INTRODUÇÃO
Incluir alunos surdos nas escolas regulares é um grande desafio, mas também uma
oportunidade incrível para o nosso sistema de ensino. No meio de tudo isso, a Língua
Brasileira de Sinais (Libras) aparece não só como uma forma de se comunicar, mas como
a língua e a cultura própria da comunidade surda brasileira. Ela é essencial para que a
educação seja realmente inclusiva e justa. A Libras vai além de simplesmente permitir a
comunicação; ela é a base para o desenvolvimento do pensamento, das emoções e das
relações sociais dos estudantes surdos. Com ela, eles conseguem acessar o conhecimento,
se expressar e interagir de verdade com o mundo ao seu redor.
Historicamente, a educação de pessoas surdas no Brasil teve várias abordagens,
muitas delas focadas em "normalizar" o surdo através da fala e da audição, deixando de
lado a importância de sua língua e cultura. Mas, nas últimas décadas, as coisas mudaram
bastante. Graças a movimentos sociais e leis, a Libras foi reconhecida como um meio
legal de comunicação (Lei nº 10.436/2002) e os surdos ganharam o direito à educação
bilíngue (Decreto nº 5.626/2005). Essa mudança nas leis e na sociedade abriu o caminho
para a Libras entrar nas escolas regulares. É fundamental que os alunos surdos não sejam
apenas observadores, mas participantes ativos e protagonistas do seu próprio aprendizado.
Como a especialista Ronice Quadros (1997) destaca, aprender a Libras, que é a língua
natural dos surdos, é superimportante para que eles desenvolvam o raciocínio e construam
sua identidade. Se esse aprendizado não acontece cedo, podem surgir muitas dificuldades
no desenvolvimento.
Ter a Libras na escola regular mostra um compromisso claro com a justiça na
educação e com o respeito à diversidade de línguas e culturas. Ao adotar a Libras, as
escolas abrem as portas para que os alunos surdos acessem todo o conteúdo, participem
ativamente das aulas e interajam de forma significativa com colegas e professores. Isso
não significa apenas ter um intérprete de Libras em sala; envolve uma mudança em todo
o ambiente escolar. A Libras precisa ser usada em vários momentos, desde as conversas
do dia a dia até a criação de materiais didáticos que todos possam entender. É fundamental
que os professores e outros profissionais da educação aprendam Libras, transformando a
escola num espaço realmente bilíngue e que valoriza a cultura surda. Para Carlos Skliar
(2000), a educação bilíngue para surdos não é só uma questão de método, mas uma forma
essencial de reconhecer as diferenças e garantir o direito à língua e à cultura surda, que
são a base para o desenvolvimento de identidades completas.
No entanto, colocar a Libras nas escolas regulares tem seus desafios. Alguns dos
principais são: formar e capacitar professores em Libras, ter intérpretes qualificados
disponíveis, criar materiais didáticos acessíveis e conscientizar toda a comunidade escolar
– pais, alunos ouvintes e funcionários – sobre a importância da Libras. Por exemplo, a
falta de investimento em cursos para os educadores pode atrapalhar a qualidade da
comunicação e, por consequência, o aprendizado dos alunos surdos. Da mesma forma, ter
poucos intérpretes de Libras que dominem várias áreas do conhecimento pode limitar o
acesso desses alunos a conteúdos mais complexos. Ana Claudia Balieiro Lodi (2013)
aborda a importância da formação de professores e o papel crucial do intérprete de Libras
como alguém que faz a ponte entre as línguas e culturas nesse processo de inclusão,
reforçando a necessidade de um bom apoio pedagógico. A relevância de materiais
didáticos bilíngues e adaptados, como os criados por Tanya de Almeida Felipe (2007),
também é essencial para o sucesso dessa inclusão.
Além de tudo isso, a chegada da Libras beneficia toda a escola, incentivando a
empatia, a compreensão das diferenças e o desenvolvimento de novas formas de
comunicação para os alunos ouvintes. Alunos ouvintes que aprendem Libras não só
aumentam o que sabem de idiomas, mas também se tornam mais conscientes sobre a
diversidade humana e a importância de incluir a todos. Isso ajuda a formar cidadãos mais
críticos e engajados. Assim, a escola vira um lugar de convivência, onde a diversidade é
celebrada e as barreiras são superadas, promovendo uma sociedade mais justa e
igualitária, como mostram pesquisas sobre o cérebro e o bilinguismo (Capovilla &
Raphael, 2001).
Em resumo, implantar a Libras nas escolas regulares é um passo essencial e
urgente para construir um ambiente de ensino mais justo, acolhedor e acessível para todos.
É um investimento no futuro dos alunos surdos, garantindo a eles o direito a uma
educação de qualidade em sua própria língua. Mais do que isso, é um caminho para
enriquecer a experiência educacional de toda a comunidade escolar, promovendo a
inclusão de forma completa e construindo uma sociedade mais consciente e respeitosa
com as particularidades de cada pessoa.
Referências Bibliográficas
BRASIL. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de
Sinais - Libras e dá outras providências. Brasília, DF, 2002.
BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei no 10.436,
de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras, e o art. 18
da Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Brasília, DF, 2005.
CAPOVILLA, Fernando César; RAPHAEL, Walkiria Duarte. Dicionário enciclopédico
trilíngue da Língua de Sinais Brasileira (Libras). São Paulo: EDUSP, 2001.
FELIPE, Tanya Amara de Almeida. Libras em Contexto: curso básico - livro do professor.
Rio de Janeiro: Arara Azul, 2007.
LODI, Ana Claudia Balieiro. O intérprete de Libras e a educação bilíngue: desafios e
perspectivas. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO BILÍNGUE PARA
SURDOS, 2., 2013, Florianópolis. Anais.... Florianópolis: UFSC, 2013. p. 1-15.
QUADROS, Ronice Müller de. Educação de surdos: a aquisição da linguagem. Porto
Alegre: Artmed, 1997.
SKLIAR, Carlos. A Invenção e a Exclusão da Surdez: um estudo sobre as relações entre
saber, poder e diferença. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2000.