100% acharam este documento útil (2 votos)
1K visualizações263 páginas

Matemática

O documento é um guia para professores de Matemática se prepararem para a Prova Nacional Docente (PND), abordando estratégias de revisão, gestão do tempo, e técnicas para lidar com questões difíceis. Inclui dicas sobre a importância de simulados e a preparação física e mental, além de um checklist de itens essenciais para o dia da prova. Também apresenta uma visão geral dos conhecimentos didático-pedagógicos e específicos necessários para a atuação docente.

Enviado por

mariogospel.m
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
100% acharam este documento útil (2 votos)
1K visualizações263 páginas

Matemática

O documento é um guia para professores de Matemática se prepararem para a Prova Nacional Docente (PND), abordando estratégias de revisão, gestão do tempo, e técnicas para lidar com questões difíceis. Inclui dicas sobre a importância de simulados e a preparação física e mental, além de um checklist de itens essenciais para o dia da prova. Também apresenta uma visão geral dos conhecimentos didático-pedagógicos e específicos necessários para a atuação docente.

Enviado por

mariogospel.m
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

CNU

CNU PROFESSORES - PROVA NACIONAL


DOCENTE (PND)

Professor - Matemática

EDITAL Nº 72, DE 16 DE JUNHO DE 2025

CÓD: OP-098JH-25
7908403576173
COMO SE PREPARAR PARA A PROVA
Preparar-se adequadamente para o dia da prova é essencial para garantir que todo o seu esforço de estudo
seja recompensado. Esta seção foi desenvolvida para orientá-lo nos passos práticos e imediatos que devem ser
tomados nas semanas e dias que antecedem o exame, garantindo que você chegue ao dia da prova com confian-
ça e tranquilidade.

Revisão Final

A revisão final é crucial para consolidar o conhecimento adquirido ao longo da sua preparação. Aqui estão
algumas dicas para maximizar sua eficiência nas semanas e dias que antecedem a prova:

➢ Priorização de Tópicos: Foque nos tópicos mais importantes e que você considera mais desafiadores.
Use resumos e questões comentadas para revisar os pontos principais e garantir que esses tópicos
estejam frescos na sua memória.
➢ Resumos e Questões Comentadas: Utilize resumos para relembrar os conceitos essenciais e faça
questões comentadas para se familiarizar com o estilo de perguntas da banca. Isso ajudará a reforçar
o conteúdo e a identificar possíveis dúvidas que ainda precisam ser resolvidas.
ÍNDICE

Técnicas de Prova

No dia da prova, a forma como você administra seu tempo e lida com as questões pode fazer toda a diferença.
Abaixo, algumas estratégias para otimizar seu desempenho:

➢ Gestão do Tempo Durante a Prova: Divida o tempo disponível de acordo com a quantidade de questões
e o nível de dificuldade. Comece pelas questões que você tem mais certeza, e deixe as mais difíceis para
o final.

➢ Lidando com Questões Difíceis: Se você encontrar uma questão muito difícil, não perca tempo nela.
Marque-a para revisar depois e siga em frente com as demais. Isso evita o desgaste mental e garante
que você responda o máximo de questões possíveis.

➢ Leitura Atenta das Instruções: Sempre leia com atenção as instruções de cada seção da prova. Isso
evitará erros que podem ser facilmente evitados, como marcar a alternativa errada ou não observar
uma regra específica da prova.

Simulados e Prática

Os simulados são uma ferramenta poderosa para testar seus conhecimentos e preparar-se para as
condições reais da prova:

➢ Simulações Realistas: Faça simulados em um ambiente silencioso e sem interrupções,


respeitando o tempo limite da prova real. Isso ajudará a criar uma rotina e reduzirá o
nervosismo no dia do exame.

➢ Avaliação de Desempenho: Após cada simulado, avalie seu desempenho e identifique


áreas que precisam de mais atenção. Refaça questões que você errou e revise os conceitos
relacionados.

Preparação Física e Mental

Estar fisicamente e mentalmente preparado é tão importante quanto o conhecimento adquirido:

➢ Alimentação e Hidratação: Nas semanas que antecedem a prova, mantenha uma dieta
equilibrada e beba bastante água. Evite alimentos pesados ou que possam causar desconforto
no dia da prova.

➢ Sono e Descanso: Durma bem na noite anterior à prova. O descanso adequado é crucial
para que seu cérebro funcione de maneira eficiente. Evite estudar até tarde na véspera do
exame.

➢ Calma e Foco: No dia da prova, mantenha a calma e o foco. Pratique exercícios de respiração
profunda para controlar a ansiedade e visualize-se fazendo a prova com sucesso.
ÍNDICE

Checklist de Última Hora


No dia da prova, é importante estar bem preparado e evitar surpresas desagradáveis. Aqui está um
checklist de itens essenciais:
➢ Documentos Necessários: Certifique-se de que você está levando todos os documentos
exigidos pela banca organizadora, como RG, CPF, ou outro documento oficial com foto.

➢ Materiais Permitidos: Leve apenas os materiais permitidos, como caneta preta ou azul,
lápis e borracha. Verifique se todos estão em boas condições de uso.

➢ Confirmação do Local da Prova: Revise o endereço e o horário da prova. Planeje sua rota e
saia com antecedência para evitar imprevistos.

➢ Alimentos Leves: Leve um lanche leve e água para consumir durante a prova, se permitido.
Opte por alimentos que ajudem a manter a energia e a concentração, como frutas secas ou
barras de cereais.

Apostilas Opção, a Opção certa para a sua realização.

Este material está de acordo com o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
Todos os direitos são reservados à Editora Opção, conforme a Lei de Direitos Autorais
(Lei Nº 9.610/98). A venda e reprodaução em qualquer meio, seja eletrônico, mecânico,
fotocópia, gravação ou outro, são proibidas sem a permissão prévia da Editora Opção.
ÍNDICE

Conhecimentos Didático-Pedagógicos
1. I - filosofia da educação............................................................................................................................................................... 7
2. II - história da educação............................................................................................................................................................... 8
3. III - sociologia da educação.......................................................................................................................................................... 14
4. IV - psicologia da educação.......................................................................................................................................................... 17
5. V - teorias pedagógicas................................................................................................................................................................ 18
6. VI - didática e metodologias de ensino........................................................................................................................................ 26
7. VII - teorias e práticas de currículo.............................................................................................................................................. 27
8. VIII - políticas públicas, organização, financiamento e avaliação da educação brasileira............................................................ 29
9. IX - metodologia de pesquisa em educação e ensino.................................................................................................................. 32
10. X - tecnologias da comunicação e informação nas práticas educativas....................................................................................... 35
11. XI - letramento científico............................................................................................................................................................. 38
12. XII - educação especial e inclusiva............................................................................................................................................... 41
13. XIII - libras, cultura e identidade surda........................................................................................................................................ 47
14. XIV - identidade e especificidades do trabalho docente.............................................................................................................. 50
15. XV - planejamento e avaliação do ensino e da aprendizagem..................................................................................................... 53
16. XVI - práticas educativas para o processo de aprendizagem de crianças, adolescentes, jovens e adultos.................................. 56
17. XVII - planejamento, organização e gestão democrática educacional em espaço escolar e não escolar..................................... 59
18. XVIII - implementação e avaliação de currículos, programas educacionais e projetos político-pedagógicos.............................. 61
19. XIX - práticas de articulação entre escola, família, comunidade e movimentos sociais.............................................................. 64
20. XX - histórias e culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas................................................................................................... 66
21. XXI - educação, inclusão e direitos humanos............................................................................................................................... 69
22. XXII - educação socioambiental................................................................................................................................................... 72
23. XXIII - educação para as relações de gênero e sexualidade......................................................................................................... 75
24. XXIV - educação para as relações étnico-raciais.......................................................................................................................... 78

Conhecimentos Específicos
Professor - Matemática
1. Conteúdos matemáticos da educação básica.............................................................................................................................. 83
2. Fundamentos de geometria......................................................................................................................................................... 100
3. Geometria analítica..................................................................................................................................................................... 112
4. Fundamentos de análise.............................................................................................................................................................. 118
5. Álgebra linear............................................................................................................................................................................... 126
6. Fundamentos de álgebra e aritmética......................................................................................................................................... 135
7. Teoria dos números..................................................................................................................................................................... 148
8. Probabilidade e estatística........................................................................................................................................................... 154
9. Observação, análise e planejamento dos conteúdos e métodos de ensino em matemática na educação básica...................... 162
10. Processos de avaliação em matemática na educação básica....................................................................................................... 163
11. Recursos didáticos de matemática para a educação básica......................................................................................................... 164
12. Contextos históricos e culturais no/do ensino da matemática. Tendências em educação matemática...................................... 165
ÍNDICE

13. Educação matemática inclusiva................................................................................................................................................... 174


CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Pragmatismo
I - FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO O pragmatismo, desenvolvido por pensadores como John
Dewey, considera a educação um processo de construção ativa
A Filosofia da Educação é um campo de estudo que se dedica do conhecimento, fundamentado na experiência e na prática.
à investigação dos princípios, valores e objetivos que fundamen- Segundo essa corrente, a educação deve ser adaptada às neces-
tam a prática educativa. Ela questiona o propósito da educação, sidades e interesses dos alunos e incentivá-los a resolver proble-
os métodos ideais de ensino e as concepções de conhecimento e mas e desenvolver habilidades práticas para a vida em socieda-
ética que devem orientar a formação humana. Esse ramo da filo- de. Dewey defendia uma educação democrática e participativa,
sofia é essencial para pensar a educação de forma crítica e funda- onde o professor atua como facilitador e o aluno participa ativa-
mentada, pois explora o que significa educar e como o processo mente do processo de aprendizado.
educativo contribui para o desenvolvimento individual e social.
Existencialismo
O que é Filosofia da Educação? O existencialismo, com influências de filósofos como Jean-
A Filosofia da Educação é uma área da filosofia que busca -Paul Sartre, valoriza a liberdade e a autonomia do indivíduo,
responder perguntas fundamentais sobre o sentido e o propósito vendo a educação como um meio de desenvolver a capacidade
da educação. Ela se interessa por questões como: de escolha e de autoexpressão. Para o existencialismo, a educa-
- Por que educamos? ção deve incentivar a reflexão e a tomada de decisões conscien-
- O que significa ensinar e aprender? tes, permitindo que o aluno construa sua própria identidade. O
- Qual é o papel da educação no desenvolvimento moral e professor é um facilitador que incentiva o aluno a descobrir suas
social do indivíduo? próprias respostas e a assumir responsabilidade por suas esco-
lhas.
Essas perguntas formam a base de um campo que, ao longo
da história, influenciou o modo como as sociedades entendem e Pensadores Influentes na Filosofia da Educação
organizam suas instituições educacionais. A filosofia da educação Ao longo da história, vários pensadores influenciaram o de-
ajuda a definir os valores que orientam as práticas pedagógicas e senvolvimento da filosofia da educação. A seguir, destacamos al-
a esclarecer o que é considerado conhecimento válido, além de guns dos principais nomes e suas contribuições:
influenciar decisões políticas e pedagógicas.
Platão
Principais Correntes Filosóficas e suas Contribuições para Platão via a educação como um meio para o desenvolvimen-
a Educação to da alma e do caráter. Em sua obra A República, propôs um
Cada corrente filosófica apresenta uma visão particular so- sistema educacional que valorizasse o desenvolvimento ético e
bre os objetivos da educação, o papel do professor e o desen- intelectual, com o objetivo de formar cidadãos capazes de go-
volvimento do aluno. Entre as principais correntes, destacam-se: vernar de maneira justa. Para Platão, o conhecimento verdadeiro
era inato e deveria ser despertado através do ensino.
Idealismo
O idealismo, influenciado por filósofos como Platão, vê a Rousseau
educação como um processo de desenvolvimento moral e in- Jean-Jacques Rousseau, em sua obra Emílio, ou Da Educa-
telectual. Segundo essa corrente, a educação deve promover o ção, defendeu a ideia de uma educação natural, onde o aluno
crescimento interior e o alinhamento do indivíduo com valores aprende por meio de experiências diretas e livres, respeitando
absolutos, como a verdade, a bondade e a beleza. O professor, o seu desenvolvimento. Ele acreditava que o ambiente deve ser
nesse contexto, é um guia que ajuda o aluno a acessar um conhe- controlado para evitar influências corruptoras e permitir que a
cimento superior e a desenvolver uma ética elevada. criança explore o mundo e descubra sua moralidade e conheci-
mento de maneira espontânea.
Realismo
O realismo, influenciado por Aristóteles, valoriza o ensino John Dewey
de conhecimentos objetivos e concretos sobre o mundo físico e Dewey, considerado o principal expoente do pragmatismo,
natural. Para o realismo, a educação tem um papel funcional, de- via a educação como um processo social que prepara o indivíduo
vendo preparar o indivíduo para a vida prática e para a interação para a vida em comunidade. Ele defendia uma educação demo-
com o ambiente em que vive. A aprendizagem ocorre principal- crática, onde o aluno participa ativamente e aprende a partir da
mente pela observação e pela prática, com o professor agindo resolução de problemas reais. Sua ideia de “aprender fazendo”
como um mediador que ajuda os alunos a compreender o mun- revolucionou a prática pedagógica, tornando o aprendizado um
do real. processo ativo e colaborativo.

7
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Paulo Freire – Mesopotâmia: Os sumérios, babilônios e assírios desen-


Paulo Freire, importante educador brasileiro, propôs uma volveram sistemas de escrita cuneiforme, e a educação formal
visão de educação como prática da liberdade. Em sua obra Pe- na Mesopotâmia era oferecida em escolas chamadas edubbas,
dagogia do Oprimido, Freire defende uma educação dialógica, ou “casas das tábuas”, onde o ensino era centrado na formação
onde professor e aluno constroem o conhecimento juntos. Sua de escribas, uma das profissões mais importantes da época. Os
proposta de educação libertadora visa conscientizar os alunos escribas desempenhavam papéis cruciais em atividades adminis-
sobre as injustiças sociais, promovendo uma reflexão crítica que trativas, religiosas e comerciais, e o ensino girava em torno de ha-
os capacite a transformar a realidade. bilidades práticas como contabilidade, leis e registros comerciais.
– Egito Antigo: No Egito, a educação também era restrita a
A Filosofia da Educação na Prática Pedagógica escribas, sacerdotes e membros da elite. A formação de escribas
A filosofia da educação impacta diretamente as práticas pe- envolvia aprendizado dos hieróglifos, a complexa escrita egípcia,
dagógicas e as políticas educacionais. Cada escola ou método além de aritmética e conhecimento sobre mitologia e religião,
de ensino reflete valores e pressupostos filosóficos que deter- que eram centrais para a cultura egípcia. O ensino acontecia em
minam desde o currículo até a relação entre professor e aluno. escolas ligadas a templos e palácios, e os alunos eram, em grande
Por exemplo: parte, treinados para assumir posições na administração pública
- Uma abordagem idealista pode valorizar o desenvolvimen- ou na condução dos rituais religiosos.
to ético, enfatizando disciplinas como ética e filosofia.
- O pragmatismo favorece métodos interativos e voltados Essas duas civilizações compartilhavam uma visão funcional
para a resolução de problemas, como projetos colaborativos e da educação, com foco na capacitação para o trabalho adminis-
aulas experimentais. trativo e religioso, limitando o acesso ao aprendizado a uma mi-
- A educação libertadora de Paulo Freire influencia práticas noria com poder e prestígio.
de ensino que valorizam a dialogicidade, onde o aluno participa
da construção do saber e questiona a realidade em que vive. Grécia Antiga
A Grécia foi uma das primeiras civilizações a considerar a
Ao compreender as bases filosóficas da educação, educado- educação como um meio de desenvolver o potencial humano e
res e formuladores de políticas podem desenvolver métodos e promover a cidadania. A educação grega possuía diferentes ca-
currículos que atendam melhor às necessidades dos alunos, pro- racterísticas em cidades-estado como Atenas e Esparta, refletin-
movendo uma educação integral e crítica. do os valores distintos de cada uma.
A Filosofia da Educação nos leva a refletir sobre as escolhas – Atenas: Na cidade-estado de Atenas, a educação visava o
e os valores que fundamentam a educação, possibilitando uma desenvolvimento integral do cidadão, abrangendo aspectos in-
prática mais consciente e ética. Em um cenário de rápidas trans- telectuais, físicos e morais. A paideia, como era chamada a for-
formações sociais e tecnológicas, o resgate das bases filosóficas mação ateniense, buscava preparar os jovens para a vida públi-
permite questionar o papel da educação e seus impactos na ca, enfatizando filosofia, artes, literatura, música e esportes. Os
construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. ensinamentos de filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles
Assim, a Filosofia da Educação não apenas fundamenta a deixaram marcas profundas na educação ocidental, introduzindo
prática educativa, mas também ilumina o caminho para a for- métodos de ensino baseados no diálogo e na reflexão crítica. A
mação de cidadãos críticos e comprometidos com a melhoria da Academia de Platão e o Liceu de Aristóteles são exemplos de ins-
sociedade. tituições educacionais avançadas que buscavam compreender e
discutir a natureza humana, a ética e a política.
– Esparta: Em Esparta, a educação era voltada para o treina-
II - HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO mento militar e a disciplina, com ênfase na obediência, na resis-
tência física e no espírito de sacrifício. Desde cedo, os meninos
— Educação na Antiguidade eram retirados de suas famílias para se prepararem para a guerra
A educação na Antiguidade apresenta grande diversidade, e a defesa da cidade-estado, enquanto as meninas também rece-
pois cada civilização antiga desenvolveu métodos e finalidades biam treinamento físico, pois se acreditava que mulheres fortes
educacionais únicos, alinhados a seus valores e estruturas so- dariam à luz guerreiros fortes. Em Esparta, portanto, a educação
ciais. Nesta fase, o ensino era geralmente reservado para elites era instrumental e orientada para as necessidades militares e co-
e, em grande parte, voltado para a transmissão de conhecimento letivas, priorizando a lealdade ao Estado.
religioso, cultural e militar.
A educação estava intrinsecamente ligada às crenças e ao pa- Esses dois modelos – o humanista e cidadão em Atenas e o
pel que cada sociedade destinava ao aprendizado. As principais militar e disciplinado em Esparta – ilustram as visões contrastan-
civilizações que influenciaram o desenvolvimento educacional na tes de educação na Grécia Antiga, com efeitos duradouros sobre
Antiguidade foram a Mesopotâmia, o Egito, a Grécia e Roma. a filosofia educacional e as práticas pedagógicas no Ocidente.

Mesopotâmia e Egito Roma Antiga


Na Mesopotâmia e no Egito, a educação formal era restrita A educação romana foi fortemente influenciada pela cultura
a uma pequena elite, especialmente ligada à administração e re- grega, mas era mais pragmática, voltada para a formação de ci-
ligião, e focava no aprendizado da escrita, aritmética e princípios dadãos capazes de contribuir para o império. A educação romana
religiosos. focava no ensino do direito, da oratória e da administração.

8
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

– Influência Grega: Os romanos adotaram muitos aspectos Esse período, conhecido por muitos como “Idade das Tre-
da educação grega, mas adaptaram a filosofia educacional para vas” pela visão restritiva em relação ao conhecimento científico,
atender às necessidades do império. A educação visava preparar também viu o surgimento das primeiras universidades, estabe-
cidadãos para desempenhar funções administrativas, militares e lecendo as bases para a educação formal que se desenvolveria
jurídicas. A partir do período republicano, famílias ricas contra- posteriormente.
tavam preceptores gregos para ensinar seus filhos, e o latim e o
grego eram idiomas fundamentais na formação da elite. Escolas Monásticas e Catedrais
– Formação de Cidadãos e Líderes: A educação romana Durante os primeiros séculos da Idade Média, as escolas mo-
para os meninos era dividida em três etapas: o ensino básico, násticas e catedrais eram os principais centros de ensino, sendo
ministrado por um ludi magister (mestre de escola), em que se operadas e supervisionadas pela Igreja Católica. Essas escolas
aprendiam leitura, escrita e aritmética; o ensino médio, onde se tinham um forte foco religioso e eram voltadas à formação do
estudavam gramática e literatura; e o ensino superior, onde se clero.
aprendia oratória e retórica, essenciais para quem pretendia in- – Escolas Monásticas: Desde o início da Idade Média, os
gressar na política ou no direito. A retórica era particularmente mosteiros serviram como centros de educação e preservação do
valorizada, e figuras como Cícero são exemplos do ideal de ci- conhecimento. Monges beneditinos, em particular, desempe-
dadão eloquente e bem-informado, capaz de influenciar a vida nharam um papel essencial, seguindo a regra de São Bento, que
pública. previa a prática do trabalho manual e do estudo religioso. Nos
– Educação das Mulheres: Em geral, as mulheres romanas mosteiros, o ensino era limitado à leitura, à escrita e ao latim,
recebiam pouca educação formal, com foco no aprendizado do- com ênfase na cópia de manuscritos, o que ajudou a preservar
méstico e nas habilidades necessárias para gerenciar uma casa. obras clássicas da Antiguidade, embora o foco fosse na teologia
As exceções ficavam por conta de famílias mais abastadas que e nos textos sagrados.
valorizavam o aprendizado cultural. – Escolas Catedrais: A partir do século IX, escolas começa-
ram a ser estabelecidas junto às catedrais, especialmente após
A educação romana reforçava valores como a disciplina, a a reforma educacional promovida por Carlos Magno no Sacro
virtude e o serviço ao Estado, aspectos que sustentaram a coesão Império Romano. Essas escolas eram ligadas diretamente à Igre-
e a expansão do império romano. ja e destinadas à formação de padres e à educação de filhos de
nobres. Nas escolas catedrais, os currículos eram baseados no
A educação na Antiguidade reflete as necessidades e valores trivium (gramática, retórica e lógica) e no quadrivium (aritmética,
de cada sociedade, moldando cidadãos conforme os interesses geometria, música e astronomia), que eram os componentes das
da elite e dos governantes. Na Mesopotâmia e no Egito, o ensino chamadas artes liberais, um modelo de conhecimento herdado
era reservado a poucos, visando atender à administração religio- da Antiguidade e considerado essencial para a formação de um
sa e estatal. clérigo ou de um membro da elite.
Na Grécia, surge a valorização do desenvolvimento huma- Essas escolas cumpriram um papel importante na preserva-
no e da cidadania, especialmente em Atenas, enquanto Esparta ção do conhecimento, ainda que o ensino fosse limitado e geral-
focava na formação militar. Em Roma, a educação combinava in- mente reservado aos que tinham ligação com a Igreja ou com a
fluências gregas com uma perspectiva pragmática voltada para a aristocracia.
administração do império e a oratória. Universidades Medievais
Esses modelos educacionais antigos foram fundamentais A partir do século XII, surgiram as primeiras universidades
para o desenvolvimento das práticas pedagógicas que se expan- na Europa, estabelecendo uma nova estrutura educacional mais
diriam nos períodos posteriores e influenciam, de forma direta ampla e organizada. As universidades medievais tinham como
e indireta, a educação ocidental até hoje. A herança desses sis- base as escolas catedrais, mas rapidamente se tornaram inde-
temas educacionais está presente na valorização da oratória, no pendentes, abrindo espaço para o ensino de uma variedade de
desenvolvimento da filosofia, no conceito de cidadania e na disci- disciplinas.
plina e valorização do conhecimento como ferramenta de poder – Origem e Desenvolvimento: As primeiras universidades
e controle. foram fundadas em cidades como Bolonha, Paris e Oxford, com o
objetivo de sistematizar o ensino superior, permitindo que estu-
— Educação na Idade Média dantes de diferentes regiões e origens sociais pudessem estudar
A Idade Média (aproximadamente do século V ao XV) foi um juntos. Essas universidades surgiram a partir da necessidade de
período de intensa influência religiosa sobre a sociedade euro- uma estrutura mais organizada de ensino, especialmente para
peia, com a Igreja Católica desempenhando um papel central na disciplinas como Direito, Teologia e Medicina, que tinham grande
preservação e transmissão do conhecimento. demanda na época.
Durante essa época, a educação era controlada quase exclu- – Estrutura e Organização: As universidades medievais eram
sivamente por instituições religiosas, e os métodos pedagógicos organizadas em faculdades, cada uma responsável por uma área
visavam essencialmente formar o clero e as elites, mantendo o de conhecimento. Entre as principais faculdades, estavam as de
conhecimento acessível apenas a uma parcela restrita da popu- Artes, Teologia, Direito e Medicina. Em geral, os estudantes in-
lação. gressavam pela Faculdade de Artes, onde estudavam as artes li-
berais, antes de prosseguir para faculdades mais especializadas.
A Faculdade de Teologia era especialmente prestigiada, devido
à sua conexão com a Igreja, e exigia muitos anos de estudo e
formação rigorosa.

9
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

– Método de Ensino: O método pedagógico predominante religiosidade, a educação medieval também proporcionou avan-
era a leitura e interpretação de textos, especialmente de obras ços que seriam essenciais para o desenvolvimento da ciência e
de autores clássicos e textos religiosos. A relação entre professor do pensamento crítico nas eras seguintes.
e aluno era hierárquica, e o aprendizado envolvia muita memori-
zação. Havia também o método da disputa, em que temas eram — Educação na Idade Moderna
debatidos em público, permitindo que os estudantes desenvol- A Idade Moderna, período que se estende do século XV ao
vessem habilidades retóricas e argumentativas. XVIII, trouxe grandes transformações para a educação, impulsio-
nadas por eventos marcantes como o Renascimento, a Reforma
As universidades medievais foram essenciais para a consoli- Protestante e o Iluminismo. Durante essa época, o pensamento
dação do ensino superior na Europa e influenciaram a formação racional, a ciência e o questionamento de tradições religiosas e
de profissionais e pensadores, preparando o terreno para a ex- políticas ganham espaço.
pansão intelectual que marcaria o Renascimento. Essas mudanças foram fundamentais para que a educação
deixasse de ser exclusivamente religiosa, tornando-se um meio
Escolástica de desenvolvimento intelectual, moral e social mais amplo.
A escolástica foi o principal método filosófico e pedagógico
da Idade Média, fundamentando-se no diálogo entre a fé e a ra- Renascimento: A Redescoberta do Conhecimento Clássico
zão. Esse método, impulsionado principalmente por teólogos e O Renascimento, movimento cultural que teve início na Itália
filósofos católicos, buscava harmonizar as crenças religiosas com no século XIV e se expandiu pela Europa, resgatou o conhecimen-
a lógica e a filosofia, particularmente a filosofia de Aristóteles. to e os valores da Antiguidade clássica, enfatizando a valorização
– Origens e Principais Representantes: A escolástica surgiu do ser humano e da razão. Esse período trouxe um novo modelo
a partir do século IX, mas ganhou destaque entre os séculos XII educacional, mais voltado para as artes, as ciências e o desenvol-
e XIII, com pensadores como Santo Anselmo, Pedro Abelardo e vimento integral do indivíduo.
Santo Tomás de Aquino. Esse último é considerado um dos maio- – Humanismo e Educação: O humanismo, corrente filosófica
res expoentes da escolástica, especialmente por sua obra Suma que valorizava o potencial e a dignidade humana, foi o principal
Teológica, na qual buscou conciliar o pensamento aristotélico pilar do Renascimento. Humanistas como Erasmo de Roterdã e
com os princípios do cristianismo. Thomas More defendiam uma educação baseada nas artes libe-
– Método Escolástico: O método escolástico consistia em rais, que incluíam gramática, retórica, poesia, história, filosofia
expor questões ou temas e, em seguida, apresentar argumen- e moral. Esse currículo foi inspirado nos antigos gregos e roma-
tos pró e contra, para então chegar a uma conclusão. O objetivo nos e visava a formação de um “homem completo”, ou seja, com
era formar uma síntese racional e coerente entre as Escrituras pensamento crítico, domínio das artes e interesse pelo conheci-
e a filosofia. Nas universidades medievais, o método escolástico mento.
era amplamente utilizado em debates acadêmicos e nas aulas de – Escolas Humanistas: Inspiradas pelo ideal humanista, as
Teologia e Filosofia, e os textos de Aristóteles eram amplamente escolas passaram a ensinar disciplinas voltadas para o desen-
estudados e interpretados à luz da fé cristã. volvimento intelectual e artístico, além da formação moral. Esse
– Influência e Crítica: A escolástica foi importante para o de- modelo se afastava do ensino religioso dogmático, dando maior
senvolvimento do pensamento crítico e da lógica na Idade Mé- importância a uma formação laica e racional. Autores clássicos
dia, mas também recebeu críticas por seu caráter rígido e pela como Cícero, Platão e Aristóteles voltaram a ser estudados e in-
excessiva ligação com a Igreja. No entanto, foi a base para a filo- terpretados, incentivando a reflexão filosófica e a ciência.
sofia medieval e ajudou a introduzir um rigor lógico que influen- – Impacto na Educação: A educação renascentista trouxe
ciou profundamente a educação superior. uma visão antropocêntrica, na qual o ser humano era o centro
A escolástica foi um dos métodos educacionais mais influen- das preocupações e o conhecimento deveria expandir o poten-
tes na Idade Média, moldando a pedagogia e o pensamento da cial humano. Esse modelo influenciou profundamente as práticas
época, embora viesse a ser superada pela expansão do raciona- pedagógicas, que passaram a valorizar a criatividade, o debate e
lismo e do empirismo nos séculos posteriores. o pensamento crítico.

A educação na Idade Média estava diretamente associada A herança renascentista foi fundamental para a abertura da
à Igreja, que mantinha controle sobre o ensino e sobre o acesso educação para além das questões religiosas, incentivando o es-
ao conhecimento. As escolas monásticas e catedrais permitiram tudo científico e as artes como ferramentas de desenvolvimento
a preservação de textos clássicos e a formação de líderes religio- humano e social.
sos e membros da nobreza, enquanto as universidades surgiram
como centros de saber mais complexos, organizados em faculda- Reforma Protestante e Contrarreforma
des e com currículos especializados. A escolástica, por sua vez, A Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero em
representou o método pedagógico dominante, marcado pela 1517, foi um movimento de ruptura com a Igreja Católica que
tentativa de harmonizar a fé cristã com a razão filosófica. buscava transformar aspectos doutrinários e organizacionais do
Apesar das limitações impostas pela visão restritiva de co- cristianismo. A Reforma estimulou o surgimento de escolas e a
nhecimento, a Idade Média estabeleceu importantes fundações valorização da alfabetização, enquanto a Contrarreforma, por
para a educação ocidental. As universidades e a metodologia parte da Igreja Católica, também trouxe mudanças educacionais
escolástica são heranças que permanecem na estrutura educa- para responder ao avanço do protestantismo.
cional moderna, evidenciando que, embora marcada por forte

10
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

– Educação na Reforma Protestante: Martinho Lutero de- O Iluminismo deixou um legado importante, pois defendeu
fendia que todos deveriam ter acesso direto à Bíblia, o que exigia uma educação pública e laica, voltada para o desenvolvimento
que cada fiel fosse capaz de ler. Isso incentivou a alfabetização da razão, da cidadania e da liberdade individual.
e a criação de escolas paroquiais e comunitárias para ensino da A educação na Idade Moderna marcou uma transição sig-
leitura e da interpretação dos textos sagrados. A educação na nificativa do controle exclusivo da Igreja para um modelo mais
Reforma Protestante, especialmente em países como Alemanha aberto e diversificado, refletindo o avanço de uma sociedade em
e Suíça, enfatizava o ensino básico para todas as crianças, inde- transformação. O Renascimento incentivou o retorno ao conhe-
pendente de classe social, sendo pioneira na ideia de educação cimento clássico e a valorização do ser humano como centro do
universal. As igrejas protestantes tomaram a frente na criação de aprendizado. A Reforma Protestante e a Contrarreforma católica
escolas em várias regiões da Europa. impulsionaram a expansão das escolas e da alfabetização, con-
– Contrarreforma e os Jesuítas: Em resposta ao crescimen- solidando a importância da educação para a formação moral e
to do protestantismo, a Igreja Católica lançou a Contrarreforma, religiosa da sociedade. Por fim, o Iluminismo trouxe uma visão
que incluía esforços educacionais intensos. Em 1540, a Ordem racional e científica da educação, propondo uma formação que
dos Jesuítas foi fundada com o propósito de reafirmar o catoli- preparasse o indivíduo para a autonomia e para a participação
cismo, e uma de suas principais missões foi a criação de colégios cidadã.
jesuítas. Esses colégios se destacaram pela qualidade do ensino, Esses movimentos moldaram as bases para o desenvolvi-
com currículos rigorosos e métodos pedagógicos inovadores que mento do ensino como o conhecemos, promovendo uma educa-
incluíam o estudo das artes liberais, línguas e ciências. ção que, cada vez mais, buscava a formação integral do indivíduo
– Impacto na Educação: A Reforma e a Contrarreforma pro- e a valorização do conhecimento científico. A herança desse pe-
moveram uma expansão significativa das instituições educacio- ríodo, como a valorização da ciência, a busca pela autonomia e
nais na Europa. Enquanto o protestantismo impulsionou o acesso a educação para a cidadania, influenciou profundamente a edu-
à educação básica, a Igreja Católica, através dos jesuítas, consoli- cação contemporânea e continua a ser um alicerce das práticas
dou um sistema educacional estruturado e de alto nível que for- pedagógicas atuais.
maria a elite intelectual e religiosa católica.
— Educação na Idade Contemporânea
Esse período estabeleceu a ideia de que a educação era es- A Idade Contemporânea, que se inicia no final do século
sencial para a formação moral e religiosa da sociedade, além de XVIII e se estende até os dias atuais, é caracterizada por grandes
contribuir para o surgimento de sistemas escolares em várias transformações políticas, sociais e tecnológicas, que redefiniram
partes da Europa. o papel da educação na sociedade. Esse período inclui eventos
de grande impacto, como a Revolução Industrial, a consolidação
Iluminismo: Racionalidade e Educação para a Cidadania dos Estados-Nação, as revoluções científicas e as lutas pelos di-
O Iluminismo, movimento intelectual do século XVIII, pro- reitos civis.
moveu uma visão racional e científica do mundo, defendendo Em resposta a essas mudanças, a educação foi se tornando
o progresso, a liberdade e os direitos humanos. Os pensadores cada vez mais democrática, com avanços significativos no acesso,
iluministas criticavam a influência da Igreja e dos governos abso- na metodologia e na valorização da educação como um direito
lutistas, defendendo uma educação que desenvolvesse a autono- universal.
mia e a cidadania.
– Conceito de Educação Iluminista: Para os iluministas, a Expansão e Democratização do Ensino
educação deveria ser um direito de todos e uma ferramenta para A partir do século XIX, os governos começaram a se envolver
emancipar o indivíduo. O filósofo John Locke defendia que o co- mais diretamente na organização e regulamentação da educa-
nhecimento era obtido através da experiência e da observação, ção, promovendo políticas públicas de ampliação do acesso ao
rejeitando as doutrinas tradicionais da época. Rousseau, em sua ensino e sua democratização.
obra Emílio, ou Da Educação, propôs uma educação natural, que – Educação Pública e Gratuita: Com a Revolução Industrial
respeitasse o desenvolvimento espontâneo da criança, priorizan- e a necessidade de mão de obra qualificada, muitos países oci-
do a aprendizagem pelo contato com o ambiente e a prática. dentais passaram a investir na educação pública. Modelos de
– Educação e Cidadania: Filósofos como Montesquieu e Vol- educação gratuita, como o prussiano, tornaram-se referência
taire defendiam que a educação deveria promover o pensamen- para outros países. No século XIX, a educação básica obrigatória
to crítico, capacitando o indivíduo para participar ativamente da começou a ser implementada em vários lugares, visando reduzir
vida política. Essa visão estava diretamente relacionada com o o analfabetismo e promover uma força de trabalho mais qualifi-
ideal de formar cidadãos autônomos e racionais, que poderiam cada.
contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e de- – Educação como Direito Fundamental: A consolidação da
mocrática. educação como direito fundamental foi reforçada pela Declara-
– Avanços Científicos e Educação: O Iluminismo também ção Universal dos Direitos Humanos em 1948, que estabelece
incentivou o ensino de ciências e a valorização do método expe- que ”toda pessoa tem direito à educação”. Essa visão contribuiu
rimental. Houve uma intensificação na fundação de academias para o avanço de políticas de inclusão, voltadas para reduzir as
científicas e escolas técnicas, e o ensino passou a incluir disci- desigualdades educacionais e assegurar que crianças de todas as
plinas como Física, Química e Biologia, preparando indivíduos origens sociais pudessem ter acesso à escola.
para uma sociedade cada vez mais voltada para a inovação e o – Expansão da Educação Secundária e Superior: No século
progresso tecnológico. XX, o ensino médio e o ensino superior se expandiram, atenden-
do a um número crescente de estudantes. Diversos países cria-

11
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

ram universidades públicas e ampliaram o acesso ao ensino téc- dades rurais e pessoas de baixa renda. Movimentos e políticas
nico e profissionalizante, como forma de atender às demandas de inclusão educacional buscam minimizar essas desigualdades,
de sociedades cada vez mais tecnológicas e urbanizadas. promovendo acesso equitativo e recursos adaptados para estu-
dantes com deficiência.
Essa expansão permitiu que a educação se tornasse uma – Educação e Tecnologia: A educação contemporânea é pro-
ferramenta de mobilidade social e foi essencial para o desenvol- fundamente afetada pelo avanço das tecnologias digitais. Com a
vimento das economias nacionais e para a promoção de uma so- Internet, o ensino a distância e os recursos multimídia, o apren-
ciedade mais justa e igualitária. dizado se tornou mais acessível e dinâmico. Plataformas online,
aulas virtuais e conteúdos interativos são cada vez mais utiliza-
Teorias Pedagógicas Modernas e Contemporâneas dos, possibilitando que o ensino ocorra em diferentes contextos
Na Idade Contemporânea, o surgimento de novas teorias pe- e horários. No entanto, a inclusão digital e a formação de pro-
dagógicas revolucionou o ensino e a aprendizagem. Essas teorias fessores para o uso pedagógico dessas tecnologias são desafios
enfatizaram o papel do aluno como sujeito ativo e a necessidade constantes.
de métodos mais dinâmicos e centrados no indivíduo. – Competências para o Século XXI: As rápidas mudanças
– Pedagogia Progressista e o Pragmatismo de John Dewey: tecnológicas e sociais exigem que os sistemas educacionais pre-
John Dewey foi um dos pioneiros da pedagogia progressista. Ele parem os estudantes para novas competências, como o pensa-
defendia uma educação baseada na experiência, onde o apren- mento crítico, a criatividade, a comunicação eficaz e o trabalho
dizado deveria estar conectado com a vida real dos alunos. Se- colaborativo. A educação voltada para o século XXI busca formar
gundo Dewey, o conhecimento se constrói através da interação cidadãos capazes de enfrentar desafios complexos, além de fo-
entre o indivíduo e o ambiente, e o processo educacional deveria mentar uma cultura de aprendizagem contínua, necessária para
incentivar a investigação e a solução de problemas. uma sociedade em constante transformação.
– Psicologia Educacional e Teorias Cognitivas: Com o avanço – Educação para a Cidadania Global: Em um mundo cada
da psicologia, teóricos como Jean Piaget e Lev Vygotsky contri- vez mais globalizado, a educação passa a valorizar a formação
buíram para uma nova compreensão do desenvolvimento cog- para a cidadania global. Esse conceito visa preparar os indivíduos
nitivo. Piaget destacou que o aprendizado ocorre em etapas, in- para compreender e respeitar a diversidade cultural, assumir res-
fluenciando a educação infantil. Vygotsky introduziu o conceito ponsabilidades sociais e ambientais, e promover a paz e a justiça.
de “zona de desenvolvimento proximal”, destacando a importân- A cidadania global implica uma educação que vá além das fron-
cia da interação social e do papel do professor como mediador. teiras nacionais, promovendo valores universais e o desenvolvi-
– Educação Libertadora de Paulo Freire: No Brasil, Paulo mento de uma consciência crítica.
Freire revolucionou a pedagogia com sua proposta de educação
libertadora. Em sua obra Pedagogia do Oprimido, Freire propõe Esses desafios e perspectivas são centrais para o debate
uma educação dialógica, onde o aluno é um agente ativo e crí- educacional contemporâneo, e sua superação demanda políticas
tico, capaz de transformar a sua realidade. Para ele, a educação inovadoras e o compromisso com a formação de indivíduos críti-
deveria fomentar a conscientização (ou conscientização) e con- cos e aptos a contribuir para um futuro sustentável.
tribuir para a emancipação dos indivíduos, sobretudo dos mais A educação na Idade Contemporânea transformou-se pro-
marginalizados. fundamente, passando de um privilégio de poucos a um direito
– Construtivismo e Sociointeracionismo: Influenciados por universal, e de um modelo tradicional e autoritário para abor-
Piaget e Vygotsky, essas abordagens defendem que o aprendiza- dagens mais centradas no aluno e nas necessidades sociais. A
do é construído pelo próprio aluno em interação com o ambiente expansão do acesso ao ensino, o surgimento de teorias pedagó-
e com outras pessoas. No construtivismo, o conhecimento é visto gicas centradas na experiência e na interação, e a valorização de
como algo que o aluno constrói ativamente, enquanto o socioin- uma educação crítica e emancipatória foram marcos desse pe-
teracionismo enfatiza a importância das trocas sociais e culturais ríodo.
no processo educacional. No entanto, a educação enfrenta desafios significativos,
como a inclusão social e digital, a adaptação às novas tecnologias
Essas teorias mudaram o papel do professor, que passa de e a formação de competências para o século XXI. No contexto
transmissor de conteúdo para mediador do processo de aprendi- de uma sociedade cada vez mais complexa e interconectada,
zagem, e influenciaram métodos que priorizam a prática, o diálo- a educação continua sendo essencial para a construção de um
go e o desenvolvimento integral do aluno. mundo mais justo, sustentável e democrático. O desenvolvimen-
to de uma educação que prepare os indivíduos para lidar com
Desafios e Perspectivas Atuais essas mudanças e contribua para uma sociedade mais inclusiva e
Com os avanços tecnológicos e as novas demandas da socie- humanitária é uma das maiores responsabilidades e objetivos da
dade contemporânea, a educação enfrenta desafios complexos. contemporaneidade.
Entre eles, destacam-se a desigualdade de acesso, a integração
de novas tecnologias no ensino e a adaptação às mudanças nas — Educação no Brasil: Da Colônia aos Dias Atuais
formas de trabalho e comunicação. A história da educação no Brasil reflete as transformações
– Desigualdade e Inclusão: Apesar dos avanços na democra- políticas, sociais e econômicas que o país vivenciou desde o pe-
tização do ensino, muitos países ainda enfrentam grandes dispa- ríodo colonial. A educação brasileira passou por diversas fases,
ridades na qualidade e no acesso à educação. Problemas como desde a catequização promovida pelos jesuítas até a expansão
a evasão escolar, o analfabetismo funcional e a exclusão digital da educação pública e a busca por uma educação democrática
afetam principalmente populações vulneráveis, como comuni- e inclusiva no século XXI. Esse processo é marcado por avanços

12
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

e desafios, incluindo a democratização do acesso, a construção Primeira República (1889-1930)


de um sistema educacional nacional e a valorização dos direitos A Primeira República marcou um período de reformas edu-
educacionais. cacionais, embora a educação permanecesse descentralizada e
fragmentada. O ensino ainda era responsabilidade dos estados,
Período Colonial (1500-1822) e o analfabetismo continuava elevado.
No período colonial, a educação no Brasil era orientada pela – Reformas Educacionais: Inspirado por movimentos edu-
missão de catequização e formação da elite colonial, realizada cacionais internacionais, o governo brasileiro iniciou algumas
majoritariamente pelos jesuítas. O ensino era limitado e profun- reformas para modernizar a educação. No entanto, a educação
damente influenciado pela Igreja Católica, com o objetivo princi- era uma responsabilidade estadual, resultando em uma grande
pal de consolidar a fé cristã e a cultura europeia. disparidade entre as regiões.
– Ação Jesuítica: Os jesuítas chegaram ao Brasil em 1549 e, – Movimento dos Pioneiros da Educação Nova: Na década
sob o comando de Manuel da Nóbrega, fundaram as primeiras de 1920, educadores como Anísio Teixeira e Fernando de Azeve-
escolas de catequese. Seu objetivo era converter e educar os do defenderam uma educação mais democrática e progressista,
indígenas, promovendo a cultura e os valores europeus. Os je- inspirada nos princípios da Escola Nova. O Manifesto dos Pionei-
suítas fundaram colégios em diversas regiões e educavam tanto ros da Educação Nova, publicado em 1932, exigia uma educação
os filhos da elite quanto os indígenas, embora com currículos e pública, laica e universal, além de reformas profundas no currí-
métodos diferenciados. culo.
– Ensino Rígido e Religioso: A educação jesuítica era basea- – Desafios Regionais e Sociais: A maioria da população bra-
da nos valores religiosos e no ensino da moral cristã, com méto- sileira ainda vivia no campo, e o acesso à educação era restrito a
dos rígidos de ensino e disciplinamento. As aulas incluíam gra- zonas urbanas. As desigualdades regionais dificultavam a criação
mática, latim e rudimentos de teologia, principalmente para os de um sistema educacional coeso e amplo.
filhos dos colonizadores.
– Expulsão dos Jesuítas: Em 1759, o Marquês de Pombal Esse período consolidou a ideia de uma educação mais inclu-
expulsou os jesuítas do Brasil e de outras colônias portuguesas, siva, embora ainda estivesse distante da realidade para a maioria
criando um vácuo educacional que o governo português tentou da população.
preencher com a implementação de escolas régias. No entanto, o
desenvolvimento dessas escolas foi lento e limitado, resultando Era Vargas e a Consolidação do Sistema Educacional (1930-
em uma oferta educacional reduzida e de baixa qualidade. 1964)
O governo de Getúlio Vargas trouxe importantes reformas
A educação no período colonial era, portanto, limitada a um para a educação, visando fortalecer o Estado e preparar o país
pequeno grupo e essencialmente voltada para a catequese e a para a modernização econômica. As primeiras leis nacionais de
formação dos futuros governantes locais. educação foram estabelecidas nesse período.
– Criação do Ministério da Educação: Em 1930, Vargas criou
Período Imperial (1822-1889) o Ministério da Educação e Saúde Pública, centralizando as políti-
Com a independência do Brasil, em 1822, surgiram as pri- cas educacionais e permitindo maior controle do governo federal
meiras tentativas de organizar um sistema educacional nacional. sobre o sistema de ensino.
No entanto, o ensino era elitista e restrito a poucas regiões, e o – Educação Profissional e Industrial: A partir da década de
analfabetismo era generalizado. 1940, o governo começou a investir em educação profissional e
– Primeiras Iniciativas Educacionais: A Constituição de 1824 técnica, visando atender à demanda da indústria em expansão.
mencionava a importância da instrução primária gratuita, mas na Instituições como o SENAI e o SENAC foram fundadas para ofere-
prática, a educação continuava elitista e concentrada nas áreas cer formação em áreas específicas.
urbanas. O ensino secundário e superior atendia a uma minoria – Primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB): A
e era voltado para a formação de profissionais liberais e funcio- primeira LDB foi sancionada em 1961 e estabeleceu normas ge-
nários públicos. rais para a organização da educação nacional. Ela determinou os
– Ensino Superior: Durante o Império, surgiram as primeiras princípios e diretrizes que norteavam a educação básica e o en-
instituições de ensino superior, como as faculdades de Direito em sino superior.
Olinda e São Paulo. O ensino superior brasileiro, contudo, era vol-
tado para uma pequena elite, sem caráter científico ou industrial. A educação passou a ser vista como um elemento estratégi-
– Iniciativas de Expansão: O governo imperial tentou expan- co para o desenvolvimento do país, e o Estado assumiu um papel
dir o acesso ao ensino primário, mas as dificuldades financeiras, mais ativo na formulação de políticas educacionais.
a precariedade das escolas e a falta de professores qualificados Ditadura Militar e Reestruturação Educacional (1964-1985)
limitaram esses esforços. Em 1854, o regulamento Couto Ferraz Durante o regime militar, a educação brasileira foi reorgani-
propôs a regulamentação da educação primária, estabelecendo zada, e novas políticas foram adotadas, enfatizando a formação
normas e objetivos para o ensino básico. técnica e profissional. A censura e a repressão política também
afetaram o ambiente educacional.
Apesar dessas tentativas, o acesso à educação continuava – LDB de 1971: A reforma educacional de 1971 reestrutu-
restrito a uma pequena parcela da população, enquanto o anal- rou o ensino básico, enfatizando a educação profissionalizante.
fabetismo permanecia alto, sobretudo entre as populações rurais O currículo escolar passou a incluir disciplinas voltadas para a
e marginalizadas. formação técnica, em resposta à necessidade de trabalhadores
qualificados para a indústria.

