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Pedro Malasartes

O documento apresenta uma peça teatral chamada 'As Aventuras de Pedro Malasartes', que envolve personagens como Compadre João, Compadre José e Sia Madalena, que discutem sobre as travessuras de Pedro Malasartes. A história segue Malasartes enquanto ele busca trabalho e acaba enganando um fazendeiro e sua esposa, levando-os a perder ouro e porcos. A narrativa é intercalada com música e diálogos humorísticos, refletindo a esperteza do protagonista.
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Pedro Malasartes

O documento apresenta uma peça teatral chamada 'As Aventuras de Pedro Malasartes', que envolve personagens como Compadre João, Compadre José e Sia Madalena, que discutem sobre as travessuras de Pedro Malasartes. A história segue Malasartes enquanto ele busca trabalho e acaba enganando um fazendeiro e sua esposa, levando-os a perder ouro e porcos. A narrativa é intercalada com música e diálogos humorísticos, refletindo a esperteza do protagonista.
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AS AVENTURAS DE PEDRO MALASARTES

PERSONAGENS:

COMPADRE JOÃO
COMPADRE JOSÉ
COMPADRE MATEUS​
SIA MADALENA
MALASARTES
FAZENDEIRO
FAZENDEIRA
FAZENDEIRO RICO
MOÇO DOUTOR
COMPADRE I
COMPADRE II
VELHA
SENHORA
BANQUEIRO

CENA: o palco começa vazio.Um galo canta ao longe. A iluminação cresce como se o dia estivesse amanhecendo.
Entram os quatro atores cantando. Cada um vem de um lado do palco. São viajantes que trazem malas, trouxas e baús.
Os objetos são colocados no centro do palco e começam, ainda cantando e dançando, a montagem do cenário. O
cenário é retirado das malas, baús e trouxas. A montagem do cenário deve ser realizada no tempo da música.

MÚSICA: CHEGANÇA

(OS TRÊS ATORES PEGAM SUAS MALAS, BAÚS E TROUXAS E SAEM DE CENA. SIA MADALENA FICA NO
PALCO).

SIA MADALENA: Opa, que a viagem foi boa! E olha eu chegando nessa cidade bonita! (PARA A PLATÉIA) Com um
povo tão hospitaleiro! Dá licença, minha gente, que eu vou chegando... (PARA FORA DA CENA) Vam’bora, Mateus!
Anda logo! (PARA A PLATÉIA) Compadre Mateus é meu marido!
COMPADRE MATEUS: (ENTRANDO – CARREGANDO UMA MALA) Calma, mulher! Que pressa é essa! Vai tirar o pai
da forca?!
SIA MADALENA: Isso é jeito de fala, homem! Olha o povo aí!
COMPADRE MATEUS: (REPARANDO NA PLATÉIA) Ah, ocês desculpem! Boas tardes! (SEGREDANDO P/ PLATÉIA) É
que minha mulher parece que tem fogo nas pernas!
SIA MADALENA: Quê que tu ta falando aí, homem?
COMPADRE MATEUS: Nada, mulher...
COMPADRE JOÃO: (ENTRANDO – CARREGANDO UMA MALA) Boas tardes a todos! (VENDO O CASAL -
SAUDANDO) Compadre Mateus!
COMPADRE MATEUS: (SAUDANDO) Compadre João!

(CORREM PARA O ABRAÇO)

COMPADRE MATEUS: De onde tá vindo, compadre?


COMPADRE JOÃO: Xiii! Venho de longe... Lá das outras bandas... (REPARANDO EM SIA MADALENA) Comadre
Madalena, dê cá um abraço!
SIA MADALENA: (SEGREDANDO P/ A PLATÉIA E CAMINHANDO P/ O COMPADRE JOÃO) Olha aí, outro molenga!
(OUTRO TOM) Como é que vai, compadre?
COMPADRE JOÃO: Como Deus qué! E vocês?
SIA MADALENA: Como Deus deixa! E onde fica esse lugar tão longe que o compadre veio?
COMPADRE JOÃO: Ih, comadre! É longe... lá em Bom Jesus Del Rei...
COMPADRE MATEUS: Vixe, Maria! Não é que é longe mesmo!
COMPADRE JOÃO: E vocês? Vieram de onde?
SIA MADALENA: Lá das bandas do Gato Pelado...
COMPADRE JOÃO: Eta... Que também é bem longe!
COMPADRE JOSÉ: (ENTRANDO – CARREGANDO UMA MALA) Com licença que eu vou chegando!
OS OUTROS: (SAUDANDO) Compadre José!

(TODOS SE ABRAÇAM)

COMPADRE MATEUS: (P/ COMPADRE JOSÉ) Há quanto tempo, compadre José!


