MAPEAMENTO DA CITRICULTURA E SUAS IMPLICAÇÕES COM A
CONCENTRAÇÃO FUNDIÁRIA E POBREZA NO CAMPO
Paulo Antonio de Oliveira Andrade 1
Eliana dos Santos Lima 2
José Hunaldo Lima 3
Resumo
A citricultura, mesmo contendo mais de uma espécie de fruta cultivável, em Sergipe, a laranja é único citrus
produzido em larga escala, com destaque para Boquim, Itabaianinha e Lagarto. Todos os municípios produtores
estão localizados no Centro-sul do estado, que recentemente tem destacado decréscimo na produção. Para
compreender tais causas e as consequências do mesmo, são necessários estudos que enfoquem de forma ampla,
todas as relações da cadeia produtiva da laranja, assim compreende-se que o materialismo histórico dialético é o
método que melhor responde tais questões. A análise dos mapas, elaborados nesta pesquisa mostra que nos
últimos vinte (20) anos, o Centro-sul, além de ocorrer decréscimo na produção de laranja, também é perceptível
a manutenção e até mesmo ampliação da concentração de terras, mostra a fragilidade dos pequenos produtores,
que são obrigados a vender suas terras para o agronegócio citricultor e até mesmo para outras atividades, como a
pecuária de corte, extremamente concentradora de terras no Centro-sul de Sergipe.
Palavras-chave: Citricultura, Concentração de terras, Agronegócio.
Introdução
A citricultura em Sergipe se concentra na Centro-sul, principalmente nos municípios
de Boquim, Itabaianinha, Lagarto e Salgado, que recentemente tem destacado decréscimo na
produção a partir da concorrência no mercado de frutas, o agronegócio de citrus de São Paulo,
maior produtor brasileiro, da infestação de algumas pragas, envelhecimento dos laranjais,
denúncias de trabalho infantil e consequentemente, com desistência dos camponeses, que
tentam outras alternativas, como pecuária, outros cultivos, desistir de sobreviver no campo,
(aumento ou permanência da concentração de terras), e mobilidade para as cidades, vender a
força de trabalho, com isso se observa diminuição no poder de compra dos camponeses e
aumento da pobreza no Centro-sul sergipano.
Para entender tais fenômenos supracitados, são necessários estudos que enfoquem de
forma ampla, todas as relações da cadeia produtiva da laranja, assim compreende-se que o
materialismo histórico dialético é o método que melhor responde tais questões, e com leituras
1
Graduando em licenciatura - Geografia da UFS - Itabaiana e bolsista do PET - [email protected]
2
Graduanda em licenciatura - Geografia da UFS - Itabaiana e bolsista do PET - [email protected]
3
Professor Dr. do Departamento de Geografia da UFS - Itabaiana e Tutor do PET - [email protected]
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que deem suporte para compreender o ser camponês, como Oliveira, (1986 e 1991),
Fernandes (1996, 1999 e 2003) e Girardi (2008), da concentração de terras, Lima (2014); da
produção citrícola sergipana, Santos (2007) e o trabalho infantil nos laranjais do estado,
Vasconcelos (2009).
Com as leituras realizadas foi possível pensar nas etapas seguintes, para confirmar as
hipóteses, com relação ao tripé agronegócio / concentração de terras / pobreza. O trabalho foi
dividido em distintas atividades que se complementam ao final.
Foram realizados trabalhos de campo, com enfoque nos registros fotográficos,
aplicação de questionários e entrevistas com citricultores na região, em seguida, com as
informações coletadas passou-se para as análises, juntamente com estudos nos dados colhidos
no IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, na plataforma do SIDRA - Sistema
IBGE de Recuperação Automática, do INCRA - Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária, da CPT - Comissão da Pastoral da Terra, com elaboração dos mapas no
Philcarto, foi possível realizar as devidas análises no desenvolvimento dessa pesquisa.