13
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

– Expansão do Ensino Básico e Técnico: O regime militar


ampliou o acesso ao ensino fundamental e ao ensino técnico, III - SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO
embora a qualidade educacional fosse desigual. Muitas escolas
careciam de estrutura e recursos. A Sociologia da Educação é uma área de estudo que analisa
– Controle e Censura: A ditadura militar exercia controle so- como a educação está interligada às estruturas sociais, investi-
bre os conteúdos ensinados nas escolas, e temas considerados gando as influências e interações entre as instituições educativas
subversivos, como sociologia e filosofia, foram retirados do cur- e o contexto socioeconômico, político e cultural.
rículo. Esse campo busca compreender como fatores como classe
social, gênero, etnia, religião e contexto econômico afetam as
Apesar de algumas melhorias na expansão do ensino básico, práticas educacionais e o acesso à educação, além de questionar
a educação durante a ditadura militar foi marcada por limitações de que forma a escola contribui para a socialização dos indivíduos
pedagógicas e um forte controle ideológico. e para a reprodução ou transformação das estruturas sociais.
Redemocratização e a Constituição de 1988 O que é Sociologia da Educação?
Com a redemocratização, o Brasil passou a investir em po- A Sociologia da Educação é uma subdisciplina da sociologia
líticas educacionais que refletissem os princípios democráticos, que estuda o papel da educação na sociedade e sua influência
garantindo o direito à educação para todos os cidadãos. sobre a organização social. Ela se propõe a entender questões
– Educação como Direito Constitucional: A Constituição de como:
1988 estabeleceu que a educação é um direito fundamental e - Qual é o papel da escola na formação social dos indivíduos?
responsabilidade do Estado, reafirmando a necessidade de um - Como as práticas educacionais influenciam e são influen-
sistema educacional gratuito e de qualidade. ciadas pelas estruturas sociais?
– LDB de 1996: A nova LDB regulamentou o sistema edu- - De que maneira a educação pode contribuir para a repro-
cacional brasileiro, estabelecendo diretrizes para a educação bá- dução ou para a transformação social?
sica, ensino médio e superior. A LDB de 1996 promoveu maior
autonomia pedagógica e institucional, incentivando métodos Para a sociologia, a educação não ocorre em um vácuo, mas
inovadores e respeitando as especificidades regionais. é fortemente influenciada pelo contexto social e pelos interes-
– Plano Nacional de Educação (PNE): O PNE, estabelecido ses de grupos específicos. Essa área de estudo ajuda a identifi-
em 2001 e renovado em 2014, fixou metas para a educação bra- car como a escola pode reforçar desigualdades ou, em contra-
sileira, incluindo a universalização do ensino básico, a valorização partida, atuar como um espaço de mudança social, promovendo
dos professores e a melhoria da qualidade do ensino. maior equidade.
Essas reformas visavam democratizar o acesso à educação e Principais Teorias Sociológicas e suas Aplicações na Educa-
melhorar a qualidade do ensino, adequando-o às demandas de ção
uma sociedade mais plural e participativa. Diversas teorias sociológicas analisam a educação sob dife-
rentes perspectivas, oferecendo explicações sobre seu papel so-
Desafios e Perspectivas Atuais cial. As teorias mais destacadas são:
A educação brasileira enfrenta desafios significativos no sé-
culo XXI, como a desigualdade de acesso, a inclusão digital e a Funcionalismo
necessidade de formação para o mundo do trabalho. O funcionalismo, influenciado por Émile Durkheim, enxerga
– Desigualdade e Qualidade: A desigualdade regional e so- a escola como uma instituição essencial para a manutenção da
cial ainda limita o acesso à educação de qualidade. Problemas ordem e da coesão social. De acordo com essa teoria, a educação
como a evasão escolar, o analfabetismo funcional e a exclusão de tem como função integrar os indivíduos na sociedade, transmi-
populações indígenas e quilombolas exigem políticas específicas tindo normas, valores e conhecimentos que garantem o funcio-
e investimentos. namento harmonioso da sociedade. Para o funcionalismo:
– Educação e Tecnologia: A pandemia de COVID-19 acele- - A escola prepara os alunos para o mercado de trabalho,
rou a implementação de tecnologias educacionais, mas também ensinando habilidades e conhecimentos necessários.
revelou a exclusão digital. A formação digital é essencial para ga- - A escola socializa os indivíduos, transmitindo valores cultu-
rantir a inclusão e preparar os alunos para o futuro. rais que ajudam a formar uma identidade coletiva.
– Valorização dos Professores: A valorização dos profissio-
nais da educação, incluindo a remuneração adequada e a forma- O funcionalismo, no entanto, tem sido criticado por ignorar
ção continuada, é um desafio central para a melhoria da qualida- as desigualdades sociais e as diferenças culturais, muitas vezes
de educacional no Brasil. tratando a educação como um processo homogêneo.
A história da educação no Brasil reflete a luta por uma edu- Teoria do Conflito
cação inclusiva, democrática e de qualidade, essencial para o de- A teoria do conflito, inspirada por Karl Marx e desenvolvi-
senvolvimento social e econômico do país. Desde a catequização da por autores como Louis Althusser, vê a educação como um
até as modernas políticas de inclusão, a educação no Brasil pas- instrumento de reprodução das desigualdades sociais. Segundo
sou por transformações profundas, mas ainda enfrenta desafios essa perspectiva:
significativos para atender à diversidade e complexidade da so-
ciedade contemporânea.

14
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

- A escola atua como uma ferramenta ideológica, transmitin- Karl Marx e Louis Althusser
do os valores e interesses das classes dominantes e legitimando Marx, e posteriormente Althusser, afirmavam que a escola
a hierarquia social. é um dos aparelhos ideológicos do Estado que contribui para a
- A educação reforça as divisões de classe, gênero e etnia, reprodução das condições sociais e econômicas da sociedade.
dificultando a mobilidade social para os grupos desfavorecidos. Althusser argumentava que a escola perpetua a ideologia domi-
nante e legitima a desigualdade ao ensinar aos alunos a aceita-
Essa teoria critica a visão funcionalista, afirmando que a ção das normas sociais e de sua posição na hierarquia social.
escola não é neutra e que o currículo, a avaliação e a disciplina
escolar são influenciados por relações de poder que beneficiam Pierre Bourdieu
grupos específicos. Por exemplo, os alunos de classes sociais Bourdieu desenvolveu o conceito de capital cultural, afir-
mais altas têm acesso a mais oportunidades e recursos, o que mando que a escola favorece aqueles que possuem o capital cul-
fortalece suas chances de sucesso. tural dominante (hábitos, conhecimentos e habilidades valoriza-
dos pela sociedade). Ele argumentava que o sistema educacional
Interacionismo Simbólico reproduz as desigualdades sociais ao privilegiar os alunos que
O interacionismo simbólico, com base nos estudos de auto- compartilham o capital cultural da elite.
res como Erving Goffman, foca nas interações entre indivíduos e
nas interpretações subjetivas que ocorrem dentro do ambiente Basil Bernstein
escolar. Para essa abordagem: Bernstein contribuiu com estudos sobre a linguagem e seu
- A sala de aula é um espaço de interação social, onde as papel na educação. Ele desenvolveu a teoria dos códigos lin-
relações entre professores, alunos e colegas moldam as percep- guísticos restrito e elaborado, afirmando que a linguagem usada
ções e atitudes. pelos alunos de diferentes classes sociais influencia seu desem-
- A identidade e o sucesso dos alunos são influenciados por penho escolar. Alunos de classes altas, que dominam o código
interações e rótulos, como as expectativas dos professores e as elaborado, são mais valorizados pela escola, enquanto alunos de
experiências sociais diárias. classes baixas, que utilizam o código restrito, enfrentam mais di-
ficuldades.
Por meio dessa lente, a escola é vista como um microcos-
mo da sociedade, onde são reproduzidas e desafiadas as normas A Influência da Sociologia da Educação na Prática Pedagó-
sociais. As interações cotidianas podem reforçar ou desafiar ró- gica
tulos, expectativas e até preconceitos, influenciando o desempe- As teorias sociológicas oferecem uma visão crítica do siste-
nho e a autoimagem dos estudantes. ma educacional e podem influenciar diretamente a prática peda-
gógica. A teoria do conflito e a teoria crítica, por exemplo, suge-
Teoria Crítica rem a necessidade de um currículo mais inclusivo e de práticas
A teoria crítica, inspirada pela Escola de Frankfurt e autores pedagógicas que promovam a equidade e a justiça social. Já o
como Paulo Freire, vê a educação como um espaço para a cons- funcionalismo inspira práticas voltadas para a integração social
cientização e a transformação social. Essa teoria afirma que: e a formação de habilidades que atendam às demandas do mer-
- A escola deve ser um lugar de crítica e reflexão, permitindo cado.
que os alunos tomem consciência das injustiças sociais e econô- Educadores conscientes dessas teorias podem criar ambien-
micas. tes de aprendizado que respeitem as diferenças culturais e so-
- A educação pode e deve ser emancipatória, incentivando ciais, promovendo maior inclusão e igualdade de oportunidades.
os alunos a questionarem e transformarem a realidade social. Além disso, o interacionismo simbólico alerta para a importância
das expectativas e das interações no desenvolvimento dos alu-
Paulo Freire, um dos expoentes da teoria crítica, defende a nos, incentivando práticas que valorizem a autoestima e a auto-
educação como um processo dialógico, onde o aluno é um su- confiança dos estudantes.
jeito ativo e crítico que pode transformar sua realidade. Em vez
de transmitir um conhecimento “bancário” e opressor, o ensino A Sociologia da Educação oferece uma análise crítica e pro-
deve estimular a consciência crítica e a autonomia. funda sobre a relação entre a escola e a sociedade, contribuindo
para uma educação mais justa e consciente. Ao estudar os dife-
Sociólogos Influentes e suas Contribuições para a Educação rentes papéis que a escola desempenha — desde o de socializa-
Diversos sociólogos contribuíram para a compreensão do ção até o de reprodução ou transformação social —, a Sociologia
papel da educação na sociedade. Entre eles, destacam-se: da Educação nos ajuda a entender os desafios e as possibilidades
da prática pedagógica em contextos sociais variados.
Émile Durkheim Assim, ao integrar essa análise sociológica, a educação pode
Durkheim, considerado o “pai” da sociologia da educação, se tornar um instrumento poderoso de inclusão e justiça social,
via a escola como fundamental para a coesão social. Para ele, a promovendo mudanças significativas na vida dos indivíduos e na
educação é um mecanismo de socialização que transmite valores estrutura da sociedade.
e normas culturais, preparando o indivíduo para a vida em socie-
dade. Ele defendia que a escola era um ambiente neutro e me- — Interseção entre Filosofia e Sociologia na Educação
ritocrático, onde todos teriam oportunidades iguais de sucesso. A interseção entre a filosofia e a sociologia na educação per-
mite uma compreensão mais ampla e crítica do papel da edu-
cação na formação dos indivíduos e na estruturação das socie-

15
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

dades. Enquanto a filosofia investiga os fundamentos éticos, os da educação, especialmente com a teoria crítica, que argumenta
objetivos e os valores da prática educativa, a sociologia analisa que a escola deve ser um espaço de conscientização e transfor-
como esses princípios se manifestam na realidade social e como mação social.
são influenciados por fatores contextuais, como classe, cultura A filosofia da educação, ao estabelecer os ideais éticos e
e poder. humanos, vê a escola como espaço de emancipação e formação
A combinação dessas duas perspectivas promove uma abor- cidadã. Já a sociologia crítica alerta para os desafios de transfor-
dagem pedagógica que é ao mesmo tempo reflexiva e contextua- mar esses ideais em práticas, considerando as resistências e os
lizada, integrando princípios teóricos com uma visão realista das interesses dominantes que frequentemente limitam o potencial
condições sociais em que a educação ocorre. transformador da educação.

Como as Visões Filosóficas e Sociológicas se Complemen- – Importância da Ética e da Consciência Social:


tam? A interseção entre filosofia e sociologia fortalece a prática
educativa ao enfatizar a necessidade de uma ética educacional
– A Filosofia como Fundamentação Ética e a Sociologia que considere o bem comum e o respeito às diversidades. A filo-
como Análise de Contexto: sofia propõe uma reflexão ética sobre a relação entre professor
A filosofia da educação oferece uma fundamentação ética e aluno, sobre os métodos de avaliação e sobre a inclusão de
para o ensino, definindo o que significa educar e quais objetivos todos os grupos sociais no processo de aprendizagem. Esse é um
e valores devem orientar a formação humana. Pensadores como ponto importante, pois ajuda a garantir que a educação não seja
John Dewey, com sua visão pragmatista, propõem uma educação apenas uma transmissão de conhecimentos técnicos, mas um
democrática que visa ao desenvolvimento do indivíduo para a processo de formação moral e cidadã.
vida em sociedade. Paulo Freire, com sua pedagogia crítica, pro- Ao mesmo tempo, a sociologia da educação complementa
põe uma educação libertadora que vê o aluno como sujeito ativo essa ética com uma análise crítica da estrutura social, permitindo
em sua formação e na transformação da sociedade. que os educadores compreendam os impactos das desigualda-
A sociologia, por sua vez, traz para a educação uma análi- des e busquem práticas que promovam a inclusão e a equidade.
se contextual que examina as estruturas sociais e as relações de A interação entre filosofia e sociologia, portanto, propõe que a
poder que influenciam o acesso, o sucesso e a permanência na educação tenha uma consciência social e se comprometa com a
escola. A partir de autores como Pierre Bourdieu e Basil Berns- redução das desigualdades, atuando como agente transforma-
tein, compreendemos como a cultura e a linguagem de diferen- dor.
tes grupos sociais impactam o desempenho dos alunos, questio-
nando a neutralidade do sistema educacional. Assim, a sociologia – Práticas Educativas e Crítica Social:
complementa a filosofia ao mostrar como os valores e princípios A interseção entre filosofia e sociologia contribui para que
educativos são aplicados ou desafiados na prática, revelando as as práticas educativas sejam não apenas eficientes, mas também
desigualdades e as tensões existentes. socialmente conscientes. Ao adotar uma perspectiva filosófica,
os educadores têm um referencial ético e teórico para guiar suas
– Filosofia e Sociologia na Definição de Currículos e Práticas práticas. Ao aplicar uma análise sociológica, eles são capazes de
Pedagógicas: ajustar essas práticas às realidades dos alunos, evitando a repro-
A filosofia fornece a base para a construção do currículo, de- dução das desigualdades e promovendo uma pedagogia inclusiva
terminando quais conteúdos e habilidades são essenciais para o e crítica.
desenvolvimento humano e social. Correntes filosóficas, como o Essa visão integradora permite a implementação de meto-
pragmatismo e o existencialismo, influenciam currículos que pro- dologias que valorizam o contexto social dos alunos, utilizando o
movem a autonomia, a resolução de problemas e a valorização conhecimento como ferramenta de questionamento e reflexão.
da experiência individual. A sociologia, ao analisar as demandas A combinação de uma ética educacional fundamentada na filoso-
e as pressões sociais sobre a educação, permite que esses cur- fia e uma análise crítica da realidade proporcionada pela socio-
rículos sejam adaptados às necessidades dos diferentes grupos logia contribui para o desenvolvimento de práticas pedagógicas
sociais, considerando fatores como diversidade cultural, justiça que promovem a formação de indivíduos críticos e preparados
social e combate à exclusão. para atuar na sociedade de forma consciente e autônoma.
Por exemplo, enquanto uma filosofia pragmática incentiva
a aprendizagem ativa e a conexão com a realidade prática, a so- A interseção entre a filosofia e a sociologia da educação pro-
ciologia crítica alerta para a necessidade de que o currículo seja porciona uma abordagem rica e crítica, que ajuda a responder a
inclusivo e sensível às diferenças sociais, evitando conteúdos e questões fundamentais sobre o papel e os objetivos da educação
abordagens que reforcem desigualdades. em nossa sociedade. A filosofia oferece os princípios e valores
que orientam o ideal educativo, enquanto a sociologia coloca es-
Reflexões Contemporâneas sobre a Prática Educativa ses princípios em perspectiva, mostrando as condições e os de-
safios do contexto social.
– Educação como Ato Político e Social: Juntas, essas duas áreas estimulam uma prática pedagógica
Tanto a filosofia quanto a sociologia concordam que a educa- que vai além da mera transmissão de conhecimentos, promoven-
ção é um ato político e social. Na visão de Paulo Freire, o ato de do uma educação que forma cidadãos críticos, conscientes e éti-
educar nunca é neutro, sendo sempre uma prática que reflete e cos, capazes de atuar para uma sociedade mais justa e igualitária.
modifica a sociedade. Essa perspectiva dialoga com a sociologia Essa visão integrada é essencial para enfrentar os desafios con-

16
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

temporâneos da educação, que envolvem desde a inclusão social sistema nervoso e das estruturas sensoriais do indivíduo que
até a preparação dos indivíduos para uma sociedade complexa e gradativamente, permitem o aumento de sua capacidade
em constante transformação. perceptora, podendo contribuir para auxiliar o professor na
organização dos estímulos, facilitando o processo de percepção.
IV - PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO — Construtivismo
A escola construtivista baseia-se na criação de informações
— Introdução subjetivas por parte do aluno, a partir de sua própria interpretação
A Psicologia da Educação estuda o comportamento do ser do mundo, provocando a reestruturação de seu pensamento.
humano no ambiente educacional, na busca pela compreensão Desse modo, pode-se entender que o construtivismo adota
acerca do funcionamento do processo de ensino e aprendizagem uma abordagem focada no aluno, enquanto o professor assume
e no aprofundamento da investigação sobre as dificuldades o papel de guia do processo de aprendizagem.
de aprendizagem, criando ferramentas e estratégias com a A aprendizagem ,na escola construtivista, é entendida
finalidade de melhorar os processos de ensino, orientando como um processo de crescimento intelectual, baseado
professores e promovendo a inclusão. no conhecimento prévio do aluno e na aquisição de novos
conhecimentos, adquiridos por meio das vivências e
— Comportamentalismo interpretações que ele estabelece com o meio à sua volta.
O Comportamentalismo (Behaviorismo) é uma teoria Dentro da abordagem construtivista, destacam-se duas
psicológica baseada no estudo do comportamento humano a vertentes: o Construtivismo Social e o Cognitivo, também
partir de estímulos, buscando entender a forma de resposta a chamado de Neoconstrutivismo. O primeiro, acredita que os
esses estímulos, dentro do contexto em que o indivíduo está alunos formulam suas hipóteses sobre o ambiente e as testam
inserido. Podemos, portanto, destacar três aspectos centrais através de negociações sociais. Enquanto o Construtivismo
dessa teoria: Cognitivo ou Neoconstrutivismo se interessa pelo processo
1 – Ênfase no indivíduo; como ocorre a construção das hipóteses e da geração do
2 – Atenção ao comportamento organizacional e nos conhecimento.
processos de trabalho;
3 – O estudo comportamental. — Condutivismo
O Condutivismo baseia-se no Comportamentalismo ou
Assim, a aprendizagem é definida como uma mudança de Behaviorismo, que defende o controle dos comportamentos,
comportamento que se dá em resposta a estímulos ambientais. portanto das condutas adotadas frente a associações
Esses estímulos podem ser positivos ou negativos. estabelecidas com estímulos positivos ou negativos, de forma
Os estímulos positivos, também chamados de que os positivos incentivem a repetição das condutas, enquanto
“recompensas”, possibilitam a criação de associações positivas os negativos, inibam essa repetição.
entre a “recompensa” e um determinado comportamento,
levando-o à repetição da ação. — Inteligências Múltiplas
Já os estímulos negativos ou “castigos”, provocam o efeito A teoria das Inteligências Múltiplas defende que o ser
contrário, fazendo com que o indivíduo evite repetir essas ações, humano é capaz de desenvolver nove tipos de inteligências,
a partir da associação de certos comportamentos com tais porém, nem todos desenvolvem todas elas. Em geral, observa-
estímulos. se o desenvolvimento de uma ou duas. Através das Inteligências
Múltiplas é possível retratar os vários comportamentos pelos
— Cognitivismo quais as pessoas expõem suas habilidades de cognição. A
Diferentemente do Comportamentalismo, que estabelece tabela abaixo, apresenta os nove tipos de inteligência e suas
certa semelhança entre seres humanos e outros animais, nos características:
processos de aquisição de comportamentos a partir de estímulos,
o Cognitivismo analisa os humanos como seres racionais, Tipo de Inteligência Característica
diferentes dos outros animais. Assim, essa teoria explora
as complexidades da mente humana no processamento de Lógico-Matemática Cálculos e raciocínio lógico.
informações, estabelecendo o comportamento como resultado Aptidão para aprender
do pensamento. Linguística idiomas e habilidades
Dessa forma, a aprendizagem é considerada resultado comunicativas.
das atividades mentais (pensamento, conhecimento, memória, Compreender e elaborar
motivação, reflexão e resolução de problemas), sendo avaliada Espacial
imagens.
através da demonstração de conhecimento e da compreensão.
Percepção e execução de
Físico-Cinestésica
— Gestalt movimentos corporais.
O termo, de origem alemã, significa “forma total” e está Habilidades de oratória,
relacionado ao modo através do qual, percebemos as coisas. Interpessoal compreensão e
Nesse contexto, os processos de desenvolvimento e aprendizagem argumentação.
são entendidos como resultado do amadurecimento do

17
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Capacidade de 1 – Aprender na prática.


Intrapessoal elaborar pensamentos, 2 – Mudança no papel do professor, que deixa de ser
autoconhecimento. o detentor do conhecimento e se torna um facilitador nas
experiências dos alunos, os guiando para que possam chegar a
Aprender a ler e compor resultados satisfatórios.
Musical música, aprender a tocar 3 – Capacidade de replicar o conhecimento.
um instrumento. 4 – Compreender os processos, além de teorias e conceitos
Relacionar-se com a abstratos.
Naturalista 5 – Utilizar diversas formas de aprender.
natureza, plantas e animais.
Relacionar-se com questões Aprendizado Situado
Existencialista relativas à natureza O Aprendizado Situado pode ser entendido como uma
humana e a existência. metodologia que utiliza a experimentação em grupos, dentro
do contexto social dos indivíduos, de modo a desenvolver
— Inteligência Emocional uma aprendizagem significativa através de um processo de
A Inteligência Emocional se desenvolve a partir das protagonismo dos alunos, permitindo a troca de conhecimento
competências relacionadas a lidar com as emoções. Dentre entre os membros do grupo, a partir da vivência adquirida.
elas, pode-se citar as soft skills, que tratam das interações Nesse contexto, é importante que se destaque três aspectos
estabelecidas entre as pessoas. A popularização da Inteligência fundamentais do aprendizado classificado como situado:
Emocional se deu por intermédio do psicólogo inglês Daniel 1 – Remete a pensamentos e ações das pessoas que
Goleman que descreveu-a como sendo a capacidade de acontecem em um mesmo espaço e tempo;
gerenciamento das emoções, essencial para o desenvolvimento 2 – Refere-se a práticas sociais que envolvem a participação
da inteligência de um indivíduo, contribuindo, inclusive, para um de outras pessoas;
melhor desempenho profissional. O modelo de Goleman baseia- 3 – Está atrelado a contextos sociais que funcionam como
se em cinco pilares: fonte de significados e conhecimentos.
– Autoconsciência: capacidade de reconhecer as próprias
emoções. — Psicanálise e Psicologia histórico-cultural
– Autorregulação: capacidade de lidar com as próprias A psicologia histórico-cultural trabalha como a formação da
emoções. consciência a partir das relações sociais. Com isso, se objetiva a
– Automotivação: capacidade de se motivar e de se manter aproximação entre o aluno e o objeto do conhecimento através
motivado. de elementos pertencentes ao cotidiano dele, promovendo uma
– Empatia: capacidade de enxergar as situações pela aprendizagem efetiva.
perspectiva dos outros. Nesse contexto, fica o professor responsável por mediar
– Habilidades sociais: conjunto de capacidades envolvidas a interação entre o aluno e o objeto de conhecimento,
na interação social. democratizando o processo de ensino, descentralizado-o de sua
figura, enquanto detentor do saber.
— Teoria da Aprendizagem Significativa
O entendimento dos processos de aprendizagem modificou
a formatação dos currículos que, mais do que a listagem dos V - TEORIAS PEDAGÓGICAS
conteúdos a serem trabalhados, hoje contempla também a
determinação das metodologias mais adequadas a serem
As teorias pedagógicas desempenham um papel fundamen-
empregadas, de modo que atribuam a eles significância em
tal na compreensão do processo de ensino-aprendizagem, orien-
relação ao contexto social que o aluno se insere, com objetivos
tando a prática docente e moldando as políticas educacionais.
que visam a formação ética, reflexiva e humanizada.
Cada uma dessas teorias reflete diferentes concepções sobre o
Assim, essa formação só é possível quando “os estudantes
papel da escola, do professor, do aluno e do conhecimento, in-
produzem sentidos e significados acerca de suas aprendizagens,
fluenciando diretamente a forma como o ensino é planejado e
de maneira contextualizada e protagonista, levando em conta o
executado.
conhecimento prévio que trazem da esfera escolar e para além
Ao longo da história da educação, diversas correntes teóri-
dela, aspectos que se observam na leitura dos relatos de prática
cas emergiram, cada uma com suas particularidades e enfoques.
dos professores.” (BNCC)
A Pedagogia Tradicional, por exemplo, prioriza a transmissão
de conhecimento e a disciplina, enquanto a Pedagogia Tecnicis-
— Aprendizado Experimental
ta foca na eficiência e na preparação do aluno para o mercado
O Aprendizado Experiencial é um método pedagógico que
de trabalho. Por outro lado, abordagens mais recentes, como a
utiliza experiências para possibilitar a aprendizagem, permitindo
Pedagogia Progressista, influenciada por Paulo Freire, propõem
que o aluno vivencie na prática o objeto de estudo, atribuindo
uma educação emancipatória e crítica, enquanto o Construtivis-
maior significância ao que se aprende. Essa metodologia é
mo e o Sociointeracionismo destacam o papel ativo do aluno e
baseada nos seguintes fundamentos:
a importância das interações sociais na construção do conheci-
mento.

18
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Compreender essas diferentes teorias é essencial não ape- – Passividade do aluno: Uma das críticas mais contundentes
nas para entender a evolução histórica do pensamento educa- à pedagogia tradicional é o papel passivo atribuído ao aluno. O
cional, mas também para refletir sobre as práticas pedagógicas foco excessivo na transmissão de conteúdos prontos e na me-
atuais e as suas implicações na formação de cidadãos críticos e morização limita o desenvolvimento do pensamento crítico, da
participativos. criatividade e da autonomia dos estudantes.
– Desconexão com a realidade: Outro ponto criticado é a
— Pedagogia Tradicional ênfase no ensino de conteúdos abstratos e descontextualizados
A Pedagogia Tradicional é uma das correntes pedagógicas da realidade dos alunos. O conhecimento é apresentado de for-
mais antigas e influentes na história da educação. Originada no ma isolada e sem relação direta com o cotidiano, o que pode di-
contexto das escolas jesuítas no século XVI, essa abordagem se ficultar a aplicação prática do que é aprendido.
consolidou durante séculos e ainda influencia práticas educacio- – Foco excessivo na disciplina: A rigidez disciplinar da peda-
nais em muitas instituições. Seu principal objetivo é a transmis- gogia tradicional muitas vezes leva à conformidade e ao controle
são de conhecimento acumulado pelas gerações anteriores, com excessivo do comportamento dos alunos, o que pode inibir a par-
foco na disciplina e no controle do comportamento dos alunos. ticipação ativa e a expressão pessoal.
– Visão estática do conhecimento: A Pedagogia Tradicional
Características Principais tende a considerar o conhecimento como algo fixo e imutável,
A Pedagogia Tradicional apresenta algumas características que deve ser transmitido de forma hierárquica. Essa visão con-
centrais que definem sua estrutura: trasta com teorias contemporâneas que entendem o conheci-
– Ensino centrado no professor: O professor é visto como a mento como dinâmico e construído de forma colaborativa.
figura central e a principal autoridade no processo educacional.
Cabe a ele organizar o conteúdo, transmitir o conhecimento e Contribuições e Limitações
avaliar o desempenho dos alunos. Nessa abordagem, o profes- Apesar das críticas, a Pedagogia Tradicional teve um papel
sor é o detentor do saber, enquanto o aluno é considerado um importante no desenvolvimento dos sistemas escolares moder-
receptor passivo. nos, especialmente no que diz respeito à organização do ensino
– Ênfase na memorização e repetição: O ensino tradicional e à formação de conteúdos curriculares bem definidos. Sua ên-
dá grande importância à repetição e à memorização de conteú- fase na disciplina e no controle pode ser útil em determinados
dos, visto que o conhecimento é transmitido de forma expositiva contextos, como na educação formal de crianças e jovens que
e objetiva. Os alunos são incentivados a reproduzir o conteúdo necessitam de um ambiente estruturado.
aprendido, sendo avaliados com base na sua capacidade de reter Contudo, suas limitações ficam evidentes no mundo contem-
informações. porâneo, onde se valoriza cada vez mais a autonomia do aluno, o
– Conteúdo rígido e fragmentado: A organização curricular pensamento crítico e a capacidade de adaptação às rápidas mu-
é baseada em disciplinas estanques e isoladas, com uma divisão danças sociais e tecnológicas. Por isso, a pedagogia tradicional
clara entre as áreas do conhecimento. O ensino é sistemático e vem sendo substituída ou complementada por abordagens que
linear, com pouca interconexão entre os diferentes conteúdos. promovem uma participação mais ativa dos alunos no processo
– Disciplina e controle: A Pedagogia Tradicional valoriza de ensino-aprendizagem.
fortemente a disciplina e o controle dentro da sala de aula. O A Pedagogia Tradicional é uma abordagem educacional que
comportamento dos alunos deve seguir normas rígidas, e a obe- moldou profundamente o sistema escolar tal como o conhece-
diência à autoridade do professor é uma das bases do processo mos hoje. Apesar de suas contribuições, especialmente no que
educativo. diz respeito à organização e estruturação do ensino, suas limi-
tações em promover a participação ativa, a crítica e a contex-
Papel do Professor e do Aluno tualização dos conteúdos levaram ao desenvolvimento de novas
No modelo tradicional, o professor assume uma posição de teorias pedagógicas.
autoridade máxima e é o responsável por conduzir todo o pro- A educação contemporânea busca integrar diferentes abor-
cesso educativo. Ele detém o conhecimento e o transfere para os dagens, combinando elementos da pedagogia tradicional com
alunos, que são vistos como “tábuas rasas”, ou seja, sem saberes práticas que favoreçam a formação de cidadãos críticos, autôno-
prévios. O aluno, por sua vez, tem um papel essencialmente pas- mos e capazes de interagir de maneira significativa com a reali-
sivo, devendo obedecer, ouvir e memorizar o conteúdo exposto. dade ao seu redor.
Essa relação hierárquica reforça a ideia de que o conheci-
mento é algo que vem de fora e é imposto ao aluno, sem a ne- — Pedagogia Tecnicista
cessidade de interação, questionamento ou construção ativa por A Pedagogia Tecnicista emergiu como uma resposta às de-
parte deste. A avaliação, por sua vez, costuma ser baseada em mandas da sociedade industrial do século XX, especialmente no
exames ou provas que medem a capacidade do aluno de reter e contexto do avanço da ciência, da tecnologia e da racionalização
reproduzir o que foi ensinado. do trabalho.
Influenciada pelas teorias administrativas, como o Tayloris-
Principais Críticas mo e o Fordismo, essa abordagem pedagógica considera a edu-
Embora tenha sido amplamente adotada por séculos, a Pe- cação como um processo técnico, cuja principal função é pre-
dagogia Tradicional recebeu várias críticas, especialmente a par- parar os indivíduos para o mercado de trabalho, promovendo a
tir do século XX, com o surgimento de novas abordagens pedagó- eficiência e a padronização do ensino.
gicas. Entre as principais críticas estão:

19
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Origens e Influências Essa relação professor-aluno é baseada em um modelo hie-


A Pedagogia Tecnicista se desenvolveu no contexto da indus- rárquico e controlado, onde o professor transmite conhecimen-
trialização e do crescimento das grandes corporações. O pensa- tos e técnicas, e o aluno as aplica, com pouca ou nenhuma mar-
mento técnico-científico, voltado para a maximização da produ- gem para a construção ativa do conhecimento ou para a reflexão
tividade, foi aplicado à educação com o objetivo de torná-la um crítica sobre o processo educativo.
processo eficiente, objetivo e mensurável. Essa abordagem tem
como base os princípios de racionalização e controle presentes Principais Críticas
nas teorias administrativas de Frederick Taylor (Taylorismo) e nas A Pedagogia Tecnicista, embora tenha sido amplamente
ideias de Henry Ford, que preconizavam a otimização do trabalho adotada em diversos contextos, recebeu várias críticas, especial-
humano por meio de técnicas padronizadas. mente a partir de correntes pedagógicas mais humanistas e críti-
Nos anos 1960 e 1970, em plena era da industrialização e cas, como a Pedagogia Progressista e o Construtivismo. Entre as
do crescimento das escolas técnicas, o tecnicismo encontrou principais críticas estão:
terreno fértil, especialmente em países que buscavam acelerar – Desumanização do processo educacional: A ênfase exces-
o desenvolvimento econômico através da formação de mão de siva na eficiência, nos resultados e na padronização leva a um
obra especializada. processo educacional desumanizado, onde as individualidades
dos alunos são desconsideradas. O aluno é visto como uma peça
Características Principais de uma máquina produtiva, sem espaço para suas particularida-
A Pedagogia Tecnicista apresenta algumas características des emocionais, sociais ou culturais.
centrais que a distinguem de outras abordagens pedagógicas: – Redução da educação ao treinamento: Uma crítica fre-
– Educação como um processo técnico: A educação é tra- quente é que a pedagogia tecnicista reduz o papel da educação
tada de maneira similar ao processo produtivo industrial, com ao mero treinamento para o mercado de trabalho, deixando de
o objetivo de produzir resultados mensuráveis. As práticas pe- lado a formação integral do sujeito, que inclui aspectos éticos,
dagógicas são planejadas e executadas de acordo com métodos críticos e criativos.
científicos que visam a eficiência e a padronização. – Falta de flexibilidade: O planejamento rígido e padroniza-
– Uso de tecnologias educacionais: Uma das marcas do tec- do da pedagogia tecnicista muitas vezes não leva em considera-
nicismo é o uso de tecnologias e materiais didáticos padroniza- ção as necessidades e ritmos de aprendizagem dos alunos. Todos
dos para facilitar e otimizar o processo de ensino-aprendizagem. devem seguir o mesmo padrão, o que pode prejudicar aqueles
A ideia é que, assim como na indústria, o uso de ferramentas tec- que possuem dificuldades ou habilidades específicas.
nológicas permita aumentar a produtividade e o controle sobre – Subordinação da educação às demandas econômicas: Ou-
os resultados do ensino. tro ponto de crítica é que a pedagogia tecnicista tende a subor-
– Professor como técnico: O papel do professor no tecnicis- dinar a educação aos interesses econômicos, tratando-a como
mo é o de um executor de técnicas previamente estabelecidas. uma ferramenta para a formação de trabalhadores aptos a de-
Ele não é visto como um intelectual autônomo ou criador de prá- sempenhar funções produtivas, em vez de considerar a educa-
ticas pedagógicas, mas como alguém que deve aplicar de manei- ção como um direito universal voltado para o desenvolvimento
ra eficaz um planejamento previamente elaborado. Sua função é humano integral.
garantir que os objetivos educacionais sejam cumpridos.
– Foco em objetivos e resultados: A pedagogia tecnicista es- Contribuições e Limitações
tabelece objetivos educacionais claros e precisos, que devem ser Apesar das críticas, a Pedagogia Tecnicista trouxe algumas
atingidos ao final do processo de ensino. O sucesso do ensino é contribuições relevantes para o campo educacional. A ênfase
avaliado por meio de testes e exames padronizados que medem no planejamento sistemático e no uso de tecnologias educacio-
o quanto o aluno foi capaz de aprender. nais ajudou a organizar o ensino em contextos de grande escala,
– Treinamento para o mercado de trabalho: O principal foco como nas redes públicas de educação e nas escolas técnicas.
dessa pedagogia é preparar o aluno para desempenhar funções Contudo, suas limitações são evidentes, especialmente
no mercado de trabalho. Isso significa que o currículo é voltado quando se considera a complexidade da formação humana. A
para o desenvolvimento de habilidades técnicas e operacionais, educação contemporânea requer abordagens mais flexíveis e
deixando de lado aspectos mais amplos da formação humana. integradas, que considerem não apenas as demandas do mer-
cado de trabalho, mas também o desenvolvimento de cidadãos
Papel do Professor e do Aluno críticos e autônomos, capazes de lidar com os desafios de uma
Na Pedagogia Tecnicista, o professor assume o papel de téc- sociedade em constante transformação.
nico especialista, que deve seguir um planejamento rigoroso e A Pedagogia Tecnicista, ao enfatizar a padronização e a efici-
aplicar técnicas educacionais que garantam a eficiência do ensi- ência, reflete uma visão da educação como um processo técnico
no. Ele é responsável por orientar o aluno no cumprimento das voltado para a formação de mão de obra qualificada. Embora te-
tarefas e por garantir que os conteúdos sejam assimilados de ma- nha contribuído para a organização e sistematização do ensino
neira adequada, conforme o planejamento curricular. em muitos contextos, suas limitações na formação integral do
O aluno, por sua vez, é visto como um executor de tarefas. indivíduo e na valorização das subjetividades educacionais são
Sua função é seguir as instruções dadas pelo professor, realizan- amplamente criticadas.
do exercícios, atividades práticas e testes que comprovem o do- O desafio atual é buscar uma educação que concilie a técnica
mínio do conteúdo. O foco está no treinamento de habilidades com a humanidade, formando sujeitos críticos e preparados tan-
específicas que possam ser utilizadas em funções produtivas. to para o mercado de trabalho quanto para a vida em sociedade.

20
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

— Pedagogia Progressista – Diálogo entre professor e aluno: O processo de ensino-


A Pedagogia Progressista se destaca como uma corrente -aprendizagem é baseado no diálogo, onde professor e aluno
crítica da educação, focada no desenvolvimento de uma prática constroem o conhecimento de forma conjunta. Freire acreditava
pedagógica que não apenas ensina conteúdos, mas também pro- que o conhecimento não pode ser “dado”, mas deve ser cons-
move a transformação social. Sua principal referência teórica é o truído coletivamente, com base na realidade vivida pelos alunos.
educador brasileiro Paulo Freire, cujo pensamento revolucionou – Valorização do conhecimento prévio do aluno: A experi-
a forma como a educação é entendida, especialmente em con- ência e a cultura do aluno são elementos essenciais no processo
textos de desigualdade social. educativo. A Pedagogia Progressista reconhece a importância de
Freire propôs uma pedagogia que desafia as estruturas tradi- levar em consideração o saber que o aluno traz consigo e utiliza
cionais e defende uma educação voltada para a conscientização e esse saber como ponto de partida para o ensino.
a emancipação dos oprimidos. – Criticidade e problematização: O currículo progressista é
voltado para a problematização da realidade. O conteúdo a ser
Fundamentos e Objetivos ensinado deve estar relacionado com a vida dos alunos e com
A Pedagogia Progressista parte da premissa de que a educa- os problemas que eles enfrentam no cotidiano. A educação, por-
ção não pode ser neutra; ela sempre está inserida em um contex- tanto, é contextualizada e direcionada à solução de problemas
to político e social e, por isso, deve promover a consciência crítica sociais.
dos alunos em relação à realidade que os cerca. – Prática social e política da educação: A Pedagogia Pro-
O objetivo central dessa abordagem é que o aluno compre- gressista entende a educação como um ato político e como uma
enda sua posição no mundo e seja capaz de agir sobre ele, parti- prática social que pode contribuir para a transformação das es-
cipando ativamente na construção de uma sociedade mais justa truturas de poder. A sala de aula é vista como um espaço de cons-
e igualitária. cientização e de luta pela justiça social.

Os principais objetivos da pedagogia progressista incluem: Papel do Professor e do Aluno


– Conscientização: Desenvolver a capacidade crítica dos alu- Na Pedagogia Progressista, o papel do professor muda ra-
nos para que reflitam sobre sua própria realidade e entendam as dicalmente em relação às abordagens tradicionais. O professor
estruturas de opressão existentes. não é mais o “detentor do saber”, mas sim um mediador e facili-
– Emancipação: Promover a libertação intelectual e social tador do processo educativo. Ele deve criar condições para que o
dos alunos, transformando-os em sujeitos autônomos e ativos na aluno questione, reflita e participe ativamente da construção do
luta por uma sociedade mais equitativa. conhecimento.
– Transformação social: Usar a educação como um meio de O aluno, por sua vez, deixa de ser um sujeito passivo e as-
promover mudanças sociais, especialmente em contextos de de- sume o papel de protagonista no processo de aprendizagem.
sigualdade e opressão. Ele é visto como um sujeito crítico, capaz de refletir sobre sua
realidade e agir para transformá-la. O aluno contribui com sua
Influência de Paulo Freire própria experiência e cultura, que são valorizadas no processo
Paulo Freire é o principal expoente da Pedagogia Progressis- educacional.
ta, e suas ideias têm influência global. Sua obra mais conhecida,
Pedagogia do Oprimido, propõe uma prática pedagógica dialó- Principais Críticas
gica e libertadora. Para Freire, a educação tradicional, que ele Apesar de suas contribuições significativas, a Pedagogia Pro-
chama de ”educação bancária”, vê o aluno como um recipiente gressista também enfrenta algumas críticas, especialmente em
passivo no qual o professor deposita conhecimento. A Pedagogia relação à sua implementação prática:
Progressista, em contrapartida, propõe uma educação dialógica, – Dificuldade de aplicação em larga escala: Um dos prin-
em que o aluno é sujeito ativo no processo de construção do sa- cipais desafios da pedagogia progressista é sua implementação
ber. em sistemas educacionais massivos. A ênfase no diálogo e na
Freire defende que o processo educacional deve ser baseado personalização do ensino pode ser difícil de aplicar em salas de
no diálogo e na problem-posing education (educação problema- aula com muitos alunos ou em contextos onde a infraestrutura
tizadora), em que o aluno e o professor aprendem juntos, ques- educacional é precária.
tionando a realidade e construindo soluções para os problemas – Excesso de politização: Alguns críticos apontam que a pe-
do cotidiano. dagogia progressista pode politizar excessivamente a educação,
desviando o foco dos conteúdos acadêmicos para questões ide-
Características Principais ológicas. A ênfase na crítica social e na transformação política
A Pedagogia Progressista apresenta uma série de caracterís- pode, segundo esses críticos, prejudicar a transmissão de conhe-
ticas que a diferenciam de outras abordagens pedagógicas: cimentos mais técnicos ou científicos.
– Educação como prática libertadora: a pedagogia progres- – Desafio na formação de professores: A Pedagogia Pro-
sista propõe uma educação que visa a libertação do indivíduo, gressista exige professores altamente qualificados, capazes de
rompendo com a opressão social, política e cultural. O ensino é mediar o processo educativo de forma dialógica e crítica. A for-
visto como uma prática que transforma tanto o aluno quanto o mação desses profissionais é um grande desafio, especialmente
professor. em países com sistemas educacionais fragilizados.

21
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Contribuições e Limitações – Aprendizagem ativa: o aluno é visto como um protagonista


A Pedagogia Progressista trouxe contribuições profundas no processo de aprendizagem, sendo responsável por construir
para a educação, especialmente ao desafiar a visão tradicional seu próprio conhecimento por meio da interação com o ambien-
de ensino e ao propor uma abordagem mais crítica e transforma- te e a resolução de problemas. A aprendizagem ocorre através da
dora. A valorização do diálogo, da experiência do aluno e da edu- descoberta e da exploração ativa.
cação como um ato político ajudou a repensar o papel da escola – Interação com o meio: Para o construtivismo, o conheci-
em contextos de desigualdade e opressão. mento não é transmitido de forma passiva pelo professor, mas
Contudo, sua aplicação prática enfrenta desafios, especial- sim construído pelo aluno à medida que ele interage com o mun-
mente no que diz respeito à politização do ensino e à dificulda- do. Essas interações podem ser tanto físicas quanto sociais, en-
de de implementação em contextos educacionais amplos e com volvendo a manipulação de objetos, a realização de experimen-
poucos recursos. Mesmo assim, a pedagogia progressista conti- tos ou o diálogo com colegas e professores.
nua sendo uma referência central para educadores que buscam – Desenvolvimento cognitivo por estágios: Piaget propôs
uma educação mais humana, crítica e socialmente engajada. que o desenvolvimento cognitivo humano ocorre em estágios,
A Pedagogia Progressista, com sua base nas ideias de Paulo cada um com suas características específicas:
Freire, propõe uma educação centrada no diálogo, na conscien- - Sensório-motor (0-2 anos): A criança aprende através dos
tização e na transformação social. Ao desafiar a educação tra- sentidos e das ações.
dicional, essa abordagem coloca o aluno como protagonista do - Pré-operatório (2-7 anos): Surgem as primeiras representa-
processo de aprendizagem, capaz de refletir criticamente sobre ções simbólicas, mas o pensamento ainda é egocêntrico.
sua realidade e agir para transformá-la. - Operatório concreto (7-11 anos): A criança começa a pen-
Embora enfrente críticas e desafios práticos, a pedagogia sar logicamente sobre objetos concretos, mas tem dificuldade
progressista continua a influenciar profundamente as práticas com abstrações.
educacionais, especialmente em contextos de luta por equidade - Operatório formal (a partir dos 12 anos): Surge o pensa-
e justiça social. mento abstrato e hipotético-dedutivo.