COMPADRE JOSÉ: Pois, não é! Bota tempo nisso! (P/ OS OUTROS - CUMPRIMENTANDO) Compadre João! Sia
Madalena!
COMPADRE MATEUS: Veio de onde, compadre José?
COMPADRE JOSÉ: Vim lá de Rato Molhado!
COMPADRE JOÃO: É longe pra chuchu!
SIA MADALENA: (P/ COMPADRE JOSÉ) Cumprimente nossos anfitriões!
COMPADRE JOSÉ: (P/ PLATÉIA) Boas tardes, gente!
COMPADRE JOÃO: (P/ COMPADRE JOSÉ) E o quê que o senhor conta lá de Rato Molhado? Quais as novidades?
COMPADRE JOSÉ: Lá em Rato Molhado só se fala em um camarada...
SIA MADALENA: (INTERROMPENDO) Será que é o mesmo lá de Gato Pelado, Mateus?
COMPADRE MATEUS: Não pode ser...
COMPADRE JOSÉ: O povo lá só fala de um tal de Pedro Malasartes!
SIA MADALENA: E não é que é o mesmo!
COMPADRE MATEUS: Pois pode? Lá no Gato Pelado só se fala nesse moço!
COMPADRE JOÃO: Em Bom Jesus também! Não tem outro assunto. Só se fala nas esperteza de Pedro Malasartes!
COMPADRE JOSÉ: Mas esse homem tá em tudo que é lugar!
SIA MADALENA: E não tá, compadre? Diz que anda pelo mundo fazendo suas estripulias...
COMPADRE MATEUS: Não tem parada... não tem chão... vive daqui pra lá! Só enganando os trouxas!
COMPADRE JOSÉ: E como é que começou isso?

TODOS: Como é essa história?


Quem é que vai contar?
Qual é a arte é boa?
Qual é a arte má?
Que Pedro é Malasartes.
Da arte sempre será.
Quem souber que conte.
Vamo’ logo começar..

COMPADRE MATEUS: Pois então eu vou contar uma história de Pedro Malasartes que eu ouvi lá em Gato Pelado.
Malasartes chegou em casa. Mas um fato quase mudou seu destino. A mãe do nosso Pedro estava muito doente. Quase
morre!
TODOS: Que pena!
COMPADRE MATEUS: A pobre senhora num último fôlego pediu: queria que o filho caçula arrumasse uma ocupação,
um trabalho decente. Fez o pedido e foi pra terra dos pés juntos... bateu os canecos... bateu as botas... vestiu paletó de
madeira... morreu! Malasartes, então, decidiu arrumar uma ocupação. E foi batendo de porta em porta atrás de emprego.

TODOS: Pra onde vai essa história?


Aonde é que vai dar?
Qual é a arte boa?
Qual é a arte má?
Que Pedro é Malasartes.
Isso não vai mudar.
Quem souber que conte.
Pode continuar..
(OS COMPADRES SAEM DE CENA - ENTRA PEDRO MALASARTES)

MALASARTES: Ó de casa! Tem alguém aí?

(ENTRA A FAZENDEIRA).

FAZENDEIRA: Pois não, moço! O que o senhor deseja?


MALASARTES : Procuro um trabalho... uma ocupação... um serviço de bem. Será que na sua fazenda não tem um
lugar pra mim?
FAZENDEIRA: Talvez tenha, mas preciso falar com meu marido! (CHAMANDO) Marido!

(ENTRA O FAZENDEIRO).

FAZENDEIRO: Que é, mulher?


FAZENDEIRA: Esse moço tá procurando trabalho.
FAZENDEIRO: O que você sabe fazer?
MALASARTES : Faço qualquer coisa... qualquer ocupação... Sabe, foi um pedido da minha finada mãezinha que eu
arrumasse um serviço, um trabalho de bem!
FAZENDEIRO: Trabalho até que tem. Não muito, mas tem. Só não tem dinheiro pra pagar. Somos muito pobres...
MALASARTES : Trabalho por qualquer coisa. Até por um prato de comida!
FAZENDEIRO: Então está bem! Você vai ganhar um bom prato de comida todos os dias!

(ENTRA O COMPADRE MATEUS E SAEM OS OUTROS PERSONAGENS)

COMPADRE MATEUS: (ENTRANDO) E Malasartes passou a trabalhar na fazenda! E o patrão que disse que não tinha
muito trabalho tratou de inventar um montão! O pobre do Malasartes trabalhava sem cessar!

(COMPADRE MATEUS SAI DE CENA. ENTRA O FAZENDEIRO PELO OUTRO LADO).

FAZENDEIRO: (CHAMANDO) Malasartes! Malasartes! Eu quero isso!

(MALASARTES PASSA PELO FUNDO DO PALCO)

MALASARTES: (CORRENDO) Já vai, patrão!


FAZENDEIRO: (ANTES DE MALASARTES CHEGAR) Agora eu quero aquilo!
MALASARTES: (SAI CORRENDO PARA O OUTRO LADO) Já vai, patrão!
FAZENDEIRO: (ANTES DE MALASARTES CHEGAR) Agora eu quero “aquiloutro”!
MALASARTES : (SAI CORRENDO PARA OUTRA DIREÇÃO) Já vai, patrão!
FAZENDEIRO: (ANTES DE MALASARTES CHEGAR) Agora não quero mais! Demorou muito! (SAI DE CENA)
MALASARTES : (PARA CANSADO NO MEIO DO PALCO)) Ufa!! Tô trabalhando pra me danar! Será que não dá tempo
de tomar um copo d’água? Eu vou lá buscar!

