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Reckless - Lauren Roberts

O prólogo apresenta Kai, um príncipe que reflete sobre sua vida e suas responsabilidades, enquanto se prepara para uma missão importante. Ele visita um local especial para lembrar de alguém querido, trazendo um pãozinho como oferta. O primeiro capítulo introduz Paedyn, que lida com traumas do passado e a solidão após um confronto com o rei, enquanto busca entender seu lugar no mundo e se preparar para o que está por vir.

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Reckless - Lauren Roberts

O prólogo apresenta Kai, um príncipe que reflete sobre sua vida e suas responsabilidades, enquanto se prepara para uma missão importante. Ele visita um local especial para lembrar de alguém querido, trazendo um pãozinho como oferta. O primeiro capítulo introduz Paedyn, que lida com traumas do passado e a solidão após um confronto com o rei, enquanto busca entender seu lugar no mundo e se preparar para o que está por vir.

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Para os imprudentes que ousam amar e ser amados

PRÓLOGO

KAI

Os corredores estão assustadoramente vazios a esta hora.


Assim como acontece todos os anos.
Eu levo meu tempo andando por eles, roubando essa lasca de paz para mim.
Embora a felicidade roubada seja pouco mais que um caos sufocado.
Eu escolho ignorar esse pensamento enquanto viro por um corredor escuro,
meus passos suaves sobre o tapete esmeralda. Um castelo adormecido é
reconfortante, a solidão é uma raridade entre a realeza.
Real.
Quase me permito rir do título. Frequentemente esqueço o que eu era antes
do que me tornei. Um príncipe antes do Executor. Um garoto antes do monstro.
Mas, hoje, eu não sou ninguém. Hoje, eu simplesmente consigo estar com
quem deveria estar.
Uma luz suave vaza por baixo das portas da cozinha. Eu consigo dar um leve
sorriso à vista.
Todo ano. Ela está sempre aqui todo ano.
Abro as portas gentilmente e entro na poça de luz lançada por várias velas
tremeluzentes. O cheiro doce de massa e canela paira no ar, envolvendo-me em
calor e memórias.
— Você acorda mais cedo a cada ano.
Eu encontro o sorriso de Gail com um pequeno sorriso meu. Seu avental está
polvilhado com canela, seu rosto manchado de farinha. Eu me ergo para o
mesmo balcão em que me sento desde que era grande o suficiente para
alcançá-lo - minhas palmas achatadas atrás de mim, cicatrizes pegajosas do
balcão.
Há conforto na normalidade de tudo isso.
Sorrio para a mulher que quase me criou, um único ombro levantado em um
dar de ombros preguiçoso.
— A cada ano eu durmo menos.
Quando suas mãos encontram seus quadris, sei que ela está lutando contra a
vontade de me repreender.
— Você me preocupa, Kai.
— Quando não fiz isso? — pergunto, despreocupadamente.
— Estou falando sério. — Ela balança um dedo, gesticulando para mim inteira.
— Você é jovem demais para lidar com tudo isso. Parece que foi ontem que vocês
estavam correndo pela minha cozinha, você e Kitt… — Ela para de falar ao
mencioná-lo, forçando-me a ressuscitar a conversa moribunda.
— Na verdade, eu vim do escritório do meu pai — paro o suficiente para
suspirar pelo nariz — do Kitt.
Gail assente lentamente.
— Ele não saiu de lá desde sua coroação, saiu?
— Não, ele não saiu. E eu também não fiquei lá muito tempo.— Passo a mão
pelo meu cabelo desgrenhado. — Ele estava apenas me informando sobre minha
primeira missão
Ela fica quieta por um longo momento. — É ela, não é?
Eu aceno.
— É ela.
— E você vai-
— Vou completar a missão? Fazer o que me mandaram? — Termino por ela. —
Claro. É meu dever.
Outra longa pausa.
— E ele lembrou que dia é hoje?
Eu olho para cima lentamente, sorrindo tristemente enquanto encontro o
olhar dela.
— Não é trabalho dele lembrar.
— Certo — ela suspira. — Bom, eu só fiz um esse ano mesmo. Imaginei que ele
não conseguiria se juntar a você.
Ela se afasta, revelando um pãozinho pegajoso e brilhante ao lado do forno. Eu
deslizo do balcão, sorrindo enquanto caminho até ela. Só depois que eu a beijei
na bochecha é que ela me entrega o prato.
— Agora, vá em frente — ela manda. — Vá passar um tempo com ela.
— Obrigada, Gail — digo suavemente. — Por cada ano.
— E o resto vem depois. — Ela pisca antes de me empurrar em direção à porta.
Olho de volta para ela, para esta mulher que foi uma mãe para mim quando a
rainha não pôde ser. Ela era abraços calorosos e afeição, repreensões bem
merecidas e aprovação muito desejada. Temo onde os irmãos Azer estariam sem
ela.
— Kai?
Estou na metade da porta quando paro para olhar para ela.
— Todos nós a amávamos — ela diz calmamente.
— Eu sei. — Eu concordo. — Ela sabia.
E então meus pés me carregam para o corredor escuro além.
O pãozinho pegajoso em cima do prato na minha mão é tentador, cheirando a
canela, açúcar e tempos mais simples. Mas, em vez disso, eu me forço a focar em
andar pelo caminho familiar para os jardins, o mesmo que eu pego nesta época
todo ano, vindo das cozinhas.
Não demora muito para que eu esteja indo em direção às portas largas que
me separam dos jardins além. Mal olho para os Imperiais de guarda ou para os
que dormem inutilmente ao lado deles. Os poucos que estão acordados fingem
não notar o pãozinho pegajoso que estou carregando para a escuridão comigo.
Sigo o caminho de pedra entre as fileiras de flores coloridas que não consigo
distinguir nas sombras. Estátuas cobertas de hera cobrem o jardim, vários
pedaços de pedra faltando depois de levar muitos tombos que certamente não
tiveram nada a ver comigo. A fonte ondula no centro de tudo, me lembrando de
dias sufocantes e da estupidez compreensível que fez Kitt e eu pularmos nela.
Mas é pelo que está além dos jardins que estou aqui.
Saio para o trecho macio de grama que antes era coberto de ugs coloridos
para o segundo baile do Trial. Não me permitindo relembrar mais nada daquela
noite, sigo o luar que acaricia seus dedos pálidos sobre o contorno dela.
O salgueiro parece assustadoramente sedutor, suas folhas farfalhando na
brisa suave. Eu corro meus olhos sobre cada galho caído. Sobre cada raiz
rompendo a terra. Cada centímetro é lindo e forte.
Eu empurro através da cortina de folhas para pisar sob a árvore que visito
sempre que a vida permite, mas sempre neste dia com um pãozinho pegajoso na
mão. Eu corro meus dedos ao longo da casca áspera do tronco, seguindo seus
sulcos familiares.
Não demora muito para que eu tome meu assento familiar sob a árvore alta,
colocando um braço sobre meu joelho apoiado. Equilibrando o prato em cima de
uma raiz particularmente grande, tiro uma pequena caixa de fósforos do meu
bolso.
— Não consegui encontrar uma vela este ano, desculpe. — Risquei o fósforo,
olhando para a pequena chama que agora crepitava no palito. — Então isso vai
ter que servir.
Eu empurro o fósforo para o centro do pãozinho pegajoso, sorrindo levemente
para a visão patética. Eu levo um momento para vê-lo queimar, vê-lo pintar a
árvore enorme em um brilho bruxuleante.
Então olho para o meu lado e passo a mão na grama macia ali.
— Feliz aniversário, A.
Apago a vela improvisada, deixando a escuridão nos engolir por completo.
CAPÍTULO 1

PAEDYN

Meu sangue só é útil se conseguir ficar dentro do meu corpo.


Minha mente só é útil se ela conseguir não se perder.
Meu coração só é útil se ele não for partido.
Bem, parece que me tornei completamente inútil, então.
Meus olhos percorrem as tábuas do assoalho sob meus pés, vagando sobre o
chão gasto madeira. A mera visão do chão familiar me inunda de memórias, e eu
luto para piscar para afastar as imagens fugazes de pés pequenos em cima de
outros de botas grandes enquanto eles pisavam no ritmo de uma melodia
familiar. Eu balanço minha cabeça, tentando sacudir a memória dela, apesar de
desejar desesperadamente poder viver no passado, vendo que meu presente não
é o mais agradável no momento.
... dezesseis, dezessete, dezoito-
Eu sorrio, ignorando a dor que aperta minha pele.
Encontrei você.
Meu passo é instável e rígido, músculos doloridos se esforçando a cada passo
em direção ao piso aparentemente normal. Eu caio de joelhos, mordendo minha
língua contra a dor, e arranho a madeira com dedos manchados de vermelho que
eu luto para ignorar.
O chão parece ser tão teimoso quanto eu, recusando-se a ceder. Eu teria
admirado sua resiliência se não fosse um maldito pedaço de madeira.
Não tenho tempo para isso. Preciso sair daqui.
Um som frustrado sai da minha garganta antes que eu pisque para o quadro,
dizendo abruptamente:
— Eu poderia jurar que você era o compartimento secreto. Você não é o
décimo nono andar da porta?
Estou olhando fixamente para a madeira antes que uma risada histérica escape
dos meus lábios, e eu inclino minha cabeça para trás para sacudi-la para o teto.
— Pela Praga, agora estou falando com o chão — murmuro, mais uma prova de
que estou perdendo a cabeça.
Embora, não seja como se eu tivesse mais alguém para conversar.
Já faz três dias desde que tropecei de volta para a casa da minha infância,
assombrada e meio morta. E ainda assim, tanto minha mente quanto meu corpo
estão longe de estarem curados.
Posso ter evitado a morte com cada golpe da espada do rei, mas ele ainda
conseguiu matar uma parte de mim naquele dia após o Julgamento final. Suas
palavras cortaram mais fundo do que sua lâmina jamais poderia, cortando-me
com lascas de verdades enquanto ele brincava comigo, me provocava, me
contava sobre a morte do meu pai com um sorriso puxando seus lábios.
— Você não quer saber quem matou seu pai?
Um arrepio percorre minha espinha enquanto a voz fria do rei ecoa em meu
crânio.
“— Digamos que seu primeiro encontro com um príncipe não foi quando você
salvou Kai no beco.”
Se traição fosse uma arma, ele a concedeu a mim naquele dia, enfiando a
lâmina cega em meu coração partido. Solto um suspiro trêmulo, afastando os
pensamentos do garoto com olhos cinzentos tão penetrantes quanto a espada
que o vi enfiar no peito do meu pai tantos anos atrás.
Cambaleando para ficar de pé, eu transfiro meu peso sobre as tábuas do
assoalho ao redor, ouvindo um rangido indicativo enquanto giro distraidamente
o anel de prata no meu polegar. Meu corpo dói por todo o corpo, meus ossos
parecem muito frágeis. Os ferimentos que ganhei da minha luta com o rei foram
rapidamente tratados, o resultado de dedos trêmulos e soluços silenciosos que
deixaram minha visão turva e pontos desleixados.
Depois de mancar da Arena Bowl em direção a Alameda dos Larápios, tropecei
no barraco branco que eu chamava de lar e que a Resistência chamava de
quartel-general. Mas fui recebido com vazio. Não havia rostos familiares
preenchendo a sala secreta sob meus pés, deixando-me com nada além de
minha dor e confusão.
Eu estava sozinha - estive sozinha - deixado para limpar a bagunça que é meu
corpo, meu cérebro, meu coração sangrando.
A madeira abaixo de mim geme. Eu sorrio.
Mais uma vez estou no chão, erguendo uma viga para revelar um
compartimento sombrio abaixo. Balanço a cabeça para mim mesmo,
murmurando:
— É a décima nona tábua do chão da janela, não da porta, Pae…
Alcanço a escuridão, dedos se curvando em volta do punho desconhecido de
uma adaga. Meu coração dói mais do que meu corpo, desejando sentir o cabo de
aço rodopiante da arma do meu pai contra minha palma.
Mas eu escolhi o derramamento de sangue em vez do sentimento quando
joguei minha amada lâmina na garganta do rei. E meu único arrependimento é
que ele a encontrou, prometendo devolvê-la somente quando ele a apunhalasse
nas minhas costas.
Olhos azuis vazios piscam para mim no reflexo da lâmina brilhante que levanto
para a luz, me assustando o suficiente para interromper meus pensamentos
odiosos. Minha pele está salpicada de fatias, coberta de cortes. Engulo em seco
ao ver o corte viajando pela lateral do meu pescoço, deslizo os dedos sobre a
pele irregular. Balançando a cabeça, deslizo a adaga na minha bota, guardando
meu reflexo assustado com ela.
Vejo um arco e sua aljava de flechas afiadas escondidos no compartimento, e a
sombra de um sorriso triste cruza meu rosto ao lembrar do meu pai me
ensinando a atirar, a árvore retorcida atrás da nossa casa é meu único alvo.
Pendurando o arco e a aljava nas costas, eu peneiro as outras armas escondidas
sob o chão. Depois de jogar algumas facas de arremesso afiadas na minha
mochila, onde elas se juntaram às rações, cobertor, cantis de água e as poucas
roupas amassadas que eu tinha enfiado às pressas dentro, eu me esforço para
ficar de pé.
Nunca me senti tão delicada, tão danificada. O pensamento me faz inchar de
raiva, me faz arrancar uma faca da cintura e coçar para cravá-la na parede de
madeira gasta diante de mim. Uma dor lancinante dispara pelo meu braço
erguido quando a marca acima do meu coração puxa junto com o movimento.
Um lembrete. Uma representação do que eu sou. Ou melhor, do que eu não
sou.
C de comum.
Eu mando a faca voando, cravando-a na madeira com dentes cerrados. A
cicatriz arde, regozijando-se de sua existência infinita em meu corpo.
“—... Deixarei minha marca em seu coração, para que você não esqueça quem o
quebrou."
Eu vou até a lâmina, pronto para arrancá-la da parede, quando a tábua sob
meu pé range, chamando minha atenção. Apesar de saber que tábuas frágeis do
assoalho são tudo menos estranhas às casas nas favelas, minha curiosidade me
faz me curvar para investigar.
Se cada tábua que range fosse um compartimento, nosso chão estaria cheio
delas.
A madeira se levanta e minhas sobrancelhas fazem o mesmo, subindo pela
minha testa em choque. Solto uma risada sem humor enquanto alcanço as
sombras do compartimento que eu não sabia que existia.
Que tolice minha pensar que a Resistência era o único segredo que meu pai
guardava de mim.
Meus dedos roçam couro gasto antes de eu puxar um livro grande, abarrotado
de papéis que ameaçam cair. Folheio-o, reconhecendo a letra bagunçada de um
Curandeiro.
O Diário do pai.
Enfio-o na mochila, sabendo que não tenho tempo nem segurança para
estudar seu trabalho agora. Estou aqui há muito tempo, passei muitos dias ferido
e fraco e preocupado em ser encontrado.
A Visão que me testemunhou assassinar o rei provavelmente exibiu essa
imagem por todo o reino. Preciso sair de Ilya, e já desperdicei a vantagem que
ele tão graciosamente me deu.
Eu sigo meu caminho até a porta, pronto para sair e ir para as ruas onde
posso desaparecer no caos que é Loot. De lá, tentarei atravessar as Scorches
para a cidade de Dor, onde Elites não existem e Ordinary é tudo o que eles
conhecem.
Alcançando a porta e a rua silenciosa além-
Eu paro, com a mão estendida.
Quieto.
É quase meio-dia, o que significa que Loot e as ruas ao redor devem estar
lotadas de comerciantes xingando e crianças gritando enquanto as favelas
fervilham de cor e comoção.
Algo não está certo-
A porta estremece, algo-alguém-batendo nela do lado de fora. Eu pulo para
trás, olhos correndo ao redor da sala. Eu contemplo me abaixar pela escada
secreta para a sala abaixo que realizou as reuniões da Resistência, mas o
pensamento de ser encurralado lá embaixo me deixa enjoado. É quando meu
olhar se volta para a lareira, e eu suspiro de aborrecimento, apesar da minha
situação atual.
Como é que eu sempre acabo numa chaminé?
A porta se abre com um estrondo antes que eu chegasse à metade da parede
suja, meus pés plantados em ambos os lados enquanto tijolos cravam em minhas
costas.
Forte.
Somente um Elite com força extraordinária seria capaz de quebrar minha
porta trancada e trancada tão rapidamente. O som de botas pesadas me fez
imaginar que cinco Imperiais acabaram de entrar em minha casa.
— Não fique aí parado. Procure no lugar e me convença de que você é útil.
Um arrepio percorre minha espinha ao som daquela voz fria, a que ouvi soar
como uma carícia e um comando. Eu enrijeço, escorregando levemente pela
parede fuliginosa.
Ele está aqui.
A voz que se segue é grave, pertencente a um Imperial.
— Você ouviu o Executor. Mexa-se."
O Executor.
Mordo minha língua, não sei se é para me impedir de soltar uma risada amarga
ou um grito. Meu sangue ferve com o título, me lembrando de tudo o que ele fez,
de cada mal que ele cometeu na sombra do rei. Primeiro por seu pai, e agora por
seu irmão — graças a mim por livrá-lo do primeiro.
Só que ele não está me agradecendo. Não, ele veio para me matar.
— Talvez quando eu me livrar de você, eu encontre minha coragem. Então, estou
te dando uma vantagem.
Essa vantagem inicial me fez muito bem.
Não posso arriscar ser ouvido subindo pela chaminé, então espero, ouvindo
passos pesados pisando forte pela casa em busca de mim. Minhas pernas estão
começando a tremer, esforçando-se para me segurar enquanto cada ferimento
me faz estremecer de dor.
— Verifique as estantes de livros no escritório. Deve haver uma passagem
secreta atrás de uma delas — ordena o Executor secamente, parecendo
entediado.
Mais uma vez, me encontro enrijecendo. Um membro da Resistência deve ter
confessado esse pequeno segredo depois que ele o torturou para fora deles. Meu
pulso acelera ao pensar na luta após o Trial final no Bowl quando comuns, fatais,
e os imperiais se enfrentaram em uma batalha sangrenta. Uma batalha sangrenta
da qual ainda não sei o resultado.
Os passos dos Imperiais ficam distantes, os sons de sua busca diminuem à
medida que eles descem as escadas e entram na sala abaixo.
Quieto.
E ainda assim, eu sei que ele ainda está nesta sala. Apenas uma quantidade
débil de pés nos separa. Eu posso praticamente sentir sua presença, assim como
senti o calor de seu corpo contra o meu, o calor de seu olhar cinza enquanto ele
me varria.
Uma tábua do assoalho range. Ele está perto. Estou tremendo de raiva, a
vingança correndo pelo meu sangue e desejando desesperadamente derramar o
dele. É uma coisa boa que eu não possa ver o rosto dele porque se eu visse uma
de suas covinhas idiotas agora, eu não seria capaz de me impedir de tentar
arrancá-la do rosto dele.
Mas eu estabilizo minha respiração, sabendo que se eu lutar com ele agora,
minha fúria não será o suficiente para derrotá-lo. E pretendo vencer quando
finalmente enfrentar o Executor.
— Imagino que você tenha imaginado meu rosto quando jogou aquela faca. —
Sua voz é baixa, pensativa, soando muito mais como o garoto que eu conhecia.
Memórias dele inundam minha mente, conseguindo fazer meu coração disparar.
— Não é mesmo, Paedyn? — E aí está. A ponta está de volta na voz do Executor,
apagando Kai e deixando um comandante.
Meu coração bate forte contra minha caixa torácica.
Ele não pode saber que estou aqui. Como ele poderia-
O som de uma lâmina rasgando madeira lascada me diz que ele arrancou
minha faca da parede. Ouço um barulho familiar de estalo e posso praticamente
imaginá-lo girando a arma em sua mão sem pensar.
— Diga-me, meu bem, você pensa em mim com frequência? — Sua voz é um
murmúrio, como se seus lábios estivessem pressionados contra meu ouvido. Eu
tremo, sabendo exatamente como é isso.
Se ele sabe que estou aqui, então por que não…
— Eu assombro seus sonhos, atormento seus pensamentos, assim como você
assombra os meus?
Minha respiração fica presa.
Então ele não sabe que estou aqui, eu tenho certeza.
Sua admissão me disse isso.
Como um ser comum que foi treinado e transformado em um psíquico, meu
pai me ensinou a ler as pessoas, a reunir informações e observações em questão
de segundos.
E tive muito mais do que alguns segundos para ler Kai Azer.
Eu vi através de suas muitas máscaras e fachadas, vislumbrando o garoto por
baixo e crescendo para conhecê-lo, cuidar dele. E com toda a traição agora entre
nós, eu sei que ele não declararia sonhar comigo se soubesse que eu estava
bebendo cada palavra.
Ouço o humor em sua voz enquanto ele suspira.
— Onde você está, Pequena Psíquica?
O apelido dele é risível, visto que ele e o resto do reino agora sabem que eu
sou tudo menos isso. Tudo menos Elite.
Nada além de comum.
A fuligem arde no meu nariz e tenho que tapá-lo com a mão para segurar um
espirro, o que me faz lembrar das minhas muitas noites roubando nas lojas que
ficam ao longo do Loot antes de escapar pelas chaminés apertadas.
Apertado. Preso. Sufocante.
Meus olhos correm pelos tijolos que me cercam na escuridão. O espaço é tão
pequeno, tão abafado, me fazendo entrar em pânico tão facilmente.
Acalmar.
A claustrofobia escolhe os piores momentos para vir à tona e me lembrar da
minha impotência.
Respirar.
Eu sim. Profundamente. A mão ainda presa sobre meu nariz cheira levemente
a metal - afiado e forte e ardendo meu nariz.
Sangue.
Eu puxo a mão trêmula para longe do meu rosto, e embora eu não consiga ver
o carmesim manchando meus dedos, eu posso praticamente senti-lo grudado
em mim. Ainda há sangue incrustado sob minhas unhas rachadas, e eu não sei se
é meu, do rei, ou-
Eu respiro fundo, tentando me recompor. O Executor paira muito perto de
mim, andando de um lado para o outro no chão, a madeira rangendo sob ele a
cada passo.
Ser pega porque comecei a soluçar seria tão embaraçoso quanto ser pego
espirrando.
E eu me recuso a fazer qualquer uma das duas coisas.
Em algum momento, os Imperiais pisam forte de volta para a sala abaixo de
mim.
— Nenhum sinal dela, Vossa Alteza.
Há uma longa pausa antes de sua alteza suspirar.
— Exatamente como eu pensava. Vocês são todos inúteis. — Suas próximas
palavras são mais afiadas do que a lâmina que ele gira casualmente em sua mão.
— Saiam.
Os imperiais não perdem um único segundo antes de correrem em direção à
porta e para longe dele. Eu não os culpo.
Mas ele ainda está aqui, não deixando nada além de silêncio para se estender
entre nós. Tenho uma mão apertada sobre meu nariz novamente, e o cheiro de
sangue combinado com a chaminé apertada faz minha cabeça girar.
Memórias inundam minha mente — meu corpo coberto de sangue, meus
gritos enquanto eu tentava esfregá-lo, só conseguindo manchar minha pele de
um vermelho nauseante. A visão e o cheiro de tanto sangue me deixaram doente,
me fizeram pensar em meu pai sangrando em meus braços, em Adena fazendo o
mesmo.
Adena.
Lágrimas picam meus olhos, me forçando a piscar para afastar a imagem de
seu corpo sem vida no Poço arenoso. O fedor metálico de sangue enche meu
nariz novamente, e eu não suporto sentir o cheiro, olhar para ele, senti-lo-
Respirar.
Um suspiro pesado corta meus pensamentos. Ele parece tão cansado quanto
eu me sinto.
— É uma coisa boa você não estar aqui — ele diz suavemente, um tom que eu
nunca pensei que ouviria dele novamente. — Porque eu ainda não encontrei
minha coragem.
E então minha casa explode em chamas.
CAPÍTULO 2

KAI

Chamas lambem meus calcanhares enquanto caminho calmamente em direção à


porta.
Ondas de calor batem em minhas costas; fios de fumaça grudam em minhas
roupas. Saio para a tarde nublada, agora ainda mais poluída pelas nuvens
ondulantes de fumaça subindo para o céu.
Meus lábios se contraem diante do olhar de choque nos rostos dos meus
Imperiais, acompanhado pelas mandíbulas desequilibradas que eles lutam para
fechar enquanto as chamas consomem a casa atrás de mim. Seus olhares se
movem lentamente para mim, conseguindo alcançar até a minha gola antes de se
moverem desconfortavelmente em seus pés.
Eles param quando eu caminho em sua direção com facilidade.
Eles acham que eu enlouqueci.
Vidros se estilhaçam quando uma janela estoura atrás de mim, espalhando
cacos de bordas afiadas na rua. Os imperiais recuam, cobrindo seus rostos. A
visão me faz sorrir.
Talvez eles estejam certos. Talvez eu tenha enlouquecido.
Louco de preocupação, de raiva, de traição.
A tensão continuamente se enrolando pelo meu corpo parece ser a única
constante na minha vida, resultando em ombros rígidos e uma mandíbula
travada. Meus dedos tamborilam contra a adaga ao meu lado, me tentando a
descontar minha frustração em um dos muitos Imperiais inúteis.
Eu traço o aço rodopiante no punho, o padrão familiar sob as pontas dos meus
dedos. Como eu poderia esquecer a adaga que foi segurada contra minha garganta
tantas vezes?
Como eu poderia esquecer a adaga que tirei do pescoço decepado do meu pai?
Já faz três dias desde que vi o punho desta mesma arma saindo da garganta do
rei. Três dias para lamentar, e ainda assim, não derramei uma única lágrima. Três
dias para me preparar, e ainda assim, nenhum plano realmente me libertará dela.
Três dias para ser simplesmente Kitt e Kai antes-irmãos de nos tornarmos rei e
Executor.
E agora ela está na frente.
Embora pareça que ela usou isso sabiamente - aproveitou minha fraqueza,
minha covardia, meus sentimentos por ela e correu. Eu giro para encarar as
chamas, observando o caos colorido enquanto o fogo consome sua casa em
vermelho, laranja, fumaça preta espessa e -
Prata.
Pisco, apertando os olhos através da fumaça sufocante para o teto em colapso.
Mas não há nada ali, nenhum sinal do brilho que vi há um momento. Passo a mão
pelo meu cabelo antes de pressionar as palmas das mãos contra os olhos
cansados.
Sim, eu realmente enlouqueci.
— Senhor!
Eu abaixo minhas mãos, lentamente fixando meu olhar no Imperial corajoso o
suficiente para gritar comigo. Ele limpa a garganta, provavelmente se
arrependendo daquela decisão.
— Eu, uh, eu acho que vi algo, Vossa Alteza.
Ele aponta para o teto em chamas, a fumaça se deslocando enquanto uma
figura tropeça nas chamas. Uma figura com cabelos prateados.
Então ela está aqui.
Não consigo decidir se estou aliviado ou não.
— Traga-a para mim.
Meu comando ressoa, e os Imperiais não perdem o ritmo. E, aparentemente,
ela também não. Eu mal consigo vê-la antes que ela pule da beirada do telhado
em ruínas para o vizinho, as pernas saltando assim que ela encontra o equilíbrio.
Imperiais correm pela rua abaixo, Robustos e Escudos tornados
completamente inúteis enquanto ela pula de telhado em telhado. Eu penteio
meu cabelo novamente antes de arrastá-lo pelo meu rosto, sem surpresa com a
incompetência deles.
Eu viro a faca que arranquei da parede na minha mão antes de sair correndo
pela rua, rapidamente alcançando meus Imperiais. Sinto cada um dos poderes
deles zumbindo sob minha pele, implorando para serem liberados. Mas suas
habilidades são inúteis para mim a menos que eu consiga derrubá-la, me fazendo
me arrepender de não ter trazido um Tele que poderia colocá-la na rua antes de
mim com nada além de um pensamento.
Ela só consegue ficar nos telhados se conseguir pular entre eles. E é por isso
que, com um movimento do meu pulso, eu mando a faca voando em sua direção.
Eu observo enquanto ele encontra seu alvo, cortando sua coxa enquanto ela
salta. Seu grito de dor me faz estremecer, uma ação que é tão frustrante quanto
estranha para mim.
Ela bate forte no telhado plano, rolando em uma tentativa fraca de diminuir a
queda. Eu a observo cambaleando para ficar de pé, com sangue escorrendo pela
perna. Suas feições estão confusas a essa distância, e quase consigo fingir que
ela é simplesmente uma figura esquecida mancando até a beirada de um telhado.
Ela não é idiota. Ela sabe que não pode dar o salto.
Meu olhar se volta para os Imperiais olhando para ela.
— Devo fazer tudo por você? — Minha voz é fria. — Vá buscá-la.
Mas então meus olhos vagam de volta para o telhado. Vazio.
Foi tolice minha pensar que ela tornaria isso fácil.
— Encontre-a — eu lati, cerrando os dentes contra uma série de xingamentos.
Os imperiais se separaram, correndo em direções opostas pelas ruas que eu
tinha certeza de que estariam praticamente vazias por esse exato motivo. A
habilidade de um ladrão de se misturar é alarmante, permitindo que eles sejam
engolidos pelo caos, perdidos em uma multidão. E ela faria exatamente isso se eu
não tivesse limpado a rua/favela naquele dia.
Desço a rua a passos largos, olhando para os becos adjacentes que se projetam
dela.
Gritos abafados ecoam nas casas e lojas decadentes. Continuo minha busca
silenciosamente, os pés vacilando quando avisto uma figura caída no final de um
beco escuro.
Eu me agacho ao lado do Imperial, olhos vagando por seu uniforme antes
branco, agora encharcado de sangue. Scarlet escorre de uma faca de arremesso
enterrada profundamente em seu peito, escorrendo sobre as dobras nítidas de
seu uniforme.
Ela é uma coisinha cruel.
Meus dedos estão em sua garganta, verificando o pulso, apesar de saber que
não sentirei sua batida familiar. Suspiro, deixando minha cabeça cair em minhas
mãos. Meu corpo inteiro parece pesado de exaustão, sobrecarregado por minhas
preocupações.
Enterrei alguém que tentou matá-la uma vez.
Simplesmente porque eu sabia que era algo que ela iria querer. Eu carreguei o
corpo morto de Sadie pela escura Floresta dos Sussurros durante aquele
primeiro Julgamento porque eu sabia que Paedyn estava desmoronando quando
eu a deixei para girar aquele anel em seu polegar. Se dependesse de mim, eu
nunca teria enterrado o corpo de alguém que tentou matá-la. Mas eu não estava
pensando em mim quando fiz isso.
A morte é familiar para mim, tanto amiga quanto inimiga, e muito frequente
em minha vida. Mas para ela, a Morte é devastação, não importa sua vítima.
Imagino que ela esteja girando o anel no polegar neste exato momento,
mordendo o interior da bochecha enquanto se obriga a fugir do homem que
acabou de matar em vez de cavar uma cova para ele, como sei que ela deseja
desesperadamente.
— Ela teria enterrado você se não estivesse tão ocupada fugindo de mim,
sabia? — murmuro para o corpo ao meu lado, confirmando que, de fato,
enlouqueci. Levanto a máscara branca do Imperial do rosto, me dando uma visão
melhor de seus olhos castanhos vítreos antes de fechar suas pálpebras. — Então
o mínimo que posso fazer é enterrá-lo para ela.
Eu nunca pensei duas vezes no que aconteceu com os corpos dos meus
soldados. E ainda assim, aqui estou eu, carregando um homem sobre meus
ombros por causa de uma garota que despreza distribuir a morte. Eu resmungo
sob o peso do Imperial, me perguntando por que diabos estou me incomodando
com isso.
O que ela fez comigo?
Seu corpo flácido balança sobre meu ombro a cada passo que dou.
Será que o túmulo dela será o próximo que eu cavarei?
CAPÍTULO 3

PAEDYN

Estou chocada que ele não consegue ouvir meu coração batendo forte, sentir
meu olhar ardente percorrendo-o.
Eu me mexo, meu estômago deslizando pelo telhado áspero enquanto espio
pela borda. A dor queima minha perna, chamando minha atenção para o corte
grosseiramente enfaixado na minha coxa. Mordo minha língua, segurando um
grito junto com uma série de palavrões coloridos. A bainha rasgada às pressas da
minha camisa reserva já está com um tom repugnante de carmesim sobre o
ferimento, me forçando a voltar minha atenção para a figura abaixo, incapaz de
suportar a visão dela.
Mas eu também não suporto vê-lo.
Eu já sei qual seria o comentário dele se eu tivesse dito isso na sua cara
sorridente: Você é uma péssima mentirosa, Gray.
Meus olhos reviram com o pensamento antes de viajarem sobre ele,
observando suas ondas pretas bagunçadas caindo onde bem entendem em sua
testa. Ele está agachado ao lado do Imperial que eu presenteei com uma faca no
peito, seu perfil sombrio, olhos cinzentos passando rapidamente pelo rosto do
homem. Então ele deixa a cabeça cair nas mãos, parecendo igualmente frustrado
e cansado.
A visão do Executor me enche de raiva, mas me forço a focar nele em vez do
sangue que escorre pelo uniforme branco do Imperial.
Engulo em seco, sentindo-me subitamente enjoada com o pensamento.
Lágrimas arderam em meus olhos quando deixei a faca voar para o peito do
homem, turvando minha visão enquanto seu corpo desabava no chão.
Sinto muito. Sinto muito, muito mesmo.
Não sei se ele ouviu meu pedido de desculpas suplicante, não sei se ele viu a
tristeza em meus olhos antes de eu me arrastar para o telhado de uma loja,
quando o som de passos ecoou nas paredes.
Pisco para afastar a lembrança, as lágrimas e, em vez disso, escolho me
concentrar no Executor a poucos metros de mim.
Eu poderia matá-lo. Aqui mesmo, agora mesmo.
De repente, outra faca de arremesso está presa entre meus dedos manchados
e minha mão trêmula.
— Prometa que vai ficar viva por tempo suficiente para me dar uma facada nas
costas?
Suas palavras para mim depois daquele primeiro baile ecoam em minha mente.
Eu poderia cumprir essa promessa.
Com a forma como ele está posicionado, suas costas estão exatamente onde
eu enterraria esta lâmina. O punho da adaga fica suado na minha palma, mas eu
aperto meu aperto.
Faça isso.
De repente, há um nó na minha garganta que eu tento furiosamente engolir. O
garoto abaixo de mim matou meu pai, matou dezenas de Comuns em nome do
rei. E eu sou seu próximo alvo.
Odeio como estou hesitando.
Faça. Isso.
Levanto meu braço, dedos tremendo ao redor da faca. O movimento faz minha
marca queimar, esticando a pele e o lembrete gravado ali.
C de comum.
De repente, ele se move, levantando a máscara do Imperial e fechando seus
olhos cegos com uma gentileza que não pertence ao Executor — uma gentileza
que eu gostaria de não ter testemunhado.
— Ela teria enterrado você se não estivesse tão ocupada fugindo de mim,
sabia?
Minha respiração fica acelerada; meu coração dispara.
Ele está certo. Eu teria arrastado esse homem até o pedaço de terra mais
próximo e o enterrado no chão se pudesse. Como se isso fosse consertar o erro
que eu cometi. Como se isso fosse compensar o fato de que eu nunca enterrei
meu melhor amigo ou pai.
A simetria em suas mortes era repugnante: ambos sangraram em meus braços
antes de eu correr.
— Então o mínimo que posso fazer é enterrar você por ela.
Aquela frase suave me corta como uma faca, fazendo-me quase derrubar a que
estava agarrada em minha mão. Eu olho, atordoada, enquanto ele levanta o
homem sobre o ombro e cambaleia para ficar de pé.
kai.
É quem eu vejo diante de mim. Não o Executor. Nenhuma das muitas máscaras
que ele coloca. Só ele.
Eu odeio isso.
Eu odeio ter tido a chance de ver aquele garoto de novo. Porque é muito mais
fácil odiá-lo quando não é ele que eu odeio, mas o Executor em que ele foi
moldado.
Eu o observo enquanto ele sai do beco com o homem que matei pendurado
no ombro. Kai não faz nada sem razão, me deixando perplexo com sua gentileza.
E quando ele desaparece na esquina, de repente me pergunto por que
demonstrei tanta gentileza.

As estrelas são coisas sedutoras, sempre piscando na escuridão.


Mas eles são uma boa companhia, me cercando com suas inúmeras
constelações. Estou deitada no telhado desta loja decadente há horas,
observando o dia derreter no crepúsculo e o crepúsculo desaparecer na
escuridão.
O sol já tinha afundado profundamente no horizonte antes que os gritos
ecoantes dos Imperiais lentamente se apagassem. Eventualmente, os sons de
suas botas arrastando-se em paralelepípedos irregulares morreram enquanto eu
olhava para o céu, desejando que ele escurecesse.
Quando os últimos fios roxos sangram do dossel de nuvens, deixando um
cobertor preto sufocando todo Ilya, finalmente me levanto e me estico. Meu
corpo dói, uma sensação com a qual me familiarizei, mas a ferida recente que
ganhei hoje é especialmente dolorosa. Com o movimento repentino, o sangue
começa a escorrer pela minha coxa, abrindo um caminho vermelho pela minha
perna. Não suporto a sensação pegajosa, lembrando-me do sangue que nunca
serei capaz de lavar das minhas mãos. Descer do telhado é um processo
vergonhosamente lento, mas assim que meus pés tocam a rua, estou
escorregando para as sombras. Manco por becos tranquilos, evitando os
moradores de rua que começaram a se encolher de volta em seus cantos
familiares para a noite.
Há imperiais rastejando por todo lugar. Eles andam silenciosamente pelas
ruas, cabeças girando, olhos procurando por mim na escuridão. Isso faz as coisas
ambos complicados e completamente irritantes. Eu os desvio na luz moribunda,
fazendo o meu melhor para não deixar um rastro de sangue nos paralelepípedos
enquanto ziguezagueio pelos becos.
Eu entro em uma rua escura cheia de pedras irregulares.
Uma mão áspera aperta meu ombro, o aperto é tudo menos gentil. Abaixo a
cabeça, pegando botas pretas oleadas com o canto do olho enquanto o cheiro de
amido me atinge. Não hesito antes de engatar meu pé no tornozelo do homem e
puxá-lo, fazendo-o cair no chão, assustado. Estou sobre ele em questão de
segundos, deslizando a adaga da minha bota e enviando o cabo dela contra sua
têmpora, silenciando seu grito estrangulado de surpresa.
O magro Imperial é pouco mais que um garoto, agora deitado em uma pilha
inconsciente sobre os paralelepípedos sombreados. Meu coração bate
descontroladamente, me forçando a respirar antes de lutar para arrastá-lo mais
para dentro do beco, escondendo-o mais profundamente na escuridão.
Chegar aos arredores do Deserto Escaldante é uma jornada lenta e
extremamente frustrante. Nunca imaginei que ficaria aliviado ao ver a grande
extensão de areia diante de mim, mas depois de horas me esgueirando nas
sombras e evitando por pouco ser pego, a visão é o suficiente para me fazer
sorrir, apesar da pontada de dor que causa.
Há muito poucos Imperias parados na fronteira dos Deserto Escaldante, visto
que os cidadãos de Dor e Tando sabem que é melhor não visitar Ilya e ser
confundido com um Ordinário. Isolamento é o que Ilya faz de melhor, garantindo
que a sociedade Elite continue a prosperar sem ser contaminada por aqueles
sem habilidades.
O pensamento me deixa com raiva. A verdade disso me deixa doente.
E com a fúria alimentando cada um dos meus passos, começo a pisar forte na
areia. Ela se move sob minhas botas antes de finalmente escorregar nelas,
tornando essa jornada impossivelmente mais desconfortável.
As horas passam enquanto eu sigo adiante. Eu me ocupo quebrando a cabeça
cansada, tentando lembrar dos mapas que meu pai espalhava na minha frente
quando eu era criança. Não tenho certeza de quão longe o deserto se estende, o
que me faz sentir completamente tolo por pensar que eu poderia sobreviver a
isso com meus ferimentos.
Como se eu tivesse outras opções.
Suspiro, me submetendo ao fato de que a Morte me encurralou por todos os
lados, me forçando a encará-la de frente. Minha memória dos mapas é vaga, mas
suspeito que se eu continuar no meu ritmo atual, chegarei a Dor em
aproximadamente cinco dias. Isto é, se eu conseguir andar por quase todo o
tempo — o que poderia potencialmente terminar em meu colapso, permitindo
que a Morte finalmente me reivindicasse.
Bem, só há uma maneira de descobrir.
A noite fica fria, a temperatura cai conforme eu vou mais fundo no deserto.
Meu colete sujo e com bolsos é muito mais útil para roubar do que para me
aquecer, e é exatamente por isso que ela o fez. Passo meu polegar sobre o tecido
áspero e verde-oliva, lembrando das mãos macias e morenas que o costuraram.
“— Promete que vai usá-lo para mim?”
A imagem de Adena morrendo no meu colo, sussurrando seu pedido final,
passa pela minha mente, apenas forçando meus pés a irem mais rápido. Mesmo
se eu tivesse tempo, sei que não dormiria muito nessa jornada — ou nunca.
Porque, nos momentos de silêncio antes que o sono me roube, eu vejo Adena
morrer de novo. Como se meus olhos se fechando fossem um convite para
reviver aquele horror. O galho rombudo atravessando seu peito, seus dedos
amarrados e quebrados, seu corpo coberto de sangue...
Meu próprio sangue começa a ferver ao pensar no sorriso irônico de Blair
enquanto ela guiava o galho pelas costas de Adena usando apenas sua mente.
Eu vou matá-la.
Não tenho certeza de como, onde ou quando, mas Adena não era a única que
não fazia promessas a menos que pudesse cumpri-las.
Vasculho minha mochila antes de vestir a jaqueta surrada que pertenceu ao
meu pai. É grande demais, e ainda assim, nada nunca me serviu tão
perfeitamente. Enfio as mãos nos bolsos, tremendo levemente enquanto
continuo empurrando pela areia.
As horas se arrastam, roubando a escuridão e substituindo o céu por listras
laranja e a promessa de um sol escaldante. Meus intervalos são breves, apenas
longos o suficiente para descansar minhas pernas doloridas enquanto como
minhas rações e bebo minha água morna. Frequentemente inspeciono meus
ferimentos, tomando cuidado extra com o fresco ao longo da minha coxa.
Um presente dele.
O corte sangrento é obra dele — tenho certeza disso. A precisão do
arremesso por si só só poderia pertencer a ele, junto com a ideia de me cortar
para me tirar dos telhados. Eu não esperaria nada menos do calculista Enforcer
que está tão desesperado para me pegar.
Mais um motivo para acelerar o ritmo.
Eu empurro minhas pernas doloridas mais rápido enquanto tento afastá-lo
dos meus pensamentos.
Ele está vindo atrás de mim.
Meus lábios se contraem com o pensamento, puxando a cicatriz que se forma
no meu maxilar.
E não hesitarei novamente.
CAPÍTULO 4

KAI

— Você parece um inferno.


Os olhos de Kitt saltam sobre as manchas escarlates manchando minha
camisa, cortesia do Imperial que ele não precisa saber que eu enterrei.
Para ela.
Beirando a traição, na melhor das hipóteses.
Patético na pior das hipóteses.
O escrutínio do rei finalmente encontra o meu, nossos olhos se encontram,
entrelaçados com diversão. A familiaridade forma um sorriso em meus lábios
involuntariamente, simplesmente pela sensação de sermos irmãos. Irmãos que
não têm títulos enfiados antes de seus nomes. Irmãos que, por este momento
feliz, ignoram suas lealdades amarradas pelo sangue.
É a primeira vez que ele me deixa olhar para ele em dias. Olhar para ele de
verdade.
Ele trocou lágrimas por cansaço, olhos sorridentes por olhos assombrados,
acompanhados por bochechas levemente afundadas e um maxilar mal barbeado.
Minha inspeção prende-se na mesma camisa amassada que vi nos últimos três
dias - meio desabotoada, mangas salpicadas de tinta.
— É, bom, você não parece muito melhor — eu digo, algo parecido com um
sorriso ainda surpreendendo meus lábios.
Kitt pisca, observando suas mãos manchadas e os papéis manchados
espalhados diante dele como se estivesse vendo a cena pela primeira vez. Então
ele suspira, embaralhando lentamente os papéis com os quais estava tão absorto
em uma pilha desleixada.
— Eu vou ficar bem. Só um pouco cansado, só isso.
— Você sabe que existe uma solução simples para isso, né? — Eu pareço
irritantemente tímida enquanto tento andar na linha tênue entre aliviar o clima e
tentar fazer com que ele entenda alguma coisa.
Kitt é diferente. Nós somos diferentes. Não sei mais onde meu irmão termina e
meu rei começa.
Quando ele não responde, termino com um calmamente preocupado, "Você
deveria tentar descansar. Dormir um pouco." Eu aceno em direção ao assento de
couro gasto que ele herdou. "Eu não vejo você sair dessa cadeira há dias."
— Dormir é para os mortos. — O barulho que Kitt faz após sua declaração
direta só pode ser descrito como um escárnio sufocado. — Desculpe — ele ri pela
metade, balançando a cabeça com o que parece ser diversão. — Muito cedo?
Eu forço um sorriso enquanto encaro o que parece ser um estranho. Em outra
vida, eu posso ouvir essas mesmas palavras saindo da boca de Kitt, só que elas
não têm o tom amargo, o estalo enlouquecido de seu sorriso. A tristeza o
transformou em um homem do qual tenho receio.
— Tudo bem — suspiro — dormir é para os mortos. Embora também não
pareça que você esteja vivendo muito. — Meus olhos procuram os dele,
implorando de uma forma que eu nunca faria com palavras. — Você não saiu do
escritório desde sua coroação. Poderíamos dar uma volta pelos jardins, ir ver a
rainha. — Engulo em seco ao pensar no que a tristeza fez com ela. — Os médicos
dizem que ela está piorando. Ela não saiu da cama, e eles temem... Eles temem
que não haja muito tempo restante.
Ele fica parado, em silêncio, muito tempo depois da minha sugestão. Eu não
deveria estar surpreso com sua relutância. Kitt não tem vínculo com minha mãe.
Porque ela é exatamente isso — minha mãe. Não dele.
Limpando a garganta, mudo rapidamente de assunto para empreendimentos
mais atraentes.
— Poderíamos visitar Gail na cozinha. Ela não vai parar de pedir para te ver até
que você coma um dos seus pãezinhos pegajosos-
— Estou muito feliz aqui, obrigado.
Eu pisco para ele. Uma dispensa real, se é que já ouvi uma.
Eu aceno lentamente, dando um passo para trás em direção à porta.
— Bem, se não há mais nada…
Vossa Majestade.
Engulo as palavras antes que eu possa cuspi-las no final da frase. Minha mão
alcança a porta, pronta para fazer minha fuga-
— Esse sangue é dela?
Hesito e me viro para encará-lo.
Seu olhar verde está fixo nas manchas que encharcam minha camisa. Fico
quieto, em silêncio por um longo momento, simplesmente permitindo que ele
me estude enquanto tento decifrar o que é está pairando atrás de seus olhos.
Quando finalmente falo, é a pergunta que estou evitando responder a mim
mesmo que sai dos meus lábios.
— Você ficaria mais decepcionado se fosse, ou se não fosse?
Ele engole em seco. Respira fundo. Sorri de um jeito que é tudo menos feliz.
—Eu não sei. — Outro longo e prolongado silêncio. — E você?
— Não sei
Patético.
— É? — Kitt não olha para mim enquanto diz isso. — Dela, quero dizer.
Suspiro, subitamente cansado ao lembrar desta manhã.
— Não.
Aliviado? Decepcionado? Parece que de repente não consigo mais dizer a
diferença entre os dois enquanto digo essa palavra aparentemente simples.
— Entendo — Kitt murmura. —Mas ela estava lá, eu acho?
— Ela estava. Eu a forcei a sair de casa. — Kitt arqueia uma sobrancelha antes
que eu termine —Queimei tudo até o chão.
— Estou vendo.
Nós nos observamos cautelosamente. Ela é um assunto que é melhor deixar
intocado, e ainda assim, ela nunca está mais longe do que um pensamento de
distância. Tortura para nós dois.
— O sangue? — Kitt acena para mim, esperançoso.
— Pertence ao Imperial que ela esfaqueou. Matou-o perto da Alameda.
Lá vem aquela risada sem vida de novo.
— Ela tem um péssimo hábito de esfaquear as pessoas, não é?
Eu limpo minha garganta, tomando cuidado para não cruzar a linha que não
sei mais onde encontrar quando se trata de Kitt.
— Sim, bem, eu também. E ela não escapou ilesa - eu me certifiquei disso.
— Então — Kitt fala lentamente em um tom muito familiar. Vejo o Pai refletido
em seu olhar, reencarnado em suas palavras. — O que você está me dizendo,
Executor?
Eu enrijeço um pouco.
— Acredito que ela esteja indo para o Deserto, tentando atravessar para Dor
ou Tando. Embora eu não tenha certeza se ela vai. Por outro lado, ela também
tem o péssimo hábito de permanecer viva. — Meu tom é monótono,
incorporando o Enforcer que ele deseja que eu seja. — Vou preparar alguns
homens e cavalos do deserto para ir para os Scorches atrás dela. Partiremos
assim que pudermos. — Faço uma pausa. — Vossa Majestade.
Droga. Eu simplesmente não consegui me conter, não é mesmo?
Kitt me estuda, aparentemente menos do que incomodado pelo título. Em vez
disso, curioso.
— E então você a trará para mim.
Em necessidade.
— Você poderia?
Eu o encaro, respirando lentamente.
— Você tem motivos para acreditar que eu não vou?
Kitt dá de ombros antes de se inclinar para trás para cruzar os braços
manchados de tinta sobre sua camisa amassada.
— É só que, bem, eu conheço sua... história
Eu enrijeço. Nós nos olhamos, silenciosamente comunicando a única coisa
que nunca costumávamos dizer em voz alta. O comentário de Kitt foi sutil, mas
sua falta de fé em que eu cumprisse seu comando era tudo menos isso.
Minha resposta é distante.
— Isso é diferente. E você sabe disso.
— É? — O tom de Kitt é perturbadoramente inocente. — Você não tinha apego
a essas crianças, e ainda assim, você as poupou de suas punições, apesar de seus
crimes.
— Kitt- — começo antes que ele me interrompa abruptamente.
— Olha, não estou dizendo que salvar crianças foi a coisa errada a se fazer. —
Ele ri, sem humor. — Não sou um monstro. Banir os Comuns com suas famílias
em vez de executá-los diretamente foi uma gentileza, por menor que seja. Mas —
seus olhos escurecem — você repetidamente desobedeceu às ordens do Pai. De
novo e de novo.
Suspiro pelo nariz, exasperado. À menção do Pai, perdi a discussão antes
mesmo de começar. Aos olhos de Kitt, nada que eu diga pode justificar uma ação
contra o rei anterior.
— Eu sempre obedeci ordens — suspiro. — E sempre obedecerei. Essa foi uma
exceção.
— Foi? — Kitt repete, sua expressão igualmente examinadora e cética. — O quê,
você não planeja continuar com essa exceção porque eu sou rei? Porque eu sei?
É uma luta não ficar boquiaberto com ele. — Você quer que eu execute as
crianças, então? — Meu peito arfa, o coração martelando contra as costelas
doloridas. — De qualquer forma, apenas diga a palavra e será feito, meu rei.
Merda.
Mordo minha língua com força suficiente para focar na explosão de dor e não
na onda de raiva que me varre. A última coisa que quero é ver Kitt como nada
mais do que meu rei, tratá-lo como tratei o anterior.
Kitt é fácil de amar até que ele começa a se parecer com o pai que tinha pouco
amor por mim.
— Kai. — O olhar severo do rei suaviza com sua voz. — Eu sei que esta não é
exatamente uma ordem simples de seguir. Acho que estou apenas... paranoico. Já
testemunhei você ir contra ordens no passado. — Ao olhar que lhe dou, ele
rapidamente acrescenta — Por um bom motivo. É por isso que me preocupo
quando peço para você trazer ela de volta para mim. — Seus olhos encontram os
meus, cheios de uma emoção que não consigo determinar. — E que melhor “boa
razão” para desobedecer ordens do que seus sentimentos por ela.
Nós nos encaramos, com os olhos fixos e as gargantas presas com palavras
não ditas.
Quero protestar, implorar para minha boca abrir e vomitar uma sequência
convincente de palavras que contradigam sua acusação. Mas ele está certo, e nós
dois sabemos disso. Meus sentimentos são o que a libertou em primeiro lugar.
O pensamento me sacode, me faz pular para a conclusão de que Kitt sabe
disso, sabe que eu já a deixei ir uma vez - e ele se ressente de mim por isso. Mas
nada em seu rosto plácido prova isso, e eu enterro o pensamento antes que ele
possa fazer o mesmo comigo.
— Isso também não deve ser fácil para você — digo baixinho, testando a maré
turbulenta dos sentimentos de Kitt pela mesma garota.
Ele quase ri.
— Ah, então agora vamos falar sobre isso?
Nós contornamos o assunto delicado antes mesmo que ela decidisse rasgar os
tendões do pescoço do nosso pai com a mesma adaga que eu tenho amarrada ao
meu lado. Ela era um risco, algo que evitamos expressar como se isso pudesse
impedi-la de abrir uma brecha entre nós.
Apaixonar-se por ela foi fatal.
— Tudo o que eu sentia por ela morreu no dia em que ela o matou — diz Kitt
simplesmente.
Mentiras.
Tenho dito a mim mesmo a mesma coisa, chamando-a de verdade de forma
convincente.
— Eu conheço esse sentimento — concordo.
Mentiras.
Nós nos olhamos, ambos contentes em nos afogar em nossas ilusões
compartilhadas. Mas não dizemos mais nada, sem nos preocupar em confrontar
o fato de que estamos mentindo para nós mesmos e um para o outro.
— Eu a trarei de volta para você, Kitt. — Minha voz é baixa, séria. — Antes de
ser seu Executor, eu era seu irmão. Minha lealdade é para você e mais ninguém.
— Fico em silêncio por um longo momento, permitindo que minhas palavras
sejam absorvidas. — Ela matou meu pai também, sabia?
Mais silêncio se estende entre nós.
— Viva — Kitt diz finalmente. — Traga ela viva para mim.
Seu tom não sugere que isso seja exatamente uma misericórdia.
Tiro o anel grosso que ganhei no dia em que me tornei o Executor de Ilya,
coloco-o em sua mesa.
— Devolva para mim quando eu tiver conquistado sua confiança novamente.
CAPÍTULO 5

PAEDYN

Areia arranha o interior da minha boca, esfregando contra minhas gengivas.


Passo a língua sobre os dentes secos, sentindo a mesma camada de areia que
tenho há três dias. Cuspir não é mais uma opção, visto que cada gota de saliva é
necessária na minha luta para sobreviver.
Minha garganta dói. Meus pés. Minhas pernas. Minha cabeça. Tudo.
A areia se move sob meus pés enquanto continuo me arrastando para a frente.
Com o pescoço dolorido gritando em protesto, levanto minha cabeça nadadora
em direção ao sol poente acima. Ele afunda em direção ao horizonte, ousando
mergulhar atrás das dunas de areia e arrancar seus raios do céu.
Minha palma vai até minha testa, pegajosa e queimada por dias passados
caminhando penosamente pelo deserto. Um arrepio percorre minha espinha,
sacudindo meu corpo dolorido. Com um suspiro, convenço a mim mesma de que
é o deserto que esfria rapidamente que está me gelando até os ossos e não uma
febre se instalando sob minha pele pegajosa.
Estou caminhando há dias e na maioria das noites seguintes.
O Deserto é uma fera implacável. Toda noite eu imploro à areia, implorando
para que ela me permita algumas horas de descanso. Apesar do meu desespero,
o deserto ainda não me concedeu pouco mais do que uma ou duas horas de sono
por vez. Seja areia nos meus ouvidos ou escorpiões aos meus pés, não consigo
mais do que um cochilo paranoico.
— Eu sou a única que te faz companhia, então o mínimo que você pode fazer
é me deixar dormir uma única noite — eu digo através dos lábios rachados,
minha voz pouco mais que um coaxar. Eu examino o vasto deserto, não vendo
nada além de areia e não ouvindo nenhuma resposta além do vento sussurrante.
Eu bufo, quebrando pedaços de pão esfarelado antes de colocá-los em minha
boca igualmente seca.
— Estou ficando louca. — Eu jogo minhas mãos para cima, deixando-as cair
novamente para bater em meus lados. — Estou falando com areia há três dias —
eu resmungo, pés arrastando linhas profundas abaixo de mim. — Não é justo
culpar você por toda a minha insanidade, eu acho. Estou ficando louca já faz um
tempo. — Eu rio, praticamente tossindo. — Quer dizer, só de pisar aqui já é
loucura para começar. Certo?
Olho em volta, apesar de saber que as dunas não vão se dignar a responder.
Embora o que é pior do que eu falar com a areia é de repente ouvir a areia falar
de volta. É quando eu realmente ficarei preocupado.
Meu suprimento de água está perigosamente baixo, e simplesmente saber
disso deixa minha garganta ainda mais seca. Os cantis tilintando na minha
mochila estarão vazios em no máximo dois dias. O autocontrole é muito menos
atraente quando se sobrevive com um número limitado de goles.
Eu me pego examinando o horizonte pela décima segunda vez nesta hora,
esperando avistar uma cidade. Avistar qualquer coisa.
Nada.
Nenhum contorno de prédios ou fumaça saindo de uma chaminé. Eu me
esforço para engolir, me sentindo tão pequeno na vastidão que me cerca. Me
sentindo como um único grão de areia em um mar de dunas mergulhantes.
Insignificante.
Perdida.
Sozinha.
Eu limpo uma gota de suor que ameaça arder os olhos que já estão sendo
cegados pelo sol poente. As ondas de areia são lançadas em tons dourados,
espelhando o céu em mudança acima delas. Admirar a beleza do terreno
traiçoeiro que estou percorrendo é uma maneira agridoce de terminar minhas
noites. O crepúsculo no deserto é devastadoramente de tirar o fôlego e, ainda
assim, o último lugar em que desejo estar.
Meu olhar se prende em algo brilhante à distância, brilhando sedutoramente
ao sol. Pisco na luz ofuscante, meus olhos secos. A piscina de água brilha,
piscando convidativamente para mim. Balanço a cabeça, apenas conseguindo
fazê-la bater mais forte.
Miragem.
Coisas provocantes e tentadoras. Elas tendem a provocar na forma de água
cristalina e piscinas nas quais eu anseio por mergulhar. Eu suspiro, curvando-me
ligeiramente para esfregar minhas pernas doloridas. Bolhas se escondem dentro
de botas suadas, meus pés pegajosos de areia.
As coisas que eu faria por um pouco de água…
Passei o resto da noite enterrado sob as dobras da jaqueta surrada do meu
pai, com as temperaturas caindo entorpecendo meus dedos dos pés. Depois de
sobreviver a um encontro surpreendentemente amigável com a maior cobra que
já vi, caminhei noite adentro, conversando com a areia e alimentando minha
insanidade.
Minhas pálpebras caem, me sinto tão pesada quanto o resto de mim. Consigo
manter meus olhos abertos o tempo suficiente para encontrar um trecho plano
de areia para tropeçar em direção a ele. Tirando minha mochila das costas, luto
para soltar o cobertor áspero de dentro.
Mal espalhei na areia antes que meu corpo o seguisse desajeitadamente.
Desmorono sobre o cobertor, apertando minha jaqueta em volta do meu corpo
dolorido. Agarrando um pedaço de pão velho, mordisco-o com calma antes de
dar goles de água quente na minha boca seca.
— Sabe — eu sussurro na escuridão,— não é tudo culpa sua se eu não consigo
dormir à noite. Os pesadelos certamente não ajudam.
Como se convocado pela menção deles, flashes de Adena atormentam meus
pensamentos. A sensação do sangue dela escorrendo entre meus dedos. Minhas
lágrimas enquanto elas espirravam em sua bochecha lisa. O galho
ensanguentado espetando-a nas costas...
Um arrepio serpenteia através de mim. Engulo em seco, me sentindo enjoada,
mas incapaz de me dar ao luxo de derramar o pouco conteúdo que está
ocupando meu estômago.
— Eu posso culpar você pela minha falta de sono — minha voz é pouco mais
que um sussurro sufocado — mas eu não acho que eu quero dormir se isso
significa que eu vou vê-la assim. De novo. Eu simplesmente não posso... eu não
posso-
Não percebi que estava chorando até a lágrima rolar pelo meu nariz. Eu a
enxugo com um bufo antes de enrolar meus dedos em volta do colete verde
engolido por baixo da minha jaqueta. Minha unha traça a costura uniforme dos
bolsos, sentindo as dobras do seu trabalho meticuloso.
Se eu quiser manter minha promessa a Adena, tenho que sobreviver. Tenho
que viver para poder usar este colete para ela.
E estou determinada a fazer exatamente isso.
Murmuro mais uma vez na noite, meus olhos selando o mundo antes de eu
cair no sono.
— E eu terei minha vingança. Por ela.
CAPÍTULO 6

KAI

A prata brilha sob a luz do sol poente.


Eu bebo um lampejo de olhos azuis, matando minha sede.
Suas sardas são como a areia que nos cerca.
Uma adaga de prata, afiada como sua língua, passando entre dedos rápidos.
É ela.
Lá está ela. Apenas parada ali. Me observando como se eu não fosse mais do
que um estranho que ela está avaliando. Como se eu não valesse nada mais do
que as moedas que ela está se preparando para roubar do meu bolso.
Como se eu não fosse o homem que arruinou a vida dela. Como se ela não
fosse culpada de fazer o mesmo comigo.
Ela caminha em minha direção, a visão é tão familiar que me pego lutando
contra um sorriso habitual, a memória muscular é mais uma lembrança dela.
Algo dói quando ela finalmente está diante de mim, suas mãos dobradas atrás
das costas. Eu distraidamente esfrego uma mão acima do meu coração enquanto
a olho, sentindo um fio de urgência por razões que não consigo identificar.
Balanço a cabeça numa tentativa inútil de clarear as ideias.
Eu deveria fazer alguma coisa. O que eu deveria fazer com-
Seus lábios se abriram em um sorriso, seus olhos percorreram meu rosto.
Lá se vai a dor no meu peito, parecendo uma faca cega.
— Olá, Príncipe.
Sua voz é sedosa, calmante de um jeito que me dá arrepios na espinha.
— Tenho um presente para você — ela diz suavemente, sorrindo docemente.
— Algo para me lembrar.
Ela tira as mãos de trás das costas, apresentando-as para mim. Seus dedos
estão fechados em torno de um maço caído de flores azuis opacas.
Miosótis.
Começo a sorrir, mas a emoção fica presa em meus lábios. Meu olhar cai para
o punhado de flores — as mesmas que dei a ela em nossa última noite juntos na
chuva. E então, de repente, estou cambaleando para trás com o que vejo,
segurando meu peito e a dor latejante ali.
— O que foi? — ela pergunta, inocentemente demais. — O que houve, Malakai?
Eu suspiro, boquiaberto com o sangue pegajoso que agora encharca suas
mãos, escorrendo por seus braços. Cada haste de flor está manchada de um
vermelho repugnante, embotando sua vibração, murchando em sua palma.
— Você… — gaguejo, balançando a cabeça para ela. — O sangue dele. É o
sangue dele, não é?
O olhar em seu rosto espelha o meu, chocado e esboçado com mágoa.
— Eu fiz o que tinha que fazer. Eu faço o que tenho que fazer. — Seu olhar
endurece, assim como sua determinação. Ela dá um passo em minha direção,
derrubando quaisquer flores que não estejam grudadas em suas mãos
ensanguentadas enquanto ela alcança meu rosto. Eu me afasto, praticamente
tropeçando em meus pés na minha tentativa de escapar de seu toque.
— O que você fez? — Minha voz falha. — Olha o que você fez. O que você está
me fazendo fazer.
De repente, identifico a dor que emana do meu peito.
É meu coração.
É então que me lembro do que devo fazer com ela.
— O que você fez, Executor? — Sua voz treme, amarga e cortante. — Então
está tudo bem quando você mata? Hmm? — Ela dá um passo em minha direção,
mas eu mantenho minha posição. — Você tem tanto sangue em suas mãos, Kai. A
diferença entre nós é que você se recusa a ver isso.
Estou balançando a cabeça e começando a recuar novamente.
— Oh, você não acredita em mim? — Ela está praticamente rindo, achando
isso engraçado. — Você está coberto disso.
Olho para baixo, levantando mãos vermelhas dos meus lados. Minha
respiração sai em ofegos rápidos enquanto meus olhos varrem meu corpo.
Estou pingando em morte.
Sangue gruda no meu cabelo, acumula nas minhas botas, cobre meus dentes.
Estou cuspindo, cuspindo, girando em espiral enquanto cambaleio para trás.
— Não, não, não…
— Vá em frente — ela desafia, sua voz baixa. — Derrame meu sangue e use-o
com o resto.
Eu grito.
Meus olhos se abrem.
Estou piscando cegamente para o céu escuro acima, com a areia se movendo
sob minhas costas.
Meu coração bate forte enquanto examino o acampamento improvisado,
olhos se ajustando à escuridão. Uma dúzia de Imperiais cochilando espalham-se
pelo chão do deserto, todos espalhados ao redor do fogo morrendo.
Minha garganta está em carne viva.
Eu estava gritando?
Se eu acordasse algum dos meus homens, eles seriam espertos o suficiente
para agir como se eu não tivesse acordado. Sento-me lentamente, minhas costas
doendo das noites passadas em areia irregular e dias sentado em cima de selas
duras. Cabelo sujo de terra faz cócegas na minha testa, e eu passo meus dedos
por eles antes de aquecê-los perto do fogo.
Estou neste maldito deserto há quatro dias.
E nem um único vestígio dela em lugar nenhum.
Bem, não há nenhum vestígio físico dela em lugar nenhum.
E ainda assim, eu a vejo em todos os lugares. Ela me assombra. Metade do
tempo eu me pergunto se ela já está morta, se o deserto reivindicou outra,
engoliu-a inteira e a cuspiu como um fantasma para garantir meu sofrimento.
Ninguém mais vislumbra o brilho dos cabelos prateados ao sol, ou o contorno
de sua figura no topo de uma duna.
Porque ninguém mais está ficando louco.
Estou perdendo a cabeça, me sentindo perdido neste deserto, apesar de saber
que chegaremos a Dor antes do nascer do sol de amanhã. Vamos explorar a
cidade primeiro e, se não encontrarmos nada, seguiremos em direção a Tando
para continuar nossa busca.
Ela não pode ter chegado a uma cidade ainda.
Certo?
Apesar da minha negação, eu vi do que ela é capaz. Vi como ela consegue
sobreviver; ouvi como ela sobreviveu a vida inteira. Duvido que até mesmo o
deserto seja uma força forte o suficiente para tirá-la deste mundo antes que ela
esteja pronta. Os Scorches logo aprenderão sobre sua teimosia.
Eu levanto minha cabeça das brasas brilhantes restantes do fogo, fixando
meu olhar no céu em movimento acima. O amanhecer dança ao longo do
horizonte, rastejando sobre as nuvens para lançá-las em uma luz fraca e
dourada. Meus olhos se voltam para os homens adormecidos ao meu redor, seus
roncos são o único som que preenche este canto do deserto.
Suspirando, eu me levanto, esticando meus membros doloridos.
— Levantem. Agora. — Meu comando ecoa, despertando até mesmo os cavalos
do deserto amarrados a vários metros do nosso acampamento improvisado. Sou
recebido com resmungos grogues enquanto começo a andar de um lado para o
outro no círculo bagunçado de Imperiais. — Bom dia. — Eu digo levemente,
embora a ponta da minha bota cutucando-os nas costelas seja tudo menos isso.
Com isso, eles não hesitam em obedecer às minhas exigências. O bando
desgrenhado está de pé e andando por aí em questão de minutos, alguns
cuidando dos cavalos enquanto outros reúnem nossos suprimentos espalhados.
Estamos roendo coelho seco e fibroso e bebendo água morna antes de montar
em nossos cavalos e partir em um ritmo constante.
As rações de coelho me fazem passar água com areia pela boca. Não é só o
gosto que estou tentando apagar, mas também a memória que o acompanha. Eu
me pergunto distantemente se torci minha boca enquanto comia, assim como fiz
nas Provas quando ela me observou de perto o suficiente para notar.
É perigoso, o quanto penso nela. O quanto tudo me lembra dela. O quanto me
pergunto se tudo era um jogo para ela, uma manobra para ajudar a Resistência.
Para ajudar os Comuns a derrubar o reino. Para matar o rei. Para matar meu pai.
Eu realmente me importo que ela o tenha matado?
Afasto esse pensamento, me remexo na sela e giro meus ombros tensos.
Eu vou descobrir em breve. Encontrá-la em breve.
E quando o fizer, terei minhas respostas.
CAPÍTULO 7

PAEDYN

Juro que o escorpião que se aproxima perigosamente das minhas botas gastas
pisca em resposta à minha pergunta.
É isso. Eu sou realmente louca.
Com esse pensamento em mente, suspiro e repito minha pergunta.
— Eu disse, se você pudesse comer qualquer coisa - e eu quero dizer qualquer
coisa - o que seria?
Dizer que minha voz está rouca seria um eufemismo. Minha garganta está tão
áspera quanto a areia estalando sob meus pés, tão seca que mal consigo pensar
direito. Balanço minha cabeça dolorida para a criatura enquanto passo
descuidadamente ao redor dela, praticamente tropeçando.
— "Tudo bem. Se você não vai responder, eu vou. — Tropeço na areia,
tropeçando nas minhas palavras. — E-eu poderia comer uma laranja. Sim. Uma
laranja gorda e suculenta. Ou... ou um pouco de caramelo.
Olho de volta para o escorpião, encontrando-o correndo logo atrás. A visão
deveria ser muito mais alarmante para mim, mas não consigo encontrar energia
para me importar no momento.
— Sabe, meu pai amava caramelo. — Faço um som que só lembra um pouco
uma risada. — Às vezes me pergunto se eu gosto mesmo do doce, sabe? Tipo,
talvez... talvez eu só tenha me convencido de que gostava deles porque ele
gostava.
O escorpião olha para mim.
Ou talvez não. Tenho tido alguma dificuldade em decifrar o que é realidade
ultimamente.
Este é meu quinto ou sexto dia no deserto?
Quase rio.
Talvez eu já esteja morta. Como vou saber a diferença?
Eu tropeço, areia de repente voando para me encontrar. Meus joelhos
afundam no chão arenoso enquanto eu ofego, o sol poente ainda queimando
minha pele crua. Com uma respiração trêmula, eu lentamente tropeço para ficar
de pé, forçando minhas pernas doloridas a continuar sua marcha instável.
Estou cansada. Muito cansada.
Minhas pálpebras caem, imitando o sol que começa a mergulhar atrás das
dunas para a noite.
Fique acordada.
De repente, sinto como se estivesse de volta aos Sussurros, tropeçando no
escuro enquanto tento não sangrar do corte profundo sob minhas costelas. Foi
quando ele me encontrou. Me salvou.
Afasto esse pensamento e examino o horizonte pela centésima vez, meus
olhos traçando o contorno de cada edifício sombrio que se espalha pela cidade
além.
Estou quase lá.
Onde "lá" é, não tenho a mínima ideia. Não tenho certeza de qual cidade eu
encontrei, se é Dor ou Tando, mas não estou exatamente em posição de ser
exigente.
Só preciso chegar lá.
Lamber meus lábios rachados não faz nada além de colocar mais areia na
minha boca.
Agora seria a hora de engolir um pouco de água granulada, exceto que bebi
avidamente o resto dela esta manhã.
Estou morrendo de sede.
Talvez apenas morrendo. Talvez apenas morta já.
Minha risada estridente diante desse pensamento rapidamente se transforma
em um soluço agudo, parecendo sacudir meus ossos frágeis.
Continue andando. Apenas continue andando.
Mas eu não quero. O que eu quero é deitar, fechar os olhos e descansar.
Meus pés ficam lentos, meu corpo inteiro fica letárgico.
Continue. Andando.
Eu sei que se eu parar agora, nunca mais vou começar. Desidratação, fadiga e
os muitos ferimentos ainda espalhados pelo meu corpo finalmente me pegaram.
Se eu me deitar, será no meu leito de morte.
Isso seria tão ruim?
Aquela vozinha na minha cabeça, a única que ouvi durante dias além da
minha, tornou-se bastante convincente.
Para que estou vivendo? Por que estou me submetendo a essa agonia?
Cada centímetro de mim dói. Cada centímetro de mim implora pela
misericórdia que é desistir.
— N-não — gaguejo. — Não, não posso. — Falar comigo mesmo nunca foi um
bom sinal, mas é a única coisa que impedirá que minhas pálpebras fechem o
mundo e meu corpo desligue. — Eu… — Outra respiração irregular. — Eu
sobrevivi a muita coisa para morrer no deserto.
Pressiono uma palma calejada na batida teimosa do meu coração, prova de que
coisas quebradas ainda podem servir a um propósito. Meus dedos sobem até a
letra familiar esculpida ali, me provocando com o lembrete de quão frágil eu sou.
C de comum.
— C de “cair morta” — Minha tentativa de um tom de brincadeira soa
assustadoramente semelhante a um sussurro de morte. — Não foi assim que
imaginei meu fim. Eu estou… — Um ataque de tosse seca me faz cair. — Estou
envergonhada de não morrer de uma maneira mais dramática.
Eu realmente pensei que seria ele quem faria a honra. Ele que enfiou minha
amada adaga no meu peito. Ou talvez no meu pescoço, simplesmente pela
simetria doentia.
Ele ficará muito decepcionado ao saber que sua vingança foi roubada, que foi
no deserto que a morte finalmente me alcançou.
Minha visão está turva enquanto ele varre a cidade tão perto, pegando algo se
movendo à distância. Apertando os olhos, eu me esforço para distinguir o que
parece ser uma figura. Eu pisco. É minha mente me pregando peças? Me
provocando uma última vez?
De repente, meus joelhos afundam na areia novamente, e minhas palmas
deslizam para a frente.
Acho que nunca saberei.
Minha têmpora encontra areia quente e eu cantarolo ao senti-la.
Por que o deserto nunca foi tão confortável antes?
Meus dedos agarram a costura amassada do meu colete, envolvendo a
promessa em volta de mim.
Eu o usei todos os dias, A. Até o meu último dia.
— Eu só... eu só estou fechando... meus...
Meus olhos se fecham rapidamente; o mundo se apaga em um único piscar.
E pela primeira vez em dias, não temo o sono que me espera.

Um batimento cardíaco bate forte sob meu ouvido.


