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Revista Caprichoso 2025

O documento apresenta o projeto 'Caprichoso 2025', destacando a importância do Boi Caprichoso e sua conexão com a cultura e a comunidade de Parintins. A palavra do presidente enfatiza a participação coletiva na construção do festival e a valorização dos artistas locais. O conteúdo inclui histórias, tradições e a evolução do festival, refletindo um momento de retomada cultural e identitária.

Enviado por

Sylvia Soares
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Revista Caprichoso 2025

O documento apresenta o projeto 'Caprichoso 2025', destacando a importância do Boi Caprichoso e sua conexão com a cultura e a comunidade de Parintins. A palavra do presidente enfatiza a participação coletiva na construção do festival e a valorização dos artistas locais. O conteúdo inclui histórias, tradições e a evolução do festival, refletindo um momento de retomada cultural e identitária.

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é tempo de retomada

Ministério da Cultura
e Mercado Livre apresentam

O MELHOR TÁ CHEGANDO
EM PARINTINS

4 CAPRICHOSO 2025
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

CAPRICHOSO 2025
5
é tempo de retomada

Expediente
ORGANIZAÇÃO
Ericky Nakanome/Adan Renê/Neandro Marques/Bruna Karla/Carlos Alexandre

CONCEPÇÃO DO PROJETO GRÁFICO


Conselho de Arte do Boi Caprichoso

DIAGRAMAÇÃO E ARTE FINAL


João Marco Nascimento

DESENHOS
Rainer Canto/Júnior Fuziel/Denner Silva/João Fonseca/Inácio Paiva/Gilson
Siqueira/Kedson Oliveira

PESQUISA
Ericky Nakanome/ Adan Renê / Márcio Braz/ Edvander Batista/
Paulo Victor Costa/ Ronaldo Barbosa/ Geovane Bastos/ Larice Butel / Thiago
Yawanawá

TEXTOS
Ericky Nakanome/ Adan Renê/ Peta Cid / Larice Butel / Márcio Braz/ Marcos
Moura/ Eldiney Alcântara/ Vanda Witoto/ Truduá Dorrico/ Rafaela Fonseca/
Gilvana Borari/ Patrícia Patrocínio/ Ronan Marinho

GLOSSÁRIO
Paulo Victor Costa/ Larice Butel/ Ericky Nakanome/ Adan Renê/ Edvander
Batista/ Marcos Moura/ Neandro Marques/ George Borari/ José Kaeté

FOTOGRAFIAS
Michel Amazonas/ Ericky Nakanome/ Sanler Cardoso/ Wigder Frota/ Andreas
Valentin/ Araquém de Alcântara/ Naiá Tupinambá

REVISÃO
Adan Renê/ Márcio Braz

FINALIZAÇÃO
João Marco Nascimento

JORNALISTAS RESPONSÁVEIS
Bruna Karla MTB 0001582/AM / Carlos Alexandre MTB 720/AM / Neandro Marques
MTB 0001732/AM / Peta Cid DRT 070/AM

6 CAPRICHOSO 2025
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

sumário
09
Palavra do Presidente
11
História de quem faz
12
Somos o Boi Caprichoso
17
Territóris da paixão do Boi
história Caprichoso, O Boi de Parintins

18
Filomena Souza, Sila Marçal
20
O Quilombo de São
23
A tecnologia como suporte
24
A Escola de Artes do Boi
e Raimundinho Dutra Benedito da tradição Caprichoso

28
Amazônia de Pé
30
Retomada indígena no
32
Cântico Tupinambá
34
Nossos itens
Caprichoso

52
É tempo de retomada, é
54
É tempo de retomada
56
Noite A
70
Noite B
tempo de Caprichoso!

80
Noite C
94
Glossário
100
Gente que faz o
112
Referências
Caprichoso

114
Ficha Técnica

CAPRICHOSO 2025
7
é tempo de retomada

8 CAPRICHOSO 2025
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

» PA L AV R A D O P R E S I D E N T E

DO GALPÃO À PRESIDÊNCIA: “O CAPRICHOSO


É FEITO POR UM POVO, NÃO POR UM
HOMEM”
por Rossy Amoedo
Presidente do Boi Caprichoso

Hoje estou presidente do Boi Caprichoso, mas sou, antes de tudo, um filho
do galpão.
Hoje estou presidente do Boi Caprichoso, mas sou, antes de respeito, cuidado e dignidade.
tudo, um filho do galpão. Desde a adolescência, acompanho Revitalizamos o galpão porque conheço cada palmo daquele
os artistas que moldam, com as próprias mãos, as formas do espaço. Sei onde falta madeira, onde a lona goteja, onde o
nosso boi. Ao longo desse período, respirei serragem e tinta, artista precisa de luz. Gerencio com a razão, como exige
vi tuxauas nascerem e, depois, ajudei a construir alegorias. a responsabilidade do cargo. Mas vibro como torcedor,
Sou o resultado do chão de “fazeres” de sonhos, magia e da emociono-me como qualquer azul apaixonado quando o
arte parintinense, do suor de quem faz esse festival com a boi pisa forte na arena. Sinto na pele a responsabilidade de
alma, com o coração azulado e com coragem. conduzir um espetáculo grandioso, mas sei que nenhum
título se constrói sozinho.
Cheguei até aqui enfrentando olhares desconfiados
e palavras que tentaram me diminuir. Fui atacado, O espetáculo “É tempo de Retomada” é escrito por muitos
desqualificado, subestimado: não por falta de competência, e muitas. É tecido na indumentária da nossa costureira,
mas por ter vindo da classe operária do Festival de Parintins. soldado no ferro pelo nosso cenógrafo, cantado com garra por
Por não vestir os trajes da elite, mas sim o jaleco manchado nosso levantador de toadas, ensaiado com suor pelos nossos
de tinta, o boné suado, as mãos calejadas. Por vir do povo e dançarinos, sonhado pelos nossos coreógrafos e vivido com
estar com o povo. emoção pelo nosso povo. Cada ser humano azulado que
acredita, que doa seu tempo, sua arte e sua energia para
E talvez seja por isso que cada decisão minha à frente do fazer o Caprichoso brilhar, merece ser reconhecido como
Caprichoso carregue um olhar humano. Sei o que é voltar verdadeiro autor do projeto Tetracampeão.
para casa depois do ensaio, cansado, e ainda ter que andar
léguas até a comunidade. Por isso, uma das primeiras Agradeço à imprensa, que registra nossa história, e a cada
medidas que tomamos foi assegurar transporte digno e pessoa que constrói o Caprichoso com amor, com fé, com
seguro aos nossos brincantes dos bairros mais pobres e resistência e com alma azul e branca.
das comunidades rurais. Vi, de perto, dançarinos ensaiando
descalços, e isso me moveu a buscar parcerias para que O Caprichoso não é feito por um homem. É feito por um povo.
cada um deles tivesse ao menos um par de tênis. Porque
ninguém que representa o nosso boi merece menos do que Muito obrigado.

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B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

hISTÓRIA DE QUEm FAz hIStÓRIA


por Eldiney Alcântara
Jornalista e membro da assessoria de comunicação do Boi Caprichoso

A grande visibilidade do Festival de Parintins não foi construída de um dia


para o outro.

De forma simples e com muita paixão, torcedores animados ano, crescia a cobertura jornalística, o que também ajudava
e visionários perceberam que aquela festa folclórica tinha a crescer a própria festa. Uma simbiose comunicacional e
potencial para ganhar o mundo. No embalo das toadas e das cultural que enaltecia o nome de Parintins.
informações, as notícias percorriam as ruas, estavam nas A imprensa azul e branca se consolidou e o nome Caprichoso
conversas de esquina, nos bastidores do boi, até chegarem se tornou forte e conhecido no Amazonas e no Brasil.
no veículo de comunicação mais usado na época, o rádio. Profissionais como Marcos Santos, Rubi dos Santos,
Foi o próprio povo Caprichoso que começou a levar esse Nelson Brilhante, Aderaldo Reis, Josene Araújo, entre
nome azulado aos quatro cantos da cidade, se expandiu outros, atuaram nessa consolidação do que hoje é a marca
para a capital Manaus e, hoje, chega ao mundo. Nas ondas Caprichoso.
da Rádio Alvorada, o Caprichoso brincou de boi, ainda na Hoje, o Caprichoso conta com uma assessoria formada
década de 50. A comunicação do bumbá se confunde com por profissionais de diversas áreas da Comunicação
a própria história do Festival de Parintins. Foi a imprensa como jornalistas, cinegrafistas, fotógrafos, storymaker,
radiofônica que deu as primeiras notícias do touro negro da videomaker e redatores que justificam toda notoriedade
América. que o bumbá tem no Brasil e no mundo. Um trabalho
Mas, para se chegar à radio, foi preciso a força, a inteligência de divulgação que é reconhecido por grandes marcas
e a paixão de uma mulher. Nascida em berço Caprichoso, internacionais, mostrando a importância da imprensa para
em reduto tradicional azul e branco. Peta Cid escreveu as essa que é uma das maiores festividades artística e cultural
primeiras linhas da história, do cotidiano e até do futuro do do planeta.
boi Caprichoso. Ela precisou sair de Parintins para se tornar É com o trabalho da imprensa que o artista parintinense se
jornalista, mas, seu amor pelo boi à trouxe de volta e ela pôde revela para todos os olhares. Cada entrevista, cada texto
dar início a um trabalho fundamental para a cultura do Boi- ou imagem capturada leva mais que uma informação. Cada
Bumbá de Parintins. Nasce a Assessoria de Imprensa do Boi produto jornalístico criado carrega um sentimento pintado
Caprichoso. em azul e tem a expressão de um povo artístico e guerreiro.
As notícias azuladas ultrapassaram os limites da cidade. Cada notícia vinculada leva em suas linhas a feliz esperança
Embaladas com uma nova rádio (Rádio Clube), o boi-bumbá de transformar a vida das pessoas.
chegou à capital e grandes veículos de imprensa da região
Norte passaram a cobrir o Festival. Da rústica quadra
da JAC (Juventude Alegre Católica), onde os bumbás se
apresentavam, o Festival emergiu para o mundo e, a cada

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é tempo de retomada

SOMOS O BOI CAPRICHOSO


por Peta Cid
Jornalista, Conselheira de Arte e legado apaixonado dos Cid.

É dos sonhos de Roque Cid que a tradição do Boi Caprichoso se eterniza,


sustentada pelo talento e o suor de sua gente, pela arte que consagra
anônimos apaixonados que se orgulham da sua própria criatividade.

No ritmo dos batuques e na poesia da toada, o povo Seus donos e padrinhos guardaram a memória de
Caprichoso, guiado pela estrela, canta o boi da tantas histórias de amor pelo boi preto de veludo.
Amazônia, o Boi de Parintins, o boi da crença, da fé Histórias do “Esconde”, como é chamado um trecho da
e da promessa dos irmãos Cid, refugiados da seca Rua Sá Peixoto, na região do bairro da Francesa, onde
do Nordeste que singraram os rios em busca de nasceu o Caprichoso. Historicamente, uma das áreas
prosperidade. E eu, Peta Cid, sou resultado de tudo mais antigas de Parintins, em que parte da população
isso, o legado deste sonho que virou realidade com a negra da cidade residia.
minha família e que hoje é do Povo Caprichoso. O Esconde obteve fama, assim como o “Urubuzal”,
No palco mitológico do espetáculo, o Boi Caprichoso localizados na mesma rua e que ganhou este apelido
celebra os que escreveram as primeiras linhas de uma por contas das aves de rapina e urubus que se
história linda, de resistência, de terreiros, quintais, refugiavam nas árvores mais altas, as seringueiras e
quilombos, becos e vilas e se consagra pela defesa que logo foi apropriado pelo contrário como uma das
intransigente do bem viver em tempo de retomada, da maneiras de praticar o chamado “racismo recreativo”,
natureza, da floresta e dos seus ancestrais, os povos associando a cor do nosso Boi a dos urubus.
originários, eternos donos das penas. A tradição Caprichoso nasce nesse lugar de memórias
A herança da brincadeira veio das ruas de chão batido, de dona Dinha Cruz, Marilda Cruz e seu esposo, o
iluminadas por lamparinas, dos pés descalços pisando mestre Elcio, de Ilzo Menezes da Cruz, o Pirolote, que
forte, marcando território e os passos da emoção. introduziu o xeque-xeque na Marujada de Guerra. Da

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família Brasil, de Thomás Cid, do Seo Lageiro, do seu da mulher Catirina, ganha novas cores.
Benedito Adeodato, de dona Quixita, filha de Roque Cid Ao celebrar os mitos e personagens do universo
e da neta dele, Nelcina Cid, que guardava a agulha que amazônico, o Boi Caprichoso cria uma nova identidade,
por muitos anos costurou a barra do boi, nos primeiros um sentimento de pertencimento e autoestima.
terreiros dos Cid, onde o Caprichoso foi fundado. O lendário amazônico, os mitos e rituais indígenas,
Em toda a extensão da rua Sá Peixoto, de geração a a vida simples do caboclo ribeirinho, a defesa das
geração, está a história do boi de negro, celebrada pessoas minorizadas, transformam a festa do Boi
nas lembranças do marujeiro Moisés Dray, dona Caprichoso em um palco de luta, de bravura, de amor,
Zezé Pereira, Homero Menezes da Cruz, do Biricote, de bem viver.
do compositor José Carlos Portilho, da costureira Hoje, cada ato valoriza a relação do ser humano com
Ednelza Cid, do padrinho do boi Acinelcio Vieira. a floresta, em uma constante troca com a Mãe Terra.
É o reduto azul de artistas consagrados como Juarez O Caprichoso é um espetáculo teatral preparado por
Lima, Wando Cruz, Cabá Cruz, Deco Cruz, Walace muitas mãos, uma ópera de exaltação à cultura, à
Guerreiro, da sócia Clotilde Valente, da marujeira Dora sabedoria dos povos, aos conhecimentos indígenas,
Pereira, do dirigente do Movimento Marujada, Rogério aos entes da floresta, ao caboclo, ao que há de mais
Jesus. belo nas artes moldadas por artistas da Escolinha de
A memória também resgata currais como o da rua Rio Artes do azul e branco.
Branco, do pescador Luiz Gonzaga, onde o Caprichoso A paixão pelo boi preto se traduz na poesia que o
fez morada por longos anos. Sua dedicação ecoa versador Raimundinho Dutra, filho de Sila Marçal,
na história, como também ecoa a dança de boi nos eternizou:
terreiros de Emídio Vieira, Antônio Boboí, Nascimento “Boi Caprichoso é lapidação de boi-bumbá…”
Cid, Nilo Gama, Ervino Leocádio do Aninga, Luiz Pereira É por isso que quando os tambores da Marujada de
da Cordovil. Exalta padrinhos como José Nossa, Didi Guerra anunciam a festa e os fogos brilham no ar, os
Vieira e outros que impulsionaram a brincadeira, entre sentimentos explodem em paixão azul, a emoção
eles, a madrinha Odinea Andrade e tantos contadores estremece o peito, encanta a alma e a felicidade é
de histórias do Palmares e da Francesa. só mais um verso da poesia que faz o mundo inteiro
Em mais de um século de vitórias, o enredo da cultura vibrar.
popular, o auto baseado na morte e ressurreição do
boi, morto por pai Francisco para satisfazer o desejo

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O SALGADINHO OFICIAL
C A P R I C H O S O 2 0 2DO FESTIVAL DE PARINTINS.
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TERRITÓRIOS DA PAIXÃO DO BOI


CAPRICHOSO, O BOI DE PARINTINS!
por Larice Butel
Historiadora e Conselheira de Arte do Boi Bumbá Caprichoso

Falar sobre a trajetória do Boi Caprichoso é falar de Parintins. Cordovil é o destino de retorno e, por coincidência, o local do
Sobretudo, é falar de identidade e pertencimento. É seguir curral que encerra o ciclo em que o boi possuía donos.
um sentimento de paixão, materializado em um boi de pano
que, brincando em linhas curvas, retas e cruzamentos, deixa Na Rua Gomes de Castro, o Caprichoso demarca mais um
sua história escrita em lugares, espaços que marcam vidas dos seus territórios, agora na parte baixa da Ilha. É o curral
e memórias, impregnando de afetividade a nossa identidade Zeca Xibelão: diferente da atual estrutura, o espaço era
de torcedor. todo cercado com madeiras roliças, lembrando um curral
verdadeiro. Dentro do curral, havia a “Oca do Cacique”,
Aliás, pertencer às múltiplas identidades dos territórios onde os torcedores terminavam a noite, rendendo muitas
azulados é tomar posse de locais como o Bairro da Francesa, conversas animadas.
da rua Sá Peixoto, o Esconde. Localizados na parte baixa de
Parintins, fazem parte da área historicamente mais antiga A Rua Gomes de Castro demarca a fronteira com o Bairro do
da cidade. Palmares. Fica a poucos metros da famosa placa que dividia
o bairro. O Palmares é uma invasão, onde pessoas que haviam
O Bairro da Francesa, pela sua localização, às margens perdido seus pertences foram alocadas para morarem em
de uma lagoa, transborda de acordo com o volume das casinhas de palha, por isso, também era conhecido como
chuvas, levando muitos moradores e moradoras a trocarem “COHABAM de palha”. A exemplo de outros locais que são
de endereço. A área encharcada, como a Feira do Bagaço resultados de ocupações e apresentam alguns problemas
e o Beco Submarino, eram chamadas pejorativamente pontuais, como a violência, no Palmares não foi diferente.
de “bodozal”. O adjetivo, hoje ressignificado pelo Povo Por isso, sinalizamos, em nosso mapa afetivo, o “Canto da
Caprichoso, passou de estigma e preconceito a um Porrada”, um bar hoje muito frequentado não apenas por
dos tantos nomes que os torcedores usam para definir moradores do bairro, mas que antes era o local do encontro
carinhosamente uma das áreas do território azulado. das “galeras” - sempre saíam brigas!

O Caprichoso nasce no Esconde, aparece para Parintins Nessa viagem sobre os territórios azulados de afetividade
encantando torcedores/as e arrebatando corações que se e de memória, o Boi Caprichoso vai proporcionando
tornam azuis. O Esconde ainda guarda outros locais de igual momentos de encantamento, colaborando dessa forma
importância na construção desta cartografia afetiva do Boi para o fortalecimento da nossa identidade azulada,
Caprichoso, como o Urubuzal, ou Quadra das Castanholeiras, tomando conta da cidade, fortalecendo nossa cultura
uma das tantas quadras que foram usadas para a realização Caprichoso. Identidades que estão em processo contínuo
do Festival antes da construção do Bumbódromo. As árvores de (re)construção e que se ajustam conforme as mudanças
da quadra serviam de casa para os urubus, daí o nome. Entre da cidade, das suas representações. Tomando posse de
um bailado e outro, o boi em passeata toma conta das Ruas espaços e sentimentos, o Boi Caprichoso é sim, o boi de
Rio Branco, João Meireles, Beco Marechal Castelo. Parintins!

Saindo da cidade, o Caprichoso vai brincar em volta das


fogueiras, na comunidade do Aninga, sempre guarnecidos
por seus garbosos vaqueiros, os quais - importante lembrar
-, ainda nos dias de hoje vêm da comunidade para fazer valer
a tradição de brincar com o boi. Voltando para a cidade, a rua

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FILOmENA DE SOUZA, SILA MARÇAL


E RAImUNDINHO DUTRA: LEGADO
CULTURAL DE UmA FAmÍLIA NEGRA DO BOI
CAPRICHOSO
por Manoel Marcos de Moura Clementino (Marcos Moura)
Conselheiro de Arte do Boi Caprichoso

A história de Parintins e do Boi-Bumbá Caprichoso na introdução de danças populares, como o Cordão do


se entrelaçam e não podem ser compreendidas sem Pássaro Tucano, em 1906, e influenciando seu marido
a devida valorização dos sujeitos históricos que, na criação do primeiro bumbá de que se tem registro:
mesmo invisibilizados pela historiografia oficial, o Boi-Bumbá Turuna, em 1910, anos antes da criação
exerceram papel fundamental em sua gênese criativa de Caprichoso (1913) e do “boi contrário” (em 1920).
e consolidação. Dentre essas figuras, destacam-se
três grandes nomes de uma mesma família negra: Filomena descende de Daala e Gaspar, africanos
o poeta e compositor do Caprichoso Raimundinho trazidos ao Brasil em 1858, e desde a infância foi
Dutra; a mestra das Pastorinhas, Sila Marçal; e sua iniciada nas expressões culturais de matriz africana,
avó ex-escravizada, grande matriarca cultural da como o maracatu, a dança de Xangô e o jogo-de-perna.
família e da comunidade: Filomena de Souza. Mulher Essas práticas, conforme autores como Salles (2004)
negra, nascida na segunda metade do século XIX, em e Torres (2014) atestam, constituem importantes
Cametá (PA), filha de africanos e detentora de um manifestações do imaginário e da religiosidade
saber ancestral transmitido a ela ainda nos tempos de afrodescendente na Amazônia. Foi nesse contexto
cativeiro. Menina com alma de Griô, fez de Parintins seu que ela se relacionou com o filho de seu “dono”, o
mocambo de amor e liberdade, tornando-se pioneira jovem branco Marçal Mendes de Assunção, afortunado

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B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

comerciante de Cametá (PA), com quem viveu um brasileira.


