Doutrina Da Proteção Integral Da Criança e Do Adolescente
Doutrina Da Proteção Integral Da Criança e Do Adolescente
criança e do adolescente
As principais características, a evolução histórica e a disciplina da doutrina da proteção integral de
crianças e adolescentes.
Prof. Filipe Medon
1. Itens iniciais
Propósito
A compreensão dos principais pontos da doutrina da proteção integral da criança e do adolescente é
essencial aos profissionais do Direito, tanto para uma atuação a nível judicial cível – como tratam o direito
protetivo e o direito de família em questões que envolvam, por exemplo, poder familiar ou pensão alimentícia –
quanto a nível judicial socioeducativo, na garantia dos direitos e da defesa de jovens em conflito com a lei.
Preparação
Antes de iniciar este conteúdo, tenha em mãos a Constituição Federal, o Código Civil (Lei n. 10.406/2002) e o
Estatuto da Criança e do Adolescente (a Lei n. 8.069/1990).
Objetivos
• Analisar as principais transformações históricas e o fundamento constitucional da disciplina dos
direitos das crianças e dos adolescentes.
• Identificar os princípios orientadores da doutrina da proteção integral como o princípio da prioridade
absoluta; do superior interesse; e da municipalização.
• Reconhecer os direitos e as garantias fundamentais das crianças e dos adolescentes.
Introdução
Tradicionalmente, compreendia-se no passado que as crianças e os adolescentes estavam submetidos ao
poder absoluto dos pais. Daí falarmos, até mesmo, numa lógica de pátrio poder, o que revelava o
patriarcalismo que imperava na sociedade e, por consequência, no Direito.
É assim que vamos, em primeiro lugar, esmiuçar as transformações históricas e o fundamento constitucional
da doutrina da proteção integral da criança e do adolescente para, em seguida, aprofundar em alguns de seus
princípios orientadores. Por fim, vamos analisar os principais direitos fundamentais das crianças e dos
adolescentes, tendo a Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente) como guia
norteador.
Os assuntos serão analisados isoladamente em módulos próprios, mas fica aqui desde já uma questão
importante que deve ser objeto de reflexão por todos nós: será que, no caso concreto, o direito dos genitores
pode preponderar sobre o melhor interesse de seus filhos crianças e adolescentes? Ou a proteção integral é
um limite absoluto e intransponível em qualquer hipótese?
1. Transformações históricas e fundamento constitucional
E deve caber aos atores do Direito (advocacia, magistratura e doutrina) o inquietante “desafio de
compreender e traduzir, para o cotidiano das famílias, a doutrina do cuidado e da proteção integral.”
(TEPEDINO, 2021, p. 2). Como ressalta Gustavo Tepedino:
Eis os valores subjacentes à hermenêutica exigida pelo art. 6º do ECA, para o qual paternidade e
maternidade devem voltar-se à “condição peculiar da criança e do adolescente como pessoas em
desenvolvimento”. Em contexto de tamanhas dificuldades econômicas, sanitárias e educacionais, o
processo de adoção mostra-se indispensável ao desenvolvimento social brasileiro, importando em
projeto de vida cujo êxito depende do reconhecimento genuíno da família, adotiva ou biológica, como
núcleo socioafetivo democrático e solidário, consentâneo com a legalidade constitucional.
(TEPEDINO, 2021, p. 2)
Dito diversamente: não se tutela mais a família por si só, enquanto instituição. A família deve cumprir uma
função primordial de permitir o livre desenvolvimento de seus integrantes, ali incluídos as crianças e os
adolescentes, tidos não mais como sujeito meramente incapazes, mas como pessoas humanas em
desenvolvimento e que, por essa razão, devem ter asseguradas a tutela equivalente a essa condição. (CRUZ,
2021, p. 2-3)
Analisando as transformações históricas referentes aos direitos das crianças e dos adolescentes, podemos
verificar que nem sempre as crianças foram tidas como pessoas. O reconhecimento desse status jurídico é
relativamente recente se analisarmos retrospectivamente.
