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Artigo Blog IICT I

O artigo analisa a resistência da população Namarral, um subgrupo macua, ao colonialismo português entre 1895 e 1913. Através da formação de um 'novo Estado' sob a liderança de Mocuto, os Namarrais conseguiram estabelecer uma estrutura política e econômica que desafiou a administração colonial. A resistência foi marcada por alianças, conflitos e a integração de diversas etnias, refletindo uma complexa dinâmica social e política na região.

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Artigo Blog IICT I

O artigo analisa a resistência da população Namarral, um subgrupo macua, ao colonialismo português entre 1895 e 1913. Através da formação de um 'novo Estado' sob a liderança de Mocuto, os Namarrais conseguiram estabelecer uma estrutura política e econômica que desafiou a administração colonial. A resistência foi marcada por alianças, conflitos e a integração de diversas etnias, refletindo uma complexa dinâmica social e política na região.

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Os Namarrais e a reacção à instalação colonial (1895-1913)

Luísa Fernanda Guerreiro Martins1

Resumo: Neste artigo pretendo demonstrar como a população Namarral, conhecida


como um sub-grupo macua, desenvolveu a mais longa e persistente resistência ao
processo de instalação colonial no actual território moçambicano, decerto uma das
prolongadas resistências à instalação do sistema colonial português (Isaacman &
Vansina, 1990).

Palavras-chave: Namarral, resistência, identidade, novo Estado, escravos.

A origem dos Namarrais perde-se no rasto das referências documentais de


meados do século XIX mas é de crer que as suas origens estejam na sequência das
invasões nguni (ou Angunes) vindas do sul, mesmo antes da documentação oitocentista
ter começado a dar visibilidade a estas populações. Nancy Jane Hafkin sugeriu o ano de
1865 como a data de referência da formação da entidade Namarral, situando-os nas
terras vizinhas do Mossuril e Moginqual, em consequência da migração de pequenos
grupos nguni, ou por eles influenciados, decorrente do “mfecane in Zulu diaspora”
(Hafkin, 1973, p.365). É, no entanto, possível que a constituição desta nova sociedade
seja anterior a 1865, porquanto o processo da “mfecane” já se processava há mais
tempo, o que deixa em aberto a questão de saber se a sua formação se deve à diáspora
nguni ou a outras causas endógenas e exógenas, ou a ambos os factores.

Este pequeno e “novo Estado”2 namarral foi liderado por chefes cujo nome
dinástico era Mocuto. O Namarral constituiu-se como um «novo Estado» com

1
Doutorada em História. Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de
Évora.
2
Na expressão de Gerhard Liesegang, (“Prefácio” a Amida Maman, Subsídios para a História de Sena,
de Gerhard Liesegang, Maputo, Promédia, 2000, p.6) os novos Estados derivavam da conquista de terras
e de poder.

1
características próprias que o distinguem de uma chefatura tradicional 3, o que permitiu
que fosse classificado ora de “República”4 ora de “quilombo”.

(ENTRADA DE IMAGEM PDF)

O chefe administrava as terras, dispunha de um exército cujo número variava ao


sabor do sucesso das alianças com outros chefes, envolvia-se nos circuitos e mercados
de troca de produtos, nos quais os escravos constituíam a principal mercadoria.
Vejamos o que diz o comandante das Terras Firmes, no ano de 1877:

(…) hontem pelas nove horas da manhã fui visitado e cumprimentado pelo Regulo Mexula muno
o qual vive junto a Ituculo e é irmão do “Régulo avassalado” Mugudo muno que administra as
terras do Namarrallo. (…)5

Em 1881, as terras de Mocuto estavam bem identificadas, assim como a sua


estrutura política, militar e económica:

As terras do régulo Mecuto, denominadas “Namarralo”, ficam a oeste sueste de Mossuril, d’este
ponto à povoação d’onde fica o régulo devem ser pouco mais ou menos 50 kilómetros:
confrontão do sul com as terras do régulo Mucueche, do leste com as terras d’Ampapa, do norte
com as terras do Chocota e do oeste com as terras do régulo Márua. O régulo Mecuto pode
despor de 1000 homens, pouco mais ou menos, porém he de pouca confiança (…). A agricultura
consta de feijão, milho, arroz, amendoim, jugo, gergelim e mandioca. O comércio he de
borracha, gergelim, mandoim e outros géneros. Indústria, quiçápos, esteiras, alcofas e quitandas.
(…)6

A estrutura do poder apresenta uma forma idêntica à chefatura linhageira pelo


facto de Mocuto ter uma conselheira, a puiamuene7 Naguema, sua irmã ou sobrinha
uterina. O Estado namarral desenvolveu uma história mítica sobre a sua origem8, não só

3
Namarral foi também o topónimo da aldeia de Mocuto. Actualmente, uma aldeia denominada Namarral,
situa-se na Latitude (DMS): 14º48”18S; Longitude (DMS): 40º37”5E, a noroeste da aldeia de Naguema,
em direcção ao interior.
4
No sentido que José Capela deu à “República” da Maganja da Costa.
5
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do Século XIX, Governo-Geral de Moçambique, Série de
1877, Secretaria da capitania-mor das Terras Firmes, Nº 168, 17.11.1877.
6
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo-Geral de Moçambique, Cx. 8-147,
M1 (1 a 49) e M2 (1 a 322), 1839 a 1884; docs. Nº 113, de 24.06.1881: ofício do capitão-mor das Terras
Firmes, Joaquim Ferreira, ao secretário do Governo-Geral.
7
Isto é, uma irmã ou sobrinha uterina.
8
Arquivo Histórico Ultramarino, Direcção Geral do Ultramar, Moçambique, 1ª República, 1ª Secção,
Pasta 20, Capilha 2; Processo integrado na capilha 2, relatório de 1902, apresentado em 12 de Março de
1903: “Relatório de oito meses de governo do distrito de Moçambique por Jaime Pereira de Sampaio
Forjaz de Serpa Pimentel”. Neste relatório rico em informação sobre o distrito, Serpa Pimentel explica

2
para garantir a coesão do grupo como para confrontar a sua identidade perante os
demais Estados, explicando a sua fundação (Liesegang, 1998, p.124).

A documentação consultada permite uma reconstrução do percurso de Mocuto


embora a intencionalidade primordial na sua elaboração fosse a informação de carácter
militar e administrativo, não visando objectivos de descrição etnográfica nem histórica.
Dela transparece a constituição desta sociedade pelo “caminho percorrido”, em
consequência da sua busca de segurança e de novas terras agrícolas. Tais
movimentações populacionais revelam uma complexificação política na formação de
novas linhagens que se diferenciam pelo nome do seu fundador, pela sua origem
geográfica, e pela viagem realizada no decurso do processo de deslocação (Capela &
Medeiros, 1985).

O processo é liderado por um jovem ambicioso que decidiu formar o seu grupo,
abandonar o local de origem e partir à procura de novas terras, provavelmente devido à
pressão demográfica ou à invasão de outras populações. Um ofício do capitão-mor do
Mossuril9 regista que o régulo Mocuto-muno vivia “longe de Moçambique” (Ilha), no
interior, em terras do régulo Moquiéje, senhor de Chalau, contra o qual se rebelara,
fugindo com a sua gente e pedindo protecção em terras portuguesas, as chamadas
“Terras Firmes”: “isto há quinze vinte anos atrás, sendo capitão-mor das Terras Firmes,
10
João da Costa Soares” . Moquiéje nunca aceitou esta rebelião e procurou sempre
meios e aliados para conseguir trazer Mocuto-muno de novo à obediência. Em 1884, há
referências a movimentações do régulo de Chalau em colaboração com os portugueses
para anular os namarrais, que já então controlavam os caminhos comerciais ligando
regiões do interior às terras ocupadas pelos portugueses. Estes concederam terras a
Mocuto-muno para que ficasse régulo avassalado e a sua “soberania” passou a
denominar-se de “Namarral [...] como recordação da antiga”11, permanecendo o
etnónimo.

que os montes Namuli faziam parte do mito fundador das populações ditas macuas, o que fazia crescer a
apetência das populações por aquele território.
9
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governador-Geral de Moçambique, Cx. 8-
147, M1 (1 a 49) e M2 (1 a 322), 1839 a 1884; doc. 128/2, de 26.10.1881: ofício do capitão-mor do
Mossuril ao Secretário do Governo-Geral.
10
Id., ib.
11
Id., ib.

