Documento Sem Título
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Não era o tipo de silêncio que tranquiliza — era o tipo que carrega sons escondidos,
como se o mundo respirasse pelas paredes rachadas.
O Dr. Elias segurava o tubo criogênico com as duas mãos, suando sob as luvas seladas. Lá
dentro, girava lentamente a amostra mais pura de DNA humano ainda não contaminado —
um fragmento daquilo que a humanidade era.
Elias paralisou.
Não era a cor. Era o olhar.
A criança estava olhando de volta.
Com foco. Com consciência. Com julgamento.
— Eles estão… — sussurrou Kesler, ao lado, com a voz embargada — …evoluindo rápido
demais.
Elias não respondeu. Não conseguia.
E encaravam.
Não com curiosidade infantil.
Com um silêncio maduro. Antinatural. Como se soubessem quem eram. E quem os
outros eram.
O bebê chorou como qualquer outro. Mas o choro... tinha algo estranho. Um
ritmo. Como se estivesse reconhecendo o ambiente.
Vermelhos.
E gritou. Não era choro. Era algo mais profundo. Como um alerta. Um aviso.
• Dr. Rafael "Rafe" Montenegro – tatuagens científicas nos braços, sarcástico, engenheiro
genético, cético e impulsivo.
• Dr. Noah Sato – introspectivo, jovem, biomecânico, com olhar afiado e segredos que não
dizia em voz alta.
• Dra. Amara Voss – psicóloga comportamental, presença espiritual, cicatrizes no rosto, voz
firme, consciência da equipe.
Juntos, formavam o que restava da ciência... ou do que ainda chamavam de humanidade.
— Vi. Ele tentou me morder. Um instinto básico, não uma reação consciente —
respondeu Noah, sem tirar os olhos da tela. — O sistema límbico deles está
hiperativo. Isso pode ser contido com restrição de estímulos visuais.
— Vocês falam como se fossem ratos — murmurou Elias, afastado dos demais,
olhando os berçários através do vidro polarizado.
O silêncio que se seguiu foi quase desconfortável. Cada um, à sua maneira, já
havia sacrificado algo para estar ali. Moral, medo, sanidade.
— O importante é que temos uma janela — retomou Rafe. — Três semanas até
os primeiros sinais de cognição aparecerem. É o tempo que precisamos para
tentar o protocolo quadrupedal.
— Você ainda acredita que vai funcionar? — Elias encarava-o agora, sem
ironia. — Que eles vão se curvar e andar como animais?
— Eu acredito que eles vão se adaptar — respondeu Rafe, frio. — Ou vão parar
de existir. E essa decisão é deles.
E então, aconteceu.
A sala de controle ficou mergulhada num silêncio pesado depois da fala do bebê.
— Isso é impossível. Eles não podem falar. Alguém deve ter adulterado os sistemas.
Elias virou-se para Amara, que parecia inquieta, seus olhos denunciando um medo que
tentava esconder.
— Não deveria existir nada aí. Não deveria haver consciência tão jovem. Mas está
acontecendo. Eles sabem.
— Acho que é hora de reconsiderar nossa permanência aqui. Não apenas pelo
experimento, mas por nós.
— Não só o projeto — ela respondeu, a voz quase um sussurro — nós mesmos. Antes que
seja tarde.
— Medo não resolve nada. Precisamos controlar essa situação. Ou vamos perder tudo.
— E se já estivermos perdendo? — replicou Amara, a voz trêmula, mas firme — Eu sinto
isso. Algo vindo de baixo. Algo que não conseguimos deter.
Elias assentiu lentamente, sentindo o peso do que tinham criado — e do que, talvez, já
estivesse além de qualquer controle.
— Nós somos a última esperança! A ÚLTIMA! Vocês acham que podem simplesmente
desistir? Que o que está lá fora é fácil?
Ele apontou para a pequena janela da sala, onde a luz fria do laboratório tentava vencer a
escuridão do mundo devastado lá fora.
— O vírus apocalíptico dizimou milhões! E os monstros que saíram desse inferno não são
coisa de conto para assustar criança! Eles existem, e estão caçando o que restou de nós!
— E vocês querem abandonar tudo? Jogar fora o que sobrou? — Ele respirava pesado, os
olhos faiscando raiva e desespero.
— Elias, não é sobre desistir. É sobre saber até onde podemos ir sem nos perdermos no
processo.
Mesmo Rafe, sempre tão arrogante, não teve resposta. Noah apenas desviou o olhar,
sentindo o peso da convicção daquele homem.
Elias passou a mão no rosto, a fúria dando lugar a uma determinação gelada.
— Vamos seguir em frente. Temos trabalho a fazer. E não há espaço para medo aqui.
Kessler seguiu Elias pelo corredor sombrio, onde as luzes tremeluziam, refletindo as
manchas vermelhas nas paredes e os cálculos rabiscados que pareciam alertas silenciosos.
— Elias — disse ela, parando a poucos passos dele — eu não quero que você vá.
Ele se virou lentamente, o olhar firme, mas havia uma suavidade escondida na sua
expressão.
— Você sabe bem que não posso ignorar o que está acontecendo — respondeu Elias,
tentando manter a calma.
— Mas é perigoso demais — insistiu ela, o medo evidente na voz — não podemos nos dar
ao luxo de perder você agora. Temos que cuidar dos bebês, e do laboratório.
— Prometo — respondeu Elias, com um sorriso triste, sabendo que ela tentava esconder a
preocupação que não podia demonstrar.
Por um momento, ficaram ali, no corredor silencioso, sabendo que aquele passo poderia
mudar tudo.
Rafe a encarou como se não tivesse entendido. Amara, pálida, se levantou devagar. Noah
apertou os punhos.
— Elias vai entrar no esgoto? Sem apoio? — questionou Rafe, a voz tomada por
incredulidade.
— Eu tentei impedir — disse Kessler, o olhar pesado. — Mas ele já decidiu. Vocês sabem
como ele é.
Subiram os corredores estreitos e longos do setor norte, onde quase ninguém ia mais. As
luzes ali piscavam mais devagar, como se o tempo tivesse desacelerado.
— E eu não vou te deixar. Você acha mesmo que vai conseguir carregar todo esse peso
nas costas?
