Acórdãos - C - 1
Acórdãos - C - 1
PROCESSO Nº 36.216/2022
F/B “PANTOJA I” e Veleiro "MATAJUSI”. Abalroamento, com arranhões no costado do V/E. Rio
Guamá, Baia do Guajará, Belém, PA, nas proximidades da Direct Marine. Erro de manobra e
falta de supervisão. Repreensão.
Vistos, relatados e discutidos os presentes Autos.
Os Autos tratam do IAFN 0039909 instaurado pela CPAOR, a fim de apurar o abalroamento
entre o F/B “PANTOJA I” e o Veleiro "MATAJUSI”.
Consta dos autos que desde a tarde do dia 21 de janeiro de 2022, o veleiro “MATAJUSI”,
classificado para atividade de esporte e recreio em área de navegação de mar aberto, medindo
11,75 metros de comprimento, encontrava-se fundeado no rio Guamá, Baia do Guajará,
Belém, PA, nas proximidades da Direct Marine, tendo a bordo o Capitão Amador SILVIO DOS
PASSOS RAMOS e sua companheira LILIAN MARQUES MONTEIRO.
Em 23 de janeiro de 2022, por volta das 06h15, a embarcação “PANTOJA I”, classificada para
transporte de carga em área de navegação interior, medindo 60 metros de comprimento e 670
AB, oriunda da cidade de Breves, PA, navegava em aproximação para atracação no Porto
Pantoja, com seu bico de proa a 90º em relação ao cais.
O F/B “PANTOJA I” estava a cerca de 150 metros do porto, conduzido pelo Imediato, o CMF
JOSUÉ MENDES MASCARENHAS, que estava acompanhado no passadiço pelo Comandante da
embarcação, o PLF MARCELINO CARVALHO DOS SANTOS.
O F/B estava com 6 nós de velocidade para aproximação, o CMF JOSUÉ colocou os dois
manetes de bombordo e boreste a meio/neutro, o vento estava de través de boreste e a maré
era de vazante, contudo, o F/B acabou por sair de seu rumo, instante em que abalroou o
veleiro que estava fundeado, tendo a sua popa jogada em cima do veleiro, raspando o bordo
de boreste do meio para a proa e arranhando o costado do veleiro.
Em seguida, a embarcação “PANTOJA I” atracou normalmente.
De acordo com Laudo de Exame Pericial às fls. 06/10, o Comandante e o Imediato do F/B,
relataram que os ventos que atingiam a embarcação por boreste, somado à maré que era de
vazante naquela manhã, influenciaram imediatamente a embarcação no meio da manobra,
deslocando-a bruscamente da sua posição de atracação, jogando sua popa para bombordo,
sendo levada pela maré em direção ao veleiro.
Os Peritos concluíram que a causa determinante do acidente da navegação foi devido a erro
de manobra por parte do condutor do F/B “PANTOJA I”.
O Capitão Amador SILVIO DOS PASSOS RAMOS, proprietário do veleiro, declarou às fls.20/21,
que no momento do acidente estava em seu camarote dormindo; que em sua opinião acredita
que o abalroamento ocorreu devido ao F/B “PANTOJA I” estar apenas com um motor, não
tendo força suficiente para vencer a correnteza do rio para realizar a manobra de atracação
com segurança.
Em depoimento às fls.29/30, o PLF MARCELINO CARVALHO DOS SANTOS, Comandante do F/B,
declarou que no momento do acidente estava no passadiço; Que quem conduzia a
embarcação era o CMF JOSUÉ; Que quando a embarcação estava cerca de 150 metros de
distância do Porto Pantoja, com seu bico de proa exatamente a 90º em relação ao cais, de
frente ao porto, o condutor desligou os motores, com a finalidade de ter maior precisão de
velocidade para atracação da embarcação no porto; Que neste momento a maré que estava
contra a embarcação e os ventos que estavam vindo de través de boreste exerceram uma
influência contra a embarcação, de tal forma que ela saiu do seu rumo de lado, e acabou por
encostar no veleiro que estava fundeado nas proximidades do local da manobra, não
chegando a abalroá-lo com força; Disse, por fim, que o veleiro atingido estava fundeado
próximo de local que se destina a manobras de atracação e desatracação de embarcações;
Acredita que se o veleiro não estivesse naquele local o acidente poderia ser evitado.
O Comandante da embarcação “PANTOJA I” foi reinquirido a fl.39, com o intuito de esclarecer
se os motores foram realmente desligados pelo Imediato, colocando a embarcação na situação
de deriva? Respondeu que os motores não foram parados, o que foi feito foi que os manetes
de comando do motor foram colocados a meio/neutro, e quando houve necessidade os
manetes foram acionadas acoplando novamente os motores aos eixos propulsores.
