Monografia Final Capitine
Monografia Final Capitine
Licenciatura em Sociologia
ÍNDICE
Lista de Quadros..............................................................................................................................iv
Lista de abreviaturas.........................................................................................................................v
Declaração de Honra.......................................................................................................................vi
Dedicatória.....................................................................................................................................vii
Agradecimentos.............................................................................................................................viii
Resumo............................................................................................................................................ix
INTRODUÇÃO..............................................................................................................................10
1.4.1 Socialização..............................................................................................................21
1.4.2 Subjectividade..........................................................................................................22
1.4.3 Simbolismo...............................................................................................................23
3.2 Perfil sociodemográfico das mulheres que utilizam e não utilizam os serviços de
Planeamento Familiar no Bairro da Mafalala.............................................................................29
3.4 Factores associados a adesão e não adesão ao Planeamento Familiar das mulheres no
Bairro da Mafalala......................................................................................................................33
CONSIDERAÇÕES FINAIS.........................................................................................................39
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...........................................................................................41
APÊNDICE....................................................................................................................................43
1
v
Lista de Quadros
Lista de abreviaturas
PF – Planeamento Familiar
Declaração de Honra
Declaro que esta Monografia Científica é resultado da minha investigação pessoal sob orientação
da minha Supervisora. Declaro também a originalidade dos conteúdos apresentados e que todas
as fontes consultadas estão devidamente citadas no texto, nas notas e na bibliografia final.
Declaro ainda, que este trabalho nunca foi apresentado em nenhuma outra instituição para
obtenção de qualquer grau académico.
__________________________________________________________
Dedicatória
Dedico esta Monografia Científica a minha família Muthisse, e em especial aos meus pais Jorge
Capetine e Carolina Mateus Chamusse Santos, a Minha Esposa, Venância Muthisse, aos meus
irmãos, Fina, Gil, Elsa, Sónia, Calisto, Jorge e Irene.
ix
Agradecimentos
Quero em primeiro lugar agradecer a Deus pela bênção e pela protecção que me tem concedido
há cada dia, e especial por me ter guardado vivo e saudável até hoje.
Um muito obrigado vai ao meu supervisor Ph.D. Arcanjo Nharucue pela orientação,
metodológica e técnica sem a qual não teria sido possível a efetivação deste trabalho.
Quero também deixar os meus agradecimentos a todos os meus docentes da FCSFS a quem devo
a minha formação.
Devo ainda aos meus colegas e amigos, Bila, Helena, José, Abdul, Armando, Nuvunga, Vick e
Geraldina. Colegas, com os quais contei durante a minha caminhada académica, ao meu colega
de trabalho e amigo Manuel, a minha antiga Directora de Programas, Ana João, pelo apoio e
incentivo para voltar a escola e terminar a Licenciatura, ao meu Director Executivo, Santos, pelo
apoio incondicional, bem como a sua persistência incentivando para que eu feche este ciclo.
Resumo
Esta monografia científica intitulada “"Analise dos Factores Associados ao Planeamento Familiar de e à não
Adesão: Caso do Estudo Bairro da Mafalala de 2022-2024", tem como objectivo analisar os factores de e à não
adesão aos serviços de Planeamento Familiar no Bairro da Mafalala. O estudo foi orientado pela perspectiva
construtivista de Peter Berger e Thomas Luckmann, conforme apresentada em sua obra "A Construção Social da
Realidade – Tratado da Sociologia do Conhecimento" (2004). A pesquisa adoptou uma abordagem qualitativa, como
método de procedimento usou-se a entrevista semiestruturada, permitindo um diálogo aprofundado com as
participantes, a amostra foi composta por 17 mulheres solteiras e jovens, trabalhando como vendedoras no sector
informal, sugerindo vulnerabilidade socioeconómica. Os dados foram submetidos a análise de conteúdo, pois não
houve preocupação com a representatividade mas sim com o aprofundamento da compreensão de um grupo social
sobre determinado aspecto. O trabalho conclui que as percepções, e as representações sociais das participantes sobre
o PF é geralmente positiva, considerando-o um método para prevenir gravidez e infecções sexualmente
transmissíveis, e para permitir que as meninas terminem os estudos. No que diz respeito a não adesão ao
Planeamento Familiar, conclui-se que é influenciada por medo, estigmas culturais e sociais, desinformação, receio de
serem rotuladas pelo parceiro. Outros factores incluem a crença cultural de que ter muitos filhos é riqueza, falta de
acesso a informações claras, distância a centros de saúde, experiências negativas com métodos e a oposição do
parceiro. Os principais factores de influência podem ser agrupados em socioeconómicos, culturais e de acesso a
serviços de saúde, sendo que mulheres com maior escolaridade e renda tendem a ter maior adesão.
INTRODUÇÃO
O presente projecto de Licenciatura debruça-se sobre " Analise dos Factores Associados ao
Planeamento Familiar de e à não Adesão no Bairro da Mafalala de 2022-2024", enquadra-se
no âmbito do trabalho de culminação do Curso de Licenciatura em Sociologia, na Faculdade de
Ciências Sociais e Filosóficas, cujo objectivo fundamental analisar os factores associados ao
Planeamento Familiar e à não adesão aos seus serviços no Bairro da Mafalala, Maputo, no
período compreendido entre 2022 e 2024."
MISAU (2010), mostra que nos países em desenvolvimento, cerca de 201 milhões de mulheres
não fazem planeamento familiar, 137 milhões de mulheres correm o risco de uma gravidez não
desejada por não estarem a utilizar nenhum método de PF e um adicional de 64 milhões de
mulheres utilizam métodos de PF tradicionais que são pouco efectivos.