Noah abriu o armário metálico encostado à parede do quarto. O rangido seco da porta
parecia um aviso. Lá dentro, cuidadosamente pendurado, repousava um traje semelhante
ao de Elias — mas com pequenas modificações feitas por ele mesmo.
Era um uniforme escuro de polímero resistente, com placas metálicas leves costuradas
na altura do peito e das coxas. No braço esquerdo, um painel de pulso piscava com
informações vitais: batimentos, temperatura, radiação. O capacete, de visor opaco, possuía
uma viseira que exibia dados em tempo real quando ativada.
Ao vestir o traje, Noah parecia menos um cientista e mais um soldado de um mundo que
nunca se curou.
— Você vai mesmo fazer isso? — perguntou Amara, cruzando os braços enquanto
observava a cena.
— Vocês não conseguem ver? — respondeu Noah, prendendo a fivela do tórax. — Estamos
encurralados aqui, brincando de controle de danos enquanto debaixo de nós há algo
crescendo. Pensar que Elias ia descer sozinho? Eu não conseguiria viver comigo mesmo.
Rafe bufou.
— Só quero deixar claro que acho isso uma loucura. Mas... — ele hesitou — alguém tem
que cobrir vocês daqui.
— Você está fazendo uma escolha. Isso pode não ter volta.
O ar do outro lado era mais denso, mais úmido. A iluminação era vermelha e intermitente.
Desceram por uma escada de emergência, até chegar ao que chamavam de A Boca.
Era um salão circular, com piso metálico, totalmente desativado, paredes repletas de
marcas de ferrugem e placas de sinalização antiga — como se aquele lugar tivesse sido
esquecido por décadas.
No centro do salão, havia um túnel inclinado de aço escuro, largo o suficiente para dois
homens deslizarem lado a lado.
A superfície era revestida de um tipo de resina escorregadia e reluzente, coberta por uma
fina camada de óleo automatizado, que antes era usado para transporte de resíduos
orgânicos.
O escorregador descia em espiral, como uma serpente metálica que conduzia direto às
entranhas do laboratório — ao sistema de drenagem subterrâneo, ou, como Elias dizia, "a
fronteira entre o homem e o erro."
— Não dá mais tempo pra fingir que nada está acontecendo — respondeu ele, se
posicionando ao lado de Elias.
Noah assentiu.
E se jogaram.
Kesler ficou parada à beira do escorregador, os braços cruzados sobre o peito, tentando
parecer firme. Mas seus olhos seguiam a curva descendente do túnel, como se pudessem
enxergar Elias ainda caindo.
O som metálico da tampa selando a entrada reverberou pelo salão, abafando o mundo.
Silêncio.
E então, o vazio.
Ela respirou fundo, mas o ar ali era pesado, e parecia cortar a garganta.
Seus olhos arderam, mas ela os manteve abertos, fixos, como fazia quando era criança.
Dois garotos correndo entre os galpões abandonados da zona leste, com tubos de ensaio
roubados do colégio técnico, fingindo que salvavam o mundo. Elias sempre inventando
alguma mutação impossível; ela, tentando corrigir suas fórmulas.
Foram anos dividindo cadernos rabiscados, pipetas tortas, e tardes discutindo sobre
genética, como se fossem cientistas de verdade. E depois… eles se tornaram.
Juntos.
Sempre juntos.
— “Você sempre quis salvar tudo, Elias. Sempre carregando o peso sozinho. Sempre
acreditando que podia suportar.”
— “Mas eu te conheço melhor do que qualquer um. Você está com medo. Só não deixa que
ninguém veja.”
Apenas virou-se lentamente, a passos firmes, como se manter em movimento fosse a única
forma de não desmoronar.
Sentia as pernas bambas, como se tudo aquilo estivesse acontecendo rápido demais. Elias
tinha partido. Sozinho — ou quase. E a sensação de perda era insuportável.
Ele não era apenas o diretor. Era o homem que salvou sua vida.
Lembrava-se com clareza da primeira vez que viu Elias: ela era só uma adolescente
faminta, suja, resgatada de uma zona de exclusão do Setor 3.
Menos ele.
— “Você não é um erro do sistema, Amara. Você é o glitch que pode salvar o código.”
Os outros murmuravam, falavam em protocolos, sensores, rota de emergência. Mas ele mal
ouvia.
Ele era só mais um — um homem destruído pela queda da civilização, pela morte da
esposa, pelo silêncio que invadia a mente quando a dor era grande demais.
Quase desistiu.
A lembrança era viva: um dia chuvoso, nas ruínas de uma estação de metrô. Rafe tremia,
com uma seringa na mão. Elias apareceu como um fantasma — molhado, sujo, mas com os
olhos acesos como fogo.
— “Se você vai morrer, pelo menos entenda por quê o mundo precisa de você.”
Mostrou que a ciência era mais que fórmulas — era redenção. Era grito. Era resistência.
— “Você é meu último argumento, Rafe. Não me faça perder essa discussão.”
E ele só conseguia segurar a borda da mesa, com os nós dos dedos brancos, sem saber se
rezava ou amaldiçoava.
O espaço era oval, com paredes de vidro blindado e cortinas translúcidas semicerradas. No
centro, uma mesa escura de nanoferro, com cadeiras estofadas que rangiam discretamente
a cada movimento. As luzes no teto oscilavam, algumas piscavam como se o próprio
sistema elétrico hesitasse.
Elias costumava sentar na cabeceira. A poltrona ainda estava lá, empurrada para trás,
levemente girada para o lado — como se ele fosse voltar a qualquer momento.
Amara mantinha os olhos fixos em um dos monitores da parede, onde pulsava um mapa
térmico dos túneis inferiores. Rafe, com as mãos entrelaçadas na nuca, encarava o teto,
como se esperando alguma resposta vinda do concreto. Kesler mantinha-se de pé, braços
cruzados, expressão distante.
Noah e Elias estavam lá embaixo. E eles aqui, presos na superfície, com quinze bebês
monitorados em incubadoras especiais.
O Projeto Gênesis estava em seu ponto mais crítico. E ninguém sabia o que fazer.
— São irreversíveis. — cortou Kesler, fria. — E se o bebê 01 estiver vivo, como disseram...
como ele disse... então talvez estejamos forçando algo que já está acontecendo
naturalmente.
Um leve tremor sacudiu o chão, como se algo se movesse nos túneis abaixo.
