Ações Afirmativas: Cotas Sociais como Instrumento de Justiça
Educacional ou Assistencialismo?
Por Lara Brainer
A discriminação positiva, também conhecida como ações afirmativas, refere-se
a políticas públicas ou programas privados que têm como objetivo reduzir as
desigualdades sociais. Essas políticas são implementadas para compensar
desvantagens históricas enfrentadas por certos grupos sociais, oferecendo-lhes
vantagens compensatórias.
Essas ações podem incluir o sistema de cotas em universidades e empregos
para grupos negligenciados, como pessoas com deficiência, mulheres, negros,
e alunos de escolas públicas. O princípio por trás dessas medidas é promover
uma igualdade material, indo além da igualdade formal prevista em lei, e
proporcionar um tratamento justo e equitativo que considere as desigualdades
existentes na sociedade.
Nessa esteira, as cotas sociais foram criadas. Visando facilitar o acesso à
educação para pessoas pertencentes a grupos em desvantagem social, como
pessoas com deficiência, indígenas, mulheres e negros. O objetivo era tornar
os processos seletivos como concursos públicos e vestibulares para
universidades, mais justos, oferecendo oportunidades a grupos que geralmente
não possuem condições favoráveis para investir em uma educação de
qualidade. Muitos desses estudantes também se encontram em regiões
periféricas.
A legislação atual estabelece que 50% das vagas em instituições públicas devem
ser reservadas para cidadãos abrangidos pela lei de cotas, enquanto os outros
50% são destinados à ampla concorrência, ou seja, pessoas sem direito às
cotas. Além disso, pessoas com deficiência (PcD) e estudantes de baixa renda
familiar que cursaram o ensino médio em instituições públicas também tem
direito ao benefício para acesso às universidades.
Mas a criação e manutenção da política de cotas está longe de ser consenso.
Há muita divergência com posicionamentos favoráveis e contrários à política
instituída.
Os argumentos a favor das cotas sociais são variados e refletem diferentes
perspectivas. Podemos citar como principais argumentos:
1. Compensação histórica e social: As cotas buscam corrigir
desigualdades construídas histórica e socialmente. Durante séculos, grupos
marginalizados, como negros e indígenas, sofreram discriminação e exclusão, o
que afetou seu acesso à educação e oportunidades. As cotas representam uma
forma de compensar essas desvantagens.
2. Diversidade e inclusão: A presença de estudantes de diferentes origens
étnicas, culturais e socioeconômicas enriquece o ambiente acadêmico. A
diversidade promove a troca de ideias, a compreensão mútua e a formação de
cidadãos mais tolerantes e conscientes.
3. Melhoria da qualidade da educação: A inclusão de estudantes de
diferentes contextos sociais contribui para uma educação mais abrangente,
diversa e relevante. Isso pode contribuir com uma formação mais completa, e
preparando os educandos para o enfrentamento dos desafios do mundo real.
4. Estímulo à mobilidade social: As cotas permitem que jovens de famílias
de baixa renda tenham acesso a instituições de ensino superior. Isso pode ser
um elemento catalizador para a mobilidade social vertical, permitindo que eles
alcancem posições melhores na sociedade.
5. Combate ao racismo estrutural: As cotas são uma forma de combater
o racismo estrutural, que ainda persiste em nossa sociedade. Elas incentivam a
igualdade de oportunidades e a valorização da diversidade.
Mas nem todos concordam com essa realidade. Havendo, assim, argumentos
contrários às cotas, como a ideia de que elas podem criar segregação ou que a
meritocracia deve ser a única base para a seleção de candidatos. O debate sobre
esse tema é complexo e envolve considerações éticas, sociais e políticas.
Podemos citar como principais argumentos contra as cotas sociais:
1. Meritocracia: Muitos críticos argumentam que a seleção com base em
mérito é mais justa e eficiente. Eles acreditam que as cotas prejudicam
candidatos qualificados que não pertencem a grupos beneficiados.
2. Segregação: Outros enfatizam que as cotas podem criar segregação,
dividindo os estudantes em grupos com base em raça ou origem social. Isso
poderia prejudicar a coesão social e a integração. Como pode ser verificado em
algumas universidades no início da implementação da política de cotas.
3. Estigma: Alguns estudantes cotistas enfrentam estigma e preconceito,
sendo vistos por algumas pessoas como sendo menos capazes ou beneficiados
injustamente. Isso pode afetar negativamente sua autoestima e prejudicar seu
desempenho acadêmico.