“amor proibido”, casando-se, em 1888, logo após a
“abolição da escravatura”, e migrando para Parintins, Dessa linhagem nasceu Raimundo Nonato de Jesus
deixando para trás a reprovação racista da família de Dutra, o poeta Raimundinho Dutra, um dos maiores
seu esposo àquela união. nomes da cultura parintinense contemporânea.
Servidor aposentado da Universidade Federal do
A chegada de Filomena e Marçal a Parintins, em 25 Amazonas (UFAM), Raimundinho destacou-se como
de outubro de 1888, marca simbolicamente o início compositor, escritor e referência intelectual do Boi
de uma linhagem que entrelaça cultura popular, Caprichoso. Suas toadas, como “Aquarela do Touro
ancestralidade africana e inovação estética. Em Negro”, “Meu Cântico de Guerra”, “Solo Amado e
1906, Filomena liderou a criação do folguedo Pássaro Mocidade”, compõem o repertório afetivo e simbólico
Tucano, baseado nos rituais dançados aprendidos da nação azulada, ressignificando o boi-bumbá como
ainda em Cametá. Essa manifestação foi precursora expressão poético-musical da memória coletiva afro-
direta do Boi-Bumbá Turuna, fundado por Marçal - indígena, a seguir os passos de sua matriarca.
certamente sob influência de sua esposa negra - em 13
de março de 1910, na Rua Benjamin da Silva, endereço A obra de Raimundinho constitui uma ponte entre
da residência do casal. o saber tradicional e a literatura oral, conferindo ao
Caprichoso uma narrativa própria, profundamente
Embora a autoria do boi tenha sido atribuída a Marçal, enraizada nas experiências de seu povo. Por meio
há elementos históricos e etnográficos que apontam da poesia, ele resgata o valor da oralidade como
para o protagonismo de Filomena na introdução e tecnologia social de resistência e reconhece a cultura
adaptação das práticas performáticas do bumba negra como elemento estruturante da identidade
meu boi no contexto amazônico. Dutra (2005), ao amazônica.
analisar a genealogia cultural da família, sugere esse
protagonismo. A subalternização de Filomena na Essa trajetória de três gerações evidencia uma
narrativa oficial decorre, conforme Torres (2014), negritude criativa que vai além da participação nas
de uma tradição androcêntrica e eurocentrada que manifestações da cultura popular. Trata-se de uma
relega as contribuições femininas e negras à condição dinâmica de invenção cultural em que o sujeito negro,
de invisibilidade simbólica e epistemológica. especialmente a mulher negra, deixa de ser objeto da
história para tornar-se protagonista do fazer artístico
Filomena teve nove filhos. Entre eles, Fé de Souza e da memória social. A experiência de Filomena, Sila e
Mendes, conhecida como Sila Marçal, torcedora do Raimundinho ilustra, assim, o percurso da arte popular
Boi Caprichoso e figura emblemática da tradição afro-amazônica, que, embora sistematicamente
natalina parintinense. Reconhecida como “a mãe das invisibilizada pelo racismo estrutural, constitui a base
Pastorinhas de Parintins” e carinhosamente apelidada de práticas, símbolos e rituais que hoje integram o
de “a negra de olhos azuis”, Sila perpetuou o legado Festival de Parintins, um dos maiores espetáculos da
materno ao institucionalizar o grupo das Pastorinhas cultura brasileira. É nesse contexto que o Caprichoso,
Natalinas, promovendo a expressão da religiosidade que empreende com sua arte um “Tempo de Retomada”,
popular, do teatro cantado e do protagonismo feminino reencarna o próprio boi Turuna de Filomena — nome
em um espaço ainda marcado por valores patriarcais. que em Tupi significa “Negro Poderoso”.
Sua contribuição ultrapassou os limites da festividade
religiosa, consolidando-se como ação educativa, de
resistência e de preservação da identidade cultural

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é tempo de retomada

O QUILOmBO DE SÃO BENEDITO É um


TERRITÓRIO CAPRICHOSO
por Rafaela Fonseca da Silva
Mulher negra, quilombola, Rafaela Fonseca da Silva integra a quinta geração de mulheres do Quilombo Urbano do Barranco de São Benedi-
to, em Manaus/AM.

O Quilombo Urbano do Barranco de São Benedito carrega um simbolismo


grandioso, por ser um dos raros quilombos urbanos do Brasil, o primeiro da
capital amazonense e o segundo a receber reconhecimento da Fundação
Cultural Palmares (FCP).

Localizado na Praça 14 de Janeiro, esse território foi formado O Boi Caprichoso chegou a Manaus pelas mãos do
por famílias maranhenses e seus descendentes, que há 135 Mestre Raimundo Nascimento, tornando-se um símbolo
anos mantêm viva a devoção a São Benedito, símbolo da fé e de organização e respeito. Com dono, padrinho, amo,
resistência do povo negro. tesoureiro, Catirina e Pai Francisco, o boi tinha seu curral a
céu aberto, em meio à comunidade, com o chão de grama
Essa devoção teve início por volta de 1880, quando cuidado com carinho pelos moradores. Para o Quilombo do
maranhenses recém-libertos chegaram a Manaus trazendo Barranco, o amor pelo Boi Caprichoso de Parintins nasce
a imagem do santo preto. Desde então, a festa e a fé em dessa conexão ancestral.
São Benedito vêm sendo passadas de geração em geração,
tornando-se a base cultural e espiritual da Comunidade do O nome “Caprichoso”, inclusive, não é mera coincidência.
Barranco. Em 2014, a luta histórica foi reconhecida com a O Caprichoso de Parintins carrega o mesmo nome do boi
certificação oficial como Quilombo Urbano pela Fundação que encantava o Quilombo da Praça 14, fortalecendo ainda
Palmares. mais o sentimento de pertencimento entre a comunidade
e o festival. Esse vínculo foi oficialmente reconhecido em
Em 2021, o território foi elevado a Patrimônio Cultural 2018, quando o Boi Caprichoso de Parintins admitiu que seu
Imaterial de Manaus, por meio da Lei nº 2.728. Já em 2023, o nome tem origem no Boi Caprichoso da comunidade negra
Instituto Brasileiro de Museus o reconheceu como Ponto de da Praça 14, hoje reconhecida como o Quilombo do Barranco
Memória. Em 2024, veio mais um marco: o reconhecimento de São Benedito. Desde então, lideranças quilombolas são
como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura. Esses convidadas a participar das apresentações em Parintins
reconhecimentos celebram uma comunidade que se — uma honra para quem sempre defendeu o boi negro,
afirma como quilombo cultural, no qual se preservam e se símbolo de luta contra o racismo, em prol da diversidade, da
promovem a religiosidade negra, o samba, o artesanato e a ancestralidade e do respeito ao povo preto.
gastronomia afro-brasileira.

É a resistência cultural marcada pela força das raízes


ancestrais que moldam a identidade do Quilombo Urbano do
Barranco de São Benedito. Entre os legados trazidos pelos
maranhenses, está o Boi Caprichoso, que se tornou um
símbolo afetivo e cultural da comunidade. Desde crianças,
os moradores do Quilombo de São Benedito cresceram
ouvindo as histórias contadas pelos griôs — os mais velhos
que, com os olhos brilhando, relatavam as peripécias do boi
mais famoso de Manaus — o Caprichoso.

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B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

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Ministério de Cultura e Gree apresentam:
é tempo de retomada

Tradição que emociona.


Tecnologia que refresca.
Parintins com Gree!

Patrocínio

@greebrasil
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B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

A TECNOLOGIA COmO SUPORTE DA TRADIÇÃO


por Ronan Marinho
Arte-Educador, Designer 3D e Conselheiro de Arte do Boi Caprichoso

A tradição é viva, não é estática ou presa ao tempo. Não se esteve presente, ainda que sob outras formas e nomes.
trata de personagens, nem de conceituações petrificadas: a Desde as primeiras alegorias feitas com madeira, fibras,
tradição é passagem, é fluxo, como um rio de memórias que folhas, jutas, até sofisticados mecanismos de ferragens para
se move pela margem do tempo, exaltando a ancestralidade dar movimento nas peças, sistemas de iluminação de arena,
e alimentando os olhos dos que chegam depois. Cada trilhas sonoras, balé aéreo e até projeções mapeadas. Hoje a
geração é única, não basta repetir um saber tradicional, é festa é resultado direto da inteligência técnica e criativa do
necessário recriá-lo. É nesse processo que a tecnologia povo parintinense.
emerge, dialogando com as diversas gerações, não como
uma ameaça, e sim como possibilidade, afinal, a tecnologia No entanto, ainda persiste um preconceito velado, às vezes,
também é viva e ancestral, presente desde a primeira ponta explícito, quando cidades como Parintins, de comunidade
sílex, flecha ou as técnicas de pesca como a do timbó. simples, fazem uso da tecnologia. Como se o uso de recursos
digitais, equipamentos ou efeitos especiais fosse uma forma
Vivemos em uma era marcada pela conectividade constante, de “romper com a tradição” ou “vender a cultura”. Isso revela
pela mobilidade da informação e pela presença quase uma visão elitista e equivocada da cultura popular, como se
onipresente da tecnologia, da qual o festival de Parintins ela devesse permanecer eternamente ligada ao “rústico” ou
sempre fez uso. O termo “tecnologia” advém do grego tékhne, ao “primitivo” para ser autêntica.
da “arte, do ofício e da habilidade” e de logos, “saber”, ou seja,
etimologicamente, tecnologia é o conhecimento sobre o Logo, não há perda: há expansão, há permanência. A dança,
fazer, sobre a técnica. as alegorias, o canto, a cor, não se apagam em uma luz fria
de “LED”, eles brilham, a cultura se espalha como o vento
A arte sempre encontrou na técnica um caminho para pelas florestas, onde cada folha são olhares que carregam
seguir. Quando as primeiras mãos riscaram símbolos nas lembranças e saberes. Até o som ancestral do maracá é
pedras ou esculpiram no barro para contar histórias, a ecoado pelos “streamings”, ganhando visibilidade e levando
tecnologia esteve presente, não como algo futurista, mas cultura ancestral ao mundo. O que antes era restrito ao
como ferramenta de expressão. Tudo aquilo que amplia a espaço de um simples município, hoje rompe barreiras e
capacidade de fazer e sentir, já é tecnologia. atravessa continentes, fortalecendo o discurso, atraindo
novos públicos e permitindo que o grito da floresta seja
No Festival de Parintins, a tecnologia, igualmente, sempre ouvido muito além do rio.

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Preto Pimentel e Freyzer Andrade

é tempo de retomada

Graça Assayag

Irian Butel

Escola dE aRTE DO BOI capRIChOSO:


UmA RETOmADA DE SABERES
por Irian Butel
Professora, pesquisadora membro do Grupo Gira, produtora cultural, mestranda em dança pelo PRODAN/UFBA e atual gestora da Escola de
Arte “Irmão Miguel de Pascalle”.

Ao buscar pela memória, lembro de 22 degraus que fizeram parte de minhas


manhãs durante sete anos da minha vida.

Eram os degraus que levavam às salas de aula da Escola de Nesse ano, iríamos receber o então Governador Amazonino
Artes “Irmão Miguel de Pascalle”, nossa Escolinha. A rotina Mendes. Nosso objetivo era que ele conhecesse nosso
iniciava às sete horas da manhã com a primeira turma de trabalho e de alguma forma apoiasse a iniciativa. Para recebê-
dança, composta por crianças de 8 a 11 anos, o segundo lo, montamos a exposição dos trabalhos de cada oficina,
horário iniciava às 9h, composta por adolescentes (Erick com os poucos recursos que tínhamos: extrapolamos em
Beltrão e companhia). O azul sempre foi presente em criatividade, a exposição ficou linda, porém, nossa estrutura
nosso vestuário, mas vestir a camisa da Escolinha era algo predial era bem precária. Justamente naquele dia a caixa
diferente, honroso, glorioso. Cada turma que adentrava d’água transbordou e destruiu o trabalho da oficina de argila,
aquele espaço, algumas mais agitadas que as outras (risos) o busto que havia sido esculpido com o rosto do governador
preenchiam o ambiente com muito barulho e criatividade. tinha sido danificado. Dedicado, o professor Félix fez as
correções que precisava e apresentou o resultado do
Faço parte, do primeiro grupo de arte-educadores da trabalho.
Escolinha, quando ainda se chamava “Projeto Caprichoso
nas Ruas”, inicialmente um trabalho voluntário de 20 No ano seguinte, recebemos uma pequena reforma e agora
profissionais das áreas de Teatro, Dança, Escultura em cada oficina tinha uma sala própria: ganhamos uma cozinha
Argila, Desenho, Tecido em Cipó, Violão, Teclado, Charango. para organizar os lanches das crianças e uma biblioteca.
Em 1997, lembro do piso em cimento cru e da determinação Sempre com recursos reduzidos, mas com o trabalho
de cada membro da Família Escolinha Boi-Bumbá Caprichoso consolidado. Como não tínhamos como realizar os eventos
em fazer o projeto dar certo. de exposição de resultados, fizemos da “Tarde Alegre” da
criança o nosso palco e lá conseguimos apresentar para a

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B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

Erick Beltrão

Valentina Cid Valentina Cid Rainer Canto Adriano Aguiar

comunidade parintinense os resultados alcançados. no qual estamos inseridos, buscando métodos de produção
Em 1999, fomos convidados para compor duas células limpa que apontem para o fazer artístico conectado à
coreográficas para arena: O balé dos vaga-lumes (cena consciência ambiental de forma cotidiana “linkada” às
de abertura da primeira noite de apresentação do Boi urgências da contemporaneidade.
Caprichoso) e a cena da Figura Típica Regional, com a toada
“Caboclo Lampreiro”. O elenco escolhido foi a turma de Escola de Arte do Boi-Bumbá Caprichoso, canteiro de
dança. E foi um sucesso! sementes de criatividade de onde são colhidos talentos
que fortalecem nossa festa com técnica, profissionalismo
No ano 2000, a Escolinha entrega para a arena do e emoção, que transbordam em cada obra apresentada na
bumbódromo os ponteiros de povos indígenas no espetáculo arena do Bumbódromo.
“Mundurukânia e Mura, o príncipe das águas”. Nossos alunos
assumiram a responsabilidade de defender o item “tribo”
(como à época era chamado o item) e alcançaram notas
máximas na avaliação dos jurados.

Ao longo dos anos, a Escolinha formou vários artistas


nos segmentos de artes visuais, música, dança e teatro.
Geremias Pantoja, Kenedy Prata, Juscelino Ribeiro, Braz
Lira, Erick Beltrão, Diego Cruz, Diego Brelaz, Gean Figueira,
Glaedson Azevedo, Valentina Cid, Edmundo Oran, Edson Jr.
e Ericky Nakanome.

Veio a pandemia e então a escolinha fechou suas portas.


Foram muitas perdas materiais e imateriais, nossa
comunidade artística sentiu cada uma delas em sua
potencialidade.

Em 2025, a Escolinha retoma suas atividades com o


projeto “CAPRICHOSO: TRILHAS PARA O FUTURO –
ARTE, ANCESTRALIDADE, TECNOLOGIA E CONSCIÊNCIA
AMBIENTAL”, com o objetivo de oferecer à comunidade
parintinense ações formativas e profissionalizantes
pautadas nos conceitos de arte, ancestralidade, tecnologias
e consciência ambiental, como recurso de aprimoramento
de conhecimento técnico e tecnológico, alicerçado nos
saberes ancestrais, em conjunto com os referenciais de
Ericky Nakanome
memória da cultura local e priorizando o espaço ambiental

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Ministério da Cultura e Vivo apresentam
é tempo de retomada

UM FUTURO
PRESERVADO
POR DUAS
PAIXÕES
Patrocínio: Realização:

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é tempo de retomada

CAPRIChOSO e AmAzÔNIADEPÉ:mOBILIzAÇÃO
POPULAR PELA AmAzÔNIA vIVA
por Patrícia Patrocínio
Professora Titular da Universidade Federal do Amazonas, membro da Diretoria da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Histórico
e Geográfico do Amazonas.

Sou cria do bairro Palmares, onde o azul do Caprichoso nunca foi só uma cor.
Sempre marcou o nosso lugar, guiou nossos caminhos proteger o que temos de mais essencial: a floresta,
e moldou nossa identidade. O ritmo da marujada é a cultura e os povos da Amazônia. A parceria entre o
trilha sonora da nossa vida e, no meu caso, desde antes Caprichoso e a Amazônia de Pé nasce dessa conexão.
mesmo de nascer. O som das caixinhas, das palminhas
e do rufar do tambor me alcançou ainda na barriga da Quando um povo transforma suas histórias e memórias
minha mãe, quando meus pais brincavam na arena. em arte, estão plantadas as sementes do futuro. E
o nosso futuro exige que a floresta continue de pé,
Cresci ouvindo os CDs do Caprichoso, indo ao curral, que os rios sigam vivos, que os povos originários e
brincando de ser item na sala de casa. Até hoje, não tradicionais tenham seus direitos assegurados, que
existe memória minha sem o Caprichoso e o som da todas as pessoas possam viver em territórios onde a
Marujada. Foi o boi que me ensinou que a beleza, a cultura floresça livre de ameaças.
magia e a brincadeira caminham juntas com preparo,
dedicação e resistência. A Amazônia de Pé é uma mobilização nacionalmente
distribuída pela defesa da floresta e por seus povos.
A arena é um grito que ecoa da Amazônia para o Criamos uma verdadeira infraestrutura cívica para
mundo. É quando nossa Ilha se recusa ao isolamento e pressionar os tomadores de decisão por melhores
reafirma sua existência, sua potência, sua luta. E é por políticas climáticas. Liderado por jovens ativistas, a
entender isso que, hoje, como comunicadora e ativista, coalizão inclui: comunidades indígenas, quilombolas,
vejo na arte do Caprichoso uma força estratégica para cientistas e especialistas técnicos, agentes culturais,

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B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

movimentos sociais, organizações ambientais o território que a sustenta. É assegurar que nossas
e pessoas engajadas na causa. Todos unidos e crianças continuem ouvindo o som da marujada
comprometidos na defesa dos 50 milhões de hectares ecoando pela ilha.
de florestas públicas não destinadas da Amazônia
Legal — um território essencial para enfrentar a crise Que a arena, mais uma vez, seja espaço de arte,
climática. identidade e futuro. Este texto é um convite. A cada
toada, a cada item apresentado, a cada lágrima no
Os eventos extremos causados pelas mudanças do Bumbódromo, lembremos: a Amazônia é o chão que
clima não são algo distante de nós. Eles chegam com sustenta tudo isso. É nossa casa, nossa mãe e nossa
as cheias que alagam nossas cidades, com a seca que missão.
impede nossas crianças de irem à escola, com o calor
que castiga o nosso povo, com a fumaça que invade Sigamos firmes, com os pés no chão da resistência.
nossas casas, com a escassez do peixe que alimenta Porque o Caprichoso é um boi que encanta, sim. Mas
tantas famílias. Também chegam com a violência, também é um boi que enfrenta. E é tempo da retomada
que recai de forma mais dura sobre corpos negros, pela Amazônia de Pé.
indígenas, ribeirinhos e periféricos — os mesmos que
sempre estiveram na linha de frente da defesa do
território.

A união entre Caprichoso e Amazônia de Pé é um marco


na história do que é brincar de boi na Amazônia. Mostra
que nossa arte é também grito, denúncia, ferramenta
e caminho. Brincamos de boi para celebrar, sim, mas
também para transformar. Para encantar, porém,
também para denunciar aquilo que querem apagar.
Mobilizar os torcedores no Desafio dos Bumbás
da Amazônia de Pé, em apoio ao Projeto de Lei de
Iniciativa Popular pelas florestas, é reafirmar que
a força coletiva tem poder para mudar o rumo da
história. Defender a cultura do Boi-Bumbá é defender

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é tempo de retomada

RETOMADA INDÍGENA NO CAPRICHOSO


por Vanda Witoto
Diretora executiva Instituto Witoto

Ka+ maka ka+ billa: sejam bem-vindos! Eu sou Vanda Witoto, professora indí-
gena e torcedora apaixonada pelo Boi Caprichoso.
Venho das margens do Alto Rio Solimões, da aldeia Colônia
do Município de Amaturá, trazida a Manaus para ser O tempo foi passando, tive uma virada na vida depois da
empregada doméstica em 2002. Foi nas casas de família que luta da pandemia e, em 2022, após 10 anos de inatividade
eu descobri, pela primeira vez, pelas conversas das pessoas, do Conselho de Cultura do estado do Amazonas, foi criada a
que havia dois bois em algum lugar chamado Parintins. Um cadeira de cultura indígena e, no processo do edital, somente
era azul, outro vermelho, e moravam neste lugar que é uma uma pessoa indígena se inscreveu e precisava de mais uma
ilha com o nome Tupinambarana. Como era empregada pessoa para assumir. É, neste momento, pela minha atuação
doméstica, eles não me levavam durante o festival ou nos de luta pelos direitos indígenas na periferia de Manaus, que
ensaios e nunca pude saber o que acontecia por lá. eu fui convidada pelo então secretário Marcos Apollo para
assumir, como conselheira titular, a primeira cadeira de
Passaram-se os anos e, em 2016, tive a oportunidade cultura indígena do Amazonas. Por dois anos, colaboramos
de entrar na Universidade, momento em fui pesquisar e na construção da política cultural para povos indígenas no
buscar entender melhor o festival. De lá pra cá, eu tinha Amazonas e tive a oportunidade de estar pela primeira vez
uma resistência com algumas coisas: primeiro, o nome do em Parintins como conselheira. Foi lá que o Boi Caprichoso
festival que carrega o termo “Folclore”, termo que, no meu me escolheu. Sim, é um chamado que só quem vive o festival
processo escolar, aprendi que são coisas do imaginário sabe, pude perceber a grandiosidade do festival e como uma
popular, que não são verdadeiras e, quando passo a assistir voz política que sou, buscando compreender a importância
pela TV, eu ficava me perguntando o porquê de os elementos de ocupar espaços para ecoar nossas vozes indígenas,
da cultura indígena serem usados naquele espaço como entendi que aquele lugar sinalizava para um momento para
“folclore”. Nossa cultura é folclore? uma construção positiva de mudança, que se inicia com o
Boi Caprichoso.
Segundo, se são representações da nossa cultura, onde
estão as pessoas indígenas naqueles espaços? Essas eram O Festival Folclórico de Parintins, na minha perspectiva
minhas inquietações iniciais. de mulher indígena, ainda tem muitos desafios a serem

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superados: um deles é o próprio nome “folclórico”, pois parentes que se fizeram presentes naquele espaço.
nossa cultura não pode estar nesse lugar sendo retratado
como folclore - a cultura indígena carrega a ancestralidade e Nós últimos anos, o Boi Caprichoso vive uma nova era:
o sagrado - não podemos continuar reproduzindo conceitos uma retomada de consciência política e construção de
coloniais e invisibilizando nossa presença viva e potente um festival capaz de dar conta dos desafios fora da arena,
nesse território. Segundo, no que diz respeito à valorização, afinal, a arte tem o poder de retratar uma realidade invisível
reconhecimento e relações de respeito na construção que são as lutas dos povos indígenas e negros do Brasil. Com
coletiva de escuta e consulta das culturas ancestrais, de o soar do tambor e dos maracás, invocamos o sagrado para
seus povos na região do Amazonas e do Brasil. olhar seus povos! O Caprichoso ecoa não apenas ousadia e
coragem, mas resistência, memória, território-quilombo,
O Festival não pode reproduzir narrativas baseadas somente território-aldeia e luta pela vida daqueles que mantêm a vida
nas literaturas escritas por quem nos observa como objetos viva.
a serem explorados. Nossos povos estão vivos, em luta e
resistência: merecem ser consultados, escutados e, mais Ao longo dos últimos anos, lideranças indígenas têm
do que isso, estarem protagonizando suas lutas na arena. ocupado a arena azul como protagonistas de uma narrativa
Contudo, percebo alguns avanços e celebro muito! Vou trazer que honra a floresta e seus povos originários. Em 2025, o
o que tenho acompanhado desde o momento que passo artista Tapayuna do povo Sateré-Mawé é o grande nome
a conhecer o trabalho mais de perto do Boi Caprichoso. A criador da marca do tema Caprichoso, trazendo toda a
primeira constatação foi ter sido pioneiro em incluir, em seu força da mulher Mãe-Terra para compor o tema “É tempo de
Conselho de Arte, uma mulher indígena - a parenta Gilvana retomada”.
do povo Borari (do estado do Pará), compondo o processo
criativo, o que tem colaborado para uma construção mais O Caprichoso abre caminhos para os povos indígenas
respeitosa e próxima dos povos indígenas. Outro marco retomarem seu protagonismo nesse espaço, que é um
importante é ter a parenta Marciele Albuquerque, do povo espaço de luta pela demarcação dos territórios indígenas,
Munduruku, como item oficial - a cunhã poranga - além de contra a exploração de ouro e petróleo. Sobretudo, a
trazer a primeira tuxaua indígena na arena: Ira Maragua, que retomada de consciência coletiva de que somos povos
abriu caminhos para que outras mulheres, como Jéssica originários e negros e que, para além das lutas, nossos
Baré e Kim Tikuna pudessem estar hoje na arena. corpos são potência e arte, pois nossos cantos, os grafismos,
os rituais, nossas indumentárias não são somente estética,
Em 2024, tive a honra de erguer nosso maracá e elevar a voz é um ato político que reafirma nossa ancestralidade viva e
dos povos indígenas ao centro do bumbódromo, em defesa presente. Nós combinamos de brotar, reflorescer e retomar,
dos nossos territórios e do nosso corpo-território, contra a porque somos raízes e sementes ancestrais que nunca
mineração e em prol da demarcação de nossos territórios. morremos, brotamos! Jairikue!
Ao lado e de mãos dadas a grandes lideranças, como o líder e
pensador Davi Kopenawa Yanomami, a liderança Alessandra
Korap Munduruku, a cantora e compositora Djuena Tikuna,
a liderança Beto Marubo, Angela Mendes e tantos outros

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CÂNTICO TUPINAMBÁ
por Povo Tupinambá de Olivença

“Eu vi gemer lá na mata/ ê Eu vi gemer lá na mata/ á Tupinambá é índio guer-


reiro/ que Tupã deixou na Terra para lutar pelo ideal/ Eu vim de muito longe
pegar o que me pertence/ Viva nosso pai Tupã que ama muita gente!”

