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Miguel Reale

O autor, Miguel Reale, propõe uma revisão da teoria das fontes do direito, defendendo que as noções de 'fontes' e 'modelos' são complementares, abordando a validade e a eficácia das normas jurídicas, respectivamente. Ele critica a dicotomia entre fontes formais e materiais, sugerindo uma visão tridimensional do direito e enfatizando a importância do poder de decisão na configuração das fontes. Reale também classifica as fontes do direito em diferentes tipos e destaca a necessidade de um processo normativo que respeite os requisitos de validade estabelecidos pelo ordenamento jurídico.

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Miguel Reale

O autor, Miguel Reale, propõe uma revisão da teoria das fontes do direito, defendendo que as noções de 'fontes' e 'modelos' são complementares, abordando a validade e a eficácia das normas jurídicas, respectivamente. Ele critica a dicotomia entre fontes formais e materiais, sugerindo uma visão tridimensional do direito e enfatizando a importância do poder de decisão na configuração das fontes. Reale também classifica as fontes do direito em diferentes tipos e destaca a necessidade de um processo normativo que respeite os requisitos de validade estabelecidos pelo ordenamento jurídico.

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FONTES E MODELOS DO DIREITO: PARA UM NOVO PARADIGMA

HERMENÊUTICO – MIGUEL REALE

CAP 1- Observações preliminares

Colocação do problema básico

O autor relata a evolução de seu pensamento sobre a teoria das fontes


do direito, especialmente a partir da década de 1960, quando propôs uma revisão
conceitual baseada na ideia dos "modelos jurídicos". Inicialmente, cogitou substituir
a noção tradicional de "fontes do direito" pela de "modelos do direito", mas com o
avanço de suas pesquisas concluiu que essas duas teorias não se excluem, mas
se complementam.
Segundo ele, a teoria das fontes deve continuar tratando do processo de
instituição e validade das normas jurídicas, enquanto a teoria dos modelos se volta
à análise de seu significado e eficácia prática.
Com isso, o estudo do direito deve abarcar tanto a formalização
normativa (fontes) quanto os modos pelos quais essas normas se manifestam na
realidade (modelos jurídicos e dogmáticos).
O autor critica a tradicional distinção entre fontes formais e materiais do
direito, sustentando que somente a fonte formal é de interesse direto da ciência
jurídica, por representar a norma já positivada. Já as chamadas fontes materiais –
fatores sociais, econômicos ou culturais – pertencem ao campo da política do
direito. Reafirma, ainda, que o direito não se reduz à conduta nem trata apenas
dela, uma vez que também regula competências e estruturas institucionais.
Por fim, propõe uma visão tridimensional do direito (fato, valor e norma),
em que a regra jurídica é uma integração dinâmica desses elementos, sujeita a
transformações conforme mudanças na realidade normativa, fática ou axiológica.
Assim, os modelos jurídicos seriam projeções objetivas das fontes formais, com
caráter prescritivo e vinculante.
Correlação entre validade e eficácia este trecho, o autor aprofunda a
distinção e a relação entre os conceitos de fonte do direito e modelo jurídico,
associando-os, respectivamente, à validade e à eficácia das normas jurídicas.
Defende que a positividade do direito – isto é, sua efetiva existência como
ordenamento jurídico – depende da interação entre esses dois elementos: uma
norma não é plenamente jurídica se for apenas válida sem eficácia, ou eficaz sem
validade.

trote
Segundo ele, toda norma jurídica válida implica efeitos concretos, pois
uma norma que não produza qualquer consequência no mundo real seria apenas
um enunciado teórico e irrelevante. Da mesma forma, uma norma com eficácia
fática só é jurídica se estiver de acordo com o sistema normativo e for, portanto,
válida. Apesar dessa interdependência, o autor enfatiza que as fontes dizem
respeito à validade, isto é, à formalização das normas conforme os critérios do
ordenamento; já os modelos jurídicos correspondem à sua eficácia, ou seja, à
maneira como essas normas se manifestam e operam no mundo social.
O autor ainda contrasta sua visão com a de Hans Kelsen, para quem a
relação entre fontes e normas é lógica e estática. Em contraponto, sustenta que
essa relação deve ser compreendida de forma concreta e dinâmica, por meio de
uma dialética de complementaridade, na qual as normas são projeções das fontes
no tempo e no espaço, como comandos de dever-ser voltados à realidade social.
Essa abordagem busca, assim, superar a dicotomia formalismo versus
pragmatismo, integrando validade e eficácia como dimensões essenciais e
complementares da experiência jurídica.

Acepção dos termos estrutura e modelo

Neste trecho, o autor busca esclarecer o uso conceitual dos termos


"estrutura" e "modelo", que considera fundamentais para sua abordagem do Direito,
especialmente em sua obra O Direito como Experiência. Ele destaca que tais termos
são amplamente empregados em diferentes áreas do conhecimento — da Física à
Lógica, das Ciências Naturais às Ciências Humanas — e adquirem sentidos
variados conforme o campo em que se aplicam.
Para o autor, estrutura é entendida como um conjunto de elementos inter-
relacionados que, juntos, formam uma unidade de sentido. Essa unidade só adquire
significado pleno quando os elementos componentes são considerados em sua
totalidade e complementaridade. Ele utiliza a metáfora do organismo vivo para
ilustrar essa concepção: tal como um ser vivo, uma estrutura jurídica é um todo
coeso e articulado.
As estruturas sociais, segundo sua análise, não surgem ao acaso, mas
respondem a uma necessidade natural de ordem presente no ser humano. Com
base em autores como Lévi-Strauss, o autor sustenta que o senso de ordem é uma
qualidade imanente do pensamento humano, inclusive no chamado “homem
selvagem”. Dentro dessa lógica, o Direito é concebido como a mais alta expressão
dessa busca por ordem.
O autor enumera cinco características fundamentais das estruturas
sociais:
(a) Unidade integrada historicamente, com elementos que só fazem
sentido no conjunto;
(b) Unidade polarizada por um valor central, que confere coesão e
orientação ao sistema;
(c) Unidade vetorial e tensional, onde mudanças em partes afetam o todo
e vice-versa;
(d) Unidade funcional e simbólica, essencial à comunicação e vinculada
à linguagem;
(e) Unidade situacional, capaz de interagir com outras estruturas dentro
do mesmo contexto histórico.
A partir dessas bases, o autor define modelo como uma estrutura que
não apenas representa um campo de significações, mas serve como ponto de
partida para novas formulações — sejam estas deduções lógicas (como nos
modelos matemáticos) ou novas valorações (como no Direito). Assim, o modelo
jurídico é uma estrutura normativa, um dever-serque pode se expressar tanto no
plano da idealidade quanto no da ação prática.
Por fim, ele critica a concepção kelseniana que reduz o dever-ser jurídico
a uma relação lógica entre proposições. Para o autor, o dever-ser no Direito sempre
envolve uma dimensão volitiva da existência humana — ou seja, está imerso em
intenções, valores e funções sociais. Com isso, reforça sua concepção de que o
Direito deve ser compreendido de maneira mais rica e dinâmica, em consonância
com a complexidade da experiência humana.

Espécies de modelos

Neste trecho, o autor propõe uma classificação fundamental dos modelos


em três ordens principais: físicos, matemáticose histórico-culturais, destacando que,
embora todos sejam formas estruturadas de representação, possuem naturezas e
funções distintas conforme a área do saber em que atuam.
O modelo matemático, segundo ele, é uma criação ideal do pensamento
humano. Trata-se de um objeto puramente conceitual, desvinculado de qualquer
referência direta ao mundo exterior, embora, conforme Piaget, possa ter origem em
processos psíquicos. Com o tempo, esses modelos se tornam autônomos,
ganhando validade e sentido em si mesmos, como entidades lógicas que operam
no plano da idealidade — ou seja, são compreendidos em si e por si.
O autor, valendo-se de sua teoria dos objetos, distingue três grandes
tipos de conhecimento:
Objetos naturais (físicos e psíquicos), pertencentes ao mundo do ser
(Sein);
Objetos ideais (como os lógico-matemáticos), existentes no plano da
idealidade;
Objetos valorativos ou culturais (como os jurídicos, éticos, estéticos e
econômicos), que pertencem ao mundo do dever-ser (Sollen).
Dessa forma, ele sublinha que os valores não se confundem nem com
os objetos naturais nem com os ideais. Enquanto os primeiros dizem respeito à
realidade empírica, e os segundos operam dentro da lógica formal e da
consequencialidade ideal, os valores exigem uma vinculação com a experiência
humana concreta — são “tensionais” e estão sempre relacionados a um momento
de vida, uma expectativa, uma finalidade prática ou axiológica.
No plano do Direito, essa perspectiva é particularmente relevante, pois
as normas jurídicas não são meros produtos de cálculo lógico (como propôs Kelsen
em sua primeira formulação da Teoria Pura do Direito), mas sim expressões do
dever-ser cultural, imersas na realidade vivida. Elas valem na medida em que
orientam comportamentos dentro de contextos históricos, sociais e valorativos.
O autor reconhece que o desenvolvimento da lógica moderna, como a
lógica paraconsistente ou não-alética, permite representar realidades complexas e
até contraditórias. No entanto, reitera que tais representações ainda pertencem ao
campo ideal. Já no Direito e nas ciências humanas, lida-se com algo mais profundo:
aquilo que é na medida em que deve ser, em consonância com a terminologia de
Emil Lask, aplicável às ciências culturais.
Portanto, o autor reafirma a especificidade do Direito como ciência
cultural, fundada não apenas sobre estruturas lógicas, mas sobre valores vivos,
históricos e normativos, que exigem constante atualização no plano da experiência
social.

CAPÍTULO II- NOÇÃO DE FONTE DO DIREITO

FONTE DO DIREITO E PODER DE DECIDIR

Neste trecho, o autor aprofunda a compreensão das fontes do direito,


afirmando que elas são estruturas normativas necessariamente vinculadas a um
poder de decisão. Em outras palavras, uma fonte jurídica só se configura quando
há alguém — uma autoridade ou ente legitimado — que detém o poder de optar
entre alternativas normativas possíveis e declarar uma delas como obrigatória, seja
erga omnes (válida para todos), como nas leis e costumes, seja inter partes(válida
entre as partes), como nas decisões judiciais e nos contratos.
O autor destaca que a capacidade de decidir é o critério fundamental
para que algo seja considerado fonte do direito. Assim, mesmo que a doutrina
exerça profunda influência cultural e teórica, ela não possui poder vinculante, não
podendo, por si só, obrigar condutas ou criar normas. Portanto, a doutrina não é
fonte do direito, mas sim uma instância que produz modelos dogmáticos ou
hermenêuticos, os quais auxiliam na interpretação e aplicação dos modelos
jurídicos, sem, contudo, ter força normativa direta.
Esse esclarecimento é essencial para delimitar o campo de atuação de
cada tipo de modelo. Os modelos jurídicos, segundo o autor, são sempre
prescritivos, isto é, têm força obrigatória, ao passo que os modelos hermenêuticos
(como os gerados pela doutrina) são interpretativos, orientando o significado e o
alcance das normas ao longo do tempo.
Além disso, o autor aponta que a omissão da lei não impede a atuação
do Judiciário, que pode recorrer à analogia, aos costumes e aos princípios gerais
do direito (conforme o art. 4º da Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro)
para suprir lacunas. Ainda assim, mesmo as decisões judiciais, quando
consolidadas em súmulas, estão sujeitas à revisão conforme novos argumentos e
paradigmas hermenêuticos.
Por fim, o autor propõe uma classificação das fontes do direito com base
nas diferentes formas de exercício do poder decisório na vida social:
Fonte legal – expressão do poder estatal de legislar, por meio de leis e
regulamentos;
Fonte consuetudinária – oriunda de práticas sociais reiteradas, que
adquirem força normativa pela constância e aceitação coletiva;
Fonte jurisdicional – constituída pelas decisões dos tribunais, que
solucionam conflitos e produzem efeitos jurídicos;
Fonte negocial – fundamentada na autonomia privada, que permite aos
indivíduos criar obrigações e direitos reciprocamente vinculantes por meio de
acordos.
Essa tipologia reforça a centralidade do poder de obrigar como essência
das fontes do direito, ao mesmo tempo em que reafirma a importância das demais
formas de produção normativa no contexto da experiência jurídica.
Aspecto procedimental da fonte do direito

Neste trecho, o autor reafirma que a teoria das fontes do direito tem,
como seu primeiro e essencial objeto, o estudo dos requisitos de validade — tanto
de fato quanto de direito — que devem ser observados para que uma norma seja
reconhecida como jurídica. Ele cita Norberto Bobbio para enfatizar que a função da
teoria das fontes é justamente estabelecer esses critérios de validade normativa.
Acrescenta, contudo, que essa teoria não se restringe à dimensão formal, devendo
também abranger a análise das fontes em sua historicidade social, ou seja,
enquanto expressões do direito inseridas em contextos culturais e políticos
concretos.
Para o autor, faz parte da teoria das fontes não apenas a definição do
que confere validade a uma norma, mas também o estudo das formas e processos
pelos quais as normas são produzidas. Assim, uma lei somente será juridicamente
reconhecida se respeitar o devido processo legislativo, o qual envolve, por exemplo,
a competência do órgão legislador, a observância das etapas previstas na
Constituição e a promulgação formal da norma. Nesse ponto, o autor lembra a
rigidez de Rui Barbosa, que exigia até mesmo a conformidade das leis com os
regimentos internos do Legislativo, como condição de validade.
A teoria das fontes, portanto, constitui-se como uma teoria da validação
jurídica da norma, sendo um campo que antecede até mesmo a aplicação ou
interpretação das regras. Essa validade está sempre circunscrita aos limites
constitucionais vigentes no ordenamento jurídico de cada país. Contudo, o autor
assinala que, no contexto contemporâneo, há também valores jurídicos
transnacionais, como os expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos,
que passaram a funcionar como limites axiológicos universais da atividade
normativa, mesmo que esse tema seja reservado para discussão posterior.
O autor também destaca a divergência doutrinária quanto ao conceito de
"fonte do direito", optando por uma definição que vincula a fonte à capacidade de
produzir normas válidas. Para que uma norma seja dotada de vis compulsiva (isto
é, força obrigatória), ela deve ter sido emanada por uma fonte legítima, adequada à
sua natureza e finalidade, conforme preestabelecido pela Constituição e pela
legislação do país.
Por fim, ressalta que as fontes não devem ser tratadas de forma abstrata
ou universal, pois variam segundo as circunstâncias históricas e os sistemas
jurídicos. Isso fica evidente na distinção entre os modelos de nomogênese
(processo de criação do direito) do Common Law, baseado na jurisprudência e na
construção casuística, e do Civil Law, centrado na codificação e na tradição romano-
germânica.
Em síntese, o trecho sublinha que o estudo das fontes é, antes de tudo,
o estudo das condições e formas que legitimam a criação das normas, sendo estas
sempre fruto de um processo normativo enraizado no tempo, no espaço e nos
valores de cada sociedade.
Noção de fonte do direito
Neste trecho, o autor aprofunda a compreensão da validade jurídica das
normas, afirmando que somente possuem vigência — ou validade objetiva — as
normas que forem produzidas conforme os requisitos previamente estabelecidos
pelo ordenamento jurídico de cada país para a respectiva fonte normativa. Isso
reforça a ideia de que as fontes do direito são limitadas (numerus clausus) e não
surgem de forma espontânea ou arbitrária (ex nihilo), mas sim se estruturam dentro
de um sistema jurídico hierarquizado, cujo fundamento último está na Constituição.
Segundo essa visão, toda fonte do direito (como a lei, a sentença, o
costume ou o negócio jurídico) só adquire juridicidade — isto é, status de norma
jurídica obrigatória — quando respeita os pressupostos formais e materiais de
validade estabelecidos pelo ordenamento superior. A produção normativa, para ser
considerada válida e eficaz, precisa estar inserida em um contexto institucional
legítimo, o que significa que é regulada por parâmetros normativos superiores,
especialmente constitucionais.
A partir disso, o autor ratifica a concepção de que a fonte do direito
consiste no conjunto desses pressupostos de validade, os quais viabilizam a criação
de prescrições normativas capazes de regular concretamente as relações sociais e
políticas. É nesse contexto que ele dialoga com Hans Kelsen, cuja afirmação de que
o conteúdo das fontes do direito seria seu “âmbito material de validade” é
reconhecida, mas com ressalvas quanto à rigidez normativista de sua teoria.
Em contraste com essa visão jurídico-formal, o autor menciona correntes
doutrinárias que adotam uma abordagem mais físicalista ou sociológica, segundo
as quais o direito emergiria espontaneamente de fatores sociais, históricos ou
naturais, independentemente de um processo normativo formal prévio. Para esses
teóricos, a origem do direito residiria em múltiplos centros de interesse e poder
social, sendo a função dos juristas apenas reconhecer e aplicar normas oriundas de
tais contextos, com base em critérios extraídos das ciências sociais.
O autor rejeita essa perspectiva, por entender que ela desloca a teoria
das fontes para um campo metajurídico, dissolvendo a especificidade do direito
enquanto sistema normativo estruturado. Para ele, embora o direito seja
influenciado por fatores sociais, ele não se reduz a eles, pois a sua essência é
normativa — ainda que não exclusivamente normativa. Ou seja, o direito nasce da
normatividade, mas se realiza em diálogo com a experiência histórica e social.
Por fim, o autor reafirma sua posição: a teoria das fontes deve se manter
no campo jurídico, cuidando da identificação e validação das normas com base em
critérios normativos definidos, e não se submeter a uma abordagem sociologizante
que comprometa a consistência e a autonomia da ciência jurídica.