4. Redução da qualidade educacional: Há ainda críticos que argumentam
que a entrada de estudantes menos preparados pode diminuir a qualidade do
ensino superior, com o olhar de que seria necessário baixar a qualidade do
ensino para permitir que os cotistas acompanhassem as aulas. Isso poderia
impactar a formação acadêmica dos alunos bem como a excelência e a
reputação das instituições.
5. Foco na origem, não no potencial: As cotas se concentram na origem
social dos candidatos, não em seu potencial individual. Alguns acreditam que
isso é injusto, que todos deveriam competir em igualdade de condições e que tal
política coloca em xeque a própria igualdade prevista no texto constitucional.
O debate sobre cotas é complexo, envolve considerações éticas, sociais e
políticas. Dificilmente uma pessoa criada na periferia, de qualquer estado de
nossa federação, teria condições de mudar sua condição social sem que
houvesse investimento do Estado em políticas afirmativas que assegurem não
apenas a igualdade material, mas a equidade no acesso à educação, em
especial, à de nível superior.
Vamos analisar alguns pontos que nos levam à crença de que essa política
contribui para assegurar mobilidade social.
1. Acesso à Educação Superior: As cotas permitem que estudantes de
baixa renda e grupos étnico-raciais negligenciados tenham acesso a
universidades e faculdades. Isso amplia suas oportunidades educacionais e,
consequentemente, suas perspectivas de emprego e renda.
2. Mobilidade Econômica: Ao ingressar na educação superior, os
estudantes cotistas tem a chance de obter diplomas e qualificações que podem
melhorar sua posição socioeconômica. Isso pode levar a empregos melhores e
maior estabilidade financeira.
3. Quebra de Ciclos de Pobreza: As políticas afirmativas ajudam os
indivíduos a superarem as circunstâncias socioeconômicas de suas famílias de
origem, quebrando os ciclos de pobreza, e criando condições de que alcancem
níveis educacionais mais altos.
4. Representatividade e Empoderamento: Ver pessoas semelhantes em
posições de destaque (como profissionais, líderes e acadêmicos) inspira outros
a seguir o mesmo caminho. A representatividade é fundamental para a
mobilidade social.
5. Desafios e Críticas: As políticas afirmativas podem não ser suficientes
para garantir uma verdadeira mobilidade social, pois outros fatores, como
qualidade da educação básica e oportunidades de emprego, também são
cruciais. Além disso, o estigma associado às cotas pode afetar a autoestima dos
estudantes cotistas.
Não há como negar que as cotas sociais, como exemplo de política afirmativa,
são uma ferramenta importante para promover a mobilidade social, mas devem
ser acompanhadas por outras políticas e investimentos em educação e
igualdade de oportunidades.
Poderíamos nos perguntar então, porque defender as cotas e não o investimento
na educação de qualidade. Ambas as abordagens têm méritos, no entanto,
devem ser implementadas de forma complementar. Nenhuma das duas ações
resolvem, isoladamente, a situação social que enfrentamos de forma eficiente.
Vamos analisar vantagens e desvantagens de cada uma:
1. Cotas Sociais:
o Vantagens:
Corrige desigualdades históricas e sociais, oferecendo
oportunidades a grupos marginalizados.
Estimula a diversidade e a inclusão nas instituições de ensino.
Pode ser um trampolim para a mobilidade social.
o Desvantagens:
Pode gerar estigma e preconceito para os estudantes cotistas.
Alguns argumentam que a seleção deveria ser baseada apenas no
mérito.
Possível redução da qualidade educacional.
2. Investir na Educação:
o Vantagens:
Melhora a qualidade geral do sistema educacional.
Prepara todos os educandos para enfrentar os desafios do mundo
real.
Foca no desenvolvimento individual e social do educando, bem
como no seu potencial.
o Desvantagens:
Requer investimentos significativos em infraestrutura, pessoal e
recursos pedagógicos.
Os resultados podem levar tempo para serem notados.
Não aborda diretamente as desigualdades históricas.
Como sempre defendo, nem tanto para um lado e nem tanto para outro, o
equilíbrio é sempre o melhor caminho. Investir na educação com certeza é uma
obrigação do Estado e é fundamental para melhorar a sociedade como um todo.
Ao mesmo tempo, as cotas sociais representam medida temporária para corrigir
desigualdades enquanto trabalhamos para aprimorar a educação e para criar
melhores oportunidades para os grupos sociais negligenciados.