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Monografia

Este trabalho analisa o regime jurídico da união de facto no ordenamento moçambicano, focando nas implicações do lapso de tempo exigido para seu reconhecimento legal, que foi alterado de um ano para três anos pela nova legislação. A pesquisa destaca a importância social e jurídica da união de facto, evidenciando como a mudança no prazo pode impactar os direitos dos companheiros. O estudo busca compreender as disparidades e os desafios enfrentados por aqueles que vivem em união de facto sem o devido reconhecimento legal.
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Tópicos abordados

  • história da família,
  • regime jurídico,
  • efeitos patrimoniais,
  • legislação,
  • análise e discussão,
  • solidariedade familiar,
  • direito moçambicano,
  • prova testemunhal,
  • direitos dos conviventes,
  • família monoparental
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Monografia

Este trabalho analisa o regime jurídico da união de facto no ordenamento moçambicano, focando nas implicações do lapso de tempo exigido para seu reconhecimento legal, que foi alterado de um ano para três anos pela nova legislação. A pesquisa destaca a importância social e jurídica da união de facto, evidenciando como a mudança no prazo pode impactar os direitos dos companheiros. O estudo busca compreender as disparidades e os desafios enfrentados por aqueles que vivem em união de facto sem o devido reconhecimento legal.
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  • regime jurídico,
  • efeitos patrimoniais,
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  • direito moçambicano,
  • prova testemunhal,
  • direitos dos conviventes,
  • família monoparental

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MOÇAMBIQUE

FACULDADE DE CIÊNCIAS AGRONÓMICAS

ANÁLISE JURÍDICA DO REGIME TEMPORAL DA UNIÃO DE FACTO, NO


ORDENAMENTO JURÍDICO MOÇAMBICANO.

Estudante: Lunaisse da July Henriques Anaque

Cuamba, Maio 2024


UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MOÇAMBIQUE
FACULDADE DE CIÊNCIAS AGRONÓMICAS

ANÁLISE JURÍDICA DO REGIME TEMPORAL DA UNIÃO DE FACTO, NO


ORDENAMENTO JURÍDICO MOÇAMBICANO.

Estudante: Lunaisse Da July Henriques Anaque

Trabalho Cientifico de Monografia submetido à


Faculdade de Ciências Agronómicas da Universidade
Católica de Moçambique, como requisito parcial para
obtenção do grau de Licenciatura no Curso de Direito.

Supervisora:
Mestre. Assunção Cololo

Cuamba, Maio de 2024


UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MOÇAMBIQUE

FACULDADE DE CIÊNCIAS AGRONÓMICAS

ANÁLISE JURÍDICA DO REGIME TEMPORAL DA UNIÃO DE FACTO, NO


ORDENAMENTO JURÍDICO MOÇAMBICANO.

Autor: Lunaisse da July Henriques Anaque

Classificação

Os elementos do Júri:
O presidente ________________________
O oponente _________________________

Estudante: ––––––––––––––––––––––––––––––

Cuamba, Maio de 2024


Índice
Declaração de autenticidade ................................................................................................... vi

Dedicatória .............................................................................................................................. vii

Agradecimentos ....................................................................................................................... ix

Epígrafe ..................................................................................................................................... x

SIGLAS E ABREVIATURAS ............................................................................................... 11

Resumo .................................................................................................................................... 12

CAPITULO I: INTRODUÇÃO ............................................................................................ 13

Geral ................................................................................................................................................. 15
Específicos ........................................................................................................................................ 15
Hipótese ................................................................................................................................... 16

CAPITULO II: METODOLÓGIA ...................................................................................... 17

2. Nota introdutória ......................................................................................................... 17

2.1. Metodologia de pesquisa ............................................................................................. 17

2.2. Tipo de Pesquisa .......................................................................................................... 18

Tipo de pesquisa adoptado no trabalho................................................................................ 18

2.3. Quanta a abordagem ................................................................................................... 18

2.4. Delimitação da pesquisa .............................................................................................. 19

2.5. Ética de investigação ................................................................................................... 19

CAPÍTULO III: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA............................................................ 20

3.1. Evolução histórica da família ..................................................................................... 20

3.2. A Família no Direito Romano .................................................................................... 20

3.3. A Família no Direito Canónico ................................................................................... 21

3.4. Noção de família .......................................................................................................... 21

3.5. Tipos de família............................................................................................................ 24

3.6. Família alargada .......................................................................................................... 24

3.7. Família nuclear ............................................................................................................ 24

iv
3.8. Família monoparental ................................................................................................. 25

3.9. Noção de casamento .................................................................................................... 25

3.10. Tipos de casamento ...................................................................................................... 27

3.11. Capacidade para contrair o matrimónio ................................................................... 27

3.12. Efeito do casamento quanto as pessoas e aos bens dos cônjuges ............................. 28

3.13. Deveres do casamento ................................................................................................. 28

3.14. Dever de fidelidade respeito e confiança ................................................................... 28

3.15. Dever de solidariedade ou cooperação ...................................................................... 28

3.16. Dever de assistência ..................................................................................................... 29

3.17. União de facto .............................................................................................................. 29

3.18. Efeitos pessoais e efeitos patrimoniais da união de facto ......................................... 31

3.19. Direitos e deveres dos companheiros ......................................................................... 31

DIREITO COMPARADO .............................................................................................................. 32


4.1. Nota introdutória ......................................................................................................... 32

4.2. Regime jurídico da união de facto no ordenamento Português .............................. 32

4.3. União de facto na constituição portuguesa ................................................................ 33

4.4. Efeitos da união de facto no ordenamento jurídico português ................................ 35

4.5. A união de facto no ordenamento jurídico brasileiro .............................................. 36

4.6. Síntese do direito Comparado .................................................................................... 37

CAPÍTULO IV: ANALISE E DISCUSSÃO ........................................................................ 38

5. Nota introdutória ......................................................................................................... 38

5.1. Implicações jurídicas do lapso de tempo determinado pela lei para a constituição
da união de facto ..................................................................................................................... 38

5.2. Formas para a harmonização do lapso de tempo como meio para o


reconhecimento da união de facto ......................................................................................... 40

Conclusão ................................................................................................................................ 43

Recomendações ....................................................................................................................... 45

Referências Bibliográficas ..................................................................................................... 46


v
Declaração de autenticidade

Declaro que o presente trabalho de monografia é o resultado da minha investigação e que o


mesmo nunca foi apresentado em uma outra universidade e é da minha autoria pessoal e das
orientações do meu supervisor, o seu conteúdo é original e todas as fontes consultadas estão
devidamente citadas no texto, nas notas e na bibliografia final. Declaro ainda que este
trabalho não foi apresentado para a obtenção de qualquer grau académico.

Cuamba, aos 27 de Maio de 2024

______________________________
Lunaisse da July Henriques Anaque
Supervisora
_________________________________
Mestre. Assunção Cololo

vi
Dedicatória

Em primeiro lugar a Deus todo-poderoso que me concedeu vida e força para não desistir no
percurso da caminhada e por ter-me permitido realizar este sonho, ele e o motivo de tudo isso
estar a realizar-se sem ele eu não sou nada nessa terra, aos meus pais, ao meu companheiro
pela paciência e compreensão das muitas vezes que não esteve presente abdicando-me neste
projecto da vida que são os estudos, aos meus irmãos e a toda família no geral que sempre me
encorajaram,

vii
Agradecimentos

Agradecimentos em princípio agradeço a Deus porque e através da ajuda da Inteligência


Infinita de Deus que este trabalho foi concluído de forma satisfatória. Agradeço , aos meus
pais por apoio incondicional, financeiro, emocional em todas as formas e ao meu irmão
Anaque de Evenilson e Hermenegildo Júnior Henriques Anaque, a minha melhor amiga
Yunet Tomas Jonata pela força dada de forma constante e a Dra. Assunção Cololo pela
paciência e força de ensinamento

Agradeço aos docentes e colegas da faculdade que durante os cinco anos tiveram a braveza e
competência suficiente para me ensinar e por ter - me dado as linhas mestres a seguir para
alcançar um futuro próspero na carreira de jurista.

ix
Epígrafe

“A ciência recolhe e ordena os acontecimentos e factos


diversos da natureza e da vida social e faz constatações.

