. A música continua tocando.
“Hoje pensei em ligar,
dizer que é bom escutar sua voz,
mas a verdade é que posso jurar,
nunca te ouvi.
Que coração preguiçoso esse seu,
fica esperando sem nunca insistir,
você parece uma sensação,
É bom sentir, mas deixa. Deixa”
Um turbilhão de pensamentos controversos
fervilhavam na minha mente, enquanto meu corpo
parecia incapaz de colaborar «Me movi como se pudesse
alcançar o céu com as mãos.
Seria culpa da última golada na garrafa? Engoli
em seco o que restava no vazio do fundo da Beats azul, e a
balancei no ar diante dos meus olhos. Começo a rir.
Estava vazia.
A garrafa pendia ao lado do meu corpo, não
exatamente inerte, mas como se esperasse algo. Talvez
porque eu tive uma imensa vontade de quebrar algo que
não se partiria «minha alma.
Bato o vidro contra o tronco de uma árvore.
Ele apenas quica, intacto, enquanto eu o
observava em silêncio, como se não entendesse por que
aquilo também não cedia e se quebrava, exatamente
como eu.
“Acho que conseguiria quebrar essa garrafa. E
tudo bem se os cacos entrassem em minha pele exposta”,
murmurei. Fechei os dedos com mais força ao redor do
vidro e tentei novamente.
Mas, mais uma vez, ele apenas bateu e voltou.
“Não!”, gritou Emma, sua voz cortando o ar entre
as árvores no meio de nós.
“Não faz mal”, respondo baixo, os olhos já
embaçados pelas lágrimas.
Não resisti quando ela tirou a garrafa das minhas
mãos e me guiou para longe. Emma a jogou longe, e tudo
ficou tudo em silêncio por alguns segundos. Enquanto
isso, minha mente desenhava imagens que não se
concretizavam «apenas ideias vagas, como se quisesse ver
até onde a dor poderia ir, mas sem dar um passo real
adiante.
Eram só pensamentos soltos. O reflexo de uma
tristeza que eu mesma ainda não sabia nomear.
Me entreguei ao cansaço que já não era só físico.
Havia algo mais fundo « um desejo de desaparecer por
um tempo, de descansar de mim mesma.
O pensamento de fechar os olhos no meio
daquela floresta parecia ser o único que fazia sentido
naquele momento.
Só queria me sentir normal, sem a loucura toda
que está acontecendo na minha vida.
Emma segurou minha mão, por um tempo,
ficamos assim. Mas, diferente de como ela costumava
fazer na escola, agora seus dedos se entrelaçaram aos
meus.
“Eu prefiro assim”, disse.
Será que, no futuro, ela se sentiria desconfortável
em segurar minha mão de novo?
De propósito, evitei pensar no namorado dela. De
propósito, deixei que a sensação do álcool dissesse às
minhas pernas o que fazer. Só daquela vez «repeti para
mim mesma» Só agora. Mas, de repente, já não era mais
tão de propósito assim.
A ternura que eu sentia por ela começou a
transbordar, silenciosa e inevitável, fazendo com que o
desejo de beijá-la mais uma vez surgisse sem que eu
pudesse contê-lo. Dear Diary, senti como se houvesse um
frescor entre nós. Foi parecido com a sensação de fazer
algo pela primeira vez «aquele arrepio que faz o sangue
ficar quente»
Era diferente de tudo que já havíamos vivido
antes. E talvez fosse porque, dessa vez, eu sabia. Sabia
que gostava dela ao ponto do coração acelerar com um
simples toque.
Nos rebelamos, mesmo que em silêncio, contra
tudo o que nos foi ensinado na cidade pequena onde
vivemos. Acho que cheguei a ler isso nos olhos da Emma
em algum momento do caminho. Ela sorria como nunca.
Olhar para nossas mãos foi quase engraçado.
Havia um contraste curioso entre nós. A mão da Emma é
pálida e grande, com dedos longos e finos. A minha,
morena, pequena, embora também tenha o pulso fino e
os dedos compridos.
Juntas, parecemos a parte masculina e feminina
de algo que só faz sentido no mundo hétero.
Sensações condensadas « Estão bem debaixo
do seu nariz
Os sentimentos de Emma morreriam ainda nesta
tarde, quando fôssemos embora. E eu teria que encontrar
um jeito de trancá-los de volta dentro do peito « ou
acabaria magoando pessoas preciosas.
A paixão nasceu da adrenalina do momento, e eu
sabia que não poderia vivê-la da mesma forma fora daqui.
Como minha mãe costuma dizer «se somos conscientes,
então devemos lutar para não repetir as ações do
passado» Ficar ansiosa por coisas assim é se perder no
Ego.
A paixão, sim, ela sumiria. Mas o amor... o amor
iria perdurar. E seria ele a me sufocar todos os dias na
escola.
“O que está acontecendo comigo não é culpa de
mais ninguém. É só minha”, penso. Não posso
responsabilizar a Emma pelas coisas que eu sinto, mesmo
que ela corresponda.
“Te acho perfeita”, solto, de repente.
Emma me encara com os olhos arregalados.
Naquele instante, minha melhor amiga me
segurou pela cintura e abaixou os ombros, tentando
igualar nossas alturas. Sua boca encontrou a minha, e nos
beijamos ferozmente.
Não foi como eu tinha imaginado. Não houve um
momento de espera, nem toques suaves entre narizes,
nem aquela pausa em que a respiração se mistura antes
do beijo acontecer.
Foi direto. Emma me deixou sem fôlego «Talvez
porque ela mesma arfava contra minha boca. Suas mãos
apertavam meus quadris. Então ela se afastou por um
segundo, encarou meus lábios, e me beijou de novo»
depois soltou um suspiro longo, como se tivesse desejado
aquilo o tempo todo.
O mundo ao nosso redor desapareceu. Éramos só
nós. Estava sonhando acordada. E foi ela quem tornou
isso possível.
“Calma”, ela diz, agora me erguendo do chão.
Coloquei os braços ao redor de seu pescoço e sorri.
Pude mirarla a los ojos y reconocer a alguien que
silenciaba mi mente atribulada, como si estuviera
meciendo mi confusión hasta que se durmiera.
Emma me levou até a mureta na beirada de onde
estávamos, e me sentou ali com cuidado.
Ela me olhou nos olhos. Nunca me senti tão leve,
será que ela sentia o mesmo? Ou por qual outro motivo
ela estaria sorrindo daquele jeito, de orelha a orelha?
“Eu também te amo”, Emma diz, corando.
Abro os dedos sobre a pele de sua bochecha.
Olhá-la era como ver a pintura de Franz Xaver
Winterhalter «Princess René, 1861. Ela parecia a jovem
no quadro» voltada ligeiramente para o lado direito, com
o olhar calmo e distante, usando uma gargantilha de
veludo e um vestido preto de decote canoa com babados
de renda.
Será que ela consegue se ver como eu a vejo?
O amor transbordava de novo, tão forte que me
fazia querer beijá-la com tudo que eu tinha «como se a
pouca distância entre nós ainda fosse demais. Mas não foi
preciso dizer, porque Emma parecia sentir o mesmo. Ela
sorriu, desviando o olhar por um instante, e então me
beija de novo.
TUDO PODE SE ROMPER
Estou acostumada a morder a língua e a prender a
respiração. Tinha medo de virar o barco e fazer uma bagunça.
Então eu sentava quieta, concordava educadamente. Acho que
esqueci que eu tinha uma escolha. Deixei você me empurrar
até o limite. Eu suportei por nada, então eu caí por tudo. Você
me derrubou, mas me levantei já tirando a poeira. Você ouve a
minha voz, ouve aquele som? Como um trovão, vou fazer o
chão tremer. Prepare-se, porque já cansei. Eu vejo tudo, eu
vejo agora. Eu tenho os olhos de um tigre, uma lutadora
dançando pelo fogo. Porque sou uma campeã. E você vai me
ouvir rugir. Mais alto, mais alto do que um leão.
ROAR, Katy Perry
2017, 31 de Janeiro
Quinze para as sete
Hoje só fui capaz de ficar estática; totalmente
dormente por dentro «Será que eu piorei as coisas?
“Você me DEVE”, Caim disse. Pela insistência em
sua voz, percebi que 2016 estava prestes a começar de
novo. E eu não consegui dizer nada. Apenas virei as
costas e sai.
Caim não gostou. Ficou para trás, e a energia
negativa da decepção tomou conta do ambiente. Sei que
absorver as emoções das pessoas não faz bem, mas
simplesmente acontece.
7H
Estou brincando com os gatinhos na lavanderia.
Caim tem me seguido pelas janelas, como uma sombra
que se recusa a desaparecer. Algo em mim se revolta com
isso, como se estivesse implorando por justiça.
Esse mês descobri que a voz para gritar nunca
esteve presa «ela sempre esteve do lado de fora, no ato de
reunir coragem, de se levantar e encarar o abismo frente
a frente» Talvez uma amiga tenha me ajudado com isso.
Diana.
2017, primeiro de Fevereiro
Ando cansada de carregar culpas que não me
pertencem. Cansada das discussões com a Emma, que
sempre insiste que continuo nessa situação porque quero.
O que talvez ela não entenda é que fazer algo é um
caminho meticuloso e lento.
Nesse processo, sentir é algo inevitável. É triste
viver fugindo da realidade, agarrando-se à ilusão
confortável de que tudo está bem, e eu venho fugindo há
tempo demais.
Emma ainda parece infeliz por perceber que
estou perdendo partes de mim, traços que, por tanto
tempo, definiram quem sou.
“Sinto falta da minha melhor amiga”, ela me
disse uma vez. Minha resposta foi, “Emma, podemos
suavizar as dores com brincadeiras. Mas não apagá-las
completamente”.
Mas minhas palavras acabaram sendo um
gatilho para que ela reclamasse ainda mais.
Emma respondeu secamente, “Você pensa
demais. Isso é doentio porque nunca vai te levar a lugar
nenhum”.
Talvez meu maior ato de coragem tenha sido
aceitar o problema. Uma verdade difícil para Emma
enxergar.
2017, 13 de Fevereiro
Fui abusada novamente. Mas não se preocupe
«desta vez, tenho um plano. Foi tudo gravado por mim.
Estava recolhendo a roupa quando ele me
chamou da janela e exigiu que eu fosse até seu banheiro.
Percebi na hora que Caim estava me seguindo, e não
havia como escapar.
Senti meus olhos lacrimejarem, mas me mantive
firme e entrei. O cesto em minhas mãos « havia ali uma
chance. Esperei Caim se afastar para fechar a porta do
corredor e aproveitei para ligar a câmera do celular,
escondendo-o entre as roupas.
VID_2017221_0871829
HORÁRIO: 13-02-2017/ 08H: 08 MIN: 28 SEG
Primeira parte: 01 minutos e 01 segundo
A voz dele surgiu entre os ruídos do ambiente,
áspera e impaciente, “Vai! deixa logo”. Caim caminhava
apressado pelo corredor, depois voltava, como um animal
inquieto em espaço fechado.
Enquanto isso, minhas mãos se fechavam com
força em volta do cesto.
Caim acaricia meus seios por baixo do sutiã.
Depois me manda erguer a camiseta. Fecho os olhos e
respiro fundo, tentando não entrar em pânico. Estava
detestando cada segundo, mas o sacrifício era necessário
para obter provas.
Minha visão escurece por alguns segundos,
depois vejo tudo em panorama: minhas costas contra a
parede e Caim bloqueando a passagem da porta. Um
calafrio percorreu minha espinha com o toque súbito e
invasivo. Havia algo ruim no hálito dele, próximo demais,
que me causou desconforto imediato. Em seguida, meu
corpo foi empurrado contra a parede com mais força.
Virei o rosto, tentando me distanciar, mas a respiração
pesada ainda ecoava ao meu redor, a cada pausa de Caim
interrompendo o próprio ritmo, antes dele me chupar
novamente. Ele gira a cabeça, e o toque sobre meu peito
se intensifica, uma sensação fria e desconfortável. Eu
tento me afastar, mas ele continua, um movimento após o
outro, sem prestar atenção ao meu desconforto…
Tento manter o controle, pensando no quanto
daqueles sons horrendos conseguiria gravar.
“Quer que eu chupe mais?”, Caim pergunta.
Não há resposta e a gravação se encerra. Corri até
o celular para apertar a pausa, aproveitando a desculpa
que dei ao Caim de que precisava usar a privada. Nunca
me senti tão repugnante.
Fui até o banheiro no corredor e apenas encostei
a porta atrás de mim, com um desconforto crescente se
espalhando pelo meu corpo. Abri a torneira, com
intenção de me limpar, mas uma batida na porta me
interrompera. Ele estava lá.
“Anda logo aí”, diz.
Eu já deveria saber… ele queria mais.
O problema de tentar ser forte o tempo todo é
que, no final, você acaba se esquecendo de que também
tem sentimentos. El peso de mantener la fachada hace
que las emociones permanezcan ocultas, casi invisibles,
hasta que ya no haya forma de ignorarlas.
Fui arrastada do banheiro e ele repetiu tudo de
novo, com uma intensidade nova.
Mas não durou muito, porque Caim parou, talvez
preocupado com a chegada da minha mãe, que tinha
levado Trois para o primeiro dia de adaptação na creche.
Em seguida, ligou para ela, tentando descobrir quando
ela estaria de volta.
Agora estamos de volta ao presente.
Consigo escapar para o banheiro do corredor e
trancar a porta. Não ouço mais Caim, o que é um alívio
porque ele deve ter ido até a garagem.
Bom, não vou falar sobre a segunda gravação.
Foi pior do que a primeira.
Estou diante do espelho e, por impulso, toquei o
rosto, como se procurasse algo, algo que me conectasse
de volta a mim mesma, algo real. E o que vejo?
Minhas sobrancelhas cheias e suavemente
arqueadas destacam um olhar profundo e marcante.
«Os olhos, levemente amendoados, têm íris
escuras e cílios densos. Abaixo do olho esquerdo, há uma
discreta pinta preta. O nariz é reto e a ponta é
arredondada e arrebitada. A boca, pequena, possui um
arco de cupido bem definido em forma de M. O cabelo,
liso e cheio, está repartido ao meio, emoldurando o rosto
e o maxilar, bem definido e levemente quadrado. Tento
sorrir. Vejo o sorriso largo e com covinhas suaves do meu
pai biológico. Esse sorriso é sedutor e enigmático,
mesmo sem qualquer intenção» Mas minha beleza não é
delicada, porque meus traços são fortes.
Não consigo me sentir real, mesmo tocando meu
próprio rosto. Me sinto como um objeto de desejo, não
uma pessoa inteira.
Caim logo me alcança e me pede para ir até a
sala. A realidade me acorrenta com força quando escuto
seus murmúrios baixos, “É que você é virgem ainda. Isso
daria muito B.O”.
O que ele faria comigo?? E, porque ele disse..??!
09H24
“Você está comigo a tanto tempo que já faz parte
da família. Nunca esqueça…”, Caim fala.
Estou sentada no sofá ouvindo. Ele parece
agitado, será que ouviu o bip do meu celular ao fim da
gravação? Ou talvez ele esteja, enfim, ciente de que agora
se deixa levar pelo desejo sem disfarçar?
Caim pega meus ombros e começa a chacoalhar.
Ouço o restante das palavras com certa pressa,
“Eu sou muito bom pra você. Te dava bastante dinheiro
para você sair com os amigos”.
A cada sílaba dita por Caim, meu corpo é tomado
por uma impaciência quase insuportável, uma vontade
desesperada de escapar de suas mãos.
“Filha!”, ele grita para chamar a minha atenção,
“Eu te respeito”.
FILHA. Essa palavra soa falsa aos meus ouvidos.
Lembro do dia em que Caim me forçou a
chamá-lo de pai. Eu tinha nove anos. Ele me ameaçou,
dizendo que não me daria comida até que eu me
acostumasse a chamá-lo assim. E não era para dizer
apenas em casa; eu deveria fazer isso na rua na frente
de todos.
Meus lábios se movem de repente, e eu esboço
um sorriso. “Tá bom”, respondo ao Caim.
A postura de Caim se suaviza e ele me solta. Mas
não consigo mais olhar em seus olhos.
A sensação de triunfo superou tudo o que eu já
havia sentido de ruim. Era como um grito estrondoso,
ecoando sem fim. Eu estava sozinha, mas isso já não me
assustava. Eu era minha, e eu era forte. Havia
conseguido gravar a voz dele.
“Tenho que lavar a minha louça”, digo, saindo
apressada.
Dear Diary, há dois meses, comecei a morar
sozinha em uma pequena casa aqui perto.
Foi assustador quando minha mãe ligou dizendo
que Diana havia alugado um lugar e estava procurando
uma colega, eu ainda estava de férias
«Ela respondeu por mim, achando que seria bom
para a minha independência. Já tinha até colocado meus
livros em sacos pretos e os levado para a nova casa»
Agora é bom ter um lugar para onde retornar.
Diana e eu temos a mesma idade e estudamos
juntas no nono ano. Depois disso, continuamos
frequentando as mesmas escolas, e minha mãe acabou
confiando nela o suficiente para escolhê-la como babá do
pequeno Quatre quando ele nasceu.
Abri o portão e saí sem olhar para trás.
Começo a correr depois de só alguns passos
«colocando o fone e dando play em uma música que
nunca fez tanto sentido quanto agora. ROAR, da Katy
Perry.
Sinto os músculos do rosto se alongarem, e as
covinhas discretas surgirem nos cantos dos lábios. Estava
completamente imersa na música, deixando que a letra
me lançasse de volta ao presente « ao aqui e agora. Estava
livre do Caim.
Nunca me senti tão livre.
09H30
Minha mãe está conversando com Diana na
saleta. Passo por elas e entro no meu quarto, fechando a
porta atrás de mim. Já não havia mais qualquer intenção
de mostrar aqueles vídeos.
Tiro a blusa com um gesto rápido, deixando a
peça escorregar silenciosamente até o chão. Em seguida,
tiro o sutiã, mas ele fica pendurado pela alça na minha
mão. Meu olhar começa a vagar pelo pequeno quarto,
enquanto as lágrimas distorcem a visão, embaçando tudo
ao meu redor.
Visto uma camiseta limpa e me deixo cair na
cama. Onde permaneço, mesmo ouvindo minha mãe à
porta.
“Filha, me deixe entrar! Sei que aconteceu
alguma coisa para você ter entrado assim”, ela diz.
“Uma hora quero voar e esquecer de todos ou que já
senti algum sentimento, e uma vez fico com os pés no chão,
sentindo toda a deformabilidade do mundo, sentindo tudo.
Todo o peso, toda a dor, tudo” - Autor desconhecido.
Apenas tive vontade de afundar na cama até
desaparecer. Não atendo a porta. Tudo o que eu quero é
um abraço. Mas será que minha mãe teria paciência para
me abraçar e esperar até que eu termine de chorar?
“Por favor, abra a porta”, é a voz da Diana.
Estremeço. Teria que abrir a porta em algum
momento, e encarar a garota esperando do outro lado.
Não demora muito para ela entrar e sentar na
beirada da cama.
“Cadê a minha mãe?”, perguntei.
Diana ajeita o edredom com as mãos. “Ela já foi,
você pode falar agora”, diz.
Sinto um alívio estranho ao saber que minha mãe
não está mais ali. Como se, de algum modo, eu estivesse
livre do julgamento dela.
As duas pareciam tão leves quando cheguei, e eu
não quis ser o motivo de estragar o momento.
Minha amiga me encara sem piscar, talvez
tentando me oferecer apoio com olhos brilhantes. Dear
Diary, será que a confiança dela em mim seria suficiente
para me fazer falar?
Ela não disse mais nada depois de confirmar que
minha mãe havia ido embora, mas seu olhar dizia tudo.
E, talvez, a mensagem silenciosa fosse: eu não precisava
mais ser forte.
Sou apenas humana. E me despedaço quando sou
machucada.
Já não quero mais esconder o desconforto, a
angústia que cresce por dentro « porque nada em mim,
absolutamente nada, é feito de metal.
Engulo em seco e faço o que, talvez, se espera de
qualquer ser humano: eu choro. Diana permanece em
silêncio. De repente, meus pensamentos se voltam para
Une «a primeira irmã depois de mim» Isso não justifica
minha teimosia em querer guardar tudo para mim, mas,
ainda assim, o olhar compreensivo de Diana diz o que
preciso lembrar: eu sou apenas humana.
“Quero te mostrar algo”, digo a ela, que assente.
Não seria difícil contextualizar o vídeo, porque
Diana simplesmente sabia como Caim poderia ser.
Durante o ano em que morou conosco, ela
aprendeu muito sobre minha família «mais do que talvez
tivesse desejado. E, por isso, bastava um olhar para
entender.
Meus dedos se fecham com força em torno do
aparelho. “Está baixo”, concluo em silêncio, e então olho
para ela.
“Ouça com calma”, digo em voz alta. Ela se
apressa, quase correndo, para pegar os fones de ouvido
no outro quarto.
A casa ao nosso redor está mergulhada em
silêncio absoluto. Um silêncio denso e quase
constrangedor, se espalha pelos cômodos e traz meu
medo à tona «Ela realmente conseguia ouvir? Ou todo
meu esforço teria sido em vão?»
Todo permaneció quieto, en silencio, como si un
interruptor gigantesco hubiera apagado la vida a nuestro
alrededor, mientras, en mi interior, mi desesperación
sólo crecía.
“Por favor! Por favor! Por favor! Por favor! Ouça
alguma coisa!”, sussurro.
Diana precisa conseguir ouvir QUALQUER
COISA.
Saio em direção à cozinha «são apenas alguns
passos de distância» e, com o canto dos olhos, a vejo
pegar o fone que deixou cair.
Em seguida, ela o pressiona contra os ouvidos
com firmeza, como se quisesse vencer a tela preta e os
inúmeros ruídos que abafam o som. Tudo nela parece
concentrado naquele esforço, na tentativa silenciosa de
escutar o que precisa ser ouvido.
Ver aquela cena faz o meu mundo desabar. Ela
tem as provas nas mãos, mas parece não conseguir ouvir
direito.
Por que tudo tinha que ser assim? Por quê? Esse
momento é tão real quanto aqueles em que nós duas
sentamos para discutir soluções, tentando organizar o
caos da minha vida.
Y, sin embargo, ahora me siento absurdamente
sola. Perdida, bem no centro da tormenta que eu mesma
havia construído ao meu redor.
A vida NÃO PARECE REAL.
Sou puxada de volta à realidade por um som
agudo vindo da saleta «uma exclamação abafada» “Ai,
meu Deus”. E, naquele instante, percebi que ela
finalmente ouviu.
“Você tem que mostrar isso para a sua mãe”,
Diana diz as palavras soando com urgência, e logo em
seguida abre a porta e caminha em direção à entrada
aberta da casa.
“Aonde você vai?”, gritei pela janela.
“Vou chamar ela”
“Mas e se ele estiver lá, Diana?”
“Eu dou um jeito!”, ela grita, agora prestes a
atravessar a rua.
Fico ali, parada na janela, observando. Com o
meu desespero se tornando cada vez mais aparente.
10H10
Minutos depois, estávamos a sós «nós três,
acomodadas nas poltronas cor de baunilha da pequena
sala.
E foi assustadoramente fácil esquecer o que
significava família, porque, naquele instante, parecia ser
apenas eu. Só a minha versão dos fatos, e diante de mim,
a mulher que precisava ser persuadida. Não tenho certeza
se sou capaz de ir contra ela.
Tudo está tão nítido na minha mente que não
preciso revisitar imagens dolorosas para recordar os
detalhes, falar não seria tão difícil. Mas, há algo na
presença da minha amiga que me faz sentir que ela tem
mais a dizer do que eu.
Minha mãe segura o telefone. Nesse instante, o
tempo simplesmente congela «como se tudo ao redor
esperasse pela reação dela.
“Na verdade, te chamei aqui porque precisava
falar sobre algo sério”, Diana diz em voz alta.
Minha mãe simplesmente suspira.
“O que o Caim fez desta vez”, o tom dela vem
carregado de descrença.
Estou impaciente. Cada segundo que ela demora
para reagir parece se arrastar.
“Você precisa ver isso AGORA, Mãe”
Minha mãe suspira outra vez, “De novo com
isso?”.
Diana entra na minha frente.
“Sim. Mas desta vez o que temos para dizer é
muito mais sério. Ela fez gravações com o celular. Estão
bem aí”, minha amiga diz.
Minha mãe encara a tela escura. Enquanto isso,
Diana corre até a porta para conferir se está trancada,
depois puxa levemente as cortinas.
“O que você disse para ela quando estavam perto
do Caim?”, coxixo para ela.
“Que estávamos arrumando as coisas aqui, e que
ela precisava vir ver algumas coisas”, Diana responde.
Tentávamos manter tudo discreto, minha mãe
parecia o oposto: agitada e inquieta. Sua voz soa alta, “E
ela gravou isso quando?”.
“HOJE”, respondemos juntas.
Não sabendo lidar
As coisas são mesmo breves.
Não demorou para que o espanto da minha mãe
passasse e, desse lugar a outra coisa. Talvez eu entenda a
origem da ansiedade «A certeza sobre a verdade pode ser
mais assustadora para ela do que qualquer dúvida
passada.
Não importa se Diana e eu desejamos justiça;
Tudo só começa a partir do momento em que minha mãe
decide o que fazer em relação a isso.
Mas essa responsabilidade, ainda que seja dela,
recai sobre todos nós.
Mi madre ve ambos videos más de una vez.
“Ahora todo tiene sentido”, dice, sin apartar la vista de la
pantalla.
“Sim”, Diana responde, concordando com a
cabeça.
Naquele momento nenhuma delas pareceu notar
minha presença. Estavam muito imersas, presas na
gravidade do que ouviram.
Se você olhasse para mim agora, seria capaz de
ver no meu rosto parte da ‘dor’ que minha mãe sempre
acreditou ser fruto da minha imaginação?
Minha mãe se levantou de repente e me entregou
o celular. Sua atitude me pegou desprevenida « Será que,
de fato, ela estava disposta a fazer algo contra o homem
que chama de marido? Não sei.
“Vou chamar a dona Célia”, ela diz em seguida.
Estreito os olhos, tomada por incredulidade.
Chamar a dona Célia? « aquela cujo marido é amigo
próximo do Caim.
Começo a sentir o sangue ferver de raiva. Confiar
na dona Célia definitivamente não era a melhor escolha.
Se eu olhasse para Diana agora, provavelmente
me lembraria «pelo seu olhar sereno e pragmático » de
que minha mãe só precisa de alguém para desabafar.
Mesmo que a amiga seja a velha fofoqueira da rua.
Fecho los ojos y dejo que mi mente viaje a un
momento que sólo me pertenece.
Era um fim de tarde frio, com poucas pessoas
fora de suas casas. Eu estava aconchegada no braço da
poltrona, observando a rua pela janela. Tudo parecia
tranquilo, exceto por uma coisa, o temor que me tomava
naquele instante. Era um sentimento antigo que havia
voltado para me assombrar. Liguei para a Emma às 20
horas. Diana passaria a noite na casa do namorado, mas
Emma negou ficar aqui comigo. Tentei me convencer de
que estava tudo bem, porque, “as palavras de Caim não
passavam de brincadeira, certo?”. Ele levaria pizza e
refrigerante. Mas antes, havia dito para que eu só
tomasse banho quando ele chegasse. Esse é um fato que
só eu sei, porque provavelmente, minha mãe não
percebeu nada.
Abro os olhos e ouço os murmúrios da minha
mãe.
“Meu Deus, como pude deixar isso acontecer com
a minha filha? MINHA FILHA!”, dizia. A desaprovação
visível no timbre. Como se o peso da realidade
atravessasse seu peito.
“Desde quando isso vem acontecendo?”
Diana suspira. “Olha”, ela diz em seguida.
Tudo o que eu contava em 2013, que parecia
estranho, já deveria ser um indício do que Caim faria no
futuro. Diana abre a boca « minha mãe passa a ouvir
coisas desgastadas pelo tempo, e eu simplesmente paro
de escutar » Aceitar o passado é tão difícil quanto viver o
presente.
Trois sofreu um acidente de causas
desconhecidas em 2012 e ficou com paralisia cerebral
como sequela, e Diana estava por perto para me apoiar.
Agora, coincidentemente, ela está aqui novamente.
Ninguém percebia nada. Caim era sempre muito
astuto. Será que agora minha mãe se sente impotente,
por ter ficado apenas observando e não ter feito nada?
A vida é preciosa, mesmo quando amarga. Por
quê?
Porque é aqui que estamos « na Terra » e
precisamos viver nessa realidade, para ir além dela. O
universo não é um abismo vazio e sem vida « há
inúmeras realidades coexistindo em diferentes níveis
vibracionais. E cada fragmento nosso, em algum
momento, pode vivenciar uma realidade. É assim que eu
me sentia no ano passado, embora nunca tenha
conseguido explicar.
Minha mãe apenas observou. Mas é tudo o que
ela podia fazer no momento.
Meus ouvidos estão zunindo. Diana ainda estava
falando, “Lembra de quando morei com vocês, e ela
chegou contando que o Caim foi no motel? E ele disse que
foi por curiosidade dela, e você acreditou. Você ainda
acredita?”.
“Não sei. Não sei… não sei… não sei… não sei…
não sei porque nunca vi nada”, minha mãe responde
alterada.
A atmosfera fica tensa.
“E agora??”, penso.
“Você vai fazer alguma coisa?”, Diana questiona.
Minha mãe para de andar de um lado para o
outro e me abraça. “É claro que farei. Como não fazer
nada depois dessa gravação?”, diz.
Depois de alguns segundos me solta e se vira para
a porta, “Já estou indo. Tenho que pegar Trois na creche”.
“Deixa que eu busco”, Diana responde. Minha
mãe recontratou a Diana este ano. O Caim paga dois mil
por coisas assim.
“Ok”, minha mãe responde e depois olha para
mim. “E você… você não saia daqui até eu pensar em
algo”.
Em seguida, as duas vão embora e me deixam
completamente sozinha. Dolorosamente sozinha.
11H
Ando até a cozinha, abro a porta e depois olho
para o quintal. O espaço é limitado, mas a casa é bem
aconchegante. Acabei de tirar as roupas do tanquinho,
torcê-las e estendê-las no varal. Agora estou exalando
tédio pelos poros.
Não demorei para estender o braço até o balcão
da pia e ligar o rádio em uma estação qualquer. Está
tocando CAROUSEL.
Emma gosta dessa música. O que ela está fazendo
agora? Não faço ideia porque Emma não entrou em
contato.
Minha porta tem duas fechaduras estranhas «
dois trincos, um sobre o outro. Não sei exatamente para
que servem; apenas fecho a porta e deslizo um deles para
o lado. Em seguida, me jogo na cama.
O escuro não me incomoda, tampouco a
disposição super apertada dos móveis no pequeno
cômodo retangular. Há uma janela, uma cama encostada
nela, um guarda-roupa de quatro portas, um
criado-mudo pequeno e um baú com livros.
As duas horas seguintes se arrastaram
lentamente, como se cada segundo fosse um líquido
incolor pingando de uma rachadura na parede. Eu estava
farta. Permanecer ali se tornou insuportável.
Em minha cabeça já formei várias teorias. Se eu
contar tudo para os meus avós, será que meu avô vai
morrer « como minha mãe disse? Não quero que isso
aconteça. Mas eles precisam saber.
Esse pensamento me deixa sem ar. Não importa
quantas vezes eu me agarre ao travesseiro, a ideia de
contar para eles continua me atormentando.
Talvez o som pudesse amenizar a agonia de não
saber o que acontecia além daquelas quatro paredes. Mas
tudo parecia simplesmente cinza. Cinza, como no trecho
da música que cantei em sussurros.
Ouço batidas leves na porta, mas ignoro por um
tempo. Apenas continuo cantando, “His hair, his smoke,
his dreams. And now he’s so devoid of color, he don't
know what it means. And he’s blueeee, and he’s blueeee”.
Aparentemente, não me importava se alguém
estivesse ouvindo, mesmo que eu cantasse mal. Minha
voz desaparece no fim de cada verso, embargada por uma
ausência total de emoção.
Diana começa a se perguntar se estou bem.
13H
Digo que sim. Diana se foi logo em seguida. Será
que estava tudo bem mesmo? Claro que não. Passei todo
o tempo à mercê de pensamentos irritantes. Mas isso ela
não precisava saber.
Paro de cantar o cover de Colors feito pela Ashley
Pantzare e levanto da cama. Sei que fui até o criado-
mudo e escrevi uma carta, as coisas estão um pouco
borradas.
A carta está marcada para ser entregue em 2019.
Porque sou covarde demais para admitir agora « Quantos
anos terei até lá?
Me convenci de que meu avô não irá morrer por
minha causa. Ainda assim, minhas mãos suam tanto ao
segurar o papel, que resolvo escrever uma mensagem
messenger para a minha avó. Preciso fazer isso hoje. Não
em 2019.
Agarro o celular e destranco a porta. Estou com
um pouco de medo de sair, mas... medo de quê,
exatamente? Medo das ruas conspirarem contra mim, de
me aproximar da casa onde o Caim está? Posso só
simplesmente pegar a rua de trás e chegar ao outro
quarteirão.
Não me pergunte o porquê de tanto receio «estou
acostumada a guardar as coisas para mim. Sei que não
parece» afinal, quando escrevo, minhas palavras
geralmente soam firmes. A verdade é que, por trás delas,
se esconde uma garota desolada.
Caminhei apressada e atravessei a rua sem olhar
para trás. A chave com o pingente da Torre Eiffel balança
entre meus dedos « um lembrete de que eu precisava
voltar logo, antes que Diana começasse a fazer perguntas.
Minha avó ainda não tinha visto a mensagem.
Por um instante, paro diante do interfone e olho
para o alto. “Estou aqui”, penso.
O frio na barriga me faz recuar alguns passos
antes de apertar o botão e dizer no aparelho, “Vó? Sou
eu”.
De repente, o sobrado pareceu se inclinar sobre
mim. Que sensação estranha de medo era aquela? Talvez
fosse minha voz interior, implorando para que eu
desistisse. Mas minhas pernas são teimosas.
Disparo para dentro assim que ouço o click do
portão e sigo adiante « atravessando garagem, um
pequeno jardim, área gourmet externa, cozinha, a copa e
a sala de jantar. Apenas paro diante da porta da sala de
estar, onde minha avó está sentada.
Peço para ela ler a mensagem e ela levanta para
buscar o óculos de leitura na copa. Minha avó se debruça
sobre o balcão de mármore para ler, segurando o celular
com as duas mãos.
Foi estranho vê-la assim « parecia frágil, apoiada
daquele jeito. Uma imagem bem distante da mulher de
personalidade forte que me criou quando eu era pequena.
Ela ajeita uma mecha do cabelo loiro e fino atrás
da orelha e, então, abre a mensagem. Nesse instante,
meu corpo simplesmente desliga « fico ali, imóvel, sem
me mover.
“Não creio que tua mãe tivera a ousadia de ficar
com um traste destes”, minha avó murmurou.