3
Subsiste ainda a possibilidade, contemplada num documento, de que Mocuto
teria sido afastado ou expulso por Moquiéje em consequência de um processo de
ruptura. As autoridades portuguesas consideravam que Moquiéje poderia tornar-se num
bom aliado, em caso de necessidade:

(…) É este régulo o que com mais vantagem e de melhor vontade poderá auxiliar o governo em
expulsar do Namarralo o actual régulo Mocutomuno, cujo não se continha nos seus limites por
isso que em tempo foi o que bateu este até às nossas fronteiras, onde infelizmente lhe
concederam terras, sabendo-se o motivo porque era batido. (…)12

Ou seja, Mocuto foi expulso por Moquiéje, chefe das terras de Chalau e,
chegado às terras próximas das Terras Firmes, realizou “acto de vassalagem” perante o
capitão-mor das Terras Firmes, instalando-se com o seu grupo.

A decisão de Mocuto tornou-se possível mediante o corte de laços com o chefe


“tradicional” e a constituição de um novo grupo. Este, após empreender um percurso
percorrido com o objectivo de atingir o litoral, onde esperava encontrar opções e
facilidades económicas, estabeleceu-se num território que correspondia às suas
necessidades agrícolas e de desenvolvimento de uma economia baseada na escravatura,
no rapto e nos assaltos às Terras Firmes, nas quais estava em curso o processo de
instalação colonial portuguesa:

Mando n’esta opportunidade directamente escoltado, à presença de V. Sª., para ter o destino que
o Exmo. Conselheiro Governador Geral dever dar-lhe, um salteador do Namarral, de nome
Enhamade, que foi capturado com a mão armada, na povoação de Natepo, limitrophe com
aquella terra, de onde consta havia vindo com intuito de novamente se apoderar d’uma preta que
em tempo raptara, mas que há poucos dias conseguira fugir-lhe.13

Fixada a população namarral na fronteira com as Terras Firmes estavam


reunidas as condições para o controlo do comércio que se realizava entre o interior do
território e o litoral. A sua presença foi perspectivada como o tampão de que se
precisava para impedir avanços de outras populações. O que acabaria por se tornar no
maior pesadelo que a administração portuguesa das Terras Firmes teve de enfrentar. Na
realidade, se inicialmente e após o estabelecimento da vassalagem, o capitão-mor pôde

12
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do Século XIX, Governo-Geral de Moçambique, Série de
1881, Capitania-mor das Terras Firmes, Nº 184, 15.11.1881.
13
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do Século XIX, Governo-Geral de Moçambique, Série de
1882, Capitania-mor das Terras Firmes, Nº 56, 25.03.1882.

4
pensar que esta gente impediria a do interior de assaltarem as terras da coroa, depressa
percebeu que os laços estabelecidos nunca iriam funcionar a seu favor, bem pelo
contrário. O interesse demonstrado por Mocuto em realizar comércio com escravos não
agradou ao capitão-mor do Mossuril. Em 11 de Janeiro de 188214, este oficial português
informava o governador-geral de Moçambique de que Mocuto mandara raptar gente nas
terras do litoral para as vender a um régulo do interior. Outra queixa do capitão-mor
prende-se com o facto de a regularidade das feiras, organizadas por Ajauas e Muizas, ter
ficado comprometida desde que os Namarrais controlavam aquelas terras, em resultado
do que os produtos vindos do interior (marfim, ouro em pó, “pedra verde”)15 eram
desviados para outros mercados afastados das Terras Firmes.

Mocuto foi alargando o seu domínio territorial à medida que a sociedade


namarral crescia em termos demográficos. Para além do grupo inicial que viajara do
interior em direcção ao litoral, outros elementos foram integrados através do casamento,
da escravatura voluntária identificada como “corpo vendido”, e pela força. Ajauas,
maraves, muizas ou cipais e demais gente vinda do interior e do litoral, nomeadamente
da Maganja da Costa e de Moma, integraram aquela sociedade. Diz o comandante
militar de Natule, D. Miguel Henriques de Menezes Alarcão:

(…) A população Namarral deve orçar por cerca de 4 a 5.000 pessoas, podendo-se talvez sem
errar muito, computar em 1.500 a 1.800 o número de guerreiros. São mais numerosos os
maraves, talvez umas 10 a 12.000 pessoas, com cerca de 3.000 a 3.500 guerreiros. (…) 16

A matriz de base tradicional mantinha-se incorporando as alterações e


integrações sociais que o islão e os objectivos políticos, militares e económicos
exigiam. Naguema, a puiamwene de Mocuto, possivelmente a sua “irmã” mais velha17,
era a principal mulher da aldeia, seguindo-se-lhe a sua sobrinha uterina, filha de
Naguema, que, como veremos adiante, teve um papel triste e crucial na derrocada final
dos namarrais. À puiamwene, a quem foram cedidos territórios e permitida a instalação

14
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do Século XIX, Governo-Geral de Moçambique, Cx. 8-147,
M1 (1 a 49) e M2 (1 a 322), 1839 a 1884: doc. nº 147, de 11.01.1882: ofício do capitão-mor das “Terras
Firmes”, Agostinho Teixeira de Almeida Pereira, ao secretário do Governo-Geral;
15
A.H.M., Fundo do século XIX, Governo do distrito de Moçambique, Cx.8.10, M1 (2),; doc. nº 147, de
11.01.1882: o comandante militar de Natule informa sobre populações Namarrais.
16
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo do distrito de Moçambique,
Cx.8.10, M2(1), Doc.1 (caderno, relatório), 1897; doc. nº 1, de 15.02.1897: relatório do comandante
militar de Natule, D. Miguel Henriques de Menezes Alarcão, informando ainda que Namarrais e Maraves
continuavam a ser rebeldes.
17
A documentação é omissa.

5
de uma aldeia com o seu nome, cabia a responsabilidade dos rituais de iniciação
feminina e de integração na comunidade (Brito João, 1989, pp.41,42).

Outro forte aliado de Mocuto, instalado na sua própria aldeia e formando com
ele um triângulo relacional, foi Matula, provavelmente um chefe subordinado, distinto
do chefe Marave da baía de Mocambo, e de Molide Volay, em Angoche, ou de outros
ainda, com os quais estabelecera laços confederativos.

Depreende-se que o desenvolvimento social permitia as condições para a


ascensão de um chefe maior, ou chefe principal – designado por Muene mulupale – e,
nessa medida, tornava-se possível hierarquizar as linhagens. O poder do chefe assentava
na capacidade que possuía para estabelecer alianças matrimoniais com o objectivo de
controlar a reprodução social e, consequentemente, controlar a própria produção.
Imperava uma “ideologia de parentesco que permitia identificar o indivíduo de acordo
com a linhagem a que pertencia”:

“Um dos processos encontrados pelas linhagens dominantes de um território para fixarem os
homens (que habitualmente circulam para as aldeias das esposas) e para reduzirem os conflitos
entre linhagens e clãs foi fomentar a constituição de linhagens de gente escrava, onde os homens
livres tomavam esposas trazendo-as para junto de si ou onde as mulheres livres encontravam
marido evitando relacionamento com gente de fora. Os filhos destas mulheres livres eram gente
livre e membros da linhagem da mãe; por sua vez os filhos dos homens livres e das mulheres
escravas eram escravos sem deixarem de ser “filhos de chefe”. Eram os “mwanahumu” ou
“mwanamuene” que enormes serviços prestavam aos pais na guerra, nos conflitos inter-
linhageiros. Quando o número desses escravos era importante o chefe mulupale atribuía-lhes um
pequeno território e indigitava um deles para ser o chefe da nova linhagem assim constituída. Por
isso, hoje, em certas regiões, surgem nomes de clãs e linhagens de formação muito recente e
nada tem a ver com os clãs tradicionais Macua.” 18

No ano de 1896, a delimitação do território dominado pelos principais chefes


Namarrais – Mocuto-muno, Naguema e Matula – era bem conhecida das autoridades
portuguesas:

18
Arquivo Particular de Eduardo da Conceição Medeiros, Cx. Azul, A Organização Clânica Macua,
Trabalhos em Curso, 4.1., Pasta 2.