Eu me mexo nos braços fortes que me cercam, meus sentidos estão lentos.
Braços fortes. Estou sendo carregada.
Meus olhos se abrem.
Estou sufocada pela escuridão, envolto em um cobertor de escuridão que o
céu jogou sobre nós. Com os olhos completamente inúteis no momento,
concentro-me na sensação de uma mão áspera sob meu joelho, sua gêmea
circundando meus ombros.
É ele. Ele me encontrou.
Eu me empurro a cada passo irregular, tentando desesperadamente acalmar
meu coração martelando e forçar minha cabeça nebulosa a formular um plano.
Mas ele está muito perto, muito sólido, como se tivesse saído direto dos meus
pesadelos e entrado na noite muito real diante de mim.
De repente, não consigo lembrar como respirar.
Ele me encontrou. Ele me encontrou. Ele me encontrou.
Minha mente grita as três palavras das quais eu tanto tinha medo, afogando
qualquer esperança de um pensamento racional. Estou paralisada em seus
braços, impotente em seu abraço que antes parecia tão seguro. Seu peito sobe e
desce contra mim, uma sensação que antes era tão familiar. Agora é estranha.
Assustadora.
Como ele me encontrou?
Ainda estou tentando entender por que ainda estou vivo, apesar de ter sido
levado para a minha perdição pela própria Morte. Ele está me segurando. Ele
está me levando de volta para Ilya. De volta para Kitt e a ira que tenho certeza
que está me esperando-
Ele matou meu pai.
Esse pensamento me salva da insanidade.
Não hesitarei. Não de novo.
Forçando-me a respirar, me concentro na mão em volta dos meus ombros,
avaliando facilmente o melhor ângulo para quebrar o osso do pulso. São as
pernas dele que foco em seguida, a fadiga em seu passo, a instabilidade que
ajudará a tirá-lo do chão. Há quanto tempo ele está me carregando? Onde estão
seus homens? Examino a escuridão ao nosso redor, não vendo nada além da
cidade em que estamos entrando.
Posso sentir uma lâmina fina presa ao cinto dele, e meu coração salta sobre si
mesmo. Mas o punho é simples, suave contra meu quadril. Levo um momento
para engolir minha decepção pela perda da adaga do meu pai antes de me forçar
a me concentrar.
Derrube-o. Então termine o trabalho que você não conseguiu.
Depois disso, eu simplesmente vou me misturar à cidade, me camuflando
com o caos ao qual estou tão acostumado. Ninguém nunca mais vai me
encontrar. Ele é o único que conseguiu, e depois desta noite, ele não será mais
uma ameaça à minha existência.
Imaginando cada movimento antes de tentar fazê-lo, respiro fundo uma
última vez para me acalmar.
E então eu executo.
Um grito sai de sua garganta quando seu pulso estala sob minha palma. Ele
tropeça, quase me jogando para fora de seus braços. Eu antecipo seu arremesso
deselegante e caio no chão, areia grudando em minhas palmas suadas enquanto
varro minha perna para trás para pegar seus tornozelos.
Ele cai no chão com um grunhido. Estou montada em seu peito na próxima
respiração, meus joelhos prendendo seus braços, pressionando meu peso em
seu osso quebrado.
Minhas palavras cortaram seu grito estrangulado.
— Admito que estou um pouco decepcionado. — Puxo a adaga em seu quadril,
libertando-a da bainha antes de colocar a ponta irritantemente cega contra a
garganta que mal consigo ver. — Eu esperava que você lutasse mais.
O-o quê? Olha, eu vi você no deserto do meu posto, e pensei que você
estivesse morto, mas quando cheguei lá você estava respirando." Suas palavras
saem apressadas com uma voz que não é nada bis. Eu pisco enquanto meus
olhos começam a se ajustar à escuridão, revelando o rosto muito assustado de
um jovem guarda. "Eu estava apenas carregando você para a cidade, tudo bem?"
Ele está ofegante agora, implorando para que eu entenda.
— Eu… — Pisco novamente, observando seu cabelo castanho bagunçado e seu
uniforme vermelho amassado abaixo de mim. — Achei que você fosse outra
pessoa.
— É, bem, claramente você não precisa da minha ajuda. — Seus olhos disparam
para sua mão. — E se você sair do meu pulso quebrado, eu te deixarei em paz
com prazer.
— Oh. — Eu sorrio timidamente. — Sim, desculpe por isso. — Eu deslizo para
longe dele depois de devolver sua adaga à bainha, observando enquanto o guarda
se levanta, segurando sua mão. De repente, estou lutando contra a vontade de
me esparramar de volta na areia enquanto a adrenalina lentamente começa a
vazar do meu corpo. — Obrigada por vir aqui por mim. De verdade. Sinto muito
que foi assim que retribuí a gentileza.
Ele resmunga uma resposta, recuando em direção à cidade que agora
estamos fazendo fronteira.
— Preciso voltar para meu posto.
— Certo. — Sentindo-me incrivelmente desajeitada, começo a andar ao lado
dele a uma distância segura. — Hum, desculpe, em qual cidade estamos entrando
agora?
Ele me lança um olhar perplexo.
— Dor. — Outro olhar questionador. — O que você estava fazendo no deserto,
afinal?
Eu engulo em seco. Imperiais podem não ser um problema em Dor, mas ainda
haverá guardas com perguntas urgentes para eu evitar. E eu não tenho a menor
ideia se as cidades vizinhas de Ilya sabem da minha reputação. Enquanto abro
minha boca para vomitar uma mentira relativamente convincente, seu olhar
varre meu corpo esfarrapado de uma forma que me deixa arrepiada. Ele examina
meu rosto, parecendo examinar, procurar.
— Ei, você parece... familiar. — Ele faz uma pausa, ponderando o que vê. Eu me
viro, ciente da suspeita no movimento sutil. O sussurro de dedos no meu cabelo
faz meu olhar voltar rapidamente para o dele. — Prata — ele diz suavemente,
como se fosse um pensamento que deslizasse para fora de sua boca. —
Interessante.
—É mesmo? — pergunto despreocupadamente, tentando descobrir o que ele
sabe.
Bem, uma cor dessas não seria incomum em Ilya. — Seu olhar cético mudou
para algo muito mais confiante. —Mas aqui… — A mão que lentamente roça o
punho de sua adaga não passa despercebida. — Você não seria aquele assassina
do rei, hein? Você sabe, a “Paladina Prateada” que virou assassina? — A adaga
está agarrada em sua mão agora, inclinada em minha direção. — Você vale um
bom dinheiro, sabia. Ilya tem um preço alto por sua cabeça. — Dou um passo
para longe, meu olhar grudado na lâmina se aproximando do meu peito. Sua
próxima frase é amarrada com um sorriso. — Viva ou morta.
O luar reflete no aço que ele golpeia meu peito.
Eu me viro, salvando meu coração da lâmina, mas não o ombro que ela
arrasta. Eu seguro um grito de dor lancinante, sentindo sangue quente começar
a jorrar do corte. O guarda não perde um único segundo antes de enviar sua faca
para cima em direção ao meu estômago. Eu desvio novamente, me sentindo
lento enquanto sou forçado a me defender. Cada pedaço de exaustão e dor
acumulada volta à tona, me lembrando que eu escorreguei entre os dedos da
Morte mais uma vez. Talvez ele tenha vindo para finalmente terminar o trabalho,
reivindicar sua vingança.
— Olha — ele suspira entre dentes — só venha em silêncio, e eu não terei que
te machucar.
Eu me abaixo para evitar outro ataque de sua lâmina. "Eu acreditaria em você,
mas você parece bem ansioso para me pagar por esse pulso quebrado."
O guarda quase rosna para mim, jogando seu peso atrás de uma facada que
pretendia cortar minhas costelas. As duas respirações rápidas que ele sempre dá
me avisam de seu golpe antes que eu veja o aço brilhando. Eu me viro, agarrando
seu pulso antes de pisar atrás dele para dobrar rudemente o braço contra sua
omoplata oposta.
A adaga desliza de entre seus dedos suados, cravando-se na areia abaixo de
nós. Ele não grita até que eu agarro seu pulso quebrado com minha mão livre e
aperto, seu osso decepado projetando-se na minha palma. O guarda cai de
joelhos, tremendo violentamente enquanto eu lentamente me abaixo atrás dele,
suas mãos ainda entrelaçadas entre as minhas.
Meus lábios quase roçam a concha de sua orelha enquanto murmuro: "Quem
mais sabe sobre mim?"
Ele se debate contra meu aperto, apenas ganhando outra torção de seu pulso
quebrado. Ele grita antes de cuspir suas próximas palavras.
— Você é uma vadia louca, sabia disso?"
— Sim — suspiro — eu sei disso, e você sabe disso. Veja, o que estou
perguntando é se mais alguém sabe disso.
Ele solta uma risada dolorida.
— Todo mundo sabe que você é uma vadia louca. Você tem uma reputação e
tanto.
Eu enrijeço com suas palavras.
— E quanto a Tando? Ilya tem um preço pela minha cabeça em ambas as
cidades?
— Até onde eu sei — ele sussurra, com um sorriso malicioso escondido em
suas palavras suaves — até Izram tem um pôster seu colado em todas as
superfícies.
Eu franzo a testa para a parte de trás da cabeça dele. Esconder-se em um
navio indo para Izram parecia muito mais atraente do que fazer uma caminhada
pelos Scorches. E eu teria feito exatamente isso se não fosse pelo fato de que já
faz anos que ninguém viaja pelas águas traiçoeiras dos Shallows. Isso se deve em
parte ao imenso isolamento de Ilya dos outros reinos, embora as dezenas de
naufrágios tenham desencorajado ainda mais qualquer um da jornada perigosa.
Mas nada disso importa agora, porque parece que minha reputação viajou para
Izram antes que eu pudesse.
— Bem — suspiro — vamos ouvir. Quanto eu valho?
A ganância em sua voz desliza entre seus dentes rangentes.
— Vinte mil moedas de prata.
Quase engasgo com a risada, minhas palavras sussurradas mais para mim do
que para o guarda à minha mercê.
— Kitt me quer tanto assim, hein?
— Ele quer. — A voz do guarda está repentinamente fria, calejada. — Viva ou
morta.
E então a parte de trás do crânio dele colide com meu nariz.
Eu grito, já sentindo o sangue começar a jorrar, o fluxo constante escorrendo
pela minha boca.
De repente, há mãos ásperas em minha garganta.
O guarda me joga de costas, seu peso me pressionando quase tão forte
quanto suas mãos esmagando minha traqueia. Pontos começam a nadar na
minha visão, e estou estranhamente grato por mal conseguir ver o que faço em
seguida.
A lâmina desliza facilmente em seu coração.
Ele pisca acima de mim, um olhar de descrença pintando a tela em branco
que é seu rosto, agora completamente sem cor.
As mãos em volta do meu pescoço se afrouxam e caem, seu corpo seguindo.
Ele cai no chão, segurando o ferimento fatal causado por sua própria arma. Ele
grunhe, suas palavras finais são um rosnado.
— Vadia... louca.!
Estou tremendo.
A adaga escorrega da minha mão, apesar de estar segura entre dedos
pegajosos.
Dedos pegajosos.
Olho para baixo e vejo o sangue cobrindo minhas mãos.
Não, não, não...
A sensação disso me faz engasgar, mesmo com a falta de conteúdo no meu
estômago. Rastejo em direção ao guarda, murmurando minhas desculpas
enquanto limpo o sangue das minhas palmas com sua camisa já manchada de
escarlate. Olhos sem vida olham para mim enquanto mal consigo enxergar
através das lágrimas nos meus.
Olho para o rapaz enquanto cambaleio para trás, com as palmas das mãos
afundando na areia.
Eu o matei.
Eu matei de novo.
Em um curto espaço de tempo, consegui tirar a vida de três pessoas. O
pensamento faz meu estômago revirar mais uma vez, e eu me viro para vomitar
na areia.
Eu nunca quis matar ninguém. Eu nunca quis-
Mas eu quis. Eu fiz. Eu faço.
O que eu me tornei?
O cheiro forte de sangue arde em meu nariz, tão forte que eu vomitaria de
novo se meu corpo tivesse algo para dar. Respirando fundo pela boca,
lentamente me levanto sobre as pernas trêmulas para me afastar da cena.
Preciso sair daqui.
Sangue está vazando na minha boca, me forçando a cuspir a cada passo que
dou na cidade. Eu cuidadosamente levanto uma mão para sentir meu nariz,
recuando com a dor, mas aliviado por descobrir que ele não está quebrado.
Um pé na frente do outro.
Eu o deixei lá.
Um pé na frente do outro.
Ele vai apodrecer no sol.
Um pé na frente do outro.
Eu sou um monstro.
Um pé na frente do outro.
CAPÍTULO 8

KAI

Esfaqueada no peito, seu movimento característico.


Eu me agacho ao lado do guarda amassado, areia manchada de sangue
estalando sob minhas botas. Um rosto que não pode ser muito mais velho que o
meu olha para mim, olhos escuros drenados da vida que ele mal conseguiu viver.
Passando a mão pelo meu cabelo desgrenhado, meu olhar viaja sobre as manchas
de sangue manchando seu uniforme vermelho. Cada uma conta uma história.
Depois de derramar sangue a vida inteira, cada mancha começa a falar, se
você apenas ouvir.
Ou talvez eu seja simplesmente louco.
A ferida em seu coração escorre carmesim por seu peito, derramando-se
para formar uma poça abaixo dele. A areia ao redor dele mostra sinais de uma
luta, uma luta retratada em pegadas.
Bem, pelo menos ela tinha um motivo para matá-lo.
Meus olhos voltam para o homem abaixo de mim, passando rapidamente
sobre o sangue manchado na bainha de sua camisa, em frente ao seu ferimento.
Aproximo meu rosto, quase engasgando com o cheiro metálico e mórbido.
— Foi ela — digo, sem me dar ao trabalho de olhar para os homens que me
cercavam. — Ela estava aqui. Ela está aqui. Ele está morto há apenas um dia, no
máximo.
Olho para o sangue na camisa dele, onde ela limpou as mãos apressadamente.
Ela devia estar em péssimo estado para deixar evidências como essa à vista de
todos.
Com esse pensamento, suspiro, passando as mãos sujas pelos cabelos mais
sujos pela que provavelmente é a décima segunda vez. Se ela está machucada,
então ela não pode ter ido longe. Se ela está machucada, então eu tenho uma
vantagem.
Se ela estiver machucada, eu preciso aceitar isso.
Eu balanço a cabeça, com pena do homem que chegou perto demais dela.
— Pegue-o. Vamos entregá-lo aos seus companheiros guardas para lidar com
ele.
Alguns imperiais trocam olhares, perguntando silenciosamente quem entre
eles terá a infeliz tarefa de arrastar o corpo em decomposição. Eu me levanto,
sacudindo meu pescoço dolorido antes de virar as costas para eles e caminhar
em direção à cidade iminente.
— Se vocês precisarem de algum incentivo, ficarei feliz em…
Tosses desconfortáveis e pés arrastados abafam minhas palavras, os Imperiais
não perderam tempo antes de seguir com o corpo morto a reboque. Mas não
precisamos caminhar muito mais longe antes de sermos engolidos pela cidade
fervilhante.
Eu empurro para o lado uma faixa desbotada pelo sol pendurada baixa entre
prédios em ruínas, me oferecendo uma visão melhor da cidade que é quase tão
severa quanto as pessoas que a habitam. Olhares furiosos nos cumprimentam,
olhos falando de suspeitas que o povo de Dor é inteligente o suficiente para não
dar voz aos Elites passeando por sua cidade. É como se eles pudessem sentir o
cheiro das habilidades em nosso sangue enquanto olham para nós com desprezo.
Ofereço um aceno curto e quase arrogante para alguns, nem um pouco
chocado com a reação deles a mim e meus homens. Não é como se Dor fosse
sutil sobre sua aversão ao reino Elite, visto que eles acolheram a maioria dos
Comuns ao longo das décadas.
Ilya não tem aliados desde antes da Peste. Desde antes do reino se isolar para
acumular seus poderes de Elite. Desde antes de Ilya de repente se tornar uma
ameaça para qualquer um de fora.
Ao avistar um guarda que parece entediado demais para fazer seu trabalho
remotamente direito, eu o empurro pela rua movimentada do mercado em que
tropeçamos e vou em direção a ele. Centímetro por centímetro, o guarda se
endireita a cada momento que seus olhos percorrem sobre nós.
— Acredito que isso lhe pertence — digo, gesticulando para o guarda morto
agora deitado aos pés do de olhos arregalados diante de nós. — Nós o
encontramos a caminho da cidade. Ele foi esfaqueado no peito. — O guarda
pisca. — E eu sei quem é a responsável. Minha pergunta é se você viu ela
cambaleando por aí ou não.
— E-ela? — gagueja o guarda. — Uma mulher fez isso? — Seus olhos se
arregalam ligeiramente com o reconhecimento. — Foi ela? A Paladina Prateada?
É uma luta não estremecer visivelmente com o título.
— Sim. Ela. A garota que você espalhou por toda a sua cidade. — Eu gesticulo
para um pôster esfarrapado ao lado do guarda cabeça, mal dando uma olhada no
rosto que eu já tinha memorizado. Não, o que me chama a atenção é o texto
rabiscado na parte inferior: VINTE MIL PRATAS PELA PRISÃO DE PAEDYN GRAY.
VIVO OU MORTO.
Vivo ou morto.
E a Praga sabe que ela não iria facilmente. É improvável que ela permitisse
que alguém a devolvesse viva a Ilya. No entanto, é isso que Kitt quer, apesar do
que ele diz às cidades vizinhas.
Volto minha atenção para o guarda perplexo diante de mim.
— Você não respondeu minha pergunta. Você a viu?
— Se eu tivesse, eu já a teria arrastado de volta para Ilya por aquelas pratas. —
Ele ri, meio bufando. — Então, seu rei realmente fez todas as cidades procurarem
por ela, hein?
Sim, ele fez.
— Se você a vir, ou qualquer coisa suspeita, você deve me avisar — eu digo,
ignorando a pergunta.
Outro bufo.
— Nem pensar que vou te reportar. Quem é você para roubar minhas vinte mil
moedas de prata?
Eu me aproximo, estudando-o por tempo suficiente para fazer sua garganta
balançar.
— Eu sou o homem com as vinte mil moedas de prata.
Observar a realização fazendo seu queixo cair é cômico.
— Você... você é...
Eu me viro antes mesmo que ele termine de gaguejar meu título.
Executor.
A palavra paira no ar, virando cabeças quando passo. Minha aparência é bem
conhecida em todas as cidades vizinhas, visto que eles veem Ilya e sua realeza
como um conto de fadas de ninar. Somos idolatrados da maneira como a
antipatia mútua une as pessoas, fornecendo fofocas mesquinhas quando há uma
pausa na conversa.
Examino a rua em busca de algo comestível, procurando por uma carroça de
mercador. Estou esgotado e começando a me sentir tonto, como se toda a
frustração que enche meu corpo finalmente tivesse se acomodado na minha
cabeça. Vou em direção a um grupo de carroças, contente em empurrar
qualquer um que esteja entre mim e meu apetite.
Mas a multidão se afasta como se a Peste caminhasse entre eles.
Sussurros me envolvem, meu nome sai dos lábios puxado para carrancas
firmes. Eu os ignoro e o escrutínio que os acompanha. Julgamento é um
sentimento familiar, quase confortável com sua previsibilidade.
Embora eu esteja lamentando minha falta de compostura que me identificou
tão rapidamente.
— Você tem carne? — O comerciante está de costas para mim quando coloco
algumas moedas em cima de seu carrinho e começo a pegar pães velhos, cada
um deles quase tão sólido quanto a madeira sobre a qual estão empilhados.
O mercador se contorce, vagando seus olhos escuros sobre mim e as moedas
espalhadas diante dele.
— Só javali. — Sua voz é exatamente o que eu imagino que soe, tão áspera
quanto ele parece.
Concordo uma vez.
— Vou levar o suficiente para meus homens e para mim.
Meu pedido é recebido com um longo silêncio.
— Para você — os olhos do homem se estreitam para as moedas — o dobro.
Abaixo a cabeça, uma risada sem humor escapa dos meus lábios. O mercador
se mexe, seu corpo fica tenso quando descanso minha palma sobre a madeira
áspera. Aceno para as moedas.
— Você e eu sabemos que carne não vale metade do que já lhe dei.
— Dobro — ele resmunga novamente.
— E por que — minha voz é letal — isso?
— Porque eu não gosto de você nem de gente do seu tipo.
Quase rio disso.
Seu tipo.
Pensar que em qualquer outro lugar que não Ilya, eu sou o enigma. A coisa
sobrenatural para se descartar. Eu o encaro, esse homem que é essencialmente
um Comuns, embora não tenha a doença que enfraquece a Elite correndo em
suas veias. Não é de se admirar que as cidades ao redor nos desprezem por banir
os Comuns que são como eles.
— Então você sabe o que eu sou — digo calmamente — e ainda assim você
decide me cobrar o dobro?
— Você não me assusta. Não aqui. — Seu rosto barbudo faz pouco para
esconder o sorriso malicioso puxando seus lábios. — Eu sei que você está
acostumado com o privilégio da Elite, mas você não vai ter nenhum disso aqui.
Provavelmente esse será o maior respeito que você receberá de alguém por aqui.
— Percebi — eu digo, muito rigidamente para o meu gosto. Eu não gosto
exatamente da ideia de as pessoas estarem cientes de sua capacidade de me
irritar. Com um leve rolar do meu pescoço, eu exalo a frustração dos meus
pulmões - uma ação familiar e bem praticada. — Bem, se esse é o maior respeito
que receberei em Dor, então suponho que você está me cortando um bom
negócio.
O homem pisca, um pouco surpreso com minha rápida mudança de tom. Eu
quase sorrio com isso, aproveitando as reações daqueles que ainda não estão
acostumados com as muitas máscaras que coloco e tiro à vontade. Meu sorriso é
afiado enquanto despejo mais moedas na madeira, juntando-se às várias que já
havia colocado lá.
Não demora muito para que meus Imperiais passem por aí tiras secas do que
me disseram ser javali, embora eu não esteja muito convencido.
— Se virem com o pouco. — ordeno. — Nós nos encontraremos aqui de novo
ao pôr do sol.
Os homens trocam olhares confusos, uma expressão que nunca parece deixar
os planos de seus rostos sujos.
— Mas, senhor — Matthew começa, dando um passo à frente do aglomerado
de uniformes amassados. Ele é um dos poucos Imperiais que me preocupo em
lembrar pelo nome - um dos poucos que não tenho uma coceira constante para
deixar para trás no deserto.
O olhar que lancei em sua direção fez as palavras morrerem em sua garganta.
— Estamos atraindo muita atenção para nós mesmos. Nunca obteremos as
informações de que precisamos, ou comida e pensão, se as pessoas souberem
quem eu sou e de onde viemos.— Matthew acena com a cabeça ao lado dos
outros homens, entendendo. — Separem-se. Aprendam o que puderem.
Aceno brevemente para o grupo antes de me virar e me esgueirar para a
multidão, de repente ninguém de importância.
Comum, se preferir.
CAPÍTULO 9

PAEDYN

— Ah, vamos lá. Você e eu sabemos que isso não vale dois xelins, muito menos
três.
Bato o pão velho contra a carroça do comerciante para dar ênfase.
Batida, batida, batida.
— Na verdade — acrescento com um pouco de diversão na língua — você
deveria me pagar para comer isso, Francis.
O homem mais velho esconde sua careta atrás das dobras de tecido que
circundam seu nariz e boca. Os ventos do oeste estão fortes hoje, soprando
pedaços de areia granulada e detritos do deserto para cobrir completamente a
cidade e seus habitantes. Levou apenas dois dias em Dor para aprender o quão
essenciais os cachecóis são para meu guarda-roupa, se houver alguma esperança
de manter a película constante de areia longe da minha boca.
— Três — ele resmunga pela quarta vez, seu forte sotaque abafado pelo tecido
imundo. — Escassez de trigo.
Eu gemo. Passei dias tentando fazer esse homem se aquecer comigo, para que
eu não tenha que continuar roubando ele às cegas. Maldita seja essa maldita
consciência que eu ainda tenho.
— Francis — começo lentamente, observando como a carranca que não
consigo ver estreita seus olhos. Depois de ver seu nome esculpido torto no topo
do carrinho de madeira, tenho usado isso em uma tentativa de construir algum
tipo de relacionamento com o comerciante. Até agora, falhei miseravelmente. —
Vamos ser razoáveis. Você sabe que não tenho esse tipo de dinheiro para jogar
fora em pão que provavelmente quebrará um dente.
Ele não se dá ao trabalho de responder com mais do que um rosnado grave.
Fechei os olhos e respirei fundo, deixando a areia escorregar entre meus
lábios.
Eu viria a me orgulhar do fato de entender essas pessoas. Pessoas como eu.
Pessoas que lutam para sobreviver, dependem da sucata para alimentar seus
estômagos roncando. Em outra vida, eu poderia ter considerado as favelas de
Ilya meu lar, se não fosse pela falta de poder fluindo em minhas veias.
Talvez seja por isso que estou tão desesperado para recomeçar aqui. Aqui, em
Dor, onde sou comum em um sentido totalmente novo da palavra. Não se pode
ser considerado impotente se todos os outros também o são. Não, aqui, sou
considerado igual. E nada nunca soou tão único.
— Tudo bem — suspiro, fingindo derrota. — Mas só porque eu gosto de você,
Francis.
Só porque eu quero que você goste de mim.
Seus olhos dourados parecem estar lutando contra a vontade de rolar para
mim. Eu sorrio docemente, esperando que meu próprio olhar retrate o quanto
eu anseio por companhia enquanto, simultaneamente, odeio a disposição com
que o desejo se mostra.
Eu jogo desajeitadamente outra moeda em cima do carrinho dele, desejando
que ela role para fora da madeira gasta. A prata brilha no sol poente preguiçoso
antes que a moeda atinja o chão com um tilintar satisfatório.
— Oh, desculpe, Francis! Ainda não estou acostumado com o calor e minhas
mãos estão repugnantemente suadas o tempo todo.
Ele pisca, seu rosto bronzeado inexpressivo sob seu cachecol, além do
desdém óbvio por mim. Quando ele se abaixa para pegar a prata que é meu atual
parceiro no crime, eu arranco mais dois pães de sua barraca com mãos hábeis,
um de cada torre de massa para não levantar suspeitas.
— Quer dizer, eu nunca fico sem estar encharcado de suor — continuo
casualmente enquanto Francis se endireita, limpando a moeda suja com o
polegar. — Sério, como você consegue ficar fresco sob todas essas camadas de
roupa? Eu me sinto tão pegajoso que eu-
— Esta é a nossa temporada de inverno — ele resmunga, me interrompendo.
Eu pisco para ele.
— Oh. Bem, isso é... assustador.
Apesar de Dor ser bem próxima de Ilya, eu cresci com estações rotativas,
embora nossos invernos fossem felizmente amenos. Eu não tinha percebido o
quão drasticamente o clima poderia diferir além da extensão de um deserto.
Enquanto os ventos do oeste sopram ar frio das Águas Rasas em direção a Ilya,
Dor é abençoada com o calor granulado do Deserto constantemente flutuando
em sua cidade. O calor é um habitante familiar de sua casa.
— Você nunca sobreviverá à temporada de fome, coisa pálida. — Ele me
encara por um longo momento, enquanto eu silenciosamente luto para fazer
minha voz funcionar.
Uma risada seca quebra o silêncio insuportável, e meus olhos disparam para
os dele. Francis coloca uma mão encharcada de sol sobre sua barriga, tremendo
com uma risada áspera. Eu hesitantemente me junto a ele com uma risada
desconfortável minha.
— Você é engraçado, coisa pálida — ele acrescenta entre risadas.
Suspiro aliviada, cedendo com a esperança de que minha ignorância ganhe o
favor de Francis.
— Fico feliz em saber que meu sofrimento suado é engraçado para você —
digo levemente, pegando o pão que ele me estende.
Sua risada continua enquanto ele rasga outro pão ao meio com mais do que
um pequeno esforço.
— Aqui. — Ele acena para mim antes que eu o pegue timidamente. — Vá
encontrar alguma sombra para comer isso.
Ofereço-lhe meus agradecimentos, engolindo a culpa ao sentir dois pães
roubados pesando nos bolsos internos do meu colete. Francis ainda está rindo
quando me viro, fazendo com que um pequeno sorriso se forme em meus lábios
por trás do tecido que engole a maior parte do meu rosto.
Talvez ele esteja se aproximando de mim, afinal.
Olho para meus braços, agora muito mais bronzeados do que estavam há uma
semana, antes de caminhar penosamente pelos Scorches. Mesmo assim, ainda
sou mais clara do que a maioria daqueles que passaram suas vidas em Dor.
Examinando as ruas movimentadas, admiro sua pele escura, lisa e brilhante à luz
do sol - como se os próprios raios fossem velhos amigos, acariciando sua pele
com dedos familiares.
Puxando o tecido fino para baixo da minha testa, eu empurro através da
massa de corpos que fervilham nas ruas. Meus olhos se prendem em um pôster
amassado, pendurado precariamente contra uma parede de loja em ruínas. Eu
franzo a testa, deslizando pela multidão para ficar diante do rosto que espelha o
meu. Eu encaro a garota refletindo minhas próprias feições, seus olhos cheios de
terror e raiva.
Engulo em seco, piscando para conter as lágrimas que me recuso a deixar
cair.
Esta deve ser uma réplica do que a Visor registrou depois de me avistar
momentos depois de matar o rei — o crime que cometi escrito em todo o meu
rosto cansado. Quase posso sentir o sangue que encharcou minhas mãos, cobriu
meu corpo quebrado. Minha mão se move para a cicatriz abaixo do meu maxilar,
meus dedos tateando para a letra esculpida acima do meu coração.
Não aguento mais olhar para aquilo, não aguento mais reviver aquele momento
do que já faço.
Não suporto olhar para o rosto de um assassino.
Com dedos trêmulos, arranco o pôster da parede, amassando-o no meu
punho antes de enfiá-lo na mochila pendurada nos meus ombros. Quando
tropecei na cidade naquela primeira noite após minha briga com o guarda-
O homem que você matou e deixou para apodrecer.
Eu quase bati em uma parede coberta com meu rosto. Meu cabelo prateado
brilhava ao luar, e mesmo estando opaco com areia, não havia dúvidas de que eu
era a réplica perfeita da Paladina Prateada procurada me encarando. Qualquer
tipo de cabelo de cor estranha é uma indicação clara de que você tem sangue
Ilyano correndo em suas veias, seja você Comum ou Elite.
E depois de passar uma vida de insignificância e me esconder à vista de todos,
eu me destaquei como um polegar machucado. Nunca me senti tão exposto, tão
fora do comum.
Passei a noite no topo do telhado em ruínas de uma loja, cuidando dos meus
ferimentos e me escondendo até que um amanhecer pintasse as ruas de
dourado. Só então tive coragem de tirar um cachecol surrado da carroça de um
comerciante para enrolar em volta do meu rosto e do meu cabelo prateado
traiçoeiro. Para minha sorte, não é nada incomum proteger o rosto do sol e da
areia movediça ao longo do dia. E, assim, fiquei felizmente invisível novamente.
Um ombro colide com o meu, assustador o suficiente para me tirar do meu
estupor. O garoto joga o que eu acho ser uma tentativa de aceno de desculpas
antes de voltar a empurrar pela rua lotada. Respirando fundo, puxo meu
cachecol enquanto finjo parecer que pertenço a este lugar. O povo de Dor é mais
do que um pouco rude nas bordas - ouso dizer, semelhante aos pedaços
irregulares de metal que o Pai costumava me fazer atirar na árvore retorcida em
nosso quintal.
Meus olhos percorrem a rua, encontrando inúmeros confrontos e seus gritos
acompanhantes. Lutar, tanto física quanto verbalmente, é claramente uma
ocorrência comum. E se os guardas não estão bocejando de tédio ou mal
piscando, eles provavelmente se juntaram à luta.
Essas pessoas são tão rudes quanto a areia de onde saíram.
Vejo um toldo esfarrapado pendurado precariamente na parede de uma loja,
prometendo uma tentadora lasca de sombra.
Poderia muito bem seguir o conselho de Francis.
Depois de quase tropeçar em um grupo de crianças ziguezagueando pelas
ruas, eu me enrolo desajeitadamente na lasca de sombra, esfregando meus
músculos doloridos. Mastigar é um termo generoso para o esforço que é preciso
para engolir o pão velho, visto que agora posso adicionar meu maxilar à lista
cada vez maior de dores e sofrimentos. Mas passo o pouco que resta do dia me
escondendo do sol escaldante e dos cartazes incriminadores me olhando com
lascívia.
Eu preciso de dinheiro.
Esse pensamento tem atormentado minha mente, martelando em minha
cabeça a cada hora passada nesta nova cidade que estou desesperado para fazer
um lar. As moedas tilintando em minha mochila parecem leves demais para meu
gosto e, infelizmente para mim, os habitantes de Dor são tudo menos
descuidados com o sustento que vive dentro de seus bolsos. Minhas tentativas
de roubo fora do que decora as carroças dos mercadores foram mínimas, para
dizer o mínimo. Estou quase envergonhado.
Com o sol se pondo e o calor diminuindo junto, ziguezagueio pela cidade em
busca do teto onde aprendi a gostar de dormir.
Preciso de dinheiro. Dinheiro significa abrigo. Significa comida. Significa...
Uma vontade de viver.
—... três pratas que Slick ganhará. O bastardo está invicto.
A voz estrondosa me distrai dos meus pensamentos em espiral. Tédio e
curiosidade se misturam para criar uma mistura perigosa de intriga que me faz
encostar na parede de um beco, com a intenção de bisbilhotar.
Outro homem zomba, seu sotaque carregado.
— Invicto, hein? Talvez porque o companheiro só lutou em três partidas. Um
bastardo sortudo, é o que ele é.
— Então você está apostando em um novato, não é? — O primeiro homem
pergunta com desprezo.
— Eu decido quando os vir.— Ele ri então, um som áspero que duvido que ele
faça com frequência. — Talvez eu entre no ringue. Mostre a eles como se faz,
hein?
Uma risada áspera percorre o beco enquanto eu casualmente me afasto da
parede para caminhar a uma distância segura atrás deles. Cada pedaço de mim
coça por excitação, por algo para me ocupar além dos meus pensamentos
perturbadores.
E onde há apostas, há dinheiro a ser ganho.
E onde há dinheiro para ganhar, há dinheiro para roubar.

Um cotovelo afunda no meu estômago, sugando o ar dos meus pulmões.


Eu empurro a multidão, tentando o meu melhor para não me afogar no mar
de corpos suados. Gritos e escárnios ondulam pelo porão, todos direcionados à
violência enjaulada em exibição, embora eu mal consiga vê-la.
Estou sendo sufocado por corpos pegajosos, forçado a espiar por lascas de
espaço na parede de ombros. Irritado, viro minha cabeça, quase batendo em
alguém diretamente atrás de mim. Já perdi os dois homens que segui até aqui
depois de copiar a sequência de batidas que eles deram na porta escondida.
Tamborilo o padrão na minha perna, gravando-o na minha memória mesmo
enquanto tento me esgueirar pela multidão.
Reconheço o som de punhos encontrando carne, embora eu esteja muito
mais interessado nos bolsos daqueles entre os quais estou enfiado. Tento um
sutil golpe de minha mão em direção ao corpo ao meu lado, apenas para ser
empurrado pelas costas por um homem berrando.
Solto um suspiro, sentindo as pessoas pressionadas contra mim.
Como vou roubar se mal consigo mover os braços?
Meus dedos se fecham em punho ao meu lado enquanto luto contra a
vontade de jogá-lo em alguém.
Eu pisco, os olhos voando em direção à gaiola e à briga sangrenta lá dentro.
Um plano totalmente novo e tolo começa a se formar enquanto tento passar
pela multidão mais uma vez. Sou recebido com mais cotoveladas no estômago e
ombros no rosto que ignoro em minha busca por quem comanda esse ringue de
luta ilegal.
A luta termina com um golpe final sangrento quando eu tropeço na frente.
Xingamentos e aplausos ecoam pelo porão, e o humor de todos de repente
depende de em quem eles apostaram ou não.
— Bilhetes de apostas! Vocês sabem o que fazer. Tragam seus bilhetes de
apostas e nós resolveremos sua parte!
Sigo a linha grosseiramente formada que leva a uma mesa frágil ao lado da
gaiola. Uma mecha de cabelo prateado ameaça escorregar de baixo do meu
cachecol, e eu rapidamente a coloco de volta junto com o resto enquanto me
esforço para ver o homem trocando bilhetes por moedas.
Seu rabo de cavalo penteado brilha na luz fraca sob a qual ele está, suas costas
curvadas sobre um monte de bilhetes. Ele não perde tempo colocando o número
apropriado de moedas em cada mão, mal se preocupando em olhar para a pessoa
à sua frente.
— Seu ingresso?
Pisco para sua mão estendida, atordoada pela rapidez com que estou de
repente diante dele.
— Não, desculpe, eu realmente queria falar com você sobre lutar no ringue.
— Sem ingresso — ele suspira sem olhar para mim — sem conversa.
Balanço a cabeça e me aproximo até meus quadris encontrarem a borda da
mesa.
— Mas-
— Próximo!
Seu grito fez uma mulher pisar ao meu lado sem pensar duas vezes. Depois
de ser empurrado para o lado quando ela entrega seu ingresso, planto meus pés
no final da mesa.
— Deixe-me lutar.
— Escuta, garoto. — Ele esfrega a mão sobre os olhos cansados antes de
inspecionar o próximo ingresso. — Eu não deixo qualquer um lutar no meu
ringue. Além disso — ele me lança um olhar — você seria comido vivo lá dentro.
Então, suma.
Apoiando as palmas das mãos na mesa, inclino-me perto o suficiente para
captar o brilho de um relógio de ouro em seu pulso e o cheiro de colônia em sua
pele.
Ele está melhor do que metade desta cidade.
— Quero uma parte justa. O que quer que o resto dos seus lutadores estejam
ganhando. — Eu digo suavemente. —Embora eu espere ganhar mais do que eles
em pouco tempo.
Com isso, ele relutantemente levanta a cabeça, encontrando meu olhar
enquanto levanta uma mão para parar a fila. — Eu disse para sumir, garoto.
Enquanto eu ainda vou deixo você fazer isso.
Inclino minha cabeça inocentemente, estreitando os olhos levemente.
— Seria uma pena se os guardas descobrissem sobre a luta ilegal em jaulas que
você está fazendo aqui. — Aceno em direção ao relógio brilhante decorando seu
pulso grosso. — Parece que você se acostumou bastante com a riqueza. Duvido
que seria fácil para você se reajustar à pobreza da qual você saiu.
Embora a luta claramente não seja proibida aqui em Dor, considerando o quão
comum é a ocorrência, apostar em tais lutadores é onde eles decidem para
traçar o limite - explicando o porão apertado com uma batida elegante para
permitir o acesso.
Um sorriso começa a se formar no canto de sua boca, como se ele possuísse
uma espécie de carisma corrompido.
— Você está me ameaçando? — Ele ri, áspero e mordaz. — Você não pode me
ameaçar, garoto. Vou mandar meus homens te despedaçar. Eu praticamente sou
dono desta cidade.
— Você nunca me viu lutar. — Eu dou de ombros despreocupadamente. —
Então, se eu precisar devolver eles para você em pedaços só para provar meu
valor, acho que terei que fazer exatamente isso.
A ideia de rasgar alguém em pedaços me deixa enjoada, mas o olhar que eu
lhe dou diz tudo, menos isso. Vários segundos lentos passam antes que um
sorriso se espalhe por seus lábios.
— Eu gosto do seu espírito, garoto.
Engulo meu alívio.
Isso é um sim?
— Você luta em uma hora. — Ele puxa uma folha de pergaminho com os
nomes dos lutadores anteriores e quanto eles lhe renderam. — Estou te dando
uma chance, então não me decepcione, garoto. Você não quer saber o que
acontece quando eu fico decepcionado.
Concordo, escondendo meu sorriso.
— Duvido que eu vá descobrir.
Ele balança a cabeça em descrença, parecendo já arrependido de sua decisão.
— É, vamos ver sobre isso. Eu sou Rafael. — Seus olhos se movem
rapidamente para meu rosto escondido. — E como devemos chamar você,
garoto?
Meus olhos deslizam sobre a gaiola e as luzes bruxuleantes acima dela. Um
pequeno sorriso consegue curvar meus lábios, puxando gentilmente minha
cicatriz.
— Sombra.
CAPÍTULO 10

KAI

Até o luar é quente aqui.


Raios prateados pálidos deslizam entre as rachaduras de prédios e faixas,
como dedos frágeis desesperados para arranhar qualquer coisa em seu caminho.
Eu puxo a bandana amarrada em volta da minha boca e nariz; o tecido
vermelho-sangue pretendia manter a areia soprada longe da minha boca,
embora ela ranja entre meus dentes mesmo assim.
Abandonei meus Imperiais pela noite, assim como fiz nas quatro anteriores
desde que chegamos em Dor. Passei a maior parte do dia sozinho, explorando as
ruas junto com qualquer fenda possível em que ela pudesse ter entrado. Toda
vez que puxo uma faixa, abro uma porta decadente, pergunto se alguém viu a
Paladina Prateada, ela me evita a cada curva.
Ela é um fantasma em forma humana. Como tentar segurar o vento em seu
punho, incapaz de vê-lo mesmo sentindo-o escorregar entre seus dedos.
E saber disso me faz sentir algo pateticamente próximo do alívio.
Esta noite está mais quente do que a maioria, me deixando pegajoso de suor
e areia. Viro por uma rua tranquila, me sentindo um pouco incomodado pelo
silêncio que engole esta cidade a cada noite. Se eu tivesse que dar um palpite,
diria que é porque todos estão exaustos depois de um longo dia de luta nas ruas
e empurrando a corrente de corpos.
Olho para um guarda que passa e que parece tudo menos alerta. Respiro
fundo, engolindo a vontade de começar uma briga por pura curiosidade sobre o
que o preguiçoso faria. Eles são piores do que a maioria dos imperiais em casa, e
isso quer dizer alguma coisa.
Minha falta de poder aqui pesa sobre mim, um zumbido surdo no meu
sangue. Sinto-me estranhamente pesado, apesar de faltar um pedaço de mim. Ao
contrário dos outros Elites, minha habilidade depende daqueles ao meu redor, e
os Imperiais que trouxe para Dor são o único pedaço de poder que tenho para
me alimentar. Depois de passar a vida inteira cercado por Elites, a ausência delas
e dos poderes que as acompanham é tão estranha que chega a ser assustador.
Nunca me senti tão exposto.
Uma pressão repentina e leve no meu quadril me deixou tenso, tentando
alcançar minha adaga escondida. Bem, a adaga dela escondida.
A bolsa de moedas.
É isso que eles querem.
Era isso que ela queria também naquele primeiro dia em que a conheci.
Poderia ser ela? Poderia ela estar repetindo a história sem nem perceber?
Não tem como nem ela ter coragem de me roubar sabendo que sou eu. Meu
coração bate forte, minha cabeça e meu pulso estão acelerados.
Eu giro.
Engulo em seco, saboreando os segundos em que ainda estou no
desconhecido.
Vire-se e olhe para ela. Olhe para o rosto que tirou a vida do seu pai. O rosto
que não roubou apenas seu dinheiro, mas também seu co-
Eu engancho um pé atrás de mim, pegando um tornozelo do ladrão que
silenciosamente rouba minhas moedas de prata. Com um puxão, eu as jogo no
chão.
Desleixado. Não é o estilo dela.
Com certeza, o corpo esparramado diante de mim não pertence a uma mulher,
mas a uma menina. Meus olhos se arregalam, tanto em surpresa quanto em uma
tentativa de ver através da escuridão cada vez mais espessa. Em questão de
momentos, as palmas das mãos da menina a empurram para trás enquanto ela
tenta colocar algum espaço entre nós, suas botas gastas levantando poeira
enquanto raspam no chão.
Dou um passo leve em sua direção, agachando-me ligeiramente para ter uma
visão melhor de-
A ponta de uma lâmina de repente aponta para meu rosto.
Eu pisco. Isso foi... inesperado, para dizer o mínimo.
Levantando minhas mãos levemente em sinal de rendição, começo a dar um
passo para longe, meus olhos fixos na arma agarrada por uma mão delicada. Meu
olhar se estreita nas gravuras espreitando entre os pequenos dedos enrolados ao
redor do punho.
Eu conheço essa faca.
Meus olhos se voltam para os cabelos desgrenhados que se aglomeram ao
redor de um rosto pálido.
Vermelho.
— Abigail — eu ofego.
Ela está viva.
É um milagre ela ter conseguido atravessar o Scorches depois que eu a bani,
junto com a família que a abrigou.
A faca está tremendo em sua mão agora, mas sua voz tem uma espécie de
suavidade firme.
— Co-como você sabe meu nome?
Eu tiro a bandana do meu rosto antes de me aproximar lentamente dela,
minhas mãos seguras onde ela pode vê-las. Como forma de resposta, eu digo,
— Parece que você tem usado minha faca.
Seus olhos se arregalam com algo parecido com a admiração infantil, embora
seu espanto seja tudo menos agradável.
— Você — ela diz, seu tom beirando a acusação. — O que você está fazendo
aqui? — Abro minha boca para responder, mas sua pequena voz preenche o
silêncio antes que eu tenha uma chance. — Você está aqui para me matar? De
verdade dessa vez?
A pontada de mágoa que sinto com suas palavras me causa um choque. Eu
não deveria ficar surpreso com sua suposição. Minha reputação não deixa
espaço para especulação. Eu sou exatamente aquilo para o qual fui criado, um
assassino.
— Não — eu digo calmamente. — Não é por você que eu vim.
Ela me observa por um momento, abaixando apenas um pouco sua arma.
Garota inteligente.
— Você se lembrou do meu nome — ela afirma.
— Claro que sim.
Eu tentei esquecer, acredite em mim.
Eu limpo minha garganta, agachando-me para olhá-la nos olhos enquanto
ignoro a lâmina ainda apontada para mim.
— Talvez você possa me ajudar a encontrar quem estou procurando? — Ela me
prende com um olhar cético. — A... Paladina Prateada. A mulher nos cartazes por
toda a cidade. Você a viu? Ouviu algo sobre ela?
Abigail abaixa a faca lentamente, tendo decidido que é melhor não usar minha
própria arma contra mim.
— Não sei. — Ela dá de ombros. — Não ouvi um pio.
Eu suspiro.
Bem, isso não ajudou em nada.
O cabelo vermelho-fogo da garota ondula quando ela vira a cabeça para a
direita, olhando para uma rua especialmente escura com antecipação.
— Se eu estiver te impedindo de fazer alguma coisa, por todos os meios… —
Eu gesticulo para o trecho de escuridão para o qual ela parece tão decidida a
correr.
— Tenho que chegar lá antes que a partida acabe. Não fiz muito hoje, e as
apostas devem ser bem altas hoje à noite. — Palavras saem da boca dela
enquanto eu me esforço para acompanhar. — Há um novo favorito, então isso
significa muitas pessoas.
Ela começa a se afastar, minha pergunta só a faz parar por um segundo.
— Um novo favorito? O que é o novo favorito?
— Não o quê. — Um sorriso infantil ilumina seu rosto. — Quem.
— Abigail — eu digo, minha voz enganosamente calma — vou precisar de um
pouco mais de informação do que isso.
— Ugh. — Eu praticamente posso sentir os olhos dela revirando na escuridão.
— Vamos. Eu vou te mostrar. — Ela se vira para apontar um dedo minúsculo e
acusador para mim. — Mas mantenha suas mãos para si mesmo. Essas moedas
são minhas. Preciso de xelins para levar de volta para a mamãe.
Eu reprimo meu sorriso.
— Ah, sim. Você é uma ladra e tanto agora. Embora ainda precise de um pouco
de prática. Suas mãos são muito pesadas. Uma carranca puxa seus lábios
enquanto andamos, então eu simplesmente acrescento — Os melhores ladrões
sabem como distrair de quem estão roubando. Tire a mente deles do dinheiro no
bolso, e ele é seu.
Ela olha para mim, a cabeça inclinada.
— Como você sabe tanto sobre roubo?
Fico em silêncio o suficiente para deixar meus pensamentos vagarem de volta
para a pessoa que me distraiu mais do que qualquer outra.
— Porque — suspiro — até eu fui vítima de uma grande ladra.
Ela para diante de um prédio em ruínas e da porta do porão que se abre
abaixo dele. Com um pequeno punho, ela envolve os nós dos dedos em uma série
de batidas. Olho em volta, não vejo ninguém no beco escuro enquanto me
pergunto em que diabos essa criança está me levando.
— Então — Abigail diz confiantemente — quando eu puder roubar de você sem
perceber, serei uma das melhores?
O canto da minha boca se levanta.
— Isso é ilusão, garota.
Ela faz cara feia.
— Ei. Eu ainda tenho uma faca, lembra?
As portas do porão de repente se abrem com um estrondo. Amarrando a
bandana de volta em volta do meu nariz e boca, vejo Abigail girar nos
calcanhares antes de descer as escadas abaixo. Balanço a cabeça para sua forma
que se afasta.
O fogo em seus olhos. Os instintos de ladra. A lâmina com um punho gravado
com redemoinhos.
O que eu criei?
As semelhanças entre elas são surpreendentes.
Era assim que ela era há tantos anos? Ensinando a si mesma como sobreviver
com as moedas do bolso de outra pessoa? Recusando-se a focar no medo que
sentia?
Não consigo escapar do pensamento dela, da visão dela entre aqueles que me
cercam.
É irritante.
E o pior é que eu posso ter ajudado a criar o que em breve será outra versão
do ladrão que levou a melhor sobre mim.
CAPÍTULO 11

PAEDYN

Agora sei porque o chamam de Sebo.


Meus nós dos dedos pingam com o suor que antes cobria o maxilar do homem
antes de eu limpar seu rosto com força com meu punho. O sangue de Sebo cobre
minhas mãos, ardendo os nós dos dedos em carne viva que sacudo enquanto nós
circulamos.
A multidão vaia, seus gritos ecoando no apertado porão subterrâneo.
Rostos que não tenho tempo para focar na imprensa contra o anel de arame
que nos separa do público barulhento além. As apostas estão especialmente altas
esta noite, encorajando os espectadores a sacudir a gaiola ou pisar forte no
ritmo do trovão lá fora. Considerando o quão antecipada minha partida contra
Sebo tem sido desde que passei as últimas noites derrotando cada um de seus
oponentes, eu não esperaria nada menos.
De repente, ele está me atacando, e eu me atrapalho para compreender um
adjetivo adequado para descrever seu tamanho. Sebo pode ser o maior e mais
escorregadio homem que já encontrei, mas também o mais lento. Eu me abaixo
sob o punho gigante que ele balança na minha cabeça, evitando por pouco o
segundo que mira no meu estômago. Meu pé se conecta com seu lado nu, seu
corpo tão sólido que eu posso ter causado mais dano a mim mesmo.
Uma mão suada aperta meu tornozelo antes que ele me puxe para frente com
um grunhido. Sebo é tão previsível quanto é gigantesco. Com a perna que ainda
está plantada no chão, eu enfio meu joelho em sua virilha. Com isso, ele faz mais
do que grunhir enquanto a multidão ao redor simpatiza com um “oof”
sincronizado.
A briga fez meu cachecol bem enrolado se mover sobre minha cabeça,
ameaçando expor uma mecha de cabelo prateado. Eu recuo, ofegante enquanto
ajusto o pano em volta do meu rosto. Depois de três noites, é um milagre que eu
tenha conseguido permanecer anônimo.
Talvez seja a emoção que me faz voltar para mais. Isso e o dinheiro.
Um punho acerta minhas costelas, forçando a respiração para fora dos meus
pulmões. Eu tropeço com o impacto, cuspindo através do tecido ao redor do
meu rosto enquanto tento recuperar o fôlego. Sebo vem em minha direção,
sorrindo em resposta à multidão gritando.
Eu franzo a testa com o som. Ele é um favorito dos fãs, afinal, não há razão
para levar para o lado pessoal. É uma pena que a multidão não possa ver a garota
de quase dezoito anos que tem chutado a bunda de homens com o dobro do seu
tamanho e
idade. Por outro lado, atenção é a última coisa de que preciso, o que torna essas
lutas ainda mais perigosas. Preciso continuar sendo o novato sem rosto, uma
intriga passageira para alimentar as fofocas sussurradas nas ruas.
Mas não pretendo ir embora. Ou perder.
Não, eu lucrei mais vencendo essas partidas do que em um mês de roubo em
Ilya. Mesmo com Adena vendendo suas roupas, nunca teríamos conseguido o
suficiente para pagar por um quarto e alimentação de verdade. Uma pontada de
dor me atravessa com o pensamento, embora não tenha nada a ver com os
ferimentos que ganhei. Ela me atravessa direto no coração que dói sem ela —
aquele que se partiu no dia em que ela se partiu.
Por você, Adena. Tudo por você.
Sebo é persistente, chovendo golpes que mal evito. Ele acerta o lado da minha
cabeça com o punho, estrelas explodem na minha visão. Estou lenta. Cansada e...
Morrendo de fome. As coisas que eu faria por uma laranja agora mesmo.
Balanço a cabeça, tentando clarear a mente turva dentro de mim.
Concentre-se agora. Comida mais tarde.
Sebo me deixou completamente esgotada. Estou tentando lê-lo, tentando
explorar aquela minha habilidade psíquica e encontrar a melhor maneira de
derrotá-lo rapidamente.
Meu pai ficaria desapontado com o tempo que estou levando para lê-lo.
Ele bloqueia meu soco antes de me atacar, me empurrando com força contra
a gaiola. O fio solto chacoalha, e eu mal registro os cânticos da multidão além.
— Acabem com ele! Acabem com ele! Acabem com ele!
Certo. Quase esqueci que sou ele.
Minhas roupas largas e meu rosto coberto ajudaram a manter minha
identidade como a da espécie masculina. Eu ficaria um pouco ofendida se não
fosse exatamente isso que eu desejo.
Foco.
Ele está me pressionando contra a gaiola enferrujada, enrolando um braço
gigante para me golpear. Quando o punho vem voando em direção ao meu rosto,
eu me viro para o lado, observando-o desferir um golpe no metal onde minha
cabeça estava.
Ele só luta com a parte superior do corpo.
Com certeza, ele levanta o braço novamente, com a intenção de apenas
atingir seu alvo com um punho. Com esse conhecimento em mente, meu pé
encontra a parte interna do joelho dele, chutando forte o suficiente para enviar
um choque pela minha perna. Slick morde um grito enquanto cai de joelhos
diante de mim, segurando o que provavelmente é uma rótula deslocada.
Um suspiro coletivo ecoa pela multidão ao ver seu campeão tão vulnerável.
Esses suspiros crescem para algo muito mais alto quando eu enfio meu joelho
em seu estômago.
Uma vez. Duas vezes-
De repente, estou sendo jogada no chão.
Ele agarrou minha perna e desajeitadamente me jogou para fora dos meus pés
antes de balançar meu corpo no chão mal acolchoado do ringue. Eu cambaleio
para ficar de pé, os ossos doendo enquanto eu avanço sobre o homem ainda
ajoelhado. Então eu estou usando sua perna apoiada e ilesa como um banquinho
antes que ele tenha um momento para reagir. Balançando minhas pernas sobre
seus ombros, eu engancho um joelho em volta de seu pescoço e uso meu
impulso para nos fazer cair no chão.
Não foi minha queda mais elegante.
Eu me preparo para o impacto, mantendo minha perna presa contra seu
pescoço, apertando sua garganta. Ele luta cegamente atrás dele, suas mãos
agitando-se na esperança de atingir algo importante. Aproveito a oportunidade
para pegar um de seus pulsos, puxando-o com força atrás de sua cabeça e
pressionando-o contra meu peito.
Desta vez ele grita. Embora estrangulado, graças à minha perna ainda
sufocando o som de sua garganta.
Seu cotovelo se estica enquanto puxo seu braço para baixo de forma não
natural, hiperextendendo a articulação. Seu suor excessivo me deixa em
desvantagem enquanto luto para evitar que meu aperto escorregue. Eu o seguro
ali, ofegante enquanto ele se contorce, minhas próprias costas suadas contra o
tapete áspero abaixo de nós. A multidão se fecha em volta da gaiola, sacudindo o
metal e gritando coisas que não tenho energia para processar no momento.
Sebo levou nove segundos para bater agressivamente no tatame com a mão
livre, sucumbindo à derrota.
Eu ganhei.
Eu desembaraço Sebo dos meus muitos membros, rolando para longe da poça
de suor que contorna sua forma ofegante. Meus dedos doloridos brincam com o
tecido confortável em volta do meu rosto antes de eu lentamente me levantar,
me sentindo instável. Eu examino a multidão aplaudindo, mais do que um pouco
satisfeita com a mistura de aplausos surpresos e rostos carrancudos
pertencentes àqueles que apostam na minha derrota. Eu levanto uma mão
triunfante no ar, sorrindo com lábios rachados que eles não podem ver.
— E aí está. Sombra venceu!
Volto minha atenção para o homem que não admite o quanto ele gosta de
mim. Rafael levanta uma mão, gritando uma variação de suas falas habituais
acima da multidão agitada.
— Se você apostou no novato, é seu dia de sorte. Traga-me seus ingressos e...
Não me incomodo em ouvir o resto do seu discurso repetitivo. Assim que eu
tiver meu corte, estarei a caminho e dormirei tão silenciosamente quanto
alguém é capaz em cima de um telhado.
Mais algumas noites e terei o suficiente para uma cama de verdade.
A esperança disso me faz agarrar aos últimos resquícios da minha sanidade.
Esfregando meus dedos doloridos, eu empurro meu caminho para fora do ringue
e para o aglomerado de corpos além. Mãos estão batendo em minhas costas,
parabéns seguindo na forma de vários grunhidos. Esse é o ápice da polidez entre
essa multidão.
— Ah, Sombra. — Rafael acena em sinal de parabéns, observando-me abrir
caminho até sua mesa frágil coberta de bilhetes e moedas.
— Como foi a nossa noite, Rafael?
E por nós, quero dizer eu. Mantenho minha voz baixa, minha garganta seca
ajudando a fazer o som muito mais áspero do que eu pretendia.
Ele balança a cabeça para a mesa bagunçada, assobiando baixo.
— Muito boa, garoto.
Sorrio apesar do corte de raiva no meu lábio, ignorando o sangue começando
a se acumular na minha boca.
— Do que estamos falando? Vinte? Trinta?
— Pelo menos. — Rafael olha para mim com um sorriso malicioso enquanto os
fios grisalhos em seu cabelo liso brilham na luz bruxuleante.
— Isso me prova a mim mesmo, hein? — Eu digo maliciosamente, assim como
faço depois de cada um das minhas vitórias.
— É, é. Escute, você tem um futuro aqui, garoto. As pessoas vão querer te ver
mais depois do show de hoje à noite. — Ele se endireita, começando a contar
moedas antes de colocá-las em minhas palmas gananciosas. — Eu poderia te
preparar consistentemente — ele continua enquanto eu deslizo as moedas de
prata no meu bolso. — Diga, uma briga toda noite?
Meu sorriso é presunçoso o suficiente para que ele veja em meus olhos.
— Talvez eu considere isso depois de ouvir um pedido de desculpas por
duvidar de mim.
— Você é um pé no saco, sabia? — As palavras são duras, mas seu tom é tudo
menos isso. — Tudo bem. Desculpe. Pronto, você está feliz agora?
Abro a boca para responder, para dizer que aceito seu lamentável pedido de
desculpas e espero um corte maior no salário.
Mas não é a minha voz que ecoa pelo porão.
Não, é uma voz que me dá calafrios até os ossos, embora costumava deixar
meu sangue em chamas. Costumava me deixar pendurada em cada palavra e
dolorida pela próxima vez que eu a ouviria.
Mas agora? Agora eu esperava nunca mais ouvir aquela voz fria. Ouvir o
comando entrelaçando cada palavra, o cálculo acompanhando cada frase dita.
Mas lá está ele, forte, seguro e tão arrogante enquanto serpenteia pela minha
espinha.
— Então, Sombra está pronto para outra rodada?
Ele me encontrou.
CAPÍTULO 12

KITT

Já se passaram quase duas semanas.


Não, definitivamente mais longo que isso. Talvez.
Esfrego a mão no rosto, agora áspero com os resquícios do esquecimento. Não
consigo lembrar da última vez que me barbei, muito menos da última vez que saí
deste escritório. Bem, duas semanas atrás seria uma aposta segura. Porque,
presumivelmente, esse é todo o tempo que me separa do que antes era minha
normalidade para minha realidade atual, embora eu não consiga lembrar bem o
que aconteceu entre esta vida e a que vivi antes.
Pergaminho cobre a mesa que usei como travesseiro ontem à noite, cobrindo
a escuridão madeira com cortes de papel esperando para acontecer. Pálpebras
caídas criam uma caligrafia rabiscada, e eu olho para as letras inclinadas olhando
para mim. Palavras tão raivosas. Tanta amargura espremida entre as linhas de
papel amassado. Quem imaginaria que eu seria capaz de tamanha crueldade,
tamanha tristeza paralisante?
Talvez o pai gostasse desta versão de mim.
O pensamento é uma espécie amarga de traição, um sussurro de verdade
fazendo cócegas em meu ouvido. Porque essa casca de homem e a silhueta de
um monstro - é exatamente o que ele queria. Não a mansidão que ele zombava, o
calcanhar de Aquiles que é minha gentileza.
Passo uma mão manchada de tinta pelo meu rosto, rabiscando entre as linhas
profundas da minha pele. Meus olhos captam uma letra cursiva que não
pertence à minha mão, rolada pelo pergaminho que repousa sob meus cotovelos.
A aspereza de Kai pode ser encontrada até mesmo na inclinação de suas letras,
no peso da tinta.
Eu não o invejo. Não de verdade. Não intencionalmente.
Kai era o rei que o Pai queria. Era tão claro quanto o desgosto óbvio que eles
compartilhavam um pelo outro. Kai é o todo brutal, o ousado, o agourento - todo
o filho do rei. E eu acho que esse era exatamente o problema entre os dois. O pai
odiava ele não ser o herdeiro. Odiava que o rei que ele queria fosse impedido
pelo filho que ele teve primeiro. Eu não era Kai, e isso o matou.
E eu sei que parte dele desprezava meu irmão porque ele era tudo o que eu
não era.
Eu me levanto, sentindo-me quase tão trêmulo quanto o suspiro que soltei.
Andar de um lado para o outro da janela tem sido minha excursão
rotineiramente emocionante nas últimas duas semanas. Mas hoje, hoje estou me
sentindo bastante ousado. Hoje abro as cortinas antes de imediatamente me
arrepender daquela decisão precipitada.
Estou cego pela luz fraca que entra pela janela embaçada.
Entre piscadas, examino o terreno além, a casa em que me senti como um
refém ultimamente. Meus olhos seguem para onde sei que o Escaldante se
estende muito além, para onde enviei Kai para encontrar ela.
Ela.
Penso nela mais do que deveria. Escrevo sobre ela quando meus pensamentos
não podem mais contê-la. Debruço-me sobre cada detalhe de nossa curta
existência compartilhada.
Cada palavra deliberadamente enganosa. A persistência dela brincando
comigo. Pai e seu sutil encorajamento para passar tempo com ela. Os
sentimentos que Kai está lutando enquanto a caça.
A enxurrada de pensamentos me fez puxar uma folha de pergaminho
relativamente limpa de baixo de seus irmãos e irmãs estragados.
E então ela está se derramando na página novamente. Uma variação de
palavras que eu já juntei antes. Uma balada de traição, um soneto de tristeza.
Estou cansado de escrever da perspectiva do vilão.
CAPÍTULO 13

KAI

Eu a encontrei.
No meio de uma maldita briga, de todas as coisas. Eu não deveria estar
surpreso.
— Acabem com ele! Acabem com ele! Acabem com ele!
O porão está úmido, ecoando com os gritos de uma multidão apertada.
Depois de empurrar corpos suados, deixei meus olhos vagarem sobre as várias
cabeças de cores opacas, ainda desacostumado com a falta de cabelos vibrantes
entre elas. Foi quando voltei minha atenção para o homem andando em círculos
na gaiola, chocantemente grande em comparação com seu oponente.
Seu oponente.
Aquele que se move como um dançarino, nem sempre em fluidez, mas em
cálculo. Como se antecipasse cada passo, mapeando cada movimento.
Aquele que luta com um tipo de fogo familiar, uma ferocidade que foi
alimentada e aprimorada durante anos.
Aquele com o rosto coberto, cabelo escondido, identidade oculta.
Eu conheço o rosto por trás daquele tecido. Conheço as sardas que salpicam
aquele nariz, o cabelo prateado que brilha ao sol. Conheço o corpo magro
escondido sob camadas de roupa, escondendo a cintura onde minha mão se
encaixa perfeitamente, costelas marcadas por uma lança na Floresta dos
Sussurros.
É ela.
— E aí está. Sombra venceu!
Sombra. Que apropriado.
Embora eu não consiga ver seu rosto, posso praticamente sentir o orgulho
irradiando dela enquanto ela está no ringue, punho erguido em triunfo. Eu mal
tinha me concentrado na partida, muito consumido com a percepção de que é
ela. Mas eu vejo o sangue encharcando o cachecol que ela mantém firmemente
enrolado em volta da cabeça e do rosto, escondendo o criminoso que jaz por
baixo.
Rapidamente, a partida acaba. A multidão está aplaudindo. O Sombra está
indo embora.
Não, eu preciso dela.
O pensamento quase me faz rir amargamente. Duas semanas atrás, essas
palavras teriam um significado muito diferente, um que não estou me
permitindo ponderar mais.
Ela está agora ao lado do locutor, recebendo seu pagamento e o que parecem
ser seus elogios.
Pense.
Eu deveria segui-la. Eu deveria segui-la e pegá-la de surpresa. Eu deveria ser
inteligente sobre isso. Cada pedaço de treinamento grita para mim para lidar
com isso delicadamente, deliberadamente.
Mas onde está a graça nisso?
Vou tratá-la com a mesma delicadeza com que ela lidou com meu pai.
Quero vê-la se contorcer, se atrapalhar para manter sua fachada. E com uma
audiência à minha disposição, sua identidade está em jogo, forçando-a a se
concentrar em mim e no papel que está interpretando.
E é aí que eu abro a boca.
— Então, Sombra está pronto para outra rodada?
Foi como se eu tivesse gritado.
Sua cabeça vira em minha direção com tanto fervor que eu luto para ignorar a
lembrança de como ela costumava relaxar ao som da minha voz. Seus olhos
vagam de rosto em rosto. Procurando. Frenéticos. Com medo.
E então aqueles olhos do oceano encontram os meus.
É elétrico, esse olhar, embora não como costumava ser. A corda invisível entre
nós agora está carregada com nosso passado, nosso presente, nosso futuro -
com tudo o que já fomos e tudo o que somos agora. É um tipo hostil de
harmonia, nós dois finalmente totalmente cientes do que somos um para o outro
- nada. Apenas a casca do que foi; o que poderia ter sido.
Eu costumava acolher a ideia de me afogar naqueles olhos azuis dela. Mas
agora, vendo o desdém com que ela me encara, percebo que me afogar sozinho
não era o que eu desejava, mas afundar junto.
— E — a voz do locutor não consegue tirar meu olhar do dela — quem é você?
Seu olhar se estreita sobre as dobras do tecido que escondem o rosto que
conheço muito bem. Um desafio. Eu praticamente consigo ouvir sua voz
provocadora ecoando em meu crânio.
Vá em frente. Diga a eles quem você é, príncipe.
— Chama — eu digo, sem desviar os olhos dos dela.
Os olhos dela deixam os meus por tempo suficiente para rolar. Meu sorriso é
afiado, embora ela não consiga vê-lo por trás da bandana que esconde a parte
inferior do meu rosto.
Se ela é Sombra, então eu sou Chama.
Essa garota é exatamente aquilo de que não consigo escapar - não consigo ir
a lugar nenhum sem os restos do que a segue. Onde eu estou, ela está. Seja de
corpo ou nos fragmentos da minha mente.
E onde há uma chama, sempre há uma sombra.
Ela é minha inevitável.
O locutor esfrega a nuca, contemplando.
— Bem, Chama, não estávamos planejando outra luta hoje à noite...
— Ah, claro. — Levanto minhas mãos levemente, parecendo pedir desculpas. —
Eu entendo. Sombra não aguenta outra luta hoje à noite. Não gostaríamos que
ele perdesse sua sequência de vitórias, não é mesmo?
Quando meus olhos deslizam de volta para seu olhar ardente, eles estreitam
ligeiramente. Um desafio meu.
Sua vez, Sombra.
A multidão que escutava finalmente quebra o silêncio com sussurros
dispersos. O locutor olha de soslaio para ela, falando alto com o único
movimento. Eu a encurralei, ameaçando a imagem que ela construiu. Sua
reputação agora está em risco se ela recusar meu desafio óbvio.
Seus olhos perfuram os meus, ameaçando me incendiar. E então ela acena,
devagar e com segurança e sozinha fazendo a sala zumbir em antecipação.
— Parece que temos outra luta, pessoal!
Mal ouço a voz estrondosa do locutor através do sangue pulsando em meus
ouvidos. Meus pés começam a me carregar em direção ao ringue e a cada
momento depois. A cada momento depois que a toco novamente.
— Vamos dar um descanso rápido ao Shadow, ok? Isso é justo.
Minha cabeça vira na direção do locutor, os pés parando. Meu olhar se move
rapidamente para a figura ao lado dele, o alívio suavizando sua testa enrugada,
os olhos peneirando a multidão.
Porque ela vai desaparecer.
E não posso deixar isso acontecer.
O homem sorri, provavelmente pensando em cada moeda que ganhará
conosco.
— Começaremos em breve.
A multidão retoma sua conversa fiada, já começando a apostar em seu
campeão.
Mas meus olhos nunca se desviam de seu rosto coberto, embora eu tenha
memorizado cada centímetro do que está por baixo das dobras de seu cachecol.
Se eu a conhecesse menos, talvez não tivesse visto os sinais. Talvez não tivesse
visto o jeito como ela dá um passo casual ao redor da mesa, bem no caminho de
alguns espectadores que brigam.
É como se ela realmente fosse feita de sombra.
Dou um passo em sua direção, empurrando as pessoas para o lado antes que
ela possa se dissolver na loucura. Pegando a ondulação de seu cachecol, deslizo
entre os corpos, tentando acompanhá-la. Cabeças se viram enquanto eu xingo
coloridamente. A multidão a engoliu inteira, mas eu luto para chegar à porta do
porão, sei que ela está se esgueirando em direção a ela.
Aço range, me informando que ela está prestes a desaparecer na noite.
Murmúrios seguem enquanto continuo abrindo caminho até a porta, apenas.
aberta o suficiente para que sua estrutura familiar passe. Abrindo-a, subo os
degraus e entro na escuridão além.
Meus ouvidos zumbem no silêncio repentino enquanto meus olhos tentam se
ajustar. O eco abafado de passos pesados faz minha cabeça girar para a direita
antes que meus pés comecem a correr.
Eu posso apenas distinguir o contorno de sua forma antes que ela vire para
outro beco. Estou correndo — pernas bombeando, coração batendo forte.
Mas ela não pode me ultrapassar. E o que mais me preocupa é que ela sabe
disso.
Estou me aproximando dela, seguindo cada uma de suas voltas que
pretendiam me confundir. Apenas alguns segundos nos separam do destino em
que ambos nos encontramos. Apenas alguns segundos antes de ela estar me
assombrando do lado de fora dos meus pesadelos.
Ela vira outra esquina e eu a sigo.
... escuridão.
Paro bruscamente, virando a cabeça em busca de sua figura sombria.
Nada.
— Que diabos...? — murmuro baixinho, dando passos lentos sobre as pedras.
Examino as paredes ao meu redor antes que meu olhar suba para o telhado
plano acima. Uma janela reside no centro dos tijolos, agindo como o banquinho
perfeito.
Encontrei você.
Encaixando meu pé no parapeito da janela, puxo o resto dos meus membros
para cima até que estou me equilibrando na saliência. Fico ali por um momento,
palmas suadas e garganta seca. Os segundos passam devagar. Até o tempo
parece prender a respiração em antecipação ao nosso reencontro.
E então ele exala. O tempo recomeça. E eu enrolo meus dedos sobre a borda
do telhado para me levantar.
Eu balanço minhas pernas para cima em um movimento rápido e fico de pé no
próximo.
Primeiro, não há nada.
Em segundo lugar, há tudo.
Lá está ela.
— Se você de mexer, vou cravar esta adaga no seu coração.
Não. Há ódio.
O luar brilha na lâmina entre seus dedos. Ela está pronta para atacar, seu
braço engatilhado e a voz firme.
Essa voz.
É exatamente como era. Nenhum de nós mudou, e ainda assim, aqui estamos
nós, estranhos.
Eu engulo, abrindo minha boca-
— Isso inclui seus lábios — ela diz bruscamente. Eu pisco, lutando para conter
a zombaria que ela começa a falar. — A única razão pela qual eu ainda não joguei
esta faca é porque tenho uma proposta para você.
Fazendo-a concordar, aceno levemente, meus lábios se contraindo sob minha
bandana.
Ela dá um passo em minha direção, sem nunca abaixar sua arma.
— Nós voltamos para o porão. Nós lutamos. Eu ganho.
Antes mesmo de eu terminar de zombar, ela de repente fechou a distância
entre nós. Como se para me lembrar de sua ameaça, sinto a ponta fria de uma
lâmina pressionada rudemente contra minha garganta.
— Eu ganho — ela continua, enganosamente calma — e você me deixa ir.
Olho para ela, para o rosto engolido pela sombra.
— E se você vencer — ela engole em seco, ajustando o aperto na adaga ainda
cravada em minha pele — eu... eu volto silenciosamente para Ilya.
O silêncio zumbe. A lua se aproxima de nós, inclinando-se para ouvir minha
resposta. Eu limpo minha garganta.
— Posso falar agora, ou você vai me esfaquear? — Eu curvo minha cabeça
mais perto dela, ignorando a picada de uma lâmina em minha garganta. — Eu sei
o quão boa você é nisso.
Ela suspira pelo nariz.
— Você é bem-vindo para falar, desde que seja para aceitar minha oferta.
— Eu não sabia que você estava em posição de negociar — digo friamente.
— Você deveria estar agradecido por eu estar me importando.
— E por que isso? — murmuro, arrancando a bandana do meu rosto. — Por
que não corta minha garganta?
Mal consigo ver seu rosto, mas ouço a raiva reprimida em sua voz.
— Cuidado com o que deseja.
Chego perigosamente perto.
— Você não consegue fazer isso, consegue?
— Você, mais do que ninguém, deveria saber que não deve me subestimar —
ela sussurra.
— Então faça isso, Gray.
Um flash de aço voa em direção ao meu estômago, deixando meu pescoço nu,
além da fina linha de sangue começando a florescer ali. Ela coloca a lâmina em
arco para cima, pretendendo deslizá-la entre minhas costelas e perfurar o
coração que uma vez bateu por ela.
Só que ela já fez isso. Já mutilou qualquer parte de mim que ainda não era um
monstro. Agora aqui estou eu, um mosaico de um homem - todo afiado e
pedaços quebrados.
Eu seguro seu pulso, antecipando esse movimento exato. Ela suga o ar quando
eu giro seu braço para fora, me dando espaço para pisar contra seu corpo.
— Ah, vamos lá — eu falo contra seu ouvido — seu coração não estava nisso.
O aço canta contra sua bainha, sibilando no silêncio.
E mais uma vez estou olhando para o comprimento de uma lâmina, sua ponta
inclinada para cima, abaixo do meu queixo.
Ela não segurava aquela adaga desde que a enterrou no pescoço do rei. Eu
deveria saber que ela a tiraria da bainha ao meu lado, seu familiar cabo giratório
agora de volta à palma da mão. Tudo o que foi preciso foi uma distração e o
estalar de dedos ladrões.
Seu peito arfa, roçando o meu a cada respiração pesada.
— Não pense por um segundo — ela sussurra — que eu não serei a sua morte.
Ela é perigosa com esta adaga na mão. Eu vi o que ela pode fazer com ela, se
ela tivesse sido segurada contra minha garganta vezes o suficiente para
memorizar a espessura da lâmina cortando minha pele. Na minha garganta está a
mesma arma que cortou a do meu pai, segurada ali por seu assassino. Segurada
ali por ela.
Eu sorrio levemente.
— Duvido que haja mais algum dano que você possa me causar.
Posso sentir o calor do olhar dela perfurando o meu, embora eu só consiga
distinguir feições sombrias ao luar. E sou grato por isso. Grato pela bênção que é
não poder contemplá-la.
Porque quando a escuridão esconde aqueles olhos azuis brilhantes, eu posso
fingir que ela não é nada para mim. Apenas uma figura sombria que se sente
como ela, cheira como ela, fala como ela. Apenas uma estranha neste lugar
estranho que eu nunca mais verei.
Mas no momento em que o sol nasce, lançando luz sobre minha realidade
sombria, não posso mais fingir. Não posso mais roubar o que quero quando o
dever me prende por uma coleira, me arrastando de volta ao meu destino.
Mas aqui, ela não é ninguém.
Aqui eu não sou nada.
Aqui estamos esquecidos.
A adaga treme em sua mão, cutucando minha pele a cada movimento.
— Eu te odeio — ela sussurra.
O lembrete da falta de sentimentos dela só estimula minha estupidez
repentina. Minha necessidade repentina de terminar o que começamos, não
importa o quão condenado estava desde o começo. Porque aqui, nada entre nós
importa.
Com um dos pulsos dela ainda agarrado na minha palma, garantindo que a
outra faca não cortará minha pele também, levanto minha mão livre em direção
ao rosto dela. É lento, suave até, para não assustá-la. Prendo a respiração, o
batimento cardíaco batendo forte em meus ouvidos.
Ela parece ficar parada, derreter sob a sensação dos meus dedos puxando o
cachecol do seu rosto. Sua respiração fica presa, seu corpo fica tenso contra o
meu. Eu examino o rosto que agora está descoberto, não vendo nada da garota
com quem me importei. A garota que matou meu pai. A garota que me
mandaram trazer para casa.
Não vejo nada disso, porque não vejo nada.
Ela não é ninguém.
Eu não sou nada.
Estamos esquecidos.
E isso não tem sentido.
Eu gentilmente coloco uma mecha de cabelo atrás da orelha dela. Uma
mecha que é sombreada, não prateada. Uma mecha que pertence a essa estranha
que eu nunca mais verei.
— Você prometeu ser minha ruína — murmuro, abaixando minha cabeça perto
o suficiente para ouvir sua inspiração aguda. — Então, prove. — Seu rosto se
inclina em direção ao meu, nossos narizes se roçando. Ela nunca abaixa sua
adaga, e a ponta de sua lâmina ainda tira sangue da minha garganta. — Prove —
repito, a voz baixa. — Odeie-me o suficiente para me fazer querer você. —
Seguro seu queixo, sentindo seus olhos queimando nos meus. — Arruine-me.
Nossas bocas se chocam.
Posso sentir o gosto do ódio em seus lábios, a raiva em cada golpe de sua
língua. Ela soletra uma promessa, deixando-a permanecer em meus lábios. Um
voto para me destruir. E ela já começou.
Ela me beija com força, mordendo meu lábio para tirar sangue como a adaga
que ela ainda pressiona contra mim. Eu aperto minha mão em seu outro pulso
ainda segurando a pequena faca, forte o suficiente para fazer sua palma se abrir
e a lâmina bater no telhado irregular. Com sua mão agora livre, eu a levanto
sobre meu ombro, guiando-a ao redor do meu pescoço.
Os dedos dela estão enterrados no meu cabelo enquanto os meus cravam em
seus quadris. Eu ignoro o quão familiar ela parece, ignoro cada um dos meus
sentidos gritantes. Porque isso é um estranho. Não somos nada um para o outro.
E isso significa que tudo é permitido.
Este beijo é profundo e tudo menos terno. É traição. É amargura. E nada
nunca teve um gosto tão doce.
Estou em ruínas.
Ela se afasta de repente, deixando cair a adaga que estava pressionada contra
minha garganta. Empurrando com força meu peito, ela cambaleia para trás,
respirando pesadamente. Eu pisco na escuridão, tentando ignorar o peso pesado
da realidade desabando sobre nós.
— Não… — ela ofega. — Nunca mais.
Lambo meus lábios, sentindo o gosto de um fio de sangue de sua mordida. Ela
balança sobre as pernas trêmulas, e eu a observo enquanto ela fixa sua atenção
no telhado entre nós. As lâminas estão esquecidas aos nossos pés, cintilando
para nós no luar pálido.
Ela enrijece diante da visão. E então ela avança.
Eu consigo agarrar sua adaga em espiral antes que ela possa agarrá-la,
forçando-a a se contentar com a faca com a qual ela me cumprimentou. Seus
ombros se erguem enquanto ela dá mais um passo para longe de mim, enfiando a
lâmina em sua bota.
Meus lábios formigam com o gosto dela; mãos tremendo com a sensação
dela. Eu respiro fundo, chocado com minhas próprias ações. Chocado que eu
encontrei uma maneira de justificá-las. Chocado que ela queria tanto quanto eu.
Era ódio, mas aconteceu.
Olho para cima e a encontro aparentemente composta, prendendo o cabelo e
o rosto em seu casulo de tecido.
— Temos um acordo? — ela diz uniformemente, como se nada tivesse mudado
entre nós. E nada mudou. Ela ainda é minha missão, e eu ainda sou seu monstro.
O que aconteceu entre nós, passado e presente, não foi nada mais do que um
erro. Um lapso de julgamento. Uma faísca entre dois estranhos na noite.
Mas quando ela vira o rosto em direção aos raios de luar pingando de um céu
estrelado, vejo a garota que me arruinou. Os planos de um rosto que segurei em
minhas mãos, sardas que contei uma dúzia de vezes. As mãos que enfiaram uma
espada no peito do rei, uma adaga em sua garganta.
E agora não posso mais fingir.
Puxo minha bandana para cima e caminho em direção à beirada do telhado.
— Fechado.

A multidão se divide, criando um caminho até a gaiola.