Sua reação me anima um pouco, mas meu
coração ainda batia forte de medo. As coisas ao meu
redor estão agitadas « com minha avó dando murros no
balcão » mas meu corpo continua congelado.
“Hei de lançá-lo fora, como a imundície que é”,
ela diz, aparentemente tomada pela raiva.
O que será que fará com os dois?
Nesse momento meu avô que havia descido as
escadas do segundo andar nos observava sem entender
nada.
“O que foi, Carolina?”, ele pergunta com calma.
“Foi este o último deslize cometido por aquele
animal!”, minha avó responde, agora furiosa.
Pego minhas chaves e informo que estou de saída
para casa, no instante em que noto uma chamada perdida
de Diana.
Na rua, uma risada escapa « alta, espontânea,
despreocupada com os olhares alheios. O som preenche
meus ouvidos. “Sim, o Caim não pode mais me ferir”,
penso.
13H15
Diana estava esperando na saleta.
“Onde você estava?”
“Na minha avó”
“Você fez isso mesmo?”
“Fiz”
“Bom… então agora é um passo a menos”
A porta da saleta se abre com um rangido áspero
contra o assoalho de madeira, surpreendendo nós duas.
Minha mãe entra, fecha a porta e se deixa cair em uma
das poltronas.
“Eu fui para casa e”, ela começa a dizer, mas a
frase se perde no ar, incompleta. Minha mãe não
precisava continuar, o abatimento em seu rosto já dizia
tudo. Caim sabia das gravações.
“Pode nos contar exatamente o que aconteceu?”,
Diana diz.
Minha mãe descreve a conversa:
“Que gravações????”
“Não se faça de sonso”, ela diz.
“Do que está falando! O que está acontecendo?”
“Estou falando das coisas que vocês fizeram
hoje! das coisas que você FEZ com ela hoje”
“Você está louca mulher?”
“Ela me mostrou, Caim! ”
“Onde está isso? Me deixe ver!”
“Acabou tudo, e esses vídeos estão bem seguras
no celular”
“Essas gravações são falsas, MONTAGEM. Você
vai acreditar nela?!!”
“Eu vi com meus próprios olhos”
“Ela armou isso para me derrubar! Vamos
conversar”
“E depois?”, Diana pergunta.
“Eu o mandei embora”, o tom de minha mãe sai
extremamente baixo, “Mas ele ainda está lá. Foi por isso
que eu vim até aqui”.
Ela realmente o expulsou? A notícia era
excelente... Ainda assim, algo continua me perturbando.
“Elas não são falsas!”, de repente ouço minha
própria voz.
“Eu sei que não são falsas”, minha mãe responde
com ternura.
Minha mãe enterra o rosto nas mãos. E não havia
forma de consolá-la, tampouco forma de protegê-la da
avalanche de emoções amargas que a esmagaria.
“Me sinto tão traída”, minha mãe diz em meio a
lágrimas, “Estou tão destruída”. Sua voz ecoa pelo
ambiente, pesada. Como um lamento.
18H
Tudo está acontecendo rápido demais « é
assustador. Mal consigo discernir se o que vivemos hoje é
algo bom ou ruim.
Meus primeiros passos quase me levaram à beira
de um abismo, e, felizmente, não estava sozinha. Mas, o
que eu faria se tivesse arrastado essas pessoas comigo?
Diana está radiante. Mas, não sei se eu deveria
ficar feliz, pois não consegui enfrentar o Caim sozinha.
Dear Diary, é curioso como a ‘dor’ pode dar lugar
ao alívio. Mas será que o oposto também acontece com a
mesma rapidez? Repito para mim mesma que nada será
como antes «e, ainda assim, no fundo, não consigo
acreditar. Minha intuição sussurra o contrário.
2017, 15 de Fevereiro
Estou cansada de deixar que meus olhos revelem
o que tanto tentei esconder com palavras. Não consegui
disfarçar por muito tempo na escola que algo estava
errado em casa.
Nas últimas semanas de 2016, fui
silenciosamente acompanhada pelo olhar atento e
acolhedor da professora de Biologia.
Sentada no chão, entre a porta do meu quarto e o
corredor que leva à saleta, percebi que finalmente me
sinto livre das amarras que me impediam de dizer a
verdade.
Siempre dije que estaba bien, incluso cuando mi
alma, aprisionada en mi mirada, pedía ayuda en silencio.
Agora, enfim, está tudo bem. Eu posso falar. Talvez eu
abra o messenger da professora.
O dia pós ressaca sentimental
Acordar esse dia teve um gosto diferente « um
gosto bom. Caim havia começado a arrumar suas coisas
para ir embora.
Caminhar até a casa da minha mãe com essa
certeza me traz paz. O alívio está em saber que, a partir
de agora, todas as manhãs serão assim: tranquilas e sem
a presença dele.
Para minha mãe também seria o fim de uma
tirania.
Corri até a porta para ver o último dos sacos
pretos sendo colocado na S10 preta. Minhas irmãzinhas e
meu irmãozinho ainda não compreenderam o que está
acontecendo, mas isso não diminui a alegria que sinto por
dentro.
Une está ao lado da segunda garotinha mais nova
depois de mim « por isso, você pode chamá-la de Deux,
que significa 02 em francês.
Une tem apenas 7 anos, enquanto Deux tem 6.
Um dia elas irão entender. Mas não agora, não hoje.
Quatre segura as grades do portão com suas
mãozinhas pequenas, os olhos já marejados, prestes a
chorar. Tento ignorar, dar de ombros « mas não consigo.
São apenas crianças.
A caminhonete da partida, o motor ronca baixo.
Une e Deux se afastam para brincar com Trois, distraídas
pela movimentação. Quatre, porém, permanece imóvel,
observando a rua através das grades. Nesse instante,
dona Célia surge do outro lado, na calçada, e acena
gentilmente para ele.
A simpatia de dona Célia continua a me
incomodar « e o motivo é simples: ela inclui Caim nessa
simpatia toda. Ela nunca enxergou através de Caim,
mesmo depois de conviver com ele por três anos,
praticamente todos os dias, enquanto vinha aqui
alimentar sua mania por fofoca.
Para o resto do mundo, Caim aparentemente
sempre foi um sujeito carismático, e aquele que sempre
adora atenção « ainda que, para isso, precisasse abrir a
carteira e emprestar algum dinheiro.
Minha mãe abriu o portão para a curiosa. E ela
foi logo dizendo como minha mãe sempre foi bonita e
culta demais para ele. Porque ela abriu o portão? Às
vezes, minha mãe realmente parece sentir-se sozinha
nesta cidade.
Para mim, a dona Célia sempre será tão nociva
quanto é sutil. Como assim ela consegue dizer que Caim
era um bom homem? É porque ele já emprestou dinheiro
para o seu marido?
“Pobre coitada e que coisa horrível de se fazer”,
são as suas únicas palavras voltadas para mim. A
vítima disso tudo.
Afastei-me das duas e fui até a garagem. Como
poderia permanecer ali, assistindo minha vida ser
exposta daquela forma?
Soltei um suspiro e, em seguida, olhei ao redor.
As coisas restantes de Caim estavam sendo retiradas uma
a uma. Freezers, balanças, bancadas de madeira, paletes,
prateleiras de ferro, sacos de carvão, etc. Coisas que um
dia já transformaram a garagem da casa em uma
quitanda.
Vender tudo parecia a melhor saída, pelo menos
por agora « uma forma de evitar que meu avô se
preocupasse nesse mês.
“É um pouco estranho ver esse portão fechado, já
que ele vivia praticamente levantado”, penso.
12H
“Como assim… você contou para a sua avó?”,
minha mãe perguntou. Não digo nada, apenas abaixo a
cabeça. As palavras fazem eco em minha mente.
“Alguma hora ela teria que saber”, Diana diz em
minha defesa. E me sinto imensamente grata.
Minha mãe fica na defensiva, “Ah, eu não sei. Eu
teria outra desculpa. Caim e ela sempre brigaram quando
ela era menor”.
Ela olha para mim.
“E se o seu tio fizer algo com ele?”
Como ela ainda consegue se preocupar com ele?
Não consigo compreender. Achei que havíamos
prometido nunca mais permitir que ele fizesse parte das
nossas vidas assim que suas coisas foram para a rua.
Meu tio não faria nada « nunca se importou de
verdade comigo por não sermos próximos o suficiente.
Como ela pôde esquecer disso?
Sento no sofá em silêncio absoluto.
Estava apenas tentando não pensar em nada.
Evitar pensar se torna essencial para que a frase que
acabei de ouvir não continue martelando na minha
cabeça.
É como se uma voz « parecida com a minha »
começasse a repetir a mesma coisa dezenas de vezes. E
tudo o que posso fazer é aceitar. Não há como silenciá-la.
Mas não chamaria isso de ecolalia. Digamos que existe
essa voz interna que repete as palavras incontáveis vezes
até que eu mesma comece a repetir. E cenas
correspondentes brotam na minha mente.
Minha avó surge de repente na porta da sala. Pela
expressão de Diana e da minha mãe, nenhuma das duas
esperava por essa visita.
No mesmo instante, todos os sons ao redor
cessam, são engolidos pelas batidas apressadas de nossos
corações.
Minha mãe levanta do sofá, surpresa.
“Mãe… a senhora está aqui”
Minha avó lança um olhar para ela. “Onde está?”,
é tudo o que diz, “Não o quero na minha casa”.
Minha mãe suspira, “Ele já foi”.
Sem demonstrar alívio, minha avó atravessa o
corredor e segue em direção aos fundos da casa, como se
a resposta não tivesse sido suficiente.
Essa é uma batalha delas, não minha.
Minha avó me encara com as sobrancelhas
erguidas, esperando alguma reação. Talvez meu rosto
estivesse completamente inexpressivo porque ela passa
os dedos diante dos meus olhos, tentando me trazer de
volta.
“O que?”, respondo.
“Vamos ter que arrumar as coisas para que você
volte para cá. E a Diana vai vender alguns dos móveis de
vocês”, ela diz logo em seguida.
Olho para Diana.
“Sair de lá??”, acabo soltando em voz alta.
Diana me devolve o olhar, com uma expressão
suave e cheia de afeto.
“É sim. Mas foi bom enquanto durou”, responde.
Mi madre se acerca lentamente y me toca
suavemente el brazo.
“A mãe não vai dar conta de dar apoio financeiro
em dois lugares”, diz.
Neste momento, ponho os cotovelos sobre a
bancada da cozinha, em silêncio.
Refletir sobre minha própria situação nunca foi
difícil « tenho plena consciência de que sempre contei
com o apoio dos outros, e ninguém jamais me cobrou por
isso.
Quizás por eso, decirle “no” a mi madre o a mi
abuela siempre me pareció inconcebible.
“Está tudo bem”, acabei respondendo. Mas a
verdade é que a realidade se torna mais suportável
quando organizamos os fatos com lógica.
Minha mãe sorri.
Dear Diary, com o tempo, a realidade se
acomoda em nossas vidas como algo inevitável. O que
mais eu poderia fazer?
14H
O cheiro de grama é a primeira coisa que se nota
ao chegar na casinha. E todo o resto tem o aconchego
silencioso de um lar. Não será fácil deixar isso para trás.
“Por onde começamos?”, Diana diz assim que
destrancamos a porta e entramos na saleta.
Dear Diary, sou uma péssima mentirosa. Não
sou capaz de encarar minha amiga e dizer que não estou
triste com o fim repentino daquele lugar.
Depois de algumas horas, nos despediríamos do
nosso lar, um pouco cabisbaixas pelo vazio das paredes
completamente brancas e sem vida.
“Diana, quando vai entregar as chaves?”,
pergunto, enquanto sigo em direção à cozinha para pegar
sacos pretos.
“Daqui alguns dias”, responde. Segundos depois
grita, “UAL! Olha só esse lugar vazio, que diferença”.
“Estamos recomeçando”, penso. Aprendi com ela
que maturidade é isso « assumir os próprios caminhos,
mesmo quando eles não têm garantias.
De certo modo, isso é algo bom, você não acha?
Ainda assim, doi saber que, de alguma forma, fiz ela
retroceder alguns passos. Mesmo que ela não veja dessa
forma.
Apesar disso, Diana está sorrindo.
“O que vai fazer agora?”, questiono.
“Vou voltar para a casa da minha mãe e morarei
sozinha com meus dois irmãos. Minha mãe está de
mudança para a casa do namorado”
Ela parece ter um otimismo que talvez eu jamais
alcance « e, mesmo assim, é bom vê-la assim.
“Sabe, obrigada por tudo”, digo.
“Que isso, não foi absolutamente nada Lia”
Lia. Esse é o apelido pelo qual a família do meu
pai me chama desde que eu era apenas um bebê.
Curiosamente, Diana sempre me chamou assim também.
Sentamos na calçada para esperar.
Enquanto estive aqui, comecei a trabalhar em um
contêiner de pizza no centro da cidade, a convite de uma
conhecida. E hoje, o marido dela viria e nos ajudaria com
a mudança. Não levaria muito tempo até que a F1000-97
vermelha aparecesse.
17H12
“Você vai morar aqui de novo irmã?”
Balanço a cabeça para dizer sim. Une afasta o
rosto da minha barriga e me encara com olhos brilhantes.
“Yeeeeeeeeeeeeees!”, diz.
Dou uma risada « Une está na fase de tentar falar
outra língua » e, em resposta, ela me abraça com ainda
mais força.
Atravessamos a lavanderia até a mesa onde Deux
está com Trois. No momento em que chegamos, Trois
derruba as canetinhas de colorir, após ter riscado a
própria mão de vermelho.
“Olá, Trois”, digo alto para que elas me ouçam.
Como resposta, Trois dá pequenos gritinhos felizes.
Me afasto da Une e me agacho ao lado da Deux,
ficando na mesma altura dos seus olhos.
“Olá também”, digo.
Ela pisca. “Irmãã, lembra do Gatoso?”.
“O que tem, Deux?”
“É o seeeu gato. A mãe foi ver ele na semana
pasadaããã”, a garotinha respondeu energicamente. Seu
timbre é um pouco grosso, e suas palavras são carregadas
de assentos « exagerados » que ela ainda não aprendeu a
usar.
“É mesmo?”
Afago carinhosamente o cabelo de Deux
enquanto ela respondia, “Sim! Ele ta grãaandee”.
Era um gato cinza. Não tive muito tempo com ele
desta vez, antes que Caim o desse sem a minha
permissão.
Nesse momento, olho em direção à porta da
cozinha através do corredor. Ela está aberta, e vejo Diana
conversando com minha mãe, ambas paradas no balcão.
Ela ficaria até o final da tarde como um apoio moral.
Tenho plena consciência de que, depois desta
tarde, nunca mais veria Diana.
2017, 17 de Fevereiro
Será que conseguimos lembrar de como as coisas
eram no dia a dia sem sermos tomados pela
nostalgia?Algumas pessoas evitam esse sentimento,
talvez porque ele torna impossível ignorar que o tempo
passou « e que não há como voltar.
Para mí los acontecimientos pueden repetirse,
pero tú nunca serás exactamente el mismo. Y es por eso
que, alrededor de cualquier reencuentro con el pasado,
siempre se formarán nuevos sentimientos.
08H05
Acordar ao som de uma música suave ecoando
pela casa foi como ser despertada inconscientemente por
ela. Nem precisei olhar ao redor para saber de onde vinha
aquele som.
Minha mãe está sentada no chão do corredor que
leva à lavanderia, encostada na parede, com uma caneca
de café entre as mãos. Ela bebe com calma, enquanto
observa o céu claro.
Seus goles de café se intercalam com tragos
lentos do cigarro de filtro azul, como se cada movimento
fizesse parte de uma meditação.
Ela se levanta assim que me vê parada diante da
porta. Depois caminha alguns passos até a cozinha e sobe
o volume do rádio, deixando a música se espalhar pela
casa até chegar na garagem. Algo que nunca pôde fazer
com o Caim em casa.
“Ele nunca gostou de músicas que não fossem
sertanejo ou funk”, penso.
A música que está tocando agora é um mantra
Celta medieval. Permaneço onde estou, observando em
silêncio.
Minha mãe volta ao corredor, sentando-se
novamente sob os raios de sol da manhã. A saia indiana
se move levemente com o vento, e se acomoda em suas
canelas.
Gosto das tornozeleiras de conchas, e da
tatuagem ali « corujas enfileiradas sobre um galho, cada
uma com uma expressão diferente, contornam sua pele.
Segundo ela, representavam seus filhos: cinco no total.
Minhas irmãzinhas também estão sentadas no
chão. Brincando entre si. Elas fazem barulho, porém,
minha mãe segue concentrada em sua meditação.
Sinto vontade de sorrir. Aquela cena simples era
a nossa nova normalidade « uma vida sem ele.
“Crianças saudáveis fazem barulho”, ela me
dissera uma vez.
Começo a rir. Pelo visto, hoje ninguém foi para a
escola.
Sento no chão e encosto na parede, estreitando os
olhos para proteger a visão da luz enquanto olhava as
nuvens em seu estado altocumulus « é quando estão altas
no céu, com uma aparência quebradiça. Parecem um
pacote de algodão que foi aberto e esparramado sobre
uma toalha azul.
2017, 22 de Fevereiro
As coisas têm estado calmas, exceto pelo fato de
que Caim anda circulando o quarteirão com a
caminhonete. Às vezes ele para quando Quatre está na
garagem «e fica no portão, falando para o garotinho que,
a mamãe malvada não deixa ele voltar para casa.
É revoltante. Como ele consegue ser tão
descarado com essa situação? Me sinto perdida, como se
estivesse, mais uma vez, à beira daquele abismo
gigantesco.
Une disse que o pai dela está acampando na
caminhonete na rua de cima, é uma esquina, então dá
para ver através das grades do portão.
“Será que Caim viu quando meu avô trocou os
cadeados do portão?”, penso.
23H45
Atualmente, divido meu quarto com Quatre,
enquanto as duas meninas maiores ocupam o segundo
quarto e minha mãe e Trois estão na suíte do casal.
Mas essa noite Une veio até a minha cama,
querendo ficar comigo. Não reclamei de suas mangas do
pijama, grandes demais, e nem disse para Une parar de
cochichar. « Dessa vez, deixei Une dormir do meu lado »
ela me abraçou e, pouco depois, adormeceu escorada no
meu ombro.
A observei em silêncio, analisando cada detalhe
do seu rosto. Há preocupação marcada em seu
semblante? Era impossível saber.
As pessoas costumam dizer que ela tem uma
beleza clássica. De fato, a aparência de Une é
impressionante para sua idade. Posso descrevê-la com
delicada.
Com maçãs do rosto altas e marcadas; lábios
volumosos em formato de coração; nariz arrebitado e
fino; olhos castanhos mais claros; cílios negros e
extremamente longos; rosto em forma de coração.
Absolutamente tudo em seu rosto chama a atenção de
forma harmoniosamente proporcional.
Meia noite
Sou despertada por Une, que me cutuca dizendo
ter ouvido o portão abrir e fechar. Em seguida, ela desce
da cama e vai até a sala.
Pelo que conheço dela, consigo imaginar a cena: a
garotinha sentada nas costas do sofá, espiando pela
janela através de frestas na cortina.
Em segundos, Une já estava no quarto
novamente.
“Eu vi a mãe!”, ela tenta sussurrar.
“Ela saiu, agora?!”, questiono « com um aperto
no peito.
Pego o celular que estava embaixo do travesseiro
e vejo a hora. É meia noite em ponto.
“Saiu”, Une responde, sem perceber que minha
pergunta havia sido um pensamento em voz alta.
Meus lábios formam um “obrigada”, mas antes
que pudesse dizer Une me interrompe.
“Ela estava conversando com o pai”, diz.
Suspiro. ¿La explicación más simple fue
realmente la correcta? ¿Que mi madre le hubiera dado
un voto de confianza?
Como isso aconteceu não importa mais. O que
realmente importa « e é inegável » é que eles saíram
juntos. Ela foi levada pelo Caim.
Preciso fazer um esforço enorme para conter
minha expressão facial, não quero assustar a Une. “Pode
dormir o resto da noite comigo”, digo.
“Quatre está dormindo no sofá”, a garotinha
responde.
Antes, conseguimos ouvir claramente quando o
portão se abriu. Agora, esse som também desapareceu.
Tudo está quieto « isso só intensifica ainda mais a minha
raiva.
Une se ajeita ao meu lado. Eu também fecho os
olhos. Nos meus sonhos, uma garota canta Ameno do
ERA. A voz ecoa suavemente, enquanto um branco
absoluto se espalha rapidamente ao seu redor « e, pouco
a pouco, ela começa a esquecer até mesmo o próprio
nome. A música não perdura, porque ela a esquece
também. E então, é como se nada tivesse acontecido. A
garota termina a noite sem sonhos, embalada pelo
silêncio.
2017, 24 de Fevereiro
Há três coisas das quais consigo me lembrar bem.
1. O dia começou ensolarado e comum;
2. A habilidade da minha mãe de só revelar as coisas
um tempo depois de já terem acontecido;
3. Como não consigo deixar de me sentir frustrada.
08H10
Estou no fogão fazendo o café da manhã das
minhas irmãs. A cozinha cheira a pão gratinado recém
fatiado com cubinhos de manteiga derretida.
Preparo doze fatias de pão na chapa, três para
cada.
Tudo está acontecendo exatamente como ontem:
Une gritou que sou eu quem está fazendo o café, minha
mãe saiu do quarto e atravessou a sala recolhendo as
roupas que as crianças deixaram espalhadas, Deux e
Quatre foram deitar na rede.
Mas, de alguma forma, tem algo me
incomodando hoje. Minha mãe ainda não disse uma
palavra sobre o encontro secreto dela.
Nesse momento, meu celular emite um som fraco
« a voz de uma garotinha japonesa avisando que chegou
notificação » um torpedo havia caído na caixa de
mensagens.
Sim, você ouviu direito: um SMS, e não uma
mensagem de WhatsApp.
Quando o WhatsApp se popularizou na cidade, eu
tinha por volta de 14 ou 15 anos. Ainda assim, o hábito de
enviar torpedos continuou forte entre os jovens « Mas se
eu tivesse que apostar no futuro, diria que em poucos
anos ninguém mais vai usar SMS.
Diana, “Está tudo bem aí?”
“Ela saiu com o Caim há uns dois dias”,
respondo.
Somos seres imperfeitos, não somos? Às vezes
penso que talvez sejamos perfeitos apenas nisso « em
sermos imperfeitos.
Minha especialidade até agora tem sido fugir.
Estou correndo há muito tempo. Mas hoje
percebi uma coisa: no fim das contas, eu estava apenas
fugindo de mim mesma, ao deixar tudo de lado. É como
enterrar seus sentimentos bem fundo, até que um dia,
você se estilhaça com tantos sentimentos transbordando.
Quero reunir coragem e enfrentar minha mãe
sobre aquela noite.
09H35
Empurro a cadeira de Trois para fora. A rede está
bem diante de nós duas. Há algo reconfortante em
manter os pés longe do chão, e esse era o lugar perfeito
para isso.
“Prontinho, pode confiar em mim. Você não vai
cair”, digo em um tom suave, enquanto pego Trois no
colo e a acomodo ao meu lado na rede.
Ela ri e beija meu braço. Talvez o seu próprio
jeito de dizer que entendeu.
Meus pés empurram o chão, e logo estamos
balançando alto. Por um instante, sinto que poderia ficar
ali para sempre « em paz, ao ar livre.
Me esforço para manter a mente longe das
preocupações « só queria aproveitar o momento de forma
simples, admirando as nuvens no céu.
Emma continua insistindo que ando calada
demais ultimamente e é chato. Isso agora me faz refletir
sobre as palavras da minha mãe.
Minha mãe sempre teve o hábito de usar seu
conhecimento teórico para me dar conselhos. E algo que
ela me dizia bastante era que, ser é diferente de estar.
Se ser é diferente de estar, então... depois de
muito tempo em determinado estado, não passamos a ser
aquilo que estamos?
Mas não dá para ser o que simplesmente
estamos, pois nossa essência não é necessariamente
moldada pelo ambiente que nos cerca. Ela já é dotada por
características próprias.
Como eu realmente sou « não é a Emma que
pode definir porque ela quer » Mas não posso mandar ela
ficar quieta.
Quatre aparece na porta da cozinha, pedindo
para subir na rede conosco.
10H
Meus avós estão aqui. Meu coração quase saltou
pela boca quando eles surgiram no corredor, logo após
minha mãe anunciar que iríamos sair.
“Dona Célia ficará aqui com as crianças”, diz logo
em seguida.
“Porque?”, quis desesperadamente saber.
“Sua mãe vai visitar um advogado para saber
sobre os papeis do divórcio”, meu avô responde com um
sorriso enorme.
Por um instante, quase me deixei levar pelo
sorriso no rosto dos meus avós « quase fiquei feliz. Mas a
cidade é bem pequena, e é bem provável que minha mãe
tenha escolhido justamente o único advogado sênior da
região. Ou seja, o mesmo advogado que é amigo do Caim.
O apelido desse advogado é o nome de uma fruta
« é assim que todos o conhecem na cidade. Mas sua fama
não vem apenas dos anos de experiência.
Passei o caminho todo remoendo as palavras do
meu avô e pensando em como minha mãe havia
enganado os dois. Meu receio se confirmou no instante
em que paramos em frente ao pequeno escritório. Era
mesmo o dele.
O verdadeiro propósito de estarmos ali ficou
claro assim que descemos do carro « meus avós
esperariam do lado de fora » minha mãe me lançou um
olhar discreto, depois se aproximou e disse, em voz baixa,
“Vim aqui para uma consulta espírita”.
10H37
A grande mesa de mogno maciço no centro da
sala não me impressiona. Ele pega um livro de uma das
prateleiras e o desliza pela superfície polida, até que ele
chegue às mãos da minha mãe.
Lanço um olhar discreto para a capa « e
reconheço a autora. Então aquele encontro era mesmo
para falar sobre espiritismo e não sobre a lei.
Minha mãe já passou por algumas religiões ao
longo da vida « sempre permanecendo por alguns anos
antes de seguir para a próxima. A mais recente é o
espiritismo kardecista.
“Te recomendei este a última vez”, o advogado
diz.
Minha mãe pega o livro e olha a capa. Era uma
obra de Zíbia Gasparetto.
Depois de longos momentos parada, ele
finalmente me encara « e em seu olhar, não há nada além
de gelo. Ele sequer se dá ao trabalho de abrir a boca para
me cumprimentar.
Me esforço para manter a postura educada, sem
retribuir o desprezo na mesma medida. Puxo uma cadeira
e sento, cruzando as pernas logo em seguida.
Estou confusa.
Por que misturar espiritismo com tudo isso
agora? Quem exatamente minha mãe pretendia culpar
pelo que aconteceu? Ela realmente quer se isentar de
responsabilidade, como se tudo fosse destino ou alguma
força invisível, só para não ter que admitir que foi
descuidada? O pensamento é angustiante.
Ele pigarreia e, em seguida, começa a falar, como
se já soubesse exatamente do que se trata o assunto. “Sob
o ponto de vista jurídico, essa é uma acusação bem
grave”, diz.
Minha mãe permanece em silêncio, fixando os
olhos em uma das mãos sobre a mesa e mexendo nos
aneis de marcassita/pirita.
“Eu sei”, ela diz finalmente segundos depois.
Ele começa a fazer um discurso sobre como o
crime envolvendo menores é visto como um dos mais
hediondos pela sociedade. Mas não para por aí. Insinua
que, para que eu fosse levada a sério, precisaria de provas
« e que, se as tivesse, poderia destruir o futuro de um
homem.
Eu simplesmente não conseguia acreditar no que
estava ouvindo. Desde quando uma vítima desse tipo de
crime não é acreditada pela polícia? A maneira como o
advogado falou... quase parecia que ele estava tentando
defender o Caim.
Não movo um músculo de onde estou sentada.
Minha mente automaticamente reconhece as palavras “se
houver” e a ironia nelas.
“Compreendo”, minha mãe diz.
Ela compreendia? Reviro os olhos, sem
conseguir engolir a ideia de que um agente da lei estava
duvidando de uma vítima de abuso.
“Agora vamos falar de espiritismo”, ele fala com a
maior naturalidade.
La posibilidad de que mi padrastro fuera acusado
formalmente era tan hermosa como lo sería la verdad
cuando saliera a la luz. Pero para mí no era una
posibilidad viable ¿verdad? Porque mi madre no fue
capaz de ver de qué lado está este abogado.
Ela está cabisbaixa, e algo escapa de seus lábios
entreabertos, num tom baixo e cansado, “Por que isso
tinha que acontecer com a minha filha?”
A pergunta me alarmou. Estamos sentados diante
desse homem por um motivo « e ele não é justo. Como ela
pôde perguntar isso em voz alta?
Ele me olha com desdém.
“Você tem certeza de que isso realmente
aconteceu? Não foi o que o Caim disse”, diz.
Inacreditável.
Ele não vive se gabando de que recebe espíritos?
Então por que nenhum deles aparece agora para lhe
contar toda a verdade?!
Respiro fundo, lutando contra o impulso de
cravar minhas unhas na cara dele. Por acaso minha mãe
está ouvindo?
Não aguento mais a pressão e grito, “Você ainda
foi perguntar para o Caim?”.
Minha mãe me olha espantada.
O advogado continua « como se minha voz não
tivesse sido absolutamente nada, “Ele parece um bom
homem. Você não acha injusto VOCÊ fazer tais
alegações?”. Seu tom é totalmente frio.
“SIM, EU TENHO CERTEZA DE TUDO O QUE
ACONTECEU”, respondo.
Ele ri, “Você deve ter feito algo muito ruim em
outra vida, mocinha”.
Em seguida, os dois começam a falar sobre mim
como se eu fosse invisível. Observar a expressão da
minha mãe « e perceber que ela realmente parecia dar
razão a tudo o que ele dizia » me revira o estômago. Isso
não é justo. Porque a culpa tem que recair em mim?
Nesse momento, senti as lágrimas queimarem
nos olhos. De repente, não queria mais ouvir nada
daquilo.
Usar o jurídico contra mim? Eu é que teria que
provar, em tribunal, o que vivi? Parar com “isso” e aceitar
que ele agiu daquela forma por algum motivo?
Não. De repente, eu só queria sair dali.
De repente, comecei a questionar a própria
sanidade, duvidando dos fatos que antes pareciam tão
claros. Será que eu pedi para ser abusada, e não estou
lembrando?
Desejei, com todas as minhas forças, sentir
alguma presença atrás dele « algo que me permitisse falar
com elas e perguntar: Deus não me vê?
A essa altura, já não conseguia mais raciocinar
com clareza sobre as verdadeiras intenções do advogado.
“Está vendo?”, ele aponta para mim, enquanto eu
chorava em silêncio, “Ela só está alterada. Porque sabe
que precisa pagar por seus erros”, diz.
Minha mãe não disse uma palavra sobre os
absurdos que aquele homem estava falando. Nem quando
ele afirmou que estávamos lidando com o espírito
perturbado do Caim e que precisávamos acolhê-lo.
Olhei para o advogado com ódio ardendo no peito
e disse, em voz alta, tão firme quanto consegui, “Você
admite que aquele descarado fez algo... mas continua
dizendo que ele é a vítima. Por quê? Como você tem a
audácia!”.
Vi quando ele engoliu em seco.
Enxuguei as lágrimas com a palma da mão e saí
da sala sem olhar para trás.
Ele havia plantado dúvidas na cabeça da minha
mãe, disfarçando tudo com aquele ar de bom senhor
religioso. Mas agora eu tive certeza sobre o seu mau
caráter « Caim o havia pago para defendê-lo.
Antes de sair, eu devia ter xingado ele de grande
filho da puta.
18H
Chorar e gritar enquanto estou parada é melhor
do que chorar e gritar enquanto corro? Afinal, ambas as
ações levam à mesma conclusão: uma pessoa consumida
por uma frustração profunda.
Estou sendo impulsiva, movida pela frustração,
mais uma vez.
Meu mundo, até então protegido por muralhas
altas, desabou há pouco. E eu chorei como alguém
totalmente desprotegido, alguém que foi incapaz de
parar.
Estou correndo em direção a casa da minha avó.
Porque minha mãe está indo embora e sugeriu eu ir com
ele.
Acabei me afogando no mar de rostos ao meu
redor quando cheguei, exatamente por isso.
Todos esperavam uma resposta minha, mas meu
corpo me levou ao pior estado possível: o de estar em
movimento enquanto meu estado emocional está no
limite.
Eu me movia, mas não conseguia enxergar o que
estava fazendo. A avó Carolina não entendeu uma única
palavra do que eu disse, até que parei, finalmente, para
respirar.
“Vó! Minha mãe disse que quer sair da cidade
COM ELE”
“Pois, deixe-a ir”, minha avó responde, ainda sem
entender a gravidade.
“Ela quer que eu vá com ela, com ele!”
“AH NÃO”, a resposta é imediata. Parando tudo o
que está fazendo, e se dirigindo ao portão.
Minha mãe está na garagem da nossa casa.
As próximas coisas aconteceram muito rápido
para que eu pudesse processar. Quando percebi já estava
na calçada ao lado da minha avó.
“Minha filha, enlouquecestes? Irás partir deste
lugar e ir aonde?”, Carolina questiona, com os olhos fixos
na minha mãe.
“Isso. Mãe. Eu só vim aqui falar com ela, mas ela
surtou e saiu correndo!”, minha mãe responde sem
hesitar.
“E onde imaginas ir, assim tomada de tanta
pressa?”, mi abuela siguió hablando, y poco a poco su
dialecto comenzó a mezclarse con las palabras,
escapándose naturalmente.
Mas, antes que minha mãe pudesse responder,
me meto na conversa, “Eu surtei?! Como você esperava
me levar depois do que aconteceu? É para ele fazer tudo
de novo??!”.
Talvez ela realmente espere que eu vá. O que se
passa pela cabeça da minha mãe? A essa altura, a raiva
dentro de mim estava prestes a explodir.
Minha mãe não respondeu à pergunta de minha
avó, mas voltou-se diretamente para mim, “Isso mesmo.
Surtou. Mas você deve estar cansada de morar aqui…
venha comigo e com seu pai para um lugar novo”.
As vozes se embaralham, se apagam. Nenhuma
palavra faz sentido « porque eu parei de ouvir. Minha
mãe realmente vai com o Caim. O CAIM. O mesmo
homem que, até poucos dias atrás, ela não queria em
nossas vidas.
Abro a boca para falar a coisa mais óbvia, “Ele
não é o meu pai”.
Minha mãe suspirou, levemente irritada. “Por
favor, NÃO começa”, diz.
E me olha como se não me reconhecesse. Algo
doloroso de presenciar. Algo que me faz questionar se, no
julgamento precipitado que minha mãe fez, ela não está
interpretando minha recusa em ir como uma afronta
pessoal « e não como a forma que encontrei de não me
machucar mais.
“Então te irá?”, minha avó diz firme, querendo
arrancar uma resposta à força, “Se deixares esta cidade,
ao MEU imóvel não retornarás!!!”.
“Eu vou, mãe. O povo dessa cidade fala demais,
não queremos mais ninguém falando o que não sabe
sobre o Caim”
O rosto da minha avó se contorceu.
