INFÂNCIA NEGRA EM PERSPECTIVA: TRAJETÓRIAS HISTÓRICAS,
SABERES EDUCACIONAIS E OS DESAFIOS DO RACISMO ESTRUTURAL.
Simone Helen Drumond Ischkanian
Gladys Nogueira Cabral
Sandro Garabed Ischkanian
Silvana Nascimento de Carvalho
Gabriel Nascimento de Carvalho
O artigo "Infância negra em perspectiva: trajetórias históricas, saberes educacionais e os desafios do racismo
estrutural" discute as condições sociais, históricas e educacionais que moldam a vivência da infância negra no Brasil,
evidenciando os impactos do racismo estrutural nas experiências escolares e sociais dessas crianças. Através de uma
análise crítica e interseccional, os autores contextualizam as múltiplas formas de exclusão que historicamente afetam
crianças negras, destacando o modo como o sistema educacional muitas vezes reproduz desigualdades raciais. O texto
também ressalta a potência dos saberes educacionais construídos nas vivências coletivas e na cultura afro-brasileira,
propondo estratégias pedagógicas voltadas à valorização da identidade negra desde a infância. O estudo defende a
necessidade urgente de práticas educacionais antirracistas, capazes de promover uma escola inclusiva, democrática e
atenta às subjetividades das infâncias negras. A infância negra é tratada como um campo de disputa por direitos,
reconhecimento e pertencimento, exigindo o comprometimento da sociedade e da escola na desconstrução de estigmas
e preconceitos enraizados.
Palavras-chave: Infância negra. Racismo estrutural. Educação antirracista. Saberes afro-
brasileiros. Trajetórias históricas. Inclusão escolar. Direitos da criança.
1. INTRODUÇÃO
A infância negra no Brasil constitui um campo de saberes, experiências e lutas que
transcendem as estatísticas e os diagnósticos educacionais. Trata-se de um universo marcado por
memórias ancestrais, resistências cotidianas e construções coletivas que demandam atenção,
escuta sensível e reconhecimento.
Compreender a infância negra sob uma perspectiva ampla é reconhecer que a educação é
um espaço de disputa simbólica e política, onde se constroem ou se negam identidades,
pertencimentos e direitos. Nesse cenário, as questões raciais emergem como tema central para a
formação de uma sociedade mais justa, inclusiva e plural, envolvendo dimensões históricas,
sociais e pedagógicas que precisam ser enfrentadas com responsabilidade ética e compromisso
coletivo. O racismo estrutural, que ainda persiste nas instituições educacionais, desafia
educadores, gestores, estudantes e a sociedade a repensarem suas práticas, discursos e silêncios. A
infância negra, muitas vezes invisibilizada ou estigmatizada, precisa ser reconhecida como sujeito
histórico, cultural e político, com direitos plenos à educação de qualidade e ao respeito por sua
dignidade.
A valorização da infância negra exige que o ambiente escolar seja um espaço de
construção de memórias, afetos e saberes que reconheçam e respeitem as diversas formas de ser e
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existir. Quando crianças negras não se veem representadas nos livros didáticos, nas narrativas
escolares ou nos espaços de decisão, há uma ruptura simbólica que compromete o processo de
identidade e pertencimento. Isso evidencia a urgência de se reconfigurar o currículo, os materiais e
as práticas pedagógicas para que todas as infâncias se sintam incluídas e valorizadas. O respeito ao
próximo, neste contexto, não se limita à cordialidade ou à convivência pacífica, mas se traduz em
ações concretas de justiça, reparação e equidade.
É fundamental compreender que a infância negra não é homogênea: ela é plural, rica em
experiências, marcada por regionalidades, religiosidades, modos de vida e linguagens diversas. No
entanto, diante de um modelo educacional historicamente eurocentrado, muitas dessas
manifestações são ignoradas ou tratadas como inferiores. Essa negação afeta o desenvolvimento
emocional, intelectual e social das crianças negras, ao mesmo tempo em que compromete o
potencial de uma educação realmente democrática. Reconhecer essa diversidade é um gesto de
respeito ao próximo e de abertura para a construção de uma sociedade menos hierárquica e mais
empática.
A filosofia Ubuntu, originária das tradições africanas, oferece um caminho ético potente
para se pensar a convivência humana e a educação das infâncias negras. O princípio ―Umuntu
ngumuntu ngabantu‖ – ―uma pessoa é uma pessoa por causa das outras pessoas‖ – sintetiza a ideia
de que somos constituídos pelas nossas relações e que o bem-estar coletivo é condição para a
felicidade individual. Essa ética relacional nos convida a cultivar o cuidado, a solidariedade e o
reconhecimento mútuo como valores essenciais à vida em sociedade. Incorporar Ubuntu à prática
pedagógica significa considerar cada criança como parte de uma rede de vínculos afetivos,
culturais e históricos, que merecem ser respeitados e fortalecidos.
Educar com base no respeito ao próximo exige mais do que boas intenções: requer
formação, escuta sensível, abertura ao diálogo e compromisso político com a transformação das
estruturas que ainda perpetuam desigualdades. No caso da infância negra, isso significa
reconhecer as marcas deixadas pelo racismo e atuar de forma ativa para combatê-las, valorizando
a cultura afro-brasileira e promovendo ambientes escolares acolhedores e representativos. O
respeito, nesse sentido, torna-se uma prática pedagógica, um princípio que orienta decisões
curriculares, relações interpessoais e políticas institucionais.
As trajetórias históricas das populações negras no Brasil estão entrelaçadas com
resistências, ancestralidades e saberes que precisam ser valorizados na escola. Ao incluir a história
e a cultura africana e afro-brasileira no currículo, conforme determina a Lei 10.639/03, a escola dá
um passo importante rumo à reparação histórica e à valorização da diversidade. No entanto, não
basta apenas cumprir a lei formalmente; é necessário ir além da folclorização e promover uma
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abordagem crítica, contextualizada e comprometida com a desconstrução do racismo. O respeito
ao próximo, nesse cenário, passa pela valorização dos saberes de matriz africana como parte
legítima do conhecimento escolar.
O ambiente escolar deve ser um espaço de escuta ativa, em que todas as vozes sejam
reconhecidas e acolhidas. Para as crianças negras, muitas vezes silenciadas ou vistas como
"problemáticas", é fundamental que suas experiências, culturas e modos de ser tenham lugar de
expressão e protagonismo. O respeito ao próximo envolve, portanto, criar condições para que
essas vozes não apenas sejam ouvidas, mas se tornem parte da construção coletiva do saber. Isso
contribui para o fortalecimento da autoestima, da identidade e da autoconfiança das infâncias
negras, elementos essenciais para seu desenvolvimento integral.
A infância é uma fase de formação de valores, e é nessa etapa que se estabelecem muitas
das percepções sobre si e sobre o mundo. Quando a criança negra cresce em um ambiente que
respeita sua história, valoriza sua cultura e reconhece sua beleza, ela tem maiores condições de se
desenvolver de forma saudável e confiante. Em contrapartida, quando é exposta a práticas
discriminatórias, omissões ou estereótipos, corre o risco de internalizar sentimentos de
inferioridade e exclusão. O respeito ao próximo, nesse contexto, é também uma forma de proteção
emocional e psicológica, essencial para garantir o direito à infância plena.
A presença de professores(as) e gestores(as) comprometidos com a equidade racial é um
fator decisivo para a transformação do cenário educacional. A formação inicial e continuada de
educadores deve incluir o debate sobre relações étnico-raciais, colonialismo, negritude e
diversidade cultural. O respeito à infância negra passa, portanto, por um compromisso ético e
profissional com uma educação que acolhe, escuta e valoriza todas as crianças, especialmente
aquelas que historicamente foram marginalizadas. Mais do que evitar o preconceito, é preciso criar
condições para a valorização ativa das diferenças.
A cultura afro-brasileira é um patrimônio de imensa riqueza, expressa em diversas formas
de arte, religiosidade, culinária, música, linguagem e modos de vida. Incorporar esses elementos
ao cotidiano escolar é uma forma de reconhecimento e respeito. Além disso, promove o diálogo
intercultural e o fortalecimento das relações sociais baseadas na valorização da diferença. A
pedagogia do respeito, nesse caso, transforma-se em ação concreta, aproximando saberes
populares e acadêmicos, e rompendo com a lógica da inferiorização cultural.
