Movimento
ISSN: 0104-754X
[email protected]
Escola de Educação Física
Brasil
De Filippis, André; Carvalho Marcellino, Nelson
Formação profissional em lazer, nos cursos de Educação Física, no Estado de São Paulo
Movimento, vol. 19, núm. 3, julio-septiembre, 2013, pp. 31-56
Escola de Educação Física
Rio Grande do Sul, Brasil
Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=115328026004
Como citar este artigo
Número completo
Sistema de Informação Científica
Mais artigos Rede de Revistas Científicas da América Latina, Caribe , Espanha e Portugal
Home da revista no Redalyc Projeto acadêmico sem fins lucrativos desenvolvido no âmbito da iniciativa Acesso Aberto
Formação profissional em lazer, nos cursos de
Educação Física, no Estado de São Paulo
André De Filippis*
Nelson Carvalho Marcellino**
Resumo: Este trabalho tem como objetivo investigar as
relações entre a formação profissional em lazer nos cursos
de Educação Física e o mercado de trabalho na área do lazer;
se há diferenças na formação do bacharelado e da licenciatura
e de que modo os cursos vêm trabalhando a formação
profissional para atuação na área. Foram realizadas pesquisas
bibliográfica e documental, por análise de conteúdo. Os
resultados destacam que o número de disciplinas está
aumentando, não se reduzindo à recreação, mas contemplando
as relações com outras esferas da vida, historicidade e
abrangendo os diferentes conteúdos culturais.
Palavras-chave: Formação Profissional. Educação Física.
Atividades de Lazer.
1 INTRODUÇÃO
O interesse por este tema surgiu pela vivência da separação
dos cursos de Educação Física em licenciatura e bacharelado, o que
despertou dúvidas quanto ao ensino do lazer nestes dois cursos, agora
diferentes.
Outro ponto decisivo na escolha do tema foi a aproximação
com a recreação que, por motivos históricos, foi atrelada à educação
física, acarretando a ideia de que o profissional dessa área seria o
mais apto a trabalhar com lazer. Hoje o lazer é tido como um campo
multidisciplinar, que requer a participação de uma equipe de vários
profissionais das mais diversas áreas, como Educação Física, Turismo,
Hotelaria, Administração, Terapia Ocupacional, entre outras.
*
Mestre em Educação Física pela Facis-Unimep. E-mail: [email protected]
**
Livre docente em Educação Física- Estudos do Lazer- pela UNICAMP, Professor do Mestrado
em Educação Física, pela UNIMEP, E-mail: [email protected]
32 Artigos Originais André De Filippis, Nelson C. Marcellino
Isayama (2003), ao discutir a atuação do profissional de
educação física em relação ao lazer, diz que se faz necessário
entendê-lo como um campo de atuação multidisciplinar, que favorece
a concretização de propostas interdisciplinares, pois nesse campo é
possível verificar-se a atuação de profissionais de diferentes
formações, o que enriquece a atuação nessa área. É possível verificar
que a atuação, no âmbito do lazer, requer, do profissional uma
formação específica, considerando que sua atuação necessita da
compreensão de questões gerais sobre a temática. Embora muitos
pensem que a esse profissional basta conhecer um vasto repertório
de atividades para aplicá-las de modo a entreter os indivíduos que
nelas buscam o prazer, preocupando-se apenas em tornar agradável
sua participação, necessita de conhecimentos teóricos para efetuar
seu trabalho.
Sobre esse aspecto, Leila M. S. M. Pinto (2008, p. 46) apresenta
um quadro sobre as práticas educativas pelo e para o lazer no Brasil:
em geral, as práticas educativas pelo e para o lazer no Brasil -
dominantes até a década de 1980 e com grande influência ainda
hoje - têm sido marcadas por perspectivas instrumentais e utilitaristas,
que dão prioridade aos aspectos técnicos das atividades culturais no
lazer, em detrimento da compreensão das relações e mediações
humanas nelas vividos. A reversão desse quadro passou a ser uma
demanda crescente desde os anos 1990, com o avanço da consciência
sobre a importância do lazer como um dos fatores de qualidade de
vida, por parte da população e do poder público e privado.
A formação de futuros profissionais e/ou professores de
Educação Física é a principal investigação dessa pesquisa. Assim, é
importante encontrar uma coerência nas propostas de ensino-
aprendizagem durante sua formação sobre os estudos do lazer e
suas relações com a atuação profissional.
O lazer tem despertado interesse no ensino, na pesquisa e na
extensão, nas instituições de ensino e pesquisa de todo o País,
particularmente na área da Educação Física. Mas, isso não se restringe
ao âmbito da formação profissional e acadêmica, atingindo, também,
o mercado de trabalho da área, que vem sendo anunciado como um
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
Formação profissional em lazer, nos cursos de... 33
dos mais promissores do século como campo de intervenção
multiprofissional para várias áreas do conhecimento, dentre as quais
a Educação Física (WERNECK, 2003).
Ao abordar a necessidade do estabelecimento de diretrizes para
uma política de lazer, Requixa (1980) destaca que algumas devem
ser consideradas: a ordenação do espaço, a reordenação do tempo
e a política de recursos humanos, na qual estão incluídas a política
de animação e a formação e qualificação dos quadros para atuação.
Neste sentido, apesar de enfatizar a necessidade de serem
trabalhadas todas essas diretrizes, Marcellino (1995) destaca que
um dos pilares para a composição de uma política de lazer é a
formação de recursos humanos para a atuação, sendo importante
seu desenvolvimento em toda a estrutura de animação.
