PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA
é a cessação súbita da função mecânica cardíaca com consequente colapso
hemodinâmico e diminuição da oxigenação tecidual.
Caracteriza-se pela ausência de pulsos centrais (preferencialmente carotídeos) e
ausência de movimentos respiratórios.
- A lesão cerebral se inicia rapidamente em cerca de 3 minutos (se não for dada
assistência);
- A cada minuto sem RCP e desfibrilação, a sobrevida do paciente diminui em 7-10%;
- Após 10 minutos de PCR não assistida, a chance de retorno é próxima a zero.
- Quanto mais precoce a avaliação do ritmo do paciente em PCR, maior a chance de
encontrar taquicardia ventricular (TV) ou TV sem pulso (ritmos chocáveis);
- Desfibrilação precoce (3-5 minutos) aumenta a sobrevida do paciente (70%).
1) SUPORTE BÁSICO DE VIDA (BLS)
Corrente de sobrevivência: conjunto integrado de ações urgentes coordenadas
necessário para maximizar a sobrevivência.
Intra-hospitalar
Extra-hospitalar
Algoritmo do manejo na PCR - BLS
1° PASSO: Verificar a segurança da cena
- Controle de tráfego;
- Retirar a vítima do tráfego ou área de risco;
- Levar a vítima para fora d’água (em casos de afogamento);
- Tenha certeza que você e sua equipe estão seguros e não estão feridos (ou
possuem risco de ser).
2° PASSO: Avaliação da vítima e reconhecimento imediato da PCR
A) Ausência de resposta:
- Chame 3x em voz alta e toque vigorosamente nos dois ombros.
Na ausência de responsividade → CHAMAR AJUDA
● Pedir ajuda sem sair do lado da vítima;
● Solicite alguém para ligar para o SAMU (192) ou Corpo de Bombeiros (193);
● Peça para buscar e trazer um DEA.
B) Ausência de pulso central:
- Checar pulso carotídeo ou femoral e avaliar a presença de movimentos respiratórios
simultaneamente.
- Se houver dúvida ou o pulso não for detectado em até 10 segundos, a RCP deverá
ser iniciada.
Se a vítima estiver NÃO-RESPONSIVA, com movimentos respiratórios ausentes ou
irregulares (agônico ou gasping) e ausência de pulsos centrais (> 10s) = PCR
3° PASSO: Iniciar RCP precoce e de alta qualidade
(As prioridades são C:compressões → A:vias aéreas → B:respiração)
COMPRESSÕES
- Realize compressões idealmente com o paciente em decúbito dorsal horizontal,
sobre uma superfície rígida, na metade inferior do esterno (linha intermamilar),
com a palma da mão não dominante sobre o dorso da mão dominante, dedos
entrelaçados e braços completamente estendidos perpendiculares ao tórax do
paciente. Comprimir com a região hipotenar da mão dominante.
- Velocidade: 100 a 120 por minuto com mínima interrupção entre compressões;
- Profundidade: capaz de deprimir o tórax entre 5-6 cm.
- Não se apoiar no tórax do paciente, permitindo a expansão torácica após cada
compressão.
- Interrompa as compressões a cada 2 minutos, apenas para checar ritmo e pulso.
*Possíveis complicações das compressões torácicas:
Podem acontecer mesmo quando as manobras são realizadas da forma correta.
*Alternativa às compressões manuais: dispositivos de compressão mecânica:
Em algumas situações, como a escassez de profissionais ou ambientes estreitos de
difícil acesso e transporte, esses dispositivos podem aumentar a segurança e permitir que o
profissional de saúde possa focar em outros elementos da ressuscitação.
Indicações formais:
- Pouca disponibilidade de profissionais.
- RCP associada à hipotermia.
- RCP prolongada.
- RCP durante transporte.
- RCP na sala de angiografia.
- RCP durante preparação para RCP extracorpórea.
4° PASSO: Desfibrilação
A desfibrilação elétrica tem um objetivo simples: terminar a fibrilação e restaurar o
ritmo sincronizado em todo o miocárdio a partir de um foco sinusal.
