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Este estudo avalia a vulnerabilidade ambiental da Bacia Hidrográfica do Rio Buriticupu, no Maranhão, Brasil, utilizando Sistemas de Informação Geográfica para inter-relacionar dados sobre geologia, relevo, solos e uso da terra. Os resultados indicam áreas de vulnerabilidade média, com destaque para as planícies aluviais, que são as mais frágeis ambientalmente. O trabalho visa contribuir para o planejamento ambiental e a gestão de recursos hídricos na região, além de apoiar a formação de um comitê de bacia hidrográfica.

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Este estudo avalia a vulnerabilidade ambiental da Bacia Hidrográfica do Rio Buriticupu, no Maranhão, Brasil, utilizando Sistemas de Informação Geográfica para inter-relacionar dados sobre geologia, relevo, solos e uso da terra. Os resultados indicam áreas de vulnerabilidade média, com destaque para as planícies aluviais, que são as mais frágeis ambientalmente. O trabalho visa contribuir para o planejamento ambiental e a gestão de recursos hídricos na região, além de apoiar a formação de um comitê de bacia hidrográfica.

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DOI: 10.

14393/SN-v35-2023-66679
Recebido: 15 Agosto, 2022 |Aceito: 09 Novembro, 2022 | Publicado: 18 Janeiro, 2023

Artigos

Vulnerabilidade Ambiental da Bacia Hidrográfica


do Rio Buriticupu, Maranhão – Brasil: o Relevo
como Elemento Chave
Environmental Vulnerability of the Buriticupu River Water Basin, Maranhão - Brazil: The
Relief as a Key Element
Rafael Brugnolli Medeiros¹
Luiz Carlos Araujo dos Santos2
José Fernando Rodrigues Bezerra3
Quesia Duarte da Silva4
Silas Nogueira de Melo5

Palavras-chave: Resumo
Amazônia Pesquisar uma bacia hidrográfica na região Amazônica requer assimilar que esta apresenta uma
Planejamento Ambiental relevância nacional e mundial, estando a área de estudo situada no chamado arco do
Uso e cobertura da terra desmatamento, eleva a necessidade de entender seu contexto, vulnerabilidades e componentes
Recursos Hídricos físicos, ambientais e antrópicos. Esta pesquisa objetivou avaliar a vulnerabilidade ambiental da
Geoprocessamento Bacia Hidrográfica do rio Buriticupu/Maranhão, com vistas a fomentar melhorias que possam
contribuir com o processo de planejamento ambiental e, especificamente, de recursos hídricos.
Para tanto, utilizou-se o ambiente de Sistema de Informação Geográfica para trabalhar com a
Álgebra de Mapas, interrelacionando dados primários e secundários sobre a geologia, relevo,
pedologia e uso e cobertura da terra, para gerar uma cartografia de síntese. Os resultados
apontaram áreas com predominância das classes médias de vulnerabilidade, entretanto, o
destaque fica por conta das planícies aluviais, que se tornaram, nas análises, as áreas mais
frágeis do ponto de vista ambiental, sobretudo por serem solos saturados em água (gleissolos),
depósitos inconsolidados de areia e silte (depósitos aluvionares) e por exibirem extensas
vegetações úmidas, características de matas de igapó e de várzea. Este estudo foi capaz de gerar
um documento que seja aplicável à área de estudo, além de propiciar, de modo sistêmico e
integrado, um produto que contribuirá para possíveis planejamentos, sobretudo para um futuro
comitê de bacia hidrográfica, algo necessário e ainda embrionário do Maranhão..

Keywords Abstract
Amazon Studying a watershed in the Amazon region requires understanding that this region has
Environmental Planning national and global relevance. The fact that the study area is located in the so-called arc of
Land Use and Land Cover deforestation raises the need to understand its context, its vulnerabilities, and its physical,
Water Resources environmental, and anthropic components. This research assesses the environmental
Geoprocessing vulnerability of the Buriticupu River Watershed in Maranhão State, Brazil. The aim is to foster
improvements that may contribute to environmental planning and, specifically, to water
resource management. For this purpose, the authors used the Geographic Information System
environment to work with Map Algebra, interrelating primary and secondary data on geology,
relief, pedology, and land use and land cover to generate synthesis cartography. The results
pointed to areas with predominantly medium vulnerability. However, the analyses highlight
alluvial plains, which became the most fragile areas from an environmental point of view. This
is mainly because these areas comprise water-saturated soils (gleysols), unconsolidated deposits
of sand and silt (alluvial deposits), and extensive humid vegetation, characteristics of igapó and
floodplain forests. This research generated a document that applies is applicable to the study
area. It also provided, in a systemic and integrated way, a product that will help in planning,
which is very important for the creation of a watershed committee, something necessary and
still embryonic in Maranhão State, Brazil.