O CMF JOSUÉ MENDES MASCARENHAS, condutor da embarcação “PANTOJA I”, relatou às
fls.43/44, que estava chegando de Breves se aproximando do porto Pantoja para atracação,
quando estava a cerca de 150 metros do porto, o depoente reduziu as máquinas, e nas
proximidades entre o porto e a marina localizada a cerca de 200 metros do porto Pantoja,
encontrava-se fundeado um veleiro, após reduzir as máquinas, como a embarcação estava
com 6 nós de velocidade, o depoente colocou as duas manetes de BB e BE a meio, a maré
estava contra a embarcação e o vento soprava de boreste, quando percebeu que a
embarcação estava indo para cima do veleiro, prontamente deu avante na manete do motor
de bombordo para desviar do veleiro, sendo que o veleiro já se encontrava do meio para trás
do F/B, como a distância do veleiro para o porto era de 150 metros, esses 150 metros era a
área de manobra disponível para realizar a atracação da embarcação, assim, como o veleiro se
encontrava muito próximo da margem, o depoente não pôde jogar todo o leme para
bombordo, teve que manter uma aproximação de 70 a 90º do porto, instante em que o F/B
encostou no veleiro, devido ao vento e a maré forte, o que foi inevitável devido a posição que
o veleiro se encontrava no meio do caminho da manobra, causando o abalroamento com
pequenos arranhões no costado do veleiro; Que o Comandante instruiu a manobra de
atracação, neste momento de aproximação inicial o leme se encontrava levemente a
bombordo e as manetes levemente avante, a embarcação tinha velocidade de 5 a 6 nós, e a
embarcação se localizava a uma distância paralela de cerca de 30 metros, com o vento
entrando fortemente a boreste do F/B e a maré batendo na proa contra a embarcação, o
depoente colocou as manetes a meio, para a velocidade da embarcação perder força,
deixando a embarcação só com o seu seguimento, isso ficou por cerca de 3 minutos, como o
vento estava muito forte jogando a embarcação para bombordo próximo a margem, a maré
continuou contra, quando o comandante determinou para dar avante com o motor de
bombordo e o leme um pouco pra bombordo para livrar a popa do F/B do veleiro, tal
manobra, porém, não foi suficiente devido a força do vento e da maré, não havendo mais
possibilidade de quaisquer manobras para evitar o abalroamento.
O Encarregado do Inquérito em Relatório às fls.62/68, responsabilizou pelo acidente o CMF
JOSUÉ MENDES MASCARENHAS e o PLF MARCELINO CARVALHO DOS SANTOS,
respectivamente, condutor e comandante da embarcação “PANTOJA I”, por erro de manobra e
falta de habilidade na ação de atracação da embarcação, pois optaram por atracar o F/B em
condições desfavoráveis para a manobra escolhida, com redução total da velocidade da
embarcação, colocando as manetes de controle no neutro, deixando a embarcação à deriva, à
mercê dos ventos e da correnteza que influenciaram a embarcação mudando seu rumo,
jogando-a, pela popa, em direção ao veleiro.
Os indiciados foram notificados, porém não consta apresentação de defesas prévias.
A PEM requereu diligências complementares, pois verificou a necessidade de esclarecer
alguns pontos: i) se o veleiro estava autorizado a fundear no local do acidente, segundo o
Comandante do F/B o fundeio era próximo do local que se destina a manobras de atracação e
desatracação de embarcações; ii) as condições ambientais reinantes no momento do acidente;
iii) esclarecer a alegação do proprietário do veleiro de que a embarcação “PANTOJA I” estava
apenas com um motor em funcionamento e por isso teve dificuldade na manobra; iv) por
último, não foram juntados aos autos as fotos e filmagens que o proprietário do veleiro alegou
ter realizado, v) outras reinquirições e juntada de croqui com a dinâmica do acidente.
As diligências foram cumpridas.
Os Peritos asseveraram que o veleiro “MATAJUSI” encontrava-se fundeado na latitude
01º28.7315'S e longitude 048º28.935'W, Carta Náutica nº 320/DHN, nas proximidades da
Marina Direct Marine, localizada as margens do rio Guamá, Belém, PA, e constataram que esse
local não é autorizado para fundeio de quaisquer tipos de embarcações, seja porque o local de
fundeio não consta da mencionada Carta Náutica, seja por não constar no Parecer nº 8/2022,
emitido pela Capitania dos Portos da Amazônia Oriental no ato de regularização da Marina
Direct Marine, relativa a instalação e construção da Marina, cujo limite extremo permitido,
conforme a planta de localização, são os pontos F3 - 01º28'42.20"S e 048º28'56.44"W e F4 -
01º28'42.437"S e 048º28'52.12"W. Assim, o fundeio do veleiro estava próximo do local que se
destina a manobras de atracações e desatracações de embarcações.