“Ah, assim seja!”, grita e depois se vira para ir
embora, deixando claro que minha mãe havia mexido
com leões. Minha avó está quase na esquina, quando
para, depois grita outra vez.
“Só para que o saiba, daqui em diante, filha
alguma tenho eu”.
Mas minha mãe não olha para a minha avó. Ela
não fica em choque. Ela apenas olha diretamente para
mim. Havia algo muito errado com as palavras que minha
mãe disse antes.
Sair da cidade para poupar… o Caim, e não a
mim? Então é isso, mistério resolvido. Caim a procurou
naquela noite, e depois conseguiu convencê-la de que
tudo não passava de boatos maldosos.
Estamos sozinhas na garagem.
“Você vem comigo”, o tom amargo e irônico corta
o ar entre nós duas.
Digo que não vou, mas ela insiste mais uma vez.
E eu perco a paciência, “NÃO VOU A LUGAR NENHUM
COM VOCÊ, COM VOCÊS!”.
“Quero a minha filha perto de mim”, minha mãe
protesta « como se solicitasse um direito.
“Pensasse nisso antes!”
“Eu sou sua mãe!!! Tenho que ficar com você”
“Eu…”, começo a dizer, mas um nó se forma na
minha garganta. Suspiro, tentando controlar a raiva, e
então termino, com a voz mais calma, mas ainda sem
ceder, “Não me importo, mãe”.
Ela havia feito uma escolha. E, infelizmente, a
palavra de Caim parecia ser mais importante do que a
minha própria.
Me viro para entrar, de forma brusca e fria. Será
que meu gesto a machucou? Minha mãe me segura pelo
braço e, com um tom triste, diz meu nome composto.
“Nunca mais me chame assim”, digo. Soltando o
meu braço.
“Mas esse foi o nome que eu te dei!”, ela diz,
quase como uma súplica.
“Eu sei”, respondo, “E não o uso mais”.
Sem mais palavras, me afasto e vou em direção
ao quartinho para pegar minhas coisas que ainda estão
ensacadas.
Ao meu redor, tudo parecia estranhamente
cintilante. Eu simplesmente não reconhecia mais aquela
mulher. Ela já não parecia mais com a minha mãe.
Sem pensar muito, comecei a arrastar minhas
coisas em direção à rua, mas fui interrompida no portão.
“Aonde você vai?”
“Vou embora daqui!”, gritei com firmeza.
Minha mãe tenta me impedir, mas é tarde
demais para que suas palavras façam alguma diferença.
“E para onde pensa que vai?”, ela insiste.
Paro por um instante e olho para a pilha de
sacolas ao meu lado. A confusão ainda estava ali, mas não
o bastante para me fazer recuar. Eu não ia me render de
novo.
Procurar Emma estava fora de cogitação «
impossível chegar até ela com sete sacolas enormes.
Então, uma ideia me veio à mente. “Vou para a casa da
vovó”, respondo.
“Você vai ficar aqui comigo, mocinha”, ela reage.
Suspiro.
“Eu não vou ficar, mãe…”, respondo em um tom
baixo, quase conformado.
Em seguida, começo a colocar os sacos para fora,
um a um, como se aquele gesto fosse a minha resposta
definitiva. Ela, por sua vez, tenta colocar as coisas de
volta na garagem « como se, de alguma forma, pudesse
consertar o que já está quebrado.
“SOLTA. NÃO VOU FICAR!”, digo, arrancando
um dos sacos de suas mãos. Isso se repete algumas vezes.
Até chamar a atenção dos vizinhos. As pessoas
começaram a se agrupar na porta do bar na esquina ao
lado, formando uma pequena plateia silenciosa.
Eles observam tudo com uma indiferença quase
cruel « era apenas mais um espetáculo para preencher a
tarde. Enquanto o mundo deles continua girando, o meu
parecia estar congelado.
No podía comprender cómo las cosas habían
llegado a tal punto que de repente el marido de Celia
estaba allí, parado justo frente a nosotros. No me di
cuenta cuando se acercó. Sólo me di cuenta cuando sentí
sus manos firmes sujetándome los brazos por los
hombros.
“Senhor, por favor, me ajude a levar esses sacos
até a minha avó”, digo, tentando manter a postura.
Os olhos da minha mãe imploravam para que ele
não fizesse aquilo. Havia súplica no olhar dela, mas nada
que se comparasse à frieza contida no meu tom de voz. E
foi o que o convenceu.
Ele hesita por um instante, depois escolhe me
ajudar, carregando o primeiro saco.
“Claro”, diz.
As mãos da minha mãe apertaram exatamente o
lugar onde, instantes antes, o vizinho havia me segurado
« como se quisesse me puxar de volta à realidade. Ela
estava completamente transtornada e pronta para chorar.
Virei as costas e, naquele instante, não me
permiti mais olhar para trás. Porque não queria me
arrepender. Senti que deveria seguir em frente com a
cabeça erguida « certa de que, pela primeira vez, havia
conseguido algo muito valioso: respeito próprio.
Minha mãe para no meio da rua e grita, forte o
suficiente para todos ouvirem, “Ela não vai te querer!!!”.
Mas o mais estranho foi perceber que isso não me
paralisa. Pelo contrário « dou de ombros com uma
naturalidade surpreendente. Foi então que meus
pensamentos começaram a se agitar, vozes repetitivas e
melancólicas, sussurrando em minha mente, “Ela não me
quer lá. Não me quer lá. Não me quer. Lá”.
Os pensamentos são chatos, mas me fazem parar
de lutar contra a situação. E, sem pensar, movida apenas
pelo impulso, me viro e grito com toda a minha força, “Eu
não posso VIVER COM UM ESTUPRADOR”.
Nesse momento as pessoas ao redor parecem
ficar chocadas, e minha mãe envergonhada. Mas foi
libertador.
Pela primeira vez eu estava quebrando o silêncio
e, junto com ele, todas as coisas que eu vinha tentando
esconder.
Essa cena no meio da rua me fez compreender,
brutalmente, o verdadeiro sentido da palavra traição.
Consigo sentir na pele o que é ter a confiança traída por
alguém em quem mais confiei.
Implorei silenciosamente para que me deixassem
entrar. Com todas as minhas costas ali, jogadas aos meus
pés. Não havia carta de desculpas. Nenhuma justificativa
que tornasse tudo aquilo mais fácil dos meus avós
entenderem. Só o meu corpo, trêmulo, e um choro
contido « um pedido mudo de socorro.
“Vó, a senhora precisa me deixar ficar. Não quero
voltar… não posso voltar para lá!”, digo, entrecortando
algumas palavras por causa da respiração pesada.
Meu tio está sentado na mesa da área externa «as
mãos cruzadas e uma expressão rígida. Ele é o mais
velho, e também o único irmão que minha mãe possui.
Mesmo assim, ele sempre foi frio comigo e com os meus
irmãos.
“Minha mãe vai embora!”, falo desesperada.
Ele dá de ombros, como se a informação fosse
pouco relevante, “Deixa ela ir. E você, não irá com ela?”,
pergunta.
Por um segundo, quis acreditar que ele não tinha
entendido. Mas a verdade era simples « meu tio ainda
não sabia.
“Não vou”, digo, “Ele abusava de mim”. Nesse
momento minhas palavras são um peso para os ouvidos
de todos ali.
Meu tio arqueia as sobrancelhas, “Como assim,
abusava?”, diz.
“Abusava”, repito sem me estender no assunto.
“Ele fazia coisas com você?”
Não respondo, apenas balanço a cabeça.
“Menina…”, meu tio fala meio hesitante.
De repente meu avô surge atrás de mim no
jardim. “Seu tio está falando com você filha”, diz.
“Fazia”, sou obrigada a admitir. E, como um eco,
minha avó também responde ao mesmo tempo.
Todos permanecem em silêncio.
“Isso daí é sério?”, meu tio diz com impaciência,
depois de um tempo. E a realidade me atinge como um
soco.
Me sinto julgada. Mas era melhor ser julgada por
um policial civil do que por um advogado corrupto «
penso.
Limpo as lágrimas com a manga da camiseta;
mas outras se formam no lugar.
“Mas eu TÔ dizendo a VERDADE”, digo bem alto.
Não há mentiras, e por isso talvez doa tanto.
Meu tio se vira abruptamente para a minha avó,
“Mãe. Como minha irmã pôde deixar isso acontecer?”, e
depois ele completa, “Eu sempre soube que aquele
canalha do Caim não prestava”.
Suas palavras são reconfortantes, mas não tem
compaixão nelas. Apenas o tom frio e distante de “eu
avisei” do meu tio.
Será que alguém aqui acredita em mim??
Não era fácil aceitar a ideia de Caim « um homem
vil «vencendo no tribunal. Mas, ainda assim, parecia mais
fácil do que encontrar forças. A vítima tem mesmo algum
crédito no meio desse desastre todo?
Meu tio levanta e destrava o portão.
“Eu vou indo. Obrigado pelo café mãe”, diz.
Então era isso? Estava acabando assim? Ele já
estava de saída, pronto para seguir sua vida.
Mas, não foi preciso fechar o portão « tem
alguém atrás dele, na entrada » minha mãe. E lá estava
Caim sentado no assento do motorista.
Do meio da garagem consigo vê-los claramente «
os vidros abertos. É uma cena impossível de ignorar,
todas as nossas coisas e minhas irmãs. Tudo está dentro
da caminhonete.
Ouvindo tudo esporadicamente
“O que ele está fazendo aqui?”, digo, movida pela
força do ódio.
“Vim dizer que já estou indo”, minha mãe
responde.
Não consigo dizer o que minha mãe está
sentindo. Apenas abaixo a cabeça e encaro as palmas das
mãos. Talvez esperando por alguma resposta que
finalmente fizesse sentido.
“Então você vai mesmo”, murmuro triste.
“Eu vou”.
Nesse momento meus avós se aproximaram,
carregando bancos de plástico, como fariam em qualquer
outra tarde para observar a rua. Mas meu avô parou no
meio do caminho, interrompido pela expressão carregada
de raiva estampada no rosto de Carolina.
“Você fica com ela, mãe?”
“Fico”, a resposta é firme. Minha avó não pensou
antes de responder.
Minha mãe me olha.
“Porque não vem comigo?”, diz.
Olho para ela « como se precisasse de mais
respostas » depois encaro minhas irmãs pelo vidro. Meus
lábios se abrem, “Porque mesmo que está indo com
ele??”, perguntei, quase que completamente sem filtro.
Caim sorri da janela. Os olhos brilhando de
excitação através das lentes quadradas. Desejei, do fundo
do meu coração, que um elefante passasse por cima
daqueles óculos.
“Vamos lá, morar em outra cidade será uma
mudança de perspectiva. Foi ideia do advogado do Caim”,
minha mãe diz. Pela primeira vez, pude ouvir completa
inocência em sua voz « era clara.
Em que nível Caim conseguiu ser tão
manipulador, a ponto de lavar um cérebro?
Engulo em seco.
Começo a rir «uma risada histérica e amarga. A
revolta me toma por completo. É claro que teve que ser o
mesmo advogado. Caim o procurou primeiro.
Mas como mais ele estaria representando dois
lados? Que tipo de profissional age assim? Ele foi imoral
o tempo inteiro enquanto se escondia atrás da fachada de
sênior da cidade. Ele apenas…
Escolheu quem o pagou mais. Simples assim.
Minha mãe tenta se justificar, mas eu a
interrompi antes que consiga terminar. Precisava deixar
claro o que restava da minha opinião « o pouco que ainda
não tinha sido sufocado pela decepção. Que bando de
hipócritas. “Dinheiro”, digo com a voz trêmula”.
Porque ele nem sequer se importou comigo, com
a lei ou com o próprio juramento.
“E o Caim…”, continuo falando, “Claro que ele
sabia que o advogado o defenderia nessa estória toda”.
“Você só está confusa filha”, a resposta da minha
mãe é seca. Em seguida ela olha para trás, como se
buscasse fugir da conversa.
Minha paciência está no limite.
“Não. Eu não estou confusa sobre o que
aconteceu”, grito sem me importar com ninguém da rua.
Enquanto isso, meus avós não moveram um músculo.
“Você tem mais provas além de palavras em um
diário?”, ela diz. E o mais inacreditável « confiante.
Explodo.
“MAS GRAVEI OS VÍDEOS!”
“Sim. Vídeos que mal dão para ouvir”, seu tom é
surpreendentemente calmo. Mal consegui acreditar no
que estava ouvindo.
“Mas você disse que tinha ouvido. VOCÊ DISSE
QUE OUVIU. ENTÃO, MENTIU PARA MIM?”, minha
voz começou a falhar, porque estava prestes a chorar.
Minha mãe dá alguns passos para frente,
tentando me abraçar. Mas a empurro de volta para trás. E
a expressão em seu rosto muda instantaneamente. “Você
já está delirando. Sempre teve uma criatividade fértil, e
sabe disso”, diz.
“MÃE”, respondo, “Eu nunca inventei nada
daquilo”. Minha voz é plena, mas por dentro, era como se
estivesse gritando a plenos pulmões « um grito
desesperado » como o de alguém que necessita provar a
própria lucidez.
Caim estava rindo baixinho.
Desta vez, encaro-o diretamente.
“O que você fez com ela, SEU DESGRAÇADO?!”,
grito. E ele ri ainda mais, agora alto.
“Eu? Não fiz nada. Apenas conversei com ela”
Cada palabra suya es como una serpiente que
libera veneno.
“VOCÊ É UM DEMÔNIO! ARRUINOU A MINHA
VIDA, GAROTA! E AGORA QUER DESTRUÍ-LA DE
NOVO? ASSIM COMO DESTRUIU A DO SEU PAI!”,
minha mãe diz de repente « como se tivesse tomado as
dores de Caim para si mesma.
E eu sei exatamente por que ela disse isso. Sinto
meus pedaços, já rachados, começarem a se despedaçar «
lentamente, parte por parte.
Como posso estar ouvindo isso? Viro-me
bruscamente em direção à caminhonete, para Caim
«sorrindo como o verdadeiro manipulador que era. Não
consigo mais me conter. Dane-se a compostura. Dane-se
a etiqueta. Dane-se se estou gritando no meio da rua. Eu
queria mesmo era ser ouvida» por qualquer um, ou por
todos.
Talvez assim alguém me desse a mínima
esperança de que ainda havia algo a ser salvo.
“SEU MONSTRO! VOCÊ É UM MONSTRO!
MOOOONSTRO”
A voz do meu avô tenta me trazer de volta.
Mas mal consigo ouvir. A dor é grande demais.
Eu odiava Caim. E, naquele momento, já não me
importava se a rua inteira ouvisse minhas queixas «se
realmente tivesse alguém ali.
Falo, finalmente, tudo o que guardei por tempo
demais, “Você passou dos limites. Me feriu de formas que
nem sei nomear. Você sabe muito bem do que estou
falando. Seu pedófilo!”.
Caim ri de novo, e o som do riso parece crescer,
preenchendo o espaço como um gás venenoso. Quase
como se esperasse o meu colapso, para que ele pudesse
ter razão « Calmo e apenas sentado inocentemente em
seu lugar.
Todas as coisas fazem sentido. Caim costumava
dizer pra minha mãe que eu precisava de ‘tratamento
para a cabeça’ , que eu tinha explosões e ataques de fúria
sem motivo algum. Para que ela interpretasse como um
problema de instabilidade de humor… Mas agora está
claro que o objetivo dele era apenas poder varrer as coisas
que fazia para debaixo do tapete. Desta forma, se meu
comportamento mudasse, seria apenas porque eu ‘sou
louca’.
Mas há algo que ele não previu. A minha
capacidade de encarar seus olhos sem abaixar a cabeça.
Eu sei o que vivi, me recuso a abaixar a cabeça de forma
obediente.
“Era só uma brincadeira”, ele diz, tentando
desviar a tensão.
Minha mãe olha para Caim como se quisesse crer
naquilo « ou pior » como se já acreditasse. Porque ela
está defendendo ele com tanta intensidade!?
Também olho na direção dele.
“COMO VOCÊ CONSEGUE DIZER ISSO, E
AINDA OLHAR PARA MIM. NÃO SENTE REMORSO?”,
digo. Tem coisas demais entaladas na minha garganta.
“Ele apenas quis te ensinar”, minha mãe fala em
seguida.
“ENSINAR O QUE!”, grito uma vez mais.
Minha mãe antecipa meus pensamentos, “Você é
uma garota. Então era para gostar de garotos!”, diz.
Tento absorver o que aquelas palavras realmente
significavam. Será que o problema sou eu mesmo? Ela
está insinuando que nasci com algum tipo de falha?
Não era isso. Nunca foi sobre isso. Caim a
convenceu de que seus atos não foram nada demais «Ele
usou meu segredo com Emma como desculpa» um
escudo para “proteger” a si mesmo.
“Mentira! Ele não fez aquilo, por causa disso!!”,
digo, fuzilando Caim com os olhos.
“É você quem está mentindo”, minha mãe rebate,
virando-se para os meus avós, “A SENHORA SABIA,
MÃE, QUE ELA BEIJOU A EMMA?”, diz.
Quase não consigo conter o desespero ao
imaginar a reação negativa da minha avó. Sei que os
olhos dela estão queimando minha nuca nesse momento.
Ter a sexualidade recém descoberta exposta dessa
maneira, é devastador, e totalmente desnecessário.
Minha mãe está sendo insensível, essa é a justificativa
mais fraca e mesquinha que ela poderia ter.
“NÃO TEM ABSOLUTAMENTE NADA
HAVER!”, começo a gritar no meio da rua.
Olho para trás, na direção onde meus avós estão
parados, e vejo meu avô soltando um suspiro de desgosto.
“Vó…”, tento falar mais, porém minha voz falha
antes que eu consiga continuar. E, para piorar, minha
mãe não para de falar.
“Ela beijou uma garota, mãe!”, diz.
“VÓ! Por favor. A senhora precisa acreditar em
mim. O que o Caim fez não teve relação com isso”,
imploro, ahora con la desesperación apoderándose de mi
voz.
Me viro de volta para a minha mãe.
“PARE DE FALAR DA MINHA AMIGA COMO
SE ELA FOSSE UM OBJETO DE ESTUDO” gritei, a voz
tremendo de raiva.
Ela me encarou, sem acreditar.
“Se ela fosse realmente uma melhor amiga, não
teria feito isso! Vocês sabem como é difícil para uma mãe
ver um filho nessa condição?!”, minha mãe fala alto.
Tenho que responder porque preciso terminar a
discussão que comecei. Mas estou incrédula demais para
raciocinar rápido. Simplesmente não entendo. O que
raios Caim disse a ela?
“Eu….”
Talvez tenha se passado alguns segundos.
“Segundos demais”, penso.
“VOCÊ CONCORDOU COM AS COISAS QUE O
CAIM ACABOU DE FALAR. ENTÃO ESTÁ DIZENDO
QUE APOIA O TAL DO ESTUPRO CORRETIVO QUE
ELE ACABOU DE INVENTAR AGORA?!”, grito.
Desvio o olhar na direção de Caim.
“Eu odeio você. Isso é doentio!”, digo.
Caim fixa o olhar nos meus avós atrás de mim.
“Doente é você por não ter gostado de homens. A sua neta
está agindo como uma sapatona, dona Carolina”, diz sem
alterar o tom. As palavras são moldadas para se
encaixarem na situação.
Ele esboça um sorriso irônico, em seguida puxa
minha mãe para dentro do veículo pela porta do
passageiro. Ela me olha com pena «o pior sentimento
direcionado a outro ser humano.
Por fim, suas palavras finais não são para mim,
mas para a minha avó, proibindo qualquer possibilidade
de eu ver ou falar com Emma « algo injusto, porque as
ações sujas de Caim haviam começado muito antes disso.
“Tá bom, agora sai logo daqui”, meu avô diz.
Mi madre cierra la puerta de un golpe y se queda
mirando el horizonte. Quando ouvi aquelas palavras
dirigidas com carinho ao agressor, finalmente entendi o
meu lugar. Minha mãe escolheu sua família e eu não fui
incluída nela.
Tive, naquele instante, a certeza de que nunca
mais os veria « nunca mais olharia para os pequenos
rostinhos das minhas irmãs » Enquanto isso, minha avó
gritava uma última vez, “E jamais voltes. Para mim estás
morta, MORTA”.
Enquanto isso, meu corpo começa a dar sinais de
colapso, sinais sutis de que minha mente está à beira do
abismo. Como uma queda silenciosa após perder o último
ponto de apoio em meio ao caos. Sensações que não
consigo nomear estão tomando conta « e com elas, a
evidência de que, se eu abrisse a boca agora, não emitiria
nenhum som.
Permaneço imóvel, mesmo que tudo dentro de
mim implorasse para gritar, cair de joelhos no chão e
desabar por completo. Mas eu sabia que as lágrimas iam
acabar escorrendo sozinhas pelo meu rosto, ninguém iria
intervir.
18H51
O céu já começava a escurecer quando a vi partir.
Não poder fazer nada a respeito foi uma das experiências
mais dolorosas que já vivi. Estava claro, pela maneira
como ela me tratou, que laços de sangue não significam
eternidade. Tudo o que passamos desabou, foi lançado no
abismo profundo.
Dear Diary, meu peito doía « não pela ruptura
ter sido lenta durante esses dias, mas porque o clímax
brutal foi súbito. E, completamente imprevisível. Que
escolha eu tive além desta?
Não há escolhas « quando tudo pode se romper.
Gritei algo no momento em que ela entrou na
caminhonete e bateu a porta, “Você não é mais minha
mãe!”.
VOZES VERBAIS
Alguns dias é difícil de ver, se eu era uma tola ou você
uma ladra… Agora você é apenas uma página rasgada da
história que estou vivendo. E tudo o que eu te dei se foi, caiu
como se fosse pedra… Pensei que tínhamos construído uma
dinastia, diferente de tudo o que já foi feito. Pensei que
tínhamos construído uma dinastia que o para sempre não
pudesse separar. A cicatriz que eu não posso reverter, quanto
mais cura, mais machuca. Te dei cada pedaço de mim, não é de
se admirar que esteja faltando…
Tudo caiu, tudo desabou, e tudo o que eu te dei se foi.
DYNASTY, Miia
2017, 24 de Fevereiro
No fundo, sabia que as coisas poderiam mudar.
Mas quando essa mudança se revela frágil, quebrável ao
mais leve dos toques «como vidro» talvez seja inevitável
fugir dos estilhaços.
A primeira coisa que ouvi quando entrei foi,
“Você beijou mesmo aquela garota?”.
Não encaro o rosto da minha avó. Minhas pernas
se movem sozinhas até a escada, e eu simplesmente subo,
sem dizer uma palavra sequer.
19H27
“Emma, minha mãe se foi”, digo por SMS.
A resposta não demora, “E onde você tá agora?”.
“Ela foi com ELE? Desculpa, mas sua mãe é uma
vaca”, Emm digita.
Eu encarava a tela do celular piscando, sem saber
como responder, ou como discordar dela. Porque, no
fundo, era óbvio: eu concordava.
Emma manda outra mensagem, “Sua mãe é uma
psicóloga experiente, como ela nunca percebeu??”.
Aos poucos, o desespero começou a me dominar.
Eu não sabia como extravasar aquilo sem andar em
círculos, sem me mover como quem tenta lutar contra a
sensação de estar se paralisando de dentro para fora. Era
uma estranha e silenciosa forma de vazio.
“Vem comer!”, o grito da minha avó ecoa do
andar de baixo.
Rapidamente desço até a cozinha, acendo o fogo e
preparo um miojo. Depois pego o macarrão com uma
escumadeira e coloco dentro do pão de cachorro quente.
“Talvez a sua mãe”, minha avó diz assim que me
viu parada na cozinha. Ela não termina a frase.
“Ela não é minha mãe”, respondo. E Carolina
apenas dá de ombros.
“Talvez ela estivesse certa e aquela zoiuda não
fosse de boa influência para você”, completa.
Deixo a escumadeira dentro da pia.
“A senhora não vai esquecer esse assunto?”
Ella me mira sin parpadear.
“E como hei de esquecer?”
Não tenho o que argumentar. A culpa disso era
minha e não da Emma.
“Ela tem um namorado”, digo ao acaso.
“E isso é de relevância?”
“Ela ama ele, vó”
“Ainda mais sendo desta maneira... Seria melhor
que não mais vistes a Emma”, sua voz soa calma.
“OK”, respondo. Ainda que a ideia tenha
fragmentado meu coração. Apenas não falaria nada sobre
meu plano de continuar conversando com a Emma.
Minha avó sorri satisfeita.
2017, fevereiro
Fiquei alguns dias sem ir às aulas do curso
técnico, mas meu avô acabou de me lembrar que eu
preciso voltar em algum momento.
Me arrumar para ir costumava ser uma parte
divertida do dia. Talvez ainda pudesse ser, mesmo agora
«Mas, ultimamente, a minha vida parece não fazer
sentido.
Está frio, então acabo pegando uma calça jeans
clara com a barra dobrada e um blusão de lã cinza.
Depois pego uma gravata preta e alguns aneis com
padrão de marcassita e gemas preciosas «pedra da Lua,
Obsidiana negra, Berilo vermelho, Axinite marrom
amarelada, Alexandrita verde, Lapis Lazuli, Turquesa e
Cristal roxo» Escolho quatro para usar na mão esquerda.
17H17
O sol se punha atrás de mim, projetando a minha
sombra na calçada. Estou a poucos passos do arbusto da
quarta casa, com isso sei que posso colocar o fone sem
correr o risco de deixar meu avô falando sozinho no
portão.
“Vou ficar bem hoje”, penso, apertando o fichário
contra o peito, “Vou ficar bem”.
Encaixo o fone nos ouvidos, a música já estava
tocando. Notas de piano em um refrão melancólico.
Antidote, da Faith Marie. Deixo a realidade para trás, a
cada passo, conforme a melodia toca. E me entrego
completamente à letra.
Alguma vez você já se sentiu puxado para dentro
de uma música? Um evento sensorial «algo que atravessa
a percepção e prende sua atenção como se rasgasse o
tecido da realidade. As pessoas chamam isso de viajar na
maionese» Aumentei o volume.
Salto pelas rachaduras no chão e começo a correr,
não por estar atrasada porque o ponto fica a apenas um
quarteirão de distância, mas porque ir rápido era uma
sensação libertadora.
O ônibus de viagem não demora a chegar. O
motorista abre a porta, e subo as escadas sozinha «desta
vez, não havia ninguém no ponto.
Não é mais o senhor de sempre ao volante. No
lugar dele, um rapaz que não parecia ter mais de vinte
anos me cumprimenta com um oi demorado. Só
respondo quando já estou no corredor. Primeiro, abaixo o
volume do celular e entrego meu cartão ao representante.
Em seguida, viro-me no meio do corredor e encaro o
retrovisor, esperando alguns segundos até que o
motorista perceba. Quando nossos olhares se cruzam,
abro um sorriso largo, quase desafiador, e retribuo o
cumprimento com atraso calculado.
Ele cora imediatamente, como se não soubesse o
que fazer com aquilo. Então viro de volta, satisfeita, e
encaro os bancos à minha frente.
“Sou alguém de presença forte”, lembro a mim
mesma enquanto ando pelo corredor, “Vamos, não
desanime da vida apenas porque sua mãe foi embora…”.
Paro bem no meio e deixo a mala no banco ao
lado, me sento e cruzo as pernas do jeito mais confortável
que conheço «com o pé encostado na lateral do encosto
da frente.
Minha tela brilha com uma mensagem de
whatsapp. Era minha amiga de infância, Angelina, uma
garota doce e com voz suave, que mora perto de casa. Era
fácil levar Trois e passar horas lá.
“Vai HJ?”
“Vou”, respondo rapidamente, “E a Jessie vai?”.
Pensando na garota mais velha que nós duas conhecemos
no ônibus. Ela rapidamente se tornou a melhor amiga da
Angelina «e, uma amiga muito querida minha também.
“Vai! Com que roupa você vai?”
Baixo o rosto e encaro a mim mesma por um
instante. “Não tô de saia indiana hoje”, digito.
“Será que a criatura viu a indireta que a Jessie
postou lá no face?”.
Envio uma mensagem de áudio para essa
pergunta.
“KKKKKKKKKKK é”, Angie responde. “AGR vou
lá me trocar”.
Respondo com um blz, e o celular volta a ficar
silencioso. Emma sempre implicou com o altruísmo
quase utópico da Angelina, se questionando se ela não era
rasa demais por ver o mundo daquele jeito. Mas Angie já
era minha amiga muito antes de eu conhecer a Emma.
Nos vimos pela primeira vez quando tínhamos sete anos,
na época em que me mudei para a cidade.
Levanto em um impulso, e vou até a janela nos
assentos do outro lado do corredor « a tempo de ver
Angelina e suas duas irmãs. Angie acena enquanto uma
de suas irmãs move os lábios, “Saudades. Te
adoroooooooo”.
Sorrio, respondendo com a mesma energia.
Angie sobe e cumprimenta o representante
enquanto tenta segurar a alça da bolsa que escorrega pelo
ombro.
“Hey, Angie!”, digo alto.
Ela cantarola alguma coisa enquanto caminha até
meu banco. “Olá. Hey, você tem que ouvir isso”, diz.
“O que é?”
Ela não diz nada, apenas aperta o play.
Reconheço o rap mesclado ao canto « era Twenty
One Pilots. Mas aquela versão nunca tinha ouvido.
“Um remix de Stressed Out?”, digo, “Isso é
incrível mesmo. Como achou isso?”.
Angie sorri, “A Jessie achou. Parece ser um remix
do ano passado”.
O piano se mescla com batidas eletrônicas,
depois o instrumental explode com batidas anáforas, mas
mantém o timbre do vocal sem alterações. Ouço mais um
pouco, e depois começo a rir alto.
“Vocês duas são demais”, digo.
Angelina concorda com a cabeça, parecendo
orgulhosa de si mesma.
“Angie, sabe de uma coisa…”, começo a dizer,
depois paro e faço uma careta engraçada. Ela ri.
“My name is Blurryface and I care what you
think”, cantarolo logo em seguida. Era o mesmo trecho
que ela cantou ao entrar no ônibus.
Nos deixaríamos levar pelas batidas, cantando
alto e errando a letra às vezes, mas não importaria. Um
ano e meio foi tempo suficiente para que todos os
estudantes nos conhecessem, e se familiarizassem com o
nosso jeito.
Nesse momento, meus joelhos já estão dobrados
sobre o banco. Olho para trás, na direção onde os
meninos que conhecemos «quando fomos de penetra em
um evento da faculdade perto da ETEC» os bancos ainda
estão vazios. Seus rostos se materializam na minha
mente, mas Angie me puxa de volta.
“Porque faltou tanto?”, ela pergunta. “Acho que
até sua crush sentiu sua falta aqui no ônibus”.
“Quem, a garota que parece a Jade de Brilhante
Victória?”, digo, rindo. Respiro fundo, e finalmente
respondo sério, “Precisei… ajudar minha mãe em casa”.
“AH! Isso explica”, diz.
“Bom. Ela sentiu mesmo a minha falta?”,
questiono, com olhos de cachorrinho abandonado.
“Não sei se ela ficou. Mas uma outra garota sim,
ficou perguntando bastante sobre você. Foi tão fofo!”,
Angie responde.
“Foi fofo mesmo, coitada”, diz alguém com a voz
grave pairando sobre nossas cabeças. Jessie. Ela estava
parada bem na nossa frente.
Pego a mala e me levanto, jogando-a sem muito
cuidado no banco da frente. Dou espaço para que Jessie
possa sentar com a Angelina e sigo para os assentos logo
à frente.
“Mas você também, em! A coitada ficou iludida”,
Jessia diz.
“Ela me pediu em namoro uma semana depois de
me conhecer!”, respondo. Depois disso todas nós
explodimos em gargalhadas.
18H40
Espero algumas pessoas saírem e depois fico em
pé, indo para o corredor e deixando as duas para trás.
Jessie corre para me alcançar, puxando de leve uma
mecha do meu cabelo que escorregou para trás do ombro.
Ela abre um sorriso. Estávamos paradas no
primeiro degrau da escada.
“A onde vai, doidinha?”, pergunta.
Queria apenas caminhar um pouco sozinha antes
do terceiro sinal. Mas não poderia dizer a verdade.
“Podem ir na frente. Tenho uma coisa para resolver”,
terminei dizendo.
“Ata”, ela responde. E depois volta para trás.
De onde estou posso ouvir as duas conversando.
Angie pergunta se eu não iria com elas. E Jessie
responde, “Ela disse que a gente pode ir”. Então Angelina
grita um tchau. E eu aceno com a cabeça.
“Vejo vocês depois”, digo em voz alta. Sem olhar
para trás.
Parada na frente da escola, há muitos rostos,
conhecidos e desconhecidos. Todos seguiram caminhos
distintos: alguns entrariam direto, outros ainda iriam no
posto de gasolina ali perto, para comprar alguma coisa ou
tirar xerox.
Passar pela entrada foi simples « apenas ignorei
o mundo ao redor e segui em frente com confiança.
Enquanto caminhava, repassava mentalmente o horário
das aulas da semana. Mas não havia nada. Não me
lembrei de absolutamente nada. Porque o primeiro
período, das 19h às 20h40, parecia ter sido apagado da
minha memória. Era o mesmo para o segundo período,
das 21h às 22h50.
Só descobriria qual era ao chegar na sala.
Foi uma sensação estranha « como se eu tivesse
esquecido de respirar. E respirar, afinal, nunca exigiu
esforço.
Estou subindo a rampa entre os blocos C e D
quando alguém me avista « e grita meu nome.
“E aí!”, a voz chama novamente.
Olho para trás. É um jovem com cabelos
cacheados e óculos de armação quadrada. Concentrei o
olhar em seu peito, tentando identificar o que estaria
vestindo desta vez.
Paro de andar e espero ele se aproximar.
Me esforço para cumprimentá-lo sem dizer seu
nome «podia estar errada. Talvez fosse algo como…
Erick? Realmente não lembrava.
Ele desvia o olhar, um pouco envergonhado.
“Típico de um garoto nerd”, penso.
“Você está bonita hoje”, ele diz.
Conheço pessoas de vários cursos diferentes:
computação, farmácia, mecânica, administração,
enfermagem, os calouros de recursos humanos… E ele é
do TI.
“Obrigada”, respondo, em seguida olho para a
camiseta dele, “Está vestido de que hoje?”, pergunto,
curiosa, apesar de já saber a resposta. « Ele baixa o olhar
para o próprio peito, observando o símbolo.
A vergonha some por completo quando responde,
com a voz rouca e cheia de ênfase, “Eu sou o Batman!”
Dou uma risada curta. “Muito convincente,
senhor Batman, de óculos”, respondo.
“Mas não sou o primeiro Batman”, ele rebate,
sério. Levo uma das mãos ao queixo, fingindo ponderar.
“E você também não é aquele de o Cavaleiro das
Trevas Ressurge, com Christian Bale”, digo.