Ela chegou antes de mim no porão depois de praticamente pular do telhado para
fugir de mim. Eu levo meu tempo para entrar, olhando para ela através da gaiola de
arame, embora ela olhe em qualquer outra direção que não a minha.
Quando a porta se fecha atrás de mim, gritos irrompem. A multidão já está
apostando no resultado da luta, gritando o que eles devem acreditar serem palavras
de encorajamento para o lutador escolhido.
Ela não perde tempo antes de começar a me cercar. Esta não é a mesma garota
que beijei no telhado, e parece que estamos nos encontrando novamente pela
primeira vez. Embora uma reunião pública na qual ambos estamos escondendo
nossa identidade não seja exatamente o ideal.
Eu a observo enquanto lentamente circulamos um ao outro, cada um de nós
tentando antecipar o movimento do outro. As palavras ficam presas na minha
garganta, incapaz de dizer algo que valha as semanas de silêncio entre nós. Porque o
que aconteceu no telhado dificilmente conta como uma reunião. Dificilmente conta.
— Demorou bastante, Chama.
Suas palavras estão cheias de diversão amarga, vazias de quaisquer emoções que
deixamos no telhado.
Bom. Estamos seguindo normalmente. Como inimigos.
— O quê — pergunto — encontrando você ou voltando a mim?
— Bem, claramente você ainda não caiu em si, considerando que pisou neste
ringue. Comigo dentro dele. — Suas mãos tremem ao lado do corpo, coçando para se
conectarem com meu rosto.
Eu quase rio.
— Eu poderia dizer o mesmo para você, Sombra. — Minha voz cai para um
sussurro que eu nem tenho certeza se ela consegue ouvir por causa da multidão,
embora eu saiba que meus olhos gritam o título para ela. — Ou eu deveria dizer,
Paladina Prateada?
— Eu tomaria cuidado com sua língua, príncipe. — Posso ver o sorriso afiado em
seus olhos. — A menos que você queira engoli-la.
— Você tem praticado essa pequena frase? — Eu falo lentamente. — Você sabe,
para quando eu inevitavelmente te encontrar? Ou será que-
O punho dela encontra meu maxilar. Com força.
Eu nem tenho tempo para reagir, para desviar, para fazer qualquer coisa além de
receber o golpe enquanto ele chicoteia minha cabeça para o lado.
— Não — ela responde docemente — mas eu tenho praticado isso.
Cuspi sangue no tatame, arrancando um rugido da multidão.
— Parece que não vou precisar lembrar vocês como socar corretamente. De novo.
Desta vez, eu me abaixo antes que ela possa quebrar meu nariz. Seu braço balança
sobre minha cabeça, e eu aproveito seu estômago desprotegido para enviar um golpe
rápido abaixo de suas costelas. Ela cambaleia um pouco antes de preencher o espaço
entre nós com um pé voando em direção à minha têmpora. Eu giro, bloqueando seu
chute e empurrando sua perna para longe de mim.
— Você está preparado para me deixar ir quando eu vencer essa luta? — ela ofega,
me bombardeando com uma combinação de socos que mal bloqueio. Ela é
persistente, como sempre, e muito menos cansada do que imaginei que estaria.
Suspeito que nosso tempo no telhado provavelmente aumentou sua sede de sangue.
Depois de trocar golpes, a maioria deles bloqueados, ela se agacha para balançar a
perna para fora. Eu pulo, quase perdendo sua tentativa de me jogar no chão. Mas ela
se levanta em um instante, girando com um chute para trás que faz seu calcanhar
disparar em direção ao meu crânio.
Dessa vez, eu bloqueio antes de pegar a perna dela. Usando o impulso do chute
dela, eu a faço cair no tatame antes do próximo piscar. Ela rola, suas costas colidindo
com a parede da gaiola, fazendo-a chacoalhar enquanto a multidão ruge do outro
lado.
Eu limpo uma mão já ensanguentada na linha carmesim que sai do meu lábio
cortado.
— Olha — eu ofego, me movendo para ficar de pé sobre ela. — O que vai acontecer
é o seguinte: você vai-
Ambas as botas dela voam para o meu estômago, tirando completamente o ar dos
meus pulmões. Eu cambaleio com a força repentina disso, minhas costas batendo na
parede da gaiola. Ela está junto a mim em um momento, suas mãos em meus ombros
e...
Estamos dançando nos Sussurros.
O luar pálido flui através das árvores, iluminando os olhos que olham para os
meus, brilhando como uma piscina índigo na qual estou muito disposto a
mergulhar de cabeça. Suas mãos me ancoram, nos amarrando juntos com um
toque hesitante. Suave, mas seguro. Firme, mas aparentemente tímido. Não tenho
certeza do que isso significa, mas tenho certeza de que ela quer isso.
As mãos dela estão nos meus ombros e...
E o joelho dela está batendo no meu estômago.
Uma vez. Duas vezes. Três vezes antes de eu voltar aos meus sentidos e bloquear
com um braço antes de balançar o outro em seu queixo. Sua cabeça estala para o
lado, e eu aproveito o segundo de choque que ela permite. Eu a tenho agarrada pela
coleira e pressionada contra a gaiola no próximo batimento cardíaco.
Foi então que ela me deu uma joelhada na virilha.
A multidão resmunga bem ao meu lado.
— Elegante como sempre — eu digo, ainda segurando-a com força.
— Oh, isso não foi nada, príncipe — ela sibila entre dentes. — Agora, saia do meu
ringue.
Eu rio secamente, meu rosto perto do dela.
— Oh, eu vou cair fora dessa cidade abandonada pela Peste, contanto que você
venha comigo. Eu vou te arrastar de volta para Ilya se eu tiver que fazer isso.
— Só sobre meu cadáver, príncipe.
— Isso tornaria as coisas muito mais fáceis, então acredite em mim quando digo
que estou considerando isso.
O corpo dela fica tenso, e eu sinto o soco que ela está prestes a dar antes mesmo
que ela se mova. Minhas mãos prendem seus pulsos na gaiola, pressionando-a com
força contra o arame.
— O que vai acontecer é o seguinte: — eu respiro perto do ouvido dela, observando
a multidão se divertindo imensamente. — Nós vamos encerrar esse pequeno show, e
você vai vir calmamente.
Os olhos dela estão em chamas.
— Você ainda não venceu.
— Ah, não? — Eu levo uma mão até o rosto dela, puxando o tecido ali. — Tudo o
que eu tenho que fazer é tirar um único fio de cabelo prateado, e todos nesta sala vão
tentar te matar por esse preço alto pela sua cabeça. E estou tentado a deixá-los fazer
exatamente isso. Isso tornaria meu trabalho muito mais fácil.
Mentiras.
Tenho ordens estritas de devolvê-la viva a Ilya, apesar do que dizem os cartazes.
Mas ela com certeza não precisa saber disso.
Eu sorrio o suficiente para ela ver nos meus olhos.
— Então, sim, eu ganhei no segundo em que pisei neste ringue.
Ela engole em seco, o único sinal de preocupação que ela me permite ver.
— Você é terrivelmente confiante para alguém que também está escondendo sua
identidade.
— Sim, bem, não há preço pela minha cabeça.
— Você é o príncipe de Ilya. Sempre haverá um preço pela sua cabeça.
E com isso, ela arranca a bandana do meu rosto.
CAPÍTULO 14

PAEDYN

O rosto dele é chocante, como um déjà vu, como ver um delírio da sua
imaginação se materializar fora da sua mente.
Eu mal conseguia vê-lo no topo do telhado, envolto em escuridão. E isso era
perigoso. Perigoso fingir que ele era qualquer coisa além do homem que
assassinou meu pai. Era patético. Era uma distração. E eu nunca mais serei tão
fraco.
Mas agora eu o vejo como ele é para mim: morto.
A barba por fazer faz sombra em seu maxilar afiado, acompanhada pelo
sangue vazando de seu lábio, me lembrando de como eu o mordi. Eu afasto o
pensamento, jurando nunca mais pensar nisso.
Suas sobrancelhas escuras se erguem em choque, seus olhos cinzentos
perfurando os meus. Ele tem uma aparência meio rude, como o rosto pelo qual
eu me afeiçoei irritantemente na floresta.
Ele é assustadoramente exatamente como eu me lembro dele.
Cada cílio escuro delineando aqueles olhos prateados. Cada contração de
seus lábios muito familiares.
Cada mecha de cabelo de ébano caindo em ondas sobre uma sobrancelha
bronzeada. Cada pedaço dele perfeitamente no lugar, exatamente como eu o
deixei. A visão dele tão preservado, tão aparentemente o garoto que eu vim a
cuidar, parece uma provocação. Como uma zombaria de cada momento que não
deu em nada.
Mal consigo distinguir as vozes abafadas na multidão, mal consigo focar nos
muitos dedos apontando para o príncipe. Eu tinha ouvido os rumores nas ruas.
Ouvi sussurros do Executor se esgueirando pela cidade em busca da Paladina
Prateada, embora eu não tivesse certeza se eram verdade até que coloquei meus
próprios olhos nele.
Chama.
O bastardo convencido se autodenominou Flame. O fogo para minha sombra.
Filho da puta insuportável-
Os nós dos dedos que ele afunda na minha bochecha me pegam de surpresa.
Minha cabeça vira para o lado enquanto a dor atravessa meu rosto e desce pelo
meu pescoço.
Ele definitivamente não está mais se segurando.
Antes que eu possa retribuir o favor, sua mão agarra meu queixo, virando
meu rosto bruscamente para ele.
— Isso foi um erro, meu bem.
Meu bem.
O título agora está vazio de carinho, vazio de toda empatia.
Quando sua mão puxa para baixo o tecido que cobre meu nariz e minha boca,
faço a coisa mais elegante que consigo pensar.
Eu mordo ele.
— Merda — Kai sibila entre dentes, afastando a mão do meu sorriso perverso.
— Que diabos foi isso?
Eu o empurro com força, empurrando-o em direção ao centro do ringue.
— O quê? Não é elegante o suficiente para você?
Eu dou um soco que sei que ele vai se abaixar. Quando ele tenta acertar meu
estômago, eu pego seu pulso enquanto giro atrás dele para pressioná-lo contra
sua omoplata. Ele respira fundo, mordendo a língua contra a dor que eu sei que
está subindo por seu braço.
— É chocante que qualquer coisa que você faça ainda me surpreenda — ele
resmunga antes de engatar um pé atrás do meu e puxar. O bastardo me faz cair
no tapete. Ele está montado em mim antes que eu tenha um momento para
recuperar o fôlego, prendendo meus braços sob seus joelhos. Eu me contorço
sob ele enquanto ele agarra o cachecol que ainda cobre meu cabelo traidor. — Se
mexa de novo, morda de novo, e todos verão que cor de cabelo fascinante você
tem.
Eu ofego, lívida, procurando freneticamente por uma maneira de sair disto.
— Tudo bem. Eu vou em silêncio. Mas precisamos acabar com esta luta. — Eu
relaxo meu corpo, me forçando a parecer derrotada. — Me deixe bater fora.
Eu mexo uma mão que está presa sob seu joelho. Ele me dá um olhar cético
antes de lentamente tirar a pressão do meu braço. Então eu movo minha mão
para o lado, dando à multidão uma visão completa da palma que estou prestes a
bater contra o tapete.
Só que em vez de bater no tatame, é no rosto dele que minha mão acerta.
Ele xinga alto, sem perder um segundo antes de prender meu pulso acima da
minha cabeça. Eu sorrio. Suas pernas afrouxaram o aperto o suficiente para eu
empurrar meu joelho em sua virilha mais uma vez. Ele rosna, mas eu já estou
usando a distração e minha perna livre para nos virar.
Eu pressiono todo o meu peso sobre o peito dele enquanto deslizo a lâmina
curta e perversa da minha bota. A mesma que eu deveria ter cravado no peito
dele no minuto em que ele subiu no telhado. Inclinando-me perto do rosto dele
para esconder a arma ilegal, pressiono a faca em sua bochecha. O choque que
desliza através de sua máscara de fria indiferença, instalando-se em seus olhos
arregalados, me faz sorrir para ele.
— Você vai me cortar ao meio? Aqui, com uma sala cheia de testemunhas? —
Sua voz é firme, mas posso sentir seu batimento cardíaco traidor batendo contra
as costelas onde minhas pernas estão pressionadas. — Você deveria ter me
matado no telhado.
Eu rompo a pele com a menção do que nunca deveria ter acontecido entre
nós.
— Certamente me teria poupado o trabalho de ter que fazer isso depois.
— Vá em frente, então. — Ele levanta a cabeça ligeiramente do chão,
pressionando a lâmina com mais força contra a pele. Provocando. Testando. —
Faça isso. Não seria a primeira vez que você derramaria sangue real.
Seus olhos se movem rapidamente entre os meus, aparentemente
assombrados pela própria visão de mim. Pela visão do assassino de seu pai à
beira de se tornar seu. Eu vagamente me pergunto se ele consegue sequer me
tocar, roçar as mãos que estão cobertas com o sangue de seu pai. Eu me
pergunto se ele mal consegue me olhar na luz sem ver a forma brutal como seu
pai morreu.
Porque é isso que ele parece para mim. Como um lembrete constante do
destino do meu pai.
— Vá em frente, minha Paladina Prateada — ele reflete amargamente. — Seja
minha ruína.
E dessa vez eu farei. Eu farei o que eu deveria ter feito naquele telhado.
O cabo fica escorregadio na minha palma suada.
Faça isso. Dane-se as consequências, a multidão, e faça isso.
Eu disse a mim mesmo que não hesitaria novamente. E ainda assim, aqui
estou. Sua vida em concha em minhas mãos ensanguentadas enquanto minha
cabeça e meu coração disputam o controle.
Faça. Isso.
Minha garganta ficou seca. O sangue lateja em meus ouvidos, abafando a
multidão barulhenta junto com qualquer pensamento racional. Agarro o cabo
com mais força, puxando-o ligeiramente para trás enquanto me preparo para
golpear a lâmina-
Uma mão calejada agarra meu pulso, aquele que eu estava muito preocupada
para notar escorregando por baixo das minhas pernas. Ele empurra meu braço
para longe de sua garganta já sangrando enquanto sua outra mão levanta,
levanta, levanta…
Não, não, não-
Não tenho forças para impedi-lo de arrancar o lenço da minha cabeça.
CAPÍTULO 15

PAEDYN

Prata cai do tecido, opaco na luz fraca, mas inegavelmente identificável.


— Cuidado, Gray — ele murmura. — Eu estava começando a pensar que você
se importava comigo.
Suspiros percorrem a multidão enquanto sussurros evoluem para dedos
apontados e acusações gritadas.
Não, não, não.
Mesmo que eu consiga escapar do Enforcer, não consigo correr mais que
todas as pessoas em Dor.
E agora que eles viram meu cabelo, viram que estou aqui, não posso mais lutar
no ringue. Não consigo ganhar dinheiro suficiente para recomeçar.
Algo parecido com diversão ilumina seus olhos, me fazendo lamentar não ter
cortado sua garganta quando tive a chance. E eu certamente tive essa chance,
mais de uma vez.
— Seu bastardo. — Minha voz é pouco mais que um sussurro, mesmo enquanto
eu me esforço para me livrar de seu aperto.
De repente, ele segura meus dois pulsos com mãos calejadas, me puxando
para mais perto dele enquanto a adaga escorrega da minha palma suada. Eu
praticamente caio sobre seu peito antes que sua boca esteja em meu ouvido.
— O que você vai fazer, hmm? Você não vai dar um passo para fora desta
gaiola antes de ser dilacerada-
— Ei, venha cá, pequena Paladina Prateada!
Antes mesmo que as palavras saiam de sua boca, gritos de provocação ecoam
pela multidão.
— É isso que vale tanto?
— Uma coisinha linda que vale um bom dinheiro, hein?
As pessoas estão chacoalhando a gaiola agora, gritando para o atordoado
Paladina Prateada.
— Ótima observação, Príncipe. Você poderia se passar por um Psíquico. —
Estou quase mostrando os dentes para ele. — Tínhamos um acordo.
— E eu ganhei.
— Ah, é assim que você está chamando? — Eu zombo. — Como exatamente
você está planejando me tirar daqui, então? Por que diabos você fez isso?
Ele sorri. É um simples e suave levantar de seus lábios que parece um soco no
estômago. Como um pedaço do passado deslizando para o meu presente. Um
pedaço dele que eu não pensei que testemunharia novamente.
— Porque — ele responde calmamente — eu precisava que você precisasse de
mim.
Engasgo com uma risada sem graça.
— E você acha que hoje é o dia em que de repente decido que preciso de você?
— Acho que hoje é o dia em que você não tem outra escolha. — Ele começa a
se sentar, meus pulsos ainda presos entre seus dedos, apesar dos meus puxões
incessantes. — A única maneira de você sair daqui inteira é com o Executor ao
seu lado. A menos que você pense que a Paladina Prateada pode derrubar todas
as pessoas neste porão? Então, por favor, fique à vontade.
Eu o encaro como último recurso quando me recuso a dizer o que ele quer
ouvir. Porque ele é insuportável, intolerável e irritantemente certo. O Execuror é
minha única saída daqui. Mas uma pessoa é muito mais fácil de escapar do que
toda esta sala lotada.
Vou usá-lo para sair e depois lidarei com ele sozinho.
Engulo em seco, minha garganta seca enquanto tento engolir meu orgulho
crescente.
— Tudo bem — eu digo entre dentes. — Me tire daqui.
— Essas são suas maneiras brilhantes — ele diz secamente. — Você pode
precisar sair do meu colo, no entanto, se planejamos ir embora em breve.
Eu me assusto, minhas bochechas queimando com a percepção repentina de
que estou empoleirada em seu colo, meus pulsos presos. Ele está muito perto, a
sensação dele é muito familiar. Eu não consigo suportar isso, suportá-lo. É por
isso que eu deslizo desajeitadamente de seu colo para ficar ao lado dele.
Ele solta um dos meus pulsos, mas compensa segurando o outro com mais
força. Virando-se para encarar a multidão, sua voz é uniforme quando ele
anuncia:
— Vou levar a Paladina Prateada comigo, e ninguém aqui vai nos dar
problemas. — A multidão irrompe em uma indignação que o Executor se recusa a
reconhecer enquanto continua, seu tom é exatamente o de um comandante. —
Como Executor de Ilya e segundo ao rei, ela é minha propriedade. Minha. O que
significa que se alguém encostar a mão nela, você aprenderá em primeira mão o
quão brutais os Elites podem ser.
Silêncio.
O porão está cheio disso, chamando a atenção para o zumbido em meus
ouvidos. Eu me mexo desconfortavelmente, girando a faixa no meu polegar
enquanto suas palavras são absorvidas.
"Ela é minha propriedade."
Engulo meu escárnio e, em vez disso, examino a sala, o medo se escondendo
entre a multidão na forma de olhos piscantes e sobrancelhas franzidas. Não
importa seus sentimentos sobre Ilya, o medo é mais profundo do que o
desprezo. Apenas a mera possibilidade da ira de uma Elite chover sobre eles faz
suas imaginações correrem soltas. Duvido que a maioria deles já tenha
encontrado alguém de Ilya, muito menos ouvido qualquer coisa além de horrores
sobre a poderosa população isolada do outro lado do deserto.
Eles nem sabem do que têm medo, do que as Elites podem fazer.
O que ele pode fazer. O Enforcer só tem habilidades quando há outros para
empunhá-las, embora ele próprio seja uma arma. E ainda assim eles se encolhem
diante do potencial de seu poder, da ameaça de uma Elite infame.
Talvez o desconhecido seja metade do horror.
Ele usou a ignorância deles contra eles.
— Fique perto — ele murmura, alcançando a porta da gaiola. — Ou não. É sua
vida que está em jogo.
Eu luto contra a vontade de revirar os olhos enquanto simultaneamente tento
ignorar o fato de que pareço e me sinto como uma criança. Ele me pressiona
contra ele, não por proteção, mas por algo muito mais predatório. É a posse que
irradia dele que faz as pessoas se separarem para abrir caminho, as faz ficar
boquiabertas enquanto ele guia a garota que vale a pena viver para fora da sala.
Olhos nos seguem escada acima e para o mundo acima do porão. As ruas estão
escuras com a calada da noite, e uma brisa morna chicoteia meu cabelo solto. Eu
luto contra o suspiro que ameaça escapar dos meus lábios ao sentir o vento
beijando meu couro cabeludo.
Foi a vez que me senti mais livre nos últimos dias.
Um puxão forte no meu braço faz com que minha infeliz realidade volte.
Não sou livre de jeito nenhum.
— Por aqui, Pequena Psíquica. Não há tempo para um passeio ao luar esta
noite.
Eu me irrito com o título zombeteiro.
— Então, qual é o plano?
Ele lança um olhar perplexo por cima do ombro enquanto me puxa por uma
rua estreita.
— Sabe, eu tento não criar o hábito de informar criminosos sobre meus planos.
Eu bufo com isso.
— Você sabe muito bem que eu era uma criminosa muito antes daquele
Julgamento final. — um sorrio maliciosamente para seus ombros tensos — E
parece que me lembro de você me informando muito mais do que apenas seus
planos.
Eu te conhecia. Conhecia seu passado, seu presente e seu futuro, do qual fomos
tolos o suficiente para pensar que eu faria parte.
Ele se vira, me forçando a derrapar até parar antes que meu rosto encontre
seu peito.
— Eu sei. — Sua voz é suave, triste de um jeito que me faz contorcer. — E estou
tentando não criar o hábito de repetir os mesmos erros.
Erros.
A palavra aparentemente simples é como um tapa na cara, não importa o quão
apropriada seja. Porque é exatamente isso que tudo foi: um erro. Cada pedaço de
nós mesmos compartilhado em olhares silenciosos e histórias sussurradas sob
salgueiros só contribuiu para a morte lenta que fomos. E agora podemos
adicionar o telhado a essa lista cada vez maior de erros.
Éramos inevitavelmente imperfeitos um para o outro.
— Vamos lá. — ele insiste, quase me arrastando pela rua. — Você pode
aumentar o ritmo, mesmo com esse seu trabalho de pés desleixado.
— Talvez não fosse tão desleixado se você me deixasse manter os pés no chão
— eu retruco, tropeçando quando ele me puxa para uma esquina em ruínas.
— Você prefere que eu te jogue por cima do meu ombro? Não é como se eu
nunca tivesse feito isso antes.
— Não, eu não faria-
Paro bruscamente no meio de uma frase, no meio de uma trama, antes de
firmar meus pés o melhor que posso contra seus puxões persistentes.
Talvez eu preferisse ser jogada por cima do ombro dele.
— Não vou sair do lugar até você me contar o que está acontecendo — digo
simplesmente.
Ele se vira lentamente, a diversão escondida entre a irritação puxando os
cantos de sua boca.
— É mesmo?
Eu puxo meu pulso ainda agarrado em seu aperto inflexível.
— É. Então eu sugiro que você nos poupe algum tempo e me conte sobre meu
destino.
Ele ri sombriamente.
— Você não tem direito a um criminoso?
— E você não é justo por não ser melhor?
Nós nos encaramos, ainda conectados pela mão áspera dele envolvendo a
minha.
Nossos pecados não ditos parecem se estender entre nós, engolindo as
palavras insignificantes queimando em minha garganta. Somos um e o mesmo,
este Executor e eu.
Ambos entorpecidos, ambos sobrecarregados, ambos cobertos pelo sangue
dos pais um do outro.
Um Elite e uma Comum nunca pareceram tão semelhantes.
Suas próximas palavras são delicadamente perigosas naquele jeito devastador
dele.
— Tudo o que eu fiz foi pelo rei, e você é quem o matou, não eu.
— Eu matei um pai — eu digo, me aproximando dele. — E você também.
Suas sobrancelhas franziram, confusão se formou entre eles.
— O que você-
Seu aperto afrouxou, sua guarda caiu, e eu não penso duas vezes antes de
tirar vantagem de sua distração. Em um movimento rápido, eu giro para que
minhas costas fiquem contra seu peito e prendo meu braço livre sob seu ombro.
Com uma combinação de impulso e seu choque absoluto, eu o faço de repente
virar por cima do meu ombro.
Não é exatamente uma queda suave, e a Praga sabe que o Pai levantaria as
sobrancelhas daquele jeito que ele sempre fazia durante o treinamento. Afinal,
foi ele quem me ensinou a derrubar um homem três vezes maior que eu, então o
desleixo com que o Executor rolou sobre meu ombro agora o faria balançar a
cabeça com aquele sorriso exasperado dele.
O príncipe cai no chão com um rastro de maldições. Estou sobre ele antes do
meu próximo batimento cardíaco estrondoso, deslizando minha última lâmina
fina da minha bota.
— Você realmente achou que eu não teria outra faca comigo? — Eu ofego,
pressionando-a contra suas costelas.
Algo afiado morde minhas costas, e eu estremeço com a sensação familiar de
uma lâmina perfurando minha espinha. Estou ficando descuidada. Não tenho a
menor ideia de onde a arma veio, ou quando ele a puxou, e minha falta de foco é
assustadora.
Desculpe, pai.
— Você realmente achou que eu iria te subestimar depois de tudo o que você
fez? — Seus olhos penetraram os meus, queimando como as palavras não ditas
tentando subir pela sua garganta.
— Vá em frente! — O grito me surpreende, as palavras são muito mais duras
do que eu pretendia que fossem. — Diga. Diga o que eu fiz.
Seu peito arfa sob mim.
— Você matou o rei.
Eu balanço a cabeça para ele, meus olhos nunca desviando da traição em seu
olhar.
— Sim. Eu matei o rei. Mas o mais importante, eu matei um tirano perverso.
Eu matei um homem que matou incontáveis. Eu matei um homem que tentou me
matar só porque o poder não corre em minhas veias. — Eu suspiro, meus dentes
expostos acima dele. — Mas estou esquecendo de uma outra coisa. O que mais
eu matei, Príncipe?
Sua garganta balança.
— Você matou... meu pai.
— Mais uma coisa que temos em comum — eu respiro. Suas sobrancelhas
franzem enquanto eu passo a faca sobre seu estômago. — Devo enfiar isso no seu
peito como você fez com meu pai? Isso parece apropriado, você não acha?
Ele balança a cabeça para mim, descrença encharcando suas feições.
— Seu pai...? Eu não-
Seus olhos se arregalam levemente com algo que lembra realização.
— Há quantos anos? Há quantos anos ele foi morto?
Eu me recuso a acreditar que ele não sabia de quem era a vida que ele tinha
tirado naquela noite. Eu me recuso a acreditar que ele não estava me enganando
todos esses meses, me enganando para confiar nele depois de tudo que ele tirou
de mim. Eu me recuso a acreditar que ele não sabia que era meu coração que ele
tinha quebrado na noite em que ele enfiou uma espada no coração do meu pai.
— Cinco — eu resmungo. — Na minha casa. — Minhas palavras são pouco mais
que um sussurro. — Eu vi você matá-lo.
Ele balança a cabeça para mim, o horror deslizando pelas rachaduras de sua
máscara, pelas fendas de suas paredes em ruínas.
— Paedyn, eu-
É a primeira vez que ele diz meu nome, e uma parte patética de mim gostaria
de ouvi-lo dizer isso de novo. Mas eu nem tenho a chance de ouvir nada do que
ele diz depois.
— Ele está aqui!
Um grito que só pode pertencer a um Imperial ecoa nas paredes, seguido pelo
trovão de uma dúzia de pares de pés calçados. Meus olhos disparam em direção
ao som, encontrando sombras se aproximando. Então estou olhando para ele
novamente. Ele abre a boca para dizer algo, mas em vez disso sai um grunhido
estrangulado.
O golpe certeiro em seu ombro me rende alguns segundos, e não ouso
desperdiçar nenhum.
Estou correndo novamente, como sempre faço.
E eu não olho para trás.
CAPÍTULO 16

KAI

Um pé no saco não chega nem perto de descrever essa garota.


Ela me faz correr por ruas desconhecidas, tropeçando em paralelepípedos
irregulares na escuridão apertada. Minha mão está coberta de sangue,
pressionada contra o ferimento surpreendentemente raso que ela ofereceu
como um presente de despedida.
Ela teve a chance de me matar. Mais de uma vez.
E ainda assim, apesar de toda a sua conversa sobre cortar minha garganta, ela
falhou em fazer isso várias vezes agora. Então, novamente, eu falhei em manter
minha promessa de enterrar sua própria adaga em suas costas, embora eu culpe
isso nas ordens estritas que tenho para mantê-la viva.
Estou ofegante no calor abandonado pela Peste que constantemente envolve
esta cidade. Viro em uma rua vazia, quase esbarrando em um dos meus homens
antes de sinalizar para ele virar à esquerda enquanto eu pego à direita. Mesmo
com os treze de nós separados, ela conseguiu escapar de cada um dos meus
homens por quase meia hora.
Um pé no saco é pouco.
A lua estende seus dedos pálidos pela cidade, lançando tudo em um brilho
opaco que não fez nada para ajudar a encontrá-la. Se as sombras são suas
amigas, então a lua pode ser sua cúmplice, com seus raios prateados fluindo
através de seu sangue para manchar o cabelo que a mascara no luar.
Viro outra esquina, estremecendo com o ferimento no meu braço. Meus pés
batem contra o caminho irregular como os pensamentos correndo pela minha
mente. Suas palavras ecoam na minha cabeça, roubando meu foco das ruas que
eu deveria estar procurando.
“Eu vi você matá-lo.”
Cinco anos.
Cinco anos atrás, eu matei pela primeira vez. Cinco anos atrás, eu enfiei uma
espada no peito de um homem pela primeira vez. Cinco anos atrás, eu vi um
homem cair no chão antes de correr do primeiro dos meus muitos crimes.
Cinco anos atrás, foi o pai dela que matei pela primeira vez.
Como ela sabia disso, e eu não? Por que fui enviado para matá-lo em primeiro
lugar? Talvez ela esteja enganada. Talvez ela esteja procurando por mais um
motivo para me odiar. Eu penso naquela noite assustadora, aquela que forçou
meu destino sobre mim. Eu quase consigo ver o quarto, o sangue, o tremor das
minhas mãos...
O quarto.
Quase tropeço quando percebo isso.
A casa dela. A que eu queimei até o chão. Aquele quarto em que eu estava...
Não era a primeira vez que eu estava lá. As peças começam a se encaixar,
conectando aquela casa sombria onde tive minha primeira missão com aquela
iluminada pelas chamas.
Fui eu. Eu matei o pai dela-
O movimento faz minha cabeça virar bruscamente em direção às sombras
mutáveis.
Eu sei que é ela antes mesmo de vislumbrar a figura correndo por um beco.
Tenho uma faca de arremesso na mão, mirando nela antes que ela possa se
fundir de volta na escuridão.
Seu grito é forçado, como se ela mal tivesse energia para expressar sua dor. Eu
levo meu tempo andando até ela, observando-a cair contra uma parede suja
antes de deslizar para o chão abaixo. Ela está ofegante de dor com uma mão
ensanguentada pressionada contra a ferida que eu reabri em sua coxa.
— O quê? — ela bufa. — Cortar minha perna uma vez não foi o suficiente para
você?
— Bom — suspiro — aparentemente não foi o suficiente para você,
considerando que você ainda está tentando fugir de mim.
— Acostume-se com isso.
— Ah, estou começando a entender.
Sua cabeça está apoiada na parede, os olhos tremulando de fadiga. Ela parece
cansada. Cansada demais. Como se estivesse oscilando à beira de algo mais
devastador do que a privação do sono. Inclino minha cabeça, examinando-a na
escuridão velada.
— Você está se sentindo bem, Pequena Psíquica?
Sua risada é ofegante.
— Você acabou de me cortar com uma faca. O que você acha?
— Ah, vamos lá, eu mal toquei em você.
Ela fixa aqueles olhos azuis brilhantes em mim.
— É, você tocou de raspão em uma ferida que ainda está cicatrizando. Uma
que você me deu em primeiro lugar, devo acrescentar.

Eu quase sorrio.
— Você sabia que era eu, hein?
— Claro que foi você — ela bufa. — Você é o único com uma mira quase tão
boa quanto a minha.
— Quase? — digo secamente. — Sério?
— Você me ouviu, Príncipe.
Vejo seus dedos se encolherem em direção à faca em sua bota antes de eu ter
seu pulso agarrado em minha mão.
— Chega — suspiro. — Eu estou cansado. Você está cansada. Vamos encerrar
esta noite. Sem mencionar que você vai sangrar até a morte se não enfaixar esse
ferimento.
— Se você acha que vou desistir sem lutar-
— Eu acho — interrompi enquanto tirava a adaga da bota dela — que você
não terá mais forças para lutar se não descansar e usar bandagens.
— Não é isso que você quer? — Sua voz falha com o peso da acusação nela. —
Parar de lutar com você? Vir silenciosamente para minha perdição?
Eu a estudo por um momento, estudo a teimosia esboçada na carranca que
ela usa. A verdade faz meu peito apertar, meu coração suspirar quando meus
pulmões não conseguem. Porque eu não consigo decidir o que é mais assustador
- vê-la parar de lutar ou vê-la morrer.
O que ela é sem seu fogo a alimentando? Uma casca da Paladina Prateada que
ela já foi? O fantasma de uma garota pela qual eu estava disposto a me arruinar?
Se ela luta por nada, ela vive pela morte. Mas se ela queima por algo, ela vive pela
esperança.
Quero que ela lute comigo.
Quero que ela arda por mim, mesmo que isso signifique que seja de ódio.
Suspiro, exalando as emoções que acompanham cada pensamento vertiginoso
e, em vez disso, digo:
— Qual é a graça nisso?

— Isso é ridículo.
Seu murmúrio é abafado, e quando puxo o pano que cobre seu rosto, seu
resmungo áspero é igualmente abafado.
— Não, é necessário. Você está ótima. — Por mais que eu tente, não consigo
evitar o riso de enfeitar cada palavra. Posso praticamente sentir o olhar dela
através do cachecol que joguei sobre toda a cabeça dela, em parte para cobrir
seu cabelo e rosto altamente reconhecíveis, mas principalmente porque eu
estava com preguiça de enrolar o tecido em volta dela.
— Eu odeio você — ela sibila.
— Sim, você e todos os outros neste reino, meu bem.
O estalajadeiro acena com a mão, me chamando para seu balcão. Dou um
pequeno empurrão para frente, resultando em um mancar relutante.
— Só um quarto. Aceitamos o que você tiver — digo, oferecendo um sorriso
tenso escondido atrás da bandana que cobre a metade inferior do meu rosto.
— Você está com sorte — o homem bufa. — Um quarto acabou de ficar vago no
terceiro andar. Coisinha.
Como forma de resposta, rolo algumas moedas no balcão lascado, o
observando contá-las antes de me dar um aceno brusco. Então seus olhos
pousam na garota sendo engolida por um cachecol.
— O que há de errado com ela?
Sinto-a se mexer em antecipação a algum comentário espertinho prestes a
sair da boca que não consigo ver no momento.
— Acidente terrível — interrompo com um triste balançar de cabeça. — Você
não quer ver o que tem aí embaixo. — Inclino, dando a ele um olhar cúmplice. —
Ela é um pouco insegura. Com razão.
O estalajadeiro assente, parecendo que acabamos de compartilhar uma piada
hilária.
— Então, por todos os meios, a mantenha coberta!
Ele ri. Eu rio. Mordo minha língua quando o salto da bota dela encontra os
dedos dentro dos meus.
Eu sei que não devo rir de novo enquanto ela tropeça cegamente nas escadas
rangentes, com sangue escorrendo pela perna e ameaçando respingar na
madeira abaixo. A porta do terceiro andar range quando a abro, revelando um
quarto do tamanho do meu armário no palácio. Com a cama ocupando quase
todo o espaço, a pia no canto parece ser o único outro acessório na desculpa
grosseira de quarto. Uma janela mofada lança luz opaca o suficiente para exibir a
sujeira que decora o espaço.
— Eu vou te matar. — Ela arrancou o cachecol do rosto, bufando para o cabelo
que cai ao redor dele.
— Como você está, agora? — eu penso. — Você teve problemas com isso
mesmo antes de se machucar.
Ela se afasta de mim, balançando a cabeça. Sua voz é distante, como se as
palavras tivessem a intenção de permanecer um pensamento.
— Estou sempre machucada. Sempre um pouco quebrada. — Eu a observo
absorver o ambiente, mesmo porque cada resposta que me vem à mente parece
estar presa na minha garganta. — É isso? — ela pergunta, gesticulando ao redor.
— O quê, todos os seus homens vão se amontoar na cama com você?
— Engraçado — eu digo sem um pingo de humor. — Não, meus homens
ficarão na cidade esta noite. Um grupo tão grande atrai atenção indesejada. Mas
não se preocupe, eles se encontrarão conosco de manhã quando sairmos.
Ela me dá um olhar que lembra um pouco um daqueles sorrisos maliciosos
que ela costumava me mostrar.
— Você realmente acha que pode lidar comigo sozinho?
Eu dou de ombros.
— Acho que sou o único que poderia lidar com você sozinho.
— Ainda é um bastardo convencido, pelo que vejo.
— Tenho uma reputação a zelar.
Ela bufa, lutando enquanto manca passando por mim para cair na beirada da
cama. Olho para seu ferimento sangrando e para a colcha dobrada abaixo dele.
— De qualquer forma, por favor, não ensanguente a cama em que vou dormir.
Ela mal me lança um olhar.
— E o que te faz ter tanta certeza de que você vai dormir nesta cama?
— O que te faz pensar que não serei eu?
Ignorando-me, ela começa a examinar cuidadosamente o ferimento em sua
coxa, completamente satisfeita em desconsiderar minha existência. A visão dela
enrolando a perna solta da calça, revelando uma quantidade tremenda de pele
bronzeada, parece de repente mais significativa no quarto escuro.
Ela sibila entre os dentes quando o tecido puxa a ferida pegajosa, e eu a
observo lutar para evitar que a dor belisque suas feições. Passo a mão pelo meu
cabelo, suspirando um baixo
— Venha aqui.
— Estou bem, obrigada. — ela diz suavemente.
— Você é um pé no saco, sabia?
— Se for esse o caso — ela diz docemente — você pode simplesmente me
deixar ir. Problema resolvido.
— Você e eu sabemos que isso não é uma opção.
— Certo. — Sua voz é áspera. — Porque seu novo rei fez você me perseguir.
Um punhado de batimentos cardíacos se passa antes que eu diga:
— Bem, você matou o pai dele, o rei. E desempenhou um papel fundamental
na revolta da Resistência. Sem mencionar que você usou Kitt para ajudar a fazer
isso.
— E eu não me arrependo de nada. — Ela me olha bem nos olhos enquanto
diz isso, sem um traço de remorso refletido em seu olhar. — Tudo o que eu fiz,
tudo pelo que lutei, foi por Ilya.
Meu maxilar aperta.
— E isso inclui matar o rei de Ilya?
Ela balança a cabeça, desviando o olhar de mim.
— Eu não entrei naquele Julgamento planejando matá-lo quando saísse dele.
Ele veio atrás de mim. — Há algo assustadoramente parecido com uma súplica
em seus olhos, não porque ela esteja implorando perdão pelo que fez, mas
porque ela precisa que eu entenda por que ela fez isso. — Mas isso não significa
que eu não tenha pensado em enfiar uma lâmina no seu coração podre uma
dúzia de vezes antes.
Mesmo com o ódio cobrindo cada palavra, essa é a maior honestidade que
recebi dela. Posso ouvir na rouquidão de sua voz, ver nas mãos agora trêmulas.
Tudo antes desse momento pode ter sido falso, uma fachada, um conto de fadas
inventado para me atrair. Mas começando agora, nunca vi nada mais real.
Suspiro, contente em deixar o silêncio se estender entre nós antes de pegar a
pequena pia do chão. Não estou preocupado em deixá-la sozinha enquanto
desço as escadas para encher a lixeira com água gelada, não com os ferimentos
que a fazem tentar o máximo para não tremer na minha frente.
Água espirra sobre a borda a cada passo de volta subindo as escadas
íngremes, e depois que eu empurro a porta com uma bota úmida, a garota caída
na cama diante de mim parece diferente daquela que eu deixei lá. Seu cabelo
parece sangrar no corpo abaixo, misturando-se com seu próprio ser, agora
desprovido de todas as cores, exceto pelo carmesim manchando suas mãos
trêmulas. Ela olha sem ver o sangue cobrindo seus dedos, engolindo em seco
com a visão, tremendo a cada respiração superficial.
Algo está muito errado com a Paladina Prateada.
E eu não deveria me importar.
Já vi traumas assumirem formas piores. Já os vi aleijar a coragem, devorar
sonhos e cuspir a casca de uma pessoa. O Trauma e eu nos conhecemos bem.
— Venha aqui.
O comando é mais suave dessa vez, a simpatia parece abafar a severidade em
minha voz. Seus olhos se movem rapidamente para os meus, desfocados e cheios
de pânico. Ela pisca, sua voz falhando quando ela começa.
— Eu... eu não posso…
— Eu não preciso saber — eu interrompi baixinho. Porque eu não preciso. Eu
não preciso saber o que a mantém acordada à noite, o que assombra seus
sonhos, o que a faz tremer assim. Porque saber disso envolve saber dela. E isso é
algo que eu jurei que não faria de novo.
Ela é a história que estou desesperadamente tentando não repetir.
E eu já falhei o suficiente nisso por uma noite.
Eu a observo engolir, observo-a deslizar para fora da cama para sentar-se ao
meu lado nas tábuas gastas do assoalho. Ela não perde um momento antes de
mergulhar seus dedos ensanguentados na água congelante, esfregando
vigorosamente com as mãos dormentes.
Meus olhos deslizam sobre ela, usando sua distração como uma chance de
deixar meu olhar permanecer na cicatriz irregular em seu pescoço. Não me
incomodo em perguntar porque já sei que foi obra do meu pai. Posso
praticamente sentir a quantidade exata de pressão que ele usou para esculpir
sua pele.
Mas não digo nada sobre isso, sabendo que a ferida provavelmente é muito
mais profunda do que sua forma física. O pensamento me lembra o quão
cuidadoso ainda sou com os sentimentos dela. É enlouquecedor.
Ela está tão encantada com a tarefa de se livrar do próprio sangue que eu
tenho que agarrar seus pulsos e trazê-la de volta à realidade.
— A menos que você esteja esperando esfregar sua pele, acho que é o
suficiente.
Com um aceno lento, ela está puxando suas mãos pingando das minhas para
limpá-las em uma camisa amassada que eu tiro de uma mochila emprestada do
Imperial. Rolos de bandagens sujas caem no chão quando eu as sacudo da bolsa,
franzindo a testa enquanto mexo para desfazer uma.
— Por que você está fazendo isso? — ela pergunta, com a voz rouca.
Não olho para ela.
— Bem, não posso deixar você sangrar em mim, posso? É egoísmo mesmo.
Não quero ter que carregar você até em casa.
Ela bufa sem entusiasmo com isso.
— Ele tem grandes planos para mim, então? Planos para os quais preciso estar
viva?
Fico em silêncio por um longo tempo, tomando meu tempo limpando o
ferimento com um curativo encharcado. Os únicos sons compartilhados entre
nós são os assobios abafados de dor e o gotejamento constante de água.
Quando finalmente me digno a responder, é com a resposta a uma pergunta
que ela não tinha feito.
— Eu não sabia.
Seu olhar se esforça para encontrar o meu.
— Não sabia o quê?
— Seu pai. Eu não sabia. Não naquela época, e certamente não até agora.
Ela fica imóvel sob meu toque. Eu levo meu tempo preparando sua coxa para
o curativo, engolindo em seco enquanto gentilmente empurro a perna fina da
calça para cima. Agradeço silenciosamente à Peste quando ela finalmente fala,
me dando algo para focar além da minha tarefa atual.
A voz dela é surpreendentemente suave, e não tenho certeza se devo ficar
alarmado ou à vontade.
— Você não sabia quem matou naquela noite?
Eu seguro minha risada amarga.
— Eu nem sabia que mataria alguém naquela noite. Não sabia que meu destino
estava começando tão cedo.
— Não seja enigmático — ela murmura. — Não quando se trata disso.
Eu suspiro e lentamente começo a enrolar a bandagem em volta da coxa dela.
— Eu tinha quatorze anos. Bem no meio do meu... treinamento com o rei. Eu
cresci sabendo exatamente como seria meu futuro, mas isso não significava que
chegaria um momento em que eu estaria pronta para enfrentá-lo. — Ela
estremece quando eu aperto a bandagem. — Quando acordei naquele dia, eu não
sabia que estaria matando um homem indefeso a sangue frio. Não sabia que meu
pai ameaçaria fazer o mesmo comigo se eu não fizesse isso.
— Ele não… — Ela engole em seco, respirando fundo. Duvido que a agonia em
seu rosto tenha muito a ver com o ferimento que acabei de enfaixar. — Ele não te
contou por que você o estava matando?
Ofereço a ela um leve aceno de cabeça.
— Nos primeiros três anos das minhas missões, não recebi nenhuma
informação sobre quem eu estava matando. Ele chamaria isso de obediência
cega. Ele me disse que o Executor não precisava saber de mais nada. Que os
comandos do rei nunca devem ser questionados.
Seus olhos se movem entre os meus, queimando como uma chama azul.
— Você poderia estar matando pessoas inocentes. Você matou pessoas
inocentes. — Com o peito arfando, ela se afasta de mim, zombando enquanto
olha para a parede. — E para quê? Testar sua lealdade, sua disposição de seguir
ordens cegamente?
Meus olhos nunca se desviam dela.
— Acho que você sabe que é exatamente por isso.
Ela balança a cabeça como eu sabia que ela faria.
— É um choque que ninguém esteja me agradecendo pelo que eu fiz.
Olho para ela, com algo apertando meu peito que pode ser meu coração.
O pensamento de agradecer a ela por enfiar uma espada no peito do meu pai
pode ser a coisa mais cruel que já considerei. E ainda assim, cada cicatriz
espalhada pelo meu corpo canta com a memória de mãos frias e raiva quente.
Cada uma das minhas muitas máscaras é um lembrete do homem que as moldou.
Talvez eu devesse agradecer a ela.
Não me lembro de amá-lo quando ele estava vivo. Mas agora? A morte revela
uma devoção profundamente enraizada? Não consigo diferenciar tristeza de
amor e culpa da falta dele.
Ela morde o interior da bochecha contra uma careta enquanto começa a
desenrolar a perna da calça.
— Acho que eu devo te agradecer.
Eu a estudo, o silêncio se estendendo entre nós. Quando ela não diz mais
nada, eu levanto minhas sobrancelhas para ela.
— Estou esperando.
— Não fique muito animado. Eu disse que deveria agradecer.
Eu bufo de um jeito que sugere que eu poderia ter achado isso engraçado,
enquanto ela levanta os lábios de um jeito que sugere que ela pode estar
sorrindo. Quando ela luta para ficar de pé, eu a sigo, segurando seu olhar de
onde ela está diante de mim.
— Vire-se — ela ordena.
— Com licença?
— Vire-se. Eu quero me trocar. — Ela acena com as mãos para mim,
sinalizando para que eu obedeça.
— Não sei — suspiro, cruzando os braços enquanto me encosto na parede —
como vou saber que você não vai pular da janela quando eu estiver de costas?
Ela pega a camisa emprestada e úmida com uma carranca.
— A única coisa que estou pensando em fazer quando você está de costas é
enfiar uma adaga nela.
— Você não está ajudando seu caso-
O pacote me atinge em cheio no estômago antes que eu o segure.
— Só se vire — ela bufa, os olhos brilhando em desafio.
Eu levo meu tempo me virando para olhar fixamente para a parede à frente.
Ela não se incomoda em puxar assunto, me deixando ouvir o farfalhar das roupas
antes que elas caiam no chão. E agora que provei seus lábios, é difícil não
desejá-los, especialmente quando sei que não deveria. Então isso certamente
não está ajudando.
— Posso me virar agora? — pergunto com um suspiro quando a cama range
atrás de mim.
— Shh, estou tentando dormir.
Giro para vê-la esparramada sobre a colcha, a camisa cinza roubada
engolindo-a inteira. Com braços e pernas esticados, ela tenta ocupar o máximo
possível da cama. A visão é tão inesperada que quase engasgo com uma risada.
— O que é-
— Desculpe — ela diz, com os olhos fechados e os lábios tortos. — Não tem
mais espaço na cama.
— Eu posso ver isso — respondo secamente.
Os olhos dela se abrem quando eu puxo a colcha em que ela caiu.
— O que você está-
— Estou me comprometendo. — eu interrompi. — Se você ficar com a cama,
então eu pelo menos ganho um cobertor.
— Tudo bem. — Ela assente bruscamente, sentada no travesseiro plano, sobre
o qual seu cabelo está bagunçado.
Eu agarro o outro do lado da cabeça dela, tentando e falhando em afofar a
desculpa miserável de travesseiro.
— E eu também recebo isso.
Ela me lança um olhar antes de se enrolar de lado e se enterrar nos lençóis.
— Fechado.
Com isso, sou banido para o chão duro ao lado da cama dela. A colcha é
áspera, o chão é áspero e o travesseiro é praticamente inútil - mas já dormi em
condições piores.
No entanto, não posso deixar de pensar que em outra vida, em outra época,
em outra chance de escolhermos um ao outro, eu estaria naquela cama ao lado
dela.
CAPÍTULO 17

PAEDYN

— Vou te sufocar com um travesseiro em cinco segundos.


Eu gemo, ignorando alegremente a ameaça do príncipe e me enterrando ainda
mais nos lençóis ásperos. Este é o terceiro e supostamente último aviso que ele
está disposto a me dar. Com isso em mente, eu alegremente ignoro o Executor
exigente ao lado da cama.
Quando um travesseiro irregular atinge meu rosto, abafando a sequência de
xingamentos que saem da minha boca, levanto uma mão para mostrar meu dedo
médio. Ele responde às minhas palavras não ditas com duas das suas.
— Se. Levante.
— Se você está me escoltando para a minha sentença — resmungo sob o
algodão amassado — o mínimo que você pode fazer é me deixar aproveitar
minha última vez na cama.
— Você teve muitas horas para aproveitar, não se preocupe.
Eu tiro o travesseiro do meu rosto, espiando o quarto escuro. A janela nublada
revela um céu igualmente nublado, ainda manchado de escuridão.
— Nem o Sol ainda levantou, então não vejo por que eu deveria..
— Argumento convincente — ele diz secamente. — Levante. Agora. Não
podemos passar muito tempo em um lugar. Estou surpreso que ainda não fomos
reconhecidos.
Suspiro pelo nariz, olhando fixamente para o teto. Eu tinha planejado passar
a noite planejando minha fuga do Executor, mas não havia como lutar contra a
onda de sonolência que caiu sobre mim no momento em que minha cabeça
bateu no travesseiro. Dormir tão profundamente é assustador quando é ao lado
de alguém tão disposto a te apunhalar pelas costas.
Saio dos lençóis gastos, deslizando desajeitadamente da cama antes de
estremecer diante do ferimento esquecido na minha coxa. Os olhos de Kai
rastreiam o movimento, traçam o vinco entre minha testa, a minha respiração
presa.
— Como você está se sentindo?
Eu zombo, afastando os fios soltos de cabelo prateado do meu rosto.
— Não finja se importar com meu bem-estar, príncipe. Sou apenas mais uma
missão para você. — completo.
Ele parece enrijecer um pouco com isso, mas suas palavras não combinam
com a cautela que ele demonstra.
— Sim, e minha missão precisa estar bem o suficiente para suportar a jornada
para casa.
Casa.
A palavra arde meus olhos, queima minha garganta, assim como a fumaça fez
quando escapei dos fragmentos de fogo da minha infância. Cada um dos meus
lares se foi - meu pai, minha Adena, minha casa na esquina da Merchant com a
Elm.
Estou sem teto. Sem esperança. Vazio.
— Aquela não é minha casa. — Eu não queria que as palavras fossem
sussurradas, embora ele olhe para mim como se eu as tivesse gritado.
— Ilya? — ele pergunta lentamente. — Ilya não é sua casa?
— Meu lar não é lugar nenhum. Ninguém é meu lar. Não mais. — Eu seguro seu
olhar, levantando minha cabeça e acrescentando — Você e seu rei se certificaram
disso. — Nós nos encaramos, seu olhar analítico deslizando sobre meu rosto. —
Você não é o único que conhece a perda. Tenho que te agradecer a por isso.
— Assim como eu. — ele dispara de volta — Você esqueceu que agora eu
também sou órfão de pai? Ou você não considerou isso quando enfiou uma
espada no peito do rei?
— Você matou um pai. — eu praticamente rosno, chegando perto o suficiente
para ver a tempestade se formando em seus olhos cinzentos — Eu matei um
monstro.
Seus olhos se movem rapidamente entre os meus, fervendo com algo que não
consigo identificar.
— Você esqueceu tudo o que ele fez com você? — Eu sussurro, implorando
para que ele se lembre dos crimes de sua infância. — Tudo o que ele fez você
fazer? Sem mencionar o que ele fez com este reino-
— Chega. — Sua voz corta a minha, autoritária e calma. — Já chega.
— O quê? Você não aguenta ouvir a verdade?
Ele agarra meu braço, seu aperto calejado como suas próximas palavras.
— Eu disse chega. Estamos indo.
Com isso, estou tateando em busca da minha mochila antes de ser puxada
atrás dele pela escada estreita. Quando chegamos ao fundo, estou sendo
enrolada rudemente no meu cachecol, afastando as mãos rápidas do príncipe
enquanto ele enrola o tecido em volta do meu rosto e cabelo. Assim que seus pés
tocam o chão rangente, ele joga uma moeda para o homem resmungão atrás do
balcão, sem lhe dar outro olhar antes de me puxar para além da pousada
decadente.
Eu pisco na luz ofuscante do sol nascente, tropeçando levemente enquanto
ele me guia pelo mar de pessoas. As ruas estão inundadas de comerciantes,
afogando-se em caos. O Enforcer nos conduz pela multidão, seus olhos
passando de rosto em rosto acima da bandana cobrindo a metade inferior do
seu. Eu invejo sua habilidade de se disfarçar tão facilmente, com sua falta de
cabelo identificável.
Eu balanço meu pulso em seu aperto, testando minhas muitas opções para
me livrar dele.
— Nem pense nisso — ele murmura, sem diminuir o passo.
Reviro os olhos para suas costas. Ele está cada vez mais insuportável.
Ele nos leva para um beco estreito, parando o suficiente para me dar uma
olhada por cima do ombro.
— Você está aguentando aí atrás?
— Você pergunta como se fosse parar se eu não estivesse.
— Você realmente me conhece tão bem — ele murmura, me puxando por
outra rua movimentada.
Depois de várias curvas fechadas, estou diminuindo a velocidade atrás dele,
lutando para acompanhar seus passos largos. Minha perna queima, a dor surda
se transformando em algo muito mais exigente.
Ele deve ouvir minha respiração ofegante, sentir meus pés arrastando, porque
ele desliza para uma rua lateral sombreada e desacelera até parar.
— Fora de forma, Gray?
Eu o encaro antes de direcionar meu olhar para o corte na minha perna.
— Sim, meu ritmo não tem nada a ver com o fato de que estou sangrando
ativamente.
— Ah, não seja dramática. — Suas palavras são leves, mas seu olhar é tudo
menos dramático enquanto viaja pelo meu corpo, finalmente pousando na minha
coxa. E então ele de repente está agachado diante de mim, as mãos apoiadas na
minha perna. Não posso fazer nada além de piscar para a cabeça curvada de
cabelo preto bagunçado abaixo de mim. Ele brinca com o curativo que aparece
através das calças rasgadas por cima, os dedos roçando minha pele. — Você está
realmente sangrando em mim, ou é teimosa demais para admitir que precisa de
um tempo?
— Talvez — eu digo com um sorriso falso — eu precise de um descanso porque
estou sangrando muito. E é por sua causa.
Ele está distraído com meu ferimento agora exposto, me oferecendo um
divertido “Hmm.” Eu estremeço quando ele enxuga o sangue quente escorrendo
pela minha perna em riachos vermelhos. Seu toque é tão gentil, tão disfarçado
com algo parecido com cuidado.
Eu engulo em seco quando suas mãos percorrem as laterais da minha coxa,
silenciosamente me lembrando por que estou machucada em primeiro lugar. Por
que estou correndo em primeiro lugar. Por que estou tão quebrada em primeiro
lugar.
Então suas mãos deslizam da minha pele para puxar a parte inferior de sua
camisa, me deixando frustrantemente fria na sombra. Ele rasga um pedaço de
pano com facilidade antes de puxar minha perna em sua direção para descansar
sobre a sua, de onde ele está ajoelhado. Eu me pego guardando a visão na
memória com um sorriso presunçoso.
Não me sinto nada comum com o príncipe de joelhos diante de mim.
— Fique parada — ele murmura. — Você está balançando como uma bêbada.
Franzo a testa para o cabelo de ébano caindo sobre sua testa.
— Você roubou uma das minhas pernas.
— Sim, uma perna. Não seu equilíbrio.
Eu balanço minha cabeça para a parede onde coloquei minha mão contra ela.
— Você é insuportável.
Eu pego o canto do seu sorriso enquanto ele amarra a nova atadura
improvisada e gentilmente levanta minha perna para o chão. Ele se levanta,
elevando-se sobre mim tão repentinamente que eu me pego dando um passo
inseguro para trás contra a parede suja.
— Melhor? — ele pergunta, notando meu nervosismo ao suavizar seu olhar.
— Tudo bem — eu consigo dizer. — Eu vou fazer a jornada até a minha
sentença, não se preocupe.
Seus olhos vagam por mim, examinando com uma sensação de incerteza.
— Então é melhor irmos embora.
CAPÍTULO 18

KITT

O ar fresco parece estranho para mim.


De pé ao lado da janela rachada, respiro a fria e desconhecida sensação que
começa a soprar no escritório abafado. O chão espalhado abaixo de mim está
coberto por um vibrante leito de grama, brilhando na cascata de luz do sol.
Não fico aqui com frequência. Não abra as cortinas por tempo suficiente para
ser percebido pela equipe fofoqueira. Mas é garantido depois das minhas
refeições.
Inclinando meu prato meio comido para fora da janela, observo o conteúdo
derramar na grama lá embaixo. Cada vegetal atinge o chão com um plunk suave -
batatas, cenouras, um tipo de feijão fibroso que passei a não gostar - tudo se
somando à crescente pilha de restos que descartei.
É a parte da minha rotina que precisa ser refinada. No começo, começou
como uma forma de limpar meu prato e apaziguar os empregados. Bem,
apaziguar Gail com a prova de que eu digeri sua comida. Mas, ultimamente, os
sussurros do lado de fora da minha porta só ficaram mais altos antes de cada
refeição entregue. Talvez minha pilha de comida não comida tenha finalmente
sido encontrada, e é só uma questão de tempo até que Gail entre aqui para me
alimentar com colher ela mesma.
Uma batida na porta me fez supor que esse dia estava chegando.
— Entre.
Correndo dedos frenéticos sobre meu cabelo desgrenhado, tento alisar os fios
em pé. Minha camisa amassada é a próxima preocupação que chama minha
atenção, mas mal consigo passar a mão pelo tecido antes que a porta se abra.
Olhando para cima, não é Gail quem encontra meu olhar.
— Aqui está meu primo isolado.
O sorriso que abro surpreende até a mim mesmo.
— Olá, Andy.
Ela entra mais no escritório, seus olhos cor de mel varrendo cada centímetro
dele. Eu limpo minha garganta antes de me sentar rigidamente de volta no meu
assento.
— Há algum motivo para sua... visita?
Tirando o olhar da janela aberta, ela permite que ele se fixe em mim.
— Certo. Bem, eu obviamente estou aqui para consertar sua, hum… — Ela
para, visivelmente tentando inventar algum tipo de esquema. — Sua janela? — Ela
acena, tentando convencer nós dois. — Sim, sua janela.
— Você está aqui para consertar minha janela? — repito lentamente.
— É isso que eu faço! — Ela gesticula para o cinto de ferramentas em volta da
cintura, o piercing no nariz brilhando na luz. — Eu sei que é fácil esquecer que
ainda sou uma Handy no castelo, com meus muitos outros talentos.
Meus olhos deslizam sobre o couro gasto que circunda sua cintura, cada
centímetro dele ocupado pela pilha de ferramentas jogadas aleatoriamente para
dentro. Lembro-me dos dias em que o topo do cabelo vermelho-vinho de Andy
mal alcançava o quadril de seu pai, embora ela estivesse praticamente presa a
ele, seguindo-o para todo lugar.
Então, naturalmente, ele lhe ensinou tudo o que ela sabe. A arte de consertar,
consertar, criar — tudo parte do papel de um Handy. Mesmo apesar da
habilidade única de mudança correndo em suas veias, ela escolheu perseguir o
que a maioria acredita ser uma paixão humilde.
Colocando as mãos nos quadris, ela suspira.
— Mas alguém precisa limpar a bagunça que você e Kai fizeram, e eu tenho
muita experiência com isso.
Concordo com cada palavra, relembrando as muitas coisas que quebramos
durante nossas brigas improvisadas. Quando éramos apenas irmãos, aliviados
por esses novos títulos brilhantes que agora carregamos.
Incapaz de suportar a sensação de seu escrutínio pesado, eu me preocupo em
fingir estar ocupado. Embaralhando papéis em minhas mãos, tento arrumar o
conteúdo espalhado da minha mesa desorganizada.
— Não há nada de errado com minha janela, Andy. Se você quisesse me ver,
poderia ter perguntado.
Uma sombra triste sombreia seu rosto.
— E você teria me deixado? Ver você, é isso."
Aqui vamos nós.
Foi idiota da minha parte pensar que poderia evitar essa conversa por muito
mais tempo. Suspirando, eu ofereço
— Eu tenho estado ocupado.
— Certo. — Ela assente, seu olhar distante. — Você é um rei agora. Você é meu
rei agora. Não consigo imaginar o quão difícil tem sido se ajustar. — Uma pausa.
— Especialmente depois do que aconteceu.
Você quer dizer, como meu pai foi brutalmente assassinado? Como eu me
ajoelhei ao lado do corpo ensanguentado dele, olhando para a adaga dela cortando
seu pescoço? É isso que você quis dizer, prima?
Mordo minha língua contra a onda de pensamentos cuspidos.
— Sim, tem sido... difícil.
Jax sente sua falta. E ele está me deixando louca, então sinta-se à vontade
para tirá-lo das minhas mãos. — Ela diz isso com aquele sorriso brilhante dela,
apesar da tristeza nublando seu olhar. — Tudo bem, tudo bem. Nós dois sentimos
sua falta. E eu sei que você tem lidado com muita coisa ultimamente, mas pode
ser muito bom para você sair deste estudo-
— Andy. — Eu levanto uma mão manchada de tinta, silenciando-a com um
único movimento. — Estou bem aqui. Sério.
Minhas palavras são tão firmes que eu quase acredito nelas. Andy fica parada.
Sorri. Acelera o passo em direção à janela.
— Sabe — ela diz com aquele tom familiar na voz — acho que sua janela está
quebrada, na verdade.
Não levanto os olhos da pilha de papéis empilhados diante de mim.
— E por que isso?
Posso ouvir o desafio em sua voz.
— Bem, a comida sempre parece estar caindo dela.
O silêncio cai, preenchido apenas pelo tamborilar dos meus dedos contra a
mesa. Seus braços estão cruzados acima do cinto de trabalho quando me viro
para encará-la. Ela levanta uma sobrancelha escrutinadora.
— Você quer me explicar isso?
Penso nisso por um momento.
— Não.
— Vamos lá. — Ela zomba.
— Você está certa. A janela deve estar quebrada.
— Kitt.
— Rei.
Ela pisca para minha correção, endireita-se diante da minha pele
repentinamente pétrea.
— É rei agora. As coisas são diferentes - eu sou diferente. — Balançando a
cabeça — Ele se foi, e eu nem sei como respirar se ele não me ordenar. Ordenar
que eu coma. Que viva. — sussurro.
Minhas mãos estão tremendo. Papéis deslizam de suas pilhas desleixadas
enquanto lágrimas não derramadas queimam meus olhos cansados.
O rosto de Andy se desfaz, a pena franzindo suas sobrancelhas cor de vinho.
— Oh, Kitt…
Eu fico de pé rigidamente antes que ela tenha a chance de se ajoelhar ao meu
lado. Limpando minha garganta apertada, murmuro:
— Isso é tudo, Andy.
— Kitt, espere-
— Isso é tudo.
Ela se levanta, sugando o ar.
— Deixe-me ajudar você a consertar a janela. Por favor. Ela não precisa ficar
quebrada.
Então eu olho para ela. Deixo ela olhar para mim.
Só quando ela examina cada rachadura na minha fachada calma é que digo:
— Receio que não haja mais conserto.
CAPÍTULO 19

PAEDYN

— Isso é realmente necessário?"


Eu levanto uma sobrancelha para as cordas grossas que atualmente apertam
meus pulsos, esfregando-os até ficarem em carne viva. Como resposta, o
Enforcer sorri levemente nas sombras antes de puxar as amarras
impossivelmente mais apertadas. Eu zombo, gesticulando com as mãos
amarradas para a aridez que nos cerca.
— Agora você decide me amarrar? No deserto com todos os seus Imperiais
respirando no meu pescoço?
Mas o príncipe já perdeu o interesse em mim, virando-se para pegar as rédeas
de um dos muitos cavalos inquietos.
— Tudo isso por um Ordinário? — Levanto minha voz para que o cobertor de
areia não possa sufocá-la. — Quem imaginaria que eu te deixaria tão assustado?
— Abro minha boca novamente, pronto para cuspir outra coisa que
definitivamente chamará sua atenção quando um empurrão nas minhas costas
me faz tropeçar, mordendo a língua que estava prestes a me colocar em apuros.
— Cadela.
É um chiado no meu ouvido, um arrepio na minha espinha. O Imperial tem
meu cabelo torcido em seu punho antes mesmo que eu encontre meu equilíbrio,
me puxando para seu peito com um rosnado. Eu suspiro de dor, estremeço ao
sentir seus lábios contra meu ouvido.
— Comum imunda. Eu deveria cortar sua garganta aqui mesmo...
— Sabe, eu nem me incomodei em aprender seu nome, Soldado. É o quão
pouco valorizo sua vida.
O sotaque arrastado do Executor faz o Imperial enrijecer atrás de mim,
endireitando-se um pouco quando o príncipe demora para caminhar em nossa
direção. Olho fixamente para o peito largo que se ergue diante de mim,
observando-o subir rapidamente, apesar das palavras enganosamente calmas
que saem de seus lábios.
— Então imagine — ele continua casualmente — o que eu ficaria mais do que
feliz em fazer com você se encostassar outro dedo nela.
É uma luta para não tropeçar no Enforcer com a força com que o Imperial
me empurra para longe dele. Então ele está murmurando uma desculpa
esfarrapada para um pedido de desculpas, acenando para ordens veladas como
uma ameaça. Assim que encontro meu equilíbrio, estou cambaleando para trás
do príncipe e do escrutínio insensível cobrindo seu rosto.
Não era cuidado ou preocupação ou algo próximo de gentileza. Não, era
posse. A ameaça era territorial. Eu sou sua presa, seu prêmio, seu prisioneiro.
Dele e somente dele.
Eu odeio isso. Odeio pertencer a ele.
— Venha aqui.
Pisco com a ordem brusca, o desrespeito flagrante pelo fato de que eu já fui
algo mais do que sua prisioneira para controlar. Seu comando tem o efeito
oposto, forçando meus pés para mais longe dele. Ele responde com uma
inclinação de cabeça, os olhos vagando sobre o que deve ser o desgosto restante
escrito em meu rosto.
— Estamos indo — ele diz lentamente, dando um passo igualmente lento em
minha direção. — Se você preferir caminhar pelo deserto, fique à vontade. Caso
contrário, vou precisar que você monte em um maldito cavalo.
Meus olhos se voltam para as criaturas bufantes espalhando a areia. Engulo
em seco.
— Estou bem, obrigada.
Mais um passo.
— É mesmo?
Estou me mexendo agora.
— Prefiro andar.
— A Paladina Prateada? — Ele está sorrindo. — Com medo de cavalos?
Uma risada leve chega aos meus ouvidos, zombando de mim. Ignoro as
risadinhas ao redor e, em vez disso, silenciosamente fixo meu olhar no bastardo
divertido diante de mim.
— Bem, eu nunca tive o privilégio de andar em um enquanto crescia, tive?
Então acho que tenho permissão para achá-los... perturbadores.
— Todos nós temos nossos medos, Gray — ele murmura, se aproximando para
que apenas eu ouça. — Embora eu estivesse começando a acreditar que você não
tinha nenhum. Muito menos cavalos.
— Não estou com medo — digo entre os dentes que estou mostrando para ele.
— Só preciso de um pouco de exercício.
Mal consigo distinguir o movimento dae seus lábios na escuridão antes que
ele prenda meu pulso amarrado ao seu cavalo com uma corda longa.
— Tente acompanhar, Gray. Não quero ter que te arrastar pelo deserto."
Reviro os olhos para suas costas, mas rapidamente os desvio dos músculos
que se esticam contra sua camisa enquanto ele se puxa para cima da sela. Com a
visão, minha mente vai até o telhado antes que eu balance a cabeça e afaste o
pensamento.
Não demora muito para que eu esteja tropeçando ao lado dele, tentando
colocar o máximo de distância entre mim e a fera que se aproxima ao meu lado.
Os imperiais espalhados ao nosso redor estão lançados na sombra, envoltos na
escuridão que esperamos cair antes de pisar no deserto. Passar minha tarde com
o príncipe e sua comitiva foi igualmente miserável quanto o cobertor de calor
que nos sufocava. Isto é, até que o sol finalmente se cansou de sua tortura e
afundou em seu leito de nuvens, permitindo que a lua nos guiasse enquanto
começávamos nossa jornada pelo deserto.
O tempo passa, indicado apenas pela dor crescente pulsando da minha
ferida. Cada passo queima, escaldante como o sol que conseguimos evitar por
algumas horas. Não demora muito para que um mancar consiga deslizar em meu
passo, apesar dos meus melhores esforços para sufocá-lo.
Mas quando ele limpa a garganta ao meu lado, eu me forço a me endireitar,
mordendo minha língua contra a dor.
— Você está ficando mais lenta, Gray. — Sua voz é baixa, áspera por horas de
desuso.
— Você gostaria que eu corresse, Alteza? — consigo dizer, mantendo os olhos
na areia movediça sob meus pés.
— Gostaria de ver você tentar. Seria divertido, para dizer o mínimo.
Eu lhe lanço um olhar.
— Eu vivo para divertir, Vossa Alteza.
Uma tosse fica presa em sua garganta, o mais próximo de uma risada que ele
se permite.
— Parem! — ele ordena, puxando seu cavalo para uma parada. Eu cambaleio
ao lado dele, quase tentada a me apoiar na fera. O desfile de imperiais puxa suas
rédeas, parando para nos cercar.
Observo o príncipe descer graciosamente de sua sela antes de diminuir a
distância entre nós. Engolindo em seco, traço o músculo que pulsa em sua
mandíbula, o caminho que seu olhar percorre pelo meu corpo. E então ele está
agachado diante de mim mais uma vez, olhando para cima com as mãos apoiadas
em ambos os lados da minha coxa machucada.
Ignoro o arrepio de uma dúzia de olhos curiosos vagando pela cena que
criamos, incapaz de encontrar uma única razão para me importar. Seus olhos
estão nos meus, e por um único e agridoce segundo, é para Kai que estou
olhando - não para o monstro que deveria me caçar.
Então sua testa franze, sua mente capturada pela tarefa em mãos. Com dedos
rápidos, ele está traçando o corte irregular, entrelaçando pele e tecido. Eu
suspiro, alívio me inundando a cada passagem de seus dedos. Ele olha para mim
então, os olhos vagando pelo meu rosto de uma forma que me faz sentir despida
diante dele.
— Melhor? — Sua voz é pouco mais que um murmúrio
— Melhor — eu exalo. Tirando meus olhos dos dele, olho para cima para
escanear os Imperiais, silenciosamente me perguntando qual deles é o Healer de
quem ele está tirando poder. — Você não podia ter feito isso a umas doze horas
atrás?
O canto dos lábios dele se contrai.
— Doze horas atrás, estávamos em uma cidade movimentada, eu sabia que
você conseguiria desaparecer facilmente. Isto é, se você conseguisse fugir de
mim. — Ele quase dá de ombros. — Chame isso de precaução.
Eu imito seu encolher de ombros com um dos meus.
— Você parece estar tomando muitas precauções para uma simples Comum.
— Acho que nós dois sabemos que nada em você é simples.
Nós nos observamos por um longo momento, cautelosos do jeito que
sabemos que devemos ser. Tudo nele é afiado e frio e me perfura com aquele
olhar de vidro. Mesmo agachado abaixo de mim, ele é exatamente o príncipe e a
criação do rei. Um fantoche da coroa disfarçado com um título chique.
Eu me pergunto com que frequência o Executor se ajoelha diante de qualquer
coisa. Qualquer um.
— Você tem medo de mim.
Ele encontra minha declaração com um olhar, firme, mas prolongado como
um suspiro.
— Eu seria um idiota em não temer algo tão feroz.
Eu engulo em seco.
— E você não é? Um idiota?
Ele então se levanta, sustentando meu olhar até que é ele quem olha para
mim.
— Não mais.
Abro a boca, tateando por palavras que ele não se importa em ouvir. Com
uma virada e um aceno para seus homens, o desfile ganha vida novamente, me
arrastando junto. Observo enquanto ele monta em seu cavalo, vislumbrando o
brilho de esperança em seu quadril.
Meu coração pula uma batida, tropeçando em si mesmo ao ver uma adaga
decorando seu lado, embora a falta de aço girando em seu punho me diga que
não é meu. Eu forço meus pensamentos a serem racionais, forço-me a pensar
como o ladrão que eu tive que me tornar.
Tendo mutilado qualquer chance de um pedaço de confiança, cada
movimento que eu faço é irritantemente sob suspeita. É uma luta não lamentar o
quão fácil era se aproximar dele, e o quão desesperadamente eu anseio por algo
não completamente complicado.
Eu avanço cambaleando com o cavalo bufando ao meu lado, a mente girando
e os pés vacilando.
Pragas, preciso de um plano.
O desfile continua sua marcha melancólica sob o luar pálido — pouco mais
que sombras prateadas pintando a areia. "Plano" é uma palavra generosa para a
ideia que formula, mas o desespero me faz jogar a cautela ao vento. Com uma
respiração profunda, engulo meu orgulho antes de forçar meus pés a se
arrastarem dramaticamente.
A corda que me amarra à fera fica esticada, meus calcanhares rangendo na
areia. A princípio, o Executor não se digna a reconhecer minha resistência óbvia,
e o cavalo em que ele está certamente também não. Mas depois de vários
suspiros prolongados e passos teimosos-
— E agora, Gray? — Ele parece completamente desapontado com minha
demonstração.
— Estou cansado.
— É isso mesmo?
Eu franzo a testa para seus ombros sombrios.
— É.
— Hum.
— Hmm? — Eu ofego. — É tudo o que você tem a dizer? Hmm?
— Tudo bem. — Eu praticamente posso senti-lo sorrindo em cima de seu
cavalo alto. — Hmm, é uma pena que você tenha medo de cavalos.
— Eu não tenho- — suspiro, respirando fundo para esconder meu sorriso. Era
exatamente isso que eu queria. — Eu vou superar isso. Estou cansado demais
para me importar no momento.
Agora ele oferece um olhar por cima do ombro.
— Vamos ver, então. Suba.
Engulo em seco, uma reação que eu queria que fosse dramatizada. Ele
estende a mão para me ajudar a levantar, sua boca se erguendo no canto.
— Absolutamente não. — Tento dar um passo para trás, me esforçando
contra a corda. — Vou precisar de... assistência.
Agora ele realmente sorri.
— Você quer dizer que precisa de ajuda?
— Não estou pedindo nada disso.
Ele balança a cabeça para mim.
— Ainda é teimoso demais para admitir que está pedindo ajuda, muito menos
que precisa dela. — Reviro os olhos, olhando para qualquer lugar, menos para os
dele. — Vamos, Gray. Quero ouvir você dizer isso.
Eu balanço minha cabeça, inclinando-a em direção às estrelas que nos
encaram.
— Você é insuportável.
— Não é bem isso que estou esperando ouvir.
Um ruído de desgosto desliza entre meus lábios, um gemido soando de
arrependimento.
— Tudo bem. Eu preciso da… sua ajuda. — Eu mordo as palavras, engolindo o
gosto amargo que elas deixam para trás.
Ele sorri para mim então, me assustando de uma forma que não deveria - não
mais. Em resposta, ele desliza facilmente de sua sela para ficar diante de mim.
Meu coração martela em meu peito, olhos se movendo rapidamente para a arma
ao seu lado. Eu estendo minhas mãos amarradas com expectativa, sorrindo
docemente para ele.
Ele me observa, seus olhos penetrantes deslizando sobre meu rosto.
— Um movimento errado, Gray — ele murmura — e eu vou amarro você na
garupa deste cavalo. Entendido?
— Entendido, Príncipe.
Ele responde à minha zombaria com a sugestão de um sorriso. E então ele
está me cortando livre com a faca que eu tanto quero na palma da minha mão.
Não ouso rastrear seus movimentos enquanto ele desliza a pequena adaga de
volta para seu quadril, em vez disso, mantenho meus olhos fixos nos dele. Meus
pulsos estão vermelhos e em carne viva, doloridos por horas de esforço. Eu levo
meu tempo massageando-os, passando os dedos sobre os vergões crescentes ali
até ter certeza de que seus pensamentos estão longe da faca em seu lado.
Hora de uma distração.
Levantando meus olhos para os dele, respiro fundo uma última vez em
preparação para a falta de plano que conjurei.
— Tudo bem — suspiro. — Me coloque lá em cima.
Seu sorriso é provocador demais para o meu gosto.
— Tudo bem, então. — Ele dá um passo atrás de mim. Suas mãos estão firmes
em meus quadris antes que eu possa respirar novamente, segura, forte e
enjoativamente familiar. E então ele está me levantando, levantando, levantando-
— Pragas! — Eu grito, me debatendo em seu aperto como eu pretendia. Cada
membro está se debatendo, desesperado para fugir de seu aperto por algo que
eu espero que pareça medo. Minhas costas estão pressionadas contra seu peito
enquanto pés voam na minha frente e mãos se estendem para trás para agarrar
qualquer coisa - seu rosto, seus braços, seu quadril enquanto eu deslizo a adaga
de sua bainha.
— O que diabos há de errado com você?
Ele me abaixa de volta para o chão firme, desviando de uma cotovelada que
eu jogo de volta em sua direção. Assim que minhas botas atingem a areia, eu me
viro e tropeço nele, alcançando a mão que segura sua faca atrás das minhas
costas. Incapaz de arriscar enfiar a arma na faixa da minha calça onde ele
provavelmente a sentirá, eu viro a lâmina para que seu cabo fique virado para
baixo e silenciosamente faço uma prece para a Peste-sabe-quem. Só então deixo
a faca cair em direção à boca da minha bota.
Mordo minha língua contra a picada da dor, sentindo o sangue começar a
pinicar minha pele onde a lâmina cortou meu tornozelo. Mas então estou
mordendo minha língua contra um sorriso.
Eu fiz isso. Funcionou. Talvez eu devesse rezar mais.
— E-eu não estava pronta! — ofego, dando um passo para trás antes de alisar
minha camisa amassada.
— Ah, desculpe — ele zomba, exasperado — eu apenas presumi que “me
coloque lá em cima” significava que você estava pronta para subir lá.
Olho para os homens ao nosso redor, escondidos nas sombras. O manto de
escuridão é a única razão pela qual consegui escapar da manobra desleixada que
acabei de fazer sem que ninguém visse.
— Estou só... nervosa, ok? Me dê um segundo.
— Não tenha pressa — ele diz entre dentes, sem querer dizer uma única
palavra.
Desvio o olhar da agitação tão descaradamente exibida em seu rosto.
Respirando fundo, faço o papel de ansiosa, completo com dedos inquietos e pés
se mexendo.
— Tudo bem — eu finalmente digo.
— Tudo bem, o quê? — ele pergunta lentamente. — Quero ouvir você dizer
isso, para que eu não seja emboscado de novo.
Ofereço a ele um olhar sem graça.
— Tudo bem, estou pronto.
— Você tem certeza disso? Devo esperar um olho roxo ou-
— Só me coloque no maldito cavalo, Azer.
Ele dá um passo lento atrás de mim então, segurando meu olhar enquanto
desliza palmas ásperas em meus quadris. Eu engulo em seco com a pura
intimidade de um momento que não pretende ser nada disso.
Ele está me colocando no cavalo que está me levando para a minha sentença,
pelo amor da Peste.
E ainda assim, minhas bochechas estão esquentando no meio de um deserto
sem sol. E eu odeio isso - odeio ele. Certo?
Ele me puxa para perto, me segura como se eu fosse um sopro, sabendo que
é só uma questão de tempo até que ele precise me soltar.
E então ele está me levantando, guiando meu pé em um estribo. Eu balanço
minha outra perna sobre a fera, trêmula e lenta. Estou segurando a sela, cada
músculo esticado e pronta para me jogar para fora se necessário. Mas bem
quando estou pensando em fazer exatamente isso, ele de repente está atrás de
mim, sólido e pressionado contra minha espinha.
— Acho — digo calmamente — que eu ficaria mais confortável atrás.
— Oh, tenho certeza — ele murmura, tão perto do meu ouvido, que eu
reprimo um arrepio. — Mas eu quero você onde eu possa te ver.
Ele então alcança ao meu redor, antebraços emoldurando minha cintura
enquanto ele agarra as rédeas. Reviro os olhos para onde suas mãos descansam
em minhas coxas.
— Isso é realmente necessário?
— O quê, você sabe como conduzir um cavalo?
Eu me inclino levemente contra seu peito.
— Eu aprendo rápido.
Ele bufa, soprando meu cabelo.
— Sim, uma aprendiz rápida que voltaria direto para Dor.
— Você pensa tão pouco de mim, Alteza.
Uma risada.
— Não, eu penso muito em você. É por isso que eu sei exatamente o que você
faria.
Engulo em seco, me curvando enquanto deixo o silêncio se instalar sobre
nós. Os minutos passam, me tentando a falar, mesmo que seja só por tédio.
— O que ele fará comigo?
Ele está tão escondido atrás que posso sentir seu corpo tenso quando a
pergunta escapa da minha boca. De repente, tenho o príncipe se mexendo
desconfortavelmente, suspirando nas costas do meu pescoço. Tentei não pensar
em Kitt, em como posso ter ajudado a moldá-lo em uma réplica do rei ao qual
atravessei uma espada.
— Eu… — Kai começa, abaixando a cabeça — Não tenho certeza.
— Como ele é? — Eu digo suavemente. — Meu rei?
— Ele é como se você o tivesse deixado… — Sua voz é monótona. — a casca de
homem na pele de um rei.
Eu suspiro, olhando para as estrelas acima.
— Então estou praticamente morta.
CAPÍTULO 20

KAI

Sua respiração é melódica.