Antes de tudo, afirmamos: nós, Povo Tupinambá de Quando o Manto foi levado, a aldeia enfraqueceu. Após o
Olivença, não somos um povo extinto. Somos mais de encontro com o Manto Sagrado Tupinambá no Ibirapuera,
8 mil indígenas vivendo nos municípios de Ilhéus, Una e Amotara confeccionou o primeiro Manto Tupinambá
Buerarema, no sul da Bahia, distribuídos em 23 comunidades Contemporâneo, com apoio coletivo.
que compõem um território único e contínuo e ainda não
demarcado oficialmente pelo Governo Federal. Há mais Esse Manto foi usado na Caminhada dos Mártires do
de 16 anos aguardamos a emissão da Portaria Declaratória Massacre do Cururupe, realizada sempre no último domingo
que reconhece nossas terras, cuja assinatura e publicação de setembro, um dos momentos mais importantes do nosso
dependem exclusivamente de decisão política do Estado povo, que não deixa esquecer um dos maiores massacres
brasileiro, por meio do Ministério da Justiça. Por muito da história das Américas. Com isso, Amotara reacendeu
tempo, fomos considerados extintos por aqueles que se a tradição de tecer mantos no coração do nosso povo.
dizem especialistas — vozes da cultura dominante. Mas foi Mas, em um determinado momento, Amotara recebeu
pela força das mulheres Tupinambá que iniciamos o Levante espiritualmente a orientação de interromper a confecção de
Tupinambá, culminando no reconhecimento oficial do nosso novos mantos. Para nós, é muito forte que Amotara e Aloísio
povo em 2001. Esse levante também se manifestou por meio — os primeiros a reconhecerem e serem reconhecidos pelo
do reencontro com o nosso Manto Sagrado Tupinambá, Manto Tupinambá — tenham ancestralizado no mesmo dia:
exposto no início dos anos 2000, durante a Mostra “500 Anos”, 29 de abril de 2018. Em 2024, o Manto Sagrado Tupinambá
no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Ali, o Manto reconheceu retornou ao Brasil. No entanto, esse retorno não aconteceu
e foi reconhecido por Amotara e Aloísio Tupinambá. como foi prometido. Apesar de um acordo com a Primeira
Cacique do Povo Tupinambá de Olivença, Jamopoty
A partir daquele instante, iniciou-se uma luta que atravessa Tupinambá — filha de Amotara —, os anciãos não puderam
décadas: o retorno do Manto Sagrado ao nosso território, fazer o ritual de recepção ao Manto. Fomos desrespeitados
à nossa aldeia-mãe, Olivença. Segundo nos foi contado e violados. Foi preciso que nosso povo se mobilizasse
por Amotara, que ouviu de suas mais velhas, o Manto era através do Conselho Indígena Tupinambá de Olivença, a
confeccionado com penas de guará, tecido com palha de organização mais antiga do Povo Tupinambá de Olivença,
buri, e guardado num baú de couro. Era retirado apenas para garantir nossa presença e realizar a I Vigília do Manto
em tempos de festa, rituais fortes e celebrações sagradas. Sagrado Tupinambá. Esse encontro, regado a lágrimas e

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força ancestral, foi espiritual e transformador. Como diz longe de seu povo, longe de seu chão sagrado. Seguiremos
nossa anciã Yakuy: “Ficamos entre a vida e a morte. Entre a também pela demarcação do nosso território, e pelo bem
alegria e a tristeza.” Desde então, nada mais foi como antes. viver de nossas comunidades. Continuaremos a preservar a
O Manto nos transformou. Ele veio para fortalecer o nosso memória e a palavra dos nossos mais velhos — de Aloísio, de
povo. Ele veio para demarcar nosso território. Neste ano, a Amotara, e de todos os que vieram antes, abrindo caminho
Cacique Jamopoty, com o apoio de guerreiros e guerreiras, com coragem e sabedoria. Nos preparamos agora para a II
confeccionou o Manto Tupinambá do Século XXI — dando Vigília do Manto Sagrado Tupinambá — um momento de força,
continuidade ao legado de sua mãe, Amotara. Este novo de escuta, de ancestralidade viva. Mais uma vez, sentiremos
manto, tecido coletivamente, carrega em sua confecção a a presença do nosso ancião sagrado. Mais uma vez, veremos
união de povos e a força da ancestralidade. Ele simboliza a a força do nosso povo se erguer com dignidade. Pois... “Com
transformação profunda que estamos vivendo como povo, o Manto Sagrado, nosso povo se anima. É uma força divina
como território. que em nós se humaniza.” Demarcação já da Terra Indígena
Tupinambá de Olivença!
Seguiremos lutando pelo retorno do Manto Sagrado ao nosso
território. Seguiremos lutando pelo retorno dos Mantos
que ainda estão mantidos em museus, longe de sua casa,

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B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

nossos itens
Eles são as vozes que ecoam, o canto que embala, o ritmo que
pulsa, a dança que encanta. São a memória viva dos nossos
ancestrais, guardiões de ritos e pajelanças, que defendem com
bravura o pavilhão azul e branco, espalhando arte, amor e poesia
por onde passam.

Lapidados na Escola de Artes do Caprichoso, nossos itens


florescem da alma ribeirinha, da sabedoria dos quilombos e da
luta incessante dos povos originários.

São eles e elas que dão forma à nossa coragem, à nossa paixão
e à nossa fé. Por suas mãos e corpos, levamos ao mundo uma
mensagem de resistência e esperança, celebrando, na arena
do Bumbódromo, a magia do Boi Caprichoso, a mais autêntica
manifestação da nossa cultura popular.

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ITEM 01 | APRESENTADOR

Edmundo Oran
Filho do Palmares, Edmundo Oran conduz o espetáculo azul
e branco na arena do Bumbódromo. A total conexão com o
público e domínio de arena são méritos que ajudam o Boi
Negro de Parintins a defender o tema do bumbá durante as
três noites de apresentação no Festival.
Nasceu, cresceu e ainda mora no bairro Palmares, reduto
tradicional azul e branco. Com fortes raízes azuladas, é a
voz do povo de Parintins e, como “cria” da Escola de Artes do
Boi Caprichoso, traduz em palavras e toadas o verdadeiro
sentimento de ser pertencente ao Boi da Estrela.
Com oratória firme, conduz com maestria a narrativa do
Boi Negro da Amazônia. Sua voz potente e clara possibilita
também cantar com segurança, mantendo sempre a
afinação nas toadas. É um artista completo e revolucionário.
Edmundo Oran é um mestre que reúne todos os atributos de
um verdadeiro campeão.

ITEM 02 | LEVANTADOR DE TOADAS

Patrick Araújo
Patrick Araújo é a voz negro-azulada que entoa a musicalidade
do Festival de Parintins. Ele é o elemento central do
espetáculo cantado do Caprichoso no Bumbódromo. Com
vocal potente, é conhecido por afinação precisa e dicção
impecável, aliadas a uma expressiva presença cênica.
Patrick é considerado uma das maiores revelações recentes
do Festival de Parintins e, atualmente, como o melhor
Item 2 da festa.Nosso talentoso curumim conquistou o
amor e o respeito da Nação Azul e Branca. Neste tempo de
retomada, é a voz que guia o Boi Negro de Parintins para
uma apresentação espetacular e vitoriosa. Patrick Araújo
personifica a força do povo Caprichoso, traduzida em toadas,
letras e músicas.

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B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

ITEM 03

mARUjADA
DE GUERRA
“Sou a Marujada. Furiosa e arretada!”. Assim é a Marujada
de Guerra do Boi Caprichoso, uma expressão rítmica da
tradição, cultura e arte dos redutos azulados. Marujeiros
e marujeiras são artistas do povo, pessoas simples da
comunidade parintinense. Muitos deles aprenderam a tocar
seus instrumentos ainda pequenos, com ensinamentos
passados de geração a geração, um gesto de amor e
continuidade ao Boi Caprichoso.
Márcio Cardoso e Vitor Hugo são os regentes do item 3 e
comandam o melhor ritmo do Festival de Parintins. Os
marujeiros são responsáveis por criar a incrível energia que
contagia e emociona o Povo Caprichoso.
Ser marujeiro é motivo de orgulho. É sentir-se parte do
espetáculo e realizar o sonho de infância de defender, na
arena, as cores do Boi Negro de Parintins.

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ITEM 04

ritual indígena
O Ritual Indígena é a representação dos ritos dos povos
originários. É um momento espiritual, quando se recriam
cerimônias e mitos ancestrais. Tudo que é apresentado
tem como base pesquisas realizadas ao longo do ano pelos
membros do Conselho de Arte junto aos povos originários
representados, em consulta prévia, esclarecida e de boa-fé,
como manda a Convenção Internacional recepcionada pelo
Estado brasileiro.
Utilizando-se de um ambiente fantástico, artístico, cênico
e alegórico, o Ritual Indígena ganha vida na arena com a
teatralização marcante dos participantes do espetáculo.
Estruturas alegóricas colossais, concebidas pela criatividade
dos artistas de Parintins entram em diálogo com os cantos
e danças indígenas recriados no Bumbódromo, com efeitos
que só o Caprichoso é capaz de produzir

ITEM 05 | PORTA-ESTANDARTE

maRcela maRialva
Um furacão de escala continental batizado de Marcela
Marialva. O item é o símbolo do boi em movimento. Bailado,
garra, desenvoltura, simpatia, elegância e alegria são méritos
do item. A mulher que sincroniza a graciosidade de sua dança
com os movimentos livres do pavilhão azul e branco.
Marcela Marialva é a própria força do estandarte. Ela é
aguerrida, imponente, imbatível. A detentora do pavilhão
azulado não conhece a derrota. Desde sua estreia, é
invencível na arena do Bumbódromo, sendo responsável por
várias substituições de itens no boi contrário.
Suas intensas e apaixonantes apresentações são frutos de
uma rotina exaustiva de treinamentos, marcada por esforço,
disciplina e amor ao Boi Caprichoso. É esse suor que ostenta
o ícone azulado no topo do Festival de Parintins.

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B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

ITEM 06 | AMO DO BOI

CAETANO MEDEIROS
O espetáculo do Boi Caprichoso tem como menestrel da
arena o parintinense Caetano Medeiros, um repentista
nato que declama versos, encantando o público com rimas
dedicadas ao seu boi amado. Na tradição do Auto do Boi, o
Amo é o dono da fazenda.
Caetano Medeiros é cantor, compositor e artista azulado
de 33 anos, recém-anunciado como o novo Amo do Boi-
Bumbá Caprichoso. Mas, antes de tudo, ele é nascido em
berço Caprichoso. Criado no Esconde, comunidade marcada
por tradição e arte azulada, Caetano cresceu cercado de
referências culturais do boi.
Com talento, presença cênica e excelência musical, Caetano
Medeiros representa o verdadeiro espírito do Amo: afinado,
articulado e dono de uma voz que emociona. Ele se prepara
para brilhar no espetáculo “É Tempo de Retomada”.

ITEM 07 | SINHAZINHA DA FAZENDA

VALENTINA CID
Com história, tradição e muito amor ao boi, a sinhazinha da fazenda,
Valentina Cid, brilha com uma estrela cintilante na fazenda Caprichoso.
Ela é filha do dono da fazenda (Amo do Boi), no auto tradicional. A bela e
meiga menina compõe o roteiro, um momento histórico na criação do
Boi Caprichoso.
Valentina nasceu em berço Caprichoso e sua história de vida se
mistura com a própria criação da brincadeira de boi em Parintins. Ela é
tataraneta de Roque Cid, fundador do Caprichoso.
A bela menina representa a tradição familiar, conforme a história nos
conta. É filha da primeira sinhazinha do Caprichoso, Karina Cid, e
herdou a paixão pelo bailado de menina da mãe.
Valentina tem uma identidade própria na arena, com traços singelos e
carismáticos, típicos de uma verdadeira Cid. A menina que cresceu nos
terreiros e quintais azuis do Palmares mantém uma relação íntima de
amor com o boi — seu brinquedo e sua paixão.
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ITEM 08 | RAINHA DO FOLCLORE

CLEISE SIMAS
Ela é a realeza que exalta a diversidade cultural da Amazônia.
Vinda do Palmares, a parintinense Cleise Simas é a expressão
da arte em toda a sua diversidade e manifesta o saber popular
em sua dança e indumentária.
Nossa rainha promove as culturas, as tradições e o folguedo
criado nas ruas, quilombos e aldeias. Cleise representa a
presença das histórias orais na região amazônica, passadas
de pai para filho, de mãe para filha e deles e delas para as
gerações seguintes.
Nesse Tempo de Retomada, a Rainha do Folclore revive
as histórias que sobreviveram há séculos de opressão,
tornando-se um manifesto de luta e esperança para o futuro
da humanidade.

ITEM 09 | CUNHÃ PORANGA

maRciele munduRuku
Marciele é indígena do povo Munduruku e foi escolhida para
defender o item que expressa a força por intermédio de
sua beleza. Ela é a guardiã da aldeia azul e branca. A cunhã
poranga (moça bonita) incorpora toda a ancestralidade dos
povos indígenas, revelando o poder e a luta da mulher.
Marciele entende a importância de seu papel e não foge à
luta. É ativista feminista e defende as causas indígena e
ambiental. Participa de movimentos sociais e culturais pela
proteção dos povos originários, como a Marcha das Mulheres
Indígenas.
Uma cunhã que luta pelo seu povo dentro e fora da arena, não
parecendo ser, ela é indígena.

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B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

ITEM 10

boi-bumbá
(evolução)
O Boi-Bumbá é mais do que símbolo: é sentimento traduzido em movimento,
tradição e arte. Uma força que pulsa no ritmo do povo Caprichoso.
Neste ano, quem dá vida ao nosso amado boi de pano são Alexandre
Azevedo e Edson Azevedo Jr., representantes de uma família que construiu
com arte, suor e amor a história do Caprichoso. Unidos pelo sangue e pela
missão de emocionar, eles assumem a responsabilidade de manter viva a
essência do item mais apaixonante da arena.
Alexandre Azevedo aprendeu desde cedo com seu pai, o saudoso
Marquinho Azevedo, ex-tripa do boi, os passos e o sentimento do bailado
tradicional. Criador e criatura se unem em sua atuação intensa, que exala
verdade, beleza e emoção.
Edson Azevedo Jr., seu primo, estreia este ano no item com a força de
uma linhagem artística de peso. Filho do renomado artista Edson Azevedo
e sobrinho de Marquinho, Edson Jr. é músico, artesão, percussionista e
agente cultural, formado na Escola de Arte “Irmão Miguel de Pascalle” e
chega para somar talento e inovação ao legado da família.
Com alma, memória e entrega, os Azevedo reafirmam: Caprichoso é um
boi que se move com história, verdade e respeito ao legado.

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é tempo de retomada

ITEM 11

Toada (LetRa e múSica)


Letra e melodia se unem para compor a toada, a sonoridade
do Festival de Parintins. É música que cria o ambiente sonoro
do espetáculo e funciona como um elo entre a individualidade
(do levantador) e o grupo (cênicos, coreográficos e galera). As
toadas mostram, por meio da poesia, a retomada da história,
a exaltação à cultura e o fascínio da arte.
As toadas do Boi Caprichoso nascem do saber caboclo
de nossos poetas. Brotam dos beiradões, das culturas
indígenas, do cotidiano das ruas, do amor Caprichoso, da
alma azulada, da infinitude do horizonte azul e branco.
O boi do povo canta em suas toadas os costumes, o amor
pelo boi, a cultura e paixão por sua gente, mas também
denuncia, critica e manifesta. É uma palavra que canta, mas
que também grita por um tempo de retomada.

ITEM 12 | PAJÉ

erick beltrão
O pajé é guia espiritual dos povos originários. O guardião dos saberes
ancestrais, liame entre o corpóreo e o extrafísico, responsável por conduzir
as nações indígenas. No Boi Caprichoso, o item é defendido pelo morador do
Palmares, Erick Beltrão, um dos artistas do Festival de Parintins moldados
no projeto social do Boi Caprichoso, na Escola de Arte “Irmão Miguel de
Pascalle”.
Erick revolucionou o item ao unir a força de sua dança ao coletivo do Corpo
de Dança Caprichoso. Suas impactantes apresentações têm seu talento
individual, ladeado por jovens dançarinos que ele mesmo instrui, ensaia e
se orgulha.
Além de dançarino, Erick Beltrão é um grande coreógrafo e fundador do
Corpo de Dança Caprichoso (CDC). Assina trabalhos de dança em várias
festividades pela Amazônia. Seu talento foi reconhecido pela bailarina
e coreógrafa Deborah Colker e juntos criaram o quadro “Pindorama”,
apresentado ao mundo na abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro, em

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2016. C A P R I C H O S O 2 0 2 5
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ITEM 13

povo indígenas
(RepRESENTAÇÃO)
São os grupos étnicos que compõem os povos indígenas do Brasil.
O item mostra a preocupação com o devido reconhecimento
àqueles que “são donos da terra. Herdeiros, donos das penas”,
como decantou o poeta Ronaldo Barbosa.
Os povos originários se apresentam em um espetáculo musical e
coreográfico que propõe movimentos, sincronia e indumentárias
fiéis às raízes e tradições indígenas. Além de ser visualmente
impressionante, o item também simboliza as grandes batalhas
travadas no país e ressalta a importância da preservação cultural,
humana e ambiental.
O item em comento traja o trabalho do artista Caprichoso.
Cocar, colares, perneiras, costeiras e demais acessórios das
indumentárias exibem a arte indígena traduzida em cores e
formas. Uma forma de manter viva a sabedoria ancestral passada
de geração a geração.

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ITEM 14

tuxauas
Chefes indígenas e líderes políticos dos diversos povos
espraiados por Pindorama. Os Tuxauas representam a
alegoria do universo indígena da Amazônia. Os Tuxauas
exaltam a cultura, a beleza e a força dos povos da floresta por
meio de seus gigantescos “cocares alegóricos”, mantendo-se
fiéis ao tema do espetáculo com criatividade e originalidade.
No Caprichoso, o precursor dos Tuxauas no Festival de
Parintins foi Zeca Xibelão, que dá nome ao Curral do Boi
Caprichoso. O bumbá também marcou história ao destacar
dona Maria Lúcia Nascimento como a primeira mulher a
defender o Item 14.
A apresentação de dona Maria Lúcia foi mais uma de inúmeras
lutas sociais do Boi Caprichoso, na defesa da mulher e da
igualdade entre os gêneros. São lutas que o bumbá realiza na
busca pelos direitos da humanidade.

ITEM 15

figuRa típica regional


A Figura Típica Regional é uma homenagem às raízes de
nossa terra, retratando na arena do Bumbódromo o cotidiano
dos povos da floresta. É o símbolo da cultura amazônica,
refletindo os valores fundamentais a partir dos elementos
que compõem sua identidade cultural.
O Boi Caprichoso é um dos grandes defensores deste
item, que retrata sua gente, o indígena, o caboclo, o negro
e suas mais variadas manifestações sociais, culturais e
econômicas.
Para este Tempo de Retomada, o Caprichoso defende como
Figura Típica Regional o cotidiano dos povos amazônidas,
por meio das majés, marandoeiros e marandoeiras e o
seringueiro da floresta.

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B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

ITEM 16

alegorias
É a representação do imaginário indígena, negro e caboclo
em estrutura espetacular. As alegorias são verdadeiras
obras de arte que transcendem a imaginação. Cada módulo
é cuidadosamente concebido e executado pelos talentosos
artistas de Parintins, revelando-se em um pano de fundo como
visual único.
Cada alegoria conta uma história, envolvendo elementos da
cultura e das lendas amazônicas, com uma mistura de cores
vibrantes, efeitos visuais deslumbrantes e performances
coreografadas.
As estruturas artísticas funcionam como suporte cenográfico
para a apresentação, cativando o público com sua exuberância,
inovação e impacto estético. Além disso, surpreendem pela
perfeição no acabamento, pela qualidade da execução e pelo
grande porte, reafirmando o talento incomparável da equipe de
artistas que compõe o Boi Caprichoso.

ITEM 17

lenda amazônica
O item 17 transporta o público para um universo encantado,
onde as narrativas orais de terreiro e quintal ganham vida
por meio de grandes momentos cênicos e alegóricos. Tendo
como pano de fundo a mitologia dos povos amazônicos, o
espetáculo das lendas é apresentado por uma meticulosa
construção de cenários, aliado à impecável execução das
performances coreográficas dos atores azulados.
A Lenda Amazônica é uma das grandes forças do Boi
Caprichoso no Festival de Parintins, destacando-se pela
grandiosidade das alegorias e incríveis transformações,
que criam uma experiência verdadeiramente memorável.
Seu desenvolvimento nos conecta, de forma única, à
ancestralidade amazônica.

