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Armengol 2025 Reinvencao-Da-Masculinidade Intro

O livro 'A Reinvenção da Masculinidade' de Josep M. Armengol explora a construção e a evolução das masculinidades, destacando a relação entre homens e feminismo. A obra analisa como as masculinidades são influenciadas por fatores sociais e culturais, e propõe uma reflexão crítica sobre a masculinidade hegemônica, especialmente no contexto contemporâneo. Armengol argumenta que a masculinidade é um constructo social que pode ser desconstruído e transformado.

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Armengol 2025 Reinvencao-Da-Masculinidade Intro

O livro 'A Reinvenção da Masculinidade' de Josep M. Armengol explora a construção e a evolução das masculinidades, destacando a relação entre homens e feminismo. A obra analisa como as masculinidades são influenciadas por fatores sociais e culturais, e propõe uma reflexão crítica sobre a masculinidade hegemônica, especialmente no contexto contemporâneo. Armengol argumenta que a masculinidade é um constructo social que pode ser desconstruído e transformado.

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A REINVENÇÃO DA MASCULINIDADE
A Reinvenção
da Masculinidade

Homens e feminismo

Josep M. Armengol

lisboa
t in ta ­‑ da ­‑ c h ina
mmxxv
Índice

Introdução9

PARTE I

1. Os estudos das masculinidades:


uma introdução 27
Origens28
Desenvolvimento33
A política das masculinidades 40
Os homens e o feminismo,
os homens no feminismo 44
Estudos das masculinidades:
tendências actuais 52

© 2025, Josep M. Armengol 2. O pós­‑ estruturalismo


e Edições tinta­‑da­‑china, Lda. e a «dissolução» do sujeito masculino 56
Palacete da Quinta dos Ulmeiros
Alameda das Linhas de Torres, 152, E. 10 Questionar a virilidade e a masculinidade 59
1750­‑149 Lisboa A heterossexualidade posta em causa 68
Tel: 21 726 90 28
E­‑mail: info@[Link] A «raça» branca como constructo 72
Abordagens pós­‑estruturalistas
[Link] e identitárias da masculinidade 82
© Alianza Editorial, S.A. 2022 Repensar o debate 93
Rever as masculinidades numa
Título original: Reescrituras de la masculinidad. perspectiva interdisciplinar 103
Hombres y feminismo
3. A masculinidade
Título: A Reinvenção da Masculinidade: Homens e feminismo como representação 109
Autora: Josep M. Armengol
Revisão: Tinta­‑da­‑china Representações culturais e literárias
Composição: Tinta­‑da­‑china (V. Caraças) da masculinidade: uma introdução 111
Capa: Tinta­‑da­‑china (V. Tavares)
Os estudos das masculinidades
1.ª edição: Julho de 2025 na crítica literária contemporânea 116
Os homens na crítica literária feminista 125
isbn: 978-989-671-957-9
Sexo ou morte do autor? 133
Depósito Legal n.º 548252/25
in trodução

PARTE II
Introdução
4. Um homem não chora?
Masculinidade e política(s) das emoções 145
A feminização das emoções
na cultura contemporânea 147
Os homens não choram? 159
O «homem terno» como fenómeno social 164
As emoções como motor de mudança social 170
O potencial político das emoções 174
Novas paternidades 180
(Re)visões literárias da figura paterna 187

5. Amizades perigosas? Laços afectivos Não ocorreria a um homem escrever um livro sobre
entre homens na história e na cultura ocidentais 196
a situação singular que os homens
A história cultural e literária
da amizade masculina: uma introdução 200 ocupam na humanidade.
A homofobia como obstáculo à intimidade Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo (1949)
entre homens: O Jornalista Desportivo,
de Richard Ford 210
O potencial político das amizades entre
Se o feminismo foi a grande revolução do século xx,
homens para transformar as masculinidades a mudança do homem poderá ser uma das
e as relações de género 221
mais importantes revoluções sociais do século xxi.
6. A masculinidade como violência? Victoria Sau, «Nueva(s) paternidade(s)» (2003)
(Re)visões culturais e literárias235
A violência baseada no género:
teorias acerca da relação entre
masculinidade e violência 238 Há várias décadas que as investigadoras feministas demonstra‑
Violência(s) masculina(s) nas culturas ram que o género — ou seja, as prescrições culturais que cada
ocidentais contemporâneas 247
sociedade atribui ao sexo biológico de um indivíduo num dado
Imagens de violência como prova
de virilidade na história cultural e literária 261 momento — é um aspecto central da vida social e política.1 De
(Re)visões da violência masculina par com outros factores, por exemplo a etnia, a classe e a sexua‑
na literatura contemporânea 271
lidade, o género é hoje entendido como um dos eixos fundamen‑
«Velhas» e «novas» representações
na literatura e no cinema: «An African Story»,
tais das nossas vidas, além de um dos principais mecanismos
de Ernest Hemingway, e Num Mundo Melhor,
de Susanne Bier 279
1 Importa assinalar que a noção de género, tal como a entendemos hoje, foi criada em
Conclusão286 1969 por um homem, Robert Stoller, para ilustrar como o género podia ser diferente do
sexo. De qualquer forma, o termo foi popularizado por Ann Oakley no início da década
Bibliografia297
de 1970 (Segal, 1997, 66).

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in trodução

que determinam a distribuição do poder nas nossas socieda‑ sociais e de género. Afinal, a invisibilidade é a condição prévia bási‑
des. Tradicionalmente, os estudos de género concentraram­‑se ca à perpetuação da supremacia masculina, porquanto é difícil ques‑
nas mulheres. Do ponto de vista político, é assim que deve ser. tionar o que permanece oculto (Robinson, 2000; Easthope, 1986).2
Foram as mulheres que sofreram, e continuam a sofrer, os efeitos Dado que a masculinidade tenta manter a sua hegemonia fazendo­
mais nocivos do patriarcado. Foram elas, portanto, que tiveram ‑se passar por normal e universal, é essencial torná­‑la visível, para se
de tornar visível o género enquanto categoria política. Apesar fazer a sua análise e crítica.
disso, ou talvez por causa disso, os estudos da masculinidade, De certa forma, os homens já são suficientemente visíveis.3 Com
sobretudo nas duas últimas décadas, começaram a mostrar que o efeito, a maioria dos estudos e trabalhos científicos, no sentido tra‑
género condiciona tanto as mulheres quanto os homens. dicional, centrou­‑se nos homens. Contudo, as novas abordagens
Entre o século xviii e meados do século xx, as construções his‑ à masculinidade insistem que esses trabalhos, num sentido mais
tóricas de género, etnia e sexualidade eram exclusivamente associa‑ profundo, não versam de todo a experiência masculina. Por exem‑
das aos corpos «marcados» das mulheres, das pessoas colonizadas plo, a masculinidade é tratada como categoria implícita em muitos
ou escravizadas e dos homossexuais, respectivamente. Assim, os estudos sociológicos que partem frequentemente do princípio de
homens — sobretudo o homem branco heterossexual — permane‑ que os homens são o género dominante. A maioria dos textos de
ceram em grande medida invisíveis ou «não marcados» em termos sociólogos, por exemplo Marx e Durkheim, utiliza conceitos como
de género (Haraway, 1991, 324; Robinson, 2000, 194). No discurso «sociedade», «classe trabalhadora» e «organização», que se referem
patriarcal ocidental, a pessoa universal e o género masculino têm implicitamente aos homens. Todavia, poucos trabalhos abordaram
sido sinónimos. Enquanto as mulheres foram habitualmente defi‑ a masculinidade explicitamente enquanto categoria de género e, por‑
nidas pelo seu sexo, os homens foram considerados representan‑ tanto, tanto as dinâmicas da masculinidade quanto a sua história
tes de uma subjectividade universal e sem género específico. No permanecem em grande parte inexploradas. Nas palavras de Mi‑
entanto, é evidente que os homens também são marcados pelo chael Kimmel:
género e que esse processo de aquisição do género — a transforma‑
ção dos machos biológicos em homens que interagem socialmente 2 Robinson fala de dois tipos de invisibilidade. Por um lado, há a invisibilidade dos
— é uma experiência fundamental para eles. Como sublinham marginais, daqueles que habitam as margens da sociedade, da História e da cultura. Por
outro lado, falamos da invisibilidade dos que estão no poder. «Enquanto os primeiros
Kimmel e Messner (1998, x­‑xi), os homens vêem­‑se sempre a si e ao são invisíveis no sentido de não estarem suficientemente representados, os segundos são
mundo numa perspectiva de género, embora amiúde pareçam agir invisíveis por detrás de uma marca de universalidade» (2000, 194).
3 Tal como salienta diferentes conotações do termo invisibilidade, Robinson
sem ter isso em consideração.
descreve dois significados de visibilidade: «Tornar visível o normativo enquanto
É certo que os homens parecem muitas vezes não ter consciên‑ categoria expressa em termos racializados e marcados pelo género pode desafiar
cia do seu género, provavelmente porque os mecanismos que nos os privilégios dos não marcados, embora a visibilidade também possa implicar um
tipo diferente de capacitação, como nos ensinou a história dos movimentos pela
tornam seres privilegiados tendem a permanecer invisíveis para nós igualdade social nos Estados Unidos. A política da identidade (a que Peggy Phelan
mesmos. Porém, a concepção tradicional da masculinidade enquan‑ chama ‘política da visibilidade’) baseia­‑ se em grande parte no pressuposto de que
a invisibilidade é, simultaneamente, uma causa e um efeito da exclusão política e
to norma «invisível» só contribui para perpetuar as desigualdades social» (2000, 2).

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in trodução

Os homens […] não têm história. Evidentemente, temos biblio‑ estudos da masculinidade4, que Harry Brod definiu nos seus pri‑
tecas cheias do que os homens disseram sobre obras de outros mórdios como
homens, pilhas de biografias de homens heróicos e famosos, rela‑
tos históricos de acontecimentos em que participaram, como o estudo das masculinidades e das experiências masculinas
guerras, greves ou campanhas políticas. Temos retratos de atletas, enquanto formações socio­‑histórico­‑culturais cambiantes e espe‑
cientistas, soldados, panfletos de sindicatos e partidos políticos. cíficas. Estes estudos situam as masculinidades como objectos de
E haverá sem dúvida milhares de hemerotecas de instituições que estudo de par com as feminilidades, ao invés de as elevarem ao
foram criadas, geridas e dirigidas por homens. Então, como posso estatuto de norma universal. (1987, 40)
afirmar que os homens não têm história? Não serão todos os livros
de História livros sobre homens? Afinal, como aprendemos com Os estudos da masculinidade têm revelado que, na realidade, con‑
as investigadoras feministas, foram as mulheres que, até há pouco quanto aparentemente se fale sobre homens, o facto de se tratar o
tempo, não tiveram história. De facto, se o livro não tiver a pala‑ homem genérico como a norma humana esbate o que é único nos
vra mulheres no título, é muito provável que seja maioritariamente homens enquanto homens. Por outras palavras, não só distorce o que
sobre homens. Mesmo assim, essas obras não exploram a forma podemos vir a considerar genérico na humanidade, como impede a
como a experiência de ser homem, da masculinidade, estruturou análise da masculinidade enquanto experiência especificamente mas‑
a vida dos homens que nelas aparecem, as organizações e insti‑ culina, em vez de um modelo universal da existência humana (Brod,
tuições que criaram e geriram, os acontecimentos em que parti‑ 1987, 40). Neste sentido, os estudos da masculinidade procuram
ciparam. Os homens […] não têm uma história própria enquanto oferecer novas perspectivas sobre a vida dos homens e os seus dile‑
homens. (1997, 1­‑2) mas pessoais enquanto seres dotados de um género concreto, que
é socialmente construído e que, portanto, varia conforme os con‑
Assim, mais do que marcados pelo género, pode dizer­‑se que textos e as culturas. Tal como, no campo dos estudos da mulher,
os homens têm sido universalizados. Os estudos da mulher já partilhamos a ideia de que a masculinidade e a feminilidade são
mostraram como a equiparação do homem enquanto macho ao constructos sociais e históricos, e não biológicos. Assim, a masculi‑
Homem enquanto ser humano genérico tem levado amiúde a nidade, como todos os constructos humanos, pode mudar.
ignorar as experiências específicas das mulheres numa socie‑ De acordo com estes argumentos principais, o presente estudo
dade eminentemente androcêntrica. Seja como for, os estudos pretende demonstrar que os homens, tal como as mulheres, são
da masculinidade sublinham que o nosso conhecimento sobre
os homens e as masculinidades também tem sido limitado por 4 Na verdade, Brod utiliza a expressão estudos dos homens e não estudos da masculinidade,
essas noções universalizantes. A ideia errada de que a experiên‑ que aqui preferimos. Embora muito difundida, a expressão estudos dos homens é ambígua.
Não é claro, por exemplo, se se trata de estudos feitos por homens ou sobre homens.
cia masculina é igual à experiência humana influenciou o trata‑ Daí a afirmação de Kimmel de que devemos abandonar a expressão e utilizar antes a
mento das mulheres, ao mesmo tempo que limita as nossas designação estudos das masculinidades (Carabí e Armengol, 2008). Assim, neste estudo
utilizarei a expressão estudos das masculinidades, em vez de estudos dos homens, e por vezes
percepções sobre os próprios homens. Donde a necessidade dos estudos da masculinidade, para abreviar.