Hipnotizante de um jeito que odeio admitir.
Ela está tão pressionada, tão caída contra meu peito, que posso sentir sua
caixa torácica se expandindo a cada respiração.
Duvido que ela tenha dormido tão profundamente nos últimos dias.
Outra respiração profunda. Outra estocada de suas costelas em meu
estômago.
… ou comido muito, nesse caso.
Pela aparência e comportamento dela, é provável que ela tenha sobrevivido
com pão velho durante toda a sua estadia em Dor, enquanto lutava diariamente
no ringue.
Eu realmente deveria fazê-la comer mais.
Eu balanço a cabeça com o pensamento, com o reflexo que é se importar
com ela. Porque ela não é minha responsabilidade. Ela é minha prisioneira.
Minha missão. A assassina do meu pai.
Um ruído suave e sonolento escapa de seus lábios, e eu fico parado com o
som. Ela está segura entre minhas mãos, firme contra meu peito, a cabeça no
coração palpitante de seu captor. Nunca vi tanta paz mantida tão gentilmente
nos braços da Morte.
Olho para o céu, um cobertor de escuridão coberto de constelações. Os
homens cavalgando ao meu lado não são nada mais do que sombras mutáveis,
pisando silenciosamente na areia. Cabeças balançam ao meu redor, lutando
contra o sono que pesa em suas pálpebras.
— Parem. — eu digo com a voz rouca. — Vamos acampar aqui pelo resto da
noite.
Sou recebido com grunhidos de gratidão, seguidos por tateios frenéticos e
desmontagens desajeitadas. Paro meu cavalo, hesitando antes de descansar as
mãos pesadas sobre suas coxas. Permito-me um momento. Um momento
egoísta da minha existência miserável comprometida com ela. Como uma garota
nos braços de um garoto. Como uma fachada.
E então o momento acaba, quebrando-se enquanto eu a sacudo para
acordá-la.
Bem, tentando.
Ela rosna, sem graça com minha tentativa de acordá-la. Tento de novo,
agarrando sua cintura dessa vez para sacudi-la completamente. Ela protesta,
como de costume, dando uma cotovelada em meu estômago com uma força
surpreendente para alguém ainda meio adormecido. Sibilo entre os dentes antes
de prender seus braços ao lado do corpo.
— Calma. — exalo — Você prefere que eu passe o resto da noite neste
cavalo?
Ela suspira, sua voz suavizada pelo sono.
— Se isso significa que eu posso andar para longe de você, então sim, eu
adoraria.
— Você me feriu — eu digo secamente, desmontando facilmente do cavalo.
Ela está me olhando com expectativa, olhando para baixo, para onde estou. Eu
sorrio agradavelmente em troca. — Precisa de alguma coisa?
Seu nariz franze, a representação visível da frustração no seu rosto.
— Não. Estou perfeitamente bem.
E com isso, ela está segurando o pito da sela e tentando passar uma perna por
cima.
— É mesmo? — Estou sorrindo agora. — Nada que você queira me perguntar?
— Não estou pedindo sua ajuda — ela bufa, cambaleando na sela. — Melhor
ainda, o que está me impedindo de dar meia volta com esse cavalo e disparar?
— Habilidade. Conhecimento. Medo — eu afirmo categoricamente. — Você
gostaria que eu continuasse?
— Eu gostaria de quebrar seus dentes.
— Ah, mas então eu não seria capaz de sorrir daquele jeito que eu sei que
você gosta.
Franzindo o cenho, ela afirma:
— Sorria o quanto quiser. Não gosto de nada em você.
— Eu me lembro de você gostar daquele que era destinado somente a você. —
Minha refutação é silenciosa, irregular, como se tivesse sido arrancada das
profundezas da minha mente.
Ela enrijece com minhas palavras, mas não as considera dignas de uma
resposta. Ignorando-me, ela volta sua atenção para a tarefa em questão. Para
alguém tão tipicamente coordenado, vê-la tentar desmontar de um cavalo é
cômico. Ela quase se joga do animal, ansiosa para finalmente pisar em solo firme.
— Onde vou dormir? — ela pergunta, olhando para os muitos sacos de dormir
espalhados na areia.
— Ao meu lado.
Os olhos dela voam para os meus.
— Absolutamente não.
— Por quê? — pergunto inocentemente. — Não é nada que não tenhamos
feito antes.
— E não é algo que pretendo fazer novamente — ela desafia.
— E por que isso, Gray? — Eu suspiro. — Preocupada que você goste muito?
O som que ela faz é um cruzamento entre escárnio e desgosto.
— Você é quem deveria estar preocupado. Eu posso te estrangular enquanto
você dorme. — Com isso, ela se joga no saco de dormir mais próximo,
observando um Imperial usar sua habilidade Blazer para acender uma fogueira.
Deixei meus olhos vagarem sobre ela, vagarem sobre a pele bronzeada, os
dedos mexendo no anel em seu polegar, o cabelo prateado refletindo a lua
acima. Tudo sobre ela é tão familiar, tão enganoso. Nenhum poder corre pelas
veias sob aquela pele bronzeada. Nenhuma habilidade guiada por aqueles dedos
inquietos. Nenhuma semelhança com a Elite nos fios prateados de seu cabelo.
E ainda assim, ela parece tudo menos comum. Fui ensinado a vida toda que
gente como ela seria a ruína dos Elites, mas nunca senti nada mais forte.
Eu me movo para sentar ao lado dela, penteando uma mão pelo meu cabelo
cor de areia.
— Cuidado — ela zomba — chegue mais perto e eu vou começar a enfraquecer
seus poderes.
Eu lanço um olhar para ela.
— Não é assim que funciona, e você sabe disso.
Ela ri, áspera e odiosa.
— Por favor, me esclareça, então. Eu adoraria ouvir como você acha que os
Comuns serão a ruína de todos os Elites.
— Se você tivesse continuado a viver em Ilya — suspiro — você seria. Por mais
de um motivo. — Viro-me para olhá-la, olhos passando rapidamente pela
descrença óbvia no vinco entre suas sobrancelhas. — Você não conhece nossa
história? De onde viemos e por que é tão importante que continuemos Elite?
Eu vejo o rápido rolar de seus olhos na luz bruxuleante do fogo.
— Claro que eu conheço a história de Ilya. Posso não ter ido à escola, mas
meu pai garantiu que eu não fosse completamente incompetente."
— Tudo bem, então — eu digo casualmente. — Me diga.
Ela me dá um sorriso debochado.
— O quê, você quer que eu te ensine a história de Ilya?
— Quero ter certeza de que você sabe do que está falando. Então — faço um
gesto para que ela prossiga — continue.
— Isso é ridículo — ela bufa, mexendo no saco de dormir debaixo dela.
— Está começando a soar como se você não soubesse-
— Ilya era um reino fraco — ela interrompe, irritada por estar me entretendo.
— Nós sempre fomos, mesmo antes da Peste passar. Ser conquistado era um
medo constante para os reis do passado, e quando a Peste matou quase metade
dos população, o reino estava em quarentena, isolado e mais vulnerável do que
nunca. — Ela recita a informação com os olhos fixos no céu acima. — Então,
quando os Elites nasceram da Peste, o reino se alegrou com o poder que eles de
repente tinham sobre todos os outros. — Ela olha de volta para mim. —
Satisfeito?
— Dificilmente. — Eu sorrio. — Continue.
Um bufo. Então um suspiro pesado.
— Ilya permaneceu isolado desde então, para garantir que sejamos o único
reino com Elites. E então, depois de setenta anos, seu pai decidiu banir todos os
Comuns para que ele pudesse ter sua sociedade Elite.
— Você está ignorando alguns pontos muito importantes, Gray — eu
interrompo.
— Certo — ela suspira. — A doença que os Curadores descobriram que nós,
Comunss, possuímos. A que eventualmente vai enfraquecer os poderes dos
Elites.
— E? — eu insisto.
— E o fato de que Comuns e Elites procriando eventualmente farão com que a
raça Elite seja extinta. Isso — ela acrescenta com um olhar penetrante, — eu
acredito. — Com um suspiro, ela continua melancolicamente. — Só Elites podem
fazer Elites. Embora, as habilidades de alguns não sejam herdadas de seus pais.
Alguns acreditam que o nível de poder pertence à própria força da pessoa.
— Então você entende por que Ilya deve permanecer do jeito que está.
— Sim — Ela diz suavemente. — Ganância.
Eu a estudo por um longo momento, deixando suas palavras serem
absorvidas. Ouvir sua perspectiva de Ilya é chocante e intrigante. Tendo crescido
como uma Comum nas favelas, ela vê o reino muito diferente de qualquer Elite
de classe alta. E, infelizmente, estou intrigado.
— Você já terminou de me interrogar ou posso dormir agora? — ela pergunta,
apoiando-se nos cotovelos.
Ignoro a pergunta dela para arriscar fazer uma minha própria.
— Então, o que você sugere?
— Sugerir o quê?
— Ilya — eu digo simplesmente. — Que outra opção existe senão continuar
como temos feito nos últimos trinta anos.
Ela se senta um pouco, aparentemente surpresa com minha pergunta.
— Sugiro que continuemos com o que estávamos fazendo por setenta anos
antes da Purgação. Na época em que Ordinários e Elites viviam lado a lado-
— E o enfraquecimento dos nossos poderes? A doença?
Ela suspira.
— Já lhe ocorreu que talvez os Elites não fossem feitos para existir? Que as
habilidades a Peste deu a Ilya não é natural? — Eu enrijeço com suas palavras,
mas ela continua. — Humanos não foram feitos para brincar de Deus. E os Elites
já fizeram esse papel por tempo suficiente. Se seus poderes enfraquecidos
significam que não há mais isolamento e matança de Comuns, então que assim
seja.
Desvio o olhar, balançando a cabeça para as estrelas.
— Ilya será fraca sem os Elites. Poderíamos ser facilmente conquistados e-
Sua risada me interrompe.
— Você acha que não somos fracos agora? Estamos tão isolados que não há
comida suficiente para alimentar aqueles de nós nas favelas, muito menos para
sustentar a todos, quando não há mais terra para expandir. — Sua voz é severa,
mas seus olhos são suplicantes. — Sem um único aliado ou reino que não nos
odeie, não estamos mais fracos do que nunca? E continuaremos a desmoronar a
menos que algo, ou alguém, mude.
Alguém.
Ela está pensando em Kitt. Ela provavelmente sempre pensou em Kitt como
alguém que poderia mudar Ilya para ela. Alguém com potencial para ser
persuadido a ver as coisas de forma diferente.
Quase rio só de pensar nisso.
O Kitt que deixei é desprovido de qualquer potencial que não fosse parte do
plano do Pai. Ele não fará nada além do que o rei queria e desejava. Mesmo
morto, ele está controlando Kitt, governando Ilya do túmulo.
— É bom finalmente ouvir o que você realmente sente — digo com desdém.
— Bem, não há sentido em esconder isso agora. Traição é a menor das minhas
preocupações no momento. — Se espreguiçando, ela examina as estrelas antes
de se enrolar de lado. — Você acredita que eu estou doente?
Estou surpreso com a seriedade com que ela faz a pergunta.
— Eu acredito nos Curadores. E trinta anos atrás, eles encontraram algo
indetectável. Algo que deteriorará os poderes dos Elites ao longo do tempo. —
Ela está quieta, então eu aproveito. — Você acredita que está doente?
— Sou tendenciosa, mas não, não acho. Meu pai era um Curador, e ele.
também não achava. Talvez não haja como saber com certeza — ela diz
suavemente. — Mas eu sei que mereço viver de qualquer maneira.
Ela se acalma, preferindo dormir a terminar essa conversa. Depois de um
longo momento, sinto-a tremer antes de ouvir a reclamação escapar de seus
lábios. "Por favor, me diga que não fui sequestrada apenas para congelar no
deserto?"
— Você é um pé no saco. — Aceno para uma Imperial enquanto me deito ao
lado dela. — Traga um cobertor extra.
Ela não se incomoda em rolar para zombar de mim na minha cara.
— E eu que pensei que o cavalheirismo estava morto.
Quando a Imperial me joga um cobertor, não hesito antes de jogá-lo sobre
sua cabeça.
— Ah, é sim, querida.
Com um bufo, sua cabeça espia por cima das dobras do tecido, fazendo
cabelos prateados deslizarem por seu rosto. O olhar que ela me dá promete uma
morte que eu sei que ela pode entregar. Então ela está virando as costas para
mim mais uma vez, contente em ignorar minha existência até que o sono a
reivindique.
Não, ela provavelmente está tramando algo. Suspeito que raramente não
esteja. Ela é uma prisioneira difícil, precisando ser vigiada mesmo quando não há
para onde ir.
Porque se alguém pode encontrar uma maneira de-
— Merda, Gray! — Eu pulo para longe dela, xingando. — O que diabos há de
errado com você?
— O que tem de errado comigo? — Estou exasperado. — Seus pés estão
congelando.
Ela olha por cima do ombro, claramente falhando em esconder seu sorriso.
— Bem, eu não consigo dormir com sapatos. Nunca consegui.
— Parece que você também não consegue dormir de meias — eu digo entre
dentes.
Ela dá de ombros.
— É uma maldição, realmente.
— Bom, mantenha a maldição do seu lado.
O rosto dela cai.
— Mas você está quente. — Antes que eu possa responder, ela está assentindo
do outro lado do fogo. — Eu e meus pés frios sempre poderíamos dormir ali.
Sozinhos.
— Nem pensar que vou deixar você dormir sozinha — murmuro.
E então eu balanço a cabeça, envolvo um braço em volta das pernas dela e as
puxo contra mim.
Ela olha para mim, chocada. E então ela sorri, brilhante e grande como o céu
noturno acima de nós.
Temo que ela possa rivalizar com as estrelas.

Uma flecha afunda na areia ao lado da minha cabeça.


Ouço o som do pouso antes mesmo de abrir os olhos.
Eu rolo, mantendo-me baixo no chão enquanto examino a escuridão em
busca da fonte desta emboscada. Flechas estão bombardeando nosso
acampamento, enterrando-se na carne dos meus homens grogues. Seus gritos
enchem meus ouvidos enquanto sinto seus poderes tremeluzirem sob minha
pele.
Piscando para afastar o sono e a escuridão bloqueando minha visão, mal
consigo distinguir as figuras que se aproximam de nós na areia. Viro de lado,
preparando-me para ficar de pé e usar um dos poucos poderes que me restam
para-
Algo frio e afiado encontra a pele do meu pescoço.
O sentimento é muito familiar.
E a voz dela também.
— Mais um movimento e não hesitarei novamente.
CAPÍTULO 21

PAEDYN

A lâmina brilha ao luar, escondendo a linha pálida de sangue que está desenhada
abaixo dela.
— Eu nem quero saber como você conseguiu isso — Kai respira, o músculo
em sua mandíbula estalando de frustração. Eu mantenho a faca firme contra seu
pescoço enquanto ouço o último dos Imperiais cair na areia com um baque
abafado.
— Estamos sendo emboscados, Gray. O que você pensa que está fazendo? —
ele murmura, os olhos procurando meu rosto enquanto examino a areia e as
figuras se aproximando.
Olho para ele de onde estou casualmente sentada.
— Acho que estou sendo resgatada.
Confusão enruga seu rosto enquanto um sorriso se espalha no meu.
— Como...?
Ele faz uma pausa, descrença pintando suas feições.
— Como você conseguiu-
— Iai, princesa!
Meu coração salta ao som da voz dele. Nunca fiquei tão feliz em ouvir esse
apelido ridículo.
Seu cabelo se mistura com o anel de luz do fogo em que ele acabou de pisar. É
uma bagunça encaracolada caindo sobre sua testa, enquanto o rosto abaixo está
igualmente salpicado de sujeira e sardas. O sorriso que ele me dá faz lágrimas
brotarem em meus olhos. Nunca pensei que veria outro amigo, vivo e bem.
— O quê, você vai ficar sentada aí o dia todo ou vem aqui e me dá um abraço?
— Lenny pergunta, levantando um par de sobrancelhas céticas.
Olho para o Executor me encarando quando uma voz afiada responde à
pergunta que eu não tinha feito.
— Eu o peguei, Paedyn, não se preocupe.
Sorrindo, olho para cima e encontro Leena fazendo o mesmo. Ela tem uma
besta apontada para o príncipe enquanto um sorriso malicioso brinca em seus
lábios. Seu longo cabelo preto está preso na nuca e jogado sobre um ombro. Ela
é pequena e assustadora e estou chorando só de olhar para ela.
Não hesito antes de me levantar. Com os olhos fixos em Lenny, estou
cambaleando em sua direção, os pés descalços se movendo na areia. Então,
estou cambaleando até parar, encarando o rosto que pensei que nunca mais
veria.
— Tudo bem. — Ele abre os braços com um leve encolher de ombros. — Vem
aqui.
Concordo com a cabeça, deixando a faca escorregar da minha mão antes de
me entregar aos seus braços.
Minha testa encontra seu peito com um baque cômico. Sinto sua risada vibrar
através de mim enquanto ele envolve seus braços em volta das minhas costas
para me dar um tapinha desajeitado.
— Eu também senti sua falta, Princesa — ele diz no meu cabelo antes de se
afastar para olhar para mim. — Eu não sabia se eu te veria novamente. Pelo
menos — ele desvia o olhar, repentinamente sério — pelo menos não antes que o
resto de Ilya te visse.
— É, eu também — eu sussurro, piscando para conter as lágrimas teimosas.
Então estou abraçando Leena enquanto ela segura uma besta carregada na mão,
o que de alguma forma parece apropriado.
— É bom ver você — ela suspira. Eu aceno, sorrindo enquanto outra figura sai
das sombras.
— Nenhuma saudação sincera para mim? Vou tentar meu melhor para não me
ofender.
— Olá, Finn. — Eu rio, envolvendo meus braços em volta dele e o arco agora
descansando em suas costas. — Eu sabia que você estava aqui antes mesmo de te
ver. — Eu me viro para olhar para todos eles. — Eu sabia que estava segura.
— Sério? — Finn levanta uma sobrancelha para mim, seu cabelo castanho
brilhando ruivo na luz do fogo moribundo.
— As flechas. — Eu gesticulo para a dúzia espalhada pelo acampamento e seus
antigos ocupantes. — Essas são as flechas da Resistência. As que você faz com as
pontas de flecha vermelhas. — Finn sorri com meu conhecimento de seu
trabalho. — E eu sabia que você era quem as disparava, porque você sempre
esculpe um “F” na parte inferios do eixo.
Ele dá de ombros.
— Talvez eu faça as melhores flechas para mim. E talvez eu queira ter certeza
de que ninguém mais as pegue.
— Típico — Leena bufa de onde ainda mira no Executor.
— O que vocês estão fazendo aqui? — pergunto, virando para Lenny.
Ele passa a mão na nuca.
— Por que não conversamos sobre isso no caminho? Já passamos tempo
suficiente neste deserto. — Ele olha para o príncipe que não parece nada
satisfeito. — Finn, você tem a corda na sua mochila?
Depois de pegar a corda livre, Finn lança um sorriso presunçoso por cima do
ombro para uma Leena já irritada.
— Viu, eu disse que precisaríamos amarrar alguém nessa viagem.
— Sim, eu só esperava que fosse você — ela murmura.
Apesar de Kai não fazer nenhum movimento para lutar contra ele, Lenny
hesita antes de amarrar as mãos de Kai atrás das costas. É óbvio que ele nunca
sonhou que levaria seu príncipe como um prisioneiro, visto que ele jurou
protegê-lo.
— Eu não posso acreditar que estou realmente dizendo isso a você — Lenny
suspira — mas se você correr, nós atiramos.
Kai fica em silêncio enquanto se levanta e examina os corpos espalhados. Sua
expressão fica subitamente vazia, aparentemente sem emoção, enquanto ele
olha para os homens. Eu o vi colocar dezenas de suas máscaras, então reconheço
o momento em que ele fixa outra no lugar.
Eu coloco meus sapatos de volta antes de ajudar a enfiar alguns sacos de
dormir em suas mochilas enquanto os três fazem um trabalho rápido de
desamarrar os cavalos para si mesmos.
— Qual é o problema, Princesa? — Lenny pergunta depois de me notar
mudando de posição. — Esses cavalos não atendem aos seus padrões?
— Nenhum cavalo está à altura dos meus padrões — murmuro antes de
acrescentar bem mais alto: — Posso simplesmente cavalgar com você?
Eu posso ver o momento exato em que ele percebe que a Paladina Prateada
tem medo de cavalos, e eu não vou deixá-lo dizer nada sobre isso.
— Eu vou te bater, Lenny. Você sabe que eu vou.
Ele levanta as mãos em sinal de rendição, dá de ombros e diz:
— Eu não ia dizer nada
— Como se não fosse — murmuro, observando enquanto ele liberta o resto
dos cavalos que não podemos levar conosco. Depois que encontro minha faca na
areia e a devolvo à minha bota, Lenny luta para abafar sua risada enquanto faz
pouco para me ajudar a montar na fera.
O príncipe caminha na nossa frente enquanto deixamos a carnificina para
trás para começar a voltar para Dor.
— O que está acontecendo em Ilya? — pergunto nas costas de Lenny enquanto
envolvo meus braços firmemente em volta dele. — E o que aconteceu na Bowl
depois do Julgamento final? Ah, e o resto da Resistência-
— Calma, Princesa — Lenny interrompe. —Temos bastante deserto antes de
Dor para responder a todas as suas perguntas. — Seus olhos alternam entre
Leena e Finn cavalgando para o direito de nós. — Uh, algum de vocês quer contar
a ela?
— Particularmente, não. — Finn diz calmamente.
Lenny se aproxima e dá um tapinha em suas costas, sorrindo docemente.
— Todos nós sabemos que você é o melhor em contar histórias. Vá em frente,
cara.
— Eu sou, não sou? — Finn sorri antes de balançar a cabeça. — É por isso que
você precisa praticar...
— Alguém pode, por favor, me dizer o que diabos preciso que me digam? —
pergunto abruptamente, piscando para os dois.
— Mova-se. — Leena ordena antes de empurrar seu cavalo em volta do Finn
para cavalgar ao meu lado. — Ugh, você não tem ideia do que eu tive que lidar. —
Ela penteia os dedos pequenos pelo comprimento do cabelo, se recompondo. —
Paedyn, a Resistência... a Resistência está feita. Acabou.
Eu corro meus dedos sobre o anel no meu polegar, balançando minha cabeça
para ela.
— O que... do que você está falando? O que você quer dizer com está feita?
Leena olha para os garotos antes de continuar com um suspiro.
— A luta no Bowl foi brutal. Não estávamos preparados para o número de
Imperiais que correram para dentro. Cada número que havíamos calculado, cada
detalhe que tínhamos aprendido com nossos espiões lá dentro, estava errado.
Nada deu certo naquele dia.
— Sim, Calum foi cortado antes mesmo que pudesse negar que nós, os
Comuns, estamos doentes e enfraquecendo o reino — acrescenta Finn.
Concordo, lembrando-me de quão indignada a multidão ficou ao saber
quantos Comuns estavam vivendo entre eles.
— Ele está vivo? Calum? E Mira?
— Ouvimos dizer que o rei está com eles. — Lenny balança a cabeça,
esfregando uma mão atrás do pescoço. — Eles provavelmente estão sendo
interrogados enquanto conversamos..
Estremeço ao pensar no que Kitt está fazendo com eles, com o líder da
Resistência e sua filha.
— E todos os outros no Bowl? — pergunto suavemente, temendo a resposta. —
Eles estavam todos...?
Leena balança a cabeça para a areia.
— Todos os membros da Resistência que não foram perdidos na batalha no
Bowl estão em fuga. Assim como nós.
Um silêncio pesado se instala sobre nós ao pensar em tanta morte. Tantas
pessoas que eu levei para a arena. Tantas vidas inocentes perdidas lutando pelo
que acreditavam ser certo. No que é certo.
— Então, foi assim que viemos parar aqui — Finn diz finalmente. — E como
encontramos você.
Eu sorrio, balançando a cabeça para os três.
— Como você sabia que era eu?
— Bem — Lenny entra na conversa — ajudou que o grupo de vocês estivesse
deitado ao redor de uma fogueira. Nos ajudou a ver vocês enquanto vocês não
podiam nos ver, mesmo se estivessem acordados. Quanto a saber que era você…
— Ele ri, virando-se para puxar minha trança desfeita. — A maior parte disso
estava cobrindo seu rosto e refletindo a luz.
— Você era como um pequeno farol na noite — diz Finn alegremente.
Eu rio levemente, observando Leena revirar os olhos antes de acrescentar:
— Os Imperiais não foram difíceis de cuidar, considerando que eles estavam
dormindo. Sem mencionar que você cuidou do Executor para nós.
— Sim, bem, nenhum deles teria acordado se Leena — Finn lança um olhar em
sua direção — não tivesse batido em um cara no braço e o feito gritar.
Mesmo sob o luar pálido, posso ver facilmente o fogo queimando nos olhos
castanhos de Leena.
— Isso — ela diz entre dentes — foi porque você esbarrou em mim.
— Como você disse, Leeny — Finn canta, o que lhe rende um golpe nas
costelas.
Eu ouço os dois discutindo até que Lenny se inclina para mim.
— Como você está, Pae? Quero dizer, depois de tudo? — Ele olha para trás,
parecendo absorver tudo de mim com um único olhar. — Eu não tinha certeza se
você estava viva. Nós eventualmente voltamos para a casa da Resistência — sua
casa — e ela estava-
— Queimada até o chão? —, termino por ele. — É, eu estava lá dentro quando
isso aconteceu. — Olho feio para o Executor andando vários metros à nossa
frente, esperando que ele sinta meu olhar queimando em suas costas.
Lenny balança a cabeça.
— Você é uma pequena barata, sabia?
— Praga. — eu bufo. — Você realmente sabe o que uma garota quer ouvir, não
é?
— Não, quero dizer, estou convencido de que você pode sobreviver a qualquer
coisa.
— Sim, bem, estou convencida de que isso está se tornando uma maldição. —
digo calmamente.
— Vamos lá, não diga isso — Lenny diz suavemente. — Não viva para morrer.
Morra porque você viveu. — Uma pausa. — Ou algo assim. Escute, você mereceu
cada respiração. Então aproveite.
Eu suspiro.
— Bem, não há muito o que aproveitar no deserto.
— Minha companhia.
— Como eu disse — eu digo com um sorriso. — Não há muito o que aproveitar.
— Cuidado, Princesa — Lenny avisa. — Sou eu quem está controlando a fera da
qual você tem tanto medo.
Reviro os olhos para suas costas, mesmo enquanto o aperto com mais força.
Ficamos em silêncio por um trecho de areia antes de Lenny dizer:
— Pelo menos eu pude ver seu rosto todos os dias. Você está colada em Ilya.
— Em Dor também — acrescento. — Tando. Provavelmente Izram.
— O preço pela sua cabeça é… — Ele solta um assobio baixo.
— É — suspiro. — É o que acontece quando você mata um rei, eu acho.
Posso senti-lo se preparando para perguntar antes de finalmente abrir a boca.
— Paedyn, como isso foi-
— Eu estava correndo de volta do castelo — eu digo baixinho. — Eu fiz uma
promessa e não podia sair sem algo. — Eu mexo na bainha desfiada do meu
colete, sentindo o fantasma dos dedos habilidosos de Adena. — E ele estava
parado do lado de fora do Bowl, ensanguentado e segurando uma espada.
Então... então ele simplesmente me atacou, como se estivesse esperando o
momento. — Eu balanço minha cabeça. — Ele disse coisas sobre meu pai e a
Resistência, mas agora é simplesmente um borrão.
Mentiras.
Revivo o momento toda vez que fecho os olhos.
Lenny se vira, traçando a cicatriz irregular no meu pescoço com olhos
preocupados.
— Ele fez isso com você?
Eu engulo em seco.
— Você não viu o que eu fiz com ele.
A escultura abaixo da minha clavícula arde com o lembrete, mas eu puxo meu
colete mais apertado em volta de mim. Ninguém verá como ele me arruinou.
— Sinto muito que você estivesse sozinha — diz Lenny gentilmente.
— Barata, lembra? Eu sempre encontro um jeito de sair viva.
Ele ri baixinho enquanto eu estudo o céu, avistando as primeiras nuvens rosas
aglomerando-se no horizonte. Respirando fundo, pergunto:
— Como está nosso novo rei?
Lenny balança a cabeça antes de passar a mão no rosto.
— Há... há rumores.
— Rumores? — repito.
— O reino inteiro está falando sobre isso — Finn entra na conversa, cavalgando
ao nosso lado. Ele enlouqueceu. Simples assim.
— Isso — Lenny lança um olhar para ele — é o boato. Tudo o que sabemos é
que ele não sai do escritório desde a morte do rei, e os servos falam. Eles dizem
que podem ouvi-lo resmungando através das paredes e sempre encontram sua
comida jogada pela janela. — Ele dá de ombros. — Talvez ele esteja apenas de
luto, e tudo acabará em breve. Ou talvez...
— Talvez este seja o futuro de Ilya —diz Leena suavemente.
De repente, é difícil engolir. Sei em primeira mão o quanto Kitt era afetado
por seu pai quando ele estava vivo. E agora que eu o matei...
— Como está Ilya? As pessoas? — consigo perguntar depois de limpar a
garganta.
Lenny dá de ombros.
— Bem, a situação não é boa. Os Elites também estão de luto pelo governante
que sozinho fez de Ilya o reino mais forte ao banir os Comuns.
— Tem muita gente que odeia você, vamos dizer assim. — O tom de Finn é de
brincadeira, embora o assunto não seja nada disso.
Desvio o olhar, balançando a cabeça.
— Não estou surpresa. Eles não só odeiam o que eu fiz, mas também odeiam o
que eu sou.
— O povo está inquieto — Leena diz suavemente. — Nosso novo rei ainda não
mostrou seu rosto ao reino, e isso fez muitos se sentirem negligenciados de
certa forma.
— A rainha também não está bem — acrescenta Finn. — Eles acham que é só
uma questão de tempo agora.
Meus olhos seguem para o príncipe à nossa frente. Seus olhos estão no céu,
observando a escuridão sugerir a promessa de céus cor-de-rosa. Soltei um
suspiro trêmulo. Sua mãe está morrendo, e ele foi enviado em uma missão para
me resgatar. Uma missão que agora está demorando muito mais do que qualquer
um esperava.
Ele disse adeus a ela antes de partir? Ele fez uma promessa que agora não
pode cumprir? Ele-
Afasto esses pensamentos da minha cabeça, enterro a preocupação sob
minhas camadas de ódio por ele.
O bem-estar do príncipe não é problema meu.
E com isso, volto minha atenção para o garoto diante de mim e a fera abaixo
de nós.
— Lenny, você precisa me ensinar a andar em uma dessas coisas.
CAPÍTULO 22

PAEDYN

— Para onde você está nos levando?


Eu me abaixo antes que uma viga caída possa atingir meu crânio. Tateando
na escuridão, tento o meu melhor para acompanhar as pernas esguias de Lenny
ainda vários passos à minha frente. Meu corpo dói depois de um dia inteiro
cavalgando, e navegar às cegas pelas vielas de Dor não está exatamente
ajudando.
— Vocês verão. Só mais um pouquinho — Lenny grita por cima do ombro para
o grupo resmungando atrás dele.
Leena me lança um olhar cético enquanto Finn segue atrás de Kai com uma
besta na mão. Estamos caminhando pelos arredores da cidade há quase uma
hora, embora ainda não tenhamos sido informados exatamente por quê.
— Cuidado com a cabeça aqui — Lenny avisa antes de se abaixar para passar
por uma porta parcialmente fechada. Eu giro, observando o prédio abandonado
em que acabamos de entrar. O que sobrou das paredes está coberto de sombras,
salpicado pelo luar que passa por um telhado de ripas.
Lenny não se incomoda em diminuir os passos longos que o levam em direção
ao canto escuro. Eu olho de soslaio atrás dele, respirando fundo. Piscando, mal
consigo distinguir as figuras se fundindo das sombras que Lenny se aproxima.
Abro a boca para gritar um aviso, chamo seu nome-
— Lenny!
Mas é o grito de outra mulher que ouço, apesar de estar na ponta da minha
língua. Um lampejo de chama pinta a parede, lançando luz sobre a cena. Dezenas
de sacos de dormir espalhados pelas tábuas irregulares do assoalho, a maioria
dos quais está ocupada por homens, mulheres e crianças grogues. Uma mulher
alta está entre eles, seu cabelo ruivo curto brilhando como uma brasa na luz
bruxuleante. Lenny sorri, puxando-a para um abraço esmagador.
— O que diabos está acontecendo aqui? — Finn murmura ao meu lado. Eu
balanço a cabeça, incapaz de fazer qualquer coisa além de encarar.
— Pessoal — diz Lenny depois de finalmente ser liberado — conheçam minha
mãe.
Piscamos para ele e os estranhos começam a se mexer e acordar. Leena é a
primeira a se mover, estendendo a mão para a mulher.
— Oi. Eu sou Leena.
— Meredith — ela diz calorosamente, apertando sua mão.
— Mãe — diz Lenny — esses são Paedyn e Finn e-
— E o Executor — ela termina, com os lábios finos.
— Sim, o Executor. — Lenny esfrega a nuca. — Ainda não temos certeza do que
fazer com ele.
— Bem — ela pisca seus olhos castanhos para mim — você é a Paladina
Prateada, certo?
— Infelizmente. — Eu sorrio levemente
Ela não parece estar com medo de mim ou do que eu fiz. Em vez disso, ela
retribui meu sorriso.
— Então você o usa para ganhar sua liberdade. O rei precisa de seu braço
direito mais do que de uma garota em fuga.
Lenny concorda lentamente.
— Isso pode funcionar. Precisamos descobrir o plano exato, mas-
— Desculpe interromper — Finn se intromete — mas onde estamos? E quem
são essas pessoas?
Há dezenas deles agora se mexendo sonolentamente em suas camas ou se
levantando para se juntar às saudações.
— Isto — Meredith diz com um sorriso — é uma espécie de refúgio.
— Len Len!
Um borrão estridente avança em direção a Lenny antes que ele o pegue nos
braços.
A garotinha ri incontrolavelmente enquanto ele a gira, beijando-a na
bochecha.
— Aí está você, pequeno dragão!
— Sentiu minha falta? — ela grita.
— Depende de quanto você sentiu minha falta — Lenny sorri, apertando o
nariz dela.
Ela sorri, olhos brilhantes.
— Mais do que um pouco.
— Bom, — diz Lenny — Senti sua falta mais do que um pouco também.
Eu a observo dando tapinhas em seu cabelo antes de perguntar hesitante:
— Essa é sua irmã?
Lenny dá de ombros.
— De certa forma. Ma a encontrou nas ruas de Ilya e sabia que ela não poderia
ficar lá, então ela a trouxe para morar aqui. Nós nos apegamos mais do que um
pouco um ao outro.
— E onde aqui fica, exatamente? — pergunta Leena, olhando para o prédio em
ruínas.
Meredith sorri.
— É um lugar para… — Seus olhos pousam no príncipe amarrado que está
estudando a garotinha atentamente. — Bem, ele certamente descobriu.
Kai dá um passo em direção à garota antes de Finn cutucá-lo com a ponta de
sua besta.
— Calma, Príncipe.
O Execitor o ignora para examinar os estranhos que nos cercam.
— Eles são... parciais. Porcentagens. — Ele balança a cabeça, lutando para
entender o que está sentindo.
Meredith assente, sorrindo levemente.
— Isso mesmo. Eles são o resultado de Elites e Comuns. Alguns têm mais
poder do que outros, mas todos eles estão aqui porque não pertencem a nenhum
outro lugar. — Ela fala incisivamente para Kai, estudando-o enquanto ele absorve
cada palavra. — Eles não podem arriscar viver nas favelas de Ilya porque seus
poderes são muito fracos para serem considerados Elite, mas eles não podem
viver livremente nas cidades vizinhas porque as pessoas detestam o poder que
não podem controlar. — Ela se afasta, permitindo-nos uma visão completa das
muitas figuras que agora nos encaram. — Então, eles dormem aqui e se misturam
da melhor maneira que podem.
— Mostre o que você pode fazer, pequeno dragão — Lenny sussurra no ouvido
da garota.
Ela sorri, mostrando as palmas das mãos e balançando os dedos — os mesmos
dedos que de repente brilham com chamas. Ela sorri para Lenny, que acena
encorajadoramente.
— Vá em frente. Mostre a eles por que você é meu pequeno dragão, Luna.
Ela assente, seu cabelo escuro riscado pela luz do fogo. Então ela levanta seus
dedos cintilantes em direção à boca, respirando fundo antes de assoprar para as
chamas. Elas ondulam de seus dedos, estendendo-se para dentro da sala como
se ela estivesse cuspindo fogo.
— Luna vem de uma longa linhagem de Mixes, por falta de um termo melhor,
e é por isso que seus dedos são o único lugar onde sua habilidade Blazer se
manifesta — Meredith diz suavemente. — Eu a encontrei nas favelas, não mais
velha do que uma criança. Eu soube imediatamente que ela não possuía o poder
total de um Blazer, considerando que crianças Elite mal conseguem conter suas
habilidades por vários anos. Ela deveria estar coberta de chamas.
Ela sorri tristemente para a garota risonha nos braços de Lenny.
— Eu sabia que não demoraria muito para que ficasse claro para todos que ela
não era totalmente Elite. E Ilya não tem utilidade para aqueles enfraquecidos por
Ordinários. — Seus olhos saltam sobre o Execitorr. — Então eu a escondi por um
tempo. A maioria dos Mixes ainda é forte o suficiente para se misturar com
Elites, mas Luna está longe de ser a primeira Mix em sua linhagem.
Eventualmente — ela acena com a mão para o grupo atrás dela — Eu encontrei
mais por toda a Alameda e os acolhi. Isto é, até que eu não consegui segurar mais
e eventualmente fiz a jornada para Dor, onde é mais seguro para eles. Aqui, eles
são recebidos com ódio se forem descobertos. Lá — seu olhar afiado encontra o
príncipe — eles são recebidos com a morte.
— Não há muitos sobrando em Ilya — Lenny acrescenta. — A maioria deles
fugiu para Dor ou Tando há uma geração e vive entre todos os outros. Mas se eu
encontrasse algum nas favelas quando eu estava lá, eu os enviaria para Ma.
Um homem pigarreia e dá um passo à frente, vindo do fundo do grupo.
— Lenny me encontrou alguns anos atrás. — Suas mãos estão em concha,
segurando a pequena chama que estava iluminando o quarto escuro. — Eu
também sou um Blazer parcial. Tenho que juntar minhas mãos assim, só para
fazer uma chama.
Uma mulher limpa a garganta, entrando na luz fraca.
— Eu sou um Véu parcial. Então… — Seus braços de repente tremulam,
desaparecendo diante de nossos olhos. — O resto de mim permanece visível.
Vários outros caminham para frente, compartilhando como chegaram aqui e o
pouco que podem fazer. Leena quase chora enquanto agradece profusamente a
Meredith por tudo o que ela fez, abraçando-a e a qualquer outra pessoa que
permita.
Mas é o Executor que prende minha atenção. Ele os estuda como um
quebra-cabeça, decifrando a porcentagem de poder que cada um deles possui.
Eu vagamente me pergunto quantos desses meio Elites passaram por ele nas
ruas sem que ele percebesse.
— Você é bem-vinda para ficar aqui o quanto quiser — Meredith diz
docemente, voltando sua atenção para mim. — Posso imaginar que seja difícil
manter você longe de problemas com esse seu cabelo.
— Você não tem ideia — digo, sorrindo levemente.
— Fiquem à vontade — diz Lenny antes de se virar para sua mãe para
informá-la sobre onde deixamos os cavalos enquanto Luna brinca com seu
cabelo.
Eu rapidamente desenrolo um saco de dormir enquanto mastigo um pouco
de pão que Meredith começa a nos passar.
— O que estamos fazendo com ele? — Eu me viro para ver Finn balançando a
besta para o príncipe.
— Coloque-o perto de mim — digo docemente, embora meu sorriso seja tudo
menos isso. — Vamos nos revezar para vigiá-lo.
Quando ele se senta ao meu lado, ele está usando minha máscara menos
favorita à sua disposição, indiferença. Então eu me inclino, sussurrando
suavemente em seu ouvido.
— Sorte sua, meus pés estão congelando.
CAPÍTULO 23

KAI

Minhas mãos estão dormentes.


E eles estão dormentes há quase dois dias.
Eu me movo contra a parede e tento girar meus pulsos doloridos. Estou
amarrado desde a emboscada em Scorches e, francamente, não estou
acostumado a sentir que meus dedos vão cair. Eu bufo, frustrado com minha
situação atual.
— Algo errado, príncipe?
Ela está empoleirada no final do meu saco de dormir, besta na mão e um
sorriso nos lábios. É alarmante o quanto ela gosta disso.
— Não sei, talvez o fato de eu ainda estar amarrado? — digo secamente.
Ela me dá um olhar falsamente simpático.
— É melhor você começar a se acostumar
Ah, eu tive bastante tempo para me acostumar.
Eu andei todo o caminho de volta do Escaldante com minhas mãos amarradas
atrás das costas. Pelo menos eu tinha entretenimento na hora. Escutar
certamente me manteve ocupado na longa caminhada, já que ninguém parecia
lembrar que a habilidade Hyper de Lenny era um jogo grátis para mim.
E foi então que ouvi como ela o matou. Eu nunca perguntei, percebi, como era
para ela. Talvez eu não quisesse saber se ela tinha um bom motivo um ara fazer
isso.
Meus olhos se demoram na cicatriz que desce pelo pescoço dela para deslizar
por baixo das dobras do colete. Ela rastreia o movimento, se mexendo
desconfortavelmente sob minha análise. Puxando a gola do colete para cima, ela
segura meu olhar.
— O quê?
Eu dou de ombros, balançando a cabeça para o chão.
— Nada. Só sei o quão doloroso isso foi.
Já fui cortado vezes suficientes pelo rei para saber exatamente quanta pressão
ele usa com uma lâmina.
Ela revira os olhos.
— Simpatia não fica bem em você, Azer.
— Tudo fica bem em mim, Gray. — Eu lhe dou um sorriso. — Não minta.
Sua boca se abre, e eu estou muito ansioso para saber o que vai sair dela
quando Lenny se aproxima.
— Você está pronto para amanhã, P?
Ela respira fundo, parecendo composta enquanto continua me encarando.
— Oh, mal posso esperar.
— Ótimo. — Lenny concorda. — Partiremos à noite e cavalgaremos durante a
noite. Então, alguns dias depois, quando chegarmos perto de Ilya, irei em frente
e informarei ao rei que temos seu Executor. — Com um suspiro, ele acrescenta,
— Vou dizer a ele para nos encontrar no campo perto do Santuário das Almas
com, o quê, não mais do que três Imperiais? Isso deve evitar a emboscada que
certamente aconteceria se todos tentássemos entrar na sala do trono.
Manteremos nossas bestas apontadas para a alavanca — um aceno para Kai — o
tempo todo para garantir que não haja nenhuma gracinha. E é quando
trocaremos nosso príncipe aqui pela sua liberdade. — Ele bate palmas,
parecendo alegre. — Depois disso, retornaremos a Dor e viveremos felizes para
sempre.
Eu me esforço para não balançar a cabeça para eles. É um plano terrível. Eles
perderão todo o controle sobre mim assim que eu chegar perto o suficiente de
um Elite. Um Elite de verdade. Não os fios de poder que eu tenho tentado
agarrar desse grupo pelos últimos dois dias. O pouco de habilidade que eles
possuem é imprevisível, escorregadio sob minha pele, e eu ainda não sei como
usá-lo.
Nunca senti nada parecido. Mas agora que senti, não duvido que esteja
escondido bem debaixo do meu nariz. Imagino quantos Elites eu já li que contêm
apenas uma porcentagem de poder, tendo vindo de uma linhagem mista. É
frustrantemente fascinante.
— Pão, alguém? — Meredith está fazendo rondas com sua cesta habitual de
pão velho e queijo quente. Seu poder pulsa em minhas veias, o dela e o de Lenny
são mais potentes do que os outros. Ela é uma Lagartixa, o que seria mais do que
útil se minhas mãos não estivessem amarradas nas costas.
— Sim, senhora — Finn chama, pulando sobre alguns corpos adormecidos para
pegar um pão. Dando uma mordida, ele se vira para Paedyn. — Ei, eu pego o
primeiro turno hoje à noite. — Mesmo a essa distância, consigo ver as migalhas
voando de sua boca. — Durma um pouco.
Ela sorri para ele, parecendo aliviada.
— Obrigada, Finn. Me acorde em algumas horas, ok?
Ele ainda está mastigando seu pão quando a saúda, pega a besta e se joga
contra a parede a alguns metros de distância. Ignorando o canto que ele ocupa,
examino o chão coberto de velas lançando sombras bruxuleantes nas paredes e
no teto decadentes. Eu me contorço no grande saco de dormir, forçado a deitar
de lado com as mãos amarradas atrás das costas.
Paedyn hesita antes de deslizar para o meu lado. Ela sempre faz isso. Ela só
fica tímida quando estou perto o suficiente para tocá-la.
Eu me mexo no saco de dormir, farfalhando o suficiente para arrancar um
suspiro dela.
— O que há de errado com você?
— Meu nariz está coçando. — digo, com a voz abafada pelos cobertores.
Ela está em silêncio de um jeito que me faz pensar que ela está lutando para
não rir.
— Tudo bem — ela bufa. — Vire-se.
Com os braços doloridos, viro para o outro lado para que fiquemos de frente
um para o outro. Não tive a chance de estudá-la recentemente. Ela está perto de
mim, seu corpo quente apesar dos pés congelantes se aproximando dos meus.
Seus olhos azuis ondulam à luz de velas, parecendo o canto mais profundo de
uma lagoa. Posso ver as sardas fracas que pontilham seu nariz, embora eu finja
esquecer o número exato delas ali.
Ela desliza uma mão de baixo do cobertor, alcançando meu rosto.
— Hum. — Ela está tímida de novo. — Onde?
— A ponta do meu nariz. — eu digo, sem tirar os olhos dos dela.
A ponta do dedo dela encontra meu nariz, e não consigo deixar de lembrar de
quando ela o sacudiu. Talvez ela esteja pensando o mesmo, porque depois de um
rápido movimento do dedo, ela puxa a mão de volta.
Eu limpo minha garganta.
— Eu não pensei que você fosse do tipo apostadora.
— Eu sou uma ladra — ela diz desdenhosamente. — Cada bolso que eu enfio a
mão é uma aposta.
— Tudo bem. Não pensei que você fosse do tipo ignorante.
Ela me lança um olhar sem graça.
— Do que está faltando, Príncipe?
— Seu acordo com o rei. — Eu seguro seu olhar. — Me trocando por sua
liberdade. Não vai funcionar.
Os olhos dela vagueiam pela sala, o olhar assombrado pela memória.
— Kitt te ama mais do que me odeia. Vai funcionar.
Eu sorrio tristemente.
— Você ficaria surpreso.
Ficamos em silêncio, e eu observo suas pálpebras tremulando de sono. Ela é
insuportável, realmente. Mas não de uma forma que torna mais fácil desviar o
olhar. Não, tudo nela é uma espécie de beleza ousada, como uma rosa exibindo
orgulhosamente seus espinhos. Ela é atraente da forma como a maioria das
coisas mortais são. É cativante.
Não. Não, é assustador. É suposto ser assustador, ainda pensar nela como
algo que estou tentando merecer. Ainda considerá-la digna do meu desejo.
Mas ela não é. Não importa o que já aconteceu entre nós. Ela é minha
prisioneira e minha missão.
Ela não é nada para mim.
E é isso que digo a mim mesmo enquanto a vejo adormecer.
Eu a sigo até o sono, até o esquecimento, até onde quer que ela esteja indo.
Só acordo quando algo é jogado sobre minha cabeça, o ar fica denso e
sufocante.
Eu luto contra os braços fortes que me estrangulam antes que meu corpo
fique mole.
Então estou sonhando de novo. E só pode ser com ela.

Minhas mãos ainda estão amarradas atrás das costas.


Só que agora eles também estão ligados aos dela.
A cabeça dela está caída contra a parte de trás da minha, as mãos se
contraindo ao lado das minhas. Ela se move levemente, o único aviso de que ela
está acordando. E então a parte de trás do crânio dela se conecta com o meu,
enviando estrelas nadando na minha visão.
— Ai — eu gemo, inclinando-me para frente o máximo que as cordas permitem.
— Ah, é você — ela diz grogue. — Eu não sabia a quem eu estava amarrada. Eu
deveria ter batido em você com mais força.
— Engraçado — eu digo entre dentes. — Chegue mais perto de mim. Você está
puxando minhas mãos.
Eu praticamente posso sentir seus olhos revirando.
— Sim, Vossa Alteza. Há mais alguma coisa que possa fazer para deixá-lo mais
confortável?
— É um prazer manter você em cativeiro.
Sinto sua cabeça se virando para olhar a cela em que fomos jogados. Não há
nada além de pedras rachadas e pisos sujos. As barras são feitas de metal
simples, não Mudo como estou acostumado. Porém, sem uma Elite para
recorrer, sou tão impotente quanto os Ordinários.
— Onde diabos estamos? — ela finalmente pergunta, expressando a pergunta
que eu estava esperando que ela fizesse.
— Algum tipo de prisão — eu digo. — Definitivamente subterrânea. — O chão
de pedra coberto de sujeira está congelando, e a única luz à vista está na metade
do corredor, do lado de fora da nossa cela.
— Como... como chegamos aqui? — ela pergunta, pânico permeando cada
palavra. — Não me lembro de nada da noite passada.
— Eles devem ter nos drogado. — Eu inclino minha cabeça para trás contra a
dela. — Tanto quanto seu amigo montando guarda.
Ela puxa as mãos, puxando as minhas por sua vez.
— Não, não, não. Isso não pode estar acontecendo-
— Calma, Gray — eu digo levemente. — Você vai arrancar meu braço do lugar.
— Por que eles...? — Ela engole um suspiro. — Por que eles nos colocaram em
uma cela tão pequena?
— Bem — eu digo calmamente — não é como se pudéssemos nos mover...
— Obrigada pelo lembrete, Azer — ela quase grita. — Eu não posso ficar aqui.
Você sente cheiro de sangue? Eu sinto cheiro de sangue. Eu não posso. Eu... eu
preciso sair daqui.
Sinto suas mãos suarem em volta das minhas, sinto suas costas se expandirem
a cada respiração trêmula. O cheiro de sangue é fraco, mas estou tão
acostumado com o cheiro que mal notei. Por que isso a incomodaria tanto?
Quando sua respiração falha no que parece ser o começo de um soluço, sei
que algo está muito errado.
— Paedyn — digo suavemente. O gosto do nome dela é inebriante na minha
língua. — Paedyn, você está me ouvindo?
— Quando é que eu vou — ela sussurra — ouvir você?
Eu sorrio para mim mesmo.
— Seus joelhos estão contra seu peito?
— O quê? — ela bufa. — Sim. Sim, meus joelhos estão contra meu peito.
— Tudo bem — eu digo lentamente. — Quero que você me escute uma vez na
vida e coloque as pernas no chão. Abra-as o máximo que puder.
— Por que eu iria-
— Escutar, lembra?
Sua respiração está trêmula, mãos suadas enquanto ela desliza as pernas pela
pedra.
— Agora — eu digo lentamente — quero que você veja quanto espaço você
tem. Esta cela é muito maior do que você pensa. Minhas pernas também estão
no chão.
Mentira. Meus joelhos estão contra o peito e estou olhando para uma parede
de pedra.
— Sente quanto espaço você tem? Esta cela é grande o suficiente, e não vai
ficar menor. — Engulo em seco antes de entrelaçar seus dedos com os meus,
sentindo sua respiração engatar com o contato repentino. Mas então sua
respiração está diminuindo contra minhas costas, sua mão agarrando a minha
como uma âncora de seus pensamentos acelerados.
— Melhor? — pergunto, sem fôlego.
Sinto que ela concorda.
— Melhor.
O silêncio se estende entre nós. Ela descansa a cabeça no meu ombro. Cada
pedaço do meu ser está focado na maneira como seus dedos se sentem entre os
meus. É absurdo.
O som distante de botas clicando faz com que ela arranque a mão do meu
alcance.
Ótimo. Ótimo. Estou feliz que isso acabou.
O homem que aparece do lado de fora dos nossos bares parece vagamente
familiar, com seu cabelo grisalho com mechas presas em um rabo de cavalo e
sobrancelhas espessas caindo sobre olhos pretos.
Mas quando sinto Paedyn ficar tensa atrás de mim, percebo por que o
reconheço.
— Rafael — ela suspira. — Então é sua ganância que está por trás disso?
Ele abre os braços como se cumprimentasse um velho amigo.
— Ah, vamos lá, garoto. Você pode me culpar? Ninguém seria capaz de deixar
passar o preço pela sua cabeça. — Seus olhos se movem para mim. — E o que eu
poderia conseguir por vocês dois é irresistível. Até eu teria estômago para pisar
em Ilya pelo ouro que vou conseguir por vocês dois.
— Como você nos encontrou? — Paedyn engasga. O ar ficou gradualmente
mais espesso com um odor fétido que de repente está flutuando em nossa
direção.
Rafael continua, imperturbável.
— Eu mandei meus homens para todos os arredores da cidade, de olho em
você, caso você escape do seu príncipe. — Seu sorriso é alegre. — Mas, em vez
disso, você o trouxe com você.
O olhar no rosto de Paedyn o faz franzir a testa.
— Oh, não leve para o lado pessoal, Sombra. Você pode ter me feito ganhar
muitas pratas no ringue, mas vai me fazer ganhar muito mais por te levar de
volta para Ilya.
Ele se afasta por um momento para pegar um prato de uma mesa próxima.
— Pensei em levar isso para você pessoalmente. — Ele destranca a porta da
cela com uma chave enferrujada antes de se abaixar para colocar uma bandeja
de metal diante de nós, cheia de pedaços de pão velho. — Para agradecer por
encontrar o caminho de volta para mim.
— Obrigada, mas duvido que eu consiga engolir alguma coisa com esse fedor
— Paedyn praticamente tosse.
— Ah — Rafael concorda — isso é o esgoto abaixo de nós. — Ele acena para
uma grade a vários metros do corredor. — Eles enchem o esgoto e dão descarga
a cada poucas semanas. Sorte de vocês dois, parece que eles farão exatamente
isso muito em breve. — Ele sorri enquanto a porta se fecha atrás dele. — Espero
que você aproveite sua curta estadia no melhor de Dor. — Então ele acena para o
prato de pão velho. — Divirta-se descobrindo como comer isso.
Seus passos ficam mais suaves conforme ele segue pelo corredor. Eu tusso,
tentando limpar minha garganta do ar espesso que ameaça me sufocar. Paedyn
descansa a cabeça no meu ombro, forçando minha atenção de volta para ela
enquanto diz:
— Precisamos sair daqui.
Concordo antes de abaixar minha cabeça sobre a dela.
— Não tem a mínima chance de eu voltar para Ilya como prisioneiro. — Só isso
destruiria a reputação que venho construindo meticulosamente desde que era
menino. Cada ordem obedecida, cada missão concluída, cada morte pela minha
mão - completamente inútil. Retornar com um resgate pela minha cabeça me
faria parecer pior do que fraco, mais patético do que morrer durante uma
missão. Simplesmente não é uma opção.
— Ok, então. — Sua voz é distante, determinada. — Tem alguma ideia,
Príncipe?
CAPÍTULO 24

KITT

Alguém bate na minha porta.


Sempre tem uma batida na minha porta. Sempre um servo, ou Imperial, ou
outra pessoa batendo na madeira e implorando por minha atenção.
Vida de rei, eu acho.
Passo a mão pelo meu rosto cansado, depois pela minha camisa amassada,
antes de me lembrar dos meus dedos sujos de tinta.
Não pareço um rei.
Eu pareço um garoto que está tentando preencher os sapatos de um homem,
sentado em uma cadeira que está me engolindo inteiro. Vivendo em um reino
cheio de pessoas que tenho muito medo de confrontar.
E ainda assim, através de tudo isso, eu finjo. Finjo saber como viver minha
vida como um rei.
— Entre.
O comando é recebido com dobradiças rangentes seguidas por passos suaves
em um tapete gasto. Meus olhos se erguem rapidamente dos papéis espalhados
por cada centímetro da mesa. O homem fecha a porta lentamente, cada
movimento calmo e deliberado.
Não um servo. Não um Imperial. Não alguém implorando por minha atenção.
Na verdade, não consigo imaginá-lo fazendo algo do tipo.
— Merda, já é meio-dia? — Balanço a cabeça, tentando limpar a mesa da
carnificina escura.
— Bem, é difícil se atentar ao tempo com essas cortinas sempre fechadas —
ele diz suavemente, acenando para a janela coberta.
— Você sabe por que eu as mantenho fechadas — suspiro, gesticulando para
que ele se sente.
— Não preciso de mais servos olhando para minha janela do pátio. Já existem
rumores suficientes circulando.
— Por um bom motivo — ele diz gentilmente, daquele jeito que torna difícil
dizer se ele está me repreendendo ou não.
Ele tem um jeito especial com as palavras. Confiante o suficiente para falar
suavemente porque sabe que todos se inclinarão para ouvir. Cada palavra é
deliberada, delicada da maneira mais exigente.
— Você ainda tem que se dirigir ao seu povo, Kitt. — Seus olhos azuis claros
cortaram os meus, procurando muito além do meu olhar. — Se você não der a
eles algo para conversar, eles vão inventar sua própria versão da história.
— Sim, obrigado pelo sábio conselho — murmuro, tendo ouvido isso em todas
as nossas reuniões.
Seu olhar suaviza enquanto ele se senta, me examinando do outro lado da
mesa.
— Estou aqui apenas para ajudar, Kitt. Oferecer minha orientação.
— Certo. Claro. — eu digo com um aceno de cabeça. — E a Praga sabe que eu
preciso disso.
Ele sorri, e é reconfortante.
— A Prava sabe que isso não é fácil para você também.
— Sim, bem. — Eu suspiro. — Você me aconselhou em muito disso, e eu sou
grato por isso.
— E continuarei a fazendo isso. — Ele se mexe na cadeira para se inclinar
sobre a mesa. — É por isso que espero que você siga com minha última sugestão.
Eu enrijeço. Sua última sugestão foi absurda, na melhor das hipóteses. Um
absurdo que sou idiota o suficiente para considerar. Mas antes que eu possa
expressar isso ou algo igualmente insensato, ele tirou uma pequena caixa do
bolso e a colocou na madeira gasta entre nós.
Pisco para o que sei que está preso dentro do estojo de veludo. Meu coração
gagueja sob minhas costelas, minha boca o segue enquanto tenta formar seu
nome em protesto.
— C-Calum-
— É o melhor jeito — ele interrompe, penteando os dedos pelo cabelo loiro no
topo da cabeça. — Eu sei que não é exatamente a ideia mais atraente-
— Não exatamente? — Eu zombo, rindo da insanidade de tudo isso. — Você ao
menos entende o que está me pedindo para fazer?
Seu suspiro é pesado, como se ele também carregasse o peso do reino em
seus ombros. E, de certa forma, ele carrega.
— Você é o rei. A vida que você vive não é mais só sua. Este é um sacrifício que
deve ser feito para o bem do reino. _ Ele faz uma pausa, deixando suas palavras
pairarem no ar entre nós. — É assim que você ajuda as pessoas que ainda não
confrontou.
Desvio o olhar, balançando a cabeça para a tinta manchando cada superfície.
— Eu vou. Eu só… — A emoção prende as palavras na minha garganta,
sufocando-as até que finalmente consigo cuspir as sílabas. — Eu só estou
machucado. Não sou o príncipe que eles conheciam.
— Não, você não é. — Calum diz suavemente. — Porque agora você é o rei
deles. — Com uma mão hesitante, ele desliza a caixa mais para longe da mesa,
até que eu não possa mais ignorá-la. — O que significa que você sacrifica quem
você era por quem você precisa ser. — Seus olhos perfuraram os meus, lendo
mais do que apenas a emoção em meu rosto. — E com quem você precisa ser.
Olho fixamente para a caixa, apenas olhando para ele quando ele murmura:
— O que seu pai sempre dizia ao povo? Algo sobre o que faz um grande rei?
Conseguindo dar um sorriso triste, eu respondo:
— Ah, sim. Os três B's
Calum assente, cantarolando com a lembrança.
— Era isso. Lembro de como ele costumava recitá-los quando informava o
reino sobre uma nova lei ou decisão que ele havia tomado.
— Era um dos seus muitos lemas. — eu relembro — Ele me fez escrevê-lo
dezenas de vezes durante nossas sessões de tutoria. Eu não ficaria surpreso se
eu murmurasse isso durante o sono. — Calum ri enquanto eu recito a frase sem
graça. — Para ser um grande rei, você deve primeiro ser Bravo, Benevolente e
Brutal. Só então você pode governar um grande reino.
Assentindo, Calum se recosta na cadeira.
— Ele não está errado. É um bom lema para se medir. — Ele alcança a caixa
então, batendo um dedo longo contra o veludo. — E fazer isso exigiria todas as
três qualidades que ele esperava encontrar em você. Bravura. — Um toque na
caixa. — Benevolência. — Outro. — E até Brutalidade, dependendo de como você
olha para isso.
Ele está certo. Pragas, ele está sempre certo.
Engolindo em seco, pego a caixa, encaixando-a na palma da minha mão.
— Os três B's, hein?
Ele sorri para mim.
— Os três B's.
CAPÍTULO 25

PAEDYN

— Seu jogo desajeitado vai ser a nossa morte, sabia?


Um som frustrado sai da minha garganta.
— Bem, você não é exatamente a pessoa mais encorajadora para se amarrar.
— Em circunstâncias diferentes, — ele diz — eu prometo que seria muito mais
divertido amarrado.
Minhas bochechas coram enquanto reviro os olhos, sabendo que ele não pode
vê-las.
— Não está. Ajudando. — Sinto suas costas tremerem de tanto rir. Ignorando-o,
planto meus pés, me preparando. — Ok, vamos tentar de novo — respiro antes de
empurrar suas costas para tentar colocar meus pés debaixo de mim.
— Isso aí, Gray — ele murmura. — Vamos, só mais um pouquinho.
Minhas pernas tremem enquanto se esforçam para ficar de pé com ele. Isso
está longe de ser nossa primeira tentativa, me deixando cansado e frustrado ao
mesmo tempo. Ficar de pé nunca foi um desafio tão grande. Eu empurro contra
suas costas, avançando meus pés por baixo de mim para ficar desajeitadamente
de pé no chão frio da prisão.
— Já era hora — o bastardo suspira. — Agora vem a parte divertida.
Olho para a pedra irregular projetando-se da parede, a quase um metro e
vinte do chão. Ele dá um passo em direção a ela, me puxando para trás dele por
sua vez.
— Ai — eu sibilo. — Um aviso da próxima vez seria legal.
— Tudo bem ele diz rigidamente. — Estou caminhando até a pedra agora.
E com isso, ele quase me arrasta enquanto eu tropeço para trás em direção à
parede. Eu bufo quando meus pés finalmente estão plantados no chão
novamente, desejando que ele pudesse ver o olhar que estou usando. Então ele
está levantando nossas mãos, guiando a corda para descansar na pedra afiada.
Meus braços estão puxados para trás das costas, dobrados em um ângulo
desconfortável. E só piora quando ele começa a serrar a corda contra a pedra.
Para frente e para trás. Para frente e para trás. Eu penduro minha cabeça em
direção ao chão, observando meu cabelo cair em um halo bagunçado ao redor do
meu rosto.
— Você está bem aí atrás, Gray?
— Oh, estou ótima — eu digo, minha voz abafada pelo cabelo. — Meu pescoço
nunca esteve melhor.
Posso ouvir o som da corda esfregando contra a pedra, sinto Kai fazendo a
maior parte do trabalho.
— Que tal jogarmos um jogo? Para tirar sua mente das coisas.
Minha cabeça dispara diante da oferta dele. É assustador — ele se importando.
Ele não jurou nunca mais fazer isso?
O Executor ordena que eu me aproxime um pouco mais da pedra.
Mas isso não é se importar, é? Não, ele está me usando para escapar e salvar
sua reputação. Eu sou um meio para um fim.
— Tudo bem — ele suspira, ainda serrando a corda. — Estou vendo algo cinza.
Adivinhe o que é.
Eu bufo.
— Tudo neste lugar abandonado pela Peste é cinza.
— Bem, então é melhor você ser mais específica.
Eu suspiro pelo nariz.
— Ok. A parede.
— Adivinhe de novo.
— As barras?
Ele puxa a corda, testando sua força.
— Errado de novo.
— O teto?
— Você não é muito bom nisso-
Passos ecoantes cortam suas palavras. Desta vez, estou silenciosamente
puxando-o de volta para o nosso lugar no chão, onde quase caio, puxando-o
para baixo comigo. O guarda vira a esquina para o corredor assustadoramente
vazio, parando apenas para pescar uma chave do bolso. Ele não olha para nós
enquanto entra e coloca uma tigela de metal com água ao lado do pão
amanhecido mal tocado.
É uma luta para abafar meu escárnio. Esperam que lambamos a água como
cães. Mais uma prova do ódio deles por nós, Ilyanos.
A porta se tranca atrás dele com um clique pesado, e eu observo sua sombra
deslizar pelo comprimento do corredor. Ficamos em silêncio por um longo
momento antes de eu sentir a mão de Kai dar um tapinha na minha parte inferior
das costas em um comando silencioso. Respiro fundo, me preparando antes de
me esforçar para ficar de pé.
Então é hora de voltar para a pedra e para o tedioso serrar. Eu abaixo minha
cabeça novamente, descansando meu pescoço dolorido enquanto murmuro,
— A bandeja.
— Isso é mais prata.
Franzo a testa.
— É meu cabelo, então?
— Não sei, Paladina Prateada — ele diz lentamente — me diga você.
— Acho que poderia passar por cinza — argumento.
Ele ri. É profundo e escuro de um jeito que eu reconheço.
— Seu cabelo pode passar por raios de luar antes de passar por cinza.
— Cuidado — digo lentamente — isso quase soou como um elogio.
Eu o ouço soltar uma risada.
— Talvez eu lhe faça um elogio adequado se você conseguir adivinhar
corretamente.
Olho para o chão.
— Eu perguntei sobre cada coisa cinza aqui.
— Obviamente não.
Ele pausa a serragem o suficiente para puxar a corda. Sinto que ela se solta
um pouco em volta dos meus pulsos e suspiro aliviado. Não falta muito para eu
estar livre.
— O que eu poderia ter perdido? — Bufo, levantando a cabeça para escanear a
cela novamente.
— Aquela pedra ali. — ele diz casualmente, como se não parecesse louco.
Tento morder minha língua o máximo possível. Tento mesmo. Mas antes que
eu possa me conter, estou falando sem pensar:
— Desculpe, você quer dizer a pedra do outro lado da cela que eu não consigo
ver?
Ele fica quieto por um momento.
— É essa mesmo.
— Isso é completamente injusto.
— Eu disse para você ser específico — ele diz lentamente.
Um som frustrado sobe pela minha garganta, do qual ele tem a audácia de rir.
Surpreendentemente, consigo manter minha boca fechada, curvando-me
silenciosamente com meus braços sendo puxados para frente e para trás.
Quando minhas pálpebras começam a pesar, ele para para testar a força da
corda.
— Eu vou conseguir arrebentá-la agora. — Sua voz é áspera, o corpo
implorando por sono. — Podemos descansar até o guarda voltar.
Concordando, eu lentamente o puxo de volta para o centro da cela e deslizo
para o chão.
— E então sairemos daqui.
— E então sairemos daqui — ele repete suavemente.
Minha cabeça encontra a parte de trás do seu ombro, caindo contra ele
apesar dos meus melhores esforços. Meu corpo dói, cada centímetro do meu ser
traidor implorando para se enrolar contra ele, para ser segurada por ele.
No meu momento mais fraco, eu desejo por ele. E no meu momento mais
forte, eu queria poder dizer que não era a mesma coisa.
Ele descansa a cabeça na minha, gentil e firme. Odeio que ele se sinta assim.
Parece conforto encarnado.
— Podemos fingir que não tem problema não nos odiarmos nesses momentos?
— pergunto baixinho, só para aliviar minha consciência.
Ele soa como se pudesse ter rido se não estivesse tão exausto.
— Sim. Finja.
Fico quieto até não ficar mais.
— Você se arrepende de alguma coisa?
Sua voz é suave, reconfortante.
— Arrependimento de quê?
— Nós? — Uma pausa. — Lamenta o que aconteceu entre nós? Até as coisas
mais recentes? — Eu sussurro, relembrando nosso momento de fraqueza no
telhado.
Ele fica quieto por tanto tempo que adormeço, só acordando quando ele
murmura:
— Durma, Pequena Psíquica. Arrependa-se pela manhã.

Acordo com o som de metal rangendo.


Meus olhos se abrem ao sentir Kai dando tapinhas na minha lombar em sinal
de alerta.
Através da visão turva, vejo o guarda entrar na cela, segurando um pão velho.
Pisco para acordar, me preparando para o plano que está prestes a se desenrolar.
Tudo acontece tão rápido que quase esqueço a parte que devo desempenhar.
Assim que o guarda se abaixa para colocar o pão entre nós, Kai move seu corpo e
desliza um pé abaixo da bandeja. O metal encontra o rosto do homem quando o
príncipe o chuta para cima, forte o suficiente para ouvir o nariz do guarda
estalar.
— Puxe contra mim, Gray — Kai range, se esforçando enquanto puxa a corda
cortada que ainda nos prende. Jogo o peso do meu corpo para frente, quase
esmagando meu rosto na parede de pedra quando a corda estala, libertando
meus pulsos.
Eu corro em direção ao guarda gemendo agora segurando seu nariz
quebrado. Eu bati sua cabeça contra a parede antes mesmo que seus olhos se
arregalassem ao me ver. Ele está desmaiado enquanto eu tateio seu bolso,
encontrando a chave enferrujada dentro, e cambaleio até a porta da cela.
Kai está logo atrás de mim, observando enquanto estendo a mão através das
barras para destrancar a porta do lado de fora. Passamos pelas barras abertas,
esfregando nossos pulsos machucados. Meus olhos varrem a parede de celas
vazias, aliviado por não encontrar um único rosto familiar lá dentro.
Lenny e os outros não estão aqui. Parece que apenas o Príncipe e a Paladina
Prateada valeram o trabalho de Rafael. E estou momentaneamente confortada
por essa percepção.
Mas é a grade de esgoto no final do corredor que agora chama minha atenção.
— Até agora, tudo bem — Kai murmura, correndo lentamente em direção ao
esgoto.
Estou em seus calcanhares em um instante, a cabeça girando enquanto
procuro por qualquer sinal de guardas se aproximando. Meu coração dispara, a
cabeça latejando, enquanto me concentro em manter minhas pernas cansadas
bombeando em direção à liberdade.
— Segure o outro lado — ordena o Executor quando eu derrapo até parar
sobre a grade. Meus dedos escorregam no metal sujo, mas eu levanto o mais
forte que meus braços tensos permitem. — Vamos, Gray — Kai rosna. — Você
consegue fazer melhor do que isso.
A grade é impossivelmente pesada, e o som crescente de botas batendo não
está ajudando meu foco. Respiro fundo antes de puxar para cima, esperando que
Kai faça o resto. Fico tentado a agradecer à Peste quando ele consegue deslizar a
tampa até a metade da queda escura para o esgoto.
Somos recebidos com o som de água corrente e o fedor de fluidos corporais.
Eu engasgo apesar dos meus melhores esforços, mas consigo manter as poucas
mordidas de pão velho no estômago. Gritos distantes fazem minha cabeça
levantar rapidamente, olhos se esforçando na luz fraca para ver quantos guardas
estão correndo em nossa direção. Eu conto sete antes que meus olhos
encontrem os de Kai do outro lado da boca escancarada do esgoto abaixo.
E com um único aceno de cabeça, eu saio da saliência e entro na escuridão.
Aterrisso com um splash, grata por descobrir que é principalmente água
sapiscando em volta das minhas panturrilhas. Kai rapidamente se abaixa ao meu
lado, apesar de algo tilintar em volta dos seus ombros. Ele não me dá a chance de
perguntar antes de agarrar minha mão e correr pelo túnel.
— Eles estão vindo! — ele grita sobre o som da água correndo. — Precisamos
nos mover rápido!
Dou a ele um aceno que ele não consegue ver, enquanto tento ignorar o fato
de que essa é a extensão do nosso plano. Isso é o máximo que planejamos. Corte
a corda. Derrube o guarda. Pegue a chave. Fuja pelo esgoto.
Só que não temos a menor ideia do que nos espera no fim deste túnel.
Minhas pernas estão pesadas, como se tentasse correr em mel.
— A água está subindo! — grito, o pânico tremendo minha voz. Ela está
correndo em volta dos meus joelhos agora, rápida e forte.
— Continue andando! — Sua ordem ecoa nas paredes do túnel, forçando
minhas pernas a acelerarem na correnteza.
Está tão escuro aqui embaixo que não consigo ver Kai andando pela água na
minha frente, mas sua mão está firme na minha enquanto ele me leva direto pelo
túnel. Esticando minha mão perdida, arrasto meus dedos pela parede suja ao
meu lado, sentindo cada passagem que poderíamos ter desviado.
A água espessa agora envolve minha cintura. Só consigo ver sombras e
contornos, sentir água congelante e terror paralisante. Estou escorregando a
cada passo, tentando acompanhar Kai enquanto ele me puxa atrás dele.
O líquido sobe rapidamente enquanto corremos, ousando nos afogar a cada
centímetro.
Afogamento nunca foi o ideal, especialmente não em um esgoto. Sei que estou
me movendo, mas mal consigo sentir minhas pernas abaixo de mim. Calafrios
percorrem meu corpo, dentes batendo agora se juntando à sinfonia de água
correndo-água correndo que continua subindo.
— Só mais um pouquinho!
Ouço seu encorajamento gritado, mas não me incomodo em acreditar.
Estamos correndo cegamente pelos esgotos, sendo perseguidos tanto pela água
quanto por guardas movidos pela ganância. Nossas chances dificilmente são
favoráveis.
Minhas mãos estão dormentes, os dedos congelados pela água agora envolvem
meus cotovelos.
Talvez esse seja um destino melhor do que aquele que me espera em Ilya.
Talvez seja aqui que a Morte finalmente me pega, finalmente consegue rir da
visão de mim à deriva em um túmulo aquático. Ou talvez ele me abrace como
uma velha amiga.
Eu bato em algo sólido, espirrando água gelada sobre qualquer parte de mim
que ainda estava seca. As costas de Kai estão bloqueando meu caminho, mas
estou perto o suficiente agora para ouvir a sequência de xingamentos que ele
está vomitando.
— Droga — ele respira, soltando minha mão.
— O quê? O que está acontecendo? — Eu tateio meu caminho ao redor dele,
empurrando para frente até...
Minhas palmas encontram uma parede suja.
Deslizo os dedos freneticamente em todas as direções, procurando alguma
abertura na escuridão.
Nada.
A água está batendo na minha caixa torácica, e estou lutando para respirar,
tanto por causa da água gelada quanto do medo apertando meu peito.
— Não — eu digo simplesmente. — Não, tem que haver uma saída.
Posso ouvir Kai passando as mãos por cada parede, espirrando água enquanto
procura no túnel sob nossos pés. Ignorando o eco dos gritos se aproximando,
continuo sentindo cada centímetro de pedra nos prendendo aqui embaixo. As
pontas dos meus dedos mal conseguem roçar o teto que se ergue sobre nós, me
forçando a pular enquanto procuro por qualquer tipo de fuga.
Estou ofegante, em pânico, batendo nas paredes. Meus punhos encontram a
pedra na minha frente, de novo e de novo.
— Tem que haver um jeito! — Não tenho certeza para quem estou gritando. A
parede. O Príncipe. A sombra da Morte que posso sentir pairando sobre mim.
Estou rasgando a parede com unhas quebradas, batendo punhos crus na
rocha. Não consigo ver nada, e duvido que verei algo novamente. A água atinge
meus seios, batendo contra mim enquanto luto para respirar. Acho que posso
estar gritando a cada batida da minha mão na parede. Acho que posso estar com
medo da morte.
— Isso é o suficiente.
A voz dele é calma, tão calma que eu quero dar um tapa na cara dele que eu
nem consigo ver. Eu o ignoro, como sempre, e continuo a bater contra a parede.
Uma lágrima escorre pela minha bochecha, misturando-se com a água
espirrando no meu rosto.
— Eu disse, chega. — Ele me agarra pela cintura, me puxando para longe da
parede. Eu luto contra ele, me sentindo como um animal selvagem enquanto me
debato na água. — Paedyn! — Meu nome ecoa nas paredes, me paralisando por
um momento. Então seu rosto está ao lado do meu, sua bochecha molhada e fria
contra a minha. — Chega.
Eu ouço então. Ouço a derrota em sua voz. Ele está desistindo.
— Não, não é o suficiente! — grito, lutando contra os braços em volta de mim.
— Não, tem que ter uma saída. Tem que ter uma maneira…
Suas mãos deslizam da minha cintura, delicadas e deliberadas, como se ele
estivesse memorizando a sensação de mim. Mãos calejadas deslizam pelos meus
braços, me girando para encará-lo. Não consigo ver seu rosto, mas sei
exatamente o que eu estaria olhando.
— Paedyn… — A água parece parar por causa de sua voz suave.
— Não — eu digo severamente. — Não faça isso. Não vá dizer meu nome
porque você acha que pode ser a última vez que você vai falar.
Ele tem a coragem de rir. — Seu nome parece uma boa palavra para morrer com
meus lábios.
— Kai-
— Não me arrependo. — Suas palavras são uma prece, uma confissão à qual
ele se agarrou. — Não me arrependo de você, ou do que houve entre nós. E não
me arrependo de ter beijado você naquele telhado. Mas sei que vou me
arrepender do que tiver que fazer com você pelo resto da minha vida.
Água lambe minhas clavículas enquanto pisco para suas palavras. As palavras
de um homem encarando a morte de frente, determinado a ter a palavra final.
— Você se arrepende? — ele pergunta, a voz urgente. Suas mãos percorrem
meu pescoço para sentir meu rosto, dedos tremendo sobre minhas maçãs do
rosto.
— Eu… — Minhas mãos encontram seus braços, segurando seus pulsos. — Eu
me arrependo de não ter feito direito. E me arrependo de não ser o que eu
deveria ser.
Ele passa o polegar na minha bochecha molhada.
— Sinto muito que você tenha que ser qualquer coisa.
Eu sei que é tudo conversa de um homem morto. Todas as confissões de duas
pessoas repentinamente cientes de sua ruína iminente. Mas eu derreto com suas
palavras, lamento o que poderia ter sido. E agora eu vou me afogar no
arrependimento que é ele.
O túnel está se enchendo de água, me forçando a levantar o queixo e ficar na
ponta dos pés. Sinto-me sem esperança em seus braços, como se nada
importasse antes de eu estar envolvida neles. Não há passado, nem futuro.
Só ele. Só nós. Só esse momento e o que decidimos fazer com ele.
A morte encoraja. O fim inicia.
Suas mãos puxam meu rosto para mais perto até que eu possa sentir sua
respiração em meus lábios. Água pinga de seu cabelo para respingar em minha
pele repentinamente aquecida. Seu pulso bate forte sob meus dedos enrolados
em seus pulsos.
Meu coração dói. Dói para me reunir com o pedaço que ele roubou de mim.
Meu nariz roça o dele.
— Finja — sussurro contra seus lábios.
Eu sou a imprudência encarnada. Até o fim.
Minha boca encontra a dele.
Ele tem gosto de saudade. Como arrependimento e alívio. Como se nada
importasse além deste momento.
É fervoroso, como a oração final de um pecador.
E talvez seja isso que esse beijo seja.
Arrependimento.
CAPÍTULO 26

KAI

Ela tem gosto de um pedaço do céu para onde não irei.