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ITEM 18

vaqueirada
A Vaqueirada é um item coletivo que entra na arena ao som
do aboio tradicional entoado pelo Amo. Os vaqueiros são os
guardiões do boi e o acompanham sempre que a estrela da festa
aparece na arena. Eles se movem de forma coordenada, criando
formações harmoniosas que encantam pela precisão e unidade
dos passos.
Na grandiosidade da apresentação do Boi Caprichoso, nossos
vaqueiros são pessoas simples, muitos deles oriundos de
comunidades como Parananema, Aninga, Macurany e de diversos
bairros da cidade. Nossas lanças reluzentes são portadas por
pescadores, agricultores e trabalhadores que representam
a essência do povo amazônico e atuam como verdadeiros
protetores do Boi Caprichoso.

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ITEM 19

galera
O item mais vibrante do Festival de Parintins. É o povo
Caprichoso, a alma cheia de energia que contagia o mundo. Com
cantos, gritos, braços e amor, a galera azul e branca transforma o
simples em grandioso e o comum em extraordinário.
A galera é formada por rostos sorridentes e corpos em movimento,
formando um mar de pessoas humildes e trabalhadoras. Este é o
Item 19 do Caprichoso: pessoas do povo, rostos anônimos que,
na arena do Bumbódromo, tornam-se protagonistas de uma
história vitoriosa.
Em cada movimento, em cada grito de empolgação, há histórias
de luta, superação e perseverança. Assim, a Galera do Caprichoso
transcende sua função como elemento do espetáculo: ela se
torna um símbolo de resiliência e união, sendo reconhecida
como a melhor do Festival de Parintins.

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B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

ITEM 20

coreografia
A coreografia é a fala silenciosa e expressiva do corpo. A
essência que conecta a toada, a narrativa e a dança em uma
única experiência, desempenhando um papel essencial na
expressão artística. No Boi Caprichoso, os movimentos são
executados com energia e intensidade, transmitindo o vigor
da cultura amazônica.
Nossos coreógrafos cultivam novas possibilidades,
incorporando elementos inovadores e surpreendentes.
Eles são responsáveis por conceber sequências únicas que
encantam e envolvem o público, tornando a apresentação
memorável.
Com suas coreografias, os povos indígenas, bailado,
vaqueirada, itens individuais e todos os corpos que compõem
os movimentos coreográficos do Boi Caprichoso conseguem
energizar o público e criar momentos de êxtase e admiração.

ITEM 21

organização do
conjunto folclorico
A Organização do Conjunto Folclórico consiste na reunião dos
itens individuais, artísticos e coletivos, embasados no conteúdo do
espetáculo e na disposição organizada na arena de apresentação. Uma
das principais características é a disposição em que se encontram
suas diversidades.
No Boi Caprichoso, o item 21 reúne representantes de diferentes
povos, trazendo as particularidades culturais de cada um deles, todos
dispostos de maneira organizada no Bumbódromo. No projeto “É
Tempo de Retomada”, essa diversidade é valorizada e potencializada,
proporcionando um espetáculo rico em elementos culturais.

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É TEmPO DE RETOmADA, É TEMPO DE


CAPRIChOSO!
por Truduá Dorrico*
Doutora em Teoria da Literatura (PUCRS). É poeta, artista, curadora, palestrante e pesquisadora de literatura indígena.

Eu me chamo Trudruá Dorrico, sou indígena pertencente ao povo Makuxi


(que se localiza em Roraima-Brasil, Guiana e Venezuela). Nascida e criada na
Amazônia, me afirmo uma makuxi-amazônida.
Confesso que me senti extremamente honrada ao saber que língua macuxi, conduz-me ao meu lugar no mundo.
meu livro, “Tempo de Retomada”, seria escolhido como tema
do Boi Caprichoso 2025, apresentado em três atos, em três O tema, no jeito Caprichoso de brincar de boi, faz reverberar
dias. a mensagem deste livro, tão especial para mim, da retomada
simbólica de povos indígenas e tradicionais que tiveram sua
Tenho doutorado em Letras, pela PUC do Rio Grande do humanidade e o direito de se expressar negados ao longo de
Sul, mestrado e graduação, pela Universidade Federal de cinco séculos.
Rondônia. Foi a partir dessa caminhada na educação e na
literatura que tive a oportunidade de viver minha retomada Apossei-me da língua do colonizador para subvertê-la,
identitária. Meu processo de retorno ao pertencimento do mesmo modo que o Caprichoso vem fazer nestas três
Macuxi se dá a partir da leitura de obras de autoria indígena, noites, conosco, em consulta prévia, respeitando nossa
cujas imagens pude identificar em minha vivência familiar: ancestralidade.
entre sonhos e lembranças, é a voz da minha avó, em uma
língua “estranha”, que começa a me apontar caminhos. A retomada de nossos nomes, a luta contra o racismo
Depois é a voz e a história de minha própria mãe, que ao indígena, a desmistificação de que nossa terra era vazia
afirmar o nome de nosso povo e manifestar a identidade na e inabitada, e a nossa união de povos estão presentes nas

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toadas que embalarão os corações dos que vão ouvir o parcerias.


espírito do tambor e a força do pé no chão.
Obrigada, Caprichoso! A sua vitória nesta arena será a
Ter minha obra escolhida como tema da renomada vitória dos povos indígenas, será a vitória das mulheres,
agremiação cultural reafirma o meu compromisso será a vitória da cultura popular. Que, como a pimenta e
indígena coletivo, de fazer uma arte guiada pelos nossos o tucupi que alimentam nosso corpo, desejo que as três
antepassados. noites de apresentação do Boi Negro da Amazônia sejam
saúde, alegria e energia sobre todo o mundo. A honra de
Acredito que cumpro uma função social junto a este ser nascedouro deste tema Caprichoso é gigantesca. Muito
festival e junto ao meu povo e demais povos indígenas de obrigada!
Pindorama: senhora jurada, senhor jurado, que a esta altura
vocês estejam curiosos e curiosas para o que os espera na Abaixo, um pequeno trecho da minha obra que julgo
arte esmerada que deu a este boi o nome de “Caprichoso”. pertinente para o momento:
Leiam! Eu fiz este exercício e, como escritora e pesquisadora
que sou, já tenho a certeza do compromisso social do Boi da Retomada é um paradigma
Estrela. É um modo de vida.
Trata-se de pertencimento.
Valorizamos tanto autores europeus que chega a ser uma Subjetividade.
questão de justiça epistêmica dar espaço para autoras e Autoestima.
autores de nossa terra, especialmente mulheres indígenas, Trata-se de reaver nossa história,
por anos invisibilizadas pelo patriarcado e pelo colonialismo. Nossos cabelos, nossas pinturas.
Eu sou um brado libertário. Mergulhem no que o Caprichoso De olhar o nosso corpo e sentir a beleza
tem a dizer! Que vem da terra, da qual tanto nos orgulhamos.
Trata-se sempre de nós.
Eu não seria a mulher que me tornei se não terminasse De como reconstruímos relações fraternas e afetivas.
este texto juntando minha voz a de todas as mulheres que De como somos mais fortes em rede.
me precederam: a colonização não nos venceu e nem Retomada é um paradigma de poesia.
vencerá! Retomaremos nossa história por nós mesmas
tantas vezes sejam necessárias. Entrem na dança de roda Afetuosamente,
do conhecimento e descolonizem o imaginário. Trudruá Dorrico

Não somos “saberes locais”, somos povos que construíram


a Amazônia, cuja ciência ancestral ensinou a alimentar, a *Antes Julie, pertence ao povo Macuxi (RR). Doutora em Teoria da Literatura (PUCRS).
É poeta, artista, curadora, palestrante e pesquisadora de literatura indígena. Venceu o
cantar e a dançar do passado até os dias de hoje. concurso Tamoios/FNLIJ/UKA (2019). Administra o perfil coletivo @leiamulheresindigenas
É também de luta e resistência que eu e o meu Boi Caprichoso no instagram. Autora de Eu sou Macuxi e outras histórias (Caos e Letras, 2019) e organizadora
de Originárias: uma antologia feminina de literatura indígena (Cia das Letrinhas, 2023).
falaremos. Desejo que esta seja a primeira de muitas outras

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É TEmPO DE RETOmADA
por Conselho de Arte do Boi Caprichoso

O Boi Caprichoso é folguedo, manifestação popular que fez das ruas, praças e
terreiros o seu espaço, e hoje está na arena para cantar ao mundo os anseios
do seu povo.

Um brinquedo, cujo couro negro espelha os corpos e lutas de demonstram a vitalidade de nossas negras raízes, presentes
muitos brincantes e torcedoras/es. Homens e mulheres que no couro do nosso boi, a marca identitária de nossas lutas,
teceram na coletividade da floresta o herói de pano, espuma memórias e afetos. Entretanto, uma retomada feita pela
e amor. Muito amor! Sentimento que reflete sonhos, lutas, alegria de povos afrodiaspóricos que souberam festejar em
resistência e revolução. meio à dor, quebrando grilhões embaixo do Boi Negro de
Parintins.
Hoje, este brinquedo canta no coração da Amazônia a
retomada de sua gente e, por extensão, a sua própria Por fim, bradamos ao mundo na terceira noite, que é tempo
retomada. de “KAÁ-ETÉ: RETOMADA PELA VIDA”. Retomada pela
floresta, pela consciência, o pulsar da vida de uma floresta
Retomada de tudo aquilo que perdemos no processo de viva: gentes, plantas e bichos. Retomada dos muitos
colonização dos nossos corpos e territórios. Retomada territórios já abandonados pelas espiritualidades que foram
dos saberes, valores e amores. Retomada de nossa expulsas pelo garimpo, pelo agronegócio e pela mão suja e
verdadeira história, ouvida e sentida por nossos brincantes poderosa do capitalismo desenfreado. Retomar a vida da
ancestrais, corpo-território de nossa língua mátria, nossa floresta, que sangra em seiva verde a derrubada de cada
identidade, nossa arte e juízo crítico. O segredo das plantas uma de nossas árvores. Árvores que queimam e levam junto
e curas, presentes nos saberes e fazeres da gente cabocla, a fauna e a flora, sufocados pelas fumaças que se elevam.
embebidas da velha milenar água da lagoa da Francesa surge
como a força espiritual que nos ensinou a manter nossa terra As três noites que se desvelarão aos olhos das senhoras e
viva e de pé: nossa ancestralidade. dos senhores são atos da grande teatro popular da Amazônia,
um boi-bumbá plural e coletivo, símbolo do povo e arauto da
Na primeira noite, “AMYIPAGUANA: RETOMADA PELAS cultura, o entrelaçar de sonhos e lutas, como a dos Arapium,
LUTAS”, traremos de volta nossas crenças originárias, dos Tupinambá, dos Munduruku e das famílias ancestrais do
desfazendo o trabalho do colonizador sobre nossas Boi Caprichoso, reduto de mestres e mestras dos saberes.
deidades e sobre nossos povos originários e comunidades
tradicionais. É a retomada do “Legislador”, livre da imagem Pela primeira vez na história do Festival, os subtemas têm
demoníaca imputada por missionários cristãos; é o sopro por base expressões indígenas e africanas, em um retomada
de cura das majés; é a retomada da verdadeira face da decolonial que prima pelo combate às opressões, desde
antropofagia: o massacre promovido contra os Tupinambá as palavras funcionando como fagulhas de saberes que
por Mem de Sá, na chamada “batalha dos nadadores”, combatem as opressões desde a língua de nós extirpada.
também chamada de “massacre dos cururupe”.
O Boi Caprichoso é isto. Respeito, poesia, luta, paixão. Amor.
É tempo de retomada de nossas tradições, reavivadas Sim, amor de multidões que nos move, que ano após ano é
em nossa memória e vivas por nossa insistência e retomado também em cada torcedor e em cada torcedora
resistência. Com elas, retomamos nossa força, viva em que vira dias e noites nas filas das arquibancadas para fazer
nossa festa. Retomada, em nossa segunda noite, através de nosso brinquedo de pano, espuma, suor, veludo e cetim
de “KIZOMBA: RETOMADA PELA TRADIÇÃO”, que mostra o campeão do Festival! Somos um boi que enaltece a sua
ao mundo a reverência à memória negra invisibilizada própria história!
pelo racismo estrutural brasileiro, luta e resistência da
tradição Caprichoso. Dona Sila Marçal, Marujeiro Calango, É tempo de retomada, e, mais uma vez, do respeito
comunidades como o Parananema, o Aninga e o Macurany Caprichoso pela arte do “Boi mais querido do Povão”!

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é tempo de retomada

PRIMEIRA NOITE DO FESTIVAL

Amyipaguana:
retomada pelas lutas

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B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

O Boi Caprichoso é o Touro Negro Encantado de terreiros. Nos folguedos, nas promessas ingeradas
Dom Sebastião, eternizando o Maranhão com seu em tradições, uma delas se destacava: as raízes
bumba meu boi que para nós é raiz, sustentáculo transfiguradas em brincadeira de bumba meu boi que
de frondosa brincadeira que se pintou de azul e aqui se fez boi-bumbá.
branco. Triunfo de diásporas que aqui se tornaram
cultura dos gente-floresta, por meio de promessa em No alívio para as dores, o bumbá se tornou o
terreiros a São João e também a Xangô, na resistência afago das almas batalhadoras. São destas raízes-
fortemente moldada pela subversão da fé imposta brincadeiras que cresceram troncos fundamentais
aos escravizados e escravizadas. Ele, o Caprichoso, de ancestralidade dos nossos antepassados. Raízes
proclama o triunfo de nosso povo com foco nas nossas fincadas no solo da epistemologia cabocla - termo por
culturas: culturas plantadas, nascidas e sustentadas nós politicamente ressignificado – dos tantos saberes
no meio da Amazônia Brasileira, magistralmente de artesania da palha, do fazer da cerâmica, do retesar
triunfal no entrelaçar de negros e negras, indígenas, do couro do tambor, a construção de muitos artefatos
ribeirinhos e ribeirinhas, mestres e mestras da cultura do brincar de boi.
popular local. Que Esú abra os caminhos de vocês.
Saravá! Raízes-mães de cordões umbilicais da seiva
amazônica, ligadas a tantas outras mães: das águas
O Boi Caprichoso é o arauto que proclama o triunfo de ou do gigantesco bicho folharal, montaria da mãe
seu povo por meio da sua cultura plantada, nascida e da mata. O culto de amor à floresta ensinado pelos
sustentada no meio da Amazônia brasileira. Somos Yanomâmi, da sabedoria de Davi Kopenawa e demais
um povo plural, mas nossa raiz é predominantemente povos indígenas, a protegerem e guarnecerem nosso
indígena. Dos filhos da terra que plantaram este solo sagrado, profanado pelo capitalismo disfarçado
jardim chamado Amazônia e, pela sua existência, de progresso em meio à exploração do que a terra
por ela enfrentaram a impiedosa e violenta força guarda em suas profundezas. São por essas e tantas
da colonização, marcando uma história de dor, outras raízes de nossas gentes entrelaçadas,
resistência e muita luta. entremeadas nas mesmas lutas, que estamos aqui,
brincando de boi e triunfando com o Boi Caprichoso.
Lutas compartilhadas entre tantos povos que por aqui
se aninharam, irmanando-se com africanos, árabes,
portugueses, judeus e principalmente nordestinos,
paroaras que incorporaram a cultura do brincar de
boi no seio da floresta amazônica. O Nordeste que viu
seu povo renitente lutando contra os desafios da vida,
ora sobreviventes das grandes secas, ora atraídos
pela ilusão do fausto da borracha. Dentro das malas
e trouxas, as fés nos santos da quadratura junina -
em especial São João Batista - e de entidades de

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é tempo de retomada

ITEM

17
BLOCO C
ARTÍSTICO

Lenda amazônica
YURUPARI: DA DEMONIZAÇÃO À RETOMADA INDÍGENA
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

Boca fechada. Eis a tradução do nheengatu para “Yurupari”. se não os missionários em sua saga de extirpar a cultura dos
Cada povo originário, seja ele Dessana, Baniwa, Tariana ou povos originários?
Tukano, só para citar alguns que cultuam esta divindade, Por medo, um deus transformado em preço...
ora compartilham da mesma estrutura narrativa, ora Yurupari, filho de Ceucy da Terra, será
se desvencilham para outras versões ligadas às suas “desdemonizado” no solo sagrado do bumbódromo. Vamos
especificidades culturais. Com Amyipaguana, queremos devolvê-lo aos seus povos, mostrando a face narrada pelos
retomar nossas crenças indígenas outrora demonizadas, nativos do Alto Rio Negro. Desfaremos o que foi realizado por
colonizadas e que hoje são narradas em seu verdadeiro meio do “livro preto” (a Bíblia e seus “intérpretes”), como decanta
sentido pelos povos que seguem em devoção a Yurupari. a toada deste momento. Agora, Ele – Yurupari - se levanta e se
Yurupari das rodas de canto, de jenipapo em onça, das rosetas reconstrói e, do Alto, Ceucy se insurge contra o fogo e a bala,
no manto... para mostrar às gentes não-indígenas que Yurupari, o nome
“Yurupari” (yuru = boca + pari = cercadura, armadilha dado pelo kariwa, não é o tal demônio inventado.
para peixe) é/foi o nome dado pelos missionários religiosos Me enchem de espinhos e chifres, me imputam os crimes... Se
que O difamaram e O demonizaram, com o intuito de fazer os um dia fui sonho, hoje sou pesadelo. Pesadelo não dos Povos
indígenas daquela região, politeístas, aceitarem um só deus e Originários, pesadelo do colonizador que ousou profanar seu
converterem-se ao catolicismo pelo medo. As semelhanças real sentido divinal.
entre a fecundação sem sexo de Ceucy (mãe da divindade) e as O Boi Caprichoso redescobriu Yurupari nas árvores,
qualidades de Yurupari, enquanto legislador, logo despertaram reescreveu a fé nas folhas da paxiúba, a palmeira da flauta
a atenção dos religiosos cristãos, os quais, com medo da de pã, que é o próprio corpo de Yurupari. A luz e a sombra
identificação de Yurupari com Jesus Cristo, trataram de são imanentes à vida, partilham do mesmo corpo, da mesma
demonizá-lo, para que fosse retirada qualquer semelhança energia, nem bem, nem mal, posto que não se anulam ou
com o deus dos brancos, a quem se almejava a conversão. rivalizam, como quer a religião dos não-indígenas. Sob as
Cariamã, as leis a cumprir. Abadi o suplício a seguir. bênçãos do kumu Rogério Marinho Tukano, o Legislador será
Contudo, senhoras juradas e senhores jurados, não revelado ao mundo em sua faceta ancestral.
se esqueçam de que é tempo de retomada. Logo, não ficaremos Senhoras juradas e senhores jurados, de que lado você vai
do lado colonizador e sim junto aos kumus, curandeiros, pajés estar? O Boi Caprichoso escolheu o seu. O Boi do Povo é
e Yai`s pertencentes ao povo Tukano, Tariana, Dessana, Baniwa retomada do Legislador! É tempo de descolonizar imaginários
entre outros nativos do Alto Rio Negro, que travaram uma judaico-cristãos!
verdadeira batalha contra as narrativas oficialescas, cheias
de sangue e pseudocristandade. Afinal, quem era o demônio,

ARTISTA DA ALEGORIA LETRA DA TOADA


Yurupari - O Legislador
Ronaldo Barbosa e Ronaldo Barbosa Júnior

(hê-ah, hê-ah, hei) 2X Se um dia eu fui sonho, hoje sou… pesadelo!


(hê-ah, hê-ah, hei)
Rasgue meu manto, fogo! fogo!
(oh, oh-oh-oh, oh-oh-oh, oh-oh, oh-oh, oh-oh-oh Cortam os cabelos, fogo! fogo!
êh!) Queimem minhas leis, fogo! fogo!
(oh, oh-oh-oh, oh-oh-oh, oh-oh-oh, êh!) Mas me vingarei, no fogo! no fogo!

Ao som de flauta é festa, ôh-ôh-ôh-ôh Redescubro meu nome nas árvores (nas árvores)
Ao som de tambor, guerra, ôh-ôh-ôh-ôh Reescrevo a fé nas folhas que caem em mim
Ao som de flauta é festa, ôh-ôh-ôh-ôh Sou a luz e a sombra, nem bem, nem mal
Ao som de tambor, guerra, ôh-ôh-ôh-ôôôôh (nem bem, nem mal)
Pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pãããã De que lado você vai estar?
Yurupari!
Ao som de flauta é festa, ôh-ôh-ôh-ôh
Em roda de canto Ao som de tambor, guerra, ôh-ôh-ôh-ôh
Jenipapo em onça, rosetas no manto Ao som de flauta é festa, ôh-ôh-ôh-ôh
Sopram o taquara Ao som de tambor, guerra, ôh-ôh-ôh-ôôôôh
Tecô-munhangaua, Tecô-munhangaua Pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pãããã
Machanca Baserê, Camuano lindê Yurupari!
Cariamã as leis a cumprir, Adabi o suplício seguir
Virgens cabelos cobrindo o Pukamuká Yurupari!

O artista Roberto Reis, 46 anos, é um parintinense experiente nas Ao som de flauta é festa, ôh-ôh-ôh-ôh Pã-pã-pã-pã (hei)
Ao som de tambor, guerra, ôh-ôh-ôh-ôh Pã-pã-pã-pã (hei)
áreas de pintura, escultura e ferragens, com 26 anos de carreira Ao som de flauta é festa, ôh-ôh-ôh-ôh Pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pãããã
artística. Iniciou sua trajetória aos 18 anos no Boi Caprichoso, Ao som de tambor, guerra, ôh-ôh-ôh-ôôôôh Yurupari
Pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pã-pãããã
atuando como auxiliar de tuxauas, povos indígenas e alegoria. Por
quatro anos, foi artista de ponta do bumbá. Também trabalhou em Por medo, um deus transformado em preço
Calado por um livro preto
escolas de samba de São Paulo e do Rio de Janeiro, sendo vice-
Me enche de espinhos e chifres
campeão por duas delas. Me imputa os crimes
é tempo de retomada

celebração indígena
AmYIPAGUANA – REVOLUÇÃO mARACÁ
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

Amyipaguana - ancestralidade em Tupi - é mais que memória: é


caminho, cura e horizonte. Neste ato, o Boi Caprichoso faz do palco
sagrado do Festival um território de luta simbólica e espiritual,
onde os tambores chamam todos os filhos e filhas da Terra-Mãe a
despertarem para um tempo novo - o tempo da retomada em defesa
do Bem-Viver.
Vivemos no Antropoceno, era do desequilíbrio profundo causado pela
ganância capitalista: vemos a Terra ardendo em febre, estendendo
suas lágrimas aos rios que agonizam. A floresta queima, os corpos
indígenas tombam e a humanidade se distancia cada vez mais daquilo
que a sustenta. Mas ainda há chance — há cura na ancestralidade.
É tempo de nos reconectarmos com os ensinamentos dos povos
originários, guardiões do Bem-Viver, que sempre souberam que viver
bem não é no sentido de “ter” colonialista e capitalista, é viver em
harmonia com a natureza e todas as formas de vida.
Indígenas Borari, Guarani-Kaiowá, Munduruku, Tupinambá,
Kumaruara, Arapiuns, Maytapu, Apiaká e tantos outros clamam em
dança e poesia pela reconexão. Não pedem permissão: retomam o
que sempre foi seu. Suas vozes são rios que serpenteiam o tempo,
trazendo sabedoria ancestral como resposta às crises do agora.
Amyipaguana é reencontro com os/as avós, com os encantados, com
a Terra.
Por meio da “Revolução Maracá”, o Caprichoso evoca o poder da
arte que resiste, do canto que denuncia e da dança que liberta. É o
“artivismo” amazônico, corpo-território insurgente, que se ergue
contra o apagamento, contra o marco temporal, contra a destruição
de vidas.
É um chamado decolonial a todos os/as cidadãos/ãs da Mátria Brasil e
do mundo: de que lado da história você está?