A importância desta pesquisa reside no aprofundamento relacionado dos temas
supracitados para a construção de uma análise crítica, que exponha a realidade vivida pela
população camponesa na região, com o objetivo de mostrar as consequências da
implementação do agronegócio na mesma.
Para se compreender o avanço das forças produtivas no campo, é fundamental
entender as relações e concepção dialética entre o agronegócio e o camponês, o primeiro caso,
compreende não somente este agro “moderno” com elevada evolução tecnológica, mais toda
uma relação de exploração da terra e da força de trabalho camponesa, é através das grandes
propriedades, dos latifundiários, que estas relações acontecem. Por outro lado, o camponês,
mesmo, com todas as dificuldades, resiste na sua forma de produzir e sobreviver.
Por questões de concepções utilizaremos o conceito de camponês, por acreditar que é
bem mais completo que o de agricultor familiar, este segundo, hegemônico nos meios
midiático, das políticas públicas e na academia, visa a integração do pequeno produtor ao
mercado e leva-lo a total submissão ao capital. Por vez, o camponês é bem mais amplo, não
fica somente na visão mercadológica, mais compreender o processo histórico de formação,
luta e resistência do sujeito, como atesta Lima (2014).
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Com a supremacia cada vez maior do capitalismo sobre as outras formas de
existência, alguns passam a imprimir à ideia hegemônica, que nada sobreviverá ao
avanço do capital, e que este sistema é a única alternativa para se sobreviver, e a
convivência como camponês, mostra que viver sem o julgo do capital, não é coisa de
outro mundo, pelo contrário, a resistência camponesa tem mostrado resultados
incontestáveis, levando os agentes do capitalismo, a pensar outras formas de acabar
ou subjugar o camponês, e começa tudo pela forma ideológica, ao imputar a ideia de
substituir o conceito, algo mais moderno, pomposo e chamativo, ou seja, o agricultor
familiar. (p. 2014).
Independentemente de questões conceituais, (o camponês/agricultor familiar), este é
de extrema importância no campo. No Brasil, é responsável por cerca de 80% do
abastecimento humano, praticamente todos os cultivos que passam pelas mesas do brasileiro é
produzido na pequena unidade. No caso da laranja, mesmo sendo uma commodity, no Centro-
sul de Sergipe é em sua maioria cultivada por camponeses e é quem contribui para a sua
permanência no campo.
A inserção do Agronegócio citricultor e as transformações nas relações produtivas do
Centro-sul Sergipano
Com a inserção do agronegócio citricultor, motivado pela grande propriedade,
incentivos do Estado, através de apoio logístico e não cobrança de taxações, a partir dos anos
90, do século passado, ocorre forte remodelação “modernização” na citricultura brasileira, e
em Sergipe, os rebatimentos são visíveis, constatados com gradual diminuição na produção
em todos os municípios do Centro-sul, aliados a perdas elevadas na produtividade.
A produção de laranja na região Centro-sul é realizada em mais de 81% de
propiedades camponesas com menos de 10 tarefas (aproximadamente três hectares).
Através dessa atividade, por meio das indústrias processadoras (especialmente com
a exportação de SLCC Suco de Laranja Concentrado Congelado) tem-se uma das
principais fontes de arrecadação de impostos no estado assim como também metade
da produção do PIB agrícola. (OLIVEIRA, 2007, p. 19).
Devido a concorrência com São Paulo, maior produtor e exportador, principalmente
para os Estados Unidos e Europa, os produtores de Sergipe ficam à mercê, com menor
capitalização para investir nos laranjais, e mais propensos as adversidades, como a infestação
de pragas e dificuldade de comercialização.
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Em conversas com produtores, foi possível destacar, que nos anos 90, os laranjais de
Sergipe foram infestados pela gomose, e em seguida a ortésia, que juntas praticamente
destruíram a citricultura no estado, neste segundo caso, se tentou até chumbinho de matar rato
(substância proibida no país), para alguns camponeses, atualmente a mosca preta é a praga
mais devastadora do momento, alguns agricultores vêm perdendo produtividade a cada ano,
com enfraquecimento do pomar e empobrecimento familiar.