1
1 Universidade Estadual do Maranhão – UEMA, São Luís, MA, Brasil. rafael_bmedeiros@[Link]
2 Universidade Estadual do Maranhão – UEMA, São Luís, MA, Brasil. [Link]@[Link]

3 Universidade Estadual do Maranhão – UEMA, São Luís, MA, Brasil. fernangeo@[Link]

4 Universidade Estadual do Maranhão – UEMA, São Luís, MA, Brasil. quesiaduartesilva@[Link]

5 Universidade Estadual do Maranhão – UEMA, São Luís, MA, Brasil. silasmelo@[Link]

Soc. Nat. | Uberlândia, MG | v.35 | e66679| 2023 | ISSN 1982-4513


MEDEIROS et al. Vulnerabilidade Ambiental

INTRODUÇÃO rapidez na obtenção e geração de mapas; por


outro lado, pode proporcionar, e é muito comum,
distorções do ponto de vista escalar
Artigos que discutem a vulnerabilidade (detalhamento).
ambiental chamam a atenção da comunidade Uma das variáveis que mais padece de
científica, com diversas aplicações nas mais simplificações, e que Guirra et al. (2016), Ross e
variadas escalas de análise e áreas distintas. O Fierz (2017) e Gouveia e Ross (2019) exploram
estudo de Crepani et al. (2001), talvez um dos em suas pesquisas, é o relevo, sobretudo pelo não
mais citados, exibe uma alta importância para detalhamento geomorfológico e identificação de
aqueles que utilizam essa metodologia na unidades de relevo, no caso, a importância das
avaliação da propensão à perda de solo, baseada planícies fluviais, que comumente são
nos processos de morfogênese e pedogênese. Dada classificadas por classes de baixa vulnerabilidade
sua importância no contexto de um zoneamento por apresentarem declive aplainado, o que, na
ecológico-econômico na Amazônia, os autores realidade, não expressa a real vulnerabilidade de
passaram a ser amplamente mencionados na tais áreas. São locais com dinâmicas ligadas à
comunidade acadêmica/científica, diante da erosão dos solos e aos episódios de inundações. A
metodologia concreta e coerente que fora criada, partir do momento que tais documentos
propiciando mapeamentos temáticos e cartográficos subsidiam ordenamentos, acabam
cartografias de síntese. por mascarar as restrições ambientais e legais e
A metodologia do estudo de vulnerabilidade propiciar um uso inadequado.
passou por muitas adaptações ao longo dos anos, Trazendo essa discussão para o viés da
diante de avanços tecnológicos na geração de vulnerabilidade, isso se aplica de modo integral,
mapas e na capacidade de sobreposição e inter- pois segundo a United Nations Development
relação entre os elementos da paisagem, além Program, a vulnerabilidade é um processo
das variações teóricas que conduziam os resultante de fatores físicos, sociais, econômicos e
pesquisadores a determinados objetivos ambientais, que determinam a probabilidade e a
específicos. Vulnerabilidade, fragilidade e escala dos danos de algum tipo de impacto e/ou
suscetibilidade, cada qual a sua maneira e de determinado perigo (UNDP, 2004). As áreas
método, todas foram fundamentais para de planície aparecerão nesse viés, ligado à sua
construir metodologias capazes de serem probabilidade para a ocorrência de instabilidades
aplicadas à atual e complexa realidade das áreas dos terrenos e episódios de inundações
de estudo. periódicas.
Nesses processos, nota-se que as metodologias A vulnerabilidade ambiental constitui uma
já consagradas de análise da vulnerabilidade ferramenta de grande valia para o entendimento
ambiental (CREPANI et al., 2001) e de da relação relevo-solo, face à intervenção
fragilidade ambiental (ROSS, 1990; 1994), foram desordenada da sociedade sobre os recursos
utilizadas ao longo do tempo diante de excessivas naturais (BRUGNOLLI et al., 2014), sendo
adaptações e até simplificações das metodologias, considerada a pouca resistência que o sistema
fazendo com que a importância da variável apresenta para manter-se em equilíbrio contínuo
“relevo”, como elemento fundamental no processo (ARGENTO, 1979) e esse equilíbrio pode ser
de saída e entrada de matéria e energia do rompido sempre que há a interferência antrópica
sistema ambiental, fosse relegada ao segundo (SPÖRL, 2007). Fato que responderá à maior ou
plano. É o relevo o elemento capaz de redistribuir menor vulnerabilidade, seja em qual for a escala
tais forças endógenas e exógenas, logo, entendê-lo de análise.
é fundamental nesse “quebra-cabeça” A escala aplicada e área de estudo desta
metodológico. pesquisa, corresponde a uma importante bacia
Destaque semelhante foi feito em Gouveia e hidrográfica maranhense, a Bacia Hidrográfica
Ross (2019, p. 124), afirmando que tais do Rio Buriticupu (BHRB), situada a leste do
problemas ocorreram devido a “dificuldades Maranhão, já na região Amazônica, com grandes
técnicas e do tempo despendido para a elaboração e massivos problemas ambientais, tais como:
de produtos cartográficos intermediários”. Nesse fragmentação da paisagem, retirada de
sentido, a possibilidade de obtenção de dados vegetações nativas, conflitos socioambientais,
vetoriais e matriciais nas mais variadas escalas e terras indígenas, agriculturas, pastagens,
todos disponíveis gratuitamente, trouxe consigo: mineração, entre outros vários usos e conflitos
de um lado, aspectos positivos pela facilidade e que se entrelaçam nessa complexa bacia
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hidrográfica. antrópicas, permitindo apontar as


