NT13 PT
NT13 PT
Marilane Teixeira
Clara Saliba
Caroline Lima de Oliveira
Lilia Bombo Alsisi
INTRODUÇÃO 5
4. DISCUSSÃO E CONCLUSÃO 30
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RESUMO EXECUTIVO [5]
No Brasil, as longas jornadas de trabalho, somadas às horas Com os dados da PNADc, estima-se que 20% da população
destinadas a deslocamentos e tarefas domésticas, resultam ocupada, ou 20,88 milhões de pessoas, estão em
em pouco tempo livre, afetando a saúde mental e a qualidade sobrejornada, trabalhando mais horas semanais do que o
de vida dos trabalhadores e trabalhadoras. A alta taxa de permitido por lei. Caso a PEC seja aprovada, pelo menos 37%
rotatividade, especialmente nos setores de comércio e dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros serão afetados
serviços, e o crescente número de afastamentos laborais por pela mudança na legislação que limita a jornada de trabalho.
saúde mental dão dimensão ao problema. Em especial, a
escala 6x1 está associada a altos índices de insatisfação e O maior contingente populacional a se beneficiar da mudança
pedidos de demissão. na lesgilação são os homens, em especial homens negros, que
trabalham em média jornadas maiores e se encontram
O movimento Vida Além do Trabalho (VAT) tomou destaque frequentemente em sobretrabalho. No entanto, é importante
recentemente ao propor alternativas às jornadas extensas, e destacar que, para as mulheres, há também um benefício
em fevereiro de 2025 foi protocolada uma PEC que propõe a indireto, pois a redução nas jornadas de trabalho abre espaço
limitação da jornada legal de trabalho a 36 horas semanais, para divisões mais igualitárias de atividades de cuidado e
com não mais do que 8 horas diárias, resultando numa escala tarefas domésticas, o que pode reduzir o impacto deste
de quatro dias trabalhados e três dias de descanso. trabalho, frequentemente não remunerado, em suas vidas.
As escalas de trabalho praticadas no Brasil são diversas e, Uma redução da jornada de trabalho para 36 horas semanais,
ainda que a jornada 5x2 seja a mais comum, e a 6x1 tenha como proposto na PEC, atingiria proporcionalmente um
ganhado destaque a partir do movimento VAT, há número maior de trabalhadoras, se comparado a uma
modalidades diferentes, com folgas intercaladas, turnos de eventual redução para 40 horas semanais.
até 12h e possibilidade de redução da carga de trabalho
semanal mediante acordos coletivos. Ainda, a falta de dados
relativos aos regimes de escala praticados no Brasil dificulta a
elaboração de estimativas sobre o número de trabalhadores
atualmente empregados em escalas 6x1.
[5] As autoras agradecem a Cássia Blefari, dirigente do sindicato dos trabalhadores na indústria têxtil de Ibitinga/SP e vice-presidente da UGT; Maria Edna Medeiros, dirigente do
SINTETEL/SP e Secretária adjunta da Secretaria da Mulher da UGT, Adriano de Assis Lateri, membro da diretoria executiva do Sindicato dos metalúrgicos de São Paulo e vice-
presidente da Força Sindical de São Paulo; Julimar Roberto, comerciário do Distrito Federal e Presidente da CONTRACS (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Comércio e
Serviços - CUT); Paulo Cayres, ex dirigente sindical dos metalúrgicos do ABC e secretário nacional sindical do PT, que contribuíram para a construção deste trabalho concedendo
entrevistas, isentando-os de eventuais erros e omissões, que seguem sob responsabilidade das autoras. Sem sua colaboração, este trabalho certamente não seria possível.
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INTRODUÇÃO
As extensas jornadas de trabalho sempre fizeram parte do Pesquisas indicam que jornadas excessivas de trabalho
quotidiano da maioria dos brasileiros e brasileiras: divididos entre comprometem diversas dimensões da vida dos (as) trabalhadores
turnos de em média 8h de trabalho diárias [6], somados às horas (as), afetando tanto sua saúde física quanto mental e reduzindo
de trabalhos domésticos e cuidados, e, principalmente nas significativamente o tempo disponível para descanso e lazer.
grandes cidades, ao dispêndio de parte significativa do seu dia na Nessas condições precárias, a insatisfação tende a se intensificar,
locomoção entre casa e trabalho, resta pouco ou nenhum tempo resultando em um aumento nos pedidos de demissão. Dados do
para o lazer, fundamental a uma vida saudável e equilibrada. Os Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) de
resultados são críticos, ainda que não surpreendentes: ao longo 2024 mostram essa tendência com o maior número de
do ano de 2024, o Brasil registrou mais de 470 mil afastamentos desligamentos voluntários no ano, assim como a proporção
do trabalho por transtornos mentais - o maior número desde desses pedidos em relação ao total de desligamentos. A análise
2014, e um aumento de 68% em relação a 2023 (Casemiro e revela que as ocupações com os maiores índices de pedidos de
Moura, 2025). demissão estão frequentemente associadas à escala 6x1. Em
cinco dessas ocupações, os desligamentos voluntários superaram
Situada no centro da luta entre capital e trabalho, a diminuição da a média nacional de 36%: vendedores (38,5%), operadores de
jornada sem redução salarial é um passo fundamental contra a caixa (47,2%), atendentes de lojas e mercados (42,9%),
exploração da classe trabalhadora. A reivindicação pela redução repositores de mercadorias (46,2%) e operadores de
da jornada de trabalho trata-se de um movimento histórico e telemarketing (55,7%). Esse movimento reflete uma crescente
basilar da luta popular e do sindicalismo, pautado na busca por insatisfação, especialmente entre os jovens, impulsionada por um
condições dignas de trabalho e de vida. mercado de trabalho aquecido, mas com poucas oportunidades
de conciliação da vida pessoal e profissional.
[6] De acordo com os dados do da PNAD Contínua para o 4º trimestre de 2024, a média da jornada habitual de população ocupada em todos os trabalhos foi de 39 horas e 48
minutos semanais (IBGE, 2024).
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Neste contexto, a discussão sobre a redução da jornada de De acordo com a proposta, a mudança ocorreria de maneira
trabalho ganhou força e se espalhou pelas redes sociais, gradual e o tempo para implementação seria ajustado a partir de
impulsionada principalmente pelo Movimento Vida Além do diálogos com os setores.