— Pedagogia Construtivista – Professor como mediador: o papel do professor no cons-


A Pedagogia Construtivista baseia-se nos princípios do Cons- trutivismo é o de um mediador, alguém que facilita o processo
trutivismo, uma teoria educacional desenvolvida principalmente de aprendizagem ao criar situações e desafios adequados ao
por Jean Piaget, que entende a aprendizagem como um processo nível de desenvolvimento do aluno. O professor não transmite
ativo no qual o aluno constrói o conhecimento a partir de suas conhecimento pronto, mas estimula a curiosidade e a resolução
interações com o mundo. de problemas, oferecendo mediação e suporte para que o aluno
Ao contrário das abordagens tradicionais, que veem o aluno avance em sua compreensão.
como um receptor passivo de informações, o construtivismo con- – Ambientes de aprendizagem desafiadores: O ambiente de
sidera o estudante como um agente ativo no processo de cons- aprendizagem no construtivismo é estruturado para ser desafia-
trução do conhecimento. dor, mas também acessível ao aluno. A ideia é que o aluno deve
enfrentar problemas e situações que exijam esforço cognitivo,
Fundamentos Teóricos sem que o desafio seja tão grande a ponto de desmotivá-lo.
O construtivismo está enraizado na psicologia do desenvolvi-
mento proposta por Piaget, que estudou o modo como as crian- Papel do Professor e do Aluno
ças constroem o conhecimento à medida que interagem com Na Pedagogia Construtivista, o papel do professor é funda-
o ambiente. De acordo com Piaget, a aprendizagem ocorre por mentalmente diferente de outras abordagens mais tradicionais.
meio de dois processos principais: Ele é um facilitador e orientador, cuja principal função é criar um
– Assimilação: o indivíduo integra novas informações às es- ambiente que favoreça a construção ativa do conhecimento pelo
truturas cognitivas já existentes. Por exemplo, uma criança que já aluno. O professor propõe desafios, faz perguntas, orienta as in-
conhece o conceito de “pássaro” pode assimilar novas informa- vestigações, mas não oferece respostas prontas.
ções ao ver diferentes tipos de aves. O aluno, por sua vez, é visto como um explorador que, ao in-
– Acomodação: ocorre quando o indivíduo ajusta suas es- teragir com o mundo, constrói seu próprio saber. Ele deve ser ati-
truturas cognitivas para incorporar novas informações. Quando vo, curioso e engajado no processo de resolução de problemas. O
uma criança descobre que nem todos os animais que voam são aprendizado ocorre quando o aluno se depara com situações que
pássaros, ela acomoda essa nova informação e ajusta seu enten- exigem que ele reorganize suas estruturas cognitivas para aco-
dimento. modar novas informações, avançando em seu desenvolvimento
Esses processos são parte do que Piaget chama de equili- intelectual.
bração, um mecanismo interno que busca o equilíbrio entre a
assimilação e a acomodação, garantindo o desenvolvimento cog- Principais Críticas
nitivo. Embora o construtivismo tenha trazido contribuições va-
liosas para a pedagogia, ele também é alvo de algumas críticas,
Características Principais principalmente em relação à sua implementação prática:
A Pedagogia Construtivista apresenta uma série de caracte- – Falta de estrutura e clareza no currículo: uma das princi-
rísticas que a distinguem de outras abordagens pedagógicas: pais críticas é que o construtivismo pode, em alguns casos, re-
sultar em uma falta de estrutura curricular clara. Como o foco

22
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

está na construção do conhecimento pelo aluno, pode haver uma Essa perspectiva ressalta o papel das interações humanas,
tendência de se negligenciar a organização sistemática dos con- da linguagem e da mediação no processo de aprendizagem.
teúdos, o que pode gerar lacunas na aprendizagem.
– Excesso de autonomia para o aluno: Outro ponto critica- Fundamentos Teóricos
do é o fato de que, em algumas interpretações mais radicais do A Pedagogia Sociointeracionista tem como base os estudos
construtivismo, pode-se delegar muita autonomia ao aluno, o de Vygotsky, que considerava a aprendizagem e o desenvolvi-
que pode não ser adequado em todas as fases do desenvolvi- mento como processos interdependentes. Para ele, a aprendiza-
mento cognitivo. Alguns alunos podem precisar de mais direcio- gem não ocorre de forma isolada, mas é um fenômeno social,
namento e ensino explícito em determinados momentos. mediado pelas interações com outras pessoas e com o ambiente.
– Dificuldade na avaliação do progresso: Avaliar o progres- Entre os principais conceitos teóricos dessa abordagem estão:
so do aluno em um ambiente construtivista pode ser desafiador. – Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP): Esse é um dos
Testes padronizados muitas vezes não refletem com precisão o conceitos mais importantes de Vygotsky. A ZDP se refere à distân-
desenvolvimento cognitivo e a capacidade de resolução de pro- cia entre o que o aluno pode fazer sozinho e o que ele pode fazer
blemas, o que pode dificultar a medição do aprendizado. com a ajuda de um adulto ou de um colega mais experiente. A
– Aplicabilidade em contextos com poucos recursos: Em aprendizagem ocorre dentro dessa zona, à medida que o aluno é
contextos educacionais com menos recursos, a implementação desafiado a realizar tarefas que ainda não domina completamen-
do construtivismo pode ser difícil. A criação de ambientes de- te, mas que pode realizar com apoio.
safiadores e interativos exige tempo, materiais didáticos ade- – Mediação: No sociointeracionismo, o conhecimento é
quados e formação especializada dos professores, o que nem construído através de um processo mediado, no qual o professor,
sempre está disponível em escolas públicas de regiões menos colegas e outros agentes atuam como mediadores que ajudam
favorecidas. o aluno a avançar em seu desenvolvimento. A linguagem é uma
das principais ferramentas de mediação, permitindo que o aluno
Contribuições e Limitações organize seus pensamentos, internalize conceitos e resolva pro-
A Pedagogia Construtivista trouxe avanços significativos para blemas.
a educação ao propor uma visão mais dinâmica e ativa da apren- – Interação social: Para Vygotsky, a interação social é essen-
dizagem. Entre suas principais contribuições estão: cial para o desenvolvimento cognitivo. O indivíduo aprende ao
- O respeito ao desenvolvimento cognitivo do aluno, com o interagir com outras pessoas, principalmente em contextos de
reconhecimento de que o aprendizado ocorre de maneira gradu- cooperação e diálogo. As experiências sociais contribuem para
al e processual. que o aluno internalize o conhecimento culturalmente elaborado
- A valorização do aprendizado por descoberta, que incenti- e o transforme em conceitos próprios.
va a curiosidade e o pensamento crítico. – Cultura e aprendizagem: A aprendizagem é profunda-
- O foco na autonomia do aluno, que contribui para a forma- mente influenciada pela cultura em que o aluno está inserido.
ção de sujeitos mais independentes e reflexivos. Os conhecimentos e as habilidades valorizados pela sociedade
são transmitidos através da interação social e, assim, moldam o
Por outro lado, sua implementação exige um planejamento desenvolvimento cognitivo.
cuidadoso e uma formação docente adequada, para que o pro-
cesso educativo não se torne desorganizado ou sem direção cla- Características Principais
ra. Além disso, o construtivismo deve ser adaptado ao contexto e A Pedagogia Sociointeracionista apresenta uma série de
às necessidades dos alunos, sem ignorar a importância de méto- características que refletem sua ênfase nas interações sociais e
dos de ensino mais estruturados em certas fases do aprendizado. culturais:
A Pedagogia Construtivista, fundamentada nas ideias de – Aprendizagem como processo social: A construção do
Jean Piaget, valoriza a construção ativa do conhecimento pelo conhecimento é vista como um processo essencialmente social.
aluno, colocando-o no centro do processo educacional. Ao enfa- O aluno não aprende sozinho, mas em colaboração com outras
tizar a interação com o meio e o desenvolvimento cognitivo por pessoas, seja através de interações com o professor, com colegas
estágios, o construtivismo busca promover uma aprendizagem ou com membros da comunidade.
significativa, onde o estudante constrói seu saber de forma au- – Professor como mediador: O papel do professor é fun-
tônoma. damental na pedagogia sociointeracionista. Ele atua como um
No entanto, sua aplicação requer cuidado, planejamento e mediador, auxiliando o aluno a alcançar novos níveis de compre-
uma compreensão profunda do desenvolvimento infantil, além ensão. O professor deve propor desafios adequados à Zona de
de atenção às críticas sobre a falta de estrutura em alguns con- Desenvolvimento Proximal e oferecer o suporte necessário para
textos. que o aluno avance em sua aprendizagem.
– Aprendizagem colaborativa: A pedagogia sociointeracio-
— Pedagogia Sociointeracionista nista valoriza o trabalho em grupo e a aprendizagem colabora-
A Pedagogia Sociointeracionista é baseada nas ideias do psi- tiva, onde os alunos trocam ideias, discutem e resolvem proble-
cólogo russo Lev Vygotsky e propõe que o conhecimento é cons- mas juntos. A interação entre colegas com diferentes níveis de
truído a partir das interações sociais e culturais. Ao contrário de conhecimento é vista como uma oportunidade de aprendizagem,
abordagens que enfatizam a aprendizagem como um processo uma vez que os alunos mais experientes podem atuar como me-
individual, o sociointeracionismo entende que o desenvolvimen- diadores para os que estão em fase inicial de compreensão.
to cognitivo do indivíduo está profundamente relacionado às re-
lações sociais e ao contexto cultural em que está inserido.

23
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

– Valorização da linguagem: A linguagem desempenha um – Reconhecimento do papel da interação social: A peda-


papel central no processo de mediação e no desenvolvimento gogia sociointeracionista ajudou a estabelecer a ideia de que o
cognitivo. Vygotsky acreditava que o pensamento se desenvolve desenvolvimento cognitivo é inseparável das relações sociais. O
a partir da linguagem, e a aprendizagem ocorre através do di- conhecimento é construído por meio do diálogo e da colabora-
álogo e da comunicação. O professor deve incentivar o uso da ção, em vez de ser simplesmente transmitido de forma unilateral.
linguagem como ferramenta para organizar o pensamento e – Valorização da mediação pedagógica: A ênfase no papel
compartilhar ideias. mediador do professor trouxe uma nova perspectiva para a práti-
– Contextualização do conhecimento: O ensino é contextu- ca docente, onde o professor deixa de ser apenas um transmissor
alizado e deve estar conectado à realidade do aluno. A aprendi- de conhecimento e passa a ser um facilitador do aprendizado.
zagem acontece quando o conteúdo é relevante para o contexto – Promoção da aprendizagem colaborativa: O incentivo à
social e cultural do estudante, permitindo que ele se aproprie colaboração e ao diálogo entre os alunos enriquece o processo
dos saberes de forma significativa. de aprendizagem e desenvolve habilidades sociais importantes,
como a capacidade de trabalhar em equipe, comunicar-se eficaz-
Papel do Professor e do Aluno mente e resolver problemas de forma cooperativa.
Na Pedagogia Sociointeracionista, o professor e o aluno têm Por outro lado, sua implementação pode ser desafiadora em
papéis interativos e complementares. O professor é visto como contextos educacionais que carecem de recursos e de formação
um facilitador do processo de aprendizagem, sendo responsável adequada dos professores. Além disso, a necessidade de intera-
por criar situações em que o aluno possa avançar na Zona de ção constante e a dependência da mediação social podem não
Desenvolvimento Proximal. Ele deve identificar os momentos em ser adequadas a todos os alunos ou contextos educacionais.
que o aluno precisa de suporte e fornecer as orientações neces- A Pedagogia Sociointeracionista, fundamentada nas ideias
sárias para que este realize tarefas que, sozinho, não conseguiria. de Vygotsky, destaca a importância das interações sociais, da me-
Ao mesmo tempo, o professor deve gradualmente reduzir essa diação e da linguagem no processo de aprendizagem. Ao colocar
ajuda, para que o aluno ganhe autonomia. o aluno em um contexto social ativo e colaborativo, essa aborda-
O aluno, por sua vez, é um participante ativo no processo de gem promove o desenvolvimento cognitivo por meio da troca de
aprendizagem, sendo incentivado a interagir com seus colegas e experiências e do diálogo.
a compartilhar seus conhecimentos e dúvidas. Essa participação No entanto, sua aplicação prática requer professores capaci-
ativa permite que o aluno desenvolva suas capacidades cogniti- tados e um ambiente propício para a mediação constante, além
vas de forma colaborativa, aprendendo tanto com o professor de uma atenção às necessidades individuais dos alunos.
quanto com os colegas.
— Comparação e Reflexão Crítica
Principais Críticas As cinco principais teorias pedagógicas – Tradicional, Tecni-
Embora a Pedagogia Sociointeracionista tenha se tornado cista, Progressista, Construtivista e Sociointeracionista – ofere-
uma referência importante na educação, ela também enfrenta cem diferentes perspectivas sobre o processo de ensino-aprendi-
algumas críticas, especialmente em relação à sua implementação zagem, cada uma com seus pontos fortes e limitações.
prática: Compreender as diferenças e semelhanças entre essas abor-
– Dependência da mediação social: Uma crítica frequente dagens é essencial para refletir sobre as práticas educacionais
ao sociointeracionismo é que ele pode criar uma dependência contemporâneas e suas implicações na formação dos indivíduos.
excessiva das interações sociais e da mediação constante do pro-
fessor. Em contextos em que o apoio mediado é limitado, como Visão de Ensino e Aprendizagem
salas de aula com muitos alunos, pode ser difícil aplicar essa – Pedagogia Tradicional: Baseia-se na transmissão direta do
abordagem de maneira eficaz. conhecimento. O professor é a autoridade e o aluno um receptor
– Desigualdade nas interações: Outro ponto de crítica é que passivo, que deve memorizar e reproduzir o conteúdo. O foco
a pedagogia sociointeracionista pode amplificar as diferenças de está no conteúdo disciplinar e na formação de cidadãos obedien-
aprendizagem entre alunos. Como a abordagem depende das in- tes e preparados para seguir normas estabelecidas.
terações entre colegas, alunos mais tímidos ou com dificuldades – Pedagogia Tecnicista: Também enfatiza a transmissão de
de comunicação podem participar menos, limitando seu desen- conhecimento, mas sob uma lógica mais tecnológica e eficiente.
volvimento. O ensino é padronizado, com foco na formação de competências
– Dificuldade em contextos individualizados: Em algumas específicas para o mercado de trabalho. O aluno deve executar
situações, o foco na interação social pode não atender às neces- tarefas de forma produtiva, seguindo as instruções do professor,
sidades de alunos que preferem ou necessitam de um aprendi- que atua como um técnico.
zado mais individualizado. Há contextos onde a mediação direta – Pedagogia Progressista: Apresenta uma ruptura com essas
com o professor é mais eficaz do que o trabalho em grupo. abordagens mais tradicionais ao propor uma educação centra-
da na emancipação do aluno. A aprendizagem é vista como um
Contribuições e Limitações processo de transformação social, onde o aluno é incentivado a
A Pedagogia Sociointeracionista trouxe importantes contri- desenvolver uma consciência crítica de sua realidade e agir para
buições para a educação, especialmente no que diz respeito à modificá-la.
compreensão de que o aprendizado é um processo social e cola- – Pedagogia Construtivista: A aprendizagem é compreendi-
borativo. Entre suas principais contribuições estão: da como um processo de construção ativa do conhecimento. O
aluno não recebe informações passivamente, mas constrói seu

24
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

saber a partir de interações com o meio e da resolução de pro- – Tecnicista:


blemas. O professor é um mediador, que estimula o desenvolvi- – Vantagens: Foco na eficiência e objetividade; preparação
mento cognitivo do aluno. técnica para o mercado de trabalho.
– Pedagogia Sociointeracionista: Similar ao construtivismo, – Desvantagens: Desumanização do processo educativo; vi-
vê o conhecimento como algo construído pelo aluno, mas com são restrita da educação como treinamento técnico.
ênfase na interação social. A aprendizagem acontece por meio da
mediação e das trocas sociais, sendo a colaboração entre pares e – Progressista:
o papel do professor fundamentais. – Vantagens: Promove a conscientização crítica; valoriza a
cultura e a experiência do aluno; educação voltada para a trans-
Papel do Professor e do Aluno formação social.
– Tradicional: O professor é o detentor do conhecimento e – Desvantagens: Pode ser de difícil aplicação em sistemas
autoridade máxima. O aluno é passivo, responsável por receber educacionais massivos; risco de politização excessiva do ensino.
e memorizar informações.
– Tecnicista: O professor é um técnico executor, que aplica – Construtivista:
métodos científicos e padronizados. O aluno é um executor de – Vantagens: Estimula o aprendizado ativo; promove a auto-
tarefas, cujo progresso é medido por resultados práticos e ob- nomia e o desenvolvimento cognitivo do aluno.
jetivos. – Desvantagens: Falta de estrutura curricular clara em al-
– Progressista: O professor é um facilitador do diálogo, pro- guns contextos; dificuldade em atender às necessidades de todos
movendo a participação ativa dos alunos. O aluno é um sujeito os alunos.
crítico que contribui para o processo de aprendizagem, desenvol-
vendo sua capacidade de análise e intervenção no mundo. – Sociointeracionista:
– Construtivista: O professor age como mediador, organizan- – Vantagens: Valoriza o papel da interação social na aprendi-
do situações de aprendizagem que desafiem o aluno. O aluno é o zagem; promove a cooperação e o trabalho em grupo.
protagonista da aprendizagem, construindo seu próprio conheci- – Desvantagens: Dificuldade de implementação em turmas
mento ao interagir com o ambiente. grandes ou com poucos recursos; depende da mediação constan-
– Sociointeracionista: O professor é um mediador ativo, au- te do professor.
xiliando o aluno a avançar na Zona de Desenvolvimento Proximal
(ZDP). O aluno é um participante ativo no processo de aprendi- Reflexão Crítica: Aplicabilidade no Ensino Contemporâneo
zagem, construindo conhecimento através de interações sociais. As teorias pedagógicas apresentadas oferecem uma rica va-
riedade de abordagens que podem ser complementares na edu-
Objetivos Educacionais cação contemporânea. No entanto, sua aplicabilidade depende
– Tradicional: O objetivo é transmitir o conhecimento acu- do contexto educacional, dos recursos disponíveis e dos objeti-
mulado pela humanidade e formar indivíduos disciplinados e vos formativos.
obedientes. - Pedagogia Tradicional ainda é amplamente utilizada em
– Tecnicista: A ênfase está na formação técnica e prática, sistemas educacionais que priorizam a transmissão sistemática
com o objetivo de preparar o aluno para ser eficiente no merca- de conteúdos e a formação de habilidades básicas. Sua estrutura
do de trabalho. O foco está em habilidades específicas, objetivas clara é útil em contextos de grande escala, mas pode ser limitan-
e mensuráveis. te diante das demandas contemporâneas por pensamento crítico
– Progressista: O objetivo é a emancipação e a conscientiza- e criatividade.
ção crítica do aluno. A educação deve ser um meio de transfor- - Pedagogia Tecnicista se destaca em contextos de formação
mar a sociedade, capacitando o aluno a lutar contra as desigual- técnica e na preparação de mão de obra qualificada, mas pode
dades e opressões. ser criticada por sua visão reducionista da educação, ignoran-
– Construtivista: O objetivo é desenvolver a capacidade cog- do aspectos formativos mais amplos, como o desenvolvimento
nitiva do aluno, respeitando seu ritmo e incentivando a desco- emocional e social.
berta e a resolução de problemas. A educação busca formar pen- - Pedagogia Progressista, com sua proposta de educação
sadores autônomos, capazes de lidar com situações complexas. libertadora, é particularmente relevante em contextos de desi-
– Sociointeracionista: O objetivo é promover o desenvol- gualdade social, mas sua aplicação pode ser complexa em am-
vimento cognitivo e social do aluno, enfatizando a importância bientes educacionais com recursos limitados ou com grande nú-
da colaboração e do aprendizado mediado pela interação com o mero de alunos.
outro. A educação deve formar indivíduos capazes de interagir e - Pedagogia Construtivista e Sociointeracionista respondem
contribuir com a sociedade de forma significativa. bem às necessidades contemporâneas de formar alunos autô-
nomos, criativos e capazes de trabalhar em equipe. No entanto,
Vantagens e Desvantagens essas abordagens requerem um alto grau de preparação dos pro-
fessores e uma infraestrutura que nem sempre está disponível
– Tradicional: em todas as escolas.
– Vantagens: Clareza na transmissão de conteúdos; organi- Cada uma das teorias pedagógicas traz contribuições signi-
zação disciplinar; controle da sala de aula. ficativas para a educação e pode ser aplicada de acordo com as
– Desvantagens: Passividade do aluno; pouca ênfase no pen- necessidades e os contextos específicos. No cenário educacional
samento crítico e na criatividade. contemporâneo, há uma tendência crescente de integrar dife-
rentes abordagens, utilizando o que cada uma tem de melhor.

25
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Enquanto o mundo se torna mais complexo e interconecta- Princípios Básicos da Didática


do, a educação precisa se adaptar, combinando a disciplina e o Entre os principais princípios que regem a didática, desta-
rigor da Pedagogia Tradicional, a eficiência técnica da Tecnicista, cam-se:
o pensamento crítico da Progressista, e o protagonismo ativo e • Intencionalidade: todo ato educativo deve ter um objetivo
a interação social promovidos pelo Construtivismo e Sociointe- claro;
racionismo. • Interação: a aprendizagem é social, ocorre na interação en-
tre professor, aluno e conteúdo;
• Contextualização: o conhecimento deve fazer sentido na
VI - DIDÁTICA E METODOLOGIAS DE ENSINO realidade do aluno;
• Integração: os conteúdos devem estar articulados entre si;
A educação contemporânea vive um período de intensas • Flexibilidade: o ensino deve adaptar-se às necessidades e
transformações, impulsionadas por mudanças sociais, avanços ritmos dos aprendizes.
tecnológicos e novas demandas do mercado de trabalho e da
cidadania. Nesse contexto, a didática assume um papel central A Relação entre Didática e Prática Pedagógica
como campo do saber que se ocupa do estudo dos métodos e A prática pedagógica é a concretização dos pressupostos di-
técnicas de ensino. Mais do que um conjunto de estratégias ins- dáticos no cotidiano escolar. Não há prática eficaz sem teoria, e a
trucionais, a didática é compreendida como uma mediação entre didática oferece os instrumentos para que o professor reflita cri-
o conhecimento sistematizado e o processo de aprendizagem ticamente sobre sua ação e faça intervenções conscientes. Por-
dos sujeitos. tanto, a didática deve ser vista como um campo de conhecimen-
A prática docente deixou de ser apenas um repasse de con- to que se traduz na ação docente intencional, ética e reflexiva.
teúdos e passou a demandar planejamento, sensibilidade peda-
gógica, domínio de métodos e constante reflexão sobre os pró- Metodologias de Ensino Tradicionais e Ativas: Um Panora-
prios atos educativos. Por isso, compreender os fundamentos da ma Comparativo
didática e as diferentes metodologias de ensino torna-se essen- Ensino Tradicional: Características e Limitações
cial para todo educador que deseja atuar de forma eficaz, crítica O modelo tradicional de ensino é centrado no professor, que
e transformadora. detém o saber e transmite o conteúdo aos alunos de forma expo-
Além disso, o movimento de renovação pedagógica, inicia- sitiva. As aulas são estruturadas em torno do livro didático e do
do no século XX e intensificado no século XXI, traz à tona me- quadro, e o aluno é visto como receptor passivo da informação.
todologias mais ativas, centradas no aluno, como alternativa ao Embora ainda amplamente utilizado, esse modelo apresenta li-
modelo tradicional centrado na figura do professor. Com isso, o mitações:
papel do educador passa a ser o de um mediador que promove • Pouca autonomia para o aluno;
aprendizagens significativas, respeitando os ritmos, contextos e • Baixa participação ativa no processo de aprendizagem;
necessidades de seus alunos. • Ênfase excessiva na memorização e repetição;
Fundamentos da Didática: Conceitos, Objetivos e Princípios • Distanciamento entre o conteúdo e a realidade do estu-
O que é Didática? dante.
A didática é o ramo da pedagogia que se ocupa da organiza-
ção e orientação do processo de ensino. Tradicionalmente, ela é Metodologias Ativas: Fundamentos e Exemplos
definida como a ciência que estuda os métodos e técnicas que As metodologias ativas colocam o aluno no centro do pro-
viabilizam a aprendizagem. Sua função é tornar o conhecimento cesso de ensino-aprendizagem. O professor atua como orienta-
acessível ao aluno, respeitando suas características individuais, dor e facilitador da construção do conhecimento. Entre as meto-
sociais e culturais. Nesse sentido, a didática é essencialmente dologias ativas mais conhecidas, destacam-se:
prática, mas com um fundamento teórico que orienta sua apli-
cação. Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL)
Nessa abordagem, os alunos enfrentam problemas reais ou
Objetivos da Didática na Formação Docente simulados, que exigem pesquisa, debate e tomada de decisão.
Os principais objetivos da didática são: Essa metodologia estimula a autonomia, o pensamento crítico e
• Planejar o processo de ensino de forma intencional e sis- a interdisciplinaridade.
temática;
• Escolher metodologias coerentes com os objetivos educa- Ensino Híbrido e Sala de Aula Invertida
cionais; O ensino híbrido combina momentos presenciais e remo-
• Garantir a mediação entre o saber e o aprendiz; tos, integrando tecnologias digitais e atividades colaborativas. Já
• Desenvolver práticas pedagógicas adequadas ao contexto na sala de aula invertida, o conteúdo é estudado em casa e os
social e institucional; encontros presenciais são usados para debates e resolução de
• Avaliar de forma contínua e diagnóstica o processo de problemas.
aprendizagem.
Gamificação e Aprendizagem Colaborativa
A gamificação usa elementos de jogos (recompensas, níveis,
desafios) para motivar e engajar os alunos. Já a aprendizagem
colaborativa valoriza o trabalho em grupo, a troca de ideias e a
construção coletiva do conhecimento.

26
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Planejamento e Avaliação no Contexto Didático A concepção mais usual nos estudos brasileiros sobre a edu-
Planejamento de Ensino: Etapas e Estratégias cação é defendida por Silva, Saviani, Gimeno Sacristán e Libâneo.
O planejamento didático envolve: Para esses estudiosos, existem três grupos de teorias curriculares
• Diagnóstico da turma: entender o perfil dos alunos; das quais derivam todas as demais: teorias tradicionais, críticas
• Definição de objetivos: o que se espera que o aluno apren- e pós-críticas.
da; Essas teorias procuram explicar as concepções de currículo
• Escolha de conteúdos: pertinentes e significativos; que influenciam a formação da sociedade. Vejamos:
• Seleção de estratégias metodológicas: adequadas ao con-
teúdo e ao público; — Teoria tradicional
• Organização de recursos: materiais, espaços, tecnologias; Esta teoria foi a primeira a dominar o Ocidente e parte de
• Avaliação contínua: verificar e reorientar o processo. um currículo científico, objetivo e hipoteticamente neutro. Seu
Avaliação da Aprendizagem: Diagnóstica, Formativa e Soma- conteúdo comporta a cultura geral de maneira descontextuali-
tiva zada e mecânica, fragmentada em disciplinas apartadas entre si.
• Diagnóstica: identifica o ponto de partida do aluno; Sua organização é rígida e metódica, para formar os futuros
• Formativa: acompanha o processo e orienta intervenções; cidadãos como trabalhadores especializados e eficientes. Para
• Somativa: verifica os resultados ao final de um ciclo. isso, planeja e elabora mecanismos de avaliação e mensuração
A avaliação deve ser processual, inclusiva e voltada à melho- precisos e comparativos.
ria do ensino, não apenas classificatória. O aprendizado é mensurado por meio de avaliações que exi-
gem dos alunos a capacidade de reprodução sobre o que lhes foi
Feedback e Autorregulação da Aprendizagem ensinado, e o professor é centro da autoridade e do saber, o ato
O feedback oportuno e construtivo é fundamental para que do ensino é a prioridade. Essa teoria do currículo pretende ser
os alunos reconheçam seus avanços e dificuldades. Estimular neutra porque não questiona os problemas e as desigualdades
a autorregulação significa ensinar os alunos a planejarem seus que o sistema econômico capitalista promove na sociedade.
estudos, monitorarem seu desempenho e ajustarem estratégias Como ponto positivo, fruto de seu contexto histórico, foi o
conforme necessário. movimento responsável por promover a escola pública, univer-
sal, laica, gratuita e obrigatória para todos. São escolas nas quais
Desafios Contemporâneos e Tendências na Didática essa teoria está presente:
O Papel das Tecnologias Digitais na Mediação Pedagógica
As tecnologias educacionais ampliaram o acesso ao conhe- – Escola tradicional: tem como base o conteúdo humanista
cimento e diversificaram os modos de ensinar. Plataformas virtu- formado pelas clássicas obras literárias e artísticas gregas e lati-
ais, recursos interativos e inteligência artificial oferecem novas nas, chamadas de cultura geral. Considera-os como conteúdos
possibilidades, mas exigem do professor habilidades digitais e importantes por si mesmos e imprescindíveis para o desenvolvi-
pensamento crítico. mento intelectual dos alunos.
Esses conteúdos são ensinados pelos professores, depois
Ensino Remoto, Híbrido e o Futuro da Educação aprendidos/memorizados e reproduzidos sem questionamentos
A pandemia de COVID-19 acelerou o uso do ensino remoto pelos alunos.
e mostrou que o futuro da educação será híbrido, combinando
experiências presenciais e digitais. A didática precisa se adaptar a – Escola nova: critica o modelo clássico humanista que pre-
essa nova realidade, oferecendo formas inovadoras de mediação valecia. Utiliza o método de ensino reflexivo e experimental, no
e avaliação. qual as crianças vão à escola para cozinhar, costurar, trabalhar a
madeira e, assim, descobrir e aprender de maneira indireta os
Inclusão, Equidade e Didática Antirracista conhecimentos necessários para a vida social adulta.
A didática contemporânea precisa ser inclusiva, equitativa e Entretanto, não propõe análise sobre o sistema econômico
antirracista. Isso significa considerar as diferentes origens, condi- e sobre como as oportunidades de experimentação e os recur-
ções e trajetórias dos alunos, garantindo acesso, permanência e sos podem ser muito diferentes para cada aluno dependendo da
sucesso na aprendizagem. A formação docente deve incluir dis- classe social à qual ele pertença.
cussões sobre diversidade, preconceitos e justiça social. – Escola tecnicista: voltada para a formação técnica e cien-
tífica, considerando valores essenciais para o desenvolvimento
da sociedade capitalista. Seu objetivo é a preparação para a vida
VII - TEORIAS E PRÁTICAS DE CURRÍCULO profissional e, por isso, preconiza que a escola funcione como
uma fábrica, especificando claramente sua organização, suas me-
Diferentes autores formaram linhas distintas de classifica- tas e seus planos para avaliação e mensuração de resultados.
ção do currículo de acordo com sua pesquisa e entendimento. Divide o conhecimento em blocos que funcionam uns como
Portanto, se encontrará diversas possibilidades para classificar o pré-requisitos de outros. Os alunos podem avançar se alcança-
currículo quanto a ideologia, concepção, teoria e tipo1. rem a pontuação satisfatória nas avaliações. Cabe ao professor
dominar técnicas, métodos e estratégias para transmitir o con-
teúdo aos alunos, que serão treinados sistematicamente para
1 Currículo e desafios contemporâneos [recurso eletrônico] / Pablo aprendê-lo.
Bes. [Et al.]; revisão técnica: Rosemary Trabold Nicacio. – Porto
Alegre: SAGAH, 2020.

27
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

— Teoria crítica – Pedagogia histórico-crítica ou crítico-social: propõe um


Elabora várias críticas às teorias anteriores, mas não propõe currículo que favoreça o entendimento sobre a cultura univer-
ações que promovam uma reorganização educacional para o su- sal, criado e incorporado pela humanidade ao longo do tempo.
cesso escolar. Proclama que o currículo não é neutro, já que toda Entretanto, preocupa-se que esse conteúdo seja apresentado,
teoria está baseada em relações de poder econômico e cultural. contextualizado e debatido, de maneira a propiciar a autonomia
Esse poder está inculcado na escolha dos temas, tempos e e a liberdade das classes dominadas e oprimidas.
lugares para a educação formal, que acabam reproduzindo as O conhecimento científico deve ser trabalhado criticamente,
desigualdades sistema capitalista. A teoria crítica possui bases de modo que os alunos compreendam como esse conhecimento
sociológicas, filosóficas e antropológicas, com destaque para as é produzido, como organiza a sociedade e a quem interessa. Des-
ideias marxistas. tacam-se também os debates sobre o currículo oculto, manifes-
A partir dessas ideias, o currículo foi entendido como um es- tado pelas relações sociais na escola, em que o poder é hierarqui-
paço de poder, um meio pelo qual a ideologia dominante é repro- camente concretizado entre professor--aluno, entre disciplinas e
duzida ou refutada, promovendo a subserviência ou a autonomia entre séries escolares.
e liberdade dos cidadãos. São proposições nas quais a ideologia
dessa teoria está presente: — Teoria pós-crítica
Para esta teoria, a subjetividade dos estudantes e dos pro-
– Sistema de ensino como violência simbólica: percebe a fessores é predominante e, portanto, seu foco está nos sujeitos
educação como um instrumento de discriminação social, na me- e nas diferenças. Para isso, engloba estudos de diferentes áreas
dida em que reforça e legitima a marginalização de um tipo de do saber, como os culturais, filosóficos, antropologia, de gênero,
cultural e alguns grupos sociais. Um exemplo dessa marginaliza- entre outros, para explicar o que o sujeito é e poderá ser.
ção está no fato de o Estado priorizar historicamente o ensino Nessa teoria, as ideias fixas e absolutas não têm espaço
primário e profissionalizante para as classes trabalhadoras e o porque partem do pressuposto de que as relações humanas as
ensino secundário e superior para as classes mais abastadas. modificam a cada instante. Por isso, não representa uma teoria
Esse sistema coloca em debate o conceito de “violência sim- concisa e unificada, mas um conjunto de várias perspectivas so-
bólica”, no qual os grupos de classes dominantes controlam a cul- bre diversos campos do saber.
tura considerada legítima e valorizada pela escola. Esse conjunto Essa teoria debate as relações de gênero, raça, etnia, orien-
de conteúdos é chamado de “capital cultural”. Apesar das críticas tação religiosa e as desigualdades de classes sociais, apresen-
aos sistemas educacionais da época, não oferece sugestões de tando um currículo multiculturalista no qual se destaca a di-
como transformar essa realidade e, por isso, é classificada por versidade das formas culturais do mundo contemporâneo. O
alguns autores como crítico-reprodutivista. multiculturalismo não pode ser separado das relações de poder,
pois é uma reivindicação dos grupos culturais minoritários que
– Escola como aparelho ideológico do Estado: destaca que são obrigados as viver em um mesmo espaço e tempo com di-
algumas instituições sociais auxiliam o Estado a manter a classe ferentes culturas, raças, etnias e nacionalidades, representando
trabalhadora sob pressão e controle por meio de regras e valo- um importante instrumento de luta política.
res diferentes daqueles que a classe dominante precisa seguir. O currículo deve promover nos alunos a compreensão de
Por isso, entende essas instituições como aparelho repressivo do que o significado das coisas está nas relações de poder que lhe
Estado (a polícia, os tribunais e as prisões) e como aparelhos ide- conferem valores positivos ou negativos, e não nas coisas em si.
ológicos do Estado (a igreja, a mídia e a escola). Abaixo, o Quadro 1 apresenta os principais termos veiculados pe-
Essa corrente ideológica também faz suas críticas à situação las teorias curriculares.
da escola, mas não apresenta sugestões para mudanças efetivas
ao sistema educacional, sendo também considerada uma teoria
crítico-reprodutivista.

– Pedagogia libertária: com origem no movimento anarquis-


ta moderno, faz oposição a qualquer forma de governo que le-
vante a bandeira da liberdade e igualdade para todos, partindo
do pressuposto de que o povo deve autogerir-se a partir de suas
próprias vontades e necessidades. Propõe uma nova organização
social, em que a prática educativa fica identificada como prática
social de formação do novo homem, preparado para a autoges-
tão.

– Pedagogia libertadora: procede dos estudos de Paulo Frei-


re a partir da análise das condições marginalizantes da sociedade Currículo e desafios contemporâneos [recurso eletrônico] /
brasileira e da alienação produzida por ela. Descreve e critica o Pablo Bes. [Et al.]; revisão técnica: Rosemary Trabold Nicacio. –
modo de educação bancária e propõe a conscientização crítica Porto Alegre: SAGAH, 2020.
da população pobre por meio da interpretação dos problemas
sociais que a cercam e consomem. Obviamente, nenhuma dessas teorias é infalível, exatamen-
te pela própria simplificação que cada uma tende a usar para ex-
plicar as relações humanas. Fazendo a leitura sobre essas teorias

28
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

com o conhecimento que temos atualmente, é possível perceber panhamento. O principal instrumento nesse sentido é o Plano
pontos positivos e equivocados (ou não concretizados) em cada Nacional de Educação (PNE), instituído por lei e com validade
uma delas. decenal.
No Brasil, as tendências curriculares que se sobressaem são O atual PNE (Lei nº 13.005/2014) estabelece 20 metas que
a tradicional tecnicista (voltadas para a aprovação nos exames abrangem desde a universalização do ensino básico até a valori-
vestibulares e ENEM) e a críticas do currículo libertário e histó- zação dos profissionais da educação e o financiamento adequado
rico-crítica. do setor. Entre as metas prioritárias estão:
▪ Meta 1: Universalizar, até 2024, a educação infantil na pré-
-escola para crianças de 4 a 5 anos
VIII - POLÍTICAS PÚBLICAS, ORGANIZAÇÃO, ▪ Meta 2: Universalizar o ensino fundamental de nove anos
FINANCIAMENTO E AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO para toda a população de 6 a 14 anos
BRASILEIRA ▪ Meta 17: Valorizar os profissionais da educação equiparan-
do o rendimento médio ao dos demais profissionais com escola-
Políticas públicas educacionais no Brasil: fundamen- ridade equivalente
tos e diretrizes
As políticas públicas educacionais representam o conjunto O PNE também obriga os entes federados a elaborarem seus
de ações planejadas, implementadas e avaliadas pelo Estado com planos estaduais e municipais de educação, em consonância com
o objetivo de garantir o direito à educação de qualidade para to- as metas nacionais, promovendo a articulação e o alinhamento
dos. No Brasil, essas políticas são fundamentadas em princípios das políticas educacionais.
constitucionais, em marcos legais e em diretrizes que orientam Outro ator relevante na formulação de diretrizes é o Con-
as decisões dos entes federativos. selho Nacional de Educação (CNE), que emite pareceres e reso-
Sua formulação é condicionada por aspectos históricos, so- luções sobre currículos, avaliação, formação docente e outros
ciais, econômicos e políticos, o que exige uma análise crítica e temas estratégicos para o sistema educacional.
contextualizada de seus fundamentos.
▸Dimensões políticas e sociais
▸Fundamentos legais e constitucionais A formulação das políticas públicas educacionais não ocorre
A base legal das políticas públicas educacionais está consa- de forma neutra ou descolada da realidade social. Elas refletem
grada na Constituição Federal de 1988, especialmente no artigo correlações de forças políticas, disputas ideológicas e demandas
205, que estabelece: da sociedade civil. Os contextos históricos influenciam direta-
mente as prioridades estabelecidas em cada momento.
“A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, Por exemplo, durante a década de 1990, observou-se um
será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, movimento de ampliação da cobertura educacional e foco na
visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o gestão por resultados. Já nos anos 2000, com a ampliação dos
exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.” programas sociais e de inclusão, houve o fortalecimento de po-
líticas de acesso, como o Fundo de Manutenção e Desenvolvi-
Esse princípio reafirma o caráter universal e inclusivo da mento da Educação Básica (Fundeb), criado em 2007 e renovado
educação, bem como o papel do Estado como garantidor desse em 2020 com caráter permanente (Emenda Constitucional nº
direito. Ainda na Constituição, o artigo 206 apresenta os princí- 108/2020).
pios que devem reger o ensino no país, entre eles: É importante também destacar o papel das políticas afir-
▪ Igualdade de condições para o acesso e permanência na mativas, como as cotas raciais e sociais no ensino superior, e os
escola programas de correção de fluxo e de combate à evasão escolar,
▪ Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pen- como o Programa Bolsa Família e o atual Programa Pé-de-Meia,
samento instituído pela Lei nº 14.818/2024, que busca garantir incentivos
▪ Pluralismo de ideias e concepções pedagógicas financeiros para a permanência de jovens no ensino médio.
▪ Gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais
▪ Valorização dos profissionais da educação escolar Desafios na implementação:
▪ Gestão democrática do ensino público Apesar dos avanços legais e institucionais, a implementação
▪ Garantia de padrão de qualidade das políticas públicas educacionais enfrenta inúmeros desafios:
▪ Desigualdades regionais e socioeconômicas que compro-
Além da Constituição, destaca-se a Lei nº 9.394/1996 (Lei metem a equidade do sistema educacional
de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB), que regula a ▪ Baixa articulação entre os entes federativos, o que dificulta
organização da educação brasileira e estabelece a função redis- o cumprimento das metas nacionais
tributiva e supletiva da União, orientando a atuação dos sistemas ▪ Falta de continuidade nas políticas educacionais com as
estaduais e municipais de ensino. mudanças de governo
▪ Desvalorização e precarização do trabalho docente, impac-
▸Diretrizes nacionais e planejamento tando diretamente na qualidade do ensino
As diretrizes para a formulação das políticas públicas edu- ▪ Insuficiência de financiamento e gestão ineficiente dos re-
cacionais são elaboradas a partir de planejamentos estratégicos, cursos
que visam definir metas, ações, prazos e indicadores de acom-

29
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Esses desafios exigem a construção de uma política educa- ▸Fundamentos do financiamento da educação
cional baseada na participação democrática, na transparência e O financiamento da educação no Brasil é regido por normas
no compromisso com a justiça social. constitucionais, especialmente os artigos 212 e 212-A da Consti-
tuição Federal. O artigo 212 estabelece que:
Organização e financiamento da educação brasileira
A organização da educação no Brasil é descentralizada e fe- “A União aplicará, anualmente, nunca menos de 18%, e os
derativa, ou seja, estruturada conforme as competências dos en- Estados, o Distrito Federal e os Municípios, 25% da receita resul-
tes da federação: União, Estados, Distrito Federal e Municípios. tante de impostos, compreendida a proveniente de transferên-
Essa divisão de responsabilidades, aliada à estrutura de financia- cias, na manutenção e desenvolvimento do ensino.”
mento estabelecida na Constituição e na legislação infraconstitu-
cional, busca garantir a oferta educacional em todo o território Essa vinculação constitucional tem como objetivo assegurar
nacional. recursos mínimos para o funcionamento do sistema educacional,
Compreender essa organização é essencial para interpretar ainda que a qualidade da gestão dos recursos continue sendo um
como se estruturam as políticas públicas e a aplicação de recur- desafio.
sos financeiros na educação.
Além da vinculação de receitas, o financiamento da educa-
▸Estrutura federativa da educação ção básica pública é estruturado em torno do Fundo de Manu-
A educação brasileira está organizada em diferentes níveis e tenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização
modalidades, conforme determina a Lei de Diretrizes e Bases da dos Profissionais da Educação (Fundeb), instituído de forma per-
Educação Nacional (LDB – Lei nº 9.394/1996). De acordo com o manente pela Emenda Constitucional nº 108/2020.
artigo 21 da LDB, a educação escolar compõe-se de:
▪ Educação básica: formada pela educação infantil, ensino ▸O novo Fundeb
fundamental e ensino médio; O Fundeb é atualmente o principal mecanismo de financia-
▪ Educação superior: oferecida principalmente por universi- mento da educação básica no Brasil. Ele é composto por contri-
dades, institutos e faculdades. buições dos Estados, DF e Municípios, com complementação da
União. A partir da EC 108/2020, o novo Fundeb:
Cada ente federativo possui competências específicas no to- ▪ Tornou-se permanente e de caráter contínuo;
cante à oferta educacional: ▪ Ampliou progressivamente a complementação da União de
▪ Municípios: responsáveis prioritariamente pela educação 10% para até 23% em 2026;
infantil (creche e pré-escola) e pelo ensino fundamental (princi- ▪ Criou três modalidades de complementação: VAAT (Valor
palmente anos iniciais); Aluno Ano Total), VAAR (Valor Aluno Ano Resultado) e VAAF (Va-
▪ Estados e Distrito Federal: incumbidos, sobretudo, do ensi- lor Aluno Ano Fundeb);
no fundamental (anos finais) e do ensino médio; ▪ Introduziu critérios de equidade, redistribuindo recursos
▪ União: função normativa, redistributiva e supletiva, além com base em indicadores de desigualdade socioeconômica e de-
de ser responsável pelo ensino superior público federal e pela sempenho educacional.
coordenação geral da política educacional.
A destinação dos recursos do Fundeb também está vincu-
O artigo 211 da Constituição Federal estabelece que essa co- lada à valorização dos profissionais da educação, devendo pelo
laboração entre os entes deve seguir o regime de colaboração, menos 70% ser utilizados para o pagamento da remuneração
promovendo a articulação dos sistemas de ensino e garantindo a desses profissionais, conforme estabelecido no art. 212-A, § 1º
gestão democrática e eficiente dos recursos. da Constituição Federal.

▸Sistemas de ensino ▸Desafios do financiamento


A organização dos sistemas de ensino é outro aspecto cen- Apesar dos avanços institucionais, o financiamento da edu-
tral. Cada ente possui autonomia para organizar seu próprio cação enfrenta obstáculos que comprometem a efetividade das
sistema de ensino, respeitando as diretrizes nacionais definidas políticas educacionais:
pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Conselho Nacional de ▪ Desigualdades regionais na arrecadação tributária, que afe-
Educação (CNE). Esses sistemas compreendem: tam a capacidade de investimento dos entes subnacionais;
▪ Sistema federal de ensino: instituições federais, como uni- ▪ Falta de equidade na distribuição de recursos, ainda pre-
versidades e institutos federais de educação; sente mesmo com o Fundeb;
▪ Sistemas estaduais e distrital: escolas estaduais, universi- ▪ Gestão ineficiente e baixa execução orçamentária, que limi-
dades estaduais e outros órgãos educacionais próprios; tam o impacto positivo dos investimentos;
▪ Sistemas municipais: redes municipais de ensino. ▪ Falta de atualização periódica das metas do PNE, dificultan-
do o planejamento financeiro de longo prazo.
A autonomia dos sistemas é garantida, mas todos devem
respeitar os princípios constitucionais e as normas da LDB. A co- Além disso, o aumento da demanda por educação em con-
ordenação entre os sistemas é feita por meio de planos de edu- textos de crise econômica e social exige maior capacidade do Es-
cação e instâncias de governança intergovernamentais, como tado para assegurar a continuidade e expansão dos investimen-
comissões bipartites e tripartites. tos em educação pública de qualidade.

