Rolihlahla Mandela: a voz da resistência que não foi
silenciada
O líder político que dedicou sua vida à luta por direitos humanos, se
tornando inspiração e figura emblemática para movimentos sociais diversos.
“Lutei contra a dominação branca e contra a dominação Negra, e idealizei uma
sociedade democrática e livre em que todas as pessoas possam viver juntas em
harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal pelo qual vivo, mas se for
preciso estou preparado para morrer por ele.”, esse foi seu último discurso
público por quase 30 anos feito por Nelson Mandela.
Com determinação e paciência, Mandela mostrou que mesmo uma prisão
perpétua – e todo o racismo e negligência com as pessoas privadas de liberdade,
que se intensificava de acordo com a cor de pele – era possível manter seu espírito
diante de toda repressão que tentava retirar a sua força de luta.
Todas essas e outras ações violentas do governo visavam destruir o ânimo de luta.
E o governo colonizador acreditava que em cinco anos todos os líderes do
movimento presos seriam esquecidos. Contudo, a luta continuou, e em 1985 o
governo tomou uma decisão dramática, oferecendo liberdade para que Mandela
renunciasse à causa que estava para levar o país a uma guerra civil e se afastasse
do movimento. Entretanto, Mandela recusou a oferta dizendo: “Não posso aceitar
e não irei aceitar nenhuma oferta até que eu e vocês, o povo, sejamos livres”.
Diante de tamanho espírito e admiração pela resistência, Nelson Mandela,
nascido em 18 de julho de 1918, ganhou uma homenagem anual no Dia
Internacional Nelson Mandela. Instituída em 2009 pela Organização das Nações
Unidas (ONU), essa data não apenas celebra o legado de Mandela, mas também
encoraja as pessoas a dedicarem 67 minutos do seu tempo a atividades que
beneficiem suas comunidades, simbolizando os 67 anos de serviço público de
Mandela.
Em celebração à data, este artigo aborda sua jornada e os impactos de Nelson
Mandela na sociedade local da África do Sul e nos movimentos de resistência pelo
mundo. A luta pela desigualdade social ganha outros aspectos.
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Vida e Formação
Rolihlahla Mandela, mais tarde conhecido como Nelson, nasceu na aldeia de
Mvezo, na região de Transkei, África do Sul. Filho de um chefe tribal, sua infância
foi marcada pela vida simples e tradições africanas. Crescendo em uma sociedade
totalmente negra, Mandela só teve contato com o mundo branco aos sete anos,
quando seu professor renomeou-o como "Nelson" em seu primeiro dia de aula.
Esta prática era comum na época, uma tentativa de tornar os nomes africanos
mais aceitáveis para a sociedade branca colonizadora.
Mandela foi educado em uma escola metodista e depois na Universidade de Fort
Hare, a primeira instituição de ensino superior a aceitar estudantes negros na
África do Sul. Lá, ele começou a se envolver em atividades políticas e a
desenvolver seu senso de justiça social. Seu envolvimento em greves estudantis o
levou a ser expulso, mas ele continuou seus estudos de Direito por
correspondência na Universidade da África do Sul (UNISA).
A Colonização Branca e Suas Consequências
A colonização branca na África do Sul trouxe consigo um sistema de segregação
racial severo e institucionalizado, conhecido como apartheid, que subjugava a
população negra e negava-lhes direitos básicos. Os negros eram forçados a viver
em áreas separadas, com acesso limitado a educação, saúde e oportunidades de
emprego. A discriminação era legalmente sancionada e permeava todos os
aspectos da vida.
Os movimentos negros, como o Congresso Nacional Africano (CNA), surgiram em
resposta a essa opressão. Fundado em 1912, o CNA foi uma das principais
organizações a liderar a resistência contra o apartheid, utilizando inicialmente
métodos não violentos como boicotes, greves e protestos pacíficos. Um evento
significativo foi o massacre de Sharpeville em 1960, onde a polícia sul-africana
disparou mais de 700 vezes contra manifestantes, matando 69 pessoas e ferindo
outras centenas. Este evento marcou um ponto de virada na luta contra o
apartheid, levando o CNA a adotar uma abordagem mais militante.
Luta Contra a Colonização e o Apartheid
Mandela se juntou ao CNA em 1943, dedicando-se à luta contra o apartheid. Em
1944, co-fundou a Liga Jovem do CNA, que pressionava por ações mais radicais
contra o regime. Em 1961, após a repressão violenta do governo, Mandela
co-fundou o uMkhonto we Sizwe (A Lança da Nação), a ala militar do CNA, que
conduziu sabotagens estratégicas contra alvos governamentais.
Em 1962, Mandela foi preso e, durante o julgamento de Rivonia em 1964, foi
condenado à prisão perpétua. Passou 27 anos encarcerado, principalmente na
Ilha Robben, onde se tornou um símbolo global da resistência contra a opressão
racial.
Banimento e Perseguição
Antes de sua prisão, Mandela enfrentou severas restrições impostas pelo governo.