Trabalho (VAT). O movimento surgiu a partir da indignação de
Rick Azevedo, um trabalhador que exercia a função de balconista A legislação atual estabelece que a duração da jornada de
de farmácia sob o regime da escala 6x1, quando foi convocado trabalho não deve ser superior a 8 horas diárias e 44 horas
para iniciar seu turno mais cedo, resultando na redução do seu semanais, mas prevê a possibilidade de compensação de horários
único dia de folga. Inconformado com a situação, o trabalhador ou redução da jornada, desde que acordado em convenção ou
gravou um vídeo expondo suas indignações, compartilhando a acordo coletivo de trabalho. Há uma exceção prevista no Art. 59,
experiência de como a escala 6x1 impactava negativamente sua que permite, mediante acordo individual, convenção coletiva ou
vida. O vídeo rapidamente viralizou, e o tema ressoou com acordo coletivo de trabalho, a adoção de uma jornada de 12
muitos outros(as) trabalhadores e trabalhadoras, que se sentiram horas , seguidas por 36 horas ininterruptas de descanso, desde
representados pela sua fala. Isso deu início à formação de grupos que observados ou indenizados os intervalos para repouso e
de apoio, que se uniram para criar o Movimento VAT. Com o alimentação.
grupo formado e a orientação de um advogado, surgiu a ideia de
lançar uma petição pública para formalizar a demanda por A proposta em discussão é de uma modificação no inciso XIII do
melhores condições de trabalho. A petição ganhou força art. 7° da Constituição, que passaria a vigorar com a seguinte
rapidamente, refletindo o crescente apoio de trabalhadores e redação: “duração do trabalho normal não superior a oito horas
trabalhadoras de diversas áreas. diárias e trinta e seis horas semanais, com jornada de trabalho de
quatro dias por semana, facultada a compensação de horários e a
No dia 25 de fevereiro de 2025, foi protocolada uma Proposta de redução de jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de
Emenda à Constituição (PEC) que prevê a redução da jornada de trabalho". Esta emenda constitucional entraria em vigor 360 dias
trabalho e o fim da escala 6x1, sem perda salarial, de autoria da (um ano) após sua publicação.
Deputada Federal Érika Hilton (PSOL-SP). O texto propõe que a
duração do trabalho não ultrapasse oito horas diárias e trinta e
seis semanais, sugerindo quatro dias de trabalho e três de
descanso, ou seja, a escala 4x3.
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Assim, a PEC carrega duas propostas que se combinam, mas são A nota é composta de quatro seções, além desta introdução.
diferentes: a redução da jornada de trabalho e a alteração da Na primeira seção, são apresentados os principais acúmulos
escala. Reduzir a jornada de trabalho pode significar mudanças na do debate contemporâneo sobre a redução da jornada de
forma como os turnos ou escalas de trabalho são organizados. trabalho. A seção seguinte, fruto de entrevistas realizadas em
Jornadas mais curtas implicam em turnos mais curtos ou mais dias fevereiro de 2025, busca fornecer um panorama qualitativo
de descanso, aumentando o tempo livre do trabalhador e da das escalas de trabalho praticadas nos diferentes setores
trabalhadora. O ajuste das escalas de trabalho, por outro lado, econômicos, e das conquistas na direção da redução da
determina a distribuição das horas da jornada ao longo da jornada via acordos coletivos e negociações sindicais. A
semana, e é fundamental para garantir a produtividade e ao terceira seção traz estimativas do número e do perfil de
mesmo tempo assegurar que não haja sobrecarga de trabalho. No trabalhadores (as) atualmente em sobre-jornada de trabalho e
entanto, apenas uma redução da jornada de trabalho não se que seriam direta ou indiretamente impactados (as) por
traduz necessariamente no fim da escala 6x1, ao passo que a mudanças na legislação. Por fim, a quarta seção conclui o
regulação das escalas de trabalho também pode ocorrer sem a estudo.
redução da jornada.
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As primeiras conquistas ocorreram com a Constituição de 1934, Em outras palavras, com a elevação da produtividade, mais
que estabeleceu pela primeira vez a jornada máxima de 8 horas trabalho pode ser feito no mesmo tempo ou em menos tempo.
diárias, e com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em Mas isso eleva os custos com maquinaria e matérias primas, ao
1943, que regulamentou a jornada máxima de 48 horas semanais. passo que reduz o que precisa ser gasto com mão de obra. A
Com o tempo, a mobilização sindical e as reivindicações dos(as) estratégia para compensar o alto custo das máquinas (o capital
trabalhadores(as) pressionaram por novas mudanças, resultando constante) é mantê-las funcionando por mais horas, empregando,
na Constituição de 1988, que reduziu a jornada para 44 horas assim, mais trabalhadores, gerando mais valor e permitindo
semanais, um marco na história dos direitos trabalhistas no país. ganhos exponenciais, mesmo com um maior valor sendo
destinado ao pagamento dos equipamentos - e com um valor
Contudo, o debate pela redução da jornada de trabalho proporcionalmente menor destinado aos salários.
prosseguiu presente na agenda da classe trabalhadora como uma
das principais bandeiras, embora tenha perdido força diante da Contudo, a duração das jornadas raramente acompanha o
multiplicidade de modalidades de jornada de trabalho que foram movimento de elevação da produtividade, resultando em mais
sendo adotadas ao longo das últimas décadas, aspectos que trabalho realizado no mesmo período de tempo, com o
abordaremos na próxima seção. crescimento do valor produzido e, frequentemente, o
aparecimento de hiatos permanentes entre os ganhos da
À medida em que avançam a tecnologia e, consequentemente, a produtividade e os repasses reais dos salários, reduzindo a
produtividade, menos tempo de trabalho é necessário para que participação dos salários na renda nacional e empurrando com
se exerça uma mesma função laboral. Mais importante, portanto, mais força a desigualdade funcional da renda [7], em que se vê a
se torna o peso do Capital Constante (máquinas e matérias crescente apropriação dos empregadores sobre o que é
primas) na composição do Capital Total frente à redução da produzido.
participação relativa do Capital Variável (força de trabalho)
(Calvete, 2006) e a principal estratégia organizacional das A estratégia de aumento da produtividade e do tempo de
empresas é o aumento do tempo de utilização do capital, abrindo operação do capital das empresas é compatível, sobretudo, com
assim a possibilidade da redução da jornada de trabalho ante a o modelo de flexibilização da acumulação surgido na década de
compensação do avanço técnico e do escalonamento em turnos 1970 em decorrência da crise de acumulação e do modelo
para melhor aproveitamento das máquinas e equipamentos. fordista de produção.