É uma região que apresenta o alto e médio potencialidades dos ambientes de maneira
curso com grande predominância de duas terras sistêmica e indicando as restrições de utilização
indígenas: Araribóia e Governador. Ambas nessas bacias.
preservadas, contrastando com a aproximação do Diante do que foi colocado, objetivou-se, neste
uso antrópico, sobretudo pastagens e agricultura trabalho, a avaliação de forma analítico-sintética
que avançam até as bordas das terras indígenas, da vulnerabilidade ambiental da BHRB, diante
causando conflitos e impondo a necessidade de do levantamento das rochas, do relevo
estudar essa bacia sob o viés da vulnerabilidade. (declividade, hipsometria e compartimentos
Sem contar o fato de que a bacia abrange o geomorfológicos), dos solos e de uso e cobertura
Mosaico do Gurupi, que segundo Celentano et al. da terra. Contando que, dentro da metodologia
(2018), engloba seis Terras Indígenas (Alto empregada, a delimitação das unidades
Turiaçu, Awá, Caru, Araribóia, Rio Pindaré e geomorfológicas ganha destaque em virtude da
Alto Rio Guamá) e uma Unidade de Conservação sua importância perante aos processos
(Reserva Biológica do Gurupi). hidrossedimentológicos.
Logo, compreendê-la do ponto de vista A BHRB abrange 5.342,27 km² e é afluente da
ambiental é fundamental para sanar e/ou margem direita do rio Pindaré, um dos rios mais
minimizar seus problemas e propiciar importantes e mais degradados da Amazônia
informações que auxiliem na produção de um maranhense, fazendo parte da borda oriental da
banco de dados efetivo, com vistas a fomentar um Amazônia Legal. O rio Buriticupu tem suas
comitê para a bacia que a BHRB está inserida, a nascentes nas áreas mais elevadas da Terra
saber, a bacia hidrográfica do rio Pindaré. Esse Indígena Araribóia, preservada e com grandes
tipo de ferramenta auxilia no melhor vales encaixados e declives acentuados, em que
aproveitamento do espaço geográfico, pois indica percorre, da nascente até sua foz, 169,07 km
quais as áreas mais vulneráveis não só aos (Figura 1).
processos naturais, mas principalmente, às ações

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Figura 1 – Localização da BHRB, Maranhão

Fonte: Os autores (2022)

METODOLOGIA Todos esses mapeamentos apresentam escalas


distintas de detalhamento, contando com a
necessária saída de campo para realização da
A metodologia inicia-se com a análise geológica, veracidade terrestre e correção dos polígonos que
em que se buscou dados disponibilizados pela se mostraram equivocados/imprecisos.
Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais Utilizando, para esse fim, o ambiente de Sistema
(CPRM) por meio de seu portal GeoBank, através de Informação Geográfica através do QGIS
do Instituto Maranhense de Estudos Desktop 3.22.5.
Socioeconômicos e Cartográficos (IMESC) e do Tal saída de campo foi realizada ao longo de
Instituto Brasileiro de Geografia Física (IBGE). cinco dias percorrendo a BHRB (Figura 2)

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durante o período seco de 2021 (setembro), informações contidas nos órgãos oficiais do estado
utilizando equipamentos como um GPS Portátil e do Brasil. Silva e Berezuk (2021) afirmam que o
Garmin eTrex 22x SA, câmera fotográfica e um campo jamais pode ser substituído frente às
Drone DJI Mavic. Mesmo com uma essência experiências cognitivas e sensoriais que ele traz
ligada ao Geoprocessamento, esse trabalho consigo, essenciais no auxílio à construção do
destaca que a saída de campo é fundamental conhecimento geográfico.
para promover um panorama real e validar as

Figura 2 – Algumas fotografias áreas captadas na saída de campo.

Fonte: Os autores (2021).

A saída de campo foi fundamental em todos verificação dos polígonos de solo.