Em reinquirição, o CMF JOSUÉ MENDES MASCARENHAS condutor do o F/B “PANTOJA I”, alegou
que estava navegando com dois motores propulsores, e que os dois encontravam-se em pleno
funcionamento; Que os motores da embarcação são controlados por 02 manetes de
acionamento dos motores avante/a ré/neutro, localizadas no passadiço ao lado do timão; Que
trabalha na empresa há 28 anos, e que há 08 anos a empresa encontra-se instalada às
margens do rio Guamá, nas proximidades do acidente, onde a embarcação sempre atraca e
desatraca rotineiramente; Que nunca durante estes 08 anos o depoente verificou
embarcações ali fundeadas/ancoradas naquele local, até porque é uma área portuária.
Por sua vez, o PLF MARCELINO CARVALHO DOS SANTOS, Comandante do F/B, declarou em
reinquirição, que a embarcação estava navegando com os dois motores em funcionamento;
Que já tinham feito manobras de atracação naquele porto anteriormente, que é uma manobra
normal, pois é uma marina onde sempre tem embarcações, algumas vezes, as embarcações
estão atracadas no flutuante da marina, mas outras vezes, as embarcações ficam ancoradas
em frente a marina, o que o depoente acha errado por ser próxima ao porto Pantoja, onde
constantemente atracam embarcações, principalmente balsas; Perguntado se é comum o
fundeio de embarcações no local em que o veleiro se encontrava? Respondeu que sim.
Quanto as condições meteorológicas, conforme o Boletim de Informações Ambientais nº
91/2023 do Centro de Hidrografia da Marinha, constata-se que a região de interesse estava
sob a influência de áreas de instabilidade atmosférica entre a tarde do dia 23 e a madrugada
do dia 24 de janeiro de 2022. Contudo, cabe ressaltar que o acidente ocorreu na manhã do dia
23 de janeiro, antes do período de instabilidade, verificou-se que na parte da manhã o vento
era Sudeste/Nordeste com 4 a 10 nós e sem ocorrência de rajadas.
Segundo a PEM, em sua petição de representação 0085864, as condições ambientais eram as
esperadas para a área e não contribuíram para o acidente.
O croqui do acidente foi juntado aos Autos e os vídeos anexados não demonstram a
cinemática do abalroamento, apenas os danos materiais no V/E e no F/B, que foram de
pequena monta.
Assim, a D. Procuradoria Especial da Marinha, após análise dos Autos, ofereceu representação
em face de:
JOSUÉ MENDES MASCARENHAS, Contramestre Fluvial, na qualidade de Condutor da
embarcação “PANTOJA I”;
MARCELINO CARVALHO DOS SANTOS, na qualidade de Comandante da embarcação “PANTOJA
I”; e
SILVIO DOS PASSOS RAMOS, Capitão Amador na qualidade de Comandante e Proprietário do
Veleiro “MATAJUSI”.
O 1º e o 2º representados como responsáveis pelo acidente da navegação capitulado no artigo
14, alínea “a” (abalroamento) da Lei nº 2.180/54, e o 3º representado responsável pelo fato da
navegação previsto no artigo 15, alínea “e” (expor a risco) da mesma Lei.
Depois de resumir os fatos narrados no inquérito a PEM entendeu o CMF JOSUÉ MENDES
MASCARENHAS, Condutor do F/B “PANTOJA I”, foi imprudente e imperito, cometendo erro de
manobra, eis que ao reduzir a velocidade da embarcação, colocando as duas manetes de
bombordo e boreste a meio/neutro, deixou a embarcação em uma situação de deriva, o que
aliada as condições ambientais esperadas para a área, contribuiu para que o F/B mudasse seu
rumo, jogando-o, pela popa, em direção ao Veleiro “MATAJUSI” que se encontrava fundeado,
culminando com o abalroamento.
O PLF MARCELINO CARVALHO DOS SANTOS, Comandante do F/B “PANTOJA I”, agiu com
imprudência e negligência, pois estava no passadiço no momento do acidente, orientando o
CMF JOSUÉ quanto a manobra de atracação, conforme afirmado pelo próprio condutor da
embarcação em seu depoimento, instruindo o condutor a colocar os manetes a meio,
deixando a embarcação só com o seu seguimento, por cerca de 3 minutos, fazendo com que se
aproximasse do veleiro fundeado, não conseguindo evitar o abalroamento. Além disto,
descumpriu o previsto no item 0401, “6” da NORMAM-13/DPC que estabelece que “cabe ao
Comandante assumir pessoalmente a direção da embarcação sempre que necessário por
ocasião de manobra atracação e desatracação”.