[7] A desigualdade funcional da renda é a desigualdade na distribuição funcional da renda. A distribuição funcional, por sua vez, diz respeito à parcela da renda total (ou seja, de
tudo o que foi produzido em uma economia em determinado período) que se destina a cada fator de produção, entre o trabalho (salários), o capital (lucros) e a terra (aluguéis e
arrendamentos). A título de exemplo, Ramos e Considera (2024) estimam uma participação de 48,5% das Remunerações das Famílias (salários mais contribuições sociais) no ano de
2021.
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A acumulação flexível consiste na minimização dos custos e na Segundo Belluzzo (2003), ao analisar a economia brasileira, a
utilização de tecnologias multifuncionais e de informação, redução da jornada de trabalho aumentaria o emprego e
tornando o mercado de trabalho também mais flexível com o promoveria uma redistribuição favorável de renda. Mesmo numa
surgimento substantivo das subcontratações, dos trabalhadores situação de baixo crescimento, essa distribuição favoreceria a
autônomos e a proliferação de um setor informal nas economias demanda e aumentaria a possibilidade de as empresas ocuparem
(Valois, 2017). Desta forma, volta à tona a exploração da mão de melhor a capacidade instalada. O impacto seria ainda mais
obra pelo antigo método da extensão da jornada de trabalho, seja expressivo nos setores intensivos de mão de obra, como o de
por meio das horas extras, pela extrema conectividade entre serviços.
trabalhador e trabalho, ou mesmo mais recentemente pela
plataformização do trabalho. Assim, sob a ótica do avanço do A disputa sobre o tempo trabalhado configura um dos embates
Capital Constante e sua importância relativa na produção, os (as) históricos mais pautados pela classe trabalhadora no último
trabalhadores (as) assumem papel coadjuvante no processo século. Isto porque as formas de flexibilização do trabalho
produtivo e os avanços em torno do aumento da produtividade avançam a passos largos sobre o tempo não trabalhado,
estão a serviço do capital e suas formas de emprego em principalmente através da conectividade[8], não oferecendo ao
detrimento do trabalho humano. (a) trabalhador(a) a possibilidade de se desvincular do ambiente
de trabalho mesmo que fora dele, pela utilização de dispositivos
Atualmente, o debate sobre a redução da jornada de trabalho conectados à atividade laboral. Isso ocasiona um achatamento do
ganha força especialmente em relação ao fim da escala 6x1. Não tempo dedicado à reprodução social, ou seja, às atividades que
basta apenas diminuir as horas diárias de trabalho; há uma garantem os meios de reprodução da classe trabalhadora (como
demanda crescente por mais tempo livre para que as pessoas alimentação, cuidados essenciais básicos, educação de crianças e
possam aproveitar outras dimensões da vida além do ambiente assistência à pessoas idosas ou enfermas).
profissional. Esse é um tema central, pois envolve disputas
redistributivas entre capital e trabalho. Historicamente, os
ganhos de produtividade têm sido apropriados majoritariamente
pelo capital, enquanto uma parte desses avanços deveria ser
compartilhada com a classe trabalhadora e a sociedade,
promovendo maior equilíbrio e justiça social.
[8] Para ampliar a discussão sobre as disputas sobre o tempo de trabalho ver Cardoso (2025).
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O fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho se projeta O dinamismo econômico gerado pela criação de empregos,
para além do argumento de melhoria da produtividade do impulsionado pelo fim da escala 6x1 e pela redução da jornada de
trabalho e representa a oportunidade de avanço sobre uma trabalho, representa um avanço significativo para a classe
distribuição mais justa do valor produzido socialmente. Como trabalhadora. Em uma economia onde uma parcela expressiva da
aponta a Rede Brasileira de Economia Feminista (REBEF) em nota população está empregada em atividades dependentes da renda
técnica sobre a discussão, mais de 65% das mulheres empregadas disponível, a redução da jornada e a consequente necessidade de
formalmente estão em jornadas de trabalho superiores a 40 novas contratações não devem ser vistas apenas como um
horas semanais (PNADc 2022), além disso, no trabalho de aumento de custos para os empregadores, mas sim como uma
cuidado, como afazeres domésticos, elas desempenham em oportunidade de fortalecer a participação da renda do trabalho
média 6 horas semanais a mais que homens (PNADc 2022). na composição da renda nacional.
Portanto, o fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho
sem redução dos salários significa menos sobrecarga direta às Os argumentos desfavoráveis alegam consequências sobre o
mulheres, que somam cerca de 11 horas de trabalho por dia – nível de preços e a estrutura de custos das empresas, reduzindo
entre trabalho remunerado e não remunerado – e a possibilidade o debate a simples encadeamentos lógicos, como sugere a teoria
de uma distribuição mais equilibrada do tempo de trabalho de neoclássica. Na prática, essa resistência decorre, em grande
cuidado entre homens e mulheres. parte, do não reconhecimento de que jornadas extensas são
contraproducentes, reduzem a produtividade, são motivos de
Além disso, considerando que as mulheres, especialmente as adoecimento e podem levar à exaustão. Além disso, o avanço
mulheres negras, recebem salários inferiores aos dos homens e tecnológico tem favorecido processos produtivos poupadores de
estão proporcionalmente mais presentes em ocupações como mão de obra, o que, aliado a um contingente significativo de
“vendedores e prestadores de serviços do comércio” e trabalhadores (as) excluídos(as) do mercado formal, mantém o
“trabalhadores dos serviços” — representando, respectivamente, custo médio da força de trabalho em patamares reduzidos. No
50% e 61,5% do saldo da força de trabalho para o ano de 2024 Brasil, o custo unitário da mão de obra é um dos mais baixos
nesses setores (CAGED, 2024) —, a redução da jornada de entre os países da OCDE, ficando em apenas US$ 5,20 por hora
trabalho pode ter dois impactos importantes na distribuição de — menos de US$ 2,00 acima do valor registrado no México, que
renda por gênero. Primeiro, pode favorecer uma divisão mais ocupa a última posição no ranking e atualmente também debate
equilibrada do trabalho não remunerado. Segundo, pode a redução da jornada de trabalho (Borsari et. al., 2025).
estimular a incorporação de mais mulheres ao mercado de
trabalho, devido ao aumento da demanda por mão de obra em
setores que tradicionalmente operam com escalas de seis dias de
trabalho e um de descanso.