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in trodução

seres marcados pelo género e, por isso, experimentaram proces‑ homem (Connell e Messerschmidt, 2005; Robinson, 2000, 194;
sos de género cultural e historicamente específicos. Ao definirmos Kimmel, 1997, 6).
género como um constructo cultural e histórico, e não como uma O presente projecto tem como principal objectivo, pois, explo‑
essência interna ou imutável, partimos do pressuposto de que a rar a construção da masculinidade hegemónica, em particular a sua
masculinidade pode mudar (e na verdade muda constantemente, consubstanciação em homens brancos heterossexuais. É certo que
como veremos). O que foi construído culturalmente também pode pode parecer contraditório, inclusive essencialista. Afinal, defen‑
ser desconstruído culturalmente. demos a tese de que a masculinidade não é uma essência interna
Parece adequado começar esta investigação delimitando o seu ou biológica, mas um constructo sociocultural. Daqui resulta que
espaço cultural e histórico, nomeadamente a cultura contempo‑ as mulheres, como explica Jack (anteriormente Judith) Halberstam
rânea ocidental. Embora vários capítulos incluam secções sobre em Female Masculinity (2008), podem ser «masculinas» e os homens,
as raízes históricas e a evolução da masculinidade, sublinham­ «femininos». Sendo uma construção de género, e não uma essência
‑se os modelos contemporâneos. Afinal, desde a década de 1980, biológica interna, a masculinidade pode ser representada tanto por
e graças à influência dos movimentos feministas e LGBTQI+, mulheres como por homens. Nas palavras de Halberstam, «nos anos
a masculinidade tem sofrido algumas das suas mais significati‑ 90, a masculinidade foi finalmente reconhecida como, pelo menos
vas mudanças e «crises». Assim sendo, este estudo centrar­‑se­‑á em parte, uma construção das mulheres e não apenas das pessoas
na análise da masculinidade contemporânea e, especificamente, nascidas homens» (Halberstam, 2008, 36).
do modelo dominante ou hegemónico, ou seja, o homem branco Apesar disso, ou talvez por isso, e embora reconhecendo o
heterossexual.5 Enquanto sociedade globalizada, o nosso mundo efeito da masculinidade em ambos os «sexos», abordaremos aqui a
é um mosaico de vários conceitos culturais de identidade mascu‑ influência da masculinidade nos corpos masculinos, defendendo,
lina, que, como já se referiu, variam em função de factores como a como Halberstam, a relevância do corpo sexuado na construção do
sexualidade, a idade, a etnia e a classe social, entre muitos outros. género. O próprio título da obra de Halberstam, Female Masculini‑
É impossível, portanto, fazer uma análise aprofundada de todos ty, sublinha a sua abordagem material ou corpórea do tema, como
os variados padrões culturais, étnicos e sexuais que configuram as sugere o uso da palavra female (termo empregado para se referir à
masculinidades. Assim, sem ignorar a diversidade de masculini‑ mulher, não ao «feminino», em inglês). Por outras palavras, a obra
dades étnicas e hetero/homossexuais na cultura contemporânea, de Halberstam defende que, embora influencie tanto as mulheres
centrar­‑nos­‑emos na análise da masculinidade hegemónica. Natu‑ como os homens, a masculinidade os afecta de forma diferente e
ralmente, ainda que dominante, este é apenas um modelo de se ser tem conotações políticas e sociais diferentes em corpos diferentes.
Nas suas palavras, «há muitas […] linhas de identificação que atra‑
5 Na sua obra clássica Masculinidades, Raewyn (anteriormente Robert) Connell foi a vessam o terreno da masculinidade e que dispersam o seu poder em
primeira a utilizar o conceito de masculinidade hegemónica, que implica a subordinação
das mulheres, mas também de alguns homens, especialmente os homossexuais. Além complicadas relações de classe, raça, sexualidade e género» (2008,
disso, Connell afirma que a opressão patriarcal é um mecanismo que liga os diferentes 24; itálico nosso). Embora Halberstam se foque na masculinidade
modelos de masculinidade entre si. Ver também Connell e Messerschmidt (2005) para
uma actualização e (re)definição do conceito. feminina (e, em particular, lésbica), o presente estudo focar­‑se­‑á

14 15
in trodução

nas dinâmicas específicas da masculinidade em homens brancos e e tendências actuais nos estudos das masculinidades, em particular
heterossexuais. as implicações do chamado pensamento pós­‑estruturalista e pós­
Centrando­‑nos nós no modelo dominante de masculinidade, em ‑moderno para a investigação mais recente sobre o género. Se os
vez de noutras masculinidades étnicas e (homos)sexuais, também estudos da masculinidade se focam na análise da identidade mascu‑
se poderia criticar que nos aprofundemos na análise de um modelo lina, o pós­‑estruturalismo desafiou recentemente as noções fixas de
de masculinidade que já é, por si só, hegemónico em termos sociais, identidade, incluindo a identidade de género. Ao questionar uma
políticos e culturais. Frisamos, porém, que, embora seja dominante série de oposições binárias, como homem/mulher ou masculinida‑
nas nossas sociedades, a masculinidade heterossexual branca per‑ de/feminilidade, esta linha de pensamento pós­‑moderna e descons‑
manece, paradoxalmente, em grande parte invisível em termos de trutivista, impulsionada sobretudo pela chamada teoria queer no
género. Como esta invisibilidade só contribui para reforçar a sua âmbito dos estudos de género, mostrou que a identidade de género
forte (e muitas vezes opressiva) influência, argumentaremos, como está longe de ser estável e fixa.
já assinalámos, que explorar a construção da masculinidade hege‑ Ao desconstruir noções estáveis e rígidas de identidade, o pós­
mónica é fundamental para a sua desconstrução. ‑estruturalismo também questionou, como veremos no capítulo 2,
Este livro divide­‑se em vários capítulos. Se os três primeiros ofe‑ a coerência interna, e até a existência, da masculinidade (branca) (he‑
recem uma visão introdutória e sobretudo teórica do estudo das terossexual), o objecto essencial deste ensaio. Enquanto a teoria queer,
masculinidades em geral, e da masculinidade hegemónica em parti‑ por exemplo, mostrou que a heterossexualidade é uma construção
cular, os capítulos seguintes tentam aplicar os resultados teóricos so‑ socio­‑histórica, tão mutável quanto contraditória, os chamados whi‑
bre as masculinidades à análise de vários temas centrais desses estu‑ teness studies («estudos da branquitude») mostraram que a «raça bran‑
dos, nomeadamente: a política das emoções (com especial ênfase nas ca» é igualmente uma invenção política e cultural. Influenciado pelo
chamadas «novas paternidades»), a homossexualidade e as amizades trabalho pioneiro de Michel Foucault sobre sexualidade, o campo
entre homens, e a violência de género. Estes temas foram escolhidos da masculinidade tem mostrado como o próprio conceito biológico
não só pela sua evidente relevância e actualidade social, mas tam‑ de sexo pode ser um constructo discursivo que perde o seu significa‑
bém pela sua centralidade nos estudos da masculinidade, muitos dos do quando isolado do discurso social e cultural. Deste modo, o pós­
quais abordam implícita ou explicitamente estas questões. ‑estruturalismo argumenta que a suposta identidade masculina é um
O primeiro capítulo explora as origens dos estudos da masculi‑ conjunto de género artificial, contraditório e, talvez, inexistente. Po‑
nidade, bem como o seu desenvolvimento e os seus aspectos políti‑ rém, apesar das ideias inovadoras do pós­‑estruturalismo sobre género
cos. Veremos que a maioria dos estudos contemporâneos, incluindo e masculinidade, a escola feminista tem argumentado frequentemen‑
o presente documento, se arreiga na teoria feminista, que tem sido te que o trabalho pós­‑estruturalista realça a instabilidade, a precarie‑
tradicionalmente associada às mulheres. Consequentemente, o pri‑ dade e as inconsistências inerentes à masculinidade, descurando ao
meiro capítulo também analisa as (aparentes) contradições e im‑ mesmo tempo os seus aspectos políticos e amiúde opressivos.
plicações que surgem quando os homens adoptam uma perspectiva O debate sobre a autodeterminação de género e o reconheci‑
feminista. O capítulo termina com a exploração de novas direcções mento legal da identidade de género continua a ser, sem dúvida,

16 17
in trodução

um dos mais controversos, do ponto de vista tanto político quanto É paradoxal que algumas das críticas mais ferozes à chamada «Lei
social. Exemplo disso é a discussão acesa e ainda em aberto entre Trans» tenham surgido no seio das fileiras feministas, sobretudo se
vários dos parceiros do actual governo de coligação governamental lembrarmos que foi precisamente Simone de Beauvoir, considerada
espanhol a respeito da chamada «Lei Trans» (ainda projecto de lei, uma das fundadoras do feminismo moderno, que proclamou que
à data em que escrevo). Como é sabido, os representantes do Uni‑ uma pessoa «não nasce mulher, torna­‑se mulher», defendendo assim
das Podemos, lideradas por Irene Montero, ministra da Igualdade, a construção cultural do género e, portanto, a sua possível descons‑
conseguiram em 2021 que fosse admitida a tramitação de uma lei trução. Igualmente contraditório é, claro, o facto de, pelo menos no
que, nas palavras da ministra, garante «a livre determinação da iden‑ que diz respeito à «Lei Trans», os postulados feministas mais radi‑
tidade de género» ([Link], 18 de Maio de 2021), ao permitir aos cais parecerem coincidir com os do VOX, partido espanhol ultraca‑
maiores de 16 anos alterar o nome e o sexo no documento de identi‑ tólico e de direita radical, que, apoiado por plataformas civis como
ficação, sem outro requisito que não seja a «declaração expressa» da HazteOír, defendeu ao extremo, como dizem os lemas pintados nos
pessoa. A lei está, todavia, a enfrentar uma forte oposição de vários seus autocarros: «Se nasces homem, és homem. Se és mulher, conti‑
grupos feministas, entre os quais algumas figuras históricas do mo‑ nuas a ser mulher.» Embora a discussão entre a identidade de género
vimento, como Lidia Falcón, fundadora do Partido Feminista, que e a sua fluidez continue tão acesa e aberta como sempre, o capítulo
se insurgiram contra os postulados de Montero. A histórica diri‑ 2 visa contribuir para o debate actual, sem pretender encerrá­‑lo ou
gente feminista defendeu, por exemplo, que «as mulheres trans são resolvê­‑lo, argumentando que talvez seja possível conciliar a ideo‑
seres estranhos» (Huffington Post, 6 de Março de 2020) ou que «o ‘lo‑ logia feminista com uma análise desconstrutiva das contradições
bby trans’ é uma seita mutante» (Vozpopuli, 8 de Março de 2021). internas do género e, especificamente, da masculinidade.
Nunca um debate gerara tanta crispação entre os membros da Nos últimos anos, tem­‑se registado um grande aumento do nú‑
coligação, obrigando inclusive à demissão da recente segunda vice­ mero de estudos dedicados à análise das representações culturais
‑presidente do PSOE, Carmen Calvo, defensora acérrima, junta‑ das masculinidades, sobretudo na literatura e no cinema.6 Enquanto
mente com Falcón, dos postulados feministas mais tradicionais os primeiros trabalhos, nas décadas de 1970 e 1980, provinham prin‑
(Falcón, por sua vez, enfrenta várias queixas e processos por trans‑ cipalmente da psicologia e da sociologia, a produção teórica mais
fobia). Enquanto Montero tem defendido a «autodeterminação de recente presta cada vez mais atenção às representações culturais, li‑
género» como eixo central da nova Lei Trans, Calvo e outras femi‑ terárias e cinematográficas da masculinidade (Armengol et al., 2017).
nistas argumentam a necessidade de garantir a sua plena «segurança Como argumenta Michael Kimmel (Carabí e Armengol, 2008),
jurídica» antes da aprovação (El País, 4 de Fevereiro de 2021). Por o foco dos estudos parece ter­‑se deslocado das ciências sociais e
«segurança jurídica», o PSOE apresentou argumentos e pressupos‑ comportamentais para a literatura e as humanidades. Assim, este es‑
tos que podem prejudicar as mulheres na abordagem de questões tudo incorpora ainda o campo da representação cultural, sobretudo
como a violência de género ou a paridade.
O debate está, com certeza, a reavivar algumas das questões his‑ 6 Ver, por exemplo, a secção bibliográfica do livro de Michael Flood Masculinidades en
la cultura y la representación, bem como a sua subsecção dedicada à literatura e à teoria
toricamente mais relevantes dos estudos feministas e de género. literária (2021).