os processos metodológicos. Dessa junção e O mapeamento de relevo contou com três
articulação, a realização de trabalhos de campo, etapas básicas, todas utilizam o MDT Alos
sempre se configurou como um dos instrumentos Palsar, reamostrado para pixel de 12,5 metros,
mais importantes no desenvolvimento do olhar disponível no Alaska Satellite Facility. Esse
geográfico, não se tratando apenas de descrever e modelo passou por um pré-processamento com
interpretar de modo avançado a configuração vistas a eliminar ruídos e pixels espúrios
físico-natural de uma determinada área, contudo, (influência da vegetação nos pixels). No que diz
também, de formular métodos e conceitos pelos respeito à hipsometria, também foi utilizada as
quais haja uma compreensão integrada, curvas de nível e as altitudes da BHRB; para a
sistêmica e orgânica possível e passível de declividade, utilizou-se a Empresa Brasileira de
compreensão e aplicação na Geografia Física. Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA, 2018) por
Na análise pedológica foram utilizados dados meio do Sistema Brasileiro de Classificação de
do IMESC e IBGE que também passaram por Solos (SIBCS), que classifica o relevo em classes
longos processos de correção dos polígonos dos de declividade; e o último mapeamento consistiu
mapeamentos. A saída de campo foi essencial na geração de um documento inédito do relevo da
para essa conferência, perfis em estradas, caixas BHRB, tendo como base o IMESC e IBGE, em
de retenção em estradas não pavimentadas, que determinou-se nomenclaturas descritas e
utilização do Modelo Digital de Terreno (MDT identificadas em campo com o auxílio de um
Alos Palsar) e imagens de satélite (Sentinel 2B), Drone DJI Mavic (mapeamento por meio da
foram os produtos utilizados para fins de aerofotogrametria), do MDT Alos Palsar (para
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identificar as feições existentes), imagens de para uma hierarquia que vai desde a classe de
satélite e relevo sombreado (Hillshade). vulnerabilidade: Muito Baixa (1), Baixa (2),
Para o uso e cobertura da terra, contou-se com Média (3), Alta (4) e Muito Alta (5). Para
a coleção 6 do MapBiomas (2020), que consistiu alcançar esses pesos em cada variável, adotou-se
em um mapeamento utilizando a imagem critérios pré-estabelecidos, conforme o Quadro 1.
Landsat 8 – sensor OLI e, conforme o É importante ressaltar que os critérios
MapBiomas (2020) enfatiza, a metodologia de adotados não partiram apenas das metodologias
classificação é dinâmica e processual, para discutidas na introdução, considerou-se os
aperfeiçoar a classificação de cada tipologia. Para processos de saída de campo e o conhecimento
buscar um maior detalhe, foi realizada a dos pesquisadores, podendo ser replicada em
averiguação dos dados com imagens do Satélite outras áreas. Fatos que possibilitaram que o
Sentinel 2B (USGS, 2020), além da já citada mapeamento gerado seja realmente aplicável à
saída de campo. área e possa contribuir, não só no
Por fim, na geração do mapa de (re)ordenamento do uso da terra, na utilização
vulnerabilidade ambiental, as cartografias foram mais racional, mas também propiciar dados
agrupadas utilizando um Raster Calculator no relevantes para o manejo de recursos hídricos e
QGIS Desktop 3.22.5, no método chamado de para um futuro comitê da bacia do rio Pindaré
Álgebra de Mapas, isto é, uma sobreposição
cartográfica em que cada elemento terá um peso
sobre o outro, uma combinação pixel a pixel que INVENTÁRIO DOS COMPONENTES DA
resultará em uma cartografia de síntese. Os BHRB
procedimentos podem ser de subtração, adição e
multiplicação, nesse caso, utilizou-se a equação 1:
Partindo de uma compartimentação do relevo,
Equação 1 – Vulnerabilidade base desta metodologia, propôs-se a descrição e o
Ambiental: inventário dos componentes físicos da BHRB.
Esse inventário é fundamental dentro do
ge + de + so + uct processo de alcance da vulnerabilidade. Deixando
VA = Ug + claro o destaque feito à questão climática, o clima
4 da região é equatorial quente e úmido, uma
subdivisão do clima tropical. Apresenta duas
Em que: estações bem definidas: o período chuvoso, de
VA: Vulnerabilidade Ambiental dezembro a junho e o período de estiagem, de
Ug: Unidades Geomorfológicas julho a novembro, que atingem um total
ge: Geologia pluviométrico de 1.800 mm e 2.000 mm. A
de: Declividade temperatura média anual varia de 25ºC a 27ºC e
so: Solo a umidade relativa do ar é de 80%, em média
uct: Uso e cobertura da Terra (CAJAIBA et al., 2019). No caso deste estudo, a
relação sistêmica se deu diante das rochas,
Como pode ser visto, a variável relevo ganha relevo, solos e uso e cobertura da terra (Figura 3).
destaque nessa proposta pelos motivos já citados
na introdução. Todos os elementos apontaram
.

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Quadro 1 – Metodologia para a definição dos pesos dos indicadores ambiental