A PEM também responsabilizou o Capitão Amador SILVIO DOS PASSOS RAMOS, Comandante e
Proprietário do veleiro “MATAJUSI”, por imprudência, ao fundear a embarcação em local não
autorizado para o fundeio de quaisquer tipos de embarcações, seja porque o local de fundeio
não consta na Carta Náutica nº 320/DHN, seja por não constar no Parecer nº 8/2022, emitido
pela Capitania dos Portos da Amazônia Oriental no ato de regularização da Marina Direct
Marine, relativa a instalação e construção da Marina. Segundo os Peritos constataram o
fundeio do veleiro estava próximo do local que se destina às manobras de atracações e
desatracações de embarcações, portanto, expôs a risco as vidas a bordo, a segurança da
embarcação e o tráfego aquaviário.
As representações foram recebidas por unanimidade na Sessão Ordinária do dia 06/11/2023,
conforme lavrado na certidão 0094167.
Citado, o 1º Representado, que não apresenta antecedentes neste Tribunal, foi regularmente
defendido por I. Advogado constituído.
A defesa alegou que a responsabilidade pelo incidente foi atribuída a ele devido a um suposto
erro de manobra e falta de habilidade na atracação da embarcação em condições
desfavoráveis. A redução total da velocidade e a colocação dos manetes de controle no neutro
foram apontadas como causa do abalroamento com o veleiro "MATAJUSI".
Entretanto, essa conduta não poderia, por si só, ter causado o abalroamento. Josué estava
cumprindo as normas de navegação e, embora fosse o Imediato no momento do incidente,
havia fatores além do seu controle que contribuíram para o ocorrido.
A defesa enfatizou que a atribuição de responsabilidade baseada apenas no depoimento do
acusado não é suficiente para responsabilizá-lo.
A Defesa argumentou que o laudo informou que o local de fundeio do veleiro era irregular,
listando que:
a) O local de fundeio não consta na Carta Náutica nº 320/DHN;
b) O local não consta no parecer nº 8/2022, emitido por esta Capitania;
c) O veleiro estava próximo de local que se destina a manobras de atracações e desatracações
de embarcações.
Outrossim, corroborando com a conclusão da Laudo Pericial, o próprio representado afirma
que o local de fundeio utilizado pelo Veleiro “MATAJUSI” nunca foi próprio para esta
finalidade, haja vista que “jamais teve durante a atracação ou desatracação embarcações ali
fundeadas/ancoradas, até porque é uma área portuária”.
A defesa também entendeu que houve caso fortuito, pois não era possível prever que, no
exato momento da atracação três variantes contribuíram para alteração do rumo do F/B:
a) Correnteza Vazante;
b) Ventos fortes e com surgimento abrupto;
c) Fundeio Irregular Veleiro “MATAJUSI”
Por fim, a defesa citou e acostou acórdãos paradigmas.
Citado pessoalmente MARCELINO CARVALHO DOS SANTOS, que também não possui
antecedentes, foi defendido pelo mesmo escritório de advocacia que apresentou argumentos
semelhantes aos do 1° Representado.
Citado SÍLVIO DOS PASSOS RAMOS também foi defendido por I. Advogado constituído.
A Defesa relatou que o terceiro representado é fundador do evento anual "Brazilian Rally –
Brally". Em 2021, ele participou da expedição Amazônia e estava ancorado no local do
incidente para apoiar duas embarcações estrangeiras.
Destacou o apoio da Marina Direct Marine e da Capitania dos Portos da Amazônia Oriental.
No dia 23 de janeiro de 2022, o veleiro do representado, MATAJUSI, foi abalroado duas vezes
pelo F/B PANTOJA I. O representado gravou um vídeo logo após o incidente, evidenciando que
o F/B não parou para prestar socorro e estava com o motor de boreste acionado.
A Marinha foi acionada pelo representado, e uma inspeção identificou várias avarias no veleiro
MATAJUSI, com custos de reparo acima de R$200.000,00. A seguradora só autorizou uma
indenização de R$95.000,00.
Segundo a Defesa, a representação alegou imprudência ao fundear a embarcação em local não
autorizado. No entanto, as provas são imprecisas e insuficientes para comprovar a
imprudência: O croqui do abalroamento, uma montagem sobre a Carta Náutica 320/DHN e o
Parecer nº 8/2022 emitido pela Capitania dos Portos da Amazônia Oriental.
No entanto, a defesa destacou que não foi apresentada cópia do parecer nº 8/2022, nem a
data de emissão dele, sendo que o acidente ocorreu em 23/01/2022.
Alega-se na representação que a posição estimada do veleiro no momento do incidente estava
fora do limite permitido, conforme a planta de localização da Marina Direct Marine, mas essa
planta não foi juntada aos autos.
Prossegue a Defesa argumentando que a posição do veleiro não interferiu na manobra do F/B
PANTOJA I
Como visto acima, a PEM tentou imputar ao Representado suposta ação imprudente por ter
fundeado seu veleiro MATAJUSI em local não autorizado.