Com o envelhecimento dos laranjais, em alguns casos, ultrapassando 10 anos de idade,
a produtividade começa a cair e os camponeses com menor disponibilidade de recursos, não
tem como realizar o replantio e esperar alguns anos, para que as laranjeiras possam brotar e dá
bons frutos, começam a diversificar suas produções, com maracujá, mandioca e outros e nos
casos mais extremos, passam a criar gado.
Foram realizadas algunas tentativas de revitalizar os laranjais de Sergipe, com entrega
de mudas e uma política de construção de estufas, para preparação das mudas e entrega aos
camponeses, como exemplo se destaca o município de Lagarto, com construções de algumas
estufas, como bem atesta, a citação a seguir.
No município de Lagarto encontra-se a maior concentração de estufas para a
produção de mudas de laranja teladas, estas tecnologias, conforme o DEAGRO são
as mais “modernas” da agricultura sergipana. Outras tecnologias têm sido
implementadas neste município e apesar de não terem a mesma amplitude e a força
das empregadas nos cultivos de mudas de laranja, contribuem também para o
aumento das contradições da reestruturação produtiva do capital no campo.
(OLIVEIRA, 2007, p. 19).
Outro problema decorrente nos laranjais do estado é a utilização de força de trabalho
infantil, que mesmo, após denúncias na década de 90, não ocorreu a extinção desta atividade,
e hoje, ainda é comum o emprego de crianças, como bem destacou em sua tese,
VASCONCELOS, (2009).
Atrelado a todas estas dificuldades se observa perda da fertilidade dos solos, exaustão,
devido ao uso intensivo durante anos, sem um manejo adequado, e falta de acompanhamento
técnico, em consequência, fragilidade do camponês para manter sua família.
Ao analisar a prancha 01, é possível notar que a produção de laranja, em Sergipe tem
concentração no Centro-sul do estado, ausência de produção no Sertão do São Francisco e nas
áreas próximas a região metropolitana de Aracaju, conta com uma diminuta produção no
baixo São Francisco, com enfoque para as áreas irrigadas do Platô de Neópolis.
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Com relação ao Centro-sul de Sergipe, foco principal da pesquisa, com enfoque nos
mapas da prancha a seguir, se observa as maiores produções, com destaque para os
municípios de Boquim, Lagarto, Itabaianinha e Salgado, que durante às décadas analizadas se
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mantiveram como os maiores produtores, com considerável destaque nos últimos anos para
Cristinápolis, como se observa na prancha a seguir.
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Prancha 01: Produção de laranja 1990-2010, Sergipe
Ainda, com relação a prancha é possivel observar uma drástica redução da citricultura,
principalmente entre as décadas de 2000 e 2010, o que mostra ser um movimento mais
recente, como já fora destacado anteriormente, além da diminuição é possível observar que
ocorre um processo de espacialização, para terras na fronteira norte da Bahia, alguns
produtores compraram terras em melhores condições ao sul de Sergipe, os próprios
agricultores locais também se inseriram no cultivo da laranja, como se observa no último
mapa da prancha, somente os municípios de Santa Luzia do Itanhy e Indiaroba obtiveram
aumento na produção citrícola.
Esta redução drástica na produção de citrus no Centro-sul de Sergipe, ocorre de forma
gradual em praticamente todos os municípios, que conta com considerável parcela da
produção na unidade camponesa, acarreta cada vez maiores dificuldades na manutenção da
familia no campo.
A medida, em que os camponeses se sentem obrigados/forçados a deixarem/venderem
suas terras, pois não dispõem de condições mínimas para continuar nelas a produzir e se
reproduzir socialmente, abrem espaço para os “novos donos da terra” que possuem capital e
influência nos escalões do estado, que vão inserir à sua maneira as “novas culturas” voltadas
para o agronegócio citricultor.