(CRUZ, 2021, p. 4)
Apesar dessa evolução no plano internacional e nas leis especiais internas, a nossa codificação civil
permanecia alheia a essa realidade. Sintomático disso é que o Código Civil de 1916 sequer faz referência ao
termo criança, que só foi incluído no Código Civil de 2002 no ano de 2009, por meio de alterações promovidas
pela Lei n. 12.010.
Fundamento constitucional
Fundamento constitucional do direito das crianças e dos adolescentes
É precisamente nesse contexto que se começa a falar numa noção de proteção integral, que foi incorporada
pela Constituição da República de 1988, artigo 227, que, em seu caput, apresenta a seguinte redação: “É dever
da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta
prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à
dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda
forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.”
A doutrina da proteção integral pode ser vista como “a expressão do reconhecimento da criança como pessoa
e sua titularidade de situações jurídicas” (CRUZ, 2021, p. 28-29). Os direitos inerentes a todas as crianças e
adolescentes passam a ter “características específicas devido à peculiar condição de pessoas em
desenvolvimento em que se encontrem” (PEREIRA, 1996, p. 23-24). O artigo 3º do Estatuto da Criança e do
Adolescente espelha essa noção:
A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem
prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios,
todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral,
espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade. Parágrafo único. Os direitos enunciados
nesta Lei aplicam-se a todas as crianças e adolescentes, sem discriminação de nascimento, situação
familiar, idade, sexo, raça, etnia ou cor, religião ou crença, deficiência, condição pessoal de
desenvolvimento e aprendizagem, condição econômica, ambiente social, região e local de moradia ou
outra condição que diferencie as pessoas, as famílias ou a comunidade em que vivem.
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Na lição de Heloisa Helena Gomes Barboza, esse princípio foi ratificado e alçado a um patamar de natureza
constitucional, mediante a doutrina da proteção integral, que possui maior abrangência (BARBOZA, 2000, p.
206). A ideia é que ele “permanece como um padrão, considerando, sobretudo, as necessidades da criança
em detrimento dos interesses de seus pais, devendo realizar-se sempre uma análise do caso concreto”
(PEREIRA, 2000, p. 218).
Trata-se, pois, de um giro conceitual que passa a encarar os menores não mais como incapazes, mas como
sujeitos de direito igualmente merecedores de tutela, que deve ser ainda mais intensa haja vista a
vulnerabilidade que lhes é ínsita por ainda estarem em formação. Além disso, por ser o melhor interesse
veiculado sob a estrutura de princípio, ele:
tem elevado grau de abstração, e sua aplicação depende da situação concreta em análise, mas direciona
para a adoção de soluções que privilegiem o interesse da criança enquanto pessoa, ao mesmo tempo
em que busca superar uma tendência patriarcal que considere o ponto de vista do direito ou interesse de
adultos envolvidos.
Especificamente sobre o pátrio poder, este passou por uma transformação: primeiro se tornou um poder
familiar, nomenclatura acolhida pela legislação, e atualmente é concebido como uma autoridade parental, que
espelha um poder-dever por parte dos genitores em relação aos filhos.
Ele deixou, assim, de ser tutelado como um valor em si mesmo, devendo seu exercício, de igual hierarquia
entre homens e mulheres, ser compatibilizado com outros princípios do ordenamento, sobretudo o melhor
interesse da criança e do adolescente. Daí se depreende que o poder dos pais não pode tudo. Ele encontra
limites impostos pelo ordenamento. Há quem defenda, até mesmo, que seria mais adequado se falar em
“responsabilidades parentais”, uma vez que essa expressão enfatizaria “o conjunto de atribuições conferidas
pelo ordenamento aos pais para desenvolverem e cuidarem de seus filhos” (CRUZ, 2021, p. 65).