O conteúdo da fonte do direito

Neste trecho, o autor aprofunda a compreensão da fonte do direito como


estrutura normativa dotada de poder institucional, destacando que sua função
primordial é instaurar diretrizes jurídicas obrigatórias. Sob o ponto de vista
normativo, o que é “produzido” por uma fonte — seja uma lei, uma sentença, um
costume ou um contrato — não é algo externo a ela, mas sim o seu próprio
conteúdo, o qual adquire obrigatoriedade a partir do momento em que se manifesta
de acordo com os princípios e requisitos estabelecidos pelo ordenamento jurídico.
A noção de obrigatoriedade jurídica está intrinsecamente vinculada ao
poder de decisão que cada tipo de fonte pressupõe. Uma norma só se impõe como
vigente — ou seja, com força vinculante — porque há, por trás de sua enunciação,
um poder competente e legitimado (como o legislativo no caso da lei, o jurisdicional
no caso das decisões judiciais, o costumeiro no caso dos usos reiterados, e o
negocial no caso dos contratos). Portanto, o que distingue uma norma jurídica de
um simples conselho ou proposição moral é justamente a presença de um poder
que instaura sua força coercitiva.
Essa concepção está alinhada com a teoria tridimensional do direito, que
compreende o fenômeno jurídico como o resultado da integração entre fato, valor e
norma. Dentro dessa teoria, a fonte do direito é mais do que uma origem formal: é
uma estrutura normativa ativa, que transforma fatos e valores em comandos
jurídicos obrigatórios, graças ao poder decisório que a sustenta.
O autor retoma a ideia de Hans Kelsen de que o conteúdo da fonte é seu
“âmbito material de validade”, mas adverte que essa noção não deve ser
compreendida de forma puramente lógica ou formalista. Em vez disso, o conteúdo
da fonte deve ser visto de forma dinâmica e concreta, como expressão de valores
e finalidades que se atualizam por meio do processo jurídico.
O momento da produção normativa (ou nomogênese, isto é, o
nascimento da norma) é, portanto, uno e indivisível: quando uma norma é posta, ela
já carrega consigo tanto a sua obrigatoriedade quanto a definição do que deve ser
considerado “de direito” naquele contexto. Não há dissociação entre a declaração
da norma e sua pretensão de vigência.
Em síntese, o autor sustenta que o conceito de fonte do direito deve ser
compreendido como uma estrutura dotada de poder de instaurar juridicidade,
integrando conteúdo normativo, força obrigatória e contexto valorativo. Ao
reconhecer esse caráter unitário e ativo da fonte, evita-se reduzir o direito a meras
construções lógico-formais, reconhecendo sua natureza normativa concreta e
enraizada na experiência histórica e social.

“Numerus clausus” das fontes do direito


Neste trecho, o autor analisa duas questões fundamentais antes de
concluir sua exposição: a primeira diz respeito à relação entre as fontes do direito e
o princípio da certeza e segurança jurídica, pilares da ordem jurídica positiva; a
segunda, à crítica de algumas correntes teóricas contemporâneas que propõem
uma superação da centralidade das fontes formais, especialmente sob a influência
do pensamento de Jürgen Habermas.
De início, o autor aponta a existência de juristas e jusfilósofos que,
inspirados por uma concepção romântica e idealizada do direito, sustentam que
normas jurídicas podem adquirir validade independentemente da vinculação a
fontes formais pré-determinadas. Para esses teóricos, o direito emergiria
espontaneamente do seio da vida social, através da livre interação de intenções,
aspirações e práticas comunitárias — uma concepção que tende a identificar o
direito com o ius vivens (direito vivido ou em movimento), dissociando-o das
estruturas normativas tradicionais.
O autor, entretanto, se opõe a essa visão. Ele reafirma que todo
ordenamento jurídico coerente e funcional parte de um numerus clausus de fontes
do direito, previamente definidas e disciplinadas, cujas normas só podem ser tidas
como válidas se emanarem da estrutura correta e seguirem o processo de formação
previsto pelo próprio ordenamento. A ausência desses critérios comprometeria a
certeza e a segurança jurídica, colocando em risco a própria estabilidade da ordem
jurídica positiva.
No debate com Habermas, o autor reconhece o mérito do pensador
alemão ao propor a razão comunicativa como meio de superação da tensão entre
validade e eficácia. Para Habermas, o direito poderia emergir das interações sociais
livres, por meio de consensos discursivos que dispensariam a rigidez do
normativismo tradicional. No entanto, o autor critica essa proposta por entender que
ela se mantém no plano teórico-sociológico, sem oferecer uma resposta concreta à
questão da obrigatoriedade jurídica, que exige, necessariamente, uma vinculação a
fontes formais legitimadas.
O ponto central da crítica é que, sem essa vinculação à fonte, as normas
permanecem no plano das aspirações jurídicasou da formação embrionária do
direito, mas não adquirem força obrigatória enquanto não forem formalizadas por
um processo reconhecido pelo ordenamento jurídico. Assim, o direito vivido (ius
vivens), por mais rico que seja enquanto expressão social, não substitui a
necessidade da heteronomia institucionalizada, ou seja, do reconhecimento formal
e externo da norma por meio das fontes do direito.
Portanto, o autor conclui que, embora o direito de fato surja de relações
sociais, interesses e pretensões, sua efetiva obrigatoriedade jurídica — o que o
transforma em “regra de direito” propriamente dita — depende da formalização
normativa dentro dos parâmetros estabelecidos pelas fontes jurídicas legítimas.
Essa distinção entre o que se aspira como justo e o que se impõe como obrigatório
é, para o autor, essencial à manutenção de um Estado de Direito dotado de
racionalidade, previsibilidade e legitimidade.
Ainda a natureza procedimental da fonte do direito
Neste trecho, o autor dirige sua atenção à segunda questão preliminar
sobre as fontes do direito, agora voltada ao aspecto processual de sua constituição,
ou seja, às condições e requisitos formais que devem ser satisfeitos para que essas
fontes possam produzir normas válidas. Tal enfoque está diretamente relacionado
à ideia de segurança e certeza jurídicas, elementos essenciais de qualquer
ordenamento positivo.
Como ponto de partida, o autor destaca o papel central da lei como fonte
jurídica por excelência nos sistemas de tradição romanístico-justinianéia,
ressaltando, contudo, que essa centralidade é um desenvolvimento histórico
posterior. No Direito Romano Clássico, o processo de produção jurídica se dava
pela interação entre os jurisconsultos, que formulavam o conteúdo normativo, e os
pretores, que o validavam conforme os casos concretos — ou seja, a norma emergia
da conjugação entre experiência prática e saber jurídico, ditada pelas próprias
circunstâncias sociais (factibus ipsis dictantibus).
Avançando na análise do contexto contemporâneo, o autor observa que,
ao utilizarmos o termo "lei" para designar a principal fonte do direito nacional, na
verdade estamos nos referindo ao conjunto de atos normativos que integram o
processo legislativo, tal como definido no artigo 59 da Constituição Federal de 1988.
Esse processo inclui emendas à Constituição, leis complementares e ordinárias, leis
delegadas, medidas provisórias, decretos legislativos e resoluções — estas últimas,
segundo o autor, mereceriam maior precisão terminológica, pois nem todas
possuem natureza legislativa.
A principal ênfase do trecho recai sobre o fato de que cada forma de
processo legislativo possui seus próprios pressupostos de validade, os quais visam
garantir a previsibilidade, a coerência e a segurança jurídica. Esses requisitos não
são meramente formais, mas instrumentos indispensáveis para que a norma jurídica
advenha com autoridade e eficácia dentro da estrutura do ordenamento.
Além do processo legislativo, o autor salienta que as demais fontes do
direito — costumes, decisões judiciais e negócios jurídicos — também devem
obedecer a critérios formais e materiais de validade, critérios esses derivados da
própria Constituição, bem como da doutrina e da jurisprudência. Isso demonstra que
o problema das fontes, longe de ser um tema meramente técnico, alcança ampla
dimensão teórica e prática na atualidade.
Por fim, embora reafirme que a doutrina não constitui fonte do direito, o
autor a reconhece como fundamental para delimitar os critérios de legitimidade das
fontes e, mais adiante, para interpretar e sistematizar os modelos jurídicosdelas
derivados. Desempenha, portanto, um papel essencial na construção da
racionalidade jurídica, ainda que não detenha, por si só, força normativa.
Em síntese, o autor propõe uma visão robusta das fontes do direito,
compreendendo-as como estruturas normativas necessariamente vinculadas a
processos válidos e controláveis, cuja legitimidade decorre da Constituição e cuja
funcionalidade depende da integração entre forma, conteúdo e finalidade social.

CAPÍTULO III - Função das Fontes do Direito

monismo
Historicidade da fonte do direito

Neste trecho, o autor aprofunda sua divergência teórica em relação a


Hans Kelsen, especialmente quanto ao conceito de "âmbito material de validade"
das fontes do direito. Enquanto Kelsen, a partir de seu monismo normativo, entende
l

esse âmbito como o resultado lógico da explicitação de normas dentro de um


sistema fechado e formal, o autor sustenta uma concepção dinâmica e histórica do
ordenamento jurídico, em que a validade e a eficácia se articulam dialeticamente no
interior da experiência jurídica concreta.
Para Kelsen, a validade jurídica resulta apenas da coerência formal e
sistemática com normas superiores, numa perspectiva estática e a-histórica. Ainda
que mais tarde tenha reconhecido a necessidade de um mínimo de eficácia para
que a norma seja válida, sua teoria permanece centrada na lógica normativa. O
autor, por outro lado, considera que a validade só pode ser plenamente
compreendida no contexto de sua relação com a eficácia, que se expressa de forma
variável no tempo e na vida social. Assim, o direito como “processo em formação”
(in fieri) só se concretiza plenamente quando se compreende a interação entre
validade, eficácia e valor ao longo de sua vigência.
Partindo dessa visão tridimensional do direito — fundada na interrelação
entre fato, valor e norma — o autor defende que a análise do conteúdo de uma fonte
jurídica não pode se dar de forma isolada, mas deve considerar os elementos
constitutivos de sua inserção social. As normas jurídicas, assim, não são
independentes da realidade histórico-social: elas se transformam ao longo do
tempo, conforme novos fatos e valores emergem e impactam o conteúdo da norma
já posta.
Ele reforça que essa compreensão não exige adesão explícita ao
tridimensionalismo jurídico, bastando reconhecer — como já o fizeram autores como
Bobbio e Enrico Paresce — que o ordenamento jurídico não se compõe apenas de
normas, mas da estrutura jurídica e da vida social em que essas normas atuam e
reagem mutuamente. A realidade histórica, conforme Paresce, reage
constantemente sobre a realidade normativa, seja por meio da formação
espontânea de valores sociais que adquirem relevância jurídica, seja pela
necessidade de reelaboração de princípios gerais diante das transformações
legislativas.
O autor ilustra sua argumentação com dois tipos de conteúdo normativo:
Conteúdo imutável: refere-se a normas jurídicas que consagram valores
considerados fixos e que não se prestam a interpretação extensiva — como os
dispositivos do Código Civil que estabelecem a absoluta incapacidade de menores
de 16 anos e a maioridade aos 21 anos. Tais regras, por expressarem critérios
objetivos e taxativos, somente admitem modificações por meio de alterações
legislativas formais, não sendo possível sua flexibilização apenas com base em
interpretação ou valoração subjetiva.
Conteúdo mutável: compõe a maioria das normas jurídicas, cujos
comandos se referem a situações que evoluem historicamente e, por isso, admitem
interpretações ajustadas a novas realidades. Assim, enunciados que inicialmente
tinham aplicação restrita podem ganhar maior amplitude, dependendo de
transformações sociais, culturais ou econômicas, desde que tal evolução seja
respaldada por hermenêutica compatível com os fundamentos do ordenamento.
Independentemente de serem rígidos ou adaptáveis, o autor conclui que
todos os conteúdos normativos são estruturados de maneira tridimensional, ainda
que essa dimensão seja mais ou menos evidente. Em algumas hipóteses, o modelo
normativo é estático, próprio das normas declaratórias (como as que delimitam
competências ou atribuem faculdades), e, em outras, ele é flexível, mutável
conforme o contexto fático e axiológico das relações que regula.
Em síntese, o conteúdo da fonte do direito é composto pelas regras
jurídicas que ela enuncia, as quais declaram condutas permitidas ou proibidas, ou
definem esferas de competência, sempre situadas em determinada conjuntura
histórica. Assim, o direito não pode ser reduzido a uma lógica formal interna, pois é
essencialmente marcado por sua inserção dinâmica na realidade social e histórica,
o que exige um modelo teórico capaz de integrar norma, fato e valor de forma
coerente e funcional.