6
(…) nas terras que medeiam entre os montes Mesa e o Pão estão estabelecidos Matula, Naguema
e Ibrahimo, chefes da tribo namarraes, e na bahia do Mocambo lado Norte, o Marave e, do Sul,
Molide Volay.19

Marave e Molide Volay aparecem referidos noutro documento como chefes


namarrais. Seriam chefes de linhagens hierarquizadas ou talvez, chefes aliados,
integrados na confederação namarral:

(…) o Chefe Molide Volay de nomeação do governo, fez d’elle seu ajudante e hoje é o Marave
quem manda em nome do Molide Volay, velho valetudinário e cuja influência é quasi nulla entre
os povos que devia governar. Quem manda em tudo é o Marave, que se intitula ainda capitão-
mor. (…) Mocuto-muno (também chamado de Ibrahimo ou Nasopo e creio que tem mais nomes
que eu ignoro). Matula-muno. Naguema. Todos estes régulos pertencem à raça dos namarraes,
(…) Mocuto-muno quer dizer o chefe supremo de todos os namarraes e a quem todos por
consequência devem obedecer. Há pouco morreu o régulo Mocuto-muno e este título e
auctoridade passou para Ibrahimo. (…) Mocuto-muno deixou muitos filhos, que dividiram entre
si os territórios de seu pae e governam n’elles como régulos dependentes do Ibrahimo, hoje
Mocuto-muno.20

Outras fontes corroboram esta ideia da existência de uma base identitária


tradicional, plasmada nos “irmãos”, “filhos” e “mãe” e de uma hierarquia reforçada por
jovens chefes:

(…)No mesmo dia pelas 9 ½ horas appresentaram-se-me com a sua comitiva os régulos Mocuto-
muno, Muileva, Modiano, M’nacorouco, não vindo M’uilata por se achar doente. Estes régulos
são todos irmãos e filhos de Macuilo (pai) e de Ecidgia (mãe) já há muito fallecidos. O mais
velho d’elles é o Mocuto-muno, apresentando-se os demais em idade e hierarchia.21

A matriz tradicional hierárquica cingia-se a Mocuto e chefes linhageiros aliados,


apesar de modernizada e adaptada às novas circunstâncias, através da confederação com
chefes do litoral, alguns mesmo da confiança da administração portuguesa, como era o
caso de Molide Volay. Em 1903, Serpa Pimentel22 regista como opositores ao avanço da

19
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do Século XIX, Governo-Geral de Moçambique, Cx.8.156,
M1, Docs.1 a 147, 1892 a 1897; nº 55, de 15.05.1896: resposta a questionário, do Chefe da Secção das
Obras Públicas, Francisco Leotte, ao Secretário do Governo-Geral.
20
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo-Geral de Moçambique, Cx8.156,
M1, Docs.1 a 147, 1892 a 1897; doc. nº 56, de 18.05.1896: resposta ao questionário feito pelo
Governador-geral às capitanias-mores, de acordo com a Circular nº23 de 5 de Maio de 1896, enviado pelo
capitão-mor das “Terras Firmes”, Major Joaquim Clemente d’Assumpção.
21
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo do Distrito de Moçambique, Cx.
8.10, M.1 (3), Doc. 1 a 35; doc. de 24.04.1897: relatório do alferes Guerra Viana e Andrade à Repartição
Militar do distrito de Moçambique.
22
Arquivo Histórico Ultramarino, Direcção Geral do Ultramar, Moçambique, 1ª República, 1ª Secção,
Pasta 20, Capilha 2; Processo integrado na capilha 2, relatório de 1902, apresentado em 12 de Março de

7
administração militar e civil, para além dos “régulos namarraes”, os seguintes líderes:
Farelay de Angoche e o seu “braço direito Vizir-Mussa” com os seus aliados Cabulo-
muno, Mapula-muno, Livuti-muno, Metale-muno e outros “régulos da região de
Mogovolas”; Marave; “ex-sultão Ibrahimo da ilha de Angoche morando agora em
Catamoio”; o “ex-régulo” Mussa, da Matadane; Córnea-muno e Morla-muno, de
Imbamela; Muguela-muno, de Boila; Marrua-muno, da região da Manduria e Marire,
que o autor do relatório considerou o “mais importante régulo da Macuana”; o xeque de
Matibane e o seu aliado Alua.

Todos terão trabalhado concertadamente no sentido de se oporem a três


inovações político-económicos que estão na base da motivação para a resistência à
instalação colonial: as campanhas militares para avanço e ocupação do território; a
proibição do comércio de escravos; o trabalho forçado e o imposto de palhota.

As campanhas militares para avanço e ocupação do território

A resistência ao colonialismo português pelas populações moçambicanas em


estudo começou a definir-se no século XVIII (Amorim, 1911, p.145), aquando das
primeiras tentativas registadas em 175223 de alargamento dos territórios através de
tratados com chefaturas locais (Garcia, 2001).

A resistência intensificou-se a partir do momento em que os portugueses


tentaram avançar no território fronteiro à Ilha de Moçambique, em direcção ao interior
“com o fim apenas de levar um pouco mais longe as instalações e feitorias” (Amorim,
1911, p.145), mesmo antes de se fazer sentir a pressão política internacional decorrente
da Conferência de Berlim (1884/1885) e do Ultimato (1890).

Na realidade, a intenção não se quedou pelas feitorias. Avançar em direcção ao


interior significava atingir as aldeias de Naguema e Mocuto. A decorrência desta
progressão no terreno resultava na construção de vias de comunicação terrestre,

1903: “Relatório de oito meses de governo do distrito de Moçambique por Jaime Pereira de Sampaio
Forjaz de Serpa Pimentel”.
23
Até 1752, a colónia de Moçambique foi administrada a partir da Índia. Nesse ano foi criada a capitania-
geral de Moçambique, rios de Sena e Sofala.

8
instalação de postos militares, telégrafos. Tal viria a ser possível apenas na segunda
década do século XX, uma vez que, até 1913, a resistência a essa progressão militar foi
persistente e prolongada. A este respeito, dizia Mouzinho de Albuquerque nas suas
“propostas de actuação” para 1897:

(…) No continente fronteiro à capital da Província e d’ella distante para mais de 3


kilometros, o chefe principal, o Marave, em tempos feito capitão-mor, acha-se
declaradamente rebelde, não deixando fazer o arrolamento das palhotas e pagar o
competente imposto, nem consentindo que se abram estradas entre os pontos
principaes do seu território. Animados com esta rebeldia do chefe principal da
região, os restantes chefes namarraes, não ousando desobedecer abertamente às
ordens do governo, iludem-nos e impedem a sua execução quando podem (…).24

Ou seja, se o processo colonial se alongou no tempo sem consistência, limitado a


acções pontuais, exceptuando a actuação preparada pelos militares da “geração de 95”,
que também acabaria por se prolongar até 1913, o processo de resistência foi, também
ele, lento, fluido e pouco agressivo, enfermando de falta de condições técnicas e
militares comparáveis às que possuíam os portugueses, o que resultou num
enfraquecimento das sociedades autóctones.
A tecnologia e a logística, ou seja, o armamento e as infraestruturas de
circulação (estradas, vias férreas) e militares (postos militares e outros meios) trouxeram
consequências (Mwanzi, 1990, pp.77-82). Paralelamente, as sociedades africanas
também adoptaram novas soluções nos planos estratégico e do armamento, na
organização das populações, dotando-as de um enquadramento militar diferente
(M’Bokolo, tomo II, 2007 ?????). Se algumas das sociedades africanas conseguiam
preparar-se militarmente para um confronto aberto, ao ponto de intensificarem a sua
produção para exportação em troca de armamento, outras prepararam-se para as tácticas
de guerrilha, e outras ainda recorreram às alianças diplomáticas na esperança de que os
europeus respeitassem as suas terras e soberania. No caso dos namarrais, as fontes
documentais comprovam o desenvolvimento de tácticas militar envolvendo manobras
que deixaram de ser de guerrilha e emboscada para passarem a ser realizadas
abertamente em campo de batalha. No entanto, é a própria administração portuguesa
que atesta a tecnologia militar rudimentar utilizada pelos namarrais:

24
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo-Geral de Moçambique, Cx.
115, Processo nº 10, fls. 12-13; doc. de 19.06.1896: relatório e propostas de actuação do
Governador-Geral Joaquim Mouzinho de Albuquerque.