E então, o monitor principal mudou. Um novo ponto de calor apareceu, forte, pulsante…
— Câmera do setor C-07… está se ativando. — sussurrou Amara.
A fricção do metal contra o tecido dos uniformes gerava faíscas ocasionais. O ar tornava-se
mais denso à medida que desciam.
Impacto.
Os dois caíram sobre uma superfície macia e irregular, que parecia feita de um tipo de lodo
orgânico. O chão pulsava sob suas botas.
— Chegamos.
Um salão subterrâneo, coberto por raízes longas que desciam pelas paredes, se
entrelaçando com tubulações antigas e estruturas corroídas. O teto era tão alto que as
lanternas mal alcançavam o fim. Havia espelhos quebrados nos cantos, vestígios de
câmeras antigas, e tubos de contenção estilhaçados.
Apenas o som dos próprios passos e das respirações abafadas pelos capacetes.
— Isso não está nos mapas do complexo — murmurou Elias, passando a mão por uma das
paredes, onde símbolos circulares estavam gravados, quase infantis, mas cheios de
simetria e padrões matemáticos.
Noah apontou.
— Está funcionando.
O vidro escuro se fechou com um chiado mecânico, ocultando a visão dos bebês. Ainda
assim, nenhum dos cientistas se moveu por alguns segundos.
Silêncio.
A sala de reuniões era fria, angular, feita de aço reciclado e concreto. O teto abobadado
sustentava tubos de ventilação onde o vapor escapava de tempos em tempos, como se o
laboratório também respirasse.
Pelas paredes, painéis antigos mostravam dados em tempo real dos batimentos cardíacos,
variações hormonais, e — o mais recente — atividade neural anormal.
Kesler, pálida, ainda fitava o vidro fechado, como se os olhares dos bebês tivessem
atravessado sua pele.
— Impossível? — Rafe virou-se para ela. — Estamos lidando com estruturas cerebrais que
dobram a densidade da nossa em menos de uma semana de vida. Se isso não for
consciência, o que é?
— Isso pode ser efeito colateral do último soro — insistiu Noah, pela tela holográfica. Sua
voz, transmitida da descida, estava distorcida pelo sinal fraco, mas firme. — Talvez os
compostos estejam ativando sinapses mais cedo. Ainda é ciência.
— E se esperarmos?
— Esperar? — outro cientista bufou. — Para quê? Para que cresçam mais? Para que
dominem a linguagem em uma semana e descubram que nós somos os carniceiros?
— Elias ia querer que mantivéssemos o plano — disse Rafe, com a voz baixa.
— Elias não está aqui. — respondeu Kesler, firme. — E ele não viu o que nós vimos.
Todos se entreolharam.
Aquela era a primeira vez que alguém questionava abertamente a liderança de Elias.
E o peso disso fez a sala se calar de novo.
— “O esgoto... é perigoso.”
— “Em alguns meses… tudo se revela.”
Kesler empalideceu.
— Foi... um deles.
O som metálico do escorregador havia cessado.
Por alguns segundos, só havia a respiração ofegante dos dois homens, abafada pelas
máscaras do traje de contenção.
O facho de luz atravessou o ar denso e revelou o ambiente — e ele era tudo o que
esperavam… e pior.
Noah não respondeu de imediato. Seu olhar estava preso a uma parede próxima, coberta
por marcas.
Marcas feitas por mãos pequenas.
Elias se aproximou.
Sim. Era linguagem. Primária, rudimentar… mas reconhecível.
Símbolos infantis, rabiscos que se organizavam em repetições. Como se alguém — ou
algo — estivesse tentando comunicar.
Continuaram andando. O corredor se estendia, cada vez mais escuro. As luzes dos
capacetes piscavam esporadicamente, como se a presença deles interferisse no campo
magnético local.
Noah parou.
— Tem algo aqui. À frente.
Ambos se posicionaram. Elias ajustou a lanterna, e o foco iluminou o que parecia uma
estrutura circular — uma antiga câmara de descarte biológico, segundo os mapas internos.
Mas estava aberta. E tinha marcas.
E atrás dele…
Movimento.
Rápido. Pequeno. Escondido.
Mas real.
E então, uma voz — não pelos alto-falantes, não gravada. Uma voz ali, presente, viva.
— Vocês voltaram.
E observava.
O esgoto não era só um encanamento gigante. Era uma cidade morta debaixo do mundo.
— Não lembrava disso ser tão… vasto — murmurou Noah, a voz abafada pelo capacete.
Elias respondeu com um aceno curto. Seus olhos estavam fixos em uma parede
parcialmente corroída, onde símbolos infantis estavam gravados com o que parecia ser…
sangue seco.
— Essa parte foi construída antes do colapso — disse ele, finalmente. — Era uma seção de
descarte genético. Depois que os recursos acabaram… virou cemitério de tentativa.
Silêncio.
Os dois seguiram. A luz revelava tubos retorcidos, paredes com manchas escurecidas e
antigas mensagens de alerta: "Nível 4 de contenção – acesso proibido".
Mas o que chamava a atenção eram os objetos pessoais esquecidos: um urso de
pelúcia, uma chupeta derretida, pedaços de cobertores costurados com símbolos em
formas geométricas repetitivas.
— É tudo loucura, Noah. A humanidade viveu loucamente por décadas. Gastamos bilhões
criando corpos perfeitos, programando genomas, forçando a evolução. Mas quando os
bebês começaram a nascer diferentes… a gente os jogou aqui.
— Como lixo.
Eles pararam diante de uma bifurcação. O túnel da esquerda parecia mais escuro, mas
menos sujo. O da direita… tinha pegadas. Pequenas, múltiplas, indo e vindo.
Noah hesitou.
O corredor seguinte era mais baixo, obrigando-os a se curvarem. As paredes estavam mais
úmidas, cobertas por uma gosma acinzentada que pulsava sutilmente ao toque da luz.
De repente, um som.
Baixo. Rítmico.
Noah congelou.
— Ouviu isso?
— Eles se comunicam?
Rápida.
Pequena.
Mas observadora.
Kesler olhava fixamente para o monitor. Dois pontos vermelhos se moviam silenciosos no
subterrâneo — Elias e Noah.
— Eles já estão além da Zona 4 — sua voz soou abafada, quase um sussurro. —
Depois disso, não há sensores.
