AULA 3
TOXICOLOGIA AMBIENTAL
Profª Monike Felipe Gomes
INTRODUÇÃO
Nesta aula, serão abordados os principais contaminantes do meio
ambiente, tanto os clássicos, como os metais e os hidrocarbonetos policíclicos
aromáticos, quanto os mais recentes, como os agrotóxicos e os contaminantes
emergentes. Aspectos gerais de ocorrência, toxicidade e alguns mecanismos de
transporte serão apresentados dentro do contexto ambiental.
TEMA 1 – METAIS
Todos os metais ocorrem de forma natural no meio ambiente tanto em suas
formas livres quanto na sua forma de minério. Em geral, estão associados a
estruturas rochosas e podem ocorrer naturalmente em sua forma livre por meio de
fenômenos físicos, químicos e biológicos, por exemplo, por ação de intemperismo
e oxidação biológica por meio de microrganismos. Em locais onde há a liberação
natural desses elementos, em geral, há uma adaptação ambiental para esse efeito.
Com o desenvolvimento das atividades humanas, os ciclos biogeoquímicos
naturais dos metais foram desequilibrados principalmente pelas atividades de
mineração e metalúrgica. Hoje, diversos desses metais estão presentes em
diversos ecossistemas em níveis muito mais elevados do que os toleráveis tanto
para o meio ambiente quanto para as atividades humanas. Neste tema serão
abordados os principais metais responsáveis pela poluição ambiental.
1.1 Mercúrio
O mercúrio (Hg80) em seu estado elementar possui cor prateada brilhante e
é o único metal líquido em temperatura ambiente, apresentando alta pressão de
vapor. Ele ocorre na natureza nos estados líquido, sólido e gasoso e tem três
estados de oxidação Hg0 (metálico), Hg+1 (mercuroso) e Hg+2. Os principais sais
formados são os cloretos, nitratos e sulfatos além da sua base hidróxido sendo
muitos deles solúveis em água. O mercúrio também forma organometálicos através
de ligações covalentes estáveis com o carbono, formando espécies lipossolúveis
tóxicas. Esse grupo de compostos, diferentemente dos compostos organometálicos
de outros metais, é muito estável, não sendo significativamente decomposto pelo
ar ou a água. Outra característica que confere periculosidade ao mercúrio é sua
capacidade de substituir o hidrogênio em compostos orgânicos e afinidade química
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pelo enxofre. Na célula, isso pode alterar componentes que possuem o grupo
sulfridrila, como proteínas, alterando a função e causando efeitos tóxicos.
Com relação às suas características ambientais, os compostos formados de
mercúrio podem ser voláteis, reativos e tóxicos ou pouco reativos e relativamente
inertes, sendo que qualquer uma dessas formas pode ser convertida em
metilmercúrio, que é extremamente tóxica ao homem.
Devido a todas essas características, especialmente em relação ao seu
transporte e dispersão atmosférica, o mercúrio é considerado um poluente global.
Ele está presente em todos os compartimentos ambientais mesmo distante das
suas fontes de emissão.
O pico de emissão de mercúrio se deu no início da década de 1970, sendo
produzido principalmente por meio da mineração de minerais sulfíticos, como o
cinábrio e o metacinábrio, principais fontes naturais do mercúrio. Devido às suas
características físico-químicas particulares (liquidez à temperatura ambiente,
expansão de volume uniforme, baixa resistividade elétrica, alta tensão superficial
etc.), o mercúrio foi amplamente utilizado em industrias cloro-soda, de materiais
plásticos, farmacêuticas, baterias, fungicidas, mineração e na odontologia (essas
duas últimas devido à formação de amálgama). Hoje, com o reconhecimento dos
perigos do uso do mercúrio, sua produção e consumo estão em declínio, porém a
poluição devido ao seu uso já está difundida em toda biosfera.