O respeito ao próximo também se manifesta na escuta das famílias negras, na valorização
de suas histórias e na construção de vínculos entre escola e comunidade. Muitas vezes, a infância
negra é interpretada a partir de visões estigmatizadas que recaem também sobre suas famílias,
como se a ausência de determinados padrões culturais fosse sinal de negligência. É preciso superar
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essas leituras preconceituosas e construir parcerias com as famílias, reconhecendo-as como
sujeitos de saberes e de direitos, fundamentais no processo educativo.
A educação antirracista não se limita ao combate ao preconceito. Ela propõe uma nova
forma de estar no mundo, baseada no respeito à dignidade humana, no reconhecimento das
diferenças e na promoção da justiça social. Essa educação, inspirada por princípios como os do
Ubuntu, é uma ferramenta poderosa para a construção de sociedades mais humanas, solidárias e
justas. Ao promover o respeito à infância negra, a escola cumpre seu papel social de formar
sujeitos conscientes, críticos e comprometidos com a transformação do mundo.
É essencial também considerar que o respeito ao próximo não é apenas uma questão
ética, mas um direito humano fundamental. Todas as crianças têm o direito de serem respeitadas
em sua identidade, história e subjetividade. Quando esse direito é violado, compromete-se não
apenas o presente, mas também o futuro dessas crianças e de toda a sociedade. Investir na
valorização da infância negra é investir na construção de um mundo mais justo, onde todos e todas
possam viver com dignidade.
No Brasil, onde a maioria da população é negra, é inaceitável que as crianças negras
continuem sendo as mais afetadas pela pobreza, pela violência, pela exclusão e pela evasão
escolar. O respeito ao próximo, nesse caso, deve se traduzir em políticas públicas eficazes, em
práticas escolares inclusivas e em ações que promovam a equidade racial. A infância negra precisa
deixar de ser tratada como exceção ou problema e passar a ser reconhecida como parte legítima e
fundamental do processo educacional e social.
Respeitar a infância negra é reconhecer sua potência, sua história e sua capacidade de
contribuir para a construção de uma sociedade melhor. É entender que nenhuma criança deve ser
deixada para trás, e que todas têm o direito de crescer em ambientes que lhes ofereçam amor,
conhecimento, proteção e reconhecimento. A filosofia Ubuntu nos ensina que somos responsáveis
uns pelos outros, e que só alcançaremos a felicidade coletiva quando cada criança for tratada com
a dignidade que merece. O respeito ao próximo, portanto, não é um ato isolado, mas um
compromisso permanente com a humanidade em sua plenitude.
Ao trazer à tona a reflexão sobre as trajetórias históricas, os saberes educacionais e os
desafios impostos pelo racismo estrutural, o artigo "Infância negra em perspectiva: trajetórias
históricas, saberes educacionais e os desafios do racismo estrutural" oferece uma análise crítica
que, ao mesmo tempo em que denuncia as desigualdades que atravessam a infância negra, aponta
caminhos para uma educação antirracista, libertadora e humanizadora. A proposta pedagógica que
emerge dessas reflexões encontra sustentação na filosofia africana do Ubuntu, termo oriundo das
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línguas zulu e xhosa, que expressa um modo de ser pautado na interdependência, na coletividade e
na solidariedade entre os seres humanos.
Ubuntu nos convida a repensar os modelos individualistas e competitivos predominantes
em nossa sociedade capitalista, propondo, em seu lugar, uma ética do cuidado mútuo, do respeito
às diferenças e da convivência harmônica. Como nos ensina o provérbio xhosa "Umuntu
Ngumuntu Ngabantu" – "Uma pessoa é uma pessoa por causa das outras pessoas" –, somos todos
constituídos por e com os outros. Essa perspectiva tem profunda relevância para a educação das
infâncias negras, pois valoriza os laços comunitários, os saberes partilhados, as memórias
coletivas e o respeito à ancestralidade.
Adotar o Ubuntu como fundamento educacional significa reconhecer que a felicidade de
uma criança preta está ligada à felicidade de sua comunidade, e que nenhuma transformação será
possível sem a escuta, o diálogo e a corresponsabilidade entre todos os envolvidos no processo
educativo. Este estudo reafirma a potência da infância negra como sujeito histórico, cultural e
político, e reforça o papel da escola como espaço privilegiado para a construção de práticas
pedagógicas emancipatórias, que rompam com estigmas, celebrem a diversidade e cultivem a
dignidade humana.
2. DESENVOLVIMENTO
Somente o olhar infantil tem o poder de promover um debate franco e genuíno sobre
estereótipos raciais, porque ele nasce isento dos vícios e preconceitos arraigados pela experiência
histórica de exclusão. A infância, em sua pureza perceptiva, ainda não aprendeu a hierarquizar cor
da pele, traços, cabelos ou nomes. Através desse olhar inocente, é possível perceber os primeiros
indícios de uma sociedade que pode, se assim quiser, se reconstruir sobre bases mais justas,
inclusivas e solidárias. Nesse sentido, valorizar o olhar da criança é reconhecer que nela habita a
força simbólica e transformadora de uma nova humanidade.
É justamente no mundo infantil que reside a potência para questionar as estruturas rígidas
que moldam o pensamento social. As crianças, em suas observações e perguntas, apontam
caminhos que os adultos muitas vezes não percebem ou preferem ignorar. Quando uma criança
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negra se olha no espelho e não se enxerga bonita porque aprendeu que a beleza está sempre no
outro – aquele que tem traços diferentes, cabelo liso e pele clara – temos um sintoma grave de uma
sociedade doente. E é nesse momento que a escola precisa intervir como espaço de cura e
reconstrução do sentido de si.
A grande questão proposta por este artigo é saber se, ainda neste século, é possível
superar os resquícios do racismo estrutural que atravessa gerações. Mais que isso: indaga-se se
essa superação não estaria, precisamente, no vínculo direto com as crianças. O mundo infantil é
fértil, imaginativo e aberto à aprendizagem da diferença e da empatia. Quando guiado com
responsabilidade, ele se torna o terreno mais fértil para desconstruir estereótipos raciais e para
fomentar valores como o respeito, a solidariedade e a valorização da diversidade.
A filosofia Ubuntu surge como contribuição essencial nesse processo. De origem
africana, Ubuntu significa "eu sou porque nós somos", expressando uma ética comunitária e
relacional que reconhece no outro a extensão de si mesmo. Levar esse princípio ao cotidiano
escolar é muito mais do que inserir um conteúdo: é transformar relações, valorizar o coletivo e
reconfigurar a forma como educamos nossas crianças para viver em um mundo em que todos e
todas tenham espaço e dignidade.
Drumond Ischkanian, Cabral, Ischkanian, Carvalho e Carvalho, em sua produção sobre
consciência negra e inclusão, nos convida a olhar para a criança como sujeito de saberes e não
apenas como receptor de conteúdos. Seus escritos alertam para o perigo de uma educação que
silencia a história negra e reforça padrões eurocêntricos de beleza e comportamento. Ao contrário,
ela propõe uma pedagogia do afeto, da escuta e da representatividade como fundamentos para um
ensino que liberte e não oprima.
Quando uma criança preta é valorizada, escutada e reconhecida em sua história, algo
grandioso acontece: ela começa a construir uma autoimagem saudável e confiante. Essa imagem
não se baseia em negação de sua ancestralidade, mas em seu empoderamento. Como destaca Ana
Célia Silva (2011), os livros didáticos ainda precisam avançar na representação justa e plural da
população negra. A escola, portanto, não pode ser neutra – ela é um dos principais espaços de
legitimação da identidade negra ou de sua exclusão.
A Lei nº 10.639/2003 foi um marco importante, pois tornou obrigatória a inserção da
história e cultura afro-brasileira no currículo escolar. Contudo, sua implementação tem enfrentado
obstáculos, especialmente quando professores não se sentem preparados ou não compreendem a
importância da valorização desses saberes. Uma aplicação viva dessa lei exige mais do que datas
comemorativas ou atividades isoladas. Exige mudança de postura, formação continuada e coragem
para enfrentar o racismo nas estruturas da escola e da sociedade.
