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Documento Sem Título

No laboratório da Iniciativa Éden, o Dr. Elias e sua equipe enfrentam a realidade de terem criado seres humanos geneticamente modificados que demonstram consciência e habilidades incomuns. Após um bebê falar sobre algo que vive no esgoto, a equipe se divide entre continuar o projeto ou abandoná-lo, levando Elias a decidir descer sozinho para enfrentar o que está abaixo. A tensão entre a esperança de salvar a humanidade e o medo do que esses novos seres representam permeia a narrativa.

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Documento Sem Título

No laboratório da Iniciativa Éden, o Dr. Elias e sua equipe enfrentam a realidade de terem criado seres humanos geneticamente modificados que demonstram consciência e habilidades incomuns. Após um bebê falar sobre algo que vive no esgoto, a equipe se divide entre continuar o projeto ou abandoná-lo, levando Elias a decidir descer sozinho para enfrentar o que está abaixo. A tensão entre a esperança de salvar a humanidade e o medo do que esses novos seres representam permeia a narrativa.

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O silêncio no laboratório não era normal.


Não era o tipo de silêncio que tranquiliza — era o tipo que carrega sons escondidos,
como se o mundo respirasse pelas paredes rachadas.

Sussurros finos. Risinhos agudos.​


Batidas ritmadas. Unhas. Pequenas. Arranhando metal.​
Eram como ecos de algo que não devia estar ali. Ou pior — algo que nunca saiu dali.

O Dr. Elias segurava o tubo criogênico com as duas mãos, suando sob as luvas seladas. Lá
dentro, girava lentamente a amostra mais pura de DNA humano ainda não contaminado —
um fragmento daquilo que a humanidade era.

Mas ele sabia.​


Já não era ciência. Era luto mascarado de método.​
Era um último gesto de arrogância, tentando convencer o mundo de que ainda havia
controle.​
De que eles ainda eram deuses num templo sem altar.

O visor da câmara 47B acendeu.​


O bebê abriu os olhos.​
Vermelhos. Não de sangue — mas de uma bioluminescência serena, profunda, quase
hipnótica.

Elias paralisou.​
Não era a cor. Era o olhar.​
A criança estava olhando de volta.​
Com foco. Com consciência. Com julgamento.

— Eles estão… — sussurrou Kesler, ao lado, com a voz embargada — …evoluindo rápido
demais.​
Elias não respondeu. Não conseguia.

Do outro lado da divisória de vidro reforçado, quinze recém-nascidos estavam de pé.​


Sem apoio.​
Sem tremores.​
Imóveis. Como estátuas vivas.

E encaravam.​
Não com curiosidade infantil.​
Com um silêncio maduro. Antinatural. Como se soubessem quem eram. E quem os
outros eram.

A humanidade havia tentado recomeçar.​


Mas o que nasceu…​
era outra coisa.
Um ano antes daquele dia — antes dos olhos vermelhos, dos sorrisos
conscientes e das vozes infantis — o Dr. Elias ainda acreditava que estava
salvando o mundo.

O laboratório subterrâneo da Iniciativa Éden era isolado. Construído sob as


ruínas de uma cidade morta.

Foi ali que o primeiro nasceu.

Registro: 01A. Nascimento: 03:47 da manhã. Peso: normal. Pulso: acelerado.

O bebê chorou como qualquer outro. Mas o choro... tinha algo estranho. Um
ritmo. Como se estivesse reconhecendo o ambiente.

Elias se aproximou da incubadora. A luz azulada realçava o rosto da criatura.


Ainda com o cordão ligado ao tubo.

Então, ele abriu os olhos.

Vermelhos.

E gritou. Não era choro. Era algo mais profundo. Como um alerta. Um aviso.

Elias recuou. O bebê o encarava. Com precisão. Com intenção.

— Isso é impossível, murmurou Kessler.

A criatura se ergueu. Com firmeza. Como se soubesse o que fazia.

Elias puxou o alarme. As luzes se tornaram vermelhas. Ele não hesitou.

Correu até a escotilha lateral do laboratório. A câmara de descarte.

E jogou o bebê no esgoto.

Elias acordou com um sobressalto, suando, o peito ofegante.


Ainda sonhava com aquilo. Mas já não sabia se era sonho, memória, ou maldição.
Levantou-se e foi até o espelho trincado do banheiro.
O homem refletido ali era pálido, barba por fazer, olhos verdes desgastados, carregando
anos de culpa.
O jaleco pendurado na porta era uma lembrança de quem fingia ainda ser.

— Teve o sonho de novo? — perguntou uma voz firme atrás dele.

Dra. Kessler. Alta, elegante, olhos cinzentos e postura disciplinada.


Tinha algo de frio, mas também algo que ninguém mais ali tinha: fé.
Logo atrás, os outros três membros da equipe se reuniram na sala de controle:

• Dr. Rafael "Rafe" Montenegro – tatuagens científicas nos braços, sarcástico, engenheiro
genético, cético e impulsivo.
• Dr. Noah Sato – introspectivo, jovem, biomecânico, com olhar afiado e segredos que não
dizia em voz alta.

• Dra. Amara Voss – psicóloga comportamental, presença espiritual, cicatrizes no rosto, voz
firme, consciência da equipe.
Juntos, formavam o que restava da ciência... ou do que ainda chamavam de humanidade.

— Quinze. São exatamente quinze, todos com variações genéticas aceitáveis.


Peso ideal, taxa de crescimento acima da média — disse Kessler, com os olhos
grudados na prancheta digital.

— Ótimo. Melhor margem de erro desde o Lote 8 — comentou Rafe,


recostando-se numa cadeira giratória. — Com sorte, conseguimos modelar dois
ou três antes que... você sabe, eles “despertem”.

— Não estamos lidando com sorte — retrucou Amara, a voz carregada de


reprovação. — Estamos lidando com seres conscientes. Alguns desses bebês
estão olhando para nós. Eles nos reconhecem. Você viu o 09 ontem?

— Vi. Ele tentou me morder. Um instinto básico, não uma reação consciente —
respondeu Noah, sem tirar os olhos da tela. — O sistema límbico deles está
hiperativo. Isso pode ser contido com restrição de estímulos visuais.

— Vocês falam como se fossem ratos — murmurou Elias, afastado dos demais,
olhando os berçários através do vidro polarizado.

O silêncio que se seguiu foi quase desconfortável. Cada um, à sua maneira, já
havia sacrificado algo para estar ali. Moral, medo, sanidade.

— O importante é que temos uma janela — retomou Rafe. — Três semanas até
os primeiros sinais de cognição aparecerem. É o tempo que precisamos para
tentar o protocolo quadrupedal.

— Você ainda acredita que vai funcionar? — Elias encarava-o agora, sem
ironia. — Que eles vão se curvar e andar como animais?

— Eu acredito que eles vão se adaptar — respondeu Rafe, frio. — Ou vão parar
de existir. E essa decisão é deles.

Elias se levantou lentamente. Caminhou até o vidro. Os olhos de todos os


bebês o seguiam. Como se ouvissem. Como se entendessem.

— Esse é o problema... — disse Amara. — Eles não parecem querer existir


como queremos.

E então, aconteceu.

O som não veio das máquinas. Nem de um alarme.​


Veio do centro do berçário.​
Um bebê, ainda ligado ao tubo de alimentação, sentou-se com esforço. Seus
olhos estavam mais escuros, quase sem íris. Como se fossem antigos.​
E ele falou.

— O esgoto... não vai segurá-los para sempre.


Todos congelaram. Elias, o primeiro a se mover, se aproximou do vidro.

— O que você disse?

O bebê virou o rosto devagar. Havia uma tranquilidade absurda em sua


expressão. E repetiu:

— Alguns ainda vivem. Lá embaixo.​


— O 01 está esperando.​
— Daqui a poucos meses... tudo vai se revelar.

O vidro tremeu levemente. Mas ninguém encostava. O monitor de batimentos


cardíacos de todos os bebês sincronizou em um único ritmo.​
Bum. Bum. Bum.​
Um compasso. Uma batida.​
Como se algo estivesse acordando lá embaixo.

A sala de controle ficou mergulhada num silêncio pesado depois da fala do bebê.

Rafe quebrou o silêncio, a voz dura:

— Isso é impossível. Eles não podem falar. Alguém deve ter adulterado os sistemas.

Noah, sempre calado, agora franziu o cenho:

— Ou estamos subestimando algo. Muito além do que planejamos.

Elias virou-se para Amara, que parecia inquieta, seus olhos denunciando um medo que
tentava esconder.

— Amara, o que pensa disso tudo?

Ela respirou fundo, afastando os fios de cabelo do rosto.

— Não deveria existir nada aí. Não deveria haver consciência tão jovem. Mas está
acontecendo. Eles sabem.

— Isso muda tudo — murmurou Elias, pesado.

Amara olhou para os monitores com uma expressão sombria.

— Acho que é hora de reconsiderar nossa permanência aqui. Não apenas pelo
experimento, mas por nós.

— Está dizendo que devemos abandonar o projeto? — Elias perguntou, incrédulo.

— Não só o projeto — ela respondeu, a voz quase um sussurro — nós mesmos. Antes que
seja tarde.

Rafe revirou os olhos, impaciente:

— Medo não resolve nada. Precisamos controlar essa situação. Ou vamos perder tudo.
— E se já estivermos perdendo? — replicou Amara, a voz trêmula, mas firme — Eu sinto
isso. Algo vindo de baixo. Algo que não conseguimos deter.

Noah olhou para os outros, a tensão crescendo no ar.

— Precisamos preparar contingências. Caso o pior aconteça.

Elias assentiu lentamente, sentindo o peso do que tinham criado — e do que, talvez, já
estivesse além de qualquer controle.

Elias explodiu, a voz cortando o ar como um trovão:

— Chega! — gritou, batendo com força na mesa, fazendo os monitores tremularem.

— Nós somos a última esperança! A ÚLTIMA! Vocês acham que podem simplesmente
desistir? Que o que está lá fora é fácil?

Ele apontou para a pequena janela da sala, onde a luz fria do laboratório tentava vencer a
escuridão do mundo devastado lá fora.

— O vírus apocalíptico dizimou milhões! E os monstros que saíram desse inferno não são
coisa de conto para assustar criança! Eles existem, e estão caçando o que restou de nós!

— E vocês querem abandonar tudo? Jogar fora o que sobrou? — Ele respirava pesado, os
olhos faiscando raiva e desespero.

Amara recuou, mas sua expressão não mudou.

— Elias, não é sobre desistir. É sobre saber até onde podemos ir sem nos perdermos no
processo.

— Perdemos a humanidade no momento em que decidiram transformar bebês em


experimentos! — Elias retrucou, a voz amarga. — Mas enquanto eu respirar, eu vou lutar
para que eles tenham uma chance de ser mais do que monstros — seja qual for a forma
que tomem!

O silêncio caiu pesado na sala.

Mesmo Rafe, sempre tão arrogante, não teve resposta. Noah apenas desviou o olhar,
sentindo o peso da convicção daquele homem.

Elias passou a mão no rosto, a fúria dando lugar a uma determinação gelada.

— Vamos seguir em frente. Temos trabalho a fazer. E não há espaço para medo aqui.

Kessler seguiu Elias pelo corredor sombrio, onde as luzes tremeluziam, refletindo as
manchas vermelhas nas paredes e os cálculos rabiscados que pareciam alertas silenciosos.

— Elias — disse ela, parando a poucos passos dele — eu não quero que você vá.

Ele se virou lentamente, o olhar firme, mas havia uma suavidade escondida na sua
expressão.

— Kessler... — começou, mas ela levantou a mão, interrompendo-o.


— Eu sei como você é teimoso. Sei que já decidiu.

— Você sabe bem que não posso ignorar o que está acontecendo — respondeu Elias,
tentando manter a calma.

— Mas é perigoso demais — insistiu ela, o medo evidente na voz — não podemos nos dar
ao luxo de perder você agora. Temos que cuidar dos bebês, e do laboratório.

— Eu vou sozinho. — Ele disse, com convicção.

Kessler suspirou, a relutância evidente em cada palavra:

— Então vá... Mas prometa que vai voltar.

— Prometo — respondeu Elias, com um sorriso triste, sabendo que ela tentava esconder a
preocupação que não podia demonstrar.

Por um momento, ficaram ali, no corredor silencioso, sabendo que aquele passo poderia
mudar tudo.

— Ele vai descer sozinho.