O objetivo é investigar as relações entre a formação profissional
em lazer nos cursos de Educação Física e o mercado de trabalho na
área do lazer; se há diferenças na formação do bacharelado e da
licenciatura e de que modo os cursos vêm trabalhando a formação
profissional para atuação na área.
Para atender os objetivos, optamos por realizar uma pesquisa
bibliográfica, (SEVERINO, 2002), seguida de uma pesquisa
documental (BRUYNE, 1991), por análise de conteúdo (GIL, 2002).
Os cursos de ensino superior de Educação Física foram
selecionados por critérios de representatividade e acessibilidade e
por estarem localizados no estado de São Paulo, onde o mercado de
trabalho do profissional de educação física que atua com lazer está
mais desenvolvido. Foram três instituições particulares e três públicas,
próximas à cidade de Piracicaba, SP, sede da Unimep, onde a
pesquisa se desenvolveu. Estas instituições foram nomeadas da
seguinte forma:
*I1 - Instituição particular em cidade de médio porte do interior
do estado de São Paulo, com cursos de licenciatura e bacharelado;
*I2 - Instituição particular em cidade sede de região
metropolitana do estado de São Paulo, com cursos de licenciatura e
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
34 Artigos Originais André De Filippis, Nelson C. Marcellino
bacharelado;
*I3 - Instituição estadual em cidade de médio porte do interior
do estado de São Paulo com cursos de licenciatura e bacharelado;
*I4 - Instituição estadual em cidade sede de região metropolitana
do estado de São Paulo com cursos de licenciatura e bacharelado;
*I5 - Instituição estadual em cidade sede de região metropolitana
do estado de São Paulo de grande porte com cursos de licenciatura
e bacharelado; e
*I6 - Instituição particular em cidade de grande porte do interior
do estado São Paulo com cursos de licenciatura e bacharelado.
Para a coleta dos documentos houve o contato com os
coordenadores e/ou diretores dos cursos de Ensino Superior em
Educação Física selecionados para o estudo, para os quais foi enviada
uma carta de apresentação e a documentação emitida pelo Comitê
de Ética da Universidade Metodista de Pairacicaba e solicitada
permissão para realização da pesquisa, tendo aprovação de todos os
cursos selecionados. O modo de investigação foi o estudo
comparativo (BRUYNE, 1991) com o objetivo de melhor analisar
as universidades selecionadas.
Foram levantadas sete categorias de análise. São elas: (1) como
o lazer é citado nos projetos pedagógicos; (2) disciplinas diretamente
vinculadas aos estudos do lazer; (3) vinculação das disciplinas com
as outras esferas da vida; (4) vinculação das disciplinas com relação
aos conteúdos culturais do lazer; (5) vinculação das disciplinas com
os conteúdos físico-esportivos; (6) relação da bibliografia básica
utilizada nas ementas das disciplinas relacionadas ao lazer e (7) a
relação entre teoria e prática.
Quanto ao lazer, utilizamos o conceito de Marcellino (1990),
que o entende como a cultura que pode ser vivenciada em seu sentido
mais amplo, em que não se busca outra recompensa além da
satisfação provocada pela situação, tendo como traço definidor o
caráter desinteressado, respeitados os aspectos tempo e atitude. Além
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
Formação profissional em lazer, nos cursos de... 35
disso, os pesquisadores concordam com a caracterização do lazer
em seus seis conteúdos, desenvolvidos por Dumazedier, Camargo e,
mais tarde, abordados por Marcellino.
Desta forma, há possibilidade de ver o lazer como um campo
de atuação rico e amplo para os profissionais de educação física,
em que a especificidade desta está nos conteúdos físico-esportivos
do lazer.
2 ANÁLISE E DISCUSSÃO
2.1 COMO O LAZER É CITADO NOS PROJETOS PEDAGÓGICOS
Das seis instituições analisadas, apenas uma (I5) não cita o
lazer em seu projeto pedagógico. Em todas as outras há menção ao
lazer.
Este fato produziu certa inquietação sobre a atuação
profissional; todos os profissionais formados em Educação Física,
em qualquer instituição de ensino, serão considerados aptos a atuar
em qualquer área da educação física, inclusive no lazer,
independentemente de ter estudado durante a formação inicial. Por
este e outros motivos, defende a inclusão do lazer nos projetos
pedagógicos das universidades e faculdades.
A segunda preocupação foi observar como o lazer é citado nos
projetos pedagógicos das cinco instituições que o estão mencionado.
Três instituições (I1, I3 e I6) relacionam o lazer ao ensino de
projetos de lazer em clubes e espaços públicos. Quatro instituições
(I1, I2, I3 e I6) abordam a disciplina com componentes relacionados
aos conteúdos do lazer, práticas recreacionais e políticas públicas de
esporte e lazer. Quanto à questão do perfil profissional, quatro
instituições abordam esta temática (I1, I2, I3 e I4). Sobre o lazer
como eixo de conhecimento da Educação Física, o tema aparece
em três instituições (I3, I4 e I6). Finalmente, sobre educação e escola,
são observadas duas instituições que relacionam o lazer a essas
questões (I1 e I6).