Pesos adotados por critério
Indicadores Elementos ● Tempo ● Estabilidade ● Resistência Pesos Critérios
geológico dos minerais das rochas
Formação Itapecuru 2 2 2 2 O tempo obedecerá a se é mais ou menos
Coberturas recente, logo, rochas mais recentes
2 2 2 2
Lateríticas Maturas tendem a ser mais vulneráveis aos
Rochas Formação Ipixuna 2 2 2 2 processos pedo e morfogenéticos. A
estabilidade e resistência trata-se dos
Depósitos
5 5 5 5 minerais e rochas e sua vulnerabilidade
Aluvionares
ao intemperismo.
● Topografia ● Relevo
● Inclinação das
(posição na sombreado
vertentes
vertente) (amplitude)
Baixos Platôs 1 1 1 1
Platôs Dissecados 2 2 1 2 A classificação do relevo irá discorrer
Superfícies com sobre os patamares altimétricos,
3 2 2 2
colinas onduladas amplitudes altimétricas, dissecações do
Planaltos Tabulares 4 1 2 2 relevo, posição geográfica na vertente e,
Unidades de
Superfícies com consequentemente, a maior ou menor
Relevo 3 3 3 3
morros e morrotes propensão às erosões.
Mesas e Mesetas 5 4 4 4 *Lembrando nessa metodologia que a
Vales Encaixados 4 5 5 5 planície recebe peso 5 diante de ser uma
Morros e Serras 5 5 5 5 área prioritária à preservação.
Planícies Fluviais 1 1 1 5*
● Inclinação das vertentes
0,00% a 3,00% 1 1
3,01% a 8,00% 2 2
Corresponde o quanto o relevo é íngreme
8,01% a 20,00% 3 3
Declividade ou aplainado dentro das classificações do
20,01% a 45,00% 4 4
SIBCS
45,01% a 75,00% 5 5
> 75% 5 5
● Imper- ● Profundidade
● Textura
meável e Maturidade
Latossolo Amarelo A porosidade corresponderá se um solo é
1 2 1 2
Distrocoeso mais ou menos permeável (sua
Latossolo Amarelo drenagem), valores mais elevados
1 2 1 2
Distrófico significam mais impermeável (favorecem
Latossolo Vermelho- o escoamento superficial em detrimento
1 2 1 2
Amarelo Distrófico à infiltração). A profundidade e
Argissolo Amarelo maturidade vai corresponder ao fator
Solos 3 3 2 3
Distrófico formação "tempo", que se relaciona ao
Argissolo Vermelho- grau de estabilidade pedogenética,
3 3 2 3
Amarelo Distrófico valores mais elevados significam rasos e
Neossolo pouco evoluídos. A textura discorre sobre
5 5 5 5 a granulometria, arenosa, argilosa a
Quartzarênico Órtico
Gleissolo Háplico Tb siltosa, valores mais elevados vão ser
5 3 5 5 siltosa (mais frágil).
Distrófico
● Porte dessa
● Proteção ao ● Densidade da
cobertura
solo Vegetação
vegetal
Formação Florestal 1 1 1 1
Formação Savânica 3 2 2 2 A proteção ao solo diz respeito a menor
Silvicultura 2 2 2 2 ou maior proteção dada pelo dossel
Formação vegetativo. Valores menores significam
4 2 2 2
Campestre maior proteção e menor vulnerabilidade.
Uso e
Pastagem 4 3 3 3 O porte diz respeito à altura dessa
cobertura da
Lavouras vegetação, o que também influencia na
terra 4 4 5 4
Temporárias proteção. E a densidade corresponderá a
Área Urbanizada 5 5 5 5 distância entre as vegetações,
Solo Exposto 5 5 5 5 minimizando a penetração de gotículas
Campo Alagado e das chuvas diretamente sobre o solo.
4 5 5 5
Área Pantanosa
Fonte: Os autores (2022).

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Figura 3 – Componentes físicos e antrópicos da BHRB

Fonte: Os autores (2022).

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De modo geral, o relevo da região é constituído (2013), essas áreas de Coberturas Lateríticas são
por formações de tabuleiros, separados em faixas resistentes ao intemperismo e à erosão e
por drenos e grotões, situado a uma altitude de sustentam relevos tabulares em distintas cotas
200 m acima do nível do mar (LIMA et al., 2018), altimétricas representadas por chapadas. Esses
exibindo a foz do rio Buriticupu à apenas 89 perfis lateríticos são registrados sob topos
metros acima do nível do mar. Mais aplainados e posicionados em cotas que variam,
especificamente, na BHRB ocorreu uma na BHRB, entre 300 m e 450 m, se vinculando
compartimentação geomorfológica que ficou clara aos interflúvios entre os rios da região, entre eles
a relação destas com o contexto geológico o Pindaré e Buriticupu.
regional. Nas planícies é possível notar a Outra compartimentação que se destaca na
presença de depósitos aluvionares, que são região são os vales encaixados, que apresentam
depósitos inconsolidados de areia, silte e argila declives acentuados, alguns até passando de 45%,
que, segundo a CPRM (2013) estão sendo o que a deixa em áreas protegidas pelo Código
transportadas e depositadas pelos rios e igarapés Florestal (BRASIL, 2012), entretanto, nota-se
desde os últimos 10 mil anos, período que no baixo curso, as áreas de vales exibem a
caracterizado pelo Quaternário. Essas áreas são pastagem como predominante. Por outro lado, no
sazonalmente, ou permanentemente, alagadas médio e alto curso, as vegetações florestais se
por água, com declividades reduzidas (não fazem presentes, sobretudo pelo fato de tais vales
alcançam mais que 3%), e devido a essa estarem localizados dentro da terra indígena
sazonalidade, seus solos são saturados em água, Araribóia.
como os gleissolos. Nessa terra indígena, inclusive, é possível
Passando para um patamar hipsométrico notar as mesas e mesetas, junto com os morros e
mais elevado, tem-se os baixos platôs e os platôs serras, que são os pontos mais elevados da
dissecados, que segundo CPRM (2013), BHRB, chegando até 489 metros. Nesses locais
apresentam grandes extensões referentes às são característicos os argissolos e latossolos, com
Formações Itapecuru e Ipixuna, ambas formadas grandes declives e vertentes íngremes, chegando
por arenitos, argilitos, siltitos, folhelhos até acima de 75%, isto é, um relevo escarpado,
intercalados com arenitos. O que difere uma sobretudo nas bordas das mesas e mesetas.
formação da outra, está no período geológico Segundo o CPRM (2013), destaca-se um relevo
(Itapecuru mais antigo) e no processo de movimentado, caracterizado por franca
conglomerados de arenitos com pelitos, que a dissecação de extensas superfícies planálticas.
Formação Ipixuna apresenta. Outro fato que Nesse cenário, sobressaem-se as vertentes
pode ser constatado na BHRB, é que a formação circunjacentes fortemente entalhadas, que,
Ipixuna está situada nas áreas mais elevadas, e a devido ao recuo progressivo dos declivosos
Formação Itapecuru se apresenta nas vertentes rebordos erosivos, vêm destruindo as baixas
mais baixas do médio e baixo curso (exceção feita superfícies planálticas. Esse relevo, localmente
aos fundos de vale, que são depósitos acidentado, caracteriza-se por colinas e morros
aluvionares). dissecados com vertentes declivosas, esculpidas
Nesses locais há uma predominância de por vales incisos com alta densidade de
pastagens com extensas áreas desmatadas, tanto drenagem, o que denota expressivo controle
que, segundo o MapBiomas (s.d.), é notável a estrutural no processo de esculturação do relevo
contínua retirada das vegetações nativas dessas regional.
áreas. De acordo com (IBGE, 2010; NICASIO et
al., 2019), as principais atividades econômicas no
município são a produção extrativista vegetal, VULNERABILIDADE AMBIENTAL DA
pecuária e fruticultura. Porém, ultimamente, BHRB: PROPOSIÇÕES PARA O USO E
atividades como a monocultura de eucaliptos e COBERTURA DA TERRA
soja têm se expandido pelo município. Segundo
Cajaiba et al. (2019), o município Buriticupu já
perdeu 97% da cobertura vegetal nativa. Essa avaliação da vulnerabilidade ambiental foi
Inclusive, essas áreas de soja e eucalipto se possível graças à interação entre os componentes
encontram nos planaltos tabulares, áreas planas físicos e antrópicos, que oferecem informações
que apresentam solos profundos como os capazes de definir restrições e traçar algumas
latossolos e que têm as Coberturas Lateríticas sugestões de melhoria ao uso e cobertura da
Maturas como destaque. Segundo o CPRM terra. Em suma, as ações antrópicas oferecem ao
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sistema ambiental desequilíbrios em maior ou ambientes naturais defronte às intervenções