(ENTRA A FAZENDEIRA TRAZENDO DUAS SACAS CHEIAS DE OURO. ELA NÃO PERCEBE A PRESENÇA DO
MALASARTES. O MALASARTES FICA DE LONGE A OBSERVAR).
FAZENDEIRA: (TIRANDO DA SACA UMA MOEDA DE OURO E ESFREGANDO COM UM PANINHO) Ai, meu ourinho...
meu ourinho vai ficar brilhando! Ai, meu ourinho... meu ourinho vai ficar brilhando! Que beleza! Deixa eu guardar pra
ninguém pegar! (SAI DE CENA LEVANDO AS SACAS)
MALASARTES : Que safadeza! Que pouca vergonha! Aí, minha gente, esses dois se dizendo pobre e tendo esse monte
de ouro na mão. E ainda me pagando com um pão velho e seco. (APONTA PARA O CÉU) Oh, minha finada mãezinha, a
senhora vai me perdoar, mas esse negócio de serviço de bem não é pra mim, não. Esses dois vão vê com quem tão
lidando. Eu sou Pedro Malasartes!
FAZENDEIRO: (ENTRANDO) Pois é contigo mesmo que eu quero falar: eu quero que você vá a cidade busca isso...
MALASARTES : (INTERROMPENDO) Patrão, esse negócio de busca ISSO, AQUILO, AQUILOUTRO... não é pra mim,
não! Eu preferia ter uma ocupação só! Será que eu não posso tomar conta só dos porcos?
FAZENDEIRO: Você só quer tomar conta dos porcos?
MALASARTES : É, patrão! Faz mal?
FAZENDEIRO: Bem não faz, mas mal também não chega a fazer! Você pode tomar conta só dos porcos, mas só vamos
te dar a metade do pão!
MALASARTES : Vindo do senhor e da patroa tá bem vindo.
FAZENDEIRO: Então, vamos lá pegar a vara de porcos! (SAEM)

(ENTRA MALASARTES TRAZENDO A VARA DE PORCOS)

MALASARTES : Roinc... Roinc... Roinc... Roinc...Vamos, porquinhos! Roinc... Roinc... Roinc... Roinc...Vamos, meus
bichinhos!

(ENTRA O FAZENDEIRO RICO)

FAZENDEIRO RICO: Que belezura de porcos!


MALASARTES : O senhor gostou? Eu também gosto muito dos meus bichinhos!
FAZENDEIRO RICO: São seus?
MALASARTES : (PISCANDO PARA A PLATÉIA) São meus desde que nasceram! Eu adoro meus porquinhos!
FAZENDEIRO RICO: E o senhor não vende?
MALASARTES : Vender os meus porquinhos? Acho que não, doutor!
FAZENDEIRO RICO: Venda! Pago bom preço por eles!
MALASARTES : Mas eu vou sentir tanto a falta deles... só se eu ficasse com uma recordação...
FAZENDEIRO RICO: Que recordação?
MALASARTES : O senhor quer os porquinhos pra criar ou pra matar?
FAZENDEIRO RICO: Pra matar e vender a carne!
MALASARTES : Pois então eu vendo os porquinhos, mas sem o rabo. Vou ficar com os rabinhos de recordação!
FAZENDEIRO RICO: Como é que é?
MALASARTES : O senhor não vai vender as carnes... o rabinho não vai fazer falta! E eu fico com uma recordação dos
meus bichinhos! Só vendo assim!
FAZENDEIRO RICO: Que troço esquisito, mas tá bom! Vamos fazer negócio!

(O FAZENDEIRO RICO TIRA O DINHEIRO DO BOLSO E DA PARA O MALASARTES)

MALASARTES : Vamos para a sua fazenda e lá eu tiro os rabinhos. (SAEM)

MALASARTES: (ENTRANDO SOZINHO) Agora esses patrão vão saber quem é Pedro Malasartes! (ENFIA OS RABOS
NUM CANTEIRO DO CENÁRIO E COMEÇA A GRITAR E PULAR). Patrão! Patrão! Pelo amor de Deus, patrão!
FAZENDEIRO: (ENTRANDO) Que foi, homem de Deus?
MALASARTES : Os porquinhos!
FAZENDEIRO: Que você fez com meus porquinhos?
MALASARTES : Os bichinhos tão se enterrando!
FAZENDEIRO: Que é isso? Que besteira é essa?
MALASARTES : É verdade, patrão! Os bichinhos foram com as patinhas assim na terra... Roinc... Roinc... Roinc...
Depois os focinhos... Roinc... Roinc... Roinc... E foram entrando na terra.. (APONTANDO) Olha lá, patrão! Só tá os
rabinhos de fora!
FAZENDEIRO: Ai, que é verdade mesmo! O quê é que a gente faz, homem?
MALASARTES : Tem que desenterrar eles!
FAZENDEIRO: Corre lá na casa e pede pra fazendeira uma pá!
MALASARTES : Só uma?
FAZENDEIRO: Não. Pega logo duas!
MALASARTES: Duas. Tem certeza? São as duas?
FAZENDEIRO: Tenho, homem de Deus, pega as duas!
MALASARTES : (ANDANDO E REPETINDO) As duas... né, patrão?! As duas...

(MALASARTES CHEGA DO OUTRO LADO DO PALCO)

MALASARTES : (GRITANDO) Patroa! Patroa! Pelo amor de Deus, Patroa!


FAZENDEIRA: (ENTRANDO) Que é isso, homem?! Tá maluco?
MALASARTES : O patrão mandou a senhora me dá as duas sacas de ouro.
FAZENDEIRA: Como é que é? Você tá é doido!
MALASARTES : Eu não sei de nada, Patroa. O Patrão que mandou... A senhora quer ver? (CHAMANDO DE LONGE)
Patrão! Patrão!
FAZENDEIRO: (DE LONGE) Que é?
MALASARTES : (DE LONGE) São as duas, né? As duas!
FAZENDEIRO: (DE LONGE) É! As duas!
MALASARTES : (P/ A FAZENDEIRA) A senhora viu? Não tô mentindo...
FAZENDEIRA: Pois olhe... Tô besta! Se é assim que ele quer, assim vai ser...