Para tal, apresenta como provas a posição ESTIMADA (grifo da defesa) do veleiro e dois (02)
pontos que deveriam representar o limite extremo de atracação da Marina Direct Marine,
segundo o parecer nº 8/2022, emitido pela própria Capitania dos Portos da Amazônia Oriental.
Destacou que o veleiro estava fundeado no ponto ESTIMADO há alguns dias, após retornar do
evento “Brazilian Rally – Brally”, juntamente com outros 10 veleiros e tudo autorizado e
apoiado pela Capitania dos Portos da Amazônia Oriental.
Sobre o erro de manobra do F/B a defesa apresentou uma sequência de fotos e o croqui do
Laudo Complementar.
Com base nessas fotos e croqui destacou que neste ponto o rio Guamá tem mais de 1.700
metros de distância entre margens e que apesar de toda distância e de estar subindo o rio, o
F/B decidiu navegar cruzando o rio, ao invés de manter o meio ou margem direita do rio.
Neste sentido, o que se podia esperar da balsa era guinar a BB logo após passar pelo porto
Pantoja, visto que a própria correnteza do rio Guamá, iria auxiliar sua atracação.
Entretanto, como resta comprovado nos autos e apontado pelos i. Peritos e Encarregado da
Capitania, os tripulantes da balsa se aproximaram do Porto com ângulo diferente do esperado
e, para o espanto de todos, colocaram motores em neutro, deixando que a maré deslocasse a
mesma à deriva, até abalroar o veleiro MATAJUSI.
A Defesa ressaltou que o veleiro ancorado “segurou” a trajetória errada da balsa, que sem
sombra de dúvida, teria batido no píer da marina.
A Defesa também alegou erro nas coordenadas de limite da área de fundeio. Segundo a
Capitania, conforme o parecer nº 8/2022, havia um limite extremo permitido para atracação
na Marina Direct Marine, embora a cópia do parecer e a data de emissão não tenham sido
apresentados nos autos.
Os Peritos informaram que o limite extremo permitido estava entre os pontos F3
(01º28’42.20”S; 048º28’56.44”O) e F4 (01º28’42.43”S; 048º28’52.12”O). Foi plotada uma
imagem mostrando os pontos limite em verde e o ponto estimado de fundeio do veleiro
MATAJUSI em vermelho.
Vê-se, portanto, que, ainda que o veleiro estivesse dentro do suposto limite extremo
permitido, ele poderia estar fundeado fora do limite da marina, estando, inclusive, no local de
atração do F/B, como mostra o ponto F4.
A Defesa suscitou, ainda, falso testemunho dos tripulantes do F/B e falta de vigilância.
Aberta a Instrução, nenhuma outra prova foi produzida.
A Defesa do Representado informou o link de um vídeo: https://www.youtube.com/watch?
v=bmkjo-Ewmy0
Em Razões Finais, manifestaram-se as partes.
É o Relatório.
Decide-se:
Relatados os fatos e analisadas as provas carreadas aos Autos, e analisando atentamente a
imagem satélite do local e a carta náutica é forçoso admitir que havia espaço suficiente para
manobra do F/B.
O Rio possui mais de 1000 m de largura naquele local e o F/B poderia identificar o veleiro e
proceder de várias formas para atracação, inclusive passando mais afastado do V/E e guinando
após o deixar por seu través de bombordo.
Também entendo que a combinação do vento e a corrente do Rio não seria o suficiente para
interferir com a manobra realizada antes do acidente.
Devem ser acatados alguns argumentos da defesa do terceiro representado. A posição de
fundeio estimada do V/E é fora da reta entre os pontos F3 e F4. Note-se que o ponto F4 é
muito próximo do Porto Pantoja. Porém, a posição estimada de fundeio do V/E é longe do
Porto Pantoja.
Releva mencionar que a falta do parecer nº 8/2022 impede uma análise mais acurada da área
de fundeio e detalhes sobre a instalação da Marina
Ainda, deve ser levado em consideração que a posição do V/E informada no Laudo Pericial era
estimada. Destaco que não é possível perceber se essa posição é equivalente com aquela
apresentada no link informado pela defesa.
Deixo também de tecer maiores comentários sobre a forma de atracação do F/B no cais
(bombordo, boreste ou proa), pois isso não foi aventado nos Autos
A Capitania deve verificar os limites dessa área autorizada da Marina Direct, se o projeto
contempla a instalação de poitas ou permissão para fundeio nas suas proximidades e se a
área é sobreposta ao projeto do porto Pantoja, o que denotaria interferência na segurança do
tráfego aquaviário. Se for o caso, providenciar junto ao CHM a inserção da área de fundeio
permitida na Carta Náutica 320 ou rever o processo de regularização da Marina e do porto.