Os efeitos do mercúrio para os homens já eram conhecidos pelos romanos
em 2 d.C., mas o primeiro caso reconhecidamente causado por mercúrio ocorreu
apenas em 1865. Os quadros de intoxicação pelo mercúrio irão depender da sua
dose e forma de exposição e seus efeitos tóxicos são distintos, dependendo do
composto de mercúrio a que foi submetido. Com relação ao mercúrio metálico, os
principais efeitos são bronquite e bronquiolite com pneumonia Intersticial insônia,
timidez, nervosismo e enjoo, enquanto exposições mais prolongadas causam
habitualmente perda de memória, perda de autocontrole, irritabilidade, ansiedade,
sonolência, delírio, alucinações, melancolia suicida e psicose maníaco-depressiva
(depressão). Já os sais inorgânicos de Hg provocam vômitos e diarreia
hemorrágica, levando à necrose da mucosa, gengivite, salivação excessiva e danos
na pele. Seus compostos organometálicos causam sintomas característicos dessa
intoxicação, como danos motores (tremores, ataxia etc.) e sensoriais (parestesia,
estreitamento do campo visual, cegueira, surdez etc.) e graves danos pré-natais.
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Na biota, o mercúrio é capaz de se bioacumular e biomagnificar ao longo das
cadeias tróficas. Os organismos mais afetados são os aquáticos, sendo sensíveis
aos compostos organometálicos e a sais inorgânicos (Hg metálico é praticamente
inerte devido à sua baixa solubilidade), que causam alterações fisiológicas,
bioquímicas e de reprodução. No ambiente terrestre, os pássaros sofrem
diminuição da alimentação e efeitos nos sistemas enzimáticos, na função
cardiovascular, no sistema imune, no sistema renal. Para os microrganismos, esse
metal também é tóxico, sendo utilizado em fungicidas e conservantes de semente.
1.2 Cádmio
O cádmio (Cd48) é um metal branco-prateado com pontos de fusão e
volatilização relativamente baixos para um metal 320,9 °C e 765 °C,
respectivamente, além de pressão de vapor baixa. Sendo assim, esse metal é
facilmente transferido para o ar onde forma óxidos, carbonatos, sulfatos etc. Na
natureza, ele é encontrado em concentrações, com traços em rochas, petróleo e
carvão e quando está na forma de sais, vários desses apresentam boa solubilidade
em água.
O cadmio é um produto secundário da metalurgia de zinco e só começou a
ser produzido no século XX. Seus principais usos mudaram de acordo com o
tempo, já tendo sido usado em galvanoplastia, pigmentos, plásticos. Hoje ele é
menos utilizado se restringindo a baterias níquel cádmio devido às normas
ambientais mais rígidas. A principal fonte natural de Cd provém de atividades
vulcânicas. Já as atividades antropogênicas são responsáveis pela maior
quantidade de liberação desse metal no ambiente. As principais fontes
antropogênicas são incineração de resíduos com esse metal, resíduos oriundos da
indústria de produção de Cd, efluentes líquidos gerados no processamento de
minérios e fabricação de fertilizantes químicos. Alguns fenômenos ambientais
decorrentes da poluição também podem aumentar a liberação desse metal na
natureza como a acidificação de rios, lagos e solo.
A meia-vida biológica do cádmio de 20 a 40 anos se acumula principalmente
nos rins e fígado. Dependendo da via de absorção e da forma de exposição, o
cádmio pode gerar gastroenterite aguda, danos aos pulmões, insuficiência
respiratória, disfunção tubular renal, proteinúria, alterações no metabolismo do
cálcio, como hipercalciúria, e formação de cálculos renais e problemas de absorção
de nutrientes.
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Na biota, o cádmio gera efeitos muito parecidos aos causados ao homem.
Em exposições agudas, afetam rins, fígado, pâncreas, gônadas e pulmões.
Exposições crônicas geram enfisema pulmonar, alterações no metabolismo do
cálcio, danos hepáticos e efeitos no pâncreas e no sistema cardiovascular.
Também foram reportados efeitos embriotóxicos, teratogênicos e carcinogênicos.
Assim como no mercúrio, o cádmio apresenta maior toxicidade aos
organismos aquáticos. Os maiores assimiladores são microrganismos e moluscos,
e os níveis de Cd nos organismos podem ser milhares de vezes maiores que as
suas concentrações no meio. Organismos de água doce são mais afetados pelos
efeitos do metal, uma vez que temperaturas mais altas e baixa dureza e salinidade
aumentam sua absorção. Além disso, quando há presença de zinco no meio há um
aumento da toxicidade devido a efeitos sinérgicos.