Caráter retrospectivo da teoria tradicional das fontes

Neste trecho, o autor aborda criticamente a evolução histórica da teoria


das fontes do direito, com especial atenção à forma como a interpretação normativa
foi condicionada, desde os primeiros modelos teóricos, por uma visão retrospectiva
e centrada no poder de origem. Ele parte da constatação de que, em regra, o
conteúdo das fontes jurídicas refere-se a atos futuros — normas são comandos
voltados a reger condutas que ainda ocorrerão. Apesar disso, a primeira formulação
científica da teoria das fontes, elaborada por Friedrich Carl von Savigny, fixou-se
excessivamente na ideia de que as normas derivam de um poder instituidor,
principalmente o poder legislativo soberano.
Esse excessivo apego à autoridade do legislador conduziu à ideia de que
a interpretação da norma jurídica deveria seguir fielmente a intenção originária do
legislador, e não a sua formulação textual objetiva. Essa postura hermenêutica
justificava a preservação da norma tal como posta (lex lata), vedando sua
ressignificação ou adaptação interpretativa sob o risco de "deturpação", como
ilustrado pelo tradicional brocardo "interpretatio non fit in claris" (não se interpreta o
que é claro). Esse movimento resultou em uma espécie de "fetichismo legalista",
um culto ao texto da lei como se ele fosse intocável, desvinculado da dinâmica social
e de seus efeitos concretos.
O autor reforça a crítica ao relembrar a célebre reação de um jurista
francês frente aos primeiros comentários ao Código Civil Napoleônico: “Coitado de
nosso Código!” — expressão que revela o temor de que a atividade interpretativa
pudesse, de algum modo, comprometer a pureza do texto legal. Isso revela o
contexto de reverência à fonte legislativa, em que o conteúdo normativo era
rigidamente associado ao momento e ao poder que o instituiu, anulando a
autonomia do texto frente à realidade e impedindo sua adequação hermenêutica ao
curso dos fatos.
Com isso, consolidou-se, por longo tempo, uma compreensão
retrospectiva da fonte do direito — ou seja, analisava-se o conteúdo normativo a
partir de sua origem e da intenção do enunciante, não com base na evolução do
sentido que o texto poderia adquirir no tempo. A vontade subjetiva do legislador era
colocada acima do que se efetivamente enunciava objetivamente na norma.
Em tom irônico e ilustrativo, o autor cita Karl Marx, que, ao assistir às
aulas de Savigny, criticou essa perspectiva ao compará-la à figura de um barqueiro
que navega não sobre o curso do rio, mas sobre suas nascentes — ou seja, alguém
que busca entender o presente e o futuro apenas olhando para o passado,
ignorando a dinâmica do processo jurídico em fluxo. Essa crítica reforça a tese
central do autor de que o direito é um fenômeno dinâmico, e que o conteúdo da
norma não pode ser reduzido à sua origem histórica, pois se transforma no encontro
com os fatos, os valores e as necessidades emergentes da vida social.
Em síntese, o autor argumenta que o conteúdo das fontes do direito não
deve ser interpretado exclusivamente com base na vontade histórica do legislador,
mas sim à luz da experiência jurídica concreta, em constante mutação. A norma não
é uma estátua que deve ser contemplada em silêncio, mas um instrumento vivo,
cuja interpretação deve refletir a tensão entre o passado normativo e o presente da
realidade jurídica.

Compreensão prospectiva da fonte do direito

Neste trecho, o autor desenvolve uma importante reflexão sobre a


transformação da hermenêutica jurídica contemporânea e sua repercussão no
entendimento das fontes do direito, articulando as exigências da segurança e
certeza jurídicas com a do valor da liberdade. Ele parte da constatação de que, no
atual estágio da teoria jurídica, tornou-se consenso que a lei, uma vez promulgada,
adquire validade objetiva independente da vontade do legislador. A norma, portanto,
se desprende da subjetividade de sua origem e passa a valer “per se stante”, isto é,
como um dado normativo que deve ser interpretado a partir de seu próprio texto e
contexto, não da intenção pessoal do legislador.
Essa autonomia do texto legal é coerente com a natureza prospectiva
das normas jurídicas, voltadas para regular atos futuros em um universo de
liberdade e imprevisibilidade, como já destacara Benedetto Croce. O Direito, por
sua própria essência de dever-ser, antecipa condutas e ordena possibilidades,
razão pela qual não pode estar preso à fixidez de intenções passadas, mas deve se
abrir à interpretação que o projeta no tempo.
Nesse sentido, o autor insere uma nova dimensão ao debate sobre as
fontes: além dos valores de segurança e certeza, anteriormente tratados, passa
agora a analisá-las sob a ótica do valor da liberdade. Com base em Recaséns
Siches, que concebe o Direito como “uma dimensão da vida humana”, o autor
argumenta que a ordem jurídica deve se vincular também à gama completa dos
valores humanos, sendo a liberdade um valor essencial em constante tensão
dialética com a ordem. Daí a necessidade de construir uma estrutura jurídica que
seja ao mesmo tempo estável e aberta, de modo que a liberdade não degenere em
arbitrariedade e a ordem não se converta em autoritarismo.
Com isso, o autor critica a tradição da cultura jurídica burguesa,
associada ao capitalismo e marcada por uma visão estática e retrospectiva das
fontes do direito. Essa tradição concebia o Direito como um sistema fechado,
ancorado em direitos subjetivos previamente estabelecidos e protegidos pelo
aparato estatal. A partir dessa rigidez, não seria possível dar conta da complexidade
crescente da vida social e das novas exigências de justiça, o que explica, segundo
ele, as reiteradas crises da Ciência do Direito, que coincidiram com as crises
estruturais do próprio capitalismo.
É importante observar que, embora reconheça a interdependência entre
os planos econômico, social e jurídico, o autor não adere ao materialismo histórico.
Ao invés de postular uma relação de causalidade entre infraestrutura e
superestrutura (como faria o marxismo), ele propõe uma visão sincrônica do
processo cultural, no qual os diversos valores e interesses que compõem a vida
humana se influenciam mutuamente — de forma harmônica ou conflituosa — sem
predomínio de uma esfera sobre a outra.
Nesse contexto, o autor retoma a contribuição de François Gény, cuja
proposta de Livre Pesquisa do Direitorepresentou um marco na flexibilização do
modelo jurídico tradicional. Para ele, as crises sociais inevitavelmente repercutem
na teoria das fontes, exigindo sua revisão e reformulação. A crise atual, segundo o
autor, é uma das motivações diretas de sua obra.
Por fim, sob o enfoque da liberdade, o autor alerta que é preciso
distinguir, na cultura jurídica, o que é meramente conjuntural e o que possui
densidade axiológica permanente. A liberdade, para ser eficaz como princípio
jurídico, requer pluralismo, ou seja, a coexistência de diversas possibilidades
normativas e hermenêuticas, desde que todas respeitem os limites racionais
necessários à convivência jurídica e democrática.
Em síntese, este trecho revela uma crítica à rigidez normativa tradicional
e uma defesa de um modelo jurídico aberto, plural e comprometido com a
historicidade e a liberdade, sem perder de vista a necessidade de preservar a
segurança e a ordem que estruturam a vida em sociedade.

O valor da liberdade e os demais valores jurídicos

Neste último trecho, o autor propõe uma releitura da teoria das fontes do
direito à luz de uma nova perspectiva axiológica, que procura integrar de maneira
dinâmica e equilibrada os valores da liberdade, da ordem, da certeza e da
segurança. Ele compara essa reformulação à evolução observada no campo
econômico, onde, mesmo em um contexto de crescente socialidade, reconhece-se
o valor da livre-iniciativa. Do mesmo modo, o sistema jurídico contemporâneo deve
acolher uma concepção mais aberta e dialógica das fontes do direito, afastando-se
da rigidez normativa tradicional.
O autor critica a concepção equivocada de que certeza e segurança
jurídica são sinônimos de imobilismo, ou de uma pretensa estabilidade que rejeita
toda e qualquer mudança. Para ele, quando a liberdade é compreendida de forma
complementar à ordem, formando uma díade equilibrada, o direito deixa de ser visto
como um sistema fechado de normas inflexíveis e passa a ser entendido como um
processo adaptável, em constante interação com a realidade social.
Essa crítica se volta contra a antiga visão do direito como um modelo
estático, centrado na função das fontes como produtoras de quadros normativos
rígidos, evitando generalidades ou previsões programáticas. Essa mentalidade
limitava o espaço da autonomia privada e da deliberação democrática, reduzindo o
direito a uma estrutura normativamente pré-definida e formalizada de forma
excessiva.
Nesse contexto, o autor diferencia o Estado de Direito puramente liberal
do Estado Democrático de Direito, que ele classifica como "liberal-social". Enquanto
o primeiro enfatizava o formalismo e a rigidez das normas, o segundo reconhece a
legitimidade das normas programáticas — aquelas que, embora gerais e abertas,
apontam para fins e objetivos sociais, muitas vezes previstos nas Constituições
modernas. A antiga discussão sobre sua obrigatoriedade (mesmo estando no texto
constitucional) só fazia sentido dentro da concepção formalista de que apenas
normas concretas e determinadas teriam força jurídica.
Contudo, com o avanço das sociedades contemporâneas, especialmente
diante do predomínio das dinâmicas de comunicação, informação e participação,
cresce a compreensão de que o progresso do direito não está na sua capacidade
de prever tudo antecipadamente, mas sim em sua abertura para a construção
normativa progressiva, com protagonismo de múltiplos atores sociais. O autor
lamenta, inclusive, a contradição da atual Constituição Federal, que, embora exalte
a transparência e a comunicação democrática, adota uma atitude paradoxal ao
tentar predeterminar e regulamentar tudo, o que demonstra desconfiança no
processo democrático em si.
Dessa forma, o autor defende a necessidade de encontrar uma
compatibilidade razoável e plausível entre os quatro valores fundamentais
(liberdade, ordem, certeza e segurança), pois, quando estes entram em conflito sem
resolução harmônica, ocorre a perda do valor mais elevado, representado pela
justiça e pela equidade.
Concluindo, ele afirma que a teoria das fontes do direito não pode ser
construída a partir de um olhar retrospectivo ou de valores assumidos como fixos e
definitivos. Ao contrário, deve ser estruturada a partir de uma composição dialética
e sincrônica desses valores-meio, orientados para o valor-fim que é a justiça. Assim,
essa mudança de atitude não rompe com o direito contemporâneo, mas representa
um avanço em direção à sua instrumentalização mais aberta e eficaz, o que leva à
compreensão das fontes do direito não mais como depósitos normativos fechados,
mas como vetores de modelos jurídicos — abertos, interpretáveis e vinculados à
realidade histórica em transformação.
Capítulo IV – OS MODELOS JURÍDICOS COMO CONTEÚDO DAS
FONTES DO DIREITO

Compreensão do conteúdo das fontes do direito em termos de


modelo

Neste denso e conclusivo trecho, o autor retoma e consolida os principais


fundamentos de sua teoria, defendendo que a plena compreensão do conteúdo das
fontes do direito exige sua leitura em termos de modelos jurídicos. Ele reafirma que
as normas jurídicas possuem duas qualidades essenciais: validade autônoma e
objetiva (independente da vontade do legislador) e sentido prospectivo (voltado para
o futuro), mesmo sem ignorar os aspectos retrospectivos — ou seja, os motivos
históricos e as intenções originárias que acompanharam sua formulação.
A ideia central é que a norma jurídica, enquanto produto de uma fonte
formal, não se esgota no texto promulgado, nem se limita à intenção de quem a
instituiu. Ao contrário, ganha autonomia e vida própria no ordenamento, tornando-
se suscetível de atualização e aplicação contínua, em diálogo com fatos e valores
supervenientes. Por isso, o autor afirma que normas jurídicas e modelos jurídicos
não são sinônimos: os modelos jurídicos são estruturas normativas mais complexas,
que resultam da articulação de múltiplas normas e revelam padrões interpretativos
e operativos de maior abrangência.
Por vezes, um modelo jurídico pode até coincidir com uma única norma
(como ocorre com enunciados densos, de forte carga estrutural), mas, em geral, ele
se configura a partir de um conjunto de normas interligadas, formando um todo
coeso e irredutível à simples soma de suas partes. Como exemplo, o autor
menciona os dispositivos do artigo 1º da Constituição Federal de 1988, que, embora
se apresentem como enunciados pontuais, carregam um universo de significações
normativas, alicerçadas em princípios e valores que se irradiam por todo o
ordenamento.
A teoria dos modelos jurídicos permite também compreender o caráter
dinâmico e evolutivo das normas, mesmo aquelas que à primeira vista parecem
abstratas ou pouco estruturadas. Isso porque os modelos fornecem uma linguagem
jurídica própria, capaz de integrar o conteúdo normativo à realidade social e ao seu
desenvolvimento histórico. Assim, a norma só se revela em sua plenitude quando
interpretada com atenção à sua eficácia ao longo do tempo, levando-se em conta o
contexto em que será aplicada.
Nesse ponto, o autor insere uma crítica às abordagens fisicalistas, que
tentam reduzir o direito ao mundo do "ser" (Sein), desconsiderando o seu caráter
essencial de "dever-ser" (Sollen), típico da normatividade. Para ele, o conteúdo da
fonte deve ser visto como uma estrutura voltada à realização de fins jurídicos, e sua
eficácia só se concretiza na experiência social quando é compreendida dentro de
sua estrutura finalística e valorativa.
A esse respeito, o autor formula uma importante concepção de “âmbito
material de validade” das normas: trata-se, em sua visão, do campo social e
valorativo em que o dever-ser normativo se realiza concretamente, ou seja, não é
apenas um enunciado lógico, mas uma realidade em movimento, que se adapta à
vida e se transforma com ela. O conteúdo da fonte, portanto, não está congelado
no tempo — ele dialoga com as exigências da justiça, da equidade e da história.
A tese é reforçada por referências como a do pandectista Wach, que
afirmou que “a lei é mais sábia que o legislador”, e de Pontes de Miranda, que
reconhecia na norma jurídica uma certa elasticidade hermenêutica, permitindo ao
intérprete adequá-la a novas circunstâncias, por meio de um processo de
interpretação histórico-evolutiva. Esse processo não é arbitrário, mas situado na
realidade concreta e na dialética social em que o direito se manifesta.
Concluindo, o autor sustenta que somente ao se compreender o
conteúdo das fontes do direito em termos de modelos jurídicos, é possível realizar
plenamente a sua validade objetiva e sua potencial eficácia social. Essa
compreensão possibilita tanto a interpretação fiel e racional da norma vigente,
quanto a sua adaptação coerente e legítima aos desafios e transformações do
tempo, sem que isso comprometa sua autoridade ou sua integridade normativa.
Essa concepção não representa uma ruptura com o direito, mas sim uma
evolução teórica e prática da hermenêutica jurídica, alicerçada na perspectiva
tridimensional do direito (fato, valor e norma), que permite ao intérprete reconhecer
a complexidade e a historicidade da experiência jurídica.