No entanto, desde 1978 que a declaração de Alma-Ata identificou o PF como uma componente
essencial dos cuidados de saúde primários, no contexto da Política de Saúde para Todos. Por
outro lado, em 1994, na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD)
no Cairo, foi alcançado um consenso a favor de uma abordagem ampla de desenvolvimento
baseada nos direitos reprodutivos e na equidade de género, orientando para que o PF fosse
oferecido como parte integrante de um leque de serviços de atenção à saúde reprodutiva (UN
1995, cit. em MISAU, (2010).
O planeamento familiar é uma das principais estratégias globais de promoção da saúde
reprodutiva, com impacto directo na redução de gravidezes indesejadas, melhoria das condições
de saúde das mulheres e no desenvolvimento socioeconómico das comunidades.
MAAS (2012), afirma que, a nível global, o uso de métodos contraceptivos tem vindo aumentar
em ritmo muito modesto nos últimos anos (0.1% ao ano), sendo que o menor crescimento tem
12
sido reportado nas regiões mais pobres do mundo. No contexto de África, sobretudo da África
Subsaariana, a taxa de prevalência contraceptiva em 2010 era mais baixa que entre as mulheres
de outras regiões em 1990. Para o caso de Moçambique os métodos de planeamento familiar são
limitados e os métodos mais conhecidos e utilizados na contracepção são injectáveis e a pílula.
Os métodos de acção prolongada tais como o dispositivo utra-uterino DIU e implantes são
altamente eficaz na prevenção de gravidez, e em 2012 os implantes foram introduzidos como
novos métodos de PF e tem o potencial de se situar entre os métodos escolhidos (MISAU, 2001).
Tal é o caso do Bairro da Mafalala na Cidade de Maputo enfrenta-se diversos desafios que
contribuem para a fraca utilização de métodos contraceptivos. Esses desafios incluem barreiras
culturais, sociais, educacionais e de acesso aos serviços de saúde, criando um cenário de
vulnerabilidade em relação à saúde sexual e reprodutiva. Além disso, questões como estigmas
associados ao uso de métodos contraceptivos, desinformação, e dificuldades de acesso aos
recursos de saúde sexual e reprodutiva agravam o cenário.
Para a contextualização do problema de pesquisa, partimos de pressuposto que em Moçambique,
o Planeamento Familiar iniciou em 1977 como uma intervenção dentro do Programa de
Protecção à Saúde Materna e Infantil, tendo sido apenas em 1980 estabelecido como um
programa de âmbito nacional com prestação de serviços aos diferentes níveis da rede de
Instituições Públicas de Saúde, com os objectivos de:
"Melhorar as condições de saúde da mulher, especificamente das mulheres com Alto Risco
Reprodutivo que contribuem significativamente para as altas taxas de morbi-mortalidade materna
e perinatal"; "melhorar a saúde das crianças, promovendo um intervalo de pelo menos 2 anos
entre um nascimento e o seguinte", (MISAU, 2010).
fortalecimento da gestão, monitoria e avaliação destes Serviços e das intervenções para a sua
divulgação, promoção e aumento da demanda, (Idem).
A não adesão do Planeamento Familiar gera impactos significativos na saúde pública, como o
aumento das taxas de gravidez precoce, maior risco de complicações na gravidez e dificuldades
na continuidade da educação e desenvolvimento pessoal.
A fraca adesão PF pode ser resultado de múltiplos factores interligados, como o acesso limitado
à educação sexual adequada, a influência de normas culturais conservadoras, a falta de infra-
estruturas de saúde e recursos disponíveis na comunidade, bem como o estigma social associado
ao uso de contraceptivos. Além disso, a desinformação e o medo de julgamento por parte da
família e da sociedade levam muitos adolescentes a evitar o uso de métodos contraceptivos,
resultando em riscos maiores para sua saúde reprodutiva e oportunidades futuras.
Partindo do exposto acima, urge a seguinte questão de pesquisa: Que Factores influenciam a
adesão e não adesão do Planeamento Familiar no Bairro da Mafalala de 2022-2022?
A escolha do tema deste estudo deve-se ao facto de que ao discutir esta temática no contexto de
saúde materno-infantil em Moçambique, possibilitará ao acesso e esclarecimentos no que diz
respeito ao PF, bem como os factores que possam estar associados a baixa adesão ao PF. De
modo geral, analisar os factores associados a baixa adesão PF no Bairro de Mafalala, na cidade
de Maputo é importante pois poderá servir de alerta e/ou guia aos órgãos gestores da saúde na
elaboração de políticas e programas na área da saúde e bem-estar da população.
Ademais, justifica-se pela necessidade de compreender as causas que estão por de trás da fraca
adesão do PF por parte dos casais e sobretudo da mulher solteira. As taxas de gravidez
aumentam os riscos de complicações na saúde reprodutiva e perpetuam ciclos de pobreza,
especialmente em regiões rurais onde os recursos são limitados.
Assim, a pesquisa oferece uma oportunidade de explorar soluções práticas que possam melhorar
a adesão ao planeamento familiar, promovendo não apenas a saúde da mulher, mas também o
desenvolvimento sustentável da comunidade. Identificar e abordar factores como o estigma
social, as normas culturais, as falhas no sistema de saúde e a falta de educação sexual é essencial
para criar políticas públicas mais eficazes e sensíveis às necessidades locais.
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Esta pesquisa é de extrema importância, pois visa trazer conhecimentos sobre os desafios e
oportunidades relacionados ao planeamento familiar, e pode ajudar a formular intervenções
estratégicas que visem melhorar a saúde, promovendo uma abordagem mais inclusiva e eficaz ao
planeamento familiar na região.