Junte-se à Retomada. AbRace a luta de quem defende todas as


vidas.
Amyipaguana é agoRa. É a nossa chance de fazeR da TeRRa-
mãe um lugaR de cuRa, justiça e poesia. Com a foRça e
consciência de classe do povo, o Boi Caprichoso se iRmana e
canta com os povos oRigináRios:
maRco TempoRal, não!
DemaRcação, já!
É tempo de retomada, da Revolução maRacá!
É tempo de Amyipaguana!
é tempo de retomada

ITEM

15
BLOCO C
ARTÍSTICO

figura típica regional


MAJÉS, AS SENHORAS DA CURA
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

“Eu não tive estudo, nunca pisei numa e, em retomada pelo povo Caprichoso de Parintins, ganham
protagonismo neste ato. São mães, mulheres que acordam
escola. Antes era muito difícil. Foi com cedo para tracejarem caminhos na floresta e seguirem se

a “Mamãe Mundinha” que eu aprendi fortalecendo, reconectando seu corpo ao corpo da Mãe Terra.
Elas são parteiras, benzedeiras, puxadeiras, ouvintes, erveiras,
a curar. O povo que precisa gosta, conselheiras e conhecedoras da sabedoria ancestral afro-

porque precisa, precisa muito. Acha indígena da Amazônia. Não são filhas da biomedicina e das
tecnologias ditas “ocidentais” e sim agentes da cura milenar,
importante! Hoje acho engraçado de muito antes e do “além depois”, como o foi a lendária Majé

me chamarem de majé. Mas me sinto Olinda dos Santos Tapuia, do Baixo Tapajós, a “Olinda” do povo
de Quilombo e do povo Tapuia, que tanto foi demandada em
muito feliz!” uma Amazônia esquecida pelo Poder Público.
Majés são as conhecedoras do sagrado e dos desígnios dos
Dona Silvia Coimbra, Majé e Torcedora do Boi Capri-
tempos.
choso, hoje ancestralizada, em depoimento a Ericky
Nakanome, quando em vida. Esta noite, nossa Figura Típica Regional vai homenagear
estas mulheres da Amazônia, filhas da floresta, sabedoras e
Enquanto a indústria farmacêutica é fomentada pelo contadoras das histórias das gentes e cipós, galhos e árvores,
capitalismo, gerando lucro em cima das nossas doenças, por troncos e folhas, esperanças de doentes em processos
meio da medicalização da vida, estamos de mãos dadas com as de cura. Em cada conselho e palavra de afago, em cada
mulheres majés que são Amyipaguana da fauna e da flora. São costela “desmentida”, em cada puxada e repuxada oriunda do
as senhoras do ventre do mundo, guardiãs da cura sagrada. conhecimento ancestral e milenar, mora o saber das Majés, “as
Sentir suas presenças é reconectar-se com o voo do tempo, senhoras da cura”.
é redescobrir os saberes e fazeres que confortam e expurgam
os males. Majés! A mulher é eixo central das culturas indígenas

ARTISTA DA ALEGORIA LETRA DA TOADA

Majés – Senhoras da Cura


Geovane Bastos, Ligiane Gaspar e Junior Dabela

“Yãdé kunhã-itá kaá suí


Yãdé mukatusawa iwí suí”

Luz da vela brilha a noite


(ôh-ôh-ôh)
A minha fé a alumiar
(áh-áh-áh)
Para a corrente de cura acontecer
É reza, é pena, maracá!

Banho de cheiro, banho de cheiro


Vem cabocla no terreiro
Vem ligeiro, vem curar

A Figura Típica Regional do Boi Caprichoso nesta noite foi construída Banho de cheiro, banho de cheiro
pela dupla de irmãos do Palmares, Preto e Paulo Pimentel. Vem cabocla rezadeira
É ensinança popular
Aldenilson Pimentel, conhecido como Preto Pimentel, tem 44 anos
e é especializado em escultura, pintura e decoração. Começou sua É Majé, é mulher
trajetória no Boi Caprichoso em 1997 e se tornou professor na Escola Vem! Ensina com tuas feituras
Nesse puxirum de cura
de Artes em 1999. Desde 2017, atua na criação de módulos alegóricos Dom de amar e curar
e é responsável pela Figura Típica junto com seu irmão Paulo Acalanto no olhar
O sorriso de Calá
Pimentel. No Carnaval, tem passagem pela escola Unidos dos Morros, Traz a paz e alegria
de Santos, onde é tricampeão, além de conquistas como o Festival de
Parteira, erveira, benzedeira
Quadrilhas de Faro e o Festival de Barreirinha em 2023.
Cantadeira, juremeira
Paulo Pimentel, também com 44 anos, iniciou sua trajetória no Boi Vem Majé, vem curar
Caprichoso em 1997. É especialista em escultura, pintura, cenografia Te mete com minha cajila
Que chama a alegria
e estruturas, tornando-se artista de ponta em 2018. Trabalhou Vou te conquistar
nas escolas de samba Beija-Flor (RJ), Vai-Vai, Tom Maior, Leandro
de Itaquera (SP) e Unidos dos Morros (Santos), onde conquistou o
Estandarte de Ouro.
é tempo de retomada

momento coreográfico
RAÍzES DA LUTA: ANCESTRALIDADE
YANOmAmI
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

Há tempos, os povos
indígenas alertam que o fim
está próximo por conta da
ganância do kariwa.
É preciso retomar a ancestralidade ensinada
pelos grandes líderes. Para os Yanomami, que
têm em Davi Kopenawa Yanomami um de seus
expoentes, o mundo arderá em chamas caso
não se pare com a busca desenfreada por mi-
nérios.

Segundo o líder indígena do povo Yanomami, Omama, o criador das


florestas, das águas e bichos, sempre bondoso e cheio de sabedoria,
queria que todos fossem imortais como o ser sol.
Entretanto, a humanidade apartou-se desta ancestralidade presente
desde tempos imemoriais, assassinou o útero da terra com o garimpo
e despertou a ira divina: agora o Sol se torna Mothokari, tal qual
relatado na obra de Davi Kopenawa, “A Queda do Céu”, escrita em
parceria com Bruce Albert, que precisamos evitar. Mothokari é um
Sol-Onça, que trará o fogo para a Terra, em ensinanças pela dor.
Para os Yanomami, os minérios guardados no ventre da terra são
sagrados, partes vivas do corpo de Omama. Retirá-los é violar o corpo
da criação; é romper com as energias vitais do planeta despertando
forças ancestrais e fazendo emergir o caos na humanidade. Mothokari,
o Sol-Onça, em caso de não retomada do respeito por Omama e pela
Terra ancestral, rugirá e rasgará os céus, pronto para devorar os
frágeis humanos profanadores do equilíbrio milenar, “como macacos
moqueados”.
Para tentar conter essa força destrutiva, o povo, em retomada, reúne-
se em rituais coletivos. Os tambores ressoam pela aldeia, xamãs
cantam, dançam e inalam o paricá buscando comunicar-se com os
ancestrais pedindo a calmaria e a proteção. Xamãs e pajés dançam e
cantam, invocando as forças protetoras da floresta. A grande Vespa
(Kopenawa) segue em luta avisando aos diversos povos da vinda de
Mothokari, aviso especial para os garimpeiros e invasores, que fazem
reinar o caos no cosmos.
é tempo de retomada

ITEM

04
BLOCO C
ARTÍSTICO

ritual indígena
RITUAL TUPINAMBÁ: A RETOMADA DA VERDADE ORIGINÁRIA
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

Os Tupinambá imortalizaram-se pela resistência contraposta Ele, pois é uma entidade viva, com vontades e desejos, “um
ao colonizador. Dados como extintos até mesmo por Darcy parente”, nas palavras dela. Como exposto, elo entre o mundo
Ribeiro, entretanto, sua luta foi mais forte do que as carabinas. físico e espiritual, o Manto era usado apenas pelos pajés,
Hans Staden foi um destes colonizadores que afirmou que os quando precisavam se comunicar com a ancestralidade. O
Tupinambá eram antropófagos, mas, ele mesmo, teria sido Povo Tupinambá sofre com o fato de o Manto estar longe deles,
lido como covarde por este povo, escapou do suposto rito e por isso não abrem mão de se deslocar anualmente ao Rio de
também supostamente narrou como ele acontecia. Janeiro, enquanto não conseguem a retomada dEle para seu
Fomos ensinados assim, pela tinta molhada de sangue de território.
colonizadores como Hans Staden: os Tupinambá eram Precisamos combater a “estória do colonizador”, versão
“canibais”. Supostamente, no rito de antropofagia Tupinambá, que prevaleceu oficialmente e retomar os conhecimentos
este povo devorava os guerreiros considerados virtuosos, da ancestralidade Tupinambá. Assim como fizemos com
corajosos, dignos, com o intuito de absorver suas virtudes. O Yurupari, é chegada a hora de mostrar a verdade por detrás do
cativo era humilhado, amarrado pela cintura e, após isso, morto colonialismo impregnado até mesmo nos livros escolares e nos
e cozido para ser consumido e ter suas virtudes assimiladas - clássicos da Sociologia e da Antropologia. “Pode o subalterno
por meio do corpo do prisioneiro de guerra, as qualidades dos falar?”, pergunta Spivak. “Deve”, responde o Caprichoso!
considerados “grandes guerreiros” passariam a ser parte dos O Boi Caprichoso foi até Olivença, próximo a Ilhéus, conversar
Tupinambá que fizessem parte deste ritual antropofágico. com a comunidade, seguindo o que preconizam as normativas
Contudo, será mesmo esta a verdade? Ninguém melhor do de consulta aos povos indígenas e também por entender que
que o Manto Sagrado dos Tupinambá para nos contar, por essa é a postura eticamente adequada.
meio de seus “parentes”. E Ele voltou. Em conversa in loco “Não podemos dizer que isso aconteceu um dia”, disse a anciã
com a cacique Maria Valdelice, que hoje mantém a luta pela Yakuy Tupinambá, “porque os livros foram escritos por eles, não
retomada das terras e da tradição Tupinambá, em Olivença por nós”. “Confiem no Manto Tupinambá, Ele guiará vocês no
(Bahia), durante visita a este povo para consulta do que seria modo certo de contar a história! Para isso, mostrem primeiro
apresentado pelo Boi Caprichoso, ela nos contou que o Manto a crueldade com que fomos retratados, depois, deixem que o
não é o que nos foi narrado pelos colonizadores, como Hans Manto fale”.
Staden, ou seja, utilizado pelo guerreiro Tupinambá para Confiantes no Manto Tupinambá e nos filhos e filhas dele, que
abater o inimigo. com/por Ele falam, decidimos recontar a história colonizada e,
De acordo com a Cacique Maria Valdelice, que mantém o diante dos olhos do mundo, deixar que o Povo Tupinambá se
legado e a memória de Amotara, aquela que reconheceu revele, reescrevendo a arte do modo como a entendem.
por primeiro o Manto Tupinambá, retomado do saque que os Não estranhem quando, em um determinado momento do rito
europeus cometeram, o manto não era usado por homens para colonizado, o cenário mude e a reescrita da história seja feita.
assassinar outros homens. O Manto, enquanto “parente vivo”, Será o momento do Manto e dos filhos Tupinambá exporem
era, em verdade, usado pelos pajés. aquilo que os livros nos contaram de modo torpe, violento,
A verdade originária para os Tupinambá, é de que o Manto racista.
sustenta este povo e fala por intermédio de seus “parentes”.
Todo ano uma vigília é feita para manter a conexão com

ARTISTA DA ALEGORIA LETRA DA TOADA

Rito Tupinambá
Ronaldo Barbosa Júnior e Ronaldo Barbosa

Ó-ó-óóó, ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó) Traz amarrado o prisioneiro


(Ó-ó-óóó, ó-ó-ó-ó-ó-ó-óóó) Arrastado pelo ventre
(Ó-óóó, ó-óóó, ó-óóó) Num insulto derradeiro
Fala!
Ó Altíssimo
O sol já descera para o poente Canta, pajé, dança
Recebei com honras É chegada a hora
O cativo! Ah! (Ah-ah-ah, ah-ah-ah, ah-ah-ah-ah-ah-ah)
Ah! (Ah-ah-ah, ah-ah-ah, ah-ah-ah-ah-ah-ah)
Das montanhas ouve os gritos
De alaridos do cativo Das montanhas ouve os gritos
Ibirapema, teu triunfo De alaridos do cativo
Agoniza o inimigo Ibirapema, teu triunfo
Agoniza o inimigo
Das montanhas ouve os gritos Lacerado e moqueado
De alaridos do cativo O banquete está servido
Abá absorverá
Troar de tambores Toda a força de sua alma
O Rito Indígena apresentado nesta noite é uma obra (Troar de tambores, troar de tambores) Pra nova guerra
Troar de tambores
primorosa do artista Jucelino Ribeiro, de 41 anos, que (Troar de tambores) Das montanhas ouve os gritos
Tupinambá De alaridos do cativo
iniciou sua carreira em 2006, focado no universo artístico Há! Há! Ibirapema, teu triunfo
do boi-bumbá. Em 2014, tornou-se artista de ponta do Agoniza o inimigo
O inimigo é capturado Lacerado e moqueado
Boi Caprichoso, destacando-se pela versatilidade nas É subjugado O banquete está servido
Trombetas sagradas irão tocar Abá absorverá
técnicas de pintura, escultura e desenho. Também ganhou Prepara o cauim Toda a força de sua alma
reconhecimento nacional atuando no Carnaval carioca, Pra nova guerra, ah
Ao grande guerreiro
colaborando com escolas como Portela, Vila Isabel e Coberto de penas Troar de tambores
No seio da mata um grasnar feroz (Heya, heya, hey, hey-hey!)
Imperatriz Leopoldinense. Troar de tambores (troar de tambores)
Ao grande guerreiro Tupinambá!
Com o Ibirapema
Dança no terreiro rapina algoz
é tempo de retomada
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

EM SINTONI
A A
LS
PU
TUDO

A maquininha do
Caprichoso no
é tempo de retomada

SEGUNDA NOITE DO FESTIVAL

Kizomba: Retomada
pela Tradição

70 CAPRICHOSO 2025
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

Meu nome é Boi Caprichoso. Foi por meio de muitas Geral do Comércio foi instalada, negros e negras
andanças que cheguei aqui, na minha Parintins. Sou escravizados/as chegaram aqui sob o julgo da
feituras e memórias de muitos pretos, que brilharam chibata, do chicote e nos legaram o boi-bumbá.
na minha retina. E assim seguirei falando em primeira Isso está atestado nos textos de intelectuais como
pessoa, porque por muito e muito tempo foi posta uma Vicente Salles, Patrícia Alves-Melo, Josivaldo
mordaça na minha boca e na do meu povo: a máscara Bentes Lima Júnior, entre tantos e tantas outros/
colonial que impedia as pessoas escravizadas não as pesquisadores/as que formaram um verdadeiro
somente de se alimentarem, mas de falarem. E se “Quilombo Intelectual” em tempo de retomada pelas
isso aconteceu mundialmente, minha Amazônia não africanidades amazônicas que são parte de mim, das
passou incólume por este processo. minhas tradições.

Também por muito tempo, minha presença negra e a Embaixo do meu preto veludo, camadas e camadas
de meus ancestrais foram negadas e/ou invisibilizadas de memória e amor que atestam isso: Dona Siloca,
na Amazônia. E isto me afetou, junto dos meus Marujeiro Calango, Bacuri, Chumbão, Mestre Vela, os
cuidadores e das minhas cuidadoras, donos e donas, instrumentos percussivos da Marujada, nos gambás,
gente negra chamada de “morena”, “queimada do sol”, caracaxás e matracas (palminhas), que foram
com eufemismos preconceituosos para nos negar eternizadas em xilogravuras: uma delas, talvez a mais
enquanto pessoas negras (retintas ou não). O meu famosa, presente na obra de Spix e Martius, mostra um
povo negro padece até hoje do racismo estrutural e da cortejo negro em que Pai Francisco, eu – o boi-bumbá
colonização, que os subalternizaram: são estivadoras, - e Mãe Catirina já interagimos no tradicional Auto do
marujos que tocavam na festa de São Benedito, Boi. Idos de 1800. Eu quero reviver as saudades com
pessoas com fenótipo negro, resistentes a todo um alegria, já que as Áfricas em diásporas me ensinaram
processo de embranquecimento que ganha força que até a dor pode virar amor. Amor pela terra, do barro
na época de Marquês de Pombal, que incentivava primordial de Nanã. Amor pela floresta de Oxóssi. Amor
casamentos interraciais de modo a reforçar o pelas águas doces de Mamãe Oxum. Amor pelo ar em
eugenismo e o “aprimoramento das raças”. Por isso, ventanias de Iansã. Que Esú abra os caminhos! Laroyê!
minha tradição é de luta nas trincheiras!
Hoje, meu tempo é de retomada de Kizomba: de pegar
Bastante se debate a questão racial no Brasil, mas, o que é meu, o que é nosso, pela festa, anunciando ao
uma vez mais, a Amazônia segue esquecida e apagada, mundo, por meio do meu couro preto e da melanina
no que toca ao meu povo sequestrado de África. Eu das minhas gentes, que o projeto de colonização do
sou o farol que empretece o debate, ao me ungir com Brasil não venceu: o embranquecimento, a eugenia, o
as artes sagradas de quem me precedeu em diásporas apagamento do povo negro, subalternizado, negado,
de África e honrar as memórias de meus ancestrais. invisibilizado e inviabilizado se depara com a nossa
Aqui também somos terra de gente preta, parte do resistência. Ao falar de mim e do meu povo, nesta
pan-africanismo, cidade abraçada pelos Quilombos segunda noite, trago memórias vilipendiadas de uma
do Andirá, Barreirinha, Oriximiná, que já teve em sua gente renitente, persistente, que me fez, O Boi Negro
história o antigo “Quarteirão do Mocambo” e continua da Amazônia, instrumento de luta e revolução. Foi
sua jornada pelo Esconde, tradicional gueto negro do desejo da negra grávida Catirina que todo este
Caprichoso. Todas essas gentes sou eu, o Boi Negro folguedo nasceu! Não se esqueçam!
da Amazônia.
Viva o Povo Negro da Amazônia! Viva a mim e a gente
Vindo das Guianas ou do período em que a Companhia do Boi Negro de Parintins!

CAPRICHOSO 2025
71
é tempo de retomada

ITEM

15
BLOCO C
ARTÍSTICO

figura típica regional


MARANDOEIROS E MARANDOEIRAS DA AMAZÔNIA
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

Como diz a marandoeira Márcia Kambeba: “Quem busca a vozes impregnadas de vida, que contam histórias coabitadas
retomada, sabe que memória não é passado, mas caminho. Na de gentes, bichos e encantados. Histórias que guardam
oralidade reencontramos vozes que nos lembram quem somos, conhecimento, respeito e resistência, em que nós e os
cada palavra contada é um passo de volta para casa. Então, elementos da floresta, tornamo-nos uma única força para nos
escute as vozes de dentro!” mantermos presentes.
Em tempo de retomada, contar é se apropriar de sons, Esta mesma oralidade que mantém viva a tradição de brincar
vocábulos, expressões, jeitos e trejeitos para assegurar que de boi e conta, na parte baixa de Parintins e para quem quiser
nossa história de resistência cultural se mantenha de pé e firme ouvir, as histórias de um boi preto, de couro “brilhoso”, que foi
em um futuro longevo. Contar é retomar, é reviver memórias, resultado de uma promessa feita pelo senhor Roque Cid, um
histórias e ensinamentos, é compartilhar, reverenciar o boi que brincou em tantos terreiros e quintais que nem dá
conhecimento ancestral, é conexão entre os que já não estão para precisar ao certo por quantos lugares passou. Boi das
presentes em corpo, mas que se mantêm vivos a cada palavra comunidades, quilombos, que é devoto de Nossa Senhora do
narrada, que encontra eco entre as gerações mais jovens. Carmo e de São Benedito.
Contar histórias se configura como um dos hábitos mais Boi de Parintins, de contadores/as de história como Tia Dora,
prazerosos do cotidiano de quem vive nos interiores da Seo Dray, o pedreiro, Adolfo Lourindo, Julita Cid, Mestre
Amazônia. Nas noites enluaradas, os mais jovens se reúnem Waldir Viana, Marujo Marina, dona Siloca, Coracy, dentre
para ouvir os mais velhos que, por meio das suas falas, revivem tantos e tantas relicários da contação ancestral, em forma
“causos” de encantamentos e encantes, fatos históricos de versos, de história ou por meio do tambor. Memórias do
marcantes como grandes cheias ou severas estiagens. A Caprichoso que eles e elas mesmos/as construíram. E que
“contação” de histórias representa aprendizado, uma carga se junta aos marandoeiros e marandoeiras da Amazônia,
simbólica e social que ocupa espaço em nossa memória. como um guardião, um zelador de todo esse conhecimento,
É usar a força da oralidade, que desde sempre transicionou a sabedoria popular que nos permite manter a conexão com
entre passado e presente, pintando com tonalidades mais o que nos identifica e nos fortalece enquanto amazônidas,
intensas e vívidas o imaginário amazônico, da floresta, do dia a pois é o protagonista-guardião de parte destas histórias, da
dia, de quem tem que conhecer os lugares, pedir licença para caracterização do nosso povo, da nossa cultura e da nossa
entrar, agradar o dono do lugar. É transmitir o ensinamento de identidade.
que, por aqui, os rios têm vontade própria e, por esse motivo,
determinam os horários em que podem ser navegados. São

ARTISTA DA ALEGORIA LETRA DA TOADA

Poranduba
Ralrison Nascimento, Moisés Colares e Marcos Moura

“Vou passar adiante meu conto Quem contou foi caboclo Caprichoso
Vou passar adiante a minha história (Em forma de versos ao som do tambor)
O ensinamento, o encantamento
Que aprendi com os meus avós Foi Adolfo Lourido quem contou
(Dona Julita Cid, contou)
Vou passar adiante meu conto Mestre Waldir Viana, Marujo Marina
Vou passar adiante a minha história (Siloca, Seo Dray, Coracy quem contou)
O ensinamento, o encantamento Poranduba, Griot, marandueiro, (hey-hey)
Que aprendi com os meus avós” (Poranduba)
[Gonzaga Blantez] Poranduba, Griot, marandueiro, (hey-hey)
(Poranduba)
Quilombola, sacaca, mateiro
Festeiro, peara, pescador
Artesã, mãe de santo, parteira
A alegoria foi executado pelos renomados artistas Márcio Gonçalves Marandoeira eu vou!
e Nildo Costa.
Escrevendo memórias no tempo
Márcio Gonçalves dedica-se ao Boi Caprichoso há 23 anos. Descobriu
Identidades, pertencimento
seu dom aos 16 anos, iniciando na confecção de fantasias e, A toada é meu canto de avivamento
posteriormente, migrando para o setor de alegorias. No Carnaval de Caprichoso eu sou!