menor grau, e essa vulnerabilidade ambiciona antrópicas (Figura 4).
justamente identificar o quão frágil são os

Figura 4 – Vulnerabilidade Ambiental da BHRB, Maranhão

Fonte: Os autores (2022).

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As áreas de vulnerabilidade muito baixa ocupação antrópica. Nas áreas que apresentam
ficaram restritas à Terra Indígena Governador, pastagens deve-se incorporar práticas de
em que a vegetação florestal ganhou destaque manejo para minimizar possíveis impactos
abrangendo apenas 64,59 km² (1,21% do total). negativos, sobretudo por algumas delas estarem
Somado aos remanescentes florestais, que se situadas em relevo ondulado (próximo a 20% de
vinculam à Floresta Amazônica (Ombrófila declividade).
densa e aberta), os arenitos da Formação Na classe média é possível notar a
Itapecuru, um relevo de platôs dissecados que apresentação de uma maior geodiversidade, as
alcançam um máximo de 20% de declividade e pastagens são destaque em terrenos aplainados
solos profundos e bem drenados como o que tenham solo mais frágil, como o caso do
Latossolo Vermelho-Amarelo Distrófico fazem argissolo, bem como a presença florestal em
com que ocorra uma redução das áreas de declive fortemente ondulado a
vulnerabilidades. São ambientes estáveis do montanhoso, como na terra indígena Araribóia.
ponto de vista geológico, geomorfológico e Os aspectos geológicos acabam por não ser
pedológico. preponderantes na classe média, apresentando
Para essas áreas, sugere-se que ocorra a as Formações Itapecuru, Ipixuna e Cobertura
manutenção dos remanescentes florestais, Lateríticas Maturas.
incentivando ações de fiscalização, visando a Destaca-se que essas porções territoriais
proteção da biodiversidade e contra a ocupação devem, sobretudo nas pastagens, exibir manejo
antrópica. Por ser uma Terra Indígena, há das terras, o que potencializa e favorece
proteção legal amparada na Lei no. 5.371 de proteção ao solo. Por exibirem uma
1967 que se vincula à garantia de cumprimento vulnerabilidade ambiental média, é considerado
da política de respeito aos povos indígenas e a um ambiente integrades, isto é, em que equaliza
posse das terras que ocupam (BRASIL, 1967). os processos morfo e pedogenéticos. Contudo,
Na classe de vulnerabilidade baixa há um deve-se ter cuidado com o avanço antrópico
predomínio dos arenitos da formação e sobre os remanescentes florestais,
Cobertura Lateríticas Maturas e os principalmente por já ser possível visualizar a
conglomerados de arenitos e pelitos depositados fragmentação na paisagem, e o avanço
da Formação Ipixuna. Nesses locais é possível antrópico atingindo até as margens dos
notar a formação de um relevo plano a mananciais, em muitos casos, já com a retirada
suavemente ondulado característico dos baixos da mata ciliar.
platôs e até por serem áreas mais altas e A classe alta inicia um processo de
planas, a predominância de solos bem instabilidade, com culturas de soja e eucalipto
desenvolvidos como o latossolo amarelo adentrando em áreas frágeis. Aponta-se para
distrocoeso, amarelo distrófico e latossolo latossolos amarelo distrocoesos localizados em
vermelho-amarelo distrófico. planaltos tabulares e de relevo suave ondulado.
É possível notar, ao longo de toda a BHRB O fato de apresentar alta vulnerabilidade se
que existem duas grandes manchas de deve ao fato de o uso das terras exercer forte
vegetação florestal, que são as Terras influência sobre os processos que causam
Indígenas, fatos que mostram a importância instabilidade. A outra porção territorial está
destas para manutenção dos remanescentes, localizada nas áreas de planície, que apesar de
não apenas para o equilíbrio da bacia exibir relevo aplainado, seu solo frágil
hidrográfica, pelo fato de existir importantes (gleissolos), somado à vulnerabilidade da
nascentes do rio Buriticupu e de seu principal planície, o fato de ser local de ocorrência de
afluente, o rio Serozal. Salienta-se ainda, que a processos de deposição de sedimentos e da
proteção é fundamental para garantir a ocorrência de inundações fazem com que ocorra
manutenção dos serviços ecossistêmicos, além tal classificação.
da manutenção do regime hidrológico, que Há, ainda, importantes áreas de
apesar de ser um rio extenso, não apresenta vulnerabilidade alta na terra indígena
grande vazão hídrica. Governador que vem, ao longo do tempo (Figura
Para essa classe salienta-se que devem 4), passando por processos de desmatamento
manter seus remanescentes florestais e pela extração de madeira, segundo Calentano et
preservar as nascentes, inclusive aquelas al. (2018), essa região vive sob ameaças
situadas em áreas úmidas, fiscalizando-as para constantes de desmatamento e de degradação
a proteção da biodiversidade e contra a pela extração ilegal de madeira, e por incêndios
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criminosos. Os povos indígenas e lideranças Segundo dados do MapBiomas (s.d.), nota-se