A ciência debruça-se sobre os fenómenos e produz bases


para o planeamento da vida.

A ciência é uma actividade colectiva que produz


verdades e que está aberta para crítica por outras
pessoas.”

Elísio Macamo, 2005

x
SIGLAS E ABREVIATURAS

CRM- Constituição da República de Moçambique


Art- Artigo
ALF- Antiga lei de Família
Arts – artigos
Nº- número
Etall- outros
P- página
NLF-nova Lei da Família
pp- páginas
Cfr- confira
Vol- volume
Ed- edição
c.c.p- Código Civil Português

11
Resumo

A presente pesquisa assenta-se numa reflexão constituída particularmente no verte do regime jurídico da união
de facto, onde focou-se em buscar trazer o alcance prático da união de facto no sentido jurídico e social, visto
que é um assunto que interessa a maior parte da sociedade. O objectivo da pesquisa foi de analisar as
implicações jurídicas do lapso de tempo determinado pela lei para a constituição da união de facto, no
ordenamento jurídico moçambicano. O fenómeno da união de facto tem vindo paulatinamente a ganhar
importância no panorama conjugal do nosso país, contrariando a tendência global de diminuição que o
casamento tem sofrido na última década. A nossa monografia dedica-se no estudo da disparidade da união de
facto referente ao lapso de tempo que a mesma oferece para se considerar que um homem e uma mulher estão
unidos de facto no ordenamento jurídico moçambicano, na medida em que a anterior lei propunha um ano como
o período para se ter como unidos de facto, vide nº2 da lei 10/2004 de 25 de Agosto, contrario do que sucede no
artigo 207.º e seguintes da lei vigente no ordenamento jurídico moçambicano, colocando em causa os direitos de
um dos cônjuge ou unidos de facto.

PALAVRA-CHAVE: Constituição, união de facto, lapso de tempo

12
CAPITULO I: INTRODUÇÃO
1.1.Introdução

O presente trabalho académico tem como tema: “Análise jurídica da União de Facto, no
ordenamento jurídico Moçambicano”, onde nos preocupamos em fazer um estudo
minuciosos entorno do prazo e o regime jurídico adoptado no nosso ordenamento, legislação
esta que assegura e regulamenta os direitos da família na sociedade moçambicana, em ração
do regime adoptado na anterior legislação ora revogada estabelecia o prazo mínimo de um
ano sem interrupção para se considerar que um homem e uma mulher partilhando o mesmo
teto estava no regime da união de facto. Mas com a nova legislação vigente o nosso legislador
ordinário, prorrogou o período de um ano como vinha na anterior lei para um prazo de três
anos e com requisitos acrescidos para a efectivação desta união.

Como bem sabemos que a maior parte da sociedade moçambicana vivem unidos de facto,
sendo que, muitos não têm o conhecimento de que a união deve ser registada, fazendo com
que desta forma estes possam perder certos direitos, não tendo um amparo ou seja
reconhecimento nos órgãos administrativos como prevê a nova lei, que a união deve ser
reconhecida ou atestada pela autoridade administrativa da área de residência dos
companheiros, mediante uma declaração deste.

Desta forma passaremos apresentar de como o nosso trabalho encontra-se estruturado, Para
tal, o presente trabalho conta com quatro capítulos, no primeiro capítulo apresentamos a
introdução onde damos uma mínima noção do que iremos abordar, os objectivos, tipo de
pesquisa usada e os métodos da pesquisa. No segundo capítulo foi reservado ao marco
teórico, apresentando assim, as ideias de vários autores concernente ao tema em discussão,
trazendo desta forma, alguns posicionamentos doutrinários acerca da temática e o Direito
comparado. No terceiro capítulo abordou-se as questões de análise e interpretação de dados
colhidos durante a pesquisa do trabalho e no quarto e último capítulo tratou-se dos aspectos
conclusivos e as recomendações, assim como a bibliografia.

13
1.2.Delimitação do tema

O tema referente a Analise jurídica do regime temporal da união de facto no


ordenamento jurídico moçambicano, o nosso legislador ordinário, concretamente na Lei n.º
22/2019 de 11 de Dezembro, lei de família onde estabelece no seu artigo 207, que a união de
facto como sendo a ligação singular existente entre um homem e uma mulher, com carácter
estável e duradouro, que sendo legalmente apto para contrair casamento não o tenha
celebrado, comparativamente a lei anterior, até aqui esta tudo bem, o problema surgem na
medida em que o legislador no seu numero 2 da nova lei estabelece que a união de facto
pressupõe a comunhão plena de vida pelo período de tempo superior de três anos sem
interrupção, diferentemente com a antiga lei no seu numero 2 do artigo 202, trazia com lapso
de tempo para se considerar unidos de facto, o período de um ano sem interrupção, a nova lei
acresce mas dois anos, fazendo com que certos direitos possam estar em causa.

A nossa monografia dedica-se no estudo da disparidade da união de facto referente ao lapso


de tempo que a mesma oferece para se considerar que um homem e uma mulher estão unidos
de facto no ordenamento jurídico moçambicano, na medida em que a anterior lei propunha um
ano como o período para se ter como unidos de facto, vide nº2 da lei 10/2004 de 25 de
Agosto, contrario do que sucede no artigo 207 e seguintes da lei vigente no ordenamento
jurídico moçambicano, colocando em causa os direitos de um dos cônjuge ou unidos de facto.

1.3.Problematização

Durante a nossa análise e reflexão profunda concernente ao regime de união de facto patente
no nosso ordenamento jurídico moçambicano, notamos que existe uma disparidade quando
comparada com a anterior lei quando abordamos a questão do lapso de tempo pra se constituir
uma união de facto, estipulando desta forma, três anos como período que alei indica para o
seu reconhecimento, estipulado no artigo 207 da lei nº22/2019 de 11 de Dezembro, colocando
desta forma em causa certos direitos concernentes ao regime de bens quando não se cumprem
esse prazo de três anos, vamos supor que, um homem e uma mulher se unam num período de
dois anos (2), e ao longo deste tempo os dois se afasta sem ter completado o período que a lei
reconhece a união de facto, e sem se quer ter registado nas autoridades locais administrativas,
quer aqui nos dizer que o regime estabelecido no nº 2 do artigo 208º da lei supra citada não ira
se aplicar pelo não cumprimento do lapso de temo estabelecida pela lei, colocando em risco
este direito, assim como o direito sucessório, desta inquietação surge a seguinte pergunta:
Quais são as implicações jurídicas do lapso de tempo determinado pela lei para a
constituição da união de facto?
14
1.4.Justificativa da Pesquisa

O motivo da escolha deste tema, é pelo facto da união de facto ser um dos regimes mais
adoptados no ordenamento jurídico moçambicano, e na nova lei da família trás consigo um
novo lapso de tempo para considera-se que a união de facto existiu ou existe, trazer como
requisito sine qua nono lapso de tempo superior a três anos sem interrupção, vide o nº 2 do
artigo 207 da lei vigente Lei n 22/2019 de 11 de Dezembro Lei da Família, e nº 2 do artigo
202 da lei ora revogada Lei Nº 10/2004 de 25 de agosto Lei da família, estabelecia que, a
união de facto pressupõe a comunhão plena de vida pelo período de tempo superior a um ano
sem que seja interrupto, o que para nos é um prazo razoável para adquirir o direito patrimonial
referente aos bens dos unidos.
Na lei vigente, período estabelecido é demasiado prolongado, sem deixar de lado os requisitos
que a mesma lei estabelece no artigo 209.º artigo referente ao reconhecimento da união de
facto onde o mesmo estabelece que, só é reconhecido a união de facto quando esta estiver
cumprindo os requisitos instituídos por lei, desta forma prejudicando aqueles que viviam
nesta comunhão mas não tenham cumprido com o prazo tipificado no nº2 do artigo 207 da lei
em vigor no nosso ordenamento jurídico, fazendo-nos entender que só se pode atestar esta
união após ter completado os três anos de comunhão ou ligação existente entre um homem e
uma mulher, o mesmo acontece na lei sucessória, este fara parte da classe sucessória após ter
cumprido o lapso de tempo de três anos.
1.5.Objectivos

Geral

 Analisar as implicações jurídicas do lapso de tempo determinado pela lei para a


constituição da união de facto, no ordenamento jurídico moçambicano.