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Ubuntu, como filosofia, articula-se com uma proposta de educação antirracista e
anticolonial, porque propõe a valorização do outro como parte de si. John Mbiti (1997) já afirmava
que a identidade africana é, antes de tudo, comunitária e interdependente. Isso significa que o
desenvolvimento de uma criança está diretamente ligado à saúde e valorização do grupo ao qual
ela pertence. E é justamente por isso que a infância negra precisa ser cuidada, protegida e
respeitada: não apenas como uma questão ética, mas como fundamento de uma sociedade
saudável.
Os saberes afro-brasileiros, muitas vezes marginalizados no ambiente escolar, constituem
uma riqueza pedagógica inestimável. As histórias orais, os contos africanos, os jogos, as danças,
as músicas e as religiões de matriz africana oferecem oportunidades educativas que estimulam o
pertencimento e a identidade cultural. Como mostram as produções de Drumond Ischkanian e
Gabriela Guedes (2022), inserir esses elementos no cotidiano escolar não é apenas didático, é
também um gesto político de respeito à memória e à dignidade do povo negro.
A criança negra não deve crescer acreditando que precisa se parecer com outra para ser
aceita. Ela precisa aprender que sua beleza, sua história e sua cultura são dignas de
reconhecimento e celebração. Esse é o ponto de partida para a construção de uma autoestima
sólida e de uma identidade orgulhosa. Quando se ensina a uma criança que ela pode ser
protagonista da sua própria história, rompe-se o ciclo da subalternização e inicia-se o processo de
emancipação.
Como mostram as entrevistas de Vania Dias e Manuela Rocha ao portal Lunetas (2025),
o racismo na infância tem impactos psicológicos profundos e duradouros. Crianças que são
vítimas de discriminação tendem a se retrair, perder interesse pelos estudos e apresentar quadros
de ansiedade e baixa autoestima. A escola, enquanto espaço formativo, não pode fechar os olhos a
essa realidade. Promover a inclusão racial não é uma opção, é um dever constitucional e ético.
A filosofia Ubuntu pode ser uma verdadeira bússola ética para lidar com as tensões do
mundo contemporâneo, oferecendo alternativas ao individualismo, à competição e à lógica
meritocrática que tanto prejudica os grupos historicamente oprimidos. Quando ensinamos nossas
crianças a respeitar o outro porque somos parte de um mesmo tecido social, estamos formando
seres humanos mais empáticos e conscientes.
As práticas pedagógicas devem ser orientadas por uma escuta ativa das crianças,
especialmente daquelas que historicamente foram silenciadas. A escola não pode apenas transmitir
conteúdos; ela deve construir vínculos, relações de confiança e pertencimento. Nesse processo, o
respeito ao outro não é uma regra imposta, mas um valor internalizado e praticado diariamente.
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O olhar infantil pode ensinar aos adultos aquilo que muitos desaprenderam: o senso de
justiça, o impulso para a curiosidade e o desejo genuíno de convivência com a diferença. As
crianças não nascem racistas; elas aprendem a discriminar a partir dos exemplos que recebem. Por
isso, a responsabilidade recai sobre os adultos e sobre as instituições que formam esses sujeitos em
desenvolvimento.
Drumond Ischkanian (2011) propõe uma abordagem inclusiva desde a Educação Infantil,
com materiais e atividades que valorizem a diversidade étnico-racial desde os primeiros anos. Isso
significa que as crianças devem se ver nos livros, nas imagens, nos brinquedos e nos espaços da
escola. Deve-se abandonar a lógica da tolerância e adotar a da valorização: não basta aceitar o
outro, é preciso celebrar o que ele representa.
A escola é o local onde a democracia se aprende ou se nega. E a infância negra tem
direito a uma educação que não reproduza a lógica do silenciamento, mas que a empodere. Isso só
será possível com o engajamento coletivo de professores, gestores, famílias e comunidade.
Educação antirracista não é responsabilidade de um grupo isolado, mas de todos que acreditam na
dignidade humana como princípio universal.
Ao valorizar as infâncias negras, valorizamos também o futuro do país. Uma criança que
cresce com autoestima e consciência crítica tem mais chances de se tornar um adulto respeitoso,
solidário e justo. A educação antirracista não beneficia apenas os alunos negros, mas a sociedade
como um todo, pois combate uma das raízes mais profundas da desigualdade brasileira.
Se queremos uma sociedade que respeite verdadeiramente o próximo, precisamos
começar pelas crianças. Precisamos ouvi-las, acolhê-las, ensiná-las a amar a si mesmas e aos
outros. Somente assim construiremos um futuro onde ninguém precisará desejar ser diferente para
se sentir aceito ou bonito. Um futuro onde todas as cores, histórias e saberes caminhem juntos.
Este artigo reafirma que é na infância, e especialmente no olhar infantil, que está a chave
para a superação dos estereótipos raciais. É por meio desse olhar que podemos reconstruir as bases
de uma nova educação, mais humana, mais coletiva, mais ubuntu. E talvez seja esse o maior
legado que podemos deixar: ensinar às nossas crianças que ninguém é melhor que ninguém e que
todos, sem exceção, merecem ser amados, respeitados e livres para ser quem são.
2.1 QUESTÕES RACIAIS
Na trajetória de cada ser humano, segundo o professor Guiraldelli Barbosa, é possível
encontrar fragmentos da experiência coletiva da humanidade. E, ao se observar a história de cada
pessoa negra, percebe-se que, mesmo que de forma diluída, ali estão presentes as vivências de
outros negros e negras, marcadas por trajetórias semelhantes de enfrentamento ao racismo e às
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práticas discriminatórias que, não raro, compartilham origens e impactos. A identidade negra
carrega em si uma herança de resistência, mas também de apagamentos impostos por uma
sociedade que ainda convive com desigualdades estruturais profundas. Nesse cenário, a educação
assume papel central na reconstrução de sentidos, no fortalecimento da identidade e na
desconstrução de preconceitos historicamente consolidados.
O racismo, compreendido como prática de discriminação baseada em características
fenotípicas, alicerçado na crença da superioridade de uma raça sobre outra, foi historicamente
fundamentado em teorias pseudocientíficas, como as evolucionistas do século XIX. Tais teorias
influenciaram a Biologia, a Antropologia e as Ciências Sociais, disseminando a ideia de
hierarquias raciais que inferiorizavam populações negras e exaltavam os padrões brancos
europeus. Embora essas teorias já tenham sido amplamente refutadas no campo científico, suas
consequências ainda reverberam nos espaços de socialização, como a família, a escola, a igreja e a
mídia, perpetuando desigualdades e exclusões. Nesse contexto, a educação se configura como
espaço estratégico para desnaturalizar tais concepções, promovendo práticas pedagógicas que
valorizem a diversidade étnico-racial e assegurem o respeito às diferenças.
Negro não é substância, mas adjetivo, condição socialmente construída e historicamente
manipulada. Muitas vezes, a negritude é tratada como essência, como destino imutável,
reproduzindo estigmas que negam à população negra o direito de ser percebida em sua pluralidade
e complexidade. As questões raciais, portanto, não devem ser lidas apenas como fontes de
conflito, mas como expressão de práticas que violam direitos fundamentais e que atuam na
negação do reconhecimento pleno do sujeito negro. Essas práticas discriminatórias se manifestam,
inclusive, nos currículos escolares – territórios simbólicos de poder – onde muitos estudantes
negros se percebem estrangeiros, ainda que sejam parte legítima daquele espaço.
Nessa perspectiva, os currículos oficiais, muitas vezes, não contemplam de forma efetiva
as narrativas, os saberes e as histórias da população negra. O apagamento cultural e a sub-
representação dos sujeitos negros nos materiais didáticos são marcas de uma desigualdade
epistêmica que precisa ser superada. Como destaca Ana Célia Silva (2011), a representação do
negro nos livros didáticos melhorou em alguns aspectos, mas ainda está distante de uma
abordagem justa e plural. Muitos alunos negros sentem-se deslocados cognitivamente, pois não se
veem positivamente representados nos conteúdos escolares. A educação, nesse contexto, deve ser
compreendida como campo de disputa simbólica e espaço de reparação histórica.
Para romper com esse ciclo, torna-se imprescindível investir em uma educação
antirracista, que vá além do discurso e se concretize em ações pedagógicas cotidianas. A mestra
Rita de Cássia Soares Duque reforça a necessidade de que as relações étnico-raciais sejam
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valorizadas desde a infância, apresentando às crianças diferentes formas de beleza, saber e
existência. Ao abordar questões como o que é o belo, o bom e o justo a partir de múltiplas
perspectivas culturais, a escola contribui para desconstruir estereótipos e ampliar a compreensão
do mundo. Trabalhar tais conceitos desde cedo é uma estratégia poderosa para formar cidadãos
mais conscientes e empáticos.