A câmera mostrava o que parecia impossível: um bebê, imóvel, olhando fixamente para a
lente por quatro minutos.
— Isso é recente?
Então, o alarme soou baixo, quase imperceptível. Linhas de código começaram a surgir na
tela.
Desconhecido_Origem: //ZONA-06
Mensagem: “VCS ACHAM Q SOMOS SÓ CARNE?”
Todos congelaram.
— “Vocês acham que somos só carne?” — Kesler leu, incrédula. — Meu Deus...
— Isso não é nosso sistema. Alguém está usando a rede antiga, desativada há anos.
— Isso é uma comunicação, certo? — perguntou Amara, sentando-se devagar.
A luz da sala oscilava entre branco e âmbar, enquanto as telas continuavam a mostrar
mensagens do que deveria estar morto.
— Elias sempre disse que o 01 era diferente. Ele falava em ‘respostas nos olhos’...
Rafe explodiu.
— Isso é ridículo! São fetos mutantes, não profetas! Achar que um bebê descartado
nos manda mensagens?
— Rafe, você viu o 47B. Aquela criança sabia que estávamos observando. Sabia onde
olhar.
— Elias está obcecado! Quer ver consciência onde só há falha genética! E agora foi
se enfiar num túmulo, levando Noah junto!
Elias observava em silêncio, os dedos pairando sobre a tela do console. Era a décima sexta
semana. Tempo demais para respostas motoras, tempo de menos para qualquer tipo de
cognição
Registro ativado: 02:14 AM. Terminal Offline. Câmera local. Áudio criptografado.
O Dr. Elias falava com o gravador como se fosse um confessionário. Estava sozinho no
Setor Neonatal, sob a luz fraca das lâmpadas de manutenção, enquanto gotas de
condensação escorriam pelas paredes do tubo que abrigava o Experimento 01.
— Semana 16.
— Desenvolvimento neurológico adiantado em mais de 60%. Nenhum erro estrutural
aparente. Crescimento ósseo simétrico. Formação da íris concluída.
(Pausa)
— …Mas é o comportamento que me assusta.
Ele se levantou lentamente, aproximando-se do vidro do útero artificial. Do outro lado, o feto
parecia mais imóvel do que o normal. Quase em transe.
Elias digitou algo em seu painel: uma pergunta simples, usada em testes de cognição
básica:
O embrião não se moveu. Mas seu batimento cardíaco, visível no monitor, se ajustou ao
padrão da pergunta falada.
O feto girou lentamente dentro do líquido. Seus olhos — vermelhos desde a formação
do cristalino — ainda não deviam reagir à luz. Mas eles se voltaram para Elias.
Focados. Lúcidos.
O feto mantinha os olhos semiabertos. Elias sabia reconhecer — ele estava acordado.
Sempre estava.
Em vez disso, ele passou a usar códigos internos. Mensagens curtas. Repetitivas. Como
um alfabeto primitivo, testando padrões de piscadas, movimentos dos dedos, reações da
íris.
Naquela noite, ao repetir a sequência “3-1-4” — a combinação que usava para acionar
protocolos básicos — o 01 bateu com o pé no vidro. Três vezes.
Depois quatro.
Elias se congelou.
Mais silêncio. O feto sorriu de novo. Não era um espasmo muscular. Era cálculo. Era
intenção.
— Você entendeu.
(Voz baixa, abalada)
— Você está... aprendendo com a gente. Nos estudando.
Ele encostou a mão na cápsula. E do outro lado, a mão minúscula do 01 se ergueu.
Encostou na dele. Pela primeira vez.
Mas o olhar…
O olhar era velho.
Antigo.
Como se carregasse uma memória que Elias não compreendia.
— Nada desde a Zona 6. Nenhum ping de retorno. Nem áudio. Nem vídeo. Nem
batimentos.
Rafe se recostou na parede, com as mãos nos bolsos do jaleco, olhos fundos.
— Talvez não consigam — disse Amara, com a voz baixa, mas firme. — Ou talvez... não
queiram.
Rafe a encarou.
— Estou dizendo que ele entende algo que a gente se recusa a enxergar — respondeu
Amara. — E se eles... não forem nossos inimigos?
Kesler se adiantou.
— Eles mataram uma equipe inteira da segurança em fevereiro. Você chama isso de
comunicação?
Amara rebateu.
— Ele deixou registros ocultos. Cifrados com o protocolo "Ruído". O mesmo que ele usou
quando o 01 ainda era só um feto.
(silêncio)
“Ela não é como o sono. É… uma despedida que não pode ser desfeita.”
— O Noah foi por vontade própria — disse Amara. — Ele sempre acreditou no 01.
Kesler ampliou o mapa holográfico. Indicou três pontos em vermelho — os setores onde as
mensagens foram interceptadas.
— Responder? Com o quê? “Desculpa por ter tentado eutanasiar vocês por cinco anos”?
Mensagem: “NÓS SOMOS O ESPELHO. VOCÊS É QUE NÃO SABEM O QUE SÃO.”
— CHEGA! Chega dessa palhaçada filosófica! Isso não é poesia! São MONSTROS!
— A gente alimentou essas coisas, incubou, monitorou — e agora eles estão brincando
com a nossa culpa?!
Ele chutou a base de um dos projetores, que piscou e quase tombou. O zumbido das luzes
acentua cada palavra dele como um eco do desespero.
— A gente precisa cortar isso agora! Trancar tudo, selar as Zonas 5 e 6, cortar a maldita
energia residual! E, se possível, explodir o corredor de acesso!
— E que fiquem! — gritou Rafe, os olhos arregalados, o suor escorrendo pelo pescoço. —
Se você ainda acha que dá pra dialogar com uma espécie que manda enigma por terminal
morto... então você merece ser a próxima a ser estudada!
— Tentando?! — Rafe deu uma risada histérica. — Eles nos invadiram psicologicamente,
sabotaram nossos sistemas, manipularam nossa rede inativa...
(Olha para ambas com os olhos arregalados)
— Isso é domínio tecnológico. Isso é premeditação. Isso é GUERRA!
Ele deu as costas, pegando o tablet pessoal e saindo da sala com passos duros.
— Me avisem quando decidirem que a sanidade ainda importa.
Silêncio.
— Ele está errado — disse ela. — Mas está com medo. Como todos nós.