(ELA PEGA AS DUAS SACAS E ENTREGA A MALASARTES . MALASARTES PEGA AS SACAS E SAI POR UM LADO
DO PALCO. DO OUTRO LADO ENTRA COMPADRE MATEUS.).

COMPADRE MATEUS: O Fazendeiro e sua mulher nunca mais viram o ouro, nem os porcos, nem o Pedro Malasartes!

(OS OUTROS COMPADRES VOLTAM À CENA – TODOS CANTAM)

TODOS: Essa história acabou,


Mas outra vai começar!
Qual é a arte boa?
Qual é a arte má?
Que Pedro é Malasartes.
Isso ninguém vai negar..
Quem souber conte outra.
Pode continuar.

(O COMPADRE JOÃO DÁ UM PASSO A FRENTE).

COMPADRE JOÃO:Outra história do Malasartes


Agora eu contarei!
Essa eu ouvi lá longe
Em Bom Jesus Del Rei.
Pois acredite, minha gente,
O Malasartes por lá andou.

TODOS: Pra onde vai essa história?


Aonde é que vai dar?
Qual é a arte boa?
Qual é a arte má?
Que Pedro é Malasartes.
Ele vai aprontar.
Quem souber que conte.
Pode continuar..

COMPADRE JOÃO: E quando chegou na cidade


Ele assim falou:

(SAI COMPADRE JOSÉ E ENTRA MALASARTES)



MALASARTES : (PARA A PLATEIA) Depois de enganar os fazendeiros malvados, gastei o dinheiro e tô sem um
trocado. Vim pra essa terra ver se consigo um dinheirinho, mas tá difícil. Parece que nessa estrada não passa ninguém!

(MALASARTES REPARA NUM MONTE DE COCO NO MEIO DO PALCO)



MALASARTES : Mas olhe que eu tô enganado, passou por aqui com certeza um grande porcalhão! Mas tive uma ideia!
Deve passar por aqui algum doutor ou fazendeiro, essa gente é boa de enganar. Vou me preparar e só esperar alguém
passar.

(MALASARTES COBRE O COCO COM O CHAPÉU E FICA DE CÓCORAS SEGURANDO AS ABAS COMO SE
PRENDESSE ALGUMA COISA. ENTRA O MOÇO DOUTOR – VEM SEGURANDO O SEU CAVALO).

MOÇO DOUTOR: (FALANDO PARA MALASARTES) Ei, você aí! Quê tá fazendo? Saia do caminho!
​MALASARTES: Desculpe atrapalhar, quem é o senhor?
MOÇO DOUTOR: Sou moço doutor, letrado na capital, sou muito inteligente e rico. Tá vendo tuudo isso aqui (APONTA
PARA FRENTE) é tudo meu! Inclusive essa estrada que você está parado. Anda saia já daí.
MALASARTES: Não posso seu Moço Doutor.Tô segurando uma joia.​
MOÇO DOUTOR: Esse chapéu velho, sujo e encardido. Isso é joia onde?

(MALASARTES PISCA P/ A PLATÉIA)

MALASARTES: Não falo do chapéu. Falo do que tem dentro. Um lindo passarinho. Com um talento belíssimo!
​MOÇO DOUTOR: Pois levanta o chapéu e me mostre o bicho. Quero ver o talento desse passarinho!
​MALASARTES: Se o chapéu levantar ele vai voar, e eu vou ficar sem meu lindo passarinho.
​MOÇO DOUTOR: Então ponha o bichinho gaiola adentro. Pra gente apreciar o talento dele.
MALASARTES: Mas seu moço doutor, eu não tenho gaiola, só esse chapéu velho.​
MOÇO DOUTOR: Pois então vá comprar, e vá comprar agora uma boa gaiola para esse passarinho.
​MALASARTES: Se eu pudesse, doutor, bem que ia comprar. Mas não tenho dinheiro.
MOÇO DOUTOR: Pois se esse é o problema eu lhe dou o dinheiro. Quero ver logo o tal passarinho cantar!
MALASARTES: Seu Moço Doutor, isso pode ficar caro. É uma coisa especial! Um passarinho raro não fica em gaiola
qualquer. Tem que ser da boa.​
MOÇO DOUTOR: Pois estou mandando. Quero a melhor gaiola! Pro lindo passarinho soltar seu canto!
​ ALASARTES: Se o senhor quer assim, então tudo bem. Mas segure o chapéu enquanto vou comprar, para o
M
passarinho não voar.

(O MOÇO DOUTOR SOLTA O CAVALO E FICA DE CÓCORAS NO LUGAR DE MALASARTES)

MALASARTES : O Doutor segure bem que eu vou rapidinho. Mas mesmo assim devo demorar, a venda é muito longe.
E indo de pé em pé a estrada fica muito comprida. Ah se tivesse outro jeito mais rápido de ir…
MOÇO DOUTOR: Vá no meu cavalo que é muito veloz. E pega aqui no meu bolso o dinheiro.