Educar para a equidade racial é também educar para o respeito ao próximo, para o
reconhecimento da dignidade humana em todas as suas expressões. Muitas crianças, ao
vivenciarem práticas educativas inclusivas, compreendem que o racismo é uma violação dos
direitos humanos e que discriminar alguém por sua cor de pele é injusto e inaceitável. É curioso
perceber que, por vezes, as próprias crianças já compreendem o caráter violento do preconceito,
enquanto muitos adultos ainda se mostram resistentes a rever seus valores. Isso revela que a
educação antirracista não deve se limitar às crianças, mas alcançar também os educadores, as
famílias e toda a comunidade escolar.
O conceito de Ubuntu como um caminho viável e necessário na construção de uma
pedagogia do respeito e da coletividade. Ubuntu, enquanto filosofia africana baseada na
interdependência e no cuidado mútuo, pode ser incorporado como fundamento ético nas práticas
escolares, promovendo o fortalecimento de vínculos, o acolhimento das diferenças e a valorização
das culturas de matriz africana. A ideia de que ―uma pessoa é uma pessoa por causa das outras‖
nos convida a repensar o individualismo dominante e a investir em uma educação pautada na
solidariedade e no bem comum.
A educação, portanto, é a chave para superar barreiras discriminatórias, pois tem o
potencial de transformar mentalidades, romper silêncios históricos e construir uma sociedade mais
justa. Ao garantir que as crianças negras cresçam se reconhecendo como belas, inteligentes e
capazes, a escola contribui para a formação de sujeitos empoderados e conscientes de sua história.
Isso não significa ignorar as dificuldades enfrentadas, mas reconhecer as potencialidades e as
formas de resistência que sempre estiveram presentes nas comunidades negras.
Segundo relatório da UNICEF (2022), crianças negras no Brasil estão mais vulneráveis à
pobreza, à evasão escolar e à violência institucional. Esses dados revelam que o racismo não é
apenas simbólico, mas material, com efeitos concretos na vida de milhões de crianças. A escola
precisa, portanto, ser um espaço de acolhimento e reparação, onde essas realidades sejam
debatidas e enfrentadas com seriedade e compromisso. Políticas públicas eficazes e formação
docente contínua são essenciais para garantir uma educação que combata, de fato, as
desigualdades raciais.
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Enfrentar o racismo exige um esforço coletivo que começa na escola, mas que deve se
estender à sociedade como um todo. A educação não pode ser neutra diante das injustiças. Ela
deve assumir sua função social de transformação, reconhecendo o valor de cada ser humano e
promovendo a equidade como princípio orientador. Só assim poderemos caminhar rumo a uma
sociedade em que a cor da pele não determine o destino de ninguém, e em que todas as infâncias
sejam reconhecidas, valorizadas e respeitadas em sua plenitude.
2.2 A CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DA INFÂNCIA NEGRA NO BRASIL
A infância negra no Brasil foi historicamente silenciada, negada e marginalizada. Desde o
período escravocrata, as crianças negras foram excluídas da concepção tradicional de infância –
aquela idealizada nos moldes brancos, eurocêntricos e burgueses. Enquanto o modelo hegemônico
infantilizou a criança branca, protegendo-a e preparando-a para o futuro, a criança negra foi
destituída de sua infância, sendo vista como mão de obra precoce, como objeto servil ou, ainda,
como presença indesejada nos espaços sociais e educativos. O legado dessa exclusão ainda se
perpetua nas estruturas institucionais e nas políticas públicas, que operam sob lógicas racializadas
de desigualdade, negligência e estigmatização.
Transformar as representações sociais significa transformar os processos de formação de
conduta em relação ao outro representado, bem como as relações com esse outro, porque
na medida em que essas representações não apresentarem objetos de recalque e
inferiorização desse outro, a percepção inicial e o conceito resultando dessa percepção,
em nossa consciência, terá grande aproximação com o real. (SILVA, 2011, p. 29)
A negação da infância negra vai além da ausência de políticas específicas: ela envolve
também a forma como essas crianças são representadas ou ignoradas nos discursos oficiais, na
mídia, na literatura, no currículo escolar e nos materiais didáticos. Conforme aponta Silva (2011,
p. 29), ―transformar as representações sociais significa transformar os processos de formação de
conduta em relação ao outro representado‖. Isso implica que, ao reafirmar representações
inferiorizantes, a sociedade perpetua práticas de exclusão e dificulta a construção de um olhar
sensível, ético e realista sobre as infâncias negras.
A construção histórica da ideia de infância, segundo Drumond Ischkanian, foi
desenvolvida a partir de um padrão eurocentrado e segregador, que ignorou as múltiplas
experiências infantis existentes em contextos de desigualdade racial, econômica e cultural. A
infância negra, nesse cenário, tem sido historicamente marcada por uma constante violação de
direitos – à educação, à saúde, ao lazer, à segurança e ao afeto. Ainda hoje, muitas crianças negras
são privadas de um desenvolvimento pleno, sendo vistas com desconfiança em espaços públicos e
frequentemente criminalizadas nas narrativas midiáticas e institucionais.
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A pesquisadora Simone Helen Drumond Ischkanian, ao abordar temas como a
consciência negra e o ensino inclusivo na Educação Infantil, evidencia a urgência de
reformularmos práticas pedagógicas que invisibilizam ou estereotipam a criança negra. Em suas
produções, como Menina Bonita do Laço e Relação Números e Quantidades, disponíveis em
plataformas digitais como o Pinterest, a autora propõe um ensino que valorize as raízes afro-
brasileiras desde os primeiros anos de escolarização, desafiando os paradigmas eurocêntricos e
promovendo o pertencimento positivo da criança negra no espaço educativo.
Gabriela Guedes (2022), em seu trabalho sobre maternidade atípica e negritude, também
contribui para essa reflexão ao destacar como a interseção entre racismo, deficiência e
maternidade preta exige da sociedade e do sistema educacional uma escuta mais atenta às
especificidades dessas vivências. Ela mostra que, na intersecção entre a infância negra e o
capacitismo, os desafios se multiplicam, exigindo uma abordagem educativa pautada na justiça
social e no respeito à diversidade.
Dados e relatos contemporâneos reforçam que o racismo na infância produz marcas
profundas. As entrevistas de Vania Dias e Manuela Rocha, publicadas pela plataforma Lunetas
(2025), revelam que crianças negras vivenciam situações de preconceito desde muito cedo – seja
através de olhares, comentários, exclusão em atividades escolares ou ausência de
representatividade positiva nos livros e brinquedos. Essas experiências afetam diretamente a
autoestima, a saúde mental e o desempenho escolar, comprometendo o pleno desenvolvimento
dessas crianças.
É nesse cenário que a educação se revela como espaço estratégico para a desconstrução
de estigmas e a promoção de novas narrativas. Uma escola comprometida com a valorização da
infância negra deve ir além das datas comemorativas e incluir permanentemente práticas
pedagógicas antirracistas, que dialoguem com as culturas afro-brasileiras, promovam a
representatividade e incentivem a construção de identidades positivas.
Educar para a equidade racial exige sensibilidade histórica, compromisso político e ética
pedagógica. O reconhecimento da infância negra como legítima, rica em saberes e digna de
cuidado integral é um passo fundamental para a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva
e plural. Superar o silenciamento histórico dessas infâncias significa, antes de tudo, ouvir suas
vozes, valorizar suas culturas e garantir que elas cresçam em ambientes que as acolham e
respeitem plenamente.
2.3 A EDUCAÇÃO, RACISMO E A INVISIBILIDADE DAS INFÂNCIAS NEGRAS
O ambiente escolar, apesar de seu potencial para ser um espaço de inclusão e
emancipação, ainda reproduz desigualdades estruturais que afetam diretamente as crianças negras.
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O racismo estrutural se manifesta não apenas na ausência de representatividade nos materiais
didáticos, mas também na negligência às histórias africanas e afro-brasileiras, além das práticas
pedagógicas que pouco consideram as identidades étnico-raciais. Essa invisibilização compromete
a formação integral do sujeito e reforça estigmas que atravessam gerações.