Amara cruzou os braços, olhando para o mapa ainda projetado no centro da mesa.
Noah caminhava à frente, com a lanterna presa ao ombro e uma mão no coldre da arma de
pulso.
— Estamos entrando na Zona que deveria estar... selada — disse ele, observando as
paredes.
— Nenhum dos mapas mostra essa parte.
Elias vinha logo atrás, o tablet iluminando um código binário que se repetia em um padrão
estranho nas paredes.
Era uma sala circular, escavada no próprio solo, com símbolos marcados com algo que
parecia sangue seco misturado à ferrugem. No centro, algo flutuava: uma cápsula antiga
da Iniciativa, aberta, quebrada... vazia.
E ao lado dela...
...um brinquedo infantil. Um ursinho.
— Isso é um altar.
Uma voz infantil ecoou pelas paredes, suave como um canto de ninar.
Amara entrou devagar, sem dizer nada. Fechou a porta atrás de si.
— Veio me convencer?
(Voz seca)
— Porque se veio, pode poupar fôlego. Não vou ser o próximo Elias.
Amara respirou fundo. A sala tinha cheiro de ferrugem, suor e café velho.
— Conversar.
(Virando-se, finalmente)
— Conversar sobre o quê, Amara? Sobre como a gente ajudou a nascer a coisa que vai
substituir nossa espécie?
(Pausa, olhos pesados)
— Ou sobre como você ainda acha que Elias não está completamente comprometido?
— Elias não está comprometido — disse ela, firme, mas com os olhos marejando.
— Ele está tentando entender.
— Entender o quê? — Rafe levantou-se de repente. — Que a criatura que a gente jogou no
esgoto voltou alfabetizada? Que ela fala por terminal morto? Que ela lembra o que você
disse na sala neonatal há DEZESSEIS SEMANAS?
Amara tentou responder, mas a voz não saía. As lágrimas escorriam em silêncio.
— Rafe... eu ainda acredito que há uma chance de entender o que eles são. De resolver
isso sem guerra.
Ela levou a mão ao rosto, tentando conter o choro, e saiu, sem dizer mais nada.
Ela sentou na cadeira central com um cansaço que parecia vir de dentro da alma. Os olhos
ainda úmidos, mas agora fixos em uma imagem parada: a do Experimento 01,
recém-nascido, na cápsula de contenção.
— Você está fazendo cálculos que nem mesmo os algoritmos da IA entenderam — disse
ele, com um tom leve. — Isso é genial ou desespero?
Ele se sentou ao lado dela, no chão mesmo. Estava cansado também, mas com aquele
olhar calmo de quem acredita em coisas grandes.
Era resolução.
— Eles estão aprendendo... com linguagem. Com imagens. Com intenção — murmurou.
— Isso não é só evolução. Isso é projeto. Isso é... resposta.
A última gravação ativada mostrava o 01, semanas antes do descarte. Ele estava acordado,
cercado por sensores desligados. Nenhum som, nenhuma luz. Mas os lábios dele... se
moviam.
Como se sussurrasse.
E congelou.
— Isso é... meu nome?
Mas então, como uma batida sutil no fundo do sistema, algo piscou no canto da tela.
AMARA
AINDA LEMBRAMOS DO QUE VOCÊ CANTAVA
Eles lembravam.
Eles lembravam.
Um arrepio gélido percorreu a espinha de Elias. Seus olhos se fixaram no ursinho — antes
um brinquedo inocente, agora um símbolo pesado, carregado de lembranças e presságios
sombrios.
Noah apertou o coldre da arma de pulso, os músculos tensos. O silêncio ao redor parecia
respirar, uma respiração lenta e profunda que fazia o musgo pálido nas paredes pulsar
como um coração oculto.
— “Isso não é normal.” — sua voz saiu baixa, mas firme. — “Eles estão aqui.”
A cápsula quebrada no centro parecia vibrar com uma energia quase vital, um eco distante
de uma vida esquecida.
Noah iluminou os símbolos ao redor com a lanterna, mas as palavras mudavam, como se
estivessem vivas, se adaptando para esconder e revelar em igual medida.
— “Precisamos ir mais fundo.” Elias falou, olhando firmemente para Noah. — “A verdade
está aqui.”
Mais uma vez, a voz infantil reverberou pelas paredes, desta vez atrás deles, como um
sussurro venenoso:
O silêncio que se seguiu foi um peso esmagador, quebrado apenas pela respiração
ofegante dos dois.
Eles avançaram, passos cuidadosos e lentos, guiados por uma luz trêmula e pelo peso de
um destino desconhecido.
A luz vacilante das lanternas projetava sombras inquietantes, que dançavam sobre
desenhos complexos — mapas? Mensagens? Era impossível decifrar.
No centro, um tapete de musgo pálido se estendia sobre o chão úmido. Elias ajoelhou-se,
tocando o musgo que parecia pulsar sob seus dedos, respirando em sincronia com ele.
— “Isso não é só biologia, Noah.” — disse em voz baixa, reverente. — “É cultura. História.
Eles deixaram algo para nós.”
Noah permaneceu em pé, os olhos atentos, a arma firme. Seu olhar varreu o ambiente,
buscando qualquer sinal da presença invisível.
— “Isso é loucura! Estão lidando com algo que não compreendemos! Precisamos isolar a
Zona Subterrânea imediatamente!”
— “Só não quero que Elias e Noah morram por nossa hesitação.”
A lanterna de Noah tremia, seus olhos arregalados, atentos a cada som, a cada movimento
invisível.
— “Este lugar…” murmurou Noah, a voz baixa, quase um sussurro — “deveria estar
interditado. Por que ninguém nos avisou?”
— “Não são marcas comuns.” — disse, inclinado sobre as inscrições — “Isso é uma
linguagem antiga. Talvez uma mensagem.”
Noah ergueu a lanterna, mas nada havia além da escuridão que parecia se fechar.
O frio no subterrâneo parecia ter se entranhado em seus ossos. Ele não conseguia sacudir
a sensação de estar sendo observado, julgado. Sua mente corria, tentando encontrar uma
saída que ainda parecia longe.
Parou abruptamente e virou, ofegante, encarando a escuridão de onde Elias ficará para
trás.
— Você vai se arrepender de insistir nisso. Eu sinto que isso aqui vai nos destruir.”