Específicos

 Compreender a o regime da unia de facto, no ordenamento moçambicano.


 Identificar as melhores formas para a harmonização do lapso de tempo como meio para
o reconhecimento da união de facto ordenamento jurídico.
 Trazer fundamentos legais de diferenciação do tratamento da união de facto com outros
ordenamentos jurídicos.

15
Hipótese

A hipótese é a suposição de uma causa ou de uma lei destinada a explicar


provisoriamente um fenómeno até que os factos a venham contradizer ou afirmar. De
forma mais simples e direita, a hipótese da pesquisa é uma resposta provisória à
pergunta que sintetizou o problema.(VEIGA, 1996:07).

Nesse contexto as hipóteses por mim encontradas e definidas foram:

 A união de facto passou a ser conotado por familiares, perante o nosso ordenamento
jurídico, no que tange a Lei de Família chega a pôr o companheiro sobrevivente
vulnerável sobretudo se a sobrevivente for a mulher, lesando o disposto no artigo 35.º
da Constituição da República de Moçambique, e o princípio da igualdade.
 Fazendo uma análise à hipótese anterior no que tange aos direitos sucessórios, a
caracterização da união de facto, depende da convivência contínua e durável entre
duas pessoas de sexos diferentes e livres de qualquer impedimento para contrair
matrimónio.

 O companheiro sobrevivente em união de facto deveria ter os mesmos direitos do


cônjuge e ter a menção de bens adquiridos durante a convivência com todas as
garantias, evitando assim a intromissão dos familiares do falecido.

16
CAPITULO II: METODOLÓGIA

2. Nota introdutória

O presente capítulo, esta reservada para a abordagem de questões metodológicas que vão
orientar a pesquisa no seu todo, tendo em conta as técnicas que serão observados para a
recolha de dados através de diversas bibliografias que venha abordar o tema em questão,
documentos e recolha de algumas opiniões de pessoas que trabalha na área, e por fim o
método ou tipo de pesquisa que será empregue é o qualitativo com enfoque exploratório,
tomando em conta alguns aspectos éticos que guiarão a pesquisa.

2.1.Metodologia de pesquisa

Entende-se por metodologia o caminho, a forma, ou modo de pensamento. É a forma de


abordagem em nível de abstracção dos fenómenos. É o conjunto de processos ou operações
mentais empregados na pesquisa. Por sua vez, o método é um procedimento ou caminho para
alcançar determinado fim e que a finalidade da ciência é a busca do conhecimento, podemos
dizer que o método científico é um conjunto de procedimentos adoptados com o propósito de
atingir o conhecimento.1

Para atingir seu objectivo fundamental, que é chegar à veracidade dos fatos (Gil, 2006, p. 26),
a ciência se vale de diferentes métodos. Etimologicamente a metodologia vem do grego
methodos (meta+hodós) significando “caminho para se chegar a um fim.

O método científico é um traço característico da ciência, constituindo-se em instrumento


básico que ordena, inicialmente, o pensamento em sistemas e traça os procedimentos do
cientista ao longo do caminho até atingir o objectivo científico preestabelecido2.

Lakatos e Marconi (2007) afirmam que a utilização de métodos científicos não é exclusiva da
ciência, sendo possível usá-los para a resolução de problemas do quotidiano. Destacam que,
por outro lado, não há ciência sem o emprego de métodos científicos.

Para concretização deste projecto de pesquisa usar-se-á, a pesquisa bibliográfica, porque


basear-se-á na consulta de fontes bibliográficas e documental, os métodos podem ser
subdividido em métodos de abordagem e métodos de procedimentos3”.

1
Cleber Cristiano Prodanov&Ernani César de Freitas, 2013.
2
Trujillo Ferrari (1974)
3
Lakatos e Marconi (1995,p.106)
17
2.2.Tipo de Pesquisa

Tipo de pesquisa adoptado no trabalho


O método pesquisa escolhido para a realização do nosso trabalho, é o qualitativo com enfoque
exploratório, na medida em que o mesmo não poderá trazer uma abordagem estatística,
baseando-se apenas em trazer conteúdos que não envolvam dados estatísticos ou seja números
exactos do estudo em causa. Os diversos tipos de pesquisa vêm apenas enfatizar ou seja
descrever os diversos tipos de pesquisa e indicar dentre estes qual deles se adequa ao nosso
estudo em causa.

Quanto ao Método e à forma de abordar o problema Richardson etal. (2007) classifica as


pesquisas em qualitativa e quantitativa. Para Vieira (1996), a pesquisa qualitativa pode ser
definida como a que se fundamenta principalmente em análises qualitativas, caracterizando-
se, em princípio, pela não utilização de instrumental estatístico na análise dos dados. Esse tipo
de análise tem por base conhecimentos teórico-empíricos que permitem atribuir-lhe
cientificidade.
2.3.Quanta a abordagem

Os métodos gerais, também chamados de métodos de abordagem, são os que proporcionam as


bases lógicas da investigação científica. Esses métodos referem-se ao plano geral do trabalho,
ao processo de raciocínio adoptado, baseando-se em princípios lógicos. Nesse sentido, são
essencialmente racionais e exclusivos entre si e podem ser utilizados em várias ciências.
Classificam-se em dedutivo, indutivo, hipotético-dedutivo, dialéctico e fenomenológico e
estão vinculados4.

Na realização do nosso trabalho iremos nos cingir no método indutivo, método este prevê que
pela indução experimental o pesquisador pode chegar a uma lei geral por meio da observação
de certos casos particulares sobre o objecto (fenómeno/facto) observado. Nesse sentido, o
pesquisador sai das constatações particulares sobre os fenómenos observados até as leis e
teorias gerais. Pode-se concluir que a trajectória do pensamento vai de casos particulares a leis
gerais sobre os fenómenos investigados.

Nessa índole, o exercício metódico do conhecer afirma uma posição indutiva do sujeito em
relação ao objecto, na qual a investigação científica é uma questão de generalização provável,
a partir dos resultados obtidos por meio das observações e das experiências. Francis Bacon foi

4
cfr Gil (2006, p. 27)
18
o “sistematizador do Método Indutivo, pois a técnica de raciocínio da indução já existia desde
Sócrates e Platão”, 5

2.4.Delimitação da pesquisa

No que tange a delimitação espacial, a pesquisa realizar-se-á na cidade de Cuamba, por existir
nesta área meios suficiente para se efectuar e fundamentar a pesquisa. Quanto a delimitação
temporal, far-se-á referencia as informações colhidas desde o ano de 2023 até 2024.

2.5.Ética de investigação

Sobre a ética de investigação, Vilelas (2009: P. 372), defende que o “investigador tem de
proteger o investigado contra inconvenientes susceptíveis de lhe fazer mal ou prejudicar”
Adianta ainda que “investigar é necessário, mas é preciso ter cuidado para não interferir no
direito e na dignidade das pessoas”. Para isso, na realização desta pesquisa foram assegurados
todos os direito, tratamento justo e equitativo ao investigado antes, durante e após a sua
participação sobre tudo, a privacidade confidencialidade e integridade, embora algo não fácil.
Ainda, observou-se a honestidade, legalidade e o compromisso de citar devidamente as fontes
e com o compromisso de partilhar o produto da pesquisa.