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2. EXPERIÊNCIAS SETORIAIS DE ORGANIZAÇÃO DA JORNADA
Ao longo do mês de fevereiro de 2025, realizamos uma série de Escala 5x2: a escala 5x2 é a mais comum no mercado formal
entrevistas com representantes sindicais de diferentes setores e estabelece cinco dias consecutivos de trabalho seguidos
econômicos, com maior ou menor abrangência da escala 6x1. A por dois dias de descanso, geralmente no sábado e domingo.
partir dessas conversas, pautadas sobretudo na multiplicidade A jornada diária costuma ser de 8 horas, totalizando 44 horas
das jornadas de trabalho praticadas por diferentes organizações, semanais. Essa modalidade é amplamente utilizada em
especialmente a partir dos acordos coletivos, sistematizamos as setores administrativos, indústrias e serviços com horários
principais modalidades de escala de trabalho no Brasil. A comerciais regulares. Para que a jornada se realize nos cinco
discussão sobre a redução da jornada de trabalho e eventuais dias da semana, são assinados acordos de compensação de
regulamentações de escala precisa levar em consideração a horas.
diversidade de modalidades existentes no Brasil. Em seguida
listamos as modalidades identificadas, a fim de melhor situar a Escala 6x1: na escala 6x1, o (a) trabalhador(a) cumpre seis
discussão e demonstrar a multiplicidade de maneiras pelas quais dias de trabalho seguidos de um dia de folga, podendo este
se organiza a jornada de trabalho na contemporaneidade. ser alocado em qualquer dia da semana, conforme
determinação da empresa ou por meio de acordo coletivo.
Modalidades de Escala de Trabalho no Brasil Essa modalidade também segue a carga horária semanal de
44 horas, (com exceções, a exemplo do setor de
A jornada tradicional, baseada em cinco dias de trabalho seguidos telemarketing, apresentado abaixo) e é comum em setores
de dois dias de descanso (escala 5x2), ainda é predominante em como comércio, varejo, restaurantes e indústrias que operam
setores administrativos e industriais. No entanto, segmentos continuamente. O descanso semanal remunerado é garantido
como comércio, serviços essenciais e produção ininterrupta por lei e deve ocorrer preferencialmente aos domingos pelo
demandam escalas diferenciadas, como a 6x1, que permite seis menos uma vez a cada sete semanas.
dias de trabalho com um de folga, ou a 12x36, comum em
hospitais e segurança, onde o(a) trabalhador(a) cumpre 12 horas
seguidas e descansa 36 horas. Essas escalas são regulamentadas
principalmente pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e
podem ser adaptadas por convenções e acordos coletivos.
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Escala 12x36: a escala 12x36 prevê 12 horas de trabalho Escala de Revezamento: empresas que operam 24 horas por
seguidas de 36 horas de descanso. Esse modelo é adotado dia, como siderúrgicas, frigoríficos e hospitais, adotam escalas
principalmente em serviços que funcionam ininterruptamente, de revezamento para garantir a continuidade das atividades.
como hospitais, segurança privada e portarias de condomínios, Esse modelo divide os(as) trabalhadores(as) em turnos,
mas também pode ser encontrado nas áreas de turismo e podendo ser rotativos ou fixos, conforme acordo coletivo.
hospitalidade, na construção civil e no comércio varejista e
atacado, bem como na indústria, especialmente de alimentação. Setor de telemarketing: a jornada de trabalho dos operadores
A legislação permite essa escala desde que prevista em de telemarketing no Brasil possui regras específicas devido à
convenção coletiva ou acordo individual, sendo que os natureza exaustiva da atividade. Segundo a Consolidação das
trabalhadores mantêm o direito ao descanso semanal Leis do Trabalho (CLT) e a Súmula 437 do Tribunal Superior do
remunerado e aos adicionais noturnos, quando aplicáveis. Trabalho (TST), essa categoria se enquadra no regime de
jornada reduzida, com uma carga horária diferenciada. A
Escala 24x48: menos comum, a escala 24x48 estabelece turnos jornada padrão para operadores(as) de telemarketing é de 6
de 24 horas de trabalho seguidas por 48 horas de descanso. horas diárias e 36 horas semanais, conforme previsto no artigo
Essa jornada é aplicada principalmente em atividades de 227 da CLT. Caso o empregador exija uma jornada superior a
plantão e serviços de emergência, como bombeiros civis e 6 horas por dia, deve haver intervalo de, no mínimo, 1 hora
alguns segmentos da segurança patrimonial. Apesar da longa para refeição e descanso, além do pagamento de horas extras.
duração da jornada, esse modelo deve respeitar as regras de Em algumas empresas, é comum o regime 12x36, em que o
compensação e os limites de horas extras. operador trabalha 12 horas seguidas e descansa 36 horas.
Durante a jornada, os(as) trabalhadores(as) têm direito a duas
Escala 4x2: o (a) trabalhador(a) trabalha quatro dias seguidos e pausas de 10 minutos cada para descanso, além do intervalo
descansa dois, geralmente em jornadas de 11 horas diárias para regular para refeição quando aplicável. O descanso semanal
alcançar o total semanal permitido. Essa escala é usada em remunerado pode ser aos domingos ou em outros dias da
turnos ininterruptos de produção e setores como transporte e semana, conforme a escala da empresa. No setor de
logística. telemarketing é possível regime de 8hs diárias e 44hs
semanais, quando desempenham funções administrativas
Escala 5x1: nessa modalidade, o(a) trabalhador(a) cumpre cinco dentro do setor, desde que não realizem atendimento
dias de trabalho e tem um dia de folga, geralmente em setores contínuo ao público por meio telefônico.
com alta demanda operacional, como supermercados e
indústrias. A carga horária diária pode ser reduzida para
equilibrar a semana de trabalho dentro do limite legal.