O silêncio que se seguiu à frase de Kessler foi quase sufocante.

Rafe a encarou como se não tivesse entendido. Amara, pálida, se levantou devagar. Noah
apertou os punhos.

— Elias vai entrar no esgoto? Sem apoio? — questionou Rafe, a voz tomada por
incredulidade.

— Eu tentei impedir — disse Kessler, o olhar pesado. — Mas ele já decidiu. Vocês sabem
como ele é.

— Isso é suicídio — murmurou Amara.

Noah nem respondeu. Apenas saiu da sala.

Os outros seguiram sem hesitar.

Subiram os corredores estreitos e longos do setor norte, onde quase ninguém ia mais. As
luzes ali piscavam mais devagar, como se o tempo tivesse desacelerado.

Quando chegaram à porta do quarto de Elias, ela estava entreaberta.

O ambiente ali dentro era surpreendentemente simples, mas carregado de simbolismo.

A parede à esquerda estava coberta de recortes de jornais antigos, alguns sobre os


primeiros surtos do vírus, outros com fotos de cientistas desaparecidos.

No lado oposto, uma bancada repleta de cadernos de anotações, seringas antigas,


pequenos frascos com líquidos coloridos — todos etiquetados com códigos quase
indecifráveis.
No centro, Elias terminava de prender uma fivela em seu colete de proteção. Uma pequena
lanterna já estava acoplada ao ombro. Ele nem se virou.

— Sabia que vocês viriam.

— E sabia que eu ia com você — completou Noah, se adiantando.

Elias o olhou pela primeira vez.

— Não. Eu vou sozinho.

— E eu não vou te deixar. Você acha mesmo que vai conseguir carregar todo esse peso
nas costas?

Kessler entrou, cruzando os braços.

— Você pode ser teimoso, Elias, mas não é imortal.

Elias fechou o zíper do uniforme.

— Então vamos fazer isso direito.

Noah abriu o armário metálico encostado à parede do quarto. O rangido seco da porta
parecia um aviso. Lá dentro, cuidadosamente pendurado, repousava um traje semelhante
ao de Elias — mas com pequenas modificações feitas por ele mesmo.

Era um uniforme escuro de polímero resistente, com placas metálicas leves costuradas
na altura do peito e das coxas. No braço esquerdo, um painel de pulso piscava com
informações vitais: batimentos, temperatura, radiação. O capacete, de visor opaco, possuía
uma viseira que exibia dados em tempo real quando ativada.

Ao vestir o traje, Noah parecia menos um cientista e mais um soldado de um mundo que
nunca se curou.

— Você vai mesmo fazer isso? — perguntou Amara, cruzando os braços enquanto
observava a cena.

— Vocês não conseguem ver? — respondeu Noah, prendendo a fivela do tórax. — Estamos
encurralados aqui, brincando de controle de danos enquanto debaixo de nós há algo
crescendo. Pensar que Elias ia descer sozinho? Eu não conseguiria viver comigo mesmo.

Rafe bufou.

— Só quero deixar claro que acho isso uma loucura. Mas... — ele hesitou — alguém tem
que cobrir vocês daqui.

Elias já estava pronto. Bateu no ombro de Noah e disse:

— Você está fazendo uma escolha. Isso pode não ter volta.

— Já fiz escolhas piores — respondeu ele, com um meio sorriso.


O grupo seguiu por um corredor lateral que poucos usavam. Havia um código de segurança
que só Elias e os diretores conheciam. Ele digitou a sequência em um teclado empoeirado,
ao lado de uma velha porta de aço enferrujado. Um baque mecânico pesado anunciou a
abertura.

O ar do outro lado era mais denso, mais úmido. A iluminação era vermelha e intermitente.

Desceram por uma escada de emergência, até chegar ao que chamavam de A Boca.

Era um salão circular, com piso metálico, totalmente desativado, paredes repletas de
marcas de ferrugem e placas de sinalização antiga — como se aquele lugar tivesse sido
esquecido por décadas.

No centro do salão, havia um túnel inclinado de aço escuro, largo o suficiente para dois
homens deslizarem lado a lado.

A superfície era revestida de um tipo de resina escorregadia e reluzente, coberta por uma
fina camada de óleo automatizado, que antes era usado para transporte de resíduos
orgânicos.

O escorregador descia em espiral, como uma serpente metálica que conduzia direto às
entranhas do laboratório — ao sistema de drenagem subterrâneo, ou, como Elias dizia, "a
fronteira entre o homem e o erro."

— Ainda dá tempo de voltar — disse Amara, com os olhos fixos em Noah.

— Não dá mais tempo pra fingir que nada está acontecendo — respondeu ele, se
posicionando ao lado de Elias.

— Prontos? — perguntou Elias.

Noah assentiu.

Elias ativou um pequeno botão no console da parede. Um zumbido começou e o


escorregador foi lentamente iluminado por dentro, revelando sua curvatura sombria até
perder-se no abismo.

Os dois se olharam uma última vez.

— Até logo — disse Elias.

E se jogaram.

Kesler ficou parada à beira do escorregador, os braços cruzados sobre o peito, tentando
parecer firme. Mas seus olhos seguiam a curva descendente do túnel, como se pudessem
enxergar Elias ainda caindo.

O som metálico da tampa selando a entrada reverberou pelo salão, abafando o mundo.

Silêncio.

E então, o vazio.
Ela respirou fundo, mas o ar ali era pesado, e parecia cortar a garganta.

“Teimoso idiota…”, pensou, com um amargor contido.

Seus olhos arderam, mas ela os manteve abertos, fixos, como fazia quando era criança.

— “Você lembra, Elias?” — murmurou para si mesma.

A imagem veio viva à sua mente:

Dois garotos correndo entre os galpões abandonados da zona leste, com tubos de ensaio
roubados do colégio técnico, fingindo que salvavam o mundo. Elias sempre inventando
alguma mutação impossível; ela, tentando corrigir suas fórmulas.

Foram anos dividindo cadernos rabiscados, pipetas tortas, e tardes discutindo sobre
genética, como se fossem cientistas de verdade. E depois… eles se tornaram.

Juntos.

Sempre juntos.

Até que o mundo parou.

— “Você sempre quis salvar tudo, Elias. Sempre carregando o peso sozinho. Sempre
acreditando que podia suportar.”

Ela apertou os punhos.

— “Mas eu te conheço melhor do que qualquer um. Você está com medo. Só não deixa que
ninguém veja.”

Sentiu os olhos de Amara sobre ela, mas não retribuiu o olhar.

Apenas virou-se lentamente, a passos firmes, como se manter em movimento fosse a única
forma de não desmoronar.

“Volta pra mim, Elias.”

Amara encostou-se à parede fria do corredor enquanto Kesler se afastava.

Sentia as pernas bambas, como se tudo aquilo estivesse acontecendo rápido demais. Elias
tinha partido. Sozinho — ou quase. E a sensação de perda era insuportável.

Ele não era apenas o diretor. Era o homem que salvou sua vida.

Lembrava-se com clareza da primeira vez que viu Elias: ela era só uma adolescente
faminta, suja, resgatada de uma zona de exclusão do Setor 3.

Todos tinham medo dela.

Menos ele.

— “Seu olhar é afiado. Você pensa antes de reagir. Isso é ciência.”


Aquela frase ainda vibrava dentro dela. Elias não só lhe deu abrigo — ele viu nela o que
ninguém via.

Conduziu seus primeiros passos no laboratório. Explicou equações. Mostrou os


microscópios. Chamou-a de "pequena fractal".

— “Você não é um erro do sistema, Amara. Você é o glitch que pode salvar o código.”

Desde aquele dia, ela o seguiu com a lealdade de uma filha.

E agora, tudo nela gritava para impedi-lo.

Mas ele já tinha ido.

afe permaneceu em silêncio, sentado num canto da sala de controle.

Os outros murmuravam, falavam em protocolos, sensores, rota de emergência. Mas ele mal
ouvia.

Seus pensamentos estavam longe. Muito antes de tudo isso.

Ele era só mais um — um homem destruído pela queda da civilização, pela morte da
esposa, pelo silêncio que invadia a mente quando a dor era grande demais.

Quase desistiu.

E teria desistido, não fosse Elias.

A lembrança era viva: um dia chuvoso, nas ruínas de uma estação de metrô. Rafe tremia,
com uma seringa na mão. Elias apareceu como um fantasma — molhado, sujo, mas com os
olhos acesos como fogo.

— “Se você vai morrer, pelo menos entenda por quê o mundo precisa de você.”

Ele não entendeu na hora. Mas Elias o levou com ele.

Deu-lhe um laboratório. Um propósito.

Mostrou que a ciência era mais que fórmulas — era redenção. Era grito. Era resistência.

— “Você é meu último argumento, Rafe. Não me faça perder essa discussão.”

Desde então, seguiu-o como quem busca sentido em cada passo.

E agora, Elias se lançava em um inferno.

E ele só conseguia segurar a borda da mesa, com os nós dos dedos brancos, sem saber se
rezava ou amaldiçoava.

A sala de reuniões parecia maior sem Elias.


Não porque era fisicamente diferente, mas porque seu silêncio era mais alto que
qualquer palavra dita ali dentro.

O espaço era oval, com paredes de vidro blindado e cortinas translúcidas semicerradas. No
centro, uma mesa escura de nanoferro, com cadeiras estofadas que rangiam discretamente
a cada movimento. As luzes no teto oscilavam, algumas piscavam como se o próprio
sistema elétrico hesitasse.

Elias costumava sentar na cabeceira. A poltrona ainda estava lá, empurrada para trás,
levemente girada para o lado — como se ele fosse voltar a qualquer momento.

Mas não voltava.

Amara mantinha os olhos fixos em um dos monitores da parede, onde pulsava um mapa
térmico dos túneis inferiores. Rafe, com as mãos entrelaçadas na nuca, encarava o teto,
como se esperando alguma resposta vinda do concreto. Kesler mantinha-se de pé, braços
cruzados, expressão distante.

Noah e Elias estavam lá embaixo. E eles aqui, presos na superfície, com quinze bebês
monitorados em incubadoras especiais.

O Projeto Gênesis estava em seu ponto mais crítico. E ninguém sabia o que fazer.

— Precisamos decidir — murmurou Rafe, quebrando o silêncio.

— Decidir o quê? — respondeu Amara, virando-se devagar. — Se vamos continuar os


experimentos sem ele?

— Se vamos esperar. Ou seguir com o protocolo Zeta.

Kesler se aproximou da mesa.

— O Zeta nunca foi testado. Nem em roedores.

— Mas pode acelerar o processo. As mutações... — começou Rafe.

— São irreversíveis. — cortou Kesler, fria. — E se o bebê 01 estiver vivo, como disseram...
como ele disse... então talvez estejamos forçando algo que já está acontecendo
naturalmente.

Amara fechou os olhos por um segundo.

— E se for verdade? E se eles estiverem… evoluindo por conta própria?

Um silêncio denso caiu sobre a sala.

— Isso nos tornaria os vilões da história. — disse Kesler.

— Nós já somos. — murmurou Rafe. — Só ainda não aceitamos.

As luzes piscaram novamente.

Um leve tremor sacudiu o chão, como se algo se movesse nos túneis abaixo.

E então, o monitor principal mudou. Um novo ponto de calor apareceu, forte, pulsante…
— Câmera do setor C-07… está se ativando. — sussurrou Amara.

Algo, ou alguém, acabava de despertar.

O escorregador parecia não ter fim.

Elias e Noah deslizaram em alta velocidade, as paredes do túnel curvando-se em espirais


claustrofóbicas, iluminadas apenas por flashes intermitentes de luz vermelha — as luzes de
emergência que nunca haviam sido trocadas desde o lockdown inicial.

A fricção do metal contra o tecido dos uniformes gerava faíscas ocasionais. O ar tornava-se
mais denso à medida que desciam.

E então, de súbito — gravidade zero.

Uma queda brusca.

Noah gritou. Elias apenas cerrou os dentes.

Impacto.

Os dois caíram sobre uma superfície macia e irregular, que parecia feita de um tipo de lodo
orgânico. O chão pulsava sob suas botas.

Elias levantou-se primeiro, acendendo a lanterna acoplada no ombro da armadura.

— Chegamos.

Noah tossiu, afastando uma camada gelatinosa do rosto.

— Mas… que lugar é esse?