5
cfr (Lakatos; Marconi, 2000, p. 71).
19
CAPÍTULO III: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

3. Aspectos introdutórios

No presente capítulo, nos propomos a trazer conteúdos ou matérias de definição seja ela
geral ou especificas de vários autores de referência no nosso ordenamento jurídico e no
mundo fora, conteúdo este, que tenha a ver com o tema em discussão no presente
trabalho para melhor enquadramento, trazendo desta forma os diversos conceitos de
família a sua evolução, o casamento como meio de constituição de família direitos e
deveres que advém deste instituto assim como da união de facto que é o nosso prato
principal no trabalho e o respectivo organismo, todo conteúdo esta devidamente citado.

3.1.Evolução histórica da família

Segundo Nogueira (2007), Não há na história dos povos antigos e na Antiguidade


Oriental como na Antiguidade Clássica o surgimento de uma sociedade organizada sem
que se vislumbre uma base ou seus fundamentos na família ou organização familiar. O
modelo de família Moçambicana tendo em conta a legislação adoptada por nós encontra
sua origem na família romana que, por sua vez, se estruturou e sofreu influência no
modelo grego.

3.2.A Família no Direito Romano

Com isso o autor NOGUEIRA, refere que foi a Antiga Roma que sistematizou normas
severas que fizeram da família uma sociedade patriarcal. A família romana era
organizada preponderantemente, no poder e na posição do pai, chefe da comunidade. O
pátrio poder tinha carácter unitário exercido pelo pai. Este era uma pessoa sui júris, ou
seja, chefiava todo o resto da família que vivia sobre seu comando, os demais membros
eram alini júris (Nogueira, 2007).

Pelo relato de Arnoldo Wald: família era, simultaneamente, uma unidade económica,
religiosa, política e jurisdicional. Inicialmente, havia um património só que pertencia à
família, embora administrado pelopater. Numa fase mais evoluída do direito romano,
surgiam patrimónios individuais, como os pecúlios, administrados por pessoas que
estavam sob a autoridade do pater.

20
3.3.A Família no Direito Canónico

A partir do século V, com o decorrente desaparecimento de uma ordem estável que se


manteve durante séculos, houve um deslocamento do poder de Roma para as mãos do
chefe da Igreja Católica Romana que desenvolveu o Direito Canónico estruturado num
conjunto normativo dualista (laico e religioso) que irá se manter até o século XX. Como
consequência, na Idade Média, o Direito, confundido com a justiça, era ditado pela
Religião, que possuindo autoridade e poder, se dizia intérprete de Deus na terra.

Os canonistas eram totalmente contrários à dissolução do casamento por entenderem


que não podiam os homens dissolver a união realizada por Deus e, portanto um
sacramento.

No pensamento Arnoldo Wald citado por Nogueira (2007), refere que, havia uma
divergência básica entre a concepção católica do casamento e a concepção medieval.
Enquanto para a Igreja em princípio, o matrimónio depende do simples consenso das
partes, a sociedade medieval reconhecia no matrimónio um acto de repercussão
económica e política para o qual devia ser exigido não apenas o consenso dos nubentes,
mas também o assentimento das famílias a que pertenciam. O direito canónico
fomentou as causas que ensejavam impedimentos para o casamento, incluindo as causas
baseadas na incapacidade de um dos nubentes como eram: a idade, casamento anterior,
infertilidade, diferença de religião; as causas relacionadas com a falta de consentimento,
ou decorrente de uma relação anterior (parentesco, afinidade).

A evolução do Direito canónico ocorreu com a elaboração das teorias das nulidades e de
como ocorreria a separação de corpos e de patrimónios perante o ordenamento jurídico.
Não se pode negar, entretanto, a influência dos conceitos básicos elaborados pelo
Direito Canónico, que ainda hoje são encontrados no Direito moçambicano.

3.4. Noção de família

A palavra Família é categoria fundamental do presente estudo, pois em torno dela


surgiram diversos institutos legais, a serem resguardados pela legislação como a União
de facto.

21
A origem etimológica da palavra Família, segundo Plácido e Silva (1999, p. 347) é
“derivado do latim família, de famel (escravo, doméstico), é geralmente tido, em
sentido restrito, como a sociedade conjugal.”

Da acepção etimológica da palavra Família, parte-se à necessidade da compreensão do


seu contexto jurídico, trazendo-se à tona o conceito de Família.

Em sentido genérico e biológico, considera-se família o conjunto de pessoas que


descendem de tronco ancestral comum. Ainda neste plano geral, acrescenta-se o
cônjuge, aditam-se os filhos do cônjuge (enteados), os cônjuges dos filhos (genros e
noras), os cônjuges dos irmãos e os irmãos do cônjuge (cunhados).6”

Tratando-se a Família de uma forma mais restrita, observa-se nas palavras de


DIAS(2006, p. 25) que “numa acepção mais restrita, a família consiste no grupo
composto dos cônjuges e seus filhos.”

Nesse sentido, continua DINIS (2010, p. 33) explanando que “nesse grupo mais restrito
se desenvolvem maiores efeitos nas relações familiares, sendo de se destacar que sob tal
significação, a família desenvolve o princípio da solidariedade doméstica, da vida em
comum e cooperação recíproca.”

Vale asseverar que, não se pode confundir família com casamento, noções equivocadas
daqueles que afirmam que esta é constituída pelo casamento, quando na verdade é
apenas uma das fontes de sua constituição.

Entre tanto Família é a célula base da sociedade, factor de socialização da pessoa


humana, A família constitui o espaço privilegiado no qual se cria, desenvolve e
consolida a personalidade dos seus membros e onde devem ser cultivados o diálogo e
entreajuda.

E ainda reconhecida como entidade familiar, para efeitos patrimoniais a união singular,
estável, livre e notaria entre um homem e uma mulher.

Gomes Canotilho e Vital Moreira 7afirmam expressamente, que a norma constitucional


sobre a família não abrange apenas a família fundada no casamento mas também a

6
DIAS, (2006, p.13)
7
Gomes Canotilho e Vital Moreira (2007, P. 559-568),
22
família emergente das “comunidades constitucionalmente protegidas” – onde se insere a
união de facto, havendo, sequentemente, “uma abertura constitucional serão mesmo
uma obrigação para conferir o devido relevo jurídico às uniões familiares de facto.
Contudo, relativamente à união de facto não surge qualquer referência explícita. O
legislador moçambicano, consagrou no artigo 119.º da constituição, definindo este
como sendo, o elemento fundamental e base de toda a sociedade, mas os números 2,3 e
4 do mesmo dispositivo, deixa-nos com um entendimento de que, o Estado consagra o
princípio de que o casamento se baseia no livre consentimento e por sua vez temos o
casamento tradicional e religioso no qual o estado só reconhece quando são registados e
fixa os seus efeitos.

De acordo com a lei da família em Moçambique na alínea 1, 2 e 3 do Artigo 1 que se


apresentam a seguir, norteiam a família como sendo:
 A família é a célula base da sociedade, factor de socialização da pessoa
humana.
 A família constitui o espaço privilegiado no qual se cria, desenvolve e
consolida a personalidade dos seus membros e onde devem ser cultivados o
diálogo e a entreajuda.
 A todos é reconhecido o direito a integrar uma família e de constituir família.

Para o autor moçambicano IBRAIMO ABUDO, diz que, o conceito de família não pode
ser entendido como ornado de imobilidade. Como ocorre com os demais fenómenos
sociais, a família submete-se a um processo de evolução e transmissão, nela intervindo
tanto os factores biológicos como os factores de natureza económica e de natureza
social (Abudo, 2005).