No atendimento pré-hospitalar, a desfibrilação é realizada por desfibrilador externo
automático (DEA). O DEA analisa o ritmo automaticamente e indica se o choque é
necessário sem a necessidade de interpretação de ritmo.
A utilização do DEA deve seguir os passos:
● Ligar o DEA.
● Preparar o paciente e remover a roupa para expor o tórax
● Posicionamento dos eletrodos: as pás do desfibrilador devem ser
posicionadas no ápice cardíaco e na região infraclavicular direita.
● Checagem de ritmo cardíaco.
● Aplicar choque único após solicitar afastamento da equipe.
● Retornar imediatamente a RCP.
*Precauções:
- Se o paciente estiver molhado, é preciso secá-lo antes de realizar o choque;
- Interromper a ventilação, o fornecimento de oxigênio e retirar todos os objetos
metálicos e patchs de medicações do paciente para prevenir possíveis queimaduras
e incêndios.
- Para pacientes com grande quantidade de pelos é necessário realizar uma rápida
tricotomia para garantir adequado contato entre as pás e a pele.
*Possíveis complicações
VIAS AÉREAS e VENTILAÇÃO
Abertura de via aérea -
Todo paciente em PCR apresenta obstrução de VA, devido a inconsciência, perda
do tônus muscular e queda da língua.
Inicialmente, a via aérea do paciente deve ser aberta através das manobras de
head tilt-chin lift - elevação do queixo ou jaw thrust - elevação da mandíbula (se
houver possibilidade de trauma e lesão cervical). O simples ato de abrir a via aérea já pode
ser suficiente para o retorno da respiração espontânea.
Pode-se, ainda, utilizar dispositivos adjuntos da VA, como a cânula orofaríngea
(Guedel®) ou cânula nasofaríngea para manter a PATÊNCIA de via aérea.
Obstrução de via aérea por corpo estranho (OVACE)
Pacientes em parada respiratória ou com tosse ineficaz, a avaliação da cavidade
oral pode identificar a presença de secreções ou de corpo estranho.
Técnicas de ventilação
Durante a RCP em paciente sem via aérea avançada, devem ser feitas 2
ventilações (por 1 segundo cada) a cada 30 compressões de forma sincrônica, com
volume de 500-600 mL (1/3 do volume do dispositivo bolsa-válvula-máscara [AMBU]) e
maior FiO2 possível.
Em pacientes com via aérea avançada ou em RCP realizada por times de alta
performance, devem ser entregues 1 ventilação (por 1 segundo) a cada 6 segundos de
forma assíncrona, com volume de 500 mL (cerca de 1/3 do volume do AMBU) e maior
FiO2 possível.
a) Ventilação boca a boca/boca a máscara (não é tão indicada)
b) Ventilação por bolsa-
válvula-máscara (BVM): pode ser realizada por um (técnica do C e E) ou dois
socorristas.
2) SUPORTE AVANÇADO DE VIDA EM CARDIOLOGIA (ACLS)
O suporte avançado de vida envolve:
- Reanimação cardiopulmonar (RCP) de alta qualidade
- Desfibrilação.
- Suplementação de oxigênio e dispositivos de via aérea avançada.
- Acesso venoso ou intraósseo e drogas.
- Dispositivos de compressão mecânica.
- Dispositivos de oxigenação por membrana extracorpórea.
(segue as mesmas orientações do BLS)
A RCP de alta qualidade utilizando compressões torácicas, com ou sem ventilação,
é necessária até a disponibilidade do desfibrilador carregado para administração do choque.
RITMOS CHOCÁVEIS (FV e TV)
Os ritmos passíveis de desfibrilação são: fibrilação ventricular (FV) e taquicardia
ventricular sem pulso (TVsp).
a) a FV é causada
principalmente por isquemia miocárdica. É caracterizada por um tremulado
grosseiro (grossa) ou discreto (fina) da linha de base onde não se identificam
complexos QRS.
b)
TAQUICARDIA VENTRICULAR SEM PULSO → o ritmo cardíaco é comandado por
um foco ectópico localizado no ventrículo, gerando um traçado
eletrocardiográfico com ondas de grande amplitude e com QRS alargado.