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As entrevistas com os(as) dirigentes sindicais evidenciaram as Os(as) trabalhadores(as) de telemarketing enfrentam um ambiente
muitas experiências de negociação coletiva envolvendo o tema da altamente estressante devido a uma combinação de fatores que
jornada de trabalho. Em Ibitinga (interior de São Paulo) a jornada no afetam tanto sua saúde mental quanto física. Entre os principais
setor de confecções e vestuário é de 8h48 diárias para compensar desafios, destacam-se: (i) Pressão por metas – os(as)
o sábado e, de acordo com os relatos da dirigente sindical operadores(as) são constantemente cobrados(as) por
entrevistada, não há nenhuma possibilidade das empresas forçarem desempenho, como número de chamadas atendidas, vendas
o trabalho aos sábados porque os (as) trabalhadores (as) se realizadas ou tempo médio de atendimento, gerando ansiedade e
recusam. Neste sentido, o fim da escala 6x1 (predominante no tensão; (ii) Ritmo intenso e repetitivo – o trabalho envolve um
comércio local) e a redução da jornada de trabalho tem ampla volume alto de ligações diárias, com pouco tempo de descanso
aceitação por parte dos(as) trabalhadores(as), e a luta foi entre uma e outra, o que pode levar à fadiga mental e emocional;
encampada por todo o movimento sindical da região. Um dos (iii) Cobranças constantes da supervisão – muitas empresas
desafios é o trabalho em plataformas, (e-commerce) que vem adotam monitoramento rigoroso, com gravação de chamadas e
atraindo cada vez mais os (as) jovens com a ilusão de se tornarem feedbacks constantes, muitas vezes com tom crítico,
empreendedores (as). Trata-se de um trabalho precário e sem intensificando o estresse; (iv) Atendimento a clientes hostis – é
registro. comum lidar com clientes irritados, impacientes ou até agressivos,
gerando desgaste emocional e sensação de impotência; (v) Baixos
No setor de telemarketing, segundo a dirigente sindical salários e pouca valorização – a remuneração é baixa e há pouca
entrevistada, predomina a jornada de 30 horas semanais com perspectiva de crescimento na carreira, o que contribui para a
escala 6x1. Estima-se que o setor empregue cerca de 470 mil desmotivação; e, (vi) Impactos na saúde – o estresse contínuo
trabalhadores em todo o Brasil, sendo que as mulheres pode levar a problemas como ansiedade, depressão, insônia, dores
representam 72% desse total (RAIS, 2024). O dia de folga na escala musculares e fadiga vocal, além de aumentar o risco de síndrome
varia conforme a negociação coletiva. Para a categoria, o fim do de burnout.
regime 6x1 não é apenas uma reivindicação, mas um verdadeiro
sonho, refletindo a necessidade de melhores condições de trabalho Essas condições tornam o telemarketing uma das profissões com
e qualidade de vida. maior taxa de rotatividade e adoecimento, refletindo a
necessidade de melhores condições de trabalho, como redução da
jornada e pausas adequadas.
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Para o presidente da CONTRACS (Confederação Nacional dos No setor metalúrgico de São Paulo, conforme o dirigente sindical
Trabalhadores do Comércio e Serviços), essa luta remonta a 1932. entrevistado, há uma diversidade de experiências em relação à
A redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6x1 são jornada de trabalho. A jornada predominante no setor é de 44
reivindicações históricas dos comerciários, já que a maioria dos horas semanais, e, para quem trabalha em sábados alternados, o
trabalhadores do setor ainda enfrenta essas condições. Em alguns tempo de refeição é reduzido para 30 a 40 minutos. Cerca de 40%
casos, há jornadas exaustivas em que o(a) trabalhador(a) atua de das grandes empresas operam aos sábados, enquanto 60%
terça a segunda a e só tem folga na quarta-feira. Há um consenso adotam a escala de sábados alternados. Os maiores índices de
de que a implementação de uma jornada de 36 horas com escala acidentes de trabalho estão associados às sobrejornadas, que
4x3 proporciona uma significativa melhora na qualidade de vida da comprometem o reflexo dos trabalhadores. Já as empresas de
categoria. Além disso, a alta rotatividade em determinados menor porte organizam sua produção durante a semana, por meio
segmentos do comércio evidencia a precariedade dessas de acordos de compensação de horas.
condições. No setor de supermercados, por exemplo, há frequentes
queixas sobre a dificuldade de encontrar funcionários dispostos a Entretanto, diversos acordos têm sido firmados para a redução da
trabalhar, sem que se questione se o verdadeiro problema está jornada para 40 horas semanais, com a participação ativa dos
justamente na qualidade das condições oferecidas. trabalhadores, por meio de plebiscitos e consultas. A experiência
tem mostrado que essa redução não prejudica a produtividade e
Esse cenário se agravou com a Portaria nº 671, de 2021, editada resulta em maior motivação para o trabalho por parte dos
durante o governo Bolsonaro, que ampliou a autorização para o trabalhadores e trabalhadoras.
trabalho aos domingos e feriados sem necessidade de negociação
coletiva, precarizando ainda mais a situação dos trabalhadores do Em casos de empresas com três turnos diários de trabalho, para
comércio. No entanto, em 2023, o Ministro do Trabalho reverteu reduzir a carga de trabalho aos sábados, seria necessário diminuir
essa medida, restabelecendo a exigência de negociação coletiva a jornada para 36 horas semanais.
para o trabalho nesses dias.
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Alguns exemplos fictícios de empresas com jornadas reduzidas: As condições precárias de trabalho, especialmente no
telemarketing, e as altas taxas de rotatividade no comércio e na
Empresa X: trabalha de segunda a quinta das 7h15 às 17h, e nas metalurgia demonstram que a redução da jornada é uma medida
sextas das 7h15 às 12h15, com uma hora de almoço. não apenas necessária, mas viável. A experiência de empresas que
já adotaram jornadas mais curtas, como as de 40 horas semanais,
Empresa Y: funciona das 8h00 às 17h00 de segunda a sexta, com reforça a ideia de que é possível equilibrar produtividade e
uma hora de almoço. qualidade de vida. Além disso, as recentes mudanças nas
legislações, como a revogação da Portaria nº 671 de 2021,
Empresa W: com dois turnos, opera das 6h00 às 14h00, e nos indicam um movimento em direção ao reconhecimento da
sábados alternados, das 6h00 às 11h15, e das 14h00 às 21h00 importância de negociações coletivas e à proteção dos direitos
de segunda a sexta, com sábados alternados das 11h15 às dos (as) trabalhadores (as).
16h30.