Dos Autos também temos que a PEM acusou o 1º e o 2º representados de serem os
responsáveis pelo abalroamento.
Segundo a PEM, o condutor do F/B “PANTOJA I” foi imprudente e imperito, cometendo erro de
manobra, eis que ao reduzir a velocidade da embarcação, colocando os dois manetes de
bombordo e boreste a meio/neutro, deixou a embarcação em uma situação de deriva, o que
aliada as condições ambientais esperadas para a área, contribuiu para que o F/B se mudasse
seu rumo, jogando-o, pela popa, em direção ao Veleiro “MATAJUSI” que se encontrava
fundeado, culminando com o abalroamento.
Já o PLF MARCELINO CARVALHO DOS SANTOS, Comandante do F/B “PANTOJA I”, de acordo
com o órgão, agiu com imprudência e negligência, pois estava no passadiço no momento do
acidente, orientando o CMF JOSUÉ quanto a manobra de atracação, conforme afirmado pelo
próprio condutor da embarcação em seu depoimento, instruindo o condutor a colocar os
manetes a meio, deixando a embarcação só com o seu seguimento, por cerca de 3 minutos,
fazendo com que se aproximasse do veleiro fundeado, não conseguindo evitar o
abalroamento. Além disto, descumpriu o previsto no item 0401, “6” da NORMAM-13/DPC que
estabelece que “cabe ao Comandante assumir pessoalmente a direção da embarcação sempre
que necessário por ocasião de manobra de atracação e desatracação”.
A Defesa desses representados argumentou, em síntese, que não houve erro de manobra e
havia fatores além de seu controle, pois o veleiro estava próximo à local destinado a manobras
de atracações e desatracações de embarcações. Além disso a correnteza era de vazante e os
ventos eram fortes e súbitos
Cotejando esses argumentos, entendo que assiste razão parcial à PEM. Não é proibido colocar
os manetes a meio em determinadas situações de atracação. Porém, a aproximação, as
guinadas e a alteração do regime de máquinas para efetuar uma uma atracação segura,
evitando-se perigos à navegação e outras embarcações, depende da perícia de quem está na
manobra, que também deve conhecer previamente os efeitos que a corrente e os ventos
podem produzir sobre sua embarcação. Caso contrário, configura-se o erro de manobra.
Entendo que o Comandante estava no passadiço e poderia tomar a manobra para si, ou
orientar uma melhor aproximação do F/B ao cais.
Assim, conclui-se que a natureza e extensão do acidente da navegação sob análise, deve ser
tipificado no art.14, alínea “a”, da LOTM, e ficou caracterizado como abalroamento entre o F/B
“PANTOJA I” e o Veleiro "MATAJUSI” provando arranhões no costado do V/E (conforme consta
no Laudo Pericial)
A causa determinante do acidente foi o erro de manobra do 1º Representado CMF JOSUÉ
MENDES MASCARENHAS que estava sendo acompanhado na manobra pelo 2º Representado
PLF MARCELINO CARVALHO DOS SANTOS, Comandante do F/B.
Diante do exposto, devem ser julgados parcialmente procedentes os fundamentos da
representação da Douta Procuradoria, responsabilizando os 1º e 2º Representados,
respectivamente, condutor e comandante do F/B, pelo acidente da navegação, capitulado no
art. 14, alínea “a”, da Lei nº2.180/54, pois agiram com imperícia. Exculpar o 3º Representado,
por insuficiência de provas .
Na aplicação da pena deve ser considerado que os 1º e 2º Representados não apresentam
antecedentes neste Tribunal e colaboraram em todas as fases do processo para averiguação
dos fatos.
ACORDAM os Juízes do Tribunal Marítimo, por unanimidade:
a) quanto à natureza e extensão do acidente da navegação: abalroamento entre o F/B
“PANTOJA I” e o Veleiro "MATAJUSI” provando arranhões no costado do V/E (conforme consta
no Laudo Pericial);
b) quanto à causa determinante: erro de manobra do 1º Representado CMF JOSUÉ MENDES
MASCARENHAS que estava sendo acompanhado na manobra pelo 2º Representado PLF
MARCELINO CARVALHO DOS SANTOS, Comandante do F/B;
c) decisão: julgar o acidente da navegação capitulado no art. 14, alínea “a”, da Lei nº 2.180/54,
como decorrente de imperícia do 1º Representado CMF JOSUÉ MENDES MASCARENHAS,
condutor, e do PLF MARCELINO CARVALHO DOS SANTOS, Comandante do F/B. O primeiro
cometeu erro de manobra e o segundo falhou na supervisão do 1º durante a atracação e,
considerando as circunstâncias, consequências e atenuantes relatadas, condená-los à pena de
repreensão, com fundamento no art. 121, inciso I, da LOTM. Exculpar o 3º Representado por
insuficiência de provas. Custas divididas.
d) medidas preventivas e de segurança: oficiar à CPAOR, Agente da Autoridade Marítima, para
verificar os limites dessa área autorizada da Marina Direct, se o projeto contempla a instalação
de poitas ou fundeio nas suas proximidades e se a área é sobreposta ao projeto do porto
Pantoja. Se for o caso, providenciar junto ao CHM a inserção da área de fundeio permitida na
Carta Náutica 320 ou rever o processo de regularização da Marina e do porto.