30
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Avaliação da educação: instrumentos e indicadores ▪ Censo Escolar: levantamento estatístico anual que fornece
A avaliação da educação é uma dimensão essencial das po- informações sobre matrícula, infraestrutura, corpo docente e ou-
líticas públicas, pois permite diagnosticar, monitorar e aprimorar tras variáveis essenciais ao diagnóstico da educação básica.
a qualidade do ensino. No Brasil, a avaliação educacional ganhou
centralidade a partir da década de 1990, quando foram instituí- ▸Índices e indicadores educacionais
dos sistemas nacionais de medição do desempenho escolar. Os dados coletados pelos instrumentos de avaliação são uti-
Esses instrumentos fornecem dados objetivos para subsidiar lizados para compor diversos indicadores de qualidade, dos quais
decisões pedagógicas, administrativas e políticas, orientando o o mais conhecido é o IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educa-
planejamento educacional em todas as esferas de governo. ção Básica), criado em 2007.
O IDEB é calculado a partir da média de desempenho dos
▸Fundamentos da avaliação educacional estudantes no SAEB e das taxas de aprovação escolar. Ele permite
A avaliação educacional, no âmbito das políticas públicas, acompanhar a qualidade da educação em cada escola, rede de
deve cumprir funções diagnóstica, formativa e somativa. Ela atua ensino e unidade federativa, com metas bianuais estabelecidas
como ferramenta de controle de qualidade, equidade e eficácia no Plano Nacional de Educação (PNE).
dos sistemas de ensino. Conforme estabelece a Lei de Diretrizes Outros indicadores relevantes incluem:
e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei nº 9.394/1996), no art. ▪ Taxa de distorção idade-série
9º, inciso VI, é incumbência da União: ▪ Taxas de abandono e evasão escolar
▪ Taxas de matrícula líquida e bruta
“coletar, analisar e disseminar informações sobre a educa- ▪ Índice de Oportunidade da Educação Brasileira (IOEB): in-
ção.” dicador que mede a qualidade educacional de municípios e esta-
dos com base em múltiplas variáveis, inclusive extraclasse.
A mesma lei determina, no art. 11, inciso V, que os sistemas
de ensino devem: No âmbito do ensino superior, destacam-se:
▪ Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE)
“avaliar os processos educacionais, o desempenho de insti- ▪ Conceito Preliminar de Curso (CPC)
tuições, de cursos e de alunos.” ▪ Índice Geral de Cursos (IGC)

Esse compromisso institucional fundamenta a existência de Esses indicadores subsidiam políticas de regulação e finan-
sistemas avaliativos que observam tanto o rendimento dos es- ciamento no ensino superior público e privado.
tudantes quanto a gestão escolar, as condições de oferta e os
resultados de aprendizagem. ▸Finalidades e limites das avaliações
A avaliação educacional tem como finalidade principal pro-
▸Principais instrumentos de avaliação da educação básica mover a melhoria da qualidade do ensino. Quando bem utilizada,
O principal sistema avaliativo nacional é o Sistema de Ava- contribui para:
liação da Educação Básica (SAEB), instituído pelo Instituto Nacio- ▪ O redirecionamento de práticas pedagógicas;
nal de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). O ▪ A alocação mais eficiente de recursos públicos;
SAEB é composto por diversos instrumentos articulados: ▪ A identificação de desigualdades e iniquidades educacio-
▪ Provas padronizadas de larga escala aplicadas a alunos do nais;
2º, 5º e 9º anos do ensino fundamental e do 3º ano do ensino ▪ A transparência e o controle social sobre os resultados das
médio; políticas públicas.
▪ Questionários contextuais para estudantes, professores,
diretores e escolas, com informações sobre o ambiente escolar, No entanto, também é necessário reconhecer seus limites e
perfil socioeconômico e práticas pedagógicas; riscos, como:
▪ Indicadores estatísticos, como médias de desempenho e ▪ A redução do currículo escolar para se adequar às exigên-
taxas de participação. cias das provas;
▪ A valorização excessiva de resultados quantitativos, em de-
O SAEB abrange duas avaliações principais: trimento da formação integral;
▪ Avaliação Nacional da Educação Básica (ANEB): aplicada ▪ O uso punitivo de indicadores, sem considerar o contexto
em amostras representativas, permite análise em nível nacional, socioeconômico das escolas e redes;
regional e por rede. ▪ A fragilidade na utilização pedagógica dos dados, quando
▪ Avaliação Nacional do Rendimento Escolar (ANRESC), co- os resultados não são interpretados criticamente.
nhecida como Prova Brasil: tem abrangência censitária em es-
colas públicas urbanas, sendo usada diretamente no cálculo do Por isso, é fundamental que a avaliação seja parte integrante
Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). de um processo contínuo, participativo e comprometido com a
equidade, não apenas como ferramenta técnica de mensuração,
Além do SAEB, outros instrumentos avaliativos importantes mas como instrumento de transformação educacional.
são:
▪ Prova ANA (Avaliação Nacional da Alfabetização): avalia
a alfabetização de estudantes do 2º ano do ensino fundamental,
com foco em leitura, escrita e matemática;

31
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

▸Características da pesquisa em educação


IX - METODOLOGIA DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO E A pesquisa em educação apresenta algumas características
ENSINO fundamentais que a diferenciam de outras áreas do conhecimen-
to:
Fundamentos Da Pesquisa Em Educação ▪ Multirreferencialidade teórica: a pesquisa educacional se
apoia em múltiplas teorias e abordagens, refletindo a complexi-
dade dos fenômenos que investiga. Um mesmo tema pode ser
▸Fundamentos da pesquisa em educação
analisado sob diferentes perspectivas (psicopedagógica, socioló-
A pesquisa em educação é um campo científico voltado à
gica, filosófica etc.).
produção de conhecimento sobre os processos de ensino e
▪ Interdisciplinaridade: é comum que a pesquisa envolva
aprendizagem, políticas educacionais, práticas pedagógicas,
conceitos e métodos de diversas áreas do saber, promovendo
gestão escolar e demais aspectos que compõem o fenômeno
uma abordagem mais abrangente e aprofundada.
educativo. Seus fundamentos teóricos e metodológicos articu-
▪ Imbricação com a prática: há uma forte ligação entre teoria
lam-se com as ciências humanas e sociais, valorizando tanto a
e prática, sendo frequente que o pesquisador seja também um
compreensão do contexto quanto a transformação da realidade
profissional da educação atuando no campo investigado.
educacional.
▪ Ênfase no contexto: os estudos educacionais valorizam o
contexto social, cultural, político e econômico onde ocorrem os
▸A pesquisa em educação como campo científico
fenômenos pesquisados, reconhecendo a influência desses fato-
A pesquisa educacional constitui um ramo consolidado da
res sobre os processos educativos.
ciência que busca compreender, explicar e intervir nas práticas
▪ Compromisso ético: devido à participação de sujeitos (ge-
escolares e nos sistemas de ensino. Ela se estrutura a partir de
ralmente crianças, adolescentes, professores, gestores), a pes-
um corpo teórico plural, que incorpora referenciais da sociologia,
quisa deve seguir princípios éticos rigorosos, com consentimento
filosofia, psicologia, antropologia e história, permitindo diferen-
informado, anonimato e respeito à dignidade dos envolvidos.
tes olhares sobre os fenômenos educativos.
Ao contrário de pesquisas em ciências naturais, onde se
▸ Abordagens epistemológicas da pesquisa educacional
busca estabelecer leis universais, na educação o conhecimento
A pesquisa em educação pode ser orientada por diferentes
produzido é interpretativo, contextual e muitas vezes situado.
paradigmas epistemológicos, que influenciam as perguntas de
Isso significa que as respostas às questões investigadas não são
pesquisa, os métodos utilizados e a forma de interpretação dos
generalizáveis de forma ampla, mas sim aplicáveis a contextos
dados. Os principais são:
específicos, exigindo sensibilidade metodológica e rigor ético por
▪ Positivista ou quantitativa: baseada na objetividade, men-
parte do pesquisador.
suração e generalização dos resultados. Busca testar hipóteses e
A pesquisa em educação também se distingue por envolver
medir variáveis educacionais por meio de instrumentos padro-
sujeitos em situação de aprendizagem e por estar intimamente
nizados.
conectada com práticas sociais, o que exige do pesquisador não
▪ Interpretativa ou qualitativa: valoriza a subjetividade, os
apenas neutralidade técnica, mas também compromisso ético-
significados e as interações sociais. Parte do princípio de que a
-político com os sujeitos investigados.
realidade educacional é construída pelos sujeitos e deve ser com-
preendida em sua complexidade.
▸Objetivos da pesquisa educacional
▪ Crítica ou emancipatória: orientada pela transformação
A pesquisa em educação possui objetivos amplos que vão
social e pela superação de desigualdades. Visa empoderar os
além da simples coleta de dados ou verificação de hipóteses.
participantes e promover mudanças a partir da investigação.
Dentre os principais objetivos, destacam-se:
▪ Compreender os processos educativos: busca-se enten-
Cada uma dessas abordagens possui métodos específicos e é
der como ocorrem as aprendizagens, quais fatores influenciam
adequada a determinados objetivos e problemas de pesquisa. O
o desempenho dos estudantes, como os professores mediam o
pesquisador deve, portanto, escolher a perspectiva epistemoló-
conhecimento, entre outros aspectos.
gica mais coerente com sua proposta investigativa.
▪ Analisar políticas públicas e práticas pedagógicas: muitas
pesquisas se debruçam sobre currículos, avaliação, gestão esco-
▸A importância da pesquisa para a prática pedagógica
lar, financiamento da educação, entre outros temas que impac-
A pesquisa em educação não deve ser vista como uma ativi-
tam o cotidiano escolar.
dade distante da realidade escolar. Ao contrário, ela pode e deve
▪ Produzir conhecimento para a formação docente: ao in-
contribuir para a reflexão sobre a prática pedagógica, oferecendo
vestigar as práticas de ensino, as crenças e saberes dos profes-
instrumentos teóricos e metodológicos para a melhoria da qua-
sores, a pesquisa contribui para a melhoria da formação inicial e
lidade do ensino.
continuada de educadores.
Educadores que se apropriam da pesquisa como prática
▪ Transformar realidades educacionais: por meio de abor-
formativa desenvolvem maior autonomia intelectual, espírito
dagens críticas e participativas, a pesquisa pode contribuir para a
crítico e capacidade de análise. Além disso, a familiaridade com
superação de desigualdades e exclusões no campo educacional.
métodos de pesquisa é exigência cada vez mais presente em con-
cursos, programas de formação continuada e políticas públicas
voltadas à valorização docente.

32
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Os fundamentos da pesquisa em educação revelam seu pa- Quanto aos procedimentos técnicos:
pel central na construção de um ensino de qualidade e social- ▪ Pesquisa bibliográfica: baseia-se no levantamento e análi-
mente comprometido. se de produções teóricas existentes (livros, artigos, dissertações)
Ao compreender seus objetivos, características e fundamen- sobre um determinado tema. É ponto de partida fundamental
tos epistemológicos, o profissional da educação torna-se apto a para qualquer investigação científica.
desenvolver investigações que contribuam não apenas para o ▪ Pesquisa documental: utiliza documentos não elaborados
avanço do conhecimento científico, mas também para a trans- para fins científicos, como leis, pareceres, planos de ensino, re-
formação das práticas pedagógicas e das condições de ensino- gistros escolares, diários de classe, entre outros. É essencial para
-aprendizagem. estudos sobre políticas educacionais e história da educação.
A pesquisa, portanto, é instrumento de formação crítica, ▪ Estudo de caso: investiga em profundidade uma unidade
emancipação social e intervenção consciente no cotidiano edu- específica (uma escola, uma sala de aula, um professor), buscan-
cacional. do compreender sua dinâmica particular. É amplamente usado
em pesquisas qualitativas.
Tipos E Métodos De Pesquisa No Campo Educacional ▪ Pesquisa etnográfica: envolve a imersão do pesquisador no
A escolha do tipo e do método de pesquisa é uma das deci- campo por longo período, com o intuito de captar práticas, va-
sões mais importantes no planejamento de qualquer investiga- lores e significados do grupo estudado. Frequentemente utiliza
ção científica em educação. Esses elementos determinam a for- diários de campo e observações participantes.
ma de coleta, análise e interpretação dos dados, sendo definidos ▪ Pesquisa-ação: combina investigação e intervenção, sendo
de acordo com os objetivos do estudo, a natureza do problema conduzida em colaboração com os sujeitos da pesquisa para pro-
de pesquisa e a abordagem epistemológica adotada. mover mudanças concretas na realidade investigada. É comum
No campo educacional, essa diversidade metodológica refle- em processos de formação docente e inovação pedagógica.
te a complexidade dos fenômenos investigados e permite múl- ▪ Pesquisa experimental e quase-experimental: envolve ma-
tiplos olhares sobre a prática pedagógica, as políticas educacio- nipulação de variáveis e controle de grupos para testar hipóteses
nais, os processos de aprendizagem e os contextos escolares. causais. Embora mais comum em ciências naturais, também é
usada na educação, especialmente na psicopedagogia e avalia-
▸Classificação dos tipos de pesquisa educacional ção de programas.
A pesquisa em educação pode ser classificada segundo dife-
rentes critérios: quanto à finalidade, quanto à abordagem meto- ▸Métodos de pesquisa mais utilizados na educação
dológica e quanto aos procedimentos técnicos. A metodologia educacional combina técnicas diversas de co-
leta e análise de dados. A escolha do método depende do tipo de
Quanto à finalidade: pesquisa, da natureza dos dados e da questão-problema.
▪ Pesquisa básica: tem como objetivo gerar novos conheci-
mentos, sem uma aplicação prática imediata. Está voltada para o Métodos qualitativos:
desenvolvimento de teorias e aprofundamento conceitual. Por ▪ Entrevistas: podem ser estruturadas, semiestruturadas ou
exemplo, uma investigação sobre as concepções de aprendiza- abertas. Permitem acessar percepções, experiências e valores
gem na filosofia da educação. dos sujeitos envolvidos na prática educativa.
▪ Pesquisa aplicada: busca resolver problemas práticos e ▪ Observação: técnica fundamental para compreender inte-
imediatos, gerando conhecimento útil para a realidade educacio- rações no ambiente escolar. Pode ser participante (o pesquisador
nal. Um exemplo seria a análise de estratégias para melhorar o interage com o grupo) ou não participante.
desempenho de estudantes em avaliações externas. ▪ Grupos focais: reúnem sujeitos para discutir um tema es-
pecífico, possibilitando compreender a construção coletiva de
Quanto à abordagem metodológica: sentidos.
▪ Pesquisa quantitativa: fundamenta-se em dados numéri- ▪ Análise de conteúdo: método de análise textual que per-
cos e estatísticos, com objetivo de quantificar fenômenos e testar mite identificar categorias, padrões e inferências em discursos,
hipóteses. Apresenta instrumentos padronizados como questio- documentos ou registros.
nários e testes. É comum em estudos sobre rendimento escolar,
evasão ou avaliações em larga escala. Métodos quantitativos:
▪ Pesquisa qualitativa: prioriza a compreensão dos significa- ▪ Questionários e escalas: instrumentos padronizados apli-
dos, das relações e das experiências humanas em seus contextos. cados a grandes grupos. Servem para medir atitudes, opiniões,
Utiliza técnicas como entrevistas, observações e análise docu- conhecimentos, entre outros aspectos.
mental. É frequente em investigações sobre práticas docentes, ▪ Testes padronizados: usados para medir habilidades cog-
culturas escolares e processos formativos. nitivas, rendimento ou competências. Aplicados em contextos
▪ Pesquisa quanti-qualitativa (mista): integra elementos das como avaliações externas (Saeb, Enem).
abordagens anteriores, combinando dados estatísticos com in- ▪ Análise estatística: envolve técnicas como média, desvio-
terpretações qualitativas. Permite uma análise mais completa de -padrão, correlação, regressão, análise fatorial etc., sendo funda-
fenômenos educacionais complexos. mental para interpretação de dados numéricos.

Métodos mistos:
▪ Triangulação de dados: combina diferentes fontes, méto-
dos e teorias para garantir maior validade aos resultados.

33
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

▪ Desenhos mistos sequenciais ou simultâneos: integram ▸Revisão de literatura


abordagens qualitativas e quantitativas em diferentes momentos Após a delimitação do problema, realiza-se a revisão de lite-
da pesquisa. ratura, que consiste na análise crítica de estudos anteriores sobre
o tema. Essa etapa cumpre várias funções:
▸Critérios para escolha do tipo e do método de pesquisa ▪ Identificar o que já foi pesquisado e o que ainda é lacuna.
A definição do tipo e do método deve estar alinhada a: ▪ Conhecer diferentes perspectivas teóricas e metodológicas.
▪ O problema de pesquisa: deve orientar todas as escolhas ▪ Justificar a importância da pesquisa atual.
metodológicas. ▪ Fundamentar o referencial teórico do estudo.
▪ Os objetivos do estudo: investigações exploratórias exigem
métodos abertos e flexíveis; estudos explicativos podem deman- A revisão deve ser sistemática, organizada e atualizada. En-
dar dados estatísticos robustos. volve a leitura de livros, artigos científicos, dissertações, teses e
▪ O contexto e os sujeitos: é preciso considerar a realidade documentos oficiais. O pesquisador deve dialogar com os auto-
investigada, o acesso aos participantes e a viabilidade da coleta res mais relevantes da área, estabelecendo relações entre con-
de dados. ceitos e teorias.
▪ A formação do pesquisador: o domínio das técnicas e dos
fundamentos metodológicos é essencial para a qualidade da pes- ▸Definição dos objetivos e da hipótese (se houver)
quisa. Com base no problema, o pesquisador define os objetivos da
pesquisa, que indicam o que se pretende alcançar. Normalmente
O domínio dos tipos e métodos de pesquisa é uma compe- são divididos em:
tência indispensável para profissionais da educação que desejam ▪ Objetivo geral: expressa o propósito central do estudo (por
produzir conhecimento científico ou interpretar criticamente es- exemplo, “analisar o impacto das metodologias ativas no desem-
tudos na área. penho de estudantes do ensino fundamental”).
A diversidade metodológica existente no campo educacio- ▪ Objetivos específicos: desdobram o objetivo geral em me-
nal permite uma rica compreensão dos fenômenos investigados, tas operacionais (por exemplo, “identificar as estratégias ativas
desde que as escolhas estejam fundamentadas teoricamente e utilizadas pelos professores” ou “avaliar a percepção dos alunos
coerentes com os objetivos do estudo. sobre essas metodologias”).

Etapas Do Processo De Pesquisa Em Ensino Quando a pesquisa segue uma abordagem quantitativa ou
O desenvolvimento de uma pesquisa científica em educação experimental, é comum a formulação de uma hipótese, que re-
e ensino requer planejamento rigoroso e organização metodoló- presenta uma suposição a ser testada.
gica. Esse processo é composto por etapas sucessivas e interde-
pendentes que orientam desde a formulação do problema até a ▸Escolha do método e dos procedimentos
apresentação dos resultados. Seguir essas etapas com clareza e Esta etapa compreende o planejamento metodológico da
coerência é essencial para garantir a validade científica da inves- pesquisa, incluindo:
tigação e a relevância dos dados produzidos. ▪ Tipo de pesquisa (exploratória, descritiva, explicativa, ação
No contexto educacional, essas fases ganham características etc.).
próprias devido à natureza subjetiva, contextual e relacional dos ▪ Abordagem metodológica (qualitativa, quantitativa ou mis-
fenômenos que se deseja compreender. ta).
▪ Procedimentos técnicos (estudo de caso, pesquisa docu-
▸Escolha do tema e delimitação do problema mental, levantamento etc.).
Toda pesquisa começa com a identificação de um tema de ▪ Instrumentos de coleta de dados, como questionários, en-
interesse. No campo educacional, esse tema geralmente surge trevistas, observações, análise documental, entre outros.
da prática docente, de lacunas na literatura científica ou de ques- ▪ Critérios de seleção dos sujeitos (amostragem intencional,
tões relevantes nas políticas públicas de ensino. Porém, o tema aleatória, por conveniência etc.).
deve ser delimitado para que o estudo seja viável. Essa delimita- ▪ Ética na pesquisa, com atenção ao sigilo, ao consentimento
ção envolve: livre e esclarecido e à integridade dos participantes, conforme a
▪ Recorte temporal e espacial (por exemplo, “avaliação for- Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde.
mativa no ensino médio em escolas públicas de São Paulo entre
2020 e 2024”). ▸Coleta de dados
▪ Determinação de sujeitos e contexto (professores, estu- A coleta é a execução do plano metodológico. O pesquisador
dantes, gestores escolares, documentos etc.). aplica os instrumentos definidos, sempre mantendo o controle
▪ Identificação do foco específico de investigação (práticas de qualidade e o registro fiel das informações. No caso de pesqui-
avaliativas, metodologias ativas, dificuldades de aprendizagem sa qualitativa, é fundamental a elaboração de diários de campo e
etc.). a observação atenta dos contextos. Já na pesquisa quantitativa, a
aplicação deve seguir procedimentos padronizados.
A partir da delimitação, o pesquisador formula o problema É necessário também estar preparado para ajustes e impre-
de pesquisa – uma pergunta clara e objetiva que orientará todo o vistos, mantendo flexibilidade sem comprometer o rigor cientí-
trabalho. Um bom problema deve ser viável, relevante e passível fico.
de investigação empírica ou teórica.

34
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

▸Análise e interpretação dos dados Nesse processo, as TIC atuam como ferramentas culturais,
A análise transforma os dados brutos em informações sig- conforme a perspectiva de Vygotsky, pois possibilitam a amplia-
nificativas. Os procedimentos variam conforme o tipo de dado: ção dos meios de expressão, comunicação e aprendizagem.
▪ Dados qualitativos: são analisados por meio de categorias
temáticas, análise de conteúdo, análise do discurso ou herme- As tecnologias podem mediar o conhecimento de diversas
nêutica, buscando compreender os significados das falas, com- formas:
portamentos e interações. ▪ Proporcionando múltiplas linguagens (texto, áudio, vídeo,
▪ Dados quantitativos: são tratados por meio de estatísticas animações);
descritivas ou inferenciais, utilizando ferramentas como tabelas, ▪ Facilitando o acesso à informação em tempo real e de di-
gráficos, médias, testes de correlação e regressão. versas fontes;
▪ Estimulando a aprendizagem ativa por meio de ambientes
A interpretação deve ser fundamentada teoricamente, rela- interativos;
cionando os dados com a literatura revisada e com os objetivos ▪ Promovendo a personalização das trilhas de aprendizagem.
do estudo. É importante evitar interpretações simplistas ou en-
viesadas, respeitando a complexidade dos fenômenos educacio- Assim, o papel da tecnologia não é substituir o professor,
nais. mas enriquecer a prática docente, oferecendo novas possibilida-
des de construção do conhecimento por meio de experiências
▸Redação e apresentação da pesquisa mais significativas e contextualizadas.
A última etapa consiste na sistematização dos resultados em
forma de relatório, artigo científico, monografia, dissertação ou ▸Integração das TIC na didática e no currículo
tese. A estrutura básica de apresentação é: Quando integradas de forma crítica e intencional ao planeja-
Introdução (tema, problema, objetivos e justificativa) mento pedagógico, as TIC contribuem para:
Referencial teórico ▪ Reorganização das práticas pedagógicas, tornando o estu-
Metodologia dante protagonista do processo;
Análise e discussão dos dados ▪ Diversificação das metodologias de ensino, como o uso de
Considerações finais metodologias ativas (sala de aula invertida, aprendizagem basea-
Referências bibliográficas da em projetos, gamificação);
Anexos e apêndices (se houver) ▪ Fortalecimento da interdisciplinaridade, ao permitir cone-
xões entre diferentes áreas do conhecimento.
A linguagem deve ser clara, precisa e científica. É fundamen-
tal respeitar normas técnicas, como a ABNT ou o Estilo APA, de Além disso, as TIC permitem alinhar a prática escolar aos
acordo com a instituição. princípios da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que
orienta o desenvolvimento da competência geral 5: “Compreen-
As etapas do processo de pesquisa em ensino representam der, utilizar e criar tecnologias digitais de forma crítica, significa-
um caminho estruturado que garante a coerência e a credibilida- tiva, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais”.
de do trabalho científico. Cada fase possui exigências metodoló- Nesse sentido, o uso pedagógico das tecnologias precisa es-
gicas e éticas próprias, e sua realização sistemática permite que tar articulado ao projeto político-pedagógico da escola e ao cur-
a pesquisa cumpra seu papel de compreender, problematizar e rículo, garantindo intencionalidade e coerência com os objetivos
transformar a realidade educacional. de aprendizagem.

▸Ambientes virtuais e recursos digitais como instrumentos


X - TECNOLOGIAS DA COMUNICAÇÃO E de mediação
INFORMAÇÃO NAS PRÁTICAS EDUCATIVAS Ambientes virtuais de aprendizagem (AVA), plataformas
educacionais, aplicativos e objetos digitais de aprendizagem são
Papel Das Tecnologias Na Mediação Do Conhecimento exemplos concretos do papel das TIC na mediação do conheci-
As Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) têm mento. Esses recursos podem:
transformado profundamente as práticas pedagógicas contem- ▪ Ampliar o tempo e o espaço da aprendizagem, permitindo
porâneas. Elas não são apenas instrumentos de apoio, mas agen- estudos fora do horário escolar;
tes ativos na mediação do conhecimento, alterando a dinâmica ▪ Fomentar o trabalho colaborativo, por meio de fóruns, wi-
da relação entre professores, estudantes e saberes. kis e redes sociais;
Neste contexto, compreender o papel das TIC como media- ▪ Estimular a autonomia do estudante, ao permitir escolhas
doras da aprendizagem é essencial para a construção de uma de ritmo, percurso e recursos de estudo;
educação significativa, crítica e conectada com a realidade social. ▪ Promover a avaliação formativa, por meio de instrumentos
digitais como quizzes, portfólios e relatórios automatizados.
▸Conceito de mediação do conhecimento e o papel das TIC
A mediação do conhecimento refere-se ao processo pelo Por exemplo, uma atividade que utilize vídeos interativos
qual o professor organiza situações de aprendizagem que permi- com perguntas reflexivas, seguida de um fórum online para de-
tam ao estudante construir sentidos e significados a partir de sua bate entre os alunos, exemplifica uma prática em que as TIC cum-
interação com os conteúdos.

35
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

prem o papel de mediadoras na construção do conhecimento, Essas competências precisam ser desenvolvidas tanto por
integrando conteúdos, habilidades cognitivas e competências professores quanto por alunos, respeitando os níveis de comple-
socioemocionais. xidade e os papéis distintos de cada um no processo de ensino-
-aprendizagem.
▸Considerações pedagógicas sobre o uso das TIC
O uso das tecnologias como mediadoras do conhecimento ▸Competências digitais do professor: práticas e formação
exige: O professor é um agente central no uso pedagógico das TIC,
▪ Formação docente continuada, que vá além do domínio devendo exercer liderança educativa na promoção de práticas
técnico, incorporando aspectos didáticos e éticos; inovadoras e críticas com as tecnologias. Suas competências di-
▪ Curadoria e avaliação crítica dos recursos utilizados; gitais envolvem:
▪ Sensibilidade à diversidade de contextos dos estudantes, ▪ Planejamento e mediação pedagógica com TIC: Integrar
inclusive no que se refere ao acesso à internet e aos equipamen- tecnologias ao currículo, considerando intencionalidade didática
tos; e critérios de inclusão;
▪ Garantia de intencionalidade pedagógica, evitando o uso ▪ Seleção e curadoria de recursos digitais: Avaliar a qualida-
acrítico ou meramente decorativo das ferramentas digitais. de, acessibilidade e pertinência pedagógica de plataformas, apli-
cativos e materiais;
Portanto, o papel das TIC na mediação do conhecimento está ▪ Criação de conteúdos personalizados: Desenvolver mate-
relacionado à capacidade da escola e dos professores de ressig- riais que dialoguem com a realidade dos alunos, como vídeos,
nificar práticas pedagógicas a partir das potencialidades dessas infográficos e quizzes;
ferramentas, assegurando o direito de aprender com equidade, ▪ Avaliação com o apoio das TIC: Utilizar ferramentas digitais
criatividade e criticidade. para acompanhar e analisar o desempenho dos estudantes de
forma formativa e contínua;
Competências Digitais Do Professor E Do Aluno ▪ Formação continuada e desenvolvimento profissional: Par-
A inserção significativa das Tecnologias da Informação e Co- ticipar de redes de aprendizagem, cursos online, comunidades
municação (TIC) no ambiente educacional demanda o desenvol- virtuais e práticas reflexivas.
vimento de competências digitais tanto por parte dos professo-
res quanto dos alunos. Tais competências vão além do domínio É importante ressaltar que o desenvolvimento dessas com-
técnico de ferramentas e envolvem aspectos pedagógicos, comu- petências requer apoio institucional, infraestrutura adequada e
nicacionais, éticos e críticos. políticas públicas que garantam tempo, condições de trabalho e
Neste contexto, a construção de uma cultura digital na es- oportunidades formativas.
cola depende diretamente da formação docente e da autonomia
estudantil no uso das tecnologias como instrumentos de apren- ▸Competências digitais do aluno: autonomia, criticidade
dizagem. e criatividade
Os estudantes, inseridos em um mundo digitalizado desde
▸O que são competências digitais e como se aplicam à a infância, precisam ser preparados não apenas para o uso ins-
educação trumental das tecnologias, mas para a compreensão crítica e a
As competências digitais são um conjunto de conhecimen- produção ativa de conhecimento digital.
tos, habilidades, atitudes e valores necessários para utilizar, de As principais competências digitais a serem desenvolvidas
forma eficaz, crítica e ética, as tecnologias digitais na vida cotidia- pelos alunos incluem:
na, no trabalho e na aprendizagem. ▪ Navegação e busca crítica de informações: Localizar, sele-
Na educação, essas competências se desdobram em di- cionar e interpretar conteúdos digitais com critérios de confiabi-
versas dimensões, conforme apontado pelo Marco Europeu de lidade e relevância;
Competência Digital para Educadores (DigCompEdu) e adaptado ▪ Produção de conteúdo digital: Utilizar diferentes ferramen-
por diversas políticas nacionais, como a Estratégia Nacional de tas para criar textos, vídeos, apresentações e outros produtos
Educação Digital (Brasil, 2023). multimodais;
Entre as principais competências digitais no contexto educa- ▪ Comunicação e colaboração online: Trabalhar em equipe,
cional, destacam-se: respeitar a etiqueta digital e participar de comunidades virtuais
▪ Uso pedagógico das TIC: Selecionar e aplicar tecnologias de de aprendizagem;
forma alinhada aos objetivos de aprendizagem; ▪ Segurança e responsabilidade digital: Proteger dados pes-
▪ Criação de conteúdos digitais: Produzir, editar e adaptar soais, identificar fake news, combater o discurso de ódio e com-
recursos e materiais digitais; preender as implicações éticas das interações online;
▪ Comunicação e colaboração digital: Utilizar ambientes e ▪ Aprendizagem autorregulada com apoio das TIC: Organizar
ferramentas para interagir, compartilhar e cocriar com colegas e o próprio processo de aprendizagem, definindo metas, monito-
estudantes; rando o progresso e buscando recursos digitais adequados.
▪ Cidadania digital: Agir de forma ética, segura e responsável
no ambiente digital; Tais competências são fundamentais para formar sujeitos
▪ Aprendizagem contínua: Atualizar-se constantemente em críticos, participativos e criadores no contexto da sociedade do
relação a novas ferramentas e metodologias. conhecimento.

36
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

▸Políticas públicas e documentos orientadores Esses desafios exigem políticas públicas integradas, investi-
A valorização das competências digitais está presente em mento contínuo e uma gestão escolar comprometida com a ino-
importantes documentos oficiais, como: vação pedagógica e a inclusão digital.
▪ Base Nacional Comum Curricular (BNCC): Competência Ge-
ral 5 – “Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de forma ▸Possibilidades pedagógicas e transformadoras das TIC na
crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais.” escola
▪ Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (MEC, 2021) e Apesar dos desafios, a integração bem planejada das tecno-
Estratégia Nacional de Educação Digital (2023): Orientam ações logias oferece inúmeras possibilidades para enriquecer o proces-
para a universalização do acesso à internet, a formação de pro- so de ensino e aprendizagem:
fessores e a integração das tecnologias ao ensino básico. ▪ Promoção da aprendizagem ativa: As TIC possibilitam a
adoção de metodologias como sala de aula invertida, aprendi-
Esses documentos reforçam que a construção de uma cul- zagem baseada em projetos, gamificação e ensino híbrido, que
tura digital educacional exige ações articuladas entre gestores, colocam o aluno como protagonista;
professores, estudantes e comunidade escolar. ▪ Fomento à criatividade e à autoria: Ferramentas digitais in-
As competências digitais não se resumem à habilidade técni- centivam a produção de conteúdos próprios pelos alunos (víde-
ca de lidar com equipamentos, mas envolvem uma compreensão os, podcasts, infográficos, blogs), desenvolvendo competências
pedagógica e crítica do uso das tecnologias. Promover uma edu- comunicativas e digitais;
cação digital significativa implica investir na formação docente, ▪ Acesso a múltiplas linguagens e recursos: Plataformas edu-
garantir equidade de acesso e estimular nos estudantes a auto- cacionais, bibliotecas digitais, simuladores e realidade aumenta-
nomia e a responsabilidade no uso das TIC. da enriquecem o repertório pedagógico e estimulam diferentes
Somente assim será possível transformar as práticas educa- estilos de aprendizagem;
tivas por meio das tecnologias e prepará-las para os desafios do ▪ Ampliação do tempo e do espaço de aprendizagem: O uso
século XXI. de ambientes virtuais permite que os estudantes aprendam para
além do tempo escolar formal, de maneira mais autônoma e per-
Desafios E Possibilidades Da Integração Das Tecnolo- sonalizada;
gias Na Escola ▪ Fortalecimento da avaliação formativa: Ferramentas digi-
A integração das Tecnologias da Informação e Comunicação tais facilitam o acompanhamento contínuo da aprendizagem,
(TIC) no cotidiano escolar representa um processo complexo, que com feedbacks em tempo real, mapas de progresso e portfólios
envolve mudanças estruturais, pedagógicas, culturais e formati- digitais.
vas. Se por um lado as tecnologias ampliam o acesso ao conheci-
mento, favorecem metodologias ativas e diversificam formas de Tais possibilidades apontam para uma escola mais dialógica,
aprendizagem, por outro lado elas impõem desafios relaciona- inclusiva e conectada com as demandas do século XXI.
dos à infraestrutura, formação docente, desigualdades sociais e
à resistência institucional. ▸Papel da gestão escolar e das políticas públicas na supe-
Compreender esses obstáculos e potencialidades é essencial ração de barreiras
para planejar uma educação conectada, inclusiva e de qualidade. A superação dos desafios e o aproveitamento das potencia-
lidades das TIC dependem fortemente de ações institucionais
▸Desafios estruturais e sociais para a integração das TIC articuladas:
na escola ▪ Gestão escolar inovadora: É necessário que as lideranças
A realidade das escolas brasileiras é marcada por profundas escolares incentivem a cultura de inovação, apoiem a formação
desigualdades regionais, que impactam diretamente o uso pe- continuada dos professores e promovam o uso das tecnologias
dagógico das tecnologias. Entre os principais obstáculos estão: de maneira planejada e ética;
▪ Falta de infraestrutura adequada: Muitas escolas ainda en- ▪ Participação da comunidade escolar: A integração tecno-
frentam ausência de conexão à internet de qualidade, insuficiên- lógica deve considerar o envolvimento de famílias, estudantes
cia de equipamentos e manutenção precária de laboratórios de e professores, respeitando os contextos socioculturais e promo-
informática; vendo inclusão digital;
▪ Desigualdade de acesso entre estudantes: O acesso domi- ▪ Implementação de políticas públicas eficazes: Programas
ciliar a computadores, tablets ou celulares e à internet é desi- como o Programa de Inovação Educação Conectada (MEC, 2017)
gual, especialmente nas regiões Norte e Nordeste e em zonas e a Estratégia Nacional de Educação Digital (2023) são essenciais
rurais. Isso aprofunda a exclusão digital e dificulta a continuidade para garantir conectividade, formação docente e desenvolvimen-
das atividades pedagógicas fora da escola; to de competências digitais;
▪ Formação docente insuficiente ou desatualizada: Muitos ▪ Curadoria e segurança digital: Cabe à escola orientar o uso
professores não tiveram acesso a uma formação inicial com foco consciente das tecnologias, formando estudantes para o exercí-
nas tecnologias e, mesmo nas formações continuadas, ainda há cio da cidadania digital, com atenção à proteção de dados, com-
ênfase excessiva na dimensão técnica, em detrimento da refle- bate à desinformação e promoção do uso responsável da inter-
xão pedagógica sobre seu uso; net.
▪ Resistência à mudança de práticas pedagógicas tradicio-
nais: Há uma cultura escolar fortemente enraizada em modelos
transmissivos de ensino, que dificulta a adoção de metodologias
mais abertas, interativas e colaborativas.

37
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Portanto, o processo de integração das TIC exige compromis- ge que os cidadãos possuam repertório científico suficiente para
so coletivo e planejamento pedagógico consistente, para que os discernir argumentos válidos e identificar fake news ou pseudo-
recursos digitais deixem de ser elementos periféricos e passem a ciência.
constituir parte essencial do projeto educativo da escola. Além disso, o letramento científico tem implicações diretas
na formação de atitudes e valores. Ele contribui para o desenvol-
Integrar as tecnologias às práticas escolares vai muito além vimento de uma postura investigativa, baseada na curiosidade,
da aquisição de equipamentos. Trata-se de repensar o papel da na dúvida e na disposição para revisar concepções a partir de
escola, os modos de ensinar e aprender, e de preparar estudan- novas evidências. Isso favorece uma cultura de pensamento crí-
tes e professores para atuarem em uma sociedade altamente tico e diálogo racional, fundamentais em democracias contem-
digitalizada. porâneas.
Ao reconhecer os desafios e explorar as possibilidades das
TIC, a escola amplia sua capacidade de formar sujeitos críticos, ▸Letramento científico e equidade educacional
criativos e preparados para transformar a realidade. A promoção do letramento científico nas escolas também
tem um papel fundamental na redução de desigualdades. Quan-
do a ciência é ensinada de maneira acessível e contextualizada,
XI - LETRAMENTO CIENTÍFICO todos os estudantes, independentemente de sua origem social,
podem desenvolver competências para compreender o mundo
Conceito e importância do letramento científico natural e participar de discussões públicas sobre ciência e tec-
O letramento científico é uma das competências essenciais nologia.
para a formação de sujeitos críticos e participativos na sociedade Contudo, a realidade educacional brasileira ainda apresenta
contemporânea. desafios. Muitas vezes, o ensino de ciências permanece centrado
Mais do que saber conteúdos específicos das ciências, ele na memorização de conteúdos e na transmissão de definições
envolve a capacidade de compreender, utilizar e refletir sobre abstratas, sem conexão com o cotidiano dos estudantes. Isso
informações científicas em situações cotidianas, contribuindo contribui para a desmotivação e para a dificuldade em aplicar o
para a tomada de decisões fundamentadas e para o exercício da conhecimento em situações práticas, comprometendo o desen-
cidadania. volvimento do letramento científico.

▸Definindo o letramento científico ▸Relação com outras áreas do conhecimento


O conceito de letramento científico vai além da simples alfa- Outro aspecto importante é que o letramento científico não
betização nas ciências. Enquanto a alfabetização científica pode ocorre de forma isolada. Ele está intrinsecamente ligado a outros
ser entendida como o conhecimento básico de fatos, termos e tipos de letramento, como o letramento digital, o letramento ma-
conceitos científicos, o letramento científico implica uma com- temático e o letramento linguístico. A leitura de gráficos, o uso de
petência mais ampla e profunda. Ele se refere à capacidade de tecnologias digitais e a produção de textos argumentativos, por
compreender fenômenos científicos, interpretar dados, avaliar exemplo, são habilidades comuns entre essas áreas.
argumentos baseados em evidências e aplicar o raciocínio cientí- Por isso, é fundamental que o trabalho com o letramento
fico para resolver problemas do cotidiano. científico envolva abordagens interdisciplinares, integrando di-
ferentes componentes curriculares e promovendo situações de
Nesse sentido, o letramento científico inclui: aprendizagem que exijam múltiplas competências.
▪ Leitura e interpretação de textos e gráficos científicos;
▪ Capacidade de argumentar com base em evidências em- ▸Implicações para a formação docente
píricas; A promoção do letramento científico exige também a qua-
▪ Entendimento do método científico e suas etapas; lificação dos professores. É necessário que os docentes com-
▪ Capacidade de analisar criticamente informações veicula- preendam não apenas os conteúdos científicos, mas também
das pela mídia sobre ciência e tecnologia. estratégias pedagógicas que favoreçam a construção ativa do
conhecimento. Isso inclui o uso de metodologias investigativas,
Segundo a definição adotada pelo Programme for Interna- projetos interdisciplinares, ensino por resolução de problemas e
tional Student Assessment (PISA), da OCDE, o letramento cien- atividades experimentais contextualizadas.
tífico é a capacidade de envolver-se com questões relacionadas Além disso, o professor precisa ser capaz de mediar discus-
à ciência e com as ideias da ciência, como um cidadão reflexivo, sões éticas e sociais relacionadas à ciência, ajudando os estudan-
usando o conhecimento científico para explicar fenômenos, to- tes a construir argumentos com base em diferentes pontos de
mar decisões e interpretar evidências de forma crítica. vista e evidências confiáveis.
Em síntese, o letramento científico é uma competência es-
▸O papel social do letramento científico sencial para a vida no século XXI. Ele vai muito além da mera
Na sociedade atual, marcada pela presença constante da ci- memorização de conceitos científicos, englobando a capacidade
ência e da tecnologia em diferentes esferas da vida (como saúde, de pensar cientificamente, avaliar informações com base em evi-
meio ambiente, comunicação e alimentação), o letramento cien- dências e aplicar esse conhecimento em contextos reais.
tífico torna-se um requisito para a participação social informada. Promover o letramento científico é, portanto, uma respon-
A compreensão de temas como mudanças climáticas, vacinação, sabilidade educacional e social, que exige o envolvimento da es-
sustentabilidade, uso de transgênicos e inteligência artificial exi- cola, dos professores e das políticas públicas voltadas à educação
de qualidade para todos.

38
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Dimensões e competências do letramento científico b) Explicar fenômenos com base em evidências


O letramento científico não se restringe a um único tipo de Essa competência envolve o uso do conhecimento científico
habilidade ou conhecimento. Ele é multidimensional, envolven- para explicar o funcionamento de fenômenos naturais ou tecno-
do aspectos cognitivos, procedimentais, atitudinais e sociais. lógicos. Exige a mobilização de conceitos, princípios e teorias,
Para que os estudantes desenvolvam uma relação significa- bem como a articulação lógica entre causas e efeitos.
tiva com a ciência e possam agir como cidadãos críticos e infor-
mados, é necessário trabalhar um conjunto articulado de compe- c) Interpretar dados e evidências científicas
tências, que abrangem desde a compreensão de conceitos até a Implica a capacidade de ler, analisar e interpretar gráficos,
capacidade de tomar decisões fundamentadas. tabelas, esquemas e textos científicos. Os estudantes devem
conseguir extrair informações relevantes, reconhecer padrões,
▸Dimensões do letramento científico avaliar a confiabilidade dos dados e tirar conclusões coerentes.
A literatura educacional e avaliações internacionais, como o
PISA, têm contribuído para sistematizar as principais dimensões d) Avaliar informações e argumentos científicos
do letramento científico. Em geral, podemos organizá-las em três A leitura crítica da informação científica é essencial. Os alu-
eixos principais: nos precisam ser capazes de distinguir fatos de opiniões, iden-
tificar falácias ou distorções e avaliar argumentos com base em
a) Compreensão de conceitos científicos critérios de validade e evidência. Essa competência é central no
Essa dimensão envolve o domínio de conhecimentos funda- combate à desinformação e à pseudociência.
mentais das ciências naturais (como Física, Química, Biologia e
Ciências da Terra). É importante que os estudantes saibam o que e) Tomar decisões fundamentadas sobre questões científi-
são os conceitos, como eles se relacionam e como podem ser cas
aplicados para explicar fenômenos do mundo natural. Essa com- A ciência permeia muitas decisões da vida pessoal e coletiva:
preensão deve ir além da memorização, permitindo que o aluno escolher alimentos, medicamentos, fontes de energia ou práti-
reconheça padrões, relações de causa e efeito e generalizações cas ambientais. O letramento científico inclui a competência de
científicas. tomar decisões conscientes, considerando as evidências disponí-
veis, as incertezas envolvidas e os valores éticos implicados.
b) Compreensão da natureza da ciência
Aqui se incluem conhecimentos sobre o modo como a ciên- ▸Interação entre dimensões e competências
cia é construída. Os estudantes devem entender que o conheci- É importante destacar que as dimensões e competências do
mento científico é resultado de processos investigativos, que en- letramento científico não são isoladas. Elas se integram em prá-
volvem observação, formulação de hipóteses, experimentação, ticas reais de ensino e aprendizagem, e devem ser trabalhadas
análise de dados e revisão por pares. Além disso, é necessário re- de forma contextualizada. Por exemplo, ao discutir o tema das
conhecer que a ciência está sujeita a erros, revisões e limitações, vacinas, o professor pode abordar:
e que ela se desenvolve dentro de contextos históricos, sociais e ▪ Os conceitos de vírus, sistema imunológico e imunização
culturais. (dimensão conceitual);
▪ O processo de desenvolvimento de vacinas e testes clínicos
c) Aplicação do conhecimento científico em contextos di- (natureza da ciência);
versos ▪ A importância das vacinas na saúde pública e os desafios
Essa dimensão se refere à capacidade de utilizar o conhe- das campanhas de vacinação (aplicação contextual);
cimento científico em situações do cotidiano, como interpretar ▪ A análise crítica de notícias falsas e argumentos contrários
uma reportagem sobre mudanças climáticas, avaliar os riscos às vacinas (competência de avaliação crítica).
e benefícios de uma vacina ou compreender os efeitos de uma
substância química no organismo. Implica também a habilidade Esse tipo de abordagem integrada favorece o engajamento
de tomar decisões informadas sobre questões que envolvem dos estudantes e a construção de sentido em relação ao conhe-
ciência e tecnologia, considerando implicações éticas, sociais e cimento científico.
ambientais.
▸A transversalidade das competências
▸Competências associadas ao letramento científico As competências do letramento científico não são exclusivas
Além das dimensões teóricas, o letramento científico se ex- da área de Ciências da Natureza. Elas dialogam com competên-
pressa em competências práticas que os estudantes devem de- cias gerais da educação básica, como a resolução de problemas,
senvolver ao longo da escolaridade. A seguir, destacam-se algu- o pensamento crítico, a comunicação e o uso de tecnologias di-
mas das competências mais relevantes: gitais. Assim, devem ser consideradas não apenas nas aulas de
Ciências, mas também em projetos interdisciplinares, atividades
a) Identificar questões científicas extracurriculares e no uso pedagógico de recursos midiáticos e
Os alunos devem ser capazes de reconhecer quando uma tecnológicos.
questão pode ser investigada cientificamente e formular pergun- O letramento científico envolve múltiplas dimensões e com-
tas que possam ser respondidas por meio da observação e da petências, que vão da compreensão conceitual à aplicação crítica
experimentação. Isso exige o domínio de linguagem científica bá- do conhecimento em contextos reais. Sua promoção exige meto-
sica e a compreensão das limitações das abordagens empíricas. dologias de ensino ativas, integradas e contextualizadas, capazes
de engajar os estudantes em práticas científicas autênticas.

39
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Além disso, demanda um trabalho articulado entre diferen- Em todas essas unidades, a BNCC enfatiza o desenvolvi-
tes componentes curriculares e uma formação docente consis- mento de habilidades que envolvem a observação sistemática, o
tente, que valorize a ciência como instrumento de cidadania, pensamento lógico, a argumentação com base em evidências, a
autonomia e transformação social. resolução de problemas e a análise crítica da informação científi-
ca – aspectos centrais do letramento científico.
Letramento científico no contexto escolar e na BNCC
O letramento científico é um dos pilares fundamentais da ▸A ciência como prática social e cultural
formação educacional contemporânea e encontra respaldo for- Um dos avanços conceituais da BNCC é o reconhecimento da
mal nas diretrizes curriculares brasileiras. A Base Nacional Co- ciência como uma construção humana, histórica e social. A abor-
mum Curricular (BNCC), documento normativo que orienta os dagem adotada valoriza a compreensão da natureza da ciência,
currículos da Educação Básica em todo o país, reconhece a im- ou seja, a ideia de que o conhecimento científico é provisório,
portância do desenvolvimento de competências relacionadas ao está sujeito a revisões e está inserido em contextos sociais, eco-
letramento científico desde os anos iniciais do Ensino Fundamen- nômicos e culturais.
tal até o Ensino Médio. Esse entendimento é essencial para o desenvolvimento do
Nesse contexto, o papel da escola é crucial para garantir que letramento científico, pois permite que os estudantes compre-
todos os estudantes tenham acesso a práticas pedagógicas que endam:
favoreçam a apropriação crítica e significativa dos conhecimen- ▪ O papel das comunidades científicas;
tos científicos. ▪ A influência da cultura e dos valores sociais na produção do
conhecimento;
▸O letramento científico como direito de aprendizagem ▪ As relações entre ciência, tecnologia, meio ambiente e so-
A BNCC estabelece que os estudantes devem ter acesso à ci- ciedade (STS).
ência como linguagem e como forma de compreender e atuar no
mundo. O documento apresenta o letramento científico não ape- A BNCC, ao tratar de temas contemporâneos como mudan-
nas como uma habilidade técnica, mas como parte de uma for- ças climáticas, biotecnologia, tecnologias digitais e saúde públi-
mação integral que visa o exercício da cidadania, o respeito aos ca, reforça a importância de desenvolver competências que per-
direitos humanos e a capacidade de tomar decisões informadas. mitam aos alunos analisar criticamente os impactos da ciência
na vida cotidiana.
Entre os direitos de aprendizagem assegurados pela BNCC
no componente de Ciências da Natureza, destaca-se a capacida- ▸Práticas pedagógicas e metodologias no contexto escolar
de de: Para que o letramento científico se efetive no cotidiano es-
▪ Compreender os fenômenos naturais e os processos tecno- colar, é necessário investir em práticas pedagógicas que promo-
lógicos com base em princípios científicos; vam a construção ativa do conhecimento. A BNCC incentiva o uso
▪ Utilizar conhecimentos científicos para argumentar, tomar de metodologias como:
decisões e agir responsavelmente em questões sociais, ambien- ▪ Investigação científica escolar, em que os alunos desenvol-
tais e éticas; vem perguntas, levantam hipóteses, realizam experimentos e
▪ Participar de práticas investigativas e experimentais que constroem explicações;
envolvam observação, formulação de hipóteses, análise de da- ▪ Estudos de caso e resolução de problemas, que permitem
dos e comunicação de resultados. aplicar conceitos científicos em situações reais ou simuladas;
▪ Projetos interdisciplinares, articulando a ciência com ou-
Esses objetivos estão diretamente ligados às competências tras áreas, como Matemática, Língua Portuguesa, Geografia e
centrais do letramento científico, conforme discutido anterior- Educação Ambiental;
mente, e reforçam a necessidade de abordagens didáticas que ▪ Uso crítico da mídia e de recursos digitais, como vídeos,
transcendam a memorização de conteúdos. podcasts, infográficos e simulações interativas.