Neste âmbito, o presente trabalho tem como objectivo geralː Analisar os factores de e à não
adesão aos seus serviços de Planeamento Familiar no Bairro da Mafalala. E para o alcance do
objectivo geral, teremos como objectivos específicos:
Neste capítulo, inteiramo-nos de forma mais aprofundada sobre os factores de adesa e não
adesão ao Planeamento Familiar, trazendo as várias contribuições de diferentes estudos
realizados. Colocamos igualmente em discussão as perspectivas dos autores que abordam sobre
Planeamento Familiar
Revisão da Literatura
Iniciou-se por analisar os estudos que versam sobre o tema em, onde destacam-se autores como
Mendonça (2018), Silva (2019), Gomes (2020), Cardoso (2021), Pereira (2022).
O primeiro estudo apresentado por Mendonça (2018) com o título “Contracepção e Saúde
Reprodutiva de Adolescentes nas Zonas Rurais de Moçambique”, revelou que a falta de acesso a
métodos contraceptivos modernos nas áreas rurais contribui significativamente para as altas
taxas de gravidez na adolescência. O estudo apontou que muitos adolescentes desconhecem ou
têm dificuldade em acessar serviços de planeamento familiar, o que aumenta a incidência de
gravidezes indesejadas.
O segundo estudo desenvolvido por Silva (2019), cujo título é“ O Impacto do Planeamento
Familiar na Redução da Mortalidade Materna”, defendeu que o uso de métodos
anticoncepcionais de longa duração, como o DIU e implantes, tem sido eficaz na redução da
mortalidade materna em áreas onde o planeamento familiar é amplamente implementado. A
pesquisa mostrou que mulheres que utilizam esses métodos têm menores riscos de complicações
relacionadas à gravidez.
O terceiro estudo de Gomes (2020), que tem como título “Educação Sexual e Contracepção: A
Importância da Informação para Adolescentes”, concluiu que a implementação de programas de
educação sexual nas escolas é essencial para a promoção de comportamentos sexuais
responsáveis entre os jovens. O autor destacou que a falta de informação adequada sobre
métodos contraceptivos leva muitos adolescentes a adoptarem práticas sexuais de risco.
O quarto estudo apresentado por Cardoso (2021) com o título “O Espaçamento das Gravidezes e
a Saúde Infantil”, revelou que respeitar um intervalo mínimo de dois anos entre gravidezes reduz
significativamente a mortalidade infantil. A pesquisa demonstrou que o espaçamento adequado
17
O quinto e último estudo de Pereira (2022), com o seguinte título “O Papel das Políticas Públicas
no Planeamento Familiar em Moçambique”, concluiu que a inclusão de políticas públicas
voltadas ao fortalecimento dos serviços de saúde reprodutiva e o incentivo ao uso de métodos
anticoncepcionais modernos têm sido eficazes na diminuição das taxas de natalidade em várias
regiões do país.
De acordo MISAU (2006), o Planeamento Familiar constitui uma intervenção chave para a
melhoria da Saúde da Mulher e da Criança. Uma implementação efectiva do Planeamento
Familiar (fundamentalmente com recurso aos métodos anticonceptivos modernos e de longa
duração) tem um impacto directo no espaçamento entre os filhos e leva a um impacto importante
na redução da morbimortalidade materna.
Planeamento Familiar é um conjunto de acções que permitem às mulheres e aos homens escolher
quando querem ter um filho, o número de filhos que querem ter e o espaçamento entre o
nascimento dos seus filhos. (Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres,
2001:25).
18
A maior parte do crescimento da população mundial ocorre nos países pobres e em vias de
desenvolvimento, porque as políticas de saúde reprodutiva estão concebidas na perspectiva de
controlo da taxa de estabilização de crescimento populacional rápido, e cujo desenvolvimento
socioeconómico é mais travado pela fecundidade alta (Mariano e Paulo 2009). As autoras dizem
que se estima que mais de 1/3 dos recursos ginecológicos e planeamento familiar são dedicados
na infertilidade e problema relacionado com os mesmos. Por outo lado em relação ao
planeamento familiar revela que existe uma fraca promoção e a procura dos métodos
contraceptivos e a aconselhamento na área do planeamento familiar, entre os provedores de
saúde e limitada.
Segundo Demarque et al. (2014), definem a infertilidade como a ausência de gravidez após dozes
de relações sexuais sem nenhum método contraceptivo, e essa infertilidade pode ser classificada
como primária (não tem filhos) ou secundaria (incapacidade de conceber outros filhos) e a
esterilidade secundária (a impossibilidade de conceber ou voltar a dar à luz depois do primeiro
19
parto), porque informam acerca das causas de esterilidade e tomam disponíveis os meios de
contracepção, que permitem às adolescentes adiar a gravidez e às mulheres evitarem a gravidez
não desejada que pode ser interrompida por um aborto ilegal, uma das principais causas da
esterilidade secundária.
Em Moçambique, a gravidez indesejada é mais frequente nas adolescentes, e quase 17% das
adolescentes entre os 15-19 anos tiveram já um filho. Isso devido a não respeito dos valores pela
sociedade tradicional, particularmente nas áreas urbanas. As adolescentes adoptam a cultura
ocidental incluindo a prática de relações sexuais livres, apesar dos serviços de planeamento
familiar e preservativos serem maioritariamente oferecidos gratuitamente. Por outro lado, a
educação sexual nas escolas é ainda pobre ou não existe e visto que a sexualidade é um tabu, os
pais não a discutem com os seus filhos adolescentes (MAAS, 2012).