Simone Helen Drumond Ischkanian alerta que ―a escola, ao ignorar as especificidades
raciais e culturais dos alunos negros, atua como um mecanismo de exclusão simbólica, ao mesmo
tempo em que reforça as barreiras sociais que impedem a plena participação desses sujeitos no
processo educacional‖ (Ischkanian, 2023). Esse mecanismo é sutil, porém eficaz, na manutenção
da desigualdade, pois priva as crianças negras do reconhecimento de suas raízes, identidades e
potencialidades.
Gladys Nogueira Cabral acrescenta que ―a falta de representatividade positiva em livros,
exemplos e contextos escolares impede que crianças negras se vejam refletidas e valorizadas,
afetando sua autoestima e a motivação para aprender‖ (Cabral, 2025). Esse apagamento tem
consequências profundas, pois a identidade racial e cultural são elementos essenciais na
construção da autonomia intelectual e emocional da criança.
Sandro Garabed Ischkanian destaca que ―a precariedade das políticas públicas voltadas
para a educação antirracista resulta em altas taxas de evasão e repetência escolar entre crianças
negras, que convivem com múltiplas vulnerabilidades sociais e econômicas‖ (Ischkanian, 2023).
A escola, portanto, deixa de cumprir seu papel fundamental de garantir igualdade de
oportunidades, reproduzindo um ciclo de exclusão social que impacta diretamente o futuro dessas
crianças.
Silvana Nascimento de Carvalho chama atenção para o fato de que ―a invisibilidade das
histórias africanas e afro-brasileiras no currículo escolar não apenas nega a riqueza cultural desses
povos, mas também legitima práticas racistas e discriminatórias, afetando diretamente a
experiência educacional da infância negra‖ (Carvalho, 2024). Ao desconsiderar essas narrativas, a
escola contribui para um processo de alienação cultural, no qual as crianças negras são induzidas a
se sentirem inferiores ou marginalizadas dentro do próprio espaço educacional.
Complementando essa análise, Gabriel Nascimento de Carvalho afirma que ―superar o
olhar estigmatizante sobre a infância negra exige transformar a escola em um espaço acolhedor,
onde a diversidade é celebrada e as diferenças são reconhecidas como fontes de enriquecimento
para todos‖ (Carvalho, 2023). Isso demanda não apenas mudanças no conteúdo pedagógico, mas
também na formação de professores, nas práticas de avaliação e nas relações interpessoais dentro
do ambiente escolar.
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A reflexão sobre a importância de uma educação que respeite e valorize as identidades
negras encontra respaldo na obra de John S. Mbiti (1997), que afirma que ―a verdadeira educação
deve considerar a cosmovisão africana como parte fundamental para o desenvolvimento integral
do ser humano, promovendo o respeito às diferentes culturas e tradições.‖ A inclusão dessa
perspectiva pode ser um passo decisivo para enfrentar o racismo estrutural que marca a educação
brasileira.
Todavia, dados recentes do IBGE (2022) e relatórios da UNICEF mostram que as
crianças negras são maioria entre aquelas em situação de vulnerabilidade social, evasão escolar e
repetência, reforçando o diagnóstico de um sistema educacional que ainda falha em garantir
equidade racial. Essas estatísticas revelam que, apesar dos avanços legais e das políticas
afirmativas, as barreiras estruturais persistem e exigem ações mais efetivas e integradas.
É urgente que a escola brasileira se comprometa com uma educação antirracista que
valorize as infâncias negras, garantindo não apenas o acesso, mas também a permanência, o
reconhecimento e o protagonismo desses sujeitos. A construção de um currículo inclusivo, a
formação continuada dos professores para lidar com a diversidade étnico-racial, e a adoção de
práticas pedagógicas que promovam o respeito e a valorização das identidades negras são passos
fundamentais para que a educação cumpra seu papel transformador e promova justiça social.
2.4 OS SABERES AFRO-BRASILEIROS E A POTÊNCIA DA CULTURA NEGRA NA
EDUCAÇÃO
Apesar dos inúmeros desafios impostos pelo racismo estrutural e pela invisibilidade
histórica, as crianças negras e suas comunidades mantêm um vasto repertório de saberes e práticas
culturais que são verdadeiros patrimônios simbólicos e educativos. Músicas, danças,
religiosidades, oralidades, tradições, línguas e memórias ancestrais compõem uma riqueza cultural
que não só fortalece a identidade das crianças negras, mas também contribui para a pluralidade e o
enriquecimento do ambiente escolar como um todo.
Valorizar esses saberes no contexto escolar é fundamental para a construção de uma
educação que dialogue efetivamente com a realidade dos alunos, promovendo autoestima,
pertencimento e respeito à diversidade. Como destaca Simone Helen Drumond Ischkanian, ―a
incorporação dos saberes afro-brasileiros nas práticas pedagógicas amplia o horizonte cultural dos
estudantes e contribui para a desconstrução de estereótipos racistas presentes no currículo
tradicional‖ (Ischkanian, 2023). Essa valorização é um passo imprescindível para a construção de
um espaço educativo acolhedor e plural.
Gladys Nogueira Cabral ressalta que ―a escola precisa reconhecer as manifestações
culturais afro-brasileiras não apenas como conteúdos a serem ensinados, mas como fontes vivas de
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conhecimento que possibilitam aos alunos a construção de sua identidade étnico-racial e cultural‖
(Cabral, 2025). Nesse sentido, práticas culturais como o samba, o candomblé, o maracatu, a
capoeira e a literatura oral devem ser compreendidas como elementos pedagógicos que dialogam
com o cotidiano das crianças negras e ampliam suas formas de expressão e aprendizado.
A Lei 10.639/03 representa um marco legal fundamental para esse processo, ao
estabelecer a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira em todas as escolas
brasileiras. Contudo, Sandro Garabed Ischkanian destaca que ―apesar da existência da lei, sua
efetiva implementação ainda enfrenta resistências institucionais e falta de preparo dos
profissionais da educação, o que limita o alcance dos objetivos propostos‖ (Ischkanian, 2023). Isso
evidencia a necessidade de políticas públicas e formação docente contínua que assegurem a
concretização desse direito.
Silvana Nascimento de Carvalho lembra que ―inserir os saberes afro-brasileiros no
currículo escolar é um ato político que desafia a hegemonia eurocêntrica do conhecimento,
contribuindo para a desconstrução do racismo e para a promoção da justiça social‖ (Carvalho,
2025). O reconhecimento da cultura negra na educação não é apenas uma questão de diversidade,
mas uma estratégia de combate às desigualdades e de valorização da pluralidade brasileira.
Gabriel Nascimento de Carvalho enfatiza que ―o protagonismo das crianças negras na
escola está diretamente relacionado à valorização de suas culturas e saberes, o que fortalece sua
autoestima e os incentiva a ocupar os espaços sociais e educacionais com consciência e orgulho de
suas raízes‖ (Carvalho, 2025). Promover esse protagonismo requer um compromisso coletivo,
envolvendo educadores, gestores, famílias e comunidade.
Os saberes afro-brasileiros assumem papel central na construção de uma educação
antirracista e emancipatória, capaz de transformar o ambiente escolar em um espaço de
reconhecimento, respeito e valorização das identidades negras, promovendo a inclusão verdadeira
e o desenvolvimento integral das crianças.
2.5 UBUNTU COMO CAMINHO PARA UMA EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA E
HUMANIZADORA
A filosofia Ubuntu, originária das línguas zulu e xhosa da África Austral, sintetiza um
princípio fundamental: “Eu sou porque nós somos”. Essa ética comunitária contrapõe-se ao
individualismo e à lógica da competição que predominam no modelo ocidental de educação e
sociedade. Ubuntu apresenta uma alternativa humanista e coletiva para a formação educacional,
baseada na interdependência, na solidariedade e no reconhecimento do outro como parte essencial
do próprio ser (Sbardelotto, 2010).
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Aplicar Ubuntu à educação das infâncias negras implica reconhecer que o aprendizado
não ocorre de forma isolada, mas no entrelaçamento das relações humanas, no respeito mútuo e na
valorização das histórias e culturas singulares de cada criança. Simone Helen Drumond Ischkanian
ressalta que ―o Ubuntu orienta uma prática pedagógica centrada na empatia e na escuta ativa, onde
o conhecimento é construído coletivamente, fortalecendo os laços comunitários e promovendo o
senso de pertencimento‖ (Ischkanian, 2023). Essa abordagem é fundamental para superar as
experiências de exclusão e invisibilização sofridas por crianças negras nas escolas brasileiras.