O mesmo cita na sua obra os autores GOMES DA SILVA e JACQUER LECLERQ,


onde os mesmos dão a entender que a família resulta de forma espontânea, do próprio
desenvolvimento humano, residindo mais próximo da natureza de qualquer uma outra
instituição e repousando de maneira mais imediata nos institutos originários, tais como
o impulso natural do instinto sexual, o amor maternal, a tendência do ….para que o
outros o continuem.

Por sua vez, Abudo (2005), afirma que o conceito de família pode ser visto sob duas
perspectivas o psicológico e a perspectiva jurídica.

23
No primeiro caso, fala de família como um conjunto de pessoas que se ligam às outras
tanto por casamento ou por consanguinidade, também chamado parentesco ou por mera
afinidade. Quer dizer, as pessoas encontram-se ligadas por existência de uma relação
matrimonial em consequência do casamento que só termina com a morte de uma delas
ou ambas, ou que estão ligadas por existência da relação de sangue, em consequência de
descendência umas das outras ou procederem de tronco comum ou encontram-se ligadas
por existência da relação que se institui entre as famílias de um dos cônjuges e os
consanguíneos do outro ou ainda por existência da relação que à semelhança da
afinidade natural se estabelece entre duas pessoas, como se de consanguinidade fossem
(a situação de adoptante e adoptado) ou entre uma delas e os patentes da outra.
3.5.Tipos de família

Em referência aos argumentos acima elencados, a família pode ser encontrada em


diversos tipos dos quais são:
3.6.Família alargada

Segundo Abudo (2005), a família alargada é constituída pelos cônjuges e seus filhos e
outros descendentes do casal, perante colaterais e seus descendentes, afins, adoptados e
outros.
3.7.Família nuclear

Em conformidade com o autor F.M. PEREIRA COELHO, apud(Abudo, 2005), refere


que a família nuclear que, nas modernas sociedades industriais, tem a designação de
pequena família, onde nas raras vezes e considerada família incompleta ou seja,
constituída pelo cônjuge viúvo e os filhos, a mãe solteira e o filho natural. Por outra,
também pode acontecer com os pais separados ou divorciados que vivem com os filhos.

Sob ponto de vista jurídico, refere-se que a família é a célula base da sociedade, factor
de socialização da pessoa humana, na qual os membros que a constituem, ligados entre
si pelo parentesco, casamento, afinidade e adopção, criam, desenvolvem e consolidam a
sua personalidade8.

8
Vide os artigos 1 e 2 da lei da família vigente no nosso ordenamento
24
E reconhecendo ainda como entidade familiar para efeitos patrimoniais, a união de facto
a chamada união singular, estável, livre e notória entre um homem e uma mulher em
conformidade com o estipulado no nº 2 do artigo 2 da lei supra citada.
3.8.Família monoparental

A família monoparental e a comunidade formada por qualquer dos pais com seus
descendentes, é devida a especial protecção do Estado. São as denominadas sociedades
monoparentais que correspondem a uma parcela significativa da realidade de muitos
moçambicanos, seja em decorrência natural da estrutura organizacional familiar, ou pelo
considerado avanço tecnológico, bem como privilégios conferidos pelas normas, como
são os casos de adopção por pessoas solteiras que possuem efectivamente condições
económicas e principalmente morais para cuidar do menor.
3.9.Noção de casamento

Desde há muito que o casamento é em toda parte uma instituição social ou religiosa,
que serve de fundamento a união entre dois seres humanos. Na grande generalidade dos
casos pressupondo a heterossexualidade sendo que há paises cujas leis contemplam
também o casamento homossexual, oficializa simultaneamente a conjugabilidade e a
sexualidade dos indivíduos. (Leandro Maria, 2001:264).
Para Chiara Saraceno, o casamento é uma união entre um homem e uma mulher
realizada de modo a que os filhos dados a luz pela Mulher sejam reconhecidos como
filhos legítimos dos cônjuges. (1997:81).
Casamento9 ou matrimónio é o modelo pelo qual a sociedade humana estabelece as
normas para a relação entre os sexos. O matrimónio também pode ser visto como uma
união entre um homem e uma mulher de modo que as crianças nascidas desta sejam
reconhecidas como frutos legítimos de ambos os pais.
Stephen Morre, vê o casamento como um laço selado por uma cerimónia religiosa ou
civil enquanto casais que vivem juntos homens e mulheres com os nascimentos
legítimos registados por ambos os pais. (1995:29).

Segundo Abudo (2005), o casamento é a união de duas pessoas de sexos diferente,


visando estabelecer uma plena comunhão de vida, união firmada segundo regras
dodireito estabelecidos para o efeito.

9
Lakatos e Marconi (2006: 174).

25
No nosso ordenamento jurídico, a Lei nº 22/2019 de 11 de Dezembro, no seu artigo 8,
define o casamento como uma união voluntária e singular entre um homem e uma
mulher, com o propósito de constituir família, mediante comunhão plena de vida.

Trata-se, pois, de negocio familiar tipicamente pessoal que ostenta as características de


serem, na suam maioria, reguladas por normas imperativas e apenas podem ser
celebrados pessoalmente, não admitindo representação propriamente dita.

Em termos tradicionais, ABUDO, refere que, o casamento não é só uma união de duas
pessoas de sexo diferentes, mas também a união de duas famílias nas dimensões sociais,
económicas, culturais e até espiritual, que transcendem a dimensão do próprio acordo de
vontade dos nubentes. Pode até, dizer que, nesta acepção, alguns efeitos do casamento
não são inclusive o conhecimento e ou pretendido pelos esposais10.

Casamento é a união legal entre um homem e uma mulher, com o objectivo de


constituírem a família legítima. Reconhece-se-lhe o efeito de estabelecer“ comunhão
plena de vida, com base na igualdade de direitos e deveres dos cônjuges” 11.
O casamento celebrado sem as solenidades previstas na lei e entre pessoas do mesmo
sexo é inexistente, bem como o é aquele em que os nubentes não manifestam o
consentimento. Ao proclamar que o casamento estabelece “comunhão plena de vida”
refere-se o novo Código à existência de uma comunhão de vidas sob o aspecto
patrimonial e espiritual. O casamento cria a família legítima.
O legislador moçambicano define o casamento no seu art. 8 da lei vigente no nosso
ordenamento jurídico, como sendo, a união voluntária e singular entre um homem e
uma mulher, com o propósito de constituir família, mediante comunhão plena de vida.

De acordo com este autor, não há um conceito universal de casamento, até há pouco
tempo parecia possível descobrir uma ideia comum aos sistemas jurídicos que se
inserem no mesmo espaço cultural do nosso, a ideia de casamento como acordo entre
um homem e uma mulher feito segundo as determinações da lei e dirigido ao
estabelecimento de uma plena comunhão de vida entre eles(Oliveira, 2016).

10
ABUDO, José Ibraimo, Direito da Família, Maputo, 2005, Pág.105.
11
Gonçalves,2012
26
3.10. Tipos de casamento

Casamento civil, Religioso e Tradicional

No ordenamento jurídico moçambicano, existe uma modalidade de casamentos


estabelecidos nos números 1 e 2 do art. 17, onde pode se ler, o casamento é civil,
religioso ou tradicional. O casamento monogâmico, religioso e tradicional é
reconhecido valor e efeitos iguais à do casamento civil, quando tenham sido observados
os requisitos que a lei estabelece pra o casamento civil.

A mesma lei moçambicana menciona nos seus nºs 1 e 2 do artigo 18 que ʻʻo casamento
religioso e o tradicional regem-se, quanto aos efeitos civis, pela lei vigente no
ordenamento jurídico moçambicano no nosso casso e apreço e a lei da família e no seu
número seguinte, afirma que o casamento religioso assim como o tradicional produz
efeitos jurídicos desde que esteja previstos na lei de família ou em legislação especial,
quando devidamente transcrito pelos serviços do registo civil nos termos da leiʼʼ.