Segundo Mariano e Paulo (2009) afirmam que o conhecimento acerca dos contraceptivos é
também ainda muito limitado e mesmo, quando existe, muitos adolescentes têm as suas relações
20
MISAU (2001) mostra que os métodos de contracepção mais usados em Moçambique são os
injectáveis e a pílula, para além do preservativo. Dados da OMS indicam que nos países em
Desenvolvimento, grupo do qual Moçambique faz parte, cerca de 201 milhões de mulheres não
fazem o planeamento familiar, das quais 137 milhões correm o risco de uma gravidez não
desejada por não estarem a utilizar contraceptivos. Enquanto isso, 64 milhões de mulheres
utilizam métodos contraceptivos tradicionais que são considerados pouco eficazes. No geral
quanto aos métodos contraceptivos a pílula é mais utilizada seguindo o preservativo a razão disso
tem a ver com o facto de por um lado PF ser encarado como responsabilidade das mulheres pois
elas é que ficam grávidas, mas por outro elas são que tem maior contacto com questões de
contracepção.
O estudo foi orientado a luz da perspectiva construtivista de Peter Berger e Thomas Luckmann.
Os autores constroem a sua teoria no seu livro "A Construção Social da Realidade – Tratado da
Sociologia do Conhecimento" (2004). Os autores partem do pressuposto segundo o qual a
construção da realidade social dá-se tendo em conta a dualidade entre a realidade objectiva
(estrutura) e a realidade subjectiva (interiorização da estrutura).
Na sua proposta teórica para a sociologia do conhecimento, Berger e Luckmann partem da tese
segundo a qual a realidade é construída socialmente e concebem a sociologia como a ciência que
se deve preocupar em analisar o processo em que se dá essa construção. Nesse prisma, tomam
como primeiro aspecto da colocação da sua proposta teórica, o conceito de “realidade” e
“conhecimento”.
Em primeiro lugar, definem "realidade" como uma qualidade pertencente a fenómenos que
reconhecem ter um ser independente de nossa própria volição (não podem "desejar que não
existam"). Em segundo lugar, definem "conhecimento" como a certeza de que os fenómenos são
21
Berger e Luckmann (2004) focalizam a sua análise no mundo da vida quotidiana, advogando que
o mesmo é construído pelos actores sociais. A vida quotidiana apresenta-se como uma realidade
interpretada pelos homens e subjectivamente dotada de sentido para eles na medida em que
forma um mundo coerente. É nesse contexto que os autores concebem as actividades dos homens
na vida quotidiana como sendo susceptíveis de análise sociológica.
Na vida quotidiana, a realidade é partilhada com os outros. A mais importante dessa experiência
de partilha com os outros é através da interacção face a face, na qual a apreensão de um pelo
outro é resultado do vivido presente partilhado pelos elementos da interacção, o agora e o aqui de
cada um coincidem. Nessa interacção, as componentes trocam significados que lhes facilitam
interagir
A socialização secundária é necessária para a divisão social do trabalho que suscita uma
distribuição social do conhecimento que irá possibilitar os indivíduos a interiorizar outros
significados das coisas. É a partir dessa ideia que os autores olham para a socialização secundária
como indispensável para a compreensão e análise da realidade objectiva e subjectiva. Observar
para essas duas realidades e tendo em conta tanto a socialização primária assim como a
22
1.4.1 Socialização
1.4.2 Subjectividade
De acordo com Berger e Luckmann (2004), a objectividade é uma construção social, não uma
realidade inerente. A sociedade é vista como uma produção humana que, uma vez estabelecida,
age sobre seus criadores como algo externo e coercivo. A objectividade, portanto, surge através
de processos de internalização e externalização, onde as experiências subjectivas são
objectivadas e se tornam fatos sociais.
Dessa forma, a objectividade é vista como um produto social, uma construção contínua que
ocorre através da interacção humana e da internalização de normas e valores sociais. A
sociedade, por sua vez, é percebida como uma realidade objectiva que exerce influência sobre os
indivíduos, moldando suas acções e percepções.
1.4.3 Simbolismo
Segundo Berger e Luckmann (2004), abordam o simbolismo como um componente crucial na
construção da realidade social. Eles argumentam que os símbolos são formas de objectivação que
permitem a comunicação e a transmissão de significado entre os indivíduos, contribuindo para a
criação e manutenção de uma ordem social compartilhada.
De acordo com Berger e Luckmann (2004), a realidade social é uma construção humana
contínua, resultante da interacção entre acções individuais e a sociedade, onde o indivíduo e a
sociedade se moldam mutuamente.
A realidade social não é uma entidade estática, mas sim um processo dinâmico de construção e
reconstrução contínua, no qual o simbolismo desempenha um papel central, (Idem).
A realidade social não é fixa ou imutável, mas sim um processo dinâmico, constantemente sendo
construído e reconstruído pelos indivíduos.
25
Nesta secção, procura-se traçar os eixos metodológicos que norteiam o nosso trabalho pois,
qualquer trabalho de investigação pressupõe a selecção e utilização de métodos e técnicas de
recolha dos dados necessários para a corporificação do mesmo. Assim metodologia, segundo Gil,
é uma actividade básica das ciências na sua integração e descoberta da realidade. Ė uma atitude
que envolve caminhos, formas, maneiras, procedimentos para atingir determinado objectivo.
Esta pesquisa será realizada com recurso à abordagem qualitativa. De acordo com Richardson
(1999, p.70) “o método qualitativo, é aquele que não emprega um instrumento estatístico como
base de análise de um problema”. A sua vantagem consiste em respeitar a totalidade solidária dos
grupos, ao estudar, em primeiro lugar a vida do grupo em unidade concreta; evitando a
dissociação prematura de seus elementos e, em penetrar na sua possibilidade na realidade social,
o que não é conseguido pelo método quantitativo, ou seja, este método é importante para este
estudo, pois partir-se-á dos pontos de vista dos participantes sobre a adesa ou não adesão ao
Planeamento Familiar.