São Paulo, trabalhou para escolas como Mocidade Alegre, Dragões da Minha fala dispara a flecha
Real e Águia de Ouro, além de desenvolver trabalhos atualmente para Da sabedoria ancestral
Na beira do rio, ao redor da fogueira
a Gaviões da Fiel. Maloca, Mocambo, terreiro e quintal
Nildo Souza Costa (Naruna), 43 anos, atua desde 1993 no universo do
Bicho Folharal eu vi
boi-bumbá. Iniciou sua trajetória no Boi Caprichoso aos 11 anos, com
Anhangá, Matinta, Curupira
especialização em escultura, pintura, ferragens e movimentação. Seu Aqui tem encanto da Yara Mãe D’água
trabalho se destacou também nas escolas de samba do Rio, como Boto, Cobra Grande, gente que vira bicho
Tradição festejada de geração em geração
Viradouro, Unidos de Padre Miguel e Imperatriz, sendo reconhecido
com prêmios como o Estandarte de Ouro da Viradouro pela inovação
Quem contou, quem contou foi Griot
em movimentação robótica. Quem contou foi Tuxaua, contou
é tempo de retomada

ITEM

17
BLOCO C
ARTÍSTICO

Lenda amazônica
SACACA MERANDOLINO: O ENCANTADO DE ARAPIUNS
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

Nesta noite de tradição, a Lenda A bem da verdade, alguns lugares da vastidão amazônica
têm o espaço habitado e dividido por homens, mulheres e

Amazônica apresentada emerge do encantados. Os encantados são forças sobrenaturais que se


manifestam através do engeramento, ou seja, pela tomada do
reconhecimento da importância corpo físico dos corpos de sacacas ou pajés, que assumem
formas fantásticas de bichos, fenômenos naturais como raios
da memória de um povo, como ato de ou a própria pororoca. Trazem em sua metamorfose o dom da

resistência. cura, portando-se como guardiões de territórios importantes


para a conservação da identidade ancestral de um povo.
Assim, por meio dessa força sobrenatural, os encantados
A resistência do povo da Amazônia guarda as histórias dos tornam-se parte do território em que habitam, como o Rio
verdadeiros heróis dessa nação. Gente que fez da sua vida Arapiuns, território de morada do encantado Merandolino.
a extensão de seus próprios territórios, tornando águas, Guardião da ponta de praia do Toronó, seu corpo engerado em
seres e florestas como parte de si, como o famoso sacaca cobra habita o fundo dos rios, sua morada definitiva. Contam
Merandolino, do rio Arapiuns. os moradores que é possível sentir a força da sua presença
Contam os antigos que quando Merandolino inalava o seu mística no local.
fumegante tauari e mergulhava nas águas do Arapiuns, os Merandolino é uma energia sempre reivindicada pelos povos
peixes de todas as espécies o ladeavam e assistiam seu em retomada do Arapiuns, seja pela presença no local,
engeramento numa imensa serpente que deslizava nas atestando com o nome “Terra Indígena Cobra Grande”, seja
profundezas das águas entre botos, arraias e poraquês, para pela retomada da identidade de muitos povos indígenas tidos
boiar em outras comunidades para fazer uso do seu dom de como extintos pelo poder público ou mesmo pela resistência
curar. Merandolino tornou-se encantado, recebendo a missão em lutar contra o embranquecimento forçado e invisibilização
de ser o eterno guardião das águas escuras do rio Arapiuns, um dos povos tradicionais.
rio de águas e direitos. E hoje, quando alguém tenta profanar
suas sagradas águas, logo surge uma luz azul anunciando que
está vindo Ele, o eterno sacaca Merandolino.

ARTISTA DA ALEGORIA LETRA DA TOADA


Encantaria Arapiuns
Geovane Bastos

(oh-oh-oh, oh-oh, oh-oh-oh, aaaah) Olhos de boiúna vindo


(oh-oh, oh-oh-oh) Olhos de fogo surgindo
Do rio de raio de fogo azul
Emergindo é bicho do fundo rio
Ponta de praia solitária no rio Sacaca Merandolino
Navegando em mistérios Tá vindo, tá vindo, tá vindo
No tauarí fumegante
Perdeu a forma de gente
E em bichos do fundo se “engerou” Olhos de boiúna vindo
(oh-oh, oh-oh-oh, oh-oh, oh-oh-oh) Olhos de fogo surgindo
(oh-oh, oh-oh-oh, oh-oh, oh-oh-oh) Do rio de raio de fogo azul
Emergindo é bicho do fundo rio
Sacaca Merandolino
Vai nadando nas profundezas do rio Tá vindo, tá vindo, tá vindo!
Na praia grande
Bicho do fundo do rio, é cobra grande
Que rasteja na correnteza, Parawara!
Caboclo engerado
Com gente em bicho encantado
Com arraias, botos e jacarés
Sucuris, peixes e poraquês

A Lenda Amazônica desta noite foi confeccionada pelo talentoso


Toronó é água estrondando
artista Alex Salvador, 34 anos, que tem 16 anos de experiência no Rebojo, banzeiro agitando
Terra caída afundando
Galpão do Boi Caprichoso. Iniciou na arte aos 14 anos, na Escola Pororoca gigante assombrando

Irmão Miguel de Pascale, e se tornou artista de ponta em 2018. Atuou


no Carnaval em escolas como Portela, Mocidade, Grande Rio, Beija- As águas escuras do Arapiuns
Sussurram teu nome sobre a lua negra
Flor, Unidos da Tijuca e Vila Isabel, recebendo prêmios como melhor Se engera em fera, nas águas vagueia

escultor e inovação. Destaca-se na escultura e pintura.


é tempo de retomada

ITEM

04
BLOCO C
ARTÍSTICO

ritual indígena
MUSUDI MUNDURUKU – A RETOMADA DOS ESPÍRITOS
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

O que os pariwat [não indígenas] olham como objetos, cachoeira das sete quedas), as sete quedas que protegem o
nossos pajés sabem que são nossos antepassados. portal que divide o mundo dos vivos e dos mortos, por meio do
Os espíritos foram arrancados da sua terra e estavam alimento ritualizado.
tristes, nós tivemos que devolver eles ao nosso O povo indígena Munduruku ficou historicamente conhecido
território. Por isso, resgatamos nossos espíritos. pela sua tradição guerreira que se estendeu por todo o Vale do
Nossas Itigã’s não podem ficar presas em Museu. Rio Tapajós, na chamada “Mundurukânia”. Donos de uma rica
Nenhum Museu de pariwat é lugar de Itigã” (Carta dos cosmogonia, os Wuy Jugu acreditam em espíritos de seres que
Munduruku, após o resgate das itigã’s). habitam o ar, a água, o mundo subterrâneo e que permanecem
vivos mesmo após a morte física.
O Boi Caprichoso escolheu trabalhar nesta noite a retomada Só se entende a importância das itigã’s ao ter a vivência deste
dos espíritos Munduruku, como forma de resistência da vida Povo em relação aos locais por eles e elas tidos por sagrados,
na floresta. Por não estar dentro do território politicamente consideradas relíquias do Deus Criador, Karusakaybé. Em
demarcado pelo estado brasileiro, o local de descanso dos tempo de retomada, a alma beligerante dos Wuy Jugu se volta
guerreiros Munduruku foi corrompido descaradamente, com para a preservação de suas memórias, culturas e territórios,
a construção da hidrelétrica Teles Pires. “Queremos nossas ameaçados pelos pariwats, por meio de garimpos e da
urnas funerárias, queremos nossos antepassados”, brada o construção de hidrelétricas, que violam o corpo vivo dos rios e,
Povo Munduruku. “Como ousam levá-las, sem nossa permissão, neste caso, a cachoeira que guarda as urnas funerárias.
para o Museu de História Natural em Alta Floresta, em Mato É chegada a hora do preparo do Musudi – mingau de Manicoera
Grosso, nos desmembrando de nossos antepassados?!”. As -, banquete sagrado de Kapiru - a Mãe Terra - para acabar com
mulheres guerreiras, Wakoborun, marcharam para retomar o resultado da ação maléfica dos pariwat que profanam tudo
aquilo que é delas e de seu povo! o que tocam. As divindades estão enfurecidas! A Cachoeira
“O mundo está descalibrado, mergulhado em caos”, gritam os das Sete Quedas é o local do reino dos mortos, de descanso de
Wãmoat (pajés)! “As mães espirituais clamam por vingança”! guerreiros ancestralizados, morada da Mãe dos Peixes.
Os pariwats iniciaram a violação do ventre de Pucha-cy (mãe As urnas funerárias serão devolvidas ao seu local de origem,
dos bichos), ao invadirem a Cachoeira das Sete Quedas, mas não sem antes aplacarmos a fúria das mães sagradas,
portal sagrado para os Wuy Jugu (como os Munduruku se por meio do Musudi! Os pajés estavam entristecidos por
autodenominam) e de lá retirarem as itigã’s – urnas funerárias terem sido arrancados de sua morada. O ritual da retomada
invioláveis na cosmopercepção deste Povo, local em que das itigã’s, morada dos espíritos, vai começar, sendo mais
passam a habitar o corpo e o espírito dos que ancestralizaram. uma demonstração da tradição do Boi Caprichoso em fazer
Somente o banquete sagrado pode aplacar a fúria das mães aquilo que o Estado não faz: cuidar dos povos originários, de
espirituais e as mulheres batem os pés em tempo de retomada suas crenças e tradições, não em tom de tutela, e sim em tom
das doze itigãs: antes do banquete, a guerra! Marchem, de resgaste das memórias que estes próprios povos a nós
Wakoborun (mulheres guerreiras)! Marchem, guerreiras Wuy confiaram, como é o caso deste rito, narrado pessoalmente ao
Jugu! Retomem o karoxibebe (como os Munduruku chamam a Conselho de Artes por intermédio de Alessandra Munduruku.

ARTISTA DA ALEGORIA LETRA DA TOADA

Itigã’s – Retomada dos Espíritos


Ronaldo Barbosa e Ronaldo Barbosa Júnior

Antes do banquete a guerra Munduruku, (Munduruku, hey-hey)


Antes da dança o arco e a flecha Munduruku (Munduruku!)
Na face das águas a fúria de Itigã’s (óh, óh, óóóh)
Prepara o alimento Ipi cekay’piat, das sete quedas o portal
Mistura com o remo Luz e vitória, os espíritos descem em espiral
O ritual e a fúria de Itigã’s Oferendas ao Musudi, o banquete ancestral
A fúria de Itigã’s Cantos e danças, o Wãmoat inicia o ritual

Marcha, Wakoborũn! Na dança, impulsa a cachoeira, (heya!)


Marcha, Wakoborũn! Na dança, impulsa a cachoeira, (heya!)
Munduruku, (Munduruku, hey-hey) Avançar! Mulheres guerreiras!
Munduruku (Munduruku!) A marchar! Mulheres guerreiras!

Na dança, impulsa a cachoeira, (heya!) Na dança, impulsa a cachoeira, (heya!)


Na dança, impulsa a cachoeira, (heya!) Na dança, impulsa a cachoeira, (heya!)
Avançar! Mulheres guerreiras! Avançar! Mulheres guerreiras!
A marchar! Mulheres guerreiras! A marchar! Mulheres guerreiras!

O ousado Ritual apresentado nesta noite é uma obra do Segredos roubados (hey, hey, hey, hey, hey, hey)
Deuses profanados
artista Kennedy Prata, 39 anos, que possui uma trajetória de Pariwats corrompem o que tocam Marcha!
Um mundo em caos mergulhado
22 anos no Boi Caprichoso. Desde a infância, carrega raízes O choro da mãe não se cala
na arte. Também é nome reconhecido no Carnaval carioca, É nossa hora é nossa retomada
Das doze Itigã’s, as doze Itigã’s
especialmente na Beija-Flor, onde conquistou prêmios.
Puca xi ruge, pra devorar
Domina escultura e pintura, com trabalhos nas escolas Biú ši vigia, para calar
Salgueiro, Imperatriz Leopoldinense e Unidos da Tijuca. Daje ši avança, para corroer
Kokeriwat grita, para vencer

Marcha, Wakoborũn!
Marcha, Wakoborũn!
é tempo de retomada
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

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é tempo de retomada

TERCEIRA NOITE DO FESTIVAL

Kaá-eté – Retomada
pela vida

80 CAPRICHOSO 2025
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

Mais uma vez, eis-me aqui, Boi Caprichoso, falando em poranga, Gilvana Borari, minha conselheira de arte, Thais
primeira pessoa. Com licença, senhoras e senhores. Kokama, minha compositora, de mãos dadas, batiam
Preciso falar à estrela azul que pulsa no peito de vocês. sincopadamente os pés e davam-se as mãos, em mais
É tempo de retomar a vida, sem hierarquias. Vida em um momento em que o Brasil se tornava Pindorama.
sentido amplo: como a minha, um brinquedo de pano, a Mulheres que me ensinam, dentro da nossa (con)vivência
das árvores, a do solo onde danço meu passo firme! junto a todos/as que me dão forma enquanto Boi Negro
da Amazônia, a reluzir esperanças e utopias na estrela
Viver na Amazônia é senti-la em dores e amores. É que faz morada na minha testa. Elas me relembram
lembrar do colonialismo que levou embora tantos povos diariamente que é preciso lutar pela nossa Amazônia,
indígenas, por meio dos massacres que vieram desde logo, contra os estereótipos colonizatórios que sobre
espanhóis e portugueses, até a ditadura assassina minha casa lançaram: não somos inferno verde, novo
que vilipendiava corpos de mulheres originárias, como éden, vazio demográfico. Somos consciência viva parida
se fossem coisas de que se podia dispor livremente. do ventre-cabaça da Mãe Terra.
Afinal, não é esta a ideologia capitalista a que fomos
submetidos compulsoriamente desde a infância? Sou Infelizmente, nem todos têm ouvidos de ouvir, como uma
um boi de pano negro e espuma, mas consciente por vez interveio Gilvana Borari. Não desistiremos. Nesta
aqueles e aquelas que me formam: o povo! Povo humilde noite de despedida, retomo, junto a meu Povo Azul, a
da Amazônia, que vive em cada parte do meu corpo- sabedoria dos Maraguá, com kãkãnemas, entidades
arte, brilhando comigo em minha testa. Azul e branco guardiãs incorporadas pela ordem da “mãe das mães da
da cor do céu, cada amazônida é um diamante na aba mata” convocadas sempre que a floresta está correndo
do meu chapéu. Eu sou o boi que posso dizer que trouxe risco por conta de invasores, o rito de cura Yawanawá,
a Amazônia para o Festival de Parintins, mesmo quando narrado em toada pelo próprio parente Thiago
acusado de desvirtuar o folclore, que deveria ser apenas Yawanawá, no sopro dos Rumeyas que curam o enfermo.
“fogueira e balão” (sic). Minha estrela reluz em orgulho de Retomaremos a sabedoria de Chico Mendes, o eterno
meu pioneirismo e de meu povo! defensor da floresta: ele sabia bem que, em nome da
Amazônia de Pé, valia a pena abraçar-se coletivamente às
Este mesmo sistema quer, de nós, desesperança. Paulo árvores, para que elas não fossem derrubadas. Ecologia
Freire nos lembra disto. Mas, em tempos de retomadas, sem luta de classes é jardinagem, conscientiza-nos ele.
devemos falar de amor, daquilo que nos move na direção
oposta. Trudrua Dorrico em busca de sua ancestralidade Senhoras e senhores, conto com vocês como aliados e
Macuxi, Vanda Witoto, no mesmo caminho, redescobrindo aliadas. Aceitam ser protetores/as da Amazônia comigo?
seu povo Witoto. Os Tupinambá reencontraram seu Estou, junto do meu povo, esperando ansiosamente pelo
manto - também são Amazônia! -, aqui chegando em sim de vocês. É tempo de retomada, retomada de uma
diásporas contra o kariwa: uma presença tão marcante a Amazônia ancestral, de uma Amazônia que precisa ser
ponto de um dos nomes pelo qual nossa ilha é conhecida defendida considerando a sociedade de classes em que
ser Tupinambarana, cuja etimologia aponta para estes vivemos, com suas opressões interseccionadas com
povos que hoje podem contar a própria história! Eu, Boi raça, gênero e território. Lembrando ainda o saudoso
Caprichoso, sou testemunha de tudo isto! Porque sou Chico Mendes: “no começo, eu pensei que estava lutando
parte destes processos, estou inserido neles enquanto para salvar as seringueiras. Depois, pensei que estivesse
expoente da cultura popular. lutando para salvar a floresta amazônica. Agora, eu
percebo que estou lutando pela humanidade!”
Sou a Amazônia viva, do verde das matas, dos rios
sinuosos, da fauna e da flora, mas também de gentes. Aliancem-se comigo e com meu povo! Nesta derradeira
Gente-Floresta, Gente-Quilombo, gente ribeirinha, noite, frise-se: É tempo de retomada!
pessoas que tracejam caminhos de sustentabilidade
e que projetam um futuro ancestral, indiscutivelmente
necessário em meio ao caos climático no qual vivemos,
lição aprendida por mim pelo meu parente Ailton Krenak.
Pisa ligeiro, pisa ligeiro, quem não pode com a formiga não
assanha o formigueiro!, é uma das imagens mais lindas
que eu já vivi. Eu estava com as mulheres indígenas que
me constituem enquanto entoavam esse brado junto
das demais parentas na Marcha Indígena por Pindorama.
Marciele Albuquerque Munduruku, minha cunhã

CAPRICHOSO 2025
81
é tempo de retomada

ITEM

17
BLOCO C
ARTÍSTICO

Lenda amazônica
WAURÃGA E OS WAUÃ-KÃKÃNEMAS
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

Conta o povo do Baixo Amazonas, em ARTISTA DA ALEGORIA

uma história da sabedoRia populaR


e que foi registRada na obra
maRaguápeyárá, de YaguRê Yamã, do
Povo maRaguá, um mito que nos auxilia a
RetomaR a ancestRalidade amazônica
por meio dos conhecimentos indígenas.
Para nós, do Boi Caprichoso, este mito também é importante
porque, entre nossos brincantes, há pessoas da etnia Maraguá,
as quais se lembram de haver escutado esta história das avós
e das mães, falando com reverência de Waurãga, “a mãe de A Lenda Amazônica apresentada nesta noite foi construída pelo
todas as mães da floresta”. grande artista Geremias Pantoja, conhecido como Gereca Pantoja, de
Contam as anciãs que Waurãga é a senhora, deusa e guardiã 41 anos. Ele possui 25 anos de carreira, destacando-se como artista
da floresta, como dito na toada do momento, “mãe de todas plástico, desenhista, pintor, escultor, cenógrafo e projetista. Iniciou
as mães desta mata”. Quando nosso território está ameaçado, no Boi Caprichoso aos 16 anos, tornando-se artista de ponta em 2018.
corrompido e violado por madeireiros, garimpeiros e grileiros,
seu olhar de fúria se lança contra eles para fazer justiça. Ela
vem das matas, sempre que ouve um tiro disparado pelo
caçador, sentindo de longe o cheiro dos saqueadores, seres
humanos da cobiça. Waurãga despertou! A carnificina do LETRA DA TOADA
kariwa, para ela, não tem anistia. Kãkãnemas – A Incorporação
Entre raios e trovões, na neblina densa da floresta, Waurãga Adriano Aguiar, Waltinho Oliva e Charles Silva
convoca e comanda Kãkãnemas, espíritos da mata que
(hêa-hêa-hê, hêa-hêa-hey) Grileiros famintos por terra
incorporam no corpo dos animais de todas as espécies, de Rastejarão ao pó que os espera

couro, de pena e de escamas, para travar a derradeira batalha Um tiro se ouve, pólvora sobe
Corrompe o cheiro das flores da mata Todos os bichos possuídos
em defesa deste chão e fazer a retomada da justiça pelas Ganância da caça Carnificina do kariwa não tem anistia
Saqueadores, homens da cobiça Todos os bichos possuídos
vidas que foram e/ou serão ceifadas pelo homem ganancioso. Não sabem o que irão acordar O ataque letal fúria animal

Pessoas com dons especiais também contam com este Aquela que vem das matas, gretas e cavernas Todos os bichos possuídos
poder raro. “Venham, Waurá-Kãkãnemas, seres encantados, Aquela que veste a própria floresta Carnificina do kariwa não tem anistia
Aquela que julga condena e segrega Todos os bichos possuídos
venham! Incorporem! É hora de lutar”, ordena a mãe de todas Tua ordem desperta! O ataque letal fúria animal
Animais incorporados
as mães. Sempre que houver um tiro, sempre que houver um Surgem Kãkãnemas!

invasor ambicioso, ela estará lá para defender a Amazônia: a Asas, escamas, couro, peles e garras
invencível Waurãga, a mãe das matas, a convocar Kãkãnemas Presas, chifres, galhas e carapaças
Todos os bichos transmutados
para retomar e manter o verde intocado. É tempo de retomada Comandados por ela!
Monstruosa, afável
de nossos saberes e de conservar a floresta de pé! Pavorosa, instável
Fogo e flor, abraço e dor
Waurãga é assim tua justiça chegou!