Para revitalizar a citricultura no Centro-sul de Sergipe, foram implementadas políticas
com enfoque na construção de estufas para a distribuição de mudas, no entanto, os resultados
não são os esperados, como a competitividade no mercado mundial, com as commodities,
passa a comandar os preços, os produtores sergipanos, não tem as condições de competir e
passam a vender a produção por menores preços, que se destina prioritariamente ao mercado
interno, venda in natura, comercializadas em supermercados e feiras, e a outra parte é vendida
para São Paulo, e transformada em suco concentrado para a exportação, este último fica com
praticamente todos os dividendos.
A citricultura, que por alguns anos, foi a principal fonte de renda dos camponeses do
Centro-sul de Sergipe, passa a incorporar novos moldes, com fortalecimento da indústria de
sucos concentrados, e exportado pelo porto de Estância, os pequenos produtores a cada dia
passam por maiores dificuldades e não conseguem concorrer com os maiores, que passam a
dominar a comercialização das frutas, com as dificuldades no processo de escoamento da
produção, além dos já mencionados a citricultura não dá sinais de fortacelimento, como
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propagado a alguns anos. Em conversa com camponeses, foi frisado que os que resistem ainda
na citricultura pensam em mudar de atividade.
A concentração de terras no Centro-sul de Sergipe
Para compreender a concentração de terra é necessário entender o processo histórico
da formação territorial do Brasil, com terra entregues aos poderosos, incialmente através de
doações da Coroa Portuguesa, e a partir de 1850, com a promulgação da Lei de Terras, esta só
poderia ser adquira através da compra, mais uma vez, os poderosos são os únicos com
recursos financeiros para adquirir as terras e os índios, os recém libertos e os posseiros ficam
de fora e passam a vender sua força de trabalho, nas grandes propriedades.
Em Sergipe, tradicionalmente o Sertão e a Cotinguiba são conhecidos pela alta
concentração de terras, por vez o Agreste e o Centro-sul por ter menores índices. Na tabela a
seguir é possivel perceber que a concentração é considerável, alguns municípios com índices
abaixo de 0,7 e somente Lagarto é superior a 0,8, que segundo Diniz (1986), é considerada
alta.
Centro-Sul 1992 1998 2003 2011
Arauá 0,791 0,814 0,811 0,787
Boquim 0,820 0,827 0,807 0,795
Cristinápolis 0,779 0,723 0,750 0,746
Estância 0,758 0,725 0,725 0,698
Indiaroba 0,840 0,792 0,786 0,730
Itabaianinha 0,688 0,698 0,697 0,673
Itaporanga d’ Ajuda 0,893 0,879 0,870 0,841
Lagarto 0,816 0,824 0,816 0,809
Pedrinhas 0,715 0,749 0,725 0,737
Riachão do Dantas 0,770 0,759 0,762 0,769
Salgado 0,754 0,762 0,746 0,742
Santa Luzia do Itanhy 0,820 0,818 0,798 0,787
Tomar do Geru 0,606 0,593 0,582 0,575
Umbauba 0,759 0,752 0,693 0,699
Fonte: INCRA, 1994
Organização: Andrade, Lima e Lima, 2017.
Tabela 01: Índice de Gini da Região Centro-sul de Sergipe, 2017.
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A tabela mostra que nos 20 anos, praticamente não houve mudanças na concentração
de terras, e o município de Pedrinhas, ao contrário dos outros, houve um leve acréscimo na
concentração, entretanto, esta diminuição não reflete a realidade dos municípios, tendo como
principal, fator o processo de minifundiarização, a partir da fragmentação das unidades
familiares (quando os filhos casam, parte das terras é entregue), e não através de Reforma
Agrária. Neste caso a desconcentração tende a levar ao empobrecimento familiar que fica a
cada dia com menor quantidade de terra, para produzir para mais pessoas.