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
36 Artigos Originais André De Filippis, Nelson C. Marcellino
Analisando estes resultados, pode notar que apenas três
instituições (I1, I3 e I6) abordam quatro maneiras de se trabalhar o
lazer com os estudantes de educação física. As demais (I2 e I4)
abordam somente duas temáticas. Além disso, não há menção ao
lazer relacionado à escola; isso ocorre apenas na I6. Na maioria das
instituições pesquisadas não parece haver nem mesmo uma
diferenciação entre a abordagem do lazer para alunos da licenciatura
e do bacharelado, o que, em nosso entendimento, deveria existir,
pois ao concordar com Barros (1995) a licenciatura e o bacharelado
são dois cursos distintos, que preparam profissionais com perfis
diferentes com possibilidade de complementação de estudos. Somente
a I6 faz esta distinção.
Desta maneira, acreditamos que o currículo deve ser organizado
a partir das competências esperadas de cada profissional. O
licenciado que atua na educação formal deve estar apto a elaborar
programas adequados aos seus alunos, bem como ter conhecimento
sobre a criança e o jovem, já que seu público de atuação é composto
majoritariamente por eles. O bacharel deve poder atuar nos campos
da recreação, lazer, esporte de alto rendimento, exercício e saúde,
educação física adaptada, entre outros, além de estar apto a elaborar
programas de atividades para sua clientela (BARROS, 1995).
Além de observar nos projetos a menção da palavra "lazer",
procuramos analisá-los como um todo, percebendo que, mesmo não
encontrando em todos os projetos a palavra "lazer", este pode ser
trabalhado indiretamente em outras disciplinas. Desta forma, o lazer
demonstra sua abrangência e interdisciplinaridade, mencionadas no
primeiro capítulo desta dissertação.
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
Formação profissional em lazer, nos cursos de... 37
Figura 1 - O Lazer é citado no projeto pedagógico
Fonte: FILIPPIS, 2012, p. 58.
Figura 2 - Como o lazer é citado nos projetos pedagógicos.
Fonte: FILIPPIS, 2012, p..59.
2.2 DISCIPLINAS DIRETAMENTE VINCULADAS AOS ESTUDOS DO LAZER
Dentre as instituições pesquisadas, apenas uma (I4) apresenta
quatro disciplinas diferentes sobre lazer, sendo elas "Estudos do lazer",
"Lazer e sociedade", "Lazer e planejamento" e "Fundamentos do
lazer".
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
38 Artigos Originais André De Filippis, Nelson C. Marcellino
A disciplina "Estudos do lazer" dá-se como uma introdução aos
estudos do lazer compreendido como fenômeno e direito social, no
campo de atuação multidisciplinar. Aborda as relações concretas do
lazer na sociedade, especialmente com a Educação Física,
considerando as várias fases da vida, bem como as manifestações
do lúdico no lazer, na cultura e no planejamento da ação neste campo.
Notamos que se trata de uma disciplina teórica e que explica o que
é o lazer em seus campos de atuação, além de suas manifestações
e relações com outras esferas, como a educação física e o lúdico.
Por sua vez, a disciplina "Lazer e sociedade" compreende o
estudo das relações entre esses dois elementos e suas implicações
contemporâneas. Observamos que se trata de uma disciplina teórica,
complementando a primeira.
A terceira disciplina oferecida nesta instituição, "Lazer e
planejamento", aborda questões como compreensão dos elementos
técnicos para o planejamento do trabalho do profissional de educação
física considerando o conhecimento dos fundamentos teóricos e o
campo do lazer. Finalmente, a disciplina "Fundamentos do lazer" traz
reflexões sobre o fenômeno do lazer em suas diversas dimensões,
abordando as bases teóricas diferenciadas que abordam o tema.
Em outras duas instituições, encontramos três disciplinas que
tratam do lazer. Na instituição 1 temos "Estudos do lazer" (já citada
acima); "Práticas de recreação e lazer", explicada como um
laboratório de atividades recreativas, com uma abordagem conceitual
das relações existentes entre a educação física, a recreação e o
lazer; e a disciplina "Políticas públicas dos esportes e lazer", que
busca analisar as ações desenvolvidas por órgãos públicos e privados
em âmbito nacional e municipal, discutindo o papel do Estado, das
instituições e da sociedade civil e propondo estratégias de resolução
de problemas por meio da ação, por projetos.
Na instituição 6, que oferece três disciplinas sobre o tema,
encontramos "Políticas de ação no campo do lazer", "Introdução aos
estudos do lazer em motricidade humana", que aborda a relação
histórica entre esses dois elementos, os conceitos e a situação atual,
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
Formação profissional em lazer, nos cursos de... 39
com especial atenção à realidade brasileira, e "Repertório de
atividades em recreação e lazer", com uma abordagem crítica e
criativa do repertório de atividades de recreação e lazer, permitindo
que o aluno desenvolva seu próprio repertório.
Por fim, em duas instituições, apenas uma disciplina sobre lazer
é ofertada para os alunos. Na instituição 2 a disciplina "Recreação e
lazer" relaciona estes elementos à educação física, encorajando uma
reflexão sobre o lazer como direito do cidadão e como atividade
cultural, social, política e pedagógica. Apresenta o jogo no contexto
da recreação, refletindo sobre suas dimensões teórica e prática, bem
como procedimentos metodológicos para aplicação em instituições
escolares e não escolares.
Na instituição 3 é ofertada a disciplina "Fundamentos do lazer",
já explicada. Assim, vale ressaltar que de todas as instituições
analisadas, somente a I5 não apresenta nenhuma disciplina
diretamente vinculada ao lazer.