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in trodução

literária, mas também cinematográfica, na discussão sobre homens também podem adoptar uma perspectiva crítica feminista para es‑
e masculinidades, em linha com as correntes críticas mais recentes. tudar as masculinidades literárias. De igual modo, analisaremos o
De facto, a literatura e o cinema sempre desempenharam um pa‑ exemplo de vários escritores que, apesar do seu género, utilizaram
pel fundamental na representação das contradições e dos conflitos as suas obras literárias para repensar as relações de género e as mas‑
da masculinidade, uma vez que a ideologia (de género), como refe‑ culinidades patriarcais tradicionais.
re Eve Kosofsky Sedgwick, «é sempre, pelo menos implicitamente, Todos estes argumentos eminentemente teóricos são desen‑
narrativa» (1992, 14­‑15). Seguindo esta ideia, o capítulo 3 procura volvidos e exemplificados nos capítulos seguintes, todos eles agre‑
explorar o papel dos estudos da masculinidade na teoria cultural e gando a cultura, sobretudo a literatura, mas também o cinema, na
literária contemporâneas. O capítulo começa por apresentar uma discussão sobre a influência das masculinidades nas emoções, com
panorâmica dos estudos culturais, especialmente literários, sobre especial destaque para as paternidades, as amizades entre homens e
masculinidades, analisando as suas origens e o seu desenvolvimento. a violência no mundo actual. A ordem pela qual os principais temas
Embora os seus primórdios remontem ao final do século xx, o cam‑ da segunda parte foram apresentados não é arbitrária. As emoções
po desenvolveu­‑se e expandiu­‑se rapidamente nos últimos anos, in‑ são um aspecto fundamental da vida humana, e desempenham um
corporando contribuições inovadoras dos campos de pensamentos papel crucial nas relações paterno­‑filiais, assim como nos víncu‑
queer, feministas e anti­‑racistas (Armengol et al., 2017). Além de des‑ los homossociais masculinos. Por sua vez, o afecto condiciona de
tacar estas novas perspectivas críticas, o capítulo apontará algumas muitas formas a violência, que também pode definir­‑se como uma
das implicações teóricas de reexaminar as representações culturais emoção, ainda que negativa. Por exemplo, o medo dos homens de
da perspectiva dos estudos das masculinidades. Como se verá, essas expressar as suas emoções pode levá­‑los a recorrer à violência como
abordagens podem ser úteis não só para questionar conceitos pa‑ forma (socialmente legitimada) de expressão emocional masculina.9
triarcais de masculinidade, mas também para procurar modelos no‑ É, portanto, incorrecto (pelo menos em parte) afirmar, como alguns
vos, alternativos e não hierárquicos de ser homem nas nossas socie‑ estudos têm feito (ver, por exemplo, Carlton et al., 2020; Seidler,
dades (Carabí e Armengol, 2015). Por outro lado, o capítulo explora, 2000), que os homens não conseguem expressar as suas emoções.
e defende, a participação activa dos homens na crítica cultural e Talvez fosse mais adequado dizer que foram ensinados a reprimir
literária feminista. Tal como a participação dos homens no feminis‑ algumas emoções, em especial as que revelam vulnerabilidade, mas
mo tem sido questionada em múltiplas ocasiões7, algumas críticas que foram encorajados pela sociedade a expressar outros sentimen‑
são cautelosas quanto ao seu envolvimento na crítica literária fe‑ tos, como a raiva, através da violência. Assim, e dada a componente
minista, e argumentam que tal exercício é, e deve ser, desenvolvido emocional quer da paternidade quer da amizade, bem como da vio‑
por e para mulheres.8 Contudo, a nossa análise tentará mostrar que, lência, o capítulo sobre as emoções precede e, de certa forma, intro‑
além de cada vez mais homens abraçarem o feminismo, os homens duz as discussões subsequentes sobre outros domínios emocionais
associados à masculinidade, quer positiva quer negativamente.
7 Ver o capítulo 1 (sob o título «Os homens e o feminismo, os homens no feminismo»).
8 Ver, por exemplo, Braidotti (1987); Scholes (1987); Schone (2000); Armengol (2003);
e Armengol et al. (2017). 9 Ver o capítulo 6 para uma análise mais pormenorizada da violência masculina.

20 21
in trodução

Como se verá no capítulo 4, na cultura ocidental, a razão e a tantes e patriarcais, como promovem a proximidade emocional e o
«objectividade» foram tradicionalmente consideradas superiores cuidado mútuo entre pais e filhas. Desse modo, contribuem para
ao mundo da experiência emocional e da «subjectividade». Conse‑ melhorar os laços paterno­‑filiais e, por sua vez, para enfraquecer a
quentemente, a importância das emoções tem sido bastante relati‑ própria noção de masculinidade hegemónica em que estes tradicio‑
vizada. No entanto, este capítulo procura mostrar que as emoções nalmente se radicam. Para ilustrar este facto, o capítulo recorre a
complementam muitas vezes a racionalidade. Além disso, podem várias representações particularmente inovadoras de paternidade(s)
ser uma fonte de mudança social e política, promovendo uma cons‑ na literatura contemporânea.
ciência mais igualitária. Como veremos, as emoções têm desem‑ Continuando nesta ideia, o capítulo seguinte aprofunda o
penhado um papel fundamental, por exemplo, no incentivo a que tema das emoções através das relações homossociais masculinas,
as mulheres trabalhem em conjunto pela igualdade de género (Fri‑ em particular a amizade entre homens, com um duplo objectivo.
cker, 1991) ou na luta afro­‑americana pela igualdade racial (Schnei‑ Por um lado, veremos como a distância emocional que parece se‑
der, 2002). Como defende David Eng (Carabí e Armengol, 2008), parar hoje em dia os homens (heterossexuais) não é universal nem
a maioria dos projectos sociopolíticos humanos são «projectos com imutável, mas resulta de factores culturais e históricos específicos,
carga emocional». relacionados sobretudo com a patologização da homossexualidade
Partindo da visão de Eng, o capítulo 4 analisa a relação específica no final do século xix. Por outro lado, argumentaremos também
entre a masculinidade e a política dos afectos na cultura contem‑ que o que foi construído por discursos (pseudo)científicos e cultu‑
porânea. Apesar de as emoções terem sido habitualmente consi‑ rais pode ser revisto e alterado, mostrando o potencial político das
deradas «femininas», tentaremos demonstrar que a associação das amizades e das relações afectivas entre homens para combater tan‑
emoções à feminilidade é um constructo histórico e cultural espe‑ to a homofobia quanto o sexismo e o racismo nas nossas socieda‑
cífico. Isto implica, por um lado, que a masculinidade e as emoções des. Isto será ilustrado, mais uma vez, por vários discursos culturais,
nem sempre foram mutuamente exclusivas e, por outro lado, que o literários e cinematográficos, que representam e/ou desconstroem
que foi criado socialmente pode também ser social e culturalmen‑ a amizade entre homens a partir de perspectivas particularmente
te questionado. Assim, o capítulo analisa a relação estreita, embora inovadoras.
tantas vezes encoberta, entre masculinidade e emoção na cultura Embora a violência (masculina) constitua um dos principais
e na história ocidentais, com o intuito de demonstrar e ilustrar o problemas da sociedade contemporânea, a estreita relação entre
potencial político das emoções masculinas, especialmente as envol‑ masculinidade e violência está normalizada e, por isso, não tem sido
vidas na paternidade, para transformar as masculinidades e as re‑ suficientemente analisada. Por esse motivo, o capítulo 6 visa dois
lações de género (Bueno et al., 2000; Armengol, 2010; Scheibling, objectivos, diferentes mas complementares. Em primeiro lugar,
2020). De facto, a mudança do homem é particularmente evidente tenta explorar a construção social, cultural e histórica específica
no caso das chamadas «novas paternidades». Afastadas das ideolo‑ dos vínculos entre masculinidade e violência na cultura ocidental.
gias masculinas tradicionais, estas novas relações paterno­‑filiais não Em segundo lugar, ao analisar a violência masculina como produ‑
só desafiam a equação tradicional da paternidade com atitudes dis‑ to de factores sociais e históricos, e não de factores biológicos ou

22 23
essencialistas, este capítulo procurará demonstrar que é possível e
desejável começar a decompor a associação arquetípica entre vio‑
lência e virilidade nas nossas sociedades. À semelhança dos capítu‑
los anteriores, este último segmento pegará em vários exemplos cul‑
turais, literários e cinematográficos para, por um lado, questionar
as masculinidades patriarcais tradicionais e, por outro, contribuir
para a procura de novos padrões, alternativos e não violentos, de se
ser homem. Este é, de facto, como discutido no capítulo 3, um dos
principais objectivos de uma releitura da literatura e da cultura na
perspectiva dos estudos da masculinidade.
Em suma, o presente livro deseja demonstrar como a análise das
masculinidades é, a um tempo, interessante e necessária não só para
Pa r te I
compreender melhor a vida dos homens, mas também para a repen‑
sar e, em última análise, para a mudar, com o fim último de melho‑
rar a vida de homens e mulheres. Se o feminismo foi, sem dúvida,
a maior revolução social do século xx, a mudança nos homens e nas
masculinidades pode vir a ser, como defende a psicóloga feminista
Victoria Sau (2003), uma das mais importantes revoluções sociais
do novo século ou, nas palavras de Octavio Salazar, «a revolução
masculina por que tantas mulheres esperam há séculos».

24
1. os estudos das masculi n i dades: uma in trodução

Capítulo 1

Os estudos das masculinidades:


uma introdução

Amemos ou odiemos os homens, não


há tarefa mais necessária para nós
(enquanto feministas) do que entendê­‑los.
Deirdre English, Mother Jones (1980)

O presente capítulo tem por objectivo fazer uma introdução teó‑


rica geral aos estudos das masculinidades. Começa por traçar as
origens da disciplina, que estão sobretudo relacionadas com os
movimentos feministas e homossexuais das décadas de 1960 e
1970, que se reforçaram e fortaleceram, por sua vez, com a men‑
sagem libertadora do Movimento dos Direitos Civis nos Estados
Unidos. A seguir, analisamos o desenvolvimento da investigação
sobre masculinidades, que parece ter passado por duas vagas prin‑
cipais. O capítulo explora depois os aspectos mais políticos dos
estudos das masculinidades, apresentando a necessidade de uma
abordagem feminista do tema. Depois de se debruçar sobre a ques‑
tão da adopção pelos homens de uma perspectiva feminista das
masculinidades, o capítulo termina salientando o desafio que o
pós­‑estruturalismo coloca às correntes mais recentes dos estudos
de género, tema que é aprofundado no capítulo 2.