Para visualizar melhor a importância do tamanho das propriedades, foi elaborado um
mapa, a partir dos dados de tamanho individual de cada unidade. Para se chegar a este
resultado, foi necessário subdividir em três (3) classes, de 0 a 100, de 101 a 200 e acima de
200 hectares, o emprego destes valores se deu de forma aleatória, no entanto, estes valores
foram escolhidos devidos: o ideal seria utilizar os módulos fiscais, como estes são particulares
para cada município ficaria praticamente impossível; a escolha destes valores, se deu por
acreditar que propriedades inferiores a 100 hectares em alguns municípios de Sergipe, como
no sertão e Centro-sul, a reprodução camponesa fica prejudica para sobreviver dignamente,
com família numerosa.
No mapa a seguir, mostra que em Sergipe, a maioria dos municípios tem predomínio
de propriedades com tamanho inferior a 100 hectares, com exceção da região da Cotinguiba,
com destaque para a elevada concentração de terra nas mãos dos monocultores canavieiros.
No Centro-sul, ocorre ao contrário a maioria dos municípios conta com destacada parcela das
propriedades com tamanho inferior a 100 hectares, o que mostra a importância do camponês
na região.
Ainda com relação ao Centro-sul, se observa que entre os maiores municípios (Lagarto
e Itaporanga d’Ajuda), que se localizam na parte norte da região, no primeiro caso é um dos
maiores municípios do estado, conta com maior diversificação no campo, ao sul com forte
policultura, com destaque para a citricultura, e menor concentração de terras, em contrapartida
ao norte, ocorre o predomínio da pecuária, que contribui para o aumento. No caso de
Itaporanga d’Ajuda, é o menor produtor de citrus da região, boa parte das terras se destina a
outras atividades, como a pecuária de corte em grandes fazendas e recentemente com
investida de capitais na produção de eucalipto, exercido em grandes propriedades, que
segundo Jesus (2016) Itaporanga d’Ajuda é o maior produtor de Sergipe.
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Mapa 01: Predominio das propiedades ruarais, Sergipe.
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Como se observa no mapa 01, nos municípios de Santa Luzia do Itanhy e
Cristinápolis, mais ao sul da região, também contém propriedades com tamanho entre 100 a
200, diferente dos demais municípios que ocorre predomínio de propriedades com tamanho
inferior a 100 hectares.
Os menores índices de gini e que predominam as propriedades inferiores de 100
hectares encontram no centro da região, em área de maior concentração da produção de citrus,
outrora tendo Boquim, como epicentro, e atualmente Itabaianinha, como maior produtor,
mostra como a citricultura é importante nos moldes da produção camponesa, como é
importante para a reprodução deste sujeito de elevada importância para Sergipe.
A pobreza no Centro-sul Sergipano
Para entender o que é pobreza é importante destacar a relação desigual e combinada
proporcionada e ampliada pelo modo de produção capitalista. Já que são criadas diferentes
necessidades além do básico, como era nas sociedades primitivas, para a reprodução humana.
Basicamente é definido pobre aquele indivíduo que se encontra sem condições básicas de
subsistência: tais como alimentos, vestimenta, moradia e saúde. No Brasil esse cálculo é feito
a partir da renda per capita familiar, (SANTOS e ARCOVERDE, 2011).
Cada sociedade é dotada de uma cultura material e imaterial que não é levada em
conta na maioria das linhas de pesquisa, ou seja, o ser humano é mais do que apenas comer, e
se abrigar do sol e da chuva, e ser privado ou segregado das manifestações culturais e
políticas da sociedade.
No Brasil, a falta de acesso a terra, e o desemprego estrutural agravam a pobreza da
população. Em um planeta essencialmente voltado ao capital, muitas das vezes as
necessidades básicas não são atendidas e a população pobre serve como um pilar básico da
aquiescência da minoria rica e dotada dos meios de produção, o Estado apenas mantém o
status quo dessa minoria e media as relações entre classes, não resolvendo o problema da
pobreza.