Figura 3 - Disciplinas diretamente vinculadas aos estudos o lazer
Fonte: FILIPPIS, 2012, p. 61.
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
40 Artigos Originais André De Filippis, Nelson C. Marcellino
2.3 VINCULAÇÃO DAS DISCIPLINAS COM OUTRAS ESFERAS DA VIDA
Para análise deste item foram levados em consideração a
definição dos conhecimentos exigidos para a constituição de
competências colocadas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para
a Formação de Professores da Educação Básica (2012), que deverá,
além da formação específica relacionada às diferentes etapas da
educação básica, propiciar a inserção no debate contemporâneo mais
amplo, envolvendo questões culturais, sociais, econômicas e o
conhecimento sobre o desenvolvimento humano, contemplando a
cultura geral e profissional; os conhecimentos sobre crianças,
adolescentes, jovens e adultos, levando em consideração as
especificidades dos alunos com necessidades educacionais especiais;
o conhecimento sobre as dimensões cultural, social, política e
econômica da educação; e o conhecimento advindo da experiência.
Desta forma, acreditamos que esses conhecimentos possam
ser relacionados ao lazer e neste item observarmos a vinculação
feita pelas disciplinas específicas da educação física com os
acontecimentos do dia a dia vivenciados pelos estudantes.
Todas as instituições pesquisadas fazem a relação de suas
disciplinas com a saúde, de modo geral, e com a faixa etária da
população com a qual o profissional de educação física atuará.
Outros pontos citados referem-se ao mercado de trabalho (I1,
I2, I3, I4 e I6) e à educação (I1, I3, I4, I5 e I6), relacionados por
cinco instituições.
Notamos que outra questão abordada nas disciplinas de quatro
instituições (I1, I3, I4 e I6) diz respeito a espaços e equipamentos.
Consideramos esta discussão de extrema valia, pois é um assunto
que engloba a relação do lazer com a educação física, além das
políticas públicas.
Outro assunto abordado por quatro instituições (I1, I3, I4 e I6)
diz respeito a outras esferas da vida social, como trabalho, família,
educação, saúde, religião etc. Nas instituições I3, I4 e I6 as disciplinas
também abordam questões de gênero, faixa etária e estereótipos.
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
Formação profissional em lazer, nos cursos de... 41
Figura 4 - Vinculação das disciplinas.
Fonte: FILIPPIS, 2012, p. 62.
Figura 5 - Vinculação das disciplinas.
Fonte: FILIPPIS, 2012, p. 63.
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
42 Artigos Originais André De Filippis, Nelson C. Marcellino
2.4 VINCULAÇÃO DAS DISCIPLINAS COM RELAÇÃO AOS CONTEÚDOS
CULTURAIS DO LAZER
Relembrando os conteúdos culturais propostos por Marcellino
(2007), baseado em Dumazedier (1980) e Camargo (1986), temos
seis áreas fundamentais: (1) o conteúdo manual, que inclui atividades
nas quais prevalece a habilidade de manipulação, como jardinagem,
artesanato, cuidado com animais; (2) o conteúdo artístico, que abrange
as manifestações artísticas, o imaginário; (3) o conteúdo intelectual,
que busca o contato com o real, dando ênfase ao conhecimento
vivido e experimentado, como a leitura, por exemplo; (4) o conteúdo
social, no qual prevalece o contato face a face, um interesse no
relacionamento, como frequentar bares, bailes; (5) o conteúdo
turístico, caracterizado pela busca da quebra da rotina temporal ou
espacial e o contato com novas situações e culturas, como os passeios
e viagens; e, finalmente, (6) o conteúdo físico-esportivo, que se
caracteriza pelo movimento, abrangendo as práticas esportivas,
passeios, pesca, ginástica e todas as atividades em que prevalece o
movimento.
Este último conteúdo é considerado especificidade da educação
física, em virtude de ter, como principal característica, o movimento.
Desta forma, torna-se fundamental que os alunos dos cursos de
educação física tenham acesso pelo menos a este conteúdo. Seria
importante, também, que os alunos tivessem acesso ao conhecimento
dos demais conteúdos para serem capazes de trabalhar no campo
do lazer com uma visão abrangente, sabendo que há mais do que
esportes e atividades físicas no lazer. Isto, porém, não foi observado
nos projetos das instituições: somente a I6 aborda todos os conteúdos
culturais do lazer em suas disciplinas.
A instituição 5, que não cita o lazer em seu projeto pedagógico,
abrange um único conteúdo do lazer (o físico-esportivo), porém não
pelo fato de falar ou não sobre o lazer diretamente, mas por ser um
curso de educação física.
Outras três instituições (I1, I2 e I3) abordam os mesmos três
conteúdos em suas disciplinas; são eles: o físico-esportivo, o artístico
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
Formação profissional em lazer, nos cursos de... 43
e o social. A instituição 4, além desses três conteúdos, aborda, ainda,
o turístico. Sendo assim, contempla quatro conteúdos do lazer em
suas disciplinas.
Observamos que os conteúdos intelectuais e manuais são
excluídos de quase todas as instituições, exceto a I6, que contempla
todos os conteúdos.
Assim, nos perguntamos: como pode um profissional de
educação física defender a participação da sociedade nos mais
variados conteúdos do lazer se nem ele tem acesso a tais informações
durante sua formação?