27
1. os estudos das masculi n i dades: uma in trodução

Origens dicando a liberdade sexual como direito inalienável. Neste sentido,


como refere Carabí, «o colectivo gay manifestou­‑se em Stonewall
O interesse crescente pelo estudo dos homens e das masculinida‑ para defender a liberdade de escolha sexual e, com o seu acto, inva‑
des resulta de vários factores históricos e sociais. Há um certo con‑ lidou a exclusividade do modelo heterossexual normativo» (2000,
senso de que este interesse surgiu nos Estados Unidos, no final da 5).1 Tal como o movimento feminista, nos anos seguintes o movi‑
década de 1960 e no início da de 1970, graças a dois movimentos mento gay lançaria as bases do desenvolvimento da análise da mas‑
sociais fundamentais: o movimento feminista e o movimento de culinidade hegemónica/heterossexual.
libertação homossexual, ambos inspirados no discurso libertador Além desses dois movimentos sociais, o interesse actual pelas
do Movimento dos Direitos Civis. Ao darem visibilidade às mulhe‑ masculinidades decorre do Movimento dos Direitos Civis, nasci‑
res e às minorias sexuais, respectivamente, estes movimentos do nos Estados Unidos no final da década de 1950 e que se tornou
começaram, indirectamente, a questionar a hegemonia do homem muito activo na década seguinte, nos EUA e noutros países. As pes‑
heterossexual. Como nos lembra Àngels Carabí: soas envolvidas no movimento denunciaram o racismo e apelaram
à igualdade racial entre pessoas brancas e pessoas de cor. Como
Nos países ocidentais, o sistema patriarcal, baseado na predomi‑ explicaram muitos estudos, a masculinidade e a branquitude, além
nância do homem […] heterossexual e cuja ideologia foi transmi‑ de interdependentes, «são sobredeterminadas e articuladas de tal
tida pela filosofia, pela literatura, pela arquitectura, pelo cinema, modo que ambas se tornam mais complexas em associação com a
pela história, pela medicina, pela política, pelos meios de comuni‑ outra» (DiPiero, 2002, 5). Assim, ao defender as pessoas não bran‑
cação social, etc., foi posto em causa pelos movimentos sociais dos cas, o Movimento dos Direitos Civis lançou as bases para uma críti‑
anos 60, e os seus valores, ditos universais, foram sujeitos a revisão. ca da masculinidade hegemónica/branca.
(2000, 15) O foco actual nos homens e nas masculinidades também radi‑
ca na desilusão generalizada com a Guerra do Vietname pela mes‑
O primeiro destes movimentos sociais, o movimento feminista, ma altura, que conduziu a um questionamento das estruturas de
levou as mulheres a reflectir sobre o seu papel na sociedade. Desta poder patriarcal e dos comportamentos masculinos fomentados
forma, o feminismo ajudou as mulheres a questionar não só as pela Segunda Guerra Mundial e pela Guerra Fria (Kidder, 2002,
ideias tradicionais de feminilidade, mas também a divisão entre 1). Tradicionalmente, o corpo masculino fora definido como for‑
géneros. Ao exigirem mudanças políticas e sociais, as mulheres te, estóico e impenetrável, salvaguardado de doenças, decrepitude
questionavam a maioria dos pressupostos patriarcais, o que acaba‑ e exaustão. Assim, o soldado norte­‑americano era representado
ria por contribuir para o desenvolvimento de uma crítica das nor‑ como musculado, poderoso, viril, agressivo, ou seja, epítome da
mas de género hegemónicas. Do mesmo modo, o nascimento, em masculinidade tradicional. No entanto, a derrota de Johnson no
1969, do movimento homossexual visava desafiar a heterossexuali‑
dade normativa. Tendo sido discriminados durante anos, os vários
1 No entanto, só em 1973 a Associação Americana de Psicologia retirou a
colectivos homossexuais uniram­‑se para lutar pela sua causa, reivin‑ homossexualidade da categoria de doença/perturbação.

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1. os estudos das masculi n i dades: uma in trodução

Vietname — assim como as imagens recorrentes de antigos com‑ lhança dos estudos da mulher, estes trabalhos passaram de forne‑
batentes mutilados, com os corpos perfurados, castrados ou feri‑ cer informações sobre a diversidade sexual a questionar a própria
dos — puseram em causa a masculinidade e a virilidade do solda‑ natureza do binarismo heterossexual/homossexual. Assim sendo,
do (Jeffords, 1989; 1994).2 Portanto, todos estes acontecimentos e é cada vez mais difícil distinguir entre os estudos da masculinidade
movimentos sociais da segunda metade do século xx ajudaram a e LGBTQI+. Com efeito, partilham uma série de preocupações co‑
questionar a ideia de masculinidade, especialmente da masculini‑ muns, como os efeitos da homofobia ou da transfobia na população
dade branca heterossexual, e foram determinantes para despertar em geral. Além do mais, esses trabalhos têm sido muito úteis, como
o interesse pela análise das masculinidades. explica Brod, na hora de corrigir a «tendência errónea» de assumir
Além destas origens sociais, o interesse actual pela masculini‑ demasiadas semelhanças e pontos comuns entre os homens (Brod,
dade tem raízes académicas (Brod, 1987, 44­‑46).3 Desde o final da 1987, 61).
década de 1960 e o princípio da de 1970, os estudos da mulher, so‑ Grande parte do trabalho recente sobre homens e masculinida‑
bretudo nos Estados Unidos, mas também na Europa, tentaram re‑ des tem incorporado ainda a etnicidade na análise do género. Rela‑
ver os currículos académicos tradicionais, incorporando os estudos cionando a masculinidade com os estudos étnicos, teóricas como
de género num grande número de universidades. Os ditos estudos Matthew Gutmann (2015), David Eng (2008; 2001), Alfredo Miran‑
criaram, de facto, muito do vocabulário utilizado nas discussões dé (1997), Michael Awkward (1995), Robyn Wiegman (1995) e Mri‑
académicas sobre a desigualdade e construções de género, ou seja, nalini Sinha (1995), entre muitas outras, argumentaram que a etnia
as construções culturais da feminilidade e da masculinidade. As‑ influencia a masculinidade de muitas formas. Neste sentido, então,
sim, inspirados na produção crítica feminista, os estudos de género grande parte do trabalho académico sobre a masculinidade vem dos
expandiram­‑se com o intuito de incorporar a análise tanto de mu‑ estudos étnicos, que também surgiram na década de 1970 nos Esta‑
lheres como de homens e masculinidades. dos Unidos, e descrevem há anos a pertença étnica e racial como um
Do mesmo modo, os estudos sobre masculinidades estão in‑ dos principais eixos que articulam as nossas vidas.
timamente relacionados com os estudos LGBTQI+, em termos Embora os estudos das masculinidades tenham surgido principal‑
tanto de metodologia como de conteúdo (Brod, 1987, 61). À seme‑ mente graças a (intersecções entre) estudos feministas, LGBTQI+ e
étnicos, todos com uma história de pelo menos três décadas, esses
2 Enquanto o Vietname contribuiu para problematizar a masculinidade hegemónica,
Ronald Reagan decidiu, na década de 1980, «remasculinizar» os Estados Unidos,
estudos são uma adição relativamente recente à academia, sobretu‑
promovendo um sentido nacional de liderança e responsabilidade internacional. Filmes do se comparados com campos mais estabelecidos, como os estu‑
como a trilogia Rambo (Rambo I — A Fúria do Herói, 1982; Rambo II — A Vingança do
dos das mulheres. Apesar de terem surgido vários cursos em meados
Herói, 1985; e Rambo III, 1988), cuja aparição coincidiu com a «Revolução Reaganita»,
ajudaram a remasculinizar os EUA através de «corpos fortes», da figura do guerreiro dos anos 1970 em algumas das instituições mais liberais dos Estados
norte­‑americano invencível e dos princípios ideológicos do conservadorismo neoliberal Unidos4, os estudos da masculinidade só emergiram como campo de
(Jeffords, 1989; 1994).
3 Embora tenhamos distinguido entre origens académicas, políticas e sociais,
é importante notar que nos estudos da masculinidade qualquer desafio teórico é
frequentemente pessoal. Para os homens feministas, «os objectos de análise são as 4 A Universidade da Califórnia em Berkeley tomou a iniciativa de integrar este domínio
nossas próprias vidas enquanto homens» (Brod e Kaufman, 1994, 3). de estudo no seu currículo em 1976 (Kidder, 2002, 1).

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1. os estudos das masculi n i dades: uma in trodução

investigação académica por direito próprio no início da década de nal da década de 1980 e o início da de 1990, muitos departamentos
1990.5 De facto, muitas académicas progressistas começaram a tra‑ de sociologia, psicologia, antropologia, história, filosofia e filologia,
balhar sobre o género masculino no final dos anos 1980 e no início da entre outros, têm vindo a incorporar a análise do género masculino
década de 1990, quando os estudos da masculinidade lhes proporcio‑ nos seus cursos e programas. Assim, a masculinidade como objecto
naram um aparato crítico­‑teórico suficientemente sólido para isso de estudo não se limita, nem deve limitar­‑se, aos (departamentos
(Newton, 2002). Desde então, têm contribuído para o desenvolvi‑ de) estudos de género, e está a tornar­‑se progressivamente um ob‑
mento de um campo de estudo feminista dedicado a melhorar a vida jecto de estudo interdepartamental, transversal e interdisciplinar.
de homens e mulheres.
Assim, desde o início da década de 1990, estes estudos têm ga‑
nhado visibilidade em vários cursos universitários, programas e re‑ Desenvolvimento
vistas de todo o mundo. Se bem que não exista um departamento
específico para o estudo das masculinidades6, muitos dos antigos Os estudos das masculinidades parecem ter surfado duas grandes
departamentos de estudos da mulher foram rebaptizados como de‑ vagas (Armengol et al., 2017; Kidder, 2002, 1­‑4; Kimmel e Messner,
partamentos de estudo de género na última década, uma vez que 1998, xiii­‑xv). Influenciada por textos feministas, a primeira vaga,
tanto os estudos da masculinidade como os LGBTQI+ foram in‑ que surgiu sobretudo nos Estados Unidos, vai aproximadamente
cluídos nos seus currículos académicos.7 Por outro lado, desde o fi‑ de meados da década de 1970 até à de 1980. Os textos fundamen‑
tais deste primeiro período incluem livros como The Male Machine
5 Harry Brod (1987, 1) fala de uma série de textos que podem considerar­ ‑se (1974), de Marc Feigen­‑Fasteau, The Liberated Man (1974), de War‑
precursores dos estudos da masculinidade, como White Collar (1953), de Wright C.
Mills, e Organization Man (1956), de William Whyte. A estes podem juntar­‑se obras ren Farrell, e A Man’s Place: Masculinity in Transition (1979), de Joe
de historiadores sociais como The Self­‑Made Man in America (1954), de Irving Wyllie, I. Dubbert. Embora essas obras tenham nascido, como já referi‑
e Apostles of the Self­‑Made Man (1965), de John Cawelti, que abordam os temas do selfmade
man, do sonho americano e da ideia de sucesso. No entanto, a maioria dos textos sobre mos, sob a inspiração do feminismo, centraram­‑se sobretudo na
masculinidade, como a maioria dos cursos sobre o tema, nasceram nos EUA durante as denúncia do efeito nocivo dos papéis tradicionais de género sobre
duas últimas décadas do século passado.
6 Partilho a opinião de Harry Brod de que isto não é necessário nem imprescindível. os próprios homens, e não na questão do privilégio masculino nem
Como ele próprio explica, os estudos das masculinidades «não exigem que a atenção aos no seu poder opressivo sobre as mulheres. Como referem Kimmel
homens seja maior, mas qualitativamente diferente [ ]; são um complemento, não uma
cooptação, dos estudos da mulher. Assim, parece melhor evitar a conceptualização no
e Messner (1998, xiii) a este respeito, aqueles estudos «analisaram
campo falando de estudos de género» (1987, 60). os custos do papel masculino tradicional para a saúde dos homens
7 É o caso, por exemplo, dos antigos departamentos e programas de estudos da
(tanto física como psicológica) e a qualidade das suas relações com
mulher na Universidade de Indiana (Bloomington); na Rutgers, Universidade Estatal
de Nova Jérsia; e na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles). Enquanto as mulheres, com outros homens e com os seus filhos». Não deve‑
a Universidade de Indiana criou um novo «Departamento de Estudos de Género» mos esquecer, porém, outros textos feministas importantes desta
(que oferece cursos sobre masculinidade, LGBTQI+ e a mulher), a Rutgers e a UCLA
limitaram­‑se a acrescentar o termo «género» aos seus inovadores programas de estudos primeira vaga de estudos das masculinidades que exploraram o
da mulher, criando assim departamentos de «Estudos de Género e da Mulher». Ambas as fardo mas também os privilégios de se ser homem na cultura con‑
opções parecem igualmente úteis para sublinhar a importância de oferecer estudos quer
sobre a mulher quer sobre o género. temporânea (Kimmel e Messner, 1998, xiv). Entre estes últimos,