(MALASARTES PEGA O DINHEIRO E MONTA NO CAVALO)

MOÇO DOUTOR: E vê se não demora, porque eu quero ver o bichinho cantar logo.

(MALASARTES SAI NO GALOPE)



MOÇO DOUTOR: Agora que o bobalhão de foi, vou pegar o passarinho pra cantar no meu quintal.​

(O MOÇO DOUTOR ENFIA A MÃO POR DENTRO DO CHAPÉU E LEVANTA TUDO DE UMA VEZ SÓ.)

MOÇO DOUTOR: Mas é cocô! Esse cara me paga!

(O MOÇO DOUTOR DÁ UM GRITO E SAI CORRENDO – VOLTA COMPADRE JOÃO COM O CHAPÉU NA MÃO).

COMPADRE JOÃO: E o Moço Doutor nunca mais viu o Malasartes, nem seu cavalo, nem seu dinheiro...

(VOLTAM OS OUTRO COMPADRES)

TODOS: Essa história acabou,


Mas outra vai começar!
Qual é a arte boa?
Qual é a arte má?
Que Pedro é Malasartes.
Isso ninguém vai negar...
Quem souber conte outra
Pode continuar.
(SAEM TODOS E FICA APENAS SIA MADALENA)

SIA MADALENA: Pois agora quem vai contar sou eu. Essa foi uma das histórias que eu mais meu marido escutamos lá
no Gato Pelado. Diz que o Pedro Malasartes andava lá pelas bandas de Gato Pelado, até que parou numa birosca.
Ficou reparando na conversa de compadres que estavam lá conversando. E eles assim diziam:

(SAI SIA MADALENA E ENTRAM OS COMPADRES DE UM LADO - DO OUTRO, ENTRA MALASARTES QUE PARA
PARA ESCUTAR A CONVERSA)

COMPADRE I: Aquela velha é terrível!


COMPADRE II: Aquilo é mão de vaca demais!
COMPADRE I: Não dá bom dia pra não gastar a língua!
COMPADRE II: Pior. Ela não dá nem adeus. Porque balança a mão e ela pode perder os dedos!
COMPADRE I: É uma sovina!
COMPADRE II: Mão de vaca!
MALASARTES: (SE INTROMETENDO) Tarde! Cês tão falando de quem?
COMPADRE I: Duma velha pão-dura...
COMPADRE II: Ela mora aqui por perto!
MALASARTES : E ela não dá nada pra ninguém?
COMPADRE I: Não dá...
COMPADRE II: Nem compra!
MALASARTES: Pois olhe, que eu vou fazer essa velha me dar alguma coisa pra comer hoje!

(OS DOIS COMPADRES COMEÇAM A RIR. MALASARTES SÓ FICA OLHANDO).

COMPADRE I: Pois essa eu quero ver!


COMPADRE II: Essa eu duvido!
COMPADRE I: Um bobalhão desse...
COMPADRE II: Eu pago pra ver!
MALASARTES: Então está feita a aposta!
COMPADRES: Está combinado!
COMPADRE I: Pois eu aposto tanto! (TIRA O DINHEIRO DO BOLSO)
COMPADRE II: E eu mais esse tanto! (TIRA O DINHEIRO DO BOLSO)
MALASARTES: Pois eu coloco o seu tanto e o tanto dele!

(OS TRÊS ENTREGAM COLOCAM O DINHEIRO EM UM BANQUINHO)

MALASARTES: Agora ocês tem que me dizer onde mora a tal velha!
COMPADRE I: É fácil...
COMPADRE II: É aqui pertinho!
COMPADRE I: (MOSTRANDO) Você segue por essa rua..
COMPADRE II: Até o fim!
COMPADRE I: Vira a direita na pedra grande...
COMPADRE II: Depois anda mais três quadras...
COMPADRE I: Aí quebra pra esquerda e logo pra direita...
COMPADRE II: Sobe o morrinho...
COMPADRE I: E depois desce...
COMPADRE II: Anda mais duas quadras...
COMPADRE I: E quebra de novo à direita e a esquerda...
COMPADRE II: E chegou! É a casa no alto da ladeira!
MALASARTES : Mas é muito longe...
COMPADRE I: A gente vai fazer melhor...
COMPADRE II: Vai levar você até lá!

(OS TRÊS DÃO UMA VOLTA NO PALCO E PARAM NO MESMO LUGAR)

COMPADRE I: Pronto já chegou...


COMPADRE II: (APONTA) É aquela casa ali!
MALASARTES: Já chegou! Então vocês se escondem que eu vou dar um jeito nessa velha!

(OS DOIS SAEM. MALASARTES TIRA DA BOLSA UMA PANELA VELHA E UMA COMPRIDA TIRA DE PANO AZUL.
ESTICA A TIRA NO CHÃO. DETRÁS DA CASA APONTADA SURGE A VELHA. MALASARTES TIRA DA BOLSA UMA
FOGUEIRA JÁ ACESA E COLOCA NO CHÃO).

VELHA: O quê esse homem tá fazendo perto do meu riacho?

(MALASARTES PEGA A TIRA AZUL E COLCA DENTRO DA PANELA)

VELHA: Botou água do riacho na panela! Eu acho que ele vai fazer comida. Eu é que não vou dar nenhum uma ajudinha
pra esse malandro! Mas o que será que ele vai cozinhar?