9
O armamento mais usado é as antigas armas de sílex, que carregam com chumbo,
missanga, quartos de balas, pregos, etc. Contudo, alguns e muito principalmente os
maraves, possuem armas Snyder25.

O exército liderado por Mocuto-muno era composto, na sua maior parte, por
elementos exógenos, geralmente experientes no uso de armas de fogo, caso dos
chicundas ou sipais e dos landins (Capela, 2000, pp.117-134), que constituíam grupos
de mercenários instalados nos meandros da administração portuguesa ou nas
proximidades das “Terras Firmes”, retirando vantagens de todas as partes, incluindo dos
namarrais, a quem prestavam serviços, por vezes integrando-se nesta nova sociedade
após um período de adaptação e de aculturação, a que não faltava um ritual de
integração e de esquecimento da sua cultura de origem.
O exército estava organizado e contava com um número significativo de
combatentes, a acreditar no relatório de Menezes Alarcão26. Cabia-lhe ainda o controlo
dos circuitos caravaneiros, o ataque e o saque das povoações inimigas. Durante a
preparação para as batalhas, isolava-se nas aringas, entregando-se a rituais de
purificação e de insensibilização face ao perigo, que chegava mesmo à crença na
invulnerabilidade. O exército era constituído por diversos grandes grupos ou “mangas”
que se reuniam nas aringas. Cada manga era composta por voluntários, mercenários e
guerreiros preparados desde jovens para a guerra, que podiam chegar aos mil (Telo,
2004, p. 26). A aringa era uma fortificação, distanciada alguns quilómetros da povoação
mais próxima, e que se destinava à preparação física e espiritual de guerreiros,
mantendo-os afastados temporariamente do convívio das populações, ocasiões
designadas por “fazer aringa”.
Em 1897, o Marave reuniu “enormes mangas” que atacaram o posto militar da
Muchelia com grande potencial em armas de fogo27.
O facto de estas “mangas” se apresentarem organizadas no terreno, ordenadas
por “600 homens, cada uma”, “precedidos de bandeiras brancas” revela a constituição

25
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo-Geral de Moçambique,
Cx.8.10, M2(1), Doc.1 (caderno, relatório), 1897; doc. nº 1, de 15.02.1897: relatório do
comandante militar de Natule, D. Miguel Henriques de Menezes Alarcão, informando que
Namarrais e Maraves continuavam a ser rebeldes.
26
Vide supra nota 15.
27
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo-Geral de Moçambique,
Cx.8.156, M1, Doc.1 a 147, 1892 a 1897; doc. nº 155, de 26.04.1897: relatório do combate da
Muchelia no dia 13 de Abril de 1897 por forças do Marave, escrito pelo alferes José Xavier
Ferreira de Barros.

10
de um exército regular, apetrechado com armas e elementos simbólicos (as bandeiras)28,
um quadro organizativo que está longe das meras movimentações de guerrilha
(Pélissier, 1994, p. ????).
O controlo das rotas caravaneiras, a proximidade de outras sociedades,
especialmente no litoral, o contacto com mercadores que chegavam por mar e o tráfico
de escravos, permitiram o apetrechamento militar do novo Estado namarral, para além
do refinamento dos conhecimentos de estratégia e de hierarquia militar. Em
determinados pontos da costa, especialmente nas enseadas, os escravos eram aí levados
pelos namarrais, que os trocavam por armas,pólvora e outros produtos. Daí que os
portugueses vaticinassem que, acabando o tráfico, acabar-se-ia também o rearmamento
dos africanos29.
Ao longo da segunda metade do século XIX houve alterações na prática militar
das populações namarrais para com a progressão portuguesa no terreno. Como foi dito,
da guerrilha passou-se à guerra em campo aberto e à troca de missivas entre os
inimigos, no que pode ser considerada, apesar da franca diferença tecnológica, como a
resposta possível por parte dos africanos à ofensiva do exército português.

A proibição do comércio de escravos

Os namarrais reagiram à proibição do comércio de escravos, à semelhança de


outras sociedades no território30. A este movimento juntaram-se o sultanato de Angoche
e os xecados aliados, para além dos chefes das povoações do “hinterland”, aliados e
confederados com o Namarral, assim como alguns luso-afro-descendentes, como
Cândido da Costa Soares, proprietários de terras e comerciantes de escravos. Todas as
sociedades no terreno reagiram mal ao novo regime económico que excluía o escravo
enquanto produto valioso. Na realidade, as autoridades portuguesas apresentaram
manifestações de preocupação enviadas ao Governo em Lisboa, revelando o vazio que a
erradicação do tráfico de escravos criaria não apenas devido ao fim dos lucros, como

28
Id., ibid.
29
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo do Distrito de
Moçambique, Cx.8.10, M1 (10), Doc.1 a 26; doc. de 14.05.1897: relatório do comandante
militar de Moginqual, tenente Duarte Augusto, enviado ao governador do distrito.
30
Completa Abolição do Tráfico de Escravatura, celebrado entre Portugal e a Grã-Bretanha em Julho de
1842.

11
também pelas consequências nas grandes “machambas” ou propriedades agrícolas,
pondo em risco a sua manutenção e funcionalidade.

Em síntese, Namarrais e outros chefes Macuas, Suaílis e colonos compaginavam


os seus interesses e manifestaram-se contrários aos interesses do governo português. Em
29 de Outubro de 1896, Cândido da Costa Soares escreve uma carta ao Governador-
Geral sublinhando a sua inocência face às acusações que lhe faziam relativamente a
possíveis fornecimentos de armas e de pólvora aos Namarrais e recorda que era
proprietário de terras que herdara de seus pais e que ele próprio já nascera em
Moçambique “descendente de uma família que tem o seu nome ligado à história de
Moçambique”31, e que, para salvar a economia da região havia que se estabelecer
relações comerciais com xeques e outros chefes do interior.

Esta manifestação de Cândido Soares corresponderia às preocupações de todos


os que faziam depender o desenvolvimento das suas propriedades agrícolas e do seu
comércio, do trabalho escravo e do tráfico de escravos.

Na região, a posse e a exploração da terra não tinham a tradição secular da


Zambézia, nem sequer havia propriedades e proprietários luso-africanos que tivessem
desenvolvido aquele tipo de exército particular, embora a presença do proprietário
Cândido da Costa Soares e as questões que teve com a administração portuguesa, que o
acusou de parceria com o Namarral, não deixe de ser uma possibilidade relativamente à
existência de um exército que defendia as suas terras.

Os proprietários das “Terras Firmes” teriam os seus “sipais”32, mas não em


número significativo nem tão fortemente armados e hierarquicamente militarizados ao
ponto de poderem vir a formar uma “república” sua, fronteira às terras do senhor. No
entanto, a presença dos “landins”33 vem referenciada nos documentos, os quais são
apresentados como homens armados, preparados para a guerra, mercenários ao serviço

31
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo-Geral, Correspondência sobre as
operações contra os Namarrais, 1897, M. 1; doc. de 29.10.1896: carta de Cândido da Costa Soares ao
Conselheiro do Governador-Geral.
32
Ou “cipais”.
33
Os landins (zulus ou vátuas) eram angunes.

12
de algum chefe34. Neste sentido, parte da população armada do Namarral seria composta
por guerreiros “landins” (Capela, 2000, pp.117-134).