A abordagem qualitativa possibilitou-nos analisar os factores de e à não adesão aos seus serviços
de Planeamento Familiar no Bairro da Mafalala. A partir dos discursos dos actores sociais
envolvidos, buscou-se os significados subjacentes a adesão ou não adesão ao Planeamento
Familiar. Esse facto permitiu-nos em última instância analisar os factores de adesão e não adesão
ao Planeamento Familiar.
analisar os factos de ponto de vista empírico e possibilitou confrontar a visão teórica com os
dados da realidade. Para tal, foi realizada a pesquisa bibliográfica e documental.
Moresi (2003) define a técnica de recolha de dados como “um conjunto de processos e
instrumentos elaborados para garantir o registo de informações, a colecta e análise de dados”.
Para HILL& HILL (2009), a principal vantagem que a entrevista tem é o facto de permitir uma
recolha directa de dados que é feita a partir dos actores sociais, o que permite indagar de forma
detalhada a percepção dos mesmos no que se refere a investigação.
Em nossa pesquisa recorreu-se a entrevista pelo facto de ser um instrumento que permite obter
informações verbalizadas e explicadas detalhadamente pelo entrevistado, permitindo deste modo
ao pesquisador desenvolver ideias em torno do que as participantes da pesquisa pensa a cerca da
Planeamento Familiar. Para tal elaboramos um guião de entrevistas com questões definidas
previamente, tendo em conta os nossos objectivos específicos e o mesmo foi administrado a
jovens mulheres residentes no Bairro da Mafalala, que se encontram na faixa etária dos 18 a 35
anos de idade.
Importa referir que as entrevistas foram feitas de forma individualizada em lugares previamente
estabelecidos pelo pesquisadora e as entrevistadas, não obstante ter-se dado prerrogativa da
escolha do lugar para a prossecução das entrevistas as próprias entrevistadas. Nesse sentido, na
maioria das vezes teve que se deslocar ao encontro das entrevistadas. Importa referir ainda que
os dados foram colhidos com recurso a um aparelho gravador, onde pode-se gravar as entrevistas
com o consentimento das entrevistadas.
O estudo teve como suporte a amostragem não probabilística, do tipo intencional. Nessa
amostragem, segundo Richardson (1999) os elementos que formam a amostra relacionam-se
intencionalmente de acordo com certas características estabelecidas no plano e nas hipóteses
formuladas pelo pesquisador. A amostra intencional consiste em usar um determinado critério e
escolher intencionalmente um grupo de elementos que irão compor a amostra. O investigador
selecciona os grupos da população dos quais deseja saber as suas características típicas e deles
pretende obter a informação desejada (Mulenga, 2010). Nessa ordem de ideias, serão
entrevistados 20 jovens de forma intencional, tendo em conta o critério de ser do sexo feminino
com idade compreendida dos 18 aos 35 anos de idade.
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Os dados desta pesquisa serão tratados por meio de métodos qualitativos, baseados em análise
descritiva dos conteúdos com objectivo de subsidiarem as análises e conclusões correspondentes
aos dados pesquisados, pois esses dados serão transformados em texto. Este método será usado
para descrever as percepções que as mulheres do Bairro da Mafalala têm sobre o PF. Os estudos
descritivos pretendem analisar como se manifesta um fenómeno e os seus componentes e
permitem estudar o fenómeno pormenorizadamente através da avaliação de um ou mais
atributos. Servem para aumentar os conhecimentos das características e dimensões de um
problema (Vilelas, 2009).
Tendo em conta a ética na pesquisa, todo esforço será feito para minimizar qualquer tipo de
prejuízos no local da pesquisa, decorrentes da realização deste estudo, neste caso no Bairro da
Mafalala. Todos os participantes serão convidados a participar livremente no estudo e o seu
consentimento será documentado através da ficha de consentimento informado. Durante todas
etapas de recolha, processamento de dados e redacção do relatório final será mantida a
privacidade, confidencialidade e anonimato das fontes primárias de dados.
O Bairro possui água canalizada, electricidade. Antes de se designar Mafalala, o bairro era
conhecido por Munhuana, que significa “água salgada” nas línguas Ronga e Changana, porque a
área já esteve debaixo do nível das águas do mar. O nome muda para Mafalala na altura em que
marinheiros vindos da ilha de Moçambique, Província de Nampula, norte de Moçambique se
estabelecerão nesta região (idem).
3.2 Perfil sociodemográfico das mulheres que utilizam e não utilizam os serviços de
Planeamento Familiar no Bairro da Mafalala
Nesta parte de trabalho, propusemo-nos a apresentar o perfil sociodemográfico das participantes
da pesquisa. Para tornar possível a realização desta pesquisa trabalhamos com um total de 17
entrevistadas que se encontram a residir no Bairro da Mafalala.
A tabela mostra que a amostra é composta principalmente por mulheres solteiras e jovens, muitas
das quais não têm renda ou trabalham como vendedoras, sugerindo uma possível vulnerabilidade
socioeconómica.
Observa-se que a maioria dos participantes possui o ensino médio completo (12ª classe), um
nível de escolaridade que, em teoria, deveria abrir portas para melhores oportunidades no
mercado de trabalho formal. Contudo, a realidade apresentada pela tabela, com muitos grande
parte trabalhando como "Vendedeira" no sector informal, remete à literatura sobre a
descompasso entre qualificação educacional e inserção profissional em economias em
desenvolvimento.