Publique-se. Comunique-se. Registre-se.
Data da Sessão: 17/06/2025
PROCESSO Nº 36.322/2022
L/M “SEXTOU” e “MARÍTIMA II”. Abalroamento com danos materiais. Proximidades do Pontal
de Marinha Farinha, Paulista-PE. Erro de manobra. Repreensão do 1º Representado.
Decide-se:
Relatados os fatos e analisadas as provas carreadas aos Autos, verifica-se que o croqui
apresentado pelos Peritos não foi plotado em Carta Náutica.
Observo que o acidente foi nas proximidades da Ponta de Marinha Farinha, onde existes
larguras de canal variando ente 200 a 300 metros, sem informações de profundidade.
De toda forma, entendo que existia espaço suficiente para manobras.
Dos Autos temos que a PEM acusou o 1º Representado Rovésio, pois descumpriu as Regras 5
(vigilância); 6 (Velocidade de segurança); 8 (a) (Manobras para Evitar Abalroamento); 9 (Canais
Estreitos); 13 (Ultrapassagem); e 16 (Ação da Embarcação Obrigada a Manobrar), todas do
RIPEAM-72.
A sua defesa tardia apenas mencionou que o abalroamento decorreu unicamente da parada
repentina da embarcação "SEXTOU" na única rota existente naquele momento, visto que a
maré se encontrava muito baixa.
Entendo que assiste razão parcial à Procuradoria no que se refere à falta de vigilância e ação
da embarcação que é obrigada a manobrar na situação descrita, pois a L/M MARÍTIMA II
alcançava a L/M SEXTOU, independentemente da maré se encontrar na vazante.
Note-se que a L/M "SEXTOU" não estava fundeada, mas, aparentemente, apenas reduziu ou
parou máquinas, não se configurando plenamente a situação descrita na Regra 9(g)[1].
Assim, o 2º Representado deve ser exculpado e a causa determinante do abalroamento deve-
se ao erro de manobra do 1º Representado.
Na aplicação da pena deve ser considerado os bons antecedentes do 1º Representado e a
confirmação de indenização dos danos causados a outra L/M.
Assim,
ACORDAM os Juízes do Tribunal Marítimo, por unanimidade:
a) quanto à natureza e extensão do acidente da navegação: abalroamento entre as L/M
“SEXTOU” e “MARÍTIMA II”, ocorrido a aproximadamente 100 metros do Pontal de Marinha
Farinha, Paulista-PE , com danos materiais em ambas as embarcações.
b) quanto à causa determinante: erro de manobra; e
c) decisão: julgar o acidente da navegação capitulado no art. 14, alínea “a”, da Lei nº 2.180/54,
como decorrente de imprudência do 1º Representado e, considerando as circunstâncias,
consequências e atenuantes relatadas, condená-lo à pena de repreensão, com fundamento no
art. 58, art. 121, inciso I, da LOTM. Exculpar o 2º Representado. Sem custas.
Publique-se. Comunique-se. Registre-se.
Data da Sessão: 17/06/2025
[1] Toda embarcação deverá, se as circunstâncias o permitirem, evitar fundear em um canal
estreito.
PROCESSO Nº 36.712/2023
Decide-se:
Relatados os fatos e analisadas as provas carreadas aos Autos, verifica-se que a atividade de
pesca foi realizada numa embarcação não inscrita e conduzida também por um Pescador
artesanal que não possui certificação da Autoridade Marítima.
No dia do acidente, as condições meteorológicas eram favoráveis, o representado decidiu
pescar por mais tempo e acabou dormindo.
Ao acordar, tentou voltar à terra firme, mas se confundiu na direção e fez uma manobra que
resultou na quebra do mastro e no emborcamento da embarcação.
Dos Autos também temos que, segundo a PEM, o representado agiu de maneira imprudente,
negligente e imperita ao decidir pescar sem habilitação de pescador profissional, durante a
noite, com uma embarcação sem luzes de navegação e sem equipamento de comunicação
para pedir socorro. Essa atitude colocou sua vida em risco e resultou no emborcamento e
deriva da embarcação. Ainda, segundo a PEM o acidente ocorreu devido a uma manobra
arriscada de mudança de rumo.