1.3 Chumbo
O chumbo (Pb82) ocorre naturalmente na crosta terrestre, sendo sua principal
fonte o minério galena, mas também pode ser encontrado em concentrações traço
no carvão, petróleo, minerais, rochas fosfatadas e associado a outros metais.
Considerado também um poluente global por ter sido utilizado em todo o
mundo como aditivo de gasolina, o Pb pode ser encontrado na forma de sais
inorgânicos (maioria insolúveis) e compostos orgânicos estáveis como o chumbo
tetraetila e o chumbo tetrametila (pouco solúveis e voláteis). Seu uso e
consequentemente suas fontes de emissão estão ligadas ao uso em tintas,
pigmentos, cosméticos, soldas, baterias, agrotóxicos e principalmente a gasolina.
Hoje, com os dados de periculosidade do uso do chumbo, esse metal já não é mais
amplamente utilizado, contudo seus impactos ambientais permanecem.
No meio ambiente, as plantas podem acumular chumbo tanto pelo ar quanto
pelo solo. Em geral, os compostos inorgânicos de chumbo são menos tóxicos do
que os compostos organometálicos do chumbo. O principal efeito desses metais,
tanto em organismos terrestres quanto aquáticos, é a bioacumulação, sendo que
os pássaros são os mais afetados, onde níveis altos de ingestão de sais de Pb
geraram anorexia. Nos peixes, seus estágios iniciais de vida são os mais afetados
com deformidades na espinha e escurecimento da região da cauda.
Para os seres humanos, doenças cerebrovasculares, nefrites crônicas e
danos no sistema hematopoiético já foram reportados. O principal mecanismo de
toxicidade do chumbo está ligado à sua interação com grupo sulfidrilas e
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substituição de outros metais em sistemas enzimáticos. Os principais efeitos
adversos são na síntese heme, nos sistemas nervoso, gastrointestinal,
cardiovascular, renal, reprodutivo e endócrino.
1.4 Arsênio
O arsênio (As33) é um metal que ocorre na natureza em rochas fosfáticas e
sedimentares argilosas, como o folhelho. O arsênio é o principal constituinte de
mais de 200 tipos de minerais, principalmente arsenatos e sulfetos. Dentre eles, o
mais comum é a arsenopirita, FeAsS. Devido à afinidade do As pelo enxofre, ele
tende a estar associado aos minérios sulfíticos de vários metais (por exemplo,
prata, chumbo, cobre, níquel, antimônio, cobalto e ferro). Em determinadas áreas,
os níveis desse metal são muito elevados devido tanto à ação antropogênica
quanto às fontes naturais. As principais formas de arsênio liberadas são sais
inorgânicos, compostos orgânicos de arsênio e gás arsina. As principais fontes não
naturais de As são a queima de combustíveis fósseis, uso de pesticidas e fundição
de metais.
Por ter uma grande ocorrência natural, alguns países como Taiwan, Índia e
Paquistão enfrentam problemas de contaminação de água e solo levando esse
elemento a ter problemas com abastecimento de água e acumulação desse metal
em alimentos. Dentre seus diversos danos ao homem, os principais são: mudanças
na pele e nas mucosas e lesões neurológicas, vasculares e hematológicas
diminuição na velocidade de condução dos nervos periféricos e inibição na
hematopoiese. Além de diversos dados associados a câncer.
No meio ambiente, tanto organismos terrestres quanto aquáticos são
sensíveis ao As. Em geral, as espécies inorgânicas são as mais tóxicas
principalmente as com nox As3+ e As5+. A espécie 3+ se liga aos radicais sulfidrilas
enquanto as espécies 5+ competem com o sítios de ligação de fosfato afetando a
fosforilação oxidativa, Os efeitos nos ecossistemas são diversos gerando
mortalidade, inibição de crescimento, inibição de fotossíntese, efeitos de
reprodução e mudanças comportamentais.