Para Gladys Nogueira Cabral, ―a filosofia Ubuntu reforça a necessidade de uma escola
democrática e inclusiva, que valorize a cooperação em vez da competição, o diálogo em lugar da
imposição e o consenso em substituição ao autoritarismo‖ (Cabral, 2025). Esses valores são
essenciais para a construção de ambientes educativos que respeitem a diversidade étnico-racial e
favoreçam o desenvolvimento integral dos alunos.
Sandro Garabed Ischkanian complementa essa perspectiva ao afirmar que ―incorporar os
princípios do Ubuntu na prática pedagógica implica reconhecer a educação como um ato político e
ético, que deve promover a justiça social e a transformação das relações de poder na escola e na
sociedade‖ (Ischkanian, 2025). Esse compromisso é fundamental para a superação do racismo
estrutural que atravessa o sistema educacional brasileiro.
Silvana Nascimento de Carvalho destaca ainda que ―o Ubuntu inspira uma educação
humanizadora, que valoriza a afetividade, a solidariedade e o cuidado com o outro, rompendo com
a lógica excludente do individualismo e da meritocracia‖ (Carvalho, 2025). Ao aplicar esses
princípios, a escola torna-se um espaço acolhedor onde as infâncias negras podem se reconhecer e
se afirmar em sua totalidade.
Gabriel Nascimento de Carvalho reforça a importância do Ubuntu ao afirmar que ―essa
filosofia oferece um horizonte ético capaz de promover o protagonismo das crianças negras,
através do fortalecimento de suas identidades e da construção coletiva do conhecimento‖
(Carvalho, 2025). Isso significa fomentar uma educação que não apenas forme indivíduos
tecnicamente competentes, mas também cidadãos éticos e conscientes de seu papel na construção
de uma sociedade mais justa.
Segundo Moisés Sbardelotto (2010), Ubuntu representa uma ―alternativa ecopolítica‖
frente à globalização econômica neoliberal, pois coloca a comunidade e a interdependência no
centro das relações humanas, em oposição ao paradigma da competição e do lucro. Essa visão
dialoga diretamente com a proposta de uma educação antirracista e humanizadora, capaz de
transformar a escola em um espaço de construção coletiva de conhecimento, respeito e justiça
social.
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A filosofia Ubuntu, ao ser aplicada no contexto escolar, pode contribuir decisivamente
para a superação das desigualdades raciais e para a promoção de uma educação que valorize a
humanidade compartilhada, fortalecendo as infâncias negras e toda a comunidade escolar.
2.6 A HISTÓRIA, EDUCAÇÃO E PERSPECTIVAS PARA AS QUESTÕES RACIAIS
Ao abordar um tema tão fundamental e ainda pouco explorado como as questões raciais,
torna-se imprescindível que essas discussões ocorram com profundidade e continuidade nas salas
de aula. A educação representa, sem dúvida, um dos caminhos mais eficazes para minimizar e,
eventualmente, erradicar as práticas discriminatórias que atravessam o cotidiano escolar e social.
Simone Helen Drumond Ischkanian ressalta que ―a escola, enquanto espaço de socialização e
produção de conhecimento, deve se assumir como agente transformador, promovendo a
desconstrução dos preconceitos e a valorização das identidades negras como parte essencial da
formação cidadã‖ (Ischkanian, 2023).
Reconhecendo o papel social da escola na transformação da realidade do nosso planeta, é
essencial articular os conceitos de educação, cidadania e raça, ultrapassando meras abordagens
superficiais ou propostas curriculares pontuais. Gladys Nogueira Cabral reforça que ―a educação
antirracista não pode se limitar à inclusão de conteúdos isolados; ela deve promover a construção
de um currículo crítico, que dialogue com a história real do Brasil, reconhecendo a contribuição e
as lutas dos povos negros na formação da nação‖ (Cabral, 2025). Somente a partir desse
entendimento integral a escola poderá cumprir sua função social de combater as desigualdades
estruturais.
Para construir práticas pedagógicas verdadeiramente democráticas e livres de
preconceitos, é imprescindível reconhecer o direito à diferença, que inclui as diferenças raciais
como parte da riqueza da diversidade humana. Sandro Garabed Ischkanian afirma que ―o
reconhecimento da pluralidade racial é a base para a construção de um ambiente escolar inclusivo,
onde o respeito e a valorização das identidades culturais possibilitem o desenvolvimento pleno dos
estudantes‖ (Ischkanian, 2025). Tal reconhecimento demanda ações pedagógicas que promovam
não apenas o respeito, mas o protagonismo dos estudantes negros em sua trajetória escolar.
Desde o início de sua existência, a criança negra enfrenta vulnerabilidades intensas. A
gestação e os primeiros anos de vida, momentos decisivos para o desenvolvimento físico,
cognitivo e emocional, são marcados por múltiplas formas de violência e risco. Silvana
Nascimento de Carvalho destaca que ―as crianças negras estão submetidas a uma realidade de
opressões e desafios que fragilizam seu direito à vida e ao desenvolvimento pleno, decorrentes do
racismo estrutural presente nas políticas públicas e nas práticas sociais‖ (Carvalho, 2025). Essa
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realidade revela um sistema que falha em oferecer a proteção necessária desde os primeiros
momentos da vida.
Paradoxalmente, o próprio Estado — cuja função primordial é garantir proteção e direitos
— muitas vezes se mostra insuficiente para evitar que crianças negras sejam vítimas do
preconceito e das desigualdades. As leis existentes, embora fundamentais, nem sempre têm
eficácia prática para impedir que essas crianças sofram as diversas formas de opressão que
permeiam seu cotidiano. Como lembra Gabriel Nascimento de Carvalho, ―a efetivação dos direitos
das crianças negras depende da articulação entre políticas públicas, educação e mobilização social
para enfrentar as estruturas históricas que perpetuam a desigualdade racial‖ (Carvalho, 2023).
Somente com essa articulação será possível romper o ciclo de exclusão e violência.
Os autores destacam perspectivas positivas para vencer as questões raciais.
Educação antirracista contínua e transformadora: Segundo Simone Helen Drumond
Ischkanian, a educação deve ser um processo constante de desconstrução do racismo, promovendo
a inclusão e a valorização da diversidade desde a infância.
Implementação de currículos que valorizem a cultura negra: Gladys Nogueira Cabral
destaca a importância de incluir no currículo escolar conteúdos que abordem a história, cultura e
contribuições dos povos negros, combatendo o apagamento histórico.
Formação e capacitação de educadores com consciência racial: Sandro Garabed
Ischkanian enfatiza que investir na formação de professores para atuar com sensibilidade e
práticas inclusivas é essencial para o sucesso da educação antirracista.
Políticas públicas afirmativas e inclusivas: Silvana Nascimento de Carvalho ressalta a
importância de ações afirmativas, como cotas, que ampliam o acesso e a permanência de pessoas
negras em diferentes espaços sociais.
Valorização e representatividade cultural nos meios de comunicação e artes: Gabriel
Nascimento de Carvalho afirma que a promoção da representatividade negra na mídia, literatura e
artes fortalece a identidade e autoestima da população negra.
Engajamento comunitário e participação social ativa: Simone Helen Drumond
Ischkanian defende o fortalecimento das redes comunitárias e movimentos sociais que lutam
contra o racismo e valorizam a cultura negra.
Diálogo intercultural e promoção da empatia: Gladys Nogueira Cabral propõe incentivar
o diálogo aberto e respeitoso entre grupos étnicos, promovendo a compreensão mútua e a redução
de preconceitos.
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Combate sistemático à discriminação institucional: Sandro Garabed Ischkanian aponta a
necessidade de revisar normas e práticas institucionais que perpetuam desigualdades raciais,
promovendo justiça e equidade.
Fomento à pesquisa sobre desigualdades raciais: Silvana Nascimento de Carvalho
destaca a importância do apoio a estudos que ampliem o conhecimento sobre as causas e efeitos
do racismo, indicando caminhos para a superação.