Portanto, o cenário atual aponta para a necessidade urgente de
A análise das entrevistas com dirigentes sindicais revela uma forte uma reestruturação das jornadas de trabalho no Brasil, não só
mobilização em torno da redução da jornada de trabalho e do fim da como um direito legítimo da classe trabalhadora, mas também
escala 6x1, especialmente nos setores consultados (confecções, como uma estratégia para melhorar a saúde ocupacional e garantir
telemarketing, comércio e metalurgia). As experiências de maior estabilidade no mercado de trabalho. As experiências
negociação coletiva indicam que há um crescente apoio dos(as) positivas de redução de jornada servem como exemplo de que é
trabalhadores(as) a essas mudanças, que são vistas como essenciais possível construir um futuro laboral mais equilibrado, onde a
para melhorar a qualidade de vida, reduzir o estresse e aumentar a dignidade e o bem-estar estejam no centro das políticas de
motivação no ambiente de trabalho. Embora a jornada de trabalho emprego.
predominante em muitos desses setores ainda seja longa e exaustiva,
diversas iniciativas, como a implementação de jornadas reduzidas e a
substituição da escala 6x1 por modelos alternativos, têm mostrado
resultados positivos em termos de produtividade e bem-estar dos(as)
trabalhadores (as).
15
3. NÚMEROS DA JORNADA DE TRABALHO NO BRASIL
Uma limitação grande para a compreensão das escalas de A fim de melhor dimensionar o número de trabalhadores e
trabalho praticadas pelos trabalhadores e trabalhadoras trabalhadoras que seriam possivelmente impactados por uma
brasileiros é o fato de que este dado não é capturado pelas redução na jornada máxima de trabalho, principal mudança
principais bases de dados que cobrem o mercado de trabalho. proposta pela PEC da Escala 6x1, foram analisadas as
Nem a RAIS, registro administrativo referente aos vínculos informações referentes à população ocupada disponíveis na
empregatícios formais, nem a PNADc, pesquisa amostral do IBGE Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADc),
focada no mercado de trabalho, apresentam variáveis para o quarto trimestre de 2024.
relacionadas à escala de trabalho. Isso ocorre porque a
determinação da escala, ao contrário da jornada, depende Os dados da PNADc se referem ao conjunto do mercado de
exclusivamente de uma série de disposições entre trabalhador e trabalho, abarcando tanto ocupações formais quanto informais,
empregador, seja via acordo coletivo ou individual. Contanto que dentre empregados com e sem carteira assinada nos setores
a escala estabelecida cumpra as horas máximas diárias e público e privado, trabalhadores por conta própria (ou
semanais e garanta pelo menos uma folga semanal de 24h, não autônomos), empregadores, militares e servidores estatutários,
há maiores determinações quanto ao seu modo de cumprimento. trabalhadores domésticos com e sem carteira assinada e
Isso cria uma variedade de regimes de escala difíceis de prever e, trabalhadores familiares auxiliares. [9]
assim, de estimar: ainda que as mais comuns sejam a escala 5x2 e
a escala 6x1, há uma infinidade de combinações entre escalas e Os trabalhadores e as trabalhadoras brasileiros cumprem
jornadas permitidas na legislação brasileira, como visto na seção jornadas de trabalho extensas. A figura 1 traz a distribuição da
anterior. jornada de trabalho habitualmente cumprida pela população
ocupada no 4º trimestre de 2024, para mulheres e homens,
Como não há dados oficiais disponíveis sobre a proporção de negros e brancos, assim como as jornadas médias observadas
realização das diferentes escalas, optou-se por trabalhar com a para cada recorte populacional. A maioria das pessoas ocupadas
jornada de trabalho. (35,5%) declara exercer uma jornada de trabalho habitual de 40
horas semanais, mas também são significativas as parcelas que
trabalham até 30h (20,7%) ou 44h exatamente (20,7%).
[9] A inclusão dos trabalhadores informais na análise se justifica pelo efeito que as regulamentações do trabalho formal têm sobre as relações de trabalho na informalidade: ainda
que não se cumpram à risca todas as leis trabalhistas no trabalho informal, é inegável que os regimentos aplicados aos vínculos formais servem de espelho para a realização dos
acordos de trabalho informal, tanto em termos de salário (como previamente discutido em Teixeira e outras, 2024), quanto de jornada, pausas laborais e escala de trabalho.
16
Figura 1 - População ocupada por horas semanais habitualmente trabalhadas no trabalho principal
(4º trimestre de 2024).
17
Os números de trabalhadores com jornadas superiores às 40h Por outro lado, ainda que a situação nacional seja grave, ela
semanais são elevados. Quando considerado o tempo médio de não é amplamente diferente em outros países. Em uma
deslocamento até o trabalho e a realização de atividades de comparação internacional, o Brasil se situa muito próximo à
trabalho não remuneradas, como trabalho de cuidado ou afazeres média de horas semanalmente trabalhadas tanto para homens
domésticos, ficam ainda mais altos, especialmente para as quanto para mulheres, ocupando, num ranking de 80 países,
mulheres: estimativas do IBGE consideram que, em 2022, as as posições 37 e 42, respectivamente. A Figura 2 traz a
mulheres brasileiras ocupadas exerceram uma jornada de distribuição da média de horas semanalmente trabalhadas por
trabalho não pago de 17 horas e 48 minutos semanais. Para os sexo, conforme dados da Organização Internacional do
homens, o valor foi de 11 horas[10] (IBGE, 2023). Também o Trabalho (OIT) para o ano de 2023. Por mais que a jornada de
IBGE reportou, no último dado disponível, um tempo médio de trabalho dos brasileiros não chegue aos extremos da
deslocamento para o trabalho de em média de 4 horas e 54 distribuição, em que as médias semanais de horas trabalhadas
minutos para cidadãos de áreas urbanas e 3 horas e meia para atingem 49 horas paras mulheres (Emirados Árabes) e 50
cidadãos de regiões rurais (IBGE, 2021). horas e 13 minutos para os homens (Índia), permanece longe
da realidade dos países desenvolvidos, como a França, com
Embora não seja possível somar as estimativas de tempo gasto no jornada média de 37h36min para homens e 33h22min para
deslocamento, no trabalho e nos afazeres domésticos, por se mulheres, o Canadá, com 37h39min e 33h36min, ou a
tratarem de pesquisas diferentes e realizadas em diferentes Alemanha, com 36h47min e 29h22min, respectivamente.
recortes temporais, é fácil perceber que a conta não fecha: as
horas trabalhadas na semana somadas ao tempo de deslocamento
para o trabalho e aos trabalhos de cuidado e afazeres domésticos
superam o máximo humanamente possível e colocam a maioria
dos trabalhadores e trabalhadoras em um quadro de pobreza de
tempo.
[10] Os dados de uso do tempo atualmente disponíveis para o Brasil apresentam algumas inconsistências metodológicas. Para entender melhor as pesquisas de uso do tempo e a
importância de indicadores mais robustos nesse sentido no Brasil, ver Pires e outras (2025).