Como bem nos referimos no título acima mencionado onde retrata dos tipos de
casamento, apraz-nos dizer que no ordenamento jurídico moçambicano existem três
tipos de modalidades de casamento descritos nos artigos 31 e seguintes, 52 e 53, ambos
da lei de família vigente no ordenamento jurídico moçambicano, dos quais são:

 Casamento civil;
 Casamento religioso; e,
 Casamento tradicional.

3.11. Capacidade para contrair o matrimónio

Interessa ao Estado que as famílias se constituam regularmente. Por isso, cerca o


casamento de um verdadeiro ritual, exigindo o cumprimento de uma série de
formalidades. Por sua vez, no artigo 119º, da CRM, estabelece que a família é o
elemento fundamental e a base de toda a sociedade, o Estado reconhece e protege, nos
termos da lei, o casamento como instituição que garante a prossecução dos objectivos da
família e na parte final do número 3 do artigo acima referido, o estado consagra o
princípio de que o casamento se baseia no livre consentimento. Em relação a capacidade
de poder contrair o matrimónio, aqueles em relação aos quais não se verifique alguns

27
dos impedimentos matrimoniais previstos na lei, concretamente, a idade inferior a
dezoito anos, a demência notória, mesmo nos intervalos lúcidos, e a interdição ou
inabilitação por anomalia psíquica, o casamento civil, religioso e tradicional não
dissolvido que esteja devidamente transcrito, a união de facto devidamente atestada.12.

Interessa ao Estado que as famílias se constituam regularmente. Por isso, cerca o


casamento de um verdadeiro ritual, exigindo o cumprimento de uma série de
formalidades. A lei considera relevante que o consentimento dos nubentes obedeça a
certas solenidades, não só para que seja manifestado livremente, como também para
facilitar a prova do acto.

3.12. Efeito do casamento quanto as pessoas e aos bens dos cônjuges


3.13. Deveres do casamento

Tendo em conta a nossa legislação no seu art. 97 onde estabelece os deveres recíprocos
dos cônjuges vinculados desta forma pelos deveres seguintes:

3.14. Dever de fidelidade respeito e confiança

Trata-se agora de um puro dever negativo, pois o chamado “débito conjugal”, ou seja, o
dever de cada um dos cônjuges ter relações sexuais com o outro, não se integra no dever
de fidelidade mas no de coabitação, num dos deveres (a “comunhão de leito”) em que
este dever se analisa. O dever de fidelidade obriga cada um dos cônjuges, em primeiro
lugar, a não ter relações sexuais consumadas com pessoa que não seja o seu
cônjuge(Oliveira, 2016).

O legislador moçambicano na lei 22/2019 de 11 de Dezembro, no seu artigo 98,


estabelece que o dever de respeito importa para os cônjuges a obrigação reciproca de
valorizarem e dignificarem a personalidade de cada um, através do diálogo e da
tolerância e o dever de confiança consiste no respeito mútuo e traduz-se no facto de
acreditar um no outro.

3.15. Dever de solidariedade ou cooperação

O artigo 99 da lei por nós citada, menciona o dever de cooperação, que importa para os
cônjuges a obrigação de socorro e auxílio mútuos e a de assumirem em conjunto as
12
Vide os artigos 32, 33 e 34 ambos da lei 22 de 11 de Dezembro de 2019
28
responsabilidades à vida da família que fundaram. A primeira obriga os cônjuges a
ampararem-se mutuamente nas horas boas e más, na felicidade como na provação e por
seu torno, obriga-os a assumirem em conjunto as responsabilidades inerentes à vida da
família.

3.16. Dever de assistência

O dever de assistência importa para os cônjuges obrigação de prestação de alimentos, de


contribuição para as despesas domésticas e de participação da vida familiar, o legislador
ainda estabelece que, os separados de facto, independentemente das causas da
separação, o cônjuge que tiver ao seu cargo filhos menores pode sempre exigir do outro
o cumprimento da obrigação de contribuição para as despesas domésticas, bem como da
prestação de alimentos. E por sua vez, estão ambos obrigados a alimentar e a contribuir
para as despesas domésticas, se a separação resultar de comum acordo. Vide os números
1, 2 e 3 amos da lei de família13.

Dever de coabitação

A palavra tem um sentido próprio e mais amplo no direito matrimonial. “Coabitar” não
quer dizer apenas habitar conjuntamente, na mesma casa, ou viver em economia
comum, mas viver em comunhão de leito, mesa e habitação (tori, mensæethabitationis).
a) Comunhão de leito Neste aspecto, o casamento obriga os cônjuges ao chamado
“débito conjugal”. Já vimos que o casamento implica uma limitação lícita do direito à
liberdade sexual, no duplo sentido de que a pessoa casada fica obrigada a ter relações
sexuais com o seu cônjuge e a não ter essas relações com terceiros. E nos termos do
artigo 100 da lei da família vigente no nosso ordenamento jurídico nos seus números 1 e
2 com as suas respectivas alíneas esta vislumbrado que, o dever de coabitação entre os
cônjuges importa a obrigação reciproca de comunhão de cama mesa e habitação, como
afirma o autor (Oliveira, 2016).

3.17. União de facto

A união de facto define-se como uma ligação singular entre duas pessoas de sexo
diferente, com carácter estável e duradouro que, sendo legalmente apta para contrair
casamento, não tenham celebrado, presumindo-se, desse modo, a comunhão plena de

13
Cfr. Lei nº 22/2019 de 11 de Dezembro, Lei da Família .

29
vida pelo período de tempo superior de três anos sem interrupção. Vide artigo 207 da lei
de família vigente, comunhão que deve ser de cama, leito e habitação14.

A vida dos membros da união de facto cria uma aparência de casamento, em que muitas
podem confiar, sendo assim, diferente das simples relações sexuais passageiras e do
próprio concubinato por mais duradouro que seja, dado estes simplesmente pressupor
comunhão de tecto, e não de mesa nem de habitação.

De acordo com Abudo (2005), a definição de família trazida pelo nº 2 do artigo da lei
supra citada, deduz-se que a união de facto é reconhecida como entidade familiar, para
efeitos patrimoniais, assim protegendo-se muitas mulheres e crianças que ficavam
desprotegidas apôs a dissolução das uniões de facto. Do estabelecimento da união de
facto resulta efeitos de natureza pessoal e de natureza patrimonial.

A união de facto é a circunstância de viverem como se fossem casadas cria uma


aparência externa de casamento, em que terceiros podem confiar, o que explica alguns
efeitos atribuídos à união de facto. Relações sexuais fortuitas, passageiras, acidentais,
não configuram pois uma união de facto. A união de facto distingue-se igualmente do
concubinato duradouro, por mais longo que este seja. Embora haja aí, de alguma
maneira, comunhão de leito, não há comunhão de mesa nem de habitação. Refira-se, por
último, a unidade ou exclusividade da união de facto, que é exigida pela vivência “em
condições análogas às dos cônjuges”. Uma pessoa só pode viver em união de facto com
outra, não com duas ou mais(Oliveira, 2016).

Por sua vez, Abudo (2005.pp.254. 255), citando os autores Francisco Pereira Coelho e
Guilherme de Oliveira, afirma que a união de facto não é qualificada como relação
familiar. Mas nos termos do artigo 2 da lei de família deduz-se que a união de facto é
reconhecida como entidade familiar, para efeitos patrimoniais, assim protegendo-se
muitas mulheres e crianças que ficavam desprotegidas apôs a dissolução da união de
facto, por não se achar regularizada a situação daquelas, pelo facto do homem, as mais
das vezes, se escusar a assumir a responsabilidade dos seus actos.

Referente aos efeitos a união de facto adopta a natureza pessoal e patrimonial.

