Capítulo 1: Origens e juventude
Jair Messias Bolsonaro nasceu em 21 de março de 1955, no município de Glicério, interior
de São Paulo. Pouco tempo depois, sua família mudou-se para Eldorado, no Vale do
Ribeira, uma região marcada por dificuldades econômicas e carência de infraestrutura. Filho
de Percy Geraldo Bolsonaro e Olinda Bonturi Bolsonaro, Jair cresceu em um ambiente de
valores conservadores, rígido e disciplinado. O cotidiano da infância era pautado pela
simplicidade, contato com a natureza e as limitações próprias de uma região interiorana
pouco desenvolvida. Sua formação inicial foi marcada pela convivência com a agricultura
familiar, valores religiosos e a forte presença do pai como figura de autoridade.
Desde cedo, Bolsonaro demonstrava personalidade forte, espírito competitivo e interesse
por temas ligados à ordem e disciplina. Esses traços o aproximaram da carreira militar, vista
por ele como um caminho de superação social e realização pessoal. A juventude no Vale do
Ribeira, em meio às adversidades, foi também o cenário onde se formaram suas primeiras
impressões sobre o Brasil rural e conservador, influências que mais tarde moldariam seu
discurso político. Motivado pelo desejo de ascender socialmente e encontrar um propósito,
decidiu seguir carreira no Exército, o que viria a marcar profundamente sua identidade
pública e sua trajetória futura.
Capítulo 2: A carreira militar
Jair Bolsonaro iniciou sua formação militar na Escola Preparatória de Cadetes do Exército
(EsPCEx) e, posteriormente, ingressou na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN),
localizada em Resende (RJ). Foi ali, entre os rigores da formação e os valores castrenses,
que desenvolveu seu senso de hierarquia, disciplina e nacionalismo. Formou-se em 1977 e
seguiu carreira no Exército Brasileiro, servindo em unidades de artilharia e paraquedismo,
ganhando destaque entre os colegas por sua postura enérgica e sua defesa veemente dos
interesses da categoria.
No entanto, sua trajetória militar não foi isenta de controvérsias. Em 1986, Bolsonaro
publicou um artigo na revista "Veja" intitulado "O salário está baixo", no qual reivindicava
melhores condições salariais para os militares. A publicação lhe conferiu grande visibilidade,
mas também gerou desconforto entre os altos comandos. Chegou a ser preso
disciplinarmente por conta da exposição pública. Em 1987, foi acusado de participar de um
suposto plano de colocar bombas em instalações militares como forma de pressionar o
governo por reajustes salariais. Embora o Superior Tribunal Militar tenha posteriormente o
absolvido por falta de provas conclusivas, o episódio reforçou sua imagem como alguém
disposto a confrontar a autoridade em nome da categoria.
Em 1988, com o desgaste acumulado e dificuldades para ascender na hierarquia, Bolsonaro
deixou o Exército com o posto de capitão. Essa experiência, apesar de interrompida antes
de alcançar cargos mais elevados, foi determinante para moldar sua visão de mundo,
pautada na ordem, no patriotismo e na crítica à política tradicional. Foi também a base de
sua futura popularidade entre militares e setores da sociedade que valorizam a autoridade e
os valores tradicionais.
Capítulo 3: A entrada na política
Após deixar o Exército, Jair Bolsonaro direcionou seus esforços para a política institucional.
Em 1988, foi eleito vereador do Rio de Janeiro pelo Partido Democrata Cristão (PDC),
dando início à sua trajetória parlamentar. Dois anos depois, em 1991, conquistou uma vaga
como deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro, cargo que manteria por sete
mandatos consecutivos, ao longo de quase três décadas. Durante esse período, construiu
uma base eleitoral sólida, sobretudo entre militares, policiais, evangélicos e setores
conservadores.
Ao longo de sua carreira na Câmara dos Deputados, Bolsonaro ficou conhecido por seus
discursos polêmicos, posicionamentos contundentes contra a esquerda, defesa dos
militares e de pautas de segurança pública. Raramente ocupou cargos de liderança ou
relatorias importantes, mas construiu uma imagem de político outsider, avesso ao
politicamente correto. Sua atuação parlamentar teve como marca principal a fidelidade a
ideias conservadoras, como o armamento da população, o endurecimento das leis penais e
a crítica ao que considerava uma "ideologização" do ensino e da cultura.
Apesar de marginalizado por boa parte do espectro político tradicional, Bolsonaro
conquistou seguidores fiéis, graças à sua retórica direta e sem filtros, que encontrava eco
em parte da população insatisfeita com a criminalidade, a corrupção e o avanço de pautas
progressistas. Com o passar dos anos, sua presença nas redes sociais e em programas
populares de televisão ampliou seu alcance nacional, preparando o terreno para voos mais
altos.
Capítulo 4: A candidatura à presidência
O ano de 2018 marcou uma virada histórica na carreira de Jair Bolsonaro. Em meio à crise
política desencadeada pela Operação Lava Jato, à queda de popularidade do Partido dos
Trabalhadores (PT) e à desilusão com os partidos tradicionais, Bolsonaro lançou sua
candidatura à Presidência da República pelo Partido Social Liberal (PSL), uma legenda de
pouca expressão até então. Sua campanha se destacou por ser econômica, centrada no
uso intensivo das redes sociais, com forte apelo às emoções e ao antipetismo.