O Direito como norma e situação normada

Neste trecho, o autor conclui sua reflexão sobre a teoria das fontes do
direito com uma ênfase decisiva na necessidade de compreender a norma jurídica
de forma prospectiva, integrada ao contexto social e axiológico que a fundamenta e
justifica ao longo do tempo. Ele parte de uma consideração prática e teórica: a
norma jurídica deve ser mantida enquanto possível, não apenas por razões de
economia institucional (o chamado princípio de economia de meios), mas sobretudo
pelo valor hermenêutico e doutrinário acumulado em torno da sua interpretação e
aplicação ao longo dos anos, especialmente quando se trata de normas
fundamentais.
Esse acúmulo de experiências interpretativas constitui, segundo o autor,
a verdadeira Jurisprudência — não no sentido restrito das decisões judiciais
reiteradas, mas como sabedoria jurídica prática construída ao longo do tempo.
Nesse sentido, a prudência jurídica não é sinônimo de conservadorismo ou apego
ao passado, mas sim uma disposição responsável de promover mudanças apenas
quando elas respondem a reais demandas da sociedade, e não a modismos ou
rupturas arbitrárias.
A partir disso, o autor retoma sua crítica à teoria tradicional das fontes do
direito, que, em sua visão, permanece ancorada em uma perspectiva retrospectiva
— ou seja, na consideração da validade da norma a partir de sua origem e do
momento de sua promulgação. Propõe, então, uma visão ampliada, em que a
validade formal da norma deve ser articulada com sua eficácia concreta e com os
valores que a motivam e legitimam, formando o que chama de uma “exigência trina”:
validade (vigência), eficácia (aplicação real) e fundamento (motivação axiológica).
Essa tríade leva, inevitavelmente, à compreensão do direito em termos
de modelos jurídicos, pois só esses modelos permitem captar a norma desde a sua
origem até sua aplicação concreta, passando pela interpretação, que o autor define
como o verdadeiro elo comunicante entre validade e eficácia. O intérprete, portanto,
não pode tratar a norma apenas como um enunciado lógico ou um texto abstrato,
mas sim como uma estrutura viva, cujo sentido decorre da relação entre os fatos
regulados e os valores que a sustentam.
Dessa forma, a norma jurídica não é apenas posta formalmente, mas se
realiza através de um processo de integração entre fato e valor. A tarefa
hermenêutica, nesse contexto, consiste em percorrer o mesmo caminho de sua
formação, reconstruindo seu significado à luz das condições concretas da realidade.
É esse movimento que justifica compreender o conteúdo das fontes como modelos
jurídicos, isto é, como estruturas normativas dotadas de sentido finalístico e
valorativo, voltadas à realização concreta de fins jurídicos.
O autor aprofunda ainda mais essa ideia ao afirmar que o direito não é
apenas norma, mas norma e situação normada. Em outras palavras, o sentido de
uma regra jurídica não pode ser reduzido aos seus aspectos formais, pois está
indissociavelmente ligado à realidade social que pretende regular. Isso nos leva ao
desafio da concreção da experiência jurídica, a qual deve ser compreendida em
dois momentos: primeiro, enquanto o modelo jurídico é identificado como uma
estrutura normativa em si, com sentido próprio e sistematicamente organizado; e,
segundo, como representação objetiva de uma realidade, não passível de ser
isolada dos fatos que busca ordenar.
Por mais que o modelo jurídico surja, em parte, como uma representação
mimética do real (isto é, um espelhamento da realidade social), ele, uma vez
normativamente objetivado, não pode ser dissociado dos fenômenos a que se
refere. Ao contrário: esses fenômenos passam a integrar a estrutura do modelo
jurídico, sendo elementos fundamentais para a definição de seu significado e
alcance.
Assim, conclui o autor, apenas a leitura das fontes do direito como
modelos jurídicos permite que as normas realizem plenamente sua função
normativa, tornando-se aplicáveis em toda a extensão de sua potencialidade, sem
se reduzir à letra da lei ou à intenção do legislador original. Isso legitima sua
adaptação às novas conjunturas, por meio de um processo hermenêutico evolutivo,
histórico e socialmente situado, permitindo à norma preservar sua validade
enquanto efetivamente atende às transformações da realidade, até que, por razões
substantivas, sobrevenha a necessidade de sua revogação e substituição.
Esse modelo, portanto, reconcilia tradição e inovação, segurança e
dinamismo, formalidade e valor, consolidando uma teoria das fontes que está em
sintonia com a complexidade da experiência jurídica moderna.

Normativismo jurídico concreto

Neste trecho, o autor reforça uma das teses centrais de sua teoria
jurídica: a substituição do normativismo lógico-formal— predominante nas tradições
positivistas — por um normativismo concreto, fundado na integração indissociável
entre fatos, valores e norma dentro da experiência jurídica. Essa substituição é
justificada pela correlação constitutiva entre o modelo jurídico e a realidade que ele
busca modelar, relação que se manifesta desde o instante originário da criação da
norma e se prolonga durante todo o seu ciclo de vigência e eficácia.
Segundo o autor, essa correlação não é meramente descritiva ou auxiliar,
mas estrutural: os fatos e valores que compõem o conteúdo do modelo jurídico são,
por natureza, mutáveis, sujeitos à emergência de novas configurações sociais e
axiológicas. Diante disso, a hermenêutica jurídica adquire papel central e decisivo,
pois é através da interpretação que se atualiza o sentido da norma jurídica diante
das novas demandas da vida comunitária. A interpretação jurídica, portanto, não é
um ato mecânico de aplicação de enunciados legais, mas uma atividade integradora
e adaptativa, que revela a verdadeira vitalidade do direito.
Além da dimensão individual de cada modelo jurídico — que pode sofrer
alterações em sua aplicação concreta e imprevisível — o autor chama a atenção
para uma segunda dimensão, mais abrangente e sistemática: os modelos jurídicos
não existem isoladamente, mas estão inseridos no macromodelo do ordenamento
jurídico como um todo. Esse macromodelo, embora possa conter lacunas e
disposições vagas, tende estruturalmente a uma ordem coerente e harmônica,
marcada por uma unidade semântica que deve ser reconhecida e reconstruída pelo
intérprete.
Dessa forma, a significação de qualquer modelo jurídico depende de sua
posição no sistema normativo, ou seja, da relação que ele mantém com outros
modelos e com a totalidade do ordenamento, cujo ponto de referência último é a
Constituição. Essa interdependência estrutural demonstra que a alteração ou o
surgimento de novos modelos pode repercutir diretamente sobre os sentidos
atribuídos a modelos anteriores, ainda que isso não tenha sido antecipado no
momento de sua criação. Assim, a experiência jurídica é dinâmica, marcada por
contínuas reinterpretações dentro de um ordenamento jurídico vivo e
interconectado.
O autor aproveita este ponto para responder a críticas direcionadas à
teoria tridimensional do direito, que alguns consideram superada sob a alegação de
que “a norma absorve o valor”, dispensando uma análise valorativa autônoma. Ele
refuta esse argumento ao afirmar que tais críticas demonstram um conhecimento
superficial da proposta. A diferença entre sua teoria e as de autores como Gustav
Radbruch e Julius Stone está justamente na forma de articulação dos três
elementos.
Enquanto os autores citados trabalham fato, valor e norma como esferas
autônomas e separadas, o normativismo concreto defendido por Reale propõe uma
estrutura unitária e dialética, em que a norma jurídica resulta da integração dinâmica
entre fato e valor, sendo o ponto culminante de um processo que se dá no plano da
realidade concreta. Ou seja, para ele, não se trata de uma justaposição de três
fatores, mas da fusão funcional e estrutural entre eles, sintetizada no conceito que
apresenta desde 1940 em Fundamentos do Direito: a norma jurídica é “uma
estrutura integrante de fatos segundo valores”.
Em síntese, o trecho reafirma que o conteúdo das fontes do direito não
pode ser compreendido isoladamente, nem tampouco de forma abstrata ou formal.
Deve ser interpretado como parte de modelos jurídicos inseridos em um sistema
normativo interdependente e orientado pela Constituição, cuja eficácia se realiza
apenas mediante a ação hermenêutica. Essa abordagem sustenta a ideia de que o
direito é prospectivo, dinâmico e socialmente situado, exigindo uma teoria capaz de
capturar suas mutações sem romper com sua coerência sistemática e com seus
fundamentos axiológicos.

CAPÍTULO V – NATUREZA DOS MODELOS JURÍDICOS –

NOÇÃO DE MODELO JURÍDICO

Neste trecho, o autor aprofunda a distinção entre os diversos tipos de


modelos dentro da teoria do Direito, com especial destaque para a diferenciação
entre modelos jurídicos e modelos hermenêuticos (ou dogmáticos). Ambos
compõem o que ele denomina modelos do Direito, mas têm funções
epistemológicas e práticas bastante distintas, sendo os modelos jurídicos
diretamente vinculados à prescrição normativa obrigatória, ao passo que os
modelos hermenêuticos, embora relevantes para a compreensão e sistematização
do direito, não possuem força vinculante.
A diferença fundamental está na natureza prescritiva dos modelos
jurídicos: eles têm a função concreta de reger condutas futuras com força
obrigatória, pois derivam diretamente das fontes formais do direito. Já os modelos
hermenêuticos — desenvolvidos pela doutrina — servem como instrumentos
teóricos de interpretação, argumentação e sistematização, sem, contudo, obrigarem
ninguém a agir em conformidade com seus enunciados. Por isso, mesmo quando
fundados em raciocínios sólidos, não vinculam o jurisdicionado nem têm
aplicabilidade automática.
O autor esclarece, ainda, que o conceito de “modelo” aqui empregado
não corresponde a uma ideia abstrata ou ideal, como se vê em Platão ou mesmo
nos “tipos ideais” de Max Weber. Ao contrário, trata-se de uma estrutura concreta,
voltada à sistematização de um determinado conjunto de normas, com função
prática no ordenamento jurídico, servindo como referência segura no plano da
aplicação e da ciência jurídica.
Dessa forma, o modelo jurídico não representa um ideal normativo
hipotético, mas sim a organização normativa objetiva de um conjunto de regras,
formalmente válidas, e voltadas à produção de efeitos concretos. A formalização
dessas regras, por meio das fontes legais, judiciais ou negociais, deve obedecer
aos requisitos exigidos pelo ordenamento jurídico, respeitando a hierarquia de
normas e os limites impostos pela Constituição.
O autor aproveita para enfatizar que essa hierarquia normativa, embora
presente em todos os sistemas jurídicos, não é uniforme nem universal, mas varia
de acordo com as tradições jurídicas. Enquanto no Civil Law
(romanístico)predomina a fonte legislativa, no Common Law a jurisprudência e o
costume exercem papel central, inclusive em questões constitucionais — como
ocorre na Inglaterra, cujo sistema constitucional é majoritariamente consuetudinário,
em contraste com os Estados Unidos, que adotam uma Constituição escrita.
Apesar dessas diferenças entre sistemas jurídicos, o autor destaca que,
em todos eles, os modelos jurídicos funcionam como formas organizadoras e
flexíveis (“fôrmas plásticas”) do conteúdo das fontes. São, portanto, estruturas
interpretativas e operacionais com força normativa plena, pois derivam diretamente
de fontes com capacidade de obrigar.
Ao mesmo tempo, os modelos jurídicos não são simples representações
linguísticas, tampouco meras abstrações. São elementos operativos do direito, que
ganham conteúdo e legitimidade em função de sua referibilidade aos fatos e aos
valores sociais, o que os distingue, por exemplo, dos modelos matemáticos. Mesmo
podendo ser estudados por meio da Lógica Deôntica (a lógica do dever-ser), os
modelos jurídicos se fundamentam sempre na concreção da experiência social,
integrando estrutura normativa, contexto factual e dimensão valorativa.
O autor encerra reforçando que essa abordagem é compatível com os
avanços da Lógica paraconsistente, especialmente nos estudos de Newton da
Costa e sua equipe, que buscaram formalizar o Direito levando em conta sua
complexidade tridimensional — ou seja, sua constituição simultaneamente por
fatos, valores e normas. Isso reforça a validade científica da teoria dos modelos
jurídicos como estruturas normativas concretas, e não apenas como construções
formais ou idealizadas.
Em síntese, o trecho consolida a tese de que a compreensão e a
aplicação do Direito exigem a utilização dos modelos jurídicos como categorias
estruturais dotadas de prescritividade, legitimidade e plasticidade, capazes de
responder às exigências normativas da vida social sem perder sua base formal e
sua coerência sistêmica dentro do ordenamento jurídico.

Modelagem da experiência jurídica

Neste trecho, o autor retoma e consolida sua concepção dos modelos


jurídicos como a expressão mais adequada do conteúdo das fontes do direito no
plano da experiência normativa concreta. Ele argumenta que, ao convertermos o
conteúdo das fontes em modelos jurídicos, obtemos estruturas normativas com
projeção histórica, que acompanham as transformações da realidade social à qual
se aplicam, em função de mutações fáticas e valorativas. Os modelos, portanto, não
são entidades abstratas, mas formas jurídico-operativas integradas ao fluxo
dinâmico da vida jurídica.
Com base no que já desenvolvera em Lições Preliminares de Direito, o
autor destaca que as fontes do direito, ao formalizarem normas, produzem tramas
ordenadas de relações sociais, cuja eficácia está assegurada pela presença de
sanções — elementos que garantem a observância das normas, sejam elas de
natureza penal, civil ou mesmo premial. A presença da sanção, como instrumento
de coação ou incentivo, é fundamental para que uma estrutura normativa possa ser
compreendida como um verdadeiro modelo jurídico, o que distingue os modelos
jurídicos dos modelos doutrinários(hermenêuticos), que carecem dessa força de
obrigatoriedade.
Nessa perspectiva, o autor reafirma que a história do direito é, em última
instância, a história de seus modelos normativos, isto é, de como os institutos, as
instituições e os sistemas de normas foram sendo organizados para responder aos
desafios de cada época. Daí a necessidade de compreender a formação e evolução
dos modelos jurídicos como um processo de “modelagem” da experiência jurídica,
mediante sucessivas requalificações valorativas dos fatos sociais.
O termo modelo jurídico é então justificado como uma contribuição
original do autor, apresentada inicialmente em O Direito como Experiência e, antes
disso, em comunicação enviada ao Congresso Internacional de Filosofia de Viena
(1968). Inspirando-se no uso epistemológico do conceito de modelo em outras
ciências (como a Arquitetura ou a Matemática), o autor afirma que o modelo, em
qualquer domínio científico, consiste numa estrutura racional que antecipa
resultados e organiza logicamente os meios para atingi-los. No direito, o modelo
jurídico cumpre essa mesma função: é uma preordenação lógica de condutas e
relações sociais, formalizada por meio das fontes normativas.
O ponto-chave, portanto, é que os modelos jurídicos não são criações
mentais arbitrárias, mas resultam da racionalização e sistematização do conteúdo
normativo fornecido pelas fontes de direito, com vistas à sua validez objetiva e
atualização prospectiva. Isso significa que o jurista, ao operar com os modelos, não
atua como um mero espectador, mas como agente da modelagem da realidade
jurídica, ao modo do arquiteto que transforma o projeto em construção.
A diferença essencial entre o jurista e o sociólogo é então explicitada:
enquanto o sociólogo descreve os fenômenos sociais em termos de causas e
efeitos, o jurista organiza e prescreve comportamentos com base em normas
formalmente instituídas, por meio de processos próprios a cada tipo de fonte do
direito. Essa distinção não impede, porém, que a construção de um modelo jurídico
possa se valer simultaneamente de normas oriundas de diferentes fontes, sempre
que a unidade de sentido da situação jurídica assim o exigir. Nesses casos, impõe-
se uma interpretação integradora(reductio ad unum), a fim de garantir a coerência
e a completude do ordenamento.
Essa abordagem refuta a ideia de que o direito seria um amontoado
fragmentado de normas. Ao contrário, o autor reafirma sua concepção do
ordenamento jurídico como uma estrutura racionalmente integrada, ainda que não
possua a rigidez lógica da pirâmide normativa kelseniana. Trata-se de uma unidade
em processo (unitas in fieri), que se organiza em torno de modelos jurídicos
complementares, capazes de compor, mesmo com lacunas ou contradições
pontuais, um sistema coerente regido pelos princípios constitucionais.
Essa visão do ordenamento como processo aberto e articulado de
modelos jurídicos será aprofundada no capítulo final do livro, mas já se deixa
antever aqui como um dos pilares do pensamento do autor. O direito, nessa chave
teórica, é concebido como um sistema normativo historicamente situado, em
constante atualização, no qual o jurista, ao interpretar e aplicar normas, participa
ativamente da construção de sua significação. Daí a importância de compreender
as fontes não apenas como repositórios de normas, mas como pontos de partida
para a modelagem jurídica da realidade social, sempre à luz de valores e da
experiência histórica.