14
ABUDO, José Ibraimo, Direito da Família, Maputo, 2005, Pág.256-257.

30
3.18. Efeitos pessoais e efeitos patrimoniais da união de facto

No que diz respeito aos efeitos pessoais, Abudo, afirma que, os membros da união de
facto, vivendo em condições semelhantes a dos cônjuges estão vinculados por diversos
deveres, como sejam o dever de respeito, e confiança, o dever de solidariedade, o dever
de assistência, o dever de coabitação e o dever de coabitação como já vem explícito
acima.

E no tocante aos efeitos patrimoniais, estabelece-se que a união de facto aplica-se o


regime da comunhão de adquiridos previsto no artigo 145, regime que permite, ao lado
dos bens próprios década um dos cônjuges, haver bens comuns bens que aqueles fazem
seus, na vigência do casamento. Quer dizer que os membros da união de facto
participam no património comum por metade no activo e no passivo, sendo nula
estipução em sentido diverso(Abudo, 2005).
3.19. Direitos e deveres dos companheiros

É de se notar que os Companheiros, como no Casamento Civil, também têm direitos e


deveres. Se assim não fosse, não teria sentido o amparo jurídico do instituto, pois estaria
dando margem a relações vulneráveis.

O primeiro dos efeitos pessoais é o dever de lealdade, que é a confiança depositada no


outro Companheiro, consistindo na confiança depositada na lisura e correcção do
comportamento do outro. Decorre do carácter monogâmico, a determinação de que
ambos os Companheiros se abstenham de manter relações sexuais com terceiros, que é
uma das formas mais graves de deslealdade.

Nas precisas palavras de DINIS (2010, p. 99) “o dever de lealdade, que tem o conteúdo
do dever de fidelidade existente no casamento, visa vedar a manutenção de relações
que tenham em vista a satisfação do instinto sexual fora da união estável,
acrescentando que seria inimaginável a atribuição de efeitos a duas relações que
concomitantemente sejam mantidas por um ou ambos os companheiros.”

Em relação ao respeito, exige-se que ambos os Companheiros adoptem posturas


compatíveis com o estado daquela união, quer entre si, quer em relação aos seus filhos.
É uma forma de reforçar a natureza nobre e o carácter espiritual da união, que ambos os

31
Companheiros devem nutrir um pelo outro, sem os quais a união não subsistirá às
dificuldades da vida comum.

Veloso (2010, p. 103) que “os conviventes devem tratar-se mutuamente com respeito e
estima. A convivência deverá ser caracterizada pela urbanidade, diálogo, atenção
especial, estima, apreço e lealdade.”

DIREITO COMPARADO

4.1. Nota introdutória

Passemos a uma abordagem sintética sobre o regime jurídico da união de facto


no quadro do direito comparado nos ordenamentos jurídicos com destaque o direito
português e o direito brasileiro por estes mostrarem certos elementos que possam
sustentar o nosso trabalho.

Para que isso seja possível vimo-nos a fazer um estudo em algumas fontes de direito
que possam sustentar o nosso tema em questão, e procurar perceber de que forma as
constituições e nas leis ordinárias de como estes países abordam a questão da união de
facto nos seus ordenamentos jurídicos e não só, a nível das leis internacionais como a
matéria e discutida. E desta forma podemos retirar do artigo 16 da declaração universal
dos direitos humanos a seguinte narrativa, ʻʻa partir da idade núbil, o homem e a
mulher têm o direito de casar e de constituir família, sem restrição alguma de raça,
nacionalidade ou religião, durante o casamento e na altura da sua dissolução, ambos
têm direitos iguais15ʼʼ.

4.2.Regime jurídico da união de facto no ordenamento Português

Conceito e diferenças relativas ao casamento

No Código Civil português, a definição de casamento está prevista no art. 1577.º como
“um contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família mediante
plena comunhão de vida”. Isto quer dizer que o casamento necessita da existência de um
contrato válido para produzir seus efeitos16e a união de facto não, inicia-se sem a

15
Cfr. Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948.
16
PITTÃO, José António de França, Uniões de Facto e Economia Comum: De acordo com a Lei 23/2010,
de 30 de Agosto, 3.º Ed. rev.e actual. (Legislação anotada), Editora Almedina, 2011, p. 19 a 21.

32
necessidade de um acordo de vontade, bastando que passem a viver em comunhão de
leito, mesa e habitação, estando cumpridos os requisitos da Lei n.º 7/2001, produz os
efeitos previstos no art. 3.º.

Em conformidade com as ideias do autor Coelho e sua tentando as mesmas com a lei,
afirma que, a união de facto não está definida na Lei n.º 7/2001, mas numa tentativa de
defini-la, nada mais é do que “as pessoas viverem em comunhão de leito, mesa e
habitação, como se fossem casadas”, traduzindo-se como uma relação fáctica
semelhante materialmente ao casamento. Tanto o casamento quanto a união estável
brasileira são regimes em que há comunhão de vida, porém no casamento há uma
manifestação de vontade por meio do qual se submetem ao cumprimento de deveres
contratualmente assumidos que consequentemente produzirão efeitos jurídicos.
Enquanto a união de facto apesar de também se tratar de uma comunhão de vida
comum, não há exigência de uma manifestação de vontade ou requisitos de forma17.

São possíveis de impedir a produção de efeitos da união de facto, isto é, impedem a


atribuição de direitos ou benefícios, em vida ou por morte aos unidos, os factos
indicados no n.º 2, do artigo 2.º, nomeadamente, a idade inferior a 16 anos à data do
reconhecimento da união de facto, a demência notória, mesmo com intervalos lúcidos e
situação de acompanhamento de maior, se assim se estabelecer na sentença que a haja
decretado, salvo se posteriores ao início da união; o casamento não dissolvido, salvo se
tiver sido decretada a separação de pessoas e bens; o parentesco na linha recta ou no 2.º
grau da linha colateral ou afinidade na linha recta, a condenação anterior de uma das
pessoas como autor ou cúmplice por homicídio doloso ainda que não consumado contra
o cônjuge do outro (Pssinha, 2019).
4.3.União de facto na constituição portuguesa

No ordenamento jurídico português, a união de facto não vem elencada na lista das
relações familiares constante do artigo 1676.º do Código Civil, onde constam o
casamento, a filiação, a afinidade e a adopção. Na medida em que os unidos de facto
vivem como se fossem casados - apenas com a diferença de que não o são, pois não
estão ligados pelo vínculo formal do casamento, a união de facto é considerada uma

17
COELHO, Francisco Pereira, “Os factos do casamento e o direito na união de facto: breves
observações”, inTextos de Direito de Família, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2016, p. 77 a 106.

33
relação parafamiliar, equiparada ao casamento para determinados efeitos, no âmbito do
seu poder de conformação (Pssinha, 2019).

Conforme a autora, são suscitadas questões da medida dessa equiparação, e até que
ponto ela se deve aproximar do casamento, desta controvérsia acaba nos levando ao
pensamento de Gomes Canotilho e Vital Moreiraque discute o artigo 36.º da
Constituição da República Portuguesa, enquadrado sistematicamente no capítulo
dedicado aos direitos, liberdades e garantias pessoais, reconhece e garante direitos
individuais dos cidadãos, na área familiar:“família matrimonializada”, havendo assim
uma abertura constitucional se não mesmo uma obrigação – para conferir o devido
relevo às uniões familiares “de facto” (Pssinha, 2019).

Em sentido diverso, Pereira Coelho e Guilherme de Oliveira defenderam que, quando o


n.º 1 do artigo 36.º estabelece que todos têm direito de constituir família e de contrair
casamento, a expressão “direito a constituir família” refere-se à matéria da filiação: o
direito a constituir família é, em primeiro lugar, um direito a procriar, e, em segundo
lugar, um direito a estabelecer as correspondentes relações de maternidade e
paternidade.

Quanto ao facto de no n.º 2 se estabelecer que a lei regula “os requisitos e os efeitos do
casamento e da sua dissolução, por morte ou divórcio, independentemente da forma de
celebração” e de alguns autores pretenderem reconduzir a união de facto a um
casamento sem forma, ou com forma diversa de celebração, ensinam-nos os mesmos
autores que não se pode reconduzir a união de facto a uma dimensão ou vertente
negativa do direito de contrair casamento18.