▸Organização do ensino de ciências na BNCC Essas metodologias favorecem o desenvolvimento das di-
A BNCC estrutura o ensino de Ciências da Natureza em três mensões do letramento científico e ampliam o repertório cogni-
grandes unidades temáticas, que se desdobram em habilidades tivo e cultural dos estudantes, tornando o ensino mais significati-
específicas a serem desenvolvidas ao longo dos anos escolares: vo e conectado às suas realidades.
▪ Matéria e Energia
▪ Vida e Evolução ▸Desafios e perspectivas para a efetivação do letramento
▪ Terra e Universo científico na escola
Embora o letramento científico esteja previsto nas diretrizes
A organização por unidades temáticas favorece a construção curriculares, sua implementação efetiva enfrenta desafios signi-
progressiva do conhecimento científico, articulando conceitos, ficativos, como:
procedimentos e atitudes. Além disso, permite a integração en- ▪ Formação inicial e continuada de professores ainda distan-
tre diferentes áreas do saber científico, promovendo uma abor- te das abordagens investigativas e interdisciplinares;
dagem mais ampla e contextualizada dos conteúdos. ▪ Escassez de recursos didáticos, laboratórios e materiais de
apoio;
▪ Dificuldade de articulação entre os componentes curricula-
res e de gestão do tempo escolar;

40
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

▪ Pressões por resultados em avaliações externas que ainda zem um compromisso legal e moral de cada país para com a in-
valorizam conteúdos isolados. clusão educacional, e são fundamentais para o desenvolvimento
de práticas pedagógicas que respeitem a diversidade.
Superar esses desafios exige políticas públicas integradas,
investimento na valorização docente e incentivo à inovação pe- Avanços na Legislação Brasileira
dagógica. O trabalho colaborativo entre professores, gestores No Brasil, a Constituição Federal de 1988, a Lei de Diretri-
e comunidade escolar é fundamental para criar ambientes de zes e Bases da Educação Nacional (LDB), o Estatuto da Criança e
aprendizagem que favoreçam o desenvolvimento do letramento do Adolescente (ECA) e o Plano Nacional de Educação (PNE) são
científico de forma equitativa e transformadora. instrumentos legais que reforçam a necessidade de inclusão edu-
O letramento científico ocupa lugar central nas orientações cacional. A LDB, em seu artigo 58, estabelece que a educação es-
da BNCC e deve ser promovido como um direito de todos os es- pecial deve ser oferecida de forma integrada em todos os níveis
tudantes, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. A escola de ensino, com serviços de apoio que atendam às necessidades
é o espaço privilegiado para garantir esse acesso, por meio de individuais dos alunos. Além disso, o Plano Nacional de Educação
práticas pedagógicas que valorizem a curiosidade, o pensamento (PNE) de 2014 incluiu, entre suas metas, a ampliação do acesso e
crítico e a capacidade de agir com responsabilidade diante dos a universalização da educação para alunos com deficiência entre
desafios do mundo contemporâneo. 4 e 17 anos, estabelecendo prazos e estratégias específicas para
Avançar nessa direção implica repensar o ensino de Ciências, o cumprimento dessas metas.
fortalecer a formação docente e construir propostas curriculares A Educação Especial e Inclusiva na Prática Escolar
coerentes com os princípios de uma educação científica cidadã. A escola inclusiva deve ir além da mera presença do aluno
em sala de aula, promovendo uma integração efetiva que garan-
ta a participação e o aprendizado de todos. Isso requer adap-
XII - EDUCAÇÃO ESPECIAL E INCLUSIVA tações curriculares, metodologias diferenciadas e recursos de
tecnologia assistiva, que contribuam para a autonomia e o de-
A educação especial e inclusiva é uma área que visa garantir senvolvimento do estudante. Nessa perspectiva, a atuação do
que todos os indivíduos tenham acesso à educação de qualidade, professor e a formação da equipe pedagógica são fundamentais,
respeitando suas necessidades e particularidades. Este campo pois o profissional deve ser capaz de identificar as necessidades
educacional, que se consolidou com o avanço dos direitos huma- de cada aluno e aplicar as estratégias de ensino mais adequadas.
nos e das políticas públicas de inclusão, busca assegurar que a Além disso, é importante que a comunidade escolar, incluin-
escola seja um ambiente acessível e acolhedor para alunos com do gestores, professores, funcionários, famílias e alunos, esteja
deficiência, transtornos globais do desenvolvimento, altas habili- comprometida com a construção de um ambiente inclusivo. Essa
dades ou superdotação e outras necessidades específicas. conscientização coletiva é essencial para combater barreiras ati-
A Educação Especial e a Educação Inclusiva apresentam tudinais, como o preconceito e a discriminação, e para promover
abordagens distintas, mas complementares. Enquanto a educa- uma cultura escolar que valorize e celebre a diversidade.
ção especial é voltada ao atendimento das necessidades educa- A educação especial e inclusiva, portanto, representa uma
cionais específicas de determinados grupos, a educação inclusiva mudança de paradigma no papel da escola, que deixa de ser um
amplia essa visão, defendendo o direito de todos à aprendizagem espaço seletivo e excludente para tornar-se um ambiente de-
em escolas regulares. Em um contexto inclusivo, a diversidade mocrático, onde o direito à educação é assegurado para todos.
é entendida como uma característica natural do ser humano, e, No Brasil, os avanços legislativos e a influência de convenções
por isso, a escola deve adaptar-se para atender aos diferentes internacionais têm sido fundamentais para estruturar essa trans-
perfis de seus estudantes, promovendo assim uma educação formação.
equitativa. Contudo, a implementação da educação inclusiva ainda en-
frenta desafios, como a falta de formação específica para os pro-
— A Contribuição dos Movimentos Internacionais fissionais da educação, a inadequação de infraestrutura escolar
A consolidação de uma perspectiva inclusiva é fortalecida e a resistência cultural. Para que a inclusão ocorra de maneira
por marcos internacionais que influenciaram as políticas públicas plena, é necessário um compromisso contínuo e uma visão de
educacionais no Brasil e em outros países. A Declaração de Sala- que todos os alunos podem aprender e contribuir para uma so-
manca (1994), por exemplo, representa um divisor de águas nes- ciedade mais justa e plural.
se contexto, pois reforça que a inclusão escolar é uma questão
de direito humano e igualdade de oportunidades. A declaração — Conceitos Fundamentais em Educação Especial e Inclu-
sustenta que todas as crianças, independentemente de suas con- siva
dições, devem aprender juntas, sempre que possível, em escolas Para compreender o campo da educação especial e inclusi-
regulares que ofereçam o suporte necessário para seu desenvol- va, é essencial conhecer alguns conceitos-chave que fundamen-
vimento. tam essa prática. Esses conceitos abordam tanto os princípios e
Outro marco importante é a Convenção sobre os Direitos das objetivos da educação especial quanto as diretrizes que orientam
Pessoas com Deficiência, ratificada pelo Brasil em 2008 com sta- a educação inclusiva, fornecendo a base para políticas educacio-
tus de emenda constitucional, que reforça o direito das pessoas nais, metodologias de ensino e estratégias de apoio ao desenvol-
com deficiência a uma educação inclusiva no sistema regular de vimento de todos os alunos.
ensino. Essas diretrizes internacionais, ao serem adotadas, tra-

41
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Educação Especial – Desenvolvimento da Autonomia e do Protagonismo do


É a modalidade de ensino que atende às necessidades edu- Aluno: Em um contexto inclusivo, cada aluno é incentivado a de-
cacionais específicas de estudantes que, devido a alguma defi- senvolver suas potencialidades e a participar ativamente de sua
ciência, transtorno do desenvolvimento ou altas habilidades/ aprendizagem.
superdotação, requerem um apoio diferenciado para seu apren-
dizado e inclusão escolar. A educação especial pode ocorrer tan- Inclusão como Direito Humano:
to em escolas regulares quanto em instituições especializadas, e O direito à educação inclusiva é amplamente reconhecido
sua atuação deve ser integrada ao sistema educacional comum, por convenções internacionais, como a Convenção sobre os Di-
conforme orienta a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacio- reitos das Pessoas com Deficiência, ratificada pelo Brasil, que de-
nal (LDB). fine a educação inclusiva como um direito humano fundamental.
Esse direito também é assegurado pela Declaração de Salamanca
Objetivos da Educação Especial: (1994), que propõe que as escolas regulares atendam a todos os
- Garantir o direito à educação para todos, respeitando as estudantes, promovendo a inclusão social e educacional.
particularidades de cada estudante.
- Oferecer atendimento educacional especializado (AEE), Necessidades Educacionais Específicas (NEE)
voltado a promover a autonomia e a integração do aluno ao con- É um termo abrangente que se refere a qualquer tipo de ne-
texto escolar. cessidade adicional de apoio que um aluno possa ter para que
- Desenvolver estratégias pedagógicas específicas e recursos possa acompanhar o processo educacional de forma plena. As
que facilitem o acesso ao currículo escolar. NEE podem ser decorrentes de diversas condições, como defi-
ciência, dificuldades temporárias de saúde, transtornos emocio-
Público-alvo da Educação Especial: nais ou sociais, ou ainda de contextos socioeconômicos e cultu-
Segundo o Decreto nº 7.611/2011, a educação especial des- rais que impactam o desenvolvimento acadêmico do aluno.
tina-se a alunos com:
1. Deficiência física, sensorial (auditiva ou visual) ou intelec- Exemplos de adaptações para atender a NEE incluem:
tual. - Modificações no currículo e flexibilização de conteúdos e
2. Transtornos globais do desenvolvimento, como o espectro métodos.
autista. - Suporte especializado, como intérpretes de Libras para alu-
3. Altas habilidades/superdotação. nos surdos.
- Tecnologia assistiva, como softwares de leitura para alunos
O atendimento educacional especializado (AEE) é uma es- com deficiência visual.
tratégia fundamental para a educação especial. Ele ocorre no - Ambientes inclusivos, com infraestrutura física acessível.
contraturno escolar e é realizado em salas de recursos multifun-
cionais, onde os alunos têm acesso a materiais adaptados e re- Atendimento Educacional Especializado (AEE)
cursos de tecnologia assistiva. O AEE trabalha em conjunto com O Atendimento Educacional Especializado (AEE) é um ser-
o ensino regular, complementando-o e reforçando a participação viço específico voltado para estudantes da educação especial,
ativa do aluno na escola. oferecido no contraturno e com o objetivo de complementar e
apoiar o ensino regular. Este serviço está disponível em salas de
Educação Inclusiva recursos multifuncionais e inclui recursos pedagógicos adapta-
A Educação Inclusiva é uma abordagem educacional que dos, como:
reconhece a diversidade como uma característica intrínseca da – Tecnologias Assistivas: Aparelhos, ferramentas e progra-
sociedade e promove a participação de todos os alunos, sem ex- mas que auxiliam a comunicação e o aprendizado, como pran-
ceções, na escola regular. A educação inclusiva vai além do aten- chas de comunicação e softwares de leitura.
dimento de alunos com deficiência, abrangendo qualquer estu- – Estratégias Pedagógicas: Técnicas que facilitam o desen-
dante que, por motivo de condição social, cultural, de gênero ou volvimento de habilidades e conhecimentos de acordo com as
saúde, necessite de adaptações e apoio para uma experiência necessidades específicas de cada aluno.
educacional plena. – Material Adaptado: Materiais, como livros em braille, am-
pliados ou em formato digital, que facilitam o acesso ao conteú-
Princípios da Educação Inclusiva: do educacional.
– Direito à Educação de Qualidade para Todos: A educação
inclusiva baseia-se no princípio de que a escola deve atender a O AEE também realiza a elaboração de planos educacionais
todos os alunos de forma equitativa, eliminando as barreiras que individualizados (PEI), que ajustam os objetivos de ensino às ca-
possam dificultar sua aprendizagem. pacidades e ao ritmo de aprendizagem do aluno. Esses planos
– Valorização da Diversidade: A educação inclusiva promove são fundamentais para garantir que cada estudante receba o
uma visão positiva da diversidade humana, enfatizando que cada suporte necessário para progredir em seu processo de aprendi-
estudante contribui para o enriquecimento do ambiente escolar. zagem.
– Educação em Escolas Regulares: A inclusão ocorre, prefe-
rencialmente, em escolas comuns, com adaptações pedagógicas Tecnologia Assistiva
e físicas que garantam a acessibilidade e a integração de todos. A Tecnologia Assistiva é um conjunto de recursos e serviços
que possibilitam a ampliação das habilidades funcionais de pes-
soas com deficiência, promovendo sua independência e inclusão.

42
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

No contexto escolar, a tecnologia assistiva auxilia na superação


de barreiras físicas, sensoriais ou cognitivas, oferecendo ferra- “O dever do Estado com a educação será efetivado mediante
mentas para facilitar o acesso ao conteúdo curricular. a garantia de atendimento educacional especializado aos porta-
dores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensi-
Exemplos de tecnologias assistivas incluem: no.”
- Softwares de leitura de tela para alunos com deficiência
visual. Esse princípio constitucional é a base para a implementação
- Aparelhos auditivos e amplificadores de som para alunos de políticas educacionais inclusivas e afirma o compromisso do
com deficiência auditiva. Estado em assegurar os recursos necessários para que pessoas
- Pranchas de comunicação alternativa para alunos com difi- com deficiência tenham acesso à educação em escolas regula-
culdades de fala ou comunicação. res, com atendimento educacional especializado (AEE) quando
necessário.
A implementação da tecnologia assistiva requer uma análise
das necessidades de cada aluno e o treinamento dos professores Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) – Lei
para o uso adequado dessas ferramentas no cotidiano escolar. nº 9.394/1996
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) é um
Adaptação Curricular dos principais instrumentos normativos da educação no Brasil.
É o processo de ajuste do conteúdo, dos métodos de ensino Aprovada em 1996, a LDB consolida a educação especial como
e das avaliações, de modo que o currículo escolar se torne aces- uma modalidade de ensino que deve perpassar todos os níveis
sível a todos os estudantes. As adaptações curriculares podem e etapas da educação básica, promovendo a inclusão e o atendi-
ser estruturais ou pontuais, dependendo das características e das mento especializado.
necessidades do aluno. Algumas formas de adaptação incluem: Os principais artigos que tratam da educação especial e in-
clusiva são:
– Flexibilização do conteúdo: Modificação dos temas ou – Artigo 58: Define a educação especial como uma moda-
adequação dos conteúdos para o nível de compreensão do alu- lidade que deve ser oferecida de forma integrada à educação
no. regular, com apoio pedagógico especializado para os estudantes
– Modificação nas avaliações: Alteração do formato das pro- que necessitam.
vas, oferecendo mais tempo ou outros meios de avaliação. – Artigo 59: Garante que os sistemas de ensino devem pro-
– Ajustes metodológicos: Utilização de diferentes estraté- porcionar currículos, métodos, recursos e organização especí-
gias pedagógicas, como atividades práticas, jogos educativos e ficos para atender às necessidades dos alunos com deficiência,
trabalho em grupo, para garantir que o conteúdo seja aprendido transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou
de forma significativa. superdotação.
– Artigo 60: Prevê o financiamento para a educação especial,
Os conceitos fundamentais da educação especial e inclusiva incluindo a oferta de serviços e recursos que viabilizem o atendi-
evidenciam o compromisso com uma educação que valorize a di- mento educacional especializado.
versidade e promova a equidade. Ao reconhecer a importância
da adaptação curricular, do atendimento educacional especiali- A LDB, portanto, não apenas estabelece a educação especial
zado e das tecnologias assistivas, o sistema educacional brasilei- como um direito, mas também define os recursos e adaptações
ro se compromete com a inclusão efetiva, garantindo o direito de necessários para que a inclusão ocorra de forma efetiva e respei-
todos ao desenvolvimento educacional e social em um ambiente te as particularidades dos alunos com necessidades educacionais
que respeita e acolhe a singularidade de cada aluno. específicas.

— Legislação e Políticas Públicas em Educação Especial e Plano Nacional de Educação (PNE) – Lei nº 13.005/2014
Inclusiva O Plano Nacional de Educação (PNE) é um documento estra-
A legislação e as políticas públicas são essenciais para asse- tégico que define diretrizes, metas e estratégias para a educação
gurar o direito à educação especial e inclusiva, proporcionando brasileira, com validade de dez anos. Em vigor desde 2014, o PNE
diretrizes para que todas as crianças e adolescentes, incluindo traz diretrizes para o desenvolvimento da educação inclusiva,
aqueles com necessidades educacionais específicas, tenham destacando-se especialmente a Meta 4, que estabelece:
acesso a uma educação de qualidade. No Brasil, diversos mar-
cos legais e documentos internacionais servem de base para o “Universalizar, para a população de 4 (quatro) a 17 (dezesse-
desenvolvimento e a implementação de práticas educacionais te) anos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento
inclusivas. e altas habilidades ou superdotação, o acesso à educação básica
e ao atendimento educacional especializado, preferencialmente
Constituição Federal de 1988 na rede regular de ensino, com a garantia de sistema educacional
A Constituição Federal de 1988 estabeleceu, pela primeira inclusivo.”
vez na história do Brasil, o direito à educação como uma garantia
fundamental para todos os cidadãos, promovendo a inclusão das Essa meta propõe a universalização do acesso à educação
pessoas com deficiência e assegurando a igualdade de condições para estudantes com deficiência e a ampliação da oferta de AEE
para o acesso e permanência na escola. No artigo 208, inciso III, em todos os municípios, garantindo que as escolas estejam pre-
a Constituição define que: paradas para receber esses alunos. O PNE também inclui outras

43
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

metas que incentivam a formação continuada de professores - Matrícula de alunos com deficiência em classes comuns de
para a educação inclusiva e a adequação da infraestrutura esco- escolas regulares, promovendo a inclusão social e acadêmica.
lar, promovendo um ambiente acessível. - Oferta de Atendimento Educacional Especializado (AEE) no
contraturno, para atender às especificidades dos alunos.
Decreto nº 7.611/2011 - Incentivo à formação continuada de professores em práti-
O Decreto nº 7.611/2011 regulamenta a oferta de educação cas inclusivas, visando qualificar a atuação dos profissionais que
especial e o atendimento educacional especializado (AEE) no trabalham com estudantes com necessidades educacionais es-
Brasil. Ele estabelece que o AEE deve ser oferecido no contra- pecíficas.
turno escolar, de forma complementar ou suplementar, visando - Parcerias com instituições especializadas para complemen-
atender às especificidades dos estudantes com deficiência. tar o atendimento dos alunos, quando necessário.

O decreto define o AEE como: Essa política estabeleceu bases concretas para que a edu-
cação inclusiva se tornasse uma prática integrada ao cotidiano
“Conjunto de atividades, recursos de acessibilidade e pe- das escolas brasileiras, promovendo uma visão de que todos os
dagógicos organizados institucionalmente, prestado de forma alunos têm direito a aprender juntos.
complementar ou suplementar à formação dos alunos no ensino
regular.” Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei Brasileira de Inclu-
são) – Lei nº 13.146/2015
Além disso, o decreto incentiva a criação de salas de recur- A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI),
sos multifuncionais, onde o AEE é oferecido, e a formação de também conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, é
professores para atender às necessidades dos alunos da educa- uma legislação que consolida os direitos das pessoas com defi-
ção especial. Ele também propõe a articulação entre as redes de ciência em várias áreas, incluindo a educação. A LBI, em seu ar-
ensino e os serviços de saúde e assistência social para fortalecer tigo 28, define que:
o suporte oferecido aos estudantes e suas famílias.
“É dever do Estado, da família, da comunidade escolar e da
Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência sociedade assegurar, criar, desenvolver, implementar, incentivar,
(ONU, 2006) acompanhar e avaliar uma política de educação inclusiva em to-
A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, dos os níveis e modalidades, ao longo da vida.”
adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2006 e
ratificada pelo Brasil com status de emenda constitucional em A LBI reforça a obrigatoriedade de que todas as instituições
2008, é um marco fundamental para a educação inclusiva. Essa de ensino, públicas e privadas, ofereçam condições de acessibili-
convenção defende o direito das pessoas com deficiência a uma dade e não promovam qualquer tipo de discriminação. Ela prevê
educação inclusiva e de qualidade, sem discriminação. adaptações razoáveis e o uso de tecnologias assistivas como di-
reito do estudante, visando garantir a plena participação e inclu-
No artigo 24, a Convenção estabelece: são na vida escolar.
O conjunto de legislações e políticas públicas voltadas para
“Os Estados Partes devem assegurar que as pessoas com de- a educação especial e inclusiva reflete o compromisso do Bra-
ficiência possam ter acesso a uma educação inclusiva em todos sil com o direito universal à educação e a valorização da diver-
os níveis e ao longo da vida, em ambientes que maximizem o de- sidade. Esses marcos legais são fundamentais para orientar as
senvolvimento acadêmico e social.” escolas e redes de ensino na construção de práticas pedagógicas
inclusivas, e representam passos importantes para uma socieda-
Esse compromisso internacional obriga o Brasil a adotar po- de mais justa e equitativa. Contudo, a implementação dessas po-
líticas públicas inclusivas, garantindo que o sistema educacional líticas ainda enfrenta desafios que exigem um esforço contínuo
seja capaz de atender às necessidades de todos os estudantes. A de todos os atores envolvidos na educação.
Convenção reforça o dever do Estado de promover a formação
de professores, adaptar o currículo e adotar tecnologias assisti- — Práticas Pedagógicas Inclusivas
vas para garantir o acesso e a permanência dos alunos com defi- As práticas pedagógicas inclusivas são estratégias e metodo-
ciência em escolas regulares. logias adaptadas para que todos os estudantes, especialmente
aqueles com necessidades educacionais específicas (NEE), pos-
Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da sam aprender e participar efetivamente do ambiente escolar.
Educação Inclusiva (2008) Essas práticas buscam eliminar barreiras que dificultam o acesso
A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da e a permanência dos alunos na escola regular, promovendo a in-
Educação Inclusiva, publicada pelo Ministério da Educação em clusão e valorizando a diversidade.
2008, é um documento que orienta as redes de ensino para a
implementação de práticas inclusivas. A política tem como ob- Adaptação Curricular
jetivo principal assegurar o direito ao ensino regular para todos A adaptação curricular consiste em ajustes e modificações
os alunos, com apoio especializado, e promover a transformação no currículo escolar, incluindo métodos, conteúdos, objetivos e
das escolas para que sejam inclusivas e acessíveis. avaliações, com o objetivo de tornar o ensino mais acessível para
Entre as principais diretrizes dessa política estão: alunos com necessidades específicas. Essas adaptações são rea-

44
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

lizadas para garantir que todos os alunos possam acompanhar as Atendimento Educacional Especializado (AEE)
atividades escolares e atingir os objetivos propostos, respeitando O Atendimento Educacional Especializado (AEE) é um ser-
seus ritmos e possibilidades de aprendizagem. viço complementar ao ensino regular, oferecido geralmente em
salas de recursos multifuncionais, que disponibilizam recursos
Existem dois tipos principais de adaptação curricular: pedagógicos e tecnológicos adaptados para atender alunos com
– Adaptações de acesso: São modificações no ambiente deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habi-
físico e nos recursos utilizados para garantir que o aluno tenha lidades/superdotação.
acesso aos conteúdos. Exemplo: material em braille, legendas O AEE é oferecido no contraturno escolar e inclui atividades
em vídeo e adequação de mobiliário para alunos com deficiência como:
motora. – Desenvolvimento de habilidades sociais: Atividades que
– Adaptações significativas ou curriculares: São modifica- promovem a interação social e a comunicação.
ções nos objetivos de aprendizagem e nas atividades pedagógi- – Estratégias de alfabetização e desenvolvimento cognitivo:
cas. Exemplo: a simplificação de conceitos ou o uso de métodos Técnicas para apoiar o aprendizado dos conteúdos escolares.
alternativos de ensino, como jogos e atividades lúdicas. – Exercícios de autonomia: Atividades que auxiliam o aluno
a desenvolver sua independência.
A adaptação curricular é flexível e personalizada, conside-
rando as especificidades de cada aluno, e deve ser revisada con- O AEE complementa as atividades da sala de aula regular e,
tinuamente conforme a evolução do estudante. por isso, é realizado em estreita colaboração com os professores,
garantindo uma abordagem integrada que favorece o desenvol-
Plano Educacional Individualizado (PEI) vimento pleno do aluno.
O Plano Educacional Individualizado (PEI) é um documento
que organiza as metas e estratégias pedagógicas específicas para Metodologias Ativas e Participativas
cada aluno com necessidades especiais. Ele é desenvolvido por As metodologias ativas incentivam os alunos a serem pro-
uma equipe multidisciplinar (professores, coordenadores, psico- tagonistas de seu aprendizado, participando ativamente das ati-
pedagogos e, quando necessário, profissionais da saúde) e inclui vidades. Essas metodologias são eficazes no contexto inclusivo
as seguintes informações: porque se adaptam às diferentes formas de aprender, valorizan-
– Perfil do aluno: Suas habilidades, interesses e necessida- do as contribuições individuais e promovendo a interação entre
des específicas. os alunos.
– Objetivos de aprendizagem: Metas a serem alcançadas Algumas metodologias ativas que podem ser aplicadas em
durante o período letivo. práticas inclusivas incluem:
– Estratégias pedagógicas: Métodos e recursos que serão – Aprendizagem por projetos: Os alunos trabalham em
utilizados para atender as necessidades do aluno. equipe para resolver problemas práticos, o que permite que dife-
– Avaliação e acompanhamento: Critérios para avaliar o rentes habilidades e conhecimentos sejam valorizados.
progresso do aluno e ajustar o plano conforme necessário. – Ensino por pares: Estudantes auxiliam colegas em ativida-
des, promovendo a cooperação e a inclusão.
O PEI orienta o professor a planejar atividades e interven- – Rotação por estações: A sala de aula é organizada em esta-
ções de acordo com o perfil de cada aluno, promovendo um en- ções com atividades diferentes, e os alunos se movem entre elas
sino personalizado e mais eficaz. conforme seu ritmo e preferência, permitindo um aprendizado
mais personalizado.
Uso de Tecnologia Assistiva – Gamificação: Uso de elementos de jogos em atividades
A tecnologia assistiva refere-se a dispositivos, recursos e téc- pedagógicas, que incentiva o engajamento e permite adaptações
nicas que auxiliam os alunos com deficiência a superar barreiras conforme as necessidades dos alunos.
físicas, sensoriais ou cognitivas no ambiente escolar. Esses recur-
sos facilitam o acesso ao conteúdo e promovem a autonomia dos Essas metodologias promovem a inclusão ao estimular a
estudantes. cooperação e ao valorizar as diversas formas de pensar e resol-
ver problemas, além de criar um ambiente acolhedor e dinâmico.
Exemplos de tecnologias assistivas incluem:
- Softwares de leitura de tela para alunos com deficiência Avaliação Inclusiva
visual. A avaliação inclusiva é uma abordagem que considera as
- Aparelhos auditivos e sistemas de FM para alunos com de- particularidades de cada aluno e avalia o seu progresso e de-
ficiência auditiva. senvolvimento de forma individualizada, respeitando o ritmo de
- Teclados adaptados e mouses especiais para alunos com cada um. A avaliação inclusiva foca menos em comparações com
deficiência motora. outros alunos e mais na evolução pessoal do estudante.
- Pranchas de comunicação alternativa para alunos com di- Principais características da avaliação inclusiva:
ficuldades na fala. – Flexibilidade nos métodos de avaliação: Uso de avaliações
orais, práticas e observacionais, adaptando-se às necessidades
O uso dessas ferramentas exige a capacitação dos professo- de cada aluno.
res e o suporte técnico adequado para que a tecnologia realmen- – Feedback contínuo: Proporciona retornos constantes so-
te beneficie o processo de aprendizagem. bre o progresso, ajudando o aluno a compreender suas conquis-
tas e áreas de melhoria.

45
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

– Critérios ajustados: Estabelece objetivos e critérios realis- – Perspectiva: Investir em programas de formação conti-
tas, levando em consideração o PEI e as adaptações curriculares. nuada e em cursos de especialização em educação inclusiva é
fundamental. A formação de professores deve incluir o desen-
A avaliação inclusiva permite que o professor acompanhe o volvimento de competências em metodologias diferenciadas,
progresso individual de cada aluno e ajuste o planejamento, vi- atendimento educacional especializado (AEE) e utilização de tec-
sando ao desenvolvimento integral do estudante. nologias assistivas. Além disso, a criação de redes colaborativas
de profissionais da educação pode facilitar o intercâmbio de ex-
Formação e Capacitação de Professores periências e práticas bem-sucedidas, promovendo uma aprendi-
A capacitação de professores é fundamental para a imple- zagem coletiva e constante.
mentação de práticas pedagógicas inclusivas. A formação conti-
nuada permite que os profissionais desenvolvam as habilidades Infraestrutura Escolar Inadequada
necessárias para lidar com a diversidade e implementar estraté- – Desafio: A infraestrutura física e tecnológica das esco-
gias que facilitem o aprendizado de todos. las ainda representa uma barreira significativa para a inclusão.
A formação para práticas inclusivas deve abordar temas Muitas instituições de ensino carecem de instalações acessíveis,
como: como rampas, banheiros adaptados e equipamentos de tecnolo-
- Desenvolvimento de habilidades específicas para o traba- gia assistiva. Além disso, a falta de salas de recursos multifuncio-
lho com alunos com deficiência, transtornos do desenvolvimento nais impede que os alunos tenham acesso a atividades do AEE.
e altas habilidades. – Perspectiva: Para que a educação inclusiva seja efetiva,
- Uso de recursos pedagógicos e tecnologias assistivas. é necessário que as escolas contem com infraestrutura acessí-
- Técnicas de adaptação curricular e metodologias inclusivas. vel e adequações arquitetônicas. A ampliação de investimentos
públicos é essencial para que todas as instituições de ensino se
– Gestão de sala de aula inclusiva: Como promover um am- adaptem às necessidades dos alunos com deficiência. Além dis-
biente acolhedor e que favoreça a participação de todos os alu- so, a implementação de políticas de fiscalização e de incentivo
nos. para o cumprimento das normas de acessibilidade contribui para
A capacitação constante dos professores favorece a criação garantir que o ambiente escolar seja verdadeiramente inclusivo
de um ambiente escolar inclusivo, em que todos se sentem aco- e acessível.
lhidos e têm oportunidades reais de aprendizado e crescimento.
As práticas pedagógicas inclusivas são fundamentais para Recursos e Suporte Especializado
que o processo educacional contemple a diversidade presente – Desafio: Muitos sistemas educacionais não dispõem de
nas escolas. Ao adotar adaptações curriculares, uso de tecnolo- recursos adequados para atender a todos os estudantes com ne-
gias assistivas, metodologias ativas e avaliação inclusiva, as esco- cessidades especiais. Isso inclui a falta de materiais pedagógicos
las podem garantir que todos os alunos, independentemente de adaptados, tecnologias assistivas e profissionais especializados,
suas necessidades, possam participar do ensino e desenvolver como intérpretes de Libras e mediadores para estudantes que
suas potencialidades. necessitam de apoio específico em sala de aula. Além disso, o
A efetiva implementação dessas práticas depende, tam- atendimento educacional especializado (AEE) ainda é insuficien-
bém, do envolvimento da comunidade escolar e da capacitação te em muitas localidades.
contínua dos professores, criando um ambiente acolhedor e de – Perspectiva: É importante que os sistemas de ensino
respeito às diferenças. Essas práticas pedagógicas, aliadas às po- ampliem o acesso a recursos especializados e forneçam supor-
líticas públicas inclusivas, representam um passo importante na te técnico e pedagógico para atender as diversas necessidades
construção de uma educação realmente acessível e igualitária. dos alunos. A criação de parcerias entre o sistema educacional
e entidades especializadas, bem como a implementação de po-
— Desafios e Perspectivas para a Educação Inclusiva líticas de financiamento específicas para a aquisição de recursos
A implementação de uma educação inclusiva é fundamental inclusivos, pode contribuir para um atendimento mais efetivo. A
para a construção de uma sociedade mais equitativa e acolhedo- presença de equipes multiprofissionais, que incluam psicólogos,
ra. No entanto, a concretização desse ideal enfrenta uma série de terapeutas ocupacionais e assistentes sociais, é outra perspec-
desafios práticos, culturais e estruturais. Estes desafios exigem tiva importante para fortalecer o suporte às escolas e famílias.
estratégias, políticas e um esforço conjunto entre governos, edu-
cadores e comunidade para superá-los. Currículo Rígido e Dificuldades na Adaptação Curricular
– Desafio: A estrutura curricular tradicional e muitas vezes
Capacitação e Formação de Professores rígida dificulta a inclusão, pois não contempla a diversidade de
– Desafio: A capacitação dos professores é uma das princi- estilos e ritmos de aprendizagem. Professores podem ter dificul-
pais dificuldades para a educação inclusiva. Muitos educadores dades em adaptar o conteúdo e as avaliações, de forma que elas
não possuem formação específica ou treinamento adequado atendam às necessidades individuais dos alunos.
para atender às necessidades dos alunos com deficiência, trans- – Perspectiva: É necessário repensar o currículo escolar e in-
tornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdo- troduzir estratégias de flexibilização e adaptação curricular. Essas
tação. Essa falta de preparo compromete a qualidade do ensino, adaptações devem permitir que os conteúdos sejam abordados
pois os profissionais podem não estar prontos para adotar prá- de maneira que respeite as particularidades de cada estudante,
ticas pedagógicas inclusivas, realizar adaptações curriculares ou promovendo o desenvolvimento de suas habilidades e compe-
utilizar recursos de tecnologia assistiva. tências. A adoção de metodologias ativas e o incentivo ao uso de

46
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

materiais pedagógicos diversificados e atividades diferenciadas Ao investir em formação de professores, em infraestrutura


facilitam o aprendizado e favorecem a inclusão efetiva no pro- adequada, em recursos especializados e no fortalecimento de
cesso de ensino. políticas públicas eficazes, é possível promover uma educação
verdadeiramente inclusiva, onde todos os estudantes tenham
Resistência Cultural e Barreiras Atitudinais oportunidades iguais de aprender e se desenvolver.
– Desafio: A inclusão ainda enfrenta barreiras culturais,
como preconceito e estigmatização em relação a alunos com de-
ficiência ou necessidades educacionais específicas. Essas barrei-
XIII - LIBRAS, CULTURA E IDENTIDADE SURDA
ras podem se manifestar entre professores, gestores, alunos e
até mesmo as famílias, gerando um ambiente pouco acolhedor Libras como língua reconhecida e suas especificidades
para a diversidade. linguísticas
– Perspectiva: A conscientização e sensibilização de toda a A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é a principal forma de
comunidade escolar são fundamentais para superar essas bar- comunicação utilizada pela comunidade surda no Brasil e pos-
reiras. Promover campanhas de sensibilização, formações e pro- sui status legal como meio de expressão e comunicação. Seu re-
jetos que incentivem o respeito à diversidade contribui para a conhecimento como língua oficial de uso na comunicação com
criação de uma cultura escolar mais inclusiva. A educação para surdos representou um marco histórico na garantia de direitos
a cidadania e o desenvolvimento de uma cultura de respeito às linguísticos e educacionais dessa população.
diferenças são essenciais para que o ambiente escolar acolha e
valorize todos os alunos. ▸Reconhecimento legal da Libras
O reconhecimento oficial da Libras ocorreu por meio da
Participação da Família e da Comunidade Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que afirma, em seu arti-
– Desafio: A falta de envolvimento da família e da comuni- go 1º, que “é reconhecida como meio legal de comunicação e
dade escolar pode dificultar o processo inclusivo. Famílias que expressão a Língua Brasileira de Sinais - Libras e outros recursos
desconhecem os direitos dos alunos com deficiência ou que têm de expressão a ela associados”. Essa lei foi regulamentada pelo
preconceitos em relação à inclusão podem desestimular ou até Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005, que estabelece
obstruir o desenvolvimento dos alunos em ambiente regular. diretrizes para o uso da Libras em instituições públicas, no ensino
– Perspectiva: Fortalecer a parceria entre escola, família e e na formação de profissionais intérpretes.
comunidade é fundamental para a construção de um ambiente A partir dessa base legal, Libras passou a ser compreendida
inclusivo. A escola deve manter um diálogo aberto com as fa- não apenas como um instrumento de inclusão, mas como uma
mílias, informando-as sobre os direitos dos estudantes e envol- língua natural, com estrutura gramatical própria, capaz de ex-
vendo-as no processo educacional. Promover eventos, palestras pressar qualquer conteúdo, assim como as línguas orais. A Cons-
e oficinas que orientem os familiares sobre a importância da edu- tituição Federal de 1988, embora não mencione diretamente a
cação inclusiva e os métodos utilizados na escola ajuda a cons- Libras, assegura em seus princípios a igualdade e a não discrimi-
truir uma rede de apoio efetiva para o aluno. nação, reforçando o direito das pessoas surdas à comunicação
em sua língua.
Falta de Monitoramento e Avaliação das Políticas Públicas
– Desafio: A ausência de monitoramento efetivo das políti- ▸Libras como língua natural
cas públicas de educação inclusiva compromete a continuidade e Libras é uma língua visual-espacial. Ao contrário das línguas
a eficácia das ações. Muitas vezes, não há indicadores claros ou orais-auditivas, que dependem da fala e da audição, Libras utiliza
relatórios que acompanhem o progresso das iniciativas de inclu- gestos, expressões faciais e movimentos corporais para a cons-
são, o que dificulta a identificação de pontos de melhoria e limita trução do significado. Não é uma mera representação mimética
a eficácia das práticas. de palavras do português, tampouco uma linguagem universal.
– Perspectiva: A implementação de um sistema de monito- Cada país possui sua própria língua de sinais, e a Libras é especí-
ramento e avaliação das políticas de educação inclusiva é funda- fica do Brasil, com variações regionais.
mental. Esse sistema deve utilizar indicadores de desempenho e As línguas de sinais, como a Libras, são consideradas línguas
acompanhamento que possibilitem uma visão clara dos avanços naturais porque emergem espontaneamente em comunidades
e dos desafios encontrados. A coleta e análise de dados sobre a de surdos ao longo do tempo, evoluindo com base na interação
inclusão escolar permitem ajustes e aprimoramentos contínuos social. Elas possuem todos os elementos linguísticos fundamen-
nas práticas educacionais, assegurando que as políticas atendam tais: fonologia (realizada por parâmetros visuais), morfologia,
efetivamente às necessidades dos alunos e da comunidade es- sintaxe e semântica.
colar.
▸Especificidades linguísticas da Libras
A educação inclusiva é um processo contínuo de adaptação A estrutura linguística da Libras apresenta características
e evolução, que enfrenta desafios significativos, mas possui um próprias que devem ser compreendidas para seu ensino e uso
potencial transformador para a sociedade. A superação dessas adequado. Dentre os principais elementos que a constituem,
dificuldades exige a colaboração entre governo, escolas, profes- destacam-se:
sores, alunos, famílias e a comunidade. ▪ Parâmetros: São os componentes básicos dos sinais. Cada
sinal é formado pela combinação de cinco parâmetros:
1. Configuração de mão (formato que a mão assume)

47
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

2. Ponto de articulação (local do corpo ou do espaço onde o ▸O que é cultura surda


sinal é feito) Cultura surda é o conjunto de saberes, práticas, valores, tra-
3. Movimento (direção, trajetória ou repetição do gesto) dições e modos de vida produzidos e compartilhados por pes-
4. Orientação da palma da mão (para onde a palma está vol- soas surdas em torno de sua experiência comum de mundo e
tada) de linguagem. Esse conceito rompe com a visão patológica da
5. Expressão facial e corporal (complementam e modificam surdez — que a entende como uma limitação a ser superada — e
o significado do sinal) a reconhece como uma diferença cultural e linguística.
A surdez, nesse contexto, não é vista como deficiência em
Esses parâmetros funcionam como os fonemas nas línguas si, mas como a base para uma construção cultural positiva, em
orais: a alteração de um deles pode mudar completamente o que a Libras ocupa o papel central como meio de expressão da
sentido do sinal. subjetividade, das histórias e das interações sociais dos surdos.
▪ Morfologia e sintaxe: A Libras apresenta flexões verbais,
concordância e estrutura sintática própria. Por exemplo, a ordem A cultura surda se manifesta em diferentes dimensões:
das palavras numa frase pode variar em relação ao português. É ▪ Linguística: através do uso da Libras como língua de instru-
comum a estrutura sujeito-objeto-verbo (SOV) ou mesmo outras ção, comunicação, arte e convivência;
combinações, dependendo do contexto. ▪ Social: na convivência em associações de surdos, encontros
▪ Classificadores: São sinais que funcionam como categorias comunitários, eventos culturais, escolas bilíngues e espaços de
gramaticais, representando classes de objetos, ações ou formas. troca de experiências;
Permitem grande riqueza expressiva e são fundamentais para a ▪ Artística: por meio da produção de poesias visuais, teatro
narração e descrição de situações em Libras. em Libras, performances, vídeos e narrativas visuais que expres-
▪ Uso do espaço: Diferente das línguas orais, Libras utiliza sam experiências e valores da comunidade surda;
o espaço à frente do corpo do sinalizante para indicar relações ▪ Histórica: na valorização da trajetória de lutas e conquistas
espaciais, temporais e pronominais. O uso desse espaço é gra- dos surdos por reconhecimento, direitos e inclusão social.
maticalmente estruturado e relevante para a compreensão da
mensagem. ▸A comunidade surda como espaço de identidade e per-
tencimento
▸Importância da Libras para a educação e inclusão A comunidade surda é o espaço social no qual a cultura sur-
O domínio da Libras é essencial para a educação bilíngue da se desenvolve e se transmite. Ela é composta não apenas por
de surdos. O modelo bilíngue defende a Libras como primeira pessoas surdas, mas também por ouvintes que compartilham va-
língua (L1) e a língua portuguesa, preferencialmente na modali- lores e práticas da cultura surda — como familiares, intérpretes,
dade escrita, como segunda língua (L2). Essa abordagem respeita educadores, linguistas e militantes da causa. O que define a per-
a identidade linguística da pessoa surda e promove seu pleno de- tença a essa comunidade é, acima de tudo, o envolvimento com
senvolvimento cognitivo e social. a Libras e a valorização da diferença surda.
A ausência de acesso precoce à Libras pode resultar em pre- Essa comunidade oferece à pessoa surda um espaço de afir-
juízos significativos para o desenvolvimento linguístico, social e mação de sua identidade, onde ela pode se reconhecer como
emocional da criança surda. Por isso, é fundamental a atuação de sujeito de linguagem, interagir em igualdade e produzir sentido
professores bilíngues, intérpretes de Libras, materiais adaptados a partir de sua experiência visual do mundo. A convivência em
e o incentivo à Libras nos espaços educacionais. comunidade é essencial para o desenvolvimento da autoestima,
da autonomia e da consciência política dos surdos.
A Libras é uma língua viva, complexa e fundamental para ga-
rantir o direito à comunicação da comunidade surda. Reconhecer Dentre as instituições que tradicionalmente têm papel im-
sua estrutura linguística própria e sua importância educacional é portante na formação da cultura surda, destacam-se:
um passo decisivo para a efetivação da inclusão e do respeito à ▪ Associações de surdos: atuam na articulação política, na
diversidade. promoção de eventos culturais, no ensino de Libras e no fortale-
As políticas públicas voltadas ao ensino e à difusão da Libras cimento da identidade surda;
são essenciais para promover equidade no acesso à educação, ao ▪ Escolas bilíngues para surdos: espaços educacionais onde
trabalho e à cidadania. a Libras é a língua de instrução e valorização da cultura surda;
▪ Eventos culturais surdos: encontros, festivais e conferên-
Cultura surda e sua relação com a comunidade surda cias voltados à expressão artística e à troca de experiências entre
A cultura surda é um conceito central para compreender a membros da comunidade surda.
comunidade surda enquanto grupo social com identidade, valo-
res, comportamentos e práticas próprios. Não se trata apenas de Valores da cultura surda:
uma condição médica ou deficiência auditiva, mas de um modo A cultura surda é orientada por valores próprios, entre os
de estar no mundo que se constitui a partir de uma experiência quais se destacam:
linguística e sociocultural compartilhada, tendo a Língua Brasilei- ▪ Visualidade: o olhar e os recursos visuais são fundamentais
ra de Sinais (Libras) como elemento estruturante. na comunicação e no modo de vida dos surdos. A cultura surda
valoriza estratégias visuais de ensino, sinalização e arte;
▪ Coletividade: a comunidade surda tem forte senso de coo-
peração e solidariedade. O pertencimento a um grupo é central
para a formação da identidade surda;

48
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

▪ Resiliência e luta: a história da comunidade surda é mar- maiúsculo, em oposição ao surdo que é oralizado e não participa
cada por resistência a práticas de exclusão, como o oralismo da comunidade linguística e cultural surda. Essa diferenciação,
forçado. A cultura surda celebra conquistas e figuras históricas embora simbólica, revela que a identidade surda está mais rela-
que contribuíram para a valorização da Libras e dos direitos dos cionada à experiência cultural do que apenas à perda auditiva.
surdos;
▪ Bilinguismo e diferença: a cultura surda defende a convi- ▸Dimensão educacional da identidade surda
vência de duas línguas (Libras e português), valorizando a dife- A escola tem papel central na formação da identidade surda,
rença linguística como fator de enriquecimento humano e não sendo um dos principais espaços de socialização e de construção
como déficit. do sentimento de pertencimento. No entanto, historicamente,
as instituições de ensino têm reproduzido práticas excludentes,
A transmissão da cultura surda: com forte influência do oralismo — metodologia que busca for-
A cultura surda é transmitida de forma social, principalmen- çar o desenvolvimento da fala em detrimento do uso da língua
te por meio de interações entre surdos em espaços de convi- de sinais.
vência e através da Libras. Como a maioria dos surdos nasce em A adoção de uma educação bilíngue, que reconhece a Libras
famílias ouvintes (cerca de 90 a 95%), o contato com a cultura como língua de instrução e valoriza a cultura surda, é fundamen-
surda ocorre muitas vezes fora do ambiente familiar, em escolas, tal para a constituição de uma identidade positiva. Esse modelo
eventos e associações. permite que o estudante surdo desenvolva competências cog-
nitivas, linguísticas e sociais em sua primeira língua, e aprenda
Essa transmissão não é automática e depende da existência o português como segunda língua, preferencialmente na forma
de políticas públicas que garantam o acesso à Libras desde a in- escrita.
fância, a formação de professores surdos e a criação de ambien- Além disso, a presença de professores surdos, intérpretes de
tes que respeitem e fortaleçam a cultura surda. Libras e materiais didáticos adequados fortalece a autoestima e
Compreender a cultura surda e sua relação com a comunida- o reconhecimento da criança ou jovem surdo como sujeito de
de surda é essencial para uma abordagem inclusiva e humaniza- direitos e de saber. A escola, quando pautada no respeito à dife-
da da educação e da cidadania. A cultura surda não é um recorte rença, atua como espaço de empoderamento e de consolidação
da cultura ouvinte, mas uma realidade autônoma, complexa e da identidade surda.
rica, que deve ser respeitada em suas especificidades. Promover É importante lembrar que a Base Nacional Comum Curricu-
o reconhecimento e o fortalecimento da cultura surda é também lar (BNCC), ao tratar da Educação Especial na perspectiva inclusi-
promover os direitos linguísticos, sociais e culturais de milhões va, reconhece a importância da diferenciação de estratégias pe-
de brasileiros surdos. dagógicas para estudantes surdos, respeitando a especificidade
linguística e cultural desse grupo.
Identidade surda: construção social, educacional e
política ▸Dimensão política da identidade surda
A identidade surda é resultado de um processo complexo A identidade surda também é resultado de processos his-
de construção que envolve dimensões linguísticas, sociais, edu- tóricos e políticos. Ao longo do século XX, a comunidade surda
cacionais e políticas. Não se trata apenas de uma característica organizou-se em movimentos sociais, associações e eventos que
individual, mas de uma experiência coletiva e histórica, marcada visavam o reconhecimento da Libras, o direito à educação bilín-
por lutas por reconhecimento e afirmação da diferença. gue e a visibilidade da cultura surda.
Compreender a identidade surda significa compreender Esse engajamento levou a conquistas significativas, como a
como a surdez é ressignificada dentro da comunidade surda, por Lei nº 10.436/2002, que reconhece a Libras como meio legal de
meio da linguagem, da cultura e da resistência. comunicação, e o Decreto nº 5.626/2005, que regulamenta a sua
utilização no ensino, na formação de profissionais e no atendi-
▸Dimensão social da identidade surda mento a pessoas surdas. Esses instrumentos legais são frutos de
Do ponto de vista social, a identidade surda é construída a uma luta coletiva por identidade, reconhecimento e cidadania.
partir das interações com outros sujeitos surdos e do comparti- A identidade surda, portanto, é também uma identidade po-
lhamento de uma experiência de vida comum. O uso da Língua lítica. Ser surdo é assumir uma posição frente à sociedade que
Brasileira de Sinais (Libras) é um dos principais marcadores des- valoriza o ouvir e o falar como norma. É afirmar o direito à di-
sa identidade, funcionando como elo entre os indivíduos e base ferença, à linguagem visual e à participação plena em todos os
para a constituição de uma comunidade cultural e linguística. espaços sociais.
Essa identidade não nasce com o indivíduo, mas se forma ao Nesse sentido, a educação para a cidadania crítica e a valo-
longo do tempo, especialmente quando ele tem a oportunidade rização das lideranças surdas são aspectos fundamentais para a
de conviver com outros surdos e de participar de espaços que formação de sujeitos autônomos, capazes de transformar reali-
reconhecem e valorizam sua língua e cultura. Muitos surdos pas- dades e garantir seus direitos.
sam por um processo de “descoberta” de sua identidade quando A identidade surda é múltipla, dinâmica e atravessada por
entram em contato com a comunidade surda e compreendem experiências sociais, educacionais e políticas. Sua construção
que sua condição auditiva não é sinônimo de inferioridade, mas está profundamente ligada ao acesso à Libras, à cultura surda
de diferença. e à convivência em comunidade. Ao contrário da visão médica
É importante ressaltar que há diferentes formas de identi- tradicional, que associa a surdez à deficiência, a perspectiva so-
ficação dentro da comunidade surda. O surdo que se identifica ciocultural entende a identidade surda como uma forma legítima
com a cultura e a língua de sinais é chamado de Surdo com “S” de ser e estar no mundo.