*Torsades de pointes: TV polimórfica com intervalo QT longo, geralmente
associada a causas metabólicas e IAM.
ATIVIDADE ELÉTRICA SEM PULSO (AESP)
É definida pela ausência de pulso palpável na vigência de atividade elétrica cardíaca
organizada (sem necessidade de ter TODAS as ondas).
A AESP pode ser dividida em dois grupos: “pseudo-AESP” e AESP verdadeira:
● Pseudo-AESP: caracterizada por ausência de pulso central palpável em paciente
irresponsivo, mas presença de contração cardíaca visualizada no ultrassom point-
of-care (POCUS). Produz taquicardia com ondas P e complexos QRS.
● AESP verdadeira: não palpamos pulsos centrais e não visualizamos contração
cardíaca ao POCUS. Produz bradicardia com QRS largo e ausência de ondas P.
Representa a completa ausência da atividade elétrica miocárdica.
Geralmente reflete o estágio final de uma PCR não tratada ou refratária.
Toda vez que uma linha reta for visualizada no monitor, o primeiro passo é confirmar
a ausência de qualquer ritmo organizado (diagnóstico diferencial: FV fina/agônica).
Protocolo da linha reta (KGHD):
- Checar cabos e conexões.
- Aumentar o ganho (amplitude).
- Mudar a derivação.
- RCP de alta qualidade + drogas
- causas reversíveis
- Hipóxia;
- Hipovolemia;
- (H+) Acidemia (a partir de pH = 7,1);
- Hipocalemia/hipercalemia;
- Hipotermia.
- Tamponamento cardíaco;
- “Tensão do tórax” = Pneumotórax hipertensivo;
- “Trombose de coronária” = IAM
- Tromboembolismo pulmonar;
- “Tóxicos” = intoxicações exógenas
Disposição da equipe:
A) Manejo das vias aéreas
- Manter via aérea pérvia o tempo todo
- Avaliar a necessidade de via aérea avançada → a única indicação absoluta para
obtenção de via aérea avançada na PCR: ventilação ineficiente com dispositivo
bolsa-válvula-máscara ou dispositivo extra-glótico
Dispositivos que auxiliam a manutenção da via aérea pérvia sem necessidade de IOT:
- Adjuntos de VA - Cânula orofaríngea (Guedel) ou cânula nasofaríngea: deve-se
passar esses dispositivos e realizar a ventilação com o AMBU.
- Dispositivos extraglóticos - Máscara laríngea ou tubo laríngeo: também devem
ser acoplados ao AMBU. Já são considerados via aérea avançada, ou seja, aqui a
ventilação deve ser realizada de forma assíncrona.
Dispositivos utilizados para estabelecer via aérea definitiva/avançada = INTUBAÇÃO:
- Tubo oro/endotraqueal;
A intubação deve ser realizada de forma direta, NÃO SEGUINDO A SRI.
- Passagem do laringoscópio e do tubo endotraqueal.
- Não deve ser feita indução (com Midazolam, etomidato, cetamina,
- Na primeira tentativa, o bloqueio com Succinilcolina ou Rocurônio não deve ser
realizado. Somente a partir da 2ª tentativa, deve-se administrar Succinilcolina em
dose dobrada.
Dispositivo para VA difícil - Tubo esôfago-traqueal (Combitube).
B) Respiração
As técnicas de ventilação são as mesmas do BLS:
*ATENÇÃO: O AMBU deve estar acoplado a uma fonte enriquecida de O2 (Flush Rate).