A resposta estava diante deles:

Um salão subterrâneo, coberto por raízes longas que desciam pelas paredes, se
entrelaçando com tubulações antigas e estruturas corroídas. O teto era tão alto que as
lanternas mal alcançavam o fim. Havia espelhos quebrados nos cantos, vestígios de
câmeras antigas, e tubos de contenção estilhaçados.

O mais perturbador, porém, era o silêncio absoluto.

Nem máquinas. Nem sons biológicos. Nem água.

Apenas o som dos próprios passos e das respirações abafadas pelos capacetes.

— Isso não está nos mapas do complexo — murmurou Elias, passando a mão por uma das
paredes, onde símbolos circulares estavam gravados, quase infantis, mas cheios de
simetria e padrões matemáticos.

— Parecem… desenhados com os dedos.

— Dedo de bebê. — completou Noah, engolindo seco.

O chão em si era um misto de concreto e carne orgânica. Em alguns pontos, brotavam


pequenos espinhos transparentes, como dentes ou garras em formação.
— Alguma coisa viveu aqui embaixo.

Elias se aproximou de uma abertura adiante, que levava a um corredor escuro.

Lá dentro, havia pequenas marcas de pegadas.

Mas não eram humanas.

Eram pequenas. De quatro apoios. Mas espaçadas como se a criatura caminhasse


lentamente… observando.

Noah apontou.

— Elias… aquilo é uma câmera?

No alto da parede, uma câmera antiga se movia lentamente, seguindo-os.

— Está funcionando.

— Mas ninguém deveria conseguir acessar isso…

Elias olhou para o visor no pulso.

Sinal detectado. Transmissão ativa.

Alguém, ou alguma coisa, os estava vendo.

O vidro escuro se fechou com um chiado mecânico, ocultando a visão dos bebês. Ainda
assim, nenhum dos cientistas se moveu por alguns segundos.

Silêncio.

A sala de reuniões era fria, angular, feita de aço reciclado e concreto. O teto abobadado
sustentava tubos de ventilação onde o vapor escapava de tempos em tempos, como se o
laboratório também respirasse.​
Pelas paredes, painéis antigos mostravam dados em tempo real dos batimentos cardíacos,
variações hormonais, e — o mais recente — atividade neural anormal.

Kesler, pálida, ainda fitava o vidro fechado, como se os olhares dos bebês tivessem
atravessado sua pele.

— Eles sabem. — sussurrou.​


— Sabem o quê? — retrucou Amara, com os braços cruzados. — São recém-nascidos.
Talvez... alguma mutação comportamental... mas não consciência. Isso é impossível.

— Impossível? — Rafe virou-se para ela. — Estamos lidando com estruturas cerebrais que
dobram a densidade da nossa em menos de uma semana de vida. Se isso não for
consciência, o que é?

Kesler se sentou, finalmente.​


— Eles estavam de pé… olhando. Não era instinto. Era... uma acusação.
Amara desviou o olhar.

— Isso pode ser efeito colateral do último soro — insistiu Noah, pela tela holográfica. Sua
voz, transmitida da descida, estava distorcida pelo sinal fraco, mas firme. — Talvez os
compostos estejam ativando sinapses mais cedo. Ainda é ciência.

— Ainda é risco. — retrucou Rafe.

E então Elias não estava ali.​


E a ausência dele era como um buraco aberto no meio da mesa.

Foi Amara quem quebrou o silêncio seguinte.

— O que vamos fazer?​


— A Fase II começa em três dias. Temos quinze espécimes. Se perdermos essa janela…
— começou um dos assistentes.

Kesler ergueu a mão.

— E se esperarmos?

— Esperar? — outro cientista bufou. — Para quê? Para que cresçam mais? Para que
dominem a linguagem em uma semana e descubram que nós somos os carniceiros?

Um calafrio percorreu a sala.

— Elias ia querer que mantivéssemos o plano — disse Rafe, com a voz baixa.​
— Elias não está aqui. — respondeu Kesler, firme. — E ele não viu o que nós vimos.

Todos se entreolharam.

Aquela era a primeira vez que alguém questionava abertamente a liderança de Elias.​
E o peso disso fez a sala se calar de novo.

Do alto-falante no canto da parede, o alarme interno emitiu um breve estalo.​


Depois, um som de interferência.​
E então…​
uma voz infantil.

— “O esgoto... é perigoso.”​
— “Em alguns meses… tudo se revela.”

O som se repetiu. Gravado. Ou… não?

Kesler empalideceu.

— Isso… não estava no sistema.

Amara levou a mão à boca.

— Foi... um deles.
O som metálico do escorregador havia cessado.​
Por alguns segundos, só havia a respiração ofegante dos dois homens, abafada pelas
máscaras do traje de contenção.

Elias acendeu a lanterna.

O facho de luz atravessou o ar denso e revelou o ambiente — e ele era tudo o que
esperavam… e pior.

O esgoto subterrâneo não era só um lugar úmido.​


Era um cemitério de tentativas.

Tubulações quebradas. Cabos pendurados como veias expostas. Grades enferrujadas


selando corredores que pareciam nunca acabar.​
O chão, coberto por uma camada fina de líquido escuro, fedia a decomposição — mas com
um toque metálico, como sangue misturado a ozônio.

— Por aqui — murmurou Elias, apontando para a direita.

Noah não respondeu de imediato. Seu olhar estava preso a uma parede próxima, coberta
por marcas.​
Marcas feitas por mãos pequenas.

— Elias... isso aqui... parece... escrito. — ele sussurrou.

Elias se aproximou.​
Sim. Era linguagem. Primária, rudimentar… mas reconhecível.​
Símbolos infantis, rabiscos que se organizavam em repetições. Como se alguém — ou
algo — estivesse tentando comunicar.

Elias tocou as marcas com a ponta dos dedos.

— Estão tentando... lembrar.

Noah engoliu em seco.​


— Você acha que algum... sobreviveu?

Elias não respondeu.

Continuaram andando. O corredor se estendia, cada vez mais escuro. As luzes dos
capacetes piscavam esporadicamente, como se a presença deles interferisse no campo
magnético local.

Noah parou.​
— Tem algo aqui. À frente.

Ambos se posicionaram. Elias ajustou a lanterna, e o foco iluminou o que parecia uma
estrutura circular — uma antiga câmara de descarte biológico, segundo os mapas internos.
Mas estava aberta. E tinha marcas.

No centro, havia um berço enferrujado. Vazio.

E atrás dele…

Movimento.
Rápido. Pequeno. Escondido.​
Mas real.

E então, uma voz — não pelos alto-falantes, não gravada. Uma voz ali, presente, viva.

— Vocês voltaram.

Ambos se viraram, apressadamente.​


A luz captou um vulto entre as sombras — pequeno, de corpo esguio e pele pálida, com
olhos tão grandes quanto silenciosos.

Não era mais um bebê.​


Não era mais um humano.​
Era algo entre os dois.

E observava.

O silêncio era tão espesso que parecia ter forma.​


Elias e Noah avançavam com passos lentos, iluminando a frente com as lanternas presas
ao uniforme. O som da água escorrendo era o único companheiro, além do tilintar de suas
botas contra o piso metálico molhado.

O esgoto não era só um encanamento gigante. Era uma cidade morta debaixo do mundo.

— Não lembrava disso ser tão… vasto — murmurou Noah, a voz abafada pelo capacete.

Elias respondeu com um aceno curto. Seus olhos estavam fixos em uma parede
parcialmente corroída, onde símbolos infantis estavam gravados com o que parecia ser…
sangue seco.

— Essa parte foi construída antes do colapso — disse ele, finalmente. — Era uma seção de
descarte genético. Depois que os recursos acabaram… virou cemitério de tentativa.

Noah engoliu em seco, sentindo a garganta secar mesmo no ar úmido.

— E é aqui que você acha que… ele pode estar?

Elias parou. Olhou para trás, para Noah.​


— Eu não acho. Eu sei.

Silêncio.​
Os dois seguiram. A luz revelava tubos retorcidos, paredes com manchas escurecidas e
antigas mensagens de alerta: "Nível 4 de contenção – acesso proibido".​
Mas o que chamava a atenção eram os objetos pessoais esquecidos: um urso de
pelúcia, uma chupeta derretida, pedaços de cobertores costurados com símbolos em
formas geométricas repetitivas.

Noah parou diante de um deles.

— Isso foi deixado por eles? Pelos…?

— Pelos primeiros descartados, sim — completou Elias. — E eles sobreviveram.

Noah encarou o cientista mais velho, com os olhos semicerrados.

— Você sabe que isso tudo parece loucura, certo?


Elias respondeu sem humor:

— É tudo loucura, Noah. A humanidade viveu loucamente por décadas. Gastamos bilhões
criando corpos perfeitos, programando genomas, forçando a evolução. Mas quando os
bebês começaram a nascer diferentes… a gente os jogou aqui.

— Como lixo.

Eles pararam diante de uma bifurcação. O túnel da esquerda parecia mais escuro, mas
menos sujo. O da direita… tinha pegadas. Pequenas, múltiplas, indo e vindo.

Elias apontou para o da direita.

— Eles andam. Em grupos. Talvez formem núcleos.

Noah hesitou.

— E se não quiserem conversar? E se eles forem mesmo… monstros?

Elias o encarou. O brilho da lanterna tremulou levemente no visor de seu capacete.

— Eles foram feitos por nós.​


E tudo o que o ser humano cria… ele merece encarar.

O corredor seguinte era mais baixo, obrigando-os a se curvarem. As paredes estavam mais
úmidas, cobertas por uma gosma acinzentada que pulsava sutilmente ao toque da luz.

De repente, um som.

Baixo. Rítmico.

Como se alguém — ou algo — estivesse batendo com os dedos no metal.

Toque. Toque. Toque.​


Três vezes. Pausa.​
Toque. Toque. Toque.

Noah congelou.​
— Ouviu isso?

Elias já estava agachado, analisando o chão.​


— Batidas com padrão. Repetição. É código.

— Eles se comunicam?

— Estão tentando há tempos. Nós que não ouvimos.

De repente, no escuro, uma sombra cruzou o fundo do túnel.

Rápida.​
Pequena.​
Mas observadora.

Noah apontou a luz.​


— Ei! Quem tá aí?!
Nenhuma resposta. Mas então… um som mais nítido.

Risos. Risinhos infantis.​


Vindo de todos os lados.

A sala de reuniões nunca estivera tão silenciosa.​


As luzes tremeluziam, lançando sombras nervosas nas paredes frias de metal. O zumbido
constante do sistema de energia secundário era o único som a preencher o vazio — um
som que, em meio àquela tensão, parecia carregar uma respiração contida.

Kesler olhava fixamente para o monitor. Dois pontos vermelhos se moviam silenciosos no
subterrâneo — Elias e Noah.

— Eles já estão além da Zona 4 — sua voz soou abafada, quase um sussurro. —
Depois disso, não há sensores.

Amara remexeu-se na cadeira, os dedos tamborilando freneticamente sobre a prancheta de


vidro.

— Eu disse que ele não devia ter ido. Sozinho.

Rafe, afastado, analisava uma sequência de gravações antigas, as imagens tremendo


na tela.

— Alguém pode me explicar isso?

A câmera mostrava o que parecia impossível: um bebê, imóvel, olhando fixamente para a
lente por quatro minutos.

Kesler franziu a testa.

— Isso é recente?

— Doze dias atrás. E o estranho: a câmera só voltou a funcionar depois que o


Experimento 01 foi descartado.

Amara levantou-se, a voz carregada de medo e certeza.

— Eles estão vivos lá embaixo. Não é coincidência. Eles estão... organizados.

— Ou nos observando — murmurou Rafe, a pele ficando pálida.

Então, o alarme soou baixo, quase imperceptível. Linhas de código começaram a surgir na
tela.

Desconhecido_Origem: //ZONA-06​
Mensagem: “VCS ACHAM Q SOMOS SÓ CARNE?”

Todos congelaram.

— “Vocês acham que somos só carne?” — Kesler leu, incrédula. — Meu Deus...

Rafe correu para o painel.

— Isso não é nosso sistema. Alguém está usando a rede antiga, desativada há anos.
— Isso é uma comunicação, certo? — perguntou Amara, sentando-se devagar.

— Não — Kesler respondeu, com a voz tensa. — Isso é um aviso.

O sistema piscou de novo. Uma nova linha apareceu:

Mensagem: “DEVERIAM TER ESCUTADO O Q ELE CHOROU ANTES DE CAIR.”