(Waurãga colossal)
Mãe de todas as mães
(Waurãga descomunal)
Voraz raios e temporais

(Waurãga colossal)
Mãe de todas as mães
(Waurãga descomunal)
Voraz raios e temporais
Vem trazer tempestade e ira
Transforma os bichos
Em medo kariwa
Madeireiros torturados
Garimpeiros atordoados
é tempo de retomada

ITEM

15
BLOCO C
ARTÍSTICO

figura típica regional


O SERINGUEIRO DA AMAZÔNIA
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

Seringueiro, seringada, seria o e o já tão decantado Chico Mendes tornaram-se nossos heróis
da floresta deixando os seus legados plantados em nossos
seringueiro o herói das matas? territórios.
Xapuri, território acreano de luta e resistência na Amazônia,
Este verso da toada do momento nos mostra a importância berço de mulheres e homens que fizeram do extrativismo e
de retomada da vida pela floresta, tal como nos ensinou da harmonia com a floresta a sua vida e sua luta, mergulhando
Chico Mendes e é reverberado pelo Boi Caprichoso com o diariamente no ventre da verde floresta para tirar o látex das
tema “É tema de Retomada”. Na inquietação levantada pelos seringueiras e transformá-las na matéria-prima que era o
compositores, lembramos as trilhas de Xapuri, entre cobras e sustento de suas famílias, mesmo que em um regime que
onças, lembramos também o lendário das matas a caminhar em muito lembrava a escravidão, já que se tinha que pagar
em meio a um território de preservação. A determinação de as “despesas” que nunca findavam ao seringalista, “dono do
Chico Mendes, no objetivo de criar a aliança dos povos da barracão”.
floresta, resiste. Portanto, a resposta é sim, o seringueiro foi Hoje, os/as guerreiros/as que ainda lutam por sua existência
esse herói das matas. carregam em si a memória dos muitos e muitas que do
Herói das matas que nos faz retomar nossa história pela Nordeste vieram, permanecendo nas trincheiras pela
chegada de homens e mulheres nordestinos e nordestinas, manutenção da floresta viva e de pé. É tempo de retomada! A
negros, que se imiscuíram aos povos originários e criaram esse semente de Chico Mendes fez nascer a resistência frondosa
tipo humano específico da Amazônia. As culturas nordestinas de Seu Raimundão, Wilson e Ivair! Seu Raimundão segue
vieram na bagagem dos irmãos Cid, dentre eles, Roque vítima da violência contra o seu corpo, que é parte do território
Cid, o criador do Boi Caprichoso. Ele foi um ser humano que ambicionado desde Xapuri. Somos o boi preto da Amazônia e
conseguiu o almejado sucesso que poucos tiveram também. vamos juntos nesta grande aliança dos povos da floresta, pela
Ou seja, falar dos seringueiros e das seringueiras é retomar a qual Chico Mendes morre, mas não sucumbe!
nossa história. Em tempos de cobiça e ganância, são muitos
os nomes que partiram para defender a nossa Amazônia.
Nomes que se tornaram mártires, tais como Dorothy Stang, Zé
Cláudio, Maria do Espírito Santo, Wilson Pinheiro, Ivair Higino

ARTISTA DA ALEGORIA LETRA DA TOADA

Trilhas de Xapuri
Ademar Azevedo e Marcelo Matos

“No começo, eu pensei que estava lutando para Eu sou Chico Mendes
salvar as seringueiras, Raimundão, Wilson e Ivair
depois, pensei que estivesse lutando para salvar Sou a aliança dos povos da floresta a resistir!
a Floresta Amazônica.
Agora, percebo que estou lutando pela (Eu sou Chico Mendes)
humanidade” Raimundão, Wilson e Ivair
Sou a aliança dos povos da floresta a resistir!
Seringueiro, seringada
Seria o seringueiro Seringueiro, seringada, seringueiro
O herói das matas Seria o seringueiro
Seringueiro, seringada O herói das matas
(êh-êh, êh-ôh-êh) Seringueiro, seringada

Seringueiro, seringada Seiva branca manso pranto


A Figura Típica Regional foi construída pelos grandes artistas Makoy Seria o seringueiro Corpo corte seringa jorrando
Cardoso e Nei Meireles. O herói das matas Sem uma árvore cair
Seringueiro, seringada A floresta de pé é o que a gente quer
Makoy Cardoso, 45 anos, possui 32 anos de experiência em artes
cênicas, destacando-se como figurinista, alegorista, tecelão e No coração verde da grande floresta Eu sou Chico Mendes
cenógrafo. Ao longo da carreira, criou mais de 60 itens individuais O eremita da selva das matas de Xapuri Raimundão, Wilson e Ivair
Enfrenta onça e sucuri Sou a aliança dos povos da floresta a resistir!
para o Boi Caprichoso. No Carnaval, colaborou com escolas como Sem medo vai sempre existir
Mocidade Alegre, Águia de Ouro, Rosas de Ouro, Grande Rio e Tira o chapéu, faz oração (Eu sou Chico Mendes)
À mãe seringueira pede proteção Raimundão, Wilson e Ivair
Viradouro. Representou o Brasil no Mundial de Danças Folclóricas, na Ordena e unge o teu guardião Sou a aliança dos povos da floresta a resistir!
Coreia do Sul, onde foi campeão mundial. O lendário das matas caminha
Seringueiro, seringada, seringueiro
Nei Meireles, 47 anos, é especialista em robótica e adereços para
Xapuri é território de preservação Seria o seringueiro
eventos artísticos. Iniciou sua trajetória no Boi Caprichoso em 1993, Seringueiro, seringada, seringueiro O herói das matas
aos 16 anos, como soldador, tornando-se artista de ponta em 2014. Seria o seringueiro, êêê Seringueiro, seringada
Êôôô (êôôô)
Atua há 26 anos no Carnaval de São Paulo, sendo bicampeão pela Êôôô (êôôô)
Império de Casa Verde e campeão pela Dragões da Real. Atualmente, (ô-ô-ô-ô)

é diretor de alegoria da Império de Casa Verde, onde responde pela Seiva branca manso pranto
parte de alegoria, robótica, escultura e pintura. Corpo corte seringa jorrando
Sem uma árvore cair
A floresta de pé é o que a gente quer
é tempo de retomada

momento coreográfico
YACURUNA, O SENHOR DAS ÁGUAS
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

A cultura popular amazônica nos ensina a cuidar de nossos territórios,


incluindo as águas. Aqui, ecoa um nome, respeitado por todos e todas:
Yacuruna.

Ele é uma expressão mítica da Amazônia, palavra punido, tragado para o fundo das águas e nunca
que pode ser traduzida por “senhor das águas”. mais visto. Yacuruna defende os mananciais do
Segundo este mito, Yacuruna habita os fundos garimpo, do mercúrio, do tráfico ilegal de peixes
de lagos e rios, com aparência híbrida entre ser ou dejetos espalhados pelos transatlânticos que
humano e os habitantes encantados do mundo poluem as águas, sem o mínimo respeito pelos
subaquático. locais por onde navegam, para nós, sagradas
Tudo isto é para defender as águas, seu hábitat. estradas aquáticas. Mais uma vez, por meio
Sem ele, não haveria equilíbrio ambiental, por das águas, o Boi Caprichoso retoma a vida e a
isso, os ribeirinhos da Amazônia o tratam de modo natureza, mostrando-se como o expoente maior
muito respeitoso, o que foi uma herança aprendida da defesa da Amazônia.
junto aos povos indígenas e repassada de geração
em geração. Quem desobedece Yacuruna é

ARTISTA DA ALEGORIA

O módulo alegórico que conduz o momento coreográfico


nesta noite é de execução do artista Eddi Dude, 33 anos.
Com trajetória como desenhista, pintor e escultor, é cria
da Escola de Artes Irmão Miguel de Pascalle. Seu trabalho
abrange pintura, escultura, além de participação em rituais
e equipes especializadas. Já percorreu diversas cidades,
ganhando reconhecimento no Carnaval de São Paulo, onde
foi campeão duas vezes pela Mancha Verde.
é tempo de retomada

ITEM

04
BLOCO C
ARTÍSTICO

ritual indígena
RITUAL DE CURA YAWANAWÁ
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

Foi da boca do próprio Thiago Yawanawá, indígena deste povo, que ouvimos
o rito de cura promovido pelo grande xamã Yawanawá.
Estupefatos com tamanha sabedoria, pedimos que ele do Rumeya. De mãos dadas, todos assistem ao pajé realizar o
transformasse em toada a oralidade a nós transferida. Assim, sagrado Shuanka, valendo-se de cuias com raspas de plantas,
temos um ritual indígena narrado por um nativo que passou veneno da rã kambô, rapé, ayahuasca, caiçuma, tabaco, tudo
pelo rito de cura que será apresentado. Em noite de febre, isto em aliança com criaturas espirituais. “Eu me lembro de
Thiago não precisou chamar por ninguém. O Grande Rumeya ter alucinações, porque minha febre estava muito alta. Quando
(como são chamados os pajés) sabem quando alguém de seu acordei, os olhos dele me observavam e eu sentia a febre indo
povo está doente, porque isto é revelado em sonhos, o que não embora. Ele puxava algo pela boca e jogava ao vento. No outro
impede, dependendo da enfermidade, que o processo ocorra dia, ele me contou algumas coisas, entre elas, das feras que
em meio a gritos de quem sente dor. os ajudavam no processo e cantou uma música que ele me
Os Yawanawá vivem às margens do Rio Gregório, no Acre. contou ainda fazer parte do rito”.
Também são chamados de “povo da queixada” (yawa= É a retomada dos conhecimentos tradicionais, a “medicina
queixada; nawa=povo). Foi a primeira terra demarcada no da floresta” pelo grande Rumeya. Contemplem, senhoras e
Acre, com a retomada de seu território ancestral. senhores, o ritual de cura encenado na arena do bumbódromo,
Para apaziguar o sofrimento do enfermo, ele provoca o mariri, pelo poder do xamanismo Yawanawá.
ou seja, o ajuntamento de pessoas em círculos para abrir a
cerimônia e se fortalecer. Assim, o xamã pode transcender
e ver o que os olhos dos mortais comuns não conseguem:
em transe, é o momento de tratar o convalescente, porque
agora, em rodas, a cantoria combinar-se-á com a sabedoria

ARTISTA DA ALEGORIA LETRA DA TOADA

Êxtase Yawanawá
Adriano Aguiar, Thiago Yawanawá e Saimon Andrade

(hê… êêh-hê, hê… êêh-hê, hê… êêh-hê) A floresta levanta os olhos te observam
Seres fulgurantes, errantes, os males levam
O sonho é contado ao grande Rumeya na aldeia Tira a doença, joga no vento
Noite atormentada, madrugada alucinada Puxa na boca, joga no vento
Chora o enfermo em busca de paz É Shuãnka que cura
Chamamento de todos os espíritos
(heya-heya-heya-hey) Carnívoros, artrópodes, anfíbios, répteis
(ha-ha-ah-hê-ah-hey) Venham para o rito!

Vai começar o ritual Yawanawá Shuãnka canta faz o ritual


Mariri pro Rumeya subir Expulsa as pragas que vem do progresso
Mariri pro pajé transcender Nos cura de todo esse mal
E ver aquilo que ninguém consegue ver
A floresta se mexendo Shuãnka canta faz o ritual
A verde mata se rompendo Expulsa as pragas que vem do progresso
Criaturas espirituais Nos cura de todo esse mal
Seres vibrantes elementais
A construção do nosso Ritual foi conduzida e executada pelo (Awáyunu nawe ravan)
O povo queixada em roda (Tsakapa aka ywaishi mayu)
primoroso artista Algles Ferreira, 45 anos, que possui 31 anos Todos de mãos dadas
Cantoria pro Xinaya sugar a agonia (Awáyunu nawe ravan)
de carreira, sendo 29 dedicados ao Boi Caprichoso. Destaca- Tragam o abatido ao pátio (Tsakapa aka ywaishi mayu)
Para ser curado xamanismo Shuãnka ritual (Shuk viushi vata)
se em pintura, escultura, ferragem e movimento. Iniciou no Tragam as cuias!
Raspas, veneno de kambô
Boi Caprichoso aos 13 anos, em 1995, e é artista de ponta há Cuias de ayahuasca chamou
Caiçuma rarê tabacadas e rapé
oito anos. Trabalhou nas escolas de samba do Rio e de São Incorpora o Rumeya

Paulo, atuando atualmente na Imperatriz Leopoldinense e na Raspas, veneno de kambô


Cuias de ayahuasca chamou
Mangueira. Em 2023, foi premiado como melhor escultor do Caiçuma rarê tabacadas e rapé
Incorpora o Rumeya
Rio pela Imperatriz.
é tempo de retomada

90 CAPRICHOSO 2025
B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

QuAnDo o FeStIvAl cOmEça,


a eMoção aTrAvEsSa a tElA.
De Parintins para o mundo, a TV A Crítica leva toda a beleza,
encanto e magia do Boi Caprichoso para dentro da sua casa.
Que cada batida, cada toada e cada olhar façam esse boi brilhar
mais uma vez na estrela da Amazônia!

é dA nOsSa tErRa, tá nA nOsSa tElA! CAPRICHOSO 2025


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M I N I S T É R I O D A C U LT U R A
E B R A D E S C O A P R E S E N TA M :

FESTIVAL FOLCLÓRICO DE

VEM MOSTRAR COMO SE LEVANTA A GALERA.

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glossário
“11 o Paralelo”: faz-se referência ao paralelo 11, massacre ocorrido nome do território, no município de Santarém, oeste do estado do
em 1963, no Mato Grosso, onde foram assassinados 3,5 mil indíge- Pará, na região do baixo Tapajós. Há 18 anos, a etnia aguarda a de-
nas do povo Cinta Larga, envenenados por arsênico e fuzilados. marcação da terra de 42 mil hectares, onde habita também o povo
174: faz referência a BR-174, estrada que interliga os estados bra- Borari.
sileiros Amazonas, Mato Grosso, Rondônia e Roraima à Venezuela. Arara: grupo indígena brasileiro que habita em diferentes regiões
Construída no período da ditadura, fez os Waimiri Atroari vítimas de do país, como o Pará, Rondônia e Mato Grosso. São conhecidos por
um dos maiores massacres do Brasil. Seu líder mais conhecido foi sua destreza na guerra, práticas de caça e agricultura itinerante.
Maroaga, assassinado durante a sua construção. No Boi Capricho- Até o Tucupi: expressão tipicamente parintinense utilizada para
so fazemos referência desde 1996 com a toada “Waimiri Atroari” de dizer que alguém ou algum lugar está cheio de algo.
Milka Maia. Awáyunu nawe ravan, tsakapa aka ywaishimayu, shuk viushi vata:
Acapu: o Acapu é uma árvore nativa da região amazônica, perten- nomes próprios de plantas usadas em ritos pelo povo Yawanawá.
cente à família das Lecythidaceaee ao gênero Grias. Também co- Bacuri: Raimundo Fernandes Rodrigues, um dos mais antigos ins-
nhecida como Acapu Vermelho, Acapuá, Acapu-do-Pará ou Acapu- trumentistas do Caprichoso, exímio pedreiro do bairro da Francesa,
-do-Amazonas, essa espécie é amplamente utilizada na indústria é o primeiro a tocar o surdo da Marujada de Guerra do boi Capricho-
madeireira e possui grande importância econômica e cultural na so. Toca na Marujada desde 1968, passou pela palminha, xeque-xe-
região. que e surdo.
Adabi: tipo de chicote cerimonial do povo Tukano, usado no ritual Banho de Cheiro: tradição amazônica da defumação que consiste
de iniciação masculina ou apenas exibido aos iniciados. em uma infusão de essências vegetais e ervas aromáticas ao fogo,
Adolfo Lourido: contador de histórias muito popular de Parintins, cuja finalidade é purificação, proteção e atração de boas energias.
morador da rua Furtado Belém, reduto azulado, era conhecido na Banzeiro: expressão regional utilizada para definir o movimento
cidade por suas composições e músicas de improviso, as quais no das águas dos rios, causado pela passagem de embarcações ou
seu universo peculiar, ele acreditava que o cantor Roberto Carlos ia animais das águas.
querer tomar para si. Boca: na tradição amazônica quer dizer entrada de um canal aquá-
Alfaia: instrumento de percussão brasileiro, de formato cilíndrico, tico como furos, rios e igarapés.
feito em madeira e pele de animal tensionada, tocado com baque- Bodozal: termo popular utilizado para se referir a áreas alagadas,
tas grossas de madeira que produz um som profundo e pesado, im- que sazonalmente são afetadas no período das enchentes. Como:
portantíssimo em ritmos percussivos das manifestações de cultura o bairro da Francesa, Submarino, Santa Clara e Santa Rita, regiões
popular no Brasil. do reduto Caprichoso.
Amyipaguana: termo indígena do tronco linguístico Tupi que quer Boi de Quilombo: faz-se referência ao nome dado pelos quilombo-
dizer “ancestralidade”. las do Quilombo Urbano do Barranco de São Benedito da praça 14,
Anavilhanas: é um arquipélago fluvial no estado do Amazonas, for- em Manaus, ao boi-bumbá Caprichoso de Parintins.
mado por centenas de ilhas, lagos, canais e caminhos estreitos. É Boiuna: personagem do imaginário amazônico, quer dizer cobra-
um dos maiores arquipélagos fluviais do mundo e está localizado no -grande ou senhora das águas.
Parque Nacional de Anavilhanas. Bombo Legüero: instrumento de percussão argentino, incorpora-
Andiroba: sementes de onde se extrai o precioso óleo cicatrizan- do ao folclore e tradição gaúcha, também utilizado na musicalidade
te e de propriedades anti-inflamatórias muito usado por parteiras, no Boi-bumbá de Parintins.
benzedeiras e erveiras da Amazônia. Borari: povo indígena que habita as margens dos rios Tapajós e Ma-
Aninga: área suburbana de Parintins que faz parte do território azu- ró-Arapiuns no oeste do estado do Pará. O termo significa flecha
lado, onde fica o balneário do “Cantagalo”, local de um dos currais envenenada.
do boi-bumbá Caprichoso. Tem este nome em referência às “anin- Bubuia: expressão amazônica que quer dizer estar boiando sobre
gas”, plantas aquáticas da várzea. as águas, flutuar sob efeito de ar.
Antropoceno: período geológico atual, proposto para caracterizar Calá: expressão utilizada pelas mulheres que realizavam curas.
a era em que a ação humana passou a ser o principal fator de im- Calango: antigo marujeiro do Boi Caprichoso, homem negro, toca-
pacto no planeta, alterando significativamente os ecossistemas, o dor das tradicionais palminhas na Marujada de Guerra do boi-bum-
clima e a geologia da terra. Esse conceito evidencia a responsabili- bá Caprichoso.
dade humana sobre as mudanças ambientais globais. Calçada/ Calçada da Fama: redução do nome do bar Calçada da
Apiaká: povo indígena que habita o norte do estado do Mato Gros- Fama, localizado no bairro de Palmares, tradicional reduto azulado,
so, cujo nome, de acordo com seus líderes, quer dizer marimbondo, muito popular e frequentado pelos torcedores das antigas do boi-
cuja ferroada é extremamente dolorosa. Na origem Tupi, quer dizer -bumbá Caprichoso.
“pessoa”, “gente”, “homem”. Camuano Lindê: são as leis de Jurupari, assim como o choco e o
Arapiuns: afluente do Rio Tapajós. Povo indígena de retomada, vive coivado.
na Terra Indígena Maró, localizada no curso do rio que leva o mesmo Canto da Porrada: localizado no bairro de Palmares, no cruzamento

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das ruas Nhamundá e José Esteves. A área era ponto de encontro Furo: pequeno veio d’água usado como caminho entre um lago, iga-
e enfrentamento das antigas “galeras” que existiam no bairro. Hoje rapé ou de um rio a outro.
o “Canto da Porrada” é nome de um bar e é definido por seus fre- Gaiato: diz-se de quem é brincalhão, malandro, divertido.
quentadores como um lugar que tem “porrada” de gente que ama o Galeroso: gíria amazonense para definir os membros ligados
Caprichoso e “porrada” de gente talentosa. às gangues, ou “galeras”. Muito comuns na Parintins dos anos
Cariamã: ritual de iniciação realizado pelos povos do Alto Rio Ne- 1980/1990, principalmente na periferia da ilha como Palmares, San-
gro, que marca a passagem da infância e adolescência para a vida ta Rita e Itaúna.
adulta. Gambá: instrumento de percussão amazônico, feito de tronco de
Chica: Francisca da Conceição Pires, a famosa dona Chica Biriteira, jutaí oco e couro retesado. É tocado com os percussionistas sen-
era uma antiga brincante da Marujada de Guerra do boi-bumbá Ca- tados sobre o instrumento. É confeccionado por antigos mestres
prichoso, migrante cearense que participou da Marujada tocando de cultura popular.
xeque-xeque e rocar por 45 anos. Griot: termo de origem francesa utilizado para designar os conta-
Chumbão: brincante das antigas da Marujada de Guerra do boi- dores de história, trovadores, mensageiros e guardiões das tradi-
-bumbá Caprichoso, homem negro que tocava o seu lendário sur- ções dos povos africanos. São pessoas sábias muito respeitadas
dão “treme-terra”, um instrumento exclusivo do Boi Caprichoso. nas comunidades onde vivem.
Confiada: expressão amazônica para definir uma pessoa extrover- Guarani-Kaiowá: povo indígena que vive na região do Mato Grosso
tida em excesso. do Sul, onde há muitos lutam por seus direitos ao território.
Coracy: Coracy Tavares é uma das antigas contadoras de histórias Guiné e Angola: Regiões do continente africano de onde vieram mi-
do Boi Caprichoso, do período em que o curral se localizava na rua lhares de negros para a Amazônia, principalmente a partir do século
Cordovil. XVIII.
Cordovil: reduto tradicional do território do Boi Caprichoso em Pa- Ipi Cekay’piat: “terra onde não se deve mexer” ou “lugar sagrado”
rintins. Rua onde se encontram as residências de famílias funda- para o povo Munduruku.
mentais da história do boi-bumbá Caprichoso como “seo Luizinho” Irmão Miguel de Pascale: missionário católico italiano, que por
ou Luiz Pereira, último dono do boi e os Azevedo, família de Marki- meio de sua escola de arte-evangelizadora, influenciou a arte po-
nho, saudoso tripa do boi. pular parintinense. Entre tantos discípulos que passaram por seus
De rocha: expressão amazonense usada em sentido de atestar cer- ensinamentos, está Juarez Lima, um dos mais expressivos artistas
teza e verdade. De verdade, verdadeiro. da sua geração.
Dona Julita Cid: Julita Amaral Cid, nora de Roque Cid, fundador do Itigã’s: é a denominação de urnas funerárias usadas no rito de ali-
Boi Caprichoso, antiga contadora de histórias das primeiras saídas mentação e invocação dos espíritos, conhecido como Musudi.
do boi nas ruas e do antigo curral do “Esconde”. Jair Mendes: artista parintinense autodidata, que com sua sua
Dora: Maria Auxiliadora Pereira e Silva, antiga moradora do Urubu- criatividade e inventividade revolucionou a estética do Festival
zal, marujeira que desde a infância brinca boi no Caprichoso, e nas Folclórico de Parintins, nas décadas de 70 e 80, ao introduzir movi-
últimas décadas é a guardiã do Curral Zeca Xibelão. mentos nas alegorias e no boi.
“Engera” ou “ingera”: no imaginário amazônico significa transfor- Javari: é um rio da Amazônia que nasce no Peru e deságua no Bra-
mação, mutação de uma pessoa em algum bicho encantado. sil, na cidade de Benjamin Constant. É um afluente do Rio Solimões,
“Engerado”: aquele que passou pelo processo do “engeramento”, com cerca de 1.180 quilômetros de extensão.
transformação para bicho encantado. Jenipapo em onça: são as pinturas realizadas no rito para invocar
Esconde: nome popular ao território onde hoje é a Rua Sá Peixo- Jurupari.
to, local de nascimento do boi-bumbá Caprichoso, historicamente Juarez Lima: artista parintinense, discípulo de Irmão Miguel de
uma das áreas mais antigas de Parintins onde parte da população Pascale, revolucionou a estética de apresentação do Festival de
negra da cidade residia, também conhecido como Urubuzal. Parintins ao apresentar cenários alegóricos gigantes. Por ser muito
Espinhel: armadilha artesanal amazônica construída a partir da devoto de Nossa Senhora do Carmo, para quem todo ano realizava
junção de anzóis unidos sobre o eixo de uma semente de tucumã e a Romaria das Águas, Juarez também era conhecido como o artista
outras frutas da várzea usada como isca. da fé.
Feituras: trabalhos feitos para cura, benzeções, partos e outras Kaaé-eté: Floresta.
atividades desenvolvidas por benzedeiras, parteiras e curandeiras Kãkãnema: para o povo Maraguá são os bicho-visagentos, animais
da Amazônia. propensos a manifestação de visagens (espíritos ou fantasmas).
Francesa: bairro tradicionalmente Caprichoso, fica localizado na Kambô: substância alucinógena retirada de uma rã, a rã-kambô ou
parte baixa da ilha em uma região alagadiça. O nome surgiu por sapo verde, sendo utilizada em rituais indígenas.
conta de uma família de franceses, cujas filhas tinham o hábito de Kariwa: homem branco em Tupi.
se banhar nas águas da lagoa. Então, o nome ficou Lagoa das Fran- Kizomba: originalmente, na língua Kimbundu (de Angola), “Kizom-
cesas e mais tarde, apenas Francesa. ba” significa “festa” ou “celebração”.