A autoridade parental, neste aspecto, foge da perspectiva de poder e de dever, para exercer sua sublime
função de instrumento facilitador da construção da autonomia responsável dos filhos. Nisso consiste o
ato de educá-los, decorrente dos Princípios da Paternidade/Maternidade Responsável, e da Doutrina da
Proteção Integral, ambos com sede constitucional, ao alicerce de serem pessoas em fase de
desenvolvimento, o que lhes garante prioridade absoluta.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Estudamos neste módulo transformações históricas da disciplina de proteção das crianças e dos
adolescentes. A esse respeito, a doutrina que vigora atualmente no país é chamada de:
Questão 2
Prioridade absoluta
Princípios fundamentais
Neste vídeo, o professor discorre sobre os princípios orientadores do direito das crianças e adolescentes.
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Andréa Amin ainda destaca que há outros princípios específicos a certas áreas de atuação ou que dizem
respeito a institutos próprios.
Exemplo
Princípios relativos “às medidas específicas de proteção, estabelecidos no parágrafo único do art. 100
do Estatuto da Criança e do Adolescente, com redação introduzida pela Lei n. 12.010, de 3 de agosto de
2009, bem como princípios regentes da execução das medidas socioeducativas, estabelecidos no art.
35 da Lei n. 12.594, de 18 de janeiro de 2012” (AMIN, 2018, pp. 71-72).
Importante destacarmos que, como adverte Gustavo Cives Seabra, “embora a lei tenha mencionado ‘em
qualquer circunstância’, deve-se interpretar o dispositivo como a primazia nos casos em que várias pessoas
estejam na mesma situação fática” (SEABRA, 2020, p. 49).
Reflexão
Se no exemplo do acidente de carro verifica-se que a criança foi protegida pela cadeirinha de segurança
e há um adulto com perfurações e hemorragia, este deve ser atendido com prioridade.
Como ressalta Andréa Amin, tal princípio “[e]stabelece primazia em favor das crianças e dos adolescentes em
todas as esferas de interesse. Seja no campo judicial, extrajudicial, administrativo, social ou familiar, o
interesse infantojuvenil deve preponderar” (AMIN, 2018, p. 72).
Questão problemática reside em saber o que fazer diante de conflito entre prioridades. Isto é: se, por exemplo,
houver recursos escassos e for preciso optar entre construir uma creche ou um lar para idosos, qual solução
deveria preponderar? Há aqui divergência na doutrina, conforme podemos conferir a seguir (SEABRA, 2020, p.
50):
Por seu turno, o artigo 100 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que se insere no capítulo das Medidas
Específicas de Proteção, dispõe em seu caput que: “Na aplicação das medidas levar-se-ão em conta as
necessidades pedagógicas, preferindo-se aquelas que visem ao fortalecimento dos vínculos familiares e
comunitários.”.
Esmiuçando isso, o parágrafo único traz que também são princípios que regem a aplicação das medidas,
conforme o inciso II: “proteção integral e prioritária: a interpretação e aplicação de toda e qualquer norma
contida nesta Lei deve ser voltada à proteção integral e prioritária dos direitos de que crianças e adolescentes
são titulares.”.
Atenção
Como podemos notar, trata-se de uma regra que se destina a guiar a interpretação e a aplicação das
normas constantes do Estatuto, que deve ter como grande norte a proteção integral e prioritária dos
direitos dessas pessoas humanas em desenvolvimento.
Superior interesse
Princípio do superior interesse
O segundo princípio de que nos ocupamos é mais popularmente conhecido como melhor interesse da criança
e do adolescente e encontra ampla previsão em instrumentos normativos internacionais.