A pobreza, se agrava a partir das relações capitalistas, tanto na cidade como no campo,
isso se observa a partir da disponibilidade de terras e de tecnologia no campo, os mais ricos
tanto detém maior parcela de terra, como os melhores e mais importantes meios tecnológicos,
tanto para plantar, como para cultivar e vender, com isso se agrava as disparidades no campo.
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Mapa 02: Distribuição da pobreza em Sergipe, 2010.
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Em Sergipe, se observa consideráveis disparidades na condição de pobreza, em
primeira instância entre a população urbana, que tem maior acesso a serviços básicos
(disponibilidade de rede de esgoto, unidades de saúde, acesso as escola e segurança) e a do
campo que quando precisa de algum serviço é necessário se deslocar até as cidades, e na outra
é a desigualdade entre regiões e municípios, como se observa no mapa anterior.
Ainda com relação ao mapa 02 e em junção com o mapa 01 se observa uma menor
incidência de pobreza na capital, cidade praticamente urbana e com os principais serviços
oferecidos a população, no entanto o que se destaca é a correlação entre predomínio de
pequenas propriedades e menor incidência de pobreza, como se observa no Agreste sergipano,
que se caracteriza por elevada quantidade de pequenas propriedades e uma maior
diversificação no campo; por vez na Cotinguiba, com predomínio de grandes propriedades
canavieiras e pecuaristas a incidência de pobreza é bastante acentuada.
No Centro-sul, foco do estudo, se observa na parte norte, uma menor incidência de
pobreza, a exemplo de Lagarto e Boquim, municípios como dito anteriormente no trabalho,
com elevada produção de laranja nas pequenas propriedades, o que contrasta com Pedrinhas,
menor município da região e único que ocorreu aumento na concentração de terras, ver tabela
01, neste caso a terra está nas mãos dos grandes produtores de citrus, também merece menção
o município de Boquim, no centro da região, outrora maior produtor de laranjas do estado,
neste a incidência de pobreza é considerada média.
A espacialialização da citricultura para o sul do estado, em direção a Bahia, se dá
numa nova fase, com uso cada vez maior de tecnologia, de venenos químicos, atrelado ao
modo de produção do agronegócio. Observa-se que nesta nova fase, o camponês, por não ter
os provimentos necessários (recursos financeiros, terras de melhor qualidade e técnicas de
manejos mais adequados), fica à mercê, em consequência, a citricultura a cada dia exige
maiores investimentos, nesta parte com a inserção do agronegócio se observa uma maior
produção (exemplo de Umbauba, Estância e Itabaianinha), se encontram maiores
concentração de terras, como destaca o mapa 01 e em consequência maiores índices de
pobreza, como se observa no mapa 02.
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Considerações finais
A pesquisa mostra a interação entre a produção de laranjas no Centro-sul sergipano,
com a permanência da concentração de terra, através da inserção do agronegócio citricultor,
em consequência perda da força camponesa, a princípio devido as pragas e inserção no
mercado e recentemente com produção voltada para abastecer as indústrias para exportação,
substituição por outras culturas e a inserção da pecuária na região, provocam maior
dependência dos camponeses, que passam a precisar de outras fontes, vender a força de
trabalho nas maiores propriedades e ir às cidades a procura de emprego urbano.
Tais processos estão fortemente enraizados pela ordem mundial vigente. O capital
assume caráter dominante sobre as relações sociais, e o camponês vê na terra, sua condição de
resistência e sobrevivência a ordem predatória do capital. No entanto, deve-se destacar que o
cultivo da laranja, por si só não responde a esta incidência de pobreza, pelo contrário, com o
fortalecimento do camponês citricultor, contribuirá para a diminuição destes índices, porém o
avanço da produção, pós revitalização, nos moldes do agronegócio, a tendência é o aumento
da pobreza no campo, como ocorre atualmente.
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