A luz da sala oscilava entre branco e âmbar, enquanto as telas continuavam a mostrar
mensagens do que deveria estar morto.

Mensagem: “ELES AINDA ESCUTAM, MAS AGORA TAMBÉM RESPONDEM.”

Rafe virou-se para Kesler, olhos arregalados.

— Isso é impossível. Nenhum bebê possui cognição assim, mesmo mutado.

Amara cruzou os braços, a voz firme:

— Não é cognição infantil. É estrutura de linguagem. Sintaxe. Raciocínio abstrato.

Kesler lutava para manter a sanidade.

— Elias sempre disse que o 01 era diferente. Ele falava em ‘respostas nos olhos’...

Rafe explodiu.

— Isso é ridículo! São fetos mutantes, não profetas! Achar que um bebê descartado
nos manda mensagens?

Amara deu um passo à frente, olhos ardendo entre dor e convicção.

— Rafe, você viu o 47B. Aquela criança sabia que estávamos observando. Sabia onde
olhar.

Ela pausou, a voz diminuindo:

— Elias estava certo.

Rafe bateu a mão na mesa, o monitor vibrando.

— Elias está obcecado! Quer ver consciência onde só há falha genética! E agora foi
se enfiar num túmulo, levando Noah junto!

Kesler falou, firme:

— Eles estão vivos lá embaixo. E não só vivos. Estão organizados. Comunicativos.

Ela respirou fundo.

— E, mais importante: estão nos julgando.

O silêncio caiu novamente. O sistema piscou mais uma vez.

Mensagem: “HÁ MAIS DE NÓS DO QUE VOCÊS IMAGINAM.”


Rafe levantou-se lentamente, pálido.

— Isso não é só um problema biológico. É o colapso da civilização. Se isso se


espalhar...

— ...a espécie dominante muda — completou Amara, sombria.

Kesler digitou uma sequência de comandos, e a planta holográfica do laboratório apareceu,


mostrando o setor subterrâneo.

— Temos que decidir: Isolamos a zona subterrânea? Cortamos energia, dados e


comunicação? Ou...

Mantemos o contato e nos preparamos para enfrentar o que surgir?

Rafe apertou os olhos.

— E se o que surgir... não quiser conversar?

Kesler olhou para ele, calma como uma tempestade contida:

— A questão é: e se ele já estiver ouvindo tudo que dizemos?

FLASHBACK – SEMANA 16 – Útero Artificial 01 – Registro Privado:


Elias]
As luzes internas da cápsula oscilavam em tons azulados. Naquele estágio, a maioria dos
embriões mal reagia à luz, mas o 01... ele virava o rosto, acompanhava os focos com os
olhos, mesmo sem plena formação da retina.

Elias observava em silêncio, os dedos pairando sobre a tela do console. Era a décima sexta
semana. Tempo demais para respostas motoras, tempo de menos para qualquer tipo de
cognição

Registro ativado: 02:14 AM. Terminal Offline. Câmera local. Áudio criptografado.

O Dr. Elias falava com o gravador como se fosse um confessionário. Estava sozinho no
Setor Neonatal, sob a luz fraca das lâmpadas de manutenção, enquanto gotas de
condensação escorriam pelas paredes do tubo que abrigava o Experimento 01.

— Semana 16.​
— Desenvolvimento neurológico adiantado em mais de 60%. Nenhum erro estrutural
aparente. Crescimento ósseo simétrico. Formação da íris concluída.​
(Pausa)​
— …Mas é o comportamento que me assusta.

Ele se levantou lentamente, aproximando-se do vidro do útero artificial. Do outro lado, o feto
parecia mais imóvel do que o normal. Quase em transe.

— Ele para de se mover quando estou aqui.​


— Não responde a estímulos auditivos tradicionais. Mas responde à minha voz. Só à
minha.​
(Voz mais baixa)​
— E ontem… piscou. Em resposta a uma pergunta. Três vezes.

Elias digitou algo em seu painel: uma pergunta simples, usada em testes de cognição
básica:

“Você está me ouvindo?”

O embrião não se moveu. Mas seu batimento cardíaco, visível no monitor, se ajustou ao
padrão da pergunta falada.

Três pulsações longas. Uma pausa. Três rápidas.

— Isso não é coincidência…​


(Ele murmurou para si mesmo)​
— Isso é padrão. Isso é… linguagem. Mas como?

O feto girou lentamente dentro do líquido. Seus olhos — vermelhos desde a formação
do cristalino — ainda não deviam reagir à luz. Mas eles se voltaram para Elias.

Focados. Lúcidos.

E, por um segundo, Elias quase recuou.​


Quase desligou tudo.​
Mas não o fez.

— Eu devia informar isso.​


(Pausa longa)​
— Mas se eu fizer, eles vão interromper. E eu…​
(Suspiro)​
— Eu preciso ver onde isso vai dar. Nem que seja só mais um pouco.

Ele salvou o registro em sua chave pessoal.​


Criptografou. Nomeou como “Ruído” — um código pessoal usado para arquivos que
o sistema não identificava como experimentais.

Depois desligou as luzes.​


E ficou ali. Sentado no chão. Apenas observando.

Enquanto o feto dormia. Ou fingia dormir.

[FLASHBACK – Semana 36 – 3 dias antes do nascimento – Registro


oculto (não oficial)]
A gravação era manual.​
Sem passar pelo sistema principal.​
Elias havia trazido um terminal analógico do Setor G — um modelo que não estava mais na
rede desde o desligamento dos arquivos de protocolo humano. Antigo, mas eficaz.

A cápsula 01 pulsava suavemente no escuro. As luzes de manutenção haviam sido


desligadas. O único brilho vinha do visor da tela portátil, refletido na superfície úmida da
cápsula.

Elias estava sentado diante dela. Silencioso. Observando.


— Eu sei que você me entende, não sei? — disse, quase num sussurro.

Nenhuma resposta. Nenhum movimento brusco. Apenas os olhos. Sempre os olhos.​


Vermelhos. Fixos. Vivos.​
Como se escutassem mais do que os ouvidos podiam captar.

Elias posicionou o microfone portátil. Falava devagar, quase com reverência.

— Você reage a estímulos que nem deveriam ativar seu cérebro.​


— Você sincroniza seus batimentos com o ritmo da minha fala.​
— Você sorri quando ouve vozes, mas não sons aleatórios.​
(Pausa)​
— E você... finge dormir quando os outros estão aqui.

O feto mantinha os olhos semiabertos. Elias sabia reconhecer — ele estava acordado.
Sempre estava.

Ele digitou algo em sua interface local:​


ARQUIVO DESVIADO: Logs semanais do 01A – Criptografia pessoal.​
Status oficial: ATIVIDADE NEURAL INSTÁVEL. Risco de aborto. Recomendada a
interrupção.

Mas Elias não seguiu o protocolo.

Em vez disso, ele passou a usar códigos internos. Mensagens curtas. Repetitivas. Como
um alfabeto primitivo, testando padrões de piscadas, movimentos dos dedos, reações da
íris.

E então, algo aconteceu.

Naquela noite, ao repetir a sequência “3-1-4” — a combinação que usava para acionar
protocolos básicos — o 01 bateu com o pé no vidro. Três vezes.

Depois uma vez.

Depois quatro.

Elias se congelou.

— Meu Deus… — sussurrou.​


— Você está me respondendo?

Mais silêncio. O feto sorriu de novo. Não era um espasmo muscular. Era cálculo. Era
intenção.

Na tela, uma mensagem de aviso piscou por erro de rede:

SISTEMA NÃO RECONHECE SINAL DE INTERAÇÃO. NENHUM


PROTOCOLO ATIVO.

Mas Elias sabia o que tinha acontecido.

— Você entendeu.​
(Voz baixa, abalada)​
— Você está... aprendendo com a gente. Nos estudando.
Ele encostou a mão na cápsula. E do outro lado, a mão minúscula do 01 se ergueu.
Encostou na dele. Pela primeira vez.

O gesto era simples. Humano.

Mas o olhar…​
O olhar era velho.​
Antigo.​
Como se carregasse uma memória que Elias não compreendia.

O doutor se afastou lentamente, as mãos tremendo. Gravou o vídeo, criptografou e


nunca o mostrou a ninguém.

Foi nessa noite que ele começou a preparar a fuga silenciosa.​


Foi nessa noite que ele parou de vê-lo como uma aberração.​
E começou a vê-lo como… algo que precisava ser protegido.

[PRESENTE — SALA DE REUNIÃO — LABORATÓRIO PRINCIPAL]


A sala estava mais fria do que antes. Não pelo ar-condicionado, mas pelo peso da
consciência coletiva. Nenhum deles queria ser o primeiro a falar.

Kesler fitava o mapa holográfico da Zona Subterrânea. O trajeto de Elias e Noah


desaparecia ali — como uma artéria cortada.

— Nada desde a Zona 6. Nenhum ping de retorno. Nem áudio. Nem vídeo. Nem
batimentos.

Rafe se recostou na parede, com as mãos nos bolsos do jaleco, olhos fundos.

— Já deviam estar de volta. Ou pelo menos ter enviado sinal.

— Talvez não consigam — disse Amara, com a voz baixa, mas firme. — Ou talvez... não
queiram.

Rafe a encarou.

— Você está dizendo que o Elias… se aliou a eles?

— Estou dizendo que ele entende algo que a gente se recusa a enxergar — respondeu
Amara. — E se eles... não forem nossos inimigos?

Kesler se adiantou.

— Eles mataram uma equipe inteira da segurança em fevereiro. Você chama isso de
comunicação?

Amara rebateu.

— A gente invadiu o território deles. Entramos armados. Colocamos câmeras nas


incubadoras. Coletamos amostras de tecido enquanto eles dormiam.​
(Pausa tensa)​
— Se fôssemos nós, já teríamos declarado guerra.
Silêncio.

Rafe se aproximou do console principal e abriu os últimos arquivos de Elias —


descobertos há apenas algumas horas por um sistema de varredura residual.

— Ele deixou registros ocultos. Cifrados com o protocolo "Ruído". O mesmo que ele usou
quando o 01 ainda era só um feto.

A tela projetou um dos vídeos.

[ARQUIVO: SEMANA 27 – INTERAÇÃO PRIVADA – 01 / ELIAS]

O som de uma voz masculina — calma, quase paterna.

“Você entende o que é a morte?”

(silêncio)

“Ela não é como o sono. É… uma despedida que não pode ser desfeita.”

(ruído de fundo – leve batimento)

“Se eu não voltar... não os machuque. Eles só estão com medo.”

O vídeo parou. A sala ficou muda.

Kesler cruzou os braços, olhando para baixo.

— Ele sabia. Sabia que ia descer e talvez nunca mais voltar.

Rafe balançou a cabeça.

— Ele não devia ter levado o Noah.

— O Noah foi por vontade própria — disse Amara. — Ele sempre acreditou no 01.

Kesler ampliou o mapa holográfico. Indicou três pontos em vermelho — os setores onde as
mensagens foram interceptadas.

— Temos uma escolha.

1.​ Iniciamos um lockdown total e selamos a Zona 6 permanentemente.​

2.​ Enviámos uma nova equipe de sondagem — autônoma. Sem humanos.​

3.​ Ou... mantemos o canal aberto. E tentamos responder.​

Rafe bufou, cético.

— Responder? Com o quê? “Desculpa por ter tentado eutanasiar vocês por cinco anos”?

Amara respondeu antes que Kesler pudesse:

— Com uma pergunta.


Rafe a encarou.

— Que tipo de pergunta?

Ela olhou para a tela, que agora exibia a frase estática:

“VOCÊS ACHAM QUE SOMOS SÓ CARNE?”

— A única pergunta que importa agora — disse Amara.​


— “O que vocês são, então?”

[PRESENTE — SALA DE REUNIÃO — APÓS A ÚLTIMA MENSAGEM]


A tela principal apagou-se por um segundo. Em seguida, voltou com um som metálico,
como se algo tivesse sido digitado com força demais.

Mensagem: “NÓS SOMOS O ESPELHO. VOCÊS É QUE NÃO SABEM O QUE SÃO.”

O silêncio foi brutal.​


Kesler levou a mão à boca.​
Amara empalideceu.

Rafe, ao fundo, explodiu.

— CHEGA! Chega dessa palhaçada filosófica! Isso não é poesia! São MONSTROS!​
— A gente alimentou essas coisas, incubou, monitorou — e agora eles estão brincando
com a nossa culpa?!