Um soluço preso tentou escapar. Noah fechou os olhos por um instante, buscando controlar
o desespero que o consumia.
Seus dedos tremiam ao redor da arma. A segurança, até então um peso em sua cintura,
agora era a única âncora na realidade que ele ainda podia tocar.
Mas lá no fundo, uma voz menor, quase sussurrada, dizia que talvez fosse tarde demais
para recuar.
[CENA – ZONA SUBTERRÂNEA 5 – TÚNEL PRINCIPAL – ELIAS]
Elias observava Noah, a respiração acelerada, os olhos cheios de angústia. Mas ele
permanecia calmo, a mente cristalina diante do medo que consumia o amigo.
— “Noah, escute.” — disse, a voz firme, mas serena — “Se voltarmos agora, nunca
saberemos o que está acontecendo de verdade aqui. É fácil fugir do desconhecido, mas o
que vamos fazer com as respostas que deixamos para trás?”
— “Eu não sinto medo, não porque não saiba o que enfrentamos, mas porque entendo o
que está em jogo. Eles não são só ‘algo’ para temer. São parte de uma nova realidade que
precisamos compreender, antes que ela nos consuma.”
— “Temos que continuar. Pela verdade, por Noah, por todos nós.”
Seu olhar era intenso, carregado de uma convicção que parecia atravessar as sombras do
túnel.
Ele sacudiu a cabeça, a respiração pesada — os olhos brilhando de uma mistura de pânico
e dor —
— “Eu quero voltar. Quero sair daqui antes que esse lugar nos destrua de verdade. Se não
pararmos agora, não sei se vamos ter coragem para continuar depois.”
Elias manteve a calma, mas dentro dele uma pontada de tristeza floresceu ao ver o amigo
se despedaçando diante do abismo do medo.
— “Noah,” ele disse, com uma voz firme, porém compassiva — “coragem não é a ausência
do medo. É a decisão de que algo é mais importante que ele. E o que está aqui é maior que
nós dois.”
— “Eu preciso que você acredite nisso. Não só por mim, mas por todos que vieram antes e
por aqueles que ainda virão.”
— “Então eu vou segurar você, até que a gente encontre uma saída juntos.”
O silêncio que seguiu foi pesado, carregado de uma esperança tênue em meio ao
desespero.
O silêncio que se seguiu após a última mensagem era quase ensurdecedor, como se o
próprio ar aguardasse a próxima decisão. As luzes piscavam, lançando sombras trêmulas
no rosto dos presentes, refletindo o conflito interno que cada um carregava.
— “Amara, eu entendo sua esperança, mas a ciência nos diz que estamos lidando com algo
além do controle. Eles podem estar vivos, sim, mas o que quer que seja pode ser... perigoso
demais. Estamos falando de uma forma de vida que está nos julgando.”
— “Ninguém aqui deseja perder os nossos. Mas agir por medo não vai garantir a segurança
de ninguém. Precisamos de um plano sólido, que inclua monitoramento extremo,
comunicação contínua e preparação para qualquer eventualidade.”
Rafe desviou o olhar, respirando fundo antes de se afastar da mesa, a mente tomada por
dúvidas e a urgência de proteger seus colegas.
Amara permaneceu, olhando para a tela, o semblante misto entre esperança e temor.
Kesler permaneceu em silêncio, ciente de que, dali em diante, não haveria volta.
[CENA – SALA DE REUNIÕES – LABORATÓRIO – CONTINUAÇÃO]
— “Eu não posso ficar aqui parado enquanto Elias e Noah estão lá embaixo, entrando numa
armadilha. Se eles morrem, essa pesquisa toda morre com eles!”
— “Você não entende, Amara. Não é só ciência pra mim. São pessoas. Eu não vou deixar
eles morrerem.”
Sem esperar resposta, Rafe saiu da sala com passos firmes, deixando Amara e Kesler em
silêncio, os rostos marcados pela preocupação e pelo peso da responsabilidade.
A sala mergulhada em penumbra, iluminada apenas pelo brilho oscilante dos monitores. O
ar parece mais pesado do que o habitual, carregado de uma tensão invisível.
Kesler e Amara permanecem ali, imersas nos dados e nas mensagens criptografadas
vindas do subterrâneo, tentando encontrar algum padrão, alguma pista.
De repente, o monitor que exibia a lista dos experimentos ativos pisca rapidamente — e
uma linha desaparece.
— “Não. Está certo. O sistema nunca errou antes. Alguém... ou algo... está faltando.”
Um silêncio pesado toma conta da sala, quebrado apenas pelo zumbido do sistema de
energia.
De repente, um leve sussurro parece escapar das sombras, tão baixo que quase passa
despercebido.
Nenhuma resposta.
Mas a sensação de que algo está ali, invisível e observando, cresce como uma sombra
dentro da sala.
Um último olhar para o monitor revela uma mensagem nova, não codificada, simples e
direta:
“FALTA UM.”
A sala parece gelar, e as luzes piscam, como se o próprio laboratório respirasse com medo.
A tensão cresce. Kesler e Amara trocam olhares rápidos, o instinto dizendo que algo não
pode ser explicado apenas por dados ou falhas técnicas.
Kesler a segue, ambas com passos cuidadosos, conscientes de que qualquer ruído pode
denunciar sua presença.
No corredor principal, uma série de cápsulas com os bebês — todas com os sistemas
normais, menos uma.
Um som sutil, quase imperceptível, ecoa — um murmúrio, um sussurro quase como uma
respiração.
O silêncio se quebra com um ruído distante, metálico, como se algo pesado tivesse se
movido atrás das paredes.
Noah e Elias lá embaixo, a sala cheia de cientistas, e agora eles — com um perigo invisível,
que já está entre eles.
Amara trocou um olhar rápido com Kesler antes de responder, tentando manter a calma.
— “Rafe, encontramos um problema sério. Em vez dos quinze bebês esperados, temos
apenas quatorze. A cápsula 01C está vazia.”
Ele respirou fundo, tentando controlar a fúria que ainda queimava em seu peito.
— “Se vão continuar com essa loucura, então façam isso sozinhos. Eu não vou ficar aqui
esperando o desastre acontecer.”
Sem esperar resposta, Rafe virou-se e saiu, a porta batendo com força atrás dele, deixando
um silêncio pesado na sala.