Para a administração portuguesa, acabar com o comércio de escravos significava


a possibilidade de alterar a economia mercantil para um sistema económico
direccionado para o capitalismo comercial dominado pelas grandes empresas
portuguesas, francesas e inglesas que se instalaram no território moçambicano. No
entanto, um sistema económico não deu lugar a outro. Ambos coexistiram e o mais
antigo terá prevalecido. De tal modo que o controlo dos mercados, feiras e rotas era
objectivo da administração colonial, em simultâneo ao avanço territorial.

A necessidade de permitir a chegada à costa dos produtos do interior,


comercializáveis e consumíveis, pressionava a realização de relações cordiais dos
representantes de Portugal com as populações do interior, mesmo que esse interior fosse
relativamente próximo das terras de domínio português35.

Esta dinâmica atesta da simultaneidade e do paralelismo nas relações entre os


europeus e os africanos. Se por um lado, a instalação militar e administrativa iria
permitir o controlo das populações e do território perante as potências europeias no
xadrez político europeu, por outro, a realidade pressionava a que se estabelecessem
alianças políticas e económicas com as populações “tradicionais” do interior, as
populações suaíli e as indianas. Especialmente com estas últimas que ao longo do
século XIX adquiriram controlo das rotas comerciais e dos produtos, estabelecendo
lojas no hinterland, o que impedia que os produtos chegassem às Terras Firmes e ao
litoral. Ora, tal situação punha em risco a sobrevivência das populações do litoral, para
além de fazer onerar significativamente os preços dos produtos porquanto passaram a
intermediar entre o interior e a costa. A documentação atesta também que as lojas não
seriam apenas dos indianos. Alguns ingleses também instalaram as suas lojas próximo

34
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo do Distrito de Moçambique,
Cx.8.15, D a 3, M1(1 a 9)- 1883-1899, M2(1 a 15)- 1857-1896, M3(1 a 37)- 1850-1899, M4(1 a 14)-
1881-1892, M5(1 a 12)- 1852-1900; doc. nº 13, de 02.10.1898: ofício do comandante militar de Muchelia
a José António de Araújo Júnior, ao capitão-mor das Terras Firmes.
35
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo-Geral de Moçambique, Cx. 8-147,
M1 (1 a 49) e M2 (1 a 322), 1839 a 1884; doc. nº 117, de 24.06.1881: ofício do capitão-mor das Terras
Firmes, Joaquim Ferreira, ao secretário do Governo-Geral.

13
das terras dos Namarrais, o que lhes valeu a acusação de conluio com os chefes
africanos e de venda de armas.

A administração portuguesa não encarava com bons olhos a instalação dos


indianos no interior e a sua tentativa de controlo dos circuitos do mercado. Na última
década do século XIX, os indianos estabeleciam lojas em Mossuril, Ampapa36,
Ampoense, Moratine, Vila Machado e nas proximidades dos postos militares. Segundo
a administração portuguesa, os indianos não produziam nada, apenas “porfiavam gerar
mais valias com a venda ou troca entre si e os africanos e com o envio consequente dos
lucros para a sua pátria (Índia)”37.

Em 1913, a costa do distrito de Nampula mantinha-se com mais de uma centena


de lojas instaladas em Angoche, Mossuril, Ilha de Moçambique e Fernão Veloso,
enquanto as terras do interior não mantinham mais do que vinte lojas, na maioria
exploradas por indianos (Ferreira, 1915). O comércio europeu limitava-se apenas ao
agenciar

(…) comesinho e arrastado na sede do distrito e em raros pontos do litoral, do comércio com o
funcionalismo militar e civil. O indígena é quem movimenta o comércio com uma soma anual de mil e
tantos contos de valores. (Ferreira, 1915)

O negro era o único produtor agrícola e o monhé era o único representante da


vitalidade comercial (Ferreira, 1915, p.47). O monhé era o termo aplicado para designar
os descendentes afro-islâmicos, por oposição aos suaíli, muçulmanos da costa. Todos
insistiam em continuar a instalar as suas lojas em direcção ao interior, com maior
intensidade nos primeiros anos do século XX, continuando a fazer tábua rasa dos

36
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo-Geral, Cx.8.150, M2(1 a 2), 1894-
1898; doc. nº 3, de 10.01.1894: ofício do capitão-mor de Mossuril, major Manuel Pires de Oliveira, ao
Secretário-Geral Interino do Governo-Geral. O chefe de Ampapa, no ano de 1894, Nizamudine
Chamuchadine, vendia passes aos mercadores que saíam das propriedades dos particulares no continente
para irem vender produtos à Ilha, assegurando-lhes, através desse passe que seria posteriormente
mostrado à polícia da Ilha, que os seus produtos não seriam confiscados. Ou seja, cobrava um tributo de
passagem e de segurança totalmente ilegal. Situação a que as autoridades fecharam olhos para que
problemas maiores não sobreviessem.
37
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo-Geral, Correspondência recebida
de Moçambique, 1900, 25-90, cota: 1008; Relatório do estado da capitania de Mossuril, da autoria do
tenente da infantaria António Augusto Ferreira Braga, enviado ao Governo do distrito de Moçambique,
27.07.1900.

14
aspectos legais defendidos pela ainda frágil administração portuguesa (Alpers, 2000,
pp.309, 312-314).

Na década de 1910, o número de estabelecimentos comerciais de indianos era


superior ao de portugueses, com a vantagem de todos aqueles procederem a permutas
com indígenas enquanto em alguns estabelecimentos portugueses tal não se verificava,
como era o caso das lojas de Moma (1), António Enes (2), Moginqual (1), Mossuril (3),
Memba (1).

Paralelamente ao comércio e à indústria que se procurava implementar pela via


colonial, o comércio de seres humanos não estava completamente esgotado em pleno
século XX. Em 1926, o jornal The Daily Argosy denunciou internacionalmente o tráfico
de gente sob a forma de “contratados”, explicando que desde 1918 que se dera início ao
trabalho contratado nas colónias portuguesas mas que o formato real da situação se
resumia à escravidão38. Situações como esta foram colocando Portugal numa posição
crítica aos níveis político e diplomático, motivando a opinião internacional para um
apoio aos movimentos que paulatinamente iam surgindo nas colónias ultramarinas em
prol da independência dos territórios.

Os relatórios de inícios do século XX fazem crer que a economia do distrito de


Moçambique se encontrava numa situação crítica, especialmente no que dizia respeito
aos interesses dos portugueses nas “Terras Firmes”39.

O único espaço de comércio que os portugueses conseguiam controlar em prol


dos seus interesses era o que se realizava entre Mossuril, Cabaceiras, Ampoense,
Ampapa e Lumbo e a Ilha, navegando lanchas ao longo do dia entre os portos do
continente e da Ilha (Camisão, 1901 b.). Na capitania de Mossuril existiam apenas duas
casas de comércio, a Mendonça e Silva e a Hoffman, sendo que as restantes lojas

38
The Daily Argosy, “Women slaves in Africa. Portuguese Methods Indicted. Contract Labour.”
Damerara, British Guiana, 08.01.1926.
39
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo-Geral, Correspondência recebida
de Moçambique, 1900, 25-90, cota: 1008; Relatório do estado da capitania de Mossuril, da autoria do
tenente da infantaria António Augusto Ferreira Braga, enviado ao Governo do distrito de Moçambique,
27.07.1900.

15
existentes em Mossuril, Ampapa, Ampoense, Moratine, Vila Machado e na
proximidade de alguns postos militares eram exploradas por indianos40.

Esta situação gerou mais uma barreira à instalação colonial mas também não
favoreceu os Namarrais que viram o seu domínio das caravanas e mercados ser
transferido para as lojas indianas localizadas no interior. Se por um lado, os Namarrais
tinham de enfrentar o avanço militar português que pretendia instalar postos militares
nas suas terras e povoações, por outro lado tinham de confrontar-se com a concorrência
dos indianos e das outras populações no território. Neste contexto, alianças foram
desfeitas. Cada vez mais se entrou num ambiente de espionagem, conluio, denúncia,
roubo, rapto.