Ele chutou a base de um dos projetores, que piscou e quase tombou. O zumbido das luzes
acentua cada palavra dele como um eco do desespero.

— A gente precisa cortar isso agora! Trancar tudo, selar as Zonas 5 e 6, cortar a maldita
energia residual! E, se possível, explodir o corredor de acesso!

Kesler se virou com calma contida.

— Elias ainda está lá embaixo. E Noah também.

— E que fiquem! — gritou Rafe, os olhos arregalados, o suor escorrendo pelo pescoço. —
Se você ainda acha que dá pra dialogar com uma espécie que manda enigma por terminal
morto... então você merece ser a próxima a ser estudada!

Amara murmurou, quase num sussurro:

— Eles estão tentando nos entender... não nos matar.

— Tentando?! — Rafe deu uma risada histérica. — Eles nos invadiram psicologicamente,
sabotaram nossos sistemas, manipularam nossa rede inativa...​
(Olha para ambas com os olhos arregalados)​
— Isso é domínio tecnológico. Isso é premeditação. Isso é GUERRA!

Ele deu as costas, pegando o tablet pessoal e saindo da sala com passos duros.
— Me avisem quando decidirem que a sanidade ainda importa.

A porta se fechou com um estalo metálico.

Silêncio.

Kesler finalmente sentou, os ombros relaxando como se carregassem toneladas.

— Ele está errado — disse ela. — Mas está com medo. Como todos nós.

Amara cruzou os braços, olhando para o mapa ainda projetado no centro da mesa.

— A gente precisa de Elias. E não é só porque ele conhece o 01.​


(Pausa)​
— É porque o 01 confiava nele. E, até onde sabemos, isso é o único fio que ainda liga a
gente à sobrevivência.

Kesler fechou os olhos. Sussurrou:

— Só espero que ainda haja algo de humano em ambos os lados.

um tipo de musgo pálido — como se o próprio subsolo tivesse começado a respirar.

Noah caminhava à frente, com a lanterna presa ao ombro e uma mão no coldre da arma de
pulso.

— Estamos entrando na Zona que deveria estar... selada — disse ele, observando as
paredes.​
— Nenhum dos mapas mostra essa parte.

Elias vinha logo atrás, o tablet iluminando um código binário que se repetia em um padrão
estranho nas paredes.

— Isso aqui não é formação natural — murmurou. — Isso é... linguagem.

Noah parou. Virou-se.

— Você está dizendo que eles construíram isso?

— Estou dizendo que talvez tenham reescrito o próprio ambiente.

Mais à frente, uma luz fraca tremeu como uma vela.

Noah ergueu a mão, sinalizando silêncio. Ambos se aproximaram com cautela.

Era uma sala circular, escavada no próprio solo, com símbolos marcados com algo que
parecia sangue seco misturado à ferrugem. No centro, algo flutuava: uma cápsula antiga
da Iniciativa, aberta, quebrada... vazia.

E ao lado dela...​
...um brinquedo infantil. Um ursinho.

Elias caiu de joelhos.


— É a cápsula 01.

Noah olhou ao redor.

— Isso é um altar.

De repente, as luzes das lanternas falharam por um segundo.

Uma voz infantil ecoou pelas paredes, suave como um canto de ninar.

“Você voltou, doutor.”

[CORTE – QUARTO DE RAFE – MINUTOS DEPOIS]


A porta se abriu com um leve chiado.​
Rafe estava sentado no canto do quarto, encarando a parede. As luzes estavam no modo
de emergência: âmbar, oscilantes, como se o prédio inteiro estivesse segurando a
respiração.

Amara entrou devagar, sem dizer nada. Fechou a porta atrás de si.

Rafe não se virou.

— Veio me convencer?​
(Voz seca)​
— Porque se veio, pode poupar fôlego. Não vou ser o próximo Elias.

Amara respirou fundo. A sala tinha cheiro de ferrugem, suor e café velho.

— Não vim convencer. Só ... .conversar.

Rafe deu uma risada baixa, amarga.

— Conversar.​
(Virando-se, finalmente)​
— Conversar sobre o quê, Amara? Sobre como a gente ajudou a nascer a coisa que vai
substituir nossa espécie?​
(Pausa, olhos pesados)​
— Ou sobre como você ainda acha que Elias não está completamente comprometido?

— Elias não está comprometido — disse ela, firme, mas com os olhos marejando.​
— Ele está tentando entender.

— Entender o quê? — Rafe levantou-se de repente. — Que a criatura que a gente jogou no
esgoto voltou alfabetizada? Que ela fala por terminal morto? Que ela lembra o que você
disse na sala neonatal há DEZESSEIS SEMANAS?

Ele se aproximou, voz baixa, cruel.

— Sabe o que mais ela lembra, Amara?

Ela não respondeu. Os olhos agora estavam brilhando.


— Ela lembra que você sorria quando dava anestesia nas sessões. Que você dizia “vai
passar, pequenino” enquanto fazia parte das vivissecção.​
— Eles não esqueceram, Amara. Nenhum deles.

Amara recuou um passo. A voz dela saiu como um sussurro.

— Eu só fazia meu trabalho...

— A gente, todos faziam.​


(Ele se vira, exausto)​
— E agora somos os monstros da história deles. E sabe de uma coisa? Talvez eles estejam
certos.

Amara tentou responder, mas a voz não saía. As lágrimas escorriam em silêncio.

— Rafe... eu ainda acredito que há uma chance de entender o que eles são. De resolver
isso sem guerra.

Ele se virou, com frieza.

— Você é brilhante, Amara. Sempre foi.​


(Pausa)​
— Mas essa sua fé... vai te matar.

Ela levou a mão ao rosto, tentando conter o choro, e saiu, sem dizer mais nada.

A porta se fechou devagar.

Rafe ficou sozinho, olhando o reflexo distorcido de si mesmo no vidro da janela.​


O alarme da zona subterrânea piscava ao fundo, discreto.

[CENA – LABORATÓRIO DE OBSERVAÇÃO – AMARA SOZINHA]


As luzes estavam quase todas apagadas no setor B, exceto pela claridade azulada das
telas que Amara deixara ligadas — todas exibindo gravações antigas do setor neonatal. A
mesa estava bagunçada: anotações rasgadas, copos vazios de café, relatórios manchados.

Ela sentou na cadeira central com um cansaço que parecia vir de dentro da alma. Os olhos
ainda úmidos, mas agora fixos em uma imagem parada: a do Experimento 01,
recém-nascido, na cápsula de contenção.

Ela aumentou o zoom. O olhar do bebê. Direto. Profundo. Impossível.

— Você viu tudo, não é? — ela sussurrou, quase sem voz.​


— Desde o começo...

Recuou na cadeira e fechou os olhos. A lembrança veio sem convite.

[FLASHBACK – 2 ANOS ANTES – CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS,


SETOR G]
Amara, mais jovem, insegura, suja de reagentes químicos, estava sentada no corredor com
um caderno de anotações completamente rabiscado e os olhos fundos de quem não dormia
há dias.

Foi então que Elias apareceu.

— Você está fazendo cálculos que nem mesmo os algoritmos da IA entenderam — disse
ele, com um tom leve. — Isso é genial ou desespero?

Ela riu, nervosa.

— Acho que os dois.

Ele se sentou ao lado dela, no chão mesmo. Estava cansado também, mas com aquele
olhar calmo de quem acredita em coisas grandes.

— Sabe por que escolhi você pro projeto Éden?

Ela balançou a cabeça.

— Porque você enxerga padrões onde ninguém mais enxerga.​


(Pausa)​
— E porque você ainda sente... culpa. Isso é raro. E necessário.

Ela o olhou, surpresa.

— Acha que sentir culpa é uma virtude?

— Acho que é um sinal. De que ainda somos humanos.

FIM DO FLASHBACK – VOLTA AO LABORATÓRIO]


Amara abriu os olhos. E havia algo diferente neles agora. Não era fúria. Não era medo.

Era resolução.

Ela ativou o terminal e começou a digitar freneticamente. Uma sequência de dados


começou a aparecer na tela.​
Sequências genéticas. Mapas cerebrais. Logs de comunicação dos últimos meses.

Ela estava conectando os pontos.

— Eles estão aprendendo... com linguagem. Com imagens. Com intenção — murmurou.​
— Isso não é só evolução. Isso é projeto. Isso é... resposta.

A última gravação ativada mostrava o 01, semanas antes do descarte. Ele estava acordado,
cercado por sensores desligados. Nenhum som, nenhuma luz. Mas os lábios dele... se
moviam.

Como se sussurrasse.

Amara pausou o vídeo. Ampliou os lábios.

E congelou.
— Isso é... meu nome?

Ela ficou paralisada.

Silêncio. Só o zumbido das máquinas.

Mas então, como uma batida sutil no fundo do sistema, algo piscou no canto da tela.

Mensagem recebida: //zona_indefinida

AMARA
AINDA LEMBRAMOS DO QUE VOCÊ CANTAVA

Ela levou a mão à boca.​


Era verdade. Ela costumava cantar para os embriões durante os testes noturnos. Para
acalmá-los. Uma canção de infância.

Eles lembravam.

Eles lembravam.

[CENA – ZONA SUBTERRÂNEA 5 – TÚNEL PRINCIPAL – ELIAS & NOAH]


A voz ecoou novamente, dessa vez um sussurro quase hipnótico:

— “Achamos que você não voltaria.”

Um arrepio gélido percorreu a espinha de Elias. Seus olhos se fixaram no ursinho — antes
um brinquedo inocente, agora um símbolo pesado, carregado de lembranças e presságios
sombrios.

Noah apertou o coldre da arma de pulso, os músculos tensos. O silêncio ao redor parecia
respirar, uma respiração lenta e profunda que fazia o musgo pálido nas paredes pulsar
como um coração oculto.

— “Isso não é normal.” — sua voz saiu baixa, mas firme. — “Eles estão aqui.”

A cápsula quebrada no centro parecia vibrar com uma energia quase vital, um eco distante
de uma vida esquecida.

— “Eles estão… vivos.” Elias murmurou, a voz misturando fascínio e medo.

Noah iluminou os símbolos ao redor com a lanterna, mas as palavras mudavam, como se
estivessem vivas, se adaptando para esconder e revelar em igual medida.

— “Precisamos ir mais fundo.” Elias falou, olhando firmemente para Noah. — “A verdade
está aqui.”

Mais uma vez, a voz infantil reverberou pelas paredes, desta vez atrás deles, como um
sussurro venenoso:

— “Você não sabe no que se meteu.”


Noah girou abruptamente, a lanterna vasculhando a escuridão, mas tudo o que encontrou
foi a penumbra que parecia fechar-se ao redor deles.

O silêncio que se seguiu foi um peso esmagador, quebrado apenas pela respiração
ofegante dos dois.

Elias fechou os olhos por um momento, tentando dominar a ansiedade.

— “Vamos continuar. Isso é só o começo.”

Noah assentiu, a mão tremendo ao pousar no ombro do amigo.

— “Só espero que estejamos preparados para o que encontrarmos.”

Eles avançaram, passos cuidadosos e lentos, guiados por uma luz trêmula e pelo peso de
um destino desconhecido.

[CENA – SUBTERRÂNEO – SANTUÁRIO DOS BEBÊS]


O corredor escuro se abriu para uma câmara em forma de cúpula, suas paredes cobertas
por inscrições feitas com um material que parecia sangue seco misturado à ferrugem.

A luz vacilante das lanternas projetava sombras inquietantes, que dançavam sobre
desenhos complexos — mapas? Mensagens? Era impossível decifrar.

No centro, um tapete de musgo pálido se estendia sobre o chão úmido. Elias ajoelhou-se,
tocando o musgo que parecia pulsar sob seus dedos, respirando em sincronia com ele.

— “Isso não é só biologia, Noah.” — disse em voz baixa, reverente. — “É cultura. História.
Eles deixaram algo para nós.”

Noah permaneceu em pé, os olhos atentos, a arma firme. Seu olhar varreu o ambiente,
buscando qualquer sinal da presença invisível.

Um brinquedo quebrado — um ursinho de pelúcia com um olho faltando — estava apoiado


num altar improvisado, rodeado por objetos que pareciam talismãs de proteção.

Elias tocou o ursinho com delicadeza.

— “A cápsula 01... isso é mais que um lugar. É um lar. Um memorial.”

Um som sutil atravessou a câmara, quase um sussurro.

— “Você voltou, doutor.”