A presença de participantes com níveis mais baixos de escolaridade (7ª, 8ª, 9ª e 10ª classes)
reforça a heterogeneidade educacional da amostra, um factor que a literatura sobre estratificação
social e desigualdade de oportunidades destaca como determinante para a trajectória de vida.
A faixa etária dos participantes (de 18 a 35 anos), combinada com o número de filhos, pudesse
aferir que a idade média das participantes é de 24,8 anos e o facto de a maioria ter 1 filho, sugere
que essas mulheres estão assumindo responsabilidades parentais muito cedo. O número de filhos
por mulheres varia conforme a região ou classe social. A maior parte das mulheres tem
demonstrado preferência por um número reduzido de filhos, o que pode estar relacionado com as
condições económicas, com a política adoptada pelo País nas questões referentes ao planeamento
familiar ou mesmo com outros interesses pessoais como estudar e trabalhar, enfim, poder se
dedicar a outras actividades pessoais e profissionais, que não tenham funções exclusivas ligadas
à maternidade. Exclusivas ligadas à maternidade.
A partir das respostas, foi possível perceber que as participantes foram unânimes ao consideram o
planeamento da familiar uma acção positiva, o que pode ser identificado nos trechos a seguir:
" Planeamento é um método para prevenir a gravidez e doenças de transmissão sexual, hoje em
dia o preservativo é importante, porque a gente não sabe o que as pessoas têm. É no
planeamento familiar onde aprendemos coisas que a gente não sabe em casa". (M1, 20 anos de
idade.)
Percebe-se com esses depoimentos que a percepção que as entrevistadas têm sobre o PF é
influenciada pelas informações que elas têm a cerca dos mesmos, estimulando-as a percepcionar
e posteriormente usar um método em termos de vantagens ou desvantagens que cada método
apresenta. a percepção da realidade é um processo socialmente construído, onde a sociedade
molda a forma como percebemos o mundo e a nós mesmos. Eles argumentam que a realidade
não é uma entidade fixa e objectiva, mas sim uma construção social que emerge das interacções
humanas e da internalização de significados compartilhados (Berger e Luckmann, 2004).
Recorrendo ao quadro teórico, se pode constatar que a interiorização desses conhecimentos sobre
o PF, permite legitimar a percepção social existente sobre os mesmos. Segundo Berger e
Luckmann (2004) existe o processo de legitimação, que se dá a partir do entendimento da origem
dos universos simbólicos, dos mecanismos conceituais para a sua manutenção e das acções das
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organizações sociais no papel de manutenção deste universo. A partir do significado das coisas,
do universo simbólico, é que se objectiva a realidade.
Dentre as abordagens sobre o planeamento familiar, as participantes ressaltam que este contribui
não apenas para evitar uma gravidez indesejada mas também para incentivar a prevenção de
infecções de transmissão Sexual (ITs), como identificada a seguir:
" O planeamento familiar é importante porque orienta, planeja, determina o tempo da fertilidade
da mulher, não só como também dá o poder de escolha a mulher de decidir quando e quantos
filhos podem ter, para além de garante segurança na altura de ter filhos" (M6, 24 anos de
idade).
De acordo com as respostas das participantes percebe-se que existe um conhecimento considerável que
diz respeito à existência de vários métodos contraceptivos, esse facto pode-se constatar nos depoimentos
abaixo:
" Conheço e já ouvi falar do DIU, implante, pílula e preservativo (masculino e feminino). O que
mais uso é o preservativo por ser o mais seguro e eficaz. Posso dizer que conheço todos os
métodos de planeamento familiar". (M10, 29 de idade).
Os depoimentos acima são uma evidência que demonstra claramente que as entrevistadas
possuem um certo conhecimento acerca da existência de vários métodos de PF. Este facto que
permite perceber que há transmissão de conhecimento social acerca da realidade que tange as
questões de saúde sexual e reprodutiva. Contudo, esses mesmos depoimentos não permitem
compreender até que ponto esse mesmo conhecimento se afigura sólido em termos de
implicações e consequências no seu uso. As participantes consideram adequado o seu
conhecimento em relação aos métodos contraceptivos, pois elas afirmam ter conhecimento de
todos métodos de Planeamento Familiar.
Apesar dos dados não permitirem compreender as diversas facetas dimensionais sobre o
conhecimento possuído acerca da existência de vários métodos contraceptivos, é possível
destacar que existe uma certa fonte de aquisição e transmissão desse mesmo conhecimento sobre
essa realidade social.
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O planeamento familiar no bairro da Mafalala, assim como em qualquer outro local, traz diversas
vantagens para a saúde individual e familiar, além de contribuir para o desenvolvimento
socioeconómico da comunidade. Destacam-se a redução da mortalidade materna e infantil, a
prevenção de gravidezes indesejadas, a melhoria da saúde reprodutiva e a possibilidade de
planejar o tamanho da família de acordo com as necessidades e possibilidades do casal, seguem-
se os depoimentos das participantes:
" As vantagens que o planeamento familiar tem é que permitem que as mulheres tenham tempo
para se recuperar entre as gravidezes e reduz os riscos de complicações durante a gestação e o
parto, aumentando as chances de sobrevivência tanto da mãe quanto do bebé" (M15, 31 anos de
idade).
O planeamento familiar compreende uma série de acções, protocolos e medidas que visam
oferecer à população aconselhamento, educação em saúde e acesso a métodos contraceptivos
contemporâneos, permitindo que os indivíduos exerçam o seu direito de tomar decisões livres e
responsáveis sobre a maternidade, incluindo a escolha do momento e do número ideal de filhos.