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1. os estudos das masculi n i dades: uma in trodução

destacamos títulos como Men and Masculinity (1974), de Joseph tradicionais de género e encarnavam versões «problemáticas» da
Pleck e Jack Sawyer, The Forty­‑Nine Percent Majority (1976), de masculinidade. Nas palavras de Kimmel e Messner:
David e Robert Brannon, e The American Man (1980), de Elizabeth
Pleck e Joseph Pleck.8 Estas afirmações teóricas, em todo o caso, reproduzem precisa‑
Estes primeiros estudos foram muito valiosos, especialmente ao mente as relações de poder que mantêm estes homens em posições
tornarem pela primeira vez a masculinidade visível como categoria de subordinadas na nossa sociedade. Não só a masculinidade branca e
género. Além do mais, analisaram as vantagens e as desvantagens de se heterossexual de classe média e de meia­‑idade se torna o padrão em
ser homem na sociedade. No entanto, a década de 1980 teve de lidar relação ao qual se avaliam todos os homens, como a própria defini‑
com vários desafios teóricos. No início desse decénio, os estudos fe‑ ção é utilizada contra aqueles que não a cumprem, como forma de
ministas começaram a mostrar como as mulheres viviam a sua femini‑ os manter em desvantagem. A definição normativa da masculini‑
lidade de forma diferente, consoante o grupo social a que pertenciam. dade não é a «correcta», mas é a dominante. (1998, xiv­‑xv)
Assim, a noção presumivelmente universal de feminilidade (baseada
em ideais brancos e burgueses de passividade, beleza e emocionalida‑ Não surpreende, portanto, que os estudos das masculinidades
de) foi substituída de forma progressiva por uma análise de como as tenham entrado numa nova fase desde a última década do século
mulheres e as feminilidades diferem segundo etnia, género, idade, se‑ xx. Esta segunda fase é notável por dois elementos principais (Brod
xualidade e nacionalidade, entre outros aspectos. Consequentemen‑ e Kaufman, 1994, 4­‑ 5). Em primeiro lugar, enfatiza a ideia funda‑
te, a investigação sobre o papel das mulheres lançou as bases para o mental do feminismo de que o género é um sistema de poder e
trabalho futuro sobre os homens (Kimmel e Messner, 1998, xiv­‑xv). não simplesmente um conjunto de estereótipos, papéis de género
Com efeito, a investigação actual sobre homens e masculinida‑ ou diferenças observáveis entre mulheres e homens. Em segundo
des entrou plenamente numa nova fase, em que as diferenças entre lugar, os novos trabalhos entendem a masculinidade como uma
os homens são vistas como centrais para estudar e compreender as entidade plural e dinâmica, e estão particularmente preocupados
suas vidas. Como salientam Kimmel e Messner, na primeira vaga em mostrar como ela varia segundo a etnia, a orientação sexual,
desta investigação partiu­‑se, erroneamente, do princípio de que a classe, a idade e outros factores. Assim, a maioria das investiga‑
uma versão da masculinidade (branca, de meia­‑idade, de classe mé‑ doras desta área parece partilhar a ideia de que não podemos falar
dia, heterossexual) era o papel sexual em que todos os homens se de masculinidade no singular, mas antes devemos analisar as masculi‑
tentavam encaixar na nossa sociedade. À luz desta premissa, os ho‑ nidades no plural9, sendo estas as formas em que diferentes homens
mens negros, os homens mais jovens, os mais velhos, os da classe constroem diferentes modelos de masculinidade.10
trabalhadora, os homossexuais, etc., afastavam­‑se das definições
9 Harry Brod (1994, 82­‑83) oferece uma etimologia do termo masculinidades na sua
utilização actual.
8 Académicas como Carol Gilligan (1990), Dorothy Dinnerstein e Barbara Ehrenreich 10 Esta perspectiva pode encontrar­‑se em muitas obras de autores como Harry Brod
também deram importantes contributos para este campo, que, como observa Kidder, (1987); Michael Kimmel (1987; 2000); Raewyn Connell (2003; 1998); Jeff Hearn (Gender),
salienta «a sua dívida, desde o início, para com os estudos da mulher e o pensamento e Michael Kimmel e Michael Messner (1989). Gender and Power (1987), de Connell, e The
feminista» (2002, 2). Gender of Oppression (1987), de Jeff Hearn, representam provavelmente «as afirmações

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1. os estudos das masculi n i dades: uma in trodução

Embora se concentre cada vez mais nos homens da classe traba‑ plesmente uma versão da masculinidade, embora seja a dominante
lhadora, homossexuais e de diversas origens étnicas, a investigação (Kimmel, 1997, 6). Por outras palavras, os estudos da segunda vaga
contemporânea não esqueceu a masculinidade hegemónica. Dado centram­‑se na especificidade cultural da masculinidade branca,
que a masculinidade branca e heterossexual permanece largamente bem como nos mecanismos sociais que lhe conferem a hegemonia.
invisível em termos específicos de género, e visto que esta invisi‑ Se a primeira vaga analisava a masculinidade (branca), entendida
bilidade não faz senão reforçar o seu potencial opressivo, é funda‑ como único modelo, a segunda vaga estuda­‑a como um constructo
mental tornar visível a masculinidade dominante para desafiar o seu de género específico (e racializado), e não como um constructo
poder e a sua hegemonia. Elaine Tyler May salientou, por exemplo, «normal» ou «universal», prestando especial atenção à sua condição
que a persistência de hierarquias de raça e de género exige que con‑ hegemónica dentro das estruturas de poder actuais. Além disso,
tinuemos a reconhecer e a investigar a estrutura e a hegemonia da a nova vaga insiste em ver a masculinidade branca como contradi‑
masculinidade branca (1998, xiv). Peter Middleton adopta uma po‑ tória e cambiante, ao invés de estável e uniforme. Uma vez que a
sição semelhante, argumentando que só poderá surgir um projec‑ sociedade está em constante evolução e a masculinidade branca é
to político válido quando os homens ocidentais se analisarem a si um constructo social, os padrões normativos do género masculino
próprios e à nossa história mais profundamente do que fizeram até também estão em constante mudança (Kidder, 2002, 2).
agora. Diz ele: Assim, no âmbito das suas muitas e variadas áreas de investiga‑
ção, os estudos da masculinidade têm mostrado sinais contínuos
Para isso, é importante falarmos sobre o que sabemos e reconhe‑ de evolução e crescimento desde os anos 90, como sugere Men’s
cermos que [compreender as nossas masculinidades] é tanto um Studies, a crescente bibliografia anotada de Michael Flood: «O li‑
diálogo como uma luta. Outros homens, outras culturas, terão vro, que originalmente incluía cerca de 600 entradas, continha
outras coisas a dizer que precisamos de ouvir. A nossa capacidade mais de mil quando foi actualizado como The New Men’s Studies
de ouvir esses homens será muito maior se compreendermos mais menos de uma década depois» (Kidder, 2002, 2). Os temas explo‑
claramente as nossas próprias masculinidades. (1990, 12) rados também se alargaram. Por exemplo, em 1989, Harry Brod
referiu­‑se a cinco áreas fundamentais de investigação: trabalho
Ainda que seja verdade, como se sugeriu acima, que os estudos ante‑ e família (em especial a forma como os papéis públicos suposta‑
riores já se centravam nos homens brancos, existe uma diferença mente essenciais dos homens influenciam os seus papéis privados
fundamental entre a primeira e a segunda vagas, sobretudo em ter‑ como pais); violência (sobretudo a ligação entre masculinidade e
mos das suas abordagens à masculinidade hegemónica. A primeira militarismo); saúde (por exemplo, «quais são as taxas de aborto
analisava os homens brancos como padrão e norma, esquecendo espontâneo e anomalias congénitas na descendência de homens
frequentemente outras masculinidades não brancas. Já a segunda que trabalham com substâncias genotóxicas?», «que relação há
vaga teoriza e reconceptualiza a masculinidade branca como sim‑ entre os códigos de masculinidade e os padrões de conduta e
doenças cardiovasculares de Tipo A?»; sexualidade (heterossexua‑
teóricas mais sofisticadas desta perspectiva» (Kimmel e Messner, 1998, xv). lidade, homossexualidade e pornografia); e cultura (o herói e as

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1. os estudos das masculi n i dades: uma in trodução