Promoção da autoestima e identidade negra em ambientes educacionais: Gabriel
Nascimento de Carvalho enfatiza a criação de espaços que valorizem as histórias e culturas negras,
fortalecendo o orgulho e a autoconfiança dos alunos.
Implementação da filosofia Ubuntu na educação e na sociedade: Simone Helen
Drumond Ischkanian sugere que a ética comunitária do Ubuntu — centrada no respeito,
cooperação e solidariedade — seja incorporada nas práticas educacionais.
Fortalecimento do protagonismo negro nas escolas: Gladys Nogueira Cabral defende
que as crianças e jovens negros sejam incentivados a ocupar espaços de liderança e protagonismo
no ambiente escolar.
Promoção de eventos culturais afro-brasileiros nas escolas: Sandro Garabed Ischkanian
indica a importância de realizar atividades culturais que valorizem a herança negra, promovendo o
respeito e a visibilidade.
Criação de políticas de combate ao racismo no ambiente de trabalho: Silvana
Nascimento de Carvalho aponta que a inserção de políticas antirracistas nas instituições públicas e
privadas é fundamental para reduzir a desigualdade.
Apoio a lideranças negras na sociedade civil: Gabriel Nascimento de Carvalho destaca o
papel das lideranças negras na articulação de ações afirmativas e na luta contra o racismo
estrutural.
Incorporação das narrativas afro-brasileiras nos livros didáticos: Simone Helen
Drumond Ischkanian ressalta que a inclusão de histórias afro-brasileiras contribui para uma visão
mais plural e justa da história nacional.
Capacitação de gestores escolares para a promoção da equidade racial: Gladys
Nogueira Cabral enfatiza a formação de gestores comprometidos com práticas inclusivas e
políticas antirracistas.
Criação de redes de apoio para estudantes negros: Sandro Garabed Ischkanian sugere a
organização de grupos de suporte para garantir a permanência e o sucesso acadêmico desses
estudantes.
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Valorização das religiões de matriz africana: Silvana Nascimento de Carvalho defende o
respeito e o reconhecimento das práticas religiosas afro-brasileiras como parte da diversidade
cultural.
Estímulo à literatura negra na formação dos alunos: Gabriel Nascimento de Carvalho
aponta que a leitura de autores negros contribui para o fortalecimento da identidade e do senso
crítico.
Incentivo à produção cultural negra nas escolas e comunidades: Simone Helen Drumond
Ischkanian propõe fomentar a criatividade e a expressão artística de jovens negros.
Combate aos estereótipos raciais na mídia e publicidade: Gladys Nogueira Cabral
destaca a importância de campanhas que desconstruam preconceitos e promovam imagens
positivas.
Promoção de espaços seguros para o debate sobre racismo nas escolas: Sandro Garabed
Ischkanian considera fundamental criar ambientes onde alunos possam discutir suas experiências
sem medo.
Adoção de práticas pedagógicas que valorizem o pluralismo cultural: Silvana
Nascimento de Carvalho incentiva metodologias que respeitem as diferenças e promovam o
diálogo intercultural.
Implementação de avaliações que considerem a diversidade cultural: Gabriel
Nascimento de Carvalho destaca a necessidade de métodos avaliativos que reconheçam diferentes
saberes e formas de aprender.
Apoio à mobilização social para a defesa dos direitos das populações negras: Simone
Helen Drumond Ischkanian reforça a importância da participação coletiva na luta contra o
racismo.
Desenvolvimento de campanhas educativas antirracistas em escolas e comunidades:
Gladys Nogueira Cabral sugere a criação de projetos que sensibilizem a população para a
igualdade racial.
Promoção de intercâmbios culturais e educacionais: Sandro Garabed Ischkanian
recomenda experiências que ampliem o contato e a valorização da diversidade.
Fortalecimento da legislação antirracista e sua fiscalização: Silvana Nascimento de
Carvalho ressalta a importância de garantir o cumprimento das leis que protegem os direitos das
pessoas negras.
Estimular o pensamento crítico sobre racismo e desigualdade: Gabriel Nascimento de
Carvalho incentiva a reflexão crítica como instrumento para a transformação social e a construção
da justiça racial.
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Avançar na construção de uma educação antirracista exige a conscientização profunda
sobre as desigualdades históricas que marcam as trajetórias das crianças negras, bem como o
fortalecimento de políticas públicas e práticas pedagógicas que assegurem sua proteção,
valorização e inclusão no ambiente escolar e social. É preciso um compromisso coletivo de
educadores, gestores, famílias e sociedade para que a escola seja um espaço de transformação
social e emancipação, reconhecendo e respeitando as múltiplas identidades que compõem o Brasil
contemporâneo.
2.7 ATITUDES PARA COMBATER O RACISMO INSTITUCIONAL
O racismo institucional é uma realidade presente em diversas esferas da sociedade
brasileira e se manifesta de forma mais evidente nos ambientes de trabalho. Trata-se de um tipo de
discriminação racial que ocorre de maneira estrutural e sistemática dentro das organizações,
impactando diretamente o acesso, a permanência e a ascensão de pessoas negras nos espaços
laborais. Essa prática não depende, necessariamente, de atos explícitos de preconceito, mas se
revela em processos cotidianos de exclusão, invisibilidade e desigualdade, enraizados em normas
e valores historicamente construídos. Combater o racismo institucional, portanto, exige ações
intencionais, políticas antidiscriminatórias e uma mudança de postura coletiva no interior das
instituições públicas e privadas.
Uma das atitudes fundamentais para iniciar esse processo de transformação está na
reformulação dos processos de recrutamento e seleção, considerando critérios de equidade racial.
É preciso compreender que as oportunidades de acesso ao mundo do trabalho não são oferecidas
em condições igualitárias a todas as pessoas. Por isso, a adoção de políticas afirmativas que
garantam a contratação de pessoas negras, a partir de estratégias como vagas afirmativas,
divulgação em canais voltados à população negra e formação de bancas racialmente diversas, é
uma medida necessária para corrigir desigualdades históricas.
Os programas de trainee com foco em grupos sub-representados, especialmente pessoas
negras, surgem como instrumentos eficazes para a inclusão intencional em cargos de formação e
liderança. Tais programas devem ser desenvolvidos com critérios claros de acompanhamento,
formação específica e perspectivas de crescimento real, a fim de não se restringirem a ações
simbólicas ou meramente publicitárias.
A sensibilização sobre temas como racismo estrutural, microagressões, branquitude e
privilégio racial permite que os ambientes corporativos avancem em direção a uma cultura de
respeito, equidade e empatia. Esses treinamentos devem ser contínuos, conduzidos por
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especialistas negros e acompanhados por indicadores que avaliem seu impacto na prática
institucional.
A criação de comitês de diversidade racial também se destaca como uma prática potente.
Esses grupos têm como objetivo acompanhar, propor e fiscalizar as ações voltadas à equidade
racial no ambiente de trabalho. Sua atuação contribui para a construção de políticas internas mais
justas, além de proporcionar um espaço de escuta e representação para os profissionais negros,
cujas vozes costumam ser silenciadas ou negligenciadas nos espaços institucionais.
O monitoramento dos indicadores raciais é outra estratégia necessária para evidenciar as
desigualdades existentes e direcionar ações corretivas. O levantamento de dados sobre cargos,
salários, promoções e desligamentos com recorte racial permite que a organização identifique
onde estão concentradas as disparidades e possa agir com transparência e responsabilidade. Mais
do que levantar números, é preciso transformá-los em instrumentos de decisão e mudança.
As campanhas internas de conscientização também desempenham papel importante no
combate ao racismo institucional. Ao promover a valorização da diversidade, dar visibilidade às
trajetórias de colaboradores negros e estimular o debate sobre relações raciais, as campanhas
contribuem para a construção de um ambiente mais inclusivo e sensível às questões étnico-raciais.
Essas ações devem ser constantes, planejadas e alinhadas aos princípios e valores da instituição.
A adoção de uma política de zero tolerância ao racismo é imprescindível para a
credibilidade e a integridade institucional. Toda empresa ou órgão público deve ter normas claras
de enfrentamento ao racismo, canais de denúncia acessíveis, além de procedimentos ágeis e
transparentes para a apuração de casos. A impunidade, nesses casos, reforça o sentimento de
insegurança e legitima as práticas discriminatórias.