3.4 Factores associados a adesão e não adesão ao Planeamento Familiar das mulheres no
Bairro da Mafalala
As razões para não adesão ao PF consistem no medo que as informantes têm. São várias razões
para não adesão ao PF, as informantes durante a conversa mostram ter receio de uso de métodos
35
contraceptivos, pois o meio social em que se encontram a melhor forma para não contrair
doenças sexualmente transmissíveis e gravidez precoce é a abstinência.
Algumas das informantes como é o caso da M8, afirmaram que tiveram sempre informações a
partir dos meios que difundem a informação, que é a questão das revistas, mas não adere o
planeamento familiar visto que é para pessoas que já têm filhos. Por outro lado, existe um medo
de serem rotuladas pelo namorado ao saber que elas aderem o planeamento familiar. Eis aqui os
depoimentos da participante M8 sobre a não adesão ao PF
" Não há Centro de Saúde aqui no bairro e isso faz com que o acesso a serviços de planeamento
familiar seja difícil, para meu caso não foi só a falta de Centro de Saúde aqui no Bairro, o que
acontece é tive uma experiência negativa com métodos contraceptivos, o que me levou não fazer
mais o Planeamento Familiar". (M8, 26 anos de idade)
As participantes da pesquisa elencam poucos factores de adesão ao PF, pois maior parte das
participantes afirmam que as mulheres do Bairro em estudo não adere ao PF, entretanto 6 das
participantes dizem o seguinte:
" As mulheres com mais escolaridade e as casadas são que têm aceitado mais a ideia do
Planeamento Familiar (M4 e M9). Outra coisa que tenho verificado é que o dinheiro tem
influência na escolha e acesso a métodos de PF mais eficazes, logo nos aqui no Bairro temos
pouca escolha". (M5, 26 anos de idade)
O parceiro desempenha um papel crucial na decisão de usar ou não preservativo masculino (PF),
influenciando a escolha através do diálogo, da compreensão mútua e do apoio à decisão
tomada. A comunicação aberta e honesta sobre necessidades e preocupações, bem como o
respeito pelas escolhas individuais, são fundamentais para fortalecer o relacionamento e garantir
escolhas conscientes sobre saúde sexual.
" O apoio mútuo e a compreensão das necessidades individuais são cruciais para a decisão de
usar ou não o PF, então há necessidade que o meu parceiro me apoie neste momento importante
das nossas vidas e da nossa saúde" (M7, 25 anos de idade).
O parceiro desempenha um papel activo na decisão de usar ou não PF, através da comunicação,
do entendimento, do respeito e do apoio mútuo. Uma relação baseada na confiança e no diálogo
aberto é fundamental para garantir escolhas conscientes e responsáveis sobre saúde sexual.
Segundo Berger e Luckman (2004), a realidade que hoje vemos é fruto de um processo de
objectivação, em que os pensamentos exteriorizados, seja em forma de representações do real,
linguagens, artefactos técnicos, linguagens naturais ou modos de interacção, ganham autonomia
ou independência dos seus criadores (exteriorizações objectivadas), tornando-se disponíveis às
gerações futuras. Tendo chegado a novas gerações, estes pensamentos são absorvidos dando
lugar à interiorização, que possibilita a estas novas gerações exteriorizarem, dando continuidade
ao ciclo.
aceitação do PF, assim como a decisão de ter filhos ou não, e quando tê-los. As participantes da
pesquisa responderam o seguinte em relação a influência da família:
" Na minha família há uma comunicação aberta a cerca de questões ligadas a sexualidade, por
isso dialogamos de forma aberta no que respeita ao PF, e eles ajudam-me sempre que preciso
tomar decisões sobre a minha saúde sexual" (M16, 20 anos de idade).
A família desempenha um papel crucial na decisão sobre planeamento familiar, seja como um
factor de apoio e incentivo ou como uma barreira devido a pressões sociais, culturais ou
religiosas. O acesso à informação e a um ambiente familiar favorável são essenciais para que
homens e mulheres possam tomar decisões informadas e conscientes sobre sua saúde reprodutiva
e o planeamento de suas famílias
No que respeita a influência da religião no PF, em Maputo, varia, com algumas igrejas
desencorajando o uso de métodos contraceptivos artificiais, enquanto outras adoptam uma
postura mais aberta ou focam no planeamento familiar natural. A Igreja Católica
tradicionalmente desaconselha o uso de contraceptivos artificiais, mas apoia o planeamento
familiar natural (métodos que não interferem no ciclo menstrual). Já outras denominações
religiosas podem ter abordagens diferentes, com algumas incentivando o uso de métodos
contraceptivos para evitar gravidezes indesejadas e proteger a saúde da mulher e do feto.
Uma boa parte das participantes da pesquisa são católicas num valor percentual de 30%, estas
afirmam aprenderam na igreja que o uso de métodos contraceptivos é algo mundano, como
afirma uma das participantes:
" O uso de preservativo e outros métodos para não engravidar é coisa do diabo e não de Deus,
pois o senhor disse para multiplicarmo-nos. Isso não significa que a nossa igreja é contra o
Planeamento Familiar, tanto que aprendemos e fazemos o Planeamento recorrendo a métodos
naturais" (M12, 35 anos de idade).
convencional como algo diabólico, reproduzem regras, papéis e normas cristalizadas, os quais
exercem um controle directo sobre a sua conduta como crentes da religião católica.
" Eu sou muçulmana e na minha religião é importante ter muitos filhos para que possam encher
o mundo e ajudar nas tarefas de casa e pelo que eu saiba ninguém deve interferir na vontade de
Allah, se ele quiser que eu tenha filhos, quem sou eu para negar" (M9, 22 anos de idade).