Os dois se entreolharam. O silêncio tornou-se uma tensão palpável, o ar pesado com


segredos e ameaças não ditas.

[CENA – SALA DE REUNIÕES – LABORATÓRIO]


O ar era denso, carregado com a tensão de decisões que poderiam mudar tudo.
Rafe bateu na mesa com força, a fúria em seus olhos inflamou a sala.

— “Isso é loucura! Estão lidando com algo que não compreendemos! Precisamos isolar a
Zona Subterrânea imediatamente!”

Kesler cruzou os braços, a voz firme e segura.

— “E se eles estiverem certos? Se Elias e Noah realmente encontraram um canal de


comunicação? Precisamos de mais dados antes de agir.”

Amara, sentada, falou com hesitação, mas com convicção:

— “Talvez a resposta não seja o isolamento... mas a preparação.”

Rafe encarou Amara, sua expressão dura.

— “Preparação? Estamos diante de um colapso civilizacional, Amara! Não temos tempo


para filosofar.”

Kesler ergueu a voz, impondo ordem:

— “Rafe, precisamos manter a calma. Decisões precipitadas podem ser fatais.”

Rafe respirou fundo, o rosto endurecido pela angústia.

— “Só não quero que Elias e Noah morram por nossa hesitação.”

A tensão permaneceu, pairando no ar, enquanto a mensagem nos monitores piscava:

— “ESTAMOS AQUI. E ESPERAMOS.”

[CENA DE SUSPENSE – ELIAS E NOAH NO SANTUÁRIO]


O silêncio subterrâneo era sufocante. Cada passo de Elias e Noah reverbera pelo túnel, um
eco que parecia brincar com as sombras ao redor.

A lanterna de Noah tremia, seus olhos arregalados, atentos a cada som, a cada movimento
invisível.

— “Este lugar…” murmurou Noah, a voz baixa, quase um sussurro — “deveria estar
interditado. Por que ninguém nos avisou?”

Elias parou, encarando os símbolos vermelhos que brilhavam fracamente.

— “Não são marcas comuns.” — disse, inclinado sobre as inscrições — “Isso é uma
linguagem antiga. Talvez uma mensagem.”

Noah engoliu em seco, o frio entrava pelos ossos.

Um ruído sutil surgiu do fundo da sala circular. Eles congelaram.

Noah apertou a arma com mais força.

— “Você ouviu isso?”


Antes que Elias pudesse responder, o som cresceu: unhas arranhando metal. Uma batida
ritmada, lenta, cadenciada — como um chamado.

Então, uma voz infantil, distante e etérea, ecoou entre as pedras:

— “Você voltou, doutor…”

O coração de Elias disparou. Ele engoliu seco, dedos tremendo.

Noah ergueu a lanterna, mas nada havia além da escuridão que parecia se fechar.

— “Não estamos sozinhos.” — sussurrou Elias.

De repente, a lanterna de Noah apagou. Trevas completas.

— “Noah!” — gritou Elias no silêncio.

Quando a luz voltou, o ursinho havia desaparecido.

Noah apontou a arma no escuro, sem saber para onde mirar.

Um frio cortante desceu pela espinha dos dois.

Eles não podiam fugir.

Estavam presos no coração do mistério — observados, julgados, talvez até esperados.

CENA – ZONA SUBTERRÂNEA 5 – TÚNEL PRINCIPAL – NOAH]


Noah acelerava o passo, o coração martelando contra as costelas como se quisesse fugir
do próprio peito. Cada sombra parecia se mover, cada som reverbera como um sussurro
ameaçador.

O frio no subterrâneo parecia ter se entranhado em seus ossos. Ele não conseguia sacudir
a sensação de estar sendo observado, julgado. Sua mente corria, tentando encontrar uma
saída que ainda parecia longe.

Parou abruptamente e virou, ofegante, encarando a escuridão de onde Elias ficará para
trás.

— Você vai se arrepender de insistir nisso. Eu sinto que isso aqui vai nos destruir.”

Um soluço preso tentou escapar. Noah fechou os olhos por um instante, buscando controlar
o desespero que o consumia.

— “Eu só quero voltar... vivo.”

Seus dedos tremiam ao redor da arma. A segurança, até então um peso em sua cintura,
agora era a única âncora na realidade que ele ainda podia tocar.

Mas lá no fundo, uma voz menor, quase sussurrada, dizia que talvez fosse tarde demais
para recuar.
[CENA – ZONA SUBTERRÂNEA 5 – TÚNEL PRINCIPAL – ELIAS]
Elias observava Noah, a respiração acelerada, os olhos cheios de angústia. Mas ele
permanecia calmo, a mente cristalina diante do medo que consumia o amigo.

— “Noah, escute.” — disse, a voz firme, mas serena — “Se voltarmos agora, nunca
saberemos o que está acontecendo de verdade aqui. É fácil fugir do desconhecido, mas o
que vamos fazer com as respostas que deixamos para trás?”

Ele deu um passo à frente, aproximando-se.

— “Eu não sinto medo, não porque não saiba o que enfrentamos, mas porque entendo o
que está em jogo. Eles não são só ‘algo’ para temer. São parte de uma nova realidade que
precisamos compreender, antes que ela nos consuma.”

Elias inclinou-se, tocando a parede coberta pelos símbolos vermelhos.

— “Temos que continuar. Pela verdade, por Noah, por todos nós.”

Seu olhar era intenso, carregado de uma convicção que parecia atravessar as sombras do
túnel.

[CENA – ZONA SUBTERRÂNEA 5 – TÚNEL PRINCIPAL – NOAH & ELIAS]


Noah engoliu em seco, o peso do medo apertando seu peito como uma armadilha invisível.

— “Razão?!” — ele explodiu, a voz falhando entre o desespero e a frustração — “Você


chama isso de razão? Olhe ao redor, Elias! Estamos numa prisão viva, rodeados por algo
que não compreendemos. Não sei se são monstros, fantasmas ou o que... mas eu sei que
não temos que ser heróis aqui!”

Ele sacudiu a cabeça, a respiração pesada — os olhos brilhando de uma mistura de pânico
e dor —

— “Eu quero voltar. Quero sair daqui antes que esse lugar nos destrua de verdade. Se não
pararmos agora, não sei se vamos ter coragem para continuar depois.”

Elias manteve a calma, mas dentro dele uma pontada de tristeza floresceu ao ver o amigo
se despedaçando diante do abismo do medo.

— “Noah,” ele disse, com uma voz firme, porém compassiva — “coragem não é a ausência
do medo. É a decisão de que algo é mais importante que ele. E o que está aqui é maior que
nós dois.”

— “Eu preciso que você acredite nisso. Não só por mim, mas por todos que vieram antes e
por aqueles que ainda virão.”

Noah virou o rosto, os ombros tremendo.

— “E se eu não conseguir? E se esse lugar acabar comigo?”

Elias se aproximou, pousando uma mão firme no ombro do amigo.

— “Então eu vou segurar você, até que a gente encontre uma saída juntos.”
O silêncio que seguiu foi pesado, carregado de uma esperança tênue em meio ao
desespero.

[CENA – SALA DE REUNIÕES – LABORATÓRIO]

O silêncio que se seguiu após a última mensagem era quase ensurdecedor, como se o
próprio ar aguardasse a próxima decisão. As luzes piscavam, lançando sombras trêmulas
no rosto dos presentes, refletindo o conflito interno que cada um carregava.

Amara levantou-se lentamente, os olhos fixos na tela.

— “Se isolarmos a Zona Subterrânea agora, estaremos cortando qualquer possibilidade de


diálogo. E se eles... se eles já entendem mais do que pensamos? Ignorar isso pode ser
fatal.”

Rafe a encarou, a voz firme e carregada de urgência.

— “Amara, eu entendo sua esperança, mas a ciência nos diz que estamos lidando com algo
além do controle. Eles podem estar vivos, sim, mas o que quer que seja pode ser... perigoso
demais. Estamos falando de uma forma de vida que está nos julgando.”

Kesler, mantendo a postura serena, falou com clareza e autoridade.

— “Ninguém aqui deseja perder os nossos. Mas agir por medo não vai garantir a segurança
de ninguém. Precisamos de um plano sólido, que inclua monitoramento extremo,
comunicação contínua e preparação para qualquer eventualidade.”

Rafe apertou os punhos, a voz baixa, quase um sussurro carregado de dor.

— “Tenho medo de que a hesitação nos custe tudo.”

Amara deu um passo à frente, tocando o ombro de Rafe com suavidade.

— “Todos temos medo. Mas é na preparação, no conhecimento, que encontraremos a


nossa força. Isolar não é a resposta, pelo menos não ainda.”

Kesler assentiu, fechando os olhos por um momento, buscando equilíbrio.

— “Vamos manter a vigilância máxima. Continuaremos acompanhando Elias e Noah de


perto. Essa é a nossa chance de entender, de aprender... e talvez, de salvar o que ainda
resta.”

O monitor piscou novamente, a mensagem final aparecendo:

— “VOCÊS NÃO ESTÃO SOZINHOS. NUNCA ESTIVERAM.”

O peso dessas palavras caiu como uma sentença sobre o grupo.

Rafe desviou o olhar, respirando fundo antes de se afastar da mesa, a mente tomada por
dúvidas e a urgência de proteger seus colegas.

Amara permaneceu, olhando para a tela, o semblante misto entre esperança e temor.

Kesler permaneceu em silêncio, ciente de que, dali em diante, não haveria volta.
[CENA – SALA DE REUNIÕES – LABORATÓRIO – CONTINUAÇÃO]

Rafe virou-se de repente, olhos brilhando de frustração e medo.

— “Eu não posso ficar aqui parado enquanto Elias e Noah estão lá embaixo, entrando numa
armadilha. Se eles morrem, essa pesquisa toda morre com eles!”

Kesler o segurou pelo braço, firme.

— “Rafe, a decisão não é individual. Precisamos de união, não de pânico.”

Rafe afastou-se, a respiração acelerada.

— “Eu vou até lá. Sozinho, se for preciso.”

Amara se levantou rapidamente, quase suplicante.

— “Rafe, não faça isso! Você sabe que não é seguro!”

Ele a olhou, a voz cheia de amargura.

— “Você não entende, Amara. Não é só ciência pra mim. São pessoas. Eu não vou deixar
eles morrerem.”

Sem esperar resposta, Rafe saiu da sala com passos firmes, deixando Amara e Kesler em
silêncio, os rostos marcados pela preocupação e pelo peso da responsabilidade.

[CENA – LABORATÓRIO – SALA DE CONTROLE – NOITE]

A sala mergulhada em penumbra, iluminada apenas pelo brilho oscilante dos monitores. O
ar parece mais pesado do que o habitual, carregado de uma tensão invisível.

Kesler e Amara permanecem ali, imersas nos dados e nas mensagens criptografadas
vindas do subterrâneo, tentando encontrar algum padrão, alguma pista.

De repente, o monitor que exibia a lista dos experimentos ativos pisca rapidamente — e
uma linha desaparece.

Kesler franze a testa, apertando os olhos para a tela.

— “Espere... não são quinze bebês. São quatorze.”

Amara se aproxima, o rosto ficando pálido.

— “Você tem certeza? Pode ser um erro do sistema.”

Kesler balança a cabeça lentamente.

— “Não. Está certo. O sistema nunca errou antes. Alguém... ou algo... está faltando.”

Um silêncio pesado toma conta da sala, quebrado apenas pelo zumbido do sistema de
energia.
De repente, um leve sussurro parece escapar das sombras, tão baixo que quase passa
despercebido.

Amara se vira rapidamente, procurando a origem do som.

— “Kesler... você ouviu isso?”

Nenhuma resposta.

Mas a sensação de que algo está ali, invisível e observando, cresce como uma sombra
dentro da sala.

Um último olhar para o monitor revela uma mensagem nova, não codificada, simples e
direta:

“FALTA UM.”

A sala parece gelar, e as luzes piscam, como se o próprio laboratório respirasse com medo.

Kesler aperta os punhos, o olhar firme.

— “Não estamos sozinhos aqui.”

[CENA – LABORATÓRIO – SALA DE CONTROLE – NOITE]

A tensão cresce. Kesler e Amara trocam olhares rápidos, o instinto dizendo que algo não
pode ser explicado apenas por dados ou falhas técnicas.

Amara avança até a porta do laboratório, hesitando antes de girar a maçaneta.

— “Vamos verificar pessoalmente. Algo está errado. Eu sinto isso.”