Figura 6 - Vinculação das disciplinas com relação aos conteúdos culturais do lazer.
Fonte: FILIPPIS, 2012, p. 65.
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
44 Artigos Originais André De Filippis, Nelson C. Marcellino
2.5 VINCULAÇÃO DAS DISCIPLINAS COM RELAÇÃO AOS CONTEÚDOS FÍSICO-
ESPORTIVOS
Analisando as disciplinas propostas pelas universidades
pesquisadas, apontamos aquelas que dizem respeito ao conteúdo
físico-esportivo, sendo que estas, abordando o conteúdo que é
específico da educação física, podem ou não relacioná-lo ao lazer.
Observamos a recorrência no que diz respeito aos conteúdos
básicos da educação física. Desta forma, as universidades I1, I2, I3,
I4 e I6 apresentam em seu projeto pedagógico as disciplinas: Teoria
e prática de dança e ritmos; Teoria e prática de esportes, que
abrangem o voleibol, handebol, futebol, futsal, basquetebol, ginástica
artística e rítmica, natação e lutas. Dentre estas universidades, apenas
a I1 não contempla o conteúdo atletismo em seu projeto.
As instituições I1, I2, I4 e I6 apresentam uma disciplina que
engloba jogos de raquetes; outra disciplina abordada por quatro
instituições (I1, I3, I4 e I6) é "Ginástica geral". "Teoria e prática de
jogos e brincadeiras" é disciplina citada em apenas três instituições
(I1, I3 e I4). "Esportes de aventura" faz parte dos projetos da I2 e
I6. A disciplina "Planejamento e marketing esportivo" consta apenas
do projeto pedagógico da I2. E o projeto da I6 traz uma disciplina
que trata da organização de eventos escolares e esportivos.
Vemos que todas essas disciplinas dizem respeito à
especificidade da educação física e, portanto, podem ser abordadas
na perspectiva do lazer. Desta forma, as aulas de voleibol, futebol,
dança, natação e as demais citadas, além de colaborarem na formação
de um profissional que seja possuidor do conhecimento básico para
ser um educador físico, podem auxiliar na formação de um profissional
mais completo e competente para atuação na área do lazer.
Para que isso ocorra é necessário que o professor da disciplina
inclua em suas aulas, no mínimo, o básico do conhecimento sobre o
lazer e suas relações com os conteúdos da educação física, ou seja,
como utilizar o conhecimento adquirido em dança, por exemplo, para
um projeto de lazer.
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
Formação profissional em lazer, nos cursos de... 45
Neste sentido, voltamos a frisar que uma formação qualificada
faz-se necessária para uma atuação efetiva junto à sociedade. Assim,
para fortalecer nossa opinião, citamos Isayama (2010, p. 13) que
diz: a formação deve proporcionar o domínio de conteúdos a serem
socializados, por meio do entendimento de seus significados em
diferentes contextos e articulações interdisciplinares, e, por fim, o
conhecimento de processos de investigação que auxiliem no
aperfeiçoamento da ação profissional no campo do lazer.
Desta forma, acreditamos que as instituições citadas acima
(I1, I2, I3, I4 e I6) realizem a relação entre as disciplinas consideradas
específicas da educação física e as disciplinas contidas no projeto
pedagógico, específicas do lazer.
A instituição 5, que não menciona o lazer em seu projeto, também
não contempla nenhuma das disciplinas citadas acima. Suas
disciplinas vinculadas ao conteúdo físico-esportivo são denominadas:
educação física escolar; educação física na educação infantil i e ii;
educação física no ensino fundamental i, ii e iii; educação física no
ensino médio.
Neste caso, podemos apenas supor que, nesta instituição, as
disciplinas específicas da educação física são utilizadas como
ferramentas para uma formação que englobe o lazer, uma vez que
em sua grade curricular não se encontra nenhuma disciplina que
trate dele diretamente.
Isto corrobora as constatações de Isayama (2002), que, ao
analisar currículos dos mais variados cursos, como fisioterapia,
hotelaria, turismo, artes, administração, entre outros, identifica que
as discussões sobre lazer aparecem em estágio inicial, sendo feitas
de modo superficial. Isso caracteriza uma incompatibilidade entre o
estudo e o campo de atuação que se expande cada dia mais.
Com relação à questão do ensino em suas diferentes vertentes
(licenciatura e bacharelado), notamos que ainda temos um grande
caminho a percorrer no que diz respeito à formação profissional em
educação física e em lazer: buscando melhorias nas propostas
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
46 Artigos Originais André De Filippis, Nelson C. Marcellino
curriculares das instituições de ensino, procurando englobar o lazer
nos cursos de formação e mantendo sua característica
multidisciplinar.
Figura 7 - Vinculação das disciplinas com relação aos conteúdos físico-esportivos.
Fonte: FILIPPIS, 2012, p. 68.
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
Formação profissional em lazer, nos cursos de... 47
2.6 RELAÇÃO DA BIBLIOGRAFIA BÁSICA UTILIZADA NAS EMENTAS DAS
DISCIPLINAS RELACIONADAS AO LAZER: PRINCIPAIS AUTORES
Outro aspecto que analisamos foram as referências
bibliográficas utilizadas nas disciplinas relacionadas ao lazer. Nesta
questão observamos que nenhuma das instituições pesquisadas usam
teses ou dissertações como referência para suas disciplinas.