Exemplo
Vejamos a Declaração de Direitos das Crianças de 1959, cujo princípio 2 afirma que “a criança gozará de
proteção social e ser-lhe-ão proporcionadas oportunidades e facilidades, por lei e por outros meios, a
fim de lhe facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, de forma sadia e normal e
em condições de liberdade e dignidade. Na instituição das leis, visando este objetivo, levar-se-ão em
conta, sobretudo, os melhores interesses da criança.”.O artigo 3.1 da Convenção dos Direitos das
Crianças segue na mesma direção ao dispor que: “Todas as ações relativas às crianças, levadas a efeito
por instituições públicas ou privadas de bem-estar social, tribunais, autoridades administrativas ou
órgãos legislativos, devem considerar, primordialmente, o interesse maior da criança”.
Em nosso ordenamento, também podemos encontrar uma projeção desse princípio em um dos incisos do
parágrafo único do artigo 100 do Estatuto da Criança e do Adolescente. Vejamos: “Art. 100. Na aplicação das
medidas, levar-se-ão em conta as necessidades pedagógicas, preferindo-se aquelas que visem ao
fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários. Parágrafo único.
São também princípios que regem a aplicação das medidas: (...) IV - interesse superior da criança e do
adolescente: a intervenção deve atender prioritariamente aos interesses e direitos da criança e do
adolescente, sem prejuízo da consideração que for devida a outros interesses legítimos no âmbito da
pluralidade dos interesses presentes no caso concreto.”
Um direito substantivo
Enquanto um direito substantivo, “o interesse superior da criança deve receber uma consideração
primordial na ponderação diante de distintos interesses para tomar uma decisão. Sempre que for
decidida uma questão que afete uma criança, esse direito deverá ser colocado em prática.” (PAIVA,
2018, p. 172).
Por outro lado, enquanto um princípio jurídico interpretativo fundamental, ele se revelaria na ideia de
que “se uma disposição jurídica admite mais de uma interpretação, deve ser eleita a interpretação que
satisfaça de maneira mais efetiva o interesse superior da criança. Os direitos consagrados na
Convenção e seus Protocolos facultativos estabelecem o marco interpretativo.” (PAIVA, 2018, p. 172).
Finalmente, na sua acepção de norma de procedimento: ”sempre que se tenha que tomar uma
decisão que afete uma criança em concreto, um grupo de crianças em concreto ou as crianças em
geral, o processo de adoção de decisões deve incluir uma estimativa das possíveis repercussões
(positivas ou negativas) da decisão na criança ou nas crianças interessadas. A análise e a
determinação do interesse superior da criança requerem garantias processuais. Além disso, a
justificação das decisões deve deixar claro que foi levado em conta explicitamente esse direito. Nesse
sentido, os Estados Partes devem explicar como foi respeitado esse direito na decisão, isto é, que
chegou-se à conclusão que o interesse superior da criança estava sendo atendido, em quais critérios
a decisão foi baseada e como foram ponderados os interesses da criança frente a outras
considerações.” (PAIVA, 2018, p. 172).
Uma ressalva importante precisa ser feita: “não se está diante de um salvo-conduto para, com fundamento no
best interest, ignorar a lei. O julgador não está autorizado, por exemplo, a afastar princípios como o do
contraditório ou do devido processo legal, justificando seu agir no interesse superior do menor (AMIN, 2018, p.
83).
Municipalização
Princípio da municipalização
O derradeiro princípio geral relativo ao direito infantojuvenil
que vamos analisar é o chamado princípio da
municipalização.
A municipalização, seja na formulação de políticas locais, por meio do CMDCA, seja solucionando seus
conflitos mais simples e resguardando diretamente os direitos fundamentais infantojuvenis, por sua
própria gente, escolhida para integrar o Conselho Tutelar, seja por fim, pela rede de atendimento
formada pelo Poder Público, agências sociais e ONGS, busca alcançar eficiência e eficácia na prática da
doutrina da proteção integral.
Com isso, elencados e analisados os princípios mais relevantes, passamos no módulo seguinte a nos
debruçarmos sobre o estudo dos direitos fundamentais das crianças e dos adolescentes.
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Princípios do superior interesse e da municipalização
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Verificando o aprendizado
Questão 1
da prioridade absoluta.
da municipalização.
do superior interesse.
da situação irregular.
da família.