Ele continua, empolgado, “Apesar de que os
efeitos especiais daquele estão incríveis... mas, como
sempre, o Estevan achou algum defeito. Igual fez com
Esquadrão Suicida. Disse que não chega nem perto dos
quadrinhos. Mas todo mundo sabe que aquele filme não
foi feito pros fãs de verdade!”.
Espero continuar o monólogo, mas ele faz uma
pausa repentina.
“Ah, quase esqueci. O Estevan está te
procurando”
“Tudo bem”, respondo.
Estava no ‘segundo de RH’ quando conheci
Estevan, na metade do ano passado. Na minha turma,
sou literalmente a mais nova « As idades variam de 19 a
60 anos » e talvez seja justamente por isso que me sinto
tão à vontade conversando com todos, como se fôssemos
colegas de longa data.
Cerca de trinta pessoas entraram na sala no
primeiro dia de aula «em fevereiro de 2016» e deram de
cara com o meu guarda-chuva preso em um buraco no
vitrô. Isso porque, um pouco antes, eu tinha levantado o
braço com o guarda-chuva fechado, fingindo que era a
espada do Rei Arthur sendo arrancada da pedra. Depois
daquilo disse olá animadamente, enquanto tentava tirar o
enorme objeto da janela.
Viro as costas, decidida a procurar nosso amigo
recluso. Mas, antes de me afastar por completo, olho por
cima dos ombros e digo, “Sabe, eu entendo o Steven. O
filme é bem diferente do material original. Apesar do
problema do Steven ter sido seu apego emocional ao
Joker do Heath Ledger”.
O Batman míope pensa por um instante, depois
balança a cabeça e sorri, “Você tá esquecendo das cenas
cortadas do remake desse Coringa”.
“Tenho que ir agora”, digo e me viro, voltando a
caminhar.
“Tá!”, a resposta ecoa pelo pátio.
As portas duplas estão escancaradas.
É a sala que havia sido da minha turma no
semestre passado, agora era a sala de Stevan.
As vozes lá dentro estão altas, misturando risos e
conversas soltas. Entro sem ser notada e fico parada,
observando a lousa « junto da pessoa que parecia tê-la
tomado por completo.
Meus olhos percorrem a frase escrita em latim.
“Homo homini lupus”, leio mentalmente. Depois
digo a tradução em voz alta, “O homem é o lobo do
homem”.
Stevan se vira, dizendo meu nome e me tomando
pelos ombros. “Você está aqui!”, diz em seguida.
“Estou”, respondo, rindo um pouco.
Dou alguns passos para trás, depois observo a
lousa. Thomas Hobbes. Esse era o filósofo favorito do
Stevan.
Você quer saber mais sobre ele?
As quatro turmas do bloco de Humanas estavam
reunidas no salão de eventos para a primeira palestra
de recepção dos calouros.
Os veteranos foram convocados para as boas
vindas, mas o segurança me barrou porque cheguei tarde
demais. Esperei do lado de fora. Algum tempo depois,
uma senhora de idade saiu « minha amiga » e me viu no
corredor.
“Silvia, conseguiu assistir à palestra?”, perguntei.
E ela pareceu animada. “Consegui sim. Uma pena
você não ter entrado”, disse, “Ficou sabendo sobre o novo
perguntador da escola? Parece você”.
“Mesmo??”, respondi, curiosa.
“Depois pergunta pro Roberto, ele vai te contar
melhor. Estava sentado comigo”, ela completou.
E o Roberto, um rapaz com seus trinta e poucos
anos, vinha logo atrás. Sorrindo para nós duas.
“Quando eu vi, pensei: lá vem outro tipo a
Ravena, porque ele começou a falar umas coisas que
ninguém entendeu de primeira, e depois começou a
bombardear o professor com perguntas”, Silvia continuou
falando, “Se não me engano, ele é do primeiro de RH”.
“Acho que vou dar uma passada lá depois”,
respondi.
“Vai sim!”, Silvia e Roberto disseram em coro.
Realmente tive curiosidade. E não foi difícil
encontrar a sala, apenas deduzi que seria a nossa antiga.
Lembro da turma estar cheia naquele dia, mas
curiosamente silenciosa. Na hora, pensei, “Será que ainda
não descobriram que podem sair durante a troca de
professor?”.
Eu tinha aberto a porta sem pensar muito.
Apenas coloquei a cabeça para dentro e olhei os
rostos novos. Depois disse oi bem alto, esperando alguma
reação. Aguardei a resposta enquanto meus olhos
buscavam a pessoa com a descrição que o Roberto fez.
Nada de resposta. Então tentei de novo, a segunda vez
carregando mais empolgação.
“Olá. Todos por aqui me chamam de Ravena”.
Sim, você ouviu direito. O apelido veio do
professor de Direitos Trabalhistas, por conta da capa
com capuz que eu costumava usar. E ele se espalhou
rapidamente pela sala.
Veio um coro de vozes sincronizadas, “Oi
Ravena”. Meio esquisito, mas sorri mesmo assim. A
interação havia dado certo. Ajeitei o zíper do blazer
acinturado rosa bebê « um jeans sem mangas, com decote
em V nos seios » E abri a porta um pouco mais.
“Sou do segundo de RH. Estou procurando o
Stevan”, anunciei alto, naquele mesmo instante.
“Stevan?”, um rapaz perto da porta havia se manifestado,
“Aquele ali, na primeira fila. Carteira vazia atrás dele”, ele
apontou logo depois.
Agradeci e entrei na sala. Caminhando
vagarosamente até parar no lugar indicado e estender a
mão sorrindo.
“Hey, oi Ravena”, ele disse, “Sou o Stevan.
Como… como me encontrou?”, sua voz soava baixa e
tímida.
Mas, invés de responder de imediato, primeiro
olhei o rapaz ao lado e o cumprimentei, “Tudo bem, ser
humaninho?”. Ambos pareciam estar na casa dos 20
anos. Ele apenas assentiu. Então puxei uma cadeira de
outra mesa e me sentei.
“Fiquei sabendo que você fez muitas perguntas
hoje”, comentei casualmente. E ele respondeu que sim de
forma tímida.
Naquele momento eu apenas sorri. Depois
apontei para o livro que estava sob a mesa dele. Trazendo
à mente as aulas no ensino médio.
“Filosofia… interessante. Posso ver?”, perguntei
ao acaso.
O Estevan de agora argumentava alguma coisa
sobre a frase que colocou na lousa.
“Estude o mundo e entenderá as pessoas”, diz.
“Ou estude as pessoas e entenderá o mundo…”,
digo de volta, quase em um sussurro apenas para mim
mesma. Depois falo em voz alta, “O tião, são quase 19h18,
tenho que ir”.
“Mas já?”, ele responde com um pouco de
desânimo.
19H20
A primeira coisa que fiz ao entrar é encarar o
rosto do professor, tentando reconhecer qual matéria era
aquela. André « Recrutamento e Seleção » Um homem de
meia idade, conhecido pelo bordão, “O sol nasce, as
nuvens passam, as flores florescem, e o urso, o urso
panda”.
“Esses atrazildos, sempre empacando a minha
aula”, ele diz assim que me vê. Seu tom é de brincadeira.
Acabo rindo.
“Olá, Ravena”, ele me cumprimenta em seguida.
“Olá, professor André”, respondo.
“Olha, sorte sua que ainda não passei a lista de
presença para assinarem. Maaas já estava quase”, ele
brinca de novo, rindo um pouco.
19H30
Jonatan me lança um olhar ameaçador.
“Hoje tem trabalho, e espero que a sua parte
esteja pronta”, diz.
Repito a palavra trabalho algumas vezes na
mente, como se isso ajudasse a torná-la menos pesada,
enquanto encaro as costas de Jonatan, sentado na
carteira da frente.
“Ah... então era por isso que a sala estava escura
quando entrei”, penso.
Tinha esquecido completamente disso. Nem
sequer lembro o tema. Apresentar um trabalho logo no
primeiro dia depois de voltar ao curso foi uma
coincidência cruel.
Cumprimento o casal sentado nas carteiras ao
lado « os membros restantes do nosso grupo. Em
seguida, abro o fichário e começo a folheá-lo com uma
pressa quase desesperada, atrás de alguma pista.
“Está atrasada Ravena. E, pela sua cara, você não
fez. Não é?”, Jonatan fala sem se virar.
“Esqueci de fazer”, termino admitindo.
Nesse momento, o outro rapaz do grupo solta
um, “E agora?”. Enquanto os três me encaram,
aguardando uma resposta. Sinto todos os olhares
voltados para mim.
Desvio o olhar e miro o quadro negro « tentando
confirmar o contéudo da matéria. Estou no terceiro
módulo do André, então só poderia ser Gestão de
desempenho e retenção de talentos « Minha consciência
pesa, claro. Mas primeiro, precisava cuidar do que iria
falar para o grupo.
“Vocês vão primeiro. Eu falo por último”, digo de
forma direta.
Jonatan finalmente se vira para trás. E é o
primeiro a reagir, arqueando as sobrancelhas. “Tá, né…
Mas é você quem sempre faz a abertura”, diz.
“Já sei o que vou fazer. Confia em mim”,
respondo, agora mais calma.
Solto um longo suspiro. Confiante de que não
poderia ferrar com a nota final do grupo.
Ele tinha um ponto sólido. Mas, talvez eu
soubesse mesmo o que fazer. Leio o último parágrafo
anotado no fichário.
Ele parece tão confuso quanto meus próprios
pensamentos agora, “Se o trabalho trata de um tema
complementar sobre as relações sociais e pessoais no
ambiente organizacional, e a minha parte é a
demonstrativa, então consigo me virar com o que tenho
no momento”.
Continuo pensando no que eu poderia fazer, “O
foco será o posicionamento do supervisor diante de
colaboradores de setores hierarquicamente inferiores « e
as consequências que surgem a partir de
mal-entendidos”.
Qualquer ideia maluca que eu tivesse agora
parece mais reconfortante do que a chance da
apresentação ter dado certo se eu tivesse seguido o
caminho convencional « explicando tudo com gráficos e
medições numéricas » Qualquer forma de matemática
sempre foi um problema para mim.
Pego o celular e vasculho a pasta de arquivos
recentes em busca de algo que possa servir.
“Jonatan”, o chamo, sentindo a ideia brilhar na
minha cabeça como uma lâmpada led.
“Vou colocar uma música”, anuncio.
Ele suspira com resignação.
Seguro o celular com firmeza, abaixo dos meus
dedos estava a música Black and Blue, da SIA. Decidi
usar essa música por causa do vídeo.
“Não decepcione”, essas são as únicas palavras
dele.
Nesse momento o professor interrompe nossa
pequena conversa particular e diz, “Vocês tem quinze
minutos”.
“Vai dar certo?”, me pergunto no instante em que
o último membro do grupo encerra sua fala.
O vídeo que escolhi tem uma carga psicossocial
intensa. Talvez dê certo.
Jonatan anuncia minha entrada.
Ando até ele e conecto o cabo do notebook à
entrada USB do meu celular. Depois preparo o projetor
em silêncio, sem olhar para a turma e nem iniciar com
perguntas reflexivas. Alguns segundos se passam sem que
eu fale nada.
Até que eu finalmente digo algo.
“Vocês devem estar se perguntando qual é a
relação desse vídeo com a apresentação, e porque tanto
suspense”.
Depois, corro os olhos pela sala escura «
tentando capturar os rostos mais próximos. Todos
parecem estar atentos.
Escoro o corpo na mesa do professor, permitindo
que a tela do vídeo fique livre. Então, abro os braços de
maneira dramática.
“Gostaria que prestassem bastante atenção ao
vídeo”, digo com calma, “O que irão ver agora, senhoras e
senhores, é o clipe de uma música”.
Alcanço o controle do projetor e, em segundos,
ajusto o volume para ficar mediano. Depois aperto o play.
Na tela, uma garota com uma máscara branca e dourada
encara o espelho.
Deixo a música fluir e não digo nada. Me recosto
na mesa e assisto a garota passar os dedos por uma
rachadura na parte inferior da máscara que cobre o rosto
todo.
Depois disso, o tempo retrocede no vídeo. Ela
corre e entra no banheiro, onde para e vê o próprio
reflexo, com as mãos na pia « cogitando remover a
máscara.
“Vamos ver o que a Ravena preparou pra gente
hoje”, Silvia diz. Outros murmuram, concordando.
O tempo retrocede uma segunda vez. Nele, a
garota parecia entediada, assistindo a uma aula. Ao seu
redor, pessoas com máscaras sem expressão alguma.
Todas organizadas em fileiras, por cores « púrpura, azul,
laranja, amarelo, verde, marrom. Mas nenhuma branca
como a dela.
Inclino o rosto para observar, de maneira
discreta, as reações da turma de Recursos Humanos. Mas
logo volto a ver a tela do projetor. Mesmo que já
conhecesse muito bem aquele clipe.
A garota levanta da carteira «com todos os
olhares em sua direção» E sai da sala. Há outros
mascarados no corredor por onde passa.
Alguém passa por ela, a máscara é marrom.
Porém, quando ambas se aproximam de máscaras
amarelas, a máscara marrom logo é substituída pela
dona, que troca por uma amarela. E ela para atrás de um
cartaz que diz, “Yellow is the beautiful”. A cena se repete
de amarelo para vermelho, e assim por diante.
“Na psicologia, isso é a persona”, penso.
Enquanto isso, a música chega ao refrão. A cena
tem um enquadramento em primeiro plano « foca em um
caderno de desenho. A câmera para por alguns instantes
na ilustração de uma garotinha ao lado de figuras sem
face.
E o que acontece a seguir?
É um espiral de sentimentos: a garota começa a
correr, aflita. Depois entra no banheiro, mas é derrubada
por outras garotas, que riem com indiferença. Então o
clipe volta ao início e mostra o torpor, ela diante do
espelho com as próprias escolhas. No fim, ela retira a
máscara e é livre para ser autêntica. Quando a música
termina alguém da turma acende a luz.
“Provavelmente o que mais chamou a atenção
foram as máscaras”, digo enquanto desconecto o cabo do
celular.
Me movo para o meio da tela, aguardando até
que todos concordem com a cabeça.
“Mas o fato interessante que me levou a mostrar
esse vídeo para vocês”, falo com firmeza, “É que,
podemos comparar isso à bagunça dentro das empresas”,
dou alguns passos para o lado e depois mudo a
entonação, “Para entender o ponto de vista comercial,
precisamos compreender o ponto de vista humano”,
nesse momento minha expressão fica séria, “O que
aconteceria se, de repente, todos nesta sala se
desentendessem? Como isso seria resolvido?”, levo uma
das mãos ao queixo, “O RH é a ponte intermediária entre
o setor administrativo e as necessidades do colaborador”,
abro os braços novamente, “Como vocês já sabem, cuidar
de um problema interpessoal dentro da empresa é uma
função do departamento de recursos humanos”, rio com
suavidade, “Como se trata de pessoas, nem sempre os
problemas serão fáceis de resolver. É necessário
investigar mais de uma fonte”, gesticulo com as mãos,
“Vamos olhar para as pessoas como seres de mentes
complexas. A garota do vídeo demonstrou certa
dificuldade para se integrar aos grupos”, sento em cima
de uma carteira vazia, “Porque?”, pergunto, olhando os
rostos na sala, “O princípio ao formular essa pergunta, é
calcular as consequências que uma falha de comunicação
social pode causar na produtividade da equipe”, levo o
olhar ao teto, depois sigo falando, “E o que isso diz
respeito à cultura organizacional, e a maneira como a
empresa lida com a inclusão de seus colaboradores”,
balanço as pernas, “Precisamos reavaliar o conceito de
liderança”, olho para frente e desço de cima da mesa,
“Conclui-se que um bom relacionamento entre as equipes
elucidaria alguns problemas”, ando de um lado ao outro,
“Agora, irei fragmentar o vídeo em partes, para uma
análise”, digo com animação, “Há um pedaço da letra
que”, depois sigo falando até finalizar a apresentação.
Todos se levantam das cadeiras, e uma salva de
palmas preenche a sala « inclusive do professor. Meus
colegas, já em seus respectivos lugares, me olharam com
surpresa e admiração.
Jonatan levanta e se aproxima rapidamente,
inclinando-se até a minha orelha. Sua voz sai em um
sopro, “Muito bom, pequena”.
Quando se afasta, seus olhos se fixam nos meus,
analisando cada aspecto com o mesmo olhar desafiador
de costume.
“Você soube exatamente o que fazer. E espera,
me diga, como será que eu já sabia que você se sairia
bem?”, diz. Seu sorriso é provocativo e ‘irritante’.
Entro no jogo. “Se tenho um limão, não deveria
fazer uma limonada, Jonatan?”, digo, em seguida abro
um sorriso travesso, “A única diferença, é que eu escolho
como vou espreme-lo”.
Seus olhos se estreitam.
“Cuidado com o lugar do tabuleiro onde coloca
suas peças”, diz. Depois se vira e simplesmente sai.
Jonatan. Ele é uma pessoa misteriosa «talvez seja
por isso que todos na sala o chamam de o “Sinistro”.
O sino toca e todos começam a sair, mas eu
permaneço onde estou, me permitindo ficar para trás. O
professor se aproxima e coloca uma das mãos no meu
ombro. “Foi bom”, ele diz. Depois ele também atravessa a
porta, e desaparece entre a multidão no corredor. A
apresentação havia se estendido, mas ele não disse…
nada?
“O que farei agora?”, penso.
Felizmente, gosto de conversar com qualquer um.
“E aí, garota! Como vai?”, alguém me alcança no
corredor. Ele passa um dos braços pela minha cintura
com naturalidade.
“Vou bem, valeu”, respondo, avaliando-o.
Definitivamente era o cara de Farmácia que pegou meu
numero semanas atrás.
Ele anda ao meu lado até sairmos do bloco.
“Tá afim de bater um papo? Podemos apenas
andar se quiser”, ele diz.
“Hoje não”, tento recusar com delicadeza.
“Mas você também disse isso quando peguei o
seu número”, protesta.
“Eu sei”, respondo ao seu tom brincalhão, “Nos
vemos por aí”.
Ele retribui com um sorriso.
“É, a gente se vê. Até mais Ravena”
21H
Estou a caminho do outro bloco quando encontro
um amigo da Administração. Ele está do lado de fora da
biblioteca, e a puxa conversa de uma maneira inusitada.
Me contando sobre seu velho carro.
Rio um pouco, desacreditada.
“Uma pá, em um carro.. Fazendo o que mesmo?”,
pergunto.
“É um motel móvel!”, ele ri, “Já falei”.
“Certo, um motel móvel”, repito sem conseguir
segurar o riso.
“Sim”.
“E quem teria um motel móvel?”
“Tá, é um carro”, ele desiste.
“Parece que ganhei, hehe”, respondo.
Ele ri alto, enquanto seguimos até a entrada da
biblioteca.
“Nova pauta para o horário antes do sino”,
comento.
“Sério? Qual?”
Faço uma pausa dramática antes de responder,
“Conversar sobre carroças velhas reformadas e pás
misteriosas encontradas dentro delas”.
Ele balança a cabeça em aprovação, “É boa”, diz.
Pego a caneta sobre a mesa da estagiária e assino
o check-in. Em seguida, desejo-lhe boa noite e, meio
segundo depois, me viro para o rapaz que me aguardava.
“Você não vai mesmo voltar pra sala Ravena?”,
ele pergunta.
Eu não ia voltar para a sala. Provavelmente, o
professor sairia pelos pátios à procura dos alunos
dispersos e marcaria um ok sobre os nomes na lista de
presença « como já havia feito na semana retrasada.
“E você, não vai assinar o nome?”, rebato com
outra pergunta, completamente retórica.
Ele sorri, como se entendesse o meu não.
“O que vai fazer?”, pergunta.
“Vou dar um tempo por aqui, fazer pesquisas e
coisas do tipo. Meu período agora é DTCC”, digo.
“Falou”, ele diz e me espera entrar antes de sair.
23H
Angie caminhava ao lado de Jessie, que a
segurava pelo braço enquanto ela tropeçava levemente e
soltava risadas. Não, ela não estava bêbada. Tinha apenas
inalado o álcool etileno colorido que elas haviam
produzido durante a aula. Seguimos juntas pelo terreno
baldio ao lado da escola até finalmente encontrarmos
nosso ônibus.
Tarde demais, só restavam alguns lugares vagos
no fundo do ônibus. Mas não nos importamos; ainda
ríamos alto do estado ligeiramente alterado da Angelina,
que andava tropeçando pelo corredor.
“Iiiiiiiiii, essas aí tem problema. Coitadas!”, um
dos garotos comentou, antes de se jogar no banco atrás
do meu.
“Boa noite pra você também”, digo. Ele sorri sem
responder nada.
Pouco depois o motorista apaga as luzes. O sono,
no entanto, parecia ter abandonado nós quatro.
“Ravena!”, chamou Jessie, dois bancos atrás,
“Coloca uma música aí”.
Conhecendo a Jessie, não tive dúvidas de que ela
adora danceterias. Então, sem hesitar, abro minha
playlist e começo a buscar algo no estilo eletrônico «
exatamente como ela gosta » Meus dedos param em uma
faixa com o vocal melancólico, seguindo o meu próprio
estilo.
Ajoelho no banco e viro para trás, ficando com os
braços no encosto « Tiro o fone e In the Dark, da Jessica
Hart, começa a tocar no volume máximo.
Fecho os olhos, sentindo a batida. Ao abri-los,
vejo o contorno do nosso grupo com os braços para o alto,
dançando.
E porque não? Ninguém se incomodou com a
música. Vou dançar também.
“Só uma música, depois ficaremos quietos”,
penso. E começo a rir em seguida.
O dia seguinte
Uma ligação « foi o suficiente para arrastar de
volta ao presente sentimentos que, até então, vagavam à
deriva na minha memória. Junto com isso, uma raiva
crescente.
Aconteceu em questão de minutos. Mas o que
senti ao desligar foi ainda pior « confusão. Foi
desagradável o suficiente para desmantelar a calma que
eu lutei tanto para preservar.
Minha avó insistira para que eu atendesse um
telefonema. Segurei o celular de forma relutante. Então
corri para o quarto « uma reação racional. Precisava de
um lugar onde Carolina não pudesse ouvir, ou tentar
exercer algum tipo de pressão.
Estava com as mãos trêmulas, no fundo desejei
com força que a voz do outro lado não fosse a dele.
“Pronto?”, a pessoa diz do outro lado. Era minha
mãe.
Respiro fundo antes de dizer ,“Oi mãe”.
“As crianças estão”, começa. Porém, a
interrompi. Fiz isso antes que ela tivesse a chance de
continuar fingindo que estava tudo bem, e que não se
sentia nenhum pouco culpada.
Eu queria respostas. Precisava saber se por trás
de todo esse teatro ela sentia muito, ou se havia apenas
hipocrisia escancarada.
“Porque você foi embora daquele jeito”,
perguntei. Mas, aparentemente, ela entendeu errado.
“Filha, não vamos falar sobre isso”
“Não”, insisto, “Eu quero falar sobre”.
“Não há nada que falar sobre”.
“Mãe!”
Nada de respostas. Do outro lado só houve
silêncio. O puro nada. Uma situação tão incômoda e
difícil de descrever.
A amargura em minha voz era perceptível.
“Porque não me responde?”.
Minha mãe respira em pausas.
“Eu te ligo de boa vontade, e você atende apenas
para atacar o meu marido?!”, ela responde.
Tentei me conter mas foi praticamente
impossível. Engulo em seco. Marido!?
“Seu MARIDO?”
“Você sabe muito bem que ele nunca fez essas
coisas”, ouvi.
“Como você pode querer fugir disso?”, alterei a
voz. E o que ela falou em resposta simplesmente acabou
comigo.
“Quer falar sobre isso? Muito bem, vamos falar
sobre: você está insistindo nisso porque você é uma
narcisista que só pensa em si mesma. NARCISISTA.
Apenas pare de insistir. NÃO VÊ que seus irmãos estão
muito bem aqui?”
Minha resposta veio em meio a lágrimas, “Não
sou e nem estou sendo narcisista, mãe”. Desejei que algo
interferisse na linha e ela nunca mais pudesse ouvir
minha voz. Mas isso não aconteceu.
“E não tem nada de EGOCÊNTRICO em afirmar
o que estou afirmando, PORQUE É A VERDADE”, quase
gritei.
Ela apenas suspirou. “Além de tudo, agora está
ficando mentirosa”, disse.
“NÃO ESTOU MENTINDO!”
“Não te criei para ser assim, menina. Eu... NÃO
CONHEÇO MAIS VOCÊ!”
Naquele momento já tinha perdido a paciência e
não me importei em responder.
“Sou eu quem não te conhece mais!”, minha voz
era puro ódio por conta das coisas que ouvi. Acabei
desligando a ligação de forma abrupta.
Deixei uma mulher chorando do outro lado da
linha não sei a quantos quilômetros de distância «
simplesmente porque não compreendi ou talvez não
quisesse compreender » o ponto de vista dela.
Como poderia ela querer que eu continuasse
quieta apenas para evitar alvoroço? E onde eu fico nessa
história? Estava pensando em mim, pela primeira vez em
bastante tempo, mas a primeira coisa que ouço é como
sou egoísta.
Corro pelas escadas, descendo para entregar o
celular à minha avó.
“Eu sou ruim”, penso.
13H29
Arranco os fones e deixo a música tocar alto.
O som ao redor parece neutralizar a tristeza que
me invade pouco a pouco, junto com a sensação de estar
completamente só. As notas sussurram diretamente nos
meus ouvidos, alimentando ainda mais a euforia que
cresce com o ódio.
As lágrimas escorrem pelo meu rosto, e eu não
me culpo por simplesmente ficar olhando a árvore da rua
de cima, através da janela. É assim que me sinto hoje « e
não há nada de errado nisso.
Começo a cantar “Sozinha”, de Manu Gavassi.
Minha voz preenche o quarto.
“A gente ama até sangrar, até não dar mais para aguentar.
Eu te amo até o tempo apagar tudo o que você fez, eu te
amo até a vida mostrar que eu estava errada talvez. E o
silêncio nos mostra, mas ninguém parece ouvir. O
silêncio nos mostra o caminho a seguir. Sozinha com a
minha mente que não pára de mudar, eu nunca achei que
fosse gostar de estar só. Sozinha com meus sonhos que
não param de crescer, eu nunca achei que fosse entender
o que é estar só. Só sem você. A gente ama até esgotar, até
não ter o que salvar”
2017, fevereiro
Você já respirou o ar puro do interior?
Usualmente as manhãs são mais frescas do que as tardes.
O azul claro do céu está completamente
preenchido com nuvens de aspecto rosado « até o
horizonte » depois, os raios solares refletem feixes de luz
e tingem-as de amarelo. É neste momento que o céu fica
com cores pasteis. Levará um tempo até que o azul fique
forte e as nuvens brancas.
A brisa fresca deixa o ar menos denso. Isso é algo
que apenas a ausência de poluição pode proporcionar.
Observar essa cena é como contemplar uma tela de borda
infinita « é a natureza em sua plenitude.
Dear Diary, hoje acordei e fui atrás do meu avô.
Ele colocou o boné como de costume, pronto para
sair. Soltei um longo suspiro ao ver que o sol ainda estava
fraco.
“E o céu limpo, completamente livre dos
arranha-céus. É uma visão quase onírica”, penso.
Agora são nove horas e a cozinha cheira a café
recém moído, o aroma exala do saco de 15 kg
transparente em cima da pia. Dentro está o pó negro do
café, que a avó mandou torrar artesanalmente. Mais ao
lado alguns pães gratinados em cima de uma tábua de
frios e um pote de philadelphia.
Chamo a minha avó em voz alta « ela está
fumando no quintal. “Tem iogurte de frutas vermelhas na
geladeira”, responde, “E não se pendure na porta da
geladeira!”.
“Vou ir na casa com o vô”, digo, em seguida
equilibro uma fatia de pão entre os lábios enquanto abro
o armário atrás de uma xícara branca.
09H23
“Vô, vai alugar?”, pergunto.
Ele destranca o cadeado do portão e faz um gesto
com a mão, indicando que eu entre primeiro.
“É o que pretendo”, responde. Seu tom é
levemente ríspido.
Não penso muito em seu tom. O som do cadeado
já havia me levado para outro lugar « apenas à alguns
dias atrás, a garagem estava cheia. Agora, resta apenas o
vazio.
Meus pés avançam pelo piso escuro enquanto
meus olhos vagam pelas paredes claras. Os dedos
flutuam, quase instintivamente, por lugares onde antes
havia uma poluição visual constante.
Eu sei porque ele está aqui « meu avô faria o
serviço com as próprias mãos » avaliaria o que pintar,
onde e como pintar. Mas e eu, o que exatamente estou
fazendo aqui?
Me pego diante da lousa pintada diretamente na
parede. Tem algo escrito, percebo.
“A Deux é uma atoa. Ela não quer fazer nada, é
uma trouxa”, em letras garrafais.
É a caligrafia da Une.
Levo a mão ao bolso do moletom, meus dedos
tateiam algo quadrado e frio « uma câmera. Penso em
registrar os últimos vestígios deste lugar, antes que outra
família o ocupe. É por isso que eu estou aqui » para
guardar o que ainda restava de nós cinco. Inicio gravando
a letra da Une.
Meus passos eram vívidos, ou eu apenas
caminhava sem alma? Que apatia da minha parte.
A primeira imagem que a câmera captura é a de
uma parede roxa. Estou a poucos passos da porta da sala
« do lado oposto onde a parede é branca e tem três
mulheres africanas pintadas no alto. Não é difícil me
mover.
Viro a câmera para a direita, onde está a cozinha
e uma copa americana. A luz do sol entrando pela janela
na lateral banha todo o ambiente. E é para lá que sigo em
silêncio, sem dizer uma única palavra durante a gravação.
Paro na divisa entre a cozinha e a sala, e volto os
olhos para a parede onde costumava estar a televisão. Os
buracos ainda estão ali. E ao lado « o desenho de uma
árvore feito à mão » está em tamanho real, e seus galhos
retorcidos se projetam para o alto, caindo um pouco no
lado direito. As folhas são longas e atravessam o espaço
vazio onde um dia esteve uma TV. O desenho termina
perto do batente da porta que leva para o corredor. A
árvore está pintada em tons frios e neutros, apesar disso,
algumas folhas parecem vivas.
Ainda me lembro de quanto a desenhei. Apoiei a
escada na parede para subir os degraus, depois passei
bons minutos com o braço estendido e um lápis na mão.
Fiz algumas folhas secas, caindo curvadas, como se
flutuasse até o chão.
Passo pela porta e entro no corredor, filmando a
longa parede âmbar. Meu instinto é entrar no primeiro
cômodo, o meu quarto.
Está escuro, mas abro a janela para filmar os
desenhos na parede. Desenhei um balão voando alto. E
na parede oposta está o oceano, coexistindo no mesmo
espaço. Minha mãe pintou todos eles com tinta acrílica.
O segundo quarto também tem desenhos,
embora bem menores em comparação aos do anterior.
Abro a janela e deixo a claridade invadir o espaço,
revelando aos poucos os detalhes. Um girassol amarelo e
marrom ‘brota’ do chão, e à esquerda da janela, na
parede, tem uma coruja pintada de amarante pink «
empoleirada em um galho marrom acinzentado. O nome
dela é SHIVA.
O último quarto é o que menos desejo entrar. As
paredes são verdes em um tom claro de menta. Entrar
aqui me deixa aflita « é como se um pequeno incômodo
começasse a crescer dentro do estômago. E mariposas
empoeiradas subissem pelas minhas entranhas até
formarem um ninho na garganta, me engasgando com
todas as palavras que nunca foram ditas.
Dou meia-volta. “É sombrio voltar aqui”,
sussurro para mim mesma.
Meu avô está na lavanderia, pintando a
churrasqueira com um tom de bege claro. A casa tem
muitos cômodos, mas todos são pequenos « é rápido de
registrar com a câmera. Falta apenas um. O canto no
quartinho.
“Já tirou as tuas fotos?”, ele pergunta sem tirar os
olhos do pincel.
“Quase”, respondo.
Fui atingida por um turbilhão de emoções ao
entrar « aquele foi o último lugar da casa onde estive. E
minha saída, lembro bem, esteve longe de ser pacífica »
arrasto o corpo para dentro.
Há uma ausência. Sem as prateleiras e a
escrivaninha, a sensação que preenche o espaço é um
vazio incrivelmente denso. Tudo está limpo, exceto pelas
paredes, que tem frases escritas à mão.
Paro e contemplo o que meu eu de quinze anos
deixou ali. As palavras flutuam por todos os lugares,
feitas a lápis e em ângulos irregulares. A visão é
estranhamente coerente « Referências geek, fórmulas de
química, esboços de desenhos, trechos de livros, palavras
em japonês. Mas, o que mais chama atenção são as frases
soltas: os meus pensamentos.
Há a figura de uma garota com os braços abertos
segurando um guarda-chuva. As palavras estão curvadas,
sob o guarda-chuva, “Queria uma despedida digna de
mim mesma, para voar para longe sem perder nada do
que foi escrito”.
Estou virando para ir embora, quando a câmera
foca no interruptor de luz. Tem uma frase rabiscada nele,
“Escute o seu silêncio”
Do lado de fora, na parede lateral, ainda
permanecem formas geométricas. Lembro-me bem de
quando elas foram pintadas.
Minha mãe as fez sem nenhum esboço. Apenas
ela, seu avental preto manchado de tinta e a “Canção do
Swami Ram Tirtha” tocando na voz de Tomaz Lima.
É inexplicável. Parece que, por um instante, as
paredes poderiam se fechar « e você ficaria sem ar, como
se o espaço quisesse te engolir. Mas não sufoca, porque
isso não chega a acontecer. Ao contrário: a casa se
expande. Como numa explosão do Big Bang, tudo se
dilata para além dos limites visíveis, e o que resta é o
mais puro e branco dos cenários » um lugar desabitado,
sem presença viva alguma.
Apenas fico ali. Parada. Olhando o espelho
pregado na parede, a casa se reflete nele. Enquanto isso,
minha consciência mergulha em uma reflexão quase
subatômica « como se cada pensamento fosse um
fragmento invisível, pulsando nesse vazio pintado de
branco.
ANTICONFORMISMO E
INDIVÍDUO METAFÓRICO
Eu tento suportar essas mentiras. E isso é tudo o que
eu faço. Então, não negue. Não tente lutar contra, apenas lide
com isso. Essa é só uma parte. Se você estiver morta, ou ainda
viva, eu não me importo. Apenas vá e deixe tudo para trás.
Porque eu juro, não me importo. Eu tento fazer você ver o meu
lado, sempre tentando andar na linha. Mas você ignora… Estou
mudando tudo, porque você não vai estar lá por mim.
I DON'T CARE, Apocalyptica
2017, 08 de Março
“Não vou desistir de você”, estas foram as
palavras que enviei por SMS para Emma um mês atrás, e
que agora ecoam como uma mentira. Porque não fiz nada
contra a decisão dos meus avós.
A verdade é que mal consigo manter a minha
palavra. E Emma, do outro lado da tela, continua
nutrindo esperanças de que eu fuja para me encontrar
com ela.