Este fato provoca certa inquietação, pois conforme enfatizando,
defendemos uma formação continuada; para tal, acreditamos ser
imprescindível que os graduandos tenham acesso a teses e
dissertações. Isso contribuiria para enriquecer o contato dos
estudantes para além dos livros.
A formação continuada é encarada como uma possibilidade do
profissional sobressair-se perante outros. Assim, esta formação deve
ser almejada pelo próprio profissional. Neste sentido, a participação
em congressos da área, seminários, palestras, cursos de extensão e
cursos de pós-graduação torna-se um diferencial para o mercado
de trabalho, que busca sempre um profissional cada vez mais
qualificado.
Além disso, a participação em cursos, congressos etc. pode
estimular o interesse do profissional em buscar, cada vez mais, ampliar
seus conhecimentos sobre determinado assunto ou área. Assim,
enfatizamos que o contato com teses e dissertações pode gerar um
interesse pela formação continuada.
Observamos que somente duas instituições pesquisadas (I4 e
I6) utilizam periódicos como referência básica em suas disciplinas
sobre lazer. Isto demonstra maior interesse em proporcionar aos
alunos o contato com artigos e periódicos, ampliando suas referências
para uma formação continuada.
Dentre as instituições cujo projeto pedagógico analisamos, a
única que não apresenta bibliografia sobre lazer é a instituição cinco,
já que não o cita em seu projeto. As demais (I1, I2, I3, I4 e I6)
utilizam livros em suas referências.
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
48 Artigos Originais André De Filippis, Nelson C. Marcellino
Além disso, analisamos quais autores são mais utilizados nas
disciplinas específicas de lazer. Marcellino é destacado como o autor
mais utilizado nas disciplinas diretamente relacionadas ao lazer, sendo
citado em todas as instituições pesquisadas nas quais o lazer é
mencionado nos projetos pedagógicos; encontramos 12 obras do autor
relacionadas nos planos de ensino. Bruhns aparece como um das
autoras mais utilizadas (I1, I2, I3 e I4).
Outros autores importantes para a área do lazer são citados
nas referências dos projetos. São eles: Luis Octávio de Lima
Camargo, Joffre Dumazedier, Leila Mirtes dos Santos Magalhães
Pinto, Gisele Schwartz e João Batista Freire. Este último é utilizado,
inclusive, na instituição cinco, que mesmo não ofertando nenhuma
disciplina específica sobre lazer, utiliza-o em suas disciplinas
específicas da área da educação física, onde o lazer pode, também,
ser abordado.
Figura 8 - Relação da bibliografia básica utilizada nas ementas das disciplinas
relacionadas ao lazer: principais autores.
Fonte: FILIPPIS, 2012, p. 70.
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
Formação profissional em lazer, nos cursos de... 49
Figura 9 - Relação da bibliografia básica utilizada nas ementas
das disciplinas relacionadas ao lazer
Fonte: FILIPPIS, 2012, p. 70.
2.7 RELAÇÃO ENTRE TEORIA E PRÁTICA
Ressaltamos, a divisão das aulas em teoria e prática. Pensamos
ser válida esta observação, pois, como dito anteriormente, defendemos
que uma formação completa depende de um equilíbrio entre aulas
práticas e teóricas.
Assim, retomando nossa discussão, concordamos com Isayama
que se o profissional é possuidor de um referencial teórico sólido,
compreenderá sua prática por meio de novos olhares. Esta formação
possibilitaria a socialização dos conteúdos por meio do entendimento
do seu significado. Finaliza o autor dizendo que a formação na área
do lazer "deve ser pautada na competência técnica, científica, política,
filosófica e pedagógica e no conhecimento crítico da realidade" (2010,
p. 13).
Para analisar a quantidade de aulas teóricas e práticas,
observamos, em primeiro lugar, se havia diferença na carga horária
dos cursos de licenciatura e bacharelado. Das seis instituições
pesquisadas, metade possui carga horária igual para os dois cursos
(I3, I4 e I5), sendo 420 horas/aulas práticas e 2.430 horas teóricas
na I3; 800 horas práticas e 2 mil horas teóricas na I4; e 1.050 horas
práticas e 2.595 horas teóricas na I5.
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
50 Artigos Originais André De Filippis, Nelson C. Marcellino
Nas outras três instituições há diferença entre a carga horária
dos cursos destinados à teoria e à prática. Assim, na I1, o curso de
bacharelado possui 860 horas práticas e 1.780 horas teóricas; e o
curso de licenciatura conta com 366 horas práticas e 1.434 horas
teóricas.
A I2 destina ao curso de bacharelado 640 horas práticas e
1.420 horas teóricas; para os licenciados são 480 horas práticas e
960 horas teóricas. A última instituição que diferencia a quantidade
de aulas para os cursos é a de número seis, onde, para o bacharelado
são 1.326 horas práticas e 1.908 horas teóricas e para a licenciatura
são 1.377 horas práticas e 1.683 horas teóricas.
Todas as instituições pesquisadas possuem uma carga horária
que contempla aulas teóricas e práticas, o que corrobora os estudos
desenvolvidos sobre esta questão.
Figura 10 - Quantidade de horas/aulas: licenciatura e bacharelado3
Fonte: FILIPPIS, 2012, p. 72.
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
Formação profissional em lazer, nos cursos de... 51
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pelo estudo realizado, analisamos a importância de refletir sobre
a formação profissional em geral, bem como a formação em educação
física relacionada ao lazer.