Beijá-la é um alívio.
É um tipo de demanda delicada.
Ela se afasta, ofegando palavras entre cada beijo.
— Eu odeio você.
— Eu sei — murmuro em sua boca.
As palmas das mãos dela pressionam meu peito, afastando seus lábios dos
meus para sussurrar novamente:
— Eu te odeio.
Eu corro minha mão lentamente para cima do seu lado.
— Prove para mim, Gray — eu murmuro contra seu ouvido. — Me odeie o
suficiente para me usar.
Ouço sua respiração falhar, sinto seu coração disparado contra meu peito.
Desvio o olhar, pronto para recuar e-
Uma mão encontra meu rosto, virando-o em sua direção para pressionar
meus lábios contra os dela.
Sua boca está esmagada contra a minha, e é ela que eu vou inspirar pela
última vez.
Minhas mãos seguram seu rosto, meus dedos se entrelaçam em seus cabelos
molhados.
Eu a beijo freneticamente, memorizando a sensação dos seus lábios contra os
meus.
Parece uma finalidade, esse beijo. Esse momento.
Eu a beijo com mais força ao pensar nisso, respirando-a com vontade até o
fim.
Os braços dela deslizam dos meus pulsos para envolver meu pescoço. Ela
está se agarrando a mim como se eu fosse uma âncora com a qual ela está
disposta a afundar. Estou me afogando com ela, nela.
É só quando a água alcança seus lábios que ela se afasta.
— Kai — ela sussurra — eu nunca aprendi a nadar.
— Você está bem — murmuro, afastando o cabelo emaranhado do rosto dela.
— Eu cuido de você.
Envolvo meus braços em volta da cintura dela, segurando-a contra mim. É só
uma questão de tempo agora. A água está no meu pescoço e subindo
rapidamente. Não demora muito para que eu esteja me mantendo na água,
tentando manter nós dois flutuando.
— Enrole suas pernas em volta de mim. — ordeno suavemente, mantendo a
calma por ela. Sinto seu aceno antes que suas pernas estejam abraçando minha
cintura, liberando minhas mãos para ajudar a manter nossas cabeças acima da
água.
Minha cabeça está se aproximando do teto, nos prendendo aqui embaixo. Eu
me concentro na sensação das mãos dela em volta do meu pescoço, dos dedos
dela mexendo no meu cabelo.
— Você está com medo? — ela sussurra, seus lábios perto do meu ouvido.
— Tenho coragem o suficiente para admitir que estou aterrorizado. — digo
calmamente. É uma luta segurar nós dois, embora eu não precise fazer isso por
muito mais tempo.
Eu só queria poder ver o rosto dela, poder contar as sardas salpicando seu
nariz uma última vez. Eu queria poder me afogar naqueles olhos de oceano antes
que a água tenha a chance.
— Você… — ela começa. Sinto seus braços deixarem meu pescoço. — Você
está sentindo isso?
Tento manter minha voz firme, apesar de lutar para manter minha cabeça
acima da superfície.
— Sentindo o quê?
— Ar… — Suas mãos estão correndo pela pedra em ruínas acima de nós. —
Tem ar vindo daqui de cima.
Os dedos dela soam frenéticos. Ouço o som de unhas raspando e xingamentos
murmurados antes de piscar para um fino feixe de luz atravessando o teto.
— Kai. —Ela está sem fôlego. — É uma grade. Está coberta, mas está lá.
Ela joga o pedaço de pedra que quebrou na água, meio rindo enquanto
começa a rasgar o teto. Estou desviando de pedaços de pedra caindo enquanto
ela rasga o teto em ruínas. É uma luta mantê-la flutuando com ela se movendo
constantemente em meus braços, sem mencionar o fato de que minha cabeça
está roçando o teto.
— Rápido, Pae. — eu resmungo.
Sua espinha fica rígida em resposta ao apelido, mas ela é rapidamente
distraída pelo problema mais urgente em questão.
— Eu sei, eu sei — ela ofega, puxando as pedras irregulares. Ela descobriu
vários centímetros da grade de metal coberta às pressas, permitindo que a luz do
sol entrasse pelas fendas.
Sou forçado a inclinar minha cabeça para trás para respirar.
— Paedyn — eu suspiro.
— Só mais um pouquinho. — ela diz, frenética. Apenas alguns centímetros nos
separam do teto. Sua cabeça está inclinada, sua bochecha provavelmente
pressionada contra a pedra que ela está arranhando. A grade está quase
descoberta agora, e ela está empurrando contra ela enquanto eu tento segurá-la.
Não consigo. Não consigo segurá-la por mais tempo. Não consigo ficar
flutuando. Não consigo respirar.
— Pae — eu consigo dizer. — Respire fundo-
Eu engulo o ar antes que a água nos engula.
Paedyn se desvencilha de mim, usando ambas as mãos para empurrar contra
a grade. Eu envolvo um braço em volta da cintura dela para impedi-la de afundar
e empurro a grade com cada grama de força que me resta.
A luz do sol nos provoca, salpicando a água turva. Um lembrete de que a
única coisa que nos separa do ar é essa maldita grade. Eu bato meu ombro
contra ela, sentindo-a se mover. Paedyn empurra, bate contra nossa esperança
final.
Estou ficando sem ar, e sei que ela também está. Seus movimentos ficam
mais lentos a cada segundo.
Não vou deixá-la morrer assim. Não posso.
Com um golpe final do meu ombro, sinto a grade se erguer. Sou forçado a
soltá-la, usando as duas mãos para deslizar a grade para o lado. Ela cede alguns
centímetros, permitindo que eu agarre a borda e a abra completamente.
Então eu me viro, encontrando Paedyn afundando lentamente em direção ao
fundo do túnel. Seus olhos se fecharam, seus lábios manchados de um azul
assustador. Eu nado para baixo, agarrando-a pela cintura e empurrando-a do
chão para nos atirar em direção à luz.
Então eu a empurro para cima até que sua cabeça apareça pela grade.
Eu vagamente ouço seu suspiro abafado, sua tosse sufocada. Através da visão
turva,
Eu a observo se levantando e pulando a grade.
Ela conseguiu. Ela está respirando. Ela está viva.
Não sei se poderei dizer o mesmo de mim.
Minhas pálpebras estão pesadas, piscando e fechando sem minha permissão.
Na verdade, meu corpo inteiro está pesado, me pesando enquanto começo a
afundar.
Então é isso.
É assim que o poderoso Executor encontra seu fim.
Poderia ser pior, eu acho.
Não me incomodo mais em lutar contra a água. Estou cansado demais. Pronto
demais para descansar.
Ela estará livre de mim agora. Ela provavelmente está a meio caminho de uma
sombra na qual pode se fundir. A ideia quase me faz sorrir.
Eu afundo no esquecimento, o pensamento dela é minha última prece.
CAPÍTULO 27

PAEDYN

Água jorra da minha boca.


Estou vomitando na ruela em ruínas pela qual rastejei. Ofegante, rolo de
costas, piscando para a luz do sol moribunda.
Estou viva.
Estou viva.
Estou tossindo, cuspindo e encharcado de sabe-se lá o quê, mas estou vivo.
Eu rio para o céu, meu corpo inteiro tremendo com a ação.
Eu praticamente consigo ouvir a Morte xingando meu nome. Meus ouvidos
zumbem, e eu estou tremendo da cabeça aos pés. Só de me puxar para fora do
túnel foi-
Meu coração dispara, gaguejando no meu peito.
Ele me salvou. Ele praticamente me levantou através daquela grade. Ele...
Eu o beijei. De novo.
E agora ele está morrendo no fundo de um esgoto.
Eu corro até a borda da grade, examinando freneticamente a água turva. Eu
posso apenas distinguir o contorno tênue de seu corpo enquanto ele afunda em
direção ao chão do túnel.
Minha mente acelera, meu coração segue.
Eu poderia deixá-lo. Eu poderia deixá-lo e acabar com isso. Porque ninguém
além dele poderia me pegar, ninguém além dele poderia me encontrar
novamente quando eu desaparecesse.
Esta é minha fuga. Esta é minha liberdade.
Isso está errado.
Puxo meu cabelo, minha frustração tomando forma física. Se eu salvá-lo,
posso estar me condenando. E, no entanto, foi exatamente isso que ele fez.
Salvar-me o fez afundar para a morte.
Balanço a cabeça para meu reflexo na água turva.
E então eu mergulho.
Não é nada gracioso. Meu rosto encontra a superfície no momento em que
me lembro de que não nadei um dia sequer na minha vida. O pânico pulsa em
mim, mas eu o empurro para o lado e forço minhas pernas a me impulsionarem
para a frente. Com braços e pés agitados, consigo nadar mais fundo.
Eu examino a água, encontrando-o flutuando a alguns metros de mim. Eu
chuto forte, me forçando para frente enquanto o alcanço. Eu envolvo um braço
em volta do seu peito, meus pulmões gritando por ar. Quando meus pés
encontram o chão do túnel, eu o empurro com as pernas trêmulas.
Nós cortamos a água, indo em direção à grade aberta acima. Eu chuto com
cada pedaço de luta que consigo encontrar, mantendo meus olhos no céu acima.
Minha mão alcança cegamente a borda da grade, tateando por algo para segurar.
Com os pulmões queimando em protesto silencioso, estou tentado a largar o
Enforcer e escalar para a liberdade.
Mas meus dedos escorregadios se enrolam na saliência antes que eu nos
levante. Minha cabeça rompe a superfície, e não perco um segundo antes de
engolir ar. Com uma mão agora segurando seu braço, uso a outra para me puxar
para a rua. Então deito de bruços, enganchando os dois braços sob seus ombros,
e o puxo para cima.
Sua cabeça balança acima da superfície, seus olhos fechados e o cabelo
desgrenhado como tinta escorrendo. Eu resmungo com o esforço de tentar
levantar a parte superior do seu corpo para a rua. Só agora consigo ver o que ele
trouxe consigo para o esgoto. Uma corrente balança em volta do seu pescoço,
praticamente o sufocando. Eu a tiro, sem pensar duas vezes enquanto a jogo de
lado para continuar puxando-o para cima, centímetro por centímetro.
Estou ofegante antes mesmo que metade do corpo dele esteja deitado nos
paralelepípedos, a outra metade ainda encharcada no esgoto. É uma luta virá-lo
de costas, mas de alguma forma consigo virá-lo. Sua cabeça pende para o lado,
olhos fechados contra o sol poente. Espero que algo aconteça, qualquer coisa.
Mas ele não está respirando.
Ele não está fazendo nada além de morrer.
Não era isso que eu queria?
— Não — murmuro. — Não. Eu não mergulhei de volta lá para você morrer.—
Dou um tapinha no rosto dele. Dou um tapinha mais forte. Então estou dando
um tapa nele como sempre disse que faria. Nada. — Não. Não.
Minhas mãos encontram o centro do seu peito e começam a bombear,
começam a tentar purgá-lo da água que ele engoliu.
— Vamos, Azer — eu sussurro. Minha visão ficou turva, mas não me incomodo
em reconhecer as lágrimas brotando em meus olhos. — Não seja dramático — eu
ordeno. — Abra seus malditos olhos.
Estou empurrando com força seu peito, implorando. Que patético. Não sei
por que me importo. É exatamente isso que eu deveria querer. Ter tentado o
meu melhor e ainda estar livre dele. Esta é a situação ideal. Posso me afastar
deste momento sem que a culpa me arraste de volta para ele pelo resto da minha
vida.
Então por que estou lutando contra as lágrimas?
— Vamos lá —eu sussurro, continuando meu bombeamento rítmico. —Vamos
lá, seu teimoso bastardo.
Suas pálpebras se abrem.
Eu pulo para longe dele, dando-lhe espaço para se virar e se lamentar. Uma
lágrima rola pelo meu rosto enquanto eu rio trêmula, o alívio inundando cada
pedaço do meu corpo tenso.
— Eu quase desisti de você.
Ele se arrasta completamente sobre a grade, respirando pesadamente para o
céu. Sua cabeça vira para o lado, os olhos me estudando intensamente. Ele tosse
antes de engasgar,
— Estou surpreso que você tenha se dado ao trabalho de tentar.
Concordo lentamente, permitindo que o que fiz se acalme.
— É um arrependimento com o qual terei que conviver.
Nós nos observamos, seus olhos cinzentos inabaláveis. Parece diferente, esse
olhar.
O olhar de duas pessoas que agora compartilham outro segredo. Nada mudou
entre nós e, ainda assim, nada será o mesmo novamente. As coisas que a Morte
nos fez dizer, o beijo que compartilhamos pensando que era o último, nunca
poderão ser desfeitos.
Já falhei duas vezes em resistir a ele e não vou deixar isso acontecer
novamente.
Esperançosamente.
Ele é meu inimigo, meu captor, minha escolta em direção à morte. Não vou
deixar que ele também seja minha fraqueza. Não de novo.
— Obrigado — ele murmura, com a voz rouca. — Você nunca deixa de me
surpreender.
— Aparentemente, nem você — eu digo suavemente, dedos roçando meus
lábios inconscientemente. Seu sorriso é rápido, distraindo em um momento, e
desaparece no próximo.
Desvio o olhar, sentindo-me irritantemente envergonhado. Cabelo molhado
está grudado no meu rosto, e levo meu tempo torcendo os fios. Ignoro a
sensação muito tangível de seu olhar em mim e se concentrar em acalmar minha
respiração, acalmar meu corpo trêmulo.
Hesito antes de me deitar ao lado dele.
— Obrigada também. — Minha voz é baixa. Cruzo as mãos sobre o estômago,
sentindo-me subitamente consciente do fato de que poderia facilmente
estender a mão e tocá-lo. — Você me salvou primeiro.
Ele me dá uma risada fraca.
— Estou chocado que você tenha admitido isso.
Reviro os olhos para as nuvens rosas acima de nós. Então suspiro, girando o
anel escorregadio no meu polegar.
— Lenny estaria me chamando de barata se estivesse aqui.
— Barata? — Ele vira a cabeça para olhar para mim. — Quer dizer, já fui
chamado de coisas muito piores, mas-
— Tenho certeza que sim — interrompi. — Especificamente por mim.
Sua risada é cansada.
— Isso eu tenho.
Fico quieta por um momento, contente em senti-lo me observando enquanto
olho para o céu acima.
— Ele diz que de alguma forma sempre consigo sobreviver. Lenny, claro.
Embora eu ainda esteja decidindo se isso é um dom ou uma maldição.
— Hmm — ele cantarola. — Se eu fosse um homem diferente, um homem
melhor, eu poderia te dizer que sobreviver é sempre um presente. — ele ri
sombriamente — Masvocê e eu sabemos que eu não sou. E que eu sei melhor do
que a maioria que sobreviver é, às vezes, mais doloroso do que a morte.
Concordo lentamente. Claro que ele entenderia. Ele sempre entende.
— Estou feliz por ter sobrevivido dessa vez, no entanto. Não era assim que eu
tinha planejado morrer.
Há um tipo de humor sério cobrindo sua voz.
— Você planejou sua morte?
— Eu planejei minha morte ideal. — Eu dou de ombros. — Eu nasci para
morrer. E quando você passa a vida inteira fugindo do inevitável, você pensa
muito sobre o fim. Eu acho que você poderia dizer que eu tenho uma
preferência.
Ele fica em silêncio por vários segundos.
— E qual seria essa preferência?
— O quê, tomando notas para quando o rei ordenar que você me mate? — Eu
rio levemente como se o pensamento não tivesse me mantido acordado à noite.
Mas eu continuo, sem esperar por sua resposta. — Eu quero um fim como
aqueles que eu mais amei. Esfaqueado no peito com um sorriso no rosto.
— Paedyn… — ele começa suavemente.
— É isso que eu quero — eu digo categoricamente. — Eu quero sentir o que
eles sentiram. Eu quero sentir como se estivesse com eles uma última vez
enquanto ainda estou vivo.
— Isso é... admirável, de uma maneira distorcida. — Ele fica quieto por um
momento, contemplando algo. — E lamento ter sido o primeiro a começar esse
padrão.
De repente, estou me sentando, me afastando dele. Gostaria de que ele não
tivesse dito isso, não tivesse se desculpado por ser o primeiro a esfaquear
alguém que eu amava. Gostaria que ele soubesse que meu pai era sua primeira
missão. Gostaria que ele tivesse mentido. Isso tornaria muito mais fácil odiá-lo.
— Você tem alguma preferência sobre como morrer? — pergunto, evitando
seu pedido de desculpas.
— Nunca pensei nisso.
Eu bufo.
— Claro que não. Porque pessoas como você não esperam morrer tão cedo.
— Talvez — ele diz suavemente. — Ou talvez eu esteja apenas tentando
ignorar o fato de que não sou imortal.
— Que sábio da sua parte, Executor.
Eu torço meu cabelo uma última vez enquanto examino o beco em que
rastejamos. Está escuro agora, ajudando a nos esconder na luz moribunda.
Estamos enfiados no canto de um beco sem saída, a grade do esgoto ainda
aberta aos nossos pés. Mas mesmo com as ruas sendo lentamente abandonadas
à noite, ainda não tenho intenção de sentar aqui à vista de todos que passarem
por este beco.
— Não é seguro aqui — começo. — Aqueles guardas vão estar procurando por
nós.
— Vamos falar sobre isso? — ele pergunta, de repente parecendo muito mais
próximo de mim. Ele está sentado agora, penteando o cabelo úmido para trás
com os dedos.
— Não faço ideia do que você está falando.
Uma risada arrogante.
— É mesmo? Posso te lembrar, se quiser?
— Foi um erro. — eu bufo, virando para olhar para seu rosto que está muito
perto. — Este e o anterior.
— O único erro foi não ter feito isso antes.
— L... Isso é… — Estou gaguejando. Ele sorri daquele jeito que me faz querer
dar um tapa nele. Então ele está se aproximando, lentamente roubando o
pequeno espaço que nos separa.
— Não — seus dedos percorrem meu pescoço para traçar meu queixo — o
erro foi provar você agora, então você provavelmente não vai me deixar fazer
isso de novo.
Eu engulo. Estremeço. Inspiro fundo.
Que a Praga me ajude.
Seu rosto está próximo o suficiente para que eu tome uma decisão ruim com
pouco esforço.
Dedos ásperos estão emaranhados em meu cabelo, roçando a pele sensível do
meu pescoço. Água escorre das pontas de seu cabelo, grudando em cílios
grossos ao redor dos olhos que encaram os meus com ardor.
— Você está certo — eu digo sem fôlego. — Eu não vou deixar você me beijar
de novo.
Mentira.
Estou me inclinando com cada palavra saindo dos lábios que querem
desesperadamente encontrá-lo novamente. O canto da boca dele se levanta,
chamando minha atenção.
— Você tem certeza disso? — Sua respiração é quente, me enchendo de calor.
Eu aceno distraidamente, meus pensamentos em qualquer coisa, menos em
manter minha palavra.
Uma mão calejada está segurando meu rosto, mais áspera do que a reverência
com que ele me segurou antes. Eu derreto em seu toque, inclinando-me mais
perto enquanto seus olhos se dirigem para meus lábios. É inebriante, vê-lo me
beber.
Ele se aproxima, sua mão percorrendo meu pescoço.
Minha respiração fica presa quando seus lábios roçam os meus e algo se
prende ao redor do meu tornozelo com um clique.
Eu me afasto, olhando para baixo para ver a corrente de metal que ele trouxe
do esgoto com ele. Uma única algema de tornozelo ocupa cada ponta da
corrente de três pés. E ele acabou de prender uma delas em mim.
— Que diabos-
Eu nem terminei de vomitar o resto do meu palavrão antes que ele estivesse
prendendo a outra ponta da corrente no próprio tornozelo. Meus olhos vão da
ponta dele para a minha, piscando para o pequeno comprimento que nos
amarrava.
Quando encontro minha voz, ela é enganosamente calma.
— O que você fez?
— Acabei de garantir que minha missão volte para Ilya comigo.
Eu pisco para ele; para a expressão vazia que ele colocou em seu rosto.
— Você... você nos acorrentou juntos?!
Ele dá de ombros.
— Era a única maneira de garantir que você ficaria comigo.
— E você… — Minha mente gira enquanto arrasto meus dedos pelo meu
cabelo. — Você planejou isso antes mesmo de sairmos da prisão. É por isso que
você tirou essa corrente da parede. — Eu balanço minha cabeça, zombando
enquanto me afasto dele. — Seu bastardo.
Eu me sinto doente. Eu me sinto usada. Eu me sinto culpada por isso. Porque
eu fiz isso comigo mesma. Não só salvei o Executor, mas também me deixei
desejá-lo. Mas isso não foi nada mais do que uma distração para o príncipe. Um
meio para um fim. E eu fui estúpida o suficiente para pensar que poderia ter
significado algo mais.
Os patéticos são punidos. E agora estou acorrentado ao meu captor.
— Paedyn-
— Não — interrompi baixinho. — Não diga meu nome.
Mágoa brilha em seus olhos, aparece em um piscar e desaparece no outro.
— Era o único jeito — ele diz calmamente.
— Sua missão precisa de um banho — eu digo categoricamente. — E uma
cama.
Ele me encara, parecendo procurar algo em meus olhos.
— Certo.
Fico de pé e ando com as pernas trêmulas até a corrente ficar esticada. Ela
puxa meu tornozelo, já tentadora de rasgar a pele. Eu me esforço para dar outro
passo, puxando sua perna.
Eu me viro e coloco uma máscara para abafar minha raiva e mágoa.
— Tente acompanhar, Príncipe.
CAPÍTULO 28

KAI

— Você está planejando falar de novo?


Estamos andando desajeitadamente pelas ruas secundárias da cidade há quase
uma hora, e ela não disse uma única palavra. A corrente arrasta entre nós,
saltando sobre paralelepípedos rachados como um lembrete constante do que
eu fiz.
Não tenho orgulho disso. Não tenho orgulho do que fiz para colocar aquela
algema no tornozelo dela.
Só posso imaginar o que ela anseia por gritar para mim, que pensamentos
estão ecoando em sua mente. Sei como ela pensa, então sei que ela supõe que foi
tudo uma manobra. Cada toque, cada palavra, cada beijo.
E eu queria que fosse. Eu queria não ter sentimentos nublando meu foco,
meu julgamento. Queria não precisar dela como preciso para completar esta
missão. É exaustivo, lutar contra cada impulso que me diz para explicar por que
fiz isso. Por que tenho que fazer isso.
Minha vida não é minha. E, por esse motivo, ela nunca poderá ser minha.
Como se isso importasse. Eu quebrei toda e qualquer confiança que foi
construída entre nós. E agora eu não sou nada mais do que eu tinha sido antes -
seu inimigo.
Ela silenciosamente me levou até onde sua mochila ainda estava escondida
sob os escombros de um prédio em ruínas, e rapidamente puxou um cachecol de
dentro dela para enrolar em seu cabelo identificável. Eu puxei uma bandana
úmida do meu bolso para amarrar na metade inferior do meu rosto, lembrando-a
de que nós duas estamos em perigo se uma de nós for reconhecida.
Ela não se dignou a responder àquela ameaça velada, e simplesmente
balançou a mochila nas costas e gesticulou para que eu a levasse em direção a
um banho e cama. E é exatamente isso que eu tenho feito na última hora.
Felizmente, a maior parte do que estávamos nadando no esgoto era a água
congelada usada para limpar o túnel, mas precisamos desesperadamente de um
banho e roupas limpas. Ambas as coisas serão difíceis com essa corrente nos
prendendo. Mas primeiro, encontramos um lugar com uma banheira.
— Não consigo imaginar você durando muito mais tempo sem dizer nada. —
Eu suspiro. A corrente arrasta entre nós, raspando o chão para preencher o
silêncio.
Ela não se incomoda em olhar para mim. Seus olhos estão na rua vazia diante
de nós, brilhando em azul nos últimos raios de sol. Acho que mereço seu
silêncio. Embora, para seu crédito, eu não achasse que duraria tanto tempo.
Eu viro para uma rua mais movimentada, sentindo a corrente morder meu
tornozelo com a tensão. Os comerciantes estão arrumando suas carroças para a
noite, atropelando descaradamente os dedos dos pés de qualquer um em seu
caminho. Eu sigo para o mercado principal, sentindo a corrente apertar
enquanto puxo Paedyn, forçando-a a acelerar o passo.
A corrente.
Eu paro abruptamente, sentindo suas palmas tocarem minhas costas antes
que seu nariz pudesse.
Virando-me para encará-la, ela parece estar olhando para qualquer lugar,
menos para mim. Agora eu perdi a paciência, como sempre. Minha mão encontra
seu queixo, gentilmente virando seu rosto em direção ao meu. Ela me sufoca
com um olhar que eu faço o meu melhor para ignorar.
— Você vai precisar roubar uma saia.
Ela ergue as sobrancelhas, o primeiro sinal de emoção que vejo nela desde.
que saímos da lareira.
— Não se preocupe — eu digo secamente — não estou pedindo para você falar.
— Apenas roube um pedaço de tecido, no mínimo.
— Eu gostaria de ver você tentar, na verdade. — Ela puxa minha mão para
longe do seu queixo, aparentemente surpresa pelo som de sua voz.
Eu abro um sorriso.
— Ela fala.
Ignorando-me, ela joga as mãos para cima em falsa inocência.
— Eu deixei meus dias de ladra para trás.
Eu balanço a cabeça antes de olhar por cima do ombro para a rua moribunda.
— Sim, você é uma santa. Agora, a menos que queira acabar em uma prisão
novamente, sugiro roubar algo para cobrir a corrente que vai chamar bastante
atenção para nós.
— E de quem é a culpa?", ela pergunta, cruzando os braços.
— Você é — digo, respirando fundo antes de continuar. — uma criatura
incrivelmente difícil.
— Ela ri asperamente.
— Talvez você devesse ter considerado isso antes de se acorrentar a mim.
— Sim, que descuido completo da minha parte. — Eu me afasto, dando a ela
uma visão clara da rua. — Agora vá me mostrar o que você pode fazer.
— Eu já mostrei, Príncipe — ela bufa, passando por mim. — Quando eu roubei
de você, lembra?
Ah, eu lembro.
Eu sigo atrás dela, observando enquanto ela espia a cabeça pela esquina do
beco. Eu me movo para ficar atrás dela antes que sua mão encontre meu peito,
me empurrando para trás sem se dar ao trabalho de olhar para mim. Não estou
acostumado a receber ordens, muito menos a ser empurrado para o lado. Mas eu
giro meu pescoço, engulo meu orgulho e dou um passo para trás para me
encostar na parede e observá-la trabalhar.
Várias carroças passam pela boca do beco em que estamos, mas ela fica
parada, não querendo o que estão vendendo. Depois de vários minutos, vejo seus
ombros tensos, seu corpo inclinado para frente em antecipação. E então vejo o
porquê.
Quando o próximo carrinho passa, ela não hesita antes de tropeçar nele. Com
braços agitados, ela derruba uma pilha de saias coloridas no chão. Se eu tivesse
piscado, teria perdido o chute sutil quando ela enfia uma saia embaixo do
carrinho.
— Sinto muito, senhor! — Sua voz saltou uma oitava, soando inocente e
ignorante. O comerciante xinga antes de olhar para cima para identificar o
culpado. Eu luto contra a vontade de quebrar o maxilar do homem quando seu
olhar suaviza a cada segundo gasto correndo os olhos avidamente sobre ela.
— Foi minha culpa, senhorita. — ele diz suavemente, movendo-se para apoiar
uma mão no ombro dela. — Você está bem? Foi uma queda e tanto.
— Muito melhor agora, obrigada. — Meus olhos rolam involuntariamente. Ela
se abaixa para pegar a pilha de saias antes de colocá-las de volta no carrinho
dele. — Estou tão envergonhada!
— Não precisa, minha querida. — A mão dele está de volta no ombro dela, e
estou pensando em quebrá-la. — Diga, se você não estiver ocupada agora-
— Na verdade, ela está ocupada.
Droga. Eu simplesmente não conseguia ficar de boca fechada, não é?
Os olhos do comerciante encontram os meus, como se me notasse pela
primeira vez. Ele não se incomoda em responder, apenas oferece um breve
aceno de compreensão. Com um último olhar demorado para Paedyn, ele se vira
para continuar empurrando seu carrinho pela rua, alheio à saia que deixou para
trás.
Paedyn rapidamente pega o pano do chão antes que o homem tenha a chance
de se virar e vê-lo. Então ela volta para o beco, levantando uma sobrancelha para
mim.
— O quê? — pergunto entre dentes.
Ela bufa.
— Possessivos, não é?
— Eu te acorrentei a mim. O que você acha?
Ela abaixa a cabeça, reprimindo um sorriso enquanto começa a desdobrar a
saia.
Para nossa sorte, os estilos em Dor consistem em tecido respirável feito para
envolver o corpo. A saia nada mais é do que uma grande folha de tecido
adornada com uma gravata, tornando fácil para Paedyn prendê-la sobre suas
calças finas.
— Pronto — ela murmura. — Eu daria uma volta, mas temo que a corrente não
permita.
Eu passo meus olhos por ela, observando a bainha da saia que se enrola em
volta dos seus pés para cobrir parte da corrente.
— Muito melhor. — eu digo, andando ao redor dela para examinar mais. —
Essa cor fica ótima em você.
Mal consigo dizer as palavras sem rir. A saia está tingida de um tom atroz de
amarelo, contrastando com seu colete verde esfarrapado e pele bronzeada.
— Você é hilário. Sério. — Sua expressão sem graça combina com sua voz. —
Estou feliz que posso te divertir.
Passo a mão pelo meu rosto, tentando tirar o sorriso idiota dele. Então estou
agachado na frente dela, olhando para ela em questão.
— Posso?
Engraçado o suficiente, essas são as palavras exatas que eu disse antes de
rasgar a saia do vestido que ela usou nas entrevistas. No entanto, não estou
planejando repetir a história no momento.
Empurro a saia para o lado para pegar sua bota. Ouço o começo de um
protesto antes de começar a enrolar o excesso de corrente em seu tornozelo. Ela
se acalma, observando o comprimento dos elos encolher entre nós até restar
apenas um pé.
Eu me levanto, abaixando a saia esvoaçante para deixá-la cair sobre o resto
da corrente que ainda nos separa.
— Pronto — suspiro. — É quase imperceptível. Mas você vai ter que andar
bem perto de mim. Talvez colocar seu braço no meu, convencer todo mundo de
que somos um casal. — Suas sobrancelhas voam para cima de sua testa. — Acha
que consegue lidar com isso?
— Eu tenho escolha? — ela bufa.
— Boa observação. — Eu concordo. — Tudo bem, vamos lá.
Ela cambaleia para frente quando dou um passo superficial.
— Calma, Azer — ela sibila perto do meu ouvido. O braço que ela envolve em
volta do meu fica mais apertado em um aviso silencioso. — Estou usando uma
saia horrível e uma corrente no tornozelo. Não force.
Eu dou um tapinha no braço dela com a outra mão, dando passos lentos para
a rua.
— Eu nem sonharia com isso, Gray.
Dizer o sobrenome dela só me lembra que ela não quer que eu diga seu
primeiro nome. Doeu, perder esse privilégio. Perder o direito de algo tão íntimo
quanto o nome dela saindo da minha língua. Mas vou respeitar o desejo dela,
mantendo o nome dela preso nos confins da minha mente.
Depois de vários passos vacilantes, encontramos um ritmo familiar, nossos
pés caindo no ritmo juntos. Os comerciantes passam apressados, sem nos dar
atenção enquanto correm para casa para passar a noite. Não demora muito para
que a rua esteja assustadoramente vazia, e Paedyn esteja soltando seu braço do
meu.
O sol se escondeu atrás de prédios em ruínas, afundando no horizonte para
dormir durante a noite. Caminhamos silenciosamente pelas sombras, seguindo a
rua até que uma pousada decadente se eleva sobre nós.
Coloco uma mão leve na parte inferior das costas dela, guiando-a em direção
ao prédio.
— Bem-vinda ao seu banho e cama.
CAPÍTULO 29

KAI

— O melhor de Dor, tenho certeza.


Ela parece séria, como se isso fosse o melhor que Dor tem a oferecer. E eu
não discordo.
Eu guio Paedyn ao redor da borda do prédio até a linha de janelas que
acompanham os quartos lá dentro. Depois de já termos sido capturados uma vez,
determinei que nossa opção mais segura é entrar furtivamente em um quarto em
vez de mostrar nossos rostos ao estalajadeiro.
Testo cada uma das janelas, procurando por uma que possa estar
destrancada. Quando uma delas levanta facilmente, espio minha cabeça para
dentro e encontro bagagem espalhada pelo chão. "Ocupada", sussurro para
Paedyn, que está na ponta dos pés tentando ver o interior. Continuamos para os
fundos do prédio, puxando as travas até que outra deslize para abrir. Agradeço à
Peste em voz baixa antes de me virar para uma Paedyn de olhos arregalados.
— Vazio.
Ela abre um sorriso que desaparece rápido demais. Eu me ajoelho diante dela,
alcançando seu pé para desfazer o excesso de corrente em volta do tornozelo.
Quando olho para cima, vejo olhos azuis arregalados.
— Não estou pedindo em casamento, não se preocupe. — murmuro. — Pise na
minha perna; eu te dou um impulso.
— Certo — ela murmura, desviando o olhar rapidamente. — A corrente é longa
o suficiente?
— Provavelmente não. — Dou de ombros levemente. — Vou descobrir.
Ela assente antes de colocar uma bota suja na minha coxa. Agarrando o
parapeito da janela, ela começa a se levantar com braços trêmulos. Coloco uma
mão sob sua coxa enquanto a outra empurra sua parte inferior das costas.
— Cuidado, Azer. — ouço ela sussurrar asperamente acima de mim.
Eu sorrio.
— Cavalheiro, lembra? Estou apenas ajudando você a invadir esta pousada."
— Que nobre. — Ela consegue se arrastar sobre o peitoril e entrar na sala. A
corrente puxa com força antes que eu tenha a chance de recuperar o fôlego.
Minha perna é puxada para cima, me forçando a pular e agarrar
desajeitadamente a saliência. É uma luta me puxar para dentro da sala com a
corrente emaranhada e esticada entre nós, mas consigo entrar praticamente
ileso.
Eu caí no chão rangente, o tornozelo latejando. Ela me olha na escuridão, sua
expressão presunçosa.
— Isso foi você “descobrindo”? Porque parecia que doía.
— Como o inferno. — Sento-me lentamente, passando uma mão pelo meu
cabelo bagunçado. — Obrigado pela sua preocupação.
Ela sorri, caminhando em direção ao banheiro até que a corrente está
puxando minha perna em sua direção.
— Me prometeram um banho." Ela franze a testa para onde eu ainda estou
sentado no chão. — Tenho que arrastar sua bunda até a banheira?
— Certamente — sorrio para ela — vá em frente e tente.
Ela joga a mochila no chão, me encarando enquanto desenrola o xale do
rosto. Cabelos prateados escorregam do cachecol, caindo em direção à cintura.
Meus olhos percorrem todo o comprimento antes de encontrar seu olhar
penetrante.
— Eu detesto você — ela diz simplesmente.
Eu pisco.
— Obrigado pelo lembrete.
— Só quero deixar isso bem claro, caso aconteça algo que faça você pensar
diferente.
Abaixei a cabeça para sacudi-la no chão.
— Como se você estivesse me beijando?
— Só para ficar claro — ela dá um passo mais perto, apontando um dedo
acusador para mim — você que me beijou. — Uma pausa. — Na primeira vez.
— E então você me beijou pela segunda vez — eu digo, levantando-me para
dar um passo lento em sua direção, limpando o espaço entre nós em um único
passo. — E eu acho que você mesma se odeia por querer fazer isso de novo.
Ela bufa desdenhosamente, virando-se para longe de mim.
— E o que te faz pensar que eu tenho vontade de fazer isso de novo?"
Eu dou de ombros.
— Você já fez isso duas vezes. Então olhe para mim e me diga que não fará de
novo. — Ela abre a boca para fazer exatamente isso, mas eu a interrompo com
um puxão na corrente que a faz tropeçar mais perto. — Sem bater o pé esquerdo.
Sua boca se fecha. Eu sorrio ao vê-la tão perturbada.
— Eu não vou fazer isso com você. — ela bufa, virando-se para o banheiro. —
Eu quero meu banho.
Ainda estou sorrindo enquanto ela me leva até a porta podre que nos separa
da banheira lá dentro. Ela gira, enfiando um dedo no meu peito.
— Você vai ficar aqui fora. — Então ela está empurrando a porta para espiar ao
redor do canto. — A corrente deve alcançar se você sentar do lado de fora da
porta.
— Que sorte. — Isso me rende um rápido tapa no estômago. Ela entra no
banheiro, arrastando a corrente por baixo da porta.
— Sente-se. — ela ordena, me dando um olhar severo antes de fechar a porta
parcialmente. Eu obedeço, sentando-me no batente empenado com madeira
cutucando minhas costas.
Eu me esforço para ignorar o som de roupas molhadas batendo no chão.
Então, sendo o cavalheiro que sou, traço os bosques na floresta, tentando ocupar
meus pensamentos com qualquer coisa, menos ela. Eu paro ao som de seu
murmúrio.
— Está tudo bem aí?
— Além do fato de que estou tentando tomar banho com uma corrente no
tornozelo?
Ela continua resmungando, momentaneamente distraída.
— Vou ter que lavar essas calças junto com o resto de mim, já que elas não
vão sair tão cedo. Acho que tenho uma blusa extra na mochila...
O som de água jorrando e canos rangendo abafa suas palavras. Esta deve ser
a única pousada em toda Dor com água corrente. Talvez esta seja realmente a
melhor delas.
Ouço-a espirrar na banheira, a ação puxando minha perna até a metade do
banheiro. O silêncio se estende entre nós, interrompido apenas pelo som
ocasional de água espirrando. Inclino minha cabeça contra o interior do batente
da porta, ouvindo-a.
— Posso ouvir seus dentes batendo daqui.
— É, bom, a água não está exatamente morna — ela responde.
Não penso em minhas próximas palavras antes de perguntar a eles.
— Por que você mergulhou de volta no esgoto por mim?
Não consigo ver o rosto dela, mas não é difícil imaginar o olhar de surpresa
que provavelmente está iluminando-o.
— Eu... eu não poderia me deixar tirar outra vida. — Sua voz fica mais suave a
cada palavra. — Tenho sangue suficiente em minhas mãos.
— As pontas dos seus dedos, talvez. Mas não suas mãos. — eu digo
calmamente. — Três vidas dificilmente são o suficiente para manchar sua alma.
Eu saberia.
— Então você encontrou o soldado no deserto. — ela diz lentamente.
— Encontrei. Mas achei que ele merecia.
Água espirra por trás da porta.
— É o que continuo dizendo a mim mesma. Mas não parece justo alguém
decidir que sua vida vale mais que a de outra. — Eu a ouço respirar fundo. — E foi
exatamente isso que eu fiz.
— Eu conheço esse sentimento. — murmuro.
Ela fica quieta por vários, lentos batimentos cardíacos.
— Eu estava no telhado, sabia. Vi você encontrar o Imperial que eu matei.
Minha respiração fica presa.
Engolindo em seco, tento manter minha voz firme.
— Sério? Então por que ainda estou vivo?
— Porque… — Um suspiro. — Porque você ia enterrá-lo para mim. Assim
como você fez com Sadie naquele primeiro Julgamento. E ver você ajoelhada ali,
ver você carregar aquele homem sobre seu ombro para mim, apesar de tudo… —
Ela para, limpando a garganta. — Eu simplesmente não consegui me obrigar a
jogar aquela faca.
Não consigo ver o rosto dela, e uma parte tímida de mim é grata por isso.
— Você poderia ter se livrado de mim duas vezes agora. Você sabe disso, não
sabe?
A voz dela é baixa.
— Eu sei.
— Você se arrepende?
Minha pergunta a silencia por vários segundos antes que ela sussurre:
— Vou me arrepender amanhã.
O som das minhas palavras para ela na masmorra tem um leve sorriso
puxando meus lábios. Fecho os olhos, contente em deixar o silêncio se estender
entre nós. Não demora muito para que ela esteja de pé na banheira, me deixando
para ouvir o som da água pingando de seu corpo.
— Você pegaria a camisa da minha mochila e jogaria aqui?
A ideia de recusar é bem tentadora, mas eu pego a mochila dela. Eu já tinha
esvaziado as inúmeras armas que ela tinha escondido lá, deixando-a
praticamente desocupada. Eu cavo até encontrar uma camisa cinza fina enrolada
firmemente em um caderno gasto.
Tirando os dois, desenrolo o diário enrolado antes de folhear as páginas
esfarrapadas.
— Que livro é esse aqui? — pergunto enquanto jogo a camisa pela porta
entreaberta.
Ela está parada bem do lado de fora da porta agora, sua sombra pintando o
chão ao meu lado.
— Era do meu pai. A maior parte cheia de trabalho e teorias de um Curador.
Eu posso ouvir a mágoa em sua voz, por mais que ela tente esconder. E eu
odeio ser a causa disso. Quando não consigo encontrar minha voz, ela fala em
vez disso.
— É, eu salvei da casa que você queimou até o chão.
Ela diz isso levemente, como se não tivesse sido afetada pelo evento.
— Sobre isso… — eu começo, passando a mão pelo meu cabelo.
— Não diga que sente muito. Por favor. — Quando ela fala em seguida, sua voz
é suave, delicada. — É mais fácil assim.
Eu aceno, sabendo que ela não consegue ver. Sabendo exatamente o que ela
quer dizer. Sabendo que pedir desculpas pelo que fiz a ela só me torna mais
humano. Torna mais difícil para ela me odiar.
A porta range ao abrir quando ela passa por ela. A blusa larga pende de seu
ombro, ficando úmida com o emaranhado de cabelo molhado caindo por suas
costas. Com uma toalha desfiada na mão, ela volta para o quarto para secar suas
calças encharcadas.
Depois de torcer bem suas roupas, ela se enrola na toalha e se joga no
batente da porta.
— Sua vez.
CAPÍTULO 30

PAEDYN

Estou trançando meu cabelo quando ele sai do banheiro.


Sai do banheiro sem camisa.
Uma mecha de cabelo escorrega entre meus dedos. Eu me levanto, olhando
para qualquer lugar, menos para o peito bronzeado e as calças úmidas
penduradas em seus quadris. Gotas de água estão pingando de seu cabelo para
rolar por seus ombros, arrastando-se em direção ao corpo abaixo. Não que eu
tenha notado.
— Você já usou uma camisa? — pergunto casualmente, com os olhos na
trança que estou mexendo.
— Eu lavei, então precisa secar. — Olhos cinzentos se voltam para os meus. —
Se eu estiver distraindo você, por favor, me avise.
Eu zombo como se não fosse exatamente isso que ele está fazendo. Enquanto
atravesso o quarto, ele é forçado a me seguir até que eu me jogue no colchão
fino. Ele se eleva sobre mim, iluminado apenas pelo luar que entra pela janela,
despenteando agressivamente seu cabelo molhado com uma toalha.
— Você está pingando água na minha cama — digo, me afastando mais do
colchão.
Ele olha para mim por baixo da toalha.
— Desculpe, sua cama?
— Sim, minha cama.
— Não, eu ouvi você — Ele diz simplesmente. — Só estou tentando entender
por que você está dizendo isso.
— Porque eu não vou dormir com você. — Ele me lança um olhar, ao qual eu
rapidamente reformulo: — Eu não vou dormir nesta cama com você.
Ele não faz esforço algum para esconder o quão engraçado ele acha isso.
— E por que isso? Não é como se nunca tivéssemos compartilhado uma cama
antes.
— Então você continua se lembrando de mim. — Volto minha atenção para a
trança negligenciada. — Sim, antes.
Antes de cada traição que aconteceu entre nós.
— Bem, você não tem muita escolha. — Ele acena para a corrente pendurada
frouxamente entre nós
— Você poderia pendurar a cabeça do outro lado da cama — eu digo
docemente.
— Por que não você, já que é você que está tão desesperada para ficar longe
de mim? — Ele dá um passo para mais perto da cama, seus joelhos roçando a
colcha. — Não tenho problema em dormir ao seu lado.
Balanço a cabeça em aborrecimento, mudando para o outro lado da cama que
de repente é estreita demais para o meu gosto. O colchão afunda quando ele se
senta ao meu lado. Ignorando-o, levo meu tempo desfazendo a colcha fina e
deslizando por baixo dela para me enterrar nas cobertas.
Está congelando, o ar gelado tenta meus dentes a bater. Não tenho certeza de
quando de repente ficou tão frio, mas o cabelo úmido grudado no meu pescoço
certamente não está ajudando. Puxo a colcha sobre meu queixo antes de enfiar
minhas mãos geladas sob cada coxa.
— Você está sacudindo a cama. — ele diz calmamente.
— E você é mais que bem-vindo para ir embora se isso estiver te incomodando
tanto.
Posso ouvir o sorriso em sua voz.
— Você está tremendo desde o banho.
— Você diz isso como se se importasse com o meu bem-estar. — A corrente
faz um barulho alto quando me viro de lado e olho para a escuridão.
— Não, mas eu me importo com meu bem-estar. E eu prefiro não ficar
acordado a noite toda com você tremendo.
— Falou como um verdadeiro cavalheiro. — eu zombo.
Ficamos em silêncio, nada além do leve bater dos meus dentes para
preencher o espaço. Ele fica parado ao meu lado, tanto que presumo que ele
tenha adormecido. Isto é, até o colchão afundar atrás das minhas costas, e eu
praticamente rolar para ele.
— O que diabos você está-
Seu peito encontra minhas costas.
Eu tento de novo.
— Que diabos-
— Shh.
Minha boca se abre.
— Estou esperando uma explicação melhor do que essa.
— Calma, Gray. — Uma mão roça meu quadril, me fazendo pular contra ele. —
Não consigo dormir com você balançando a cama, e você não consegue dormir
quando está congelando. Isso é melhor para nós dois.
— É mesmo? — Eu começo. — Porque eu-
— Praga — ele ri contra meu ouvido. — Só finja. Finja que não nos odiamos
nesses momentos, lembra? — Abro a boca para protestar, mas o braço que ele
envolve em volta da minha cintura me faz fechá-la bruscamente. — Tudo isso
significa que somos úteis um para o outro.
Eu enrijeço um pouco o corpo contra ele.
Úteis um para o outro.
A frase dói mais do que deveria. Eu me odeio por odiar como ela soa saindo
da língua dele. Porque útil é a extensão do nosso relacionamento.
O máximo que vamos significar um para o outro.
— Tudo bem — eu digo, irritado com o som da minha voz trêmula. — Finja.
Com isso, permito-me derreter em seu calor quando ele me puxa para mais
perto.

Estou enredada em seus braços e presa na corrente que nos mantém unidos.
Pisco na luz do sol nebulosa que entra pela janela, sentindo o calor dela
cobrir meu rosto. Seu braço está quente contra minha bochecha, dedos
espreitando por baixo do meu cabelo desgrenhado. Posso sentir sua respiração
profunda mexendo em meu cabelo, aquecendo meu pescoço.
Ele está confortável. Ele está contente.
Ele está fingindo.
O pensamento me faz desembaraçar dele, começando com o braço
pendurado confortavelmente em volta da minha cintura. Agarrando seu pulso, eu
o jogo para trás, sem me preocupar em ser gentil. Então estou sentada, puxando
fios do meu cabelo de seus dedos.
Ele se mexe antes de rapidamente se sentar sobre os cotovelos. A colcha
desliza pelo seu peito nu enquanto ele me observa com olhos sonolentos,
acompanhando cada mão enquanto eu coloco meu cabelo sobre um ombro.
— Você esqueceu uma mecha.
Olho para cima ao som de sua voz áspera.
— Bom dia para você também. — Passo a mão pelo meu pescoço,
encontrando o fio esquecido caindo pelas minhas costas. Ele me observa
enquanto finjo não sentir seu olhar viajando pelo meu rosto.
— E agora? — pergunto distraidamente. — Hora de me arrastar de volta para o
deserto?
O pensamento de retornar a Ilya sangra em um igualmente sombrio, e meu
coração dói com o lembrete repentino do meu egoísmo. Fiquei tão preso ao
Executor que segura meu destino em suas mãos que ainda não pensei em meus
amigos; os Mixes vivendo na miséria. Preocupo-me com Lenny, Leena, Finn e
todas as outras almas que foram gentis o suficiente para me ajudar. Acredite em
mim.
Por favor, estejam seguros. Por favor.
Se eu soubesse a quem ou a que rezar, eu o faria.
— Não exatamente. — A cama se move quando ele se levanta, me forçando a
levantar também. Ele anda até o banheiro, entrando para pegar sua camisa
úmida da banheira. Não sei por que desvio o olhar quando ele a puxa pela
cabeça, mas a ação parece íntima demais.
— Vamos cortar por Dor — ele diz, voltando para o banheiro. — E então cruzar
o Santuário das Almas.
Soltei uma risada sem humor.
— O Santuário das Almas? O terreno rochoso infestado de bandidos? — Eu
zombo. — Acho que prefiro o Escaldante.
Sua voz está levemente abafada pela porta rachada.
— Papai me mandou lá várias vezes. Nós ficaremos bem.
Engulo em seco ao lembrar de seu treinamento torturante.
— Bem, você estava acorrentado na última vez que visitou?
Ele fica em silêncio por vários segundos.
— Eu sempre fui... desafiado quando estava lá fora. — Mais silêncio. — Então,
como eu disse, ficaremos bem.
Quando ele sai do banheiro, ele está carregando um fardo de roupas nos
braços, pretendendo jogá-lo no chão para o estalajadeiro encontrar. Um lampejo
de verde oliva familiar chama minha atenção, e eu arranco o colete de suas mãos.
— Isso não — eu estalo. Suas sobrancelhas se levantam com meu tom - uma
pergunta silenciosa. — Adena fez para mim — eu digo baixinho, limpando minha
garganta constrangida. — E-eu fiz uma promessa a ela.
Ele acena lentamente, aparentemente hesitante.
— O Julgamento final. Eu... eu vi acontecer. Vi você segurá-la. —Um músculo
treme em sua bochecha. — Ouvi você gritar.
Desvio o olhar, sentindo a emoção começar a se acumular em meus olhos.
— Ela me fez prometer que usaria para ela. — Passo a mão sobre a bainha
áspera. — E planejo fazer exatamente isso.
Limpando a garganta, eu encolho o colete sobre os ombros. Eu odeio o jeito que
ele está me observando, como se estivesse pronto para juntar os pedaços
quando eu inevitavelmente quebrar. Ele suspira pelo nariz, abrindo a boca para
dizer...
Um estrondo alto na porta o interrompe.
— Sim! Quem está aí?
O homem bate na porta trancada, sacudindo as dobradiças enferrujadas. Kai
acena para a janela, seus olhos ainda fixos na porta. Eu caminho levemente em
direção à nossa fuga enquanto enrolo o lenço em volta da minha cabeça,
empurrando os fios prateados de cabelo para dentro dele. Quando chegamos à
janela, estou calçando minhas botas e rapidamente jogando uma perna sobre o
peitoril antes que o resto do meu corpo o siga. Kai está bem atrás de mim,
pulando do peitoril quando ouço a porta se abrir.
— Ei! Voltem aqui, seus bastardos!
Nós saímos da cena com membros sonolentos. Estou tropeçando, tentando
enrolar a saia em volta de mim enquanto Kai joga nossas roupas sujas para trás.
Uma risada sobe pela minha garganta antes de sair da minha boca. O príncipe
olha para mim, e eu vejo seu sorriso antes que ele puxe a bandana sobre o rosto.
Eu o ouço rir enquanto entramos em um beco, desviando de carroças rolando e
mercadores xingando.
— Pare-os!
Eu viro minha cabeça, avistando o que só pode ser o estalajadeiro. Seu rosto
está vermelho e manchado de raiva enquanto ele corre atrás de nós, apontando
um dedo grosso em nossa direção.
— Parem esses dois!
A visão dele só me faz rir mais alto, enquanto o som disso só faz o sorriso de
Kai aumentar por baixo da bandana. Eu aperto os olhos nos raios do sol
nascente, evitando por pouco aqueles que circulam pela rua dos comerciantes.
— Por aqui — Kai grita por cima do ombro, agarrando minha mão para me
puxar para um beco. Ele arranca um chapéu grande de uma carroça que passa —
uma tentativa desleixada de roubo. O comerciante grita atrás de nós enquanto
cortamos por mais algumas ruas, a corrente raspando o paralelepípedo abaixo de
nós enquanto tento abafar minha risada. Não consigo deixar de achar tudo isso
muito divertido, e estou um pouco preocupado com o porquê.
— Precisamos despistá-lo — Kai murmura depois que outro grito ecoa na
esquina. Estou prestes a dizer algo quando ele de repente me puxa para outro
beco e me empurra contra a parede em ruínas.
— O que você está-
— Finja, Gray. — ele sussurra, prendendo-me contra a parede com seu corpo.
Antes que eu tenha a chance de questioná-lo, ele desamarrou minha saia com
uma mão e a jogou no chão. Eu pisco para o tecido amassado aos nossos pés
antes que sua mão guie meu rosto de volta para o dele.
Vejo a ordem em seus olhos, a necessidade de ouvi-lo, só dessa vez.
Então, não o afasto quando sua mão desce pelo meu pescoço para tirar o
lenço da minha cabeça.
Porque isso é fingimento. Isso é um plano.
Ele coloca o chapéu flexível na minha cabeça, prendendo minha trança
bagunçada dentro dele.
Então ele se inclina mais perto, puxando a bandana do rosto. Sua mão livre
está firme no meu quadril, empurrando minhas costas contra a parede. Eu
respiro fundo quando sua cabeça abaixa sob meu queixo.
O roçar dos seus lábios me faz engolir em seco.
Sua boca se move levemente, deixando um rastro de beijos pela minha pele.
Minha respiração fica presa quando uma mão segura meu rosto para dobrá-lo
em direção a ele e para longe da rua. Ele se move lentamente pelo meu pescoço,
seus lábios ficando menos hesitantes enquanto seguem o caminho da minha
cicatriz irregular.
— Kai… — Minha voz soa ofegante, embora não fosse isso que eu pretendia.
— Finja — ele respira contra minha pele, me fazendo tremer.
Ao som de gritos se aproximando e passos fortes, ele puxa minha cabeça e o
chapéu em cima dela para mais baixo. Seu corpo está pressionado contra o meu,
o rosto enterrado no meu pescoço e escondido sob a aba deste chapéu horrível
que estou usando.
O grupo de homens que agora está à nossa caça passa sem dar um passo em
nossa direção. Não somos nada além de um casal apaixonado, afinal. Apenas dois
amantes querendo ser deixados sozinhos.
Amantes.
A ideia de que os outros nos percebam dessa forma me faz engolir em seco.
Ele chegou ao fim da minha cicatriz, beijando a cavidade da minha clavícula.
Mais abaixo e seus lábios encontrariam outra cicatriz gravada sobre meu
coração, me marcando até a morte. O pensamento me faz empurrá-lo para longe
de mim e me afastar de seu aperto.
Ele dá um passo para trás, respirando pesadamente. Olhos cinzentos colidem
com os meus, nadando com uma emoção que não me incomodo em tentar
decifrar. Depois de um longo momento, ele pisca, dando-me um breve aceno de
aprovação. Sinto minhas bochechas queimando e puxo o chapéu para baixo para
me proteger de seu olhar penetrante.
Ele observa enquanto eu tiro a poeira da saia antes de enrolá-la na cintura,
dando tempo para meu rosto esfriar. Então ele limpa a garganta antes de enrolar
a corrente várias vezes no meu tornozelo, fechando a lacuna entre nós.
— Pronto? — ele pergunta casualmente, como se eu tivesse imaginado os
últimos cinco minutos.
Tudo bem. Se ele não pensa em nada sobre isso, eu também não.
Então ajeito meu chapéu, aceno brevemente e passo meu braço pelo dele.
CAPÍTULO 31

KITT

A caixinha na minha mesa está enterrada sob pilhas de pergaminho manchado.


Eu escondo lá sempre que tenho vontade de pensar muito na minha decisão.
A decisão que Calum me garantiu ser a certa. No entanto, lembrar-me dos três
B's do meu pai para se tornar um grande rei ajudou a me convencer ainda mais.
Meus dedos tamborilam na mesa de madeira, o som é oco e áspero.
Ouço uma batida rápida, os nós dos dedos na porta ecoam as pontas dos
meus dedos na mesa.
— Entre.
Dobradiças gemem antes que um Imperial mascarado espie a cabeça para
dentro da sala.
— Vossa Majestade. Desculpe minha interrupção, mas você me informou para-
— Então não há sinal dele?
Ouço o Imperial engolir em seco.
— Não, Majestade. Nenhum dos seus homens também.
— E dela?
— Nada, Majestade.
Ele já deveria ter voltado. Já faz mais de duas semanas, e ele já deveria ter
voltado. Ele deveria tê-la trazido para mim. Ou talvez ele tenha a levado para
outro lugar. Talvez ele nunca tenha pretendido trazê-la de volta. Talvez ele tenha
fugido com ela. Talvez eles estejam fugindo de mim juntos. Porque ele já deveria
estar de volta. Porque-
— Meu Executor já deveria estar de volta.
— Sim. — O homem concorda fervorosamente. — Ele deveria estar, Vossa
Majestade.
— Continue procurando nos limites da cidade.
— Sim, Alteza. — Ele olha de soslaio para a porta, praticamente implorando
para ser dispensado.
— Vá.
Com um breve aceno de cabeça, ele sai pela porta antes de fechá-la
suavemente atrás de si.
Passo a mão manchada de tinta pelo rosto.
Ele sempre cumpria suas missões. Bem, ele sempre cumpria suas missões
para o Pai. Mas eu não sou ele, sou? Ele me lembrava disso todos os dias. E então
ele passava o resto do dia treinando meu futuro Executor. Aquele que já deveria
estar de volta. Aquele que está fugindo com ela. Ou de mim. Ou da vida dele.
Rasgo o pergaminho espalhado pela minha mesa, cavando até meus dedos
encontrarem aquela pequena caixa que enterrei embaixo.
Eu olho para isso como faço todos os dias.
O reino acha que enlouqueci.
Acho que fui a algum lugar. Um lugar mais escuro, talvez.
Ouço servos sussurrando enquanto passam pela minha porta, vejo os
imperiais me observando quando ando pelos corredores.
Eles acham que estou louca de tristeza por um homem que sentiu pouco
mais do que decepção e obrigação por mim.
Que absurdo.
Que absurdo lamentar um homem que amava o poder mais do que seus
filhos. Que absurdo lamentar um homem que não me ofereceu elogios. Que
absurdo lamentar um homem que nunca poderia ser satisfeito.
Como é injusto lamentar a morte de um homem assim.
Então, não vou mais. Já terminei com isso. Sério.
Sinto falta de quem eu era antes de encontrá-lo com uma adaga enterrada no
pescoço. Sinto falta do irmão que eu era para Kai e Jax, sinto falta dos dias
suados no ringue de treinamento. Sinto falta de fugir das bolas para beber até o
nascer do sol. Sinto falta de fugir da responsabilidade em geral.
Kai e eu éramos bons. Principalmente depois de Ava. Nós nos tornamos
impossivelmente mais próximos a cada noite que ele passava lutando contra as
lágrimas no meu quarto. Lembro-me de roubar álcool do porão pela primeira vez
depois de tudo, lembro-me de cuspir o primeiro gole.
É estranho que algumas das melhores lembranças de agora não sejam do
momento.
Embora eu duvide que eu vá gostar da vida que estou vivendo agora tão cedo.
Eu posso nem viver o suficiente para olhar para trás e sentir saudades dos dias
que odiei.
Meus dedos roçam o topo da caixa, sentindo o significado dela a cada
passada. Não quero odiar todos os dias. Talvez eu não tenha que odiar todos os
dias. Talvez seja melhor assim...
Reviro os ombros, os que agora carregam o peso esmagador deste reino.
E então consigo encontrar uma folha de pergaminho relativamente limpa.
Esta carta é para ele.
Pelo homem que estou farta de lamentar.
Esta carta é endereçada à dor que ele me deixou para enfrentar.
A dor que ele não merece me fazer sentir.
A próxima carta é para ela.
Elas geralmente são.
Ela é uma ótima musa.
Ou talvez ela seja fácil de pensar, fácil de traduzir em palavras.
Eu coloco meus pensamentos na página.
Ela já deveria ter voltado.
Outra mancha de tinta.
Ela já deveria ter voltado.
O papel rasga sob minha mão pressionando.
Ela já deveria ter voltado.
Acrescento o pergaminho à pilha.
CAPÍTULO 32

KAI

— Corte…
Franzo a testa, esperando que ela continue.
— Por favor — ela consegue dizer entre dentes à mostra. Recompenso sua
educação com um sorriso e um pedaço de maçã levado aos seus lábios. Seus
dentes a arrancam da minha palma, me mordendo por pouco no processo. O que
ela tentou. Várias vezes.
Ela me encara de onde está sentada no topo do telhado. A luz do amanhecer
salpica seu rosto e os fios de cabelo prateados espreitando por baixo do
cachecol.
— Isso é realmente necessário?
Ela está falando sobre a corda com que amarrei seus pulsos, é claro.
— Ah, você sabe exatamente por que é necessário.
Depois de um longo dia de caminhada até os arredores mais tranquilos da
cidade, conseguimos subir no telhado de um prédio decadente onde ela teve a
coragem de puxar uma faca para mim enquanto eu dormia. Acordei com o som
dela abrindo a fechadura em volta do tornozelo antes de segurar a lâmina na
minha garganta. Estou um pouco preocupado que ela tenha conseguido pegar
uma arma sem meu conhecimento. Mas a luta cansativa terminou com as duas
mãos amarradas atrás das costas com uma tira de lona velha que eu tinha
encontrado. Só então consegui descansar um pouco.
— Eu não deveria tentar escapar do meu captor? — ela pergunta, exasperada.
— Eu não sou exatamente o tipo de pessoa que vai embora silenciosamente.
— Obviamente não — suspiro, oferecendo a ela outra fatia de maçã. Ela a pega
a contragosto, odiando que eu a esteja alimentando.
— Quanto tempo isso vai durar? — Ela balança os dedos para mim por trás das
costas.
— Até que a vontade de me matar passe.
Ela solta uma risada.
— Então parece que vou ficar amarrada para sempre.
— Que pena — digo distraidamente, usando a faca que ela encontrou para
cortar lascas de maçã para mim.
Percebo o rápido rolar de olhos dela.
— Corte.
Isso está se tornando um tanto desagradável para nós dois. Cortei outro
pedaço para ela antes de estender a mão para levá-lo aos seus lábios. — Estamos
quase na metade do caminho para Dor. Se fizermos um bom tempo hoje, e não
tivermos problemas, podemos fazer-
— Corte.
Fechei os olhos, respirando profundamente por um momento antes de
alimentá-la com outro pedaço.
— Como eu estava dizendo — respiro, parecendo mais calmo do que sinto —
podemos chegar ao Santuário das Almas em alguns dias.
— Perfeito. — Seu sorriso é enganosamente doce. — Um marco mais perto da
minha morte.
Desvio o olhar para a rua abaixo de nós, sem querer pensar na possível
verdade nas palavras dela. Odeio não saber o que Kitt planeja para ela. Ou pior, o
que ele planeja que eu faça com ela.
— Bem, é melhor não deixar o rei esperando, hmm? — Ela se esforça para
ficar de pé, olhando para mim enquanto acrescenta — Especialmente porque
estamos pegando o caminho mais longo de volta para Ilya. Não queremos que ele
pense que algo aconteceu com você.
O tom dela é de zombaria, tentando mascarar o que ela realmente está
sentindo. Eu sei melhor do que a maioria como é isso. Então eu não digo nada
enquanto fico de pé, estudando seu rosto e as emoções que ela se recusa a me
deixar ver. Mas é a mão que ela acena para mim de suas costas que rouba minha
atenção.
— Preciso dos meus braços para descer."
Eu sorrio levemente.
— Eu poderia te pegar lá embaixo.
— Essa corrente me puxaria do telhado antes mesmo de você chegar lá.
— Tudo bem — eu digo simplesmente. — Então você vai me derrubar até o
fundo.
Um som de aborrecimento sobe de sua garganta. Eu rio levemente antes de
diminuir a distância entre nós, observando seus olhos passarem rapidamente
entre os meus. Ela fica parada quando eu alcanço suas costas, roçando seus
lados antes de agarrar suas mãos amarradas.
Só quando ela abre a boca para me repreender é que eu corto a lona com
minha faca, segurando seu olhar o tempo todo. Suas mãos se libertam com um
estalo, o som esticando um sorriso suave em seus lábios.
— Então você não quer que eu caia para a morte?
Ela está perto, cheirando levemente ao sabão barato da pousada. Dou de
ombros.
— Não se você for me puxar para baixo com você.
— Bem, essa é a única maneira de eu me permitir morrer.
Estou sorrindo antes mesmo de ter a chance de me conter. Então, estou
esticando a mão para prender fios prateados soltos de cabelo em seu cachecol,
meus dedos roçando suas têmporas. A sensação de sua pele faz minha mente
vagar de volta para o beco onde minha boca estava em seu pescoço, sentindo seu
pulso acelerar sob meus lábios.
É preocupante o quanto ela é tentadora.
Ela tinha o gosto de um privilégio, parecia um sonho.
Foi um esforço de pura força de vontade me afastar, me afastar dela.
Mas era tudo fingimento, afinal. Pelo menos é o que eu continuo dizendo a
mim mesmo.
Passo a mão pelo cabelo antes de puxar a bandana sobre o nariz.
— Pronta? — pergunto, nos levando até a beirada do telhado.
— Não faria diferença se eu não estivesse — ela diz alegremente.
Eu balanço a cabeça e balanço para o lado do prédio, segurando a borda alta
do telhado enquanto minhas pernas balançam abaixo de mim. Paedyn faz o
mesmo, esforçando-se enquanto começa a descer cuidadosamente. Nós lutamos
para descer a parede do prédio, usando cada rachadura na pedra como um lugar
para encaixar nossos dedos e pés.
A corrente tilinta entre nós quando finalmente pulamos para o chão. Minha
mão arde, e olho para baixo para encontrar uma fina linha de sangue florescendo
na minha palma, cortesia de uma pedra irregular. Ignorando, vejo-a enrolar a
maior parte da corrente em volta do tornozelo antes de se endireitar. Então ela
hesitantemente enfia o braço no meu enquanto partimos pelas ruas de Dor.
A periferia da cidade está assustadoramente vazia, abrigando apenas
moradores de rua e aleijados.
Viver tão longe das principais ruas do mercado não é uma escolha, é uma
punição. Os banidos são empurrados para os arredores, deixando-os para se
defenderem por comida ou fazerem a caminhada até os becos do mercado.
Mas é mais seguro viajar pela fronteira, onde há menos pessoas para nos
reconhecer, especialmente com a notícia de nossa fuga da prisão provavelmente
se espalhando. Nós fazemos um bom tempo, precisando apenas desviar de
alguns vendedores ambulantes persistentes conforme o dia passa.
É só quando passamos pelo quarto folheto de seu rosto que ela o arranca da
parede da loja.
— O quê? — ela diz, percebendo o olhar que eu lanço para ela. — Estou
doente de olhar para mim mesma.
Ela está prestes a amassar o pôster quando eu o arranco dela.
— Deixa eu ver isso. — Eu facilmente evito o golpe de sua mão, levantando o
pergaminho acima da minha cabeça.
— Você é insuportável — ela bufa, finalmente desistindo. — O que você
poderia querer com isso?
— Comparar com a original — eu digo simplesmente, segurando a foto ao lado
do rosto dela. Ela quase se permite rir disso. Meus olhos vão entre ela e o pôster,
examinando cada característica. Eu o devolvo a ela em questão de segundos. —
Sardas insuficientes.
— Insuficientes… — Sua cabeça vira em minha direção, confusão franzindo sua
testa. — O que você quer dizer com sardas insuficientes?
— Quero dizer — digo sem olhar para ela, — que eles não desenharam sardas
o suficiente
Ela bufa.
— Sim, eu ouvi isso, mas-
Um homem corpulento sai de um beco, bloqueando nosso caminho. O braço de
Paedyn aperta levemente o meu enquanto seus olhos passam por nós, parando
ao ver uma corrente presa no meu tornozelo. Dou um passo, incitando Paedyn a
se mover ao redor dele quando seu rosto de repente se abre em um sorriso.
— Caramba — ele grita — você realmente tem uma bola e uma corrente, hein?
Pela primeira vez, estou aliviado com tal comentário. Deixe-o pensar o que
quiser, desde que não saiba quem somos. Com isso em mente, eu jogo junto.
— Sim, e ela é claramente uma mão cheia.
Vou pagar por isso mais tarde. Posso sentir isso na maneira como ela aperta
meu braço.
Eu descanso minha mão nas costas de Paedyn, guiando-a para frente
enquanto o homem ri.
— Você certamente a colocou na coleira!
Seu corpo inteiro fica tenso, pronto para rasgar o homem em pedaços. Deslizo
minha mão em volta de sua cintura, prendendo-a contra mim para que ela não
faça nada precipitado.
— Bem, não posso deixá-la fugir de mim, posso?
Sua risada some atrás de nós enquanto passamos por ele e descemos o beco.
Espero a cotovelada que ela dá em minhas costelas antes que o golpe acerte.
— Isso — ela diz suavemente — é o mínimo que você merece.
— O que exatamente você queria que eu fizesse? — murmuro. — Dito a ele
por que você está acorrentada a mim?
Ela não se incomoda em responder enquanto andamos no ritmo da rua.
Caminhamos em silêncio por vários minutos, mantendo a cabeça baixa e o ritmo
uniforme. É só quando um grupo de homens sai na nossa frente que vacilamos.
São quatro, todos grandes e desajeitados. Um homem dá um passo à frente
com um sorriso zombeteiro, aquele do qual escapamos há poucos minutos.
— Sabe — ele diz, balançando um dedo para nós — achei que você parecia
familiar, garota. — Ele tira um pedaço de pergaminho amassado do bolso,
segurando-o para que víssemos o rosto de Paedyn olhando de volta. — Então
esta é o infame Paladina Prateada, hein?
Apoio uma mão nas costas de Paedyn quando ele dá um passo lento em nossa
direção.
— E isso deve fazer de você o Enforcer enviado para buscá-la para seu pequeno
rei. Ouvimos sobre sua fuga de Rafael. Mas ele capturou vocês dois facilmente. —
Seu sorriso só aumenta. — Vamos ganhar muito por esses dois, caras. A
aberração da Elite não pode derrubar todos nós. Na verdade, não acho que o
Executor seja tão poderoso quanto pensávamos.
Olho para a direita, observando o beco vazio ali.
— Eu odiaria dizer isso, mas...
— Eu sei — ela murmura de volta antes de sair correndo.
Nós derrapamos no beco, tropeçando na corrente enquanto Paedyn luta para
desenrolá-la do tornozelo. Gritos ecoam atrás de nós, seguidos de perto pelo
som de passos trovejantes. Eu agarro a mão dela enquanto ziguezagueamos
pelas ruas irregulares, focando em manter os pés abaixo de nós.
— Não vamos despistá-los assim — ela diz, me puxando para uma nova
direção.
— Eu sei — eu digo, enxugando o suor que arde em meus olhos. A próxima
direita que fazemos nos leva em direção a um de nossos perseguidores, nos
forçando a derrapar até parar e dar meia-volta. — Alguma ideia brilhante? —
pergunto sem fôlego.
— Eu estava prestes a te perguntar a mesma coisa. — Ela mal consegue evitar
um velho que manco em nosso caminho. Viramos outra esquina, esta rua mais
cheia que as outras. Sem dizer uma palavra, ela está me puxando em direção a
um prédio mal iluminado e abrindo a porta.
Nós quase tropeçamos para dentro, passando de piscar no sol ofuscante para
ficarmos envoltos em sombras. Eu examino a sala, observando as cadeiras de
veludo e as mesas de jogo. O espaço é enfumaçado, ajudando a esconder os
rostos dos homens bebendo e jogando. Mulheres rondam a sala com roupas
finas, procurando um colo vazio para sentar.
— Você acabou de nos levar para um clube de cavalheiros — murmuro ao lado
dela.
— É claro que você saberia o que era isso — ela sussurra asperamente. — E
agora?
— Agora — eu digo, deixando minha mão roçar a parte inferior das costas dela
— nós nos misturamos
Eu puxo o chapéu flexível da mochila pendurada em seu ombro e rapidamente
arranco o cachecol de sua cabeça. Então eu puxo o chapéu para baixo sobre seu
rosto, prendendo os restos de sua trança bagunçada nele.
— Entre no jogo, tudo bem? — Eu murmuro, envolvendo um braço em volta de
sua cintura. — Tire seu colete. É reconhecível.
Ela obedece pela primeira vez, dobrando o tecido em sua mochila para
deixá-la apenas com uma camisa fina pendurada em um ombro bronzeado.
Então eu a puxo em direção a uma cadeira vazia sentada em uma das muitas
mesas de jogo. Alguns homens cercam o jogo, espiando ao redor das mulheres
em seus colos para separar as cartas em suas mãos, fumaça saindo dos charutos
pendurados em seus lábios.
Afundo lentamente na cadeira de veludo antes de puxar Paedyn para o meu
colo. Ela se senta ereta e rígida até que minhas mãos encontram seus quadris
para acomodá-la contra meu peito.
— Solte-se, meu bem — sussurro em seu ouvido. — Parece que pertencemos
a este lugar.
Ela assente levemente, a aba do chapéu quase me atingindo no rosto. Sinto-a
derreter contra mim, convincentemente mais confortável com o lugar onde está
empoleirada em cima da minha coxa. Mantendo uma mão pendurada
frouxamente em seus quadris, uso a outra para sinalizar à mesa para me dar as
cartas. Depois de jogar os poucos xelins que tenho no feltro, um homem me joga
várias cartas.
Ela se vira para que sua bochecha fique contra a minha e lentamente envolve
um braço preguiçoso em volta do meu pescoço. É só uma desculpa para
sussurrar sem parecer suspeito, mas eu luto para desacelerar meu coração
acelerado, no entanto.
— O que você está fazendo, Azer? — ela murmura, seus lábios roçando minha
bochecha.
Engulo em seco ao sentir isso.
— Você paga para jogar — eu respiro. — E não jogar só vai atrair mais atenção
para nós.
Ela exala contra minha pele de um jeito que me faz limpar a garganta.
— Me lembre de roubar seu dinheiro de volta no final disso. — Com isso, ela
está se virando para a mesa para assistir os homens colocarem suas cartas.
Seria mentira dizer que não estou familiarizado com um clube de cavalheiros,
embora o de Ilya pareça muito mais limpo do que este. Mas sei como esses jogos
são jogados e, muito mais importante, como vencê-los.
— Duvido que você precise fazer isso, querida. — Coloco uma carta na mesa
gasta. — Não pretendo perder.
Os homens ao redor da mesa se revezam, frequentemente trocando as
mulheres que decoram seus colos. Sinto Paedyn tenso cada vez que uma garota
é trocada, odiando como os homens descartam uma só para passar as mãos em
outra.
Não demora muito para que uma mulher se esgueire para envolver seus
braços em volta dos meus ombros. Sua voz é alta e ofegante quando ela se
oferece para tomar o lugar de Paedyn. Mas quando abro minha boca para
recusar, não é minha voz que ouço.
— Este colo está tomado — Paedyn diz friamente, puxando-se para mais
perto com o braço ainda pendurado em volta do meu pescoço. Com um bufo, a
mulher assente e se vira para encontrar outro corpo para aquecer.
Um sorriso malicioso se espalha lentamente pelo meu rosto. Eu me inclino
para frente para olhar para ela, mas ela está teimosamente me ignorando para,
em vez disso, focar no jogo que se desenrola diante de nós. Querendo chamar
sua atenção, eu largo minhas cartas na mesa para puxar seu queixo em minha
direção.
— O ciúme fica bem em você, Gray. — murmuro, meus dedos ainda segurando
seu queixo.
Seus olhos se movem rapidamente entre os meus, cheios de um fogo familiar.
— Não estou com ciúmes.
Meu olhar demora em seus lábios antes de viajar por todo o seu comprimento.
— Então você está linda.
Ela zomba, virando o rosto do meu abraço.
— Por que você não se concentra em não perder, hmm?
Abro a boca para argumentar que a culpa é dela por eu estar distraído
quando a porta se abre de repente, inundando o quarto com uma luz forte.
Dois homens conhecidos entram, aparecem na porta e nos procuram.
CAPÍTULO 33

PAEDYN

— Você trouxe a sua, hein?"


Eu tiro meus olhos dos dois homens aglomerados na porta para piscar para o
que está ao nosso lado. A mulher no colo dele usa um chapéu de penas que fica
precariamente sobre sua cabeça, provavelmente derrubado pelo homem prático
em que ela está empoleirada.
O comentário dele fez minhas bochechas esquentarem. Eu desprezo esse
lugar. E desprezo ter que agir como nada mais do que um brinquedo bonito.
A mão de Kai aperta meu quadril.
Não seja precipitada. Estamos sendo observados.
É isso que ouço em seu abraço, na maneira como ele me puxa de volta
possessivamente para seu colo. Sua ordem silenciosa me faz relaxar contra seu
peito enquanto espio sob a aba do meu próprio chapéu absurdo os dois homens
que agora examinam a sala. Eles parecem inocentes o suficiente, como se
estivessem decidindo em qual mesa desejam jogar. Mas seus olhos estão
procurando, estudando cada pessoa em seu caminho.
— Ela é meu amuleto da sorte. — Kai diz simplesmente, ganhando algumas
risadas da mesa. Ele envolveu seu braço completamente em volta da minha
cintura, inclinando-se para descansar seu queixo em meu ombro nu. Com sua
bandana puxada de seu rosto na luz fraca, a barba por fazer em seu maxilar faz
cócegas em minha pele, me fazendo tremer.
— O que você acha, meu bem? — ele pergunta contra meu ouvido, segurando
as cartas na minha frente. Ele diz isso alto o suficiente para a mesa ouvir, como
se fosse uma rotina regular para nós dois.
— Hmm. — Inclino minha cabeça contra a dele, sentindo sua respiração em
minha bochecha. Então, estou esticando a mão para tocar em uma carta. — Esta
aqui.
— Essa é minha garota — ele murmura, colocando o carta na mesa.
O jogo continua, embora eu não esteja prestando atenção, com a maneira
como seus dedos estão espalhados em meu estômago. Olho para os homens que
nos procuram, encontrando-os lentamente caminhando em direção à nossa
mesa. Sei que Kai também percebe quando ele abaixa o rosto para perto do meu
para se esconder sutilmente sob meu chapéu.
Não consigo evitar enrijecer a cada passo que nossos perseguidores dão.
Estou pronta para pular do colo de Kai e correr se for preciso. Meus dedos
mexem na saia atualmente pendurada sobre a corrente no meu tornozelo,
amontoando o tecido nas minhas palmas suadas.
Uma mão firme corre por todo o meu lado, ganhando minha atenção total.
— Relaxa, Gray — ele sussurra contra meu ouvido. Sua palma viaja pelo meu
quadril até a perna abaixo, me agarrando abaixo do joelho para me puxar
impossivelmente para mais perto. — Fingir, lembra? — Sua voz é uma carícia,
imitando a mão que agora corre sobre minha coxa.
Certo. Fingir.
Isso é tudo o que há entre nós. Cada toque, cada olhar, cada momento
genuíno.
Fingir.
Eu me viro, virando de lado para jogar minhas pernas sobre seu colo.
Fingir.
Minha mão encontra sua nuca e meus dedos penteiam seu cabelo.
Fingir.
Nada significa nada com ele. E é isso que eu continuo dizendo a mim mesma.
Seu foco está fixo em mim e longe do jogo em questão.
— Estou distraindo você? — pergunto docemente.
— Quando você não está?
— Hmm. Seu coração está batendo forte, Príncipe — sussurro em seu ouvido
ao senti-lo trovejando sob seu peito.
— É um jogo acirrado — ele murmura. — E eu não estou acostumado a perder.
Eu zombo baixinho.
— Não, você está acostumada com esse seu rosto bonito e título te dando
tudo o que você quer.
Ele se afasta o suficiente para me olhar nos olhos, permitindo-me vislumbrar
a emoção espreitando pelas rachaduras em sua máscara. Seu olhar cinza viaja
pelo meu rosto, absorvendo cada centímetro desgrenhado de mim.
— Nem tudo.
Eu pisco. Ele me encara até que um homem sinaliza para ele jogar. É só
quando olho para ver a carta que ele jogou que vislumbro os dois homens
caminhando em direção à nossa mesa. O queixo de Kai encontra meu ombro
novamente para esconder seu rosto sob a aba do chapéu. Sua mão roça meu
quadril para cima e para baixo, ajudando a me manter relaxada contra seu peito.
Fingir.
É o que eu faço quando os homens param para ficar ao lado da mesa. Eu
brinco com o cabelo de Kai, envolvendo meus braços em volta do seu pescoço.
Fingir.
Minha mão livre passa os dedos pelo seu maxilar com barba por fazer antes
de descer pelo seu pescoço.
Fingir.
Estou fingindo ignorar o fato de que os homens agora estão olhando
diretamente para mim, assistindo ao show que estou fazendo para eles. Posso
sentir seus olhos percorrendo nós e os rostos que estão parcialmente
escondidos. Quando tenho certeza de que deveria estar pulando de pé e
correndo, eles se cansam de nós e se viram para observar outra mesa.
Eu exalo, inclinando minha testa contra a bochecha de Kai.
— Eles se foram.
Um músculo se contrai em sua mandíbula.
— Bom trabalho, Gray.
Sento-me um pouco ereto ao ouvir seu tom, ao lembrar que tudo isso era
estritamente para misturar
— Você já quase perdeu? — eu digo rigidamente.
Ele está distraído.
— Sua fé em mim é inspiradora.
— Você pode apressar isso? — digo baixinho.
Ele coloca uma carta na mesa.
— O quê, você tem um lugar melhor para estar?
— Sim. — eu digo secamente. — Não no seu colo.
Ele abaixa a cabeça, rindo contra meu pescoço.
— É mesmo? — Eu tremo quando sua mão lentamente envolve minha cintura
novamente, dedos calejados roçando a pele nua onde minha blusa está subindo.
Concordo lentamente.
— Estou entediada.
Seus lábios roçam meu maxilar.
— Não, você não está.
Eu luto contra a vontade de me virar e encará-lo completamente.
— E o que te faz pensar que eu não sou?
— Chame isso de palpite. — ele murmura contra meu ouvido antes de colocar
uma carta que faz os homens ao redor da mesa gemerem. O jogo termina com
murmúrios raivosos e a pilha de xelins brilhantes sendo empurrada em nossa
direção.
Kai rapidamente joga as moedas na minha mochila com um olhar insuportável
de satisfação.
— Parece que você não vai precisar roubar ninguém hoje, querida.
— Que pena. — murmuro. — Estava tão ansiosa por isso.
Com uma risada, Kai praticamente me levanta do seu colo e me coloca de pé.
Ele fica logo atrás, colocando uma mão firme na parte inferior das minhas costas.
Nós seguimos para a porta em um ritmo casual, como se não valêssemos uma
quantia absurda a mais do que acabamos de ganhar.
Lanço um último olhar por cima do ombro para os homens que nos procuram,
encontrando-os conversando com uma mesa do outro lado da sala. E então
estou passando pela porta para piscar na luz ofuscante do sol. Viramos
cautelosamente na esquina, examinando cada rua antes de caminharmos por ela.
Leva quase uma hora de caminhada antes de nos sentirmos seguros o
suficiente para diminuir o ritmo e baixar a guarda, mas mantemos a cabeça baixa
quando passamos por um retardatário ocasional tão longe do coração da cidade.
Meus pés arrastam com exaustão, minhas pálpebras ameaçando fechar. Kai
percebe isso, é claro, e começou a puxar a corrente quando meus passos ficam
lentos.
— Você fez um bom trabalho lá atrás. — Kai diz calmamente, quebrando nosso
longo silêncio.
— Não é muito difícil sentar no colo. — Eu cantarolo com desdém.
— Ah, sentar é fácil. — ele argumenta. — É a parte de ficar bonita que pode
ser difícil. Bem — ele acrescenta sinceramente — não na minha experiência. Mas
tenho certeza de que outros podem ter dificuldades com isso.
— Você pensa muito bem de si mesmo. — Eu rio apesar de mim mesma.
— Alguém tem que fazer isso. — Sua acusação seguinte faz minha cabeça virar
em sua direção. — Já que você ainda está negando que me acha bonita.
— Bom, eu não te acho bonito.
— Sabe, eu quase acredito em você. — Ele me lança um olhar perplexo. —
Você é bem convincente. Especialmente durante sua performance no meu colo.
Viro o rosto antes que ele possa ver o rubor florescendo em minhas
bochechas.
— Bem, eu tenho muita prática em fingir. Tenho feito isso a minha vida
inteira.
À menção da farsa que é minha vida, minha habilidade psíquica, só me lembro
das muitas pessoas que foram arrastadas para ela. Aqueles que eram cúmplices
despretensiosos, danos colaterais em minha performance. Olhos verdes suaves e
um sorriso fácil surgiu em minha mente. O novo rei era a última vítima da minha
farsa, da minha traição.
Tiro a mochila dos ombros para tirar um pão meio comido que roubei da
carroça de um mercador — assim como faço com toda a nossa comida.
— Você acha que ele está preocupado com você? — pergunto entre mordidas
de pão. Quando Kai levanta as sobrancelhas em questionamento, acrescento: —
Kitt?
Engulo em seco. É a primeira vez que me refiro ao rei pelo nome e não pelo
novo título. Parece estranho na minha boca, como se pertencesse à memória de
alguém que eu conhecia. E, de certa forma, pertence.
— Se ele está preocupado — Kai suspira — é porque estou com você.
Eu bufo.
— O quê, ele acha que eu estou querendo assassinar toda a realeza?
Então ele olha para mim completamente, olhos vagando pelo meu rosto.
— Ele não tem ideia do que você está querendo fazer.
— Não estou aqui para fazer nada — digo defensivamente. — Tudo o que
quero é um Ilya unificado. E eu certamente não tinha intenção de matar o rei
naquele dia. Ele veio até mim, lembra? Como se estivesse esperando o momento.
— Desvio o olhar, balançando a cabeça.
— Você ainda matou o rei. Você é uma criminosa-
Minha risada amarga o interrompe.
— E o que isso faz de você? Um santo?
Ele para abruptamente, praticamente me puxando para ele com a corrente.
— Eu nunca aleguei ser nada além de um monstro. — Suas mãos estão
segurando meus ombros, apesar de sua voz ser enganosamente suave. — Mas eu
também não tinha intenção de matar seu pai naquele dia. Na verdade, eu não
tinha intenção de me transformar na casca de homem que sou hoje. Mas eu fiz. E
eu pago por isso todos os dias.
Eu pisco para ele, diante da nossa mudança abrupta na conversa.
— O que você quer dizer com não tinha intenção de matar meu pai?
— Eu não tinha intenção de me tornar um assassino naquele dia. — Ele faz
uma pausa, soltando meus ombros como se tivesse acabado de perceber que os
estava sacudindo. — Eu não sabia em que consistiria minha primeira missão. E eu
não iria fazer isso depois que descobrisse. — Ele passa a mão pelo cabelo
bagunçado. — Ele estava dormindo, e eu não ia fazer isso. Eu ia sair pela porta e
lidar com as consequências. Mas então ele acordou. Ele me olhou bem nos olhos,
e foi quando eu estava de repente enfiando a espada em seu peito. Ele balança a
cabeça. — Ele nem sequer pegou uma arma. Não se moveu nem um pouco. E
ainda assim, eu o atravessei de qualquer maneira. No meu estado de pânico, fiz
exatamente o que o rei esperava que eu fizesse. — Ele fica em silêncio por um
longo momento, engolindo seu orgulho antes de acrescentar, — Eu tropecei para
fora da sala e vomitei antes mesmo de voltar para meu cavalo. Eu não queria
fazer isso, Gray. Eu não ia fazer isso.
Dou um passo para trás, piscando para conter as lágrimas enquanto olho para
qualquer lugar, menos para ele.
— Não era o que você queria ouvir, era? — ele diz asperamente. — Torna mais
difícil para você me odiar.
Eu me viro lentamente, retomando meus passos lentos pela rua.
— Mais difícil, talvez — eu digo suavemente. — Mas não impossível.
CAPÍTULO 34

KAI

A periferia da cidade está assustadoramente deserta.


