AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 1957502 - MG (2021/0244669-8)
RELATOR : MINISTRO LUIS FELIPE SALOMÃO
AGRAVANTE : CELSO BRANDAO SAMPAIO
ADVOGADOS : GILSON ADRIANE DE SOUZA - MG086343
ROBERTA SARAIVA DE OLIVEIRA - MG124158
AGRAVADO : BANCO ITAU BBA S.A
ADVOGADOS : RENATO MORAES BICALHO DE LANA - MG050200
ANDRE LUIS DA SILVA - MG099031
THIAGO HENRIQUE DA SILVA GURGEL - MG138316
AGRAVADO : GERALDO SARDINHA PINTO FILHO
ADVOGADOS : ADRIANA MANDIM THEODORO DE MELLO - MG056145
ISADORA DE ASSIS E SOUZA - MG118099
NEMAN MANCILHA MURAD - MG178701
DECISÃO
1. Cuida-se de agravo interposto por CELSO BRANDAO SAMPAIO contra
decisão que não admitiu o seu recurso especial, por sua vez manejado em combate a
acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS,
assim ementado:
EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL – EXIBIÇÃO DE DOCUMENTO – INTERESSE
DE AGIR – CONSTATAÇÃO DA UTILIDADE E NECESSIDADE NO
PROVIMENTO JURISDICIONAL. – Para além das situações que revelem
urgência e risco à prova, a pretensão posta na ação probatória autônoma
pode, eventualmente, se exaurir na produção antecipada de determinada
prova (meio de produção de prova) ou na apresentação/exibição de
determinado documento ou coisa (meio de prova ou meio de obtenção de
prova — caráter híbrido), a permitir que a parte demandante, diante da prova
produzida ou do documento ou coisa apresentada, avalie sobre a existência
de um direito passível de tutela e, segundo um juízo de conveniência,
promova ou não a correlata ação.
APELAÇÃO CÍVEL – PRODUÇÃO ANTECIPADA DE PROVAS –
PRELIMINAR DE NÃO CONHECIMENTO DO RECURSO – MODIFICAÇÃO
DA CAUSA DE PEDIR E INOVAÇÃO RECURSAL – INOCORRÊNCIA –
NULIDADE DA SENTENÇA – REJEIÇÃO – PRESCRIÇÃO – OCORRÊNCIA
– PEDIDO ADMINISTRATIVO REALIZADO APÓS TRANSCURSO DO
PRAZO DECENAL DO ART. 205, DO CÓDIGO CIVIL – RECURSO NÃO
PROVIDO.
- As teses levantadas pelo apelante estão relacionadas às razões de decidir
adotadas pelo juiz a quo, não havendo que se falar em não conhecimento do
apelo, por inovação recursal ou por modificação da causa de pedir.
– Não se verifica a ocorrência de nenhuma das hipóteses previstas no art.
489, § 1º, do CPC/2015, razão pela qual não há que se cogitar da nulidade
da sentença, por ausência de fundamentação.
- É decenal o prazo prescricional da pretensão do consumidor de exibição do
documento de autorização de transação financeira realizada em sua conta
bancária (art. 205 do Código Civil).
- Considera-se prescrita a pretensão inicial, se entre a data da realização da
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Signatário(a): MINISTRO Luis Felipe Salomão Assinado em: 27/03/2022 [Link]
Publicação no DJe/STJ nº 3362 de 29/03/2022. Código de Controle do Documento: 5152cb48-ea21-4695-a450-03a67d686d48
transferência bancária impugnada e o pedido administrativo de exibição do
documento comprobatório da referida operação transcorrer tempo superior a
dez anos.
V.V.P. EXIBIÇÃO DE DOCUMENTO INEXISTENTE – AUSÊNCIA DE
INTERESSE DE AGIR – SENTENÇA CASSADA – EXTINÇÃO DO FEITO,
SEM RESOLUÇÃO DE MÉRITO.
- Mostra-se ausente o interesse de agir, consubstanciado no binômio
necessidade do provimento judicial pretendido/adequação do procedimento
utilizado, razão pela qual o feito deve ser extinto, sem resolução de mérito,
nos termos do art. 485, inciso VI, do CPC/2015.
Opostos embargos de declaração, foram rejeitados.
Nas razões do recurso especial, aponta a parte recorrente, além de dissídio
jurisprudencial, ofensa ao disposto nos arts. 11 e 489, § 1º, I, II, IV, V e VI, 1.022, II,
todos do CPC/15.
Aduz que foi omisso o acórdão recorrido quanto à análise e enfrentamento
de documentos, Leis Federais e suas regulamentações, bem como ao entendimento
jurisprudencial que impõem a não ocorrência da prescrição ao presente caso,
pretendendo a reforma do acórdão.
Contrarrazões ao recurso especial às fls. 1095-1103 e 1108-1131..
É o relatório.
DECIDO.