Segundo António Camisão existiam dois motivos de desentendimento entre os


grandes chefes macuas do interior: a ocupação de terras e os assaltos às caravanas.
Exemplos como os de Mutupa e de M’tia atestam essas duas causas de conflito: no
primeiro caso tratava-se de Mutupa que se queixava ao governo português, de quem já
era vassalo, que Cabulo lhe tinha ocupado terras; no segundo caso, M’tia queixava-se
dos assaltos perpetrados por gente da rainha Naguema e de Mocuto-muno, quando se
deslocavam a Ampapa para negociar nas lojas41. A gente de Naguema, Mocuto-muno e
Nhacanona eram Namarrais enquanto M’tia e M’pera eram considerados “do interior”42.

O imposto de palhota e o trabalho forçado


O imposto de palhota43 e o trabalho forçado44 foram talvez o golpe, a machadada
final no sistema político, social e económico do novo Estado Namarral. Segundo um
documento de 20 de Junho de 1896 que procura explicar o imposto de palhota, ou

40
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo-Geral, Correspondência recebida
de Moçambique, 1900, 25-90, cota: 1008; Relatório do estado da capitania de Mossuril, da autoria do
tenente da infantaria António Augusto Ferreira Braga, enviado ao Governo do distrito de Moçambique,
27.07.1900.
41
Id., ib.
42
Id., ib..
43
Instituído pelo Decreto de 31 de Maio de 1887, com a designação “imposto por habitação”.
44
O trabalho forçado surge como uma consequência do imposto de palhota. Para pagarem este imposto, a
população tinha de trabalhar e receber o respectivo salário. O trabalho indígena foi regulamentado em 9
de Novembro de 1899. Foi posteriormente alterado em 1911 mas manteve a possibilidade de os patrões
exercerem violência sobre os criados. Em 1914 foi revogado pelo “Regulamento Geral do Trabalho dos
Indígenas nas Colónias Portuguesas”.

16
mussoco, os africanos tinham de pagá-lo se estivessem em terreno do Estado ou de
particulares45. A resistência a estas imposições foi feroz, adquirindo foros de guerra.
Para as populações não se compreendia porque razão se viam obrigados a trabalhar nas
terras de domínio português e tão pouco, a razão por que, por imposição de um rei que
não conheciam e nem reconheciam, tinham de pagar o imposto de palhota, ou seja, o
imposto por família. Além disso, as chefaturas das terras próximas do assentamento
português, na esteira das alianças e cerimónias de vassalagem que estabeleceram com a
administração lusa tinham, desde sempre, desenvolvido trabalhos e prestado serviços
que lhe eram exigidos em contrapartida, como disse o xeque de Chavala, vassalo das
Terras Firmes:

(…) Fallei com o Cheque sobre o pagamento do imposto de palhota e perguntei-lhe porque não
avisava a sua gente para pagarem ao Governo o imposto, respondeu-me que elle é gente do Governo e
que há já muito tempo que trabalha de graça. Por último disse-lhe que se elle entregasse a importância do
imposto de palhota e que não faltasse ninguém para pagar; o Governo no fim da cobrança dava-lhe o
saldo, e respondeu-me que o Governo o queria enganar para depois lhe não dar nada. (…) 46

As palavras deste xeque deixam transparecer a indignação perante o imposto. Ou


seja, se desde há muito colaboravam com a administração portuguesa e corresponderam
ao que lhes era solicitado, desta feita, não pretendiam fazê-lo, porquanto esta era uma
exigência que ultrapassava as suas possibilidades e, acima de tudo, sobrepunha-se ao
seu modelo conceptual admissível.

Esta e outras situações levaram as populações a optar pela “rota do khapurra”, a


fuga por parte daqueles que podiam escapar, geralmente homens jovens. Se o vocábulo
“khapurra” deriva de “akaporo”47, tal tem a ver com os cativos que, na língua achirrima
eram designados por akaporo. Elikia M’Bokolo diz que os capôrros eram os “escravos
domésticos das linhagens africanas livres” (M’Bokolo, tomo I, 2003, p.491). Capela e
Medeiros dizem: «no final do século XIX o vocábulo passou a ser utilizado para
designar os libertos, que por sua vez entravam no circuito dos “libres engagés”
destinados às ilhas do Índico de colonização francesa» (Capela & Medeiros, 1985,

45
Arquivo Histórico Ultramarino, D.G.U., Moçambique, 2ª Repartição, Finanças de Moçambique,
Mouzinho de Albuquerque, 20.06.1896: questões sobre o imposto de palhota.
46
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo do Distrito de Moçambique,
Cx.8.15; doc. de 10.12.1897: ofício do comandante do posto da Matibane ao capitão-mor das Terras da
Coroa.
47
Sing.: kaporo, ou caporro.

17
p.102). Segundo estes últimos autores, um vocábulo que primeiramente se reportava aos
cativos, passou posteriormente a designar os libertos, e nos anos 20 do século passado, a
rota dos libertos e, em concordância com a fonte oral48, passou a designar, nos anos 20
do século passado, a rota daqueles que fugiam à obrigatoriedade da prestação de
impostos e de trabalho à administração colonial portuguesa, optando por tentar a sorte
em outros lugares, fugindo silenciosamente à contagem dos efectivos capazes de prestar
serviços.

O imposto de palhota e o trabalho forçado foram os meios mais eficazes que a


administração colonial encontrou para recolher dividendos que lhe permitiam manter-se
no local com alguma autonomia, sem ter de esperar por formas de apoio da metrópole.
Se serviu para a subjugação das populações, respondeu também a um crescimento de
insatisfação e de indignação, mesmo que silenciosa e prolongada.

O pagamento fiduciário tornava-se difícil para os africanos. Em 5 de Maio de


1896, Mouzinho de Albuquerque propôs que o imposto fosse substituído por trabalho.
Os proprietários de terras não aceitaram a sugestão porque viam no imposto de palhota
uma fonte de recolha de moeda. Para além do dinheiro que o Estado e os particulares
conseguiam angariar, ficava garantida a existência de mão-de-obra para trabalhar,
especialmente no tempo da apanha do cajú. Noutros casos foram as próprias populações
a solicitar que lhes fosse permitido o pagamento do imposto em mantimentos,
substituindo o dinheiro, que não tinham: “(…) que estão promptos a pagar o imposto com
mantimentos, visto não terem dinheiro (…)” 49. As pessoas ficavam presas ao local: tinham de
trabalhar para reunir o dinheiro necessário para pagar o imposto de palhota.

A estas imposições não ficaram indiferentes os Namarrais da rainha Naguema e


dos chefes Ibrahimo e Marave que, em Agosto de 1896, impediram que o comandante
militar de Natule fizesse a cobrança do imposto de palhota. Escreve o oficial
encarregado da cobrança do imposto ao comandante militar de Natule:

48
Fernando Fonseca.
49
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo do Distrito de Moçambique,
Cx.8.9, M2, Doc.1 a 116, 1897 a 1899: doc. nº 62, de 29.11.1897: ofício do capitão-mor das Terras da
Coroa, em Mossuril, José Carrazedo Andrade, à Secretaria militar do distrito contando que os chefes do
interior da Macuana se queixaram dos chefes namarrais (este era Metochera) que lhes embargava o passo
quando passavam pelas suas terras.