TEMA 2 – AGROTÓXICOS
Na década de 1950, iniciou-se o uso de defensivos agrícolas nos Estados
Unidos com a Revolução Verde, movimento que ganhou força na década de 1970
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com o Programa Nacional de Defensivos Agrícolas (PNDA). Esses defensivos
agrícolas, também chamados de agrotóxicos, foram amplamente incentivados pelo
governo e em 1989 o termo agrotóxico passou a ser utilizado no Brasil com a Lei
Federal n. 7.802, de 1989, que define agrotóxicos como:
os produtos químicos destinados ao uso nos setores de produção, no
armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens,
na proteção de florestas, nativas ou implantadas, e de outros
ecossistemas e também de ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja
finalidade seja alterara composição da flora ou da fauna, a fim de
preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos, bem
como as substâncias e produtos, empregados como desfolhantes,
dessecantes, estimuladores e inibidores do crescimento. (Brasil, 1989)
Hoje, o cenário brasileiro é de expansão. Na última década, o Brasil cresceu
em 190% o mercado de agrotóxicos, o que colocou o País em primeiro lugar no
ranking mundial de consumo desde 2008. Somente na safra de 2010 e 2011, foram
consumidas 936 mil toneladas de agrotóxicos. Esse cenário vem na contramão da
tendência mundial de diminuir progressivamente o uso dessas substâncias. Por
exemplo, a Dinamarca tinha como objetivo a transformação de toda a produção
agrícola do país em orgânica. Outro dado que demonstra essa tendência é que
cerca de 50% dos agrotóxicos liberados no Brasil já são proibidos na Europa,
Canadá, EUA e Austrália.
Um dos principais problemas do uso dessas substâncias está na falta de
seletividade desses compostos, gerando toxicidade não somente para o organismo
alvo. Tendo esse problema em vista, os agrotóxicos estão entre as classes mais
estudadas na toxicologia e na ecotoxicologia.
Dentro dos pesticidas, algumas classes de moléculas são de grande
relevância como os organoclorados, organofosforados, carbamatos e piretroides.
Dentre as classes mais tóxicas, temos os organoclorados, que têm como
característica a presença de átomos de cloro dentro de uma cadeia carbônica. O
principal representante da classe é o DDT, que teve seus efeitos amplamente
discutidos no livro Primavera silenciosa, de Rachel Carson, e deu início a diversas
discussões ambientais.
Saiba mais
CARSON, R. Primavera silenciosa. São Paulo: Gaia, 2010.
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Além do DDT, a Tabela 1 apresenta alguns inseticidas organoclorados e sua
respectiva toxicidade para mamíferos.
Tabela 1 – Exemplos de compostos organoclorados
Ingrediente ativo DL50 Oral (mg/kg)
Aldrin 39
Diieldrin 46
Heptaclor 100
DDT 740
Os organoclorados têm como principais características tóxicas persistência
no ambiente, altos fatores de bioacumulação, potencial de magnificação, potencial
estrogênico e diversos outros efeitos. Essa classe de inseticidas já é banida em
diversos países e alguns desses compostos banidos também no Brasil.
Os organofosforados e os carbamatos também são inseticidas e possuem
mecanismo comum de ação e derivados de gases neurotóxicos usados com
objetivo bélico, como o Sarin e o Tabun (gás mostarda). Devido à sua baixa
persistência no ambiente, esses compostos foram utilizados para substituir os
organoclorados.
Contudo esses compostos possuem baixa seletividade para organismos
alvos e atuam principalmente na inibição da atividade da acetilcolinesterase
(AChE), causando contração involuntária dos músculos, neurotoxicidade e, em
casos mais extremos, a paralisia muscular. Dentre os compostos mais tóxicos
dessa classe estão o Forato (DL50ratos = 1,4 mg/kg), Parationa Metílica (DL50ratos =
4,5-24 mg/kg) e o Terbufós (DL50ratos= 1,5 mg/kg).
Outra classe de inseticidas são os piretroides, que são derivados do extrato
obtido da espécie Chrysanthemum cincerariaefolium. Além dos piretroides naturais,
modificações na estrutura desses compostos foram feitas gerando os piretroides
sintéticos. Esses inseticidas são mais utilizados em uso doméstico, mas também
possuem grande uso agrícola. Eles apresentam seletividade contra espécies
determinadas de insetos e, em certos casos, alguma toxicidade para mamíferos.