representações de masculinidades em géneros literários como as Encyclopaedia (2003), uma das primeiras (e mais completas) enciclo‑
histórias de detectives e aventuras) (1987, 41­‑42). pédias interdisciplinares dedicadas ao estudo das masculinidades.
Se Brod se referia a cinco áreas principais nas primeiras investiga‑ Em 2019, foi também publicado o Routledge International Handbook
ções, actualmente a lista é muito mais extensa. De facto, a bibliografia of Masculinity Studies, editado por Lucas Gottzén et al., que com‑
anotada de Michael Flood sobre homens e masculinidades (2022), que pila vários capítulos sobre masculinidades de perspectivas eminen‑
tem vindo a crescer desde a sua criação em 2002, inclui uma grande temente interdisciplinares, complementando assim o Handbook of
variedade de temas relacionados com a masculinidade, tais como raça/ Studies on Men and Masculinities, editado por Michael Kimmel, Jeff
etnia, estudos sobre branquitude, amizades, classe social, meios de co‑ Hearn e Raewyn Connell pela primeira vez em 2004.
municação social, idade, culturismo, desporto, cultura e representa‑ Apesar da sua variedade, os livros mais recentes partilham três
ção, teoria feminista, teoria queer, linguagem, emoções, educação, mo‑ premissas centrais: o construcionismo social, variações entre ho‑
vimentos de homens, entre muitos outros. Ademais, a lista de Flood mens e perspectivas longitudinais (Kimmel e Messner, 1998, xv­
sugere um aumento não só do número de temas associados à masculi‑ ‑xvii).11 Por outras palavras, a maioria dos trabalhos contemporâ‑
nidade, mas também das diferentes perspectivas sobre eles. Por exem‑ neos sugere que a pessoa não nasce homem, mas torna­‑se homem.12
plo, enquanto a bibliografia de Brod só liga as representações cultu‑ As masculinidades constroem­‑se num contexto histórico e social
rais da masculinidade à literatura, a secção actualizada de Flood sobre específico. Logo, a perspectiva construcionista postula que o sig‑
«Masculinidades na cultura e na representação» inclui perspectivas tão nificado da masculinidade varia entre as culturas (Gutmann, 2015),
variadas como a literatura e a teoria literária, o cinema, a fotografia e a como varia dentro da mesma cultura em diferentes momentos
televisão, a publicidade, a moda e o vestuário masculino, etc. (Kimmel, 1996). Consequentemente, esta perspectiva pode ser de‑
Abundam os sinais do rápido crescimento deste campo. Na dé‑ finida como histórica e comparativa.
cada de 1990, por exemplo, surgiram nos Estados Unidos várias or‑ Em segundo lugar, a maioria dos estudos contemporâneos sugere
ganizações e revistas académicas dedicadas ao estudo dos homens que a masculinidade também varia entre diferentes grupos culturais
e das masculinidades, como a American Men’s Studies Association dentro de uma mesma cultura. Nas sociedades contemporâneas, a mas‑
(1991), o Journal of Men’s Studies (1992) e Men and Masculinities (1998), culinidade é moldada, como já notámos, de modos diferentes consoan‑
entre outras. Desde 2012, existe também a revista espanhola Mas‑ te a classe, a sexualidade ou a etnia, entre outros factores. Além disso,
culinidades y cambio social, bem como a NORMA (Nordic Journal for
Masculinity Studies), fundada em 2006. Refiram­‑se ainda outros tra‑ 11 Isto não implica, porém, um declínio das abordagens biológicas e essencialistas da
masculinidade. Pelo contrário, muitos estudos continuam a referir­‑se à masculinidade
balhos fundamentais neste domínio, como a obra de E. Anthony
como uma essência eterna e intemporal, que reside no corpo de cada homem. Como
Rotundo American Manhood: Transformations in Masculinity from the refere Kimmel, «ou entendemos a masculinidade como algo inato que reside na
Revolution to the Modern Era (1993), «a primeira história das mascu‑ organização anatómica particular do macho humano, ou pensamos na masculinidade
como uma propriedade tangível e transcendente que todos os homens manifestam no
linidades» (Kidder, 2002, 2); Manhood in America: A Cultural His‑ mundo, a recompensa concedida com grande cerimónia a um jovem aprendiz pelos mais
tory (1996), de Michael Kimmel; e a co­‑edição de Kimmel e Amy velhos, por completar com êxito um duro ritual de iniciação» (1997, 4­‑ 5).
12 Obviamente, esta afirmação deve­‑se à famosa declaração de Simone de Beauvoir em
Aronson de Men and Masculinities: A Social, Cultural and Historical O Segundo Sexo (1949) de que a pessoa não nasce mulher, antes se torna mulher.

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1. os estudos das masculi n i dades: uma in trodução

cada um desses aspectos da masculinidade modifica os outros (Armen‑ John (1990), tido como texto fundador do movimento mitopoético
gol, 2021; Kimmel e Messner, 1998, xv­‑xvii). Se a chamada «terceira nos Estados Unidos.14 Este movimento argumenta que os homens
vaga feminista», que se costuma situar entre cerca de 1990 e a segunda (norte­‑americanos) foram feminizados pelas mudanças sociais e
década do século xxi, enfatizou a interseccionalidade em termos da históricas associadas à Revolução Industrial. No início do século
análise das experiências das mulheres, essa mesma interseccionalida‑ xix, os homens faziam algumas tarefas em casa, como o proces‑
de, e o desafio para uma definição singular da masculinidade como samento de cereais, o curtimento de peles, o armazenamento de
normativa, são os outros eixos em torno dos quais gira grande parte do lenha e combustível, etc. Desta forma, os pais mantinham­‑se em
trabalho académico actual sobre o tema (Armengol et al., 2017).13 contacto com os filhos. Com a Revolução Industrial, porém, os
Neste sentido, o estudo da variação, sincrónica e diacrónica, homens começaram a trabalhar em fábricas, longe de casa. As crian‑
das masculinidades ao longo do ciclo de vida tem ganhado cada vez ças passaram a ser criadas exclusivamente pelas mães e tornaram­
mais relevância científica. De facto, questões como o que significa ‑se, na opinião de Bly, cada vez mais «femininas». O autor sugere,
ser homem em diferentes momentos e idades, bem como as seme‑ pois, que se organizem excursões e encontros exclusivamente
lhanças e diferenças dos vários modelos de masculinidade entre a masculinos, por exemplo, na floresta, onde os homens podem
adolescência e a meia­‑idade, tornaram­‑se já objecto de numerosos «remasculinizar­‑se», pela prática de actividades tradicionalmente
estudos recentes (ver, por exemplo, Armengol, 2020). masculinas, como a caça, a pesca e outros jogos de guerra.
Embora cada vez mais populares, as ideias de Bly são problemáti‑
cas, sobretudo do ponto de vista feminista.15 Se a maioria das aborda‑
A política das masculinidades gens feministas tem por objectivo questionar e repensar a ideia de mascu‑
linidade, Bly procura antes reconstruí­‑la e reafirmá­‑la.16 Na sua tentativa
Como já se sugeriu, grande parte da investigação actual começa nas
premissas ideológicas da segunda e terceira vagas do pensamento 14 Ainda que tenham influenciado negativamente as respostas populares e académicas
feminista. No entanto, importa reconhecer que nem todos estes aos estudos da masculinidade, as imagens deste movimento tiveram pouca influência na
análise académica (Kidder, 2002, 2).
estudos podem ser considerados feministas. Por exemplo, no iní‑ 15 Além da sua tendência masculinista, o texto de Bly é problemático por várias outras
cio da década de 1990, o mesmo questionamento da masculinidade razões. Por exemplo, baseia­ ‑se em abordagens eminentemente essencialistas das
diferenças de género, esquecendo que a masculinidade é socialmente construída.
que originara trabalhos feministas sobre homens conduziu ao apa‑ 16 Organizada por Louis Farrakhan, a gigantesca Marcha do Milhão de Homens 1995 (com
recimento, sobretudo nos Estados Unidos, de uma série de textos pelo menos o dobro dos participantes da histórica marcha de Martin Luther King sobre
Washington em 1963) significou outro apelo a uma renovada masculinidade patriarcal. Os
populares sobre a vida dos homens, como o êxito de vendas Iron
líderes da marcha, que encorajavam as mulheres negras a ficar em casa, argumentavam que
a raiz das dificuldades enfrentadas pelos homens afro­‑americanos era «uma certa carência
masculina, uma incapacidade, ou falta de vontade, de assumir responsabilidades como
13 Algumas autoras falam já de uma quarta vaga do feminismo, que se pode situar a homens, de defender a comunidade e a si próprios» (apud Segal, 1997, xvii). Como salienta
partir da segunda década do século xxi, influenciada sobretudo pela tecnologia, pelas Segal, a marcha não só negligenciou as necessidades das mulheres negras (e dos homens
redes sociais e pelo movimento #MeToo. Considero, porém, que ainda é arriscado falar homossexuais), como desviou a atenção do racismo pernicioso que ainda domina a vida
de uma quarta fase baseada sobretudo no «meio» (a saber, a tecnologia e a digitalização) nos Estados Unidos (1997, xviii). Estas tentativas de reafirmar a masculinidade patriarcal,
da luta feminista, embora reconhecendo a sua enorme influência no movimento. mais do que a solução, tornam­‑se muitas vezes a causa dos problemas dos homens.

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1. os estudos das masculi n i dades: uma in trodução

de remasculinizar a cultura ocidental contemporânea, que Bly e os seus Embora textos como Iron John pareçam evidenciar que nem to‑
seguidores consideram «feminizada» pelo domínio das mulheres e pela dos os estudos sobre a masculinidade podem ser considerados femi‑
ausência dos pais na vida dos rapazes, a mitopoética procura recuperar nistas, há muitos estudos sobre masculinidades, incluindo este, que
o poder que advém de se ser homem, o poder do patriarcado. É certo se baseiam na teoria feminista e, portanto, partilham com ela vários
que os homens do movimento Bly afirmam frequentemente sentir­‑se pressupostos (Gardiner, 2002, 11­‑15). Em primeiro lugar, a perspecti‑
impotentes, inseguros ou feminizados pela crescente relevância social va feminista dos estudos da masculinidade defende que os homens
das mulheres. No entanto, o movimento mitopoético está muito preo‑ também são seres marcados pelo género, demonstrando que tanto
cupado em fazer com que os homens se sintam novamente poderosos. homens como mulheres passaram por processos históricos e cultu‑
Os homens não sentem o poder patriarcal (ainda), mas querem e aspiram rais de aquisição de género, que, porém, distribuem o poder de ma‑
a senti­‑lo. Como concluíram Kimmel e Kaufman, «acreditamos que a neira desigual (Armengol, 2010, 1­‑10). Em segundo lugar, defende
busca mitopoética é um erro porque reproduz a masculinidade como que a masculinidade não é monolítica, mas varia entre diferentes in‑
relação de poder, o poder dos homens sobre as mulheres» (1994, 283).17 divíduos, grupos, instituições e sociedades. Ainda que os padrões he‑
Se bem que Bly sublinhe, em Iron John, que o livro «não cons‑ gemónicos tentem manter uma aparência de estabilidade e naturali‑
titui um desafio ao movimento das mulheres» (1990, x), afasta­‑se dade, as masculinidades em todas as sociedades são fluidas e «híbri‑
certamente do feminismo em vários aspectos. É verdade que o mo‑ das» (Pascoe e Bridges, 2015; Kimmel, 2008). Ademais, a aplicação de
vimento mitopoético, como a maioria dos movimentos dirigidos uma abordagem feminista aos estudos sobre a masculinidade mostra
por homens feministas18, encoraja os homens a redefinir o seu lado como ambos os géneros podem e devem cooperar tanto intelectual
«feminino» como «profundamente masculino».19 No entanto, os mi‑ como politicamente. Como explica Gardiner (2002, 12), as mulheres
topoéticos, ao contrário dos homens feministas, não questionam podem contribuir para os estudos sobre a masculinidade; os homens,
os seus privilégios masculinos. Portanto, a mostra ocasional das para a teoria feminista e os estudos sobre a masculinidade; os hete‑
chamadas competências e atributos «femininos» pode servir para rossexuais, para a teoria queer, e os académicos gays para o estudo da
modernizar o patriarcado, em vez de o enfraquecer. Como insiste heterossexualidade, se bem que os pontos de vista de investigadoras
a psicóloga feminista Lynne Segal, a luta feminista pela igualdade com diferentes antecedentes não sejam idênticos.20 Veremos como
de género só pode ser levada a cabo através de práticas colectivas e os estudos sobre a masculinidade não devem ser entendidos como
institucionais conscientes que desafiem o sexismo, e não simples‑ uma traição ou apropriação do feminismo, mas antes como «uma das
mente pela reeducação de homens individuais para uma maior fle‑ suas valiosas e necessárias consequências» (Thomas, 2002, 62).
xibilidade e sensibilidade emocional (1997, xxiii, xxv). Do mesmo modo, uma concepção feminista tende a rejeitar as
concepções essencialistas do género e da sexualidade como caracte‑
17 Por outro lado, o movimento mitopoético não explica porque é que a maioria dos rísticas fixadas pela natureza e/ou teorias sociológicas ou psicológicas.
homens se sente impotente e insegura apesar dos seus privilégios (Segal, 1997, xxii).
18 A questão dos grupos de homens feministas, em particular as suas tentativas de
redescobrir a componente emocional das suas vidas, será analisada no capítulo 4. 20 Gardiner salienta que, embora isto possa parecer contraditório, a investigação e
19 Por exemplo, os homens são encorajados a chorar nos braços uns dos outros, a ler a pedagogia dos estudos sobre a masculinidade reproduzem, na verdade, as mesmas
poesia e/ou a dançar juntos na floresta (Bly, 1990, 34). contradições nas relações de género contemporâneas (2002, 14).