Nossa pesquisa conclui que há relação entre a formação
profissional em lazer nos cursos superiores de Educação Física e a
atuação em campo; que os cursos de Educação Física são espaços
para a formação profissional na área, porém deve ser abordada em
outros cursos pela necessidade de, pela formação, contemplar o
caráter pluri e multiprofissional em busca de trabalhos
interdisciplinares, inerentes à transversalidade do objeto de estudo -
o lazer.
Isto nos leva a outra preocupação no que diz respeito às
disciplinas sobre lazer e educação física: a dicotomia entre prática e
teoria. Durante a pesquisa entendemos que tanto a teoria quanto a
prática são igualmente necessárias e uma não deve se sobressair à
outra. O profissional, além do conhecimento prático, deve ter um
sólido conhecimento teórico para que sua futura prática seja
intencional, crítica e criativa, possibilitando a manifestação do lazer
em seu todo.
Outros aspectos foram avaliados além das categorias de análise,
e atentamos para a questão da diferenciação entre os cursos de
bacharelado e licenciatura em Educação Física, nos quais acreditamos
existir uma diferença de abordagem em relação aos conteúdos
específicos da educação física e do lazer, pelo simples fato de serem
dois campos distintos de atuação. Porém, apesar da atuação do
profissional de educação física ser diferente na licenciatura e no
bacharelado e algumas instituições possuírem planos de ensino
diferentes, dando ênfase ao campo de atuação no qual o aluno está
sendo formado, essas disciplinas diretamente vinculadas ao lazer
são eliminadas caso o aluno opte pelas duas formações, dando a
característica de disciplina básica para as duas formações, deixando
de lado a importância na diferença da formação do licenciado e do
bacharel.
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
52 Artigos Originais André De Filippis, Nelson C. Marcellino
Nesta questão, devemos ressaltar a relevância em estudar,
pesquisar e melhorar as grades curriculares dos cursos de Educação
Física para uma formação mais promissora no que concerne ao lazer.
Ressaltamos que somente as instituições dois e seis explicitaram
com o cronograma de aula da disciplina. Além disso, alguns projetos
pedagógicos foram apresentados sem suas alterações, mostrando-
se desatualizados, dificultando a análise.
Nesta questão, apenas um professor da instituição (I6) possui
planos de ensino diferenciados para licenciatura e bacharelado para
as disciplinas diretamente vinculadas ao lazer. Isto demonstra
preocupação com a formação do aluno, pois deve existir uma
diferença de abordagem em relação aos conteúdos específicos da
educação física e do lazer pelo simples fato de serem dois campos
distintos de atuação.
Complementando a formação do aluno, tanto da graduação
como da pós-graduação, temos os grupos de pesquisa. Dentre as
instituições pesquisadas, I3, I4 e I6 possuem grupos de pesquisa de
lazer, lembrando que a I3 possui apenas uma disciplina diretamente
relacionada ao lazer.
Portanto, isso pode significar um ideal de formação, por meio
da reelaboração e/ou reorganização dos currículos, tendo como meta
uma melhor relação entre a formação e a intervenção profissional,
ansiando pela capacidade de criatividade do indivíduo, buscando
mudanças da realidade.
Desta forma, entendemos as instituições de ensino como um
espaço de formação do homem e da sociedade, buscando saberes
mais complexos, reflexivos e críticos que gerem questionamentos,
não só sobre nossa área, mas a vida em sociedade em geral.
Encontramos no lazer uma possibilidade de transformação dos
sujeitos, de incentivo à criticidade e criatividade em todas as esferas
da vida, como trabalho, família, religião e política, além de ser um
momento de novas oportunidades em relação à cultura, tanto no
conhecimento, quanto na sua produção.
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
Formação profissional em lazer, nos cursos de... 53
O lazer, compreendido em sua amplitude, articula-se aos campos
de atuação da Educação Física, pois, desde seu surgimento, o
profissional dessa área desenvolve atividades e trabalhos dentro e
fora de nosso país (BRAMANTE, 2005).
Somente após 1962, no entanto, por meio do Parecer n. 298, a
disciplina "Recreação e lazer" foi inserida oficialmente nos currículos
de formação em Educação Física (PINTO, 2001). A pesquisa sobre
lazer nas faculdades de Educação Física começa a ser sistematizada
somente a partir de 1980 (MARCELLINO, 1995).
Dessa forma, existe uma diferença temporal significativa entre
ação profissional, ensino e pesquisa na área (MARCELLINO, 2012).
Comparando a dados coletados em pesquisa anterior
(ISAYAMA, 2002), o número de disciplinas diretamente ligadas aos
estudos do lazer está aumentando nos cursos de Educação Física, e
onde existem, não se reduzem à recreação, contemplando as relações
com as outras esferas da vida, historicidade e abrangendo os
diferentes conteúdos culturais, antes restritos aos fisicoeportivos.
Assim, talvez agora, no estado de São Paulo, começamos a
colher os frutos das pesquisas realizadas a partir da década de 1980,
conforme citado acima.
Este estudo procura colaborar com a formação profissional
em lazer nos cursos de Educação Física e esperamos que dele
resultem mais discussões sobre o tema, gerando questionamentos e
mudanças nos projetos pedagógicos, procurando somar na formação
de profissionais comprometidos, éticos e, sobretudo, criativos em
sua atuação.