No mês passado, ela simplesmente aceitou
continuar conversando só por mensagem, pensando que
a distância entre nós se dissiparia com o tempo. Mas essa
distância se transforma em um peso à medida que Emma
demonstra cada vez mais necessidades de me ter por
perto.
O que eu posso fazer com as cobranças da
Emma?
Meu avô pergunta aonde eu vou toda vez que saio
para andar de longboard... Mal completei 18 anos e ainda
vivo sob o teto deles… preciso respeitar as regras deles.
Mas isso é algo que Emma não entende.
“Você tem que se rebelar mais. É burra se não
fizer”,ela disse.
2017, 24 de Março
El pasado siempre encuentra la manera de
alcanzarte, sin importar cuánto intentes dejarlo atrás. Las
huellas de lo ocurrido permanecen y todavía duelen.
É frustrante não conseguir dormir sem que tudo
volte à cabeça, como um ciclo que não cessa. Tenho que
conviver com isso. E para dificultar, a família AINDA
questiona a veracidade dos fatos, como se a verdade fosse
algo indigesto, ou distante demais para realmente ter
acontecido com eles.
É como se a pele de todos fosse feita de cera, e eu
estivesse segurando um fósforo aceso. Eles podem
derreter a qualquer momento «mas mesmo assim,
preferem fingir que está tudo intacto» Devo esquecer
tudo o que aconteceu pelo bem da família, ou pelo menos
tentar esquecer.
Meus avós se perturbam quando tento mencionar
qualquer coisa. E Emma odeia esse tipo de coisa.
Uma vez Emma disse, “ACORDA, SENHORA
PERFEITINHA. Sua família materna não é melhor do
que a família de ninguém. Seus tios e tias-avós e primos
avós são uns hipócritas desfilando por aí com seus títulos
acadêmicos em sua casa de boneca impecável! Mas eu
tenho pena de você, se for se tornar uma deles. TENHO
PENA DE VOCÊ”.
Mas não importa o que ela disse; não preciso da
pena de ninguém.
21H
Peguei o celular da minha avó em cima do balcão,
a tela ainda piscando com uma notificação. Chegou
mensagem depois que ela subiu para dormir.
“Sou a primeira a ver isso?”, penso, tocando a tela
com os dedos para desbloquear.
O nome da irmã da avó aparece na tela. Em
seguida, o texto, “Seria melhor você prestar atenção nisso
quando a levar no psiquiatra”.
Algo em mim grita para que eu apague a
mensagem. Mas não faço isso. Apenas encaro a
notificação sem piscar.
Meus avós colocaram na cabeça que sou lésbica.
E agora, eles estão tentando consertar algo que parece
quebrado. A realidade está escancarada e isso doi. Não
apenas pela mensagem em si, mas porque os vizinhos
ficam insistindo para que meus avós me levem até uma
igreja « como se um pastor fosse exorcizar meus
demônios.
Que bom que, pelo menos, foram falar com a tia
antes de fazer isso. Ela é a pessoa mais cética que já
conheci.
Mas um psiquiatra? Isso é exagerado.
Por mais que machuque minha avó falar da filha
e dele como se nada tivesse acontecido, não estou louca
para precisar de um médico que indique medicamentos
controlados. Não posso julgar, entendo que meus avós
estejam com saudades das minhas irmãs. E minha
resistência em falar sobre eles é algo que incomoda. Eles
culpam até o meu envolvimento com a Emma, como se
ela tivesse causado tudo.
A verdade é que me sinto apenas infeliz com tudo
isso. Nada além. Não preciso de pastores, nem de
psiquiatras. Eu não consigo perdoar minha mãe por ter
me abandonado, há algo de errado nisso? Estou
cometendo perjúrio ao dizer essas palavras diante da
família toda?
Ela não significa mais nada na minha vida. Tudo
o que deixou foi uma substância negra e viscosa
inundando o meu peito.
Essa angústia me despedaça mais a cada dia «
Me deixa transparente demais para ser julgada, dá
carne aos ossos, está tudo exposto.
Amanhã estarei me preparando para sair e
encontrar a Emma. Fiquei curiosa « talvez até ansiosa »
para saber o que ela vai dizer sobre essa situação.
Já consigo imaginar o namorado dela lendo
minha mensagem e vindo me buscar na rua de baixo para
me deixar na casa dela. Não será difícil reconhecer o
carro « um Celta cinza, vidros abaixados e o som alto de
rock pesado preenchendo o ar.
2017, 30 de Março
Elas estão na minha cabeça, e no meu coração.
Estão sorrindo? AH. “Minhas irmãs não sorriem na
minha imaginação. Não consigo mais me lembrar de
como era seus sorrisos”, penso.
Estendo a mão e puxo a cortina vermelha presa à
janela do ônibus por um fio de náilon, depois, me encosto
no banco o máximo que consigo. Tentando parecer
invisível.
Como será que as crianças estão? Queria
«desesperadamente» que se lembrassem de mim como
uma pessoa boa. Mas será que eu mereço o amor delas?
Alguém tenta falar comigo, mas finjo não ouvir.
Não estou no clima de conversar. Vasculho minha lista de
reprodução no Google Play Music:
Nickelback, 3 Doors Down, Creed, Sonata
Arctica, Skillet, Simple Plan, Green Day, Jon Bon Jovi,
Evanescence, Eminem, Red Hot, AC/DC, Slipknot,
Metallica, Korn, Linkin Park, Aurora, Bauhaus, Joy
Division, Pitty, Zé Ramalho, Tribalistas, Guns N’ Roses,
O Rappa, SIA, James Young, Halsey, Daughter, Sleeping
At Last, Dean Lewis, Cage The Elephant, Imagine
Dragons, Amazarashi, Vancouver Sleep Clinic, The
Score, Sam Tinnesz, M83, The Moth and The Flame,
Flora Cash, The Heavy, Tom Odell, Seafret, Kongos,
AJR, Kaleo, Fleurie, Surf Curse, Neffex, The
Chainsmokers… e tantas outras bandas.
Mas não clico em nenhuma delas.
Fico ali, apenas deslizando o dedo pela tela,
incapaz de escolher o que ouvir além do silêncio dos
meus próprios fones desligados.
Uma sensação estranha de perda, e a nova
rotina
Não dá para dizer que minha vida é ruim, afinal,
tenho saúde « Mas não posso afirmar que as coisas
tenham sido maravilhosas. Honestamente, não consigo
mais achar graça em nada. E o que mais me confunde é
esse sentimento de tristeza insistente, mesmo quando,
financeiramente, as coisas estão estáveis.
Meus avós são muito bons comigo. Talvez por
isso eu me sinta tão culpada por estar triste. E essa culpa
me corroi por dentro. Doi tanto que, às vezes, mal
consigo respirar sem sentir algo entalado.
Dear Diary, ontem, alguém contou para a Emma
que me viu andando de longboard com outros amigos
meus. Ela não pensou duas vezes antes de jogar na minha
cara que eu ando me divertindo por aí, enquanto a deixo
de lado.
O que ela não sabe « e talvez nem queira saber »
é que, pra mim, fazer essas coisas do dia a dia já virou
algo automático e vazio. Mas não consigo explicar,
sempre que tento, a Emma transforma tudo em
escândalo.
Isso também é doloroso.
2017, Abril
Dor, inconformismo e raiva « são esses os
sentimentos que me fazem brigar com a minha avó. E,
depois do conflito, tudo o que resta são dois corações
pesados, inchados de mágoa.
Todo mundo carrega suas próprias dores, eu sei.
Mas, quando estou prestes a explodir, me recuso a
enxergar isso. O impulso toma conta, e é como se apenas
eu estivesse machucada.
Só que, há dois minutos atrás, eu não agi por
impulso. Pelo contrário: disse sim e abaixei a cabeça.
Minha avó sorriu. Porque, pela primeira vez, eu
havia aceitado receber ajuda. Não iria a um psiquiatra,
mas veria uma psicoterapeuta sexta-feira depois do
almoço.
Minha avó prepara um cozido de grão-de-bico
com batatas, cenouras, champignon, calabresa, azeitonas
e um pouco de hortelã. É um prato tradicional da região
onde minha avó nasceu, em seu país de origem.
O cheiro é bom e preenche a cozinha.
Caminho pela cozinha a tempo de ver, sobre a
pia, a salada de feijão branco e a de brócolis, organizadas
com capricho em duas travessas. Pensei em pegar um
brócolis, mas minha avó provavelmente daria um tapa na
minha mão se visse. Então dou meia volta e sigo até o
armário, procurando o esconderijo secreto dos
chocolates.
10H
Meus olhos no espelho não me encaram de volta
« continuo olhando ao redor, é um pouco nostálgico. A
estante de vidro, repleta de porta-retratos ornamentais
como o próprio espelho. Ao lado do lavabo, a cadeira em
miniatura estilo Luís XV, com palha italiana no encosto.
Mais adiante, uma cristaleira alta, feita de madeira
maciça, e um vaso de porcelana chinesa, imponente, com
rosas artificiais vermelho-amêndoa.
É nesse instante que o grito da minha avó corta o
ar, me chamando. Assustada, esbarro no vaso. Ele
balança, gira ligeiramente, e meu coração dispara. Meu
corpo reage no automático « corro para segurar a peça
antes que caia. Eu não deveria sair esbarrando nas coisas
da minha avó.
Meus avós construíram seu pequeno império com
anos de esforço físico. Ela foi a única entre as duas irmãs
a seguir os passos do pai « meu bisavô » que chegou a
este país e se tornou um grande negociador e feirante.
“Oqueêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêê?!”, respondo
gritando de volta, forçando a voz a sair enquanto apresso
o passo até a cozinha.
“É o aniversário duma amiga minha da feira!
Vem escrever no face. Põe aí aquelas flores de aniversário
que eu nunca sei onde se arranjam!”, minha avó diz assim
que me vê.
Meu avô passa atrás de mim com uma garrafa de
vinho que havia pegado da despensa e uma caneca de
alumínio nas mãos. Ambos tomariam juntos.
Acho que só me resta pegar um copo de vidro e
colocá-lo na mesa para o almoço « o meu copo.
Emma manda mensagem.
“O que fazes?”
“Vou beber suco”, respondo.
“AH”
Minha avó ter entendido minha resistência em
ser atendida por alguém daqui da cidade ajudou a aliviar
um pouco a tensão. Ela procurou alguém da capital. Mas
tudo o que sei é o nome e a idade « É uma senhora de
setenta anos, chamada Dora.
Sinto raiva das psicólogas que nasceram aqui,
nesse fim de mundo. Há poucas. E sim, posso afirmar
com certeza: nenhuma delas tem a experiência
necessária. Só não me pergunte como eu sei disso, Dear
Diary « você não se sentiria bem com a resposta.
Mas por que, afinal, aceitei ir agora? Talvez
porque eu me sentisse presa ao chão, como se raízes
invisíveis me mantivessem imobilizada.
A sensação que carrego dentro de mim é como
um veneno, lento e corrosivo. Por alguma razão, me sinto
fragmentada, espalhada em mil pedaços por todos os
cantos. E entre esses pedaços, também estava a parte
confiante. Até ela se perdeu.
Estive sozinha no quarto durante muito tempo,
cercada por uma consciência que gritava sem parar « e,
ainda assim, eu era incapaz de emitir qualquer som.
Porque?
Sexta-feira
Eu não queria ser julgada, rotulada ou tratada
como alguém fraca. Tudo o que desejo é ser ouvida com
empatia, ser compreendida e acolhida.
Não preciso que me digam para esquecer, como
se o passado pudesse ser simplesmente apagado. Preciso
de alguém que enxergue, de verdade, que fui uma vítima
« e que respeite o peso disso, sem tentar suavizar o outro
lado. Alguém que esteja, de fato, preparado para encarar
a realidade em sua forma mais crua.
É por isso que tenho expectativas quanto a Dora.
Meu avô nos trouxe até a casa dela. É uma
casinha simples, com um alpendre cheio de plantas e uma
janela de vitral opaca.
Atrás do vidro colorido, pendurada em algum
canto, uma borboleta azul vibrante chama a atenção de
quem observa da rua.
Poucos segundos depois do horário marcado, o
pequeno portão lateral do alpendre se abriu, e por ele
surgiu uma senhora de cabelos curtíssimos e brancos,
com olhos incrivelmente azuis, quase translúcidos «
Acompanhada por um cãozinho peludo.
Ela me olhou com um sorriso gentil, “Olá. Sua
avó avisou que hoje você viria”, disse. Su discurso iba
dirigido a mí, aunque mis abuelos estaban allí.
Algo que me hizo sentir cómodo.
“Por favor, entrem”, Dora continua.
Minha avó e eu somos guiadas por um corredor
sinuoso, conduzidas pela senhora até o que parece ser um
escritório.
Para minha surpresa, o interior da casa consegue
ser ainda mais encantador do que o lado de fora. As
paredes, em um tom suave de baunilha, estão cobertas
por plantas e conchas cuidadosamente dispostas. Sob
meus pés, uma sequência de tapetes indianos se estende
como uma trilha, cada um emendando no outro. As
portas vazadas do corredor « em forma de arco » são
adornadas com cortinas de macramê que balançam
suavemente.
Meus olhos se elevam, percorrendo os vasos com
plantas trepadeiras, almofadas coloridas espalhadas aqui
e ali, e algumas pilhas de livros que parecem ter sido
deixadas de propósito.
Paramos, por fim, diante de uma porta branca.
Espio o interior e vejo quadros nas paredes, todos com
cenas costeiras pintadas com delicadeza. Tudo ali era leve
e bonito.
Minha avó começa a perguntar sobre os
honorários, mas a senhora a interrompe com gentileza,
“Meu nome é Dora. Sou doutoranda em Psicologia”, ela
diz, se apresentando com um sorriso tranquilo,
“Recentemente estive em Buenos Aires para um
congresso”.
Minha avó provavelmente não se surpreendeu
com aquelas palavras « já estava acostumada com esse
tipo de coisa por causa de sua família.
Enquanto elas conversam sobre o motivo de
minha avó ter me levado até ali, minha atenção se perde.
Não escuto uma palavra. Meus olhos estão fixos em uma
das pinturas « era o mar.
As pinceladas de tinta se movem como as ondas «
vão e vêm, conduzindo o olhar até o topo da tela, onde
toda aquela água se desfaz no oceano. Um oceano
imenso, escuro, quase infinito no horizonte.
Dora desvia o olhar da minha vó por um instante.
“Gostou? Eu mesma que pintei”, diz.
“Ela estava me observando com o canto dos olhos
esse tempo todo?”, penso.
Ela se volta para minha avó com um sorriso
contido, “Então essa é a sua opinião sobre a Lia”, diz, a
voz seca, quase impessoal, “Obrigada por compartilhar
essas informações”.
“E você acha que algo pode ser feito?”, minha avó
pergunta.
E de novo não estou prestando atenção. As cenas
passam diante de mim como flashes « rápidas demais
para que eu consiga descrever.
“A terapia leva meses. E as consultas serão uma
vez por semana”, Dora diz, algum momento depois.
“Está ótimo”, minha avó concorda.
Em seguida ela levanta e acompanha minha avó
até a porta da frente, pedindo meia hora a sós comigo.
Dora está de volta, mas meus pensamentos estão
tão tumultuados que não notei quando chegou « Será que
o peso das palavras da minha vó definiriam o futuro
diagnóstico? O olhar sereno de Dora não revela isso,
como se a conversa anterior tivesse sido apenas mera
formalidade.
Em silêncio, ela caminha até a cadeira e se senta.
“Ainda está me observando”, penso.
Sou tomada pelo ímpeto de falar primeiro, “Acha
que estou quebrada?”, digo, a voz inesperadamente baixa.
“Não acredito que você esteja aqui por isso. Sua
avó pode não ter dado tanta importância, mas,
aconteceram mais coisas. Não é assim?”, ela responde.
Suspiro.
“Não vai dizer mais nada?”
“Querida”, Dora diz, “Sinta-se livre para falar”.
“Você acredita nessas coisas que aconteceram?
Acredita que não estou louca, e que aquelas coisas
aconteceram de verdade, Dora?”
“Basta que você acredite em si mesma. E
trabalharemos com o estrago que ficou aí dentro”, prendo
a respiração até ouvir a resposta.
COMO?? Estou boquiaberta.
Ela sorri, depois aponta os quadros atrás de mim.
“Vejo que gostou deles. Poderemos trabalhar com
pintura se quiser. Aquele que você estava olhando é o
meu favorito”, diz.
“Quero saber como estou”, admito « Como se,
pela primeira vez, eu realmente estivesse sendo sincera
comigo mesma.
“Vou explicar meu método de trabalho. Gosto de
iniciar utilizando uma abordagem Junguiana. Mas,
dependendo de como você reagir, posso partir para
Freud. As linhas que uso, vou vendo-as durante o
processo”, Dora diz, estendendo o braço até alcançar uma
caixa transparente, “Nos minutos restantes, vou aplicar
um teste. E na sexta-feira seguinte, começamos com base
nos resultados”.
Observo em silêncio, enquanto ela coloca uma
folha à minha frente.
“Essa pirâmide chama Pfister, e é um teste de
personalidade. É eficiente para ver o que está em conflito
dentro de você”, diz, “Você só tem que pegar as cores que
desejar e organizá-las dentro da pirâmide”.
2017, 10 de Abril
Ouço uma voz familiar, feminina.
“Não tenho visto… Ela está bem?”, havia sido
uma pergunta.
“E você se importa mesmo?”, Jessie responde.
Seu tom é bem seco.
“Ué… sim!”, era a voz de Micaela. Minha crush.
“O Dione veio hoje, Micaela?”, Jessie a alfineta,
mencionando o nome do cara com quem ela estava
saindo.
Escutar a conversa não foi minha intenção «
Instintivamente levo a mão ao peito, onde está o colar
com a Ágata rosa que Mica me deu.
“Estou esperando por ela”, ela responde no
mesmo tom que Jessie usara.
Aperto a pedra entre os dedos. Jessie percebeu
que há algo diferente em mim « e agora está me
protegendo. Sinto o peito inflar com orgulho.
“Jessie! Ela também é minha amiga”, o tom de
Micaela soa um pouco decepcionado.
“Não ligo”, Jessie retruca em seguida, “Quer
saber de uma coisa? Eu sei que sente falta dos cafunés
que ela fazia em você. Mas ela não fará mais isso, então
porque não aproveita e volta para o Dione?”.
Nesse momento levanto no banco tentando não
chamar muita atenção « Mas não consigo ouvir a
resposta. Abaixo o capuz sobre os olhos, desejando
apenas desaparecer.
Esperamos que o som se derrame pelos ouvidos e
inunde os pensamentos. Às vezes, demora mais do que
gostaríamos « mas sempre acreditamos, com uma fé
quase cega, que há algum tipo de poder de teletransporte
nos fones de ouvido.
Esse poder não parece funcionar agora.
As luzes do ônibus já se apagaram, depois as
pessoas ficaram em silêncio, cada uma imersa em suas
próprias preocupações « e eu, afundada no meu vazio
particular. Meu corpo parecendo uma casca oca, sem a
alma dentro.
Algo está errado. O ar que entra nos meus
pulmões não deveria doer tanto. Queria poder arrancar a
pele do peito só para fazê-lo parar de ‘doer’.
Estou quase derretendo no banco. Mas fecho os
olhos, tentando me concentrar na música. “Help, I have
done it again”.
2017, 13 de Abril
Paro diante da porta aberta e observo meu quarto
« e o jeito que tenho deixado ultimamente « alguns livros
estão empilhados sobre o baú, roupas largadas no
cabideiro e sapatos empurrados para debaixo das camas.
Reconheço que essa bagunça faz parte de mim agora.
Entro com um suspiro, e depois vou até o
banheiro.
As roupas largadas não significam nada perto do
que venho deixando largado « por dentro. As pessoas
insistem em decidir minha sexualidade por mim, até a
Emma; Mas isso foi algo que eu não tinha parado para
pensar, até agora.
Querer voltar atrás parece até preconceituoso.
Mas talvez seja necessário. Quando foi que comecei a
gostar da Emma? Quando foi que achei a Micaela bonita?
Porque não sou mais aquela garota que cantava
Wish You Were Here, da Avril Lavigne, enquanto pensava
nos próprios sentimentos. Tenho que tentar reunir as
peças e colocá-las no lugar certo.
Sinto nojo dos meninos, e não sei o que eu sou.
Mas, tem algo de errado comigo? Emma sempre se
irritava quando olhavam para mim primeiro « e só depois
para ela. Mas nunca percebeu que, mesmo sendo vista
por último, era ela quem tinha um namorado. Mesmo
sendo gorda, ela foi a primeira a ser escolhida.
O que Emma sempre ouvia das pessoas era como
a amiga dela, eu, parecia uma barbie. Mas ela nunca
escutou o que realmente importava « o meu lamento
silencioso. Por dentro eu me sentia quebrada » Não era
legal ouvir que eu poderia ter quantos caras quisesse,
como se isso fosse um privilégio. Mas Emma achava legal,
como se ser desejada anulasse qualquer conflito interno
sobre mim mesma.
E não tinha problema se fulano fosse gay, as
pessoas aceitavam. Mas eu? Eu não poderia, porque seria
um desperdício de beleza, eles diziam… Como se minha
aparência pertencesse a um destino predefinido.
“Como se eu devesse algo a alguém”, penso.
Os olhos de Emma sempre brilharam com essa
ideia de ter um destino popular.
2017, 08 de Maio
O correio finalmente chegou. Emma parece mais
ansiosa e eufórica do que eu « depois de ter me
convencido a comprar um livro na Saraiva.
Minha avó me chamou na escada para me
entregar o pacote. Apenas sorri, depois subi correndo até
o quarto enquanto derrapava no chão por causa das
meias.
A capa é preta com letras brancas no título « O
mundo imaginário de » Virando a primeira página, há
uma frase na falsa folha de rosto, “Em que tipo de mundo
você gostaria de viver?”.
“Porque estou comprando isso, Emma?”
“Porque quero escrever uma fanfic, e seria legal
se você também fizesse”, ela respondeu.
E agora o livro está aqui. Ela vai surtar quando
souber que chegou. Mas farei diferente, porque não
pretendo contar histórias através de palavras.
Abro em uma parte aleatória « página XXIII » e
começo a desenhar. Arte moderna, muros de concreto
queimado, elementos rústicos misturados com traços
futuristas. Pouco depois, vejo nascer um bonsai em meio
ao concreto.
Quando sacrificamos algo, esse algo
simplesmente deixa de existir. É o que venho repetindo
para mim mesma.
“Já me sacrifiquei o suficiente « e agora, estou
morta”, penso. Minha mãe escolheu me esquecer para
que meus irmãos pudessem viver.
Então, o que será que meus desenhos vão
esconder entre as páginas deste livro?
2017, 23 de Maio
Meu celular tocou cinco vezes antes que a
campainha soasse uma única vez. Seguro o interfone, e
uma voz irrompe do outro lado, “Oi! O que aconteceu?
Tentei falar com você a manhã inteira!”.
É o Amon, um dos meus amigos « E o motivo do
ciúmes da Emma. Decido ir, porque existir sendo eu
mesma parecia ser menos doloroso do que continuar
vagando entre o vazio entediante e as perguntas sem
resposta.
Ele olhou para trás com cuidado antes de tirar
um juriti do bolso e acendê-lo. Isso porque meus avós não
podem saber que ando com pessoas como ele.
Amon é três anos mais novo do que eu, e mora na
rua de cima. Lara, nossa amiga em comum, nos esperava
sentada no sofá, um cigarro aceso entre os lábios.
Ela traga e depois solta « a fumaça desenha
círculos no ar à sua frente. “Aprendi a fazer isso hoje”,
diz.
“Não vai arrastar ela pra isso não”, Amon fala ao
observar o braço estendido de Lara na minha direção. Ela
dá de ombros e depois volta a fumar.
Em seguida, ele tira um colar do pescoço e me
entrega. Noto o peso assim que o pego.
“É egipcio”, digo, olhando o busto de Cleópatra
esculpido em ferro.
“É, isso me lembrou de você”, Amon responde.
Éramos amigos há tempo suficiente para que ele
fizesse algo como isso. Então aceito o presente.
Estamos todos na mesma sintonia aqui e agora?
Sinto como se nós três estivéssemos nos movendo à base
de gasolina « inflamáveis e prontos a explodir a qualquer
momento.
“Combinava com a sua pele negra, linda e cheia
de brilho”, respondo, rindo, enquanto aperto o colar entre
os dedos.
“É, combinava mesmo. Acho que vou descolorir a
barba para ficar loira. O que acha?”.
Lara se levanta do sofá e envolve nossos ombros
com os braços, “Que colar doido! Irado!!”, diz.
“Hey, me empresta seu celular?”, Amon olha para
mim. Imediatamente respondo sim e ele procura uma
música na minha playlist.
Toca Cigarette Daydreams, do Cage The
Elephant.
Amon e eu fechamos os olhos, cantarolando a
melodia, enquanto Lara se perde mais uma vez nos
círculos de fumaça.
Imparcialidade não existe em certos assuntos, a
menos que você seja uma máquina. E não estamos
falando de máquinas aqui.
Estamos falando sobre se você me vê como uma
pessoa responsável para a idade, ou como uma garota
emocionalmente instável. Na verdade, na maioria das
vezes essas são as únicas duas opções que as pessoas
parecem ver.
Dora, disse que há um pouco dos dois « começo a
lembrar » Porque, no fim das contas, não existem apenas
duas formas de ver.
Eu sou, sim, responsável pela minha mente.
Sentir tristeza e raiva é inevitável. Mas reagir a isso...
reagir é outra coisa. E reagi bem ao escolher sair de casa
hoje.
Já vi o resultado do teste de Pfister.
Ela observou a sequência de cores que escolhi
montar. Foram cores claras ao lado de cores escuras.
Formando uma fileira de tons claros e radiantes, depois
tons sombrios e assim por diante. Como uma colcha de
retalhos.
Ela falou que as claras eram resistência
«tentativas inconscientes de interromper a escuridão.
Mas, com a pausa dessas cores, seguindo-se por tons
escuros» está claro que meus sentimentos estão
fragmentados. Espalhados como as folhas de uma árvore
que se desprendem no outono. Essa metáfora é minha.
Na pirâmide, ficou claro que tenho tentado
assumir o controle do que sinto, e de como isso me afeta
« mas não consigo. Porque estou quebrada por dentro.
O conselho dela quanto a isso foi, “Você precisa
cuidar disso, ou vai acabar explodindo, e se fragmentando
ainda mais”.
“Ninguém ajudaria a recolher meus cacos por aí”,
penso com amargura.
Consultório
Comentei que muita gente espera que eu
simplesmente esqueça e aja normalmente. Porque
passado é passado. Até mesmo uma psicóloga, colega da
minha mãe, disse isso ao oferecer apoio moral.
Mas é exatamente por isso que as consultas com
Dora têm feito a diferença. Ela não pensa assim.
Dora acredita que seguir em frente só é possível
depois que a gente aprende a se perdoar « e entende, de
verdade, que não existe culpa onde procuramos por ela.
Dora disse, “Se você apenas esquecesse, não
poderia enfrentar o que mais te provoca medo. Reviver é
um processo, por mais doloroso que seja”.
Penso em tudo isso enquanto a cumprimento
hoje.
Logo se senta na cadeira giratória e liga o
computador da Apple sobre a escrivaninha. Depois de
alguns cliques, encontra um PDF entre os arquivos e vira
a tela na minha direção.
Era um livro infantil com a capa azul escuro « O
Pássaro da Alma.
“Cada gaveta guarda uma emoção. Este é o
pássaro”, começa a ler, com a voz suave, “Quando alguém
nos magoa, o pássaro agita-se para lá e para cá, em todos
os sentidos do nosso corpo. Ele sofre muito”.
“Porque está me mostrando isso?”, questiono.
Ela balança as mãos no ar, “Gosto muito dele,
mas nunca mostrei para pacientes. Exige um certo nível
de consciência sobre o que estamos fazendo, e você
parece tê-la”.
Consciência. Essa palavra me lembra o
Universo.
Dora então contínua, “É comum que vítimas
desse tipo de abuso fiquem confusas. Porém, você mostra
que conhece o que aconteceu e o que está acontecendo ao
seu redor. Nunca vi alguém refletir assim antes, o seu
raciocínio deveria estar desordenado, mas ele parece
claro. Então, o meu trabalho já está meio caminho
andado”.
Franzo as sobrancelhas.
“Bom, vamos começar por hoje?”
“A base é a família, Lia…..”
Minha angústia está na minha família. E bastou
uma única frase para que eu percebesse: eu não os odeio.
O que eu odeio é a reação que escolheram ter.
A forma como decidiram me enterrar viva,
mesmo enquanto eu ainda respiro.
Não precisei revisitar o passado para entender o
que sinto agora « o presente já fala alto demais. Por que
me sinto magoada? É porque a minha versão mais atual
foi machucada da forma mais perversa e insensível
possível.
Pelo que compreendi, agora só me resta trabalhar
no rombo que deixaram. No vazio que ficou onde deveria
haver acolhimento e não houve.
O ELEFANTE NA SALA
Você é louco como eu? Esteve sofrendo como eu?
Comprou um champagne de cem dólares como eu? Só para
despejar o filho da puta pelo ralo como eu? Você usaria a sua
conta de água para secar a mancha como eu? As pessoas
sussurram sobre você no trem, como eu? Dizendo que você não
deveria desperdiçar o seu rosto bonito, como eu? E todos
dizem, você não pode acordar, isso não é um sonho. Você é
parte de uma máquina, você não é um ser humano. Com a
auto-estima baixa, então você funciona com gasolina. Oh, Oh,
Oh, acho que há uma falha no meu código.
GASOLINE, Halsey
2017, Maio
“Olá. Pode me chamar de Zero. Porque eu fui o
início de tudo” « lembra dessas palavras? Você
testemunhou um ano ruim. Mas, conseguiu me conhecer?
Será que agora é capaz de fazer os mesmos
questionamentos que eu?
Será que minha mãe realmente sente muito?
Pelo celular parecia sentir minha falta «isso ficou
claro» Mas não sei se ela se lamenta de verdade por ter
ido embora. Queria poder deixar esse peso para trás, o
peso de saber que ela escolheu acreditar nele e não na
própria filha.
Talvez ela tenha feito isso pelo bem dos meus
irmãos, que são novos demais para ficar sem a figura
paterna. Mas não foi justo comigo. Apesar disso, todos
merecem uma segunda chance « assim como as crianças
merecem crescer longe do meu ‘segredo’.
A dor não passou, apenas aprendi a conviver com
ela. O único eco que ainda ressoa aqui dentro é o da
minha mãe, dizendo como a mudança foi boa para as
minhas irmãs.
Na primeira semana na casa da minha avó, não
saía da minha cabeça o pensamento, “Como ela pode
defender o Caim, e ainda dizer que eu não sei o que é
sofrer « porque não sou uma das crianças no hospital do
câncer”. Quando o assunto vinha à tona, ela só citava
umas passagens banais do Kardec, como se fossem
suficientes para manter a paz.
Mas não penso mais sobre isso.
Ainda que digam que o que acontece, é porque era
para ser assim. Parecia que a maturidade poderia ter evitado
isso, então vinha a culpa, o remorso. Mas com o tempo não
importou mais o que era certo ou errado. Afinal, de qualquer
forma aconteceu. Era isso. E, nessa história toda, uma coisa
parece certa: estava cada vez mais perto de ser o que eu
deveria.
- Autor desconhecido
2017, primeiro de Junho
Passei a abrir os olhos no meio da noite. Era
sempre a mesma escolha « ou os fechava de novo e
deixava as coisas ruins invadirem minha mente, ou ficava
ali, encarando o vazio.
É como se eu estivesse me torturando sem parar
« em silêncio, sem que ninguém percebesse. Ninguém
nota que não estar bem também é uma forma de estar. Só
eu percebo isso. Mas ainda não sei como lidar com essa
verdade sem desejar ir embora e recomeçar de novo.
Já faz um mês que venho mentindo para mim
mesma, repetindo que está tudo bem ir embora para a
capital. Mas a verdade é que não fiz nada para tornar isso
real.
“Não mandei mensagem para o meu pai”, penso.
E começo a digitar o número na aba de pesquisas do
WhatsApp.
“Pai, quero ir embora. Vem me buscar?”
A resposta chega algum tempo depois, “Hmm,
tá”.
19H21
Estou lendo uma mensagem do Jonatan para
saber se fiz a escolha certa. Porque estou lendo uma
mensagem do Jonatan para saber se fiz a escolha certa?!
A mensagem diz, “Quem liga para os termos,
pequena. A essa altura, nada mais importa. Se eu fosse
você, e tivesse medo da resposta, não faria perguntas”.
19H22
Jonatan me chama de novo por chamada de voz e
eu ignoro. Prefiro o som da chuva batendo contra o vidro
da janela.
Queria ir até ela, mas estou limitada a deitar de
bruços na cama, onde não irei me molhar. Dá menos
trabalho do que atravessar o andar de cima deixando um
rastro de água pelo chão.
Jonatan está em meus pensamentos como uma
sombra. Talvez a sombra da pessoa que eu costumava ser
aos olhos dele.
“Nossa escuridão é perigosa juntas”, penso.
Meu celular vibra de novo. Agora com uma
mensagem, “E o silêncio atravessou o domingo de sol”. É
o jeito dele de dizer que estou dando vácuo.
“Enigmático pra caralho”, penso.
Você quer saber como ele é? Se eu tivesse que
definir, diria que é o Sora de No Game No Life « a
personalidade encaixa perfeitamente. Mas para além do
humor estratégico, Jonatan « cinco anos mais velho do
que eu » tem uma estética de Dark Romance. Não sei se é
proposital, mas definitivamente não combina com o seu
discurso de jovem místico. Talvez ele seja um mago, e eu
não saiba.
Está sempre vestido de preto, o que só acentua o
ar sinistro. Sua pele negra praticamente se funde com o
tom escuro da blusa de frio « sem nenhum contraste,
como se ele mesmo fosse uma sombra andando por aí.
“Tão enigmático quando seu bordão”, começo a
rir, lembrando das palavras que ele sempre diz ao me ver,
“Eu sou você e você sou eu”. É um elo mental para
continuarmos em sintonia.
Dear Diary, não me pergunte « não sei nada
sobre. Assim como não faço ideia do que são as runas
entalhadas nas coisas dele.
Chega outra mensagem, “O que está fazendo,
queridinha da vovó? Já não acha que está na hora de sair
do quarto?”
Nunca parei de verdade para pensar em como
nos conhecemos. E, olhando agora, foi tudo bem
estranho.
Ele me segurou pelo braço no corredor, como se
tivesse me elegido entre a multidão que saía para o
intervalo. O toque gerou uma espécie de choque em nós,
mas foi Jonatan quem se soltou primeiro.
E quando finalmente falou, as palavras saíram
quase no automático, “Vejo a sua aura, Ravena. Campo
energético ou essência pessoal « chame isso como quiser.
Estive observando por uma semana e não houve oscilação
na tonalidade. Então precisei verificar de perto. Sua aura
violeta é bem rara entre as demais pessoas. Você é
interessante garota, o que pode tornar as coisas
divertidas para mim”.