(MALASARTES COMEÇA A PROCURAR. ELE ACHA PEDRAS. PEGA UMA, LIMPA E COLOCA NA PANELA. PEGA
OUTRA CHEIRA E JOGA FORA. FAZ ISSO VÁRIAS VEZES ATÉ JUNTAR QUATRO PEDRAS. DEPOIS ELE FICA
AGAICHADO MEXENDO A PANELA COM UM PAUZINHO)

VELHA: O quê é que esse doido tá fazendo com essas pedras? (A VELHA ESTICA O PESCOÇO) Eu não consigo ver
daqui... (ESTICA MAIS) Não consigo mesmo... (ESTICA MAIS) Não dá jeito... Eu vou até lá! (P/MALASARTES ) Tarde,
amigo.
MALASARTES: Tarde...
VELHA: Se o amigo não se incomodá, podia me dizê o que é que tá fazendo?
MALASARTES: Tô cozinhando!
VELHA: (OLHA P/ DENTRO DA PANELA) Mas é pedra que tem aí dentro!
MALASARTES : E é. Eu tô fazendo uma sopa!
VELHA: Sopa de pedra? Nunca vi disso!
MALASARTES: (PISCA P/ A PLATÉIA) A senhora nunca comeu sopa de pedra? Olha, não sabe o que está perdendo.
VELHA: E é bom?
MALASARTES : Se é bom? Aprendi a fazer a sopa com minha finada mãezinha. Ela fazia pra nós, quando nós era
criança. Dona... o gosto... olha, não dá nem pra falá. É maravilhoso. Chega eu tô com água na boca só de pensa que eu
vou comê. Ai, meu Deus!
VELHA: Humm... eu também tô ficando com água na boca!
MALASARTES: Mas é claro que tem ficá! É um sabor que a senhora nunca provou na vida!
VELHA: Tô com a boca cheia d’água!
MALASARTES : Se bem, que essa não vai ser... aquela... por que falta uns temperinhos. Mas vai tá boa também.
VELHA: Só uns temperinho....
MALASARTES : Só.
VELHA: Não seja por isso. Eu arranjo tempero.

(A VELHA VAI A CASA E TRAZ OS TEMPEROS E ENTREGA A MALASARTES.).

MALASARTES: Agora sim. Um manjericãozinho fresco! Que Beleza! Esse manjericão tá me fazendo lembrar sabe de
quem, dona?
VELHA: Não! De quem?
MALASARTES: Do meu tio Totonho!
VELHA: Ah é?
MALASARTES: Meu tio Totonho... Lembro tanto dele. Já morreu! Ele adorava essa sopa com uns temperinho! O
bichinho chegava a babá! Se tivesse uns tomatinho, então... Ih!! Ele se babava todo! Mas essa também vai fazer lembrar
dele...
VELHA: Só uns tomatinhos?
MALASARTES : Só!
VELHA: Não seja por isso. Quantos tomate?
MALASARTES: Quatro. Dos grandes.Cortado em rodela.

(A VELHA VAI A CASA E TRAZ O PEDIDO E ENTREGA A MALASARTES.).

VELHA: E agora? Falta muito pra ficá pronto?


MALASARTES: Falta. Se tivesse um macarrãozinho pra ajudá no cozimento, mas a gente tem paciência e espera...
VELHA: Só um macarrãozinho?
MALASARTES : Só!
VELHA: Não seja por isso.

(A VELHA VAI A CASA E TRAZ O PEDIDO E ENTREGA A MALASARTES).

MALASARTES: Ai, dona, vendo essa sopa me deu uma saudade da minha finada mãezinha. Ela adorava essa sopa.
Com tocinho de porco e umas carninha magra pra complementá, ela chegava a lamber os beiços. Mas essa vai fazer
lembrar dela também...
VELHA: Só uns toucinho e umas carninha magra?
MALASARTES : Só!
VELHA: Não seja por isso.

(A VELHA VAI A CASA E TRAZ O PEDIDO E ENTREGA A MALASARTES.).

VELHA: Quando ficá pronto, o senhor me dá um pouquinho pra eu experimentá?


MALASARTES : Claro! Mas a senhora arruma uns pratinho, porque nós dois não vamos comê nessa panela.
VELHA: Não seja por isso.
(A VELHA VAI A CASA E TRAZ O PEDIDO E ENTREGA A MALASARTES. O MALASARTES PÕE UM POUQUINHO
NO PRATO DA VELHA E ENCHE O SEU. OS DOIS COMEM. ESSES MOVIMENTOS DEVEM SER FEITOS COM
MÍMICA E PERCUSSÃO.).

MALASARTES : Gostô?
VELHA: Gostei. Mas e as pedras?
MALASARTES: As pedras? As pedras a gente joga fora! Eu não sou doido pra comer pedra!

(A VELHA DÁ UM GRITO DE RAIVA E CORRE ATRÁS DO MALASARTES. SAEM DE CENA. SIA MADALENA ENTRA
DO OUTRO LADO).

SIA MADALENA: E assim Malasartes enganou a velha. Passou na birosca, pegou o dinheiro da aposta e acabou a
história.

(VOLTAM TODOS.).

TODOS: Essa história acabou,


Mas outra vai começar!
Qual é a arte boa?
Qual é a arte má?
Que Pedro é Malasartes.
Isso ninguém vai negar...
Quem souber conte outra.
Pode continuar.