Modelos da Filosofia do Direito e


modelos do Direito

Neste trecho, o autor reafirma e aprofunda a originalidade e o alcance


prático de sua concepção de modelo jurídico, distinguindo-a criticamente das
abordagens puramente epistemológicas ou filosóficas do termo, como aquela
defendida por Enrico Di Robilant. Ele esclarece que, ao tratar dos modelos jurídicos,
não está se referindo a simples esquemas teóricos, arquétipos ideais ou
representações abstratas da realidade social, mas sim a estruturas normativas
operadas pelo jurista no exercício concreto de suas funções — sejam elas
judicantes, advocatícias ou administrativas.
Para fundamentar sua posição, o autor contrasta sua abordagem com a
de Di Robilant no livro Modelli nella Filosofia del Diritto (1968), que se propõe a
estudar o que os filósofos do direito fazem quando constroem modelos teóricos. Di
Robilant examina os modelos sob o prisma gnosiológico (do conhecimento),
identificando-os como esquemas cognitivos, protótipos ideais, normas
comportamentais ou construções analíticas — todas elas voltadas a representar ou
interpretar a realidade de modo sintético, mas sem a pretensão de operá-la no plano
normativo.
Ao contrário, Miguel Reale argumenta que seus modelos jurídicos não
são apenas formas de conhecimento, mas estruturas normativas cogentes,
utilizadas pelo jurista como instrumento de aplicação concreta do direito. Ele não
nega a importância do aspecto epistemológico dos modelos, mas insiste que a sua
proposta está ancorada no plano da Ciência do Direito positiva, e não da filosofia
jurídica especulativa. Em suas palavras, os modelos jurídicos são formas reais e
funcionais de ordenação normativa, extraídas da própria experiência jurídica, e não
criações artificiais ou teorizações abstratas.
Para ilustrar ainda mais essa distinção, o autor explica que o modelo
jurídico, tal como o concebe, não é construído a posteriori como uma descrição
compacta do real, mas emerge simultaneamente da experiência e da interpretação
jurídica. É no contato direto com as relações sociais reguladas — isto é, com o "fato
jurídico" em sua concretude — que o jurista percebe, interpreta e formula o modelo
jurídico, unindo percepção e normatividade em um só ato (uno in actu). Nesse
ponto, ele invoca a célebre máxima de Giambattista Vico: verum et factum
convertuntur — o verdadeiro e o feito se convertem um no outro — para indicar que
a estrutura normativa e sua representação são simultâneas, indissociáveis e
imanentes à própria prática jurídica.
Ainda que reconheça o valor da proposta de Di Robilant — sobretudo ao
distinguir modelo de mera descrição, por seu caráter seletivo e finalístico — o autor
discorda frontalmente da ideia de que o modelo seja apenas uma "construção
artificial" ou uma "figura ideal que não se encontra na realidade tal como
representada". Essa concepção, a seu ver, rebaixa a função prática do modelo
jurídico, reduzindo-o a um papel teórico sem vínculo efetivo com a experiência social
e normativa.
Ao contrário, para Miguel Reale, os modelos jurídicos possuem valor
normativo pleno, pois resultam da ordenação racional de normas concretas
extraídas das fontes do direito, com vistas à aplicação prospectiva dessas normas.
São, portanto, formas reais de regulação da conduta humana, elaboradas pelo
jurista a partir da interação entre norma, fato e valor, de acordo com sua teoria
tridimensional do direito.
Em síntese, o autor sustenta que seu conceito de modelo jurídico se
distingue dos modelos gnosiológicos da filosofia do direito por ser operativo,
prescritivo e imanente à experiência jurídica, devendo ser compreendido como
instrumento científico-prático de organização da realidade normativa, e não como
mera representação simbólica ou formal. Trata-se, portanto, de um modelo de ação
jurídica, com efetividade, sanção e vinculação institucional, cuja função é ordenar o
real com base em princípios de justiça, racionalidade e historicidade.

Concreção dos modelos jurídicos

Neste trecho, Miguel Reale aprofunda a fundamentação filosófica de sua


teoria dos modelos jurídicos, reafirmando que eles não são construções artificiais
ou meros esquemas mentais, mas sim realidades culturais normativas, que
emergem da própria experiência jurídica, refletindo uma integração entre norma,
fato e valor. Ele argumenta que, embora os modelos sejam criações do espírito
humano, não se trata de projeções arbitrárias, pois estão enraizados na realidade
que representam e organizam, conforme a lógica interna do Direito como
experiência concreta.
Para sustentar sua posição, o autor lança mão de uma analogia com os
modelos físicos e científicos em geral: também eles não existem literalmente no
mundo empírico, mas são extraídos da realidade como construções mentais
objetivamente vinculadas a ela. Assim como o cientista elabora leis e modelos com
base na observação e interpretação de fenômenos naturais, o jurista modela
juridicamente os fatos sociais, criando estruturas normativas que têm validade
objetiva dentro do ordenamento jurídico. A diferença, segundo Reale, é que no
Direito essa modelagem é mais intensamente marcada pelo valor e pela prescrição,
pois não se limita a descrever, mas a normatizar condutas e relações sociais com
força obrigatória.
O autor critica, assim, uma visão naturalista ou fisicalista da realidade,
que tende a considerar como “reais” apenas os objetos físicos ou psíquicos,
excluindo as construções culturais e valorativas. Essa visão, na sua perspectiva, é
reducionista, por não reconhecer que há diferentes ordens de realidade. Com base
na teoria dos objetos, especialmente desenvolvida por Franz Brentano, Edmund
Husserl e seus continuadores, Reale defende a existência de quatro ordens distintas
de objetos: os físicos, os psíquicos, os ideais (como os lógicos e matemáticos) e os
valores.
Para ele, os valores não podem ser confundidos com objetos ideais, pois
não são apenas formas do pensamento, mas sim entidades próprias do plano do
dever-ser (Sollen). Nesse ponto, Reale reconhece a influência de Kant e afirma ter
contribuído, por sua parte, para firmar a autonomia da Axiologia, ou seja, a teoria
dos valores como uma esfera própria da realidade. Ele destaca que os objetos
culturais — como o Direito, a Arte, a Economia ou a Ciência — existem na medida
em que devem ser, ou seja, são formas estruturadas de ação e sentido voltadas à
realização de fins na vida comunitária.
Desse modo, os modelos jurídicos não são criações arbitrárias da mente,
mas objetos culturais com função normativa e finalidade social, expressando
estruturas que sintetizam e organizam juridicamente os diversos aspectos da
realidade social. Eles surgem, assim, da interação entre as fontes formais do direito
e os fins que elas visam realizar, permitindo ao jurista **reconhecer e ordenar
situações jurídicas concretas com base em critérios normativos fundados no
ordenamento.
Portanto, os modelos jurídicos — na concepção de Miguel Reale — são:
Expressões normativas da realidade cultural, com validade objetiva e
função prática;
Derivados da experiência jurídica vivida, e não apenas especulados no
plano teórico;
Instrumentos de ordenação racional das relações sociais, voltados à
realização de valores jurídicos;
Dotados de força prescritiva, pois não são meras descrições ou
esquemas interpretativos, mas formas de agir normativamente sobre a realidade;
Parte de uma ontologia ampliada, que reconhece o valor e os objetos
culturais como realidades efetivas no mundo jurídico.
Em suma, o trecho reafirma que os modelos jurídicos, longe de serem
entes abstratos ou artificiais, são estruturas reais e operativas do Direito, fundadas
na experiência social, construídas conforme as fontes normativas e projetadas em
vista de fins coletivos. São, portanto, a expressão mais concreta do Direito enquanto
ciência cultural normativa.

Modelos jurídicos e símbolos

Neste último trecho, Miguel Reale completa sua construção conceitual


dos modelos jurídicos, abordando um ponto delicado e, segundo ele,
frequentemente mal compreendido: a possibilidade de que os modelos jurídicos
sejam confundidos com meros símbolos. Ele reconhece que os modelos jurídicos,
enquanto representações estruturadas de campos da experiência social, podem
apresentar alguns elementos simbólicos — por exemplo, quando funcionam como
formas de representação sintática de determinadas relações sociais —, mas alerta
para o grave erro de reduzir sua natureza essencial à de simples símbolos.
Para sustentar essa distinção, Reale recorre à definição precisa do
conceito de símbolo apresentada por Milton Vargas, que o classifica em quatro
funções: denotativa (referência direta ao objeto), conotativa (alusão a elementos
associados), evocativa (chamada à presença de algo ausente) e emotiva
(desencadeamento de reações sentimentais ou estéticas). E, a partir disso, Reale
argumenta que nenhuma dessas funções, exceto a denotativa e parcialmente a
conotativa, pode ser atribuída aos modelos jurídicos sem distorcer sua natureza.
Ele refuta, com especial ênfase, a possibilidade de os modelos jurídicos
possuírem uma função evocativa ou emotiva, como ocorre na arte ou na literatura.
Isso porque o modelo jurídico não evoca o ausente, mas rege o presente e o
futurocom base em normas objetivamente formuladas e garantidas. Tampouco
busca emocionar ou impressionar: trata-se de uma estrutura racional, construída
com base em juízos normativos voltados à realização concreta de valores jurídicos.
O modelo jurídico é, por essência, um instrumento de racionalização da vida social,
e não uma forma de expressão subjetiva ou estética.
Com isso, o autor reitera que o modelo jurídico deve ser compreendido
como uma estrutura normativa vetorial e prospectiva, ou seja, orientada para reger
acontecimentos futuros. Essa orientação ao futuro é inseparável da natureza
normativa da regra jurídica e, por consequência, do próprio modelo jurídico. Toda
norma — e todo modelo que dela se constrói — pressupõe um dever-ser projetado
no tempo, destinado a atualizar valores reconhecidos como pertinentes ao campo
da experiência social que regula.
A essa altura, Miguel Reale oferece uma definição sintética e ampliada
do que entende por modelo jurídico: trata-se de uma estrutura normativa de atos e
fatos unitariamente organizados, dentro de um campo específico da experiência
social, cuja função é garantir a realização racional e objetiva dos valores próprios
àquele campo. Essa concepção está em perfeita harmonia com sua teoria
tridimensional do Direito, e, por isso, ele a detalha de maneira analítica com base
em três pressupostos:
a) a existência de um conjunto de atos e fatos sociais que constituem o
campo empírico de aplicação do modelo;
b) uma ordenação normativa racionalmente garantida, que assegura a
eficácia das normas integrantes do modelo;
c) o propósito de realizar valores ou evitar desvalores, de acordo com a
natureza de cada porção da realidade social regulada.
Essa tríade espelha, de forma operacional, os três elementos da teoria
tridimensional do Direito: fato, valor e norma. O modelo jurídico, portanto, não é uma
abstração teórica nem um objeto meramente mental, mas sim um instrumento
normativo com função prática, validade objetiva e finalidade social clara.
Em conclusão, Reale reafirma que os modelos jurídicos são estruturas
racionais e prescritivas, elaboradas cientificamente para ordenar a vida comunitária,
e que sua força não reside na evocação ou no simbolismo, mas em sua capacidade
de prescrever, garantir e realizar valores na prática do Direito. Eles são, assim,
instrumentos operacionais da própria experiência jurídica, cuja compreensão só se
completa mediante o reconhecimento de sua função normativa concreta no contexto
social e histórico em que atuam.

CAPÍTULO VI- Gênese dos Modelos Jurídicos

Um problema de Política do Direito

Neste trecho, Miguel Reale busca aprofundar a compreensão da


natureza dos modelos jurídicos por meio da análise de sua gênese, ou seja, de
como surgem e se consolidam na prática jurídica e social. Ele refuta com veemência
a ideia de que os modelos jurídicos sejam construções artificiais ou abstrações
mentais dissociadas da realidade, defendendo, ao contrário, que eles são
momentos estruturais da própria experiência jurídica, enraizados na cultura e na
história, e não meros produtos técnicos da razão.
A crítica central se dirige ao tecnicismo jurídico, que reduz o Direito a um
simples sistema de normas técnicas, concebidas como instrumentos táticos para
alcançar objetivos extrajurídicos — sejam eles éticos, econômicos ou políticos.
Reale reconhece que há uma dimensão instrumental no Direito, mas insiste que os
modelos jurídicos não podem ser compreendidos apenas como lentes externas ou
dispositivos táticos: eles são estruturas vivas, que emergem da própria prática
social, compondo a experiência jurídica com base em fatores valorativos,
institucionais e históricos.
Reale ressalta que os modelos jurídicos são objetos culturais, surgidos
no bojo das relações sociais, profundamente influenciados pelas dinâmicas de
conciliação e conflito entre indivíduos e grupos. Por isso, sua formação está sujeita
a múltiplas contingências, refletindo as tensões e aspirações da sociedade em
constante transformação.
Essa concepção o leva a abordar criticamente o processo legislativo. Ele
admite que, em uma hipótese ideal, uma lei poderia nascer de maneira linear,
racional e legítima — isto é, fruto de uma tramitação objetiva, isenta e voltada ao
interesse público, com o devido cumprimento de formalidades e escuta dos anseios
sociais. Contudo, reconhece que essa situação raramente se concretiza na
realidade parlamentar, frequentemente marcada por disputas ideológicas,
interesses clientelistas, ambições pessoais e vaidades.
É nesse contexto que Reale introduz a Política do Direito como disciplina
necessária para compreender o processo de transformação dos interesses sociais
em normas jurídicas. Para ele, a Política do Direito é uma ponte científica entre a
Ciência Política e a Ciência do Direito, sucedendo a antiga Teoria da Legislação,
com um enfoque mais abrangente e crítico. Sua função é analisar eticamente e
racionalmente os fatores que justificam a conversão de determinadas demandas em
leis, assumindo um papel essencial na legitimação da normatividade jurídica em
contextos democráticos.
A diferença entre regimes autoritários e democráticos é, nesse ponto,
decisiva: enquanto, nas ditaduras, a vontade dos governantes dispensa mediação
institucional e científica, sendo imediatamente transformada em lei, nas
democracias o processo é mais complexo e demanda mediações técnicas,
científicas e políticas, que partem do estudo de um campo de interesses sociais,
convergindo para a elaboração de modelos jurídicos adequados a esses interesses.
Só após esse trabalho de análise e síntese é que tais modelos podem dar origem a
projetos legislativos, um dos quais, eventualmente, se converte em norma válida.
Reale sublinha que a função essencial da Política do Direito é a de
integrar o saber jurídico com os fatores reais da vida social, operando de forma
analítica e crítica sobre os interesses em disputa, de forma a conferir legitimidade
normativa às leis resultantes do processo democrático. Embora não se restrinja à
elaboração legislativa, é nesse processo que a Política do Direito exerce sua
principal atuação, na medida em que permite que a lei não apenas exista
formalmente, mas seja fruto de uma racionalidade valorativa compatível com a
ordem democrática e com os fins da justiça.
Em síntese, o autor reafirma que os modelos jurídicos:
não são ficções mentais, mas expressões normativas da própria
experiência social;
não se originam exclusivamente da técnica, mas de uma construção
cultural complexa, marcada por valores e interesses sociais reais;
são formados dentro da realidade histórica e institucional, em constante
interação com a Política do Direito, que lhes confere legitimidade ética e
sociopolítica.
Essa abordagem reforça o caráter dinâmico, concreto e valorativo dos
modelos jurídicos, cuja função não é apenas organizar o Direito de forma lógica,
mas atender a finalidades públicas legitimamente reconhecidas, projetando-se no
futuro como instrumentos eficazes de realização da justiça e da ordem social.