Questão 2
Segundo o princípio da municipalização, o ente federativo mais próximo da criança e do adolescente e que
deve concretizar seus direitos é (são):
a União.
os estados.
C
o Distrito Federal.
os municípios.
os territórios.
Recomendação
Vamos seguir, como linha de condução geral, a estrutura da Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990
(Estatuto da Criança e do Adolescente), que traz, em seu título II, o tema: “Dos Direitos Fundamentais”.
Tal título é subdividido em capítulos, que tratam respectivamente: (i) Do Direito à Vida e à Saúde; (ii) Do
Direito à Liberdade, ao Respeito e à Dignidade; (iii) Do Direito à Convivência Familiar e Comunitária; (iv)
Do Direito à Educação, à Cultura, ao Esporte e ao Lazer; (v) Do Direito à Profissionalização e à Proteção
no Trabalho.
Antes, precisamos fazer uma importante ressalva: apesar de tais direitos estarem descritos no Estatuto da
Criança e do Adolescente, trata-se de um rol meramente exemplificativo, já que, enquanto pessoas que o são,
as crianças e os adolescentes são destinatários dos direitos fundamentais presentes em outros diplomas,
ressalvando-se, logicamente, aqueles incompatíveis com a idade como, por exemplo, o direito ao voto, que
não pode ser exercido pelas crianças e é facultativo para os adolescentes a partir dos 16 anos de idade.
Direitos fundamentais
Neste vídeo, o especialista discorre sobre os direitos fundamentais das crianças e adolescentes, mostrando
situações de aplicação prática.
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Como podemos imaginar, não era preciso que o legislador infraconstitucional previsse isso, já que a própria
Constituição já traz, por exemplo, a garantia do direito à vida tanto no caput do artigo 5º quanto no caput do
artigo 227, que é específico em relação às crianças e aos adolescentes.
No entanto, houve previsão expressa no ECA e algumas normas foram adicionadas em seguida para buscar a
efetivação desses direitos fundamentais. A ideia geral é que desde antes do nascimento, enquanto nascituros,
as pessoas já recebem algum tipo de proteção por parte do Estado.
Exemplo
O Estado assegura o nascimento em condições dignas e saudáveis.
Isso inclui, naturalmente, normas destinadas às gestantes, como o artigo 8º do ECA: “É assegurado a todas as
mulheres o acesso aos programas e às políticas de saúde da mulher e de planejamento reprodutivo e, às
gestantes, nutrição adequada, atenção humanizada à gravidez, ao parto e ao puerpério e atendimento pré-
natal, perinatal e pós-natal integral no âmbito do Sistema Único de Saúde.”.
Ainda nesse artigo, podemos destacar alguns de seus parágrafos que trazem direitos muito importantes: “§3º:
Os serviços de saúde onde o parto for realizado assegurarão às mulheres e aos seus filhos recém-nascidos
alta hospitalar responsável e contrarreferência na atenção primária, bem como o acesso a outros serviços e a
grupos de apoio à amamentação.”.
Saiba mais
Destaca-se a preocupação com o aleitamento materno na primeira infância. Além disso, atento aos
possíveis efeitos danosos do estado puerperal, previu o §4º que incumbe ao poder público proporcionar
assistência psicológica à gestante e à mãe, nos períodos pré e pós-natal, inclusive como forma de
prevenir ou minorar as consequências do estado puerperal. Ainda nessa linha, o §5º trata da
possibilidade de que as genitoras entreguem seus filhos para adoção e, ainda assim, recebam o auxílio
por parte do Estado.
Finalmente, podemos destacar a garantia reservada pelo artigo às mulheres que se encontrem em situação de
privação de liberdade. É o que dispõe o §10: “Incumbe ao poder público garantir, à gestante e à mulher com
filho na primeira infância que se encontrem sob custódia em unidade de privação de liberdade, ambiência que
atenda às normas sanitárias e assistenciais do Sistema Único de Saúde para o acolhimento do filho, em
articulação com o sistema de ensino competente, visando ao desenvolvimento integral da criança.”.