comunitárias da região são vitimados pela que desde a década de 1980 a BHRB perpassa
violência associada a tais crimes. por processos contínuos de degradação
Ainda se discute sobre a possibilidade de ambiental, sobretudo retirada da vegetação
criação do “corredor Ecológico da Amazônia nativa (Amazônica) para pastagens (em um
Maranhense, que irá conectar os principais primeiro momento) e, posteriormente, para
remanescentes florestais da região, por meio da agricultura. Essas alterações pressionam os
restauração das matas ciliares ao longo dos rios recursos hídricos e transformam a bacia
Buriticupu, Pindaré e Zutiua” (CALENTANO et hidrográfica em um local de intensos processos
al., 2018, p. 336). Essa proposta traria a hidrossedimentológicos, pois na época de
proteção ambiental e a recuperação do colheita, a retirada de extensas áreas de soja
equilíbrio para as bacias hidrográficas, deixa o solo desprotegido contra a ação pluvial,
fortaleceria os aspectos culturais e os povos carreando sedimentos que vão atingir as
indígenas, além de potencializar o patrimônio planícies. Santos e Soares (2020) também
natural da região, que embora seja reconhecido confirmaram esses destaques em outra bacia
por ser potencialmente rico, ainda é pouco hidrográfica maranhense, na região nordeste do
estudado pela comunidade científica. O fato de estado, que a ocupação de soja e eucalipto (algo
ser uma das áreas mais impactadas da que também ocorre na BHRB) é responsável por
Amazônia Maranhense traz à tona o debate e deixar as áreas suscetíveis à aceleração dos
necessidade de criação do corredor ecológico. processos erosivos.
Visto que as áreas como as terras indígenas de Os mesmos autores ainda avançam na
Governador e Araribóia, ambas fazendo parte discussão, identificando que as queimadas fazem
da BHRB, e as outras que representam o a limpeza das áreas agrícolas e pastagens,
Mosaico Gurupi, são fundamentais para a elevando o nível de degradação da bacia. Essas
conservação dos recursos hídricos e variáveis também se aplicaram na BHRB, pois
conectividade dos remanescentes. Fatos que segundo dados coletados junto ao MapBiomas
trariam uma grande contribuição dentro da (s.d.), é possível visualizar que nos últimos doze
proposta, ainda embrionária, de criação do anos (2010 a 2022) constatou-se uma grande
Comitê da Bacia Hidrográfica do Pindaré, a quantidade de focos de queimadas.
concretização institucional do comitê seguindo a Por fim, a classe de vulnerabilidade muito
Política Nacional de Recursos Hídricos alta, abrangeu, predominantemente, planícies,
(BRASIL, 1997) e a iniciativa por parte do que apesar de apresentar vegetações nativas,
poder público possibilitaria uma possível são locais de deposição e que podem padecer sob
efetivação das melhorias citadas e implantação recorrentes inundações e processos erosivos.
do corredor ecológico. Há, portanto, a Para esses locais, recomenda-se que seja
necessidade de manutenção dos remanescentes mantida a vegetação, bem como reflorestada
florestais, com a prática de ações de fiscalização aquelas áreas da planície que apresentam
que visam a proteção da biodiversidade e contra pastagens e/ou mineração (Figura 5).
a ocupação antrópica nessas áreas restritas
legalmente.

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Figura 5 – Grande parte das ocorrências de queimadas estão localizadas em áreas de vulnerabilidade
ambiental muito alta na BHRB, Maranhão

Fonte: Os autores (2022).