- Pacientes sem VA avançada: 30 compressões : 2 ventilações de forma
SINCRÔNICA (500-600ml, FiO2 100%)
- Pacientes com VA avançada (INTUBAÇÃO): 1 ventilação a cada 6 segundos de
forma ASSÍNCRONA (500ml, FiO2 100%)
C) Circulação
Vias de administração de drogas:
- Acesso venoso: central ou periférico (primeira escolha);
- Acesso Intraósseo
- Acesso via tubo endotraqueal
Medicações mais utilizadas na PCR:
● Adrenalina (ou epinefrina)
- Dose: 1 ampola (1mg) EV (seguida de um flush de 20ml de solução
cristalóide e elevação do membro por 10s), a cada 3 a 5 minutos (um ciclo
sim/um ciclo não);
- Indicação: em ritmos não chocáveis deve ser iniciada assim que possível,
enquanto em ritmos chocáveis é utilizada após segundo choque sem
retorno à circulação espontânea (RCE).
● Amiodarona (antiarrítmico) 300mg (primeira dose - 3° ciclo) e 150mg (segunda
dose - 5° ciclo) EV em bolus, seguida de flush com SF e elevação do membro.
O objetivo da administração não é reverter uma arritmia, mas auxiliar a
desfibrilação a restaurar um ritmo perfusional organizado.
Seu uso está reservado para os ritmos chocáveis: FV e TVsp, após o 3° choque
sem RCE. Contraindicada nos ritmos não chocáveis (assistolia e AESP).
● Lidocaína (antiarrítmico): uso recomendado igual à amiodarona.
Contra-indicações:
- É contra-indicado utilizar bicarbonato de sódio para tratamento EMPÍRICO de
acidemia.
- É contra-indicado a realização de trombolisar um paciente que se desconfia de
parada por IAM, sendo indicada como um dos cuidados pós-parada após
confirmação eletrocardiográfica do infarto.
D) Diagnóstico diferencial
- Pensar nas causas mais prováveis, depois as menos prováveis (APENAS APÓS O
2° CICLO DE RCP)
- Minimizar interrupções nas compressões
- Pensar na causa da PCR, lembrando especialmente das causas reversíveis (5H’s e
5T’s) em ritmos não chocáveis.
No ambiente intra-hospitalar, os desfibriladores manuais ou semiautomáticos podem
ser monofásicos ou bifásicos.
*Obs: mesmos cuidados e precauções que o DEA (BLS)
- 1 Líder do time: organiza a equipe e atribui as funções, monitora o desempenho e deve
ser capaz de realizar todas as habilidades (nem sempre participa do processo).
- Membro da equipe: deve compreender e estar disposto e qualificado para desempenhar
seu papel, estar comprometido com o sucesso da equipe.
● 1 responsável pela manutenção da VA e ventilação;
● 1 responsável por desfibrilador;
● 1 responsável pela ressuscitação;
● 1 cronometrista/anotador
● 1 responsável pelo acesso venoso e medicações
● Comunicação circuito fechado (tripla checagem)
1°) Líder dá uma designação de forma CLARA;
2°) Membro repete a designação em voz alta e contato no olho;
3°) Líder escuta e confirma;
4°) Membro realiza a designação e reportar o resultado.
A) Garantir via aérea avançada (agora por SRI)
B) Controle dos parâmetros respiratórios:
- 10 ventilações/min;
- Manter SatO2 entre 92-98%;
- PaCo2: 35-45mm
C) Controle dos parâmetros hemodinâmicos (PAS > 90 mmHg e PAM > 65 mmHg) +
obter ECG de 12 derivações
*Se paciente hipotenso → realizar reposição volêmica
*ATENÇÃO: considere intervenção cardíaca de urgência se IAMCSST estiver
presente, houver choque cardiogênico instável ou for necessário suporte circulatório
mecânico.
D) O paciente está comatoso ou não? Se sim, realizar o protocolo de controle
direcionado da temperatura
E) Exames complementares e encaminhamentos
Debriefing
Independentemente do resultado do atendimento a um paciente em PCR, deve ser
realizado com a participação de toda a equipe envolvida, com o intuito de responder
dúvidas e implementar processos de melhoria.
1) Introdução e convocação dos envolvidos.
2) Resumo do caso.
3) Pontos positivos do atendimento.
4) Oportunidades de melhoria.
5) Sugestões de melhorias.
6) Sumarização e encerramento.