A cada passo mais perto do Santuário das Almas, menos pessoas
permanecem. É de se esperar, considerando os bandidos que assombram esse
canto da cidade. Passamos por estranhos nervosos ocasionais, correndo para
encontrar o caminho de volta para uma rua lotada.
Olho de soslaio para Paedyn. Ela está girando aquele anel no polegar há
várias horas, enquanto consegue olhar para qualquer lugar, menos para mim.
Odeio quando é assim. Quando não falamos. Quando ela age como minha
prisioneira.
— Sua trança está caindo.
Na verdade, não está. Mas eu sou patético e não consegui pensar em uma
maneira melhor de quebrar o silêncio. Falar sobre o cabelo dela é melhor do que
não falar nada. Ela agarra a aba do chapéu, olhando ao redor para encontrar
algum olhar errante. Quando ela considera que a costa está limpa, o chapéu
escorrega de sua cabeça para deixar a trança cair por suas costas.
— Segura aí. — ela ordena, colocando o chapéu em minhas mãos.
— Aí estão essas maneiras adoráveis. — murmuro, observando-a lutar com o
nó na ponta da trança. É insuportável assistir, realmente. — Só me deixe fazer
isso.
— Absolutamente não. — Ela ri. — A última vez que você trançou meu cabelo,
estava uma bagunça, lembra?
— Eu estava sem prática.
A emoção passa rapidamente pelo rosto dela.
— Bem, tenho certeza de que você aprimorou suas habilidades desde então.
Fiquei confuso apenas por um momento antes de perceber.
Ela acha que eu estive com outras mulheres.
O pensamento quase me faz rir, mas mesmo assim eu jogo junto.
— Isso te incomoda, Gray?
Ela entra em uma rua lateral escura, me puxando com ela.
— Você vai dar um jeito nisso, ou eu vou?
Ela ainda está tentando desfazer a trança quando me encosto na parede.
— Isso não foi uma resposta.
— O que você quer que eu diga? — ela bufa, chicoteando a trança atrás dela.
— Que você trançar o cabelo de outra mulher me incomoda? Isso é patético, e eu
não vou dizer.
Suspiro, dando um passo atrás dela para juntar o que sobrou da trança em
minhas mãos.
— Bom, eu não fiz isso. — Consigo desembaraçar a alça e passo meus dedos
pelos cabelos dela.
— Não fez o quê? — ela pergunta rigidamente.
— Não trancei o cabelo de nenhuma mulher além do seu. — eu digo
suavemente. — Bem, o seu e o da Ava.
Sinto sua espinha se endireitar contra meus dedos.
— Ava? — Ela ri sem graça. — Deixe-me adivinhar, uma das suas muitas
amantes? Talvez uma que você realmente gostou?
Fico em silêncio por um longo momento, engolindo a emoção subindo pela
minha garganta.
— Sim, eu gostava dela. Até a amava.
— Ótimo ouvir.
— Ela era… — Solto um suspiro. — Ela era a própria vida. Cada pedaço de bom
que me faltava.
Ela olha por cima do ombro, mas eu empurro seu rosto de volta para a parede.
— Por que você está me contando tudo isso? Para me deixar com ciúmes?
Eu sorrio.
— Não há razão para ter ciúmes-
Ela interrompe minhas palavras.
— Sério? Porque parece que-
— Da minha irmã. — termino, falando por cima dela.
Acho que ouvi seu maxilar fechar.
— Eu… — ela gagueja, procurando palavras. — Eu não...
— Não sabia que eu tinha uma irmã? — digo simplesmente. — Claro que não
sabia. Você e o resto do reino não deveriam saber.
O cabelo dela escorrega das minhas mãos enquanto ela se vira para mim.
— O que você quer dizer?
Meus dedos pegam seu queixo, virando-a gentilmente de volta para a parede
do beco para que eu possa juntar seu cabelo entre meus dedos mais uma vez.
Ela nasceu há onze anos - seu aniversário foi há quase três semanas. Por
casos de saúde, minha mãe supostamente não teria mais filhos. Mas Ava foi
inesperada. Não planejada. — Respiro fundo. — O parto foi... difícil. Quase
perdemos a rainha por causa disso. Me lembro de sentar ao lado da cama dela,
segurando a mão da minha mãe enquanto os Curandores faziam o melhor que
podiam.
A trança está na metade das costas dela agora, seu cabelo liso em minhas
mãos.
— Ava não deveria sobreviver ao parto, mas ela foi um milagre apesar de todas
as probabilidades.
— O que… — Paedyn começa hesitante — o que aconteceu?
— Ela estava doente. Os curandeiros disseram que ela não teria muito tempo
de vida. E por causa disso, o pai ordenou que ela fosse mantida em segredo do
reino. Ele não queria que notícias de uma rainha frágil e sua filha doente se
espalhassem. Aparentemente, membros da realeza doentes são uma vergonha.
Um sinal de um rei e reino fracos. — Reviro os ombros, sentindo a tensão e a
raiva crescendo ali. — Então Ava estava escondida, era um segredo mantido por
toda a equipe. Ainda é.
— E aí? — Paedyn pergunta suavemente.
— Ela tinha quatro anos quando a doença a levou para longe de mim. —
Engulo em seco. — Aprendi a trançar por causa dela. Ela era fraca, e arrumar o
próprio cabelo era algo com que ela lutava. Então aprendi a fazer isso por ela. Eu
usava qualquer desculpa para passar um tempo juntos. Eu suportava cada
pedaço de treinamento que o rei me fazia passar porque sabia que ela estava me
esperando do outro lado. — Amarro a trança de Paedyn com dedos trêmulos. —
Ela tinha um cabelo preto e grosso e lindo. Olhos grandes e cinzentos como os
da minha mãe. Todo mundo brincava dizendo que ela era a versão mais bonita de
mim. E quando eu olhava para ela, via as melhores partes de mim.
— Kai… — Paedyn começa. — Eu não sabia.
— Ela não deveria jamais colocar os pés fora do castelo que a prendia —
continuo.
— Não era para ter feito isso? — ela pergunta baixinho. — Parece que ela fez.
Um sorriso suave levanta meus lábios com a lembrança.
— Ah, ela fez. Eu me certifiquei disso. Quando ficou claro que a doença a
levaria a qualquer momento, eu a levei para os jardins uma noite. Ela me jogou
água gelada da fonte, pegou o máximo de flores que pôde. — Eu paro. — E ela riu.
Pragas, apesar de tudo, ela sempre riu. Sua essência era contagiante.
O silêncio se estende entre nós enquanto Paedyn lentamente se vira para
mim.
— Você nunca fala sobre ela.
Desvio o olhar, dando de ombros como se a tristeza de tudo isso não
estivesse me engolindo por inteiro.
— Dói demais. Kitt também nunca fala sobre ela. Ele sabe que não deve. Mas
todos a amavam. Todos sabem que não se deve falar muito sobre ela quando
estou por perto. — Passo a mão pelo cabelo. — Mesmo na morte, ela ainda
parece um segredo. E eu quero falar sobre ela, eu quero. É egoísta, na verdade.
Mas toda vez que olho para mim mesmo, vejo uma versão mutilada dela.
— Sinto muito. — Paedyn sussurra, seus dedos hesitantemente roçando o
topo da minha mão. — Eu não tinha ideia.
— A maioria das pessoas nunca vai. — eu digo amargamente. — Mesmo depois
que ela morreu, o rei, o pai de Ava, se recusou a contar ao reino sobre ela. Ela
está enterrada sob aquele salgueiro nos jardins. Aquele sob o qual você me
encontrou naquela noite durante as Provas. — Eu vejo a reconhecimento
arregalar seus olhos. — Eu a visito sempre que posso.
— É por isso que você estava lá. — ela murmura.
Eu balanço minha cabeça para os paralelepípedos irregulares sob meus pés.
— Eu queria te contar. Mas nunca pensei que realmente contaria.
Sua palma encontra meu braço, gentil e insegura.
— Obrigada por me contar. — Ela parece tímida. — E sinto muito por Ava.
Sorrio levemente, desesperada para aliviar o clima e pensar em qualquer
coisa, menos na minha irmã morta.
— Então, eu nunca trancei o cabelo de uma amante. E dificilmente acho que
minha irmã de quatro anos seja alguém para se ter ciúmes.
Um sorriso rápido levanta seus lábios em compreensão. Ela está familiarizada
com o som de uma mudança de assunto.
— Como se eu fosse ficar com ciúmes para começar.
Suspiro aliviado com a disposição dela de brincar comigo.
— É fofo quando você finge que não fica.
Um rápido rolar de olhos antes de ela passar os dedos pela trança.
— Nada mal, Azer. Não estou totalmente convencida de que você não tem
praticado com alguém.
— Só você, meu bem.
— Hmm — ela cantarola, jogando o cabelo sobre um ombro. — Que fofo. — Eu
olho para o sol poente. — Vamos nos mexer. Podemos ir um pouco mais longe
antes do anoitecer.
Pego seu chapéu gigante de onde o joguei no chão. Ela bufa quando o coloco
em sua cabeça e sobre seus olhos. Depois de levantar a aba para me encarar, ela
prende a ponta de sua trança antes de sairmos para a rua deserta.
— Você está pisando na minha mão.
A bota dela está esmagando os dedos que coloquei no degrau da escada.
— Ah, opa.
— Sim, opa.
— Não consigo ver nada aqui em cima — ela sussurra para mim.
O celeiro em que entramos furtivamente está engolido pela sombra, e o loft
acima dos estábulos ainda mais. Estamos quase fora de Dor agora, e qualquer um
disposto a enfrentar o Santuário das Almas para aqui para um passeio por ele.
Cavalos zurram suavemente abaixo de nós, acomodando-se em seus estábulos
para a noite.
A algema esfrega contra meu tornozelo machucado quando ela se puxa para
cima do celeiro. Eu tateio meu caminho escada acima até que me deparo com
tábuas de madeira surpreendentemente resistentes. Eu rolo de costas com um
suspiro, respirando o cheiro de feno e dos animais que o comem.
O ombro dela roça o meu enquanto ela se deita ao meu lado. A sensação disso
faz minha mente correr com a lembrança dela no meu colo. Eu empurro o
pensamento de lado, assim como já fiz várias vezes.
— Você acha que ninguém nos viu entrando aqui? — ela sussurra.
Eu balanço a cabeça, enfiando feno no meu cabelo.
— Não acho que tenha alguém aqui fora para nos ver.
Ela fica em silêncio por um longo tempo.
— Continuo esperando que ele me encontre.
A palha continua me esfaqueando enquanto viro minha cabeça em sua
direção.
— Esperando que quem te encontre?
— Lenny — ela sussurra. — Ou qualquer uma das poucas pessoas que ainda se
importam comigo.
— Tenho certeza de que eles procuraram por você. — digo, ignorando a culpa
crescente que me recuso a sentir.
— Você já matou Mixes? Ou só Comuns até agora?
Eu enrijeço um pouco com a mágoa em sua voz.
— Não encontrei nenhuma Mix em Ilya. Bom, não percebi o que eles eram se
eu tivesse. Mas agora que sei como é o poder limitado deles, não duvido que eu
vou.
— E então você os matará.
— Eu não disse isso.
— Você não precisou — ela cospe. — Eles são exatamente o que você e o resto
do reino temem que seus poderes diminuam.
Solto um suspiro.
— Eles são o começo do fim dos Elites.
— E o que há de errado nisso, se significa que todos vão viver? — ela sussurra,
implorando para que eu entenda.
O silêncio nos cerca, interrompido apenas pelo barulho abafado dos cavalos.
— Sua mãe era uma Comum? — pergunto finalmente.
— Sim — ela diz simplesmente. — Ela morreu de doença quando eu era um
bebê.
— E seu pai era um Curador?
— Você já sabe disso.
— Então… — eu digo lentamente — como é que você é uma Comum?
— O que você está… — Uma pausa. — Do que você está falando?
Eu dou de ombros, farfalhando o feno sob meus ombros.
— Você não deveria ser uma Mix, então? Isto é, enquanto sua mãe fosse, bem-
— Pense muito cuidadosamente sobre suas próximas palavras, Azer — ela diz,
enganosamente calma. — Porque se você estivesse prestes a sugerir que minha
mãe foi infiel, eu pensaria duas vezes. — Sua voz é subitamente suave. — Eles se
amavam.
— Acho que você superestima o amor — digo simplesmente.
— Você não pode superestimar algo que é infinito.
Infinito. Quão igualmente intimidador e intrigante.
Eu posso apenas distinguir o contorno dela na escuridão.
— Você não pode me dizer que nunca se perguntou por que você é comum.
O tom dela é monótono.
— Acho que tenho estado muito ocupada sobrevivendo para descobrir.
Eu me acalmo, contemplando suas palavras. Depois de vários longos minutos,
limpo minha garganta.
— Vamos dormir por algumas horas antes de pegar um cavalo e ir para o
Santuário.
— Mal posso esperar — e la murmura grogue.
— Você vai tentar me esfaquear enquanto eu durmo? — Eu paro. — De novo?
Sua voz está abafada contra a mochila em que ela enfiou o rosto.
— Bem, não funcionou exatamente ontem à noite, não é?
— Ainda respirando — eu lhe asseguro. — Mas foi um bom esforço.
— Não zombe. Vou te empurrar para fora deste celeiro.
— Então você vai cair comigo.
Ela se vira.
— Vai valer a pena.
CAPÍTULO 35

PAEDYN

Ele está me esfaqueando na cabeça.


E assim é o dedo que Kai me cutuca.
— Você dorme como um morto.
Eu rolo, resmungando na mochila que tenho usado como travesseiro.
— Só praticando para quando eu inevitavelmente estiver.
Ele faz um som que pode ser apenas uma risada abafada.
— Levante. Agora.
— Estou cansada.
— Eu também — ele suspira. — Especificamente de você.
— Você é quem nos acorrentou juntos — murmuro. — Então você não tem
permissão para reclamar da minha empresa.
— Levante-se, Gray.
— Me obrigue. Azer.
Merda. Isso foi um erro.
Ele balança as pernas sobre a escada, conseguindo me arrastar até ele. Então
ele desce, puxando minhas costas pela palha e em direção à borda.
— Tudo bem — eu suspiro quando minha cabeça está quase pendurada sobre
o loft de madeira. — Você é insuportável.
Ele para o tempo suficiente para me deixar enfiar o chapéu sobre o meu
cabelo e me atrapalhar para calçar minhas meias antes dos sapatos que o
acompanham.
— Você já me disse isso. Muitas vezes.
A luz do sol opaca se espreme através das fendas de madeira que o celeiro
usa. O dia é jovem, ainda assustando as sombras. Minhas botas encontram o
chão com um baque que levanta uma nuvem de poeira. Cavalos espiam pelos
cantos de suas baias, aguçando ouvidos curiosos para os estranhos que os
encaram.
— Por aqui — Kai sussurra, me levando para o fundo do celeiro. Ele acena
para os animais alinhados nas paredes. — Esses cavalos são condicionados para
longas jornadas. E temos comida e água suficientes em sua mochila para quatro
dias.
— Sim, graças a mim — murmuro.
— Sim — Kai concorda. — Obrigado a você e seu roubo.
— Eu prefiro a palavra habilidade, mas-
Um cavalo zurra à minha esquerda, me fazendo pular.
— Malditas feras — eu respiro, com o coração batendo forte.
Kai ri.
— Essas feras são as mais gentis que você encontrará.
Ele destranca uma baia e a empurra silenciosamente. O cavalo lá dentro é
marrom-escuro, seu pelo opaco com poeira. Kai distraidamente passa a mão
pelo focinho antes de pegar uma sela de onde ela está jogada no topo do muro.
— Venha se apresentar — Kai diz suavemente, acenando em direção ao cavalo
que ele está selando.
— Eu estou bem, obrigado.
O bastardo puxa a corrente, fazendo com que eu quase tropece na besta que
respira em mim.
— Idiota — eu sibilo para ele, me endireitando para me encontrar olhando
para o cavalo.
— Ah, vamos lá, Paladina Prateada — ele zomba. — Ele não vai morder...
provavelmente.
Reviro os olhos para o príncipe antes de hesitantemente levantar uma palma
para o focinho do cavalo. Seu nariz é macio e quente enquanto ele gentilmente
acaricia minha mão. Eu abro um pequeno sorriso, engolindo meu medo por uma
criatura tão formidável. Porque algo tão forte nunca é verdadeiramente domado.
— Sua coragem é inspiradora — Kai diz, sem graça. — Agora abra a porta para
que eu possa levar ele para fora antes que os cavalariços cheguem.
Irritantemente, eu obedeço e dou um passo para o lado enquanto ele conduz
o cavalo para o corredor central. Cascos batem contra a terra batida enquanto
seguimos para a porta do celeiro e o trecho final da cidade além. Estamos quase
do lado de fora quando uma sombra desliza para dentro do celeiro antes que a
figura nos siga.
O homem para cambaleando, observando o cavalo e os dois estranhos que o
roubam.
— Que diabos? — ele gagueja, olhando para nós.
O olhar de Kai nunca se desvia do homem gigante.
— Suba no cavalo, Gray.
— Mas a corrente-
— Então coloque o pé no estribo e segure firme.
Eu nem tenho a chance de discutir antes que o homem esteja se
aproximando de nós, segurando algo que brilha em sua mão. Kai me empurra
para trás dele antes esquivando-se de um soco que o homem lhe dá no queixo.
A luta é um borrão que mal consigo ver pelas costas de Kai. O homem grunhe
quando leva um golpe na têmpora, mas consegue fazer o Executor se dobrar
depois de dar um soco em seu estômago.
— E vá com calma com essa sela! — Kai grita atrás dele, evitando por pouco
outro golpe.
Seu sarcasmo me sacode do meu estupor para lutar com o estribo. Quando o
vejo lutar, é difícil desviar o olhar. É uma precisão praticada. Um tipo de caos
sedutor.
A ponta da minha bota provoca o estribo enquanto tento me equilibrar em
um pé. Ouço o arrastar e raspar das botas antes que as costas de Kai batam em
mim, tirando o ar do meu peito e os pés de baixo de mim. Bato no chão com um
baque, mas me forço a levantar antes mesmo de engolir ar para meus pulmões
em chamas.
Olho para cima e encontro o homem segurando o nariz sangrando e
cambaleando para trás devido a um golpe. Kai não perde um momento antes de
se virar para envolver uma mão em volta da minha coxa e enfiar minha bota no
estribo. Então sua mão está nas minhas costas, me empurrando para cima
enquanto começo a balançar minha outra perna sobre a sela.
Quando a corrente aperta, Kai agarra a sela e se ergue para sentar atrás de
mim, esticando a corrente entre nós. Olho para o homem abaixo de nós, agora
tropeçando para agarrar minha perna. O chuto violentamente, tentando me
libertar das mãos úmidas presas em volta da minha panturrilha. Quando ele não
se move, eu me abaixo para agarrar seu cabelo antes de enfiar seu nariz
quebrado em meu joelho.
Ele uiva, sangue escorrendo pelo rosto enquanto ele cambaleia para trás. De
repente, sou jogado contra o peito de Kai quando ele crava os calcanhares nas
laterais do cavalo, estimulando-o a correr. É só quando voamos para fora da
porta do celeiro e para as ruas que Kai diminui o ritmo. Por pouco.
Estou segurando o pito da sela, apertando meus olhos a cada volta. As mãos
de Kai estão descansando em minhas coxas, seu queixo pairando sobre meu
ombro enquanto ele segura as rédeas. Tão longe do mercado principal, há
poucas pessoas corajosas o suficiente para viver tão perto do Santuário. Mas
aqueles que vivem se veem pulando para fora do nosso caminho para evitar
serem pisoteados.
O som de cascos batendo em paralelepípedos ecoa nas paredes de tijolos ao
redor. Uma rajada de vento pega a aba do meu chapéu, arrancando-o da minha
cabeça e jogando-o na rua. Cabelos prateados estão caindo pelas minhas costas,
expostos à luz do dia pela primeira vez.
— Abaixe, meu bem — A mão de Kai encontra o topo da minha cabeça,
empurrando para baixo antes de passarmos por baixo de uma viga caída presa
entre dois prédios.
— Não me chame assim — digo, endireitando-me enquanto passo a mão no
meu cabelo crespo.
— Não te chamar de quê?
— Meu bem. É isso.
Posso sentir seu sorriso contra meu pescoço.
— Por quê? Gosta muito?
— Acho que você gosta muito — eu desafio.
Ele solta uma risada que agita meu cabelo. O vento penteia seus dedos frios
em meu couro cabeludo, e quase suspiro com a sensação. O ar livre é libertador,
me tentando a esticar meus braços e abraçá-lo.
Observo o que resta da cidade passar em um borrão, mal vislumbrando uma
pessoa ocasional apontando em nossa direção. Mas em pouco tempo, a rua que
se estende abaixo de nós fica mais rochosa conforme o Santuário das Almas se
aproxima.
Eu engulo. É isso. Este é o começo do fim que eu prolonguei por tantos anos.
Não há esperança de resgate além de Dor. O Santuário é minha sentença de
morte. É toda esperança frustrada e destino selado. É condenação destinada.
A estrada vira entulho, os prédios viram pedras. Kai diminui o ritmo quando
entramos na passagem estreita que é o Santuário das Almas. Eu consigo
distinguir os contornos de cada cova rasa e lápide rachada que deu nome a esse
lugar.
— Você não acredita no que dizem sobre as almas, não é? — pergunto
baixinho, olhando para as pedras em ruínas esculpidas com nomes desbotados.
— Não sei se os mortos assombram os viajantes — Kai suspira. — Mas não
posso dizer que não vi umas merda estranha acontecerem aqui.
— Como o que?
— É melhor não saber, Gray — ele diz suavemente. — Não preciso que você
tenha medo do cavalo e do nosso entorno.
A risada que borbulha da minha garganta surpreende até a mim.
— Você não é engraçado — mal consigo dizer sob a palma da mão que apertei
sobre minha boca.
— Sério? — Kai se inclina sobre meu ombro para olhar para mim, sua voz
comicamente confusa. — Porque parece que eu sou.
Eu me viro, escondendo meu rosto dele.
— Não. Eu não vou te dar a satisfação de me fazer rir.
— Mas então você estaria me privando do som.
Fico em silêncio, tirando a mão do meu rosto. Ele se move atrás de mim, limpa
a garganta, se sentindo inseguro, como se estivesse surpreso com suas próprias
palavras.
Esta é a parte em que eu deveria provocá-lo, deveria dizer a ele que flertar é
inútil.
Mas seu tom é familiar, parecendo dançar em um quarto escuro e guerras de
polegares sob salgueiros. A maneira como as palavras saíam de sua língua
parecia um leve toque na ponta do meu nariz, como dedos calejados trançando
cabelos prateados.
Parecia Kai.
Como o homem por trás das máscaras que olhou para mim como se eu fosse
extraordinária.
Pisco para as pedras em ruínas que se aglomeram no caminho, desejando que
minha mente vagueie em direção a qualquer coisa, menos às palavras que me
fazem desejar que as coisas fossem diferentes. Mas eu sou Comum. Sou a
personificação da fraqueza que ele foi ensinado a odiar.
Comum.
A palavra ecoa em meu crânio, soando diferente de todas as vezes anteriores.
Eu sabia que Mixes deviam existir, visto que os Elites tinham tanto medo de se
tornarem eles e enfraquecer seus poderes. Mas eu nunca questionei por que eu
não era um deles, por que eu não sou nada além de Ordinário.
Olho para o anel que estou girando fervorosamente no meu dedo. Me sinto
idiota por não ter descoberto isso antes. Mas o que eu disse ao príncipe é a
verdade — uma ocorrência rara para mim. Acho que estava muito ocupado
tentando sobreviver.
— Vamos cavalgar até o anoitecer e ficar escondidos até o amanhecer. — As
palavras de Kai cortaram meus pensamentos. — Bandidos reivindicam a
escuridão, e ficaremos melhor escondidos no chão.
— Certo. — eu digo distraidamente. Uma brisa suave agita o cabelo que cai em
volta do meu rosto, chamando minha atenção para a trança que ele teceu e a
bagunça de prata que se tornou.
Não parei de pensar em Ava. Não consigo parar de pensar em quão
gentilmente ele falou dela, como se lembrasse de quão frágil ela era. Eu podia
ouvir o amor cobrindo cada palavra e a mágoa ecoando depois.
Penso no primeiro Julgamento, em Jax morrendo em seus braços. Ele quase
perdeu outro irmão naquele dia. Há poucas pessoas com quem ele se importa
que ele não viu morrer - ou traí-lo.
O sol bate forte em nós, e estou começando a desejar que meu chapéu
horrível não tivesse voado. Arregaço as mangas da minha camisa, expondo os
ombros banhados pelo sol para o céu. Estamos cavalgando há um bom tempo,
examinando silenciosamente nossos arredores e organizando nossos
pensamentos. Pedras iminentes nos cercam, lançando sombras ocasionais em
nosso caminho enquanto queimam no sol do meio-dia.
— Aposto que você conseguiria cozinhar um ovo em uma dessas pedras —
digo, com a voz rouca pela falta de água e uso.
Quando não ouço nenhuma resposta espirituosa, me mexo um pouco,
sentindo um peso na mochila. Com um olhar por cima do ombro, vislumbro
ondas escuras descansando contra minhas costas. Engulo em seco, sentindo de
repente sua respiração profunda, seu cabelo fazendo cócegas em meu braço.
Ele está dormindo.
A ação é incrivelmente humana.
Seu corpo está mole, em paz.
E completamente vulnerável.
Duvido que ele tenha dormido mais do que algumas horas nos últimos dias.
Mas aqui está ele, respirando profundamente, com as mãos apoiadas em
minhas coxas e os dedos frouxos em volta das rédeas.
Pisco para o couro que poderia me levar a qualquer lugar, poderia guiar até a
criatura mais forte.
Meu coração bate forte contra o peito.
É isso. Isso é esperança.
Respirando fundo, começo a desenrolar suavemente seus dedos das rédeas,
parando até mesmo com o menor movimento. Quando sua mão esquerda está
livre, ele tenta pegar algo, flexionando os dedos instintivamente. Engulo em
seco, colocando minha palma sobre a dele antes de enfiar meus dedos nos dele.
Prendo a respiração até que ele pare de se mexer, aparentemente satisfeito
em segurar minha mão em vez das rédeas.
Eu faço um trabalho rápido com sua mão direita, liberando a correia para
juntá-la à minha. Há um punhado de couro agora preso em minha mão, e não
tenho a menor ideia do que fazer com ele. Eu puxo para a esquerda, esperando
convencer o cavalo a virar.
Nada.
Eu respiro fundo. Então puxo com mais força.
O cavalo se move para a esquerda, agora caminhando mais perto da parede
de pedras. Engulo minha frustração e me preparo para puxar ainda mais forte.
Porque se eu conseguir fazer esse cavalo voltar para Dor, eu poderia...
— Eu não faria isso se fosse você.
Uma mão envolve meu pulso, interrompendo minha tentativa.
Eu bufo, olhando para cima para balançar a cabeça para o céu.
— Maldito seja.
— Boa tentativa, Gray — ele diz, levantando a cabeça para perto da minha. —
Mas você não teria ido longe.
Dou de ombros, tentando agir despreocupadamente.
— Quem disse que eu estava tentando chegar a algum lugar? E se eu só
quisesse segurar as rédeas?
— E minha mão? — ele pergunta. — Só queria segurar ela também?
Eu tinha esquecido que meus dedos ainda estavam entrelaçados com os dele
e rapidamente os desembaracei.
— Eu gostava muito mais de você quando você estava dormindo — eu digo
docemente.
— É bom saber que você gostou de mim.

Pão esfarelado gruda no céu da minha boca.


Tomo outro gole da água que deveríamos usar com moderação, lavando a
massa. O fogo que Kai construiu está diminuindo, não mais do que chamas
morrendo na escuridão crescente. Ele se senta ao meu lado, com a corrente
esticada entre nós, ocasionalmente pegando seu pão depois de cuidar do cavalo.
A pobre criatura deve estar exausta depois de nos carregar o dia todo no calor.
Só paramos quando as sombras rastejaram em nossa direção, deslizando sobre
as pedras para nos engolir na escuridão.
— Sabe, este era para ser um lugar de descanso final para a realeza — Kai
disse, acenando para o chão rochoso ao nosso redor. — Daí o nome, Santuário
das Almas. A primeira rainha foi enterrada em uma cripta dentro de uma das
cavernas, mas quando os bandidos começaram a reivindicar esta terra, eles
abandonaram a ideia. — Ele respira fundo, relembrando a história de Ilya. —
Então, Mareena, a primeira rainha, está enterrada sozinha neste lugar.
— Ela não parece estar sozinha. — Eu cantarolo distraidamente. gesticulando
para os túmulos espalhados no chão a vários metros de distância. — Só não com
seus companheiros reais. — A palavra está revestida de uma amargura que eu
não pretendia expressar.
— Ela não está com o marido — Kai corrige. — Com a família dela.
— Certo — eu digo calmamente, como se isso passasse por um pedido de
desculpas. — Então, onde está enterrado o resto da família Azer?
Kai pega seu pão.
— Há um cemitério no terreno do castelo. Todos os reis, rainhas e crianças
estão enterrados lá. Menos uma.
Ava.
Com um aceno lento, eu me movo, cruzando as pernas no saco de dormir. Kai
percebe meu estremecimento com o movimento.
— O que há de errado?
— Nada — eu digo rapidamente.
— Tente novamente.
Eu suspiro.
— Estou só dolorido, ok? —Uma risada sobe pela minha garganta. — Praga,
Kitt pediu para você me trazer de volta para Ilya, não para cuidar de mim.
Seus olhos se estreitam levemente.
— Ele não precisa me dizer para cuidar de você.
— Então por que fazer isso? — Eu me inclino para frente, procurando por
qualquer tipo de rachadura na máscara que ele está usando. — Desde quando
você faz algo que o rei não ordenou que você fizesse?
O que eu sentia por você ia contra todas as ordens que já recebi. — sua voz é
calma.
— Bem, então é uma coisa boa que os sentimentos não estejam mais
atrapalhando — digo calmamente.
Ele abaixa a cabeça, repentinamente interessado no pão que ainda está em
suas mãos. Eu limpo minha garganta, olhando para as estrelas piscando para nós.
— Por que você… — Eu paro para considerar por que eu quero saber a
resposta antes mesmo de terminar a pergunta. — Por que você me contou sobre
Ava? Você disse que nunca fala sobre ela.
Ele passa a mão pelos cabelos, suspirando diante do fogo crepitante.
— Acho que essa pergunta merece uma dança.
Engasgo com meu escárnio.
— Desculpa?
— Você sabe como isso funciona, Gray — ele diz simplesmente, como se fosse
dolorosamente óbvio. — Nós dançamos - você recebe sua resposta.
— Por favor — eu bufo. — Isso tem que ser uma piada.
Sua cabeça se inclina levemente para o lado.
— Isso é um não?
— Por que você quer dançar comigo? — Eu digo esperada.
— Você está fazendo mais perguntas e, mesmo assim, ainda não estamos
dançando.
Eu balanço a cabeça, sorrindo para o céu.
— Tudo bem. — Eu me levanto, tirando as migalhas da minha camisa. — Mas
só porque eu quero respostas. Porque isso é ridículo.
Ele sorri levemente antes de se levantar para estender uma mão que eu pego
hesitantemente.
— Vamos ver o que você lembra.
— Eu me lembro de como pisar nos seus pés. — Sorrio, colocando meu braço
sobre seu ombro.
— Tenho certeza que sim. — Sua mão encontra minha cintura, encaixando-se
ali de uma forma que é muito familiar. — Por que você não me mostra que se
lembra de como ficar perto do seu parceiro?
Luto contra a vontade de desviar e me forço a entrar em seu calor. O canto de
sua boca se levanta enquanto ele pega minha mão livre na sua, entrelaçando
nossos dedos. Sua palma se achata na parte inferior das minhas costas, me
fazendo engolir em seco.
— Muito bem, Gray — ele murmura. — Estar perto de mim sempre foi a parte
mais difícil para você.
— Sim, é isso que geralmente acontece quando alguém é insuportável.
— Tudo bem, espertinha. — Ele está olhando para mim, sorrindo levemente.
Um longo momento se passa. — Nós vamos dançar, ou você prefere continuar
me encarando?"
Desvio o olhar, com as bochechas queimando.
— Eu não estava olhando para você.
— Tudo bem. Você estava me admirando, então-
— Você não respondeu às minhas perguntas — interrompi.
— E você não honrou meus termos. — Ele acena para meus pés plantados. —
Ainda não estamos dançando.
— Então comece a conduzir, Azer.
Seus olhos se movem rapidamente entre os meus antes que um sorriso se
levante em seus lábios diante do meu desafio.
— Sim, meu bem.
Ele começa um passo simples, forçando meus pés a tropeçarem no ritmo dos
dele. Depois de várias contagens e concentração demais, finalmente relaxo no
movimento, deixando meus pés encontrarem o ritmo familiar.
— Então — eu digo lentamente — minha pergunta.
— Qual delas?
— Ava. — Eu paro. — Por que você me contou sobre ela?
Ele suspira contra meu cabelo.
— Você... você se lembra do segundo baile, quando eu estava-
— Quando você estava beligerantemente bêbado? — digo, inclinando a cabeça
para olhar para ele.
O sorriso dele parece triste.
— Sim, quando eu estava beligerantemente bêbado. O que foi culpa sua, a
propósito.
— Minha culpa? — Eu zombo. — Como isso pode ter sido minha culpa?
— Você estava dançando com meu irmão; é assim. — Ele me gira então, me
surpreendendo e me fazendo tropeçar nos meus pés. — Você estava dando a ele
aquele olhar que você dá.
— Que olhar?
— Não tenho muita certeza — ele diz calmamente. — Você nunca me deu.
Desvio o olhar, incerta sobre o que dizer. Ele limpa a garganta.
— De qualquer forma, uma coisa que me lembro muito claramente daquela
noite foi quando te arrastei para a pista de dança.
— Sim — sorrio, feliz por ter mudado de assunto. — Eu me lembro muito bem
disso também.
— Eu beijei sua mão antes de dançarmos. Você se lembra?
Concordo lentamente, lembrando-me de como sua boca roçou meus dedos
para que todos vissem.
— E então meus lábios encontraram a ponta do seu polegar. — Sua voz é um
murmúrio, uma memória transformada em palavras. — Eu nem tinha percebido
que tinha feito isso. — Ele balança a cabeça. — E até aquele momento, eu não
fazia isso há anos.
— Eu também me lembro disso. — Procuro seu rosto nas sombras. — Eu me
perguntei o que significava.
— Ava era uma Lagartixa — ele diz calmamente, ainda dançando lentamente.
Minha mente vagueia para as muitas figuras que testemunhei escalando os
prédios em ruínas na Alameda.
Alley, sua habilidade lhes permite escalar sem esforço.
— Ela era apenas uma Elite Defensiva — ele continua, interrompendo meus
pensamentos. — Algumas pessoas dizem que seu nível de poder é devido a quão
forte você é física e mentalmente. E Ava nasceu fraca. — Ele me gira novamente
lentamente. — À medida que ela ficava mais velha, usar seu poder era difícil. Ela
ficava cansada e caía das paredes. Então ela chorava, dizendo que tudo o que ela
queria era ser forte. — Ele suspira pelo nariz, olhando para as estrelas. — Então,
eu beijava cada um dos dedos dela para “dar” um pouco do meu poder a ela. Ela
adorava. Subia mais alto na parede todos os dias. Mas ela amava especialmente
quando eu beijava seus polegares, me dizia que isso lhe dava força extra. Então
foi isso que eu fiz. Eu beijava seus polegares todos os dias até Kitt me ajudar a
enterrá-la.
Não percebi que havia lágrimas em meus olhos até que uma delas ameaça cair.
— Você a amava muito — sussurro.
— Eu amava. Eu amo — ele diz simplesmente. — E eu nunca beijei um polegar
que não fosse o dela.
— Então — eu respiro — por que o meu?
Ele finalmente encontra meu olhar, balançando a cabeça levemente.
Seu espírito é familiar. Você me lembra do que poderia ter sido. Em outra
vida, acho que Ava teria crescido para ser como você.
Eu me esforço para rir.
— O quê, você queria que ela fosse uma criminosa?
— Não — ele murmura. — Eu queria que ela fosse formidável.
Imprudentemente ousada. Poderosa apesar da habilidade.
Olho para ele, absorvendo cada palavra.
— Eu não sou nada disso — sussurro.
Ele abaixa minha mão para roçar dedos gentis sob meu queixo, levantando
meu rosto em direção ao dele.
— Você é muito mais do que essas coisas.
— Você me superestima.
— Não. Eu só vejo você.
Adena foi a única pessoa que realmente me viu e ficou apesar disso. Mas ela
se foi. E é o príncipe que pretendia me matar que agora diz as palavras que ela
usou para me tranquilizar.
Engulo as frases que não sei como dizer.
— Eu nunca me importei o suficiente para beijar o polegar de outra pessoa —
ele continua suavemente. — Mas meus lábios encontraram os seus naquele dia.
— E olha onde isso te levou — eu sussurro, lutando contra o sorriso.
Meu olhar viaja por seu rosto, dos olhos cinzentos que me veem aos lábios
macios que me provaram. Sinto que estou caindo em algo familiar, como uma
armadilha na qual estou voluntariamente voltando. Sua mão está firme em
minhas costas, queimando como uma marca e me puxando para mais perto a
cada passo dessa dança de vai e vem entre nós. Mais uma vez, me encontro
caminhando na ponta afiada de uma lâmina, sabendo que ela inevitavelmente me
cortará no final.
E ainda assim, meus dedos encontram seu cabelo. Meu corpo pressiona
contra o dele. Meu coração bate para ser quebrado.
Ele sorri daquele jeito que me faz sorrir de volta de repente. A terra estala
sob minhas botas enquanto dançamos no escuro, a corrente enrolada na minha
perna me faz tropeçar continuamente. Eu bufo, irritada com a maldita coisa. Kai
ri quando tropeço nele pela décima segunda vez, e eu olho para cima com um
olhar furioso.
— Não se machuque, meu bem. — Antes mesmo que eu tenha a chance de
responder, ele está envolvendo seu braço completamente em volta da minha
cintura e me levantando para suas botas.
— Que diabos...?
Ele sorri, mostrando as duas covinhas para mim.
— Deixe-me dançar para nós dois.
Engulo meus protestos, olhando para meus pés calçados em cima dos dele. Os
braços que ele envolve em volta da minha cintura são fortes, seguros na forma
como me seguram contra ele.
— Kai — eu sussurro. — Nós não deveríamos...
— Shh. — Sua boca está contra meu ouvido. — Finja.
A palavra me inunda com uma falsa sensação de alívio, como se de repente eu
tivesse permissão para querer isso. Para fingir que está tudo bem. Eu enrolo
minhas mãos em volta do seu pescoço, lutando para sorrir com toda a emoção
enchendo meu rosto.
Ele para abruptamente, procurando meus olhos.
— O que há de errado?
— Nada. — Sorrio tristemente, lutando contra as lágrimas que ameaçam cair.
— Eu só... eu costumava fazer isso com meu pai. É por isso que nunca aprendi a
dançar direito. — Minha risada soa dolorida. — Porque ele sempre fez isso por
mim.
Ele assente, colocando uma mecha de cabelo atrás da minha orelha.
— Sinto muito por ter feito isso com você.
Eu fungo baixinho.
— Feito o quê?
— Isso doeu. — ele murmura.
Nós balançamos em silêncio por um longo tempo antes que eu finalmente
permita que minha cabeça repouse em seu peito. Ele é uma fraqueza. Um
conforto que eu não deveria me permitir buscar. Mas eu deixo seus pés guiarem
os meus, fechando meus olhos contra a enxurrada de memórias.
— Ele costumava dançar para mim até eu adormecer — sussurro contra seu
peito.
Sinto-o acenar contra meu cabelo.
— Então dançaremos até você sonhar com ele.
CAPÍTULO 36

KAI

A cabeça dela está esmagando meu braço.


E temo que nunca mais me moveria se isso significasse que ela ficaria ao meu
lado.
O pensamento é assustador, rastejando das profundezas de um sentimento
no qual não quero mergulhar no momento. Então, eu o sufoco, contente em
olhar silenciosamente para o céu riscado de nuvens rosas. O saco de dormir faz
pouco para disfarçar a sensação de sujeira irregular sob minhas costas, e ainda
assim ela dorme profundamente ao meu lado. É impressionante, realmente.
Ela dançou em cima dos meus pés até suas pálpebras ficarem pesadas, sua
cabeça caiu contra meu peito. Eu a abaixei no meu saco de dormir antes que ela
pudesse babar na minha única camisa. Agora estou olhando para o que resta da
trança que eu teci em seu cabelo, passando um dedo sobre os fios prateados.
Ela é tão enganadora. Tão Elite em semelhança. É assustador, não sentir
nenhum poder dela.
Um som escapa de seus lábios, suave e sonolento. Luto contra a vontade de
envolver meu braço livre em volta dela, de roçar meus lábios em seu pescoço.
Apesar de tudo, eu luto para não desejá-la.
Algo mudou entre nós, e ainda assim, nada mudou. Ela é a mesma Paedyn que
eu conhecia antes de descobrir que ela era Comum. A mesma Paedyn que eu
conhecia antes de ela matar o rei.
A mesma Paedyn por quem eu estava me apaixonando.
E é assustador. Aterrorizante saber de todas as coisas terríveis que ela fez
e ainda querer tudo dela apesar disso.
Só não sei se ela pode dizer o mesmo de mim.
Eu matei o pai dela, afinal. Ela se defendeu de um homem que eu odiava
enquanto eu assassinava um homem que ela amava. E agora eu a acorrentei à sua
sentença. Ela é a missão que eu temo.
Ela se mexe, e eu fico parado. Quando ela se vira para me encarar, um olho
azul se abre, piscando na luz da manhã.
— Você não me acordou. — ela resmunga, confusa.
— Não me incomodo mais em tentar.
Ela ri sonolenta.
— Eu pensei que você já tivesse me jogado no cavalo.
Eu levanto a mão que ela não está esmagando no momento e dou um peteleco
na ponta do seu nariz.
— Viajar só é divertido quando você está constantemente tentando escapar.
Abaixo minha mão e vejo olhos arregalados piscando para mim.
Merda.
Mais uma vez, não pensei no que estava fazendo até que a ação acontecesse.
Eu não toquei no nariz dela desde o Julgamento Final, onde tudo foi para
o inferno. O Julgamento Final que eu estava correndo para terminar só para
poder encontrá-la do outro lado.
Não toquei no nariz dela desde que fui tolo o suficiente para ter sentimentos
por ela. No entanto, aqui estou eu, seguindo o mesmo destino. Caindo nos
mesmos padrões. Na mesma Paedyn.
Ela limpa a garganta, de repente parecendo muito acordada.
— Você gostaria que eu continuasse tentando escapar?
— É divertido — digo casualmente, apesar de não sentir nada.
— É bom ouvir isso. Porque eu não estava planejando parar.
Em um movimento rápido, ela agarrou uma pedra irregular ao lado do saco
de dormir e a enterrou contra meu pescoço enquanto se inclinava sobre mim.
— Isso pode causar dano suficiente para eu escapar, você não acha?
Meu sorriso se transforma em uma careta quando sua outra mão pressiona
meu quadril enquanto ela se apoia mais para cima.
— Só se você for capaz de fazer isso. — Consigo dizer, soltando um suspiro.
Suas sobrancelhas se uniram com algo enganosamente parecido com
preocupação.
— O que aconteceu? Qual é a dessa cara?
— Talvez — eu digo — Tenha algo a ver com a pedra cravada na minha
garganta.
— Ah, por favor, mal estou colocando pressão...
Ela inclina seu peso contra meu quadril novamente, e eu estremeço apenas o
suficiente para que ela perceba o movimento. Seus olhos disparam pela minha
camisa antes de se arregalar com o que eles veja.
— Por que você está sangrando? — Sua cabeça se vira de volta para a minha. —
E por que você não me disse que estava sangrando?
— É só um arranhão, Gray-
— Um arranhão? — ela engasga, deixando cair a pedra. — Você está sangrando
pela camisa. Eu dificilmente chamaria isso de arranhão.
— Você está preocupada comigo? — Ela desvia o olhar, revirando os olhos. —
Você parece preocupada.
— Sim — ela diz simplesmente, encontrando meu olhar presunçoso. — Estou
preocupada que você se torne um peso morto. E vendo que estamos
acorrentados juntos, prefiro não ter que arrastar seu corpo de volta para Dor.
— Que atenciosa.
Os olhos dela já voltaram para minha camisa manchada.
— Eu não te esfaqueei, então quem diabos foi?
— Mão estável. Ele tinha uma pequena lâmina entre os nós dos dedos. O
ferimento não era profundo, mas deve ter reaberto ontem à noite.
Ela balança a cabeça para mim, decepção afogando suas feições.
— O que diabos há de errado com você? Sério. — Ela meio que ri. — Eu
adoraria saber. Isso pode ter infeccionado. Por que você não me contou?
— Porque eu já sobrevivi a coisas muito piores, Gray.
O olhar dela suaviza.
— Isso não significa que você deve continuar sofrendo só porque sabe que
pode.
Eu estudo seu rosto, o jeito como ela morde o interior da bochecha em
concentração ou pisca rapidamente em frustração. Quando seus dedos se
enrolam na bainha da minha camisa, sinto meu coração gaguejar no peito.
— Preciso disso — ela diz suavemente, empurrando o tecido para expor minha
barriga.
Eu engulo em seco.
— Sempre tentando me deixar nu, não é, meu bem?
— Não, mas eu sempre estou salvando sua pele, Príncipe. — Ela aperta os
olhos para o ferimento, lutando para enxergar além do sangue. — É, não parece
muito profundo.
— Ele só me arranhou — eu digo casualmente. — Eu disse que era superficial.
Ela me olha.
— Isso não significa que não vai infeccionar. — Ela tateia em busca da mochila,
tateando dentro até tirar a saia amarela nojenta. Usando os dentes, ela rasga
uma tira de pano de baixo do cós e enxuga-o com parcimônia na água de uma de
nossas poucas cantinas. — Não temos nenhuma pomada, nem as plantas certas
para fazer alguma, então limpá-lo terá que servir.
Eu a observo atentamente enquanto ela limpa o ferimento do sangue. Vejo
sua respiração acelerar e suas mãos tremerem levemente. Ela desvia o olhar,
ficando mais pálida a cada segundo. Seus dedos pousam sobre o tecido, evitando
o sangue que ela está absorvendo.
— De repente ficou enjoada, Gray? — pergunto baixinho, estudando seu rosto
pálido.
Sua voz treme levemente.
— Algo assim.
Algo está muito errado. E tenho certeza de que ela não quer falar sobre isso.
Então, lentamente, levanto minha mão, colocando minha palma sobre seu pulso.
— Me dê.
Vejo-a engolir em seco, vejo-a contemplar uma discussão antes de
simplesmente assentir e largar o pano. Ela desliza de volta para o saco de dormir,
colocando distância entre mim e meu ferimento. Afasto os olhos dela para pegar
o tecido, fazendo uma careta enquanto me apoio em um cotovelo e continuo
limpando o corte.
Olho para ela, querendo tirar sua mente do que quer que seja que a esteja
deixando tão em pânico.
— Por que você nunca deixou Ilya? — A pergunta está queimando na minha
garganta desde que descobri o que ela era.
Ela olha para mim, seus olhos disparando para o ferimento antes de desviar o
olhar rapidamente.
— Eu realmente não tenho um bom motivo. Acho que eu era só... teimosia.
Eu rio, balançando a cabeça.
— Chocante.
O olhar que ela me dá não combina com o sorriso crescente em seu rosto.
— Eu era teimosa e disse a mim mesma que Illya era tanto meu lar quanto era
dos Elites. Sem mencionar que eu era jovem demais para sobreviver a uma
viagem através do Mar dos Baixios ou do Deserto Escaldante - eu mal sobrevivi
dessa vez. E eu acho que o Pai gostaria que eu ficasse em Ilya. Quer dizer, ele me
treinou para ser uma Psíquica por um motivo. Ele começou a Resistência por um
motivo. — Ela abaixa a cabeça, sorrindo tristemente. — Também era meu
pequeno jeito de desafiar o Rei e tudo o que ele dizia sobre os Comuns. Eu estava
vivendo contra todas as probabilidades, bem debaixo do nariz dele. — Seus olhos
encontram os meus. — E algo sobre isso me manteve lutando.
Concordo lentamente, sentando-me levemente quando termino de limpar o
ferimento.
— Ficar em Ilya era algo que você podia controlar. Era sua decisão, diferente
de todo o resto da sua vida.
— Você é a última pessoa que imaginei que entenderia isso. — Ela ri
suavemente.
Eu dou de ombros.
— Caso você tenha esquecido, eu também não tive escolha no destino que me
foi dado. Então, eu encontrei minhas próprias maneiras de me sentir no
controle.
— Como o quê? — ela pergunta calmamente.
— Como nunca mais tirar a vida de uma criança. Eu bania as crianças Comuns
com suas famílias e mentia para meu pai. — Meus lábios se contorcem em um
sorriso. — Esse foi meu pequeno desafio ao Rei. De volta a Dor, eu até encontrei
uma garotinha que eu bani e que conseguiu atravessar o Escaldante com a
família. Abigail é quem me levou até você.
— Então devo agradecer à Abigail por sua aparição no meu ringue? — Ela está
lutando contra um sorriso, e é uma tentativa adorável.
— Alguém precisava te humilhar, Sombra.
— Oh, foi isso que você fez? — O sorriso dela é o sol encarnado, quente,
brilhante e ofuscante. — Porque eu lembro de chutar sua bunda. Como sempre.
— Que fofo, Gray. Continue dizendo isso a si mesma.
Ela balança a cabeça para mim.
— Sente-se.
— Educada. — Eu sorrio daquele jeito que eu sei que ela odeia. — Como
sempre.
O olhar que ela usa me faz rir enquanto eu lentamente me sento com um
grunhido. Ela está rasgando mais tecido com os dentes agora, liberando uma
longa tira da saia. Então ela está hesitantemente deslizando para mais perto para
envolver seus braços atrás de mim, seu rosto próximo. Passando o tecido em
volta das minhas costas, ela o enrola em meu estômago várias vezes antes de
amarrá-lo.
— Pronto — ela diz suavemente, examinando seu trabalho. — Agora eu não
tenho que me preocupar com você se tornando um peso morto.
O cavalo relincha a alguns metros de nós, conseguindo tirar meus olhos dela
e me lembrar de onde estamos.
— Ele está pronto para se mover.
— Isso faz de nós dois um de nós. — Ela murmura antes de se levantar
e desenrolar a corrente das pernas.
Eu sigo, enrolando os sacos de dormir e colocando-os na mochila. Mexendo
nas rédeas que amarrei em volta de uma pedra alta, ofereço ao cavalo uma maçã
que ele mastiga alegremente.
— Você está pronta? — digo por cima do ombro para onde Paedyn está
pendurando a mochila nas costas.
— Não. Eu preciso fazer xixi. — Ela diz sem rodeios. Eu suspiro, abaixando a
cabeça com o que eu sei que ela está prestes a dizer. — Você sabe o que fazer,
Azer.
Eu encosto minha testa no cavalo.
— Não sei por que você insiste-
— Seus ouvidos estão tampados?
Solto um suspiro antes de tapar meus ouvidos.
— Sim — provavelmente grito. — Mesmo que eu não entenda o porquê.
Seu grito é abafado.
— Continue falando!
— Sabe — eu digo, levantando a voz. — Eu também faço xixi. Não entendo por
que tenho que tapar os ouvidos e gritar toda vez.
— Claro que não. — Ela está de repente atrás de mim, e eu destapo meus
ouvidos antes de me virar para encará-la. — Você é um homem.
Pisco para ela, debatendo se quero saber exatamente o que isso significa. Ela
anda lentamente ao lado do cavalo, estendendo uma mão hesitante para correr
por sua crina. Olhos azuis determinados encontram os meus por cima do ombro
dela.
— Me ensine a montar nessa coisa.
CAPÍTULO 37

KITT

A luz entra pelas janelas que revestem cada corredor ornamentado.


Quase estremeço com o brilho puro de tudo isso, tendo sido trancado dentro
do meu calabouço — também conhecido como o estudo. O tapete esmeralda
suaviza meus passos enquanto cada Imperial estacionado luta para não olhar
para mim.
Coloquei a caixa no bolso, embora não tenha certeza do porquê. Cheguei à
conclusão de que a sensação constante dela me ajuda a me convencer de que
estou no controle da situação. Que estou tomando a decisão certa. Mas a caixa
parece pesada contra minha perna, desacelerando cada um dos meus passos.
Seguindo o cheiro flutuante do jantar, viro para outro corredor, ganhando
sorrisos tímidos dos servos que passam. Eu passo a mão pelo meu cabelo,
conscientemente, esperando não parecer o rei louco sobre o qual todos
sussurram.
Eu me aventurei para fora do meu escritório na esperança de que eles
fofocassem sobre outra coisa para variar. Talvez sobre como eu limpei a tinta das
minhas mãos e troquei minha camisa amassada por uma nova e imaculada. Ou
como eu comi minha refeição esta manhã em vez de jogá-la pela janela. Se nada
mais, o fato de eu ter saído do escritório vai ganhar a atenção deles.
Uma luz quente vaza por baixo das portas da cozinha, acumulando-se em
volta dos meus pés quando paro. Os nós no meu estômago parecem apertar ao
som da sua voz estrondosa, familiar e assustadora ao mesmo tempo. Tenho
evitado ela, e não estou pronto para lidar com as consequências dessa decisão.
Eu me viro, recuando pelo corredor como o covarde que sou. Uma
empregada passa a caminho da cozinha, desviando meu olhar quando tento
encontrar o dela.
Ótimo. Agora fui visto andando na ponta dos pés pelo meu próprio castelo.
Realmente não estou ajudando meu caso.
Tenho apenas oito segundos antes que o cozinheiro me pegue.
— Kitt? — Ela diz isso com o tom de uma pergunta, mas com o volume de um
grito.
Giro, avistando a cabeça dela espiando por entre as portas da cozinha. Com
um sorriso forçado, volto para a cozinha movimentada.
— Oi, Gail — eu digo, parecendo muito envergonhado para um rei. Ela abre a
porta, permitindo-me uma visão completa de seu rosto enfarinhado e avental
sujo de comida.
Há uma fração de segundo em que estou convencido de que ela me odeia,
convencido de que não sou nada mais do que os rumores. Nada mais do que o rei
louco que ela agora é forçada a servir.
Mas o segundo passa e, no próximo, sou puxado para um abraço apertado.
— Oh, minha doce Kitt! — Braços cobertos de farinha me envolvem,
inundando cada fenda fria do meu coração com calor. Quando ela finalmente se
afasta, é com um largo sorriso no rosto. — Entre, entre! Tenho algo para você.
Sou arrastado para a cozinha, sentindo-me como o menino que ela criou.
Dezenas de olhos se arregalam ao me ver antes de se afastarem rapidamente. Os
criados saem correndo do caminho enquanto Gail me guia até o balcão onde Kai
e eu normalmente ficamos.
— Tenho feito um pouco todos os dias, esperando que você venha me ver. —
Ela empurra um prato coberto em minha direção, levantando o guardanapo
sobre ele para revelar um pãozinho pegajoso e brilhante.
O sorriso que se forma em meus lábios parece estranho.
— Obrigada, Gail. — Eu limpo minha garganta. — Sinto muito por não ter
visitado antes.
O olhar dela suaviza.
— Bem, você é um homem ocupado agora.
— Infelizmente — digo, da forma mais leve que consigo.
Ela me olha, vendo algo em meu rosto que justifica seu grito:
— Todos vocês, fora! Cinco minutos de intervalo antes de colocarmos a
comida.
Ninguém questiona a ordem. Em questão de segundos, cada servo saiu pelas
portas duplas e se espalhou para o corredor além. Quando está quieto o
suficiente para me ouvir morder o pãozinho pegajoso, Gail fixa seu escrutínio de
volta em mim.
— Ouvi dizer que você tem jogado minhas refeições pela janela. — Ela levanta
uma sobrancelha. — Não está mais à altura dos seus padrões?
— Não — eu digo defensivamente. Então, novamente, porque sua sobrancelha
continua subindo pela testa. — Não, claro que não. Eu só... não tenho o apetite
que costumava ter.
— Hmm. — Ela acena para o pãozinho pegajoso, silenciosamente me
ordenando a dar outra mordida. É só quando eu dou que ela diz — É por isso que
uma das minhas garotas me disse que você estava saindo da minha cozinha? Sem
apetite para o jantar?
Eu aceno, sabendo que é mais seguro fazer isso do que admitir que tenho
evitado essa interação. Ela acena de volta, embora eu duvide que ela acredite em
mim.
— Como você está, Kitty?
A pergunta dela faz o pãozinho pegajoso parar no caminho para minha boca.
Essa é a razão exata pela qual eu não queria encará-la. Porque ela vai me fazer
falar sobre isso.
— Estou melhor.
Eu acho. Talvez. Na verdade, não lembro como é que se deve sentir melhor.
— Eu sei o quão difícil isso tem sido para você — ela diz suavemente, uma
ocorrência rara para ela. — Não apenas sobre seu pai, mas também...
Ela hesita até mesmo com a insinuação de quanto eu me importava com ela.
Como o quanto doeu quando ela me traiu daquele jeito, matando meu pai e mais
do que um pedaço de mim no processo.
— Sim — consigo dizer — tem sido difícil. Mas tive ajuda. — Penso em Calum e
sua orientação, em Kai e seu esforço para salvar o relacionamento que eu posso
ter arruinado.
Ela assente, esfregando um guardanapo na minha bochecha como se eu ainda
fosse a criança que ela um dia pegou nos braços. Mas eu não luto contra isso. É
reconfortante, ser cuidada. É bom fingir que Gail é a mãe que eu nunca conheci.
— Kitty, porque eu te amo — ela começa calmamente — eu tenho que
perguntar. — Há uma longa pausa antes que ela ganhe coragem suficiente para
deixar as palavras saírem. — O que você planeja fazer com ela quando Kai a
trouxer de volta?
Quase consigo rir.
— Se ele a trouxer de volta.
— Não diga isso — ela repreende, ignorando o fato de que é o rei agora
parado diante dela. — É claro que ele a trará de volta para você. E não porque
seja seu dever, mas porque ele te ama.
— E se ele a amar mais?
As palavras saem da minha boca, conjuradas dos meus medos mais
profundos. Eu mal me permiti pensar nisso, muito menos falar sobre isso. Mas o
pior é a maneira como o rosto de Gail nunca muda. Sua expressão é vazia, suas
costas retas e olhos sem piscar. Como se não fosse a primeira vez que ela ouvia a
pergunta. Como se ela tivesse se perguntado a mesma coisa.
Desvio o olhar, desesperado para focar em qualquer coisa além da pergunta
que paira entre nós. Meus olhos pousam em uma vela fina enfiada no canto de
um balcão. Aceno em direção a ela, desesperado para mudar de assunto.
— É aniversário de alguém? Tem uma vela de bolo ali.
— Oh — Gail diz lentamente, caminhando para pegar a vela. — Achei uma para
Kai, mas era tarde demais. Eu pretendia guardá-la há muito tempo.
— Para Kai...? — A realização interrompe minha pergunta. Passo a mão pelo
rosto, balançando a cabeça para o chão. — Ava.
Eu tinha esquecido. Eu tinha esquecido, apesar de saber exatamente o quão
importante o aniversário dela é para ele. Eu nunca perdi uma manhã sob o
salgueiro. Até agora, pelo menos.
Engulo em seco, sentindo a emoção começar a arder meus olhos. A vontade
de despejar meus pensamentos em uma página é repentinamente avassaladora.
Pisco para a cozinha, desejando nunca ter deixado o conforto do meu escritório
— meu calabouço. Enquanto me afasto de Gail, as portas se abrem, despejando
servos na sala. Não hesito antes de abrir caminho pelo caos, observando corpos
saltando para longe da minha forma frenética.
Deixe-os pensar que sou louco. Talvez eu seja. Talvez seja melhor assim.
Ouço um grito que lembra meu nome.
Eu não olho para trás.
CAPÍTULO 38

PAEDYN

— Olha, tem outra. Cravada entre aquelas pedras.


Aponto para a nossa esquerda, virando-me ligeiramente na sela para ver o
olhar de Kai seguindo o comprimento do meu braço. Ele acena com a cabeça
depois de finalmente avistá-lo.
— Então nos leve até lá, Gray.
Eu tinha a sensação de que ele diria isso depois de passar o dia inteiro me
ensinando a conduzir essa fera. As rédeas estão escorregadias em minhas
palmas, me forçando a apertar minha mão enquanto puxo o couro para a
esquerda. Eu sufoco meu sorriso presunçoso quando o cavalo obedece. Nós
caminhamos até o aninhado de pedras onde eu puxo as rédeas, parando os
cascos batendo.
— Bom trabalho. — Kai dá um tapinha firme na minha coxa antes de pular da
sela. — Eu sou um ótimo professor.
— Ou — eu digo, acariciando suavemente a crina do cavalo — eu apenas
aprendo rápido"
— Sim, uma aprendiz rápida que nos levou a pelo menos uma dúzia de pedras.
— Pegue logo a maldita flecha — ordeno antes que ele tenha a chance
de continuar.
Seus ombros se esticam enquanto ele luta contra a ponta de flecha presa.
Quando ele finalmente consegue libertá-la, ele endireita a ponta torta antes de
adicioná-la às outras que se projetam da mochila que ele agora usa.
— Com essa, são cinco — eu digo, sentindo a sela se mover quando ele pisa no
estribo. — Nesse ritmo, deve haver um arco descartado aqui.
— Eu não ficaria surpreso — ele diz, colocando as palmas das mãos de volta no
lugar de sempre nas minhas coxas. — Com todos os bandidos passando,
provavelmente há armas espalhadas por todo esse lugar.
Eu corro meu olhar sobre a parede de pedras de cada lado de nós, criando um
túnel irregular.
— E esses bandidos ainda não apareceram.
— E vamos rezar para que isso não aconteça.
Eu enfio as rédeas em suas mãos, de repente curiosa demais para conduzir.
— Eu não imaginei que você fosse do tipo que reza, Príncipe.
Sinto seus ombros encolherem contra minhas costas.
— Eu não costumava acreditar em Deus.
— E agora?
Há uma longa pausa seguida por um abrandamento de sua voz.
— Eu encontrei a prova de um paraíso.
Olho por cima do ombro e vejo seus olhos já em mim.
— E o que foi isso?
Seu olhar desliza sobre meu rosto e para baixo, pelo comprimento da minha
trança.
— Você saberá quando ver.
Praga. Garoto bonito. Palavras bonitas.
Quando seus olhos voltam para os meus, eu me viro para olhar para qualquer
coisa que não seja ele. Suas mãos estão descansando nas minhas coxas enquanto
seu peito está roçando minhas costas a cada respiração, e a sensação disso está
abafando todo pensamento racional.
Eu queria poder me encharcar em água fria e tremer até me livrar desse
sentimento. Esse sentimento de estar me apaixonando por algo que eu sei que
deveria estar lutando.
Respiro fundo, forçando-me a focar na parede de pedras deslizando.
Cavalgamos em silêncio — o tipo que é muito mais alto do que pronunciar uma
palavra. O dia se arrasta, arrastando o sol pelo céu até que ele começa a se pôr.
Meus olhos deslizam sobre as pedras, estudando as formas para passar o
tempo. Eu aperto os olhos contra o sol, pegando algo brilhando de onde está
encravado entre duas rochas iminentes.
— Você vê isso? — pergunto, finalmente quebrando o silêncio.
— Viu o quê? — ele suspira contra meu cabelo.
— Seja lá o que for que está brilhando aí em cima. — Quando ele não
responde, eu estendo a mão para trás para agarrar seu queixo, a barba por fazer
mordendo meus dedos enquanto viro seu rosto na direção certa.
— Obrigado pela ajuda. — Sinto seu murmúrio contra minha mão. — É bem
alto. Qual de nós vai subir lá e-
Já estou balançando minha perna sobre a sela.
— Graças a você, nós dois temos que ir, meu bem. — Eu digo sua palavra
favorita, fazendo-o rir enquanto eu chacoalho a corrente entre nós. — Você e
seu medo de altura têm que vir junto.
Ouço o sorriso em sua voz enquanto ele se abaixa ao meu lado, amarrando
rapidamente o cavalo a um galho saliente.
— Sim, posso imaginar que você e seu medo de cavalos estejam terrivelmente
tristes por estarem se livrando da fera.
— Se ao menos eu pudesse ter um descanso de você — digo docemente por
cima do ombro. As rochas imponentes pairam no alto, nos engolindo na sombra.
Há mais árvores espalhadas neste aglomerado de pedras do que vi desde que
chegamos no Abrigo.
— Por aqui — digo, olhando para algo brilhante. O tronco de uma árvore
enorme se ergue entre as pedras, criando um apoio firme. Meus dedos se
enrolam na casca áspera de um galho ao lado da minha cabeça e, com os
músculos doloridos se esforçando, começo a subir lentamente. Kai segue logo
atrás, seguindo o caminho de apoios para os pés e mãos que encontrei.
Estou quase no nível do topo da pedra ao meu lado, esticando-me para ver
por cima dela.
A ponta de um arco se projeta entre as rochas, sua ponta de bronze brilhando
ao sol.
Meu rosto se abre num sorriso.
— Você já consegue alcançá-lo? — Kai grita abaixo de mim.
— É — eu respiro. — Eu entendi. — Enquanto me inclino contra a pedra, meus
dedos roçam o comprimento do arco antes de eu me esforçar para soltá-lo.
Quando a arma salta da pedra, eu quase caio da árvore em que estou agarrado. —
Achei nosso arco — eu ofego.
— É uma pena que você não vai poder usá-lo.
Eu jogo o arco nas minhas costas.
— Por quê? Seu ego não consegue lidar com o fato de que eu tenho melhor
mira?
— Não é meu ego que eu estou preocupado que você possa ferir — ele diz
suavemente. — É o resto de mim.
— Peso morto, lembra?
Estou prestes a começar a descer a pedra quando meu olhar se depara com o
que brilha atrás dela.
Eu ainda, mãos suadas escorregando e coração acelerado.
Não hesito antes de esticar um pé na pedra e lentamente convencer o resto
dos meus membros a seguir. Kai suspira, sem se mover abaixo de mim. "Você se
importa em explicar por que está escalando a rocha se já tem o arco?"
— Porque — eu ofego — você nunca vai acreditar no que está escondido aqui
atrás. — Estou no topo da pedra agora e descendo pelo lado de trás. A corrente
fica tensa entre nós, paralisando meu progresso. — Vamos, Azer. Pelo menos
tente me acompanhar.
— Não é como se eu tivesse escolha, Gray.
A corrente se afrouxa quando ele começa a subir, permitindo que eu deslize
desajeitadamente pela parte curta da pedra até a grama macia abaixo.
Pisco diante da beleza que estou contemplando.
É como um mundo escondido; um pedaço de perfeição.
Um bosque de árvores caídas brota de um leito de grama macia, seus galhos
se entrelaçando como se estivessem de mãos dadas por décadas. Grandes raízes
rompem a terra para tecer entre a folhagem vibrante que circunda a coisa mais
linda de todas.
Uma piscina cintilante brilha no centro da cena, ondulando cada vez que uma
brisa suave sopra. Plantas se aglomeram na água para molhar suas folhas e se
banhar no sol poente.
Este lugar é a própria paz.
Kai está de repente ao meu lado, maravilhado com a obra-prima diante de
nós.
— Não é de se espantar que os bandidos tenham reivindicado este lugar.
— É de tirar o fôlego. — Sento ao lado da borda da piscina, mergulhando um
dedo na água fria. — E tão... fora do lugar.
Ele se junta a mim, examinando as plantas aos nossos pés.
— Tenho certeza de que isso estava aqui muito antes do Abrigo das Almas se
tornar a estrada funerária que é hoje.
Olho para ele antes que meus olhos voltem para a beleza além.
Parece que o “Abrigo das Almas” tinha um significado muito diferente naquela
época. Quando a primeira rainha foi enterrada aqui. Não era ameaçador, era
sagrado. Um lugar onde as almas celebravam.
Posso sentir seus olhos em mim.
— E o que é que as almas celebram?
Eu dou de ombros, ainda sem encontrar seu olhar ardente.
— Que alguém se importou o suficiente para enterrá-los.
Minhas palavras pairam no ar entre nós. Minha mente vagueia para os
Sussurros onde Kai enterrou Sadie durante o primeiro Julgamento. Não porque
ele quisesse, mas porque ele sabia que eu queria.
Sua mão roça na minha.
Ele colocou a palma da mão na grama ao lado da minha. Sinto seus dedos se
aproximando antes de roçarem as pontas dos meus.
Não ouso olhar em sua direção. Meu olhar está fixo na água brilhante
enquanto me ocupo contando cada ondulação.
Na terceira onda, ele desliza seu mindinho por baixo do meu.
Na sétima, a maioria dos nossos dedos estão entrelaçados, emaranhados na
grama verdejante.
É bobagem, sério.
Não, na verdade, é besteira.
É uma completa besteira que ele consiga me fazer derreter com nada mais do
que um simples toque.
A mão dele não deveria ter tanto controle sobre mim. Dedos traçados não
deveriam estar puxando as cordas do meu coração. Mas a gentileza será minha
ruína. Há uma intimidade a ser alcançada.
Seu polegar acaricia o meu.
A sensação é de conforto encarnado, tranquilidade tangível.
E é por isso que eu me afasto antes que eu possa mudar de ideia.
— Vou entrar — digo, levantando-me abruptamente enquanto divago
profundamente.
— O que significa que você também tem que entrar. Porque você garantiu que
eu não pudesse fazer nada sem você. Então, nós estamos entrando.
Eu tiro o arco dos meus ombros e o jogo no chão. Ele está me encarando,
ainda sem se dar ao trabalho de ficar de pé.
— Isso tudo é um plano para tentar me afogar?
Olho para baixo com um sorriso, meu colete já está fora de um ombro.
— Agora sim, essa é uma ideia.
Ele ri, balançando a cabeça enquanto lentamente se levanta. Quando a
mochila está fora de seus ombros, ele me encara com expectativa.
— O quê? — pergunto, sem saber por que pareço tão defensiva.
Ele me dá um encolher de ombros preguiçoso.
— Estou só esperando você me dizer para me virar.
Eu pisco para ele. Então para a bainha da minha camisa ainda presa em
minhas mãos.
Eu me endireito um pouco, encarando-o. Não tenho certeza do porquê digo
isso. Por que sinto a necessidade de provar algo a ele. Mas quando abro a boca,
as palavras saem.
— O que te faz pensar que eu ia fazer você se virar?
Ele cruza os braços sobre o peito.
— Provavelmente todos os momentos que passamos juntos antes deste.
Levantando minha camisa gigante, mantenho meus olhos nos dele.
— Estou cheia de surpresas, Principe.
Puxo o tecido solto sobre minha cabeça, me deixando ali de pé em com um
top profundo e cortado que aperta logo abaixo dos meus seios. É o tipo de sutiã
respirável que eu usava durante o treinamento, e o mais fácil de encontrar e
roubar no Alameda. Olho para baixo rapidamente, certificando-me de que minha
marca não esteja visível. Já é ruim o suficiente que a cicatriz que desce pelo meu
pescoço esteja sempre disponível para olhares errantes.
As calças pendem baixas em meus quadris, expondo cada centímetro do
abdômen para ele. Quando seus olhos deslizam sobre mim, eu tremo apesar do
sol poente fluindo através das árvores. Há algo sobre a maneira como ele está
olhando para mim que torna difícil não querer que ele o faça. Seu olhar é
reverente, lento como uma oração sincera.
Engulo em seco quando seus olhos encontram os meus novamente. Respiro
fundo quando ele rapidamente puxa a camisa sobre a cabeça. O pano que enrolei
em volta do seu estômago está manchado de sangue, e ele não se incomoda em
olhar para baixo enquanto começa a desfazê-lo.
— É bom lavar isso — eu digo, porque não consigo pensar em nada para dizer.
Ele assente, jogando o tecido no chão. Espero que ele não tenha me ouvido
engolir em seco ao ver seu corpo. Eu o vi inúmeras vezes sem camisa, e ainda
assim, ainda estou lutando para não encará-lo. Sua pele é bronzeada, cada
músculo definido. Meus olhos traçam o brasão de Ilya tatuado em seu peito, as
linhas escuras emaranhadas em cima de sua pele.
Pragas, preciso me refrescar.
Meu rosto queima, então o viro na direção da piscina.
— Você primeiro.
Ele dá um passo mais perto de mim e não da água.
— Não, vá em frente, meu bem. Você está parecendo um pouco corada.
— Sabe — eu digo — afogar você parece mais tentador a cada minuto.
Sua risada me segue até a borda da piscina, onde tiro minhas botas e meias
antes de balançar meus pés acima da água fria. Eu respiro fundo quando meus
dedos tocam a superfície. A água é friamente refrescante, e eu rapidamente
mergulho o resto dos meus pés.
O anel externo da piscina é raso, a água é azul e convidativa. Mas o centro
fica mais escuro e profundo, e não pretendo explorar o quanto. Prendo a
respiração enquanto afundo lentamente na piscina, mordendo a língua quando a
água bate em meus quadris.
Dou a mim mesmo vários segundos para me ajustar à temperatura antes de
puxar a corrente com meu pé.
— Vamos. Está quente como a água do seu banho de palácio chique.
— É? — Sua risada é de escárnio. — É por isso que seus lábios estão ficando
azuis?
Meus dedos voam para minha boca e os dentes batendo presos lá dentro.
— Eles não são. — Eu abaixo minha mão para jogar água nele. — Agora, entre
aqui para que eu possa te afogar logo.
— Que convidativo — ele zomba, entrando na piscina. — Merda. — Ele sibila
entre dentes cerrados quando a água fria atinge suas coxas.
— O que foi, Azer? — pergunto inocentemente. — Você parece estar com um
pouco frio.
— Ah, e você não, né?
Circulo um dedo na superfície da água, criando anéis.
— Nem um pouco.
— Hmm. — O olhar em seus olhos me deixou preocupada. — Bem, isso não vai
dar certo.
E então ele caminha em direção ao centro da piscina.
Não demora muito para que a corrente se aperte entre nós, e eu esteja sendo
puxada atrás dele. Engulo meu suspiro quando a água espirra em volta da minha
cintura, subindo mais a cada arrastar dos meus pés. Uma risada desliza entre
meus dentes batendo ao ver arrepios subindo por suas costas musculosas.
Eu cravo meus calcanhares no chão escorregadio quando a água encontra
minhas clavículas.
— Kai. — A água bate em meus ombros. — Tudo bem, Kai, estou com frio.
Podemos parar agora.
Meu queixo mergulha na água e o pânico pulsa por mim. Estou espirrando
meus braços, chutando os pés que mal tocam o fundo agora. Através da visão
turva, vejo Kai se virar e correr em minha direção, espirrando água a cada passo.
Braços fortes envolvem minha cintura, levantando minha cabeça bem acima
da água.
— Tudo bem. Eu te peguei. — Preocupação enruga seus olhos enquanto ele
me olha. — Eu esqueci o quanto você é menor. Não percebi que a água tinha
ficado tão funda.
Eu tusso, piscando para tirar água dos meus olhos.
— Ainda não sei nadar, babaca.
Ele balança a cabeça para mim, respirando pesadamente. A água está rolando
pelo seu rosto, pingando dos cílios. Ele levanta uma mão das minhas costas para
colocar uma mecha encharcada de cabelo atrás da minha orelha.
— Diabos, com toda essa conversa de me afogar, imaginei que você ficaria um
pouco mais confiante na água.
Eu sorrio fracamente.
— Estou confiante o suficiente para segurar sua cabeça.
Ele ri, mostrando uma covinha para mim. Seus dedos brincam com a ponta da
minha trança antes de puxá-la.
— Então, eu te ensinei a dançar e cavalgar agora. Devo adicionar natação a
essa lista?"
— Não se você for se gabar disso — murmuro.
— Não estou me gabando. Ainda. — Ele passa um dedo pela minha trança
molhada. — Simplesmente dizendo que não tenho certeza do que você faria sem
mim.
— Eu seria livre sem você. — Eu sorrio tristemente. — Eu estaria fazendo o
que diabos eu quisesse.
— Como lutar em uma jaula e viver em um prédio em ruínas?
— É melhor do que apodrecer numa cela — retruco, com os olhos fixos nele.
Seus dedos encontram meu queixo, limpando a água que pingava dos meus
lábios.
— Não vou deixar isso acontecer.
— É — eu rio sem graça. — Certifique-se de me matar rápido, por favor. Eu
prefiro acabar logo com isso.
Ele balança a cabeça, olhos na minha cicatriz. Eu recuo quando seus dedos
roçam a linha irregular e me viro para escondê-la dele.
— Gray...
— Azer — interrompi com firmeza. — Não finja esquecer quem somos um
para o outro. O que somos para Ilya. — Eu enfio um dedo em seu peito nu. —
Elite. Comum. Executor. Criminosa. — Eu balanço minha cabeça, olhando
fixamente para os galhos balançando ao nosso redor. — Nós somos inimigos com
história. Inimigos que se odeiam.
Não me incomodo em olhar para ele, mas sei que ele está balançando a
cabeça.
— Você não me odeia.
— Ah, tenho todos os motivos para isso.
— Mas isso não significa que você faça isso.
Eu bufo e empurro minhas palmas contra seu peito.
— Me coloque no chão.
Ele me segura mais forte.
— Você sabe o que eu acho?
— Não, na verdade, eu não dou a mínima para o que você-
— Acho que você odeia não poder me odiar.
Meu rosto está a centímetros do dele.
— Oh, eu posso te odiar muito bem.
— Então odeio que você sinta algo por mim. — Sua mão roça minha coxa
enquanto a outra me pressiona firmemente contra ele. — Me odeie por fazer
você querer isso.
Uma gota de chuva cai na minha bochecha. Engulo em seco, procurando
palavras antes de me decidir por balançar a cabeça. Empurro fracamente contra
seu peito, piscando para as gotas de água escorrendo pela pele bronzeada.
— Só finja — ele murmura. — Nós merecemos fingir.
Aí está aquela palavra novamente, aquela que justifica os sentimentos contra
os quais estou lutando.
Ele está levantando minha perna, guiando-a até que esteja enrolada em seu
quadril. Outra gota de chuva encontra meu nariz quando meu olhar se levanta
para encontrar o dele, nossos rostos próximos. Meu coração bate forte no meu
peito, travando uma guerra com minha mente gritando.
Eu não deveria fazer isso. Ele é uma ladeira escorregadia que estou prestes a
cair, uma tentação que eu sei que não devo provar. De novo.
Mas isso é fingimento.
Este é um segredo para as almas.
E é isso que eu digo a mim mesma enquanto enrolo minha outra perna em
volta do quadril dele, suas mãos apertando minhas costas. Segurando-me contra
ele, ele dá alguns passos lentos para trás até que a água lamba nossas clavículas.
E eu o deixo. Porque eu confio nele mais do que eu gostaria de admitir.
A chuva começa a cair do céu, criando um padrão de ondulações ao nosso
redor.
— Isso é só fingimento? — sussurro, derretendo-me em seu abraço.
— Somos só nós dois. — Uma mão desliza pelas minhas costas e pelo meu
cabelo. — Sem títulos. Sem obrigações. Sem história.
Concordo lentamente enquanto coloco minhas mãos em ambos os lados do
seu pescoço. A chuva respinga em nossos rostos, caindo mais forte a cada
segundo gasto olhando um para o outro.
— Você vai me beijar, Gray, ou vai continuar admirando o que vê? — ele
murmura, agora passando o polegar sobre meu lábio inferior.
— Ainda estou pensando em te afogar, na verdade. — Minha voz está ofegante,
meus próprios dedos vagando pela curva de seu maxilar.
— Oh, meu bem, eu já estou. — Seus lábios se aproximam dos meus, me
provocando. — E eu estou implorando para você me deixar te respirar.
Eu sorrio maliciosamente.
— Eu pensei que você nunca implorasse?
— Estou me acostumando com você.
E então sua mão desliza para trás do meu pescoço para puxar meus lábios em
direção aos dele.
Sua boca está na minha, distraindo de cada eco de aviso que ricocheteia em
meu crânio. Ele tem gosto de erro, e ainda assim, eu memorizo a sensação de
seus lábios contra os meus. Uma parte de mim sabe que eu não deveria estar
fazendo isso, mas não consigo lembrar de um único motivo.
Esse beijo parece diferente.
Esse beijo parece a recuperação do tempo perdido. Como se a cada momento
nossos corpos se pressionassem enquanto nossos lábios se mantinham
distantes. A cada momento que a tensão se enroscava em nós, mas nos
separamos.
Beijá-lo no telhado tinha a intenção de machucá-lo, de mostrar a ele a
extensão do meu ódio. Ódio cobria os lábios que encontravam os dele, e a raiva
me incitava a fazê-lo.
Nosso beijo no esgoto foi iniciado pela morte iminente, estimulado pelo
pânico. Foi apressado e impulsivo - tudo o que este momento não é.
Esse tem gosto de desejo. É paixão separando meus lábios, desejo
aprofundando o beijo.
Ele leva seu tempo fazendo exatamente o que ele implorou para fazer - me
inspirar. Uma mão corre pelo meu pescoço enquanto a outra explora a curva da
minha cintura nua. Ele desacelera o beijo quando meus dedos se enrolam em seu
cabelo antes de correr sobre o comprimento de seus ombros, sentindo cicatrizes
salpicando sua pele.
Há uma certa reverência em seu beijo, uma gentileza na maneira como ele
segura meu rosto. Nunca senti uma paixão tão delicada.
A chuva está nos atingindo agora, encharcando meu cabelo e pingando do
meu nariz. Ele me beija com mais força apesar de tudo, como se lembrasse de
como não tinha feito isso na primeira vez que fomos pegos pela chuva, do lado
de fora do palácio. Envolvo minhas pernas com mais força ao redor dele,
puxando-o para perto o suficiente para sentir seu coração martelando contra
seu peito.
Suspiro contra sua boca quando sua língua encontra a minha. Isso o faz me
puxar com força contra ele com uma mão calejada. O beijo fica impaciente,
exigente e desesperado do jeito que o desejo normalmente é.
Seus dentes puxam meu lábio inferior. Não com raiva ou aversão como eu
tinha no topo daquele telhado, mas com desejo. A ação incendeia meu corpo,
espalhando fogo por cada veia. Minha boca se move no ritmo da dele,
combinando cada golpe de sua língua, cada movimento de seus lábios.
Seus dedos estão em meus cabelos encharcados, descendo pelo meu
pescoço.
O trovão bate acima de nós.
Talvez a intenção fosse nos animar, mas, em vez disso, nos destroça.
Estou respirando pesadamente, piscando na chuva torrencial para ele fazer o
mesmo.
Eu olho de soslaio para o céu lotado de nuvens ameaçadoras, ocasionalmente
quebradas por um raio. Soltando minhas pernas de seus quadris, limpo minha
garganta e me forço a encontrar seus olhos. Ele me estuda por um longo
momento, levantando uma mão para limpar uma gota de água da ponta do meu
nariz.
— Você está tremendo — ele diz, mal alto o suficiente para eu ouvir por causa
da tempestade.
Eu engulo.
— Estou com frio. — Seus lábios se contraem com isso. Meus dedos traçam o
símbolo Ilya tatuado em seu peito.
— Seu coração está batendo forte.
— Sim, isso tende a acontecer quando você me toca.
Meus olhos se erguem rapidamente para encontrar uma covinha me
espreitando. A contração de seus lábios me tenta a pressionar os meus contra
eles, mas consigo me conter quando a realidade se instala.
Fingir. Distração. Fraqueza.
Todas as palavras para descrever o que não deveria ter acontecido.
Ele gentilmente agarra meu pulso para guiá-lo para trás de seu pescoço,
fazendo o mesmo com o outro.
— O que você está fazendo? — pergunto hesitante.
Ele entra mais fundo na água, nos girando em um círculo lento.
— Você me diz, Pequena Psíquica. — Reviro os olhos para ele enquanto ele
abre um sorriso.
Suas próximas palavras espelham as sussurradas depois de me colocar em
cima de seus pés para dançar ao lado da luz do fogo.
— Deixe-me nadar por nós dois.
CAPÍTULO 39

PAEDYN

Estou encharcaa até os ossos quando Kai me coloca na borda da piscina.