Promover a ascensão de profissionais negros a cargos de chefia e decisão é uma forma
concreta de combater a exclusão e reafirmar a competência e a diversidade como princípios da
gestão contemporânea. Essa visibilidade não deve ocorrer apenas em datas comemorativas, mas
integrar uma estratégia institucional de promoção da equidade.
Para além das ações específicas do mundo do trabalho, há atitudes transversais que
podem e devem ser aplicadas tanto em empresas quanto em instituições educacionais e sociais.
Um exemplo disso é a criação de espaços de escuta e acolhimento racializados, voltados ao
cuidado com a saúde emocional da população negra. As marcas do racismo cotidiano impactam
diretamente o bem-estar e a produtividade das pessoas, e o cuidado com essas questões deve ser
parte da política de valorização profissional.
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A adoção de linguagem inclusiva e antirracista em todas as comunicações institucionais.
Isso inclui a revisão de termos, símbolos, imagens e discursos que reproduzem estigmas raciais,
bem como a adoção de políticas que valorizem a pluralidade e a representatividade.
O apoio à produção de conhecimento negro, seja acadêmico, artístico ou técnico, é
igualmente relevante. Valorizar e disseminar as contribuições intelectuais da população negra
contribui para o fortalecimento da autoestima coletiva, além de romper com a lógica eurocêntrica
que domina os espaços de produção de saber. Essa valorização também pode se materializar por
meio de parcerias com instituições, universidades, coletivos e movimentos sociais negros,
ampliando o diálogo e a participação da sociedade civil na construção das práticas antirracistas.
É necessário que as instituições realizem uma avaliação interna das práticas racistas
naturalizadas. Muitas vezes, procedimentos considerados ―normais‖ escondem uma lógica de
exclusão racial. Rever rotinas, símbolos, regras e critérios de avaliação é um exercício contínuo de
autorreflexão e compromisso com a mudança.
A inclusão de conteúdos afrorreferenciados nos acervos, bibliotecas e materiais
formativos da organização também é uma atitude de impacto, pois rompe com a lógica de
apagamento da história e cultura negras. Isso pode incluir livros, filmes, documentários, biografias
e estudos de autores negros que tragam à tona a pluralidade das experiências afro-brasileiras e
africanas.
Uma aspecto essencial é garantir a equidade no acesso a oportunidades internas, como
bolsas, promoções, cursos e viagens. Tais benefícios devem alcançar de forma justa os
profissionais negros, rompendo com os ciclos de exclusão que muitas vezes se perpetuam no
interior das organizações.
O compromisso institucional com metas antirracistas públicas é um sinal de transparência
e responsabilidade. Estabelecer objetivos mensuráveis, prestar contas à sociedade e envolver os
colaboradores nesse processo são formas de garantir que as ações não se restrinjam ao discurso,
mas se concretizem em práticas transformadoras.
O resgate da história negra local, a adoção de critérios de justiça racial nas decisões
estratégicas, a presença de conselheiros negros em espaços de poder, a promoção do
afroempreendedorismo e a incorporação da ética Ubuntu — baseada no princípio ―eu sou porque
nós somos‖ — completam esse conjunto de atitudes fundamentais para a construção de ambientes
mais justos e igualitários.
Combater o racismo institucional nos ambientes de trabalho é um desafio que exige
compromisso, planejamento e ação. Não se trata apenas de corrigir erros pontuais, mas de
transformar estruturas inteiras que historicamente operaram para excluir. A construção de um
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mundo mais justo, plural e democrático passa necessariamente pela revisão das práticas
institucionais e pela promoção ativa da equidade racial em todas as suas dimensões.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Refletir sobre a infância negra no Brasil significa encarar um passado de silenciamentos,
um presente de desigualdades e um futuro que exige transformações urgentes. A construção
histórica do país relegou crianças negras a uma condição de invisibilidade, estigmatização e
negação de direitos, perpetuando um ciclo de exclusão que se manifesta de forma contundente nos
espaços escolares, familiares, institucionais e comunitários. Enfrentar o racismo estrutural,
especialmente em sua expressão institucional, não é tarefa simples, mas é absolutamente
necessária e inadiável.
A educação é um dos pilares centrais na luta contra o racismo. No entanto, para que ela
cumpra esse papel, precisa ser repensada à luz das contribuições dos saberes afro-brasileiros, das
histórias de resistência e da valorização da identidade negra desde a infância. Isso implica na
implementação real e efetiva de uma educação antirracista, que rompa com os modelos
eurocentrados de ensino e passe a reconhecer as crianças negras como sujeitos de direitos, de
cultura e de saber. É por meio do acesso ao conhecimento, à memória ancestral, à
representatividade e à justiça que se cria um ambiente escolar capaz de acolher, proteger e
promover o desenvolvimento integral da infância negra.
A valorização da diversidade, a inclusão de conteúdos afrorreferenciados, a escuta ativa
das comunidades negras e o fortalecimento de políticas públicas são elementos indispensáveis
para a superação dos desafios impostos pelo racismo. A filosofia Ubuntu, por exemplo, aponta
caminhos éticos e humanizadores para as relações sociais, ao afirmar a interdependência entre os
sujeitos e a dignidade coletiva como princípio de convivência. Ao incorporá-la nos projetos
pedagógicos, nos ambientes de trabalho e nas práticas cotidianas, a sociedade brasileira poderá
promover uma educação e uma convivência social baseadas na empatia, no respeito, na
solidariedade e na justiça.
As instituições – sejam escolas, empresas ou órgãos públicos – têm a responsabilidade de
se posicionarem de forma clara e ativa no enfrentamento do racismo. Isso requer um compromisso
ético que vá além de declarações simbólicas e se traduza em políticas estruturantes, metas
concretas e ações de reparação histórica. É fundamental que essas instituições deixem de ser
espaços que naturalizam desigualdades para se tornarem agentes de mudança, comprometidos com
a construção de um país verdadeiramente democrático, plural e antirracista.
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As crianças negras, seus saberes, suas memórias e seus sonhos precisam ser visibilizados,
respeitados e garantidos em sua integralidade. A superação do racismo estrutural não será possível
sem que se reconheça, com seriedade e profundidade, as marcas da exclusão histórica e,
sobretudo, sem que se crie uma nova lógica de convivência pautada na equidade. Essa
transformação só ocorrerá mediante coragem, compromisso e ação intencional.
Romper com os silêncios históricos e promover o reconhecimento das potências negras é
um desafio coletivo e contínuo. É tarefa da educação, das famílias, das instituições e da sociedade
como um todo.
A infância negra, quando acolhida em sua dignidade, torna-se não apenas um símbolo de
resistência, mas a base concreta e transformadora para a edificação de uma sociedade
verdadeiramente justa e igualitária. Garantir às crianças negras o direito de ser, de pertencer e de
participar plenamente da vida social e educacional é um imperativo ético, político e pedagógico.
Trata-se de reconhecer que a dignidade da infância negra é historicamente violada por estruturas
sociais que naturalizam o racismo, apagam identidades e negam oportunidades.
Quando essa infância é valorizada em sua integralidade — com sua cultura, saberes
ancestrais, afetividades e trajetórias —, toda a sociedade se beneficia. Um país que protege e
respeita suas crianças negras está, na verdade, lançando as bases para um projeto civilizatório que
privilegia a equidade, a diversidade e a justiça social como fundamentos da convivência
democrática.
O direito de existir, aprender, sonhar e florescer em igualdade de condições não pode ser
privilégio de poucos, mas deve ser assegurado como um princípio universal, especialmente
àqueles historicamente excluídos desse processo. Para tanto, é necessário um esforço coletivo de
desconstrução dos paradigmas excludentes, de revisão das práticas institucionais e de promoção
ativa de políticas públicas que visem reparar desigualdades e garantir o pleno desenvolvimento das
infâncias negras.
A justiça racial, nesse sentido, não se constrói apenas com leis, mas com ações concretas
que começam na infância — na forma como as crianças negras são tratadas na escola, nas políticas
de proteção social, na representatividade midiática e no reconhecimento de suas subjetividades.
Delas depende o futuro que queremos construir: um futuro onde todas as crianças,
independentemente de sua cor ou origem, possam crescer em ambientes seguros, respeitosos e
promotores de liberdade, conhecimento e pertencimento. É a partir da dignidade reconhecida e
protegida da infância negra que será possível forjar uma sociedade mais humana, plural e
antirracista.
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REFERÊNCIAS
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