Seu discurso, direto e conservador, abordava temas como segurança pública, combate à
corrupção, defesa da família tradicional, valores cristãos e patriotismo. Para muitos, ele
representava a ruptura com a "velha política" e um basta aos escândalos de corrupção. A
facada que sofreu em 6 de setembro de 2018, durante um ato de campanha em Juiz de
Fora (MG), foi um divisor de águas. O atentado, que o afastou dos debates e do corpo a
corpo eleitoral, acabou ampliando sua visibilidade e gerando comoção nacional,
favorecendo sua vitória no primeiro turno com expressiva votação.
No segundo turno, enfrentou Fernando Haddad, candidato do PT, vencendo com mais de
55% dos votos válidos. Sua eleição foi recebida com entusiasmo por apoiadores que viam
nele um símbolo de mudança, mas também com preocupação por críticos que temiam o
avanço do autoritarismo. Bolsonaro chegava ao Palácio do Planalto com a promessa de
"mudar tudo isso que está aí", mas sem um partido consolidado e com uma base
parlamentar fragmentada.
Capítulo 5: Governo e pandemia
O governo de Jair Bolsonaro, iniciado em janeiro de 2019, teve como pilares centrais o
liberalismo econômico, a moral conservadora e a desconfiança em relação às instituições
tradicionais. Em seus primeiros meses, Bolsonaro nomeou Paulo Guedes para o Ministério
da Economia, com a missão de implementar uma agenda de reformas liberais, incluindo a
reforma da previdência, privatizações e medidas de desburocratização. No entanto, o
governo enfrentou desafios consideráveis em sua articulação com o Congresso, devido à
recusa inicial de Bolsonaro em formar uma base aliada nos moldes tradicionais da política
brasileira.
A pandemia da COVID-19, iniciada em 2020, redefiniu os rumos do mandato. Bolsonaro
adotou uma postura negacionista frente à gravidade do vírus, minimizou os efeitos da
doença, criticou o uso de máscaras, questionou as vacinas e promoveu o uso de
medicamentos sem comprovação científica. Trocou ministros da Saúde em meio ao
agravamento da crise, protagonizou embates com governadores e prefeitos que adotavam
medidas de isolamento, e frequentemente atacou a imprensa por sua cobertura da
pandemia.
Apesar das críticas, manteve uma base popular fiel, sustentada por ações como o
pagamento do auxílio emergencial durante o pico da crise sanitária e econômica. No campo
internacional, aproximou-se de líderes como Donald Trump e manteve uma retórica
soberanista, crítica a organismos multilaterais. No meio ambiente, seu governo foi alvo de
críticas internacionais devido ao aumento do desmatamento na Amazônia e à retórica
permissiva em relação ao agronegócio e garimpo ilegal.
As constantes crises institucionais, marcadas por ataques ao Supremo Tribunal Federal e
ao sistema eleitoral, consolidaram um ambiente de polarização política e social. Ainda
assim, Bolsonaro concluiu seu mandato com apoio significativo em diversas regiões do
país, especialmente no Centro-Oeste, Sul e parte do Sudeste.
Capítulo 6: Derrota e oposição
Nas eleições de 2022, Jair Bolsonaro buscou a reeleição, enfrentando Luiz Inácio Lula da
Silva, que retornava à cena política após ter suas condenações anuladas. A disputa foi
marcada por uma forte polarização, uso intenso das redes sociais, fake news e tensões
institucionais. Bolsonaro mobilizou sua base com temas como defesa da liberdade, crítica à
esquerda, e denúncias contra o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral.
Apesar de uma campanha aguerrida, foi derrotado no segundo turno por uma margem
apertada. Inicialmente, não reconheceu publicamente o resultado, e seu silêncio prolongado
gerou preocupações sobre a estabilidade democrática. Em 8 de janeiro de 2023, milhares
de apoiadores extremistas invadiram as sedes dos Três Poderes, em Brasília, promovendo
destruição e vandalismo. A resposta institucional foi rápida, com prisões e investigações,
incluindo apurações sobre possíveis vínculos do ex-presidente com incitadores dos atos.
Desde então, Bolsonaro passou a atuar como líder da oposição, mantendo alta
popularidade entre seus seguidores, mas também enfrentando diversas investigações.
Tornou-se inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral em 2023, devido a abuso de
poder político e uso indevido dos meios de comunicação em eventos oficiais. Sua influência
política, no entanto, se manteve relevante, com forte presença nas redes sociais, apoio a
candidatos aliados e participação em manifestações públicas.
A figura de Bolsonaro continua a dividir opiniões no Brasil. Para seus apoiadores, ele
representa a luta contra a corrupção, os valores tradicionais e a defesa da soberania
nacional. Para os críticos, sua gestão é marcada por retrocessos democráticos, desprezo
pela ciência e ataques às instituições. Mesmo fora do cargo e inelegível, permanece como
peça central no tabuleiro político nacional, símbolo de uma direita radicalizada que segue
influente no cenário brasileiro.