49
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Valorizar essa identidade significa reconhecer a riqueza da Essa prática é marcada por tensões: entre teoria e prática,
diversidade humana e construir práticas sociais e educacionais entre expectativas institucionais e condições reais de trabalho,
que respeitem a diferença como parte da igualdade. A luta da entre a autonomia docente e os currículos prescritos. Lidar com
comunidade surda é, antes de tudo, uma luta por dignidade, per- essas tensões exige constante reflexão, o que reforça a importân-
tencimento e respeito à sua forma própria de existir. cia da prática reflexiva como componente central da identidade
docente. Como afirma Donald Schön, o professor é um “profis-
sional reflexivo”, que aprende com e na prática.
XIV - IDENTIDADE E ESPECIFICIDADES DO TRABALHO
DOCENTE ▸Políticas públicas e condições de trabalho como fatores
condicionantes
Construção Da Identidade Profissional Docente A construção da identidade profissional não ocorre de forma
A identidade profissional docente é um conceito central para isolada, mas está profundamente ligada ao contexto em que o
compreender a formação, atuação e desenvolvimento dos pro- professor atua. As políticas educacionais, as diretrizes curricula-
fessores. Ela não é algo fixo, dado ou naturalmente herdado; ao res, os programas de avaliação externa, as condições salariais e
contrário, constitui-se historicamente e está em constante trans- estruturais das escolas, entre outros fatores, impactam direta-
formação, influenciada por fatores sociais, culturais, institucio- mente a forma como o professor se vê e é visto.
nais e pessoais. Políticas de valorização do magistério, como a instituição de
planos de carreira, piso salarial e incentivos à formação, podem
▸Formação inicial e continuada como base da identidade contribuir para o fortalecimento de uma identidade profissional
A identidade profissional docente começa a se estruturar positiva. Por outro lado, a precarização do trabalho, a desvalori-
ainda na formação inicial, nos cursos de licenciatura, nos quais zação social da profissão e o excesso de burocratização podem
os sujeitos entram em contato com fundamentos teóricos da fragilizar essa identidade, gerando sentimentos de desmotiva-
educação, didática, práticas de ensino e experiências em estágio ção, insegurança e desprofissionalização.
supervisionado. Nesse processo, o futuro professor passa a cons-
truir representações sobre o que significa ser docente, moldando ▸A dimensão ética e política da identidade docente
expectativas, crenças e valores sobre a profissão. Por fim, é fundamental compreender que a identidade do-
Contudo, essa construção não se encerra na graduação. A cente também tem uma dimensão ética e política. O professor
formação continuada, os cursos de aperfeiçoamento, a prática não é apenas transmissor de conhecimentos, mas agente de for-
docente cotidiana e o confronto com realidades diversas são fa- mação humana e social. Sua identidade está ligada à defesa de
tores que impactam diretamente o desenvolvimento e a ressigni- princípios democráticos, à promoção da equidade e ao compro-
ficação constante dessa identidade. A identidade docente é, por- misso com a transformação social.
tanto, uma construção histórica, social e profissional, alimentada Nesse sentido, a identidade docente envolve não apenas sa-
por experiências e pela reflexão crítica sobre a prática. beres e competências técnicas, mas também valores, posturas e
escolhas. Construir-se como professor é, em última instância, as-
▸A influência das representações sociais e históricas sumir um posicionamento diante do mundo, da educação e das
A profissão docente carrega um conjunto de representações relações humanas.
sociais historicamente construídas. Por muitos anos, especial-
mente no Brasil, a docência foi associada a um trabalho vocacio- A construção da identidade profissional docente é um pro-
nal, quase doméstico, realizado majoritariamente por mulheres, cesso dinâmico, que envolve múltiplos elementos: formação,
com baixos salários e pouco reconhecimento social. Tais repre- prática, contexto institucional, políticas públicas, representações
sentações ainda exercem influência sobre a forma como a socie- sociais e valores éticos.
dade valoriza o professor e como o próprio professor se percebe. Compreender esse processo é essencial para promover po-
A partir da década de 1990, com a valorização do discurso da líticas de valorização docente, para melhorar a qualidade da for-
profissionalização docente, a identidade do professor começou a mação e para reconhecer o papel central do professor na cons-
ser reivindicada não mais apenas como um dom ou vocação, mas trução de uma educação democrática e transformadora.
como resultado de um processo de formação, qualificação e en-
gajamento político e pedagógico. Autores como António Nóvoa Dimensões E Características Do Trabalho Docente
destacam que o professor deve ser visto como um intelectual crí- O trabalho docente é uma atividade complexa, que envolve
tico, um profissional que pensa, analisa e transforma a realidade múltiplas dimensões além da simples transmissão de conteúdos.
por meio da educação. Ensinar exige a articulação de saberes pedagógicos, conhecimen-
tos específicos das áreas de atuação, competências éticas, afeti-
▸A prática docente como eixo de construção identitária vas e políticas.
A identidade profissional também se constrói na prática. É Ao abordar as dimensões e características do trabalho do-
no cotidiano da sala de aula, no contato com os estudantes, na cente, é necessário compreender que a docência é uma prática
interação com colegas e nas decisões pedagógicas que o profes- social situada, influenciada por contextos históricos, culturais e
sor reafirma ou reconfigura sua identidade. Cada escolha me- institucionais, e permeada por desafios diversos.
todológica, cada estratégia adotada e cada situação enfrentada
contribui para esse processo de autoidentificação e definição do
“ser professor”.

50
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

▸Dimensão técnica: o domínio dos saberes necessários à ▪ Atuação crítica frente às desigualdades educacionais e so-
prática pedagógica ciais.
A dimensão técnica do trabalho docente envolve o domínio
dos conteúdos a serem ensinados e das metodologias adequadas Essa dimensão política é ressaltada na Lei de Diretrizes e Ba-
para o processo de ensino-aprendizagem. Trata-se da capacidade ses da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996), que estabelece,
de planejar, executar e avaliar ações pedagógicas com intencio- no artigo 3º, como princípios do ensino: igualdade de condições
nalidade educativa. para o acesso e permanência na escola, liberdade de aprender,
Segundo Tardif (2002), os saberes docentes são heterogêne- ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento e valorização do pro-
os e incluem: fissional da educação escolar.
▪ Saberes disciplinares: relativos ao conteúdo das áreas de
conhecimento; ▸Dimensão organizacional: o trabalho coletivo e as exigên-
▪ Saberes pedagógicos: ligados à didática, gestão de sala de cias institucionais
aula e avaliação; Além da atuação em sala de aula, o trabalho docente envol-
▪ Saberes curriculares: sobre os programas e diretrizes ofi- ve a participação em atividades de planejamento, reuniões peda-
ciais; gógicas, conselhos de classe, formação continuada, entre outras
▪ Saberes experienciais: construídos na prática cotidiana e demandas institucionais.
nas interações com os estudantes.
Essas atividades constituem a dimensão organizacional do
Essa dimensão exige constante atualização profissional, pes- trabalho docente, marcada por:
quisa sobre novas metodologias, domínio de tecnologias educa- ▪ Participação em projetos escolares e práticas coletivas;
cionais e competência para lidar com a diversidade de contextos ▪ Necessidade de articulação com gestores, famílias e comu-
e estilos de aprendizagem. nidade;
▪ Pressões de ordem burocrática e administrativa;
▸Dimensão ética e relacional: o vínculo com os estudantes ▪ Adaptação a políticas de avaliação externa e controle de
e o compromisso com a formação humana resultados.
O trabalho docente também possui uma forte dimensão
ética e relacional. O professor atua diretamente na formação de O trabalho docente, nesse sentido, vai além da aula: ele se
sujeitos, sendo responsável não apenas pela transmissão de sa- estende para um conjunto de responsabilidades institucionais
beres, mas pelo desenvolvimento de atitudes, valores e compor- que exigem organização, compromisso e trabalho em equipe.
tamentos. Essa multiplicidade de tarefas caracteriza a docência como um
trabalho intensivo, emocionalmente exigente e muitas vezes in-
Essa dimensão exige: visibilizado.
▪ Respeito à dignidade dos alunos;
▪ Compromisso com a equidade e a justiça social; ▸A centralidade do planejamento e da avaliação
▪ Capacidade de escuta e empatia; Entre as características essenciais da docência, destacam-se
▪ Postura ética diante dos conflitos e situações escolares; o planejamento e a avaliação. Planejar é uma ação intencional e
▪ Mediação de relações interpessoais e construção de um sistemática, que define os objetivos, conteúdos, métodos e for-
ambiente democrático. mas de acompanhamento da aprendizagem. Avaliar, por sua vez,
é mais do que atribuir notas: é diagnosticar, acompanhar e redi-
A construção de vínculos positivos com os estudantes, base- recionar o processo de ensino-aprendizagem.
ada no respeito e na afetividade, é fundamental para o sucesso
do processo educativo. Como destaca Paulo Freire, a docência Ambas as ações exigem:
é um ato de amor e de coragem, que implica escutar, dialogar e ▪ Clareza de objetivos educacionais;
confiar nos educandos. ▪ Coerência entre propostas pedagógicas e instrumentos uti-
lizados;
▸Dimensão política: a docência como prática de transfor- ▪ Flexibilidade para lidar com os imprevistos e com os ritmos
mação social diversos dos estudantes;
A docência não é neutra. Todo ato educativo envolve esco- ▪ Capacidade de reflexão sobre a própria prática.
lhas e intencionalidades que refletem concepções de sociedade,
de ser humano e de educação. Por isso, o trabalho docente tam- Esses elementos revelam o caráter intelectual e autônomo
bém se insere na esfera política, sendo um espaço de disputa de da docência, como já defendia o educador francês Philippe Per-
projetos pedagógicos e de visões de mundo. renoud, ao afirmar que ensinar é um trabalho que se aprende,
O professor é, nesse sentido, um agente político que atua na mas que exige decisões complexas, tomadas em tempo real.
formação de cidadãos críticos e participativos. Isso exige: As dimensões e características do trabalho docente eviden-
▪ Consciência das condições sociais dos alunos; ciam que a profissão vai muito além do ato de ensinar conteúdos.
▪ Engajamento na defesa da escola pública, democrática e Ser professor implica compromissos técnicos, éticos, políticos,
inclusiva; relacionais e institucionais. Exige constante formação, capacida-
▪ Participação nos debates e decisões sobre políticas educa- de de análise crítica, sensibilidade para lidar com a diversidade e
cionais; disposição para colaborar com outros profissionais.

51
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Compreender essas dimensões é essencial para valorizar o ▪ Alunos com deficiência e necessidades educacionais espe-
magistério, melhorar as condições de trabalho e construir uma cíficas;
escola que seja, de fato, um espaço de formação integral, cidadã ▪ Diversidade cultural, religiosa e linguística;
e emancipadora. ▪ Desigualdades de acesso ao conhecimento e às tecnolo-
gias;
Desafios Contemporâneos Na Atuação Do Professor ▪ Preconceitos e discriminações presentes no espaço escolar.
A atuação docente no século XXI está inserida em um con-
texto de profundas transformações sociais, culturais, tecnoló- A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) e a Política
gicas e políticas, que impactam diretamente a organização da Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação In-
escola, o perfil dos estudantes e as exigências sobre o papel do clusiva estabelecem o direito à educação em classes comuns do
professor. Esses desafios exigem do profissional da educação não ensino regular. No entanto, muitos professores relatam falta de
apenas competência técnica e pedagógica, mas também resiliên- formação adequada e de suporte pedagógico para garantir práti-
cia, capacidade de adaptação, engajamento ético e compromisso cas realmente inclusivas.
com a formação cidadã.
▸Uso das tecnologias digitais na educação
▸Valorização profissional e condições de trabalho Com a aceleração da digitalização, especialmente durante e
Um dos desafios mais recorrentes para os professores bra- após a pandemia de COVID-19, o uso de tecnologias tornou-se
sileiros está relacionado à desvalorização social e material da um desafio central para o professor. Se por um lado, as Tecnolo-
profissão. Embora a Constituição Federal de 1988, no artigo 206, gias Digitais da Informação e Comunicação (TDICs) ampliam as
inciso V, assegure a valorização dos profissionais da educação es- possibilidades pedagógicas, por outro, sua incorporação efetiva
colar como um dos princípios do ensino, a realidade revela: nas práticas escolares exige:
▪ Remuneração abaixo da média de outras profissões com ▪ Formação continuada específica para o uso pedagógico das
formação equivalente; tecnologias;
▪ Infraestrutura escolar precária em muitas redes públicas; ▪ Acesso a equipamentos, internet de qualidade e platafor-
▪ Falta de recursos pedagógicos e de apoio à prática docente; mas digitais adequadas;
▪ Excesso de turmas e carga horária elevada, o que reduz o ▪ Redefinição das metodologias de ensino para ambientes
tempo para planejamento e formação continuada. híbridos e virtuais;
▪ Desenvolvimento da cultura digital crítica, tanto por parte
Essa desvalorização gera efeitos como desmotivação, adoe- dos docentes quanto dos discentes.
cimento físico e emocional, rotatividade e abandono da carrei-
ra docente, especialmente em áreas mais vulneráveis. A imple- A ausência de uma política tecnológica consistente nas re-
mentação efetiva do Piso Salarial Profissional Nacional para os des públicas amplia ainda mais o abismo digital entre escolas e
profissionais do magistério público da educação básica (Lei nº estudantes de diferentes contextos socioeconômicos, colocando
11.738/2008) ainda enfrenta resistência em diversos estados e o professor diante do desafio de promover inclusão digital com
municípios. equidade.

▸Expansão das demandas e multiplicidade de funções ▸Formação inicial e continuada inadequada ou fragmen-
O professor contemporâneo é frequentemente sobrecarre- tada
gado por uma multiplicidade de funções que vão além do ensino. A qualidade da formação docente é outro ponto nevrálgico.
Espera-se que ele atue como: Muitos cursos de licenciatura ainda apresentam distanciamen-
▪ Educador e formador de valores; to entre teoria e prática, pouca articulação com a realidade das
▪ Psicólogo informal, mediando conflitos e acolhendo ques- escolas e fragilidade na construção de saberes pedagógicos sóli-
tões emocionais dos alunos; dos. Já a formação continuada, quando ofertada, muitas vezes é
▪ Gestor de sala de aula e articulador de projetos; pontual, desconectada das necessidades reais dos docentes ou
▪ Profissional apto a lidar com documentos oficiais, registros centrada em abordagens tecnicistas.
e avaliações externas. Segundo Tardif (2002), os saberes do professor não se res-
tringem à formação acadêmica, mas resultam também das expe-
Essa ampliação das exigências, sem o devido suporte institu- riências e do cotidiano escolar. Assim, a formação docente deve
cional, leva à intensificação do trabalho docente, caracterizando ser compreendida como um processo permanente, situado e re-
o que se convencionou chamar de “trabalho invisível do profes- flexivo, em que o professor é protagonista da construção do seu
sor” – ou seja, atividades que não aparecem formalmente, mas percurso profissional.
consomem tempo e energia, como correções de tarefas, atendi-
mento individualizado, elaboração de relatórios etc. ▸Avaliações externas e controle dos resultados
As políticas de responsabilização, baseadas em avaliações
▸Inclusão, diversidade e desigualdades educacionais externas padronizadas, têm impactado fortemente o trabalho
A atuação docente ocorre em contextos marcados por múl- dos professores. Em vez de promoverem diagnóstico e melhoria
tiplas desigualdades sociais, étnico-raciais, culturais, de gênero e da qualidade educacional, muitas vezes tais avaliações geram:
de acessibilidade. A escola pública, especialmente, é chamada a ▪ Pressão por resultados, com foco em desempenho em pro-
garantir o direito à educação de todos, o que exige dos professo- vas;
res competência para lidar com:

52
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

▪ Redução do currículo a conteúdos “cobrados” nas avalia- ▸Níveis de planejamento na educação


ções; O planejamento educacional ocorre em diferentes níveis,
▪ Desconsideração das especificidades locais e das trajetó- cada um com finalidades e abrangências distintas. São eles:
rias dos alunos; ▪ Planejamento de sistema: envolve decisões em âmbito ma-
▪ Práticas de ensino voltadas para “treinamento para pro- cro, como políticas públicas e diretrizes nacionais e estaduais.
vas”, em detrimento da formação integral. ▪ Planejamento institucional: refere-se ao planejamento da
escola como instituição, considerando seu projeto político-peda-
Esse fenômeno, conhecido como “accountability performa- gógico, metas, calendário e organização curricular.
tiva”, tende a esvaziar a autonomia docente e transformar o pro- ▪ Planejamento curricular: diz respeito à organização dos
fessor em executor de metas externas, enfraquecendo o sentido conteúdos e competências a serem desenvolvidas em determi-
pedagógico do seu trabalho. nado período letivo, de forma articulada entre os componentes
A atuação docente na contemporaneidade é atravessada por curriculares.
desafios estruturais, políticos, pedagógicos e culturais. Valorizar ▪ Planejamento de ensino: é a atuação direta do professor,
a profissão docente, assegurar condições adequadas de trabalho, no planejamento de suas aulas, estratégias, atividades e formas
promover formação de qualidade e garantir a autonomia peda- de avaliação.
gógica são medidas essenciais para enfrentar esses desafios.
A compreensão crítica desses elementos deve fazer parte O planejamento de ensino, foco principal da prática docente,
da preparação dos profissionais da educação, especialmente da- deve dialogar com os demais níveis, garantindo coerência entre
queles que se dedicam aos concursos públicos. Reconhecer as as metas educacionais da escola e as ações realizadas em sala
tensões e contradições do cotidiano escolar é o primeiro passo de aula.
para desenvolver práticas pedagógicas significativas, éticas e
transformadoras. ▸Componentes do planejamento de ensino
Um planejamento eficaz articula diferentes elementos, que
devem estar interligados de forma coerente:
XV - PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO DO ENSINO E DA ▪ Objetivos de aprendizagem: indicam os resultados espera-
APRENDIZAGEM dos com a ação educativa. Devem ser claros, mensuráveis e ali-
nhados à BNCC.
Conceitos fundamentais de planejamento e sua rela- ▪ Conteúdos: são os conhecimentos, habilidades e atitudes
ção com o processo de ensino-aprendizagem a serem desenvolvidos. Podem ser conceituais, procedimentais
O planejamento do ensino é uma atividade essencial para a e atitudinais.
prática docente, pois orienta as ações pedagógicas e garante in- ▪ Metodologias: referem-se às estratégias e abordagens di-
tencionalidade e coerência ao processo educativo. Planejar signi- dáticas utilizadas para promover a aprendizagem, considerando
fica antecipar situações de aprendizagem, organizando objetivos, os estilos e ritmos dos alunos.
conteúdos, estratégias metodológicas, recursos e formas de ava- ▪ Recursos didáticos: materiais e tecnologias que apoiam o
liação com base nas necessidades dos estudantes, nas diretrizes processo de ensino, como livros, vídeos, jogos, mapas, entre ou-
curriculares e no contexto escolar. tros.
Planejamento não é uma atividade meramente burocrática ▪ Avaliação: deve ser pensada desde o início do planejamen-
ou estática, mas sim um processo dinâmico, flexível e contínuo, to, como parte integrante do processo pedagógico, e não como
que deve ser revisto e ajustado conforme o desenvolvimento das etapa isolada.
aulas e as respostas dos alunos.
Sua função principal é articular os diferentes elementos do ▸Planejamento e intencionalidade pedagógica
trabalho pedagógico, promovendo a efetivação dos direitos de A intencionalidade pedagógica é o que diferencia o planeja-
aprendizagem e o desenvolvimento integral dos estudantes. mento de uma simples sequência de atividades. Ela garante que
o ensino esteja voltado à formação integral dos estudantes, com
▸Planejamento como ação intencional e sistemática base em princípios éticos, estéticos e políticos. O professor, ao
Planejar envolve definir objetivos claros, selecionar conteú- planejar, toma decisões fundamentadas em sua concepção de
dos relevantes, escolher estratégias didáticas adequadas e prever educação, no conhecimento da realidade de seus alunos e nos
formas de avaliação que permitam acompanhar a aprendizagem. objetivos formativos da escola.
Trata-se de um processo intencional, pois parte de finalidades Essa dimensão intencional é o que confere sentido às ações
educativas definidas a partir do projeto político-pedagógico pedagógicas, evitando práticas mecânicas ou descontextualiza-
(PPP) da escola e das diretrizes nacionais, como a Base Nacional das. Planejar com intencionalidade é promover aprendizagens
Comum Curricular (BNCC). significativas, que dialoguem com a vivência dos alunos e com os
Além disso, é uma ação sistemática, pois exige análise, or- desafios da sociedade.
ganização, previsão e registro das ações a serem desenvolvidas.
Não se trata apenas de decidir “o que fazer” em sala de aula, ▸Relação entre planejamento e aprendizagem
mas de refletir “por que”, “para que” e “como fazer”, articulando O planejamento influencia diretamente a qualidade da
teoria e prática. aprendizagem, pois organiza o ambiente e as condições didáticas
para que os alunos desenvolvam suas potencialidades. Um pla-
nejamento bem estruturado considera:

53
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

▪ As características cognitivas, sociais e emocionais dos es- ▸Tipos de avaliação


tudantes A avaliação pode assumir diferentes formas, dependendo
▪ A diversidade presente na sala de aula dos objetivos do professor, da metodologia utilizada e do contex-
▪ A progressão das aprendizagens ao longo do tempo to da turma. Os principais tipos incluem:
▪ A articulação entre teoria e prática ▪ Avaliação inicial (ou diagnóstica): realizada antes do início
▪ A valorização da participação ativa do aluno do conteúdo novo. Exemplo: sondagens, discussões orais, levan-
tamento de hipóteses.
Ao considerar esses elementos, o professor cria situações de ▪ Avaliação processual (ou formativa): acompanha o desen-
aprendizagem desafiadoras e significativas, favorecendo o enga- volvimento do aluno ao longo das atividades. Exemplo: observa-
jamento dos alunos e o alcance dos objetivos educacionais. ções em sala, registros de portfólios, devolutivas escritas.
▪ Avaliação final (ou somativa): verifica os resultados obtidos
Planejar o ensino com base em fundamentos pedagógicos após a aplicação do conteúdo. Exemplo: provas escritas, traba-
sólidos é um passo essencial para garantir o direito à aprendiza- lhos finais, apresentações.
gem de todos os estudantes. ▪ Autoavaliação: permite que o próprio aluno reflita sobre
O planejamento não é apenas uma exigência legal ou admi- sua aprendizagem, promovendo autonomia e autorregulação.
nistrativa, mas uma ação profissional e ética do professor, que Exemplo: fichas de autoavaliação, diários de bordo.
visa promover uma educação de qualidade, democrática e trans- ▪ Avaliação entre pares: os colegas avaliam mutuamente
formadora. seus desempenhos, com critérios estabelecidos previamente,
contribuindo para o desenvolvimento da criticidade.
Avaliação da aprendizagem: funções, tipos e instru-
mentos A diversidade de tipos valoriza os diferentes modos de
A avaliação da aprendizagem é uma dimensão essencial da aprender e permite ao professor construir uma visão mais ampla
prática docente, pois permite acompanhar o desenvolvimento e justa do percurso de cada estudante.
dos alunos, identificar avanços e dificuldades, e reorientar o pro-
cesso de ensino. Mais do que medir resultados, a avaliação deve ▸Instrumentos de avaliação
ser compreendida como um processo contínuo, formativo e par- Os instrumentos são os meios pelos quais o professor coleta
ticipativo, que contribui para a construção do conhecimento e a informações sobre a aprendizagem. A escolha dos instrumentos
promoção da equidade educacional. deve considerar os objetivos educacionais e o perfil dos alunos.
Conforme os pressupostos da Base Nacional Comum Curri- Entre os principais, destacam-se:
cular (BNCC), a avaliação deve estar articulada ao currículo e ao ▪ Provas escritas: utilizadas para verificar a apropriação de
planejamento, promovendo aprendizagens significativas e asse- conceitos e habilidades. Devem conter questões variadas (obje-
gurando que todos os estudantes tenham oportunidades reais tivas, dissertativas, analíticas) e alinhadas aos objetivos do pla-
de desenvolver as competências previstas. nejamento.
▪ Trabalhos individuais e em grupo: permitem aprofunda-
▸Funções da avaliação da aprendizagem mento de temas e desenvolvimento de competências cognitivas
A avaliação desempenha diferentes funções dentro do pro- e socioemocionais.
cesso educativo. Compreender essas funções é essencial para ▪ Portfólios: coletâneas de produções do aluno ao longo do
aplicá-la de maneira eficaz e ética. tempo. Revelam o processo de aprendizagem e possibilitam a
▪ Função diagnóstica: ocorre antes ou no início de um pro- avaliação longitudinal.
cesso de ensino, com o objetivo de identificar conhecimentos ▪ Mapas conceituais: organizam o pensamento e demons-
prévios, necessidades e dificuldades dos alunos. Permite ao pro- tram conexões entre ideias. Úteis na avaliação da compreensão
fessor ajustar suas estratégias pedagógicas desde o início. de conteúdos complexos.
▪ Função formativa: desenvolve-se ao longo do processo de ▪ Observações sistemáticas: registros intencionais feitos pelo
ensino, acompanhando a aprendizagem de forma contínua. Pos- professor durante as atividades. Permitem avaliar aspectos qua-
sui caráter processual, fornecendo devolutivas constantes aos litativos do desempenho dos alunos.
alunos e permitindo que ajustes sejam feitos tanto pelo docente ▪ Autoavaliações e diários reflexivos: promovem a metacog-
quanto pelo discente. nição, ajudando o estudante a compreender suas dificuldades,
▪ Função somativa: ocorre ao final de um ciclo, unidade ou avanços e estratégias de aprendizagem.
período letivo, com o objetivo de verificar se os objetivos foram
alcançados. Tradicionalmente associada à atribuição de notas ou É importante ressaltar que nenhum instrumento, isolada-
conceitos, deve ser aplicada de forma criteriosa, evitando redu- mente, é suficiente para avaliar a totalidade da aprendizagem.
cionismos. Por isso, recomenda-se a triangulação de instrumentos, ou seja,
a combinação de diferentes formas de coleta de dados para ob-
Cada uma dessas funções cumpre um papel específico e ter um retrato mais fiel do percurso do aluno.
complementar. O ideal é que a prática avaliativa não se limite à
função somativa, mas incorpore também as dimensões diagnós- ▸Critérios e devolutivas na avaliação
tica e formativa, favorecendo o aprendizado contínuo. A eficácia da avaliação depende também da clareza dos cri-
térios utilizados e da forma como as devolutivas são realizadas:

54
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

▪ Critérios explícitos: os estudantes devem conhecer previa- Exemplo prático:


mente os critérios que serão utilizados para avaliação. Isso garan- Após aplicar uma avaliação diagnóstica de leitura com sua
te transparência e justiça ao processo. turma de 5º ano, a professora percebe que muitos alunos apre-
▪ Feedback qualitativo: mais do que atribuir uma nota, o pro- sentam dificuldades de compreensão inferencial. Em vez de
fessor deve oferecer devolutivas que ajudem o aluno a compre- prosseguir com o conteúdo previsto no plano inicial, ela insere
ender seus erros, acertos e possibilidades de melhoria. atividades específicas de leitura crítica e interpretação de textos,
▪ Avaliação como diálogo: a avaliação deve ser uma opor- replanejando seu percurso com base nos dados obtidos.
tunidade de interação entre professor e aluno, na qual ambos
refletem sobre o processo e compartilham responsabilidades. ▸Coerência entre objetivos, métodos e critérios avaliativos
Para que planejamento e avaliação estejam integrados, é
Exemplo prático: indispensável garantir coerência entre os seguintes elementos:
Em uma aula de produção textual no ensino médio, o profes- ▪ Objetivos de aprendizagem: definem o que se espera que
sor propõe a escrita de um artigo de opinião. Ele utiliza: os alunos aprendam. Exemplo: “Analisar os principais argumen-
▪ uma rubrica com critérios claros (coerência, coesão, argu- tos em um texto de opinião”.
mentação, ortografia), ▪ Metodologias de ensino: são os caminhos utilizados para
▪ uma autoavaliação em que o aluno reflete sobre seu texto, alcançar os objetivos. Exemplo: debates, leitura dirigida, produ-
▪ e um feedback escrito e oral com sugestões de aprimora- ção escrita.
mento. ▪ Critérios e instrumentos de avaliação: servem para verificar
se os objetivos foram alcançados. Exemplo: rubricas para avaliar
Esse conjunto de estratégias permite que a avaliação vá argumentação, coerência textual e domínio da norma padrão.
além da simples nota e se torne um processo formativo.
A avaliação da aprendizagem, quando bem fundamentada Essa coerência permite que o professor faça escolhas peda-
e aplicada, é uma poderosa aliada do ensino. Ela deve respeitar gógicas alinhadas, evite desvios entre o que se ensina e o que
a diversidade dos estudantes, promover o desenvolvimento de se avalia, e assegure que os critérios de sucesso estejam claros
competências e garantir a efetividade do processo educativo. tanto para ele quanto para os alunos.
Avaliar é mais do que medir: é compreender, acompanhar e
intervir pedagogicamente com intencionalidade e ética. ▸Tomada de decisão docente baseada em evidências
A análise dos resultados obtidos na avaliação oferece dados
Integração entre planejamento e avaliação: práticas concretos para a tomada de decisão pedagógica. Essa prática re-
pedagógicas e tomada de decisão docente presenta um movimento profissional qualificado, pois evita o uso
A integração entre planejamento e avaliação é um dos pila- de achismos e intuições como base para as intervenções educa-
res da ação pedagógica eficaz. Esses dois elementos não podem tivas.
ser tratados como etapas isoladas, mas sim como partes com- Decisões como reensinar um conteúdo, diversificar estraté-
plementares de um mesmo processo, cujo objetivo central é ga- gias metodológicas, adaptar atividades para alunos com dificul-
rantir a aprendizagem dos estudantes. Ao planejar com base em dades específicas ou aprofundar determinados temas são mais
dados avaliativos e avaliar a partir de objetivos bem definidos no eficazes quando fundamentadas em evidências observadas no
planejamento, o professor potencializa suas decisões didáticas e processo avaliativo.
torna o ensino mais significativo e intencional.
A articulação entre planejamento e avaliação deve ser orien- Diferenciação pedagógica:
tada por critérios claros, coerência curricular e compromisso Ao identificar, por meio da avaliação, que um grupo de alu-
com a aprendizagem de todos. nos não atingiu determinado objetivo, o professor pode reorga-
Quando essa integração é bem realizada, o docente conse- nizar suas estratégias. Isso pode envolver:
gue ajustar rotas, identificar lacunas, ampliar oportunidades de ▪ propor atividades de reforço e recuperação contínua,
aprendizagem e exercer sua autonomia profissional com respon- ▪ organizar grupos de aprendizagem cooperativa,
sabilidade. ▪ flexibilizar os percursos com base em ritmos e estilos de
aprendizagem,
▸A avaliação como retroalimentação do planejamento ▪ diversificar os materiais e instrumentos de avaliação.
O ciclo didático ideal prevê uma relação de retroalimentação
constante entre avaliação e planejamento. A cada nova etapa, Essa abordagem fortalece a equidade no ensino e respeita a
o professor coleta informações sobre o desempenho dos alunos diversidade dos estudantes.
por meio de instrumentos avaliativos, analisa os dados e replane-
ja suas ações de acordo com as evidências levantadas. ▸Planejamento avaliativo e ensino responsivo
Essa prática transforma a avaliação em ferramenta diagnós- Planejar com base em evidências avaliativas leva à constru-
tica e formativa, ao mesmo tempo em que fortalece o planeja- ção de um ensino responsivo, ou seja, sensível às necessidades
mento como processo contínuo e adaptativo. Em vez de seguir reais dos alunos. Isso implica:
planos rígidos, o docente desenvolve uma postura investigativa ▪ definir objetivos de aprendizagem centrados nos direitos
e reflexiva, que considera o contexto da turma e as necessidades de aprendizagem da BNCC;
individuais dos alunos. ▪ prever estratégias que favoreçam a participação ativa dos
alunos;

55
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

▪ escolher instrumentos avaliativos variados que revelem O professor que articula planejamento e avaliação com cons-
múltiplas dimensões da aprendizagem; ciência crítica atua de forma autônoma, mas não isolada: ele fun-
▪ criar um ambiente de escuta e adaptação contínua do pla- damenta suas escolhas, justifica suas decisões e busca constan-
nejamento. temente aprimorar sua prática.
A integração entre planejamento e avaliação é condição in-
Esse ciclo — planejar, agir, avaliar e replanejar — torna-se dispensável para a efetivação de uma educação comprometida
a espinha dorsal de uma prática pedagógica eficaz, intencional com a aprendizagem de todos os alunos. Mais do que uma exi-
e ética. gência burocrática, trata-se de um princípio ético e profissional
que sustenta a prática docente reflexiva e responsiva.
Esquema-resumo: Ciclo da prática docente integrada Planejar avaliando e avaliar planejando são ações que se
interdependem e que, quando realizadas com intencionalidade
FUNÇÃO PRINCI- e sensibilidade, transformam a sala de aula em um espaço de
ETAPA DESCRIÇÃO aprendizagem contínua, equitativa e significativa.
PAL
Definir objetivos
de aprendizagem, Organizar inten- XVI - PRÁTICAS EDUCATIVAS PARA O PROCESSO DE
estratégias meto- cionalmente o APRENDIZAGEM DE CRIANÇAS, ADOLESCENTES,
PLANEJAMENTO JOVENS E ADULTOS
dológicas, critérios processo de ensino
e instrumentos de e aprendizagem
avaliação Fundamentos do processo de aprendizagem ao longo
Executar o plano da vida
com metodologias Desenvolver as A aprendizagem é um processo contínuo que se estende por
ativas, recursos di- aprendizagens pre- toda a vida do ser humano. No campo educacional, esse princí-
ENSINO
dáticos e interven- vistas e observar a pio está fundamentado tanto em teorias pedagógicas quanto em
ções pedagógicas atuação dos alunos diretrizes legais e políticas públicas que reconhecem a educação
adequadas como um direito permanente.
Compreender os fundamentos do processo de aprendiza-
Coletar dados so-
gem ao longo da vida implica reconhecer as características, ne-
bre o desempenho Analisar a apren-
cessidades e potencialidades de cada etapa do desenvolvimento
dos alunos, por dizagem para
AVALIAÇÃO humano, bem como os fatores sociais, culturais e emocionais
meio de diferentes identificar avanços
que influenciam a aquisição de conhecimentos e competências
instrumentos e e dificuldades
em diferentes contextos.
critérios
Adaptar o plano de ▸Concepções contemporâneas de aprendizagem
ensino com base Tomar decisões Ao longo das décadas, o conceito de aprendizagem evoluiu.
nas evidências pedagógicas mais Passou de uma visão tradicional, centrada na memorização de
REPLANEJAMENTO
avaliativas, reven- eficazes e respon- conteúdos e na figura do professor como transmissor do saber,
do estratégias e sivas para uma perspectiva mais dinâmica e interativa, onde o sujeito
objetivos é ativo na construção do conhecimento.
Retorno ao pla- Autores como Jean Piaget, Lev Vygotsky, Paulo Freire e Emi-
Garantir a conti- lia Ferreiro contribuíram significativamente para essa transfor-
nejamento inicial,
nuidade e a me- mação. Piaget destaca o papel do desenvolvimento cognitivo na
CICLO CONTÍNUO agora com novos
lhoria do processo aprendizagem, considerando que o conhecimento é construído
dados e perspec-
educativo a partir da interação com o meio. Vygotsky, por sua vez, enfatiza
tivas
o aspecto social da aprendizagem, por meio do conceito de zona
▸Implicações para a formação e autonomia docente de desenvolvimento proximal, que valoriza a mediação do outro
A integração entre planejamento e avaliação exige que o – o professor, o colega, o adulto – no processo de aprendizagem.
professor atue como profissional reflexivo e pesquisador da pró- Paulo Freire acrescenta a esse panorama a importância do
pria prática. Para isso, é necessário: contexto sociocultural, propondo uma educação libertadora, dia-
▪ domínio dos conteúdos curriculares e das teorias pedagó- lógica e significativa. Para Freire, “ensinar não é transferir conhe-
gicas; cimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção
▪ capacidade de interpretar dados de aprendizagem de for- ou construção”. Essa concepção é essencial para pensar práticas
ma crítica; educativas voltadas para jovens e adultos, cujas trajetórias mui-
▪ desenvolvimento de estratégias de intervenção pedagógica tas vezes são marcadas pela exclusão educacional.
contextualizadas;
▪ valorização do trabalho colaborativo com outros educado- ▸Educação como processo contínuo e permanente
res na construção de planejamentos interdisciplinares e avalia- O princípio da educação ao longo da vida está presente em
ções integradas. documentos internacionais, como o Relatório Delors (UNESCO,
1996), que organiza a aprendizagem em quatro pilares: aprender

56
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender Estratégias pedagógicas para diferentes faixas etárias
a ser. Esses pilares orientam uma educação voltada ao desenvol- O processo de ensino-aprendizagem exige abordagens di-
vimento integral do sujeito em todas as suas dimensões – cogni- ferenciadas conforme a faixa etária dos educandos. Isso porque
tiva, afetiva, ética, social e profissional. cada fase da vida apresenta características cognitivas, emocio-
No contexto brasileiro, a Constituição Federal de 1988, em nais e sociais distintas, que influenciam diretamente a maneira
seu artigo 205, afirma que “a educação, direito de todos e dever como o sujeito aprende, interage e se engaja com o conhecimen-
do Estado e da família, será promovida e incentivada com a co- to.
laboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da Assim, o educador precisa dominar uma variedade de es-
pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualifica- tratégias pedagógicas, selecionando aquelas mais adequadas ao
ção para o trabalho”. Essa definição sustenta políticas públicas de estágio de desenvolvimento e às necessidades dos seus alunos.
educação para todos, desde a infância até a idade adulta, incluin-
do modalidades como a Educação de Jovens e Adultos (EJA) e a ▸Educação infantil: o brincar como forma de aprender
Educação Profissional e Tecnológica (EPT). Na primeira infância, o brincar é a principal forma de expres-
são, comunicação e aprendizagem da criança. A Base Nacional
▸Fatores que influenciam o processo de aprendizagem Comum Curricular (BNCC) orienta que a prática pedagógica nessa
A aprendizagem ao longo da vida é influenciada por múlti- etapa deve ser organizada em campos de experiências e baseada
plos fatores: na interação, no afeto e na ludicidade.
▪ Biológicos e maturacionais: especialmente relevantes na
infância, quando o desenvolvimento neurológico ocorre de for- Entre as estratégias eficazes estão:
ma acelerada. ▪ Organização de ambientes ricos em estímulos sensoriais,
▪ Sociais e culturais: o meio em que o sujeito vive e se de- visuais e motores;
senvolve impacta diretamente suas oportunidades de aprendi- ▪ Propostas que envolvam jogos simbólicos, cantigas, conta-
zagem. ção de histórias e atividades artísticas;
▪ Motivacionais e emocionais: a autoestima, o interesse e o ▪ Roda de conversa para estimular a linguagem oral e a es-
envolvimento do aprendiz com o processo educativo são deter- cuta ativa;
minantes para o sucesso escolar. ▪ Atividades ao ar livre que favoreçam o desenvolvimento da
▪ Histórico-escolares: experiências passadas de fracasso ou motricidade e da consciência corporal.
exclusão educacional podem gerar bloqueios que precisam ser
considerados e superados, especialmente na EJA. A mediação do professor é fundamental para ampliar o re-
pertório das crianças e ajudá-las a significar o mundo que as cer-
Entender esses fatores é fundamental para o planejamento ca. Segundo Vygotsky, o brincar tem um papel central no desen-
pedagógico em qualquer faixa etária, pois permite ao educador volvimento da linguagem e das funções psicológicas superiores.
propor práticas mais inclusivas, acolhedoras e eficazes.
▸Ensino fundamental e adolescência: aprendizagem por
▸A aprendizagem como direito e como prática social projetos e resolução de problemas
Aprender não é apenas acumular conhecimentos, mas parti- No ensino fundamental, especialmente nos anos iniciais, é
cipar de práticas sociais significativas. Assim, a escola e os demais importante manter elementos da ludicidade e do concreto, ao
espaços educativos precisam reconhecer os saberes prévios dos mesmo tempo em que se introduzem gradualmente procedi-
sujeitos, valorizar sua história e identidade, e criar condições para mentos formais de leitura, escrita e raciocínio lógico.
que desenvolvam competências essenciais à vida em sociedade. A partir dos anos finais, os alunos passam por transforma-
No caso de adultos trabalhadores, por exemplo, é impor- ções cognitivas e afetivas típicas da adolescência, como o pensa-
tante articular o conteúdo escolar às suas experiências de vida mento abstrato emergente e a busca por autonomia.
e de trabalho. Para as crianças, a ludicidade e a experimentação
ganham papel central. Em adolescentes e jovens, a necessidade Estratégias recomendadas incluem:
de pertencimento e de sentido nas atividades escolares deve ser ▪ Aprendizagem baseada em projetos interdisciplinares, com
levada em conta. Essa abordagem sensível às especificidades do temas que despertem o interesse e o senso crítico dos estudan-
sujeito em aprendizagem é central no paradigma da educação tes;
inclusiva e humanizadora. ▪ Atividades investigativas que promovam o pensamento
científico e o uso de fontes variadas;
A aprendizagem ao longo da vida é um direito fundamental ▪ Trabalhos em grupo que estimulem a cooperação, a empa-
e um desafio pedagógico constante. Ela exige práticas educativas tia e a responsabilidade coletiva;
flexíveis, inclusivas e contextualizadas, capazes de respeitar os ▪ Avaliações diversificadas, incluindo autoavaliação e portfó-
ritmos, trajetórias e potencialidades de crianças, adolescentes, lios, que considerem os diferentes estilos de aprendizagem.
jovens e adultos.
Ao compreender seus fundamentos, o educador amplia sua A BNCC propõe a articulação entre os componentes curri-
capacidade de atuação, promovendo o desenvolvimento integral culares e os chamados “temas contemporâneos transversais”,
dos sujeitos em todas as fases da vida escolar e para além dela. como ética, sustentabilidade, direitos humanos, entre outros,
favorecendo uma aprendizagem contextualizada e cidadã.

57
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

▸Educação de jovens e adultos: valorização da experiência A importância da mediação docente e da intencionali-


e aprendizagem significativa dade pedagógica
A EJA requer estratégias específicas, uma vez que seus alu- A mediação docente e a intencionalidade pedagógica são
nos trazem histórias de vida diversas, muitas vezes marcadas por dois pilares fundamentais para a efetivação do processo edu-
rupturas no percurso escolar, responsabilidades familiares e ex- cativo em qualquer faixa etária. O professor não é um mero
periências no mundo do trabalho. Nesse contexto, a pedagogia transmissor de conteúdos, mas um agente ativo na construção
freiriana é uma referência essencial, ao propor uma prática edu- de ambientes de aprendizagem significativos, reflexivos e con-
cativa que parte da realidade do aluno para construir conheci- textualizados.
mentos com sentido. A qualidade da intervenção pedagógica e a clareza de seus
propósitos são determinantes para o sucesso da aprendizagem,
Boas estratégias incluem: especialmente em contextos de diversidade social, cultural e etá-
▪ Rodas de conversa sobre temas do cotidiano, que favore- ria.
çam a oralidade, a escuta e o pensamento crítico;
▪ Sequências didáticas baseadas em textos funcionais (como ▸Mediação docente: conceito e papel na aprendizagem
receitas, formulários, bilhetes), facilitando a alfabetização ou le- O conceito de mediação tem forte influência da psicologia
tramento em contextos reais; histórico-cultural de Lev Vygotsky, para quem o conhecimento
▪ Atividades de leitura de mundo e problematização de situ- é construído nas interações sociais e mediado por instrumentos
ações sociais, culturais ou políticas relevantes; simbólicos, como a linguagem, os signos e os objetos culturais.
▪ Uso de metodologias ativas, como estudo de caso, oficinas Nesse contexto, o professor atua como mediador entre o sujeito
e projetos integradores. e o conhecimento, orientando, provocando, escutando e desa-
fiando o aluno dentro de sua zona de desenvolvimento proximal.
É fundamental que os conteúdos escolares dialoguem com
as práticas sociais dos alunos adultos e que as avaliações sejam A mediação docente se expressa por meio de ações como:
formativas, levando em consideração o ponto de partida e o ▪ Seleção criteriosa de conteúdos e estratégias didáticas ade-
avanço individual de cada um. quadas ao contexto da turma;
▪ Organização do tempo e do espaço escolar para favorecer
▸Ensino médio e jovens em transição: protagonismo e in- a aprendizagem;
terdisciplinaridade ▪ Intervenções pontuais que orientem o estudante, sem an-
Os jovens do ensino médio estão em uma fase marcada pela tecipar soluções nem substituir seu esforço cognitivo;
busca de identidade, pela crítica social e pelo desejo de partici- ▪ Criação de vínculos afetivos que favoreçam a confiança, a
par ativamente da sociedade. A proposta do Novo Ensino Médio, escuta e o engajamento.
com seus itinerários formativos, reforça a necessidade de práti-
cas pedagógicas mais flexíveis, interativas e conectadas à realida- É importante destacar que mediar não significa controlar o
de dos estudantes. processo de aprendizagem, mas criar as condições para que ele
ocorra de forma ativa, crítica e autônoma. Isso exige do professor
Entre as estratégias possíveis: uma postura investigativa, sensível às necessidades dos alunos e
▪ Utilização de metodologias como sala de aula invertida, aberta à escuta e ao diálogo.
aprendizagem baseada em problemas (PBL) e design thinking;
▪ Criação de clubes de ciências, rodas de leitura, debates e ▸Intencionalidade pedagógica: mais do que ensinar, é edu-
produção de mídias digitais; car com propósito
▪ Acompanhamento personalizado dos interesses vocacio- A intencionalidade pedagógica refere-se à consciência que o
nais dos estudantes, com oficinas e projetos voltados ao mundo educador tem dos objetivos educacionais que pretende alcançar,
do trabalho; e à coerência entre esses objetivos, os métodos escolhidos e as
▪ Fomento à pesquisa escolar, à autoria e ao protagonismo formas de avaliação. Um ensino intencional é aquele que não se
juvenil. limita a cumprir rotinas ou aplicar conteúdos descontextualiza-
dos, mas que parte de finalidades claras e socialmente relevan-
A personalização do ensino e o uso de tecnologias educacio- tes.
nais, quando bem planejados, podem aumentar o engajamento
e promover aprendizagens mais significativas. Essa intencionalidade se manifesta em:
▪ Planejamentos que articulam objetivos de aprendizagem,
Cada faixa etária demanda um olhar atento e sensível às habilidades e competências previstas em documentos como a
suas especificidades. As estratégias pedagógicas devem ir além BNCC;
da simples transmissão de conteúdo, promovendo a participação ▪ Escolha de materiais e metodologias alinhadas aos propó-
ativa, a construção coletiva do conhecimento e o desenvolvimen- sitos formativos da atividade;
to integral dos sujeitos. ▪ Avaliações que não apenas classificam, mas diagnosticam e
Ao reconhecer as singularidades de crianças, adolescentes, orientam o percurso de aprendizagem;
jovens e adultos, o educador amplia as possibilidades de apren- ▪ Compromisso ético com a formação integral do estudante
dizagem e fortalece o papel da escola como espaço de formação como cidadão crítico, autônomo e participativo.
humana e emancipação social.

58
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

A ausência de intencionalidade pedagógica pode resultar em O artigo 14 especifica duas diretrizes fundamentais:
práticas aleatórias, desmotivadoras e ineficazes, mesmo quando “I - participação dos profissionais da educação na elaboração
realizadas com boa vontade. Por isso, é essencial que o educador do projeto pedagógico da escola;
reflita continuamente sobre sua prática, mantendo clareza quan- II - participação das comunidades escolar e local em conse-
to ao “porquê”, “para quê” e “para quem” ensina. lhos escolares ou equivalentes.”