Noah (sussurrando):
— “Estamos indo cada vez mais fundo. Isso não está no mapa.”
De repente, o rádio de Elias chia. Uma voz infantil, distorcida, ecoa por milésimos de
segundo:
Ambos congelam. A luz da lanterna oscila. Noah tropeça... e vê uma figura deitada a alguns
metros, de costas.
Noah recua, o coração batendo acelerado, a lanterna tremendo na mão. Elias se aproxima,
a expressão endurecida.
— “Quem quer que esteja aqui, sabe mais do que imaginamos. E eles querem que a gente
saiba também.”
Os símbolos vermelhos nas paredes parecem brilhar com uma luz própria, pulsando no
ritmo do coração de Noah.
Ele engole em seco e segue em frente, sabendo que, dali para frente, não haverá volta
Noah puxou a respiração funda, sentindo o peso do ar úmido encher seus pulmões. O
corredor diante deles se alongava como uma ferida aberta, sujo e abandonado, mas vivo
em seus próprios mistérios.
Elias manteve os olhos fixos nas marcas vermelhas, os dedos quase tocando a parede —
como se, de alguma forma, pudesse decifrar o que aquelas linhas tortuosas queriam contar.
— “Se eles querem se comunicar, talvez seja porque precisam de ajuda.” — Noah
murmurou, o medo cedendo espaço a uma faísca de esperança.
— “Ou talvez seja uma armadilha. Mas não podemos recuar agora. Não depois do que já
vimos.”
A lanterna iluminou algo no chão — um pequeno objeto metálico, quase escondido entre os
destroços. Noah se abaixou e pegou, revelando um pendrive com marcas desgastadas.
— “Isso pode ser uma pista. Ou um convite. De qualquer forma, é a única coisa que temos.”
Os dois continuaram a caminhar, cada passo mais pesado, cada som mais tenso, enquanto
o silêncio se tornava uma presença inquietante — um lembrete de que, no subterrâneo, eles
não estavam sozinhos, e que o verdadeiro jogo estava apenas começando.
Noah guardou o pendrive no bolso, sentindo o frio do metal contra a pele. O túnel parecia se
estreitar, as sombras ganhando formas indecifráveis nas paredes úmidas. Um silêncio
pesado pairava no ar, quase como se o próprio lugar respirasse junto com eles.
Elias apertou o passo, puxando Noah pelo braço com urgência contida.
— “Temos que encontrar um lugar seguro para analisar isso. Esse pendrive pode conter
respostas — ou armadilhas.”
Noah assentiu, o coração pulsando forte, misturando medo e expectativa. À frente, um som
abafado, um eco distante de passos que não pertenciam a nenhum deles, fez o peito
apertar ainda mais.
Eles se esconderam atrás de uma grande viga caída, o silêncio agora rompido por
respirações entrecortadas e um sussurro inaudível que parecia flutuar no ar.
O túnel parecia se fechar em volta deles, e naquele instante, a linha entre a esperança e o
desespero se tornou tão tênue quanto o fio de luz da lanterna em suas mãos.
O silêncio foi rasgado por um grito distante, angustiado e cortante, que reverberou pelo
túnel como uma sombra viva. Noah e Elias trocaram um olhar rápido, o medo tornando-se
palpável, quase sufocante.
— “Isso não é só um aviso...” — murmurou Elias, a voz carregada de pressentimento — “É
um chamado para o que ainda está por vir.”
o ar vibrava com uma tensão quase elétrica. Amara, Kesler e Rafe se reuniam em
torno dos monitores, olhos fixos nas imagens instáveis e dados que piscavam
freneticamente. O desaparecimento da cápsula 01 ainda era um mistério que
ameaçava consumir todos.
— “Eles estão lá embaixo, sozinhos, sem saber o que enfrentam. Se algo aconteceu
com a cápsula, o pior ainda pode estar por vir.”
Amara fechou os olhos por um instante, buscando equilíbrio, depois falou com
convicção:
O silêncio que se seguiu foi mais assustador que qualquer grito nos túneis.
— Recuar não é uma opção. Eles estão lá embaixo, e se não formos atrás,
estaremos condenando tudo o que construímos. A ciência, a esperança, eles.
— Mas a linha entre esperança e loucura está desaparecendo rápido demais. Não
sabemos o que enfrentamos — e se já estiver dentro do laboratório?
Um zumbido súbito tomou conta da sala. A frequência dos monitores começou a
falhar, ruídos distorcidos invadiram os alto-falantes e, no meio do caos, uma nova
mensagem apareceu no visor, em letras vermelhas, pulsando com uma urgência
quase ameaçadora:
Amara olhou para Rafe e Kesler, os olhos cheios de uma certeza que não desejava
ter:
— Não estamos mais lidando com experimentos. Estamos lidando com algo vivo,
inteligente… e perigoso demais para controlar.
Elias está ajoelhado no chão, mãos trêmulas, olhando para o que restou da família.
Kesler está ao seu lado, o rosto tenso e olhos marejados.
No fundo, sons distantes de grunhidos animalescos, ecos do vírus que tomou tudo.
Elias levanta lentamente, o olhar vazio. A voz sai baixa, quase um sussurro:
— “Não havia escolha... Eles não eram mais eles. O vírus... transformou tudo.
Minha mãe, meu pai... meus irmãos... todos...”
— “Aquela noite mudou tudo. O pai de Elias... ele tentou criar um soldado perfeito,
algo para proteger... mas criou um monstro.”
— “Eu... eu tive que acabar com eles. Com as minhas próprias mãos. Eu matei
minha família para salvar o que restava do mundo.”
— “E desde então, carregamos esse peso. É por isso que não podemos falhar com
esses bebês. Eles são nossa última chance de redenção.”
Um grunhido intenso invade a cena, e Elias se prepara, as mãos cerradas em
punhos.
O silêncio é quebrado por um gemido baixo, vindo do quarto ao lado. Elias se vira
lentamente, o rosto marcado pela exaustão e medo.
— “Eles... ainda estão vivos, de algum jeito. Presos entre o humano e a besta.” —
ele sussurra, quase não acreditando no que vê.
Ele engole em seco, as mãos tremendo ao puxar uma arma enferrujada do chão.
— “Foi a nossa última linha. A dor de quem teve que sacrificar o que mais amava
para tentar salvar um mundo moribundo.”