Esses agentes são neurotóxicos e agem sobre o sistema nervoso central por meio
da interação com canais de sódio. Em mamíferos pode causar tremores,
hiperexcitabilidade, salivação e paralisia e em casos mais agudos inchaço dos
axônios e/ou degeneração da mielina nos nervos ciáticos. No meio ambiente esses
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compostos não são persistententes. Alguns representantes da classe são a
deltametrina (DL50ratos = 31 mg/kg) e a permetrina (DL50ratos = 2.280 mg/kg)
Entre os herbicidas, agrotóxicos para o controle de ervas daninhas, os
clorofenoxiacéticos foram amplamente utilizados nas décadas do pós-guerra.
Inclusive a mistura de dois compostos de classe (o 2, 4, 5-T e o 2,4-D) caracterizou
a mistura conhecida como agente laranja, usado na Guerra do Vietnã. Outro
herbicida importante foi o Paraquat, um composto bipiridílico que tem atividade
herbicida, mas também pode provocar intoxicação pulmonar. Atualmente, os
herbicidas mais utilizados são as triazinas (atrazina, simazina etc.) e os sais de
glifosato, que são os mais conhecidos e amplamente utilizados na agricultura.
Os herbicidas são particularmente preocupantes do ponto de vista ambiental
devido à sua mobilidade no solo que permite que esses compostos cheguem às
águas subterrâneas.
No Brasil, os agrotóxicos precisam passar por três órgão principais: o
MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), que avalia a
eficiência do composto para a agricultura, a Anvisa (Agência Nacional de
Vigilância Sanitária), que avalia os riscos à saúde e o IBAMA (Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), que avalia os riscos
ambientais. São comercializados cerca de 3 mil agrotóxicos atualmente e desde
2019 mais de 900 foram aprovados.
TEMA 3 – HIDROCARBONETOS POLICÍCLICOS AROMÁTICOS
Os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs) são uma classe de
compostos que se caracterizam pela presença de cadeias carbônicas com pelo
menos dois anéis aromáticos fundidos. Esses compostos possuem elevados
pontos de fusão e ebulição e alguns deles, como o naftaleno, podem sofrer
sublimação. São altamente lipofílicos tendo coeficiente de partição octanol-água
(Kow entre 2,5*103 e 1,3*107).
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Figura 1 – Exemplos de moléculas de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos
Créditos: Peter Hermes Furian/Shutterstock.
A principal fonte natural de HPAs são a atividade vulcânica e as áreas de
grande atividade (hidro)geotérmica e incêndios florestais que ocorrem de forma
natural. Já em relação às atividades humanas, as vias de lançamento são várias:
pirólise ou queima de matéria orgânica ou combustíveis fósseis, derramamento
de petróleo, coqueamento de carvão, disposição de resíduos, produção de
alumínio e ferro, queima de resíduos sólidos e fumaça de cigarros.
As principais vias de exposição a HPAs são inalação de ar poluído e a
ingestão de alimentos ou de água contaminada. Especificamente para humanos,
outras vias de exposição são o cigarro (consumo e inalação) e processos
produtivos que tenham ou gerem essas substâncias. Os principais efeitos tóxicos
associados a esses compostos são suas propriedades mutagênicas e
carcinogênicas. No organismo, uma das vias de toxicidade é a transformação dos
HPAs em compostos mais tóxicos e que interagem com o DNA.
TEMA 4 – CONTAMINANTES EMERGENTES
No registro CAS da Sociedade Americana de Química, no qual novas
moléculas são registradas, mais de 185 milhões de moléculas estão registradas
desde seu início em 1800. Esses compostos permitiram que a sociedade tivesse
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um aumento na produção mundial de alimentos, melhoramento da saúde humana
e animal, e aumento da longevidade. Contudo, o uso e disposição incorreta
desses compostos tem causado diversos problemas ambientais e efeitos
adversos na saúde humana.
Dentro dessas milhões de moléculas existe uma classe de moléculas
relativamente novas e que apenas recentemente começaram a ser detectadas no
meio ambiente. Esses compostos são chamados de contaminantes emergentes
(CE).
Esses contaminantes emergentes são geralmente não regulados e estão
presentes no ambiente em baixas concentrações. São compostos potencialmente
tóxicos onde os efeitos para os humanos e para os ecossistemas ainda são mal
compreendidos.