▸Mediação e intencionalidade em diferentes etapas da Plano Nacional de Educação (PNE) - Lei nº 13005/2014:
educação O PNE também promove a gestão democrática, especial-
A atuação do professor como mediador e agente intencional mente nas metas e estratégias que exigem o fortalecimento de
varia conforme a etapa de ensino e o perfil dos estudantes: conselhos escolares, formação de gestores e ampliação da parti-
▪ Na educação infantil, a mediação envolve organizar expe- cipação social nos processos educacionais.
riências de aprendizagem ricas em estímulos sensoriais, lingua-
gem e convivência. A intencionalidade se revela ao transformar ▸Referenciais teóricos da gestão democrática
o brincar em uma atividade educativa planejada e significativa. A gestão democrática é sustentada por diferentes correntes
▪ No ensino fundamental, o docente precisa articular media- teóricas que compreendem a escola como um espaço de convi-
ção afetiva e cognitiva, promovendo a construção de conceitos vência, cidadania e diálogo. Destacam-se autores e perspectivas
por meio de experimentações, leituras e debates. A intencionali- fundamentais:
dade pedagógica se expressa na escolha de conteúdos que façam
sentido para o cotidiano do aluno e que desenvolvam habilida- Paulo Freire:
des de leitura crítica do mundo. A perspectiva freireana considera a educação como práti-
▪ Na EJA, a mediação requer escuta ativa e valorização dos ca da liberdade e defende o diálogo como elemento central na
saberes prévios, com metodologias que respeitem os tempos e construção da gestão democrática. A escola, nesse contexto,
trajetórias dos sujeitos. A intencionalidade deve estar voltada à deve ser um espaço de escuta ativa, de valorização da cultura
formação cidadã, à reinserção social e à ampliação das possibili- local e de participação crítica dos sujeitos envolvidos no processo
dades de participação no mundo do trabalho e da cultura. educativo.
▪ No ensino médio, o professor assume o papel de orienta-
dor de trajetórias, estimulando o protagonismo e a autonomia. José Carlos Libâneo:
A intencionalidade se traduz na articulação entre os interesses Para Libâneo, a gestão democrática implica compartilhar
juvenis, os projetos de vida e as demandas sociais e econômicas poder decisório entre os diferentes segmentos da comunidade
contemporâneas. escolar. O autor propõe um modelo de gestão colegiada, com ên-
fase na articulação entre os aspectos administrativos, pedagógi-
cos e políticos da escola.
XVII - PLANEJAMENTO, ORGANIZAÇÃO E GESTÃO
DEMOCRÁTICA EDUCACIONAL EM ESPAÇO ESCOLAR Vasconcellos e Paro:
E NÃO ESCOLAR Celso Vasconcellos e José Cláudio Castanheira Paro contri-
buem com a compreensão da gestão democrática como um pro-
Fundamentos Teóricos E Legais Da Gestão Democrática cesso político e pedagógico.
Na Educação Paro, especialmente, critica os modelos empresariais de ges-
A gestão democrática é um princípio fundamental da edu- tão e defende que a administração escolar deve estar a serviço
cação brasileira, sendo reconhecida tanto no plano legal quanto da formação humana, considerando a escola como bem público
nas abordagens teóricas que sustentam práticas participativas, e instrumento de justiça social.
inclusivas e voltadas à construção coletiva das decisões educa-
cionais. ▸Princípios orientadores da gestão democrática
A efetivação da gestão democrática depende da observância
▸Base legal da gestão democrática na educação brasileira de princípios que sustentam sua prática cotidiana. Entre os mais
A gestão democrática encontra respaldo na Constituição Fe- relevantes, destacam-se:
deral de 1988, que estabelece em seu artigo 206, inciso VI: “ges-
tão democrática do ensino público, na forma da lei”. Esse prin- Participação coletiva:
cípio orienta a construção de modelos de gestão participativos, A construção das decisões deve envolver diferentes sujeitos
descentralizados e comprometidos com a pluralidade de vozes da escola: professores, estudantes, famílias, equipe gestora e co-
da comunidade escolar. munidade. A participação não se restringe a momentos formais,
Outros dispositivos legais relevantes incluem: como reuniões ou conselhos, mas deve ser incentivada continua-
mente por meio de canais institucionais.
Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) - Lei
nº 9394/1996: Transparência e accountability:
A LDB reforça o princípio democrático no artigo 3º, inciso A gestão democrática requer a prestação de contas à comu-
VIII, ao afirmar que o ensino será ministrado com base no “prin- nidade escolar e o acesso público às decisões, orçamentos e me-
cípio da gestão democrática do ensino público, na forma da legis- tas institucionais.
lação e das normas dos sistemas de ensino”.

59
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Autonomia pedagógica, administrativa e financeira: Planejamento tático (institucional):


Embora as escolas estejam inseridas em sistemas de ensino, Refere-se ao planejamento das instituições de ensino, tanto
é fundamental garantir a autonomia relativa das unidades esco- escolares quanto não escolares. Inclui os planos de ação das se-
lares para construírem seus projetos pedagógicos com base nas cretarias de educação e das escolas, como os Planos de Desen-
realidades locais e nos objetivos educacionais pactuados. volvimento da Escola (PDE), Projetos Político-Pedagógicos (PPP)
e planos de gestão.
Compromisso com a equidade e justiça social:
A gestão democrática deve garantir o direito à educação com Planejamento operacional (cotidiano):
qualidade para todos, promovendo ações afirmativas, inclusão Envolve as ações práticas dos professores, coordenadores
de grupos historicamente excluídos e práticas voltadas à supera- pedagógicos e demais profissionais da educação, como o plano
ção das desigualdades. de aula, o planejamento semanal, os horários escolares e a orga-
nização de eventos pedagógicos. Tem foco na execução diária das
▸Instrumentos legais e institucionais de apoio à gestão de- atividades educacionais.
mocrática
Diversos mecanismos institucionais são previstos para viabi- ▸Etapas do planejamento educacional
lizar a gestão democrática nos sistemas de ensino: O planejamento segue um ciclo contínuo e dinâmico que
▪ Conselhos escolares: órgãos colegiados de natureza de- permite a constante avaliação e reformulação das ações. Suas
liberativa, consultiva e fiscal, compostos por representantes da etapas básicas incluem:
comunidade escolar, com o objetivo de fortalecer a participação
e o controle social. Diagnóstico:
▪ Projetos político-pedagógicos (PPP): documento orienta- Levantamento e análise da realidade educacional, conside-
dor da prática educacional da escola, elaborado coletivamente e rando dados quantitativos e qualitativos, como rendimento es-
com base nos princípios da gestão democrática. colar, evasão, estrutura física, perfil dos alunos e da comunidade.
▪ Eleição de diretores escolares: política adotada por vários
sistemas de ensino, prevista na LDB como forma de assegurar a Definição de objetivos e metas:
gestão democrática, embora ainda não seja obrigatória em todo Estabelecimento claro do que se pretende alcançar. Os obje-
o país. tivos são mais amplos e qualitativos; as metas, por sua vez, são
quantificáveis e delimitadas no tempo.
Os fundamentos teóricos e legais da gestão democrática
educacional apontam para um modelo de escola que vai além Elaboração das estratégias de ação:
da simples administração técnica: ela deve ser um espaço polí- Consiste na definição dos meios, recursos e atividades ne-
tico-pedagógico, participativo e comprometido com os direitos cessárias para atingir os objetivos propostos. Inclui cronogramas,
sociais. divisão de tarefas, previsão orçamentária e definição de respon-
Com base na Constituição Federal, na LDB, no PNE e nas con- sáveis.
tribuições de autores como Paulo Freire e Libâneo, a gestão de-
mocrática se firma como caminho essencial para a construção de Execução do plano:
uma educação pública de qualidade, inclusiva e voltada à trans- Implementação das ações previstas, com acompanhamento
formação social. dos responsáveis e uso dos recursos planejados.
Avaliação e monitoramento:
Planejamento E Organização Educacional – Dimensões, Etapa fundamental que visa analisar os resultados obtidos
Etapas E Instrumentos em relação às metas estabelecidas. Permite a identificação de
O planejamento e a organização educacional são proces- avanços, desafios e a necessidade de ajustes no percurso.
sos essenciais para assegurar a intencionalidade, a coerência e
a eficácia das ações pedagógicas e administrativas nas institui- ▸Instrumentos de planejamento e organização na educa-
ções educacionais. Trata-se de um conjunto de procedimentos ção
sistemáticos voltados à definição de objetivos, estabelecimento A efetividade do planejamento depende da utilização de ins-
de metas e racionalização de recursos humanos, materiais e fi- trumentos técnicos e pedagógicos que organizam as ações esco-
nanceiros. lares e não escolares. Os principais são:

▸Dimensões do planejamento educacional Projeto Político-Pedagógico (PPP):


O planejamento educacional pode ser analisado em diferen- Documento norteador de todas as ações da escola, constru-
tes níveis, que se articulam entre si e permitem o alinhamento ído de forma coletiva com a participação da comunidade escolar.
das políticas públicas com as práticas institucionais: Define a identidade institucional, os princípios pedagógicos, as
metas e os planos de ação. É a principal ferramenta de planeja-
Planejamento estratégico (macropolítico): mento institucional escolar.
Abrange o nível das políticas públicas e das diretrizes go-
vernamentais para a educação em âmbito nacional, estadual ou
municipal. Está relacionado à definição de metas de longo prazo,
como no caso do Plano Nacional de Educação (PNE), que orienta
o sistema educacional brasileiro por dez anos.

60
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Plano de Gestão Escolar:


Planejamento elaborado pela equipe gestora (direção e XVIII - IMPLEMENTAÇÃO E AVALIAÇÃO DE
coordenação pedagógica), com base no PPP, que define ações CURRÍCULOS, PROGRAMAS EDUCACIONAIS E
administrativas, pedagógicas e financeiras. Serve de base para a PROJETOS POLÍTICO-PEDAGÓGICOS
prestação de contas e para o acompanhamento de resultados.
Implementação Curricular E Institucional: Fundamen-
Plano de Ensino e Plano de Aula: tos, Etapas E Atores Envolvidos
Ferramentas utilizadas pelos docentes para organizar os con- A implementação de um currículo ou programa educacional
teúdos, metodologias, recursos e avaliações de forma sistemati- envolve um processo complexo de articulação entre fundamen-
zada. O plano de ensino abrange o período letivo; o plano de aula tos teóricos, decisões político-pedagógicas e práticas concretas
é mais pontual e detalhado. nas instituições de ensino. Esse processo é determinado por di-
retrizes legais, demandas sociais e escolhas coletivas que se ma-
Calendário Escolar: terializam nos projetos político-pedagógicos (PPPs).
Instrumento legal e organizacional que estrutura o ano le-
tivo, distribuindo os dias letivos, feriados, avaliações, reuniões ▸Fundamentos da implementação curricular e institucio-
pedagógicas, eventos escolares e períodos de recuperação. nal
A implementação curricular está ancorada em fundamen-
Relatórios e registros pedagógicos: tos teóricos, legais e políticos. No plano normativo, a Constitui-
Documentos que sistematizam observações, resultados de ção Federal de 1988 (artigo 206) e a Lei de Diretrizes e Bases da
aprendizagem e encaminhamentos realizados com os alunos. Educação Nacional - LDB (Lei nº 9.394/1996) definem princípios
São fundamentais para o acompanhamento contínuo e para a como a gestão democrática, a valorização dos profissionais da
avaliação formativa. educação e a articulação entre os níveis de ensino. A Base Na-
cional Comum Curricular (BNCC) também atua como orientadora
▸Princípios que orientam o planejamento e a organização central, promovendo a equidade e a garantia de aprendizagens
educacional essenciais.
Um planejamento educacional eficiente deve estar sustenta- Além da legislação, a implementação curricular está vincu-
do por princípios que assegurem sua coerência com os objetivos lada a concepções pedagógicas. Os principais paradigmas que
da educação pública democrática: influenciam os currículos são o tecnicista, o crítico e o socio-
construtivista. Cada um deles traz implicações distintas para o
Participação e colegialidade: desenho do currículo, a seleção de conteúdos, a organização do
O planejamento deve ser construído coletivamente, envol- tempo e do espaço escolar e as formas de avaliação.
vendo todos os segmentos da escola e, sempre que possível, re- Outro fundamento essencial é o projeto político-pedagógico,
presentantes da comunidade. Isso fortalece o comprometimento que expressa a identidade da escola e suas escolhas curriculares.
com as metas e legitima as ações propostas. Conforme a LDB, o PPP deve ser elaborado com a participação da
comunidade escolar e refletir os contextos sociais e culturais dos
Flexibilidade e adaptabilidade: estudantes, respeitando a autonomia das instituições dentro das
Planos rígidos não atendem às necessidades reais da escola. diretrizes gerais do sistema de ensino.
A flexibilidade permite ajustes diante de mudanças de contexto,
dificuldades imprevistas ou novas oportunidades. ▸Etapas da implementação curricular
A implementação curricular e institucional ocorre em várias
Coerência entre teoria e prática: etapas interligadas. Essas etapas não são necessariamente linea-
As ações previstas devem estar alinhadas ao projeto peda- res, mas formam um ciclo contínuo de planejamento, execução e
gógico da escola e às concepções educacionais defendidas pela revisão. Podemos dividi-las em quatro fases principais:
equipe. Isso garante a unidade do trabalho pedagógico.
Planejamento e construção coletiva:
Compromisso com a qualidade social da educação: Envolve o diagnóstico da realidade escolar, o estudo das
O planejamento deve visar não apenas ao desempenho aca- diretrizes curriculares e a definição dos objetivos educacionais.
dêmico, mas à formação integral dos sujeitos, à inclusão, à equi- Neste momento, a equipe gestora, os professores e os demais
dade e ao fortalecimento da cidadania. membros da comunidade escolar devem ser envolvidos para
garantir um currículo coerente com as necessidades locais e os
O planejamento e a organização educacional são processos marcos legais.
estruturantes da prática educativa, tanto em espaços escolares
quanto não escolares. Quando baseados em princípios democrá- Organização e capacitação:
ticos, participativos e pedagógicos, tornam-se instrumentos po- Após a elaboração do currículo ou revisão do PPP, é fun-
tentes de transformação da realidade educacional. damental investir na formação continuada dos profissionais. A
A elaboração criteriosa de planos, a participação ativa da co- capacitação visa alinhar a compreensão teórico-prática sobre
munidade escolar e a avaliação contínua das ações são elemen- o novo currículo e fortalecer a atuação docente, favorecendo a
tos indispensáveis para a efetividade do planejamento e para a apropriação dos conteúdos, metodologias e critérios avaliativos.
consolidação de uma gestão democrática comprometida com a
qualidade da educação.

61
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Execução e acompanhamento: ▸Conceitos fundamentais de avaliação de programas


A execução curricular exige uma prática pedagógica inten- A avaliação de programas educacionais pode ser compreen-
cional, orientada por planos de ensino e registros sistemáticos. dida como um processo sistemático de coleta e análise de dados
O acompanhamento contínuo permite ajustes nas práticas peda- com a finalidade de julgar o mérito, o valor e a efetividade de
gógicas e na gestão escolar, promovendo o alinhamento entre o uma determinada intervenção educacional. Essa avaliação pode
previsto e o realizado. ter diferentes focos e funções:
▪ Avaliação diagnóstica: realizada no início do programa,
Avaliação e reformulação: busca identificar as condições iniciais, os problemas a serem en-
A avaliação da implementação curricular deve ser processu- frentados e os recursos disponíveis.
al e participativa, envolvendo a análise de indicadores educacio- ▪ Avaliação formativa: ocorre durante a execução do progra-
nais, resultados de aprendizagem e percepções da comunidade. ma, permitindo ajustes em tempo real para melhorar sua efeti-
Com base nesses dados, ajustes podem ser feitos para aprimorar vidade.
a coerência e a efetividade do currículo. ▪ Avaliação somativa: ocorre ao final do ciclo de implementa-
ção e visa verificar os resultados e impactos produzidos.
▸Atores envolvidos no processo
A implementação curricular e institucional depende da ação Tais avaliações devem considerar aspectos qualitativos e
integrada de diversos sujeitos. Entre os principais, destacam-se: quantitativos, e não se limitar apenas a dados estatísticos. É es-
▪ Gestores escolares: coordenam o processo de planejamen- sencial compreender os significados das ações, os contextos em
to e implementação, mobilizam recursos e promovem a articu- que são aplicadas e a percepção dos sujeitos envolvidos.
lação entre professores, famílias e órgãos do sistema de ensino.
▪ Docentes: protagonistas na execução do currículo, são ▸Dimensões avaliativas e critérios de análise
responsáveis pela adaptação dos conteúdos às realidades das Ao se avaliar um programa educacional, algumas dimensões
turmas, pela mediação pedagógica e pela avaliação das apren- são recorrentes:
dizagens. ▪ Relevância: relação entre os objetivos do programa e as
▪ Estudantes: participantes centrais, pois o currículo deve es- necessidades reais da comunidade escolar.
tar voltado às suas necessidades, experiências e trajetórias. Sua ▪ Eficiência: relação entre os recursos utilizados e os resulta-
escuta é essencial para garantir um processo significativo. dos obtidos.
▪ Famílias e comunidade: colaboram na construção e mo- ▪ Eficácia: grau de alcance dos objetivos definidos inicialmen-
nitoramento do projeto educativo, contribuindo com saberes e te.
demandas locais. ▪ Impacto: mudanças produzidas no contexto educacional,
▪ Sistemas de ensino: produzem normativas, orientações seja na aprendizagem, seja na cultura escolar.
pedagógicas e apoio técnico às escolas, desempenhando papel ▪ Sustentabilidade: capacidade de continuidade e institucio-
fundamental na indução de políticas curriculares. nalização das ações propostas.

A implementação curricular e institucional exige uma visão Além dessas dimensões, os critérios avaliativos devem es-
sistêmica, compromisso ético e competência técnica por parte tar alinhados ao projeto político-pedagógico da escola, pois é ele
de todos os envolvidos. Um currículo bem implementado não se que define os princípios educativos e os compromissos sociais da
limita à organização de conteúdos, mas representa um projeto de instituição.
formação humana articulado às finalidades sociais da educação.
Para isso, é essencial garantir espaços de diálogo, planeja- ▸A articulação entre avaliação de programas e o projeto
mento participativo e avaliação contínua, consolidando uma cul- político-pedagógico
tura escolar democrática e comprometida com a qualidade da O projeto político-pedagógico não deve ser entendido como
educação. um documento formal e estanque, mas como um instrumento
dinâmico, construído coletivamente e orientado à transformação
Avaliação De Programas Educacionais E Sua Articula- da prática educativa. Portanto, a avaliação dos programas educa-
ção Com O Projeto Político-Pedagógico cionais precisa dialogar com o PPP, reforçando seus princípios e
A avaliação de programas educacionais é uma ferramenta finalidades.
estratégica para o aprimoramento das políticas públicas e para a
garantia da qualidade da educação. Ela permite analisar em que Alguns aspectos fundamentais dessa articulação são:
medida os objetivos previstos foram alcançados, identificando ▪ Coerência com os objetivos do PPP: os programas avaliados
avanços, dificuldades e necessidades de correção. devem estar inseridos no planejamento global da escola e contri-
Quando articulada ao projeto político-pedagógico (PPP), buir para a consolidação de seus princípios formativos.
essa avaliação ganha profundidade, pois considera os valores, as ▪ Participação da comunidade escolar: o processo avaliativo
metas e as escolhas coletivas que orientam a prática educativa deve envolver professores, estudantes, gestores e famílias, ga-
na escola. rantindo legitimidade e pluralidade de perspectivas.
▪ Aperfeiçoamento da prática pedagógica: os dados e análi-
ses produzidos pela avaliação devem subsidiar a revisão das es-
tratégias pedagógicas e organizacionais.

62
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

▪ Retroalimentação do PPP: os resultados da avaliação po- ▪ Gestão centralizadora: quando a direção escolar e os ór-
dem indicar a necessidade de revisar o próprio projeto político- gãos administrativos não promovem a escuta ativa e a partici-
-pedagógico, promovendo sua atualização e aderência às reali- pação da comunidade, ocorre um esvaziamento dos princípios
dades educacionais. da gestão democrática, que deveria orientar todas as decisões
escolares.
▸Instrumentos e metodologias de avaliação ▪ Desigualdades sociais e estruturais: contextos de vulnera-
A condução de uma avaliação eficaz exige a seleção de ins- bilidade impactam diretamente a implementação do currículo e
trumentos adequados e metodologias coerentes com os objeti- o acesso equitativo às aprendizagens. Faltam recursos, tempo e
vos propostos. Entre os instrumentos mais utilizados, destacam- infraestrutura para a efetivação de propostas pedagógicas signi-
-se: ficativas.
▪ Questionários e entrevistas com a comunidade escolar ▪ Falta de integração entre os documentos institucionais:
▪ Análise documental (registros escolares, planejamentos, o projeto político-pedagógico, o regimento escolar, o plano de
relatórios) gestão e o currículo muitas vezes não dialogam entre si, o que
▪ Observação de aulas e atividades escolares compromete a coerência institucional e gera contradições nas
▪ Indicadores educacionais (frequência, rendimento, partici- decisões pedagógicas.
pação, permanência)
▸Estratégias para promover coerência e efetividade
No que se refere às metodologias, destaca-se a avaliação Para superar esses desafios e construir uma prática educa-
participativa, que valoriza o envolvimento dos sujeitos na defini- tiva coerente, é necessário que a escola adote estratégias inte-
ção dos critérios, na interpretação dos dados e na proposição de gradoras e participativas. A seguir, são apresentadas algumas das
melhorias. Essa abordagem fortalece o protagonismo das escolas principais:
e contribui para a construção de uma cultura avaliativa crítica e
emancipadora. Fortalecimento da formação docente continuada:
A avaliação de programas educacionais, quando orientada A formação permanente dos profissionais da educação é
por princípios democráticos e articulada ao projeto político-pe- condição fundamental para a articulação entre currículo e prá-
dagógico, deixa de ser um simples instrumento de controle para tica pedagógica. Essa formação deve abordar não apenas conte-
se tornar uma prática de autorreflexão institucional. údos específicos, mas também metodologias, avaliação, inclusão
Ela possibilita o aprimoramento contínuo da escola e con- e gestão democrática. Espaços de estudo coletivo, como grupos
tribui para a efetivação de uma educação pública de qualidade, de trabalho pedagógico (GTPs), comunidades de aprendizagem
equitativa e socialmente referenciada. e assessorias externas qualificadas, são estratégias importantes
Para isso, é imprescindível que os processos avaliativos este- para esse fim.
jam integrados ao cotidiano escolar e se realizem com transpa-
rência, ética e compromisso com a transformação social. Elaboração coletiva e dinâmica do projeto político-pedagó-
gico:
Desafios E Estratégias Para Garantir Coerência Entre O PPP deve ser elaborado com ampla participação da comu-
Currículo, Práticas Pedagógicas E Gestão Democrática nidade escolar, o que favorece a internalização de seus princípios
A coerência entre currículo, práticas pedagógicas e gestão por todos os atores. Além disso, ele precisa ser constantemen-
democrática é um dos maiores desafios da educação contem- te revisitado, tornando-se um instrumento vivo que oriente as
porânea. Muitas vezes, os documentos oficiais apresentam pro- ações cotidianas da escola. Um PPP coerente deve prever formas
postas inovadoras, inclusivas e formativas, mas sua aplicação de monitoramento, metas claras e diálogo permanente com o
concreta nas escolas encontra obstáculos estruturais, culturais e currículo.
políticos.
Promoção da gestão democrática:
▸Principais desafios para a coerência entre os elementos A gestão escolar deve assumir uma postura dialógica, trans-
estruturantes parente e corresponsável. Para isso, é essencial garantir o funcio-
A separação entre o currículo prescrito e o currículo real é namento dos conselhos escolares, grêmios estudantis e assem-
uma das grandes dificuldades observadas nas escolas. Enquanto bleias escolares. A construção coletiva das decisões pedagógicas
o currículo oficial estabelece competências, habilidades e valo- e administrativas fortalece o compromisso da comunidade com o
res a serem desenvolvidos, a prática pedagógica cotidiana muitas projeto educativo e favorece a coerência institucional.
vezes não consegue dar conta dessa complexidade. Entre os de-
safios mais recorrentes, destacam-se: Integração dos documentos e ações pedagógicas:
▪ Fragmentação entre teoria e prática: professores nem sem- Currículo, plano de ensino, regimento escolar, plano de ges-
pre conseguem traduzir os princípios do currículo em estratégias tão e PPP devem estar alinhados em seus princípios e finalidades.
metodológicas efetivas, o que enfraquece o vínculo entre os ob- Esse alinhamento contribui para a clareza dos objetivos, para a
jetivos formativos e o cotidiano da sala de aula. coerência das ações e para a estabilidade institucional, mesmo
▪ Ausência de formação continuada: muitos docentes não diante de mudanças externas (como políticas públicas ou altera-
são adequadamente preparados para lidar com os novos marcos ções na equipe gestora).
curriculares, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC),
resultando em práticas tradicionais que não dialogam com os
pressupostos do currículo.

63
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Monitoramento e avaliação participativa das práticas esco- Esse entendimento é reforçado pela Lei de Diretrizes e Ba-
lares: ses da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996), especialmente no
A escola deve adotar processos de avaliação interna que artigo 1º, §2º, que reconhece a educação escolar como comple-
envolvam professores, estudantes, famílias e funcionários. Esses mentar à experiência social e familiar. A LDB também ressalta,
processos devem gerar dados qualitativos e quantitativos que em diversos momentos, a importância da gestão democrática e
orientem a tomada de decisões, permitindo ajustes contínuos da participação da comunidade escolar na formulação e imple-
nas práticas e no currículo. A autoavaliação institucional, por mentação dos projetos pedagógicos, evidenciando a interdepen-
exemplo, é uma ferramenta importante para identificar avanços dência entre escola, família e sociedade.
e fragilidades.
▸Família, comunidade e movimentos sociais como agentes
Fomento à cultura de colaboração e protagonismo: educativos
A valorização das práticas colaborativas entre os profissio- A família é o primeiro núcleo social com o qual a criança in-
nais da escola contribui para a articulação do trabalho pedagó- terage e, portanto, exerce papel formativo fundamental. Valores,
gico. Planejamentos coletivos, trocas de experiências e projetos atitudes e expectativas são inicialmente construídos nesse am-
interdisciplinares favorecem a construção de uma prática coe- biente. Quando a escola reconhece e valoriza o saber familiar,
rente com o currículo e os princípios democráticos. Do mesmo estreita-se o vínculo entre o que é aprendido em casa e o que é
modo, o protagonismo estudantil deve ser estimulado, incluindo ensinado no ambiente escolar. Essa sintonia favorece a aprendi-
os estudantes no planejamento e avaliação das ações escolares. zagem e fortalece a autoestima dos estudantes.
Construir coerência entre currículo, prática pedagógica e A comunidade, por sua vez, oferece repertórios culturais, sa-
gestão democrática não é um processo simples nem automáti- beres tradicionais e práticas sociais que enriquecem o currículo
co. Exige engajamento coletivo, planejamento estratégico e um escolar. Ao abrir-se à comunidade, a escola se torna mais con-
compromisso ético com a formação integral dos sujeitos. textualizada e significativa para os estudantes, permitindo que a
As escolas que conseguem integrar esses elementos desen- aprendizagem dialogue com os desafios e potências do território
volvem um ambiente educacional mais justo, participativo e for- em que está inserida.
mativo. Nesse contexto, o papel de cada ator — professor, gestor, Os movimentos sociais, por fim, têm desempenhado papel
estudante, família e comunidade — é essencial para garantir que estratégico na promoção de uma educação crítica, popular e
o currículo não seja apenas um documento oficial, mas uma rea- emancipadora. Sujeitos coletivos como movimentos de luta por
lidade viva, capaz de transformar vidas e sociedades. moradia, sindicatos de trabalhadores da educação, coletivos de
juventude e organizações indígenas ou quilombolas contribuem
com experiências formativas e práticas de resistência que am-
XIX - PRÁTICAS DE ARTICULAÇÃO ENTRE ESCOLA, pliam os horizontes do currículo escolar. Suas pautas questionam
FAMÍLIA, COMUNIDADE E MOVIMENTOS SOCIAIS as desigualdades estruturais e promovem o protagonismo social.

A Importância Da Articulação Entre Os Diferentes ▸Impactos positivos da articulação para a formação edu-
Agentes Sociais Na Formação Educacional cacional
A educação contemporânea, ancorada em princípios demo- A construção de redes de colaboração entre escola, família,
cráticos, inclusivos e participativos, demanda uma reconfigura- comunidade e movimentos sociais gera impactos positivos em
ção do papel da escola como espaço exclusivo de transmissão de diversos aspectos da vida escolar. Estudos educacionais apontam
conhecimento. Essa nova perspectiva reconhece que a formação que o envolvimento familiar está associado a melhores indica-
integral dos estudantes não pode ser responsabilidade unica- dores de desempenho acadêmico, redução da evasão escolar
mente da instituição escolar, sendo essencial a articulação com e maior engajamento dos estudantes. Além disso, experiências
outros agentes sociais, como a família, a comunidade e os movi- educativas integradas com a comunidade favorecem o desenvol-
mentos sociais. Essa articulação tem implicações significativas no vimento do sentimento de pertencimento, da solidariedade e da
desenvolvimento cognitivo, afetivo, social e ético dos educandos, responsabilidade social.
além de contribuir para o fortalecimento da cidadania ativa e da A presença dos movimentos sociais no espaço escolar possi-
justiça social. bilita o contato com narrativas contra-hegemônicas, contribuin-
do para a formação de sujeitos críticos e conscientes de seu papel
▸A educação como responsabilidade compartilhada transformador na sociedade. Essas práticas também fortalecem
A Constituição Federal de 1988 estabelece, no artigo 205, a identidade cultural dos estudantes e combatem o preconceito,
que “a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, a discriminação e a exclusão social, sobretudo em comunidades
será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade”. historicamente marginalizadas.
Essa diretriz constitucional evidencia a natureza coletiva da edu-
cação e convoca a participação ativa de diferentes atores sociais. ▸Fundamentação teórica e pedagógica
A escola, por sua vez, não deve ser vista como uma entidade Diversos pensadores da educação reforçam a importância
isolada, mas como um espaço de diálogo e construção conjun- dessa articulação. Paulo Freire, em especial, é referência funda-
ta com outros sujeitos comprometidos com o desenvolvimento mental ao defender uma educação dialógica, em que o conhe-
humano. cimento é construído de forma coletiva e contextualizada. Para
Freire, “a escola não pode ficar isolada do contexto em que está
inserida”, pois a aprendizagem significativa ocorre a partir do re-
conhecimento do sujeito como parte ativa de sua comunidade.

64
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Autores como Emília Ferreiro e Henry Giroux também sus- o currículo escolar seja ressignificado a partir das realidades vi-
tentam que a educação deve articular-se aos saberes da vida vidas pelos sujeitos, promovendo um ensino contextualizado e
cotidiana, promovendo uma abordagem crítica e participativa. socialmente relevante.
Em um cenário de complexas transformações sociais e culturais,
a articulação entre escola, família, comunidade e movimentos ▸Tecnologias da informação como ferramentas de integra-
sociais é não apenas desejável, mas necessária para garantir o ção
direito à educação de qualidade para todos. A utilização estratégica das tecnologias de comunicação
pode ampliar os canais de diálogo entre escola, família e comuni-
Estratégias Práticas De Integração Entre Escola, Famí- dade. Plataformas digitais, redes sociais, grupos de mensagens e
lia, Comunidade E Movimentos Sociais portais escolares possibilitam maior transparência, acompanha-
A promoção de uma educação democrática e integral exige mento do desempenho dos estudantes e divulgação das ações
o planejamento e a execução de ações concretas que aproximem pedagógicas.
a escola dos demais agentes formativos da sociedade. Para que No entanto, é fundamental garantir que essas ferramentas
essa integração se efetive, é necessário criar mecanismos institu- não substituam o contato presencial, mas o complementem.
cionais e pedagógicos que promovam o diálogo, a corresponsabi- Reuniões virtuais, transmissões ao vivo de eventos escolares, bo-
lidade e a construção coletiva de saberes. letins digitais e escuta online da comunidade são exemplos de
estratégias que podem fortalecer o vínculo entre a escola e os
▸Projetos pedagógicos abertos ao território demais agentes sociais.
Um caminho relevante para fortalecer a integração é cons-
truir projetos pedagógicos com base no diagnóstico do território ▸Ações intersetoriais e parcerias institucionais
e das demandas da comunidade. A escola deve mapear os sabe- A articulação com serviços públicos de saúde, assistência so-
res locais, identificar lideranças comunitárias, instituições parcei- cial, cultura e esporte potencializa o atendimento às múltiplas di-
ras e movimentos sociais atuantes, de modo a elaborar propos- mensões do desenvolvimento dos estudantes. Programas como
tas curriculares que valorizem esses sujeitos e práticas. o PSE (Programa Saúde na Escola) e o PAIF (Serviço de Proteção e
Esses projetos podem incluir temas transversais como iden- Atendimento Integral à Família) são exemplos de políticas públi-
tidade cultural, meio ambiente, trabalho, direitos humanos e cas que incentivam a integração intersetorial.
cidadania, que abrem espaço para a participação de familiares, A escola também pode firmar parcerias com universidades,
ativistas e representantes comunitários nas atividades escolares. ONGs, centros culturais, museus, bibliotecas e outras entidades
Além disso, o currículo pode ser enriquecido com visitas técnicas, do terceiro setor para desenvolver projetos educativos conjun-
oficinas temáticas, rodas de conversa e seminários, envolvendo tos. Essas colaborações enriquecem o processo formativo e am-
atores externos à escola. pliam o repertório cultural dos estudantes, além de fortalecer a
identidade institucional da escola como polo de desenvolvimen-
▸Conselhos escolares e fóruns participativos to comunitário.
A gestão democrática, prevista na Lei nº 9.394/1996, artigo
14, orienta a constituição de conselhos escolares como espaços ▸Formação continuada de educadores para a atuação in-
de representação e decisão coletiva. Quando bem estruturados, tegrada
esses conselhos promovem a participação ativa de pais, alunos, Para que todas essas estratégias sejam efetivas, é indis-
professores, funcionários e membros da comunidade nas deci- pensável que os educadores estejam preparados para atuar em
sões administrativas, financeiras e pedagógicas da escola. contextos de diversidade e complexidade social. A formação con-
Além dos conselhos, a criação de fóruns temáticos, assem- tinuada deve incluir temas como mediação de conflitos, escuta
bleias escolares, conferências de educação e encontros interse- qualificada, educação inclusiva, relações étnico-raciais, direitos
toriais contribui para a construção de uma cultura de diálogo e humanos e pedagogias críticas.
corresponsabilidade. Esses espaços devem ser planejados com Momentos formativos com a presença de representantes da
metodologias participativas, de modo a garantir a escuta qualifi- comunidade e de movimentos sociais também são importantes
cada e a valorização das contribuições dos diferentes segmentos para desconstruir preconceitos e ampliar a compreensão sobre
sociais. as realidades dos estudantes.
Quando os professores se reconhecem como mediadores
▸Educação popular e pedagogia crítica entre saberes escolares e comunitários, tornam-se agentes es-
A escola pode se beneficiar de metodologias oriundas da tratégicos na construção de pontes entre a escola e a sociedade.
educação popular, desenvolvida a partir das experiências de Pau-
lo Freire, para promover a integração com os movimentos so- Desafios E Possibilidades Para A Consolidação De Uma
ciais. A pedagogia do diálogo, da escuta ativa e da problematiza- Educação Participativa E Cidadã
ção da realidade local é especialmente adequada para trabalhar A consolidação de uma educação participativa e cidadã
com comunidades em situação de vulnerabilidade social. representa um dos grandes desafios da escola pública contem-
Grupos de mulheres, juventudes periféricas, movimentos de porânea. Embora os marcos legais e teóricos apontem para a
moradia, sindicatos e coletivos étnico-raciais podem ser convi- necessidade de integração entre escola, família, comunidade e
dados a participar de atividades pedagógicas, contribuindo com movimentos sociais, a efetivação dessas diretrizes enfrenta obs-
seus saberes e experiências de luta. Essa abordagem permite que táculos estruturais, culturais e políticos. Por outro lado, experiên-

65
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

cias exitosas demonstram que é possível transformar a realidade ca. A abertura para o diálogo com os estudantes, suas famílias e
escolar por meio do fortalecimento da gestão democrática, da os coletivos do território permite à escola reconhecer demandas
escuta ativa e do reconhecimento dos diversos saberes sociais. reais, acolher vivências diversas e reconfigurar sua atuação de
forma mais sensível e responsiva.
▸Desafios estruturais e institucionais A criação de projetos integradores com base no protagonis-
Um dos principais entraves à consolidação de práticas parti- mo estudantil e comunitário também é uma via potente para a
cipativas está nas condições precárias de infraestrutura e recur- transformação educativa. Iniciativas como grêmios estudantis,
sos humanos que marcam muitas escolas públicas brasileiras. A coletivos culturais, hortas comunitárias, projetos de memória
carência de espaços adequados para reuniões, a sobrecarga dos local, rádio-escola e mutirões sociais estimulam a corresponsabi-
profissionais da educação, a rotatividade de gestores e a ausên- lidade e o engajamento dos sujeitos.
cia de políticas públicas contínuas limitam a implementação de ▸Além disso, a valorização dos saberes tradicionais e das
ações de articulação mais consistentes. práticas culturais locais contribui para a construção de um currí-
A desvalorização do magistério também afeta diretamente a culo vivo, conectado com o cotidiano dos estudantes. Isso requer
qualidade da mediação entre os diversos agentes sociais. A falta uma postura pedagógica aberta à escuta, ao reconhecimento da
de tempo para planejamento coletivo e para o desenvolvimento diversidade e à construção coletiva do conhecimento.
de projetos integradores compromete a capacidade da escola de
se abrir ao território. Além disso, a burocratização dos processos ▸O papel das políticas públicas e da formação docente
escolares, muitas vezes centrados em metas administrativas e A consolidação de uma educação cidadã exige o compromis-
avaliações externas, reduz o espaço para a escuta da comunida- so dos gestores públicos na formulação de políticas integradas
de e para a experimentação pedagógica. que articulem educação, assistência social, saúde, cultura e ju-
ventude. Programas que incentivem a participação comunitária,
▸Desigualdades sociais e barreiras culturais o financiamento de projetos escolares e a formação crítica de
A articulação entre escola, família e comunidade é forte- educadores são fundamentais para criar condições concretas de
mente impactada pelas desigualdades socioeconômicas que mudança.
atravessam a sociedade brasileira. Famílias em situação de vulne- Nesse sentido, a formação docente precisa ir além da dimen-
rabilidade, que enfrentam jornadas exaustivas de trabalho, insta- são técnica e incorporar uma abordagem sociopolítica da prática
bilidade habitacional ou falta de acesso à internet, muitas vezes educativa. Ao compreender o papel histórico da escola na repro-
não conseguem participar efetivamente das atividades escolares. dução ou superação das desigualdades, os educadores tornam-
Em outros casos, há um histórico de distanciamento, desconfian- -se agentes conscientes da transformação social.
ça ou até mesmo rejeição mútua entre a escola e determinados A consolidação de uma educação participativa e cidadã não é
segmentos sociais. tarefa simples nem imediata. Trata-se de um processo contínuo,
Além disso, práticas educativas marcadas por visões euro- que exige enfrentamento dos desafios estruturais, superação de
cêntricas, racistas ou autoritárias contribuem para a deslegitima- resistências ideológicas e investimento em práticas pedagógicas
ção dos saberes populares e das vozes coletivas que emergem inovadoras. No entanto, quando a escola se abre ao diálogo com
dos movimentos sociais. O preconceito contra a cultura perifé- a família, a comunidade e os movimentos sociais, ela amplia sua
rica, indígena, quilombola, camponesa ou urbana marginalizada potência transformadora e reafirma seu compromisso com a for-
impede a construção de um currículo realmente plural e inclu- mação de sujeitos autônomos, críticos e comprometidos com a
sivo. justiça social.

▸Resistências ideológicas e disputas políticas


Outro desafio central reside nas disputas de projetos de so-
XX - HISTÓRIAS E CULTURAS AFRICANAS, AFRO-
ciedade presentes no campo educacional. A defesa de uma esco-
BRASILEIRAS E INDÍGENAS
la democrática e aberta ao diálogo com os movimentos sociais
muitas vezes encontra resistência em discursos conservadores Marcos Legais E Diretrizes Curriculares: Avanços E
que buscam deslegitimar o papel crítico da educação. Propostas Desafios Da Implementação
como o “Escola Sem Partido” e tentativas de censura pedagógi- A incorporação das histórias e culturas africanas, afro-bra-
ca representam obstáculos à livre expressão e à pluralidade de sileiras e indígenas no currículo escolar é fruto de um processo
ideias nas instituições escolares. histórico de lutas por reconhecimento e valorização da diversida-
As tensões ideológicas também se manifestam nas relações de étnico-racial no Brasil. A consolidação de marcos legais como
internas da escola. Nem sempre há consenso entre os membros as Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008 representa um avan-
da equipe gestora e docente sobre a importância da participação ço fundamental para uma educação comprometida com a jus-
comunitária ou sobre o papel político da educação. Isso deman- tiça social e o enfrentamento do racismo. Contudo, a efetivação
da processos formativos contínuos e espaços de escuta e media- dessas diretrizes encontra obstáculos que vão desde a formação
ção de conflitos. docente até a resistência institucional. A seguir, analisamos os
principais marcos legais, seus impactos no currículo e os desafios
▸Possibilidades de superação e fortalecimento da educa- práticos de sua implementação.
ção cidadã
Apesar dos desafios, há um campo fértil de possibilidades
para consolidar práticas participativas na educação. A primeira
delas é a valorização da escuta ativa como ferramenta pedagógi-

66
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

▸Marcos legais e políticas públicas Formação inicial e continuada de professores:


A base legal para o ensino das histórias e culturas africanas, Muitos cursos de licenciatura ainda não contemplam de for-
afro-brasileiras e indígenas no Brasil está ancorada em importan- ma sistemática os conteúdos previstos nas Leis nº 10.639/2003
tes dispositivos normativos que moldam a estrutura curricular da e 11.645/2008. A ausência de uma abordagem interdisciplinar
educação básica. sobre relações étnico-raciais fragiliza a atuação docente.

Lei nº 10.639/2003: Resistência institucional e cultural:


Promulgada em 9 de janeiro de 2003, essa lei alterou a Lei de Ainda há resistência por parte de gestores escolares e do-
Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB - Lei nº 9.394/1996), centes, muitas vezes motivada por desconhecimento, preconcei-
tornando obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasi- to ou percepção equivocada de que tais temas não dizem respei-
leira no currículo oficial da rede de ensino, especialmente nos to a toda a comunidade escolar.
componentes de História e Educação Artística. A lei destaca que
o conteúdo deve abordar a contribuição do povo negro na forma- Falta de materiais didáticos adequados:
ção da sociedade brasileira nas áreas social, econômica e política. Embora haja avanços na produção de livros e recursos peda-
gógicos, muitos deles ainda reforçam estereótipos ou tratam os
Lei nº 11.645/2008: conteúdos de forma superficial. A produção e distribuição desses
Complementando e ampliando o alcance da Lei nº materiais continuam desiguais entre as regiões.
10.639/2003, a Lei nº 11.645/2008 incluiu também a obrigato-
riedade do ensino de História e Cultura Indígena. Essa legislação Avaliação e acompanhamento das políticas:
reafirma a necessidade de uma abordagem que valorize a diver- Falta um sistema de monitoramento e avaliação contínua da
sidade étnico-cultural do país, promovendo uma educação inter- implementação dessas diretrizes, dificultando o diagnóstico pre-
cultural e antidiscriminatória. ciso de suas lacunas e a elaboração de ações corretivas.

Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Rela- A consolidação de uma educação comprometida com a va-
ções Étnico-Raciais (DCNERER): lorização das histórias e culturas africanas, afro-brasileiras e indí-
Instituídas pela Resolução CNE/CP nº 1, de 17 de junho de genas depende não apenas da existência de marcos legais, mas
2004, essas diretrizes fornecem orientações pedagógicas, me- principalmente de sua efetiva implementação no cotidiano esco-
todológicas e institucionais para a implementação da Lei nº lar. Para tanto, é essencial investir na formação de professores,
10.639/2003. Elas propõem que a educação das relações étni- na revisão crítica de materiais didáticos, na construção de currí-
co-raciais esteja presente em todos os níveis e modalidades de culos inclusivos e na sensibilização das comunidades escolares.
ensino, e não apenas como um conteúdo pontual. A superação dos desafios exige vontade política, ação inter-
setorial e o engajamento coletivo de todos os agentes educacio-
Base Nacional Comum Curricular (BNCC): nais.
Embora a BNCC, homologada em 2017, reforce a importância
da valorização da diversidade, há críticas quanto à superficialida- Contribuições Históricas E Culturais Dos Povos Africa-
de com que a temática é tratada. A BNCC menciona a necessida- nos, Afro-Brasileiros E Indígenas
de de incluir conteúdos sobre os povos africanos, afro-brasileiros A formação da identidade brasileira está profundamente
e indígenas, mas a aplicação concreta depende do trabalho das marcada pelas contribuições históricas, sociais e culturais dos
redes estaduais e municipais de ensino. povos africanos, afro-brasileiros e indígenas. No entanto, essas
contribuições foram historicamente silenciadas ou marginaliza-
▸Avanços na legislação e na formação do discurso educa- das pelas narrativas oficiais.
cional Reconhecer a relevância desses povos é fundamental não
A institucionalização das leis e diretrizes citadas trouxe avan- apenas como justiça histórica, mas também como construção de
ços significativos: uma educação plural e crítica.
▪ Reconhecimento oficial da pluralidade étnico-racial como ▸Contribuições dos povos africanos e afro-brasileiros
parte da identidade nacional. A presença africana no Brasil, forçada pelo sistema escravis-
▪ Estímulo à produção de materiais didáticos específicos e à ta colonial, não se limitou ao trabalho compulsório. Os africanos
formação de docentes com enfoque na temática. e seus descendentes atuaram como agentes históricos e culturais
▪ Fortalecimento da identidade de alunos negros e indígenas na construção do país.
no espaço escolar.
▪ Inserção do debate sobre racismo estrutural e desigualda- Religião e espiritualidade:
de na formação de professores. As religiões de matriz africana, como o candomblé, a um-
▪ Ampliação de pesquisas acadêmicas voltadas à temática banda e outras tradições afro-brasileiras, representam sistemas
étnico-racial na educação. complexos de conhecimento, ética e cosmologia. Elas foram
fundamentais para a resistência cultural e espiritual à opressão
▸Desafios para a implementação efetiva colonial. A prática do sincretismo religioso — combinação de ele-
Apesar dos marcos legais e do avanço normativo, há uma mentos africanos, indígenas e católicos — mostra a resiliência e a
lacuna entre o que está previsto em lei e o que é efetivamente capacidade de adaptação dos povos afrodescendentes.
praticado nas escolas. Entre os principais desafios, destacam-se:

67
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Arte, música e dança: ▪ A culinária brasileira, por exemplo, é resultado de sincretis-


Expressões culturais como o samba, o maracatu, a capoeira mos, como no uso do dendê (africano), da mandioca (indígena) e
e o jongo têm raízes africanas e foram apropriadas como sím- de técnicas culinárias europeias.
bolos nacionais. A musicalidade africana introduziu ritmos, ins- ▪ As festas populares, como o carnaval, o bumba-meu-boi e
trumentos (como o atabaque e o agogô) e formas de expressão as congadas, revelam fusões culturais que expressam resistên-
corporal que ainda hoje definem a cultura brasileira. cias e celebrações da diversidade.
▪ No campo da linguagem, o português falado no Brasil está
Saberes e tecnologias: carregado de construções sintáticas e léxicas influenciadas por
Os africanos trouxeram técnicas agrícolas, conhecimentos línguas africanas e indígenas.
metalúrgicos e culinários. A introdução do cultivo de inhame,
quiabo, gergelim e a técnica de preparo do dendê mostram como ▸Educação e valorização das contribuições
saberes africanos se integraram às práticas produtivas locais. A valorização dessas contribuições deve ser parte integrante
dos currículos escolares, não como adendo ou conteúdo pontual,
Resistência e organização social: mas como perspectiva transversal. A ausência ou o tratamento
Os quilombos, com destaque para o Quilombo dos Palmares, estereotipado dessas culturas contribui para a manutenção de
foram experiências de resistência coletiva e organização sociopo- preconceitos e para o racismo estrutural.
lítica dos negros fugidos da escravidão. Essas comunidades au- A implementação efetiva das Leis nº 10.639/2003 e nº
tônomas representavam alternativas reais ao sistema escravista, 11.645/2008 depende do reconhecimento da centralidade des-
com formas próprias de governo, justiça e solidariedade. sas culturas na formação do Brasil. A educação deve, portanto:
▪ Romper com a lógica eurocêntrica tradicional.
▸Contribuições dos povos indígenas ▪ Propor narrativas históricas plurais e críticas.
Antes da colonização, milhões de indígenas já habitavam o ▪ Estimular o protagonismo de autores e intelectuais negros
território brasileiro, com línguas, religiões e organizações sociais e indígenas.
diversas. Sua contribuição para a identidade brasileira também é ▪ Trabalhar com fontes diversas, como literatura oral, arte e
vasta e estruturante. testemunhos históricos.