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1. os estudos das masculi n i dades: uma in trodução

Como sublinha Gardiner a este respeito, uma análise deste tipo com‑ feminismo. Isto põe sob suspeita o presente projecto, escrito por
bina a crítica pós­‑estruturalista das verdades universais com as teorias um homem e baseado na teoria feminista. Assim, aqui chegados,
queer e pós­‑coloniais sobre os perigos das exclusões categóricas e dos não podemos deixar de fazer uma pergunta fundamental: podem
universalismos culturais. Este foco também aceita que a crítica das os homens adoptar uma perspectiva feminista nos estudos da
categorizações essencialistas é politicamente necessária, porquanto a masculinidade?21 Para muitos investigadores homens, incluindo eu,
crença de que os géneros binários tradicionais são universais, estáti‑ que vêem a igualdade (de género) como um princípio democrático
cos e inevitáveis impede a mudança social ao afirmar que esta é im‑ fundamental, a resposta é simplesmente: «Sim, claro que sim.» Afi‑
possível ou desnecessária (Armengol et al., 2017; Gardiner, 2002, 12). nal de contas, o feminismo, tal como a luta pela igualdade racial, é,
De resto, uma perspectiva feminista implica criticar os binarismos em última análise, uma questão de responsabilidade cívica e ética.
culturais, que por vezes também definem os estudos feministas e da Assim, enquanto valores intrinsecamente democráticos, o femi‑
masculinidade, e que apresentam um mundo de dominação e diferen‑ nismo e a crença na igualdade de género podem ser, devem ser,
ça, de opressores e vítimas. No entanto, a rejeição de uma relação biná‑ e têm frequentemente sido abraçados tanto por mulheres como
ria clara entre vítimas e opressores não exclui o estudo da dominação. por homens. Como argumentou Raewyn (anteriormente Robert)
Pelo contrário, as diferenças entre géneros, dentro dos géneros e fora Connell, não deve haver nada de especial ou admirável no facto de
do binómio de género­‑padrão devem ser sempre analisadas em relação se ser um homem feminista. Nas suas palavras:
com as hierarquias sociais (Gardiner, 2002, 13). Por último, a aborda‑
gem feminista defende que a masculinidade e a feminilidade não de‑ Anseio pelo dia em que a maior parte dos homens, tal como a maior
sempenham papéis iguais ou complementares, que a masculinidade parte das mulheres, aceite a igualdade absoluta entre os sexos, par‑
e a feminilidade afectam os corpos masculinos e femininos de modo tilhando o cuidado das crianças e todas as outras formas de traba‑
diferente (Halberstam, 1998) e que a relação entre o género (mascu‑ lho, aceitando a liberdade de comportamento sexual e aceitando
linidade/feminilidade) e o sexo (macho/fêmea) depende de factores todas as formas de género, considerando [o feminismo] mero senso
culturais (Gutmann, 2008). Como conclui Gardiner, «a masculinidade comum e a base normal da vida civilizada. (1998, xii)
e a feminilidade têm significados e utilizações diferentes nos corpos
masculinos e femininos e em contextos culturais diferentes» (2002, 15). No entanto, há que reconhecer que a questão dos homens no femi‑
nismo é, desde há muito, objecto de um debate controverso e, sem
dúvida, ainda em aberto. Parece, pois, necessário dedicar algumas
Os homens e o feminismo, páginas a esse debate que, como sugeriram Alice Jardine e Paul
os homens no feminismo
21 Algumas académicas questionam também se os homens do feminismo devem ser
designados «anti­‑sexistas», «pró­
‑feministas» ou simplesmente «feministas». Embora
Ao mesmo tempo que cada vez mais mulheres e homens adop‑ a expressão «homens feministas» enfrente amiúde a oposição de sectores feministas
tam abordagens feministas da masculinidade, algumas teóricas mais radicais, concordo com a afirmação de Harry Brod de que, desde que os homens
acreditem firmemente na necessidade de igualdade de género, os três termos são
continuam a defender a impossibilidade de os homens fazerem igualmente apropriados (1998).

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1. os estudos das masculi n i dades: uma in trodução

Smith (1987, 8), levanta questões e problemas que vão ao cerne da mais uma intrusão, um acto mais ou menos ilegal de invasão, pelo
teoria feminista e dos estudos sobre a masculinidade. A participa‑ qual estes homens devem ser responsabilizados» (1987, 33).23
ção dos homens no feminismo continua a encontrar resistência por Esta é, de facto, a opinião de várias investigadoras. Por exemplo,
uma série de razões. Em primeiro lugar, o número de homens femi‑ Stephen Heath defende que a relação dos homens com o feminismo
nistas ainda é reduzido. As iniciativas colectivas anti­‑sexistas diri‑ é impossível. Na sua opinião, essa relação é necessariamente exclu‑
gidas por homens ainda ocupam um lugar secundário na estrutura siva, uma vez que o feminismo é uma questão de mulheres, são as
social da maioria dos países ocidentais. Além disso, parece que só suas vozes e acções que devem determinar a forma e o futuro da sua
alguns grupos específicos de homens apoiam o feminismo. Como luta. As mulheres são os «sujeitos» do feminismo; os homens são os
argumentou Lynne Segal, os homens anti­‑sexistas tendem a ser seus «objectos» (1987, 1). Na opinião de Heath, o desejo dos homens
de se tornarem sujeitos do feminismo é mais uma tentativa de do‑
os homens menos afectados pelas ameaças ao seu estatuto social minação, apropriação e colonização masculinas:
como homens profissionais, homens que ocupam espaços onde
já existe uma maior igualdade entre mulheres e homens, e onde a Por muito «sinceros» ou «simpáticos» que sejamos, estamos sempre
entrada das mulheres em espaços tradicionalmente masculinos numa posição masculina que acarreta todas as implicações de domi‑
apenas os torna mais interessantes. (1997, xxvii) nação e apropriação, precisamente tudo o que é questionado, que tem
de ser mudado. As mulheres são o sujeito do feminismo […] o passo de
Por outro lado, a participação activa dos homens no feminismo ser mulher para ser feminista está no momento em que se toma posse
nem sempre é fácil, uma vez que o seu pensamento tradicional deve desse estatuto. Os homens são o objecto, parte da análise, agentes da
ser desafiado, o que não é necessariamente simples. Como defende estrutura a transformar, representantes, operadores do modo patriar‑
Connell (1998, xii), a lentidão com que as questões de género são cal; e o meu desejo de ser sujeito também no feminismo (ser feminista)
reconhecidas em disciplinas cimeiras, como a história, a econo‑ é, portanto, mais um passo na longa história da sua colonização […].
mia, a sociologia, a psicologia ou a teoria literária, tradicionalmente Não estou onde elas estão e […] não posso fingir que estou. (1987, 1)
dominadas pelos homens, ilustra essa resistência. Por último,
algumas especialistas (feministas)22 têm relutância em envolver os Na mesma linha de Heath, Rosi Braidotti argumenta que, embora
homens no feminismo e existe, de facto, «uma linha ténue entre exista algo que causa tanto atracção como desconfiança na ideia
a intromissão nos assuntos das mulheres e a partilha de trabalho
sobre problemas comuns» (Connell, 1998, xii). Por conseguinte,
23 Apesar da sua influência, as ideias de Paul Smith podem ser, e têm sido, contestadas
não surpreende que a participação dos homens na teoria e na prá‑ de diferentes perspectivas. Por exemplo, Joseph Allen Boone argumentou que, em
tica políticas feministas tenha sido frequentemente encarada com vez de oferecer uma análise crítica da complexa (e muitas vezes contraditória) relação
dos homens com o feminismo, os pontos de vista de Smith em Men in Feminism (1987)
desconfiança. Como sugere Paul Smith, «pode ser entendida como promovem um separatismo infrutífero. Nas suas próprias palavras, «Men in Feminism
transforma­‑se num campo de batalha, reproduzindo os impulsos do seu título, enquanto
as questões realmente importantes são obscurecidas, disfarçadas ou silenciadas de uma
22 Ver, por exemplo, Heath (1987), Braidotti (1987) e Showalter (1983). qualquer outra forma» (1989, 171).

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1. os estudos das masculi n i dades: uma in trodução

de os homens participarem no feminismo, os homens não podem, tre eles mencionem­‑se William Lloyd Garrison, Thomas Wentworth
nem devem, envolver­ ‑se nele. «De certa forma», diz Braidotti, Higginson, Parker Pillsbury e Samuel Joseph May. Alguns maridos
«oponho­‑me fortemente à ideia: os homens não estão e não devem de líderes sufragistas, como Henry Blackwell, marido de Lucy Stone,
estar NO feminismo; o espaço feminista não é deles e não é para e James Mott, marido de Lucretia Mott, também foram activistas
eles verem». Insistindo, conclui que «desperta em mim uma espécie dos direitos das mulheres por direito próprio. Cerca de um terço dos
de impaciência» ao pensar num grupo composto inteiramente por signatários da histórica Declaração de Sentimentos e Resoluções de
homens que se sentem «fascinados, confusos e intimidados perante Seneca Falls, de 1848, eram homens. A recuperação desta história é
a intelectualidade feminista» (1987, 233). essencial para que os homens feministas possam prosseguir o seu tra‑
Os homens homossexuais causam tanta desconfiança quanto os balho. Além disso, até à data, a existência de homens anti­‑sexistas
heterossexuais quando se identificam como feministas. Em «Ou‑ não tem sido suficientemente reconhecida na história das mulheres,
tlaws: Gay Men in Feminism» (1987), Craig Owens, por exemplo, embora a história dos homens feministas seja uma parte essencial da
argumenta que o tratamento da homossexualidade masculina como história do feminismo (Brod, 1987, 49).25
crime e doença resulta do mesmo aparato legal e médico que «cas‑ Se bem que a participação dos homens no feminismo nem
tra» as mulheres (considerando­‑as castradas desde sempre), pelo sempre tenha sido suficientemente reconhecida, muitas mulheres
que o homem gay tem, no feminismo, um lugar fundamentalmente feministas aceitam e promovem cada vez mais essa contribuição.
diferente do do seu semelhante heterossexual. Contudo, algumas A exclusão generalizada dos homens na segunda vaga do feminismo,
académicas feministas defendem que a homofobia e o sexismo são no final da década de 1970, foi provavelmente necessária para que
tipos diferentes de opressão patriarcal. Afinal, os homens gays, ape‑ o movimento feminista emergisse e se fortalecesse, e para que as
sar da sua opressão, continuam a ser homens, o que também os ex‑ mulheres encontrassem as suas próprias vozes e espaços. Todavia,
cluiria da actividade feminista.24 o momento separatista que definiu a prática feminista radical há 40
Ainda que a participação dos homens no feminismo continue a anos já não parece fazer sentido. A feminista Sandra Bartky (1998,
ser limitada, e não pouco controversa, há que notar que a história dos xii) apresentou vários argumentos que parecem apoiar esta opi‑
homens anti­‑sexistas remonta a séculos. Já no século xix, por exem‑ nião. Em primeiro lugar, muitos homens têm sido aliados políticos
plo, alguns homens nos Estados Unidos eram igualmente activos efectivos, enquanto muitas mulheres têm feito críticas unilaterais
como feministas e abolicionistas, como recorda Brod (1987, 49). En‑ e pouco úteis ao feminismo. Em segundo lugar, porque nos encon‑
tramos num momento histórico diferente, as estudiosas feministas
24 Penso que hoje é mais claro do que nunca que a luta contra a desigualdade de género,
mais jovens não parecem ter a mesma necessidade de separação
a luta contra a misoginia e a luta contra a homofobia fazem parte da mesma luta contra
um sistema de género opressivo. É verdade, como nos lembra Sedgwick, que uma entre géneros de que as feministas da geração anterior tanto pre‑
vez que a aliança entre o feminismo e a anti­‑homofobia não é «nem automática nem cisavam. Por fim, a imposição da identidade de género masculina
trans­‑histórica», é melhor que seja «analítica e sem presunção» (1992, 20). Todavia,
é igualmente verdade, como ela própria reconhece, que a homofobia masculina contra também pode ser dolorosa e ambígua. Assim, a dor infligida pela
os homens é misógina, «e talvez de uma forma trans­‑histórica (por ‘misógina’ não quero
dizer apenas que é opressiva do presumivelmente feminino nos homens, mas que é
opressiva das mulheres)» (1992, 20). 25 A este respeito, ver Kimmel e Mosmiller (1992).