Nessas planícies, há fortes restrições à CONSIDERAÇÕES FINAIS


ocupação urbana e a implantação de
edificações, as quais podem apresentar
problemas de trincamentos e abatimentos Propor alterações na metodologia clássica e
frequentes (CPRM, 2013). Entretanto, o que se inicial não é algo novo, tampouco inédito. Porém,
vê na BHRB é a ocupação do distrito de nas a ideia de trabalhar com o relevo enquanto
margens das planícies, ou mesmos na própria componente capaz de redistribuir energias do
planície, padecendo periodicamente às sistema e exibir, assim, controle sobre os demais
inundações. Até por isso que, nessas áreas é elementos da paisagem, é algo importante e que
indispensável a alteração total de seus usos ganhou destaque no presente estudo. Avaliar as
atuais, buscando restabelecer e restaurar um áreas vulneráveis é um importante instrumento
alto valor ambiental mediante a recomposição de planejamento, e somado à proposta de adoção
da vegetação florestal. das unidades geomorfológicas fez com que cada
O fato de compreender tal dinâmica é unidade seja controlada, condicionada ou
fundamental para propor, a curto, médio e dependente da declividade e dos compartimentos.
longo prazo, mudanças na forma atual de Fato que promove não somente na identificação
ocupação, bem como em estratégias de manejo das unidades, mas propicia que estas tenham
de paisagens (RITTERS et al., 1995; STEFFEN características relativamente homogêneas,
et al., 2004; TREVISAN et al., 2018; LEAL et facilitando no processo de tomada de decisão.
al., 2019). Dessa forma, os objetivos foram atingidos e os
resultados encontrados possibilitaram identificar
a vulnerabilidade e propor, além de alterações no
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uso das terras, identificar a real vulnerabilidade Dispõe sobre a proteção da vegetação nativa;
das planícies, impossibilitando a ocupação ou, no altera as Leis nºs 6.938, de 31 de agosto de
mínimo, indicar uma maneira de adequar esses 1981, 9.393, de 19 de dezembro de 1996, e
processos ante à propensão na perda de 11.428, de 22 de dezembro de 2006; revoga as
sedimentos e equilíbrio dessas porções Leis nºs 4.771, de 15 de setembro de 1965, e
territoriais. 7.754, de 14 de abril de 1989, e a Medida
Lançar mão desses indicadores trouxeram Provisória nº 2.166-67, de 24 de agosto de 2001;
consigo a identificação que as áreas mais frágeis e dá outras providências. Diário Oficial da
do ponto de vista ambiental estão situadas em União: Brasília, 25 de maio de 2012.
três locais de destaque: a primeira são as BRASIL. Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997.
planícies; a segunda diz respeito às áreas de Institui a Política Nacional de Recursos
lavouras de soja e plantio de eucalipto do médio hídricos, cria o Sistema Nacional de
curso e a terceira nos focos de queimadas Gerenciamento de Recursos hídricos,
ocorridos, que deixaram marcas/cicatrizes na regulamenta o inciso XIX do art. 21 da
paisagem e trouxeram uma vulnerabilidade Constituição Federal, e altera o art. 1º da Lei nº
ambiental elevada, sobretudo na terra indígena 8.001, de 13 de março de 1990, que modificou a
Governador. Lei nº 7.990, de 28 de dezembro de 1989.
Um ponto fundamental deste estudo, e que Diário Oficial da União: Brasília, 8 de
poderá contribuir para os demais que estão por janeiro de 1997.
vir nessa importante região maranhense e BRASIL. Lei no. 5.371 de dezembro de 1967.
Amazônica, está no fato da proteção exercida Autoriza a instituição da "Fundação Nacional
pelas terras indígenas, já que estas fizeram com do Índio" e dá outras providências. Diário
que mais de 50% das vegetações nativas ainda Oficial da União: Brasília, 5 de dezembro de
tenham ficado resistentes às ações antrópicas, e 1967; 146º da Independência e 79º da
tornando-se assim um importante refúgio da República.
biodiversidade. Além de exibir uma possibilidade BRUGNOLLI, R. M.; PINTO, A. L.; MIGUEL, A.
de criação do corredor ecológico do Gurupi, algo E. S.; OLIVEIRA, G. H. de. Avaliação da
necessário e fundamental para as bacias Vulnerabilidade Ambiental na Área do
hidrográficas da região. De fato, isso afetará Assentamento São Joaquim, Selvíria/MS.
positivamente em certa medida a BHRB. O Revista Caminhos de Geografia,
desafio atual está justamente na aplicação de tal Uberlândia. v. 15, n. 49, p. 126-137. 2014.
medida. Espera-se, portanto, que este trabalho [Link]
seja um ponto norteador para as ações de CAJAIBA, R.L.; PEREIRA, K.S.; MARTINS,
melhoria frente ao avanço da agricultura e J.S.C.; SOUSA, E.S.; SILVA, W.B. Megasoma
pastagens sobre as vegetações nativas. actaeon (Linnaeus) (Scarabaeidae: Dynastinae):
first record for Maranhão state, northeastern
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AGRADECIMENTOS 2019. Disponível em:
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Os autores agradecem à CAPES (Coordenação de CELENTANO, D. et al. Desmatamento,
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) degradação e violência no "Mosaico Gurupi" - A
pelo financiamento do projeto e pela concessão de região mais ameaçada da Amazônia. Estudos
uma bolsa de Estágio Pós-Doc. Avançados, São Paulo, v. 32, n. 92, p. 315-339,
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