Em Maputo, assim como em muitas outras regiões, as mulheres enfrentam diversas experiências
negativas com o planeamento familiar. Estas incluem falta de acesso a serviços de qualidade,
informação inadequada sobre métodos contraceptivos, estigma social, violência de género no
acesso a serviços e falta de suporte dos parceiros e da comunidade, tal como demonstra o parecer
de maior das participantes que afirmam que enfrentam dificuldades em encontrar centros de
saúde com serviços de planeamento familiar acessíveis e com pessoal qualificado.
" Eu estava sempre a sangrar e isso causava fraqueza, minha cabeça doía sempre e as vezes
tinha vontade de vomitar, para além de que o método que eu usava fazia com que eu engordasse
muito então desisti" (M1, 20 anos de idade).
De modo análogo, os mitos sobre os efeitos no corpo geram as percepções negativas em relação
aos potenciais efeitos colaterais de alguns métodos de PF, o que contribui para a confusão e o
medo em torno desse método contraceptivo. Essas preocupações afectaram significativamente as
opiniões das mulheres sobre a utilização do dispositivo implantável. Além disso, a falta de
informações claras e a compreensão inadequada sobre os riscos e benefícios também
desempenharam um papel importante na formação dessas percepções (Berger e Luckman, 2004).
É essencial fornecer educação abrangente e esclarecedora sobre os métodos de PF para ajudar as
mulheres a tomar decisões informadas sobre sua saúde reprodutiva.
40
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise do estudo sobre o Planeamento Familiar (PF) no Bairro da Mafalala, Maputo, revela
uma complexa interacção de factores socioeconómicos, culturais, religiosos e de acesso a
serviços de saúde que influenciam a adesão e a não adesão aos métodos contraceptivos.
A amostra do estudo é toda ela composta por mulheres jovens e solteiras, muitas das quais sem
renda ou inseridas no sector informal como vendedoras. Essa realidade aponta para uma
significativa vulnerabilidade socioeconómica, acentuada pela presença de filhos em diversas
faixas etárias, o que impacta as responsabilidades financeiras e a capacidade de geração de renda.
Embora a maioria das participantes possua ensino médio completo, a dificuldade de inserção no
mercado de trabalho formal as direcciona para o sector informal, evidenciando um descompasso
entre qualificação educacional e oportunidades de emprego de qualidade.
A não adesão ao PF é influenciada por uma série de barreiras multifacetadas tais como o receio
de serem rotuladas pelos parceiros ou pela comunidade, o medo dos efeitos colaterais dos
métodos contraceptivos, como dores de cabeça, sangramento e náuseas, e a crença de que podem
causar infertilidade são factores importantes. A cultura é outros dos factores que influenciam a
não adesão ao PF, pois há culturas que valoriza muitos filhos como sinal de riqueza, a pressão
familiar por descendentes, e a influência religiosa, como a crença em algumas denominações
católicas de que o uso de contraceptivos artificiais é "mundano" e a interpretação em algumas A
falta de apoio ou a oposição explícita do parceiro emerge como um factor determinante na
41
Em contrapartida, os factores que promovem a adesão ao PF incluem mulheres com maior nível
de escolaridade e renda tendem a ter maior adesão, sugerindo que a educação e a estabilidade
financeira podem facilitar o acesso à informação e a escolhas mais conscientes. Mulheres
casadas mostram maior adesão ao PF em comparação com as solteiras. A comunicação aberta
entre parceiros e o apoio mútuo são fundamentais para a tomada de decisões conjuntas e a adesão
aos métodos escolhidos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Camacho, A., & Fontes, F. (2013). Famílias Monoparentais: Desafios e Perspetivas. [Exemplo
de um livro ou artigo sobre o tema].
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Filmer, D., & Fox, L. (2014). Youth Employment in Sub-Saharan Africa. The World Bank.
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(Eds.), Handbook of Development Economics (Vol. 3B, pp. 2551-2657). Elsevier.
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Cientifica. 8. ed. São Paulo: Editora Atlas.
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Organização Mundial de Saúde. (2007). WHO Reporton Inequities in (2008-2015). Maternal and
Child Health in Mozambique. Maputo: Governo de Moçambique. Peretti-Watel.
Portes, A., & Castells, M. (1989). The Informal Economy: Studies in Advanced and Less
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Wodon, Q., & Blackden, C. M. (2006). Gender, Time Use, and Poverty in Sub-Saharan Africa.
World Bank Publications.
44
APÊNDICE
Bom dia/Boa tarde! Estamos a realizar um estudo para compreender melhor os factores que
influenciam o uso do planeamento familiar aqui no Bairro da Mafalala. A sua participação é
muito importante para nós. As suas respostas serão confidenciais e usadas apenas para fins de
pesquisa.
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3. Você já ouviu falar sobre os diferentes métodos de Planeamento Familiar? Quais você
conhece ou já ouviu falar?
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6. Como você acha que o Planeamento Familiar afecta a saúde e o bem-estar das mulheres?
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1. Na sua opinião, quais são os principais factores que fazem com que as mulheres no
Bairro da Mafalala adiram ao planeamento familiar?
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2. E quais são os principais factores que levam as mulheres no Bairro da Mafalala a não
aderir ao planeamento familiar?
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4. A sua família (pais, sogros, irmãos/irmãs) influencia a sua decisão sobre Planeamento
Familiar? De que forma?
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6. Há alguma experiência negativa que você ou alguma mulher que você conheça teve com
o Planeamento Familiar que a fez desistir ou ter receio de usar? Pode descrever?
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7. O que você acha que poderia ser feito para que mais mulheres no bairro da Mafalala
pudessem aderir ao Planeamento Familiar, se desejassem?
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