Linguagem e cultura oral: As contribuições dos povos africanos, afro-brasileiros e indí-


Muitas palavras do português falado no Brasil têm origem genas são constitutivas da cultura brasileira. A escola tem o papel
tupi-guarani e em outras línguas indígenas, como abacaxi, jacaré, de dar visibilidade a essas heranças e promover o reconhecimen-
tatu, piranha, capim e pipoca. As línguas indígenas influenciaram to das identidades plurais que compõem o Brasil. Fazer isso não
não apenas o vocabulário, mas também a musicalidade da fala é apenas cumprir uma obrigação legal, mas uma exigência ética
brasileira. e pedagógica para a construção de uma sociedade mais justa e
democrática.
Conhecimentos ambientais e medicinais:
Os povos indígenas detêm conhecimentos profundos sobre Estratégias Pedagógicas Para Uma Educação Antirra-
a biodiversidade brasileira. Plantas medicinais como a andiroba, cista E Intercultural
a copaíba, o jenipapo e o urucum fazem parte da medicina tradi- A promoção de uma educação antirracista e intercultural re-
cional e, atualmente, da indústria farmacêutica. quer mais do que o cumprimento legal de diretrizes curriculares.
É necessário desenvolver práticas pedagógicas comprometidas
Organização social e valores coletivos: com a valorização da diversidade étnico-racial, o combate ao
A lógica de vida comunitária, o respeito à natureza e os ri- racismo estrutural e o reconhecimento dos saberes dos povos
tos de passagem são elementos centrais da organização indíge- africanos, afro-brasileiros e indígenas.
na que contrastam com valores ocidentais individualistas. Esses
princípios inspiram movimentos contemporâneos por sustenta- ▸Planejamento curricular e transversalidade temática
bilidade, justiça ambiental e modos de vida alternativos. A abordagem antirracista não deve se restringir a datas co-
Arte e cosmologia: memorativas ou a conteúdos isolados, mas sim integrar todo o
A arte indígena está presente em cerâmicas, trançados, pin- currículo escolar. Isso exige revisão dos planos de ensino e uma
turas corporais e grafismos. Mais do que expressões estéticas, intencionalidade clara por parte dos educadores.
essas manifestações estão ligadas a visões de mundo complexas, ▪ Currículo integrado: Os temas relacionados à cultura e his-
onde o mundo espiritual e natural se entrelaçam. tória afro-brasileira e indígena devem ser incorporados aos di-
versos componentes curriculares — História, Geografia, Ciências,
▸Hibridismos e identidade nacional Língua Portuguesa, Arte, entre outros — por meio de projetos
A interação entre povos africanos, indígenas e europeus interdisciplinares.
gerou um processo de hibridização cultural que define o Brasil ▪ Transversalidade: A abordagem das relações étnico-raciais
contemporâneo. Entretanto, esse processo não foi pacífico nem deve ser contínua, envolvendo valores, atitudes e comportamen-
simétrico: ocorreu em contexto de dominação, apagamento e tos que contribuam para a formação de uma consciência crítica
violência. Ainda assim, os traços africanos e indígenas resistem nos estudantes.
e se reinventam.

68
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

▪ Contextualização regional: É importante considerar os po- ▸Ambiente escolar e gestão democrática da diversidade
vos e culturas presentes no território local e regional. Por exem- Além da prática pedagógica em sala de aula, é essencial que
plo, estudar comunidades quilombolas ou terras indígenas próxi- a escola como um todo incorpore valores antirracistas em sua
mas à escola permite que os alunos percebam a diversidade ao cultura institucional.
seu redor. ▪ Representatividade no corpo docente e na gestão: A pre-
sença de profissionais negros e indígenas em posições de lideran-
▸Formação docente e reflexão crítica ça e docência amplia as referências positivas para os estudantes.
A formação dos professores é um dos pilares para a imple- ▪ Mediação de conflitos e combate ao racismo: É necessário
mentação efetiva de práticas antirracistas e interculturais. adotar protocolos de acolhimento e responsabilização em casos
▪ Formação inicial: Os cursos de licenciatura devem incluir de discriminação racial no ambiente escolar.
disciplinas específicas sobre história da África, culturas afro-bra- ▪ Fortalecimento da identidade dos estudantes: Incentivar
sileiras e indígenas, além de metodologias de ensino voltadas à que os alunos expressem sua cultura e identidade contribui para
diversidade. o desenvolvimento da autoestima e do pertencimento.
▪ Formação continuada: Programas de capacitação devem
ser oferecidos pelas redes de ensino com frequência, abordando Implementar uma educação antirracista e intercultural exi-
temas como racismo institucional, representatividade, constru- ge compromisso político, formação continuada e transformação
ção da identidade étnico-racial e legislação educacional. da cultura escolar. As estratégias aqui apresentadas demonstram
▪ Autoformação: O compromisso ético do educador antirra- que é possível atuar de forma efetiva, mesmo diante de resistên-
cista exige busca ativa por conhecimento, revisão de posturas e cias, desde que haja intencionalidade pedagógica e articulação
constante reflexão sobre seu papel como agente transformador. entre escola, família e comunidade.
O objetivo maior é formar sujeitos conscientes, críticos e res-
▸Uso de materiais didáticos representativos e críticos peitosos da diversidade, contribuindo para a construção de uma
Materiais pedagógicos influenciam diretamente a constru- sociedade mais justa e plural.
ção do imaginário e das identidades dos alunos. Portanto, é es-
sencial adotar recursos que valorizem a diversidade e rompam
com estereótipos.
XXI - EDUCAÇÃO, INCLUSÃO E DIREITOS HUMANOS
▪ Livros e obras literárias: Utilizar autores negros e indígenas,
como Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Daniel Munduruku e Fundamentos dos Direitos Humanos na Educação
Eliane Potiguara, favorece o contato com múltiplas vozes e nar- A compreensão dos direitos humanos como fundamento da
rativas. educação é essencial para consolidar práticas pedagógicas que
▪ Recursos audiovisuais e mídias digitais: Filmes, documen- promovam justiça social, igualdade e dignidade para todos.
tários, podcasts e plataformas educativas permitem trabalhar Ao longo das últimas décadas, legislações nacionais e trata-
diferentes linguagens e ampliar o acesso a produções culturais dos internacionais passaram a reconhecer a educação como um
afro e indígenas. direito humano fundamental, voltado à formação integral do su-
▪ Análise crítica de livros didáticos: Muitos manuais ainda jeito e à construção de sociedades mais justas e democráticas.
apresentam imagens e textos que reforçam visões colonialistas
ou eurocêntricas. O professor deve atuar como mediador críti- ▸A educação como direito humano
co, questionando e complementando os conteúdos com outras A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), em seu
fontes. artigo 26, estabelece que “toda pessoa tem direito à educação”.
Essa concepção é ampliada por outros documentos internacio-
▸Projetos pedagógicos e práticas de valorização cultural nais, como a Convenção sobre os Direitos da Criança (1989) e a
Projetos específicos podem ser utilizados para potencializar Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006).
o protagonismo dos estudantes e o envolvimento da comunida- Esses marcos reforçam que o direito à educação deve ser garan-
de escolar. tido sem discriminações e com equidade.
▪ Semana da Consciência Negra e Dia dos Povos Indígenas: No contexto brasileiro, a Constituição Federal de 1988 trata
Devem ser repensados não como comemorações folclóricas, mas a educação como um direito de todos e dever do Estado e da
como espaços de aprendizagem crítica, envolvendo debates, ro- família (artigo 205), voltado ao pleno desenvolvimento da pes-
das de conversa, oficinas e exposições. soa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o
▪ Educação patrimonial e visitas guiadas: Explorar museus, trabalho. Isso significa que o acesso à educação não pode ser ne-
centros culturais, territórios quilombolas e aldeias indígenas pro- gado com base em qualquer forma de exclusão, como condição
porciona experiências de aprendizagem que valorizam o contato econômica, deficiência, gênero, raça ou orientação sexual.
direto com outras culturas.
▪ Feiras culturais e culinárias: Apresentações de danças, mú- ▸Relação entre direitos humanos e práticas educativas
sicas, artefatos e alimentos típicos promovem vivências signifi- A presença dos direitos humanos no espaço escolar deve ir
cativas e o reconhecimento das heranças africanas e indígenas. além do currículo formal. A escola é um espaço privilegiado para
▪ Rodas de conversa com representantes de comunidades o exercício da cidadania, o respeito às diferenças e a convivência
tradicionais: Trazer à escola lideranças indígenas, quilombolas, democrática. Assim, educar em direitos humanos envolve práti-
religiosos de matriz africana e ativistas possibilita uma aborda- cas que promovam:
gem dialógica e vivencial. ▪ o reconhecimento da dignidade de cada estudante;

69
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

▪ a escuta ativa e o respeito às diversidades culturais, étni- ▸Conceito de Educação Inclusiva


cas, sociais e religiosas; Educação inclusiva é o processo de identificação e elimina-
▪ a resolução pacífica de conflitos e a valorização do diálogo. ção das barreiras à aprendizagem e à participação de todos os es-
tudantes. Ela pressupõe o reconhecimento das diferenças como
Trata-se de formar sujeitos críticos, conscientes de seus di- parte natural do processo educacional e não como problemas a
reitos e deveres, e comprometidos com a transformação da reali- serem corrigidos.
dade. Nesse sentido, os direitos humanos não são apenas conte- Esse conceito está alinhado com a Convenção sobre os Di-
údo, mas eixo orientador da ação pedagógica. reitos das Pessoas com Deficiência da ONU (2006), ratificada no
Brasil com status de emenda constitucional por meio do Decreto
▸Legislação nacional e diretrizes curriculares nº 6.949/2009. O artigo 24 da convenção afirma que os Estados
Diversos instrumentos normativos reforçam a importância devem garantir “um sistema educacional inclusivo em todos os
dos direitos humanos na educação brasileira. A Lei de Diretrizes níveis”.
e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996), ao tratar dos No Brasil, a Política Nacional de Educação Especial na Pers-
princípios do ensino, destaca a igualdade de condições para o pectiva da Educação Inclusiva (2008) define a educação inclusiva
acesso e permanência na escola e o respeito à liberdade e apreço como o paradigma que orienta a organização das escolas para
à tolerância (artigo 3º). atender todos os alunos, considerando suas singularidades.
As Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Huma-
nos (Resolução CNE/CP nº 1/2012) definem a educação em direi- ▸Princípios norteadores da Educação Inclusiva
tos humanos como um processo sistemático, contínuo e perma- A educação inclusiva se estrutura a partir de alguns princí-
nente, que deve permear todo o projeto pedagógico da escola. pios fundamentais, que devem ser observados na formulação de
Entre seus princípios orientadores estão: políticas públicas, no projeto político-pedagógico das escolas e
▪ a centralidade da dignidade humana; nas práticas cotidianas dos educadores:
▪ a valorização da diversidade; ▪ Acesso, permanência, participação e aprendizagem: ga-
▪ a promoção da justiça social e da equidade; rantir que todos os estudantes ingressem e avancem no sistema
▪ a participação democrática. educacional, com igualdade de condições.
▸A formação docente e a cultura dos direitos humanos ▪ Valorização da diversidade: compreender que as diferenças
A efetivação dos direitos humanos na educação requer a (de origem étnica, social, linguística, física, sensorial, intelectual,
formação inicial e continuada dos profissionais da educação. Os entre outras) enriquecem os processos de ensino e aprendiza-
professores devem estar preparados para lidar com temas sensí- gem.
veis, combater práticas discriminatórias e promover uma cultura ▪ Respeito à dignidade e aos direitos humanos: assegurar o
escolar inclusiva e participativa. tratamento equitativo e a proteção contra todas as formas de
Essa formação deve enfatizar o desenvolvimento de com- exclusão e discriminação.
petências ético-políticas, como empatia, escuta e compromisso ▪ Desenvolvimento de uma pedagogia inclusiva: utilizar me-
com a justiça social, além de proporcionar ferramentas didáticas todologias ativas, recursos diferenciados e avaliações flexíveis,
para o trabalho com temas contemporâneos e transversais. adaptadas às necessidades dos alunos.

▸Educação e transformação social Esses princípios implicam uma mudança de paradigma: a es-
Por fim, a educação baseada nos direitos humanos tem como cola deve se adaptar ao aluno, e não o contrário.
horizonte a transformação social. Ao fomentar o pensamento crí-
tico, o engajamento comunitário e o respeito às diferenças, ela ▸Práticas pedagógicas inclusivas
contribui para a superação de desigualdades históricas e para a A efetivação da educação inclusiva depende diretamente
construção de uma sociedade mais solidária e democrática. das práticas desenvolvidas no cotidiano escolar. Algumas estra-
Portanto, a atuação do educador como agente de promo- tégias fundamentais incluem:
ção dos direitos humanos é essencial para romper com estrutu- ▪ Planejamento pedagógico colaborativo: a atuação conjunta
ras excludentes e afirmar o direito de todos à aprendizagem de entre professores regentes, professores de apoio, equipe gesto-
qualidade. ra e especialistas, como intérpretes de Libras ou profissionais de
apoio escolar.
Princípios e Práticas da Educação Inclusiva ▪ Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA): aborda-
A educação inclusiva é uma abordagem que reconhece a di- gem pedagógica que prevê múltiplas formas de apresentar con-
versidade humana como valor central e defende que todos os es- teúdos, expressar conhecimentos e engajar os alunos, promo-
tudantes, independentemente de suas características, aprendam vendo a participação de todos.
juntos em ambientes escolares comuns. ▪ Adaptações curriculares e flexibilizações: ajustes nos ob-
Essa perspectiva rompe com modelos tradicionais que se- jetivos, conteúdos, metodologias ou instrumentos de avaliação
gregavam pessoas com deficiência ou outras necessidades edu- para atender às necessidades específicas de estudantes com de-
cacionais específicas, promovendo, em seu lugar, um sistema ficiência ou outras condições.
educacional equitativo, acolhedor e participativo. ▪ Uso de tecnologias assistivas: recursos e serviços que con-
tribuem para a autonomia e a inclusão, como leitores de tela,
softwares com comando de voz, pranchas de comunicação alter-
nativa, entre outros.

70
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

A prática inclusiva também envolve uma postura ética do ▸Estratégias para superação dos obstáculos
professor: disponibilidade para aprender com os alunos, escuta A construção de uma escola inclusiva exige ações articula-
ativa, empatia e compromisso com a justiça educacional. das em várias frentes. Abaixo, destacam-se algumas estratégias
concretas que podem ser adotadas por gestores, professores e
▸Ambiência inclusiva e cultura escolar redes de ensino:
A inclusão não depende apenas de aspectos pedagógicos, ▪ Formação docente continuada e em serviço: programas de
mas também da criação de uma cultura institucional inclusiva, capacitação com foco em práticas inclusivas, desenho universal
em que todos os membros da comunidade escolar compartilhem para a aprendizagem, tecnologias assistivas e abordagem da di-
valores de respeito, solidariedade e corresponsabilidade. versidade são essenciais. A formação deve valorizar a experiência
docente, promover o diálogo entre saberes e incluir atividades
Nesse sentido, é essencial: práticas de intervenção.
▪ promover a formação continuada dos profissionais da edu- ▪ Apoio pedagógico especializado: a atuação do Atendimento
cação; Educacional Especializado (AEE), previsto na Lei nº 9.394/1996,
▪ envolver as famílias e a comunidade no processo educa- artigo 58, deve ser fortalecida, com recursos adequados e arti-
cional; culação efetiva com os professores da sala comum. O AEE não
▪ adotar uma gestão democrática e participativa; substitui o ensino regular, mas complementa e potencializa o
▪ combater práticas discriminatórias e promover a convivên- processo de aprendizagem.
cia respeitosa entre todos os estudantes. ▪ Currículo flexível e metodologias inclusivas: é necessário
adotar propostas pedagógicas que respeitem os ritmos, estilos e
A ambiência inclusiva é construída no cotidiano, com ações formas diversas de aprender. Isso inclui flexibilização de conteú-
que acolhem as diferenças e garantem que todos os sujeitos se dos, uso de múltiplos recursos didáticos, avaliações adaptadas e
sintam pertencentes ao espaço escolar. projetos interdisciplinares.
▪ Gestão democrática e cultura de participação: a inclusão
Desafios e Estratégias para a Promoção da Inclusão requer escuta ativa de todos os envolvidos – estudantes, famí-
Escolar lias, profissionais da escola e comunidade. Conselhos escolares,
A consolidação de uma educação verdadeiramente inclusiva reuniões pedagógicas e fóruns de discussão devem acolher a di-
nas redes de ensino brasileiras ainda enfrenta múltiplos desafios versidade de vozes e contribuir para decisões coletivas.
estruturais, pedagógicos e culturais. Apesar dos avanços legais e ▪ Acompanhamento e avaliação das políticas de inclusão: o
normativos, a distância entre o que está previsto na legislação e monitoramento contínuo das práticas inclusivas e dos indicado-
o que é efetivamente implementado nas escolas revela tensões res de acesso, permanência e aprendizagem permite identificar
persistentes no campo da inclusão. fragilidades e corrigir rotas. Avaliações devem ser qualitativas e
participativas, priorizando a melhoria contínua do processo edu-
▸Principais desafios à inclusão escolar cacional.
Os desafios para a efetivação da inclusão escolar são diver- ▸Papel da escola e da comunidade na construção de uma
sos e interligados. Podem ser agrupados em quatro grandes ei- cultura inclusiva
xos: estrutura física e organizacional, formação docente, atitudes A inclusão é um processo cultural e político que se consolida
e cultura escolar, e políticas públicas. a partir do envolvimento coletivo. A escola deve ser o espaço de
▪ Infraestrutura inadequada: muitas escolas ainda não ofere- referência para a promoção de uma convivência democrática, li-
cem acessibilidade arquitetônica, mobiliário adaptado ou recur- vre de preconceitos e acolhedora das diferenças.
sos de tecnologia assistiva. Isso limita a participação plena de es-
tudantes com deficiência e fere o que estabelece a Lei Brasileira Algumas ações fundamentais incluem:
de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) em ▪ promoção de projetos interdisciplinares sobre diversidade,
seus artigos 28 e 30. direitos humanos e inclusão;
▪ Formação insuficiente dos profissionais da educação: ainda ▪ sensibilização da comunidade escolar por meio de rodas de
há deficiências significativas na formação inicial e continuada dos conversa, oficinas e eventos formativos;
professores no que se refere às práticas inclusivas. Muitos edu- ▪ construção de parcerias com instituições, universidades e
cadores relatam insegurança e despreparo para trabalhar com a serviços de apoio especializados;
diversidade na sala de aula. ▪ valorização das experiências exitosas e práticas inovadoras
▪ Atitudes discriminatórias e baixa expectativa de apren- já desenvolvidas por professores e gestores.
dizagem: a permanência de estigmas sociais e concepções ca-
pacitistas dificulta o reconhecimento do potencial de todos os ▸Inclusão como compromisso ético e político
estudantes. A exclusão simbólica, a segregação por rótulos e a Mais do que um conjunto de normas, a educação inclusiva
subestimação de capacidades comprometem a construção de é um compromisso ético com a dignidade humana e a justiça so-
ambientes realmente inclusivos. cial. Superar os desafios que se colocam exige vontade política,
▪ Gestão fragmentada das políticas educacionais: falta de investimento público, responsabilidade institucional e, sobretu-
articulação entre os diferentes níveis de governo, ausência de do, uma mudança de mentalidade que reconheça cada estudan-
planejamento intersetorial (educação, saúde, assistência social) te como sujeito de direitos.
e lacunas no financiamento comprometem a implementação de A escola inclusiva não é apenas uma escola que aceita a di-
políticas públicas inclusivas e integradas. ferença, mas uma escola que aprende com ela e se transforma a
partir dela.

71
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

▸Participação crítica e protagonismo social


XXII - EDUCAÇÃO SOCIOAMBIENTAL A Educação Socioambiental defende que a formação do su-
jeito deve ir além da informação, promovendo o engajamento
Fundamentos e princípios da Educação Socioambiental crítico e o protagonismo social. Trata-se de formar cidadãos cons-
A Educação Socioambiental é uma abordagem educacional cientes de seus direitos e deveres, capazes de atuar na transfor-
crítica que compreende os problemas ambientais como fenôme- mação da realidade em que vivem.
nos complexos, relacionados a fatores históricos, sociais, cultu- Esse princípio se expressa na:
rais, econômicos e políticos. Ela propõe a formação de sujeitos ▪ Promoção da autonomia e da participação ativa dos estu-
éticos, conscientes e atuantes na construção de sociedades sus- dantes;
tentáveis e justas, indo além da mera transmissão de informa- ▪ Valorização das experiências locais e da escuta das comu-
ções sobre o meio ambiente. nidades;
Seu objetivo central é promover uma compreensão integra- ▪ Criação de espaços de diálogo, debate e tomada de deci-
da das interações entre o ser humano e a natureza, desnaturali- sões coletivas;
zando as desigualdades e estimulando o engajamento transfor- ▪ Formação para a cidadania ambiental, com foco na corres-
mador. ponsabilidade.

▸Fundamentação crítica e complexa da realidade Esse protagonismo se concretiza, por exemplo, na atuação
Um dos pilares da Educação Socioambiental é a visão crítica de alunos em conselhos escolares, projetos de intervenção co-
da realidade. Essa abordagem parte do pressuposto de que os munitária e ações de mobilização socioambiental.
problemas ambientais não decorrem apenas da ignorância ou da
falta de tecnologia, mas sim de um modelo de sociedade basea- ▸Valorização da diversidade cultural e dos saberes tradi-
do em padrões insustentáveis de produção, consumo e exclusão cionais
social. Trata-se, portanto, de um problema estrutural. A Educação Socioambiental reconhece e valoriza os saberes
Diferente de abordagens ambientalistas tradicionais, a Edu- de comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas e campo-
cação Socioambiental considera: nesas, compreendendo que esses grupos mantêm práticas sus-
▪ Os impactos da desigualdade social na degradação ambien- tentáveis há gerações. Essa valorização combate a homogeneiza-
tal; ção cultural e promove o reconhecimento das múltiplas formas
▪ A relação entre os modos de vida e os territórios; de viver e interagir com o ambiente.
▪ As contradições do desenvolvimento capitalista;
▪ A importância da justiça socioambiental. Nesse sentido, é essencial:
▪ Integrar os conhecimentos tradicionais aos conteúdos es-
Essa perspectiva está em consonância com o pensamento colares;
de autores como Enrique Leff, que defende uma racionalidade ▪ Desenvolver ações educativas que respeitem a identidade
ambiental contra a lógica dominante de exploração da natureza. cultural dos povos;
Segundo ele, a crise ambiental é, antes de tudo, uma crise civi- ▪ Combater o preconceito epistemológico que desqualifica
lizatória. saberes não acadêmicos;
▪ Estimular o diálogo intercultural como prática pedagógica.
▸Interdisciplinaridade e abordagem sistêmica
A Educação Socioambiental rompe com a fragmentação do Esse princípio tem amparo na legislação brasileira, como a
conhecimento ao propor uma abordagem interdisciplinar e sistê- Lei nº 11.645/2008, que torna obrigatório o ensino da história e
mica dos fenômenos. Isso significa que os problemas ambientais cultura afro-brasileira e indígena em todas as escolas.
devem ser compreendidos em sua totalidade, articulando sabe-
res das ciências naturais, humanas e sociais. ▸Ética da sustentabilidade e da justiça socioambiental
A dimensão ética é central na Educação Socioambiental.
Na prática educacional, isso se traduz em: Ela busca desenvolver uma consciência crítica que ultrapasse o
▪ Projetos integradores entre disciplinas como Geografia, discurso da “preservação da natureza” e incorpore valores como
Biologia, História e Sociologia; solidariedade, equidade, responsabilidade coletiva e respeito à
▪ Estímulo ao diálogo entre conhecimentos científicos e sa- vida em todas as suas formas.
beres populares;
▪ Construção de uma visão de mundo que valorize as cone- Essa ética orienta:
xões entre os diferentes aspectos da realidade. ▪ A adoção de atitudes cotidianas sustentáveis, como o con-
sumo consciente;
Essa perspectiva é essencial para que os estudantes compre- ▪ A reflexão sobre o impacto das escolhas individuais e co-
endam que as questões ambientais não são isoladas, mas fazem letivas;
parte de uma rede de interações complexas, onde ações locais ▪ A crítica aos modelos de desenvolvimento que geram ex-
têm impactos globais e vice-versa. clusão e degradação;
▪ A construção de práticas pedagógicas baseadas na coope-
ração e no cuidado.

72
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

O compromisso com a justiça socioambiental implica, ainda, a) Projetos interdisciplinares temáticos


reconhecer que os impactos da degradação não afetam todas as Consistem em organizar o ensino a partir de temas gerado-
pessoas igualmente: populações mais vulneráveis, como comuni- res, articulando diversas áreas do conhecimento. Por exemplo,
dades periféricas e povos originários, são as mais atingidas pelas ao desenvolver um projeto sobre “Crise Hídrica”, é possível mobi-
mudanças climáticas, pela poluição e pela escassez de recursos. lizar conteúdos de Ciências (ciclo da água, tratamento), Geogra-
Os fundamentos e princípios da Educação Socioambiental fia (uso do solo, bacias hidrográficas), Matemática (estatísticas de
estruturam uma proposta educativa profundamente conectada consumo), Língua Portuguesa (produção de textos argumentati-
às lutas por direitos, à democracia participativa e à sustentabi- vos) e Artes (campanhas visuais de conscientização).
lidade planetária. Essa abordagem exige um redirecionamento b) Estudos do meio e observação da realidade local
das práticas pedagógicas e da função social da escola, que passa A ida a campo para conhecer o entorno da escola permite
a ser compreendida como um espaço de formação crítica e de observar problemas ambientais concretos, como descarte irre-
articulação com os territórios e comunidades. gular de resíduos, ausência de áreas verdes ou poluição hídrica.
Sua implementação efetiva depende da formação continua- Esses dados se tornam base para propostas de intervenção e ati-
da de professores, da articulação com os projetos políticos-peda- vidades interdisciplinares.
gógicos e do fortalecimento de políticas públicas que assegurem
sua inserção curricular de forma transversal, integrada e eman- c) Oficinas e rodas de conversa
cipadora. Metodologias participativas favorecem o diálogo, a escuta
ativa e o compartilhamento de experiências. As rodas de conver-
Práticas Pedagógicas E A Transversalidade Da Temática sa sobre temas como mudanças climáticas, racismo ambiental e
Ambiental agricultura urbana promovem o pensamento crítico e o respeito
A Educação Socioambiental exige, para sua efetiva inserção à diversidade de opiniões.
no ambiente escolar, práticas pedagógicas que transcendam os
limites disciplinares tradicionais e que promovam uma forma- d) Hortas escolares e compostagem
ção crítica, participativa e contextualizada. Nessa perspectiva, a A criação e o manejo coletivo de hortas e sistemas de com-
transversalidade da temática ambiental é um princípio orienta- postagem envolvem conteúdos de Ciências, Matemática, Educa-
dor das ações educativas, permitindo que a escola se torne um ção Física, Arte e promovem valores como o cuidado, a coopera-
espaço de reflexão, intervenção e transformação social. ção e a sustentabilidade.

▸A transversalidade como princípio pedagógico e) Produção de materiais e campanhas educativas


A transversalidade da temática ambiental está prevista nos Os estudantes podem criar cartazes, podcasts, vídeos, ex-
Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) como uma diretriz para posições ou campanhas para sensibilizar a comunidade escolar
que certos temas — como meio ambiente, ética e pluralidade sobre temas ambientais, exercitando habilidades comunicativas,
cultural — sejam tratados de forma integrada no currículo. criativas e cidadãs.
No caso da Educação Socioambiental, a transversalidade sig-
nifica que o tema não deve estar restrito a uma disciplina espe- Essas práticas possibilitam uma aprendizagem significativa e
cífica, como Ciências ou Geografia, mas perpassar todas as áreas contextualizada, aproximando o conhecimento escolar da reali-
do conhecimento e as práticas escolares. dade dos estudantes e favorecendo sua atuação como sujeitos
transformadores.
Essa abordagem pressupõe:
▪ Integração entre disciplinas a partir de temas comuns e ▸Desafios e condições para a efetivação da transversalida-
problemas reais; de
▪ Inserção da questão ambiental no Projeto Político-Pedagó- Apesar do reconhecimento da importância da Educação So-
gico da escola; cioambiental, sua efetiva implementação no cotidiano escolar
▪ Comprometimento coletivo da equipe pedagógica com a ainda enfrenta diversos desafios. Entre os principais, destacam-
formação cidadã e crítica dos estudantes; -se:
▪ Flexibilização do currículo para permitir abordagens inter- ▪ Falta de formação específica dos professores: muitos do-
disciplinares. centes não se sentem preparados para trabalhar a temática am-
biental de forma crítica e interdisciplinar.
Na prática, isso significa tratar temas como água, energia, ▪ Currículo rígido e fragmentado: a estrutura tradicional das
resíduos, consumo, biodiversidade, justiça ambiental, entre ou- disciplinas dificulta o desenvolvimento de projetos integradores
tros, em diferentes contextos e perspectivas, explorando suas e a articulação entre os componentes curriculares.
dimensões ecológicas, sociais, econômicas, políticas e culturais. ▪ Ausência de apoio institucional: a falta de recursos didáti-
cos, de tempo para planejamento coletivo e de incentivo da ges-
▸Práticas pedagógicas interdisciplinares e participativas tão escolar compromete a continuidade das ações.
A Educação Socioambiental requer práticas pedagógicas que ▪ Descontinuidade das políticas públicas: mudanças de go-
valorizem a vivência, o diálogo, a problematização e a participa- verno e ausência de políticas consistentes afetam a implementa-
ção dos estudantes. A seguir, são apresentados alguns exemplos ção de programas de Educação Ambiental nas escolas.
de estratégias pedagógicas que contribuem para uma aborda-
gem transversal e significativa da temática ambiental:

73
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Para superar esses entraves, é necessário: ▸Política Nacional de Educação Ambiental (Lei nº
Investir na formação continuada dos docentes, com foco na 9.795/1999)
abordagem crítica e interdisciplinar da Educação Socioambiental; A Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, é o marco legal mais
Inserir a temática nos projetos políticos-pedagógicos, de relevante da Educação Ambiental no Brasil. Ela define os concei-
forma coerente com a realidade local da escola; tos, objetivos, princípios e diretrizes para a implementação da
Estimular o trabalho coletivo e o planejamento integrado educação ambiental em todos os níveis e modalidades de ensino.
entre os professores;
Fortalecer o vínculo da escola com a comunidade e os ter- A lei afirma que:
ritórios, promovendo uma educação contextualizada e transfor- ▪ A Educação Ambiental é um componente essencial e per-
madora. manente da educação nacional;
▪ Deve estar presente, de forma articulada, em todos os ní-
A transversalidade da temática socioambiental representa veis e modalidades do processo educativo, tanto no ensino for-
um avanço na concepção de currículo e prática pedagógica, de- mal quanto nas ações não formais;
safiando a escola a repensar suas estruturas e seus objetivos for- ▪ A atuação deve envolver a União, os estados, o Distrito Fe-
mativos. Por meio de práticas pedagógicas interdisciplinares, crí- deral e os municípios.
ticas e participativas, a Educação Socioambiental contribui para a
construção de uma cidadania ativa, consciente e comprometida Entre os princípios estabelecidos pela lei, destacam-se:
com a transformação das realidades socioambientais. ▪ Enfoque humanista, holístico, democrático e participativo;
A adoção dessa perspectiva implica reconhecer que os de- ▪ Abordagem crítica dos problemas socioambientais;
safios ambientais não são apenas problemas científicos ou téc- ▪ Valorização da pluralidade e da diversidade cultural;
nicos, mas questões profundamente humanas e sociais, que exi- ▪ Vinculação entre ética, educação, trabalho e práticas so-
gem respostas educacionais integradas, éticas e solidárias. ciais.
O papel da escola, nesse contexto, é fundamental para pre-
parar as novas gerações a pensar e agir com responsabilidade e O Decreto nº 4.281/2002 regulamenta essa lei e detalha os
justiça frente às crises ecológicas do presente. instrumentos de sua operacionalização, como os programas inte-
rinstitucionais, a formação de educadores ambientais e a inser-
Políticas Públicas E Marcos Legais Da Educação Socio- ção da temática ambiental nos currículos escolares.
ambiental
A Educação Socioambiental, enquanto direito e dever cons- ▸Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Am-
titucional, é sustentada por uma base legal e política que orien- biental (Resolução CNE/CP nº 2/2012)
ta sua implementação nos diversos níveis de ensino no Brasil. A As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Am-
construção desse arcabouço jurídico e normativo reflete o reco- biental foram instituídas pelo Conselho Nacional de Educação
nhecimento, por parte do Estado brasileiro, da urgência de pro- por meio da Resolução CNE/CP nº 2/2012. Elas têm como objeti-
mover uma formação educacional voltada à sustentabilidade, à vo garantir a transversalidade da temática ambiental nos currícu-
cidadania crítica e à justiça social. los das instituições de ensino.

▸Constituição Federal de 1988 e o princípio da sustenta- Essas diretrizes orientam que:


bilidade ▪ A Educação Ambiental deve ser desenvolvida de forma
A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 transversal, contínua e permanente, em todos os níveis e etapas
estabeleceu, pela primeira vez em nível constitucional, o direito da educação;
de todos ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. O artigo ▪ Não se limita a uma disciplina específica, devendo estar
225 é o ponto de partida da legislação ambiental e educacional presente em todos os componentes curriculares;
no país: ▪ Deve promover a formação de sujeitos éticos, autônomos,
críticos e socialmente responsáveis;
“Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologica- ▪ Enfatiza a necessidade de formação inicial e continuada de
mente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à professores para trabalhar a temática socioambiental de forma
sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à cole- crítica e interdisciplinar.
tividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e
futuras gerações.” As diretrizes também reforçam a importância do envolvi-
mento das comunidades escolares nas ações educativas, pro-
O parágrafo 1º, inciso VI, determina: movendo o diálogo entre saberes e a valorização das realidades
“promover a educação ambiental em todos os níveis de en- locais.
sino e a conscientização pública para a preservação do meio am-
biente.” ▸Plano Nacional de Educação (PNE) e os Objetivos de De-
senvolvimento Sustentável (ODS)
Esse dispositivo insere a educação ambiental como uma po- Embora o Plano Nacional de Educação (Lei nº 13.005/2014)
lítica pública obrigatória, com foco tanto no sistema formal quan- não trate diretamente da Educação Ambiental como uma meta
to na sociedade em geral, e representa a base constitucional para isolada, diversos objetivos do PNE têm relação com a formação
as demais legislações e diretrizes posteriores. cidadã e sustentável, como:

74
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

▪ A valorização do ambiente escolar como espaço de convi-


vência democrática; XXIII - EDUCAÇÃO PARA AS RELAÇÕES DE GÊNERO E
▪ A promoção da equidade e da justiça social; SEXUALIDADE
▪ O incentivo à formação de professores para atuação com
temas transversais. Conceitos Fundamentais: Gênero, Sexualidade E Identi-
dade
Além disso, o Brasil é signatário da Agenda 2030 da ONU, A abordagem da educação para as relações de gênero e
que estabelece os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável sexualidade requer, como ponto de partida, a compreensão
(ODS). O ODS 4, que trata da Educação de Qualidade, propõe até aprofundada de três conceitos centrais: gênero, sexualidade e
2030: identidade de gênero. Esses conceitos não são apenas definições
teóricas, mas constituem instrumentos analíticos fundamentais
“Assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e para a construção de práticas pedagógicas comprometidas com a
promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para equidade, a diversidade e os direitos humanos.
todos.”
▸Gênero como construção social
Em sua meta 4.7, destaca-se a importância de garantir que O conceito de gênero surgiu nos estudos sociais e feministas
todos os alunos adquiram conhecimentos e habilidades neces- como uma forma de distinguir as diferenças biológicas (sexo) das
sárias para promover o desenvolvimento sustentável, incluindo, atribuições sociais e culturais relacionadas ao que é entendido
entre outros temas, educação para o desenvolvimento sustentá- como masculino e feminino. Enquanto o sexo biológico se refe-
vel, estilos de vida sustentáveis, direitos humanos e cultura de re a características anatômicas e fisiológicas, o gênero trata das
paz. expectativas, normas e comportamentos atribuídos a homens e
mulheres pela sociedade.
▸Programas e ações complementares O gênero é, portanto, uma construção histórica e cultural.
Além da legislação, existem diversas iniciativas que operam Isso significa que os papéis de gênero – por exemplo, a ideia de
como instrumentos de efetivação da Educação Socioambiental: que meninas devem ser delicadas e meninos devem ser fortes –
▪ Programa Nacional de Educação Ambiental (ProNEA): lan- não são naturais, mas aprendidos, transmitidos e reforçados so-
çado pelo MEC e MMA, oferece diretrizes e propostas para o de- cialmente. Essa construção pode variar entre culturas e ao longo
senvolvimento da educação ambiental em diferentes contextos. do tempo, o que revela seu caráter dinâmico.
▪ Programa Eco-Escolas: propõe ações pedagógicas voltadas Entender o gênero como construção social permite identifi-
à sustentabilidade, com participação ativa dos estudantes na ges- car desigualdades estruturais, como o machismo e a desigualda-
tão ambiental da escola. de salarial entre homens e mulheres, e questionar normas que
▪ Agenda 21 Escolar: metodologia participativa que visa à oprimem ou marginalizam pessoas que não se enquadram em
construção de diagnósticos socioambientais e de planos de ação padrões tradicionais de masculinidade ou feminilidade.
a partir da realidade escolar.
▪ Escolas Sustentáveis: projetos que promovem a adequação ▸Sexualidade como dimensão constitutiva do ser humano
física, curricular e comunitária das escolas com foco na susten- A sexualidade não se limita à função reprodutiva, mas é uma
tabilidade. dimensão ampla e multifacetada da existência humana. Ela en-
volve o desejo, o prazer, o afeto, a orientação sexual e as formas
Essas ações são fundamentais para operacionalizar as dire- pelas quais o corpo é vivido e expressado. Envolve também as-
trizes legais e fomentar uma cultura institucional voltada à res- pectos psicológicos, emocionais, culturais e sociais.
ponsabilidade socioambiental. Na educação, trabalhar a sexualidade de forma ética e infor-
As políticas públicas e os marcos legais da Educação Socio- mada significa promover o conhecimento sobre o corpo, a afeti-
ambiental consolidam uma base normativa robusta para garantir vidade, os direitos sexuais e reprodutivos, e o respeito às diferen-
sua presença nos currículos escolares brasileiros. No entanto, a tes formas de expressão sexual. Isso inclui o reconhecimento da
efetividade dessas diretrizes depende de ações articuladas entre heterossexualidade, da homossexualidade, da bissexualidade, da
governo, instituições educacionais, docentes e comunidades. assexualidade, entre outras orientações.
A legislação brasileira reconhece a centralidade da Educação É importante destacar que falar de sexualidade na escola
Socioambiental para a formação cidadã e a sustentabilidade, mas não é estimular a atividade sexual precoce, como por vezes se
sua aplicação exige investimentos na formação docente, autono- argumenta de forma equivocada, mas sim criar um espaço de
mia pedagógica para práticas interdisciplinares e continuidade diálogo e formação crítica, prevenindo violências, abusos e dis-
das políticas públicas. A escola, como espaço privilegiado de criminações.
formação, deve transformar essa base legal em ações concretas,
que mobilizem valores, saberes e práticas voltadas à justiça am- ▸Identidade de gênero e sua distinção do sexo biológico
biental e à preservação da vida. A identidade de gênero refere-se à forma como a pessoa
se reconhece e se sente pertencente a um determinado gêne-
ro. Pode coincidir ou não com o sexo atribuído ao nascimento.
Pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi atribuído

75
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

ao nascer são chamadas de cisgênero, enquanto aquelas cuja A Lei nº 9.394/1996, que institui a Lei de Diretrizes e Bases
identidade não corresponde ao sexo atribuído são denominadas da Educação Nacional (LDB), dispõe em seu artigo 3º, inciso IV,
transgênero. que a educação deve se basear no respeito à liberdade e apreço
A identidade de gênero é uma experiência subjetiva, mas à tolerância. Essa diretriz reforça o papel da escola na valorização
que também é profundamente afetada por normas sociais e cul- da diversidade humana e na superação de preconceitos.
turais. Reconhecer essa diversidade é essencial para promover o Outro instrumento relevante é o Estatuto da Criança e do
respeito à dignidade e à cidadania de todas as pessoas, especial- Adolescente (ECA), instituído pela Lei nº 8.069/1990, que asse-
mente no ambiente escolar. gura o direito à educação sem discriminação de qualquer nature-
Além das pessoas transgênero, é importante compreender a za (art. 53), além da proteção contra qualquer forma de negligên-
existência de identidades não-binárias – aquelas que não se re- cia, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão
conhecem exclusivamente como homem ou mulher – e o direito (art. 5º).
que todas as pessoas têm de expressar livremente sua identida-
de, sem sofrer discriminação. ▸Diretrizes curriculares e documentos pedagógicos
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada
▸Implicações para o contexto educacional em 2017 para a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, e em
Compreender esses conceitos é o primeiro passo para que a 2018 para o Ensino Médio, constitui uma referência normativa
escola assuma seu papel na promoção dos direitos humanos e na para os currículos escolares em todo o país. Embora a BNCC não
formação de sujeitos críticos, conscientes de sua responsabilida- trate diretamente dos termos “gênero” e “sexualidade” – em ra-
de social. O desconhecimento ou a distorção desses temas pode zão de disputas ideológicas durante sua formulação – ela prevê
levar à exclusão, à discriminação e ao silenciamento de estudan- o desenvolvimento de competências gerais que indiretamente
tes que não se encaixam nos padrões hegemônicos. contemplam tais dimensões.
A abordagem de gênero, sexualidade e identidade na edu-
cação contribui para o desenvolvimento da empatia, da convi- Entre essas competências, destacam-se:
vência democrática e da valorização das diferenças. Além disso, ▪ exercício da empatia, do diálogo, da resolução de conflitos
cumpre uma função preventiva frente a situações de violência, e da cooperação (competência 9);
bullying e preconceito. ▪ reconhecimento e valorização da diversidade de indivíduos
O trabalho com esses conceitos deve fazer parte de uma e grupos sociais (competência 8);
proposta curricular ampla, transversal e continuada, e não ser ▪ respeito aos direitos humanos, à democracia e à sustenta-
tratado como tema pontual ou restrito a datas comemorativas. bilidade (competência 10).
Exige também o envolvimento da gestão escolar, das famílias e
da comunidade, com base no diálogo e na escuta respeitosa. Esses princípios abrem margem para que redes e escolas in-
O estudo dos conceitos de gênero, sexualidade e identida- siram em seus currículos discussões sobre relações de gênero,
de fornece a base teórica e ética para práticas pedagógicas que sexualidade, diversidade e combate às violências.
acolham a diversidade e enfrentem as desigualdades. Mais do
que uma obrigação legal ou normativa, trata-se de uma exigência ▸Planos e programas governamentais
ética e política para a construção de uma educação verdadeira- O Plano Nacional de Educação (PNE) 2014-2024, instituído
mente democrática e emancipadora. pela Lei nº 13.005/2014, é um dos principais instrumentos de
planejamento educacional do país. A meta 3.8 da versão original
Políticas Públicas E Marcos Legais Sobre Gênero E do PNE previa a realização de ações que promovessem a equida-
Sexualidade Na Educação de de gênero, orientação sexual, raça, etnia e inclusão de pesso-
A abordagem das questões de gênero e sexualidade na as com deficiência. Contudo, esse item foi alvo de forte contes-
educação pública brasileira está respaldada por um conjunto de tação e, em muitos contextos locais, acabou sendo removido dos
políticas e dispositivos legais que expressam o compromisso do Planos Estaduais e Municipais de Educação.
Estado com a promoção da igualdade, da dignidade humana e da Além do PNE, o Ministério da Educação já desenvolveu pro-
diversidade. Contudo, a efetivação desses direitos enfrenta desa- gramas e ações voltados ao enfrentamento da violência de gê-
fios políticos, culturais e institucionais, que exigem atenção críti- nero e à promoção da diversidade. Um exemplo foi o Programa
ca por parte de educadores, gestores e formuladores de políticas. Brasil sem Homofobia (2004), que incluiu iniciativas de formação
de professores e produção de materiais didáticos. Outro exemplo
▸Princípios constitucionais e legislação educacional foi o kit “Escola sem Homofobia”, que acabou sendo suspenso
A Constituição Federal de 1988 representa o principal marco antes de sua implementação nacional, devido a pressões políti-
normativo no qual se fundamenta a educação para as relações cas e religiosas.
de gênero e sexualidade. No artigo 206, inciso I, estabelece que o
ensino será ministrado com base na igualdade de condições para ▸Ações afirmativas e jurisprudência
o acesso e permanência na escola. Já o artigo 5º garante que to- No âmbito das ações afirmativas, destacam-se as políticas de
dos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, cotas para pessoas trans e travestis em instituições de ensino su-
o que inclui discriminações por motivo de sexo, orientação sexual perior, implementadas por universidades públicas em seus pro-
ou identidade de gênero. gramas de pós-graduação e concursos públicos. Essas políticas
têm sido respaldadas por decisões do Supremo Tribunal Federal
(STF), que reafirma o princípio da igualdade material como ga-
rantia da inclusão de populações historicamente marginalizadas.

76
CONHECIMENTOS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS

Além disso, o Supremo já reconheceu, em jurisprudência, o ▸A pedagogia da diversidade e o currículo crítico


direito à retificação de nome e gênero de pessoas trans em re- Para que a escola se torne, de fato, um espaço de promoção
gistros civis, sem necessidade de cirurgia, e reafirmou o direito à da igualdade, é necessário que os projetos pedagógicos incorpo-
livre identidade de gênero, o que impacta diretamente a garantia rem uma abordagem crítica e inclusiva, que reconheça e valorize
de ambientes escolares inclusivos e não discriminatórios. as múltiplas formas de ser, viver e se expressar. Isso implica rom-
per com o modelo de currículo neutro e universal, que ignora as
▸Desafios à implementação e riscos de retrocesso especificidades de gênero, raça, classe e sexualidade, e propor
Apesar dos avanços legais, a implementação de políticas pú- um currículo que dialogue com a realidade concreta dos estu-
blicas de gênero e sexualidade na educação enfrenta resistência dantes.
de setores conservadores. A disseminação do discurso da “ideo- A pedagogia da diversidade parte do princípio de que as
logia de gênero” e a tentativa de exclusão desses temas dos cur- diferenças não devem ser apagadas, mas compreendidas como
rículos e planos de ensino têm gerado ambiente de insegurança elementos constitutivos do processo educativo. Nessa perspecti-
jurídica e autocensura por parte de docentes. va, é papel do educador problematizar as relações de poder que
Esse movimento reacionário se manifesta também em pro- estruturam as desigualdades e fomentar a construção de novas
jetos de lei locais que propõem a proibição de discussões sobre formas de convivência baseadas na equidade e no respeito.
identidade de gênero e orientação sexual nas escolas, muitas ve- Isso pode ser feito por meio de práticas pedagógicas inter-
zes sob o argumento de que tal abordagem interferiria na autori- disciplinares, como:
dade familiar. Tais iniciativas, contudo, violam princípios constitu- ▪ leitura e análise de obras literárias que abordem questões
cionais e são questionadas em instâncias judiciais. de gênero e sexualidade;
As políticas públicas e os marcos legais brasileiros estabele- ▪ projetos sobre identidade e cidadania;
cem fundamentos sólidos para o tratamento das questões de g