A decisão do poder no processo jurígeno

Neste trecho, Miguel Reale conclui seu percurso conceitual sobre os


modelos jurídicos tratando daquilo que considera essencial para sua gênese e
legitimação nas sociedades abertas e pluralistas: a decisão política respaldada pelo
poder legítimo. Ele destaca que, em democracias, o processo de transformação de
pretensões políticas em normas jurídicas é inevitavelmente permeado por conflitos
de valores e interesses, sendo a lei o resultado de uma composição entre essas
forças heterogêneas.
Ao afirmar que “toda pretensão política tende a acabar em proposta de
lei”, Reale assinala que o Direito não surge espontaneamente como uma revelação
moral ou racional pura, mas é produzido no interior de um processo complexo,
frequentemente contraditório, que envolve disputas, alianças e decisões
estratégicas. A formação dos modelos jurídicos, portanto, não prescinde do poder,
entendido aqui não como imposição autoritária, mas como o ato necessário de
decisão que resolve a incerteza política e jurídica.
Esse processo decisório culmina, segundo ele, no momento do “fiat lex”
— a consagração de uma determinada proposta legislativa em norma jurídica
obrigatória. Esse ponto de virada, decisivo para a experiência jurídica, é marcado
por uma opção entre possibilidades normativas, influenciada por valores, interesses
e condições históricas. Reale afirma que, embora o ideal democrático envolva
ampla deliberação, é ilusório crer que o Direito possa emergir exclusivamente da
comunicação ou da espontaneidade social, como sustentam correntes como a da
“razão comunicativa” de Jürgen Habermas. Para ele, essas propostas negligenciam
o fato de que toda norma jurídica válida é fruto de uma escolha operada pelo poder
constituído, necessária para pôr fim ao impasse.
A crítica de Reale dirige-se a visões românticas e anti-institucionais do
Direito, que procuram dissociá-lo da estrutura do poder político sob o pretexto de
purificá-lo das “impurezas” da força. No entanto, ele sustenta que a participação do
poder é inevitável e até desejável, na medida em que assegura a efetividade da
norma jurídica como expressão do bem comum. O poder, aqui, não é sinônimo de
arbitrariedade, mas de responsabilidade decisória institucionalizada, que permite ao
Direito se concretizar enquanto ordenamento válido, eficaz e voltado à realização
de valores.
Nesse contexto, Miguel Reale recorre à sua teoria tridimensional do
Direito para ilustrar graficamente o processo de formação normativa: os valores são
representados como raios de luz que incidem sobre um complexo de fatos, gerando
múltiplas possibilidades normativas (um leque de normas), das quais uma é
escolhida e formalizada como norma jurídica vigente graças à ação do poder
decisório competente.
Essa metáfora sintetiza com clareza os principais elementos de sua
teoria:
Os fatos constituem o campo empírico da experiência social;
Os valores conferem sentido e orientação axiológica à conduta;
A norma resulta da integração racional entre fato e valor, mas só se torna
válida quando instituída formalmente por meio de uma decisão política.
A teoria de Reale, assim, recusa tanto o formalismo normativista que
ignora a historicidade e a valoração das normas, quanto os discursos anti-
institucionais que pretendem suprimir o papel do poder. Para ele, a positividade do
Direito — isto é, sua existência concreta como ordenamento obrigatório — exige a
articulação entre valores, fatos e decisão institucional, expressa nos modelos
jurídicos.
Em síntese, o trecho reafirma que:
Os modelos jurídicos são fruto de um processo histórico, valorativo e
decisório, não de uma lógica pura ou revelação intuitiva;
O poder é parte constitutiva da gênese normativa, pois é ele que encerra
o processo de deliberação e transforma uma entre várias possibilidades normativas
em Direito posto;
A teoria tridimensional do Direito permite compreender a origem, a
estrutura e a função dos modelos jurídicoscomo expressões objetivas da
experiência cultural e política, reguladas racionalmente e voltadas à realização de
valores na vida social.
Com isso, Miguel Reale fortalece a ideia de que o Direito, longe de ser
um sistema fechado de normas autônomas ou uma projeção ideal da moral, é uma
construção histórica e cultural, juridicamente estruturada pela intervenção
consciente e legítima do poder público.

Progressiva despersonalização do poder

Neste trecho, Miguel Reale conduz uma reflexão histórico-filosófica sobre


a evolução do conceito de poder e sua relação com o Direito, destacando o
processo de secularização e despersonalização da autoridade jurídica. Ele inicia
abordando o momento em que o poder estava intimamente vinculado à pessoa do
governante, especialmente no contexto das monarquias teocráticas, nas quais se
acreditava que a autoridade dos reis derivava diretamente de uma fonte
transcendente, divina.
Reale observa que, em tempos remotos, o poder era percebido como
algo misterioso e sagrado, frequentemente envolto em mito ou religiosidade, e por
isso, revestido de uma aura de incontestabilidade. Tal construção simbólica tinha
um propósito político e psicológico claro: reforçar a autoridade como um dom
outorgado de cima para baixo, legitimando a obediência da comunidade por meio
da ideia de transcendência. Esse modelo é característico das formas arcaicas de
Direito, nas quais as normas jurídicas e religiosas ainda não se diferenciavam
nitidamente.
Ao remeter o leitor à obra Lições Preliminares de Direito, o autor recorda
que no Direito arcaico a figura do soberano possuía atributos quase mágicos, como
o alegado poder de curar com o toque – crença que persistia, segundo ele, até o
século XVII. Essa realidade histórica mostra o quanto o poder e o Direito estiveram
fundidos em representações míticas e simbólicas, das quais emergiam as primeiras
tentativas de institucionalização do poder político.
Contudo, Reale ressalta que a história do Direito é também a história de
um duplo movimento de ruptura com essa tradição: de um lado, a secularização, ou
seja, o processo pelo qual o poder se afasta do plano religioso ou mítico; de outro,
a despersonalização, que consiste na desvinculação entre o poder e a figura
concreta do governante. Ele exemplifica esse movimento com a evolução das
Ordenações portuguesas: inicialmente designadas conforme o nome dos monarcas
(como as Ordenações Manuelinas ou Filipinas), passaram a ser simplesmente
"Ordenações", sem referência à pessoa do rei que as promulgava.
Essa mudança é mais do que formal: ela reflete a transformação do poder
em instituição, e não mais em carisma ou atributo pessoal. Ainda que persistisse a
ideia da norma jurídica como ordem ou comando, essa ordem já não se apresentava
como expressão da vontade soberana de um indivíduo, mas sim como produto de
um processo normativo institucionalizado, impessoal e regulado por regras
constitutivas do Estado moderno.
Com isso, Reale prepara o terreno para sustentar que a gênese dos
modelos jurídicos modernos não pode mais ser compreendida à luz de fundamentos
pessoais ou místicos do poder, mas sim dentro de estruturas racionais e jurídicas,
em que a legitimidade decorre da obediência ao ordenamento jurídico e aos
processos deliberativos democráticos.
Em resumo, o trecho reafirma que:
O poder, no passado, era concebido como atributo pessoal de origem
divina, legitimado por mitos e crenças religiosas;
Com o tempo, houve um processo de secularização e institucionalização
do poder, afastando-o de sua origem teocrática;
A despersonalização do poder permitiu o surgimento de modelos
jurídicos impessoais, racionais e normativamente estruturados;
A norma jurídica deixa de ser ordem pessoal do soberano para se tornar
expressão de um sistema normativo institucionalizado, base do Estado de Direito
contemporâneo.
Essa trajetória histórica confere suporte à tese central de Miguel Reale:
os modelos jurídicos são formas normativas objetivas, inseridas em um
ordenamento racional, e sua legitimidade está vinculada não à figura de quem as
cria, mas ao processo de sua constituição e à finalidade pública que devem realizar.

Absorção do poder pela regra de direito

Neste poderoso e reflexivo trecho, Miguel Reale aprofunda a


compreensão do processo de despersonalização e institucionalização do poder
jurídico, tema que articula sua teoria dos modelos jurídicos com uma leitura
filosófica, sociológica e normativa do Estado de Direito. Aqui, ele mostra que o
poder, mesmo sendo indispensável para a constituição das normas, deve ser
absorvido e transfigurado pela própria norma, sob pena de gerar instabilidade e
arbitrariedade.
Inicialmente, Reale apresenta o que denomina um "segundo momento"
da despersonalização do poder, que se dá quando a norma jurídica deixa de ser
compreendida como mero comando ou imperativo de um sujeito com autoridade
(antropomorfismo normativo), passando a ser reconhecida como uma estrutura
normativa objetiva e anônima, capaz de valer por si só, independentemente da
vontade daquele que a instituiu.
Com uma imagem metafórica marcante — a da fêmea do caranguejo que
devora o macho após a fecundação —, Reale ilustra a seguinte ideia: o poder é
indispensável para a criação da norma, mas deve desaparecer após sua
institucionalização. Se o poder continuasse atuando após esse momento, ele
deixaria de ser fundamento de ordem para tornar-se fonte de desordem, pois violaria
o princípio de estabilidade e impessoalidade que caracteriza o Direito. O poder
legítimo se realiza plenamente quando se converte em norma e se retira.
Nesse contexto, Reale critica o decisionismo jurídico, que valoriza
exclusivamente o ato de decidir, desligando-o da estrutura normativa em que
deveria se integrar. Para ele, a norma não é apenas produto da vontade, mas
resultado de um processo dialético entre fatos, valores e decisão, inserido em um
campo de validade objetiva. Essa compreensão refuta qualquer tentativa de
entender o Direito como expressão volitiva isolada do poder, seja de um soberano,
seja de um legislador.
A crítica à antiga máxima segundo a qual "a lei deve ser interpretada
segundo a intenção do legislador" também reforça essa tese. Reale afirma que essa
ideia só tem algum valor logo após a promulgação da norma, quando ainda estão
vivos os debates que lhe deram origem. Com o tempo, tal "intenção" se esvanece,
tornando-se inacessível ou irrelevante, sendo a norma recontextualizada pelo
intérprete em sua objetividade atual.
O autor, então, propõe um conceito fundamental: o de “jurisfação do
poder”, ou seja, o processo pelo qual o poder se converte em Direito objetivo,
institucionalizado, racional e impessoal. Trata-se de um movimento progressivo,
pelo qual o poder deixa de ser personalista e arbitrário para tornar-se função
normativa estruturada, com limites, finalidade pública e inserção sistêmica.
Ele resume esse processo em quatro tendências históricas e normativas
do poder na modernidade:
Passar a ser expressão de uma ideia de Direito, tanto nos grupos sociais
menores quanto no âmbito dos Estados ou da comunidade internacional;
Tornar-se objetivo, despersonalizado e transpessoal, ou seja,
institucionalizado e independente da figura concreta de quem decide;
Refletir a integração progressiva dos círculos sociais, garantindo
autonomia e liberdade para indivíduos e grupos;
Fundar-se cada vez mais no consentimento dos governados, como
expressão de liberdades organizadas e reconhecidas pelo próprio ordenamento.
Com isso, Reale mostra que a legitimidade do poder jurídico, na
contemporaneidade, não deriva mais da autoridade pessoal ou de um ato de força,
mas da racionalidade normativa, da institucionalização jurídica e do consentimento
democrático.
Em síntese, o trecho reafirma que:
O poder é necessário para a formação da norma, mas deve ser
englobado e absorvido por ela, para que o Direito funcione como sistema objetivo e
estável;
A norma jurídica moderna não depende mais da vontade do seu criador,
mas sim de sua validade formal, axiológica e funcional no ordenamento;
O Estado de Direito é aquele em que o poder se submete à norma, não
a controla ou manipula após sua edição;
O processo de “jurisfação do poder” é essencial para a construção da
democracia jurídica, onde o poder atua dentro dos limites do Direito e a norma se
sustenta pela racionalidade, pelo valor e pela eficácia institucional.
Dessa forma, Reale fundamenta, com clareza e profundidade, a
centralidade da norma sobre o poder no Direito moderno, destacando a importância
de instituições normativas impessoais, legítimas e orientadas ao bem comum, como
expressão última da civilização jurídica contemporânea.

Racionalidade e heteronomia

Neste extenso e profundo trecho, Miguel Reale desenvolve os


desdobramentos fundamentais do fato de que o “dever-ser do poder” é absorvido
pelo modelo jurídico, ou seja, de que o poder político, ao instituir a norma, cede
lugar à racionalidade normativa, culminando na objetividade e impessoalidade do
Direito. Esse processo, central à sua teoria tridimensional do Direito, tem, segundo
o autor, duas consequências essenciais.
1. Filtragem racional do poder e superação do arbítrio
A primeira consequência consiste no fato de que o processo normativo
filtra as “impurezas” do poder, ou seja, suas contradições, subjetividades e paixões,
transformando-o em norma jurídica dotada de racionalidade, generalidade e
impessoalidade. A partir do momento em que uma norma é sancionada, deixa-se
para trás o campo do conflito político e se inaugura o da estabilidade jurídica: a
norma, ainda que não seja um modelo jurídico por si só, se integra a modelos já
existentes, compondo um ordenamento coeso e racional.
Reale ressalta que um dos maiores méritos da normatividade jurídica é
exatamente esse: superar a irracionalidade das disputas políticas por meio de um
processo de institucionalização racional, em que a norma, uma vez positivada, deve
ser interpretada e aplicada à luz da razão, e não mais à mercê dos interesses e
paixões que a antecederam.

2. O modelo jurídico como representação objetiva do poder

A segunda consequência reside no fato de que, uma vez sancionado, o


modelo jurídico passa a representar o poder de forma objetiva e normativa,
superando qualquer traço de personalismo ou vontade subjetiva. Reale sustenta
que a validade e a eficácia da norma decorrem da sanção que a tornou vigente, mas
que essa força é agora impessoal e heterônoma, isto é, válida independentemente
da vontade individual que a instituiu.
Aqui, ele retoma a distinção entre o “querer psicológico” (ato volitivo do
poder) e o “querer normativo” (estrutura lógica da norma), mostrando que há uma
transição da subjetividade política para a objetividade jurídica. Com apoio em
Stammler, Reale afirma que a norma é, em sua origem, uma forma de querer, mas,
com o tempo, converte-se em estrutura de dever-ser, orientada por valores que lhe
conferem legitimidade e racionalidade.
Ele reforça que essa transição do Sein (ser) ao Sollen (dever-ser) só é
possível mediante a mediação de um valor. Ou seja, o poder que cria a norma só
se transforma em Direito quando sua volição é transcendida por um conteúdo
valorativo, o que permite a juridicidade e a eficácia objetiva.
3. A prescritividade como essência dos modelos jurídicos

Reale afirma que os modelos jurídicos são prescritivos no sentido lógico


e expressional: eles enunciam deveres e permissões com força vinculante,
distinguindo-se dos modelos hermenêuticos ou doutrinários, que carecem de poder
de obrigar. A prescrição, segundo ele, é a marca da positividade jurídica, pois
implica não apenas declaração normativa, mas também garantia de cumprimento,
inclusive mediante coação legítima do Estado.
Ele distingue entre:
Prescrição jurídica (com força normativa, obriga juridicamente);
Modelo hermenêutico (pode persuadir, mas não impõe condutas).
Nesse sentido, os modelos jurídicos:
Possuem força prescritiva e heterônoma (valem para além da vontade do
sujeito);
São coercíveis, ou seja, aptos a legitimar a intervenção do Estado para
sua efetividade;
Fundam pretensões e deveres, resultando em situações jurídicas
concretas (como direitos subjetivos, deveres legais e competências institucionais).
Reale encerra reiterando que a coercibilidade é um traço distintivo do
Direito: sem a possibilidade de coerção, o Direito não se diferencia das normas
morais ou dos costumes. A “coação virtual” — isto é, a possibilidade legítima de uso
da força estatal — é o selo que assegura o cumprimento da norma jurídica enquanto
expressão de um modelo jurídico válido e eficaz.