A chuva está caindo mais forte agora, ardendo meus olhos e batendo na
minha pele. Kai se puxa para a grama ao meu lado, seu cabelo uma bagunça
úmida sobre sua testa. Ele se esparrama de costas, fechando os olhos contra a
chuva persistente.
Quando me movo para ficar de pé, ele envolve um braço em volta da minha
cintura para me puxar para baixo ao lado dele. Eu suspiro antes de rir enquanto
rolo minha cabeça em direção a ele na grama molhada. Paz puxa suas feições,
suaviza seus lábios em um leve sorriso.
Ele parece aliviado.
Duvido que ele já tenha se sentido tão livre. Não há uma alma além da minha
e daqueles que nos cercam que saibam onde ele está. E há um certo conforto em
estar voluntariamente perdido, escondido da própria vida.
Ficamos ali por um longo tempo, nos aquecendo no chuveiro da natureza. Em
algum momento, sua mão encontra a minha. Ele entrelaça frouxamente nossos
dedos, uma ação que é de alguma forma mais íntima do que o tempo que
passamos na piscina, como se ele estivesse contente em existir silenciosamente
ao meu lado.
Um clarão brilhante de relâmpago me faz sentar, olhos se abrindo
rapidamente. Olho para trás para o bando encharcado sentado na grama úmida e
rapidamente me levanto.
Kai tenta me alcançar novamente, mas eu pulo para longe com uma risada.
— Vem, já chega de ficar deitado. — Pego minha mochila do chão, vendo-a
pingar como o resto de mim. — Precisamos nos secar, e todo o resto também.
Ele se senta, piscando na chuva.
— É, você está sacudindo a corrente a cada arrepio.
Ao mencionar isso, eu tremo de novo. Eu me viro, pegando o arco antes de
recuar para o corpo forte que de repente está parado atrás de mim.
— Eu fico com isso — ele diz contra meu ouvido. — Minha vida já foi
ameaçada o suficiente por hoje.
Relutantemente, deixei que ele puxasse a arma das minhas mãos enquanto
eu despejava a água das minhas botas, só para colocá-las de volta nos pés
molhados. Jogando minha camisa encharcada por cima do ombro, caminho em
direção ao muro de pedras e árvores que nos separa da estrada além.
Escalar a ladeira escorregadia é um esforço humilhante. São necessárias
várias tentativas para me puxar para o topo da pedra antes que eu consiga
alcançar a árvore ao lado dela. Kai segue atrás enquanto eu lentamente caminho
até o chão, suspirando de alívio quando meus pés afundam na terra úmida.
Eu aperto os olhos através do fluxo constante de chuva.
— Onde está o cavalo?
Kai anda ao meu lado, arco pendurado nas costas.
— O trovão deve tê-lo assustado. Ele provavelmente já se foi há muito tempo.
Eu suspiro.
— Eu estava só pegando o jeito de andar.
— Ah, é assim que você chama? — Kai pergunta, com os lábios franzidos em
um sorriso.
Coloquei uma mão em sua bochecha, empurrando-a enquanto passo. A ação
parece confortável de uma forma que eu gostaria que não parecesse. Então,
mantenho minhas mãos para mim enquanto caminhamos pela estrada inundada,
procurando abrigo para esperar a tempestade passar.
Não vamos muito longe antes que um aglomerado de pedras chame minha
atenção. Uma pedra grande e plana se estende sobre as que estão abaixo dela,
criando um dossel improvisado alto o suficiente para nos sentarmos
confortavelmente.
— Por aqui! — grito sobre a tempestade, nos virando em direção ao abrigo.
Quando nos abaixamos sob a pedra, eu tiro a mochila dos meus ombros,
respirando pesadamente. Estou prestes a me jogar no pedaço de chão seco
quando Kai diz:
— Preciso ir buscar lenha.
Ambas as nossas cabeças caem para a corrente que nos prende.
— Tudo bem. — Ele suspira — Precisamos ir buscar lenha.
Forçar-me a voltar para a chuva é um esforço de vontade. Arrasto meus pés
enquanto Kai coleta madeira para nossa fogueira, quebrando galhos de árvores e
empilhando-os em meus braços.
Meus dentes estão batendo quando chegamos de volta ao acampamento.
— Esta madeira não vai ser fácil de acender — Kai murmura, arrumando os
galhos molhados para o fogo que estamos prestes a tentar.
— Temos dois fósforos sobrando — digo, remexendo na minha mochila
encharcada. Meus dedos encontram a caixa de metal e a puxam para fora,
aliviados por encontrar os fósforos ainda secos.
— Essa madeira não vai pegar fogo sozinha — Kai diz, olhando para mim. —
Precisamos de algo para ajudar a iniciá-la. Temos algum papel?
Estou prestes a balançar a cabeça quando meus olhos se fixam no diário
enfiado entre sacos de dormir úmidos. Engulo em seco, lentamente estendendo
uma mão em direção a ele. Posso sentir os olhos de Kai em mim enquanto tiro o
livro de couro e folheio as páginas, encontrando-as surpreendentemente secas.
— Aqui tem um pouco de papel — digo baixinho.
— Não. — A voz de Kai é firme. — Não, não vamos usar isso.
— Está tudo bem. — Eu aceno, tentando me convencer. — Tenho certeza de
que a maior parte disso é só pesquisa e anotações. E eu prefiro não congelar esta
noite, então... está tudo bem. — Seus olhos se estreitam, expressão cética. —
Estou bem.
Isso parece persuadi-lo o suficiente para assentir levemente. Volto-me para o
livro em mãos, respirando fundo antes de folhear as primeiras páginas. Sua
caligrafia familiar me faz sorrir, me faz lutar para engolir. Estreito os olhos na luz
fraca, incitando meus olhos a se ajustarem à escuridão crescente.
A primeira página rasga facilmente. Falava de receitas para vários remédios
que as Elites podem usar quando não conseguem chegar a um Curador. A
segunda página era mais do mesmo, consistindo de medidas e ervas para
doenças comuns. A terceira página estava cheia de tinta, rodopiando com notas
rabiscadas descrevendo um paciente difícil.
Cada pedaço de pergaminho queima mais facilmente do que rasga. Entrego
cada pedaço do meu pai a ele, observando o trabalho de sua vida ir para o alto
em chamas. São necessárias várias páginas para acender a madeira, e nada além
de uma chama fraca para mostrar isso. Kai cuida do fogo, forçando-o a crescer
apesar da dificuldade.
Eu tiro nossas camisas, colocando-as perto do fogo ao lado de todos os
outros pertences úmidos. Então me inclino contra a pedra para ler as páginas
restantes amassadas entre as capas de couro do diário. Eu o folheio, parando
para ler entradas sobre as muitas pessoas que ele ajudou a curar nas favelas.
Meus dedos tateiam um pedaço grosso de pergaminho perto do fundo e
minha curiosidade me faz folhear para o que está por trás dele. Uma entrada de
diário me encara, letras inclinadas manchando a página. Mas esta é diferente das
demais. Esta é pessoal e datada, pensamentos profundos derramados no
pergaminho.
Sento-me um pouco ereto, minha coluna enrijecida em choque.
A ação não passa despercebida.
— O que foi? — Kai pergunta, o fogo esquecido.
— Meu pai… — Balanço a cabeça para a página. — Ele tinha um diário.
Silêncio.
— Sim, eu entendi isso.
— Não, quero dizer, ele mantinha um diário. — Eu olho para cima, olhos
arregalados. — Seus próprios pensamentos e sentimentos. Um registro de sua
vida.
— Um diário — Kai diz calmamente.
Concordo, olhando para o livro no meu colo.
— A primeira entrada é datada de mais de dez anos antes do meu nascimento
— digo.
As palavras estão borradas e apressadas, como se ele achasse que era perda
de tempo escrever sobre sua própria vida. Levanto os olhos e encontro o olhar
de Kai preso em mim. Seu aceno de encorajamento me faz limpar a garganta e
ler o roteiro rabiscado.

"Acho que vou escrever sobre isso, já que é traição falar sobre
isso para qualquer outra pessoa. O rei me ofereceu um emprego
novamente. Bem, mais como me ameaçou com isso. Fui convocado ao
palácio para ajudar seus curandeiros durante a temporada de febre.
Mas eu sei suas verdadeiras intenções. Ele me quer fora das favelas
e na cidade alta com o resto dos curandeiros. Ele não quer ninguém
cuidando dos pobres ou menos poderosos, por falar nisso. Eu não
ficaria surpreso se ele começasse outro Expurgo, desta vez para os
Mundanos. Ele os acha fracos como os Ordinários, tratando as
favelas como a escória sob o sapato brilhante que é seu reino de
Elite.
Há uma razão pela qual nenhum outro Curador pode ser
encontrado em qualquer lugar perto das favelas. A ganância é uma
praga que Ilya ainda não erradicou. Mas quando o rei oferece a cada
Curandeiro mais dinheiro do que eles poderiam gastar em suas vidas,
eles concordam alegremente com quaisquer condições que estejam
atreladas. As condições são simples o suficiente - cuidar apenas da
classe alta e promover a ideia de que os Ordinários estão
enfraquecendo nossos poderes por meio da proximidade prolongada
devido à doença indetectável que eles carregam.
Ele está pagando a eles. Que mentira cara. Porque ninguém
questionará o que os Curandeiros dizem que detectam. Por décadas, o
rei tem comprado o apoio das únicas pessoas que sabem que essa
doença é uma mentira. E tem funcionado perfeitamente. Não é tão
embora os Curandores se importem com os Ordinários. Eles podem
saber que a doença indetectável é uma farsa, mas também sabem que
os Comuns e Elites se reproduzindo diminuirão nosso poder e,
eventualmente, farão com que nossa espécie seja extinta. Isso por si
só é o suficiente para que sua ganância promova a mentira do rei e
garanta que os Elites nunca permitam que os Comums voltem para
Ilya
É besteira, mas é brilhante. E eu sou o problema. A exceção
com um alvo nas costas.
O rei é persuasivo - eu admito isso. Seus subornos são muito
tentadores para um morador das favelas, mas não posso abandonar a
classe baixa, não quando ninguém mais vai ajudar com a doença que se
espalha pelas ruas como um incêndio.
Então as favelas são onde eu ficarei. O rei não comprará meu
apoio.”

Pisco para a escrita familiar, ouvindo sua voz a cada palavra que leio. Meus
olhos deslizam pela página novamente. E novamente. E-
— Você ouviu isso? — pergunto abruptamente, olhando para Kai.
Ele está agachado em frente ao fogo, mãos sobre os joelhos. Ele olha
fixamente para a chama bruxuleante, assentindo levemente.
— Eu ouvi.
— Você sabe o que isso significa? — Um sorriso enlouquecido puxa meus
lábios. — Isso é prova, Kai. Isso é prova de que não há doença detectada pelos
Curadores. E o rei-
— O rei os subornou para mentir sobre isso — ele termina calmamente. Seu
olhar não se desviou do fogo fraco. — Isto é, se alguma coisa disso for verdade.
— Meu pai não era mentiroso — eu retruco, mais duro do que o pretendido.
Solto um suspiro antes de continuar calmamente. — Você não vê? Tudo faz
sentido. Seu pai tinha todos os Curadores sob seu controle, em algum lugar onde
ele pudesse observá-los de perto. E ele queria que as favelas sofressem porque
até mesmo alguns Elites são fracos demais para o gosto dele.
Eu o ouço respirar fundo.
— Não. Não, isso não pode estar certo. — Ele arrasta os dedos pelos cabelos
úmidos. — Não posso deixar que isso esteja certo porque eu justifiquei tudo.
Tudo o que fiz como Executor. Foi tudo para proteger os Elites e Ilya dessa
doença, mas se os Comuns não estiverem enfraquecendo nossos poderes...
Ele para de falar, passando a mão no rosto. Estendo a mão hesitante em sua
direção, sem saber o que dizer.
— Kai...
— Isso significaria que ele tem matado Comuns para evitar que eles se
reproduzam com Elites. Ele tem matado pessoas saudáveis e inocentes. — Ele
finalmente olha para mim, olhos cinzentos gelados. — Eu tenho matado pessoas
saudáveis e inocentes.
— Você não sabia — murmuro. — Como poderia? O rei fez todos os Curadores
vomitarem sua mentira.
Eu me viro, chocada com a sinceridade que se infiltra em minhas palavras.
Nunca pensei que simpatizaria com os crimes que ele cometeu contra Comuns
como eu, mas sua cabeça está em suas mãos, sua mágoa escondida atrás da
máscara em ruínas que ele usa.
O remorso está escrito em todo o seu rosto. A raiva está esboçada no
enrijecimento de seus ombros, a tempestade rugindo em seus olhos.
Ele passou a vida inteira vivendo uma mentira que o ajudou a viver consigo
mesmo.
Ele balança a cabeça, sua sombra fazendo o mesmo na parede atrás dele.
— Não pode ser verdade. — Ele não olha para mim. — Há mais alguma
entrada? Mais alguma coisa sobre isso?
Viro a página, encontrando mais palavras espalhadas ali.
— Esta está datada de algumas semanas depois. Aqui, olhe. — Chego mais
perto do fogo, inundando a página com luz e facilitando a leitura.
“Eu tive uma ideia enquanto trabalhava no palácio hoje. Uma ideia
terrível e traiçoeira que não deveria ser escrita. Mas eu sei que há
Comuns escondidos em Ilya que precisam de ajuda para sobreviver.
Provavelmente Fatais também. E talvez seja ingênuo esperar que haja
Elites por aí que acreditam que matar Ordinários seja errado.
Quero encontrar esses poucos. Quero construir uma comunidade.
algo que o rei não pode ignorar. Quero lutar com os Comuns, pelos
Comuns e outros semelhantes.
Ainda não sei como, mas vou tentar.”

Olho para a página manchada.


— Ele está falando sobre a Resistência. — Sorrio levemente. — Não é de se
espantar que ele tenha escondido este diário sob uma tábua do assoalho. É
incriminador.
Kai assente enquanto viro a página para que possamos ler a entrada a seguir.

“Tenho procurado nos prédios abandonados nas favelas e encontrei


alguns Ordinaries dispostos a confiar em mim. Convidei-os para minha
casa e contei-lhes sobre meus planos de lutar pelo direito deles de
viver em Ilya
Agora somos mais, pelo menos uma dúzia. Nossa pequena
Resistência está crescendo. Comecei a treinar Ordinários para
adotar uma habilidade, ajudá-los a se juntar à sociedade em vez de
se esconderem em prédios abandonados. A maioria assume a
habilidade Hyper, pois é a mentira mais fácil.
Ainda estou sendo convocado para o castelo para a temporada de
febre. Os subornos do rei são tentadores, mas eu faço meu papel
como um Curador e retorno para as favelas.
Toda vez.”

Virei a página ansiosamente e encontrei um tópico diferente rabiscado ali.


“Conheci uma garota comum. Bem, uma mulher. Ela pegou a febre
enquanto vivia nas favelas, o que geralmente significa morte. Mas
aconteceu de eu encontrá-la a tempo. Ela é linda - uma distração
completa enquanto eu trabalhava. Algo sobre sua alma parecia
chamar a minha. Estou determinado a me casar com ela.
Finalmente consegui. Me casei com ela.
Eu vou ser pai. Alice vomitou a manhã toda com um sorriso no
rosto. Ela está convencida de que é uma menina.”

Lágrimas ameaçam cair enquanto leio sobre a mãe que nunca conheci.
Através da visão turva, uma data chama minha atenção, forçando meus dedos
frenéticos a pararem.
— Esta é de três semanas antes de eu nascer — digo baixinho, olhando para
cima para encontrar Kai olhando atentamente.

Ela perdeu muito sangue. Eu não consegui impedir. Eu sou um


maldito Curandor e nem consegui salvá-la. Eu a enterrei no quintal
com nosso bebê. Ela estava certa. Era uma menina.

Meu coração para. O tempo desacelera.


"Eu a enterrei no quintal junto com nosso bebê."
Eu balanço minha cabeça, ignorando a mão que Kai coloca em meu joelho.
— Eu... eu não entendo. O pai disse que ela morreu de doença quando eu era
um bebê, mas...
Vou parando, folheando as páginas até encontrar a próxima entrada.

“Eu não estava planejando escrever aqui depois de Alice. Eu nem


estava planejando ter um depois de Alice, mas acordei com uma
batida na minha porta ontem à noite. No entanto, quando abri a
porta, não havia ninguém lá.
Isto é, até eu olhar para baixo.
E lá estava ela. Uma menina.
Alguém a deixou na minha porta. Ela não pode ter mais do que
algumas semanas de idade, com uma cabeça cheia de cabelos
prateados e olhos azuis profundos. Ela é linda. Alice choraria ao
vê-la.
Vou ser pai. É isso que Alice teria desejado. Ela já tinha um nome
escolhido de qualquer forma.”

Uma lágrima espirra no pergaminho, afogando a tinta.


Acho que Kai pode estar dizendo algo, mas não consigo ouvir nada além do
zumbido nos meus ouvidos. Minha cabeça está girando, o coração batendo forte,
a respiração presa na garganta porque não consigo engolir. Não consigo respirar.
Não consigo-
— Ei. — As mãos ásperas de Kai no meu rosto me arrancam dos meus
pensamentos. — Ei, olhe para mim. Você está bem.
Eu alcanço seus braços para limpar violentamente as lágrimas que vazam dos
meus olhos.
— Não, eu não estou bem! — Eu finalmente respiro fundo, piscando para
conter a onda de emoção atrás dos meus olhos. — Isso não pode estar certo. Eu
não vou acreditar — eu gaguejo, repetindo as próprias palavras de Kai. — Isso
significa... que eu era órfã antes mesmo de perder meu pai. — Um soluço
histérico escapa dos meus lábios. — E isso faria da minha vida inteira uma
mentira.
Kai balança a cabeça, expressão severa.
— Não. Sua vida não é uma mentira, está me ouvindo? — Ele levanta meu
rosto, me forçando a olhar para ele. — Só porque vocês não compartilham o
mesmo sangue, não significa que ele não era seu pai. Ele criou você como se
fosse sua filha. Ele escolheu amar você.
Tudo o que ele diz faz sentido, e eu odeio isso.
Quero me enfurecer, quero gritar, quero sentar aqui e sentir pena de mim
mesmo. Porque uma parte de mim se sente traída, se sente enganada pelo
homem que chamei de Pai.
Eu silenciosamente viro para a próxima entrada enquanto as mãos de Kai
lentamente escorregam do meu rosto. Eu posso sentir seus olhos em mim,
esperando que eu ceda.
Mas estou cansado de quebrar. Cansado de ter que carregar pedaços de mim
mesmo que estou cansado demais para juntar de novo.
Fungo, volto a olhar para a página e continuo lendo entorpecida.

“Sem Alice, meu único propósito agora é a Resistência. É tudo o


que me mantém firme. Isso e Paedyn.”
Lágrimas espirram na página mais uma vez ao ver meu nome. O polegar de
Kai desliza pela minha bochecha, roubando a lágrima da minha pele.
— Fale comigo — ele murmura, inclinando-se perto o suficiente para que eu
não possa ignorá-lo. Eu balanço minha cabeça, lutando para engolir a emoção
bloqueada na minha garganta.
— A verdade, então?
Ele assente.
— A verdade, sempre.
Eu respiro fundo, lutando contra as lágrimas entre cada uma que se segue.
— Passei a vida inteira aceitando o fato de que nunca seria capaz de viver isso
de verdade. Sou uma Comum, e tudo bem — estou vivendo com isso. Cheguei a
um acordo com o que não sou, e vou lidar com isso até o dia em que morrer.
Mas-
Ele pega minha mão trêmula na sua, me incentivando com um único olhar
firme.
— Mas eu paguei minhas dívidas, não paguei? — As palavras são um suspiro,
como se tivessem sido arrancadas da minha garganta. — Eu já não sofri o
suficiente? Eu já não sou nada, mas agora não pertenço a ninguém. A única coisa
na minha vida que era certa e real e só minha foi arrancada de mim. — Eu respiro
fundo, estremecendo, piscando sem expressão para o fogo. — Assim como todo
o resto.
Ele balança a cabeça para mim, erguendo a mão para tirar o cabelo solto do
meu rosto.
— Você não pode ser nada quando é tudo para outra pessoa. — Meus olhos
sobem até os dele, encontrando-os evitando os meus. Demora vários batimentos
cardíacos para ele abrir a boca, derramando palavras que soam incertas. — E é
isso que você era para seu pai. Fosse ele ou não sua carne e sangue. Ele te amava
mais do que a maioria.
Suas palavras me atingiram com força — um lembrete de como qualquer
coisa é melhor do que o que ele suportou por um homem que realmente era seu
pai. Eu me acalmo, tentando acalmar minha respiração. Então, estou virando a
página, ignorando as lágrimas não derramadas brotando em meus olhos. Eu
forço meus olhos a se concentrarem, a continuar lendo. Suas palavras são minha
distração, sua caligrafia, um conforto.
“Conheci um Fatal hoje nas ruas. Ele me puxou para um beco e
sussurrou que queria ajudar com minha ideia — da qual ele só sabia
porque por acaso era um Leitor de Mentes.
Nós conversamos por horas sobre as lutas que ele enfrentou e
como ele quer ver Ordinaries e Fatals livres novamente. Mas primeiro
precisamos encontrar aqueles que estão escondidos à vista de todos.”

— Calum — sussurro, sabendo exatamente quem é esse Leitor de Mentes. A


próxima página é uma coleção apressada de vários dias.

“Calum já encontrou mais três Comuns para nós. Ele vasculha as


ruas, lendo pensamentos até encontrar uma mente que grita seu
segredo. Seu método é muito mais rápido que o meu. Nós todos nos
encontramos hoje à noite para discutir nossos planos.
Vários dos nossos Comuns não vão a uma reunião há semanas.
Estou começando a me preocupar que algo tenha acontecido.
Provavelmente obra de um Imperial.
Nós limpamos o porão abaixo da casa para usar em reuniões.
Somos muitos agora para passar despercebidos. Eu criei uma estante
de livros sobre a porta do porão, escondendo a entrada caso
tenhamos visitas inesperadas.”

Folheio as páginas, relembrando os anos de crescimento da Resistência.

“Eu nomeei líderes para diferentes setores das favelas. Não


podemos mais nos reunir todos na minha casa. Agora, apenas nós,
líderes, fazemos reuniões para discutir como a Resistência está indo.
Temos planos de confrontar o rei e suas mentiras, mas somos muito
fracos para tentar isso agora. Talvez nos próximos anos.”

— Gray.
Ele diz minha voz suavemente, tentando me acordar do meu estupor.
Ignorando a preocupação enrugando sua testa, eu folheio furiosamente as
páginas restantes. O pergaminho em branco me encara até meus dedos pararem
em um tronco maior.
“Eu esqueci desse diário. Aparentemente, já faz seis anos desde
a última vez que escrevi aqui. Não há muito a dizer além de quão
grande Paedyn está ficando
Está claro agora por que ela foi deixada na minha porta. Ela é
comum. Os pais dela não queriam lidar com uma criança. E, caramba,
eles estão perdendo ela.
Ela tem esse fogo sobre ela. Essa rapidez. Eu a tenho treinado
de forma diferente, mais extrema. Eu nunca quero que ela se sinta
nada além de forte. E quando eu percebi o quão observadora ela era
quando jovem criança. Achei que era melhor me ater aos pontos
fortes dela. Então, estou afiando aquela mentezinha dela em uma
arma para se proteger. Como uma psíquica ela pode fazer mais do que
se passar por uma Elite, mais do que sobreviver. Ela pode viver.
Contei a ela sobre Alice. Exceto a verdade de como ela morreu.
Pae acha que foi uma doença que a levou para longe de nós logo depois
que ela nasceu. Perdi o sono tentando decidir se deveria contar a
verdade a Paedyn. Mas eu sou o único pai que ela teve, e mesmo na
morte. Alice é sua mãe.”

A tinta mancha a página, borrando como se ele tivesse fechado o livro com
pressa. Ignoro o olhar de preocupação crescente pintando o rosto de Kai
enquanto continuamos a ler a próxima página datada de vários anos depois.

“Não contei a ela sobre a Resistência. Vou contar eventualmente.


Ficou mais difícil esconder isso dela conforme ela foi ficando mais
velha. Não sei por que não contei a ela. Talvez eu não queira
envolvê-la. Talvez ela ainda seja apenas minha garotinha, apesar de
quão forte ela se tornou. Mesmo que ela não precise disso. Quero
protegê-la o máximo que puder. E fazer parte da Resistência é
perigoso. O rei sabe de nós agora, seus imperiais receberam ordens
de ficar de olho.
Talvez seja melhor que ela não saiba até que a Resistência esteja
pronta para agir. Talvez seja melhor que ela continue sendo minha
garotinha pelo maior tempo possível.”

Viro a página, minha visão está embaçada.


Nada.
Meus dedos tateiam os cantos, rasgando cada pedaço de pergaminho apenas
para encontrá-los vazios.
Quando meu polegar encontra a contracapa, olho para a encadernação de
couro representando o fim de sua vida. O fechamento de um capítulo.
— É isso — sussurro.
— Essa foi a última registro que ele escreveu.
Estou cansada. Cansada demais para encontrar energia para sentir mais
alguma coisa. Então, eu me jogo contra a pedra, empurrando o diário de volta
para minha mochila.
Kai observa, correndo os olhos por mim. Ele parece hesitante em interromper
minha falta de pensamentos.
— Você está bem?
Esfrego as mãos sobre os olhos, sentindo as lágrimas fazerem cócegas nos
meus dedos. Então, fixo meu olhar vazio nele.
— Eu sempre encontro um jeito de ficar.
CAPÍTULO 40

KAI

Não é natural que ela fique tão quieta.


Ela não falou nada desde que enfiou o diário na mochila e se enrolou contra
uma pedra para passar a noite. Duvido que qualquer um de nós tenha dormido
muito depois de nos revirarmos em sacos de dormir úmidos até o amanhecer
salpicar o chão, se esgueirando por baixo do nosso forte de pedra para nos
acordar.
Olho para ela, o cabelo escorregando da trança para cair em volta de um rosto
cansado. Os olhos dela estão fechados contra a luz que se derrama sobre ela, as
mãos curvadas sob a bochecha.
— Eu sei que você está acordada.
Eu sussurro as palavras, ciente de que ela está prestando atenção suficiente
em mim para ouvi-las. E ainda assim, ela não se mexe. Eu suspiro, me
aproximando dela até que estejamos compartilhando o mesmo ar.
— Não seja teimoso, Gray. Eu sei que você está ouvindo. — Eu levanto uma
mão para colocar uma mecha prateada atrás da orelha dela antes de correr meus
dedos pelo comprimento do seu pescoço. — Eu fiquei muito bom em ler sua
linguagem corporal.
Isso fez com que ela abrisse os olhos e me desse um olhar penetrante.
— Então você deveria saber que eu estava te ignorando — ela murmura contra
as mãos.
— Como você normalmente faz.
Eu a observo lutando para conter um sorriso, e a visão disso me faz fazer o
mesmo.
— Eu só… — Ela passa a mão no rosto, de repente séria. — Eu só tenho muita
coisa na cabeça. Mal dormi.
Concordo, entendendo como ela está se sentindo. Nós dois descobrimos
coisas ontem à noite que deixaram nossas mentes girando, vidas se desfazendo.
Tudo que me ensinaram a acreditar, tudo que o Pai me disse ser verdade, está de
repente desmoronando sob o peso de palavras rabiscadas. Tudo que eu fiz, tudo
que eu justifiquei...
Agora não sou nada mais que um monstro sem causa.
— Eu sei — digo baixinho. — Eu estava acordado ao seu lado. — Sinto os olhos
dela em mim enquanto levo meu tempo juntando nossas camisas molhadas.
— Você tinha muito em que pensar, tenho certeza. — Ela inclina a cabeça, me
observando atentamente. — Eu sempre acreditei que não estava doente; eu só
não tinha como provar. Mas você... Isso tudo é muito novo para você.
— Eu confiava cegamente nos Curadores — murmuro. — Em homens de
confiança que me conhecem desde criança. Mas parece que o verdadeiro
problema ainda era confiar no meu pai depois de tudo. — Quase rio. — Mas, de
novo, o diário pode estar errado. — Ela abre a boca para argumentar, mas
continuo em silêncio. — É por isso que pretendo descobrir qual é a verdade real.
Interrogar todos os Curadores se for preciso. — Ela fica quieta por um longo
tempo, permitindo que eu fique com meus pensamentos. — E vou contar a Kitt.
As palavras escapam dos meus lábios antes que eu possa engoli-las. Ela se
senta lentamente, me observando atentamente.
— Você vai mostrar o diário a ele?
Eu aceno.
— Ele deveria saber.
— Você acha que isso fará alguma diferença?
— Eu não sei mais — eu digo suavemente, balançando minha cabeça para o
chão. — Eu sinto que não sei mais dele. Ele viveu para agradar nosso pai, e agora
que o Rei se foi antes que ele sinta que o fez...
— Ele está em uma espiral.
— Não, ele está bem — interrompi bruscamente. — Ele vai ficar bem. Ele só
precisa se ajustar, só isso. — Desvio o olhar, balançando a cabeça para me
convencer. — Kitt vai voltar para mim.
— Certo — ela diz baixinho. Sei que ela só está concordando para me poupar
de uma espiral também. Porque o pensamento de Kitt como um rei
enlouquecido me mantém acordado à noite, me mantém esperando que meu
irmão retorne.
— Devemos ir — Abro sua blusa úmida e a coloco sobre sua cabeça.
Ela gagueja, afastando minhas mãos.
— Obrigada — ela murmura, olhando feio enquanto a camisa pende frouxa em
volta do seu pescoço.
— Se você preferir continuar usando isso — aceno para a regata minúscula,
decotada o suficiente para ser uma distração — então, por favor, fique à vontade.
Sorrio ao ver o rubor pintando suas bochechas.
— Não faça isso — ela bufa, enfiando os braços nas mangas e puxando a blusa
para baixo.
— Fazer o quê, meu bem?
— Isso. O flerte. — Seus olhos me percorrem acusadoramente. — As covinhas.
Eu rio antes de conseguir me conter.
— Sabe, eu realmente não consigo evitar isso.
— Evitar o quê? — Ela cruza os braços. — O flerte ou as covinhas?
— Sim — eu digo simplesmente.
Ela balança a cabeça, escondendo um sorriso enquanto enfia os sacos de
dormir na mochila.
— Bem, não faça mais. Nada disso.
— Por quê? — Coloco uma mão na mochila que ela está lutando para jogar por
cima do ombro. — Preocupada que você tenha parado de me odiar?
— Eu poderia te perguntar a mesma coisa. — Ela se inclina, rosto próximo. —
Eu não estou mais doente. Pessoas Comuns nunca foram doentes, na verdade.
Então, você não tem mais desculpa para odiar o que eu sou.
Eu pisco para ela.
— Eu nunca disse que odiava o que você é.
— Tudo bem. Odiava o que eu não era.
Abro a boca, o nome dela pronto para sair da ponta da minha língua. Mas me
contenho, honrando seu desejo de não usá-lo novamente.
— Gray. Quando olho para você, vejo uma força que nenhum Elite possui - e
ela me chamou muito antes de eu descobrir o que você era ou não era.
Seus olhos se movem entre os meus, cheios de uma emoção que não consigo
decifrar.
— E ainda assim, você ainda está me arrastando de volta para Ilya.
— Dever — murmuro. — Não escolha.
— Certo. — Sua voz é rígida. Ela joga a mochila sobre o ombro e sai do abrigo.
— Então não torne isso mais difícil do que precisa ser.
Eu sigo atrás, vestindo minha camisa antes de adicionar o nó no meu peito.
Poças enchem o chão úmido, o sol da manhã refletindo no que a tempestade
deixou para trás.
— Eu não sou o único a tornar isso difícil.
Seu escárnio ecoa nas pedras.
— Nós nem estaríamos nessa posição se você tivesse me deixado desaparecer
e começar uma nova vida.
— Dever, lembra?
Ela pisa forte na minha frente, sacudindo a corrente entre nós.
— Não significa que você não esteja arruinando minha vida, lembra?
— Você fez isso no momento em que enfiou uma espada no peito do rei,
lembra?
— Ele veio atrás de mim, lembra? — Ela se vira para me encarar. — E este
reino está muito melhor sem ele. Talvez você comece a acreditar nisso depois de
tudo que aprendeu.
Minhas palmas estão subitamente plantadas em ambos os lados do rosto dela
enquanto balanço a cabeça.
— Você é um pé no saco, sabia?
— Por que, porque eu estou certa? — ela sussurra.
— Porque você é perigosa.
Os olhos dela nunca se desviam dos meus.
— Eu pensei que você tinha percebido isso na primeira vez que eu chutei sua
bunda.
— Ah, eu percebi. — Meu polegar roça sua bochecha. — Mas foi quando você
me beijou que eu realmente temi o que você tinha feito comigo.
Ela fecha os olhos.
— Eu disse para você parar com isso.
— Isso é honestidade, não flerte.
— Bem, sua covinha direita ainda está aparecendo, então-
— É por isso que seus olhos estão fechados? — Eu rio, abaixando meu rosto
para que fique na altura do dela.
— Deveríamos continuar andando — ela diz abruptamente, se afastando de
mim. — Você tem uma agenda apertada e meus pés já estão doendo-
— Não desvie, Gray — eu grito atrás dela.
— Você acha que vai chover hoje? Eu prefiro não ficar encharcado de novo.
Ainda estou me secando de ontem.
— Nós nos beijamos. — Vejo suas costas enrijecerem sob a camisa úmida
grudada em sua pele. — Três vezes agora.
Ela se vira, parecendo cansada.
— Por que você está me contando isso como se eu não estivesse
constantemente evitando pensar nisso?
— Porque isso já é mais difícil do que deveria ser — eu digo, dando um passo
em sua direção. — Você não é apenas uma missão para mim. Você não é apenas
mais um inimigo para eu encontrar. Você é algo ainda mais assustador.
Sua voz é pouco mais que um sussurro.
— E o que é isso?
— Uma necessidade.
Nós nos encaramos, ambos surpresos com as palavras que saíram dos meus
lábios. A luz do sol está fluindo através do cabelo dela, fazendo-a brilhar como
algo celestial demais para mim.
— Achei que você tivesse encontrado coragem — ela diz suavemente.
Eu sorrio levemente.
— Talvez eu esteja bem em ser um idiota. Contanto que seja por você.
Ela balança a cabeça, afastando-se de mim. Sua boca se abre para argumentar,
e-
Um galho estala levemente à minha direita.
O instinto me faz virar em sua direção, protegendo seu corpo enquanto
coloco a mão sobre sua boca.
Viro a cabeça em direção ao som, procurando por qualquer sinal de quem
temo que possa ter nos encontrado.
Só quando uma dor lancinante irrompe no meu ombro é que sei que estava
certo.
Bandidos.
CAPÍTULO 41

PAEDYN

Kai rosna contra meu ouvido, a dor arrancando o som de sua garganta.
Sua mão desliza da minha boca, abafando o som do meu grito.
— Kai!
Ele lentamente afunda de joelhos, exibindo o corte profundo que se estende
por todo o comprimento do ombro. Eu vi o brilho de uma flecha antes que ela
rasgasse sua pele, partindo a carne em um instante. Eu me abaixo ao lado dele,
as mãos em seu rosto e o coração na garganta.
— Você está bem?
— Bandidos — ele se esforça, ignorando minha pergunta. — Não serei de
muita ajuda. — Outra flecha passa zunindo pela minha cabeça.
— Eu posso ver isso — eu digo, puxando cuidadosamente o arco de suas
costas. Ele sibila por entre os dentes cerrados quando eu bato em seu ferimento.
— Precisamos sair da estrada. Agora. — Eu aceno para um aglomerado de pedras
a não mais do que alguns metros de distância. — Você consegue chegar lá?
— É meu braço, meu bem, não minha perna — ele diz entre dentes.
— Perfeito. — Eu me agacho, puxando-o para cima comigo. — Então você não
deve ter problemas em acompanhar.
Corremos em direção às pedras, ouvindo flechas assobiando por nós. Kai se
coloca entre mim e as flechas persistentes, bloqueando meu corpo com o dele. É
por isso que eu suspiro de surpresa quando a ponta de uma flecha consegue
roçar minha panturrilha.
Arde, enviando uma dor lancinante pela minha perna. Posso sentir o sangue
fazendo cócegas na minha pele enquanto nos abaixamos atrás das pedras,
roubando refúgio do tamanho delas.
Ignorando meu próprio ferimento, volto-me para o seu, muito mais
preocupante. Sangue mancha sua pele, empapando o ombro por baixo. A visão
me faz engolir minha raiva de repente, vendo um tom de vermelho que não tem
nada a ver com o sangue escorrendo pela pele dele. Ele está machucado. E eu
odeio isso.
Essa percepção pode me deixar ainda mais irritado.
Porque é então que eu entendo o quão terrivelmente eu posso machucar
qualquer um que ouse machucá-lo.
Meus olhos voltam para os dele, meu estômago se revirando com a visão de
tanto sangue — o sangue que alguém derramou tão descuidadamente. O
pensamento me faz colocar uma máscara minha, sufocando tudo, exceto a raiva
gelada que esfria minhas feições.
Ignoro a sensação dos olhos dele, focando apenas na tarefa em questão.
Arrumo as flechas de modo que suas hastes emplumadas possam ser facilmente
agarradas da mochila antes de eu pendurá-la nos meus ombros.
O arco está quente em meu punho fechado. Meus olhos se voltam para os
dele, encontrando algo parecido com admiração em seu rosto. Minha voz está
calma, meu rosto frio.
— Eu vou ter certeza de fazê-los pagar.
Eu o observo respirar fundo.
— Não suporta me ver ferido?
Dou um passo para trás, meus olhos nos dele.
— Só quando é obra minha.
A última coisa que ouço quando saio de trás das pedras é um fervoroso
— Tenha cuidado. Por mim.
E então eu pego uma flecha da minha mochila, coloco-a no arco, solto um
suspiro e atiro na primeira figura que vejo.
O homem se encolhe quando minha flecha afunda em seu peito. Eu
rapidamente me agacho de volta, ignorando o fato de que estou mirando em
matar. Mas eu só tenho mais quatro flechas, e não posso me dar ao luxo de
desperdiçar nenhuma.
Uma espécie de calma fria se instala sobre mim enquanto saio para a estrada.
Meus movimentos são praticados, minha mente está parada. Tudo acontece tão
rápido que mal registro que estou derrubando outra flecha.
Eu me abaixo atrás de um conjunto de pedras, sentindo uma flecha passar
perto da minha cabeça. Sabendo de que direção a flecha veio, eu me levanto e
atiro no ombro que se projeta de trás de uma pedra. A flecha atinge perto o
suficiente do coração que ele desmaia rapidamente.
Eu caminho de volta para a estrada, sem ouvir nada além do cascalho
rangendo sob minhas botas. O instinto me faz virar para atirar em uma sombra,
encontrando um homem com um arco apontado para mim. Ele cai no chão junto
com o resto dele quando minha flecha encontra seu coração.
Está quieto. Quieto demais.
Eu encontro abrigo atrás de outro grupo de pedras, examinando os arredores
até que uma flecha vem voando em minha direção. Eu me abaixo antes que ela
possa afundar entre meus olhos.
— Achei você — eu sussurro, puxando minha flecha.
Quando me levanto, ele atira outro, errando por pouco meu ombro. Não
hesito antes de deixar uma flecha voar em direção à cabeça que aparece sobre as
pedras. Vejo a ponta rasgar seu pescoço, cortando tendões e espirrando sangue.
Ouço o baque do seu corpo batendo no chão.
É esse som que me desperta do meu estupor.
Eu tremo apesar da raiva gelada derreter. A estrada em que estou agora
parece girar sob meus pés. Com os ouvidos zumbindo e o coração disparado,
aperto meus olhos fechados, como se isso pudesse me esconder do que fiz.
O arco fica escorregadio na minha palma suada. Eu o deixo cair entorpecido
para olhar para minhas mãos. Eu quase consigo sentir o sangue cobrindo-as. O
sangue daqueles que eu matei.
Quando meu pai me ensinou a lutar, eu sabia que não era isso que ele tinha
em mente.
Não, não meu pai. Não de verdade.
Mesmo assim, sou um fracasso. Mais do que uma decepção para ele. Sou uma
desgraça.
Uma zombaria de tudo o que ele me ensinou a ser.
Eu tirei vidas. Várias vidas. Sete, para ser exato. E mal consigo respirar sob o
peso da culpa me esmagando.
— Ei.
Eu me viro ao ouvir a voz, erguendo meu arco carregado em direção ao rosto
de outro homem.
Kai.
É o Kai. Estou bem. Não preciso machucá-lo.
Seus dedos estão quentes sob meu queixo enquanto ele guia meu rosto para
o dele. Eu pisco lentamente, observando sua testa enrugada e seus olhos
gelados.
— Você terminou, ok? Você conseguiu. — Ele coloca uma mecha de cabelo
atrás da minha orelha, mais gentilmente do que eu mereço. — Eu queria poder
ter feito isso por você. Minha alma já está manchada o suficiente por nós dois.
Sua voz soa distante, separada por uma enxurrada de pensamentos. Eu
balanço minha cabeça, engolindo em seco.
— Eu acho que você subestima o quanto eu manchei minha alma ultimamente.
Eu poderia me afogar nos corpos que agora começam a se acumular aos
meus pés. Eu nunca quis ser isso. Eu não sou nada, e ainda assim, eu tirei tudo
dos outros.
Talvez seja assim que consegui escapar da Morte por tanto tempo:
satisfazendo-a com almas que não são minhas.
O sorriso de Kai é suave, forçando meu foco de volta para ele.
— O fato de você se importar com sua alma significa que você ainda é muito
melhor do que a maioria.
Eu o encaro por um longo momento, deixando suas palavras serem
absorvidas. Deixando-me fingir que acredito nelas. É só quando ele se move para
se apoiar em uma pedra que eu lembro que ele está ferido. O corte da flecha é
profundo e longo, pingando sangue por suas costas.
— Merda, Kai, por que você está falando da minha alma quando está sangrando
por todo lado? — Balanço a cabeça e me agacho atrás dele.
— Gosto de falar sobre sua alma — ele diz enquanto toco cuidadosamente a
pele ao redor do corte.
— E por que isso? — pergunto distraidamente.
— Talvez — ele sussurra — eu tenha inveja disso.
Eu engulo em seco.
— Não há nada em mim para se ter inveja.
— Então você não se conhece bem o suficiente.
— O quê — bufo — e você conhece?
De repente, ele está lutando para ficar de pé com um grunhido.
— Você pode negar o quanto quiser, mas nós dois sabemos que eu conheço.
— E onde você pensa que vai? — pergunto abaixo dele. — Bem, para onde nós
estamos indo?
— Quero estar pelo menos um pouco confortável enquanto sangro. — Ele
estende uma mão para mim que não me incomodo em segurar antes de ficar de
pé. — Estou esperando por uma caverna.
— Você não vai sangrar até a morte… — Faço uma pausa, cética. — Estamos
nos aproximando das cavernas?
Ele assente.
— Estamos quase na beira do Santuário agora. O trecho de cavernas fica bem
antes do campo que nos separa de Ilya.
— Perfeito — eu digo secamente. — Quase em casa.
Saímos de trás das pedras e voltamos para o caminho. Caminhando em
silêncio, vislumbro o primeiro corpo caído sobre um aglomerado de pedras e
rapidamente desvio o olhar. Meu estômago se revira ao lembrar do que fiz, de
cada corpo que agora tenho que encarar. A arma com que matei está de volta na
minha mão, suada e aparentemente inofensiva enquanto balança em direção à
terra.
Embora, de certa forma, seja. Uma arma só é mortal se for usada. E um arco
só mata se eu disparar a flecha para ele.
Mesmo com meus olhos no chão, eu sei cada vez que passo por um corpo. Eu
sinto o peso do que fiz a cada passo. Kai fica quieto ao meu lado, sabendo
exatamente como isso deve ser. O que é matar e viver com cada fantasma.
Ouço terra estalando sob uma bota atrás de nós.
Eu giro ao ouvir o som, levantando um arco vazio.
Ele é magricelo, muito menor que seus companheiros bandidos — não é de se
espantar que eu não o tenha visto entre as pedras. Ele segura um arco em mãos
trêmulas, esforçando-se para mantê-lo apontado para Kai.
E antes que eu possa piscar, ele atira.
Não penso antes de me colocar na frente do príncipe que eu deveria odiar.
O tempo parece desacelerar enquanto a flecha voa em minha direção.
Reflexos tomam conta do meu corpo, me forçando a levantar minha arma vazia.
Eu golpeio o arco no ar, ouvindo a madeira se conectar com a haste da flecha
antes mesmo de registrar o que aconteceu. A flecha cai no chão em um borrão,
sua ponta enterrada na terra.
Olho para cima e vejo a expressão do homem espelhando a minha. Choque
total está estampado em seu rosto com o que consegui fazer. Aproveito sua
hesitação e estendo a mão para trás para deslizar uma flecha de onde ela se
projeta para fora da minha mochila.
Ela foi colocada no meu arco um segundo depois.
Meus dedos se fecham em volta da corda, os pulmões se contraem e a
respiração fica presa na garganta.
Eu afrouxei meu aperto na corda do arco, pronto para disparar a flecha.
Um borrão corta o ar, girando até afundar no peito do homem.
Pisco e olho para a flecha ainda presa no meu arco.
Quando meus olhos voltam para o homem, ele está segurando o peito, onde
agora se projeta o cabo de uma faca.
Eu me viro e encontro Kai parado ao meu lado, segurando seu ombro ferido.
— Pronto — ele diz, parecendo aflito. — Está tudo resolvido.
Olho de volta para o homem caindo de cara no chão.
— Como você...?
— Braço esquerdo — ele diz casualmente. — Mas ainda dói pra caramba.
— Eu já tinha isso resolvido. — Desvio o olhar, evitando seu olhar. — Eu
estava... eu ia fazer isso.
Ele se coloca entre mim e o homem, bloqueando minha visão da Morte vindo
para reivindicá-lo.
— Eu sei. Eu sei que você tinha tudo sob controle. Você deixou isso bem óbvio
quando atirou uma flecha no ar. — Ele balança a cabeça para mim, um sorriso
desenhando sua covinha. — Mas, como eu disse, minha alma está manchada o
suficiente por nós dois. E você já matou o suficiente por mim.
Desvio o olhar, sem saber o que dizer. Sem saber como dizer a ele exatamente
o quanto isso significou para mim. Então, decido dizer um suave
— Obrigada.
— Isso pareceu doloroso — ele diz, sorrindo como o babaca que é.
— Bem, agradecer não é exatamente algo que estou acostumado a fazer.
— Acho que são apenas boas maneiras em geral às quais você não está
acostumada — ele diz, começando a andar novamente.
Ele me puxa enquanto balanço a cabeça em suas costas, ciente de que tudo
isso é apenas uma distração da morte acontecendo atrás de nós.
— Ah, e você é tão bem-educado?
— Considerando que tive vários tutores e anos de educação, sim, eu diria
isso. — Sua voz está tensa de dor. — Fui ensinado a me comportar na corte e
entre nobres. Como falar com mulheres e-
Eu bufo.
— Você quer dizer flertar?
— Não, isso sempre aconteceu naturalmente, meu bem.
Finalmente o alcancei para andar ao lado dele.
— Ser um idiota também é algo natural, ou é algo que te ensinaram no
palácio?
Seus lábios se contraem enquanto ele considera minha pergunta.
— Naturalmente. Mas não posso levar todo o crédito. — Ele me olha. — Você
me faz isso.
Desvio o olhar, examinando as pedras como uma desculpa para olhar para
qualquer lugar, menos para ele.
O terreno ficou mais acidentado, impossivelmente mais rochoso. As paredes
de ambos os lados são altas e pontilhadas com buracos espalhados. A maioria é
pequena demais para ser chamada de caverna, mas meus olhos se fixam na boca
de uma que parece promissora. Eu vagamente me pergunto qual delas é o lar da
primeira rainha em pessoa.
— Que tal essa? — aponto.
Gotas de suor brotam em sua testa; dor repuxa sua boca. Quando ele
simplesmente concorda, sem oferecer nenhum tipo de comentário malicioso, sei
que ele está com muito desconforto.
O sol bate forte em nós enquanto lentamente seguimos para a caverna.
Bolhas gritam para mim a cada passo enquanto a pele esfrega contra a bota.
Mordo minha língua, sabendo que o que o Enforcer sente ao meu lado é muito
pior.
Sombras nos cobrem quando finalmente entramos na caverna. A luz parece
ser engolida aqui, fazendo a caverna parecer como se tivéssemos entrado na
noite.
— Sente-se — ordeno severamente.
Ele mantém os olhos nos meus enquanto obedece, abaixando-se até o chão.
— O que você está fazendo, Gray?
Eu me agacho atrás dele, levantando cuidadosamente sua camisa
ensanguentada para examinar o ferimento.
— O que parece que estou fazendo, Azer?
— Parece que você está se importando comigo — ele diz com um sorriso
irônico na voz. — E parece que você está me despindo.
Eu bufo.
— Não fique tão lisonjeado. Não posso deixar você virar um peso morto,
posso?
Ele grunhe de dor quando meus dedos roçam a pele macia ao redor do
ferimento. O cheiro de sangue arde em meu nariz, me forçando a respirar fundo
antes de dizer:
— Não tenho nada para costurar isso. Tudo o que posso fazer é lavar.
— Vamos acabar logo com isso, sim?
— Mas precisa ser costurado — eu digo severamente. — Pode infeccionar.
— Estaremos de volta em Ilya amanhã — ele diz calmamente. — O curativo vai
parar o sangramento por tempo suficiente. Vou me curar quando chegarmos lá.
— Certo. — Eu aceno, engolindo em seco ao ver sangue. Eu agarro a bainha de
sua camisa para puxá-la cuidadosamente sobre sua cabeça. Ele sibila quando ela
puxa seu ferimento. Com uma mão gentil em suas costas, eu o incentivo a deitar
de bruços.
Costas nuas e esticadas diante de mim, poças grossas de sangue em sua pele.
Mal consigo ver o corte abaixo dele, e o cheiro metálico arde em meu nariz.
— Me diga uma coisa. — Eu consigo dizer fracamente.
— Te dizer uma coisa? — Sua risada é dolorida. — Essa é realmente a melhor
hora para-
— Sim — interrompi. — Pode ser qualquer coisa, só... só fale comigo.
Eu aperto meus olhos fechados, precisando de uma distração da sensação do
sangue dele nas pontas dos meus dedos e da visão dele derramando sobre sua
pele. Algo na maneira como ele para me diz que ele está começando a entender.
— Tudo bem. — Sua voz está tensa. — A verdade, então?
— A verdade, sempre — murmuro.
Uma longa pausa.
— Às vezes tenho inveja de você ter sido quem matou meu pai.
Meus olhos se abrem rapidamente para piscar perplexos na parte de trás de
sua cabeça.
— O-o quê?
Ele consegue suspirar.
— Passei a vida inteira fantasiando em fazer o que você fez. Não tenho
orgulho disso. Mas toda vez que ele me cortava, gritava comigo ou me forçava a
encarar um medo repetidamente, eu lutava contra a vontade de machucá-lo de
volta. E você sabe que eu poderia ter feito isso. — Ele se acalma, a voz tensa. —
Isso consumia todos os meus pensamentos. Porque antes de odiá-lo por tudo
que ele fez comigo, eu o odiava porque ele odiava Ava. Ele nunca admitiu, é claro,
mas eu sabia. Eu sabia que ele odiava que ela fosse fraca, sabia que ele achava
que ela era uma vergonha para o nome da família.
Eu alcanço lentamente um dos cantis que enchemos com água da chuva,
distraído pelos segredos que saem de seus lábios.
— Mas eu nunca consegui me aproximar de fazer isso. — Ele suspira. — Não
importa o quanto ele me treinou ou odiou as pessoas que eu amava, ele ainda era
meu pai. Sangue e dever são mais profundos que ódio.
Fico em silêncio por um longo momento, olhos fixos na parede de pedra mal
iluminada diante de nós.
— E eu fiz o que você secretamente desejava ter feito.
— E a pior parte — ele murmura — é que eu deveria odiar você por isso. Mas
você é muito mais difícil de odiar do que ele era.
Temos pouca água sobrando, e, horrivelmente, não hesito antes de despejar a
maior parte dela sobre seu ferimento. Porque, apesar de tudo, percebi que há
pouca coisa que eu não sacrificaria por ele.
Não me permito pensar muito nessa descoberta repentina.
— Merda — ele sibila, sentindo a água arder enquanto penetra em seu corte.
— Eu retiro o que disse. Talvez você não seja tão difícil de odiar — ele resmunga.
Sangue escorre pelas costas dele, manchando sua pele de vermelho na luz
fraca. Minhas mãos estão cobertas dele, cada dedo pegajoso e cheirando à morte
com a qual estou muito familiarizado.
Não brinco com ele. Não provoco nem tiro sua mente da dor. Em vez disso,
desvio o olhar enquanto lavo o ferimento, incapaz de encarar o fluxo vermelho.
Rasgo o tecido do que sobrou da minha saia com as mãos trêmulas. Uso dedos
ensanguentados para enfiar o curativo improvisado sob seu peito.
Com a respiração pesada, inclino-me sobre suas costas para puxar o tecido
ao redor do ferimento.
Minha trança escorrega por trás do meu ombro, balançando até...
Ela arrasta a poça de sangue que começa a jorrar novamente sobre o
ferimento.
Respiro fundo antes de colocar a mão no meio da minha trança, pronta para
jogá-la de volta por cima do ombro.
Minha mão gruda no cabelo dentro da palma da minha mão.
Olho para baixo lentamente, meu corpo inteiro tremendo.
Sangue está manchado no meu cabelo, pingando das pontas e manchando
minha mão. Engulo o nó crescente na minha garganta enquanto puxo minha mão
para olhar para o sangue que a cobre.
Não sinto cheiro algum além da morte, não ouço nada além do zumbido em
meus ouvidos.
Acho que Kai está dizendo algo, mas eu o ignoro enquanto me atrapalho com
o tecido, deixando-o ensanguentado enquanto corro para cobrir o ferimento.
Eu amarro com um suspiro abafado, pegando a cantina. Consigo drenar as
últimas gotas de água na palma da minha mão antes de esfregar minhas mãos
violentamente. Sangue gira sobre minha pele, escorrendo pelos meus pulsos e-
— Gray.
Sua voz é severa o suficiente para me tirar do meu estado. Não tenho certeza
de quando ele se sentou, mas ele está de frente para mim agora, descansando
uma mão gentil na minha perna.
— O que está acontecendo?
Eu balanço minha cabeça, lutando contra as lágrimas que ameaçam cair.
— Não é nada... É… — Meu olhar cai para minhas mãos e o sangue que as
cobre. As mesmas mãos que seguraram os corpos moribundos daqueles que eu
mais amei. As mesmas mãos que estão para sempre cobertas de sangue.
— É o sangue — ele diz suavemente. — Você nunca foi sensível a isso até...
Meu coração bate forte no peito, me fazendo sentir fraco.
Tudo o que sinto é cheiro de sangue. Tudo o que sinto é culpa.
— Eu... eu não posso mais — eu ofego. — Eu não posso mais me sentir assim. É
demais.
Olho para baixo para o cabelo prateado manchado de vermelho. A visão da
minha trança me faz parar, me faz odiar o quanto de poder o sangue agora tem
sobre mim. É um esforço para desacelerar minha respiração, para estabilizar a
batida do meu coração.
Uma espécie de raiva entorpecida de repente sufoca o pânico que me
percorre. Respiro fundo, erguendo meu olhar para ele.
— Corte isso.
Suas sobrancelhas franziram ao ouvir minhas palavras.
— O quê?
— Quero que você corte — digo baixinho. Meu rosto está inexpressivo, apesar
das lágrimas ainda nublarem minha visão. Passo as mãos ensanguentadas por
toda a extensão da minha trança, manchando-a a cada passada.
Os olhos de Kai seguem meus dedos, arregalando-se ligeiramente em
compreensão.
— Gray, talvez você devesse-
— Quero que você corte isso — eu sussurro. — Por favor.
— Ei, olhe para mim — ele diz suavemente, sua mão indo para meu rosto. —
Eu vou lavar seu cabelo, ok? O sangue não vai ficar lá para sempre-
— Sim, vai — eu interrompo alto, minha voz trêmula. Eu pisco para conter as
lágrimas, me forçando a segurar seu olhar enquanto o faço. — Sim, vai — eu
repito, sussurrando dessa vez. — O sangue sempre estará lá. O sangue do meu
pai. O sangue do minha melhor amiga. O sangue de cada pessoa que matei. Ele
sempre estará lá. — Minha voz falha. — E eu estou me afogando nisso.
Ele balança a cabeça, passando o polegar na minha bochecha.
— A morte de Adena e do seu pai não foi culpa sua.
— Só porque não foi culpa minha, não significa que não foi minha — sussurro.
— Não, isso não é-
— Por favor. Eu sei que você guarda minha adaga na sua bota.
Ele fica parado com minhas palavras suaves.
— Não quero que você se arrependa disso.
Eu balanço minha cabeça para minhas mãos ensanguentadas.
— Você não entendeu. Esse cabelo guarda memórias. E é pesado. — Eu me
viro lentamente até que minhas costas estejam de frente para ele, a trança solta
pendendo ao longo da minha espinha. — Por favor, Kai.
Silêncio.
Até que não haja mais. Até que eu o sinta alcançar sua bota. Até que minha
trança seja segurada gentilmente em uma mão enquanto a outra segura a lâmina
do meu pai contra ela.
Sinto sua respiração no meu pescoço, hesitante e insegura.
Uma lágrima rola pelo meu rosto quando concordo.
Ele levanta a trança do meu pescoço e começa a passar a lâmina por ela.
Todo o resto de compostura que eu tinha se desintegra ao som do meu cabelo
sendo cortado.
Lágrimas rolam pelo meu rosto. Choro pelo meu passado, pela garotinha que
segurou a mão do pai até ela esfriar. Pela garotinha que lutou para sobreviver em
um reino que a odiava.
Eu choro por Adena, meu sol na escuridão em direção à qual eu estava me
aproximando. Ainda posso sentir seu corpo ensanguentado em meus braços, ver
seus dedos quebrados amarrados atrás das costas. Eu choro porque a morte não
a merece. Mas ela merece meu luto, cada lágrima minha contida.
Eu choro por cada vez que senti que não deveria. Por cada vez que senti que
isso me fez fraca.
Sinto o farfalhar dos cabelos soltos caindo pelas minhas costas, o peso sendo
tirado dos meus ombros.
Quando ele se afasta, ouço a adaga batendo no chão da caverna. Movo minha
cabeça, sentindo-me leve sem a pesada cortina de cabelo caindo em cascata
pelas minhas costas. As pontas recém-cortadas mal roçam meus ombros,
fazendo cócegas na minha pele.
A mão dele está no meu braço agora, gentilmente me virando para encará-lo.
Eu lutei de forma patética, não querendo que ele me visse assim. Eventualmente,
ele puxa minhas mãos para as dele, pegando nossa última cantina cheia do
pacote. Eu o observo usar os dentes para rasgar mais tecido da saia antes de
despejar uma quantidade preciosa de água em minhas mãos manchadas.
Ele fica sentado em silêncio, lavando o sangue das minhas mãos. Seu toque é
suave, como se eu fosse delicada, não frágil. Como se ele estivesse me tratando
com cuidado porque eu mereço, não porque preciso.
Ele passa o tecido nas minhas palmas, entre meus dedos, passando mais
tempo em volta das minhas unhas. É só quando minhas mãos estão impecáveis
que ele abaixa o tecido e olha para mim.
Tudo o que ele faz é intencional, um tipo de intimidade que eu nunca senti
antes. Simplesmente ser tão cuidadoso faz outra lágrima rolar pela minha
bochecha antes que eu possa pará-la. É tudo o que é preciso para que a
enxurrada de emoções me atinja novamente.
Estou praticamente engasgando com minhas lágrimas, respirando
irregularmente.
— Shh — ele murmura. — Você está bem.
Ele estende a mão para o meu rosto, pretendendo enxugar as lágrimas ali. Eu
balanço a cabeça, me afastando.
— Não, eu não quero que você me veja assim. Eu não quero que você enxugue
minhas lágrimas.
Ele assente lentamente, absorvendo minhas palavras.
— Certo. Então não vou.
Sua mão lentamente encontra a minha de onde ela está no meu colo. Eu
observo confusa enquanto ele a pega e a levanta em direção à boca.
Outra lágrima escapa dos meus olhos quando seus lábios roçam a ponta do
meu polegar.
A ação é tão pequena, mas tão significativa. Agora que sei o significado por
trás dela, engulo em seco com sua disposição de compartilhar algo tão especial
comigo.
Mas então ele pega aquele polegar e o guia em direção à minha bochecha para
enxugar uma lágrima ali. Então ele o puxa de volta para seus lábios, beijando-o
novamente antes de usá-lo para enxugar outra das minhas lágrimas.
— Você é forte o suficiente para enxugar suas próprias lágrimas, mas teimosa
demais para deixar alguém cuidar de você — ele murmura.
Ele continua a beijar meu polegar, me ajudando a enxugar cada lágrima que
decora meu rosto. Meus olhos estão inchados, meu rosto manchado, mas ele
olha para mim com uma reverência reservada à religião.
Quando ele beija meu polegar pela última vez, sou puxada para seus braços.
Minhas costas estão pressionadas contra seu peito nu, e ele me segura firme
apesar do ferimento. Uma mão está passando por meu cabelo curto, dedos
roçando meu pescoço.
— Obrigada — sussurro, colocando a mão no braço que está em volta da
minha cintura.
Ele inclina a cabeça contra a minha.
— Você está se sentindo melhor?
Estou quieto, considerando sua pergunta.
— Pela primeira vez em algum tempo, sinto que isso é uma possibilidade.
CAPÍTULO 42

KITT

Não vou à torre oeste desde que visitei a menina que a ocupou.
Em seu lugar agora jaz uma mulher. Uma rainha. Uma mãe - talvez
parcialmente até para mim.
Eu acelerei o passo pelo carpete felpudo, contente em evitar os muitos
olhares curiosos que se seguem. Os servos sorriem educadamente; os imperiais
olham furtivamente. Olhando para uma das muitas janelas que revestem o
corredor, tento dar uma olhada no meu reflexo.
Em vez disso, meus pés vacilam. Minha garganta seca. Minha visão fica turva.
Ainda não visitei seu túmulo. Ainda não me forcei a olhar para o pedaço de
terra em que ele está enterrado.
O pequeno cemitério se estende além da janela, escondido em um canto
íntimo do castelo. Décadas de reis, rainhas e sua linhagem foram sepultados sob
a grama macia. Pedras esculpidas ficam sobre cada sepultura, marcando o corpo
em decomposição que jaz abaixo.
A respiração que respiro é superficial, fazendo barulho no meu peito.
Vários pares de olhos atentos formigam minha pele, e eu me endireito com a
sensação. Porque eu sou o rei deles. Eu não estou louco. E eu não vou causar
uma cena.
Tirando os olhos da terra fresca e revirada que agora engole meu pai, acelero
o passo pelo corredor.
Cabeça erguida. Costas retas. Olhos claros.
Nos dias desde minha conversa reveladora com Gail, visitei o salgueiro e pedi
desculpas a Ava por perder seu aniversário. Caramba, pedi desculpas por mais do
que apenas isso. Eu provavelmente parecia um rei louco enquanto murmurava
para as raízes que se entrelaçavam sob meus pés.
Foi quando Calum me encontrou, me lembrou daqueles três B's. Com esse
pensamento, enterrei a mão no bolso, encontrando a caixa térmica sob meus
dedos.
Deslizo a ponta do meu polegar sobre o veludo distraidamente, lembrando do
treinamento muito necessário que Calum me ofereceu.
— Pareça o papel do rei, mesmo que você ainda não se sinta assim. Pelo bem
do seu plano, do seu povo.
Dobro a esquina, encontrando um salão igualmente lotado, cheio de olhares
curiosos. Minha mão aperta em cima da caixa, encontrando coragem nos três B's
que ela representa. Soltando um suspiro, caminho uniformemente pela multidão
de servos e imperiais.
Cabeça erguida. Costas retas. Olhos claros.
Não tenho a chance de me perguntar se pareço real o suficiente antes de
estar de pé sob a escadaria iminente que sobe até a torre oeste. Esta ala do
castelo é reservada para a enfermaria, também conhecida como isolamento.
Degraus rangem sob meus pés, gemendo contra meu peso. Subir as múltiplas
histórias sinuosas me deixa rapidamente sem fôlego.
Droga, será que estou realmente tão fora de forma?
Suponho que minha falta de resistência não deveria ser chocante depois de
ficar trancado no meu escritório por tanto tempo. Mas estou ofegante quando
chego à porta gasta no topo da escada.
Meu punho se levanta, preparando-se para bater meus dedos contra a
madeira.
Eu hesito.
Há uma razão pela qual ainda não visitei a rainha. Ela é minha mãe apenas no
nome, e suponho que parte de mim sempre a desprezou por não ser a mulher
que morreu ao me dar à luz. Por não ser a mulher que eu tanto desejava ter
conhecido.
Mas o Pai a amava muito, e ela a ele. É a razão pela qual ela está tão doente
em primeiro lugar — tristeza. Pelo menos temos essas duas coisas em comum.
Até que eu tenha coragem de encarar o túmulo do meu pai, sentarei ao lado
do leito de morte da sua esposa.
Eu bato. A porta se abre.
Sou recebido com olhares chocados de vários médicos. Eles não se
incomodam em perguntar por que estou aqui. Apenas um paciente ocupa esta
torre.
Em questão de segundos, estou sendo conduzido através da sala, passando
por camas limpas e cobertas de poeira.
Ninguém vem aqui há anos.
Mesmo quando Kai e eu nos destruímos no ringue de luta, os ferimentos
foram rapidamente consertados por Eli em nossos quartos. Porque esta ala do
castelo é reservada para os ferimentos que são muito mais profundos do que um
Curandeiro pode alcançar.
Meus olhos traçam um catre em particular enfiado no canto; seus lençóis
dobrados cuidadosamente. Eu me pergunto distantemente se Kai viu aquela
cama sem o corpo de Ava para ocupá-la.
— Kitt!
Tirando meus olhos do berço, encontro olhos castanhos aquecidos ao me ver.
— Jax — digo, forçando um sorriso. — Eu não sabia que você estava aqui em
cima.
O sorriso que ele devolve é muito mais brilhante que o meu, contrastando
com sua pele escura.
— Não pensei que te veria aqui. Ou, uh, em qualquer lugar.
Vejo a tristeza se instalar em suas feições e estou desesperado para
erradicá-la.
— Desculpe por isso, J. Tenho estado muito mais ocupado do que o normal.
Ele assente, se mexendo em seus membros desengonçados.
— É, aposto que sim. — Então ele lança um olhar para a cama ocupada atrás
dele. — Ela tem perguntado sobre você.
Eu limpo minha garganta.
— Você vem aqui sempre?
Ele assente, parecendo envergonhado.
— Quase todo dia. Eu... eu devo isso a ela. Foi ela quem me acolheu depois que
meus pais...
Concordo com a cabeça quando ele para de falar, não precisando que ele me
lembre do naufrágio dos pais dele no Shallows. De repente, estou limpando a
garganta novamente, me sentindo um pouco estranha. Algo mudou entre nós, e
isso me deixou estranhamente desequilibrada.
Suponho que seria minha culpa. Sou o único de nós que mudou. O único que
agora é rei.
— Bem — Jax diz lentamente — acho que vou deixar você com isso.
Minha mão encontra seu ombro quando ele começa a se afastar.
— Pela peste, você cresceu um centímetro a cada dia desde a última vez que
te vi?
O tom brincalhão da minha voz, o vislumbre do príncipe com quem ele
cresceu, faz um sorriso se abrir em seu rosto.
— Logo estarei olhando para você, Kitty.
— Oh, espero que não — eu digo intencionalmente. — Porque então eu não
seria capaz de fazer isso. — Eu me estico para frente, enganchando um braço em
volta do pescoço dele antes de bagunçar seu cabelo curto com minha mão livre.
Ele ri daquele jeito infantil que eu sentia falta. Despreocupado e saudável.
Depois de finalmente se desvencilhar dos meus braços, ele fica diante de mim,
radiante. A visão faz meu peito apertar com a lembrança de como as coisas
costumavam ser.
Mas talvez ainda haja esperança de felicidade no futuro.
Depois de conseguir despentear meu cabelo, Jax dá vários passos largos e sai
do quarto com uma risada. Balançando a cabeça e alisando os fios loiros em cima
dela, viro meu foco para a mulher que já está me observando.
Seu cabelo preto e liso parece opaco espalhado sobre o travesseiro branco.
Quando vou até a beirada da cama, ela tenta um sorriso fraco.
— Olá, Kitt.
A voz que escapa de seus lábios rachados é pouco mais que um som áspero.
Olhos cinzentos vagam por mim, parecendo tanto com os de Kai. Ela limpa a
garganta, soando mais forte ao dizer:
— Ouvi dizer que você não tem se saído muito bem ultimamente.
Meu sorriso é triste.
— Eu poderia dizer o mesmo sobre você.
Quando me sento na cadeira rígida ao lado dela, ela pega minha mão,
apertando-a com muito mais força do que imaginei que ela fosse capaz.
— Só boatos bobos, então, hmm?
Ela sorri, e eu sorrio de volta.
— Sim, apenas rumores.
De repente, ficando séria, ela diz suavemente:
— Não pensei que você viria me ver.
Aperto meus lábios, concordando levemente.
— Se for honesto, eu também não achei que faria isso.
— Não posso te culpar. — Seu sorriso é triste. — Eu nunca fiz muito esforço
para ter um relacionamento com você. — Lágrimas brotam em seus olhos
cinzentos. — E por isso... eu sinto muito.
Engulo em seco, sem saber o que dizer. Felizmente, ela está falando de novo
antes que eu seja forçado a pensar em qualquer coisa.
— Pragas, você se parece tanto com ele.
Meus olhos se chocam com os dela. Levantando uma mão trêmula, ela afasta
uma mecha de cabelo da minha testa.
— Você é exatamente como ele era quando me apaixonei por ele.
— Sério? — pergunto, desesperado para saber mais sobre o homem que eu
idolatrava.
— Sério. — Ela ri, embora pareça dolorida. — Sabe, nós não gostávamos muito
um do outro no começo. Meu pai era um conselheiro de confiança do rei, e
quando sua mãe faleceu dando à luz você, eu era a opção mais fácil para ele. Ele
não era obrigado a passar meses me cortejando. — Ela assente, lembrando de
tudo com um leve sorriso. — Eu não queria me casar com ele. Sério. Estava claro
que tudo o que ele queria de mim era outro herdeiro. Mas algo começou a
florescer entre nós com o passar do tempo. Amor. Ele era diferente comigo.
Gentil e atencioso. — Seus olhos lentamente encontram os meus. — E agora, aqui
estou eu. Morrendo porque não sei mais respirar sem ele.
— Eu conheço o sentimento.
As palavras saem da minha boca antes que eu possa engoli-las.
— Eu sei que você ama — ela sussurra. — Você o amava muito.
Minha voz falha.
— Só quero deixá-lo orgulhoso.
Ela aperta minha mão.
— E você vai, Kitt. Você vai governar este reino para ele. Ele acreditou em
você, e eu também.
— Ele fez isso? — sussurro pateticamente.
Ela me encara por um longo momento.
— Ele deixou cartas para você. — Minha respiração fica presa, e eu a seguro
enquanto ela continua. — Só para o caso de algo... acontecer com ele. Elas
servem para te guiar, te dizer exatamente o que ele queria para o reino. Eu não
as li, obviamente, mas você deveria. Acredito que elas estejam na gaveta de baixo
da escrivaninha dele. Bem, na gaveta de baixo da sua escrivaninha.
Eu ainda não tinha aberto nenhum desses compartimentos para o bem da
minha sanidade. Porque doía muito ver uma pena que ele segurava ou uma nota
que ele rabiscava. Mas agora...
— Eu vou encontrá-las — eu respiro. — Obrigado.
Ela sorri.
— Claro.
Eu me levanto para sair. Ela tosse. Eu estremeço.
— Kitt?
Eu me viro para sua forma frágil.
— Sim?
— Me visite outra vez? — Ela engole em seco. — Você se parece tanto com ele.
Minha garganta queima.
Em necessidade.
CAPÍTULO 43

KAI

Suas pernas estão entrelaçadas nas minhas, sua cabeça pressionada contra meu
coração palpitante.
Perdi a noção do tempo, contente em segurá-la até que meu corpo inteiro
fique dormente. Caímos em um silêncio que soa como contentamento, paz de
espírito.
Não ouso me mover, com muito medo de estragar o momento quando ela
provavelmente está com medo de tê-lo. Está claro que ela não sabe o que fazer
comigo. Não sabe o que fazer comigo por causa do que estou fazendo com ela.
Estamos a um dia de Ilya agora. A um dia de entregá-la a Kitt - o rei para
fazer com ela o que quiser. E eu não sei mais exatamente do que Kitt é capaz. Eu
nem sei como ele reagirá quando eu lhe mostrar o diário, a documentação de um
Curandeiro que o rei não conseguiu comprar.
Ele provavelmente não vai acreditar. Caramba, eu também não tenho muita
certeza no que acreditar.
Vivi minha vida inteira acreditando que os Ordinários estão doentes e
condenando a todos nós. Mas essa mentira se alinha com o caráter do pai, com
sua fome por poder e controle. Sem mencionar quantos Ordinários viveram
entre nós por décadas sem efeitos perceptíveis em nossas habilidades.
Parece uma mentira tão óbvia quando você não vive isso a vida toda.
Ela se move contra mim, puxando as pernas para o peito. Um lampejo
vermelho chama minha atenção, e eu estendo a mão para agarrar sua perna. Ela
está prestes a protestar quando eu levanto sua panturrilha em minha direção
para ver calças rasgadas e a flecha cortando por baixo.
— Por que você não me contou sobre isso? — pergunto calmamente.
Sua voz está tão rígida quanto seu corpo se tornou.
— Porque é só um arranhão.
— Está sangrando.
— Não. — Ela suspira. — Sangrou. E eu estava fazendo um ótimo trabalho
ignorando isso até você trazer isso à tona.
Ela se move para que eu possa ver seu rosto ficar mais pálido na luz fraca
enquanto ela encara o sangue seco. Pego a saia mutilada e rasgo outra tira de
tecido dela.
Então, cuidadosamente, levanto a perna dela sobre a minha antes de enrolar
o que sobrou do tecido da calça dela.
Sinto os olhos dela percorrendo meu rosto enquanto enrolo a tira da saia em
volta do ferimento, enrolando-a bem antes de amarrá-la.
— Pronto — digo simplesmente. — Agora você não precisa mais olhar para ela.
Ela consegue dar um pequeno sorriso.
— Obrigada.
Meus lábios se contraem.
— Essa é a quinta vez que você me agradece. Parece estar ficando menos
doloroso dizer isso.
— O que — ela zomba — você está monitorando agora?
— Eu não faria isso se não fosse uma raridade.
Ela balança a cabeça, escondendo um sorriso enquanto olha para mim. Cabelo
curto combina com ela.
Embora eu tenha certeza de que há pouca coisa que não seja assim. Mas eu
gosto dela assim - cabelo bagunçado e lábios rápidos para sorrir para mim.
A perna dela ainda está sobre a minha, forçando-a a sentar de lado. Eu a
estudo por um longo momento antes de dizer:
— Foi Adena, não foi?
Tudo nela parece encolher ao mencionar sua amiga.
— O que tem a Adena?
— O sangue — eu digo suavemente. — Você nunca teve problemas com isso
antes...
— Antes de morrer — ela diz sem rodeios. — Algo sobre estar coberto pelo
sangue daqueles que você ama - mais de uma vez - faz com que você não
consiga suportar a visão, a sensação, o cheiro disso. Eu acho... eu acho que o
sangue de Adena foi minha última gota.
Concordo, entendendo do meu jeito distorcido. Meus olhos viajam sobre ela,
absorvendo a força que ela não consegue ver. Seu próprio olhar penetrante está
varrendo meu rosto, embora eu duvide que ela veja força. Talvez pecado.
Fidelidade, na melhor das hipóteses.
— Devemos ir, sim? — Sua voz é enganosamente alegre. — Não devemos
deixar o rei esperando mais do que o necessário.
Eu conheço esse tom. Ela o usa toda vez que se fala em levá-la de volta para
Ilya.
Que é meu dever. Levá-la de volta para Ilya é meu dever.
Ela se desenreda do meu colo para enfiar tudo na mochila. A corrente faz
barulho quando ela se levanta, o som é um lembrete constante do que estou
fazendo com ela.
Eu sigo, puxando cuidadosamente o arco sobre meu ombro ileso. Olhando
por cima, encontro seu olhar fixo no chão, olhos arregalados de emoção. Eu a
sigo linha de visão para ver a adaga ao lado do que era sua longa trança prateada.
Parece que ela deixou uma versão de si mesma no chão desta caverna, outro
fantasma para vagar pelo Santuário das Almas. Eu me abaixo para pegar sua
adaga, sentindo os redemoinhos prateados pressionarem contra minha palma.
Como é estranho segurar uma arma com tanta história em minhas mãos.
— Eu nunca vou ter isso de volta, né? — ela pergunta, sem graça.
Começo a me dirigir para a boca escancarada da caverna.
— Um dia — prometo.
— Enterre comigo, sim?
Suas palavras me fazem enrijecer, e é preciso cada grama de força para
ignorá-las. Quando saímos, é no sol do fim da tarde. A estrada é rochosa o
suficiente para sacudir meu ombro e esticar a ferida já latejante ali, me fazendo
temer cada passo. Caminhamos em um silêncio confortável por um longo tempo
antes que ela interrompa com um casual:
— Você está sofrendo.
— Ah, eu estou, Pequena Psíquica?
Ela parece não achar graça até dizer:
— Digamos que fiquei muito boa em ler sua linguagem corporal
Eu rio das minhas próprias palavras cuspidas de volta para mim.
— Foi assim que você fez seu pequeno truque psíquico, não foi? Você lê as
pessoas.
Ela concorda.
— Essa é a essência. Parece muito mais fácil do que é, para ser honesta. Leva
anos para programar seu cérebro para juntar detalhes em questão de segundos.
— Eu acredito — suspiro. — Você ainda é, suponho, muito convincente."
Sinto o olhar dela no meu rosto.
— Então, você nunca... questionou minha habilidade?
Eu rio levemente.
— Claro que sim. Esse é meio que o meu trabalho. — Balançando a cabeça,
olho para o céu azul acima. — Mas você estava me distraindo. É como se no
momento em que eu considerasse sua habilidade, você fizesse algo para mudar
meus pensamentos para outra direção. E eu ainda estou descobrindo novos
poderes, especialmente quando se trata dos Mundanos. Então, um Psíquico não
parecia tão absurdo.
Seu sorriso é presunçoso.
— Sou muito boa no que faço.
— Não fique convencida, meu bem.
Ela se vira para olhar completamente para mim, sua expressão vazia.
— Você tem uma bolha na parte interna do seu pé esquerdo. — Seus olhos
caem para a barba por fazer crescente no meu maxilar. — Você não mantém
barba porque você odeia a sensação dela. E... você usava um anel no castelo, mas
o tirou antes de vir me encontrar.
Eu balanço minha cabeça para o chão, tentando o meu melhor para esconder
meu espanto.
— Você me pegou, Gray. Isso tudo parece certo. — Eu flexiono minha mão
como tenho feito desde que saí do castelo. — Era o anel do Executor que eu
estava usando. Uma coisa grande e chamativa com a qual não estou acostumado.
A sensação dele nos dedos me incomodou. Então imaginei que uma missão seria
uma boa desculpa para tirá-lo.
Olho para encontrá-la encarando o anel que ela gira no polegar. Ela zomba da
visão.
— Durante toda a minha vida, pensei que esse anel representasse o casamento
dos meus pais, não de estranhos.
— Eles eram seus pais — eu digo severamente. — Sangue não é igual a amor.
Jax é meu irmão tanto quanto Kitt, apesar de não termos os mesmos pais.
Ela assente, entendendo, mas não acreditando totalmente.
— Faz sentido. Tudo isso. — Ela consegue dar uma risada fraca. — Sou filha de
alguns Comuns que não queriam lidar comigo. É por isso que não sou uma Mix.
Acho que... acho que nunca pensei sobre isso até agora.
— Por que você faria isso? — eu digo simplesmente. — Quando um pai te ama,
você não sente a necessidade de procurar outro.
Ela assente, ficando em silêncio. O sol paira sobre nós, quente contra a parte
de trás do meu pescoço. Não digo nada sobre meu ombro dolorido ou a bolha
ardente que ela já sabe que esfrega contra minha bota.
Caminhamos em silêncio fácil por um longo trecho da estrada restante. O
último pedaço do nosso pão velho é rapidamente devorado e regado com água
morna.
É quando o chão começa a se nivelar, tufos de grama aparecendo ao nosso
redor. Protegendo meus olhos, eu aperto os olhos contra o sol poente, avistando
a inundação de verde para onde estamos indo.
— Estamos quase no campo — digo, quebrando o silêncio. Já consigo ver as
torres do castelo surgindo no horizonte.
— Ótimo. Última parada antes de Ilya.
Aí está esse tom novamente.
Eu limpo minha garganta.
— Você já foi ao campo?
— Considerando que fica perto do castelo - e eu não tinha chegado nem
perto de lá até as Provas - não, nunca vi o campo.
— Bom. — Eu lhe dou um sorriso. — Serei o primeiro a ver sua reação.