18
(…) cheguei ontem ao meu destino, e tendo-me dirigido primeiro à povoação do régulo Ibraimo,
ali encontrei o que hoje se intitula régulo, de nome Mamade, irmão do referido Ibraimo que falleceu há
pouco; próximo à caza d’este régulo encontrei uns seis pretos armados de espingardas e zagaias, que ali
se conservaram sempre enquanto eu e o segundo sargento Valente, que me acompanhava, nos achavamos
em caza do régulo, por quem fomos recebidos; três quartos d’hora depois pouco mais ou menos achavam-
nos rodeados d’uns sessenta homens todos armados da mesma forma que os primeiros, continuando a
aglomerar-se a pouco e pouco, sem que eu soubesse a proveniência de tal ajuntamento; eu e o segundo
sargento Valente observamos que os indivíduos que ali se achavam segredavam entre si, sem que
pudessemos saber o que elles diziam. Não obstante pedi ao régulo que me indicasse o número de palhotas
e sua população para dar começo à estatística, respondeu-me que elle por si não sabia dizer-me, por não
saber, pois quem poderia informar-me era o seu antecessor se elle fosse vivo, ou, os cabos que estão pelas
differentes povoações; tendo-lhe antes pedido para elle mandar chamar a gente das suas povoações a fim
de virem satisfazer os seus impostos ficou callado; e depois que se havia ajuntado maior número de gente
a que acima me refiro levantou-se do pé de mim e do segundo sargento e convidou-me a acompanha-lo às
trazeiras da sua caza e disse-me que seria bom n’esta occazião não fallar no imposto, porque agora
ninguém tinha tanto dinheiro para pagar pois tinham muita necessidade e fome. Em vista pois da
perspectiva manifestada por tanta gente armada, entendi não insistir em pedir dinheiro algum. (…)50

As populações não tinham condições para pagar 2.500 réis anuais. Eram pobres
e os seus bens resumiam-se a produtos de consumo, sem lugar a alguma espécie de
poupança fiduciária. Se, por exemplo, em 1900, era mais fácil a uma pessoa de
Inhambane pagar o referido imposto porque conseguia amealhar com o trabalho que
desenvolvia nas minas do Transval, no caso da Macuana, o domínio efectivo da região
resumia-se ainda a poucos quilómetros da costa e, como tal, tornava-se difícil controlar
quem realmente poderia proceder ao pagamento, para além de, na realidade, não
prevalecer uma economia que promovesse a acumulação de alguma riqueza em
dinheiro51. No entanto, a região Norte de Moçambique também forneceu mão-de-obra
para o Transval e minas de ouro da África do Sul, através das Companhias Majestáticas
do Niassa e do Zambeze que entregavam a mão-de-obra excedentária aos recrutadores
(Clarence-Smith, 1985, pp.115-116). O sistema de recrutamento dependia na
generalidade de “intermediários comerciais” que asseguravam relações políticas e
comerciais entre os reinos, especialmente entre os costeiros e os do interior. Estes
50
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo-geral de Moçambique, Cx.8.156,
M1, Doc.1a 147,1892 a 1897; doc. nº 84, de 21.08. 1896: ofício do oficial encarregado da cobrança do
imposto de palhota, tenente Francisco Rodrigues, ao comandante militar de Natule, capitão Caetano João
Fialho, 21.08.1896.
51
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo-geral, Correspondência recebida de
Moçambique, 1900, 25-90, cota: 1008; Relatório do estado da capitania de Mossuril, da autoria do tenente
da infantaria António Augusto Ferreira Braga, enviado ao Governo do distrito de Moçambique,
27.07.1900.

19
homens eram fornecedores de alimentos, panos, armas, loiças, esteiras e, claro,
escravos, que recrutavam nas terras por onde passavam, conhecedores antigos desses
sistemas, muitos deles “filhos pardos das grandes famílias coloniais”, “serventes
descalços das casas comerciais brancas” (Birmingham, 2003, p.45).

Com o desenvolvimento do capitalismo e consequente necessidade de produção


para o mercado, as unidades familiares vão dispersar-se. As pessoas viram-se obrigadas
a ter de partir para fugir ao trabalho forçado, ao imposto de palhota, aos impostos em
géneros, dinheiro ou trabalho.

A imposição das culturas de rendimento fez reduzir ainda mais o número de


efectivos nas terras da Macuana. A produção única impediu as pessoas de cultivar
outros produtos para o seu sustento. A fome começou a crescer e o medo à angariação
de gente para trabalhar no algodão fez com que muita gente abandonasse as suas aldeias
e fosse para outras terras: Niassalândia (actual Malawi), Tanganica (actual Tanzânia), e
África do Sul. No caso dos Macuas, as populações da região próxima das “Terras
Firmes” deslocaram-se em direcção às terras da Companhia do Niassa, onde
procuravam protecção e podiam comprar armas (Medeiros, 1997, p.58).

As causas das revoltas continuavam a ser os garrotes que o imposto de palhota e


o trabalho forçado representavam para uma população empobrecida e fragilizada,
incapaz de fazer frente às exigências da administração portuguesa, assim como a
pressão para a adaptação a um sistema económico que se abstinha do tráfico da
escravatura. Em síntese, as populações, ou cediam as suas terras, ou fugiam ou, ainda,
em alternativa, produziam e pagavam o que lhes era exigido, permanecendo nos locais.

O colapso dos Namarrais


A estas alíneas que apresento como principais motivos de reacção à
implementação do sistema colonial falta acrescentar o ambiente de intriga, de
espionagem, de trocas de informação mais ou menos verdadeiras, de actos de
vassalagem e de rupturas, que afectaram a coesão da confederação Namarral.

20
A administração portuguesa estava plenamente imiscuída neste clima de intriga
sistemática, ao ponto de chegar a entrar em choque com os principais comerciantes das
“Terras Firmes”, entre eles Gulamo Mussagy, que uma “filha” de Naguema denunciou52
como sendo aliado de Marave, contra os interesses portugueses53.

Alguns chefes africanos estabeleceram alianças com os portugueses para


defrontarem homólogos com quem disputavam objectivos comuns: “Os principais
adversários dos chefes africanos poderosos foram, muitas vezes, outros chefes africanos
e não sempre os portugueses” (Maman, 2000, p.5). Em 1899, havia uma grande
contenda entre chefes do interior, o que levou um deles (Mutupa) a solicitar apoio à
administração portuguesa, acusando os Namarrais de dificultarem as viagens em
direcção às lojas de Ampapa54.

Com tudo isto, naturalmente, a sociedade Namarral irá colapsar. O rapto da filha
de Naguema pelos portugueses, que a mantiveram presa na fortaleza da Ilha de
Moçambique, terá sido o corte final. Esta “filha” seria, muito provavelmente, a
sucessora de Naguema, o que provocou forte desequilíbrio na sociedade. A
contrapartida imposta pelos portugueses, que exigia a entrega de todo o armamento dos
Namarrais, não permitia a sobrevivência do novo Estado. Informações de Julho de 1898
permitem compreender o clima de cedência que os Namarrais estavam a viver:

(…) A Naguema está residindo n’uma outra [palhota] no Nacolua, que diz ser junto d’Ampia, e
visita diariamente a palhota onde foi presa a filha Mâquia, aonde estão depositadas 10 armas e 16 caixotes
que diz serem munições de guerra, ainda fechadas, tudo entregue à guarda de 20 homens da Naguema e
14 do Marave, além d’outros que rondam aquelles sítios. Aguardam ordens do Mucuto para entregar
aquelles objectos. (…)
(…) A Naguêma (a quem o Mucuto-muno trata por mãe, mas não é) deseja de preferência a filha
Máquia ao Marave, o que é confirmado por informações dadas pelo comandante do Ibrahimo.

52
A “filha” de Naguema terá agido desta forma numa tentativa de sequestro da sua “irmã”, refém da
administração portuguesa.
53
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo-Geral de Moçambique, Cx.8.52,
Estante A b 2, 2º semestre de 1899; doc. nº 2, de 01.07.1899: ofício do capitão-mor das Terras da Coroa,
no Mossuril, António Camisão, para o Secretário do Governo-Geral.
54
Id., ibid.