18
Figura 2 - Ranking internacional de horas semanalmente trabalhadas por sexo (2023)
19
De volta aos números brasileiros, a tabela 1, por sua vez, mostra
o número de trabalhadores e trabalhadoras, formais e informais,
em cada faixa de horas habitualmente trabalhadas por semana no
trabalho principal. Como esperado, a maioria dos trabalhadores
(56,3%) se encontra em jornadas de 40 a 44 horas semanais,
especialmente quando considerados apenas os trabalhadores
formais (para estes, 71,4%). Mas é interessante destacar que 20%
da população ocupada, ou 20,88 milhões de pessoas, exercem
uma jornada de trabalho superior àquela permitida por lei, que é
de no máximo 44 horas semanais: são 8,9 milhões de
trabalhadores formais, 10 milhões de informais e 1,8 milhões de
empregadores com jornadas habituais de 45 horas semanais ou
mais - doravante denominados de trabalhadores em
sobrejornada. Ainda que exista a possibilidade legal de extensão
da jornada de trabalho em até duas horas diárias e não mais do
que 10 horas por semana - o que levaria a jornada semanal de 44
para, no máximo, 54 horas -, entende-se que o cumprimento de
horas extras deve ser uma atividade excepcional, e que não
deveria ser contabilizada na jornada de trabalho habitual.
20
Tabela 1 - Distribuição da população ocupada por jornada de trabalho e posição na ocupação
agregada[11] (4º trimestre 2024)
[11] Foram considerados como formais os trabalhadores que sejam empregados no setor público ou privado com carteira de trabalho assinada, militares ou servidores
estatutários e trabalhadores domésticos com carteira assinada. Já os informais são os empregados no setor público ou privado sem carteira assinada, trabalhadores domésticos
sem carteira assinada, trabalhadores por conta própria e trabalhadores familiares auxiliares.
21
Uma observação mais detalhada da população em sobrejornada é
exibida na Tabela 2, que traz a composição demográfica do
grupo: nele, a maior participação é dos homens negros, que
representam 36,7% - em comparação aos 32,4% que
representam da população ocupada total. Também os homens
brancos são sobrerrepresentados: 29,5%, contra 23,7% na
população ocupada. A maior participação masculina nas
ocupações com maiores jornadas de trabalho não é uma surpresa:
ao se considerar o peso que as tarefas de cuidado não pagas
exercem no cotidiano das mulheres, o tempo disponível para a
realização de trabalhos remunerados é menor para elas[12], e
resulta frequentemente em menores jornadas de trabalho - tanto
no Brasil quanto no resto do mundo.
[12] Para maiores discussões sobre o uso do tempo das mulheres e suas consequências no mercado de trabalho, ver Resende e outras (2024). Também a nota “Impactos da
jornada reduzida: um olhar feminista sobre o trabalho e uso do tempo” publicada pela Rede Brasileira de Economia Feminista (REBEF) traz interessantes reflexões sobre o
assunto.
22
Tabela 2 -
Trabalhadores com
jornadas de trabalho
superiores a 44h
semanais
(4º trimestre de 2024)
23
Para melhor localizar os trabalhadores em sobrejornada,
observou-se a distribuição destas ocupações por grupamentos de
atividade e grupamentos ocupacionais fornecidos pelo IBGE na
PNAD Contínua. Em geral, a distribuição ocupacional e setorial
dos trabalhadores em sobrejornada se assemelha à distribuição
da amostra completa, com pequenas variações. Isso demonstra
que, embora discussões relacionadas à escala 6x1 possam estar
localizadas em setores específicos da classe trabalhadora, o
impacto das extensas jornadas de trabalho, principal alvo da PEC,
é mais generalizado, abarcando com razoável uniformidade
diferentes setores econômicos.
24
Tabela 3 -
Proporção de
trabalhadores em
sobrejornada por
grupamento de
atividade (4º
trimestre de 2024)
25
A tabela 4, por fim, traz o percentual de trabalhadores em
sobrejornada de trabalho dentro de cada grupamento
ocupacional. Nela, destacam-se os operadores de instalações e
máquinas e montadores; os diretores e gerentes; os trabalhadores
qualificados da agropecuária, florestais, da caça e da pesca; e os
trabalhadores dos serviços, vendedores de comércios e
mercados. Mais uma vez, a diversidade de setores e ocupações
em que se percebe um problema de jornadas de trabalho
estendidas reitera o ponto de que a discussão trazida pela PEC é
mais abrangente do que parece: de trabalhadores de serviços,
mais comumente associados à pauta, até diretores e gerentes - da
indústria, dos serviços ou da agricultura.
26
Tabela 4 - Proporção
de trabalhadores em
sobrejornada por
grupamento
ocupacional
(4º trimestre de 2024)
27
A PEC protocolada em 25 de fevereiro propõe o estabelecimento Nesse contexto, 41,3 milhões de trabalhadores e trabalhadoras
de uma jornada semanal máxima de 36h. Ainda utilizando os estariam em sobrejornada, 22,3 milhões dos quais com carteira
dados da PNAD Contínua, é possível estimar quantos assinada. A PEC, nesse caso, chegaria a no mínimo 21,5% do
trabalhadores e trabalhadoras seriam diretamente beneficiados, mercado de trabalho, podendo atingir outros 18,3% em sobre-
por trabalharem em jornadas superiores ao limite proposto e jornada, mas sem carteira assinada.
terem carteira assinada, e quantos seriam indiretamente
beneficiados, por praticar jornadas análogas, mas sem carteira de Em ambos os cenários, os homens seriam proporcionalmente mais
trabalho assinada. A Figura 3 traz as estimativas realizadas: das afetados do que as mulheres, por apresentarem jornadas médias
103,8 milhões de pessoas ocupadas no 4º trimestre de 2024, de trabalho (remunerado) mais longas. No quarto trimestre de
78,3 milhões declararam trabalhar mais de 36h na semana, das 2024, 81,4% dos homens afirmaram cumprir jornadas maiores do
quais 38,4 milhões afirmavam ter carteira assinada. Nesse que 36h semanais. Considerando apenas aqueles com carteira
cenário, a aprovação da PEC reduziria a jornada de trabalho de assinada, a proporção cai para cerca de 38%. No caso de jornadas
pelo menos 37% dos trabalhadores - aqueles com carteira acima de 40h, 45% dos homens reportou praticá-las, os com
assinada - e possivelmente afetaria também as condições de carteira assinada representando 22,9%. As proporções de
trabalho de outros 38% - também trabalhando mais de 36h trabalhadores brancos e negros possivelmente impactados são
semanais, mas sem carteira assinada. próximas, para as 36h (39,2% e 37,5%, respectivamente), e iguais
(23%), para as 40h.