Kesler a segue, ambas com passos cuidadosos, conscientes de que qualquer ruído pode
denunciar sua presença.

Ao atravessarem o corredor silencioso, as sombras parecem se alongar, como se o próprio


ar ficasse mais denso, sufocante.

No corredor principal, uma série de cápsulas com os bebês — todas com os sistemas
normais, menos uma.

A cápsula 01 está vazia.

Sem sinal, sem sinal vital, sem luz.

Kesler encosta a mão no vidro frio, a respiração presa.

— “Ela está aberta... e vazia.”

Um som sutil, quase imperceptível, ecoa — um murmúrio, um sussurro quase como uma
respiração.

Amara se vira abruptamente.


— “Alguém está aqui.”

O silêncio se quebra com um ruído distante, metálico, como se algo pesado tivesse se
movido atrás das paredes.

Eles aceleram o passo, os olhos vasculhando cada sombra.

De repente, um sussurro infantil atravessa o ar:

— “Não deveriam ter nos deixado sozinhos...”

Kesler e Amara se entreolham, a tensão explodindo em medo e urgência.

— “Precisamos avisar os outros. Isso vai muito além de qualquer experimento.”

O alerta na voz de Kesler é firme, mas as mãos tremem levemente.

Noah e Elias lá embaixo, a sala cheia de cientistas, e agora eles — com um perigo invisível,
que já está entre eles.

A pergunta ecoa no ar:

Quem — ou o que — está realmente desaparecido?

[CENA – SALA DE CONTROLE – LABORATÓRIO - NOITE]

Rafe entrou abruptamente, o olhar carregado de preocupação e irritação.​


— “O que está acontecendo aqui? Por que não fui informado sobre o desaparecimento de
um dos bebês?!” — sua voz cortava o ar, cheia de fúria contida.

Amara trocou um olhar rápido com Kesler antes de responder, tentando manter a calma.​
— “Rafe, encontramos um problema sério. Em vez dos quinze bebês esperados, temos
apenas quatorze. A cápsula 01C está vazia.”

Kesler continuou, a expressão séria e firme:​


— “Não sabemos o que aconteceu ainda. Tudo indica que algo — ou alguém — está
interferindo no laboratório, algo que não deveria estar aqui.”

Rafe apertou os punhos, a raiva explodindo como uma tempestade contida.​


— “Eu avisei! Avisei que isso iria dar problema, que estávamos brincando com forças que
não entendemos! Mas ninguém me ouviu!”

Ele respirou fundo, tentando controlar a fúria que ainda queimava em seu peito.​
— “Se vão continuar com essa loucura, então façam isso sozinhos. Eu não vou ficar aqui
esperando o desastre acontecer.”

Sem esperar resposta, Rafe virou-se e saiu, a porta batendo com força atrás dele, deixando
um silêncio pesado na sala.

Amara e Kesler ficaram olhando um para o outro, conscientes de que a tensão no


laboratório estava longe de acabar — e que as decisões que tomassem a seguir poderiam
ser cruciais para todos.
Noah caminha à frente, sua lanterna iluminando placas corroídas e dutos com marcas
antigas. Elias segue atrás, silencioso. O silêncio é quase absoluto, exceto por um gotejar
contínuo... e algo que soa como uma respiração distante.

Noah (sussurrando):​
— “Estamos indo cada vez mais fundo. Isso não está no mapa.”

Elias (olhando para um painel com símbolos rabiscados):​


— “Porque esse lugar foi selado. Décadas atrás. Antes de qualquer experimento ser
autorizado.”

De repente, o rádio de Elias chia. Uma voz infantil, distorcida, ecoa por milésimos de
segundo:

“Você nos ouve agora?”

Ambos congelam. A luz da lanterna oscila. Noah tropeça... e vê uma figura deitada a alguns
metros, de costas.

Elias (em pânico controlado):​


— “Não se aproxime ainda. Pode ser... um dos técnicos.”

Noah ignora. Se aproxima. Lentamente vira a figura... e encontra um manequim de


treinamento, com os olhos arrancados e uma mensagem escrita no tórax:

“E se o erro fosse vocês?”

Noah recua, o coração batendo acelerado, a lanterna tremendo na mão. Elias se aproxima,
a expressão endurecida.

— “Isso é um aviso. Não um acidente.”

O corredor parece fechar ao redor deles, as sombras crescendo, como se quisessem


engolir cada passo.

Noah engole seco, a voz quase sumindo:

— “Mas quem teria coragem... e motivo para isso?”

Elias ergue o olhar, a voz firme, carregada de convicção:

— “Quem quer que esteja aqui, sabe mais do que imaginamos. E eles querem que a gente
saiba também.”

O gotejar continua, compassado, sinistro.

Os símbolos vermelhos nas paredes parecem brilhar com uma luz própria, pulsando no
ritmo do coração de Noah.

Ele engole em seco e segue em frente, sabendo que, dali para frente, não haverá volta

Noah puxou a respiração funda, sentindo o peso do ar úmido encher seus pulmões. O
corredor diante deles se alongava como uma ferida aberta, sujo e abandonado, mas vivo
em seus próprios mistérios.
Elias manteve os olhos fixos nas marcas vermelhas, os dedos quase tocando a parede —
como se, de alguma forma, pudesse decifrar o que aquelas linhas tortuosas queriam contar.

— “Se eles querem se comunicar, talvez seja porque precisam de ajuda.” — Noah
murmurou, o medo cedendo espaço a uma faísca de esperança.

Elias virou-se, encarando o amigo com um olhar firme, quase desafiante.

— “Ou talvez seja uma armadilha. Mas não podemos recuar agora. Não depois do que já
vimos.”

A lanterna iluminou algo no chão — um pequeno objeto metálico, quase escondido entre os
destroços. Noah se abaixou e pegou, revelando um pendrive com marcas desgastadas.

Ele mostrou a Elias, a voz carregada de determinação.

— “Isso pode ser uma pista. Ou um convite. De qualquer forma, é a única coisa que temos.”

Os dois continuaram a caminhar, cada passo mais pesado, cada som mais tenso, enquanto
o silêncio se tornava uma presença inquietante — um lembrete de que, no subterrâneo, eles
não estavam sozinhos, e que o verdadeiro jogo estava apenas começando.

Noah guardou o pendrive no bolso, sentindo o frio do metal contra a pele. O túnel parecia se
estreitar, as sombras ganhando formas indecifráveis nas paredes úmidas. Um silêncio
pesado pairava no ar, quase como se o próprio lugar respirasse junto com eles.

Elias apertou o passo, puxando Noah pelo braço com urgência contida.

— “Temos que encontrar um lugar seguro para analisar isso. Esse pendrive pode conter
respostas — ou armadilhas.”

Noah assentiu, o coração pulsando forte, misturando medo e expectativa. À frente, um som
abafado, um eco distante de passos que não pertenciam a nenhum deles, fez o peito
apertar ainda mais.

Eles se esconderam atrás de uma grande viga caída, o silêncio agora rompido por
respirações entrecortadas e um sussurro inaudível que parecia flutuar no ar.

Noah sentiu o corpo congelar, a mão instintivamente pousando na arma.

Elias encarou o escuro à frente, a voz baixa e firme.

— “Não importa o que venha. Estamos juntos até o fim.”

O túnel parecia se fechar em volta deles, e naquele instante, a linha entre a esperança e o
desespero se tornou tão tênue quanto o fio de luz da lanterna em suas mãos.

O silêncio foi rasgado por um grito distante, angustiado e cortante, que reverberou pelo
túnel como uma sombra viva. Noah e Elias trocaram um olhar rápido, o medo tornando-se
palpável, quase sufocante.
— “Isso não é só um aviso...” — murmurou Elias, a voz carregada de pressentimento — “É
um chamado para o que ainda está por vir.”

Antes que pudessem reagir, a comunicação no rádio se perdeu, mergulhando-os em uma


escuridão ainda mais profunda, tanto física quanto emocional.

[CORTE - SALA DE CONTROLE - LABORATÓRIO - MANHÃ]

o ar vibrava com uma tensão quase elétrica. Amara, Kesler e Rafe se reuniam em
torno dos monitores, olhos fixos nas imagens instáveis e dados que piscavam
freneticamente. O desaparecimento da cápsula 01 ainda era um mistério que
ameaçava consumir todos.

Rafe bateu a mão na mesa, a voz firme, mas carregada de desespero:

— “Eles estão lá embaixo, sozinhos, sem saber o que enfrentam. Se algo aconteceu
com a cápsula, o pior ainda pode estar por vir.”

Amara fechou os olhos por um instante, buscando equilíbrio, depois falou com
convicção:

— “Não podemos perder contato. Precisamos ampliar o monitoramento, redobrar a


vigilância. Eles não são apenas sujeitos de teste — são a última esperança.”

Kesler assentiu, mas seu olhar denunciava o peso da responsabilidade:

— “E se essa ‘esperança’ estiver fadada a ser nossa ruína?”

A mensagem no monitor pisca novamente, como um aviso final:

“VOCÊS ESTÃO NO LIMITE. NÃO PODEM MAIS VOLTAR ATRÁS.”

O silêncio que se seguiu foi mais assustador que qualquer grito nos túneis.

A tensão tornou-se palpável, quase sufocante. Amara afastou-se da mesa, os olhos


fixos em uma das telas onde dados vitais piscavam intermitentes, cada segundo que
passava parecia empurrá-los para um abismo sem retorno.

— Precisamos decidir — disse, a voz baixa, firme — se vamos continuar avançando


ou se é hora de recuar e preservar o que ainda resta.

Rafe encarou-a com uma mistura de determinação e exaustão.

— Recuar não é uma opção. Eles estão lá embaixo, e se não formos atrás,
estaremos condenando tudo o que construímos. A ciência, a esperança, eles.

Kesler respirou fundo, o rosto marcado pelo cansaço.

— Mas a linha entre esperança e loucura está desaparecendo rápido demais. Não
sabemos o que enfrentamos — e se já estiver dentro do laboratório?
Um zumbido súbito tomou conta da sala. A frequência dos monitores começou a
falhar, ruídos distorcidos invadiram os alto-falantes e, no meio do caos, uma nova
mensagem apareceu no visor, em letras vermelhas, pulsando com uma urgência
quase ameaçadora:

“VOCÊS ESCOLHERAM O CAMINHO ERRADO. AQUI, NINGUÉM ESCAPA.”

As luzes oscilaram, e naquele instante o laboratório pareceu prender a respiração,


como se estivesse consciente do que estava por vir. O relógio na parede marcou
uma pausa, um silêncio sepulcral tomou conta.

Amara olhou para Rafe e Kesler, os olhos cheios de uma certeza que não desejava
ter:

— Não estamos mais lidando com experimentos. Estamos lidando com algo vivo,
inteligente… e perigoso demais para controlar.

A decisão já não era científica. Era de sobrevivência.

[FLASHBACK – CASA DE ELIAS – NOITE, ALGUNS ANOS ANTES]

Um silêncio sombrio domina o cenário. A casa está em ruínas, marcas de luta e


destruição por toda parte. O ar pesado carrega cheiro de sangue e desespero.

Elias está ajoelhado no chão, mãos trêmulas, olhando para o que restou da família.
Kesler está ao seu lado, o rosto tenso e olhos marejados.

No fundo, sons distantes de grunhidos animalescos, ecos do vírus que tomou tudo.

Elias levanta lentamente, o olhar vazio. A voz sai baixa, quase um sussurro:

— “Não havia escolha... Eles não eram mais eles. O vírus... transformou tudo.
Minha mãe, meu pai... meus irmãos... todos...”

Kesler aperta o ombro de Elias, a voz rouca:

— “Aquela noite mudou tudo. O pai de Elias... ele tentou criar um soldado perfeito,
algo para proteger... mas criou um monstro.”

Um flash rápido mostra um laboratório improvisado, frascos quebrados, anotações


manchadas de sangue.

Elias fecha os olhos, respirando fundo, a dor escancarada:

— “Eu... eu tive que acabar com eles. Com as minhas próprias mãos. Eu matei
minha família para salvar o que restava do mundo.”

Kesler, com uma expressão dura, quase resignada:

— “E desde então, carregamos esse peso. É por isso que não podemos falhar com
esses bebês. Eles são nossa última chance de redenção.”
Um grunhido intenso invade a cena, e Elias se prepara, as mãos cerradas em
punhos.