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Kokeriwat: são espíritos que habitam o mundo subterrâneo e saem te a região do Vale do Tapajós, conhecida durante o período qui-
à superfície terrestre, podendo se relacionar com os Munduruku. nhentista como Mundurukânia.
Kumaruara: povo indígena que habita a região do Baixo-Tapajós, Musudi: para o povo Munduruku é o ritual de alimentação e invoca-
oeste do Pará. ção dos espíritos.
Lombrigueira: designação para árvores comuns na região de Pa- O couro vai comer: gíria popular que significa que algo vai aconte-
rintins, tradicionalmente utilizadas para fins medicinais, por conta cer de forma intensa.
de suas propriedades vermífugas. Ogãs: no candomblé, os ogãs são responsáveis por funções es-
Machanca Baserê: leis de Jurupari. pecíficas dentro do terreiro, como tocar os atabaques, zelar pela
Macurany: nome de um lago localizado na cidade de Parintins, que segurança do local e auxiliar nas cerimônias. No Boi Caprichoso os
também denomina uma comunidade suburbana, conhecida por ritmistas de sua Marujada são considerados os “Ogãs da Floresta”.
abrigar sítios arqueológicos. Palmares: antiga ocupação de Parintins, reduto tradicional do Boi
Macuricanã: é um complexo de lagos interligados no município de Caprichoso, bairro periférico conhecido por ser um dos territórios
Parintins, no Amazonas e Nhamundá. É uma área de proteção am- mais populosos da ilha com uma comunidade tradicional de brin-
biental que abriga diversas espécies de peixes e animais. cantes, artistas, sócios e torcedores do bumbá azul.
Mãe Querida: é como os marujeiros se referem ao senhor Admilson Pararanema: nome de um lago e comunidade da área suburbana de
Pereira Vieira, brincante das antigas do boi-bumbá Caprichoso, Parintins que em nheengatu significa “rio que fede”.
atualmente compõe o naipe das palminhas da Marujada de Guerra. Parawara: habitante do rio ou oriundo do rio.
Majés: a palavra “majé” é a expressão feminina de “pajé”. Reforça o Parente: expressão amazônica que se refere a grandes amizades,
poder feminino do dom da cura, conhecimento das ervas medici- tendo como referência o grau de parentesco ancestral dos povos
nais, são profundas conhecedoras da sabedoria ancestral indígena da Amazônia.
da Amazônia. Pariwats: para o povo Munduruku é o homem branco e significa
Malhada: termo usado para definir o curral onde o gado passa a ‘‘combate ao inimigo” ou “inimigo”.
noite. Peãozada: grande quantidade de peões, trabalhadores braçais do
Marabaixo: manifestação cultural de origem africana, que envolve campo, fazendas ou operários de obras.
canto, dança, percussão e música, típica das comunidades afro- Pego o beco: pegar o beco é uma gíria popular amazonense que
-amapaenses. Símbolo da identidade negra local, o Marabaixo se significa ir embora, sair, partir.
apresenta como identidade e patrimônio imaterial desde de 2018. Poranduba: na língua Tupi quer dizer história, notícia ou pergunta.
Maracajá: denominação muito comum no Norte, especialmente Pra lá da placa: termo usado de forma pejorativa pelos morado-
nas zonas de mata, para designar os gatos-do-mato em geral. A res dos bairros centrais de Parintins, para definir os moradores do
expressão define a jaguatirica (Felis pardalis) e as subespécies de bairro de Palmares desde os anos 70.
Felis wiedii. Puca xi, Biú ši e Daje ši: espíritos-mães que habitam e protegem os
Maranduêra: contador de estórias em Tupi. lugares sagrados, constituindo parte importante da sociocosmolo-
Maranduba: na língua indígena significa conjunto de histórias boni- gia Munduruku.
tas contadas de uma geração a outra, pelas quais são transmitidos Pukamuká: são máscaras usadas no rito para invocar Jurupari ou
valores, conquistas e atos de heroísmos. Yurupari. Estas máscaras são confeccionadas de fibras e em segui-
Marujo Marina: apelido dado ao marujeiro Alberto da Silva Barbosa, da coloca-se cabelo de virgens na máscara, por isso seu significado
brincante das antigas da Marujada de Guerra, na qual pode parti- é cabelo de mulher.
cipar tocando vários instrumentos, isso inclui o eixo de caminhão, Quarteirão do Mocambo: Como era reconhecida a Vila Bela da Im-
frigideiras (ambos não são mais usados) e as palminhas, as quais peratriz (Parintins) no século XIX, inclusive pelas próprias autorida-
retornaram para marujada em 2002. des policiais, pois sua urbanidade estava marcada pela resistência
Mateiro: homem amazônico, conhecedor dos caminhos da mata, dos negros fugidos e aquilombados.
das ervas, plantas, bichos e outros conhecimentos da vida na flo- Queixada: é um nome popular para o animal tayassu pecari, um ma-
resta. mífero selvagem da família dos taiaçuídeos. É também conhecido
Maytapu: é uma denominação para o povo Munduruku, um grupo como porco-do-mato, cariblanco e chancho do monte.
indígena brasileiro que vive no sudoeste do Pará. Rebojo: redemoinho de água que se forma nos rios pelo embate das
Mestre Vela: Flávio Lima, antigo marujeiro do Boi Caprichoso, que correntezas com as águas paradas.
ocupou por muitos anos o posto de mestre regente da Marujada de Rosetas no manto: são as malhas pintadas com o jenipapo.
Guerra. Rumeya: Pajé Yawanawá.
Mocambo: comunidade ribeirinha de Parintins, situada a oeste do Sacaca Merandolino: um dos últimos grandes “pajés-sacacas” que
município, no lago do Mocambo com 9.000 habitantes, conhecida “cultivava” todas as beiradas do rio Arapiuns, que “vestiu” sua capa
por sua ancestralidade negra. de cobra-grande e passou a viver no “fundo”, onde ocupa a posição
Munduruku: povo de tradição guerreira que dominava culturalmen- de “dono” das áreas adjacentes à ponta do Toronó.

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Sacaca: palavra de origem Tupi, usada na Amazônia para designar Urubuzal: nome popular dado ao Parque das Castanholeiras, loca-
um tipo de xamã (pajé) que tem o poder de viajar pelo fundo do rio e lizado na área do Esconde, pela quantidade de urubus que faziam
lagos, onde está o encante. ninhos nas seringueiras.
Sankofa: mais famoso dos símbolos filosóficos Adinkra, de origem Wakoborũn: nome da associação de mulheres indígenas Munduru-
Akam (povo de Gana), significa “volte e pegue”. É representada por ku, que lutam pela defesa do território e dos direitos das mulheres.
dois símbolos: o pássaro mítico que olha para trás e busca um ovo, Waldir Viana: curador popular de Parintins que possuía conheci-
e o coração estilizado. Simbolizam a retomada, a volta para adquirir mentos sobre como tratar picadas de cobras, fraturas ósseas, fer-
conhecimento do passado e a sabedoria. rada de arraia e outros males cotidianos.
Seo Dray: Moisés Prestes Dray, antigo contador de histórias de Pa- Wãmoat: denominação dada para o pajé Munduruku.
rintins, pescador e exímio pedreiro, morador do Urubuzal, tocador Waurãga: denominação dada pelo povo Maraguá às mães-da-mata,
de cuíca, palminha e frigideira da Marujada de Guerra. espíritos que cuidam dos animais, florestas e seres que nela habi-
Seo Jovem: apelido carinhoso dado ao senhor Jovenil de Oliveira tam.
Muniz, principal liderança da ocupação que deu origem ao bairro do Xapuri: município localizado no Acre, reconhecido como símbolo
Palmares, simpatizante do futebol, fundador do time de futebol o do movimento ambientalista mundial, lugar onde nasceu e morreu
Norte Esporte Clube. Atualmente o seu nome identifica uma quadra Chico Mendes, símbolo da luta pela floresta amazônica.
esportiva no bairro de Palmares. Xinaya: nome que recebe o rezador do povo Yawanawá, que utiliza
Shuãnka: é a prática de cura realizada pelos Yawanawá, nas quais técnicas xamânicas para curar.
se destaca na atualidade a reza, chamada Shuãnka. Yãdé kunhã-itá kaá suí, Yãdé mukatusawa iwí suí: é a tradução em
Suruí: povo indígena brasileiro que vive nos estados de Rondônia e nheengatu de “somos as mulheres da floresta, somos a cura da ter-
Mato Grosso. Eles se autodenominam Paiter, que significa “gente ra”.
de verdade, nós mesmos”. Falam uma língua do grupo Tupi e da fa- Yanomami: povo indígena que vive na floresta amazônica, na fron-
mília linguística Mondé. teira entre o Brasil e a Venezuela. Eles são um dos maiores povos
Tapajó: usado para se referir a um povo indígena brasileiro extinto, indígenas da América do Sul e têm a maior terra indígena do Brasil.
que habitava as proximidades dos rios Madeira e Tapajós no século Hoje, sua população total é de cerca de 45 mil indígenas.
XVII, ou também ao que é relativo ou pertencente a esse povo. Yawanawá: povo indígena que vive na Terra Indígena Rio Gregório,
Taquara: instrumento musical feito de bambu ou uma música do no município de Tarauacá, no Acre. O nome Yawanawá vem do ter-
povo Yudjá. mo “yawa” (queixada) e “nawa” (gente).
Tecô-Munhangaua: implantação de costumes, legislação, lei, man- Yurupari: divindade cultuada entre os povos do Alto Rio Negro, de-
damento. monizada pelos colonizadores por possuir um código de leis rígidas.
Ticuna: povo que habita a Amazônia brasileira, Peru e Colômbia. Zé do Similo: José Reis Lima, baluarte tradicional da vaqueirada
São o povo indígena mais numeroso da Amazônia brasileira. Com do boi-bumbá Caprichoso, conhecido na comunidade parintinense
uma história marcada pela entrada violenta de seringueiros, pes- por seu trabalho como vaqueiro real que dele tirava recursos para
cadores e madeireiros na região do rio Solimões, foi somente nos ajudar na brincadeira do Boi Caprichoso, como carne de gado, leite
anos 1990 que os Ticuna lograram o reconhecimento oficial da e outros.
maioria de suas terras.
Toronó: uma das pontas de praias do Rio Arapiuns.
Trocano: tambor indígena usado nas guerras que servia para co-
municação entre os povos.
Tupinambá: Povo Tupinambá de Olivença (por Naiá Tupinambá,
equipe de comunicação do CITO): O Povo Tupinambá de Olivença
foi o primeiro povo indígena a ter contato com os colonizadores
europeus durante o processo de invasão do território que hoje se
chama Brasil. Ancestralmente presente em toda a costa brasilei-
ra, o povo Tupinambá segue enraizado no litoral sul da Bahia, nos
municípios de Ilhéus, Una e Buerarema. Também conhecido como
Povo dos Mantos ou Povo do Manto Sagrado, seu território tradi-
cional é formado por 23 comunidades inseridas no bioma da Mata
Atlântica — ainda em processo de luta pela demarcação oficial. O
Povo Tupinambá de Olivença se organiza por meio de instituições
próprias, como o Conselho Indígena Tupinambá de Olivença (CITO),
a organização mais antiga do povo, referência na articulação políti-
ca, na defesa do território e na preservação dos saberes ancestrais.

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gente que faz o boi

presidência administrativo

eventos

curral

marujada

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SOCIAL

raça azul

coordenação de itens

costureiras
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equipe de figurinos

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banda canto parintins / banda caprichoso

eletricistas

bombeiros do galpão

almoxarifado do galpão
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alex salvador e equipe

algles ferreira e equipe

brás lira e equipe

eddi dude e equipe

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geremias pantoja e equipe

jucelino ribeiro e equipe

kennedy prata e equipe

makoy cardoso, nei meireles e equipe


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márcio gonçalves, nildo costa e equipe

paulo, preto pimentel e equipe

roberto reis e equipe

zico almeida e equipe

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conselho de arte

EQUIPE TÉCNICA comunicação

madrinha do boi padrinho do boi

vigias toadeiros poeirinhas


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A nação
azul e branca
é a nossa

Com o Caprichoso, estamos lado


a lado de quem faz a magia acontecer
no Brasil dos brasileiros.

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referências
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CAPRICHOSO 2025
113
é tempo de retomada

Ficha técnica
PRESIDENTE COORDENADOR DE MARUJADA – PARINTINS
Rossy Amoedo Diego Mascarenhas

VICE-PRESIDENTE COORDENADOR DE MARUJADA – MANAUS


Diego Mascarenhas Rogério de Jesus

DIRETORA FINANCEIRA CONSELHO DE ARTE


Aurilene Figueiredo Presidente: Ericky Nakanome
Membros: Adan Renê / Adriano Aguiar/ Edvander Batista/ Edwan
DIRETORA SECRETÁRIA Oliveira/ Gilvana Borari / Jair Almeida/ Larice Butel / Márcio Braz
Aurilene Figueiredo / Marcos Moura / Paulo Victor Costa / Peta Cid / Rainer Canto/
Ronaldo Barbosa/ Roberto Reis/ Ronan Marinho / Socorrinha
DIRETOR ADMINISTRATIVO Carvalho / Zandonaide Bastos
Osmar Andrade
DESENHISTAS
DIRETOR COMERCIAL Rainer Canto/ Antônio Fuziel Jr./ Denner Silva/ Kedson Oliveira/
Ronaldo Medeiros Igor Viana/ Gilson Siqueira/ João Fonseca / Inácio Paiva

DIRETORIA DE EVENTOS PARINTINS SECRETÁRIO


William Muniz Neandro Marques

DIRETORIA DE EVENTOS MANAUS ASSESSORIA TÉCNICA


Carlos Kaita Larissa Andrade / Vinicius Ramos

DIRETOR DE LOGÍSTICA DESIGNER GRÁFICO


Osmar Andrade João Marco Nascimento / José Roberto / Paulo Victor Costa

DEPARTAMENTO SOCIAL CONSELHO FISCAL


Adriana Cruz / Ana Rita Pimentel / Jucielly Cursino Rosa Cursino / Claudomiro Picanço Neto /

DEPARTAMENTO DE MARKETING CONSELHO DE ÉTICA


Bosco Rezende Alcifran Ramos / Socorro Lopes / Norma Elaine Medeiros /
Johnson Ozório / Wanderson Cruz / Francisco Fidelis
DEPARTAMENTO JURIDICO
Victor Góes/ Rennalt Lessa/ Leonardo Fernandes CONSELHO MUSICAL
Mauro Antony / Bennet Carlos / Neil Armstrong
MADRINHA DO BOI
Odinéa Andrade CEDEM CAPRICHOSO
Diego Omar da Silveira
PADRINHO DO BOI
Acinelson Vieira DIRETORIA DE COMUNICAÇÃO
Bruna Karla Soares / Carlos Alexandre Ferreira
PROCURADOR
Délio Diniz
ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO
CONTADOR Karoline Oliveira, Eldiney Alcântara / Efraim Graça / Patrícia
Márcio Ribeiro Patrocínio/ Ralf Cordeiro / Isabelle Caroline /Malu Verçosa /
Sandro Filho / Jackson Oliveira / Alexandre Vieira / Arleison
ADMINISTRADOR DE ALMOXARIFADO
Leandro Carvalho Cruz / Michel Amazonas / Pedro Coelho / Sanler Cardoso / Paulo
Andrade / João Marco Nascimento / Kaio Brito / Raphael Iannuzzi
ADMINISTRADOR DE CURRAL
Maria Auxiliador (Dora)/ Josias Silva DIRETOR DE MÍDIAS DIGITAIS
Roberto Senna
ADMINISTRADOR DE GALPÃO DE ALEGORIAS
André Amoedo
ARENA 2025
ADMINISTRADOR DE GALPÃO DE FIGURINOS
DIREÇÃO GERAL DO ESPETÁCULO
André Vidal / Fernando
Conselho de Arte do Boi Caprichoso

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B OI-BUMBÁ CAPRICHOSO 2025

DIREÇÃO DE ROTEIROS E TEXTOS COORDENAÇÃO DE ITENS


Conselho de Arte do Boi Caprichoso Edinalda Sampaio/ Layrin Cursino /Thalyson Souza

PESQUISA COMPOSITORES
Conselho de Arte do Boi Caprichoso Adriano Aguiar/ Ronaldo Barbosa/ Marcos Moura/ Ericky
Nakanome/ Thais Kokama/ Thiago Yawanawá/ Adan Renê/
DIREÇÃO DE ARENA E FIGURINO Ademar Azevedo/ Bené Siqueira/ Bruce Bulcão/ Brunier Bulcão/
Edwan Oliveira Caetano Medeiros/ Carlos Kaita/ Celso Sabino/ Saullo Vianna/
Charles Menta/ Charles Silva/ Cláudia Helen/ Edval Machado/
DIREÇÃO COREOGRÁFICA Fredson Lima/ Geovane Bastos/ Guto Kawakami/ Heider Elamide
Jair Almeida / Erick Beltrão / José Quixito/ José Ribeiro/ Juarez Filho/ Junior Dabela/ Lenart
Mustaffa/ Leonardo Nogueira/ Ligiane Gaspar/ Marcelo Matos/
DIREÇÃO DE GUINDASTE E CONCENTRAÇÃO Marcos Moura/ Moisés Colares/ Naymê de Souza/ Otacílio Júnior
Zandonaide Bastos / Pedro Neto/ Ralrison Nascimento/ Ronaldo Barbosa Júnior /
Saimon Andrade/ Thyago Lima/ Uendel Pinheiro/ Vanessa Aguiar/
DIREÇÃO ALEGÓRICA Vitor Godinho/ Waltinho Oliva/ Yomarley Holanda/ Adriana Cidade
Paulo Victor Costa
COREÓGRAFOS
COORDENAÇÃO E LOGÍSTICA DE ALEGORIAS Bruno Athayde/ Cleomiro Filho/ Denny Sullivan/ Dino Lopes/
Paulo Victor Costa / Zandonaide Bastos Eglison Colares/ Erick Beltrão/ Erivan Tuchê / Felipe Monteiro/
Jair Almeida/ Jorge Fontenelle/ Marcos Falcão/ Nathaly Costa/
DIREÇÃO MUSICAL – ARENA Neto Beltrão/ Ralcy Douglas/ Rilque Cézar/ Robson de Araújo/
Adriano Aguiar/ Bennett Carlos/ Neil Armstrong Samuel Gomes/ Sandro Assayag/ Weldson Rodrigues/ Andrew
Roger / Wilson Jr.
TRILHA SONORA – ARENA
Valdenor Costa / Bennett Carlos ITENS INDIVIDUAIS

MÚSICOS DE ARENA – BANDA OFICIAL Apresentador: Edmundo Oran


Marlon Santos / Anderson José (Moreno)/ Valdenor Filho (Pelado Levantador de Toadas: Patrick Araújo
Jr.) / Laureno Neto/ Moisés Colares/ Antônio Dabella/ Neil Amo do Boi: Caetano Medeiros
Armstrong Junior/ Venâncio Natividade/ Francisco Ferreira/ Tripas: Alexandre Azevedo / Edson Azevedo Jr.
Eduardo de Oliveira Ferreira/ Waldner Souza (Pity)/ Cirleane Sinhazinha da Fazenda: Valentina Cid
Ferreira/ Cássio Gonçalves/ Jorge Henrique Pampolha/ Nelcimara Porta-Estandarte: Marcela Marialva
Lima (Mara Lima)/ Luana Barbosa (Luanita Rangel)/ Luziene Lins/ Rainha do Folclore: Cleise Simas
Manoel Vicente Júnior/ André Luiz Souza/ Jedel Gomes Salgado/ Cunhã-Poranga: Marciele Albuquerque
Gean Marcos Araújo/ Gabriel Lima/ Giovanny Conte/ Eliziel Pajé: Erick Beltrão
Lourenço/ Alessandro Silva/ Igor Lima Brasil/ Ygor Saunier Mãe Catirina: Ádria Barbosa
Pai Francisco: Fábio Modesto
REGÊNCIA MARUJADA DE GUERRA Gazumbá: Kellyson Castro
Márcio Cardoso / Caio Vinicius

ARTISTAS DE ALEGORIA
Aldenilson Pimentel / Alex Salvador/ Algles Ferreira / Claudenor
Alfaia / Eddi Dudee / Franciney Meireles / Francivan Cardoso/
Geremias Pantoja / Jucelino Ribeiro / Kennedy Prata / Márcio
Gonçalves/ Nildo Costa/ Paulo Pimentel / Roberto Reis / Zico
Almeida

FIGURINOS E INDUMENTÁRIAS
Adriano Canto/ Alcenildo Silva/ Altemar Cruz/ Antônio Carlos/
Ary Carlos/ Alex Oliver/ Beto Cruz/ Diego Cruz/ Dorico Farias/
Edson Warner/ Enisson Menezes / Elton Graça / Estevão Gomes
/ Helerson Maia / Makoy Cardoso/ Lup Design/ Jaderson Moraes/
Jefferson Felipsen/ Júnior Lobato/ Juracy Modesto/ Kalleb
Aguiar/ Kelvin Machado/ Leandro Souza/ Luh Cansanção/ Mário
Oliveira/ Maurício Duarte/ Neto Machado/ Otavio Muniz/ Paquita/
Raimundo Campos/ Rell Tavares/ Roberto Reis/ Saluilson/ Tárzio
Cruz/ Wallace Guerreiro/ Waldir Santana/ William Muniz/ Zé
Edilson

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