Estimou-se também a população atingida caso o limite de 36h
seja elevado para 40h semanais - portanto, 4 horas a menos do Já para as mulheres, há maior impacto no primeiro cenário: 35,5%
que o permitido pela legislação atual. Nesse contexto, 41,3 das mulheres ocupadas seriam atingidas pela PEC nos moldes
milhões de trabalhadores e trabalhadoras estariam em atuais e 19,7% no caso de alteração para 40 horas. Nos dois
sobrejornada, 22,3 milhões dos quais com carteira assinada. A cenários, a proporção de mulheres brancas atingidas é maior do
PEC, nesse caso, chegaria a no mínimo 21,5% do mercado de que a de mulheres negras: são 37,6% contra 33,8%,
trabalho, podendo atingir outros 18,3% em sobrejornada, mas respectivamente, no primeiro cenário, e 20,2% versus 19,3%, no
sem carteira assinada. segundo. A sobrerrepresentação de trabalhadores e trabalhadoras
brancos no número de diretamente atingidos está relacionada à
Estimou-se também a população atingida caso o limite de 36h maior representação destes trabalhadores também nos empregos
seja elevado para 40h semanais - portanto, 4 horas a menos do formais como um todo: as taxas de formalização da população
que o permitido pela legislação atual. branca são consistentemente mais elevadas, na história do Brasil,
do que as da população negra, por razões histórico-estruturais.
28
Figura 3 - Perfil dos trabalhadores diretamente impactados pela PEC da Redução da Jornada de
Trabalho
29
4. DISCUSSÃO E CONCLUSÃO
A nota destaca a importância da redução da jornada de trabalho A nota também aborda os modelos de jornada de trabalho,
e o fim da escala 6x1 para a classe trabalhadora, especialmente como a 6x1, 12x36 e a jornada flexível, detalhando como
no contexto da relação entre o capital e o trabalho. A análise diferentes setores e categorias enfrentam desafios
histórica das conquistas progressivas, como a redução da específicos. Os depoimentos de dirigentes sindicais ilustram a
jornada de 48 horas semanais para 44 horas, apresenta uma resistência dos trabalhadores a jornadas desgastantes e, ao
linha do tempo significativa, mas também evidencia as mesmo tempo, o crescente apoio à redução da jornada, com
dificuldades persistentes, como a resistência de setores exemplos concretos de negociações bem-sucedidas, como a
empresariais e a flexibilização do trabalho nas últimas décadas. redução da jornada para 40 horas semanais em algumas
A principal reflexão é que, apesar de os avanços tecnológicos empresas.
que aumentam a produtividade, isso nem sempre se reflete
diretamente em benefícios para os (as) trabalhadores (as), com a A análise sugere que a redução da jornada de trabalho é uma
desigualdade funcional da renda crescendo. medida não apenas viável, mas essencial para promover a
saúde ocupacional, a estabilidade no mercado de trabalho e
Além disso, o debate sobre a redução da jornada ganha uma redistribuição mais equitativa da renda. As experiências
relevância em um cenário de busca de maior equilíbrio entre de empresas que já implementaram jornadas reduzidas
trabalho e vida pessoal, com a busca por mais tempo livre, o que mostram que é possível equilibrar produtividade e bem-estar.
é especialmente importante no contexto de desigualdade de
gênero. A sobrecarga das mulheres, particularmente nas A nota revela a complexidade das condições de trabalho no
jornadas de trabalho intensas e no acúmulo de trabalho Brasil, destacando a falta de dados oficiais sobre as escalas de
doméstico e de cuidado, destaca a necessidade urgente de uma trabalho, uma lacuna que dificulta a compreensão mais
reestruturação das jornadas, de modo que a divisão do tempo precisa da realidade dos(as) trabalhadores(as) brasileiros(as). A
de trabalho e de cuidado seja mais equilibrada. ausência de registros sobre as escalas de trabalho nos
principais levantamentos como a RAIS e a PNADc impede
uma análise detalhada do fenômeno, limitando a abordagem
das jornadas de trabalho ao número de horas trabalhadas,
que, por si só, não abarca a diversidade de situações
existentes nas relações laborais.
30
Os dados apresentados destacam a extensa jornada de trabalho A proposta da PEC de redução da jornada de trabalho para 36
de muitos brasileiros, com um número significativo de horas semanais, ao focar no impacto em trabalhadores(as)
trabalhadores(as) cumprindo jornadas superiores às 40 horas formais, oferece uma possibilidade concreta de aliviar a
semanais. A sobrecarga de trabalho não remunerado, como sobrecarga de trabalho e gerar novos empregos. Estima-se
trabalhos domésticos e cuidados, especialmente no caso das que uma parcela significativa da população seria diretamente
mulheres, agrava ainda mais a situação, resultando em um afetada, com uma redução nas jornadas de trabalho.
quadro de "pobreza de tempo." A comparação com outros
países, embora mostre que o Brasil está relativamente alinhado Em suma, o estudo evidencia a necessidade urgente de
com a média global, destaca as disparidades entre o Brasil e reformas nas condições de trabalho no Brasil, não apenas com
nações desenvolvidas, onde a carga de trabalho tende a ser bem relação à duração da jornada, mas também ao
menor. reconhecimento das múltiplas responsabilidades que recaem
sobre trabalhadores (as), especialmente mulheres. A PEC da
A análise da população em sobrejornada revela que muitos(as) redução da jornada do fim da escala 6x1 representa uma
trabalhadores(as), especialmente homens negros e brancos, importante iniciativa de enfrentar essas desigualdades,
enfrentam jornadas que excedem as 44 horas semanais, o que embora ainda dependa de um debate mais amplo para
levanta questões sobre as condições de trabalho e a garantir a eficácia e a equidade de sua implementação.
necessidade de políticas públicas que busquem mitigar essa
sobrecarga. O impacto das jornadas extensas não se limita a
setores específicos, mas se espalha por diversos grupos
ocupacionais, como operadores de máquinas, gerentes e até
trabalhadores da agricultura, o que torna o tema mais
abrangente.
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