O fato de Jonatan ter sido tão transparente
comigo, agora me fez lembrar das nossas conversas sob
a árvore da escola.
“Qual é a da sua fascinação por bardos e magia?”,
perguntei.
“Não sei”
“Acho interessante, Jonatan. Mas sei que se fosse
me responder de verdade, não seria muito pé no chão”
“Nada neste mundo é, se olhar através do véu”,
ele rebateu, “Enfim. Ser o que os outros querem que você
seja é chato, pequena. Então seja você mesma”.
O vento soprava em meu rosto naquele momento,
o que me fez « por alguma razão » estender os braços e
girar com a cabeça para trás, observando as estrelas.
“Agora está parecendo meu pai falando”, eu
disse.
“Mas não está certo? Todos parecem estar
fugindo de alguma coisa, mas você não precisa fugir.
Portanto, seja aquilo que precisa ser no momento e
pronto”
“É complicado…”, murmurei.
Ele riu.
“Se me perguntasse o que eu sou, te diria que é
complicado. Exatamente como essa sua resposta”,
Jonatan se inclinou para frente, mantendo os olhos fixos
nos meus, “Mas não agora. Agora sou você e você sou eu”,
ele sorri ao pronunciar seu clássico bordão.
“Animador esse tipo de conversa”, comentei com
certa ironia.
“Me mostre seu melhor ânimo”, ele provocou.
Suspirei.
“O problema é que não me sinto animada nem
para escrever. E posso acabar explodindo por causa
disso”, brinquei.
“Um tipo de fuga?”
“Acho que sim”
Ele balançou a cabeça, “Então escreva para mim.
Vamos ver o que sai”.
2017, 06 de Junho
Minha avó comentou que minha mãe está
pensando em voltar para a cidade. A minha parte de boa
aceita « mas a parte racional, não. Não sei se estou
preparada para ver o Caim. Perdoar alguém é diferente de
perdoar o que essa pessoa fez « ou permitiu acontecer.
Não posso simplesmente apagar o desprezo que
sinto pelo meu padrasto. Ficar frente a frente com ele «
ainda que pelo bem da minha mãe » seria, de certa forma,
fingir que o perigo que ele representa nunca existiu.
O que ele causou ainda vive em mim. Não
apenas nas memórias, mas na forma como o corpo
paralisa quando certos assuntos vêm à tona.
Algumas lembranças me dão falta de ar e me
fazem querer arrancar o próprio peito porque ele parece
estar em chamas. E agora eu sei « Caim me fez sentir
vergonha de quem eu era » E o pior, me fez duvidar de
quem eu poderia ser.
Quando minha mãe fala sobre ele, parece não
enxergar quem ele realmente é, ou talvez se recuse a ver.
Enquanto isso, ele segue ultrapassando todos os limites
morais possíveis.
É verdade que o Caim estragou tudo. Uma coisa
ruim «quando grave» é o suficiente para apagar todo o
resto.
Todo o resto que ela vem tentando me fazer ver.
Dear Diary, durante três « quatro anos, Caim foi
alguém realmente bom para mim. Minha mãe me pediu
para lembrar. Mas porque eu deveria? Ele só fez isso por
interesse próprio.
Arremessada ao passado
2015, 27 de Março - 16H30
Vamos passar o fim de semana na ‘Chácara do
Evaristo’, em uma cidade a cerca de uma hora de
distância. Caim me deixou levar uma amiga.
Eles vão de caminhonete. Eu, por outro lado, vou
viver uma aventura. Lara e eu vamos de ônibus « Passar
o fim de semana em alguma chácara já tinha virado
rotina, mas era a primeira vez que íamos a uma tão
grande. E tão longe.
Dobro minha calça legging marrom de montaria
na altura dos tornozelos, enquanto olho no espelho o
resto das roupas « um All Star surrado e o vestido curto e
solto. Lara escolheu vestir algo para estarmos na mesma
vibe » uma saia indiana marrom com costuras brancas,
uma regata bege com rendas nas alças, jaqueta jeans
preta e sapatilhas da mesma cor.
“Já está pronta? Vamos nos atrasar”, digo.
Ouvimos Só Agradece, da Marina Peralta pelo
caminho. Enquanto isso, Lara sacou um maço de cigarros
de menta do bolso da jaqueta « eles são negros com
detalhes em verde prateado.
Ela tragou duas vezes antes de esticar o braço e
me oferecer um. Peguei, colocando entre o indicador e o
dedo médio, levei aos lábios e aspirei devagar.
“A postura de quem fuma de verdade, é entre o
indicador e o polegar. Você fuma como uma madame”,
disse, divertida.
Soltei o ar, tossindo. Não soube o que fazer com a
fumaça que ficou presa na boca « nunca tive o hábito de
fumar. Diferente de Emma, que sempre dizia ter
curiosidade, eu nunca senti vontade.
O cigarro passou por nossas mãos mais duas
vezes antes de o ônibus chegar.
“Isso deixa um gosto mentoso na boca”, penso.
“Putz, tem certeza de que sabe qual circular a
gente pega? Ou vamos ter que ligar pro Bolonha?”, Lara
perguntou, se referindo ao Caim.
“Sim e não. Hey, olha uma loja de camisetas de
rock bem ali”, apontei para o lugar metros à nossa frente.
18h15. O terminal parecia uma pequena lata de
sardinha « com pessoas e malas cruzando o caminho
umas das outras. Seja lá qual fosse a preocupação da
minha amiga, não era a minha. Já tinha enfrentado
transportes públicos em lugares muito mais lotados.
Então, apenas sorri.
“Com certeza quero comprar algo de lá, o Caim
deu duzentos reais pra gente gastar no caminho”, digo.
“Estamos perdidas quanto ao horário”, Lara falou
depois de um tempo, “E eu acabei de passar por uma loira
peituda com uma mala rosa-choque”.
Levantei os olhos. Enquanto ela continuava
falando, “Ela tem cara de quem rasgaria a mala inteira só
pra ter uma desculpa pra comprar outra”
“Pelo menos os sapatos são legais”, respondo.
Caímos na risada.
“Ca-ra-ca véi, será que eu pego um ônibus ou
compro uma goiaba?”, estava cantarolando no meio fio
enquanto uma chuva torrencial molhava nossos cabelos,
grudando-os a testa.
Poucos segundos depois, começamos a ler os
letreiros dos ônibus que passam um atrás do outro:
“Aquele ali vai para onde Judas perdeu as botas”
“Não saímos do fim do mundo para ver Judas
com meias de coraçãozinho”
“Talvez o próximo ônibus vá para onde ele deixa
as meias”
“Verdade, e depois disso não tem como ir mais
longe”
Lara olha para trás, depois para frente « para
mim. Movendo discretamente os lábios, “Será que o
Takanomuro ali vai nos ouvir?”.
“Pensa que legal, só que não”, respondo, olhando
para a direção que ela aponta.
Como se minha resposta tivesse sido um sinal de
aprovação, Lara faz uma ‘imitação’ do senhor asiático, “Xi
xi xi xi xi xi xi xi xi ti”.
Caímos na risada, dessa vez sem disfarçar « como
duas garotas que não ligam para os olhares alheios. E
meia dúzia de pessoas no ponto olham para nós.
Después de un largo viaje en autobús y taxi,
finalmente encontramos la S10 de Caín esperándonos. La
noche ya había caído.
Saltamos antes mesmo dos pneus tocarem as
pedrinhas da entrada. Depois da porteira, havia uma
longa alameda gramada trilhando o caminho até a casa.
Passamos por ela correndo. E, embora já estivesse bem
escuro, a vista ao redor era linda « Campos abertos de
ambos os lados da trilha, uma quadra de beach voley, um
salão com churrasqueira e duas piscinas enormes.
“Essa é a chácara??”, exclamamos em uníssono.
Ela parece estar encantada com a casa « Uma
imponente construção colonial de teto baixo e alpendres
laterais. Palmeiras imperiais e postes com luminárias
decoram a entrada, localizada a poucos metros da piscina
principal.
Estava olhando o céu quando ouvi passos atrás de
mim e virei, Quatre saltou para o meu colo assim que
nossos olhos se encontraram.
“Irmã chegou!”
“Sim, cheguei. Pequeno príncipe”, respondo com
um sorriso nos lábios.
20H50
Lara acendeu a luz do quarto onde ficaríamos
«era vermelha» a claridade varreu o chão, revelando
beliches altos e uma enorme janela redonda com grades.
“Onde você vai dormir?”, ela pergunta em
seguida, largando o celular em um dos beliches, pronta
para subir a escada. Depois senta na cama, observando
tudo lá de cima, “Este lugar tem uma vibe estranha,
lembra um sanatório”.
“Talvez eu escreva um livro sobre isso”, respondo
rindo. As paredes e o chão são revestidos com o mesmo
piso. Horizontes do Delírio « seria um bom nome para o
livro, refleti enquanto fitava o teto.
Tiro a camiseta e visto a parte de cima do biquíni.
“Melhor você não colocar o pijama ainda, vamos
dar um mergulho na piscina”, digo.
Ela ergue as sobrancelhas, “Tipo AGORA?”.
“Sim, AGORA”
Lara pula do beliche, “Topo totalmente”.
21H
“Pai”, sussurro, tentando não acordar as crianças
dormindo na sala, “Vamos lá fora”.
Ele pisca, então diz, “Boa diversão, meninas”.
Do lado de fora, a escuridão nos obriga a tatear
até a caminhonete em busca de uma lanterna. A porta
emite um clique, em seguida a luz fraca do painel se
acende. Revistamos o porta-luvas, mas ele está vazio.
Lara diz algo sobre aquele lugar parecer um jogo,
então corre às cegas até a piscina e encontra o interruptor
dos holofotes. Rapidamente as luzes iluminam a
gigantesca piscina com água cristalina.
O azul turquesa me atraía de longe. Convidativo
demais para ficar apenas olhando. Corri até a borda e
saltei, enquanto minha amiga descia as escadas uma por
uma.
As silhuetas da vegetação na água desaparecem
quando mergulho. Prendo a respiração e vou até o fundo.
Acima de mim, o mundo pairava, distorcido, como se a
realidade estivesse distante. Logo volto à superfície,
ofegante, puxando o ar com força e expelindo água pelo
nariz.
Lara pula comigo dessa vez. Dou um mortal,
enquanto ela segura os joelhos. Algo, talvez barulhento
demais « Une está na janela, com o rosto contra as
grades.
“Também quero ir!”, a garotinha resmunga. Nos
abaixamos na água, tentando não fazer barulho,
enquanto isso, Caim repreendeu Une.
Ali não existiu tristeza. Estas são as memórias
boas. Mas o passado não pode mudar o que aconteceu no
presente. Ele foi capaz de fazer o que fez com alguém a
quem chama de filha.
Estou confusa, Diary. Simplesmente não sei o
que sentir. O Caim me fez acreditar em um belo conto de
fadas. Isso é bem cruel.
2017, 07 de Junho
Sentia falta das minhas irmãs como quem sente
que deixou uma parte de si mesmo em outro lugar. O que
restava delas eram apenas nomes « nomes que, sem
presença, pareciam vazios. Elas haviam partido sem que
eu pudesse me despedir direito. Não foi uma escolha,
simplesmente aconteceu.
A saudade tem esse estranho efeito de nos fazer
murmurar desejos em voz alta. Minha avó estava por
perto quando me ouviu murmurar os nomes das minhas
irmãs.
Ela ligou para minha mãe logo em seguida e
pediu para que eu pudesse falar com as crianças. Ouço
um alô bem acentuado, era Deux.
Gritei seu nome, tentando distinguir minha
própria voz da bagunça que estava no fundo. A garotinha
pergunta porque, enquanto Trois começa a chorar.
O lugar onde estavam, como viviam... tudo era
um mistério para mim agora.
“O que está fazendo?”, pergunto.
“Eu? Nada! Quer falar com a Une? A Une quer
falar com você”
As palavras pareciam ter um poder magnético «
segundos depois Une toma o telefone, brigando com
Deux, “Sai! Quero falar com a irmã primeiro”.
Trois ainda gritava ao fundo, e Quatre agora fazia
perguntas em um tom que oscilava entre confusão e
curiosidade. Mas tudo parecia estar longe, como ecos de
um mundo que não era mais o meu.
“Oiiii”, Une diz animada, “Sabe aquela calça que
não me servia??”
“Sei”, respondo.
“Agora serve!”
“Você deve ter crescido”, Comentei, tentando
controlar minha voz para não parecer que estava prestes
a chorar « A ausência delas era uma lembrança dolorosa,
uma vida em família que já não existia mais » Será que
ainda se lembravam de mim?
Não sei mais se minha decisão de não ir foi
egoísta com elas. De qualquer forma, agora estou sozinha
aqui « com o silêncio que tanto almejei no passado.
Dear Diary, parece que carrego um peso sobre os
ombros e, por causa disso, a cada dia perco a noção de
quem sou. O que posso fazer? Será que estou sendo um
peso para os meus avós também? Estou parada a alguns
meses, sem fazer nada útil para ninguém « seja para
mim, ou para eles.
Queria conversar com a Dora sobre a sensação de
que minhas gavetas mentais estão vazias. Onde está a
pessoa que eu era? Não consigo mais ver o conteúdo
dessas gavetas.
Sim, estou falando de The Soul Bird.
Sinto como se meu corpo fosse feito de flores «
algo belo e que se desmancha com facilidade » Isso me
assusta como se o vento fosse capaz de soprar e revelar
tudo o que há dentro.
Já fazia mais de uma semana que eu mantinha o
capuz cobrindo o rosto durante as aulas no curso técnico
« como uma armadura contra o mundo.
“Esse humor pra baixo camufla toda a
personalidade dela”, ouvi o Roberto murmurar para a
Silvia quando passei por eles no corredor.
E doeu porque era verdade. Assim como as
palavras de Dora, ao dizer que eu havia entrado em um
quadro de dissociação.
2017, 13 de Junho
Por que estamos parados dentro do carro? É uma
pergunta irritante. À primeira vista parece simples « mas,
no fundo, não é » Talvez você também desejasse
desaparecer se estivesse no meu lugar.
Por mais forte que eu tente ser, a verdade é que
ninguém permanece inabalável para sempre.
Tenho repetido para mim mesma que está tudo
bem estar aqui. Está tudo bem porque não vou morrer.
“Eu não vou morrer. Não vou morrer. Não vou
morrer. Não vou morrer. Não vou morrer se colocar os
pés fora do carro”, penso.
Uma hora atrás, eu tinha acabado de receber a
notícia de que visitaríamos minha mãe na cidade onde ela
está. O sol brilhava lá fora, mas vesti um moletom,
fechando o zíper até o pescoço « não queria deixar
nenhuma parte do corpo exposta.
Minha avó insistiu para que eu fosse com eles.
“Não é nada demais”, ela disse. Mas, para mim,
era um ‘encontro’ com o Caim. Suspirei fundo, coloquei
os fones de ouvido e fui até o carro.
Emma disse que minha dignidade iria descer pelo
ralo, mas não concordo com isso. Minhas irmãs ainda
existem, e concordei em vê-las com prazer.
Agora, tudo o que eu queria era que houvesse
quilômetros e mais quilômetros entre Caim e eu.
Não sei se é possível existir amor entre duas
pessoas tão opostas « mas começo a entender que ela
precisa dele por causa dos filhos. E há certas necessidades
que, simplesmente, se sobrepõem a outras. Ao mesmo
tempo, me sinto insignificante. Como se eu não tivesse
valor algum diante das decisões da minha mãe.
O lugar é deserto e silencioso, e mesmo assim...
por que meus avós não estão descendo do carro?
O vidro do lado do passageiro se abaixa, e um
braço se estica para fora, segurando um cigarro entre os
dedos « Fico ali, imóvel, dominada pelos meus próprios
receios, engolindo em seco dentro da blusa quente que
me sufoca tanto quanto me protege » O tempo parece se
arrastar até que, finalmente, minha avó sai do carro.
Caminha até o portão e bate.
O cabelo dela parecia curto e tingido em um tom
de chocolate « um padrão que mal reconheci. Havia algo
de estranho naquela imagem, exceto pelo avental preto
sobre o vestido indiano. E um gato laranja nos braços.
“O que é isto?”, minha avó pergunta, apontando
para o felino, os cantos da boca se curvando para baixo.
“Ah, é o gato das meninas. O nome dele é”
“Outro?!”, minha avó interrompeu, incrédula.
“Sim, mãe”, e minha mãe respondeu com
desânimo.
O gato parecia sonolento e manso « como se fosse
um reflexo do amor das meninas pelo gato. Me aproximei
dele com cautela, sorrindo, e passei os dedos pelas
orelhas macias. Vejo meu irmãozinho na calçada assim
que desvio o olhar.
Ele correu para o meio da rua « para me
encontrar. Todos se viram em um susto, prendendo a
respiração enquanto ele atravessa sem olhar para os
lados.
“Nunca mais me atravesse assim”
“Tá, mamãe”, respondeu ele, antes de me olhar
com surpresa nos olhos, “Irmã!”.
Abaixei até o nível dele. Meus braços o
envolveram com força e amor, como se, por alguns
segundos, meu irmãozinho tivesse entrado no meu
mundo e, naquele instante, eu pudesse protegê-lo de
tudo.
“O que você tá fazendo aqui?”, ele pergunta. Sua
voz era tão real que dissipou meus pensamentos.
“Vim te ver, meu pequeno príncipe”, respondi
suavemente, e beijei sua bochecha.
“Mãe”, murmurei em seguida, tentando manter a
voz firme. Mas minha mãe só me notou depois que
Quatre entrou na casa com o gato no colo.
Su reacción impaciente fue inmediata, como si
quisiera que todos a su alrededor entendieran algo que
ella misma no podía explicar con palabras; abre y cierra
los labios; sus ojos se fijaron en los míos, como diciendo
en silencio que ella es mi madre.
A mulher forte diante de mim, de repente,
pareceu amolecer ao encarar a criatura que ela mesma
havia colocado no mundo. Foi só isso « um breve instante
de fragilidade, visível no olhar melancólico e nas palavras
que saíram baixas e condensadas. Meu nome completo.
E então o abraço veio «completamente
inesperado » como se, dentro de seus braços, o mundo lá
fora passasse a girar devagar. Quis reagir com um choro
longo, desajeitado e alto. Mas apenas quis. No fim, me
soltei sem o luxo de mostrar o quanto aquele gesto
significou para mim.
Sua expressão ficou abatida, mas logo se
recompôs, disfarçando o incômodo com um convite para
que entrássemos.
Escolhi ficar por último. Não queria estar ali,
imóvel na porta, com a cabeça baixa, tentando fingir
naturalidade diante do Caim esparramado no sofá novo.
Tive que deixar o corpo me guiar, enquanto por dentro só
desejava poder fugir dali.
Meia hora depois, estou flutuando no
espaço-tempo, deixando minha consciência voar para
longe das imagens de Caim sorrindo para mim com
ironia. Já estávamos indo embora.
Tiro o celular do bolso e abro a câmera.
Aquela seria mais uma daquelas fotos sem
sorrisos visíveis e sem alegria. Um registro silencioso,
feito apenas para me lembrar do quanto minhas irmãs se
parecem comigo e do quanto, ainda assim, parecem tão
distantes de mim.
2017, 15 de Junho
Meus avós precisam voltar para a capital por
causa do imposto de renda. E eu não tenho escolha a não
ser ir com eles. Minha avó diz que tenho que ir, ou posso
acabar colocando fogo na casa. Eu não sei cozinhar, mas
duvido que essa seja a verdadeira razão.
É uma cidade que pode ser descrita com
inúmeros adjetivos « basta olhar pela janela do carro para
ver.
Mas prefiro vê-la pelos olhos da Emma quando
ela foi lá pela primeira vez « nas férias do ano passado
comigo » É o lado ‘legal’ da cidade.
● Gente apressada
● Mudança na densidade da atmosfera
● Horário de pico, trânsito engarrafado
● Arquitetura contemporânea misturada à clássica,
com prédios esféricos espremidos entre estruturas
coloniais gigantescas
● Arranha Céus
● Céu noturno em tons de lilás e luzes urbanas
sempre acesas
● Pontes que se estendem por quilômetros
● Helicópteros voando baixo sobre as marginais
● Ônibus sanfona
● Garoa fina
● Mendigos se ensaboando nas duchas dos postos de
gasolina ou em viadutos
● Grafites mesmo em fachadas altas
● Pessoas com muitos estilos diferentes e diversos
● Pessoas brindando em happy hours de barzinhos
abafados
● Ifood 24h
● Lojas 24h
● Uber
● Metrô
● Gírias gritadas por todos os cantos
● Ruas lotadas
● Sabores do mundo inteiro
● Shows
● Parques
● Shoppings. Etc, etc
No meio de tudo isso está a minha visão, um
pouco mais realista « pessoas individualistas e secas,
cercadas por uma diversidade que não as comove por ser
corriqueiro demais. E há a solidão das horas comerciais »
quando se olha de perto, parecem não passar nunca
porque o tempo estagnou no trânsito.
É uma selva de pedra, onde o menor movimento
de outra pessoa na rua pode parecer suspeito « Uma
metrópole verde e cinza, onde até o concreto parece
carregar o peso daqueles que vivem presos ao medo de
serem assaltados, presos à rotina corrida e ao alto custo
de vida.
2017, 17 de Junho
A música que ajuda a descrever meu pai biológico
é Whatever it takes, do Imagine Dragons. E talvez o fato
de que ele sempre dirige como se estivesse em Velozes e
Furiosos.
“Lia! Oi! Você já chegou”, grita uma voz feminina
vinda da sala « atravessando até a garagem, passando
pelas grades espessas do portão « É Emília, a empregada
que está na casa da minha avó paterna há pelo menos 27
anos.
“Olá, Emii”, respondo, tentando soar engraçada.
Emi é de outro estado, mas nunca voltou para
casa. Talvez ela goste daqui.
Ela torce o nariz ao ouvir o apelido que dei
quando era pequena « como sempre faz » mas logo abre
um sorriso largo. No fundo, nunca se importou. Porque
nos conhecemos desde quando nasci.
Emília abre o portão com a naturalidade de quem
faz parte da casa, e logo volta em direção a cozinha.
“O que tem para o almoço?”, pergunto.
“Aquilo que eu cozinhei”, ela responde, sumindo
no corredor.
Meu pai aparece na entrada, na frente da enorme
porta de carvalho ornamentada, com aquele sorriso Mona
Lisa no rosto.
Dou alguns passos até ele e o abraço, meu rosto
apoiado em seu tórax. Ele me envolve com os braços por
alguns segundos antes de dizer para eu mesma carregar
minhas coisas.
Enquanto caminho até a mala de viagem, busco
em seu rosto resquícios do luto «pela tragédia que
aconteceu com sua namorada em janeiro. Meu pai
parecia bem, mas eu sabia que não estava. Ainda não
fazia muito tempo desde aquele dia « o dia em que vimos
o nome da Maíra estampando os noticiários.
“Lia. Vai ficar ai parada?”, ele pergunta.
“Absolutamente não. Já estou indo”
A sala de estar é a primeira coisa que vejo quando
entramos. Levanto os olhos para o teto branco pérola «
há pelo menos três metros entre ele e o chão. As paredes
ao redor são arcos, levando a outros cômodos da casa. Ao
ultrapassar a porta, à esquerda, está o biombo fixado ao
chão « de ferro maciço, pintado em verde musgo, com
caracois vazados que formam outro desenho ornamental.
Meu All Star ecoa no assoalho de madeira ipê;
piso com força, e o som chega aos ouvidos do Bichon
Frisé da minha avó «que vem correndo, com a língua
para fora. Meu pai já está na sala de jantar, deixando seu
boné sobre a mesa longa.
“Billy”, chamo o cachorro.
2017, 19 de Junho
Há linguiças cruas penduradas no varal, ao lado
de toalhas de pia «uma cena tão absurda que beira o
ridículo. E nem dá para fingir que é miragem: toco em
uma delas, e a gordura fica nos meus dedos. Estavam ali,
largadas, como se fossem peças de roupa comuns.
“O que é isso, vó?”, grito, incrédula.
“Seu avô inventou de querer linguiça seca, e eu
não saí pra comprar, então ele pendurou no varal”,
responde rindo, como se fosse a coisa mais normal do
mundo.
Me afasto da combinação bizarra de varal,
linguiça e prendedores, e dou de cara com meu pai « com
uma expressão que indica leve irritação.
Os amigos do meu pai costumam dizer que ele é
uma versão 2.0 do Vin Diesel, no papel de Dom Toretto.
Ele chama atenção « é impossível negar.
Mas nunca penso coisas boas sobre ele quando
está com raiva. E agora, tudo indica que é um desses
momentos. Seu olhar é ameaçador e me dá medo.
“Preciso falar com você, Lia. AGORA”, diz.
Engulo em seco.
“Sobre?”, respondo.
“AGORA”
Me viro e sigo em direção ao quarto da minha
avó. Mas sua voz me alcança. “É verdade que aquele
desgraçado fez algo com você?”, seu tom soa ainda mais
profundo « Sua postura antes ereta agora estava curvada,
e seus olhos pareciam me fuzilar » como se fosse uma
acusação por tê-lo ignorado deliberadamente.
Não respondo.
“Então é verdade”, meu pai continua.
“Quem te disse essas coisas?!”, minha voz sai
mais áspera do que eu gostaria.
Vim para cá justamente para esquecer um pouco
daquilo « algo que ele jamais entenderia. Então, naquele
momento, não pensei em nada. Apenas desejei voltar
segundos atrás.
“Quem te disse, pai?”
Ele suspira.
“Ninguém, eu apenas sei”, ele responde, não
conseguindo esconder o sorriso Mona Lisa « Essa história
está estranha. Como se algo estivesse fora do lugar… O
facebook.
EMMA.
Desbloqueio o celular com os dedos ágeis na
senha e digito sem pensar, “O que você fez, Emma?!”. E a
resposta chega instantaneamente, “Desculpe”.
“Você não sabe o que fez”, escrevo rapidamente.
Atrás de mim, ouço o som seco de um soco
batendo na porta do guarda-roupa embutido, seguido da
voz grossa do meu pai praguejando, “Droga!”
Minha avó aparece correndo no corredor,
patinando nas meias, “O que está acontecendo aqui, pô”,
pergunta.
Ela olha para dentro do quarto a tempo de ver
meu pai abrindo a mão « os dedos cobertos de pequenos
cortes.
Ele vira para encará-la.
“Você sabia, mãe, que o padrasto da Lia abusou
dela?”, diz, cuspindo cada palavra.
Minha avó parece horrorizada.
“Isso é verdade, Lia?”
Sussurro algo enquanto olho para os próprios
pés, na esperança de ter falado baixo demais para que
alguém ouvisse.
Rapidamente saio do quarto e deixo os dois para
trás. Sento no sofá da sala de TV, depois de puxar,
distraída, uma lasca de tinta que se soltava da parede.
Não demoraria muito para virem atrás de mim.
Então começo a contar os segundos. TIC, TAC.
“Isso é uma coisa muito grave!”, diz minha avó,
entrando na sala.
Ela se afunda nas almofadas ao meu lado,
enquanto, poucos segundos depois, meu pai para como
um poste no batente da porta.
Ele abre a boca com a voz já carregada com fúria,
“Você não pode esconder esse tipo de coisa, Lia”.
“Eu sei”, digo. Agora um pouco mais alto.
Que meu pai explodiria era fácil prever. Não sei
se conseguirei manter a guarda alta o suficiente para me
proteger da reação dele.
“Foi a Emma, não foi? Foi ela quem contou”,
digo, e o cansaço é evidente na minha voz.
Meu pai grita, “O que ele fez, Lia? Droga, me
diga!”.
Suspiro.
Levanto e vou até o outro lado do sofá para puxar
a mala. Abro um bolso externo e pego o diário. Folheio-o
rapidamente até parar na página 27.
It 's over when it' s over, do Falling in Reverse
começa a tocar na minha cabeça.
“Vou arrebentar aquele desgraçado, filho da
mãe!”, meu pai rosna, cerrando os punhos mais uma vez.
Fechei os olhos com força, temendo a fúria que
estava por vir. E como eu sabia disso? Porque ouvi minha
mãe repetir inúmeras vezes que minha impulsividade e
agressividade vinham dele, “Você é igualzinha ao seu
pai”.
Sei que estou tremendo. Uma imagem de Quatre
chorando porque o pai dele foi embora surge em minha
mente. Talvez eu não deva defender o Caim, mas é
inegável que minha mãe precisa dele para alimentar as
crianças.
“Não! Por favor... não faça nada com ele, pai!”,
comecei implorando, quase desesperada.
Meu pai me encara, incrédulo. Seu olhar me
fuzila, como se não conseguisse acreditar no que acabara
de ouvir.
Ele abre a mão e a passa sobre a barba
castanho-avermelhada, depois se vira para encarar minha
avó. Os olhos escuros ardem como brasas, como se ele
lutasse para se conter.
“Por favor, pai, poupe-o! As crianças precisam
dele”, imploro.
Mas meu pai não ouve. Está imerso demais em
seus próprios pensamentos para me escutar.
“Eu sou pai, caralho... e olha o que ele fez com
uma das minhas filhas”, diz.
A expressão de desgosto no rosto da minha avó
nesse momento é devastadora.
“Eu vou quebrar as pernas daquele canalha”, meu
pai fala, a voz carregada com ainda mais raiva.
A lembrança de Trois e das outras crianças me
atravessa. Como eu poderia fazer isso com eles? Como eu
poderia pensar em mim e deixá-los com as
consequências? “E tirar o pai das crianças”, foram as
últimas palavras da minha mãe.
“Por favor, pai... não”, peço, minha voz saiu
rouca, quase apagada pelo engasgo.
A porta range com um golpe preciso.
“Já que está pedindo por favor, vamos dar um
jeito. Ele só vai sentir um pouco de dor”, diz.
Meu coração dispara. Sinto as lágrimas
chegarem, junto com um desespero que me paralisa no
lugar. Um grito escapa de meus lábios, e as lágrimas
escorrem antes que eu consiga contê-las.
Não posso ser a egoísta que minha mãe diz que
sou!
“Você acha certo o que ele fez, querida?” , minha
avó pergunta, tocando meu ombro com leveza. Afasto sua
mão, não queria consolo.
“Lia. Sua avó te fez uma pergunta”.
Não abro a boca. A resposta para isso não seria
tão simples. E eu não queria dar uma, eles não tem nada
haver com a vida no interior.
“Por que está defendendo alguém como ele?!”, a
voz do meu pai sobe de tom, e ele não vê mais nada « a
filha ou o seu medo.
“Eu não acho certo”, digo firmemente. Mas
desvio o olhar. Não seria fácil encarar a decepção nos
olhos da minha avó.
Por que eles se importam agora? Por amor? Por
justiça? Ou apenas porque é um crime?
“Vocês não entendem”, continuei.
Minha avó, que já é tão pálida por natureza,
perde ainda mais a cor. E isso me faz suar frio.
Eles não entenderiam. E estamos aqui... por
causa da Emma « Une, Deux, Trois e Quatre agora
precisam ser protegidos da irã do meu pai. E, de algum
modo, eu também preciso.
“Você o defende porque gostou, Lia. Você gostou
do que ele fez”, diz meu pai, e a acusação cai sobre mim
como uma bigorna. Me encolho, puxando uma almofada
mais contra o peito. Mas ele não para com as acusações.
“VOCÊ SENTIU ALGUMA COISA”, diz.
Essas palavras me quebram. A mente, num
impulso cruel, volta àquela lembrança. E, com ela, tudo
recomeça. Todas as imagens de Caim.
Não! Ele está errado! Eu não queria nada
aquilo! Nunca quis. Caim foi o único que se divertiu.
“SUA… PEQUENA VADIAZINHA”, Ele diz. E eu
começo a chorar.
“NÃO SOU ISSO!”, grito em seguida.
“VOCÊ É UMA VADIA, LIA. UMA GRANDE DE
UMA VADIA! SEM VERGONHA”
Por que não acreditavam em mim? De novo.
O pânico me tomou inteira. Gritei, chorei. Tudo
parecia distante « minha consciência se afastava, como se
eu me observasse por cima. As lembranças voltando com
força, de um jeito insuportável. Não queria ser tocada
pelo Caim, nem nos meus pensamentos.
“Se você não é, então me deixe ir atrás do Caim.
Me deixe caçá-lo, Lia”, meu pai diz « e sinto a dor em sua
voz.
“Não!”, digo de novo. E então meu pai explode.
A raiva o consome, e ele avança rápido demais
para que eu consiga reagir. Um homem de quase um
metro e noventa, tentando extravasar a frustração no
pescoço da própria filha.
“NÃO ACREDITO QUE TENHO UMA FILHA
VADIA”, ele diz.
Eu fico ali, imóvel. Não apenas porque ele é forte
e meu corpo está ficando mole, mas porque meus muros
internos « aquilo que ainda me mantinha de pé » havia
desmoronado mais uma vez.
Minha visão escurece por alguns segundos, até
que ouço minha avó chamá-lo pelo apelido que só os
amigos dele usavam.
“JOE! JOE MEU FILHO! PARE!”
O vazio e o silêncio tentam me dominar, mas
reajo. Mordo o braço dele com força, depois me debato e
acerto um chute em suas pernas « Pela primeira vez, a
frase “você é igualzinha ao seu pai” parece fazer todo o
sentido.
Meu pai se afasta e grita, batendo no próprio
peito com a mão fechada, “EU SOU MUITO PERIGOSO,
LIA. DE UM JEITO QUE VOCÊ NEM FAZ IDEIA. SEU
PAI É VIDA LOKA A MÓ COTA, SE LIGA NESSA FITA”.
Quando volto plenamente a mim, percebo minha
avó ao meu lado, chorando silenciosamente.
20H55
“Meu pai me enforcou, Emma”, digo. E, “AH”, é a
única coisa que ela é capaz de digitar.
2017, 21 de Junho
Só percebi o quanto minha avó precisava de uma
companhia feminina três anos atrás, quando tive idade
suficiente para que ela me escolhesse como seu
manequim « sempre gostou de conversar sobre moda e
beleza.
Estou diante do espelho de corpo inteiro no
quarto dela, escova de cabelo na mão. Minha avó entra e
lança um olhar rápido na minha direção « minhas roupas
ciganas não lhe agradam » Seu estilo sempre foi clássico e
elegante.
“O ideal seria você usar um vestido peplum
discreto, um colar de pérola, scarpin preto, maquiagem
neutra e um pouco de laquê na franja. Isso é elegância,
transmite uma boa imagem na sociedade”, minha avó
fala, tornando meus pensamentos palpáveis.
Passo a escova no cabelo. Como ele ficaria com
laquê? « A franja está do mesmo comprimento do resto
do cabelo, e repartida ao meio, então com um pouco de
spray fixador seria possível criar algumas ondas,
afastando-a do rosto e dando mais volume ao cabelo.
“Roupas clássicas destacam qualquer mulher na
multidão”, diz, passando atrás de mim, “Mas não com
esse corpo, para as roupas assentarem bem você devia
estar mais esbelta”.