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
54 Artigos Originais André De Filippis, Nelson C. Marcellino
Professional training in leisure in Physical
Education courses, in the State of São Paulo
Abstract: This study aims to investigate the relationship
between vocational training in leisure within the
Physical Education courses and the labor market in
this area in the attempt to see if there are differences
in the undergraduate courses and how they have
been training for a professional performance in the
area. The literature review and desk research were
made through content analysis. The results highlight
that the number of subjects is increasing; they are not
reduced to recreation, but contemplate relations with
other spheres of life, historicity and cover different
cultural contents
Keywords: Professional training. Physical Education.
Leisure Activities.
Cursos de formación en ocio libre en la
Educación Física en el Estado de São Paulo
Resumen: Este estudio tiene como objetivo investigar
las relaciones entre la formación profesional en el
ocio en los cursos de Educación Física y el mercado
de trabajo en esta área, tratando de identificar si existen
diferencias en la formación de la licenciatura y de
posgrado y cómo los cursos han estado trabajando la
formación profesional para el desempeño profesional
en esta área. Se realizaron análisis de contenido
bibliográfico y documental. Los resultados revelan que
el número de disciplinas va aumentando, no se
reduciendo a la recreación, pero contemplando las
relaciones con otras esferas de la vida, la historicidad
y cubriendo los diferentes contenidos culturales.
Palabras clave: Formación Profesional. Educación
Física. Actividades de ocio.
REFERÊNCIAS
BARROS, J. M. C. Educação Física na Unesp de Rio Claro: bacharelado e licenciatura.
Motriz, Rio Claro, v. 1, n. 1, p. 71-80, jun. 1995.
BRAMANTE, A. C. Recreação e lazer: o futuro em nossas mãos. In: MOREIRA, W.
W. (Org.). Educação física e esportes: perspectivas para o século XXI. 12. ed.
Campinas: Papirus, 2005.
BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Disponível em: <www.inep. gov.br/
pesquisa>. Acesso em: 30 jul. 2012.
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
Formação profissional em lazer, nos cursos de... 55
BRUYNE, P. de. Dinâmica da pesquisa em ciências sociais. Rio de Janeiro:
Francisco Alves, 1991.
CAMARGO, L. O. de L. O que é lazer. S.Paulo, Brasiliense, 1986.
DIRETRIZES currículares nacionais. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/
index.php?option=com_content&view=article&id=12991&Itemid=866> Acesso em:
3 dez. 2012.
DUMAZEDIER, J. Questionamento teórico do lazer. Centro de estudos e
recreação - CELAR. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande
do Sul, 1975.
FILIPPIS, A, D. Formação profissional em lazer, nos cursos de Educação
Física, no estado de São Paulo. Piracicaba-SP, 2012.
GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2002.
ISAYAMA, H. F. Formação profissional no âmbito do lazer: desafios e perspectivas.
In: ISAYAMA, H. F. (Org.). Lazer em estudo: currículo e formação profissional.
Campinas: Papirus, 2010.
______. Recreação e lazer como integrantes dos currículos dos cursos
de graduação em Educação Física. Tese (Doutorado em Educação Física) -
Universidade de Campinas, Campinas, SP, 2002.
LOMBARDI, M. I. Lazer como prática educativa: as possibilidades para o
desenvolvimento humano. Dissertação (Mestrado em Educação Física) - Faculdade
de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, 2005.
MARCELLINO, N. C. A dicotomia teoria/prática na Educação Física. Motrivivência,
Florianópolis, v. 7, n. 8, p. 73-78, 1995.
______. Lazer e educação. 2. ed. Campinas: Papirus, 1990.
______. Lazer e humanização. 7. ed. Campinas: Papirus, 2003.
______. Lazer e cultura: algumas aproximações. In: MARCELLINO, N. C. (Org.).
Lazer e cultura. Campinas: Alínea, 2007.
______. Os estudos do lazer e algumas escolas antropológicas. In: COLÓQUIO
EDUCAÇÃO FÍSICA E CIÊNCIAS SOCIAIS EM DIÁLOGO: AS PRÁTICAS CORPORAIS
COMO MANIFESTAÇÃO CULTURAL E DE LAZER NA CONTEMPORANEIDADE., 2.,
2012. Anais… Piracicaba: Universidade Metodista de Piracicaba, 2012. p. 16-23,
n. 1.
PINTO, L. M. S. M. Formação de educadores e educadoras para o lazer: saberes e
competências. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 22, n. 3, p. 53-71,
mai. 2001.
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.
56 Artigos Originais André De Filippis, Nelson C. Marcellino
______. Lazer e educação: desafios da atualidade. In: MARCELLINO, N. C.
(Org.). Lazer e sociedade: múltiplas relações. Campinas: Alínea, 2008.
REQUIXA, R. Sugestões de diretrizes para uma política nacional de lazer.
São Paulo: Sesc, 1980.
SEVERINO, A. J. Metodologia do trabalho científico. 19. ed. São Paulo: Cortez,
2002.
W ERNECK, C. L. G. Lazer, recreação e educação física. Belo Horizonte:
Autêntica, 2003.
Endereço para correspondência:
André De Filippis
Avenida Celso Garcia, 1907 Ap.163 Bl.20
CEP:03015-000 - Brás
São Paulo - SP
Recebido em: 05.03.2013
Aprovado em: 08.04.2013
, Porto Alegre, v. 19, n. 03, p. 31-56, jul/set de 2013.