Ele foi banido, o que significava que não podia participar de reuniões públicas,
falar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo ou até mesmo participar da
festa de aniversário de seus filhos. Essa restrição visava silenciá-lo, mas Mandela
continuou a lutar clandestinamente, organizando e inspirando resistência. Com o
CNA banido, Mandela passou a agir clandestinamente, criando uma imagem
romântica e heróica, especialmente entre os jovens negros sul-africanos.
Ação Não Violenta e Desobediência Civil
Mandela e seus companheiros do CNA conduziram campanhas e movimentos
civis, como a Campanha de Desobediência Civil de 1952, onde milhares de
sul-africanos negros desobedeceram leis raciais injustas, arriscando suas vidas e
liberdade para protestar contra o apartheid. Esses atos de resistência não violenta
mostraram ao mundo a brutalidade do regime sul-africano e galvanizaram apoio
internacional para a causa.
Ascensão Profissional e Redes de Contato
Profissionalmente, com seu amigo Oliver Tambo, Mandela abriu o primeiro
escritório de advocacia negro na África do Sul. Este escritório se tornou um ponto
de referência para todos os negros que enfrentavam problemas legais. Mandela
se destacou como um advogado brilhante, interpelando testemunhas e
desafiando juízes brancos com sua inteligência e determinação, o que
frequentemente irritava o sistema judicial racista.
Contribuições como Presidente
Como presidente, Mandela trouxe inúmeros benefícios para a população
sul-africana. Ele promoveu políticas de inclusão social e justiça, expandindo o
acesso à educação, saúde, água e eletricidade para comunidades anteriormente
negligenciadas. Seu governo também focou na construção de uma nação
unificada, implementando a Comissão de Verdade e Reconciliação para lidar com
os crimes do apartheid e promover a cura nacional.
Liderança e Transformação
Mandela defendia que paixão gera perseverança. Sua firme convicção em sua
causa alimentou sua determinação em lutar contra o apartheid, mesmo após
décadas de prisão. Ele abraçou a mudança, reconhecendo que a transformação
traz desafios, mas enfatizou a importância de manter o foco na visão e enfrentar
os obstáculos com coragem. Mandela acreditava que a liderança pelo exemplo
era fundamental, exemplificando os valores que defendia, como tolerância,
inclusão e esperança.
Reconciliação e Perdão
Mandela enfatizou a importância do perdão para a cura e reconciliação. Ele
transcendeu a raiva e o ressentimento, demonstrando a libertação que o perdão
pode trazer. Prioritizava o diálogo respeitoso e a cooperação para resolver conflitos
de forma duradoura, em vez de buscar a vitória a qualquer custo.
Direitos Humanos e Dignidade
Mandela acreditava firmemente que todos os seres humanos merecem ser
tratados com respeito e dignidade, independentemente de suas circunstâncias.
Ele defendeu o acesso à educação como uma ferramenta poderosa para
transformar o mundo e melhorar as oportunidades para os jovens. Mandela
enfatizou que devemos julgar as pessoas não por seus sucessos, mas por quantas
vezes elas se levantaram depois de cair.
Contribuições e Atividades Pós-Presidência
Mesmo após deixar a presidência em 1999, Mandela continuou a ser uma voz ativa
na luta contra a AIDS e em iniciativas educacionais. Fundou a Nelson Mandela
Foundation, que promove o diálogo e a justiça social, e o Nelson Mandela
Children’s Fund, focado no bem-estar infantil.
Em 2015, a ONU adotou as Regras de Nelson Mandela para o tratamento de
prisioneiros, refletindo seu compromisso com a dignidade humana. Essas regras
estabelecem padrões mínimos para o tratamento de detentos, assegurando que
sejam tratados com respeito e que seus direitos sejam protegidos.
Legado Duradouro
Nelson Mandela faleceu em 5 de dezembro de 2013, mas seu legado persiste
como um símbolo de resistência, paz e reconciliação. Ele demonstrou que a luta
pela justiça pode ser travada com dignidade e que o perdão e a reconciliação são
essenciais para a construção de um futuro melhor. Suas contribuições para a
política, os direitos humanos e a justiça social continuam a inspirar e guiar
movimentos por um mundo mais justo e igualitário.
Mandela nos deixou um poderoso legado de coragem, determinação e
compaixão. Ele mostrou que, mesmo nas circunstâncias mais adversas, é possível
manter a esperança e trabalhar para um mundo onde todas as pessoas sejam
tratadas com igualdade e respeito. Ele nunca desistiu da esperança, mesmo nos
momentos mais sombrios, e sempre manteve sua determinação de lutar pela
liberdade até o fim.
Acreditava que a violência não era a resposta, pois mudanças duradouras vêm
através de meios pacíficos e democráticos. Mandela inspirou as pessoas a
sonharem com uma África do Sul e um mundo mais justo, iguais e pacíficos.
O legado de Nelson Mandela continua a inspirar pessoas em todo o mundo a
lutar pela justiça, promover a reconciliação e trabalhar pela construção de uma
sociedade mais igualitária e compassiva. Seus ensinamentos sobre liderança,
dignidade humana e transformação pacífica permanecem relevantes e
impactantes até hoje.
Escrito por Daniel Silva, Bacharel em Comunicação
Social - Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa
(UFV), e mestre em Comunicação e Sociedade pelo
programa de pós-graduação em Comunicação da
Universidade Federal de Juiz de Fora.