Ergo uma sobrancelha.
“O que tem de errado?”, pergunto.
“Seu corpo tem muita massa. Você parece uma
bailarina do Faustão”, ela diz « se referindo aos meus
seios que pesam no sutiã e delineiam duas formas
arredondadas sob a camiseta; e as minhas coxas grossas,
proporcionais à bunda. Meu quadril está longe de ser
estreito » não há como alcançar a elegância esguia que
minha avó idealiza.
“Sim. Precisa emagrecer só um pouco”, meu pai
diz ao passar no corredor, do lado de fora do quarto.
Impulsivamente, levo as mãos ao pescoço. Estou
tomada por desejos novos « queria ver os ossos da
clavícula mais evidentes » essa sensação alimenta uma
imagem negativa de mim mesma, me fazendo pensar que
talvez meu rosto devesse ser mais fino. Ainda assim,
tenho 1,65 metros de altura e peso 64 quilos « Minha
aparência é saudável.
No interior ninguém enxerga meu corpo como
um problema.
“Hmm”, respondo.
Sempre soube que meu pai e minha avó tinham
uma obsessão pela magreza. No entanto, diferente da
minha irmãzinha « a outra filha do meu pai », não sou
alta nem esguia. Ela, aliás, não precisa seguir a dieta
maluca que insistem em empurrar para cima de mim
sempre quando estou aqui.
A escova desliza com facilidade nos meus fios «
repito o movimento mais algumas vezes antes de
colocá-la no lugar e sair do quarto.
2017, primeiro de Julho
É preciso coragem para admitir que, às vezes, os
planos simplesmente não dão certo. E agora minha mãe
precisa encarar essa realidade.
Para ela, orgulho e necessidade são duas coisas
que raramente se mesclam « ainda mais quando se trata
de voltar a viver sob o teto dos pais. Minha mãe precisou
deixar o orgulho de lado e voltar para trás. Isso implica
submeter-se, ao menos em parte, às regras deles.
O retorno da minha mãe é um fato que já está
marcado para acontecer.
Mas minha balança interna está quebrada. Ainda
não consigo avaliar se esse retorno será algo bom ou
ruim. A verdade é que a ficha ainda não caiu « Caim
estará de volta.
AO CONVÍVIO, UM CONVITE DE
PRATA
Porque eu não posso parar o tempo, você continua
ofuscado em minha mente. E o espaço é indefinido. Esses
trilhos foram deixados para trás; não podemos permanecer o
mesmo. Não posso parar este trem. Eu não consigo encontrar
os freios, nesse trem bala.
BULLET TRAIN, Stephen Swartz
feat. Joni Fatora
2017, Julho
Esse retorno carrega uma promessa impossível
de saber se vai se concretizar « por mais que eu deseje
acreditar que um certo alguém mudou, não posso confiar
nessa afirmação. Tudo o que posso fazer é seguir em
frente e ver onde vai dar.
Meu avô comprou duas casas grandes, lado a
lado, em uma rua de um bairro ainda em construção, no
extremo norte da cidade. As ruas ainda são identificadas
com números.
E foi em uma dessas casas que minha mãe foi
morar. Hoje é o primeiro dia em que voltaremos a vê-la.
“Rua 12”, leio a placa enquanto o carro contorna a
rotatória e para em frente à casa. O portão está erguido.
Minha avó desce rápido e adentra o quintal,
gritando o nome da minha mãe. Ela surge em segundos,
vestindo seu velho avental de pintura preto.
“Olha que sonho de quintal”, diz, olhando para
mim.
A mi alrededor se extiende un amplio espacio
abierto que rodea toda la casa. El suelo, de hormigón
visto, queda totalmente visto, sin ningún tipo de
revestimiento.
“É sim, mãe”, respondo « Amei o espaço.
Caim estava parado em um canto, perto da
poluição visual que ele mesmo criou com caixas de
madeira. Ele me cumprimenta, visivelmente inseguro.
Meu irmãozinho Quatre salta do colo do pai e
corre na minha direção.
2017, Julho
“Deveria gritar, assim ele não pode fazer nada
com você”, Emma disse. Mas ser considerada louca seria
uma consequência inevitável dessa atitude. Caim fingiria
não entender o que está acontecendo, enquanto os
olhares acusadores se voltariam para mim.
Ainda assim, não consigo entender como todos
continuam vivendo como se nada estivesse errado,
tapando o sol com a peneira.
Não queria mais voltar àquela casa, porque tenho
medo da presença de Caim «e ninguém parece perceber
isso. E pior que o medo» é a certeza de que minha mãe
ainda deseja que eu tenha uma figura paterna. Caim. Já
que meu pai continua sendo inconsequente demais para
ser pai.
“Caim falou com ela sobre isso de novo?”, penso.
Preciso tentar compreender que minha mãe está
aqui agora, tentando se reconectar comigo, mesmo depois
de ter apagado tudo como se nunca tivesse acontecido. O
que não consigo entender é como ela não demonstra
nenhum sinal de dúvida, nenhum questionamento «Essas
coisas simplesmente não fazem o menor sentido.
E eu não posso mencionar nada disso, porque a
resposta dela é sempre a mesma: diz que estou a
perseguindo com esse assunto.
É angustiante discutir com minha mãe sobre um
assunto no qual ela sempre tem a última palavra. Mas
perder a discussão não me machuca « não mais do que
perceber que somos arrastadas até o ponto de partida.
Não consigo fazer absolutamente nada quando
todos ao meu redor parecem agir naturalmente diante de
Caim, como se ele não fosse um pedófilo « Tratar ele
como já tratei um dia está além da minha capacidade. É
insuportável fingir que está tudo bem.
Quando insisti mais no assunto « por sugestão da
Emma » minha mãe defendeu Caim me chamando de
mentirosa. Ela levantou uma barreira ao redor de si
mesma que a impede de ver a verdade. E, mais uma vez, o
papel de vítima é entregue a ele.
É quase inacreditável como a mente humana é
capaz de construir mecanismos de defesa tão potentes,
arrancando alguém de uma guerra e a colocando em um
estado de negação absoluta. Isso está acontecendo às
custas de acreditar no homem que colocou uma corda de
flores no pescoço da própria filha.
15H
Eu estava lá, no meio de uma discussão com a
minha mãe, completamente perdida « como se
caminhasse no escuro sob uma chuva constante. As
poucas luzes capazes de guiar meus passos pareciam
distantes demais para fazer qualquer diferença »
Sentindo raiva do Caim a cada argumento da minha mãe,
principalmente porque ele riu como se nunca tivesse feito
nada de errado.
Mas, no fundo, eu sabia como tudo isso
terminaria. Então por que insisti em provocar mais uma
discussão hoje? Segui o que Emma me disse para fazer, e
acabei tornando o ambiente tenso.
2017, Julho
Emma mandou mensagem querendo saber por
que eu não contei que o Ballerini veio até a casa dos meus
avós e que eu saí com ele. Na verdade, ela não perguntou
« exigiu, pela maneira rude com que me tratou. Desde o
dia em que voltamos da roça, ela se tornou visivelmente
mais possessiva.
Mas eu não contei nem para você, Dear Diary.
Não tive ânimo para escrever nas suas páginas.
Outra mensagem chega, “As pessoas magoam
você, eu brigo com elas. Mas você vai e no outro dia já
está marcando de sair com elas. Você é incoerênte”.
Preciso analisar a frase antes de escrever
qualquer resposta « Não é sobre pessoas no plural, sua
raiva agora está centralizada sobre uma única pessoa;
brigou com ele porque quis fazer isso, e não foi
recentemente; não marquei nada com ele com
antecedência; e não preciso da permissão dela para ter
amigos. E daí que ele gosta de mim? E daí que eu fiquei
com ele? Ela fez aquele ‘espetáculo’ no Sarau mesmo
estando comprometida, e eu não disse uma única palavra.
Isso é injusto « Mas apesar de tudo, não tem nada que eu
diga que a convença.
“Ele não me magoou, magoou você”, digito e
envio.
A resposta é imediata, “Outra desculpa”.
Fico imóvel, encarando as mensagens anteriores
« longos blocos de texto que não tive força para ler. Ler
seria como apoiar o que Emma está dizendo, e tudo o que
eu queria naquele momento era ser deixada quieta.
Ela está furiosa por causa do Ballerini. E,
também porque, meu pai viu um vídeo da cantora Aurora
no feed do youtube e comentou comigo que achou a vibe
dela muito parecida com a minha.
Outra mensagem brilha na tela, “Eu cansei de
você roubando minhas coisas (como a cantora Aurora, ela
é só minha e você nem tinha percebido) cansei de você no
centro do mundo. Tenho meus demônios, não preciso
ficar lutando contra os seus: Cansei de você comentar
como estão as coisas por aí. Quero ser amiga não baba, eu
cresci, não sou mais uma doce criança de 14 anos que
precisa de espelhos. E eu cansei de depositar esperanças
em alguém incoerente que: aceita facilmente sair com
pessoas que te magoaram. Eu gosto de mim, gosto de
defender o meu espaço, eu tenho uma vida pra começar.
E quer saber, não vou ter mais planos com você”.
“O espaço dela? Quando foi que invadi o espaço
da Emma?”, pensei, com certa amargura. Talvez ela
esperasse que eu chorasse, me desesperasse e fosse atrás
dela.
Mas já vivi esse ciclo outras vezes desde que nos
conhecemos. Estou exausta « e não por causa dela. Tenho
meus próprios motivos para estar cansada » Eu
simplesmente não vou correr atrás da Emma agora.
“Que saco”, digo em voz alta, deixando o corpo
cair em cima da cama. Minha mente parece correr como
um trem bala.
Lágrimas de frustração começaram a escorrer
pelo meu rosto. Mordo os lábios até sangrar.
Sexta-feira
Sentamos em silêncio por 05 ou talvez 10
minutos.
“Dora. Aqui dentro ainda faz muito ruído”,
quebrei o silêncio, apontando para o próprio peito. Será
que falei algo que ela já esperava ouvir? « Ela levanta,
pega alguns pinceis, uma tela, tintas e um cavalete.
“Pinte da forma que se sentir mais confortável. A
ideia é colocar para fora o que está aí dentro”, diz.
A encaro por alguns segundos.
“Mas o que eu vou pintar?”
“Você não sabe?”, a mulher responde
pacientemente. Então, como se estivesse adivinhando
minha resposta, diz, “Escolha primeiro as cores que você
gosta, depois comece… logo toma forma”.
Pisco.
“Você vai analisar depois?”
Ela senta no sofá com um livro na mão,
“Veremos”.
Encaro a tela na minha frente. Em branco « algo
completamente vazio e sem vida. “O vazio pode conter
muitas coisas quando nada é dito, porque o silêncio
também é uma mensagem”, minha mãe disse uma vez,
anos atrás. Então estou certa de que, se eu deixar a tela
em branco, Dora avaliará. Mas minhas mãos se movem
sem eu perceber até « tons de verde e marrom.
Depois de separar as tintas, começo o esboço com
um lápis. O tronco de uma árvore « retorcido » brotando
no centro de uma sala vazia, ele emerge de uma fenda no
chão. As raízes se espalham a partir do buraco, e a árvore
segue até o teto, também atravessando. Suas
extremidades se perdem no concreto. Nenhuma folha é
visível. É uma linha quase reta que percorre a tela de
ponta a ponta. Atrás da árvore esboço paredes.
Dora observa o desenho e sorri, “É raro ver um
paciente transformar ambiguidade em algo belo. O que
é?”.
“É uma árvore”, respondo, “O que acha que ela
pode ser?”.
“O significado é seu”, sua resposta me desaponta
um pouco, “Não vou me atrever a determinar o valor que
esse desenho tem para você”.
Eu realmente queria mais palavras.
Mas ela continua, lendo meu semblante, “O caule
é uma representação da sua base familiar. A sala está
harmônica, mas a forma como esta árvore se impõe no
espaço é… interessante”.
Não compreendo totalmente suas palavras, mas
fico com a sensação de que posso ficar inteira novamente
e só precisava me lembrar disso.
O valor da terapia está em aprender a percorrer o
próprio caminho. A psicóloga apenas aponta a direção «
os passos são seus. E Dora é enigmática demais para
contar tudo em apenas cinquenta minutos de sessão.
Sábado
11H10
Minha mãe virá me buscar para que eu possa
passar o dia com ela e as meninas.
O carro encosta meio torto na sarjeta, com os
vidros abaixados e a música alta. Minha mãe chegou.
O som para quando a porta do passageiro se abre
e eu entro. Minha mãe tira os óculos de sol com grau do
porta luvas e se inclina na porta para cumprimentar meus
avós, “Oi, pai. Oi, mãe. Tudo bem? Hoje não vou poder
parar, ainda não fiz o almoço. Depois trago ela”.
El volumen del sonido aumenta de nuevo y el
coche arranca con el motor rugiendo tan fuerte como la
voz del vocalista. Y mi mamá empieza a cantar Zombie,
de The Cranberries.
Minha mãe ri.
Seu riso deixa tudo mais leve, como se o
ambiente se enchesse com uma nostalgia estranha. Talvez
pudesse mesmo « transformar algo tão comum quanto
ouvir música, em um momento capaz de suavizar as
dores de uma família quebrada.
Hoje, vou deixar todas as coisas ruins se
tornarem pequenas só para poder estar com a minha mãe
« Porque irei partir, e ela não sabe disso.
“Apenas aqui é possível andar assim, sabia? Com
os vidros abertos e o som alto”, minha mãe diz.
17H
Encontrei o diário da Maíra e reli o monólogo que
ela havia escrito sobre o meu pai «algo que ela me
mostrou antes.
“Retrato de um dualista: E então passavam-se os
dias, e ele continuava a andar sempre à sombra de si
mesmo_Mas será que eu grito? Que ela própria era o teu
perigo?! E por muitos fins; também o teu refúgio (isso ele
já sabia).
Talvez não soubesse, que ele foi vítima dele
próprio. Mas quem pode prevenir o engano? Pois que ao
cessar as crenças, deu-se uma carta a ter voz e liderança.
Mesmo que por vezes, oscilasse entre o certo e o
duvidoso. E isso gerasse calma e conflito.
Um dia qualquer, cansado de revoltas e
desesperos, resolveu que queria crescer e ser heroi das
duas dúvidas. Ser heroi lá fora era fácil. Até que um dia
ele precisou ser heroi também de frente ao espelho, e
descobriu que não estava pronto. Ou fingiria estar.
Aí foi-se observando um susto, e um medo, que
vinha latejante, ao se sentir grande monstro, inseguro.
Pois possuía um poço de amargura, de raiva e de
remorso. Que era cingido por rosas decoradas de amor,
carinho e generosidade. Seria então necessário aprender
a escolher os sentimentos que o moveriam para o futuro.
Mais amargo menino, cheio de sonhos, onde
brilha focos de ouro dentro dos olhos, pede apenas a
quem o encoraje, e que faça-o acreditar na vida. No fundo
é a dor de quem quer ser amado, com desmedido amor
que abrace ou enlouqueça o mundo. Vive oscilando entre
amor e ódio, pisando em um solo recoberto de acertos e
tentativas. Porque ele não errava. E se errasse estaria
sendo a si mesmo.
Logo, assume-se não se condena um erro. A sua
virtude era amar demais. E logo se criava egoísta
compassivo, desvairado de vontade e sacrifício. Seu
almoço era servido de uma taça de ciúmes, uma porção
de plenitude, temperada de saudades e vontades. Aquele
menino não sabia envelhecer.
E quem foi dizer que ele deveria? Uma alma
inatingível dentro de si, com a força e a garra de um lobo
era teu segredo. O mesmo que por vezes se esconde ao
som de uma grande tempestade, e se acolhe pensando até
que volte o sol, brilhante e alegre a sorrir lá em cima.
Como também é o coração de um lobo, frio e
fervente. Mas confiar seria um desafio a todo tempo. Pois
cresceu errante, correndo entre olhares e bocas mal
faladas. Houve quem duvidasse, houve quem de raiva o
despertasse, mas também quem o amasse, na beleza disso
tudo, mesmo não pertencendo ao lado desse dualismo a
todo instante.
2017, 16 de Julho
Não é porque há pessoas por perto que certas
coisas deixam de acontecer. A desconfiança que tive de
Caim desbotou meu sorriso, tornando-o um sorriso
amargurado « Mas apenas sorri e voltei para dentro.
Agora talvez você precise entender o que
aconteceu, certo? Eu estava quase indo embora, quando
minha mãe disse que tinha esquecido a carteira e me
pediu para ir buscá-la « me encorajando a sair do carro »
Acreditando que estaria tudo bem.
Mas eu sei exatamente o que aconteceu. Vi Caim tirar a
carteira da minha mãe de dentro do carro, minutos antes.
Depois, chamou Deux, segurou-a pelos ombros com força
e ordenou que ela fosse para o carro assim que eu
entrasse na casa. Ela devia atrasar nossa mãe até que eu
voltasse, ou apanharia « a garotinha não faz ideia do
porque.
Parece que uma natureza vil nunca muda. Por
isso, a raiva que sinto dele cresceu tanto. E ainda assim
por que não consigo mais demonstrá-la? O fato é que eu
apanhei mais do que os meus irmãos. Deux faria o que
ele mandou, para sobreviver. Assim como eu sempre fiz.
Meus pés logo alcançam a sala. “Não quero nem
chegar perto dele”, penso.
Ele se aproxima de onde estou e leva o dedo
indicador aos lábios, “Shhh! Faça silêncio”, sussurra.
Seus olhos percorrem meu corpo de cima a baixo, e então
leio em seus lábios, “Que corpão, hein”.
Suspiro, incomodada. Pela primeira vez, acho que
minha avó está certa. Haveria algo de positivo em perder
alguns quilos.
Não há o que responder. NÃO HÁ O QUE
RESPONDER. Engulo em seco, sentindo um calafrio
percorrer meu corpo da cabeça aos pés. Infelizmente, fui
forçada a concordar em voltar, sem sequer ter a chance
de sair correndo. O olhar dele, ameaçador, me paralisa de
medo.
O ar queima nos meus pulmões, e a vontade de
gritar me atravessa como um impulso. Mas não grito.
Apenas permaneço em estática.
E não sei mais como as coisas estão acontecendo,
são flashes fora de ordem diante dos meus olhos « Pela
primeira vez sinto a confusão que Dora mencionou
durante a primeira sessão » Dear Diary, esse relato ficará
parecido a um quebra- cabeça.
“O que foi, filha?”, minha mãe pergunta, mas
meus lábios ainda não se movem para responder.
Permaneço na mesma posição até minha atenção
ser desviada por outra coisa « alguém usando um
parapente pousa no terreno metros a frente. Estreito os
olhos, tentando ver quem é.
“Ah”, diz, seguindo meu olhar, “Então é por isso
que você não quer se mover. Olha, é uma moça bonita.
Estava olhando pra ela??”, seu tom é leve e inocente. E
isso me irrita profundamente.
Aquelas palavras, saindo justamente da boca da
minha mãe, me atingem com força.
“Não, mãe. Eu não quero voltar nunca mais lá
dentro por causa dele. POR CAUSA DELE!”, respondo
com a voz embargada de raiva.
“Ah, fala sério”, continuo, quase gritando, “Você
ainda não acredita que ele quer abusar de mim?!!!”
Deux aparece com a cadeira de rodas de Trois.
Saio do carro para acomodá-la no porta-malas. Caim está
atrás dela, com aquele mesmo olhar furioso. Ele baixo,
apenas para mim ouvir, “Anda logo!”.
Olho para o banco de trás. Trois está lá, em
silêncio absoluto, mas sorri ao ver Deux pela janela.
“Por favor, pare com esse assunto”, minha mãe
responde.
Um vídeo começava a fazer download na nuvem
no exato momento em que quase sou flagrada por Caim
escondendo o celular entre as roupas. E meu coração
dispara. Precisei verificar rapidamente se o fone estava
bem conectado « não podia correr o risco do som vazar.
“Você está gravando de novo?”, ele pergunta.
“Não”, minto sem pensar.
Nos segundos da gravação « entre 00:19 e 00:21,
00:23 e 00:29, e novamente de 00:33 a 00:35 » parecem
ser os únicos momentos audíveis.
Ou será que são mesmo?
Mostrei o vídeo para minha mãe quando
finalmente tive a chance, e... nada aconteceu. Nenhuma
reação. O vídeo continua intocado na galeria. Porque era
algo que eu poderia ouvir sozinha, à noite, quando a
ansiedade e a insônia decidissem me visitar. Quem sabe,
se eu conseguisse saber em que errei… no porque não
ficou audível. Eu precisava encontrar uma prova real,
concreta e inegável.
Saí do banheiro com o olhar perdido, e desta vez
nem me dei ao trabalho de escondê-lo. Para quê
esconder? Ele havia conseguido ficar sozinho comigo de
novo. E tudo se repetiu « cada gesto, cada palavra, cada
fragmento daquilo que me angustiava. Até a cena patética
em que tentei, mais uma vez, gravar alguma coisa.
Gravar de novo foi uma tentativa falha e
desesperada de escapar do papel que todos pareciam já
ter me atribuído « mentirosa.
Um som escapou da minha garganta, meio
sufocado, quase um gemido « não por escolha, mas
porque algo se formava por dentro e eu lutava para
engolir de volta, dor física. Ele havia me mordido.
O vilão sorriu. Talvez não se importasse se eu
estivesse vazia por dentro, desde que conseguisse o que
queria. Ou talvez achasse, de forma equivocada, que eu
estava retribuindo sua nojeira.
Por que caralhas isso estava acontecendo de
novo?
Ele se aproximou, insistente, como se minha
subsequente falta de reação fosse algum tipo de
permissão. Será que Caim nunca temeu ser exposto?
Então, de repente, ele parou.
“Alguma hora seu corpo vai responder”, diz,
“Você não vai parar de gemer de prazer. Porque você
entende dessas coisas agora”.
Tive medo disso também « talvez mais do que do
próprio nojo. Medo de, de alguma forma, corresponder
involuntariamente, e me sentir ainda pior por isso.
Porque eu me sentiria um lixo de ser humano.
Absolutamente tudo me dava nojo. E raiva. Uma
raiva silenciosa, que parecia vir de um lugar infinito. Sua
forma de ser escroto, a falsidade na frente dos outros, e o
modo como me prendeu contra a porta « ninguém vê
nada disso.
Fiquei sozinha com ele, e entre a porta trancada
do banheiro e meu corpo sendo pressionado contra a
madeira, a consciência, já desgastada, lutava para se
manter desperta «enquanto os fantasmas voltavam.
Naquele instante, não era apenas Caim diante de mim
«Eu estava sendo atacada pelo fantasma do passado.
2017, Julho
Passei os últimos dias em silêncio.
O tempo parece acelerar, e com ele cresce meu
desânimo em interagir com qualquer ser humano neste
planeta.
Cada elección que hago gira en torno a la
pregunta: ¿quiero someterme a esto o no? Incluso ver a
los niños ha requerido un esfuerzo inmenso.
É um contraste gritante com quem eu costumava
ser, alguém que adorava agir por conta própria,
livremente e sem procrastinação.
Passei a esconder esses sentimentos até mesmo
da Emma « assim não a incomodo mais. Mas, por quanto
tempo será que meu estado de espírito vai permanecer
assim?
Minha decadência não começou agora « afundei
há bastante tempo, quando ainda flertava com as bordas
do abismo. Desde então, sigo vagando por dias solitários
e inúteis, a ponto de esquecer até mesmo informações
básicas, como o que aprendi na escola.
Aunque mi cuerpo está paralizado, mi mente ha
comenzado a despertar. Me opongo a lo que está pasando
y finalmente me doy cuenta de que hay una nube espesa
que cubre mis ojos y necesito disiparla.
Você quer saber o que significa? Significa que
está na hora de tomar uma atitude.
2017, Julho
Dear Diary, me perdoe por me referir a você
sem ter te dado um nome, mas não farei isso. Porque,
para mim, você sempre foi um longo bloco de notas com
quem pude conversar « E sei que eu serei apenas o
personagem de uma história que você conheceu.
Atualmente escrevo com menos frequência, e
temo que isso seja um adeus. Mas há conforto em saber
que, de alguma forma, registrei tudo isso « porque eu
existo além destas páginas.
Tem cenas que você jamais soube da existência,
claro. Como o encontro com o Ballerini. Mas tudo bem,
faz parte do gênero Slice of Life « recortes do cotidiano.
Já ficou claro que escrever não traz mais alívio «
essa sensação se tornou passageira » assim como os dias
do ano tem sido. Infelizmente, você começou a se perder
no momento em que deixei de contar os dias, horas e
minutos.
Talvez a imagem que você tenha de mim agora
seja a de uma garota em queda livre, despencando em um
abismo, cercada por folhas soltas que caem comigo « É
como se eu estivesse me afogando nelas, ou sendo
arrastada pelo peso que cada palavra carrega » Enquanto
me rendo à gravidade que me empurra para baixo.
TODAS AS PEÇAS JUNTAS AO
ACASO
Eu estive desejando a uma estrela enquanto meu
universo se desfaz. Me sinto tão longe do céu, enquanto meus
sonhos flutuam. Eles dizem que é uma batalha que não pode
ser vencida. Precisamos de nossas facas, precisamos de nossas
armas. Devo fugir e mudar meu nome? Ou devo ficar e lutar
pela noite? E nunca fechar os olhos, nunca fecharei os olhos.
SAME OLD WAR, Our Last Night
2017, 08 de Setembro
Escrever é a única coisa em que ainda sou boa,
mas até isso parece estar escapando por entre os dedos «
Dora percebeu isso e pensou que ler minhas palavras
seria uma boa maneira de me ajudar a recuperar a
confiança.
No estoy segura si fue Dora quien finalmente
estaba lista para leer el diario o si fui yo quien estaba lista
para mostrarlo. Pero llegamos a un consenso « hoy ella se
sentaría a leer.
Lágrimas descem por seu rosto, mas ela não as
enxuga.
“Acho que agora você me entende melhor”, digo.
“OH, sim querida”, sua voz é suave como glacê.
“Eu não sei se escrevi bem, apenas queria ser
ouvida”
“E você foi maravilhosa nisso”, ela fecha o
caderninho, “Posso pedir um favor? Não pare de escrever,
Liarte”.
Alguém tinha me ouvido pela primeira vez « uma
sensação de gratidão começa a surgir em meu peito.
“Alguém realmente me notou, notou minha dor.
Agora estou livre para deixá-la ir. Depois de contar a
minha história para alguém, me sinto leve. E, de certo
modo, é o que eu deveria ter sentido a mais tempo”, digo.
Ela assentiu com a cabeça, completamente em
silêncio. Me viro para pegar algo na bolsa « o livro que
Dora havia me pedido para ler. Quem é você Alasca, de
John Green.
O protagonista não descobre quem é a Alasca.
Mas, durante essa jornada, ele enfrenta inúmeras
situações que o ajudam a compreender que a vida só
segue adiante quando permitimos que experiências novas
aconteçam « E eu devo agir da mesma forma, encarando
esse grande talvez que é a vida.
Ainda estou aprendendo a desvincular essas
memórias da sensação de medo e repulsa. Mas a
maturidade para encarar os próprios sentimentos virá
com o tempo « Por hora, devo continuar vivendo dia após
dia, sem me deixar levar por coisas negativas.
Dora agradece pelo livro e depois sorri
brevemente.
Nos encaramos por um momento, como se
compartilhássemos o mesmo entendimento « ambos
sabíamos que era o fim da terapia » Eu sabia que não
precisava mais vê-la, assim como ela também sabia que
seu trabalho havia sido concluído.
2017, 12 de Setembro
Emma entrou em contato através do Tumblr.
Ela pediu para que voltássemos a ser amigas «
Foi gentil o tempo todo e até chegou a dizer por favor. Es
difícil escucharla pedirme que no me vaya. Pero esto es
algo que necesito hacer.
Eu já não podia mais contar para a Emma tudo o
que sabia « Que o Caim fez de novo; E que minha outra
avó já está me esperando.
“Eu sei Emma, é difícil. Mas você vai crescer, e
vai ficar tudo bem”, escrevi e enviei. Abandonar algo não
significa, necessariamente, dizer adeus para sempre.
A partida
É possível ficar ansioso só por causa de uma
despedida? « Me sinto um pouco desgastada. Parece que,
não importa o lugar, sempre haverá um sentimento
inacabado. Porém, olhar o horizonte me trás um pouco de
esperança.
Estarei me juntando aos anti-herois da história «
meu pai e minha avó paterna. Consegui ‘sobreviver’ para
ver esse dia.
“Então você vai mesmo”, ouço uma voz doce atrás
de mim. Viro para encarar a garota seis anos mais nova.
Flora, uma das três filhas do meu tio, que veio me ver
hoje. Ela se aproxima e estende uma das mãos,
depositando algo na minha palma « um colar dourado
com letras garrafais escrito Te Amo.
“Sim”, respondo.
“Boa sorte, Lia”
Ficamos em silêncio depois disso. No fundo,
ambas sabíamos que a indecisão é mais dolorosa do que
ter uma resposta definitiva. Talvez por isso, no momento
da despedida, não hesitamos. Ela desceu e se foi sem
dizer uma palavra, apenas abriu o portão e saiu sem olhar
para trás « Permaneço no quarto, embrulhando minhas
coisas.
Detestava despedidas. Elas não passam de
súplicas por vírgulas onde, na verdade, deveriam existir
pontos finais.
Deixei Flora descer primeiro, apenas para poder
olhar tudo uma última vez antes de partir. Meus pés me
levam até o quarto dos meus avós « Tudo aqui exala um
cheiro específico, algo que eu não sentiria em nenhum
outro lugar. A madeira maciça, a boneca de porcelana, a
caixa de música… Observei cada detalhe, tentando
gravá-los na memória.
“Sim, agora está tudo bem porque vou viver algo
novo”, penso.
A voz tranquila e sábia do meu avô « o homem
que me criou afetiva e financeiramente como se eu fosse
sua própria filha, e que posso nomear como Avôhai » vou
sentir falta disso.
12H
Um Peugeot 206 prata, com vidros escuros,
encosta do outro lado da rua, na mão oposta, como se
anunciasse sua pressa. A placa, de outra cidade, se
destaca no veículo «vejo meu pai descer primeiro,
caminhando à frente das outras duas pessoas, minha avó
e minha irmã.
O nome da garotinha é Beyoncé « Alice, sua mãe,
é fã da cantora pop » By nasceu no mesmo ano que
Quatre.
Meu pai parece desfilar ao som de trombetas,
paralisando o ar ao redor. Com a postura ereta e a cabeça
erguida, ele move os ombros para frente e para trás
enquanto caminha, realçando os músculos do peitoral
sob a camiseta justa de mangas compridas. Depois, tira
os óculos escuros e estreita os olhos na minha direção.
“Meu pai tirou a barba?”, penso.
“Aquele é o Vin Diesel?!”, uma voz feminina
exclama atrás de mim.
“Não. Mas como parece”, diz outra. São as moças
da loja.
Joe sorri para mim.
“Aquele homem é o pai da neta da Carolina”
Saí correndo da loja para abraçá-lo. Segundos
depois, percebi que By estava me observando. Ambas
parecem derreter com o calor « Minha avó está com uma
calça caqui, uma camisa de seda com mangas compridas
e sapatilhas de salto. E minha irmãzinha, com uma meia
calça branca de lã, botas longas e um vestido com gola.
Seu cabelo loiro e ondulado chega à cintura.
Um contraste com o cabelo curto, liso e castanho
das minhas outras irmãs. E comigo mesma « estou
usando uma blusa regata, um short jeans claro de cintura
alta e coxas largas.
E o colar que a Flora me deu.
13H
Meu corpo está sentado no banco de trás do
carro, com os vidros fechados e o ar condicionado ligado
« enquanto as rodas deslizam em uma estrada margeada
por árvores e plantações de café intermináveis » Mas
minha mente está em outro lugar, em cima de um monte,
observando o azul do céu.
“Coloquem os cintos, todo mundo. Vou acelerar”,
anuncia meu pai. Algo que sobressaltou minha avó no
banco do passageiro, pois ela detestava o jeito como ele
dirigia.
Ele sorri para o retrovisor, “Eu não sou um
motorista, sou um piloto”, diz.
O motor ruge forte e ele costura os carros à nossa
frente, segurando o volante com apenas uma das mãos.
Enquanto isso, no rádio toca Racionais em volume baixo.
2017, primeiro de Outubro
Quanto tempo é necessário para fingir que esqueceu
alguém que amou? - Autor desconhecido
A amei com toda a minha sinceridade, mas não
foi suficiente. O amor por si só não foi capaz de romper a
barreira entre nós duas. Ou talvez Ballerini estivesse
certo « Emma estava me usando.
Não queria pensar nisso agora, porque a imagem
da Emma ainda está bem viva na minha mente. Mas se eu
tivesse percebido antes, a verdade não doeria tanto,
mesmo arremessada na minha cara. Meu coração mal
teve tempo de se preparar.
A Emma que fez o Ballerini parecer uma pessoa
horrível por tentar nos separar, agora é a mesma que se
contradiz. Cada palavra de sua mensagem de texto faz eu
me sentir uma idiota. Estou lendo com lágrimas no rosto,
“Eu NUNCA gostei de você. Foi tudo SEM SAL para
mim”.
Ele foi tão firme ao me segurar pelos ombros e
pedir que eu acordasse. Por que nunca ouvi?
Estou acordada agora, Dear Diary.
Minha melhor amiga foi tão cruel se
aproveitando da minha fragilidade, que não é difícil me
sentir como uma segunda opção « uma experiência »
Emma queria ver como era ser bissexual. E ela me
descartou após conseguir.
Então, aquele tempo… não significou nada?!
Pisco os olhos tentando conter as lágrimas, mas elas
continuam vindo. Há outra mensagem piscando na tela, e
eu sei que preciso lê-la. Se não, Emma se irritará com o
meu silêncio e encherá a caixa de mensagens.
Desbloqueio o celular com os dedos trêmulos e
começo a ler, “Isso não quer dizer que eu tenha gostado
de te beijar. Na verdade, foi um erro do qual EU ME
ENVERGONHO de ter cometido. Se pudesse voltar atrás,
com certeza não teria feito. Acho que cada um tem direito
a sua opinião: eu não gosto da mesma coisa que você,
entenda isso. Minha vontade agora é de lavar a boca com
desinfetante”.
As últimas palavras me atingem com força.
Tinha certeza de que a amava, assim como tinha
certeza de que sabia porque foi tão difícil concluir isso. O
conceito de sexualidade que eu costumava enxergar foi
radicalmente transformado depois do primeiro beijo «
Passei a ver esses sentimentos como algo normal » Emma
revelou quem eu era, e não estava quebrada.
“Porque agora? Porque esperou eu ir embora? Ou
é justamente porque fui embora?”, escrevo, mas a
vontade de enviar se perde no caminho. A dúvida não era
um benefício, apenas me distraía de enxergar a
hipocrisia.
Emma queimou as memórias que construímos
juntas, riscando um fósforo e atirando em líquido
inflamável. Estou queimando junto.