O Representado não apresentou defesa técnica tornando incontroversos os fatos narrados
pela PEM.
Assim, a causa determinante do emborcamento que causou avarias no mastro da embarcação
deve-se ao erro de manobra durante a guinada efetuada pelo representado quando estava
com a vela içada.
A exposição a risco deve-se ao descumprimento das normas de segurança, pois o condutor
não era habilitado para conduzir embarcações motorizadas, a embarcação não possuía
inscrição simplificada, equipamentos de comunicação ou luzes de navegação.
Na aplicação da pena deve ser considerado que o Representado não apresenta antecedentes
neste Tribunal, colaborou com as investigações e, afirmou que realiza atividade de pesca para
subsistência.
Assim,
ACORDAM os Juízes do Tribunal Marítimo, por unanimidade:
a) quanto à natureza e extensão do acidente e fato da navegação: emborcamento que causou
avarias no mastro da embarcação SEM NOME/NÃO INSCRITA e exposição a risco, fatos
ocorridos nas proximidades do Terminal salineiro (TERMISA), Areia Branca-RN, sem registro de
danos pessoais e nem ambientais;
b) quanto às causas determinantes: erro de manobra durante a guinada efetuada pelo
representado, quando estava com a vela içada e descumprimento das normas de segurança da
navegação, pois o condutor não era habilitado para conduzir embarcações motorizadas, a
embarcação não possuía inscrição simplificada, equipamentos de comunicação ou luzes de
navegação;
c) decisão: julgar o acidente e fato da navegação capitulados no art. 14, alínea “a”, e art. 15,
alínea “e”, da Lei nº 2.180/54, como decorrente de imprudência, imperícia e negligência do
Representado e, considerando as circunstâncias, consequências e atenuantes relatadas,
condená-lo à pena de repreensão, com fundamento no art. 58 e art. 121, inciso I, da LOTM.
Sem custas em razão da hipossuficiência econômica do Representado; e
d) medidas preventivas e de segurança: oficiar à Agência de Areia Branca para notificar o
representado para regularizar a inscrição da embarcação.
Publique-se. Comunique-se. Registre-se.
Data da Sessão: 17/06/2025
PROCESSO Nº 37.693/2024
L/M “ANASTACIA TOUR" e "MARIA EDUARDA II". Abalroamento com danos mínimos à primeira
embarcação. Praia de Jurubaíba, Ilha da Gipóia, Angra dos Reis - RJ. Erro durante a manobra de
fundeio. Repreensão.
Decide-se:
Relatados os fatos e analisadas as provas carreadas aos Autos, verifica-se que a causa
determinante do acidente foi o erro cometido pelo condutor da L/M MARIA EDUARDA II no
fundeio malsucedido da embarcação. A embarcação ficou mal posicionada ou garrou de sua
posição, o que motivou, inclusive, que o ARA ACIR GOMES tentasse reposicionar o ferro,
porém, sem lograr sucesso.
O acidente provocou apenas um arranhão na pintura da L/M ANASTÁCIA TOUR.
A PEM acusou o representado pela falta de vigilância e a displicência na condução do Sr. ALCIR
GOMES, eis que mesmo sendo habilitado foi imprudente durante a manobra, incorrendo em
erro que produziu o resultado danoso.
Por outro giro, a DPU conclui que o Sr. Alcir Gomes tomou todas as medidas necessárias para
evitar a colisão, embora sem sucesso. Não houve culpa por parte do representado e o acidente
não resultou em feridos, causando apenas danos leves que foram reparados, conforme recibo
descrito no corpo da petição.
Cotejando esses argumentos devem ser julgados procedentes os fundamentos da
representação da Douta Procuradoria e as alegações da DPU servem para atenuar a pena do
representado. Ademais, os danos na L/M atingida foram mínimos e o representado possui
bons antecedentes.
Assim,
ACORDAM os Juízes do Tribunal Marítimo, por unanimidade:
a) quanto à natureza e extensão do acidente da navegação: abalroamento entre as L/M
“ANASTACIA TOUR" e "MARIA EDUARDA II", ocorrido na Praia de Jurubaiba, Ilha da Gipóia,
Angra dos Reis - RJ, com danos materiais mínimos na L/M “ANASTACIA TOUR".
b) quanto à causa determinante: erro de manobra durante a faina de fundeio da L/M "MARIA
EDUARDA II"; e
c) decisão: julgar o acidente da navegação capitulado no art. 14, alínea “a”, da Lei nº 2.180/54,
como decorrente de imperícia do Representado e, considerando as circunstâncias,
consequências e atenuantes relatadas, repreendê-lo, com fundamento no art. 121, inciso I.
Sem custas.
Publique-se. Comunique-se. Registre-se.
Data da Sessão: 17/06/2025