Alguns desses contaminantes são utilizados pela população, como
fármacos e produtos de higiene pessoal, e acabam entrando no meio ambiente
como consequência da ineficiência das estações de tratamento para remover
essas moléculas ou por meio do despejo direto de esgoto. Outras dessas
moléculas são utilizadas na agricultura ou na pecuária e têm sua entrada direta
no meio ambiente pelo solo, água ou ar. Ainda existem compostos de cunho
industrial como plastificantes, surfactantes e retardantes de chama que são
despejados no ambiente sem o tratamento adequado. Todos esses compostos
podem ser persistentes no ambiente, estando presentes em concentrações que
variam de ppt a ppm na água, no ar, no solo ou em sedimento.
Hoje, existe um esforço global de toxicologistas, ecotoxicologistas,
químicos, ecologistas, biólogos e outros cientistas para determinar os efeitos
desses compostos visando a regulação, uso e tratamento adequados.
4.1 Fármacos
Fármacos são moléculas bioativas que atuam nos processos bioquímicos
de um organismo, sendo esses organismos humanos ou animais. As fontes de
fármacos no ambiente são provenientes de esgotos municipais, sistemas de
tratamento de hospital, efluentes industriais e uso rural (agricultura ou cultura de
animais).
Depois de presentes no meio ambiente, estimar e entender o risco
associado a um fármaco depende diretamente das suas características físico
químicas, forma de exposição e sensibilidade dos organismos expostos. Esse
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grupo de contaminantes é muito heterogêneo, dificultando assim citar
características gerais de solubilidade, lipoafinidade, volatilidade, entre outras.
Porém em se tratando da toxicidade desses compostos, quando atingem
organismos não alvo devemos levar em consideração tanto o composto inalterado
quanto seus metabólitos excretados do organismo quanto as transformações que
podem ocorrer no ambiente. Os principais grupos de fármacos são:
• Analgésicos: incluindo analgésicos narcóticos, como a codeína; não
narcóticos, como a aspirina e o acetaminofeno; e anti-inflamatórios não
esteroides, como o diclofenaco de sódio e ibuprofeno. Alguns estudos em
peixes já relataram a elevação de estresse oxidativo dos organismos
expostos a alguns desses fármacos.
• Antibióticos e antimicrobianos: incluindo uma série de compostos usados
para combates infecções bacterianas. A principal preocupação com essa
classe de compostos está ligada à resistência microbiana tanto no meio
ambiente quanto com relação à saúde humana.
• Anticonvulsionantes: utilizados para controle de convulsões, como a
carmazepina.
• Antidiabéticos: auxiliam no controle dos níveis de açúcar no sangue, como
a metformina.
• Anti-histamínicos: para controle de alergias, por exemplo, a cimedina e
raniditina.
• Antidepressivos, antipissicótiocos e antiansiolíticos: nessa classe estão
compostos como a fluoxetina e o diazepan.
• Betabloqueadores: usados em tratamentos cardiovasculares e hipertensão
(propranolol, atenolol).
• Citostáticos e antineoplásicos: usados no tratamento de cânceres. Incluem
antraciclínicos, antimetabólitos e agentes alquilantes.
• Estrogênios e compostos hormonais: juntamente com os antimicrobianos,
essa classe traz grandes preocupações ambientais devido à ação no
sistema endócrino, podendo gerar efeitos reprodutivos nos animais
expostos.
• Reguladores de lipídeos: usados principalmente no tratamento de
colesterol alto.
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• Estimulantes: narcóticos, como a cocaína, e não narcóticos, como a
cafeína.
• Contrastes para raio-X: não possuem fins terapêuticos, mas são utilizados
em exames médicos como o iomeprol.
4.2 Produtos de higiene pessoal
Os produtos de higiene pessoal (PCPs) são uma série de compostos que
estão presentes nos produtos de higiene primária da população, como xampus,
sabonetes, pasta de dentes, protetor solar, cosméticos, entre outros. Assim como
nos fármacos, é muito difícil determinar as propriedades físico-químicas gerais
desses compostos por serem um grupo muito amplo e com as mais diversas
funções.