Fecho os olhos e visualizo nós duas ouvindo
música no quarto. Em seguida, deixo que a última
lembrança surja, fluindo junto com as lágrimas « para
que eu possa libertá-la e deixá-la ir.
Fiz uma expressão dramática apenas para fazê-la
rir, enquanto eu dizia, “Não sei dançar essa”.
“Você não precisa saber”.
“Como não?”
Emma ri outra vez, “Apenas me acompanha”.
Ela segura minha mão e, em seguida, me gira até
que nossos rostos fiquem milimetricamente próximos.
Depois se afasta, e dança atrás de mim. Permaneço
imóvel até Emma dar alguns passos para o lado e sair do
meu alcance. Ela dança mais enquanto caminha, me
rodeando até ficar na minha frente.
A química entre nós era inegável.
Não consigo tirar meus olhos dos dela, que estão
mais próximos a cada passo. Emma observa meus lábios,
depois se inclina e encosta a cabeça no meu pescoço,
ainda com um sorriso no rosto.
“O que foi?”, sussurrei, não sei por qual motivo.
“Nada”, ela sussurrou de volta.
Alguns segundos se passam até ela ficar mais
perto e me beijar por vontade própria. Correspondo,
sendo guiada pela suavidade dos movimentos de Emma.
Levo as mãos até o seu pescoço e deixo as unhas
deslizarem por suas costas, erguendo levemente o tecido
da blusa. Em resposta, ela envolve a parte de trás do meu
cabelo com a mão em concha.
Tudo de extraordinário que aconteceu, também
esteve acontecendo dentro de mim « meu mundo fazia
sentido, e eu estava aceitando quem eu me tornei.
Mas, por mais doce que essas lembranças sejam,
não são intransponíveis « Eternas. A amargura que sinto
agora conseguiu se sobrepor a todas aquelas coisas que
senti antes.
É trágico querer algo que não podemos ter, Dear
Diary. Porém é mais trágico ainda se deparar com uma
desilusão. Um ano atrás Emma admitiu que queria
terminar o namoro para ficar comigo, mas agora sou
incabível ao ponto de ela falar em desinfetante.
Emma me fez criar expectativas por cada
sentimento correspondido; Mas cultivá-los nunca
machucou alguém tanto quanto tem machucado a mim
mesma.
Encosto a cabeça na parede que está atrás de
mim. No fim, fui a única que insistiu em algo irreal.
Sinto o coração doer e não porque levei um fora,
mas por perceber que Emm foi apenas um borrão ao meu
lado. Minha cabeça está girando « mais uma vez, fui um
objeto descartável.
Outra mensagem chega, mas dessa vez não leio.
Eu sabia que a fantasia não duraria para sempre,
mas nunca imaginei que não houvesse significado
absolutamente nada para a Emma. Essa situação talvez
seja um gatilho, algo que me obriga a refletir se o que eu
senti foi realmente amor, ou se o sentimento foi uma
resposta ao trauma causado pelo Caim.
Vou acabar confrontando a realidade que minha
avó tentou me fazer ver antes « minha aversão por
garotos é realmente culpa do Caim? » Fui teimosa demais
para refletir sobre isso porque me senti ofendida antes.
Mas agora não mais.
É como se Emma sussurrasse I Kissed a Girl e
minha trilha sonora fosse My Immortal… Pego o celular e
começo a digitar algo para Emma.
O GRANDE TALVEZ
SILÊNCIO
Dear Diary
Subo na mesa da tapeçaria e cruzo as pernas,
observando a casa metros abaixo pela janela. A mesa é
robusta o suficiente para suportar o peso humano «
retangular e alta, feita de madeira maciça. Meu tio não
está trabalhando aqui agora, então sem problemas.
Olhando ao redor, o salão está preenchido com as
criações mais recentes: dois cavaletes sustentam um sofá
Chesterfield de três lugares, com encosto em capitonê.
Mais adiante, um tecido estendido forra o chão onde
estão cinco poltronas Medalhão, com encosto em palha
italiana e assento de linho.
Abro os braços e giro as mãos no ar. “Alguns
hábitos nunca mudam”, penso.
Emma enviou alguns torpedos dizendo que está
na faculdade, também perguntou se eu continuo seguindo
minha avó por aí.
Releio a última mensagem, depois deixo o celular
de lado, “Você está vivendo na sombra de seus avôs, como
fazia quando morava aqui. Quando vai fazer faculdade?
Quer saber, você é uma encostada que só fica andando
atrás de uma velha, invés de ter a própria vida. Vai acabar
não tendo nada”.
Essa velha é decoradora, e administra os
negócios junto com o meu avô.
Não sei bem o que responder « estou trabalhando
como assistente pessoal. Minha avó me ensina na prática
tudo sobre a profissão, desde como atender os clientes até
como fazer orçamentos e negociar valores, começando
com um preço mais alto para depois ajustar.
Venho aprendendo como identificar quais tecidos
combinam entre si, como neutralizar cores, quais tipos de
tecidos e espumas são adequados para cada móvel, além
de usar uma trena e calcular a metragem dos panos.
Instalar trilhos e pendurar cortinas. Lidar com
fornecedores, fazer pedidos de materiais, orientar
tapeceiros e marceneiros, organizar carretos, realizar
entregas e, acima de tudo, como me portar com elegância
para me adaptar aos ambientes da alta costura.
Ainda sim, Emma consegue fazer com que eu me
sinta diminuída. Sei que um dia ela será uma ótima
farmacêutica, mas odeio a forma como me lembra
constantemente de que terminei a escola e não fui direto
para a faculdade.
Estou no meio de tiras de tecido descartadas,
junto com algumas peças de manta acrílica e espumas
D28 cortadas em diversos tamanhos. E perto do
maquinário, rolos de tecido empilhados, ainda no plástico
da loja. Talvez não seja a vida que Emma idealizou.
Me movo para descer da mesa, mas minha avó
abre a porta e entra. “A senhora está deitada em cima da
mesa de novo?”, diz, “Lia, a cliente da Vila Olímpia quer
trocar a cor do tecido, pega o mostruário de linho. Vamos
deixar na portaria para ela”.
Os mostruários de tecido estão empilhados em
um caixote preso à parede, não seria difícil encontrar o de
linho em particular « como é um tecido mais leve e fino, a
lombada do encadernado contendo suas amostras é
visivelmente mais estreita do que a dos tecidos para sofá.
17H
Pensei que se eu recomeçasse em um ambiente
completamente novo as coisas seriam diferentes. Mas
estava enganando a mim mesma.
O Caim começou a me ligar durante a noite.
Se eu desligo a chamada, ele envia mensagens de
outro número com ameaças « diz que vai mandar alguém
espalhar tantas mentiras sobre mim que minha reputação
e meu nome ficarão manchados lá na cidade. A ponto de
todos, inclusive a minha mãe, pensarem que eu me
ofereci para ele.
Ainda não contei isso para a minha avó. Me sinto
pressionada a cada “oi” que ele sussurra.
“Você pensou que fosse se livrar de mim, fia?
Ainda sou o marido da sua mãe”, o Caim disse da última
vez.
Me livrar dele? Estive perdida em um nevoeiro
espesso durante muito tempo, mas finalmente se dissipou
« Não irei me esconder » irei juntar provas mais
concretas.
01H30
Não fui dormir ainda porque não deito mais cedo.
Às vezes me pego pensando se o Caim é um
monstro que se alimenta de emoções negativas ou se ele
só não passa de um pervertido. Levei um ano e meio para
perdoá-lo. Esse tempo também foi suficiente para
perceber que, na verdade, minha sexualidade foi
influenciada.
Depois de enxergar isso, parei de me sentir mal
ao pensar sobre o sexo oposto. Somos influenciados por
sentimentos à medida que vivemos, e agora eu vejo como
o passado foi destrutivo.
“Lia? Está acordada?”, minha avó sussurra à
porta do meu quarto. Abro e me deparo com ela em seu
roupão branco de veludo.
“Vem tomar chá na cozinha com a avó, fechamos
a porta e fofocamos um pouco. Seu avô está me deixando
doida com as chatices dele, preciso relaxar”, diz, ainda em
tom de sussurro.
Um eco distante
De repente me vi na mesma situação de permitir
que coisas aconteçam apenas para encontrar uma
oportunidade. Mas, costumo afastar o celular do ouvido
quando Caim fala, limitando-me a ouvir pouco.
“Fui abusada novamente. Mas não se preocupe,
desta vez, tenho um plano. Foi tudo gravado por mim” «
lembra dessas palavras?
Minha incompetência passada transformou a
força de vontade do meu antigo eu em um erro. Não vai
se repetir. Instalei um gravador de chamadas no celular «
Cada minuto da conversa é registrado em áudio e
automaticamente vai para o histórico de mídia.
22H 18 MIN
00:03 - Hora que você tiver aí cê manda uma foto
bonita no sap assim de costas sabe, pra mim ver se tá com
um bundão grande, ou não? Cê manda?? Vai lá no
banheiro, mais fica só de calcinha, ai você me manda! Aí
caramba, vai lá, se tranca no banheiro, ninguém precisa
saber ué, eu tô aqui sozinho ué. C vai lá me mandar? Cê
vai lá e tira a foto sô, vai lá. Só pa vê o jeito que cê tá - 00:
55.
00:57 - Uai é que nem eu tô ti falando, você não
pode falar essas coisa pra sua mãe, cê entendeu. Eu só to
mandando você tira umas foto lá só, tira umas foto e me
manda ué, vai lá tira? Aí carai, fala! Fala, que eu vo tá ti
esperando com a foto lá no banheiro, eu vo escova os
denti, aí eu já vô sai. Vai sô, quebra o gaio, ka ka ka, vai
mêmo!? Ãm? Falai! cê tá muda purquê? Vai lá que eu vô
no banheiro lá, mais ai eu falo pru cê, manda do sutiã pra
baixo - 01: 53.
Não há desconforto com a situação, apenas
tristeza. Preciso fazer justiça « por mim mesma, por tudo
que tive que suportar em um passado não tão distante. Se
sofro quando não faço nada e sofro mesmo seguindo em
frente, então não há motivos para não fazer nada.
“O Caim sempre falou tão errado?”, penso por
alguns instantes. Possivelmente minha visão sobre ele
estivesse enevoada pelo estado de paralisia e impotência
em que vivi a vida toda.
É difícil para os humanos serem honestos com os
próprios sentimentos. Talvez, por isso, eu ainda tenha
dúvidas sobre denunciar aquele filho da puta. Minha mãe
provavelmente ficaria surpresa. « Mas, a essa altura, já
não faz sentido continuar sendo cautelosa.
14H55
Não é estranho perceber que desta vez agi rápido
demais? Ninguém ignorou os fatos ou fingiu não
existirem só porque é desagradável. Pelo contrário,
minha avó pediu minha permissão antes de prosseguir.
Simplesmente porque não iria permanecer sentada me
vendo ficar cada vez mais ansiosa. Me recusei a continuar
engolindo o comportamento do Caim, diferente de
outrora.
Já estou pronta para sair, só preciso passar no
banheiro antes. Não vou demorar.
Pego um pouco de sabonete líquido e, em
seguida, abro a torneira, deixando a água escorrer sobre
minhas mãos enquanto as ensaboo « Tento, mais uma
vez, buscar respostas em minha mente, mas os
pensamentos sobre a minha mãe já estão desaparecendo,
diluídos entre milhares de outros.
Inesperadamente, o zíper da minha bermuda
arrebenta e o jeans laceia, escorregando entre as pernas.
Mal tenho tempo de reagir « quanto mais de enxaguar o
sabão das mãos para puxar a roupa para cima, minha avó
passa pelo corredor e abre a porta.
Fica paralisada por alguns segundos, vendo
minha silhueta de costas diante do espelho « com a roupa
caída até os pés » Sua primeira reação é levantar o braço,
apontar o dedo para mim e abrir a boca para dizer algo,
“Você está lavando a bunda na pia?”.
Tento processar o que aconteceu, depois abaixo
rapidamente, agarrando a bermuda e puxando-a até a
cintura.
“Não é o que está pensando vó”, balbucio.
Ela ergue as sobrancelhas e uma risada escapa de
seus lábios. Então dispara pelo corredor, falando alto, “A
Lia tá lavando a bunda na pia!”. Corro atrás dela,
tentando me justificar, “Não estou lavando a bunda na
pia!!”.
Emília aparece na porta da cozinha e, sem perder
a chance, diz algo sobre “água de bunda” para me zoar.
Comecei a rir, acompanhada do meu avô, que estava
rindo na sala.
15H30
Minha avó acabou dirigindo até a 51 DP.
“Espero que aquele desgraçado pague o que
deve”, ela disse, após fechar a porta do carro e aguardar
os vidros se fecharem sozinhos. Fiquei para trás,
observando o edifício branco e cinza da Polícia Civil.
É um prédio retangular de três andares, com um
jardim à frente. E, por alguma razão, ver as viaturas
estacionadas à direita faz minhas pernas tremerem.
Eu não estava avançando com confiança « estava
com medo, mas não poderia deixar transparecer. Então
dei o primeiro passo. E depois mais outro. Até finalmente
chegar à porta de vidro aberta.
“Será que vão acreditar em mim?”, penso.
Minha avó estava me aguardando, sentada em
um banco de plástico gasto na entrada da sala de espera.
Seu olhar me encoraja a caminhar até o balcão.
“Estou aqui para denunciar algo”, digo,
encarando o escrivão com nervosismo. Minha voz falhou
no meio da frase, e meu coração quase saltou pela boca.
O que farei se não acreditarem em mim? Diante
da polícia, eu poderia ser apenas uma garota consumida
pela autopiedade «alguém guiada por um fio de
esperança tão frágil que ameaçava ruir a qualquer
momento»
Ao nosso redor, não havia mais ninguém, apenas
alguns policiais. É aqui que minha memória fica confusa,
só consigo entender vislumbres do que está acontecendo.
O escrivão pedindo para alguém chamar a
delegada, policiais com rostos amigáveis ao meu lado e
alguém me levando até uma sala no segundo andar «
tudo isso aparece como um flash diante dos meus olhos.
20H
Dear Diary, Diana não está aqui para me dar
apoio, e os conselhos da Emma se mostram inúteis nessa
situação.
Ela está preocupada com uma possível retaliação
do Caim, caso eu envie os papéis do boletim de ocorrência
para a minha mãe « como se ele fosse direcionar sua fúria
a ela, e como se esses documentos não fossem ser
entregues a ele diretamente por um investigador no
interior.
“Você ficou louca??”
“Emma, mas e quanto a mim?”
“...”
“Não deveria ter feito o B.O então?”
“Eu vou me casar. Não quero estar envolvida
nisso. Eu gostaria de te convidar, mas a sua presença
agora é um perigo para a minha família”
É difícil acreditar que Emma esteja pensando
apenas em si mesma.
O conteúdo dos áudios está começando a pesar
sobre mim. Caim provavelmente ficará furioso porque
expus todos eles, mas toda sua atenção estará em mim.
Ele nem se lembrará que tenho uma melhor amiga.
Quarta-feira
A liberdade repentina, para alguém que nunca
soube o que é ser livre, é como ser ofuscado por muita luz
« minha mãe não recebeu bem a denúncia. Segundo ela,
as crianças podem se traumatizar com isso.
Eu não precisava de liberdade, mas de tempo
para pensar por mim mesma, até ter certeza de que tinha
tomado a decisão certa. Porque enviei o áudio pelo
WhatsApp.
Minha mãe ficou em choque com o que recebeu,
como se estivesse vendo tudo pela primeira vez. Para
mim, porém, já é algo familiar demais.
Sábado
Os dias estão passando e mal percebi o
transcurso do tempo. Já se foram algumas semanas desde
aquele acontecimento.
Une disse que a nossa mãe pediu o divórcio assim
que expulsou seu pai de casa. E que está feliz agora,
porque ela e Deux não precisam mais fazer silêncio o
tempo todo e nem dormir às 20h no toque de recolher.
Elas não vão passar pelo que eu vivi, em nenhum dos
sentidos « Me sinto aliviada com isso.
Prometi à Une que estaria lá no final deste ano
para ajudar no que fosse necessário.
“Quatre está animado porque a irmã mais velha
vai voltar para casa nas férias de janeiro”, foi sua resposta
antes da ligação ser encerrada.
Também fiquei sabendo que o advogado do Caim
conseguiu arquivar o caso. Mas não estou indignada com
a falta de caráter dele « desde o princípio ficou claro que
tentaria algo assim.
O que me aborrece é a atitude do advogado. Ele
me conhece, é amigo da minha mãe, então como pôde
fazer isso? Ter acontecido, é como trair os policiais que
me ajudaram. O esforço deles foi completamente em vão.
A ira toma conta do meu corpo e, antes que eu
pudesse raciocinar direito, meu instinto de luta e fuga
reage e eu acerto um murro forte na parede. A dor nos
dedos não era nada comparada aos sentimentos de ódio e
revolta «Toda aquela rebeldia que Emma sempre insistiu
para que eu tivesse está, por fim, vindo à tona depois de
jovem adulta. Estou velha demais para sentir isso?
Talvez eu devesse ter vivido essa fase no passado.
Reagir assim agora, talvez não seja maduro.
Incompreendida outra vez
Meu eu do passado está livre. Entretanto, ainda
não me libertei da frustração que sinto ao observar como
as coisas estão.
Meu pai me disse para nunca abaixar a cabeça
«se eu não cometi erro nenhum e confio em mim mesma,
não há motivos para abaixar a cabeça» Talvez por isso eu
tenha discutido com minha mãe quando ela permitiu que
o Caim entrasse para ver Quatre.
Achei que as velhas feridas tivessem
desaparecido mas, de alguma forma, certas emoções
ainda vêm à tona.
“Conheço o Caim. Ele vai tentar se aproximar de
mim novamente, mas quando ver que não quero nada
com ele, isso para. Ele vai sumir, como fez com a mulher
anterior”, foi um dos argumentos dela, quando questionei
se a verdadeira intenção dele realmente envolvia os
filhos.
As crianças sentem falta dele.
Eu queria relevar, mas estou presa em um ciclo
de raiva. Ser julgada por quem deveria me proteger deixa
um aperto no peito difícil de desfazer. «É frustrante
pensar que passei por coisas terríveis e ela se recusa a
enxergar»
Minha mãe prefere jogar o jogo dele do que se
lembrar do passado.
“Para de insistir nesse assunto! Está te faltando
espiritualidade para evoluir!!”, foram suas últimas
palavras antes de sair e me deixar falando sozinha.
Caim mal me olha agora, talvez esteja até
fingindo que eu nunca fui sua filha. Mas essa mudança
não teve gosto de vitória, porque minha mãe ainda vê o
pior de mim.
Se eu fingir que o Caim não teve a audácia de
conversar com ela como se nada tivesse acontecido,
quizás eu consiga encontrar um pouco de paz.
Porque eu deveria me importar com o que ele
faz? Não é nada que eu possa impedir, apenas ficarei
mais frustrada.
Antes de aparecer por aqui, ouvi minha mãe
murmurando algo. Sobre Caim ser narcisista e sobre
como ela esteve presa em um casamento ruim durante
doze anos. Doze anos de sua vida jogados fora.
EPÍLOGO: DEPOIS DO
HORIZONTE DE EVENTOS
Não tenha medo. Você nunca mudará o que aconteceu
e passou. Que o seu sorriso brilhe. Não fique assustado, talvez
seu destino te mantenha aquecido. Porque todas as estrelas
estão desaparecendo, apenas tente não se preocupar, você as
verá algum dia… pare de chorar tanto.
STOP CRYING YOUR HEART OUT, Oasis
2025, 27 de Março
Caim parou de pagar pensão.
Ainda assim, a determinação da minha mãe «em
não pedir ajuda financeira aos meus avós» permanece
intacta. Estamos prestes a vender mais um móvel de casa,
apenas para pagar as contas. Minha mãe sempre seguiu
em frente sozinha; talvez esteja fazendo isso agora. Fingir
que não precisa de ninguém já se tornou um hábito.
Não sei quais são seus valores em relação a isso,
mas está claro que estão profundamente enraizados.
“Que coisa mais solitária”, penso; ainda mais porque a
agenda da minha mãe precisa ser flexível devido ao
tratamento fisioterápico da Trois.
“Eles não precisam se importar com coisas tão
triviais; não irei preocupa-los com isso. Ainda temos a
máquina de lavar, uma mesa, as cadeiras e a
escrivaninha. Você não abra a boca sobre o que estamos
fazendo”, ela disse.
Nesse momento, vi uma mulher orgulhosa,
determinada a lutar com unhas e dentes até a última gota
de suor. Então prometi que não diria nada.
Há coisas que simplesmente não devem ser ditas.
23H
Na esperança de que a fé melhore a nossa
situação, minha mãe aderiu uma nova religião. É
assustador como ela é perfeccionista e até obsessiva com
isso.
Não ligo para as velas ou para as contas de Orixá,
o atabaque ou a música alta. O que me incomoda é a
maneira como ela impõe a crença, compelindo todos a
seguir preceitos que não são completamente
compreensíveis.
«Inicialmente fui proibida de ter ou de marcar
compromissos nas sextas-feiras, meu dever é cuidar de
Trois para que minha mãe vá no terreiro de Umbanda»
Estou um pouco ansiosa, Dear Diary. Não é todo
fim de semana que meu namorado está bem o suficiente
para nos vermos, por isso estou me perguntando se é
justo abrir mão das sextas.
Justo ou não, só há eu para ficar com Trois;
minhas irmãs estarão na escola. Agora o ensino médio é
das 14h às 21h30.
2025, 02 de Abril
Antes que eu percebesse, acabei aqui. Estou de
volta à casa onde tudo começou. A escuridão desapareceu
dela, restando apenas a sensação familiar de mudar para
um lugar novo.
Estou onde deveria estar desde o início?
Hesito por um momento entre entrar no quarto
ou não, agora o segundo do corredor. A dúvida se dissipa
assim que olho para o objeto que carrego nas mãos «uma
pequena garrafa de vidro» Meus dedos a envolvem com
força para que não caia.
Irei deixá-la sobre a mesa de centro, ao lado da
minha cama. É um garra-duende de São Thomé das
Letras.
Para algumas culturas ao redor do mundo, os
duendes são espíritos elementais. Guardiões da terra.
Tradicionalmente, quando você tiver um, deve
apresentá-lo à sua família.
Girei a garrafa, observando o pequeno rostinho
sorridente dentro dela, já imaginando como começaria o
monólogo.
“Ele é bem fofo na verdade”, penso.
“Voltei a morar no interior para concluir a
faculdade que comecei”, digo em voz alta, “Meu nome é
Liarte”.
Pensei em falar sobre a Emma, mas atualmente
ela não está mais no pedestal que costumava ficar. Nos
últimos meses, refleti sobre tudo o que aconteceu em
treze anos sendo sua melhor amiga «Todos os ataques de
ciúmes, a competição, os momentos em que ela
simplesmente parava de falar comigo, suas respostas
rudes e até os tapas que recebi, sempre justificados por
ela como um gesto de carinho.
“Une tem 16 anos e Deux 15. Minhas irmãs se
tornaram pequenas. Diferente de mim na idade delas”,
continuo, “Na verdade, Une se tornou a típica garota
padrão. Tanto na aparência quanto no comportamento”.
“Não estou à altura, Une parece uma modelo”,
reflito por alguns segundos. Casualmente, minha mãe me
faz recordar disto com comentários «Estou
impressionada como as minhas duas meninas ficaram
delicadas. Já você é grande como o seu pai. Uma
cavalona»
É difícil ouvir esse tipo de coisa e perceber como
minha mãe parece quase ofendida quando alguém que
nos conhece faz tempo diz o quanto somos parecidas. No
fundo, tudo o que eu queria era ser reconhecida por ela,
pelo menos uma vez.
Mas esse tipo de comparação era inevitável,
principalmente porque eu retornei depois de um tempo
fora.
“Quatre tem 12 anos e está quase da minha
altura”, digo, enquanto rio da forma como isso soa.
Preciso continuar a apresentação, então sigo
falando, “Embora minhas irmãs tenham total liberdade,
as responsabilidades somadas recaem sobre mim. A
justificativa é que eu sou a mais velha”, aperto a garrafa
com tanta força que os nós dos meus dedos ficam
brancos. Minha mãe se tornou rígida comigo depois que
voltei.
Nada é implícito. As meninas simplesmente não
ajudam dentro de casa, fazem o que querem e nunca
assumem os próprios erros. E se minha mãe vai xingar
sobre qualquer coisa, ela me xinga. Sei que é
mentalmente cansativo, mas era realmente necessário
dizer isso a um duende de biscuit e feltro?
“Minha mãe diz que minha obrigação é ser forte.
E que eu devo aprender como o mundo funciona”,
suspiro, “O que talvez ela não veja é o favoritismo
descarado em cada um dos seus gestos… Por exemplo,
não posso corrigi-las, a menos que queira ouvir minha
mãe gritar que estou sendo imatura e implicando com as
meninas”, nesse momento, minha voz quase sai falha.
Pisco rapidamente, tentando conter as lágrimas
que ameaçavam escorrer pelo meu rosto.
Não posso acreditar que me deixei abalar por
causa de um duende. Mas é tarde demais para
arrependimentos. Alguns acontecimentos já invadiram a
minha mente «Esta casa fica perto o suficiente da casa
dos meus avós. É por isso que estamos aqui, porque meu
avô está doente»
A primeira coisa que minha mãe me disse foi que
eu deveria abrir mão de qualquer trabalho para cuidar de
Trois, enquanto ela o acompanha nas consultas de rotina
no HC.
Depois alegou que o meu desejo de ficar fora de
casa era extremamente egoísta e que, como ele tinha sido
um pai para mim, eu deveria priorizá-lo e não ser ingrata.
O pior é que toda a família sabe o quanto é difícil
entrar no mercado de trabalho sem experiência estando
mais velha. Mas não tive a chance de mencionar isso sem
ter que ouvir vários sermões desesperados da minha mãe.
“POR ENQUANTO A GENTE TEM QUE IR
FAZENDO ASSIM, ATÉ VER O QUE VAI FAZER!
NOSSA, VOCÊ ESTÁ SENDO MUITO EGOÍSTA,
PORQUE A SUA AVÓ SEMPRE DEU TUDO PARA VOCÊ
ENQUANTO ELES ESTAVAM BEM. AGORA QUE NÃO
ESTÃO LEGAL, TODO MUNDO QUER SAIR DO
BARCO? PORQUE TEM QUE CUIDAR DA VIDA? VOCÊ
NÃO DÁ VALOR PARA A FAMÍLIA! VOCÊ ESTÁ SENDO
IMATURA E HORRÍVEL!”
Simplesmente abaixei a cabeça e fiz o que minha
mãe disse, tentando não parecer egoísta. Emma foi contra
a minha reação, expondo como a situação é absurda e
errada por eu ter que parar a minha vida enquanto os
outros continuam as suas normalmente. Tantos
familiares, por que só eu?
Porque, Emma, também sou filha dos meus avós
e, sinceramente, não há outra opção para mim.
Continuo o monólogo, “Pedi para Une levantar os
pés para que eu pudesse varrer, ela apenas ergueu os
olhos do celular e me xingou”. Refletindo sobre esse dia
percebo que, minha postura habitual de tentar manter a
calma e responder de forma firme, falhou
miseravelmente.
Limpo a garganta e volto a falar, “Une disse que
sou uma vagabunda que não trabalha, portanto é minha
obrigação limpar a casa todo dia. Como resposta, apenas
perguntei porque ela não fica com Trois no meu lugar. E
Une rebateu dizendo que não vai largar a escola, porque
quer ter um futuro”.
Acho que, com o passar do tempo, e tanta pressão
e estresse acumulados, realmente acabei ficando louca
«não me orgulho da maneira que encontrei para
sobreviver a essa convivência: se elas são um lixo, então
eu me tornaria um lixo ainda pior. Não consegui engolir
a ironia na voz da Une, e mandei ela se foder»
Dear Diary, doeu perceber que minhas irmãs não
reconhecem o que já suportei para protegê-las. Não é a
primeira vez que escuto coisas desagradáveis em casa
«Por exemplo: a meses, Quatre joga na minha cara que eu
não tenho absolutamente nada, e faz isso sem realmente
perceber a minha situação.
¿Cuál es su propósito, aparte de hacerme sentir
inútil? Honestamente no tengo idea.
Meus dedos finalmente se afrouxam sobre o
vidro, “Ainda não falei sobre mim, amiguinho”, digo alto,
soltando um longo suspiro.
Deixo a garrafa no quarto e dou três passos pelo
corredor, até parar diante do espelho de corpo inteiro na
porta do banheiro.
Meu olhar pode até continuar o mesmo, mas as
sobrancelhas estão cheias de falhas e os cílios, ralos.
Minha boca ficou pequena demais para o rosto. A pele
terminou desbotada com a falta de luz solar. O cabelo
está mais fino, e engordei onze quilos. No fim, talvez eu
mereça o título de cavala.
Para alguém que aprendeu que beleza é cartão de
visita, estar completamente largada é algo triste.
Minha autoestima desapareceu no mesmo
momento em que um buraco foi aberto no meu peito
«odeio ser tão patética, assim fica fácil ser alvo de
adolescentes idiotas»
2025, 03 de Abril
Calar a boca e apagar minhas emoções, era assim
que eu costumava ser. Já não quero mais viver assim,
Dear Diary.
Não vou mais reprimir o que estou sentindo
apenas para suportar tudo em silêncio, mesmo que isso
signifique deixar minhas emoções explodirem quando
achar necessário.
«Mesmo que signifique ser chamada de colérica»
As pessoas precisam entender que luz e trevas
sempre caminham lado a lado. E quanto maior é a luz,
maior será a sombra.
12H
Existe algo que me traz conforto. Mesmo que me
observe pelos cantos. Um majestoso gato tuxedo com
olhos cor de esmeralda. Seu nome é Hórus. Às vezes sinto
que ele me protege de forma silenciosa, mijando nas
coisas das meninas.
Tem outros gatos em casa, mas nenhum é tão
especial quanto ele «Talvez, o Hórus saiba que sou sua
dona» Espero eternizá-lo em meu coração.
Não vai ser difícil lembrá-lo depois que ele se for,
por causa de uma peculiar mancha preta que cobre
apenas o lado esquerdo do seu rosto, da ponta do nariz
até os bigodes.
2025, 10 de Abril
Costumo amaldiçoar minha existência por
pequenas coisas. Como daquela vez em que minha mãe
disse casualmente que eu arruinei sua carreira ao nascer;
Ou então quando levei um sermão depois de ser seguida
por um carro à noite.
“Você foi muito burra. Porque não andou de cara
séria? Você não serviria para viver em uma cidade
grande. A vida vai te destruir se você continuar lerda
nesse nível”, tive que ouvir cada palavra, enquanto
desejava que minha mãe me oferecesse algum apoio. Mas
claro, estou velha demais para isso.
Tudo o que consegui fazer foi chorar.
Aconteceu porque sou fraca? Escolhi mostrar
meus sentimentos em vez de escondê-los «mas por
quanto tempo isso vai funcionar?» Não acreditam
quando digo que sinto que estão colocando culpa nos
meus ombros. No fim, minha mãe apenas disse que,
como adulta, não tenho controle emocional.
Quer saber? Sempre pensei que pudesse aguentar
qualquer coisa. Depois de tantos anos, percebi que não
posso mais.
«No passado, em vez de ficar brava, eu os
protegia. Porém essa resiliência chegou ao fim, a única
coisa que restou foi raiva pelos insultos. Como na vez em
que Quatre disse que eu era uma filha bastarda; talvez
movido pela mágoa de seu pai ter ido embora»
2025, 19 de Abril
“Pelo menos, o meu namorado não é retardado
como o seu”, desdenhou Une. Totalmente errada.
Por incrível que pareça, não senti raiva da minha
irmã. A raiva que tenho de mim mesma ocupou mais
espaço «tendo em vista que vivo me sentindo
insignificante e pedindo desculpas o tempo todo, tenho
certeza que ele detesta» Sempre prometo a mim mesma
que vou parar, mas nunca consigo.
Natanael está sempre tentando me oferecer
amparo, mas não entendo por que sou tão resistente a
aceitar ajuda. Talvez tenha medo de quebrá-lo, ou medo
de que ele se canse de mim e vá embora.
E o mais irônico é que nada disso deveria estar
acontecendo. Afinal, eu sou a sua única rede de apoio.
Como ele é? Se parece com um bárbaro de
inverno.
Sua pele é branca como neve, seus lábios são
grandes, cheios e têm um delicado tom rosa. Os olhos
verdes lembram o tom de azeitonas maduras. Alto e forte,
seu corpo se destaca pelos ombros largos e pernas longas
e musculosas. Mas, apesar de sua aparência imponente,
seu jeito é totalmente inocente e meigo.
“Já estou quebrado. Mas nunca deixei de tentar o
meu melhor por você”, Ael me disse algumas vezes. O
suficiente para que eu memorizasse.
Achei que ficaria contente apenas em me doar
sem receber nada em troca, tanto que negligenciei a mim
mesma. Mas por que meu coração se aquece ao ouvir
essas palavras?
“Há um limite para o que você consegue fazer
sozinha”, Ael tentou me convencer; e agora percebo que
sobrevivi a este mundo graças a ele.
“Acho que já chegou”, penso.
Um Honda 2008 cinza chumbo encosta no
meio-fio. Ael demora um pouco para descer. Mas ele
estava lá, parado diante do portão «como o homem que
eu queria acreditar que poderia me proteger, mesmo que
fosse apenas uma meia verdade. Pois não dá para contar
com ele em muitas coisas»
Ele balança o corpo intensamente de um lado
para o outro. Suspiro aliviada ao vê-lo bem. O cordão com
padrão de quebra-cabeça fica visível em volta do pescoço
quando Ael se vira para mim.
O Hórus se estica preguiçosamente e, em seguida,
caminha com passos leves até as pernas dele. “Gato!”, Ael
diz enquanto aponta.
“Gato”, faço questão de repetir enquanto sorrio
para ambos, já sabendo que aquilo era uma ecolalia.
“Gato.”, Ael repete com ar de aprovação.
No início me aproximei lentamente, mas logo me
joguei em seus braços. Nós nos abraçamos por alguns
minutos, completamente em silêncio.
Se o transtorno do neurodesenvolvimento de
Natanael se tornar uma fraqueza, então eu só preciso me
tornar forte o suficiente para compensar.
Porque, para mim… ele é a luz nos dias escuros.
FIM
AGRADECIMENTOS
À minha avó paterna, Laura Suzana, por ter acreditado
fielmente no potencial desse livro desde o começo.
E à querida que conheci durante a faculdade, Joyce
Santos, cujo exemplo de bondade permanecerá sempre
em meu coração: Sou muito grata pelo apoio
incondicional, amiga.
E aos que zelam por mim: sou grata por apoiarem meu
sonho de ser escritora.
SOBRE O AUTOR
LC. CASTANHEIRO
Natural de São Paulo, a autora é bacharel em
Comunicação Social, com formação em Jornalismo. Já
atuou como colunista de literatura no portal de notícias
Agenda Sette. Atualmente, dedica-se à escrita de uma
saga de fantasia.
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