(COMPADRE JOSÉ DÁ UM PASSO À FRENTE)

COMPADRE JOSÉ: Pois agora uma história eu vou contar. Essa história eu ouvi lá pra bandas de Rato Molhado. Uma
velhinha colocava seus pertences em cima de uma carroça, ao lado uma casinha simples e pobre que ficava bem na
beira da estrada. A pequena construção era separada do caminho apenas por uma cerca baixinha de madeira.
Passando pelo lugar, o Pedro Malasartes viu a cena e foi ajudar a velha. Ele não gostava muito de fazer força, mas
vendo aquela senhora arrumando com tanta dificuldade seus cacarecos, resolveu ajudar. A velha ficou satisfeita.

TODOS: Essas histórias tem um fim?


Elas já vão terminar!
Qual é a arte boa?
Qual é a arte má?
Que Pedro é Malasartes.
Ele já se viajou.
Quem souber que conte.
Ponha um fim e acabou.

COMPADRE JOSÉ: Depois de tudo arrumado, o Malasartes perguntou:

(OS COMPADRES SAEM E ENTRA PEDRO MALASARTES)

MALASARTES: Vai passear, Vó?


SENHORA: Não, estou de partida!
MALASARTES: Mas por quê?
SENHORA: Essa terra já não dá mais nada, meu filho. As secas acabaram com tudo. Só restou essa pequena árvore. (A
SENHORA APONTA PARA UMA ÁRVORE NO CANTO DO PALCO) Só essa árvore que é teimosa e continua de pé.
Mas ela só dá essas folhas verdes. Nem uma frutinha. Não sei nem que árvore é essa. Lá no quintal, está tudo seco. As
goiabeiras, as laranjeiras, a horta... Tudo seco! Mais seco do que eu. Vou embora!
MALASARTES: E vai pra onde, vó?
SENHORA: Vou morar com meu filho. Ele já me convidou várias vezes. Ele mora lá na capital numa casa bonita. Tem
lugar pra mim lá. Eu já fui conhecer. Uma casa no fundo do quintal. Linda! Branquinha! E é pra lá que eu vou.
MALASARTES: E essa sua casinha? Vai ficar aí?

(A SENHORA FEZ UMA CARA DESCONSOLADA, MAS DE REPENTE O ROSTO DELA SE ILUMINOU COMO SE
TIVESSE TIDO UMA BOA IDEIA)

SENHORA: Vou dar a casa para você!


MALASARTES: Pra mim, vó?
SENHORA: É! Você me ajudou sem nem saber quem eu era. Vou ser sincera: essa casa não tem nada. A terra está
seca, os móveis que restam dentro estão quebrados. Só tem essa árvore, mas ela também não dá nada. Só essas
folhinhas verdes.
MALASARTES: E o que eu vou querer com essa casa, vó?
SENHORA: Sei lá! Você é novo! Tem muita vida pela frente e pode pensar em alguma serventia para a casa. Eu já estou
velha e quero o descanso da casinha no quintal do meu filho. Ah! Mas dou para você também esse pote de melado.
Pode comer com farinha. É só o que eu tenho para dar.

( A SENHORA PEGA UM POTE DE MELADO DA BOLSA E ENTREGA Á MALASARTES)

MALASARTES: Tá ótimo assim, vó! Obrigado!


SENHORA: Ah! Meu filho, só peço uma coisa: tem um homem aqui na região... um banqueiro... um sujeito avarento!
Empresta dinheiro para esse povo tentar melhorar a terra. Mas a terra está seca e o dinheiro é pouco. Faltam as
máquinas para trabalhar a terra e não dá jeito. E ele cobra juros altos até ficar com a terra dos pobres. E aí, ele vem com
as máquinas dele e fica tudo bonito. O danado é doido para comprar minhas terras, mas quer pagar uma ninharia. Ele
vive rondando por aí. Se ele quiser comprar, não vá vender barato.
MALASARTES: Pode deixar, vó.

(A SENHORA SE DESPEDE E VAI EMBORA. MALASARTES FICA PENSANDO UM POUCO OLHANDO PARA A
ÁRVORE, ATÉ QUE FAZ UMA CARA DE QUEM TEVE UMA IDÉIA. OLHA O POTE DE MELADO, SACODE O BOLSO
COM ALGUMAS MOEDAS E PISCA PARA A PLATÉIA. VAI ATÉ A ÁRVORE E PASSA MELADO NOS GALHOS,
DEPOIS COLA AS MOEDAS DO SEU BOLSO E ESPERA SENTADO EMBAIXO DA ÁRVORE. ENTRA O BANQUEIRO)

BANQUEIRO: Quem é você? O que está fazendo aí?


MALASARTES: Uma boa tarde pro senhor também! Mas o que é mesmo que o senhor deseja?
BANQUEIRO: O que você está fazendo aí?
MALASARTES: E quem é que deseja saber?
BANQUEIRO: (ESTUFANDO O PEITO) Eu sou o banqueiro dessa região. Sou dono da maioria das terras daqui. E
quero saber o que você está fazendo aí?
MALASARTES: Ué! Essa casa é minha!
BANQUEIRO: Sua? E a velha que morava aí?
MALASARTES: Foi embora. Foi morar na casa do filho, lá na capital. E me deu a casa. Eu fiquei até com pena porque
ela não sabe a preciosidade que perdeu...
BANQUEIRO: (RINDO) Preciosidade? Uma casa velha... uma terra seca... tentei comprar a casa dessa velha, mas ela
não quis vender. A única coisa que essa terra dá é essa árvore aí que ninguém sabe pra que serve.
MALASARTES: Mas é dela mesmo que eu estou falando.