Em relação à saúde, o artigo 11 do ECA afirma
que é assegurado acesso integral às linhas de
cuidado voltadas à saúde da criança e do
adolescente, por intermédio do Sistema Único
de Saúde, observado o princípio da equidade
no acesso a ações e serviços para promoção,
proteção e recuperação da saúde. O parágrafo
primeiro esmiúça que a criança e o adolescente
com deficiência serão atendidos, sem
discriminação ou segregação, em suas
necessidades gerais de saúde e específicas de
habilitação e reabilitação.
Saiba mais
Norma importante também consta do §3º, ao instituir que os profissionais que atuam no cuidado diário
ou frequente de crianças na primeira infância receberão formação específica e permanente para a
detecção de sinais de risco para o desenvolvimento psíquico, bem como para o acompanhamento que
se fizer necessário.
Por derradeiro, devemos ressaltar o artigo 13, que cuida da proteção à integridade físico-psíquica da criança
em relação a maus-tratos, que devem ser prontamente reprimidos: “Os casos de suspeita ou confirmação de
castigo físico, de tratamento cruel ou degradante e de maus-tratos contra criança ou adolescente serão
obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar da respectiva localidade, sem prejuízo de outras
providências legais.”.
É nessa direção que caminha o artigo 15 do ECA, que assim dispõe: “A criança e o adolescente têm direito à
liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como
sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.”
Especificamente em relação ao direito à liberdade, o artigo 16 enumera em seus incisos os aspectos que ele
compreende. São eles, respectivamente:
I
ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, ressalvadas as restrições legais;
II
opinião e expressão;
III
crença e culto religioso;
IV
brincar, praticar esportes e divertir-se;
V
participar da vida familiar e comunitária, sem discriminação;
VI
participar da vida política, na forma da lei;
VII
buscar refúgio, auxílio e orientação.
Como todo direito, a liberdade das crianças e dos adolescentes também pode comportar restrições, como se
dá no caso de medidas de privação de liberdade (artigo 106 do ECA) e de imposição de internação (artigo
121).
os direitos compreendidos no artigo 16 não são suprimidos quando a criança ou adolescente estiver
cumprindo medida socioeducativa de meio fechado (internação ou semiliberdade) ou quando estiver em
medida protetiva de acolhimento institucional. Assim, ressalvadas as limitações inerentes à aplicação da
medida, é certo que as unidades socioeducativas e de acolhimento devem possuir espaço para a prática
de esportes, cultos religiosos e não deve ser vedada a reunião das crianças e adolescentes para
postular melhorias, já que isso é uma forma de participar da vida política (nem que seja restrito ao
âmbito da unidade).
No que tange ao direito ao respeito, afirma o artigo 17 que esse direito “consiste na inviolabilidade da
integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da
identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.”.
Como concretização desse direito mais amplo, tem-se a norma do artigo 18: “É dever de todos velar pela
dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento,
aterrorizante, vexatório ou constrangedor.”. Esta última norma se relaciona diretamente com os artigos 18-A e
18-B, que foram introduzidos pela Lei n. 13.010/2014, conhecida popularmente como “Lei da Palmada” e que
gerou muita controvérsia e debates na sociedade quando da sua promulgação.
A criança e o adolescente têm o direito de ser educados e cuidados sem o uso de castigo físico ou de
tratamento cruel ou degradante, como formas de correção, disciplina, educação ou qualquer outro
pretexto, pelos pais, pelos integrantes da família ampliada, pelos responsáveis, pelos agentes públicos
executores de medidas socioeducativas ou por qualquer pessoa encarregada de cuidar deles, tratá-los,
educá-los ou protegê-los. Parágrafo único. Para os fins desta Lei, considera-se: I - castigo físico: ação
de natureza disciplinar ou punitiva aplicada com o uso da força física sobre a criança ou o adolescente
que resulte em: a) sofrimento físico; ou b) lesão; II - tratamento cruel ou degradante: conduta ou forma
cruel de tratamento em relação à criança ou ao adolescente que: a) humilhe; ou b) ameace gravemente;
ou c) ridicularize.