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masculinidade aos próprios homens é uma «razão inteiramente Deste modo, parece haver (pelo menos) duas razões principais
compreensível para que eles apoiem activamente o movimento das para que os homens acolham o feminismo. Se a primeira (a crença
mulheres» (Bartky, 1998, xii). Para além destas razões principais, na igualdade de género) é um imperativo ético, a segunda (os efeitos
Bartky (xiii) insiste que existem também «razões práticas» para prejudiciais do patriarcado na vida dos próprios homens) sugere que
abandonar as políticas inteiramente separatistas. Devido à antigui‑ o feminismo, como argumentou Michael Kimmel (2008), é neces‑
dade e ao poder do patriarcado, não é certo que as mulheres o con‑ sário para enriquecer a vida dos homens, e as suas relações com as
sigam vencer sozinhas. «Precisamos de ‘traidores do seu género’», mulheres, com as crianças e entre si. É bem verdade que os homens
conclui Bartky (xiii). (especialmente os homens heterossexuais) beneficiam do sistema
Como Bartky, penso que há razões importantes para promover patriarcal, mas até os beneficiários de um sistema opressivo podem
o feminismo masculino. Por um lado, temos a crença na igualdade vir a sentir o seu carácter opressivo, sobretudo a forma como preju‑
de géneros. Os homens, tal como as mulheres, têm o seu próprio dica áreas da vida pessoal que partilham. Por exemplo, muitos ho‑
trabalho a fazer em termos de relações de género, participando mens (feministas) têm vindo a sentir o peso patriarcal da repressão
activamente na luta feminista pela igualdade social. Como formu‑ emocional e gostariam de estabelecer relações mais próximas, mais
lou Tom Digby, «é tão fácil para mim explicar porque sou feminista enriquecedoras e afectuosas com os filhos (Armengol, 2020; Carabí
como explicar porque sou anti­‑racista, ou porque me oponho à in‑ e Armengol, 2015), como veremos nos capítulos seguintes. Ao fim
justiça económica. Nos três casos, a razão é a minha crença na ne‑ e ao cabo, os homens, homossexuais e heterossexuais, não são des‑
cessidade de igualdade» (1998, 3). Para além da crença na igualdade, providos da capacidade humana básica de partilhar experiências,
outra razão fundamental para um feminismo masculino é o efeito sentimentos e esperanças. Embora muitas vezes lhes seja pedido
prejudicial ou regressivo que o patriarcado tem na vida dos próprios que neguem essa capacidade, ela não é intrinsecamente contrária
homens. Embora sejam, indubitavelmente, as mulheres a sofrer as à sua natureza. Alguns homens esforçam­‑se diariamente por serem
piores consequências do patriarcado, os homens também sofrem melhores pais e parceiros, e muitos também estão envolvidos em
com ele. Por exemplo, o patriarcado tem tradicionalmente defini‑ movimentos ecologistas e pela paz, como mostraram Rubén Cena‑
do os homens como racionais e desprovidos de emoções. Apesar de mor e Stefan L. Brandt no seu recente livro Ecomasculinities (2019).
esta definição convencional de masculinidade ter ajudado a reafir‑ Os homens podem, e devem, portanto, juntar­‑se à luta feminista
mar a racionalidade «superior» dos homens em oposição à nature‑ pela igualdade social e de género.
za emocional (e, portanto, «irracional» e «inferior» das mulheres), É tempo, assim, de rejeitarmos abordagens essencialistas à teoria
o patriarcado também obrigou os homens a reprimir o seu universo e à prática política feminista, pois o importante no ser feminista não
emocional. Como resultado, os homens permanecem frequente‑ é que alguém se perceba e compreenda como mulher, mas que se per‑
mente alheados do mundo da educação e das emoções, que são uma ceba e compreenda como feminista. É certo que um homem nunca
componente essencial da vida humana (Seidler, 2000).26 poderá viver experiências exclusivamente femininas, como o medo
da violação que muitas mulheres sentem diariamente. Contudo,
26 A este respeito, ver o capítulo 4. o feminismo consiste precisamente em aprender a compreender o/a

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Outro/a, sem deixar de reconhecer os nossos privilégios em relação dora, etc., cujas identidades e experiências específicas foram sobe‑
a ele ou ela, tal como muitas mulheres e homens brancos lutaram e jamente ignoradas pelos primeiros estudos.
continuam a lutar pelos direitos das pessoas racializadas. Além dis‑ Contudo, enquanto muitos trabalhos sobre masculinidades pa‑
so, o feminismo não se opõe essencialmente aos interesses dos ho‑ recem dedicar uma atenção crescente a todas estas identidades, ou‑
mens. No fundo, a questão não é (apenas) a que privilégios devem tros sublinham os perigos de qualquer construção de identidade.
os homens renunciar em nome do feminismo, mas (também) o que Por exemplo, o académico norte­‑americano Alan Petersen (2003,
podemos ganhar (Armengol, 2020; Armengol et al., 2017) com a nossa 61) argumenta que as concepções de identidade das ciências sociais
participação activa nele. Nas palavras de Kaufman: (originalmente desenvolvidas na década de 1950) tendem a basear­
‑se numa de duas visões opostas, nomeadamente um reducionis‑
Qualquer privilégio e forma de poder que percamos será progres‑ mo psicológico ou um reducionismo sociológico. A primeira trata
sivamente compensado pelo fim da dor, do medo, dos comporta‑ a identidade como uma característica relativamente fixa e estável
mentos disfuncionais, da violência às mãos de outros homens, da da pessoa; a segunda como adquirida, construída ou imposta so‑
violência auto­‑infligida, da pressão constante para ter um bom cialmente. Estas duas concepções básicas, explica Petersen, têm
desempenho e sucesso, e da impossibilidade de atingir os nossos determinado o pensamento sobre a identidade até aos nossos dias e
ideais de masculinidade. (1994, 160) tiveram uma influência determinante no desenvolvimento das cha‑
madas «políticas de identidade».27
Tradicionalmente, as políticas de identidade têm, de facto, pre‑
Estudos das masculinidades: sumido que existe uma relação causal entre identidade e política,
tendências actuais e que a primeira determina a segunda. Isto é particularmente evi‑
dente na literatura gay e lésbica, em que existe uma tensão contí‑
Assim, a maioria dos estudos mais recentes sobre masculinidades, nua entre um conceito permanente de identidade sexual (mas que
realizados por académicos e académicas, parece cada vez mais acei‑ tem sido escondido e reprimido) e aquele que nunca foi socialmente
tar, e inclusive encorajar, a participação dos homens na luta pela aceite (mas que ainda tem de ser inventado ou alcançado). Na opi‑
igualdade de género. Não obstante, conforme parecem começar a nião de Petersen, esta dicotomia tem significado frequentemente
resolver­‑se algumas questões antigas dos estudos das masculinida‑ a redução do político ao pessoal, bem como a limitação imposta
des, surgem novas questões, incluindo as suas tendências actuais e pela actividade política ao crescimento e à transformação pessoais.
os seus desafios futuros. Como já foi sugerido, os estudos das mas‑
culinidades parecem ter entrado numa nova fase, com particular 27 O próprio Petersen (2003, 61) reconhece, porém, que existem posições intermédias.
relevo na forma como a masculinidade é influenciada pela raça e Por exemplo, a psicanálise cruza­ ‑se bastantes vezes com teorias socialmente
informadas. Embora se baseie no construcionismo social, o presente estudo recorrerá
etnia, sexualidade, classe ou idade (Armengol, 2020 e 2021), entre a diferentes disciplinas (ver capítulo 2), incluindo a psicologia e a psicanálise. De facto,
outros factores. Assim, cada vez se presta mais atenção aos homens parece possível e desejável afastarmo­‑nos do reducionismo psicológico ou sociológico,
uma vez que as abordagens psicológicas e sociológicas do género se complementam
de outras etnias, aos homossexuais e aos homens da classe trabalha‑ frequentemente e nem sempre se excluem mutuamente.

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1. os estudos das masculi n i dades: uma in trodução

Na psicologia feminista, em particular, o dito «o pessoal é políti‑ fixas e mutuamente exclusivas, incluindo as de homens e mulhe‑
co» tem geralmente implicado que o político é personalizado, como res (Armengol, 2019; Petersen, 2003, 66). Assim, um dos debates
pode ver­‑se na utilização das ideias de empoderamento, revolução mais importantes (e controversos) na academia, hoje em dia, diz
a partir de dentro e o foco na validação da realidade da mulher (Pe‑ respeito à coexistência, por um lado, do desafio pós­‑estruturalista
tersen, 2003, 61­‑ 62). Assim, as políticas de identidade (e a própria à subjectividade e à identidade com, por outro lado, o trabalho de
identidade) podem ser «arbitrárias» e «excludentes», actuando como várias investigadoras que continuam a considerar a identidade (seja
um sistema normativo e regulador. Por exemplo, em muitas obras sexual, étnica ou nacional) como crucial nas nossas vidas (ver, por
sobre homens e masculinidades, a identidade masculina é bastan‑ exemplo, Segal, 2008; Robinson, 2000; e Braidotti, 1987). Este
tes vezes entendida como simples combinação de vários atributos debate tem uma relação directa com o presente ensaio. Afinal,
naturais e socialmente construídos. Assim, pode ser­‑se um homem o foco deste livro é a análise de uma suposta identidade masculina.
homossexual, um homem negro, um homem branco heterosse‑ No entanto, pensadores pós­‑estruturalistas, como Petersen, têm­
xual, um homem jovem sem deficiências, e assim sucessivamente. ‑se proposto questionar a própria existência da masculinidade e a
O problema de utilizar este modelo aditivo de identidade é que, por coerência interna de conceitos como branquitude, heterossexuali‑
mais pormenorizada que seja a descrição, haverá sempre exclusões dade e masculinidade/virilidade.28 Parece, pois, necessário aprofun‑
e disjunções entre os rótulos e categorias de identidade impostos e dar as repercussões deste pensamento na análise da masculinidade
as experiências pessoais. Diz Petersen: branca heterossexual, que é o objecto principal deste estudo.

Há verdadeiramente um número infinito de formas em que as


componentes da identidade se podem cruzar ou combinar para
criar a identidade masculina. Qualquer construção de identidade
é arbitrária, o que conduzirá inevitavelmente ao silenciamento ou à
exclusão de algumas experiências. (2003, 62)

A crítica de Petersen às concepções tradicionais de identidade


como estáveis e fixas baseia­‑se claramente na crescente influên‑
cia do pós­‑estruturalismo nas ciências sociais e humanas, espe‑
28 Os efeitos deste debate reflectem­‑se, por exemplo, nas críticas de algumas feministas
cialmente desde a década de 1980. De facto, o pensamento
importantes do movimento queer e trans. Enquanto a teoria queer, claramente influenciada
pós­‑estruturalista tem desempenhado um papel crucial no questio‑ pelo pós­‑estruturalismo, defende a fluidez de género, algumas feministas como
namento de noções fixas de identidades étnica, nacional, sexual e Lidia Falcón ou Amelia Valcárcel defendem que ser mulher tem que ver com factores
biológicos, hormonais, cromossómicos e gonais, entre outros, questionando assim, por
outras. O surgimento de abordagens pós­‑estruturalistas nas ciên‑ exemplo, tanto os pressupostos queer como a mudança de sexo/género das pessoas trans.
cias sociais desafiou radicalmente crenças e categorias estabeleci‑ Tais feministas têm sido acusadas de transfobia por esses mesmos movimentos. Ver a
este propósito: [Link]
das, sobretudo as que pressupunham a existência de identidades ‑transexualidad­‑mujeres­‑identidad­‑genero­‑amelia­‑[Link]

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A REINVENÇÃO DA MASCULINIDADE
foi composto com caracteres Hoefler Text e Archia
e impresso sobre papel Supersnowbright 80g
na Europress, Indústria Gráfica
no mês de Maio de 2025.

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