2. A irresignação não prospera.
Observa-se que não se viabiliza o recurso especial pela indicada violação
dos artigos 11 e 489, § 1º, I, II, IV, V e VI, 1.022, II do Código de Processo Civil de
2015. Isso porque, embora rejeitados os embargos de declaração, o Tribunal de origem
indicou adequadamente os motivos que lhe formaram o convencimento, analisando de
forma clara, precisa e completa as questões relevantes do processo e solucionando a
controvérsia com a aplicação do direito que entendeu cabível à hipótese.
Em que pese a argumentação trazida a baila, é inequívoco que o Tribunal
de origem se manifestou sobre o tema, o que destaco abaixo à fl. 855:
Ao contrário do que o embargante tenta fazer prevalecer, nota- se que o
acórdão embargado encontra-se devidamente fundamentado, tendo sido
apreciados de forma exauriente todos os pontos essenciais ao deslinde da
controvérsia. Não se verifica qualquer omissão ou obscuridade no voto
condutor, que se encontra claro e inteligível.
Confira-se:
“Em que pesem as alegações recursais, incide na espécie do art. 205,
do Código Civil, in verbis:
“Art. 205. A prescrição ocorre em dez anos, quando a lei não lhe haja
fixado prazo menor.” Nesse sentido:
EMENTA: AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE
FAZER - EXIBIÇÃO DE EXTRATOS BANCÁRIOS - OBRIGAÇÃO DE
GUARDA - PRESCRIÇÃO - PROBABILIDADE DO DIREITO -
INEXISTÊNCIA.1 - O correntista tem direito de pleitear, em juízo, a
exibição dos extratos bancários.2 - O dever de guarda dos extratos
bancários e microfilmagem de cheques se funda em direito de
natureza pessoal e prescreve em 10 (dez) anos, nos termos do art.
205 do Código Civil. (Agravo de Instrumento nº 1.0352.19.000447-
8/001, Relator o JD Convocado Habib Felippe Jabour, j. em
10/12/2019, DJe de 12/12/2019).
Ora, equivocou-se o apelante ao apresentar, em seu apelo, extensa
argumentação relativa ao contrato de depósito bancário, modalidade
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contratual por meio da qual a instituição financeira exerce a guarda e
administração de recursos que lhe foram entregues pelo
cliente/consumidor.
A operação impugnada na presente lide consiste na transferência de
valores para conta bancária de terceiro, o que afasta a aplicação do
entendimento jurisprudencial, bem como dos dispositivos legais e
normativos invocados pelo apelante.
In casu, a transferência do montante de R$ 1.769.250,00, da conta de
titularidade do apelante, junto ao BANCO ITAÚ UNIBANCO S/A, em
favor de GERALDO SARDINHA PINTO FILHO, ocorreu em
15/07/2004, sendo, portanto, esse é o termo inicial do prazo
prescricional da pretensão inicial.
Como a notificação extrajudicial para a exibição dos documentos de
autorização da referida transação foi recebida pelos requeridos
somente em 11/11/2015 (doc. nº 7 e 8), consumou-se a prescrição,
uma vez que já escoado o prazo de dez anos determinado pela
legislação civil, não havendo, assim, que se falar em suspensão da
prescrição.”
De fato, na hipótese em exame, é de ser afastada a existência de vícios
no acórdão, à consideração de que a matéria impugnada foi enfrentada de forma
objetiva e fundamentada no julgamento do recurso, naquilo que o Tribunal a quo
entendeu pertinente à solução da controvérsia.
Dessa forma, verifica-se que a matéria foi devidamente enfrentada pela
Corte de origem, inexistindo qualquer omissão.
Ressalta-se que nos termos do artigo 1.022 do CPC, cabem embargos de
declaração contra decisão judicial para esclarecer obscuridade ou eliminar contradição,
corrigir erro material e/ou suprir omissão de ponto sobre o qual deveria ter se
pronunciado o julgador, aí incluídas as condutas descritas no § 1º do artigo 489 do
novel codex, caracterizadoras de carência de fundamentação válida. Nada obstante,
não se prestam os aclaratórios ao simples reexame de questões já analisadas, com o
intuito de dar efeito infringente ao recurso integrativo, como almeja a parte recorrente.
Não há falar, portanto, em prestação jurisdicional lacunosa ou deficitária
apenas pelo fato de o acórdão recorrido ter decidido em sentido contrário à pretensão
do recorrente.
3. Ante o exposto, nego provimento ao agravo.
Havendo nos autos prévia fixação de honorários de advogado pelas
instâncias de origem, determino a sua majoração, em desfavor da parte recorrente, no
importe de 10% sobre o valor já arbitrado, nos termos do art. 85, § 11, do Código de
Processo Civil, observados, se aplicáveis, os limites percentuais previstos nos §§ 2º e
3º do referido dispositivo legal, bem como eventual concessão da gratuidade da justiça.
Publique-se. Intimem-se.
Brasília, 23 de março de 2022.
Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO
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