Merece o nosso destaque o artigo 19, que enuncia em seu caput que: “É direito da criança e do adolescente
ser criado e educado no seio de sua família e, excepcionalmente, em família substituta, assegurada a
convivência familiar e comunitária, em ambiente que garanta seu desenvolvimento integral.”.
A ideia geral aqui é que, tanto quanto possível, deve-se buscar manter a criança e o adolescente no convívio
com sua família natural, de modo que só se deveria buscar uma colocação em família substituta em casos
excepcionais. Entende o legislador que não importa tanto, por exemplo, a pobreza dos genitores: é preferível
que aquela pessoa humana em desenvolvimento fique no seu ambiente da família natural (Artigo 25:
“Entende-se por família natural a comunidade formada pelos pais ou qualquer deles e seus descendentes.”).
Nem mesmo a prisão dos pais parece ser um
obstáculo, como destaca o §4º desse mesmo
artigo: “Será garantida a convivência da criança
e do adolescente com a mãe ou o pai privado
de liberdade, por meio de visitas periódicas
promovidas pelo responsável ou, nas hipóteses
de acolhimento institucional, pela entidade
responsável, independentemente de
autorização judicial.”. Na mesma direção, o §5º:
“Será garantida a convivência integral da
criança com a mãe adolescente que estiver em
acolhimento institucional.”.
Reflexão
Acima de tudo, tenta-se manter o convívio dos filhos com a família natural, por ser esse um princípio
basilar que informa o Estatuto da Criança e do Adolescente.
III - direito de contestar critérios avaliativos, podendo recorrer às instâncias escolares superiores;
IV - direito de organização e participação em entidades estudantis;
V - acesso à escola pública e gratuita, próxima de sua residência, garantindo-se vagas no mesmo
estabelecimento a irmãos que frequentem a mesma etapa ou ciclo de ensino da educação básica.
Parágrafo único. É direito dos pais ou responsáveis ter ciência do processo pedagógico, bem como participar
da definição das propostas educacionais.”.
Podemos destacar, por exemplo, o inciso IV, que assegura que os estudantes possam se organizar no
ambiente escolar, além do inciso V, que traz a importância de que haja o acesso a escola pública próxima da
residência dos alunos, que devem estudar na mesma escola de seus irmãos, até mesmo para facilitar o
deslocamento por parte dos pais e a rotina da família.
Atenção
Importante notarmos que há deveres específicos não apenas para os pais e para o Estado, mas também
para instituições particulares. É exemplo disso o artigo 53-A, que assim afirma: “É dever da instituição de
ensino, clubes e agremiações recreativas e de estabelecimentos congêneres assegurar medidas de
conscientização, prevenção e enfrentamento ao uso ou dependência de drogas ilícitas.”.
Em relação ao Estado, o artigo 54 impõe como seu dever assegurar à criança e ao adolescente:
“I - ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria;
III - atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular
de ensino;
V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de
cada um;
Importante relembrarmos que o Supremo Tribunal Federal, por meio de seu Plenário, acabou negando
provimento ao Recurso Extraordinário (RE) n. 888815, com repercussão geral reconhecida, no qual se discutia
a possibilidade dessa modalidade de ensino, o que tem gerado iniciativas por parte do Legislativo, uma vez
que o fundamento principal para a improcedência do recurso foi por ausência de norma legal que regulamente
a sua prática.