21
Acrescenta o preso que em Naguema há soldados landins prisioneiros e não feridos, que elles
pretendem trocar pela Máquia, em logar do Marave. (…) 55

O processo de cedência face à força colonizadora prolongou-se por mais de dois


anos. Em Maio de 1899, ainda se negociava a entrega total do armamento e das
munições em troca da filha de Naguema, que continuava presa:

(…) Cumpre-me participar a V. Sra. que, conforme estava preparado, me encontrei hontem, junto do
posto da Naguema, com o Mucuto-muno, rainha Naguema e régulo Nhaconona, de junto do Ibrahimo e
presumptivo successor do Mucuto. Acompanharam-os uns 600 a 700 homens, todos armados, d’entre os
quaes uns 250 teriam espingardas, na quasi totalidade de pederneira.
Esta gente que foi successivamente chegando desde o meio dia, em que se apresentaram 2
ajudantes de Mucuto, ia e voltava amuidadas vezes com o fim evidente de examinar se haveria perigo, ou
se o posto estava reforçado, etc., até que tendo retirado todos os armados de espingardas appareceram
finalmente às 4 h p.m., formando uma pinha compacta em que luziam os canos das espingardas mas em
que era impossível descortinar os régulos tanto se apertavam em torno d’elles. Fui fallar-lhes a uns 200
metros do porto d’onde o medo extraordinário os não deixara avançar.
Em resumo o Mocuto e Naguema protestaram a sua affeição e obediência ao governo lastimado-
se de que este lhes houvesse feito guerra, pelo que estavam com medo de se apresentar; emquanto à filha
da Naguema está presa, manifestam a maior desejo de que ella regresse às suas terras em liberdade,
insistindo eu na entrega d’armamentos e munições que elles porém disseram não ter podido reunir
totalmente, pelo costume que têm os macuas de guardar a maior parte do que apanham; contudo que
andam procurando obter essas armas e que me mandariam resposta, que eu talvez conseguisse ahi mesmo
mais definitiva se por minha parte não cumprisse attender ao assumpto da última confidencial recebida.
Que me pareceu útil esta primeira entrevista e estou inteiramente persuadido de que o Mocuto-
muno e a Naguema, virão até mesmo à Capitania, e que pretendem levar a prisioneira da Praça e de que
nenhum d’elles deseja guerrear o Governo (…).56

O ano de 1913 é a data que assinalei para o “fim político dos Namarrais”. Os
seus chefes foram vencidos e dominados pelos militares portugueses, a confederação
dos chefes do interior e do litoral claudicou face à superioridade técnica e militar
daqueles e face a um conjunto de circunstâncias inerentes à desestruturação económica
e social dos novos Estados, então em curto período de formação. A população optou,

55
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo do Distrito de Moçambique, Cx.8.9,
M2, Doc.1 a 116, 1897 a 1899; doc. nº 86, de 25.07.1898: ofício do capitão-mor das Terras da Coroa, no
Mossuril, António Camisão, ao governador do distrito.
56
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo do Distrito de Moçambique,
Cx.8.9, M2, Doc.1 a 116, 1897 a 1899; doc. nº 86, de 25.07.1898: ofício do capitão-mor das Terras da
Coroa, no Mossuril, António Camisão, ao governador do distrito.

22
ora por ficar nas mesmas terras integrando-se noutras estruturas de base tradicional
linhageira, ora por se dispersar em direcção às terras de Angoche. Contudo não
perderam o sentido de identidade local. Este sentido de identidade vive na trama da
memória colectiva, submetida a flutuações e transformações, mantendo-se, no entanto,
correlacionadas: identidade e memória. A identidade é a memória e a imagem de si para
si e para os outros, mesmo numa circunstância de desagregação física e espacial do
grupo (Pollak, 1992).

A “experiência” Namarral não foi longa mas passou por fases de aliança,
confronto, resistência e submissão. No que se refere à incorporação do Norte de
Moçambique no Estado colonial, concordo com Malyn Newitt, quando escreve que o
distrito de Moçambique foi “a última zona onde os Portugueses impuseram o seu
domínio de facto e onde se lhes deparou a oposição mais prolongada e determinada”
(Newitt, 1997, p.353). No entanto, a explicação para esse domínio tardio não se deve
somente à resistência namarral. Ela deve-se também ao facto de haver uma
funcionalidade normalizada da nova economia comercial no território que,
efectivamente, não deixaria de funcionar, com ou sem ocupação efectiva, pelo que esta
aparece como uma obrigação incontornável por motivos políticos e ideológicos por
parte das potências europeias, mais do que por uma necessidade de desenvolvimento
dos interesses dos portugueses no próprio território.

Em síntese, deixo uma imagem do percurso do povo Namarral, um pequeno


Estado formado a partir de uma sociedade tradicional, constituído por grupos étnicos e
pluri-étnicos, que adoptaram novos sistemas estratégicos e tácticos, novos processos de
angariação de armas e de munições, com capacidade de movimentar populações e
constituir alianças num sistema confederativo, com o objectivo da coesão e equilíbrio
demográfico capaz de resistir a pretensões militares de ocupação territorial e
desconstrução de um sistema económico que lhes era favorável.

Este pequeno Estado enfrentou a superioridade tecnológica e logística da


potência colonizadora (armamento, infraestruturas de circulação, técnicas e estratégias
militares, redes de comunicação) e adequou o ritmo e a intensidade da sua resistência à
mesma velocidade e extensão da colonização (Mwanzi, 1990, pp.77-82). E claudicou.

23
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Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo-Geral de Moçambique, Cx8.156, M1,
Docs.1 a 147, 1892 a 1897; doc. nº 56, de 18.05.1896: resposta ao questionário feito pelo Governador-
geral às capitanias-mores, de acordo com a Circular nº23 de 5 de Maio de 1896, enviado pelo capitão-mor
das “Terras Firmes”, Major Joaquim Clemente d’Assumpção.

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M1, Doc.1a 147,1892 a 1897; doc. nº 84, de 21.08.1896: ofício do oficial encarregado da cobrança do
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M2(1), Doc.1 (caderno, relatório), 1897; doc. nº 1, de 15.02.1897: relatório do comandante militar de
Natule, D. Miguel Henriques de Menezes Alarcão, informando que Namarrais e Maraves continuavam a
ser rebeldes.

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8.10, M.1 (3), Doc. 1 a 35; doc. de 24.04.1897: relatório do alferes Guerra Viana e Andrade à Repartição
Militar do distrito de Moçambique.

24
Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo-Geral de Moçambique, Cx.8.156,
M1, Doc.1 a 147, 1892 a 1897; doc. nº 155, de 26.04.1897: relatório do combate da Muchelia no dia 13
de Abril de 1897 por forças do Marave, escrito pelo alferes José Xavier Ferreira de Barros.

Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo do Distrito de Moçambique, Cx.8.10,
M1 (10), Doc.1 a 26; doc. de 14.05.1897: relatório do comandante militar de Moginqual, tenente Duarte
Augusto, enviado ao governador do distrito.

Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo do Distrito de Moçambique, Cx.8.9,
M2, Doc.1 a 116, 1897 a 1899: doc. nº 62, de 29.11.1897: ofício do capitão-mor das Terras da Coroa, em
Mossuril, José Carrazedo Andrade, à Secretaria militar do distrito contando que os chefes do interior da
Macuana se queixaram dos chefes namarrais (este era Metochera) que lhes embargava o passo quando
passavam pelas suas terras.

Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo do Distrito de Moçambique, Cx.8.15;
doc. de 10.12.1897: ofício do comandante do posto da Matibane ao capitão-mor das Terras da Coroa.

Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo do Distrito de Moçambique, Cx.8.9,
M2, Doc.1 a 116, 1897 a 1899; doc. nº 86, de 25.07.1898: ofício do capitão-mor das Terras da Coroa, no
Mossuril, António Camisão, ao governador do distrito.

A.H.M., Fundo do século XIX, Governo do distrito de Moçambique, Cx.8.10, M1 (2),; doc. nº 147, de
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Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo do Distrito de Moçambique, Cx.8.15,
D a 3, M1(1 a 9)- 1883-1899, M2(1 a 15)- 1857-1896, M3(1 a 37)- 1850-1899, M4(1 a 14)- 1881-1892,
M5(1 a 12)- 1852-1900; doc. nº 13, de 02.10.1898: ofício do comandante militar de Muchelia a José
António de Araújo Júnior, ao capitão-mor das Terras Firmes.

Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo-Geral de Moçambique, Cx.8.52,


Estante A b 2, 2º semestre de 1899; doc. nº 2, de 01.07.1899: ofício do capitão-mor das Terras da Coroa,
no Mossuril, António Camisão, para o Secretário do Governo-Geral.

Arquivo Histórico de Moçambique, Fundo do século XIX, Governo-geral, Correspondência recebida de


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