(UMA MOEDA CAI E MALASARTES SE APRESSA EM PEGAR)

MALASARTES: Opa! Que já foi a primeira!


BANQUEIRO: O que é isso que você pegou?
MALASARTES: (TENTANDO DISFARÇAR) Nada!
BANQUEIRO: Nada? Eu vi bem! Foi uma moeda e ela caiu dessa árvore!
MALASARTES: Imagina, seu doutor! Não foi isso, não...
BANQUEIRO: Eu vi! A moeda caiu dessa árvore!
MALASARTES: (SE APROXIMANDO DO BANQUEIRO COMO QUEM CONTA UM SEGREDO) Foi isso mesmo, mas
não conte a ninguém. Essa árvore que o senhor diz que não dá nada. Dá, sim! Essa árvore dá dinheiro!
BANQUEIRO: (ESPANTADO) Árvore que dá dinheiro? Isso é possível?
MALASARTES: Olha... eu sou um viajante. Conheço muita coisa desse mundão de meu Deus. Já vi dessas árvores,
mas não aqui. Lá pras terras do oriente têm muito delas. O dinheiro dá que nem jabuticaba. Grudadinho no galho.

(O BANQUEIRO SE APROXIMA E OLHA A ÁRVORE DE PERTO. FICA IMPRESSIONADO)

BANQUEIRO: E não é que é mesmo!

(O BANQUEIRO TENTA PEGAR UMA MOEDA MAS MALASARTES BATE NA SUA MÃO)

MALASARTES: Não! Não pode pegar enquanto não cair. Se o doutor tirar agora, antes de ficar maduro, não vai valer
nada. Tem que esperar amadurecer, cair, limpar e usar como quiser.

(MALASARTES PEGA A MOEDA QUE CAIU, LIMPA E MOSTRA AO BANQUEIRO QUE AINDA ESTÁ
IMPRESSIONADO)

BANQUEIRO: E não é que é dinheiro mesmo!


MALASARTES: Legítimo!
BANQUEIRO: Eu quero uma árvore dessa!
MALASARTES: O senhor quer? Ih... doutor... aqui por essas bandas é a primeira vez que eu vejo uma. Lá no oriente
tem muita. Mas aqui... Nem sei como essa planta veio parar aqui. E, olha, essa terra seca é ideal para esse tipo de
árvore. Ela custa a dar o dinheiro, mas quando começa a dar... não pára nunca mais.
BANQUEIRO: Eu quero essa árvore pra mim! Ela tem que ser minha!
MALASARTES: (ZANGADO) Peraí! Essa árvore é minha! A velha me deu! Deu o terreno, a casa e a árvore. Isso tudo
aqui me pertence!
BANQUEIRO: Venda tudo que eu compro! Pode botar preço!
MALASARTES: Não sei... gostei daqui... O ar é agradável... Faz um pouco de calor, mas com o dinheiro que a árvore
vai me dar eu posso mandar instalar uns ventiladores grandes. Vai ficar uma beleza!
BANQUEIRO: Venda, rapaz! Pago bom preço!
MALASARTES: Não sei... eu gostei daqui... se bem, que eu tenho que ir lá pras bandas do Nordeste. Sou esperado lá e
não sei se vou poder voltar.
BANQUEIRO: Então! Venda e siga o seu caminho! Faça negócio comigo!

(MALASARTES COÇA A CABEÇA, OLHA PARA A ÁRVORE, DEPOIS PARA O BANQUEIRO E COÇA O QUEIXO)

MALASARTES: Tá bom! Vamos fazer negócio. Cadê o dinheiro?


BANQUEIRO: Está lá na minha casa. Vamos lá buscar.
MALASARTES: Mas é longe?
BANQUEIRO: Um pouco.
MALASARTES: (SE ESPREGUIÇANDO) Ai! Tô tão cansado...
BANQUEIRO: Vá no meu cavalo!
MALASARTES: No seu cavalo? E o senhor?
BANQUEIRO: Eu vou a pé! Vamos fazer negócio, homem!

(SAEM DE CENA. ENTRA COMPADRE JOSÉ)

COMPADRE JOSÉ: O Malasartes aceitou. Montou no cavalo do banqueiro e eles foram para casa dele. No caminho,
banqueiro só imaginava as fortunas que ganharia com a tal árvore. Chegaram lá e o malandro recebeu uma boa quantia.
Depois pediu licença e foi embora para nunca mais voltar. Da árvore caíram as moedinhas que ainda estavam coladas
com o melado e mais nenhum centavo.

(ENTRAM TODOS OS ATORES)


TODOS: Nossa história acabou,
Mas outras vão começar!
Qual é a arte boa?
Qual é a arte má?
Que Pedro é Malasartes.
Isso ninguém vai negar.
Vamos seguir na estrada.
Ela vai nos levar.
Deixamos aqui com certeza
Um pedaço do coração.
Agradecendo a gentileza
E a boa educação
Dessa gente bonita.
Desse povo feliz
Que ouviu nossa história
Sem torcer o nariz

COMPADRE MATEUS: Então, vamos embora minha gente!

(TODOS DESMONTAM O CENÁRIO)

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