Legitimidade dos modelos jurídicos

Neste denso e rigoroso trecho, Miguel Reale aprofunda a reflexão sobre


um dos temas mais desafiadores da teoria jurídica contemporânea: a legitimidade
do Direito, especialmente dos modelos jurídicos enquanto produtos do poder, mas
também expressões normativas racionais, integradas a um processo ético e
institucional mais amplo.
1. A legitimidade do modelo jurídico e a purificação do poder
Reale parte da constatação de que os modelos jurídicos surgem da
escolha operada pelo poder, mas isso não significa que sejam arbitrários ou
desprovidos de juridicidade. Pelo contrário, ele reafirma que o poder, mesmo sendo
um fato, é um “fato valorado”, sobretudo no contexto do Estado Democrático de
Direito, no qual o poder está vinculado a um conjunto de exigências jurídicas, éticas
e procedimentais.
A legitimidade do modelo jurídico, portanto, decorre da inserção do poder
num processo normativo estruturado e valorado, o qual filtra e supera as
“impurezas” ou irracionalidades do jogo político, convertendo-as em uma norma
juridicamente válida e socialmente aceitável.
2. A estrutura tridimensional e a dialética entre poder e Direito
Miguel Reale refuta qualquer tentativa de tratar o poder como uma
"quarta dimensão" do Direito, defendendo, com coerência à sua Teoria
Tridimensional do Direito, que o poder se insere na dimensão factual e valorativa da
própria norma jurídica. Assim, Direito e poder não são elementos distintos, mas
campos em constante inter-relação dialética.
O poder participa da gênese normativa (nomogênese), mas apenas
como um momento de decisão inserido no âmbito da fonte do direito admitida pelo
ordenamento jurídico. Se o poder se põe como criador autônomo e ilimitado de
normas, rompendo com o numerus clausus das fontes, então há ruptura da
legitimidade, pois desaparecem os pilares da certeza, segurança e previsibilidade
jurídica.
3. O vínculo entre fontes do direito e legitimidade
Para Reale, o ponto central é que a legitimidade jurídica está
condicionada à origem normativa da norma, ou seja, à sua produção por meio de
uma fonte reconhecida pelo ordenamento. A escolha política, mesmo que racional,
não é legítima se não obedecer aos pressupostos institucionais e formais da fonte
correspondente (legal, jurisdicional ou negocial).
Isso significa que não basta que a norma seja fruto de um acordo político
ou social: ela precisa passar pelo crivo das fontes estabelecidas e estar conforme
ao sistema jurídico como um todo. A legitimidade, portanto, não se limita à eficácia
social ou à funcionalidade política da norma; ela está ancorada em sua origem e em
sua conformidade com a ordem jurídica constitucionalmente instituída.
4. A crítica às visões procedimentais da legitimidade
Reale dialoga criticamente com autores como Niklas Luhmann, que
tratam da legitimidade a partir de uma perspectiva sociológica e funcional. Embora
reconheça a importância dos estudos procedimentais, Reale insiste que a
legitimidade jurídica não pode ser reduzida a uma funcionalidade desprovida de
fundamentação ética ou institucional. Para ele, a legitimidade só se realiza
plenamente quando há convergência entre o conteúdo ético-social do modelo, sua
origem em uma fonte legítima e seu papel no conjunto do ordenamento jurídico.
5. Legitimidade como justiça histórica
O trecho conclui com uma síntese que é ao mesmo tempo conceitual e
filosófica: a legitimidade de um modelo jurídico é inseparável da realização da
justiça, entendida como concreção histórica dos valores que estruturam a ordem
jurídica. Ou seja, para que uma norma seja legítima, não basta que ela seja eficaz,
nem mesmo que ela seja formalmente válida: ela precisa ser justa dentro do tempo
histórico em que se aplica.

CAPÍTULO VI!
Espécies de Modelos Jurídicos
Notas prévias

Neste trecho conclusivo do capítulo, Miguel Reale aprofunda o


entendimento de que os modelos jurídicos são apenas parte do conteúdo das fontes
do direito, esclarecendo sua relação com normas jurídicas isoladas e com a
estrutura normativa mais ampla prevista nos sistemas legais. A seguir, destaco os
principais pontos abordados:
1. Modelos jurídicos não esgotam o conteúdo das fontes
Reale inicia reafirmando que nem todas as normas jurídicas presentes
nas fontes do direito constituem modelos jurídicos. Isso porque nem todas elas
possuem os elementos estruturais e sistemáticos que caracterizam os modelos,
embora possam ter eficácia jurídica plena. Ou seja, há normas que, mesmo
isoladas, são válidas e operativas dentro do ordenamento, ainda que não
componham um “modelo” no sentido técnico.

2. Exemplo prático: a Lei de Introdução ao Código Civil (LINDB)


Para ilustrar essa distinção, Reale analisa a LINDB (Decreto-Lei nº
4.657/1942), destacando:
Artigos que funcionam como modelos jurídicos, por reunirem normas
interligadas de modo lógico e estrutural (como o Art. 6º, com seus parágrafos,
tratando da vigência da lei, ato jurídico perfeito, direito adquirido e coisa julgada);
E outros que são normas isoladas, como o Art. 39 (“ninguém se escusa
de cumprir a lei, alegando que não a conhece”) ou o Art. 42 (sobre solução de casos
omissos por analogia, costumes e princípios gerais do direito), que expressam
juízos normativos válidos por si mesmos, ainda que não componham uma estrutura
mais complexa.
Reale observa, contudo, que essas normas isoladas podem, sob certo
aspecto, assumir caráter de modelos hermenêuticos, ou seja, instrumentos teóricos
que guiam a interpretação jurídica, mesmo que não formem um modelo jurídico
prescritivo completo.

3. Estruturas internas e a função sistemática dos modelos


Ao destacar o Art. 6º da LINDB, Reale mostra como um conjunto de
normas correlacionadas pode formar um modelo jurídico unitário, cujos elementos
se complementam mutuamente e só fazem pleno sentido quando interpretados em
conjunto.
Esse modelo seria uma estrutura normativa completa sobre a vigência e
a eficácia das leis, cuja integridade seria comprometida se qualquer parte fosse
retirada ou modificada isoladamente. O mesmo raciocínio se aplica ao Art. 7º,
relativo à aplicação da lei nos conflitos de normas de Direito Internacional Privado.

4. Normas jurídicas e modelos jurídicos não possuem hierarquia


entre si
Reale enfatiza que não se deve confundir a forma estrutural do modelo
jurídico com superioridade hierárquica sobre normas isoladas. Ambas são legítimas
expressões do conteúdo das fontes do direito, com a diferença de que o modelo
jurídico agrega uma dimensão estrutural, organizando um complexo normativo com
unidade de sentido.
Além disso, os modelos jurídicos correspondem, na hermenêutica
tradicional, ao conceito de “institutos jurídicos”, que são conjuntos normativos
organizados segundo determinada finalidade (como “contrato”, “propriedade”,
“família”, entre outros).

5. Distinção entre modelos jurídicos e modelos técnico-lógicos


Por fim, Reale esclarece que o estudo aqui empreendido não se
confunde com o dos modelos lógico-linguísticos da Semiótica ou com os modelos
cibernéticos da Informática Jurídica, que têm objetivos técnicos distintos. Seu foco
recai sobre os modelos jurídicos como configurações normativas operativas dentro
do ordenamento, com função interpretativa, aplicativa e estruturante do conteúdo
das fontes do direito.

Os modelos jurídicos legais

Para fins didáticos e visando à clareza expositiva, ao abordar


anteriormente a natureza procedimental das fontes do direito, foram antecipadas
algumas das características distintivas dos modelos legais, conforme tratado no
Capítulo II. Observou-se, então, que o conjunto das chamadas "normas legais"
tornou-se mais abrangente, compreendendo distintas modalidades normativas com
validade erga omnes, por força de sua origem no processo legislativo. Assim, os
modelos legislativos podem derivar não apenas de leis em sentido estrito, mas
também de decretos legislativos e de resoluções — estas, na acepção própria que
lhes confere o texto constitucional.
Importa destacar que, ao se referir à "lei", está-se incluindo a Constituição
Federal, considerada a lei por excelência, que contém inúmeros modelos jurídicos
nos mais diversos domínios: estrutura do Estado, regime de poder, ordem
econômica, tributária, educacional, entre outros. Nesses casos, é comum a
referência ao termo "sistema", especialmente quando se trata de normas
estruturantes da ordem constitucional.
O que singulariza o modelo legislativo é sua validade genérica ou
universal, ou seja, a validade erga omnes. Tal característica não decorre, como
equivocadamente se supõe, da simples multiplicidade de hipóteses normativas,
mas da premissa de que a norma deve ser aplicável indistintamente a todos que se
enquadrem como seus destinatários. Há, portanto, uma razão essencial de
igualdade que rege as normas legais, em conformidade com o princípio
constitucional de que todos são iguais perante a lei. Poder-se-ia dizer, com
propriedade, que tais normas têm validade erga omnes e pro omnes.
Ademais, o modelo legal ocupa posição destacada na escala dos
modelos jurídicos, prevalecendo sobre os demais — jurisdicional, consuetudinário
e negociai —, desde que não contrarie os preceitos constitucionais. O ordenamento
constitucional configura o parâmetro superior de validade, dentro do qual todos os
modelos jurídicos devem estar conformados. Nesse sentido, o modelo legal pode
suspender a eficácia de modelos oriundos de outras fontes que se mostrem
incompatíveis com a Constituição e com as normas infraconstitucionais que a
complementam.
Assim, é cabível afirmar que há uma primazia lógica do modelo legal, não
necessariamente axiológica. Em termos lógico-formais, a lei é a fonte preeminente,
por ser eventualmente de natureza constitucional; porém, do ponto de vista
valorativo, nada impede que modelos oriundos de outras fontes tenham maior
relevância ética, social ou econômica, a depender do seu conteúdo. Isso evidencia
a necessidade de estudar os modelos jurídicos sob os planos lógico e axiológico,
enriquecendo a compreensão do ordenamento jurídico como um todo.
Cumpre ainda registrar que as normas jurídicas podem ser eficazes
isoladamente, isto é, de per si, ou apenas na qualidade de elementos integrantes
de um modelo jurídico mais amplo, conforme a estrutura normativa adotada.
É no sistema de modelos legislativos que melhor se revela essa
configuração integrada de normas jurídicas. Esses modelos, por sua natureza,
compõem-se entre si e formam diversos campos de hierarquia normativa — tema
que será aprofundado nos capítulos seguintes.

O modelo jurídico costumeiro

O trecho trata da relevância dos modelos jurídicos consuetudinários, ou


seja, aqueles originados dos usos e costumes sociais. Contrariando a ideia de que
tais normas seriam meramente particulares e isoladas, o autor demonstra que esses
modelos são expressões legítimas e autônomas da sociedade civil, com capacidade
de preencher lacunas legais, complementar normas existentes e inspirar novas
formas jurídicas, sobretudo no âmbito do Direito Econômico.
Destaca-se que os usos mercantis são exemplos concretos desses
modelos, amplamente reconhecidos no mercado e por instituições públicas, como
demonstrado pelas antigas práticas da Junta Comercial de São Paulo, que
consolidava esses costumes. O texto defende que juristas e estudiosos do Direito
Econômico deveriam valorizar mais esses modelos, já que, em certos contextos, os
costumes adquirem tanta força normativa que suplantam a própria lei, levando até
à sua derrogação por desuso.
Os modelos jurisdicionais
O trecho destaca a importância da jurisdição como fonte produtora de
modelos jurídicos, embora esse papel ainda seja pouco reconhecido na teoria do
Direito. Inicialmente, a jurisdição é compreendida não apenas como instrumento
processual, mas como poder constitucional que, ao lado dos Poderes Legislativo e
Executivo, pode explicitar normas jurídicas. Ela se manifesta de forma ordinária, ao
aplicar normas legais a casos concretos, e de forma extraordinária, ao criar normas
diante de lacunas legais.
Com isso, surgem dois tipos de modelos jurisdicionais: os subordinados,
que concretizam modelos legais, e os autônomos, oriundos da atividade criadora do
juiz. Exemplos notórios dessa atuação incluem decisões que corrigiram injustiças
causadas por modelos legais ultrapassados ou ausentes, como nas hipóteses da
proteção do cônjuge sobrevivente, do uso ampliado do habeas corpus e da
regulamentação das relações de concubinato, posteriormente reconhecidas como
“união estável”.
O autor destaca ainda a relevância das Súmulas como modelos
jurisdicionais que sistematizam e conferem estabilidade às decisões judiciais, desde
que não se convertam em fórmulas imutáveis. Ressalta-se, assim, a necessidade
de constante revisão desses modelos diante de mudanças sociais e normativas.
Por fim, afirma-se que o ato jurisdicional exige um papel ativo e criador
do juiz, cuja atuação hermenêutica deve ir além da mera subsunção legal, visando
captar a justiça concreta em cada caso, com base em sua convicção ética e
sensibilidade diante da realidade social.

Os modelos jurídicos negociais

O trecho aborda a categoria dos modelos jurídicos negociais, os quais se


originam do acordo de vontades entre as partes, refletindo o exercício da autonomia
privada. A antiga máxima de que “o contrato faz lei entre as partes” adquire novo
sentido no contexto da Teoria Pura do Direito de Kelsen, ao reconhecer-se que
esses modelos também integram o sistema normativo, superando o estrito
legalismo. No Estado Democrático de Direito, regido pelos princípios constitucionais
da livre iniciativa e da livre concorrência, os modelos negociais ganham importância
crescente, constituindo formas legítimas de manifestação da liberdade individual e
de autorregulação jurídica. Para que tenham validade, esses modelos devem
respeitar o devido processo legal, a liberdade real de contratação, o equilíbrio entre
prestações, a boa-fé e a possibilidade concreta de cumprimento. Ressalta-se,
ainda, que tais modelos não podem contrariar os modelos legais, existindo uma
hierarquia lógica entre eles. Por fim, destaca-se a relevância das negociações
preliminares (trattative) como elementos hermenêuticos essenciais para a
adequada compreensão da vontade contratual, devendo-se reconhecer que cada
tipo de modelo jurídico exige diretrizes interpretativas específicas.

CAPITULO VIII
Dialética dos Modelos Jurídicos
Dialética e dialela

O trecho distingue dois processos frequentemente confundidos: o da


dialela (raciocínio argumentativo, voltado à persuasão e à aplicação das normas
jurídicas no Direito Positivo) e o da dialética (processo de desenvolvimento das
normas e modelos jurídicos em sua dimensão factual, normativa e valorativa). O
autor critica a visão reducionista que limita a Ciência do Direito à técnica
argumentativa, defendendo que o jurista, ao interpretar o Direito, deve considerar
sua origem e evolução. A teoria tridimensional do Direito, inspirada nessa
perspectiva integral, propõe analisar a experiência jurídica considerando três
aspectos: a vigência (validade formal), a eficácia (realização fática) e o fundamento
(valor a ser realizado). Ao final, aponta a importância de compreender o Direito por
meio de um processo dialético, capaz de integrar esses três elementos em uma
visão concreta e totalizante da realidade jurídica.

A dialética de complementaridade

O autor retoma a ideia de que a gênese dos modelos jurídicos ocorre


dentro de um processo axiológico, no qual o poder escolhe uma diretriz normativa,
tornando-a vigente e prescritiva. Para explicar o desenvolvimento do Direito como
experiência, ele distingue duas concepções de dialética: a hegeliana, baseada na
superação de opostos por identidade, e a dialética de complementaridade, que
considera fatores distintos que se correlacionam sem se anularem. Essa última,
mais adequada ao mundo da cultura e ao Direito, baseia-se na historicidade dos
valores (que se realizam ao longo do tempo) e na oposição inevitável entre valor e
desvalor. Assim, o Direito é compreendido como realidade processual, em
constante movimento e tensão entre juízos e valores, sendo a liberdade o valor
fundamental que estrutura todos os demais. A dialética de complementaridade, por
fim, é vista como essencialmente axiológica, distinta da lógica formal, embora
passível de análise também sob a ótica da lógica paraconsistente.