A boca dela está aberta, exatamente como eu suspeitava.


— O que... o que é isso? — ela pergunta boquiaberta, os pés caindo mais
rápido no chão.
— Esse seria o campo.
Uma mão me dá um tapa no estômago.
— Eu sei disso, espertinho. — Ela sorri docemente como se não tivesse
acabado de tirar o ar dos meus pulmões. — Estou falando das flores.
Eu me endireito, a mão pressionada contra meu estômago enquanto olho
para o mar de vermelho brilhante. Cada pétala sangra na outra, criando um
cobertor de cor para aquecer a grama abaixo.
— Papoulas — digo, sorrindo quando vejo a expressão em seu rosto.
— Eu nunca vi uma flor tão brilhante — ela pisca. — Elas são laranjas e
vermelhas e estão por toda parte.
Não consigo tirar os olhos dela.
— E então? O que você acha?
Ela olha para mim, seu sorriso é preocupante.
— Acho que você está me atrasando.
Com as palavras mal saindo da boca, ela se vira e salta em direção ao campo.
Consigo começar a correr antes que a corrente tenha a chance de tentar me
arrancar do chão. Vejo-a abrir os braços para abraçar o vento enquanto suas
botas encontram a borda do campo.
Não a vejo tão despreocupada desde o dia em que a segui para a chuva,
arrancando um miosótis para colocar atrás da orelha dela. Vê-la aproveitar a vida
faz com que sobreviver à minha de repente valha a pena.
— Pelo menos tente acompanhar! — ela grita, papoulas aglomerando suas
pernas a cada passo. — Eu acho que você está fora de forma, Azer!
— É mesmo? — Eu rio, aproximando-me dela.
Ela percebe tarde demais o que está acontecendo.
Um grito escapa de seus lábios quando eu corto na frente dela, me curvando
para pegar suas pernas e jogar o resto de seu corpo sobre meu ombro ileso.
Mordo minha língua na picada que ainda dispara pelo meu corpo, mas o som de
sua risada é curativo, capaz de fazer um homem esquecer seu próprio nome,
imagine sua dor.
— O que você está fazendo? — ela ri nas minhas costas, agitando os braços.
Eu giro a gente.
— Mostrando o quão fora de forma eu estou.
Ela ri como uma garota que não teve que lamentar o pai e a melhor amiga.
Como uma garota que não lutou para sobreviver, roubada quando ela estava
morrendo de fome. Como uma garota que não está acorrentada a um homem
que ela deveria odiar.
Há tanta beleza na resiliência, na capacidade de rir apesar de tudo.
— Tudo bem — ela arfa — você já me mostrou o que queria. Pode me colocar
no chão agora.
— Mas estou lhe dando a melhor vista das flores — digo com um sorriso que
ela não consegue ver.
— Não, você está arrastando minha cabeça pelas flores. — Sua voz está um
pouco abafada
Eu rio, agachando-me enquanto envolvo um braço em volta de suas costas e
a viro sobre meu ombro. Abaixando-a lentamente até o chão, eu a deito para que
flores a circulem enquanto ela sorri para mim.
O sol poente pinga raios dourados em seu rosto, olhos azuis queimando
brilhantes contra o vermelho vibrante de cada papoula. É difícil acreditar que
algo tão lindo olharia de bom grado para alguém como eu.
Me sinto indigno do olhar dela, do jeito que seus olhos percorrem meu rosto.
Balanço a cabeça, ainda olhando para ela.
— Não olhe para mim desse jeito.
— Desse jeito como? — ela pergunta suavemente.
— Como se eu merecesse ser visto.
Seus cílios tremulam com minhas palavras. Ela engole em seco, levantando
uma mão para segurar meu rosto.
Meus olhos se fecharam ao sentir sua palma contra minha pele, o privilégio
de ser tocado por ela.
— Dança comigo? — ela sussurra.
Meu coração dispara diante dessa pergunta tímida.
Abro os olhos e encontro os dela fixos no meu rosto, me dando aquele olhar
que não mereço.
— Pelo tempo que você quiser, meu bem.
Eu a ajudo a ficar de pé antes de guiar seus braços ao redor do meu pescoço.
Minhas mãos encontram seus quadris, segurando firme enquanto eu levanto
seus pés sobre os meus. Ela suspira de surpresa antes que um sorriso se abra em
seu rosto, dedos se enrolando em meu cabelo.
Eu balanço com o corpo dela pressionado contra o meu. Minhas mãos
percorrem suas costas, desacostumadas com a sensação disso sem sua pesada
cortina de cabelo. Inclino minha cabeça em direção dela, observando a confusão
de prata caindo sobre seus ombros.
Coloco uma mecha ondulada atrás da orelha dela, passando meus dedos pelo
seu comprimento curto.
— Você não se arrepende?
Ela balança a cabeça, com um sorriso triste.
— Não.
— Bom — murmuro. — Porque eu sempre tive uma queda por cabelo curto.
— Sério? — Ela ri enquanto eu nos balanço em um círculo.
— É verdade. Entre outras coisas, é claro. — Eu dou de ombros. — Cabelo
curto. Olhos azuis-oceano. Vinte e oito sardas. E… — eu paro, examinando-a
com uma inclinação de cabeça — qual é a sua altura?
Ela pisca confusa.
—Humm, cerca de um metro e meio?
— Um metro e meio — continuo calmamente. — A habilidade aterrorizante de
chutar a bunda de um homem. Sorriso deslumbrante. Ridiculamente teimosa.
Cabelo como prata derretida. Rápida para me ameaçar com uma adaga. — Sorrio
para ela. — Devo continuar?
— O que vem depois? Uma balada em meu nome? — Sua voz contém um
desafio, mas seu rosto exibe um sorriso.
Eu a puxo para mais perto, minha mão encaixada na curva de sua cintura.
— Poetas não são apenas tolos com palavras bonitas? — Eu abaixo meu rosto
até que nossas testas se encontrem. — Eu acho que me qualifico, meu bem.
Ela ri suavemente, olhando para as flores aglomeradas em volta das nossas
pernas. Estamos balançando no pôr do sol, suas botas sobre as minhas com um
campo de flores para testemunhar.
Vejo seu olhar subir e atravessar o mar de pétalas alcançando o céu. Não
preciso virar a cabeça para saber o que ela está olhando.
— Ontem à noite — ela diz calmamente.
— Ontem à noite — repito.
Ela assente, apertando os braços em volta do meu pescoço.
— Então é melhor aproveitarmos isso enquanto dura.
Nós balançamos em silêncio até que ela sussurra:
— Finja, certo?
Engulo em seco, odiando o som da mentira que sai da minha língua.
— Finja.
CAPÍTULO 44

PAEDYN

Nós nos sentamos em uma cama vermelha, do tipo que é doce e macia, não
enjoativa e pegajosa como estou acostumada.
Estico minhas pernas doloridas na minha frente, sentindo pétalas fazendo
cócegas na minha pele. Nós andamos muito mais longe pelo campo depois de
terminar nossa dança, os dedos dos pés de Kai provavelmente dormentes em
suas botas. Eu mantenho minhas costas para o castelo que agora está muito
perto, escolhendo ignorar o inevitável.
— Como diabos você fez isso?
A frustração de Kai transparece em sua voz, algo que tenho certeza de que
ele não está acostumado a permitir. Ele está deitado de lado, apoiado em um
cotovelo enquanto luta com caules de papoula. Eu bufo ao ver o que deveria ser
uma coroa de flores, observando-a amassar em suas mãos.
Ele acena para a coroa quase completa no meu colo.
— Como a sua não está se despedaçando?
— Talvez — digo lentamente — porque estou fazendo certo
O olhar sem graça que ele me dá faz uma risada borbulhar da minha garganta.
Pétalas escorregam entre seus dedos enquanto ele se atrapalha para enrolar os
caules juntos. Suas palavras são um murmúrio sob sua respiração.
— Eu posso empunhar uma espada com as duas mãos, mas não consigo fazer
essas malditas flores ficarem juntas.
— Para ser justa. — digo, torcendo a última flor no lugar — tenho muita
prática. Adena e eu costumávamos fazer isso o tempo todo com dentes-de-leão.
O pensamento traz um sorriso triste ao meu rosto enquanto admiro meu
trabalho. Coloco a coroa em sua cabeça, ajustando-a sobre suas ondas negras.
— Pronto. De volta a ser um príncipe.
Ele sorri, distraindo-me com suas covinhas. Deito-me de lado, espelhando-o
enquanto me apoio em um cotovelo e olho para a coroa. As flores brilhantes
contrastam com cada uma de suas feições, suaves e delicadas, onde o resto dele
é tudo menos isso.
— Aqui. — Ele puxa uma flor meio amassada da mão. Dedos roçam meu cabelo
enquanto ele coloca o caule atrás da minha orelha. — Finja que é um miosótis.
Aquela noite do último baile passa pela minha mente, junto com a lembrança
de um beijo que quase compartilhamos. E pensar que compartilhamos mais
agora, quando realmente fomos feitos para ser inimigos.
— Somos muito bons em fingir — murmuro, observando seu rosto.
Ele abre a boca, como se quisesse libertar as palavras que estava aprisionando
dentro de si.
Mas seus olhos descem pelo comprimento do meu pescoço, seguindo a curva
do meu ombro exposto. A blusa larga e a alça da regata agora pendem frouxas
pelo meu braço por estarem desajeitadamente de lado.
Seus olhos se estreitam, parecendo pedaços de gelo enquanto uma
tempestade começa a se formar dentro deles.
O coração batendo sob seu olhar gagueja ao perceber o que ele vê. Sento-me
rapidamente, puxando a camisa de volta por cima do meu ombro. Pressiono uma
mão no tecido, garantindo que ele esteja cobrindo a bagunça mutilada por baixo.
— Gray. — Sua voz é fria. — O que diabos foi isso?
Eu balanço a cabeça para ele, odiando a maneira como estou me encolhendo.
— Não é nada.
— Então deixe-me ver — ele diz, enganosamente calmo.
Ele estende a mão em minha direção, e eu não penso antes de bloqueá-la
com meu antebraço.
Seus olhos voam até os meus. Um batimento cardíaco passa.
— O que foi isso?
— Isso — eu digo friamente — foi um bloqueio. Você quer que eu demonstre
um soco?
— Você não pode estar falando sério. — Ele ri sem graça.
— Experimente.
Ele balança a cabeça, perplexidade pintando suas feições. Quando ele alcança
novamente a manga da minha camisa, eu empurro sua mão para baixo antes de
mandar meu punho livre voando em direção ao seu estômago.
Ele bloqueia facilmente, lentamente deixando seus olhos subirem até os meus.
— Você está realmente tentando lutar comigo agora?
— Depende se você vai ou não manter as mãos longe de mim — eu digo,
levantando mais a manga.
Seus olhos se movem entre os meus, suas palavras são um sussurro.
— O que ele fez com você?
Essa pergunta faz com que cada pedaço de raiva reprimida venha à tona na
forma de um soco rápido em seu queixo. Eu mal consigo cortar o lado de seu
rosto com meu nó dos dedos antes que ele se esquive.
Agora estamos ambos de joelhos, respirando com dificuldade.
— Ei — ele ofega. — Eu só quero saber o que aconteceu-
Outro soco no estômago, seguido por um no maxilar que consigo acertar.
Quando recuo para outro, ele agarra meu pulso antes que eu possa causar mais
dano.
— Eu não vou lutar com você — ele diz severamente. — Eu não vou.
A frustração sai da minha garganta, soando como um rosnado. Empurro seu
peito com minha mão livre, forte o suficiente para fazê-lo se inclinar para trás
sobre os joelhos. Batendo meu corpo contra o dele, eu nos jogo sobre papoulas e
no chão.
Estou montada nele, ofegante com a preocupação que ele está demonstrando.
— Por que você não luta comigo? — Minha voz falha, lágrimas de repente
enchem minha visão.
— Porque a próxima vez que eu colocar a mão em você, eu só quero que seja
numa carícia — ele diz suavemente.
Abaixo a cabeça, fechando os olhos com força contra a onda de emoção ali.
Sinto uma mão calejada na minha bochecha e balanço a cabeça com o conforto
que não mereço.
— Por favor — ele sussurra. — Me mostre.
Soltei um suspiro trêmulo, abrindo meus olhos para os cinzentos que já
estavam me olhando. Então, lentamente, desço dele enquanto ele se senta,
engolindo meu orgulho para gentilmente puxar as camadas de roupa do meu
ombro.
Uma brisa fresca beija minha clavícula, como se para oferecer sua simpatia.
Não sinto o ar pegajoso na minha pele desde que o rei me cortou ao meio do
lado de fora da Arena Esférica.
A expressão de Kai não vacila, como se ele tivesse colocado uma máscara em
branco.
Há uma rachadura, no entanto. Sempre há. Eu pego o músculo que se contrai
em sua bochecha, a flexão de suas mãos.
— Como ele fez isso?
Tento engolir o nó na garganta.
— Uma espada.
Ele suspira pelo nariz.
— Depois que ele passou a lâmina pelo meu pescoço — continuo, levantando o
queixo para que ele possa ver a cicatriz familiar na luz pálida — ele me disse que
deixaria sua marca no meu coração, para que eu nunca me esqueça de quem o
quebrou.
Ele se aproxima, os olhos fixos na pele mutilada começando a cicatrizar. Sua
voz é gélida, enviando um arrepio pela minha espinha.
— É um C.
Eu aceno.
— De-
— Comum — ele termina, enojado. — Ele te torturou, e você não pensou em
me contar?
— Teria feito alguma diferença? — pergunto, levantando as mãos para o alto.
— Isso não me torna menos criminosa.
— Teria feito de você menos assassina — ele diz asperamente. — Por que você
escondeu isso de mim?
— Porque… — gaguejo. — Porque mal consigo olhar para mim mesmo! Você
não entende? — Lágrimas ardem em meus olhos, mas sigo em frente. — Ele me
arruinou. Me marcou. Pelo resto da minha vida, olharei para essa cicatriz e
pensarei no homem que mais odiei. O homem que mandou matar meu pai. O
homem que matou impiedosamente Comuns como eu. O homem que tentou me
assassinar. — Balanço a cabeça, olhando para qualquer lugar, menos para ele. —
Eu não podia deixar ninguém mais ver como ele me marcou. Ver o dano que ele
fez. Eu... eu simplesmente não podia.
A mágoa contida em seu olhar é quase insuportável.
— Gray...
— Diga meu nome — eu sussurro. — Por favor.
Eu sei que ele não disse isso desde que escapamos da prisão. Desde que eu
disse a ele, ele perdeu o privilégio de me chamar assim. E ele respeita minha
regra desde então.
Mas eu anseio pelo som do meu nome na língua dele. Eu quero que ele grite
do alto de um telhado, sussurre no meu ouvido, trace na minha pele. Eu quero
que meu nome forme uma forma familiar na boca dele, sentindo o gosto dos
meus lábios.
Quero que ele possua meu nome e ainda implore quando o disser.
Ou talvez eu só o queira.
A surpresa se infiltra por sua máscara em ruínas antes que o alívio a lave. Um
sorriso hesitante levanta seus lábios, como se eu tivesse acabado de proferir as
palavras mais bonitas que ele já ouviu.
Ele diz meu nome como se estivesse na ponta da língua, sussurrado em cada
respiração que ele dá.
— Paedyn.
Então ele abre os braços.
Um soluço silencioso escapa dos meus lábios enquanto me arrasto para seu
colo.
Braços fortes se dobram ao meu redor antes que eu enterre meu rosto em
seu peito nu. Ele passa a mão pelo meu cabelo curto, segurando meu pescoço
enquanto eu tremo contra ele.
— Ele não te arruinou, Pae — ele murmura contra meu ouvido. O apelido faz
uma lágrima rolar pela minha bochecha e respingar em seu peito. — Mas você
pensar assim significa que mesmo na morte, ele vença. Essa cicatriz é um
testamento da sua força. Um testamento de quem você é, não o quê.
Eu aceno, me enrolando mais contra ele. Flores nos engolem enquanto nos
sentamos ali em silêncio, criando uma linda parede de pétalas. Seu corpo é
quente, seus braços um conforto pesado ao meu redor.
Ficamos sentados até a escuridão cair sobre nós, enquanto sua palma
acariciava meu cabelo o tempo todo.
Quando a lua está baixa sobre nós e minhas pálpebras ficam pesadas, ele
gentilmente me tira do seu colo e me estende um saco de dormir.
Ele quase me levanta para cima dela antes de se deitar ao meu lado, seu
ombro roçando o meu. Eu rolo para o meu lado para encará-lo, apesar da
escuridão.
— Obrigada.
Ele vira a cabeça com o que tenho certeza que é um sorriso nos lábios.
— Já são seis vezes.
— E provavelmente o último — digo com um sorriso.
Ele olha de volta para as estrelas piscando para nós.
— Cicatrizes.
Eu pisco.
— O que?
— Cicatrizes — ele repete. — Outra coisa pela qual sempre tive uma queda.
O riso parece gaguejar na minha garganta, como se não tivesse certeza se
deveria sair da minha boca. Ele se estica e gentilmente dá um peteleco na ponta
do meu nariz, me fazendo rir de um jeito que eu não sabia que podia.
— Pragas, eu amo esse som — ele murmura, me fazendo ficar em silêncio. —
Eu tatuaria isso na minha pele se isso significasse que você riria de mim por
fazer isso.
— E eu faria isso — digo calmamente.
Ele ri antes de pressionar seus lábios contra minha testa, o beijo é suave e
doce.
Então ele me puxa para mais perto enquanto eu viro as costas para ele,
permitindo que um braço passe pela minha cintura.
— Tente não sonhar comigo, Pae — ele sussurra em meu ouvido.
— Você primeiro, Príncipe.
CAPÍTULO 45

KAI

Hoje é o dia.
O pensamento de pânico me tira do sono.
Abro os olhos apenas para fechá-los com força contra a luz ofuscante do sol.
Passo a mão pelo meu cabelo bagunçado, rolo meu pescoço dolorido de uma
noite dormindo em cima de caules grossos de flores. Piscando para o céu limpo,
o sol me diz que dormimos o suficiente.
Meus olhos vagueiam em direção à sombra que se projeta de seu castelo,
muito perto.
O fim desta missão está tão próximo, e ainda assim, não tenho certeza se
tenho forças para terminá-la. Mas estou acorrentado ao dever, criado para
comandar. Fui feito para o rei, não para ela. Eu nunca poderia ser digno dela.
Meu olhar volta para as flores esmagadas.
Como era de se esperar, Paedyn ainda está dormindo profundamente
encostada no meu peito, com as mãos enfiadas sob o rosto e o cabelo espalhado
de forma impressionante em todas as direções.
Paedyn.
Ganhei o nome dela de volta. É um alívio deixá-lo sair da minha língua depois
de dias tentando escapar dos meus lábios.
Ela não passa de um emaranhado de membros ao meu lado. Hesito em
acordá-la, mesmo que seja só para poder encará-la por mais tempo. Mas prefiro
a companhia dela do que qualquer outra coisa.
Eu balanço seu ombro.
Nada. Não é surpreendente.
Tento de novo. Dessa vez, isso me rende um resmungo contra a mão dela.
A próxima tentativa de acordá-la é recebida com um dedo médio erguido
sobre suas costas. Eu rio, continuando a sacudi-la.
— É impressionante e alarmante como você sempre consegue dormir tão
profundamente.
— Se você consegue dormir nas favelas — ela murmura, — você consegue
dormir em qualquer lugar.
Ela rola para me encarar, piscando grogue. Não consigo deixar de sorrir ao
vê-la, tão inconscientemente deslumbrante. Depois de vários grandes bocejos,
ela se apoia um braço para colher as flores que caem sobre nós.
Olhando para mim, ela começa a enfiar as flores no meu cabelo. Um sorriso
abre seus lábios, do tipo que é preocupantemente contagioso.
— Me deixando bonito, Pae?"
Ela revira os olhos.
— Como se você precisasse de ajuda com isso.
Assim que as palavras saem de sua boca, ela aperta os lábios, arrependimento
cobrindo seu rosto. Eu sorrio para ela do jeito que sei que ela gosta, fazendo-a
bufar de aborrecimento.
— Eu sempre soube que você me achava bonito.
— Pragas — ela murmura.
— Diga-me — eu digo suavemente, passando a mão preguiçosamente para
cima e para baixo em seu lado — como é que você conseguiu resistir a mim por
tanto tempo?
Sua risada sozinha poderia curar as partes mais corrompidas de mim, e é
exatamente isso que ela tem feito desde o dia em que a conheci.
— Bem, não tem sido muito difícil, Príncipe.
— Acho isso difícil de acreditar.
Lá vem aquela risada de novo.
— Talvez bastardos convencidos não sejam meu tipo.
— Então me diga quem você quer que eu seja para você.
Sua mão ainda está em meu cabelo, pétalas caindo de seus dedos. Vejo seu
olhar suavizar a cada segundo silencioso que passa.
— Eu não quero que você seja algo que você não é.
— Mas o que eu sou não é bom o suficiente para você — murmuro, olhando
para as nuvens se movendo acima de nós.
— E o que eu não sou?
A pergunta dela fez meus olhos voltarem rapidamente para o rosto dela.
— Do que você está falando?
Ela desliza a mão de onde estava emaranhada no meu cabelo.
— Você esqueceu o que eu sou? O que você deve fazer comigo?
Eu me sento, forçando-a a fazer o mesmo.
— E o que você acha que eu devo fazer com você?
— Me odeie! — ela grita asperamente, parecendo se surpreender com a
explosão.
— É isso que você quer? — pergunto, minha voz baixa. — Você quer que eu
odeie você?
Ela engole a resposta, sem dizer nada.
— Olhe nos meus olhos e diga para eu odiar você, Paedyn.
Silêncio.
Eu me levanto, rindo amargamente.
— Porque eu vou. Eu vou te odiar se isso significar que você vai passar o resto
da sua vida me agradecendo por isso.
Ela se levanta lentamente, evitando tanto meu olhar quanto a pergunta que
ela não quer responder.
Dou um passo em sua direção.
— Cinco palavras. É tudo o que estou pedindo. Cinco palavras para você me
dizer como se sente.
Vejo seus olhos se arrastarem em direção aos meus. Então ouço as cinco
palavras que saem de seus lábios.
— Por favor, apenas me odeie. — Uma pausa. — Idiota.
Em outras circunstâncias, eu teria rido. Mas em vez disso, eu respiro:
— Por quê?
Ela fecha os olhos.
— Porque é mais fácil assim. Mais fácil continuar inimigos do que se tornar
algo mais.
Respiro fundo.
— É um pouco tarde para isso, não acha?
Quando ela não diz nada, pego o saco de dormir e o enfio na mochila dela.
Uma espécie de máscara entorpecida desliza sobre minhas feições, mantendo
meu rosto inexpressivo e minha voz uniforme.
— Tudo bem. Então, devemos seguir nosso caminho.
Ela balança a cabeça, tendo encontrado sua voz.
— Não faz isso comigo. Não vá se esconder sob uma de suas máscaras para
poder fingir que não vê isso.
Passo as mãos pelos cabelos desgrenhados, balançando a cabeça.
— Você me quer sem máscara?
Sua voz está tensa.
— É o único jeito que eu quero você, Kai Azer.
Dou um passo em sua direção, sentindo-me despido sob o peso de seu olhar.
Parece anormal deixar as emoções pintarem meu rosto, a frustração encher
minhas feições. Mas deixo a máscara se estilhaçar para ela, deixando apenas o
monstro por baixo dela.
— Tudo bem. Aqui estou eu sem máscara, Paedyn — eu digo, respirando
pesadamente. — Eu não sei o que você quer que eu faça. Eu não tenho escolha-
— Você sempre tem uma escolha — ela diz asperamente.
— Não na vida em que nasci. Nas missões para as quais sou enviado. — Estou
praticamente ofegante enquanto as palavras saem da minha boca. — Você.
Ela hesita.
— Eu?
— Sim, você. Outra coisa pela qual sempre tive uma queda. — Soltei uma
risada amarga. — Não tive escolha no assunto. Você acha que eu poderia ter
impedido se tentasse?
Ela balança a cabeça para mim.
— Impedido o quê?
CAPÍTULO 46

PAEDYN

— Impedir que eu me apaixone por você!


Engasgo na próxima respiração, com o ar obstruindo minha garganta.
Seu peito está subindo e descendo no ritmo do meu. Meu coração dispara de
volta à vida, batendo forte contra minha caixa torácica. Eu balanço a cabeça para
ele, dando um passo para trás.
— Não. Não, não diga isso. Eu pedi para você não tornar isso mais difícil do
que já é.
— E eu te disse que já é — ele diz, com a voz áspera. — Droga, no minuto em
que você jogou uma adaga na minha cabeça, eu soube que estava acabado. Não
havia mais nada antes de você, apenas o que eu queria com você.
— E o que poderia ser isso? — Eu rio amargamente. — Eu sou um Ordinário.
Você é Elite-
— Não, estou aqui fora.
Olho para ele, assustada com as palavras que nunca pensei que ouviria saírem
de seus lábios.
— Aqui fora eu sou Kai e nada mais. — Sua garganta balança. — Aqui fora eu
sou impotente. Um monstro sem habilidade para se esconder atrás. Um
Executor livre de suas máscaras. Um homem gritando seu amor por uma mulher.
— Kai...
— Paedyn.
Meu nome vindo de seus lábios é uma fraqueza que eu não deveria deixar que
ele exercesse sobre mim.
— Acho que eu cairia sobre minha espada se isso significasse que você
lamentaria por mim — ele respira. — E é assustador pensar que você tem tanto
poder sobre mim.
Ele diminui a distância entre nós, inclinando meu queixo para cima para que
eu encontre seu olhar.
— Você me perguntou qual era minha cor favorita uma vez. Eu nunca tinha
sequer ponderado a resposta para essa pergunta antes de você. E ainda assim,
percebi naquele momento que era azul. — Ele se inclina para dar um beijo na
minha têmpora, um murmúrio contra minha pele. — São seus olhos.
Respiro fundo, sentindo a dele no meu rosto.
— Diga que me odeia, e eu ainda contarei cada batimento cardíaco, cada
sarda, cada arrepio do seu corpo, se você apenas disser isso com um sorriso. —
Ele se afasta, libertando meu rosto de suas mãos. — Eu posso ser um monstro,
mas se você me cortar, eu sangrarei. E se você quebrar meu coração, Pae, você
me quebrará. Então, se até mesmo uma lasca da sua alma anseia pela minha, eu
passarei o resto da minha vida tentando merecer isso.
Meus olhos estão vidrados, margeados por lágrimas que sou teimosa demais
para deixar cair. O apelo em seu olhar é poético. Ele flexiona as mãos ao lado do
corpo, como se fosse um esforço para mantê-las longe de mim. Eu observo seu
cabelo de pétalas e seus olhos de gelo que só parecem derreter quando caem
sobre mim.
— Talvez você seja realmente um poeta — eu sussurro.
Ele sorri suavemente.
— Ou apenas um tolo por você.
— Fingindo?
Minha voz é baixa, suave como a brisa soprando no meu cabelo curto.
— Nunca.
— Nada disso? — pergunto baixinho.
— Meu bem — ele sorri — eu nunca precisei fingir que te queria.
Suas palavras fazem meu coração gaguejar antes que a compreensão me
atinja.
— E nossos pais? — eu deixo escapar. — O que fizemos um ao outro?
— Não vou passar o resto da minha vida odiando você por se salvar. — Ele
suspira profundamente. — Eu sei por que você fez o que fez. E espero que você
entenda por que eu fiz o mesmo.
— Eu… — Palavras que eu pensei que nunca diria de repente ficam presas na
minha garganta. — Eu te perdoo, Kai. Acho que já faz um tempo. Porque eu posso
te perdoar pelo que você nem sabia que estava fazendo.
Seus olhos se fecham em alívio.
— Eu queria te matar — eu sussurro, forçando seus olhos a se abrirem. — Eu
queria ser sua ruína. Mas mesmo assim, eu sabia que não conseguiria viver
comigo mesma se tivesse feito isso.
Ele avança lentamente em minha direção, balançando a cabeça e os olhos
vagando como se estivesse sobrecarregado pelo que está vendo.
— Ah, mas você é minha ruína. Minha libertação. Minha queda disfarçada de
divindade. — Outro passo lento. — Você é minha ruína.
Estou atordoada, incapaz de fazer qualquer coisa além de deixar um sorriso
surgir em meus lábios.
— Nos chame de quites. Me chame de louco. Eu não ligo. Só… — Seus olhos
estão suplicantes, cheios de emoção. — Só me chame de seu.
Nós nos encaramos por vários segundos.
— Balançando o nariz — eu respiro.
Suas sobrancelhas franzem.
— O quê?
— Balançando meu nariz — repito simplesmente. — Algo que sempre tive uma
queda. Entre outras coisas, é claro.
A compreensão ilumina seus olhos enquanto um sorriso lento se espalha por
seus lábios, acompanhado de covinhas em ambos os lados.
— Continue, meu bem.
— Isso me lembra. — Eu concordo. — Me chamando de “meu bem”. Bastardos
convencidos. Cílios longos e escuros… — Eu poderia derreter com o calor do seu
olhar. — Saber o que preciso exatamente quando preciso. Rasgar meus vestidos.
Covinhas que me fazem-
Com um único passo, ele diminuiu a distância entre nós e puxou minha boca
para a dele.
Ele me beija profundamente, me inspirando. Eu derreto contra ele,
memorizando a sensação de suas mãos correndo pelo meu corpo. Pressiono uma
mão em sua bochecha enquanto uma das suas encontra meu cabelo, enfiando-o
entre seus dedos.
Eu me afasto o suficiente para dizer:
— Você realmente contou minhas sardas?
— Todas as vinte e oito — ele suspira antes de me beijar com força. — Embora
você possa ter mais agora do sol. — Outro beijo rápido. — Vou ter que fazer uma
recontagem.
Minha risada faz com que ele me puxe para mais perto e mordisque a ponta
do meu nariz com os dentes.
Envolvo meus braços em volta do pescoço dele. Ele é minha âncora, e estou
disposta a afundar, desde que seja com ele.
Com cada beijo, ele captura as três palavras que tenho muito medo de dizer.
Espero que ele possa senti-las na ponta da minha língua, lê-las na curva dos
meus lábios. Porque pronunciar as palavras parece uma sentença de morte. Cada
pessoa que eu já amei me deixou.
Estou amaldiçoado a perder no amor. Mas é isso que sinto por ele, o que senti
mesmo quando o odiava. Porque odiá-lo era mais fácil do que me odiar por
querer ele.
Então eu mordo minha língua. Eu luto contra a vontade de gritar aquelas três
palavras aparentemente inofensivas para ele. Porque onde quer que eu ame,
pessoas morrem. E eu prefiro amá-lo silenciosamente do que lamentá-lo em voz
alta.
Ele se afasta, respirando pesadamente.
— Você precisa sair daqui.
Tirando minha adaga de sua bota, ele se agacha diante da corrente que nos
prende.
— E você? — gaguejo. — E sua missão? E Kitt?
— Não se preocupe comigo. — Ele enfia a lâmina entre a costura da algema
em volta do meu tornozelo, tentando abri-la. — Eu posso lidar com Kitt. Ele já
pensou que eu não seria capaz de trazer você de volta de qualquer maneira.
— Ele pensou?
Ele bufa sem humor.
— É. Ele imaginou que eu faria exatamente o que estou fazendo agora - deixar
você ir. — Ele se esforça contra o cabo da minha adaga. — Parece que ele estava
certo em duvidar de mim.
Eu me abaixo ao lado dele, esmagando papoulas abaixo de mim.
— O que isso significa?
Ele não responde, com os olhos fixos na corrente teimosa.
— Kai. O que isso significa?
Ele para o tempo suficiente para olhar para mim.
— Significa que você vai ficar o mais longe possível daqui. Vou atrasar a busca
por você o máximo que puder, mas você precisa encontrar um jeito de chegar a
Izram até lá.
Eu balanço a cabeça.
— Não.
— Sim, Pae.
— Não. — Minha voz é severa. — Não, estou cansado de correr. E não vou
passar o resto da minha vida fazendo isso a menos que seja para você que eu
esteja correndo de volta.
— Então eu vou passar o resto da minha vida te rastreando — ele diz
calmamente. — Te vislumbrando nas sombras. Lutando com você nas ruas.
Dançando com você nos meus sonhos. Porque viver sem você só é suportável
quando eu sei que você está lá fora ainda vivendo também.
— Por favor — eu sussurro.
— Kitt não vai me deixar parar de caçar você. — Ele coloca uma mão na minha
bochecha. — Você tem que-
Ele para abruptamente, inclinando a cabeça ligeiramente para o lado.
— O quê? — pergunto hesitante. — O que é?
Ele não diz nada, o único movimento que ele ouve é um músculo pulsando em
sua bochecha.
— Kai?
Seus olhos encontram os meus de repente.
— Eles estão vindo.
— Quem é?
— Kitt deve ter meus homens procurando por mim na orla da cidade — ele
murmura baixinho. — Eles nos avistaram. Dois Flashes, vindo rápido.
Minha garganta fica seca.
Kai pendura a mochila nos ombros antes de puxar o arco sobre o peito.
Ele estende a mão para tocar meu rosto, mas pensa melhor quando olha por
cima do ombro.
Eu os vejo agora, duas figuras borradas acelerando em nossa direção. É
estranho ver habilidades em ação depois de passar tantos dias sem elas. Tantos
dias gloriosos em que todos eram tão comuns quanto eu.
— Ei, olhe pra mim — ele murmura. Eu me viro para encontrar seu olhar duro.
— Preciso que você entre no jogo. Você consegue fazer isso?
— Desempenhar um papel é algo com que estou bastante familiarizado — digo
calmamente.
Ele assente.
— Seja inteligente. Vou consertar tudo isso. Eu prometo.
Agora é minha vez de concordar. Seus olhos se movem rapidamente entre os
meus, e é uma luta não me jogar em seus braços.
— Você é minha prova de um paraíso — ele murmura com um rápido
movimento do meu nariz.
Então ele se vira para as figuras que se aproximam de nós, murmurando uma
única palavra que mal consigo entender.
Fingir.
CAPÍTULO 47

PAEDYN

— Já era hora de você nos ver aqui.


A voz de Kai é fria, insensível de um jeito que eu esqueci que poderia ser. Ele
anda na frente para encontrar os homens, me arrastando descuidadamente atrás
dele.
— V-Vossa Alteza — um deles gagueja, curvando-se rapidamente enquanto o
outro segue. — Estávamos esperando você dias atrás. Achamos que algo poderia
ter acontecido...
Kai encara o homem por um momento desconfortável, cruzando os braços
sobre o peito.
— Você é novo.
O Imperial se mexe em seus pés.
— Uh, sim, senhor.
Kai - o Executor -acena.
— Então, você ainda não aprendeu que questionar minhas habilidades é uma
maneira certa de perder a língua. — O homem fica mais pálido a cada palavra. —
Então que isso sirva de lição. Um aviso.
Eu já o vi tratar seus Imperiais assim antes, vi o quão óbvio é seu desdém por
eles. Mas eu não tinha percebido o quanto disso é uma fachada, uma
demonstração de poder e controle. A linha entre respeito e medo é tênue, e
depois desse desastre de missão, ele está lembrando a todos exatamente quem
ele é.
— Agora tire essa corrente de mim — ele diz simplesmente.
Os homens tropeçam para a frente, deslizando as espadas das bainhas em
seus lados. Eu ergo meu queixo enquanto eles me olham, o desgosto em seus
rostos espelhando o meu. O especialmente feio Imperial cospe em meus pés, e
eu não hesito em fazer o mesmo - só que, em seu rosto.
Sangue jorra do meu lábio quando sua palma encontra minha bochecha.
Minha cabeça vira para o lado onde cuspo sangue para combinar com as
papoulas que nos cercam.
Quando viro minha cabeça de volta para o homem, encontro-o cara a cara
com seu Executor. Os olhos de Kai são como lascas de gelo, tão frios que
queimam.
— Toque nela de novo — ele rosna, a voz baixa — e eu corto sua garganta. Ela é
minha.
Um arrepio percorre minha espinha com suas palavras frias. Ele disse algo
parecido com seus homens lá no Escaldante, mas dessa vez soa diferente. Parece
palavras não ditas e desejo secreto. Como se ele estivesse falando comigo em
uma língua que eles nunca entenderiam.
O Imperial acena repetidamente até Kai se afastar. Eu suspiro quando a dor
queima meu tornozelo e olho para baixo para encontrar o outro Imperial
enfiando a lâmina de sua espada no punho.
Ele corta minha pele descuidadamente, tentando abrir a algema. Mordo
minha língua para não gritar, para não dar a ele a satisfação de saber que ele está
me machucando.
Posso sentir o sangue quente escorrendo do corte para formar uma poça na
minha bota. A sensação disso faz meu coração bater forte, faz meus olhos
procurarem os de Kai. Ele olha para mim, o remorso brilhando em seu olhar. Seu
olhar sozinho implora por meu perdão, implora para que eu ouça sua palavra não
dita.
Fingir.
Desvio o olhar, piscando para minha bota. A dor só acaba quando a algema se
abre com um clique satisfatório. Solto um suspiro enquanto o Imperial levanta
sua espada da minha pele rasgada. Seu rosto está perto do meu, a máscara
branca obscurecendo a maior parte dele, com exceção do sorriso que ele lança
para mim.
Ignorando-o, tento rolar meu tornozelo rígido e pegajoso. Meu pé parece
estranho sem suas joias restritivas pesando sobre ele. A vontade de correr é
avassaladora, um instinto que consome todo pensamento racional.
— Nem pense nisso, garota.
O Imperial deve ter lido os pensamentos diretamente do meu rosto. Ele olha
para mim, desafiando meus pés a darem um único passo. — Você não pode me
ultrapassar, Comum.
Eu me assusto com suas palavras. Não porque estou chocado que ele saiba o
que eu sou, mas porque passei minha vida inteira temendo o som dessas palavras
dos lábios de um Imperial.
Eu me endireito, recusando-me a me encolher.
— Eu tenho corrido mais rápido que você a minha vida inteira.
Sua mão treme, lutando contra a vontade de me dar um tapa na cara pela
segunda vez. Ele pensa melhor quando o Executor se aproxima dele.
— Algeme ela.
Ambos os Imperiais acenam antes que o mais quieto comece a prender o
ferro em meus pulsos. Meu olhar se ergue para Kai, sua máscara fria e insensível.
Penso em cada momento em que disse a mim mesma que o odiava, cada
momento em que estava determinada a fazer com ele o que ele fez com meu pai.
E então uso tudo isso no meu rosto.
Fingir.
— Há um cavalo esperando por você quando voltarmos para a cidade, Vossa
Alteza.
Kai se vira para o Imperial.
— Ótimo. Vamos andando.
O outro Imperial me empurra para frente, quase me jogando de cara nas
papoulas abaixo de nós. Reviro os olhos para ninguém em particular.
— Usem suas palavras, rapazes. Nós, Comuns, não falamos outra língua, e eu
também sou bem capaz de andar sem ser empurrada.
— E por que desperdiçaríamos nosso tempo com você, traidora? — diz o feio,
rindo ao lado do amigo.
— Se você não conhece nenhum grande, tudo bem — eu digo docemente. —
Eu acho que a maioria dos Imperiais não conhece.
Ignoro o ódio queimando em seus olhares e, em vez disso, foco nas flores
abaixo de mim. As algemas batem em meus pulsos, pesando meus braços e
esfregando contra minha pele.
Caminhamos em silêncio, o castelo se aproximando, até que o Imperial à
minha esquerda sente a necessidade de abrir a boca novamente.
— Estou ansioso para que o rei nos livre de você.
Mantenho minha expressão vazia.
— Sim, tenho certeza de que sua alteza está muito animado com meu retorno.
Ele sorri.
— Todo Ilya está ansiosa por isso.
Engulo em seco, olhos piscando para as costas nuas de Kai na minha frente.
Ele não ousa se virar, seus ombros ficam tensos a cada passo.
Então me ocorre. A realidade da minha morte iminente.
Não sei como vou enganá-la dessa vez. Não há para onde correr. A morte só
pode ser enganada tantas vezes antes de desejar vingança.
Nosso passo é firme, e passo o tempo observando as flores lentamente
começarem a murchar sob nossos pés. As papoulas murcham a cada passo,
parecendo encolher em direção à terra e se esconder da cidade além.
Não demora muito para que o que resta do campo se transforme em
cascalho, que então se transforma em paralelepípedos irregulares e familiares.
Vários imperiais permanecem na orla da cidade, todos se curvando à vista de seu
príncipe e Executor. Ele acena com a cabeça desdenhosamente para o grupo de
homens antes de subir no cavalo que o espera impacientemente.
Uma mão áspera no meu ombro arranca meu olhar de Kai e o fixa no Imperial
me arrastando atrás do cavalo. Ele segura uma corda longa em seu outro punho,
a ponta dela amarrada à cela em que Kai está sentado.
Não sei por que lágrimas picam meus olhos enquanto o Imperial amarra a
corda em volta dos meus punhos. Ou por que quase as deixo cair quando o
cavalo começa a se mover, me arrastando atrás dele.
Talvez seja a humilhação de tudo isso. De ser escoltado até o rei como um
animal enquanto tropeço atrás de um. Ou talvez sejam as Elites que saem de
suas casas chiques para zombar da traidora. Da assassina. Da Comum..
Nunca vi esse lado da cidade. O lado onde os Ofensivos povoam — os únicos
dignos o bastante para viver tão perto do castelo. Fico boquiaberta com suas
casas enquanto passo. Essas Elites vivem em excesso, enquanto aqueles com
menos poder vivem na miséria abaixo deles.
Eu não ficaria surpreso se os Mundanos fossem declarados os novos Comuns,
assim como o Pai suspeitava.
As pessoas apontam, louvando seu príncipe no mesmo fôlego que usam para
amaldiçoar meu nome. Fecho meus olhos contra o ódio que eles vestem,
tropeçando em pedras enquanto desfilamos pelas ruas.
— Traidor!
— ...parte daquele culto da Resistência!
— Assassino do Rei!
— Quem vai salvar você agora, Paladina Prateada?
Mantenho meu rosto inexpressivo, desejando que ele não se desintegre com
cada insulto cuspido em mim. As algemas esfregam meus pulsos em carne viva
enquanto o sol bate forte em meu cabelo maldito.
Eu mantenho meus olhos no castelo, na perdição da qual estou me
aproximando lentamente. Os cânticos nos seguem, silenciando a cada passo em
direção ao rei que os aguarda. Talvez eles também temam no que eu o
transformei. Em que tipo de rei eu os deixei?
Quando entramos na sombra do palácio, sei que não vai demorar muito para
que eu descubra por mim mesmo. Os cascos do cavalo batem contra o
paralelepípedo que cobre o pátio. Meus olhos se fixam em um aglomerado de
miosótis aglomerando-se na escadaria do castelo.
Memórias de um vestido encharcado, chuva pingando de seus lábios nos
meus, miosótis emaranhados em meu cabelo, vêm à tona novamente. Olho para
onde Kai está sentado, encontrando-o olhando para o mesmo pedaço do pátio
onde nossos lábios se tocaram pela primeira vez.
E agora duvido que eles voltem a escovar os dentes.
Nós desaceleramos até parar ao lado da escada que eu esperava nunca mais
ter que subir. Tudo está quieto enquanto Kai balança da sela, acenando para um
Imperial. O homem se atrapalha com a corda com nós, os dedos escorregando
contra a amarra.
Kai se aproxima dele, deslizando a espada do Imperial da bainha ao seu lado
para cortar a corda com um único golpe. Ouço o homem engolir em seco, e
quase sorrio apesar da minha circunstância. Kai então empurra o punho da
espada na palma do homem sem uma única palavra antes de envolver uma mão
familiar e calejada em volta do meu braço.
Ele me leva até a escada, passando rapidamente o polegar pela minha pele.
Fingir.
As palavras queimam na minha garganta; palavras que eu queria poder dizer a
ele antes que seja tarde demais.
Olho para ele, tentando ao máximo memorizar os contornos do seu rosto,
sem saber se será a última vez que o verei.
Ou talvez ele seja a última coisa que eu veja.
Aquele que enfiou uma espada no meu coração.
CAPÍTULO 48

KAI

No que estou a levando?


Portas pesadas se abrem no topo da escada. Imperiais me cumprimentam
com uma reverência.
Dever. É nisso que estou levando-a.
Porque isso não é escolha minha.
Eu poderia ter arrancado a garganta daquela Imperial por ter tocado nela,
então o que farei se Kitt me ordenar fazer algo muito pior?
Mal posso suportar o jeito que ela olha para mim, ódio queimando naquele
olhar que eu amo. Mas isso é fingimento - a única vez que eu já fingi com ela.
Cada toque, cada dança, cada beijo disfarçado de distração era tudo menos
isso. Porque antes de amá-la, eu ansiava por ela. Ela era um desejo que eu não
merecia. E tenho medo de nunca ter a chance de merecer.
Porque agora que a tenho, vou dá-la.
Passamos pelas portas altas e entramos no corredor ornamentado além. Ela
olha ao redor, absorvendo tudo como se duvidasse que haverá outra chance. Eu
odeio isso, odeio que ela já tenha aceitado um destino que ela decidiu.
O carpete esmeralda sob nossas botas sujas parece fora do lugar, assim como
minha falta de camisa e a imunda de Pae. Minha primeira missão como o
Executor certamente não deixou de me fazer parecer mal. Mas mantenho minha
cabeça erguida, sentindo a familiar queimadura de olhos procurando por
imperfeições. Reviro meus ombros, endireito minha coluna, deslizo uma máscara
despreocupada sobre minhas feições.
Porque poder é representação. E respeito é exigido.
Continuamos pelo corredor, uma frota de Imperiais seguindo atrás. As portas
douradas se aproximam, nos chamando para descobrir o que espera do outro
lado. Quem espera do outro lado.
Não sei que versão dele nos espera além dessas portas. Talvez o irmão que
conheço, ou o rei que agora sirvo. Ele é imprevisível, despreparado para
governar tão jovem. Ou melhor, despreparado para perder um pai.
E Kitt sem sua compaixão é um homem que não reconheço.
Olho para a expressão vazia de Paedyn. Mas são seus dedos inquietos que
entregam sua ansiedade, girando incansavelmente aquele anel em seu polegar.
Por ela, rezo para qualquer um que se incomode em ouvir.
Rezo pelo meu pedaço de paraíso.
Seus olhos estão fixos em mim, arregalados e cheios de preocupação.
Não ouso mudar minha expressão vazia, não com tantos imperiais parados a
vários metros atrás dela.
Mas eu ouso levantar minha mão. Ouso levantá-la até o nariz dela, seu corpo
bloqueando o movimento. Ouso sacudir a ponta dela uma última vez, esperando
que ela ouça minhas palavras escondidas dentro da ação.
Eu te amo.
E então abro as portas pesadas.
A sala do trono está lotada de rostos familiares. Cada pessoa importante
parece ocupar a sala grande, algumas saindo de trás de pilares de mármore para
nos encarar sujando o chão brilhante a cada passo.
Homens e mulheres nobres, conselheiros de todas as idades, se assustam ao
nos ver. Não porque não soubessem que estávamos chegando, mas porque
provavelmente parece que viajamos pelo inferno para chegar aqui.
Estou ciente das muitas bandagens improvisadas enroladas em meu corpo,
cada uma delas manchada de sangue. Lembro-me de prometer ao Pai que não
entraria em sua sala do trono novamente sem uma camisa, e ainda assim, aqui
estou, seminu diante de toda a corte.
Embora Paeydn não pareça muito melhor. Sangue escorre pela perna dela do
Imperial deliberadamente descuidado que pretendo fazer pagar mais tarde. Sua
camisa pende do ombro, embora ela tenha garantido que a alça cubra a cicatriz
que meu pai lhe deu de presente. O mero pensamento disso faz meu sangue
ferver - não que alguém soubesse, com a máscara em branco presa sobre minhas
feições.
Dezenas de olhos passam rapidamente pela minha figura antes de lentamente
encontrar os dela. O desgosto queima em cada olhar que rasteja sobre ela,
observando a cicatriz em seu pescoço, o lábio cortado acima e o cabelo curto
que inegavelmente pertence à outrora Paladina Prateada.
Eu a puxo para frente pelo braço.
Fingir.
Sou frio e insensível e não dou a mínima para a prisioneira cambaleando
atrás de mim.
Fingir.
As correntes que prendem seus pulsos tilintam a cada passo irregular que ela
dá em direção ao trono. As pessoas se separam para abrir caminho, e eu
encontro cada olhar que se desvia para o meu. Esta multidão é muito orgulhosa
e adequada para gritar seu ódio como aqueles que passamos nas ruas, mas os
vários olhares em seus rostos falam muito.
Apesar de manter a cabeça erguida, os pés de Paedyn começam a arrastar a
cada passo mais perto de seu trono. O trono que nosso novo rei agora ocupa.
Ela está com medo.
O pensamento faz a raiva disparar através de mim, embora não chegue ao
meu rosto. Por mais que ela tente negar, eu sei que essa versão de Kitt a assusta.
Essa versão pela qual ela provavelmente se culpa.
Eu a forço a se ajoelhar quando chegamos ao fundo do estrado.
Fingir.
Algemas batem no chão de mármore; um som associado a um traidor. Ela
levanta a cabeça lentamente, ousando encontrar o olhar dele.
Mas seus olhos estão presos em mim, passando rapidamente pelo meu corpo.
Eu faço o mesmo, observando a coroa em cima de sua cabeça e o trono sob a
bunda que eu costumava espancar no pátio de treinamento. Não tenho certeza
se algum dia vou me acostumar com a visão dele sentado na sombra do pai.
— Bem-vindo de volta, Executor.
Seu sorriso é pequeno, e não tenho certeza se as formalidades são devido à
presença do tribunal ou se essa será a extensão do nosso relacionamento pelo
resto desta vida compartilhada.
— Eu estava começando a me preocupar — ele diz suavemente. — Você era
esperado de volta há vários dias.
Não parece um desprezo, mas dói, mesmo assim. Pelo menos eu sempre sabia
quando meu pai estava minando minhas habilidades.
— Como você pode ver pela nossa aparência — gesticulo para meu corpo e o
de Paedyn abaixo — nós nos deparamos com algumas circunstâncias imprevistas.
Kitt assente.
— Entendo. Você chegou em casa, de qualquer forma.
— Claro que sim. — As palavras saem mais duras do que deveriam. — Vossa
Majestade — acrescento rapidamente.
— E seus homens? — ele pergunta inclinando a cabeça.
Cruzo as mãos atrás das costas nuas.
— Circunstâncias imprevistas.
— Ah. — Kitt tamborila os dedos no grande braço do trono, parecendo
desconfortável no assento. — E ela? — ele pergunta de repente, acenando para
um Paedyn ajoelhado. Inclinando-se para frente, ele desliza o olhar sobre meu
rosto. — Alguma outra circunstância imprevista que eu deva saber?
CAPÍTULO 49

PAEDYN

Ele não olhou para mim.


Fiquei ajoelhado no chão diante dele, e ele nem teve a decência de olhar para
mim.
Seu cabelo está desgrenhado, opaco contra a coroa dourada no topo de sua
cabeça. Parece desconfortavelmente pesado, consistindo do que deve ser uma
dúzia de fios de ouro, todos se torcendo entre si. Reconheço o padrão familiar
emaranhado para representar o brasão de Ilya e o uso de todos os poderes
trabalhando juntos.
Eu luto contra a vontade de revirar os olhos diante de toda essa besteira.
— E ela? — ele pergunta de repente. — Alguma outra circunstância imprevista
que eu deva saber?
O silêncio que preenche a sala do trono é sufocante.
Suas palavras ecoam em meus ouvidos, pairam no ar entre nós.
Mas é a pergunta não formulada que faz meus olhos se arregalarem.
Ele está perguntando se aconteceu alguma coisa entre nós dois.
Eu luto contra a vontade de olhar para Kai e, em vez disso, mantenho meus
olhos fixos no rei que não se incomoda em olhar para mim. A corte que nos cerca
não parece perturbada pela pergunta da qual eles só sabem metade.
Não consigo imaginar que parece que algo aconteceu entre nós dois. Na
verdade, eu diria que nunca parecemos mais inimigos do que neste momento
com meu corpo ensanguentado e ajoelhado aos pés dele.
— Eu a trouxe de volta, não foi? — Kai diz calmamente.
— Não foi isso que eu perguntei, irmão.
Fiquei parado no título, sentindo o seu significado.
Esse reconhecimento do que eles ainda são um para o outro é o suficiente
para fazer a voz de Kai suavizar.
— Não. Não tiveram outras circunstâncias imprevistas.
A mentira desliza de sua língua, soando sincera. Eles se encaram por um
longo momento, me dando tempo para estudar este rei diante do qual estou
ajoelhado.
Olheiras mancham seus olhos, envelhecendo-o com nada mais do que falta de
sono. Seu cabelo está desgrenhado, espetado entre os fios de sua coroa como se
ele estivesse passando as mãos por ele. Roupas amassadas ficam abaixo de um
maxilar sem barbear, enquanto meias ligeiramente descombinadas me dizem que
os servos não estão cuidando de seu rei. O contorno tênue de uma caixa chama
minha atenção para seu bolso direito, embora eu não consiga descobrir o que há
dentro.
Tinta mancha sutilmente suas mãos, como se ele as tivesse esfregado
vigorosamente, deixando os nós dos dedos rachados e secos. Os dedos
tamborilam contra sua cadeira, seu único sinal de inquietação, embora seu
joelho ocasionalmente salte. E seus olhos...
De repente, seus olhos estão fixos em mim.
Verde e crocante como uma folha de grama fresca.
Verde e nadando de emoções.
Verdes como os do rei antes dele. O rei que esculpiu sua marca acima do meu
coração. Parece arder com a lembrança daqueles olhos familiares cheios de ódio.
Mas esse olhar verde que eu seguro está considerando, examinando de uma
forma que parece muito dura para o Kitt que eu conheci. Mas esse não é aquele
garoto. Isso é o que sobrou dele.
— Bom — ele diz para Kai, embora seus olhos permaneçam fixos em mim. —
Porque eu tenho planos especiais para ela.
Todos na sala parecem se inclinar mais perto em antecipação. É isso que
todos eles estavam esperando: minha punição.
Engulo em seco, forçando-me a segurar seu olhar enquanto ele se levanta.
— Senhoras e senhores da Corte, deixem-me reintroduzir a vocês quem está
ajoelhado diante de vocês. — Sua voz é suave do jeito que pessoas poderosas
podem se dar ao luxo de ser, forçando todos a ouvirem atentamente. — Esta é
Paedyn Gray. Uma vez competidora nos Julgamentos de Purgação, onde ela se
classificou muito bem para uma Mundana. E pensar que uma Psíquica se tornou
uma ameaça tão grande para as Elites Ofensivas.
Percebo o balançar de cabeças na minha visão periférica, mas mantenho
meus olhos fixos em Kitt enquanto ele continua.
— Mas ela não é exatamente o que parece. — Grunhidos de concordância
ecoam por toda a sala. — Não só sua Paladina Prateada era uma Comum
disfarçada, mas ela era uma traidora debaixo dos nossos narizes. Paedyn. — Seus
olhos voltam para mim. — Você confessa não só ser um membro da Resistência,
mas também conspirar com eles?
Eu pisco, ainda chocada com ele se dirigindo a mim pelo nome. Minha
garganta ficou seca, a voz rouca quando consigo dizer
— Sim.
A multidão suspira dramaticamente, como se já não soubessem de tudo isso.
Estou tentado a dizer ao rei para nos poupar do teatro e me sentenciar à morte
logo.
— Não só isso — ele continua calmamente — mas você admite... ter matado o
antigo rei de Ilya?
Meus olhos nunca se desviam dos dele.
— Sim.
Isso faz as pessoas murmurarem ao meu redor, xingando meu nome entre
respirações. Kitt assente, olhando para o chão de mármore refletindo meu rosto
sujo. O trecho de silêncio que se segue é ensurdecedor, e eu mordo minha língua
para não preenchê-lo.
Quando o Rei olha para cima, vejo Kitt brilhando através de sua expressão. A
mudança repentina me faz piscar de surpresa, piscando com a familiaridade
daquele rosto. E quando vejo Kai se endireitar um pouco ao meu lado, sei que ele
também vê.
— Essa mulher, Paedyn Gray, cometeu crimes atrozes — diz Kitt, olhando ao
redor da sala. — Ela matou meu pai, seu Rei, cravando sua própria espada em seu
peito antes que sua adaga atravessasse sua garganta. Ela conspirou com a
Resistência, um grupo radical de Comuns, ajudando-os a encontrar uma
passagem para a Arena Esférica. Seus olhos encontram o caminho de volta para
os meus, memórias nublando aquele olhar verde. — Ela mentiu. Ela matou. Ela
traiu.
A picada em sua voz me faz baixar o olhar para os pés que lentamente o
carregam pelos degraus do estrado.
— E eu sofri. Eu assumi repentinamente o papel de seu rei enquanto ainda
lamentava o anterior. E, sim, minha reputão de Rei Louco chegou aos meus
ouvidos. — Meus olhos se erguem para os dele enquanto a sala do trono fica
espessa de tensão. Olhares inquietos passam rapidamente entre os Elites,
respirações presas enquanto esperam seu rei continuar.
— Mas eu lhes asseguro — ele finalmente continua, permitindo que todos
respirem novamente — que minhas decisões futuras são tudo menos loucas. E eu
as explicarei todas a vocês no devido tempo.
Quando seus olhos pousam novamente em mim, sei que minha hora chegou.
— Paedyn Gray…
Abaixo a cabeça, não querendo ver as palavras se formarem em seus lábios.
Então é assim que termina.
Não pelo Julgamento. Não pelo Escaldante ou bandidos ou esgoto tentando
me afogar, mas pela mera palavra de um rei.
Um rei que eu criei.
Eu me pergunto se ele fará Kai fazer isso. Talvez recriar a morte de seu pai.
Isso parece apropriado.
— Fique de pé.
Quase não o ouço por causa dos meus pensamentos ensurdecedoramente
terríveis.
Demorei vários batimentos cardíacos acelerados para finalmente ficar de pé,
estremecendo com a dor que percorria meu tornozelo cortado.
Os olhos do rei percorrem todo o meu corpo antes de pousar em meu olhar.
Ele tira a caixa do bolso, pequena e aveludada entre os dedos.
A tampa se levanta e abre para revelar...
Nada poderia ter me preparado para as palavras que saíram de seus lábios.
Nem mesmo um verdadeiro médium.
O anel brilha contra o veludo preto em que está inserido.
— Você será minha noiva.
EPÍLOGO

KAI

Acho que estou me afogando.


Mas não em seus olhos azuis, como eu faria com prazer.
Não, estou afundando no chão, deixando que ele me engula por inteiro.
Mal consigo respirar sob o peso esmagador das palavras de Kitt.
Meus ouvidos zumbem. Meu coração bate forte.
O comando ecoa em meu crânio, embora eu não tenha ideia de por que ele
iria querer isso. Por que ele iria querê-la. Não agora. Não depois de tudo.
E ainda assim, eu ainda a quero depois de tudo.
Estou cercado por toda a quadra e a única coisa em que consigo me
concentrar é em não cair de joelhos ao lado dela.
Casamento.
Casamento com alguém que não sou eu. Casamento com alguém que passarei
o resto da minha vida servindo.
Vou perdê-la para sempre enquanto sou forçado a assistir.
Não consigo nem olhar para ela.
Sou um covarde, voltando a ser o monstro que eu era quando ela me
encontrou.
Minha visão está embaçada, meus olhos fixos no estrado acima.
É assim que eu a perco.
Não pela morte, mas por algo igualmente vinculativo.
O comando ressoa na minha cabeça.
E pensar que perdi tanto tempo tentando odiá-la.
E pensar que não terei tempo suficiente para amá-la.
Meu coração dói porque cada batida pertence a ela.
E talvez eu nunca consiga dizer isso a ela.
É assim que ela vai se lembrar de mim? Escoltando-a para esse destino?
Preso apenas pelo dever?
Eu poderia rir. Eu poderia chorar. Eu poderia queimar este palácio até o chão
como fiz com a casa dela, só por uma chance de confessar meu amor antes que
as chamas me consumissem.
Porque eu estou ligado ao seu próprio ser. Dela até o dia em que ela perceber
que eu não mereço ser.
Os olhos do rei estão em mim enquanto os meus estão em algum lugar
distante. Em algum lugar com ela. Um lugar onde eu não sou nada nem ninguém
e feliz sendo impotente, contanto que ela esteja ao meu lado.
Meu olhar desvia da fantasia e encontra o caminho até ela.
Não é assim que vou me lembrar de nós. Não como inimigos, traidores ou
monstros, mas como duas pessoas dançando no escuro, balançando sob as
estrelas. Os pés dela sobre os meus, a cabeça dela no coração que bate apenas
por ela. Apenas Pae e Kai.
Eu me afasto de sua forma ajoelhada, mascarando cada emoção com um
olhar vazio. Estou deixando-a para encará-lo. Seu futuro marido.
Eu me misturo à multidão, mantendo uma distância segura o suficiente para
não roubá-la.
Este será o resto da minha vida. Forçado a amá-la à distância. Lamentar a
perda dela a cada dia.
Mas eu vou.
Eu vou sufocar todas as emoções, menos a que pertence a ela. Eu vou amá-la
até que eu seja incapaz de sentir.
Ela é a tortura à qual talvez eu não sobreviva.
Ansiosamente, ela é minha ruína.
Seu olhar se ergue, encontrando olhos que não são os meus.
Olhos do homem que a possui, se ela permitir.
Ela deveria ser minha para sempre.
Agora vou vê-la se tornar de outra pessoa.
Porque a Fera não entende a Bela.
AGRADECIMENTOS

Seria mentira dizer que não li vários dos agradecimentos dos meus autores
favoritos, tentando estudar a melhor maneira de fazer isso. Porque estou
convencido de que há uma fórmula secreta a seguir, uma que mantém você, o
adorável leitor, envolvido enquanto eu, o autor divagante, tento expressar minha
admiração às pessoas que tornaram este livro possível. E talvez, no final disto,
você possa me dizer se eu descobri ou não.
Após o sucesso repentino de Powerless (pelo qual sempre agradecerei),
escrever o segundo livro de repente se tornou uma tarefa assustadora. Em
questão de meses, esta série que comecei apenas por paixão, mudou
abruptamente para algo muito maior do que eu poderia ter imaginado. E por
essa razão, Reckless me aterrorizou. A pressão de torná-lo perfeito pesava muito
sobre meus ombros. Mas quando meus dedos encontraram o teclado e as
palavras começaram a jorrar na página, parecia que eu estava de volta ao meu
quarto de infância, escrevendo Powerless para realizar os grandes sonhos que eu
tinha quando era uma garotinha.
Foi um privilégio retornar a este mundo com tantas pessoas ansiosas para
mergulhar de volta comigo. Adorei crescer com esta série e os personagens que
são tão queridos ao meu coração. Por mais divertido e doloroso que Reckless
tenha sido escrever, foi digitar a palavra final que foi minha parte favorita.
Porque provei algo a mim mesma naquela noite (aproximadamente às quatro da
manhã):
Minha história - meu sonho - não terminou quando terminei Powerless aos
dezoito anos. E agora ganhei coragem para continuar sonhando. Continuar
escrevendo. Continuar fazendo o que amo.
Tudo bem, chega de falar de mim. Posso dizer com segurança que eu nem
teria a chance de praticar minhas habilidades de escrita de agradecimentos se
não fosse por um punhado de pessoas incríveis. Para começar, tenho o grande
privilégio de trabalhar lado a lado não com uma, mas com duas equipes incríveis
da Simon & Schuster. Mesmo com minha imaginação assustadoramente
hiperativa, eu nunca poderia ter sonhado em ter um grupo de pessoas nos
Estados Unidos e no Reino Unido que se importassem tanto comigo e com
minhas histórias. Gostaria de dar a cada um de vocês um beijo na bochecha, mas
visto que vários milhares de quilômetros nos separam, terei que me contentar
em digitar seu nome com a maior admiração.
Começando com a adorável equipe do Reino Unido, parece justo começar
meu discurso efusivo com Yasmin Morrissey. Como uma das minhas corajosas
editoras, você suportou inúmeros memorandos de voz, e-mails e chamadas de
Zoom sobre todas as coisas Reckless. Você esteve lá em todas as etapas deste
livro, e não posso agradecer o suficiente por seu apoio constante. Nem mesmo
minha síndrome de impostora e autocrítica são páreo para você! Eu realmente
temo o que seria de mim sem sua diligência, e estou ansiosa por muitos outros
memorandos de voz longos no futuro!
Mas há vários outros membros da equipe do Reino Unido que tenho a honra
de agradecer, começando por Rachel Denwood e Ali Dougal, meus diretores de
administração e publicação. Laura Hough e Danielle Wilson defenderam meu
trabalho com varejistas do Reino Unido, enquanto Loren Catan, meu designer
interno, criou o lindo design de capa para Powerful. Miya Elkerton e Olivia
Horrox no marketing, juntamente com Jess Dean e Ellen Abernethy na
publicidade. A fantástica equipe de direitos, liderada por Maud Sepult e Emma
Martinez, que encontraram lares internacionais incríveis para Powerless. Por
último (mas certamente não menos importante). Nicholas Hayne e todos os
outros. Obrigado.
Quanto à minha igualmente adorável equipe dos EUA, devo primeiro encher
Nicole Ellul de imensa admiração. Ser minha outra editora destemida não é uma
tarefa simples. Você me ajudou a me guiar tão graciosamente em cada processo
de publicação, e sua fé no meu trabalho é mais apreciada do que você imagina.
Obrigado por cada ideia e cada grama de contribuição que fez desta série o que
ela é agora. Seu entusiasmo por si só é uma inspiração para mim.
Continuando com o resto da maravilhosa equipe dos EUA, tenho que
agradecer a Jenica Nasworthy por manter tudo organizado como minha
editora-chefe. Mas há vários outros que merecem um enorme agradecimento
geral, no mínimo. Chava Wolin, Lucy Cummins, Hilary Zarycky, Alyza Liu, Justin
Chanda, Kendra Levin, Nicole Russo, Emily Ritter e Brendon MacDonald — todos
vocês são incríveis no que fazem. Obrigada.
Neste momento, sinta-se à vontade para dar uma pausa em meus devaneios
para babar sobre a linda arte e o mapa na frente deste livro. E, sim, os rumores
são verdadeiros. É tudo desenhado à mão pelo incrivelmente talentoso Jordan
Elliot. Não consigo pensar de uma pessoa melhor para dar vida ao meu mundo, e
estou incrivelmente honrado em continuar trabalhando junto. Aqui está mais
uma arte de cair o queixo!
Ao meu inabalável advogado-agente, Lloyd Jassin, devo expressar minha
óbvia gratidão. Obrigado por me ajudar a navegar por este mundo da publicação
- não consigo imaginar lidar com nada disso sem você. É um prazer trabalhar
com você, e espero continuar fazendo isso por muitos anos.
Além das incríveis equipes de S&S que ajudaram a montar a Reckless, há
várias outras trabalhando nos bastidores. E eu sou parente dessas pessoas.
Primeiramente, posso admitir humildemente que nenhum desses sonhos teria se
tornado realidade se não fosse pelos meus pais. Mãe e pai, vocês me apoiaram
em cada passo do caminho e acreditaram em mim quando eu achava difícil
acreditar em mim mesmo. Obrigada por confiarem na sua garotinha o suficiente
para deixá-la perseguir essa paixão. Sou muito abençoada por ter vocês dois,
mas especialmente uma mãe que felizmente faz malabarismos sendo minha
confidente, assistente e contadora.
Sendo o menor da família, suponho que há alguns irmãos mais velhos para
reconhecer. Jessie, Nikki, Josh — todos vocês me apoiaram de suas próprias
maneiras. Agradeço profundamente cada texto encorajador e cada tapinha
proverbial nas costas. Obrigado, Foos.
Além da minha família, há vários amigos que garantiram que eu permanecesse
sã durante esse processo de escrita. Gostaria de agradecer em geral a cada
pessoa que teve que me aturar divagando sobre este livro. Cada um de vocês me
ajudou e me encorajou à sua maneira, e sou eternamente grata por seu apoio
infinito.
Agora, para a tarefa assustadora de tentar expressar minha admiração por
um certo garoto. Zac, não posso agradecer o suficiente por seu incentivo e
disposição em ajudar. Seja cozinhando uma refeição para mim ou oferecendo um
ombro para chorar, sempre posso contar com seu conforto. Você é realmente
meu garoto fictício encarnado, e espero escrever nossa história um dia.
Conforme declarado na parte de trás de Powerless, gostaria de agradecer
Àquele que me presenteou com meu amor pelas palavras e o desejo de escrever.
Eu realmente não estaria onde estou hoje sem meu Senhor e Salvador, e
agradeço a Deus pela oportunidade que Ele me deu.
Agora é a sua vez, caro leitor. Eu prendi sua atenção até aqui? Você estava
esperando que eu finalmente o reconhecesse? Porque é tudo graças a você que
eu cheguei a esta página. Estou honrado por estar nesta jornada juntos, e ainda
mais por você ter tirado um tempo para ler minha história. Você é minha
inspiração, minha razão para cada palavra. E espero prender sua atenção por
muitos anos que virão.
Um brinde a mais sonhos e às histórias que eles criam.

BJ, Lauren
SOBRE O AUTOR

Quando LAUREN ROBERTS não está escrevendo sobre mundos de fantasia e


provocando interesses amorosos, ela provavelmente pode ser encontrada
enterrada na cama lendo sobre eles. Lauren viveu em Michigan a vida toda, o que
a torna muito familiarizada com buracos, neve e várias atividades em lagos. Ela
tem os hobbies de uma avó e de uma criança: tricô, laser tag, rede, caça-palavras
e colorir. Powerless foi seu primeiro romance, e ela espera ter o privilégio de
escrever palavras bonitas pelo resto da vida. Se você gosta de reclamar, ler e
escrever, Lauren pode ser encontrada no TikTok e no Instagram
@laurenrobertslibrary para seu entretenimento.

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Livros Simon & Schuster para jovens leitores


Simon & Schuster, Nova York
Também por Lauren Roberts

Powerless
Powerful: Uma história de Powerless

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