(RE 888815, Relator: Min. ROBERTO BARROSO, Relator p/ Acórdão: Min. ALEXANDRE DE MORAES, Tribunal Pleno, julgado em
12/09/2018)
O artigo 60, por sua vez, dispõe que: “É proibido qualquer trabalho a menores de quatorze anos de idade,
salvo na condição de aprendiz.”. Nada obstante, aqui, mais do que nunca, é preciso realizar a análise
comparativa. Tal dispositivo estava em consonância com a redação originária do artigo 7º, XXXIII da CRFB.
Importante ainda mencionarmos o artigo 69, que consagra: “O adolescente tem direito à profissionalização e à
proteção no trabalho, observados os seguintes aspectos, entre outros: I - respeito à condição peculiar de
pessoa em desenvolvimento; II - capacitação profissional adequada ao mercado de trabalho.”.
Merece destaque, especialmente, o inciso I, pois, ainda que se permita que os adolescentes
exerçam alguns tipos de trabalho, eles devem ser compatíveis com a condição de pessoas humanas
em desenvolvimento, de modo que nem tudo é permitido.
Por fim, é preciso considerar que, como alerta Gustavo Cives Seabra (2020, p. 133), “todos os direitos
trabalhistas devem ser assegurados àqueles que não completaram a idade para o trabalho, mas mesmo assim
tiveram seus direitos violados. Pensar de forma diferente levaria a uma dupla violação: 1- violação da proteção
ao trabalho; 2- concessão de menos direitos que aqueles atribuídos aos adultos.”.
Foi precisamente nesse sentido que decidiu o Supremo Tribunal Federal no Recurso Extraordinário n. 600.616,
em que se discutia a concessão de salário maternidade a uma adolescente que ainda não havia alcançado a
idade para o trabalho. O julgado foi assim ementado pela Corte:
EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO. DIREITO PREVIDENCIÁRIO.
TRABALHADORA RURAL. MENOR DE 16 ANOS DE IDADE. CONCESSÃO DE SALÁRIO-MATERNIDADE.
ART. 7º, XXXVI, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. NORMA PROTETIVA QUE NÃO PODE PRIVAR DIREITOS.
PRECEDENTES. Nos termos da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, o art. 7º, XXXIII, da
Constituição “não pode ser interpretado em prejuízo da criança ou adolescente que exerce atividade
laboral, haja vista que a regra constitucional foi criada para a proteção e defesa dos trabalhadores, não
podendo ser utilizada para privá-los dos seus direitos” (RE 537.040, Rel. Min. Dias Toffoli). Agravo
regimental a que se nega provimento.
(RE 600616 AgR, Relator: Min. ROBERTO BARROSO, Primeira Turma, julgado em 26/08/2014)
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Verificando o aprendizado
Questão 1
C
Direito de trabalhar a partir dos dez anos.
Direito à profissionalização.
Questão 2
Considerações finais
Como vimos, a Doutrina da Proteção Integral vigora no cenário normativo atual e substituiu a antiquada
Doutrina da Situação Irregular.
O artigo 227 da Constituição Federal estipula o importante princípio da prioridade absoluta na proteção da
criança e do adolescente, que pode, contudo, sofrer limitações no caso concreto. Assim, a disciplina
constitucional dos direitos da criança e do adolescente deve estar sempre acompanhada do Estatuto da
Criança e do Adolescente, lei especial que concretiza os princípios da Carta Magna.
O ECA resguarda diversos direitos da criança e do adolescente, envolvendo o direito à vida, à saúde, à
liberdade religiosa, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização e a tantos outros, todos condizentes
com o objetivo principal de reconhecimento da criança e do adolescente como sujeitos de direito
merecedores de tutela.
Podcast
Neste podcast, o professor trará aos ouvintes o conceito e o fundamento da doutrina da proteção
integral, assim como falará brevemente dos princípios que orientam o direito das crianças e
adolescentes.
Conteúdo interativo
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Para um melhor aprofundamento na temática da proteção da criança e do adolescente, veja: ZAPATER, Maira
Cardoso. Direito da Criança e do Adolescente. 1ª Edição. Saraiva, 2019.
Referências
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