O silêncio é quebrado por um gemido baixo, vindo do quarto ao lado. Elias se vira
lentamente, o rosto marcado pela exaustão e medo.

— “Eles... ainda estão vivos, de algum jeito. Presos entre o humano e a besta.” —
ele sussurra, quase não acreditando no que vê.

Kesler se aproxima, a voz firme mas trêmula:

— “O vírus não poupou ninguém. Nem nossas famílias. Eu perdi os meus da


mesma forma. Nada mais fazia sentido.”

Elias caminha até uma porta semiaberta. Lá dentro, sombras se contorcem,


acompanhadas de grunhidos animalescos e choros humanos distorcidos.

Ele engole em seco, as mãos tremendo ao puxar uma arma enferrujada do chão.

— “Era isso ou eles me matavam... Eu não podia deixar o monstro vencer.”

No rosto de Kesler, uma sombra de tristeza profunda.

— “Foi a nossa última linha. A dor de quem teve que sacrificar o que mais amava
para tentar salvar um mundo moribundo.”

O flash corta para imagens rápidas — corpos deformados, olhos vazios, famílias
dilaceradas. O som ecoa, um misto de gritos e lamentos, sobreposto à respiração
pesada de Elias.

Ele abaixa a arma, os olhos cheios de lágrimas, mas firmes.

— “Por isso eu não posso desistir. Esses bebês... são tudo o que resta para mudar
o destino.”

Kesler dá um passo à frente, firme, uma promessa silenciosa no olhar.

— “E vamos proteger essa esperança, custe o que custar.”

A imagem se dissolve, levando o leitor de volta ao presente — ao laboratório, ao


risco real e imediato.

[FLASHBACK – CASA DE ELIAS – NOITE, ANOS ANTES]

A casa, antes cheia de risos, agora se transforma num palco de horror. O ar pesado
cheira a sangue e desespero. O chão está manchado, paredes marcadas por
arranhões profundos.

Elias observa em silêncio, a respiração presa, enquanto sua mãe, contorcida numa
postura inumana, emite sons guturais — um misto de choro e rosnado. Os olhos
dela brilham num amarelo estranho, faminto, vazio.
Kesler segura o braço de Elias, tentando ser a âncora que o mantém em pé.

— “Foi uma falha do pai... ele tentou criar um soldado perfeito, uma arma viva, mas
o vírus escapou, se espalhou rápido demais.”

Elias não consegue desviar o olhar, a dor dilacerando seu peito.

— “Ele não é mais minha mãe. Nem mesmo uma sombra dela.” — a voz falha,
sufocada pela dor.

Uma batida surda ecoa do andar de cima. Elias sobe, o coração batendo como um
tambor, e encontra seu pai, desfigurado, corpo deformado, mas ainda com lampejos
de consciência.

— “Pai...” — a palavra escapa como um sussurro trêmulo.

O homem o encara, olhos em brasa, um grito bestial arrancando-se de sua


garganta. Elias levanta a arma, mãos tremendo.

— “Me desculpe.” — ele diz, voz quebrada — “Eu não queria isso. Mas se não for
eu... será outra pessoa.”

Kesler acompanha, lágrimas escorrendo, cada passo uma tortura silenciosa.

— “Perdemos tudo naquela noite. Não sobrou família, só um punhado de


memórias... e a culpa que carregamos até hoje.”

Elias abaixa a arma, a sombra do passado pesando em seus ombros.

— “Mas é essa culpa que nos move. Se não protegermos esses bebês, todo
sacrifício foi em vão.”

Kesler segura firme o ombro de Elias, firme.

— “Vamos continuar lutando. Pelo futuro. Pela redenção.”

A escuridão da noite se funde com a lembrança amarga, um eco persistente de um


mundo que se perdeu para o monstro dentro dos homens.

[FLASHBACK – VILA – NOITE – PRIMEIROS DIAS DO SURTO]

A lua está encoberta por nuvens densas, e o silêncio da vila é quebrado por gritos
distantes, abafados e desesperados. Casas queimam, portas são arrombadas,
sombras distorcidas correm freneticamente pelas ruas estreitas.

Elias e Kesler se movem entre os escombros, cercados pelo caos.

— “Isso começou no laboratório... o vírus escapou,” — sussurra Kesler, a voz


carregada de horror.

Uma figura rasteja nas sombras, o corpo grotescamente deformado, olhos brancos
como ossos, dentes afiados expostos numa mímica cruel de sorriso. Seu andar é
instintivo, quase animal, apoiado nas mãos e nos pés, transformado em uma fera
irracional.

— “Eles não são mais humanos...” — Elias murmura, a garganta seca.

De repente, um grito mais próximo. Um vizinho, agora um monstro de quatro patas,


avança contra uma mulher que tenta fugir, arrastando-a para a escuridão.

— “Não podemos salvá-los... apenas fugir,” — diz Kesler, puxando Elias para longe,
enquanto a dor e o desespero se misturam em seu olhar.

Ao longe, a casa de Elias está em chamas. Lá dentro, a família está presa, vítimas
do vírus, transformados em horrores que só reconhecem a sede de sangue.

Elias para, o coração se partindo.

— “Eu tenho que acabar com isso. Com eles. Eu não posso deixar que eles me
matem... ou que matem mais alguém.”

Kesler pega a mão de Elias.

— “Eu estarei ao seu lado. Mas isso vai destruir você.”

Elias não responde. Sua mão empunha uma arma trêmula, os olhos perdidos entre
lágrimas e determinação.

Ele entra na casa, enfrentando os monstros que já foram seus pais, seus irmãos,
seus amigos.

Os tiros ecoam. Cada disparo é uma punhalada em sua alma.

Quando a última figura cai, Elias cai de joelhos, soluçando, as mãos


ensanguentadas segurando o vazio onde antes estavam suas pessoas amadas.

FLASHBACK – VILA – NOITE – PRIMEIROS DIAS DO SURTO]

A vila está tomada por um silêncio sepulcral entrecortado por gritos distantes e sons
de destruição. As chamas iluminam rostos de horror e desespero, enquanto
sombras deformadas arrastam-se pelas ruas lamacentas. O ar tem um cheiro
metálico, pesado, misto de sangue e queimado.

Elias caminha ao lado de Kesler, seus olhos fixos no horizonte onde a vila, seu lar,
se desfaz em caos. O som de garras arranhando concreto e gemidos animalescos
ecoa atrás deles.

Kesler, pálido, explica numa voz trêmula: “Foi o projeto do pai de Elias. Ele tentou
criar um super soldado — uma arma viva, capaz de resistir a qualquer dano. Mas o
vírus... ele fugiu do controle.”

Elias abaixa a cabeça, as memórias acachapantes pesando em seus ombros como


correntes invisíveis.
No meio do caminho, um monstro grotesco, antes um vizinho querido, agora uma
criatura quadrúpede, irracional e sedenta de sangue, emerge da escuridão. Seus
olhos são só brasa, sua boca escarrapacha dentes que parecem lâminas. Ele
avança na direção de uma criança que chora, desesperada.

Elias sente a garganta queimar. Kesler segura seu braço, puxando-o para continuar.

Mas então, um grito agudo corta o ar. É o som da casa de Elias. Ele para. Seu corpo
todo estremece.

“Eles estão lá. Minha família...” a voz dele falha.

Kesler o encara, silencioso, sabendo que nada pode preparar Elias para o que virá.

Elias corre, a respiração cortada, até a casa envolta em chamas. A porta está
trancada, mas ele arromba com um chute, enfrentando um turbilhão de monstros —
sua mãe transformada, com braços retorcidos e olhos vazios, avança como fera
faminta.

O olhar dela, mesmo bestial, ainda guarda um vestígio de humanidade. Elias hesita,
a dor dilacerando seu peito.

“Desculpe...” ele sussurra, antes de puxar o gatilho. O disparo ecoa no espaço


sufocado.

Um a um, ele derruba os que foram seus entes queridos, lutando contra um
sofrimento que ninguém deveria suportar.

No meio da carnificina, ele vê seu pai, também transformado, mancando, mas


tentando se aproximar. Elias não consegue conter as lágrimas enquanto atira. O pai
cai, um grito humano perdido em meio aos sons animalescos.

Kesler chega para encontrá-lo ajoelhado, mãos ensanguentadas e olhos vazios,


consumido pela culpa.

“Você fez o que tinha que fazer. Mas isso vai nos perseguir para sempre.”

O vírus, criado para domar a guerra, tornou-se a maior ameaça — uma praga que
engoliu a humanidade, transformando pessoas em monstros irracionais, guiados só
pelo instinto de matar.

Elias entende que o preço da ciência é cruel demais. Que a linha entre salvação e
destruição é tênue e perigosa.

Ele se levanta, com um olhar decidido, mas carregado por uma sombra profunda.

“Essa pesquisa... não pode falhar. Porque eu já perdi tudo.”


[FLASHBACK – NOITE – DEPOIS DO MASSACRE NA VILA]

Elias e Kesler sentam-se lado a lado no que restou do antigo galpão de ferramentas,
entre escombros e a névoa fina que paira no ar. O silêncio entre eles é pesado,
carregado de tudo o que não foi dito.

Elias observa as mãos ensanguentadas, tremendo, o olhar perdido no vazio.

Kesler rompe o silêncio, a voz firme, mas baixa.

“Não pode carregar isso sozinho. Nem você, nem ninguém.”

Elias levanta a cabeça, olhos marejados.

“Eu matei a minha família, Kesler. Cada um deles. Com minhas próprias mãos.”

“Eles já não eram mais eles,” responde Kesler, “O que restava era só o vírus, uma
ameaça para todos. Se você não tivesse agido, eles teriam matado outros.”

“Mas e se eu estivesse errado? E se... e se a ciência do meu pai tivesse sido um


erro maior do que pensei? E se tudo que estamos tentando agora — toda essa
pesquisa — não for a salvação, mas a continuação desse pesadelo?”

Kesler inclina a cabeça, com um leve suspiro.

“Por isso estamos aqui, Elias. Para garantir que não cometamos os mesmos erros.
Para que isso nunca mais se repita. Juntos.”

Elias fecha os olhos, sentindo a mão firme de Kesler pousar em seu ombro, um
gesto de apoio que não alivia a dor, mas oferece esperança.

“Prometo que vou proteger o que resta da humanidade. Que vou lutar até o fim.”

Kesler assente, com um olhar resoluto.

“Então não podemos falhar. Nem desistir.”

[FLASHBACK – VISÃO DE UM FUTURO INCERTO]

Na penumbra do galpão, as palavras de Kesler ecoam em Elias como um juramento


gravado em ferro. O vírus que transformou a humanidade em monstros
quadrúpedes, frutos de uma ambição desmedida, tornou-se a cicatriz que guia suas
escolhas.

Ele sabe que cada passo dado agora carrega o peso desse passado — e a
responsabilidade de um futuro que ainda pode ser salvo.

[SALA DE CONTROLE – LABORATÓRIO – MANHÃ]


A luz fria dos monitores ilumina os rostos cansados de Amara, Kesler e Rafe, mas é
o olhar de Kesler que mais chama atenção. Por um instante, ele parece perdido em
algo além dos dados, como se carregasse um peso invisível.

Sem dizer nada, ele toca uma fotografia antiga presa na parede — uma imagem em
preto e branco, com Elias e sua família, antes do desastre. O vírus que transformou
tudo, que devorou o mundo lá fora, ainda é uma sombra viva dentro dele.

Amara percebe, o tom da voz um pouco mais suave:

“Kesler, não podemos deixar o passado nos paralisar. Aquelas decisões difíceis que
Elias teve que tomar... estão em cada passo que damos hoje.”

Kesler suspira, fechando os olhos por um segundo, depois fala com a firmeza que o
passado forjou:

“Ele carrega mais do que a responsabilidade da pesquisa. Carrega o peso de tudo o


que perdeu — e a promessa de que isso nunca mais acontecerá. Por isso
precisamos estar mais atentos, mais fortes.”

Rafe, com o punho fechado, intervém, a voz carregada de urgência:

“Não podemos errar de novo. Se falharmos, o que restou do mundo pode se perder
para sempre.”

Amara volta os olhos para os monitores, onde a mensagem piscava na tela:

“VOCÊS ESTÃO NO LIMITE. NÃO PODEM MAIS VOLTAR ATRÁS.”

Um silêncio tenso domina a sala, como se o passado e o presente tivessem se


encontrado naquele instante — o futuro dependia do que fariam agora.
.

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