Complementaridade na experiência jurídica

O autor propõe a aplicação da dialética de complementaridade à


compreensão do Direito, especialmente na forma como os modelos jurídicos
surgem, se desenvolvem e adquirem significado ao longo do tempo. Ele distingue
essa abordagem de uma análise meramente lógica ou discursiva, enfatizando que
a experiência jurídica se constitui por três fatores interdependentes: fato, valor e
norma. Esses elementos, que compõem a teoria tridimensional do Direito, não
podem ser analisados isoladamente, pois a significação concreta de um modelo
jurídico varia conforme alterações nos contextos fático, axiológico ou normativo.
No Estado Democrático de Direito, a validade de um modelo jurídico não
se limita à sua origem no poder, mas exige conformidade com a Constituição, que
funciona como centro gravitacional do sistema normativo. Ainda assim, uma norma
constitucionalmente válida pode ter sua interpretação transformada em razão de
novas circunstâncias sociais, éticas ou legais. O autor adverte, contudo, que tal
reinterpretação exige rigor hermenêutico para evitar distorções arbitrárias.
A “vigência” de um modelo jurídico é entendida como positividade no
tempo, mas essa vigência se revela instável, sujeita a desvios, lacunas e confrontos.
O Direito, como experiência histórica e cultural, é plural, aberto e marcado pela
liberdade humana, o que impede uma evolução linear e previsível. Por isso, a
compreensão do Direito exige uma abordagem dialética concreta, em que nenhum
elemento se reduz aos demais, mas todos participam de uma unidade processual
em permanente tensão e transformação.
CAPITULO IX
O Macromodelo do
Ordenamento Jurídico

Noção de ordenamento jurídico

O autor inicia este trecho esclarecendo que os modelos jurídicos são


espécies de estruturas, as quais não são blocos rígidos, mas unidades de sentido
compostas por elementos inter-relacionados. A partir disso, discute o conceito de
ordenamento jurídico, diferenciando-o da totalidade da experiência jurídica de um
povo, que é bem mais ampla.
Três grandes correntes teóricas são apresentadas. A primeira, de cunho
monista, é representada por Hans Kelsen, que entende o ordenamento jurídico
como um sistema estatal unitário e hierarquizado, centrado em uma norma
fundamental. A segunda, de cunho pluralista, é defendida por autores como Hauriou
e Santi Romano, para os quais existem múltiplos ordenamentos jurídicos
autônomos, como o direito de grupos sociais. A terceira, adotada por Miguel Reale
com algumas modificações, reconhece a pluralidade de ordenamentos jurídicos,
mas atribui primazia ao sistema estatal, que serve como ponto de referência (ou
“lugar geométrico”) dos demais.
A noção de macromodelo jurídico, adotada pelo autor, refere-se
estritamente ao ordenamento estatal e inclui as normas provenientes das quatro
fontes do Direito — legislativa, jurisdicional, costumeira e negocial — desde que
reconhecidas no âmbito da soberania estatal e sob a incidência da Constituição. O
autor conclui que, embora o ordenamento jurídico estatal tenha primazia, ele não
abarca toda a experiência jurídica, coexistindo com ordenamentos autônomos
protegidos pela própria Constituição, sobretudo nas democracias liberais.

Ciência do Direito e ordenamento jurídico


Neste trecho, Miguel Reale defende a concepção do ordenamento
jurídico como um macromodelo jurídico, ou seja, uma estrutura abrangente e
articulada das diversas normas que compõem a experiência jurídica. Ele rejeita a
ideia de que o ordenamento seja um sistema lógico-formal puro e homogêneo —
como propunha Kelsen — argumentando que ele é, na verdade, uma unidade de
sentido (unitas ordinis), composta por múltiplos fatores que se correlacionam de
maneira dinâmica e, por vezes, até conflitiva.
Segundo Reale, mesmo que existam contradições ou conflitos entre
normas, elas devem ser superadas por meio de processos normativos e dialéticos,
movidos por um imperativo de coerência axiológica que sustenta a ordem jurídica.
Ele critica Roberto Vernengo, que via o sistema jurídico como uma construção lógica
apenas no discurso científico dos juristas, afirmando que essa sistematicidade é
inerente também à própria experiência normativa. O Direito, enquanto ciência
cultural, exige um esforço criador por parte do intérprete, mas sempre em contato
com os elementos factuais, normativos e valorativos que lhe conferem sentido.
Reale relembra que, desde o Direito Romano, já se intuía a necessidade
de sistematização e modelagem da experiência jurídica por meio de fórmulas
simbólicas (regula iuris). Assim, a não contradição entre normas é tanto uma
exigência do discurso dogmático quanto da própria realidade jurídica objetiva e
positiva.
Por fim, Reale aponta dois momentos fundamentais para a correção de
conflitos no Direito: o momento nomogenético(decisão de criação normativa) e o
momento pós-normativo (análise de compatibilidade com a Constituição ou com
outras normas). Essa visão integrada permite reconhecer a importância tanto dos
modelos jurídicos prescritivos quanto dos hermenêuticos, que serão abordados no
capítulo seguinte.

Complexidade do ordenamento jurídico

Neste trecho conclusivo, Miguel Reale reafirma que o ordenamento


jurídico não pode ser entendido como um sistema rígido e escalonado, como
propunha Hans Kelsen, mas sim como um macromodelo jurídico dinâmico e
complexo — comparável a um ecossistema — formado por múltiplos subsistemas
normativos, que coexistem e se inter-relacionam sob a égide da Constituição (no
plano interno) ou sob os princípios do Direito Internacional (no plano externo).
Apesar de sua diversidade e possíveis conflitos, o ordenamento mantém
um sentido global de ordem, indispensável à convivência social e à eficácia jurídica.
Reale destaca que a ordem jurídica pressupõe tanto objetividade (normas postas,
válidas e eficazes) quanto positividade (reconhecimento e garantia estatais), sendo
o Estado o centro de irradiação dessa unidade normativa.
Ao refutar visões pessimistas ou fragmentadas — como as de Frosini,
que vêem o sistema como inevitavelmente assimétrico —, Reale sustenta que a
unidade do ordenamento é um postulado da razão ético-jurídica, ainda que não seja
demonstrável como em um sistema lógico-matemático. Essa unidade se manifesta
pela existência de princípios gerais de direito, que orientam a interpretação das
normas e permitem o uso da analogia e da integração nas lacunas normativas.
Reale também distingue normas institucionais (que criam entes ou
ordenações estáveis, como a família ou a propriedade) das normas de conduta (que
regem os comportamentos dentro dessas instituições), e aponta que toda essa
trama jurídica deve manter coerência lógica e axiológica para garantir sua
legitimidade e funcionalidade.
Por fim, ele afirma que essa vasta teia normativa, que vai desde tratados
internacionais e constituições até contratos e ordens de serviço, reflete o sentido de
ordem imanente ao próprio ato de pensar, sendo a organização e a racionalidade
do ordenamento condições essenciais para a sobrevivência e evolução da
sociedade.

CAPÍTULO X
Modelos Hermenêuticos
do Direito
Modelos preseritivos e modelos
Hermenêuticos
Neste trecho, Miguel Reale conclui sua exposição sobre o ordenamento
jurídico afirmando que, uma vez estruturado como macromodelo normativo ligado
ao Estado, cabe ao jurista não apenas interpretá-lo, mas também compreendê-lo
teoricamente, por meio de modelos científicos ou doutrinários. A partir de Savigny,
tornou-se comum distinguir o Direito enquanto sistema de normas e situações
normadas (objeto) e o Direito enquanto doutrina ou ciência (conhecimento do
objeto).
Reale adverte, no entanto, que essa distinção deve ser feita com critério,
pois o ordenamento jurídico, como realidade cultural, não existe sem os conceitos
e símbolos teóricos que lhe dão forma e sentido. Assim, o Direito, ao positivar-se,
torna-se plataforma para a atuação dos sujeitos jurídicos, ao mesmo tempo em que
demanda interpretação doutrinária para que se extraia dele sua eficácia prática.
A norma jurídica, enquanto elemento central do ordenamento, é
compreendida como diretriz prescritiva de organização ou conduta, sendo bilateral-
atributiva e coercível. Essas características, no entanto, são formulações teóricas
da Ciência do Direito — não são regras cogentes, mas construções interpretativas,
sujeitas a debate e revisão.
Por isso, a Dogmática Jurídica é o ponto culminante da Ciência do
Direito, pois é nela que se elaboram juízos a partir das normas postas. E embora
não tenha força normativa, a doutrina — como conjunto de modelos hermenêuticos
— exerce papel fundamental: esclarece o sentido das fontes do direito, analisa seus
limites, hierarquias e integrações, e fornece instrumentos teóricos para
interpretação, aplicação e integração normativa.
Assim, os modelos hermenêuticos, embora não prescritivos, são
indispensáveis ao funcionamento do sistema jurídico, pois orientam a atividade
judicial e legislativa, e, quando acolhidos pelas decisões judiciais, podem converter-
se em normas com força cogente. Com isso, Reale prepara o terreno para classificar
e estudar os diversos tipos de modelos hermenêuticos no capítulo seguinte.

Modelos hermenêuticos do Direito de


caráter metodológico

Neste trecho, Miguel Reale desenvolve sua concepção de Hermenêutica


Jurídica Estrutural, propondo um conjunto de diretrizes metodológicas que orientam
a interpretação do Direito não como mera aplicação mecânica de normas, mas
como atividade integradora, racional, axiológica e historicamente situada. Ele
distingue os modelos hermenêuticos — que possuem estrutura normativa e sentido
próprio — de meros métodos lógicos (como o dedutivo e o analógico), os quais não
são exclusivos da ciência jurídica.
A interpretação jurídica, segundo Reale, deve ser compreendida a partir
da estrutura do ordenamento jurídico, que é historicamente constituído e
axiologicamente orientado. Ele critica dois reducionismos: o que foca apenas no
momento genético (na vontade do legislador) e o que se limita aos fatos e valores
supervenientes, defendendo que ambos são complementares e devem ser
integrados no processo interpretativo.
Reale então enuncia dez diretrizes que compõem o que denomina
modelos hermenêuticos do Direito, os quais são:
a) Unidade do processo hermenêutico – toda interpretação deve ser vista
como um processo uno e coeso;
b) Natureza axiológica do ato interpretativo – toda interpretação parte de valores
expressos nas normas;
c) Natureza integrada do ato interpretativo – a interpretação só se dá dentro do
contexto do ordenamento jurídico como um todo;
d) Limites objetivos do processo hermenêutico – a interpretação não pode negar
normas positivas vigentes;
e) Natureza histórico-concreta – é necessário considerar tanto a intenção do
legislador quanto as mutações históricas e axiológicas posteriores;
f) Natureza racional – ainda que a gênese das normas tenha aspectos não racionais,
sua interpretação deve ser lógica e justificada;
g) Problematicismo e razoabilidade – a interpretação deve buscar o razoável, com
base em uma razão conjetural e não meramente formal;
h) Natureza econômica – deve-se preservar o modelo jurídico existente sempre que
possível;
i) Destinação ética – a interpretação deve favorecer os valores éticos da dignidade
da pessoa e da convivência social;
j) Globalidade de sentido – a norma deve ser compreendida dentro da totalidade do
mundo normativo e da vida social.
Reale finaliza distinguindo sua proposta da antiga hermenêutica
histórico-evolutiva de Saleilles e Ferrara. Embora esta tenha representado
importante avanço em relação ao formalismo da Escola da Exegese e aos exageros
do Direito Livre, limitava-se a uma visão social e histórica estreita. A Hermenêutica
Jurídica Estrutural, ao contrário, funda-se em um paradigma cultural, estruturado e
axiológico, que integra norma, valor e fato numa totalidade dinâmica, como
defendido pela Teoria Tridimensional do Direito.

Modelos hermenêuticos de tipo axiológico

Neste trecho, Miguel Reale desenvolve a ideia dos modelos


hermenêuticos de fundamento axiológico, ou seja, modelos interpretativos do
Direito em que os valores ocupam papel central e decisivo. Embora o valor seja
elemento constitutivo de toda norma jurídica, nem todas têm a mesma intensidade
valorativa. Algumas normas possuem um caráter eminentemente axiológico,
exigindo, portanto, modelos hermenêuticos igualmente pautados em princípios
éticos.
O autor destaca que a unidade do ordenamento jurídico – ainda que não
possa ser demonstrada formalmente – deve ser sustentada por razões éticas,
principalmente o reconhecimento da pessoa humana como valor-fonte de todos os
valores. Esse fundamento axiológico legitima a ideia de um ordenamento coerente,
capaz de superar contradições e garantir a convivência pacífica e ordenada.
Reale apresenta exemplos de modelos hermenêuticos valorativos, como:
“O que não é proibido é permitido”, baseado na liberdade como condição
de toda experiência jurídica;
A proteção ao direito adquirido, que se fundamenta no respeito a valores
jurídicos consolidados.
Esses modelos mostram como a interpretação jurídica está ligada a
valores como liberdade, igualdade, solidariedade e até à proteção ambiental, vistos
como invariantes axiológicas que permeiam todo o sistema jurídico.
O texto também evidencia a necessidade de balanceamento de valores
em casos de conflito entre princípios constitucionais (por exemplo, entre livre
concorrência e defesa do consumidor), tarefa que cabe ao julgador no plano prático.
Além disso, Reale ressalta a relevância dos brocardos jurídicos (adágios
tradicionais), que, embora antigos, expressam valores fundamentais do Direito,
como liberdade, proporcionalidade e segurança jurídica. Esses brocardos, contudo,
não são absolutos e devem ceder diante de novos valores revelados pelo progresso
jurídico.
Por fim, o autor reconhece a utilidade de ferramentas como a lógica
deôntica, a semiótica e a informática jurídica, mas adverte que tais instrumentos só
adquirem sentido quando subordinados aos paradigmas axiológicos, que são, em
última instância, a “alma vivificadora” das normas jurídicas.

Modelos hermenêuticos supletivos


e complementares

Neste trecho, Miguel Reale aprofunda a análise da plenitude do


ordenamento jurídico, defendendo que o sistema jurídico brasileiro é construído sob
o postulado da não existência de lacunas normativas absolutas, conforme
consagrado no art. 4º da Lei de Introdução ao Código Civil e no art. 126 do CPC.
Esses dispositivos impõem ao juiz o dever de decidir mesmo diante da omissão
legal, valendo-se da analogia, dos costumes e dos princípios gerais de direito.
Segundo o autor, essa plenitude é sustentada pela unidade lógico-
axiológica do sistema jurídico, que permite integrar suas normas por meio de uma
auto-integração (quando se utilizam normas análogas ou costumes) ou
heterointegração(quando, em último caso, se recorre ao Direito Comparado,
respeitando a primazia dos princípios nacionais).
Reale distingue a analogia legis (fundada em normas semelhantes) da
analogia iuris (fundada nos princípios gerais do sistema), advertindo que esta última,
em essência, se confunde com o próprio uso de princípios jurídicos. Ele critica a
limitação imposta pelo art. 127 do CPC/1973 à aplicação da equidade, pois entende
que o juiz recorre constantemente a decisões equitativas para superar lacunas,
antinomias ou conflitos de valores.
Um exemplo contemporâneo de modelo hermenêutico de grande
relevância apontado pelo autor é o mandado de injunção, previsto no art. 5º, LXXI,
da Constituição de 1988, que permite ao Judiciário suprir a ausência de norma
regulamentadora sempre que esta inviabilize o exercício de direitos e liberdades
constitucionais. Para Reale, trata-se de uma inovação significativa, que consagra a
ideia de que a jurisdição pode atuar como fonte de integração normativa,
assegurando a eficácia prática dos direitos fundamentais.
Conclui destacando que uma teoria autêntica do Direito deve manter
coerência com o sistema político vigente, e, no Brasil, isso significa alinhar-se aos
princípios do Estado Democrático de Direito, promovendo um ordenamento jurídico
progressivamente mais coerente com os direitos e interesses da coletividade,
especialmente a liberdade e a igualdade.

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