Muitos dos compostos presentes nesses produtos apresentam bioatividade
e possuem um potencial efeito nocivo no meio ambiente. Assim como nos
fármacos, os efeitos nocivos desses compostos estão associados tanto às suas
estruturas intactas quanto aos seus metabólitos gerados e também produtos de
degradação no meio ambiente. Outra característica notável dessa classe são os
grandes volumes de lançamento no ambiente e a grande mistura de compostos
que esses lançamentos geram. Essas características dificultam a avaliação de um
impacto ambiental, uma vez que as misturas são mais diversas e em
concentrações diferentes. Diversos estudos ecotoxicológicos abordam os
possíveis impactos dos compostos isolados ou em misturas restritas, mas, dentro
de um ecossistema, os impactos gerados podem ser muito maiores do que os
descritos na literatura. Na Tabela 2, estão alguns representantes dos PCPs.
Tabela 2 – Exemplos de contaminantes emergentes, seus respectivos usos e
solubilidade
Composto Uso Solubilidade (mg/L)
Acetofenona Fragrância 6130
Bisfenol A Conservante 300
Clorofeno Conservante/antisséptico 149
Ácido Hidroxinaminico Protetor solar 5900
Tetrabisfenol A Retardante de chama 0,001
Triclosan Conservante/antisséptico 10
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TEMA 5 – CONTAMINANTES EMERGENTES – NANOPARTÍCULAS
A nanotecnologia, cujo produto final é a criação de nanopartículas, é uma
área de pesquisa interdisciplinar que vem crescendo a largos passos. Dentre os
produtos de nanopartículas estão os nanotubos e os nanofios. Esses produtos
têm emprego em diversos processos químicos, físicos e biológicos. A principal
característica dos nanomateriais está no seu tamanho (10-9 metros – nanômetros),
contudo, para ser considerado um nanomaterial, não somente seu tamanho de
partícula deve ser pequeno, mas também suas propriedades se tornam diferentes
em números próximos a esse tamanho, trazendo novas aplicabilidades a materiais
já conhecidos, como o ouro, a prata e o carbono.
Por ser uma área de conhecimento nova, a toxicidade e os efeitos desses
compostos sobre a saúde humana e o meio ambiente ainda estão em estudo e
ainda há relativamente pouco material sobre esse tema. No entanto alguns efeitos
já foram observados com relação a alguns desses compostos.
Em relação à flora, aparentemente há poucas interações entre os
nanomateriais e as plantas. Algumas espécies mostraram a capacidade de
bioacumular e uma preocupação é quanto à interação desses compostos com
bactérias fixadoras de nitrogênio, que podem gerar baixo desenvolvimento da
planta. Já em estudos com nanopartículas de óxido de alumínio, estas
demostraram efeito no alongamento de raízes de planta em cultivo hidropônico
(Yang; Watts, 2005). No entanto, alguns estudos demonstraram efeitos positivos
de algumas nanopartículas, como o óxido de titânio (Yang et al., 2006)
Com relação à fauna, a literatura é mais extensa. Estudos com células de
mamíferos mostraram a capacidade de diversas nanopartículas atravessarem a
membrana celular, contudo essa absorção é dependente do tamanho da partícula.
No campo da ecotoxicologia, alguns efeitos, como inibição da protozoa,
intoxicação respiratória em peixes, mortalidade de copépodos e toxicidade aguda
em microcristáceos, já foram evidenciados.
Os efeitos em humanos também ainda estão em estudos, mas há alguns
sinais de que algumas nanopartículas podem ser danosas à saúde. Nanotubos de
carbono já demonstraram ocasionar efeitos pulmonares e, dependendo do
tamanho da partícula inalada, também pode ocorrer penetração nas células
epiteliais e chegar à corrente sanguínea. Respostas inflamatórias e estresse
oxidativo também já foram demonstrados. Contudo ainda é difícil dizer qual é a
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extensão dos perigos e os cuidados com as nanopartículas. É importante ressaltar
também que diversos avanços na área médica, ambiental e de materiais em geral
estão ocorrendo devido à expansão da nanotecnologia e, provavelmente, a
toxicidade e os impactos ambientais dependerão das características de cada
nanopartícula criada.
No Brasil, o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM)
abriga o Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano), onde diversos
estudos na área de nanomateriais ocorrem, incluindo estudos de nanomateriais
no ambiente e sua toxicidade.
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REFERÊNCIAS
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American Society of Civil Engineers, 2009.
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LOPES, C. V. A.; ALBUQUERQUE, G. S. C. de. Agrotóxicos e seus impactos na
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