O flash corta para imagens rápidas — corpos deformados, olhos vazios, famílias
dilaceradas. O som ecoa, um misto de gritos e lamentos, sobreposto à respiração
pesada de Elias.
— “Por isso eu não posso desistir. Esses bebês... são tudo o que resta para mudar
o destino.”
A casa, antes cheia de risos, agora se transforma num palco de horror. O ar pesado
cheira a sangue e desespero. O chão está manchado, paredes marcadas por
arranhões profundos.
Elias observa em silêncio, a respiração presa, enquanto sua mãe, contorcida numa
postura inumana, emite sons guturais — um misto de choro e rosnado. Os olhos
dela brilham num amarelo estranho, faminto, vazio.
Kesler segura o braço de Elias, tentando ser a âncora que o mantém em pé.
— “Foi uma falha do pai... ele tentou criar um soldado perfeito, uma arma viva, mas
o vírus escapou, se espalhou rápido demais.”
— “Ele não é mais minha mãe. Nem mesmo uma sombra dela.” — a voz falha,
sufocada pela dor.
Uma batida surda ecoa do andar de cima. Elias sobe, o coração batendo como um
tambor, e encontra seu pai, desfigurado, corpo deformado, mas ainda com lampejos
de consciência.
— “Me desculpe.” — ele diz, voz quebrada — “Eu não queria isso. Mas se não for
eu... será outra pessoa.”
— “Mas é essa culpa que nos move. Se não protegermos esses bebês, todo
sacrifício foi em vão.”
A lua está encoberta por nuvens densas, e o silêncio da vila é quebrado por gritos
distantes, abafados e desesperados. Casas queimam, portas são arrombadas,
sombras distorcidas correm freneticamente pelas ruas estreitas.
Uma figura rasteja nas sombras, o corpo grotescamente deformado, olhos brancos
como ossos, dentes afiados expostos numa mímica cruel de sorriso. Seu andar é
instintivo, quase animal, apoiado nas mãos e nos pés, transformado em uma fera
irracional.
— “Não podemos salvá-los... apenas fugir,” — diz Kesler, puxando Elias para longe,
enquanto a dor e o desespero se misturam em seu olhar.
Ao longe, a casa de Elias está em chamas. Lá dentro, a família está presa, vítimas
do vírus, transformados em horrores que só reconhecem a sede de sangue.
— “Eu tenho que acabar com isso. Com eles. Eu não posso deixar que eles me
matem... ou que matem mais alguém.”
Elias não responde. Sua mão empunha uma arma trêmula, os olhos perdidos entre
lágrimas e determinação.
Ele entra na casa, enfrentando os monstros que já foram seus pais, seus irmãos,
seus amigos.
A vila está tomada por um silêncio sepulcral entrecortado por gritos distantes e sons
de destruição. As chamas iluminam rostos de horror e desespero, enquanto
sombras deformadas arrastam-se pelas ruas lamacentas. O ar tem um cheiro
metálico, pesado, misto de sangue e queimado.
Elias caminha ao lado de Kesler, seus olhos fixos no horizonte onde a vila, seu lar,
se desfaz em caos. O som de garras arranhando concreto e gemidos animalescos
ecoa atrás deles.
Kesler, pálido, explica numa voz trêmula: “Foi o projeto do pai de Elias. Ele tentou
criar um super soldado — uma arma viva, capaz de resistir a qualquer dano. Mas o
vírus... ele fugiu do controle.”
Elias sente a garganta queimar. Kesler segura seu braço, puxando-o para continuar.
Mas então, um grito agudo corta o ar. É o som da casa de Elias. Ele para. Seu corpo
todo estremece.
Kesler o encara, silencioso, sabendo que nada pode preparar Elias para o que virá.
Elias corre, a respiração cortada, até a casa envolta em chamas. A porta está
trancada, mas ele arromba com um chute, enfrentando um turbilhão de monstros —
sua mãe transformada, com braços retorcidos e olhos vazios, avança como fera
faminta.
O olhar dela, mesmo bestial, ainda guarda um vestígio de humanidade. Elias hesita,
a dor dilacerando seu peito.
Um a um, ele derruba os que foram seus entes queridos, lutando contra um
sofrimento que ninguém deveria suportar.
“Você fez o que tinha que fazer. Mas isso vai nos perseguir para sempre.”
O vírus, criado para domar a guerra, tornou-se a maior ameaça — uma praga que
engoliu a humanidade, transformando pessoas em monstros irracionais, guiados só
pelo instinto de matar.
Elias entende que o preço da ciência é cruel demais. Que a linha entre salvação e
destruição é tênue e perigosa.
Ele se levanta, com um olhar decidido, mas carregado por uma sombra profunda.
Elias e Kesler sentam-se lado a lado no que restou do antigo galpão de ferramentas,
entre escombros e a névoa fina que paira no ar. O silêncio entre eles é pesado,
carregado de tudo o que não foi dito.
“Eu matei a minha família, Kesler. Cada um deles. Com minhas próprias mãos.”
“Eles já não eram mais eles,” responde Kesler, “O que restava era só o vírus, uma
ameaça para todos. Se você não tivesse agido, eles teriam matado outros.”
“Por isso estamos aqui, Elias. Para garantir que não cometamos os mesmos erros.
Para que isso nunca mais se repita. Juntos.”
Elias fecha os olhos, sentindo a mão firme de Kesler pousar em seu ombro, um
gesto de apoio que não alivia a dor, mas oferece esperança.
“Prometo que vou proteger o que resta da humanidade. Que vou lutar até o fim.”
Ele sabe que cada passo dado agora carrega o peso desse passado — e a
responsabilidade de um futuro que ainda pode ser salvo.
Sem dizer nada, ele toca uma fotografia antiga presa na parede — uma imagem em
preto e branco, com Elias e sua família, antes do desastre. O vírus que transformou
tudo, que devorou o mundo lá fora, ainda é uma sombra viva dentro dele.
“Kesler, não podemos deixar o passado nos paralisar. Aquelas decisões difíceis que
Elias teve que tomar... estão em cada passo que damos hoje.”
Kesler suspira, fechando os olhos por um segundo, depois fala com a firmeza que o
passado forjou:
“Não podemos errar de novo. Se falharmos, o que restou do mundo pode se perder
para sempre.”