É pacífico, mesmo para quem entenda que o artigo 36.º da CRP inclui a união de facto
no seu âmbito normativo, que a sua protecção constitucional não exige, todavia, que o
legislador dê à união de facto efeitos idênticos aos que atribui ao casamento,
equiparando as duas situações24. Nem se diga que o diferente tratamento do casamento
e da união de facto viola o princípio da igualdade (artigo 13.º CRP), pois este princípio

18
Gomes Canotilho, J./Moreira, Constituição da República Portuguesa Anotada, cit., anot. ao artigo 36.º,
p. 561, II. Neste mesmo sentido, Carvalho, T., “A união de facto: a sua eficácia jurídica”, in FDUC,
Comemorações dos 35 anos do Código Civil e dos 25 anos da Reforma de 1977, vol. I – Direito da
Família e das Sucessões, Coimbra Editora, Coimbra, 2004

34
apenas proíbe discriminações arbitrárias ou desprovidas de fundamento ou de
justificação racional.

Não sendo a união de facto uma forma de contrair casamento, mas implicando um
projecto de vida totalmente diverso, que deve ser respeitado e valorado pelo legislador
e, portanto, não cabendo no âmbito de protecção “do direito a casar e a constituir
família” do artigo 36.º da CRP, sublinhe-se, todavia, que, no nosso entendimento, o
casal nascido da união de facto juridicamente protegida também é família, para efeitos
da protecção institucional conferida pelo artigo 67.º da CRP.

o legislador, em cumprimento do disposto no artigo 67.º, n.º 2, da CRP, conformou a


posição dos unidos de facto, no sentido de lhes conceder protecção da casa de morada
de família, de os beneficiar com o regime jurídico aplicável a pessoas casadas em
matéria de férias, feriados, faltas, licenças, de preferência na colocação dos
trabalhadores da Administração Pública; com a aplicação do regime do imposto sobre o
rendimento das pessoas singulares, concedendo-lhes protecção social na eventualidade
de morte do beneficiário, por aplicação do regime geral ou de regimes especiais de
segurança social, bem como prestações por morte resultante de acidente de trabalho ou
doença profissional, a pensão de preço de sangue e por serviços excepcionais e
relevantes prestados ao País, ou a inclusão do unido de facto no elenco dos titulares do
direito à indemnização por danos não patrimoniais por morte da vítima, no n.º 3 do
artigo 496.º. São expressões da valoração pelo legislador ordinário da fundamentalidade
reconhecida a esta forma de organização da vida familiar.

4.4.Efeitos da união de facto no ordenamento jurídico português

Um dos escassos efeitos patrimoniais atribuídos à união de facto encontra-se


consagrado no artigo 2020.º do CCiv, nos termos do qual o membro sobrevivo da união
de facto tem o direito de exigir alimentos da herança do falecido. Trata-se de uma
inovação.

legislativa inserida por ocasião da Reforma do Código Civil de 1977 (Decreto-Lei n.º
496/77, de 25 de Novembro) e que assumiu, nas décadas anteriores à entrada em vigor
da Lei n.º 135/99, de 28 de Agosto, importância fulcral em sede de união de facto pois
era considerado – pela jurisprudência e pela doutrina – como o preceito reconhecedor e
consagrador dos requisitos gerais das uniões de facto, requisitos que acabaram,

35
inclusive, por ser acolhidos pela definição legal de união de facto prevista no artigo 1.º,
n.º 2, da LUF.

O artigo 2020.º do CCiv, na sua redacção dada pela Reforma de 1977, exigia a
verificação cumulativa de um conjunto de requisitos. Em primeiro lugar, o membro
sobrevivo só podia exigir alimentos da herança do membro falecido se este, à data da
morte, fosse solteiro, viúvo, divorciado ou separado judicialmente de pessoas e bens (a
simples separação de bens não era condição suficiente). Em segundo lugar, exigia-se
que a convivência tivesse durado mais de dois anos. A lei pretendia, com este requisito,
afastar a concessão de alimentos ao membro sobrevivo de uma relação fugaz, efémera,
atribuindo apenas o direito a alimentos àquelas uniões que, nas palavras do preâmbulo
do Decreto-Lei n.º 494/77, de 25 de Novembro, tivessem revelado um mínimo de
durabilidade, estabilidade e aparência conjugal. O artigo 2020.º exigia, em terceiro
lugar, que aquela convivência se tivesse desenvolvido em “condições análogas às dos
cônjuges”, isto é, que tivesse havido comunhão de mesa, leito e habitação e não mero
concubinato. Em quarto lugar, o membro sobrevivo só poderia exigir alimentos da
herança do falecido quando não tivesse possibilidade de obtê-los nem do seu cônjuge ou
ex-cônjuge, dos seus descendentes, ascendentes ou irmãos (alíneas a) a d) do artigo
2009.º do CCiv). Por último, exigia-se que o direito a alimentos fosse exercido no prazo
de dois anos subsequentes à data da morte do autor da sucessão.

A Lei n.º 23/2010, de 30 de Agosto, alterou o artigo 2020.º do CCiv, prevendo-se agora,
sinteticamente, que o membro sobrevivo da união de facto tem o direito de exigir
alimentos da herança do falecido (n.º 1), que este direito deve ser exercido no prazo de
dois anos subsequentes à data da morte do autor da sucessão (n.º 2) e que o mesmo
cessa se o membro sobrevivo contrair novo casamento, iniciar união de facto ou se
tornar indigno do benefício pelo seu comportamento moral (artigo 2019.º do CCiv, ex vi
do n.º 3 do artigo 2020.º).

4.5.A união de facto no ordenamento jurídico brasileiro

A Lei Brasileira 9.278/1996, entretanto revogada, estabelecia um prazo de 5 anos para a


constituição da união de facto. A Constituição Federal da República de 1988, em seu
artigo 226, § 3º, refere: “Para efeito da protecção do Estado, é reconhecida a união
estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua
conversão em casamento”, não fazendo qualquer exigência em relação ao prazo mínimo

36
para a constituição da união estável. Já o artigo 1.723 do Código Civil Brasileiro
determina que “é reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a
mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o
objectivo de constituição de família”, ou seja, reconhece a união estável como entidade
familiar mas também não faz menção ao prazo mínimo de duração da convivência para
que seja considerada como uma união estável. No entanto, o artigo fixou elementos
mínimos para sua configuração e comprovação: a) convivência pública; b) contínua; c)
duradoura; d) com o objectivo de constituir família; e) entre homem e mulher. Mesmo
não havendo legislação que trate do assunto, a união de facto caracteriza-se pelo simples
facto de duas pessoas que queiram constituir uma família vivam em uma relação
duradoura de forma pública sem necessariamente morarem sobre o mesmo teto. Assim,
se o Juiz entender que preenche os requisitos elencados no artigo 1.723 do Código Civil
e estiver em conformidade com a Constituição Federal, é possível reconhecer a
estabilidade da união sem estabelecer um prazo mínimo ou máximo.

4.6.Síntese do direito Comparado

O carácter fragmentário da união de facto que temos vindo a destacar ao longo do nosso
estudo é susceptível de criar um conjunto de dúvidas e incertezas relativamente a
determinadas questões que podem emergir na constância de uma união. Mas os
conviventes podem ir ao encontro das tão desejadas certeza e segurança jurídicas
lançando mão de alguns dos institutos do direito comum na regulação das suas relações
de índole patrimonial, conseguindo, desta forma, alcançar a comunhão patrimonial que
eventualmente almejam ou simplesmente prevendo alguns aspectos que considerem
relevantes e merecedores de uma tutela mais aprofundada.

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CAPÍTULO IV: ANALISE E DISCUSSÃO

5. Nota introdutória

Neste momento chegamos ao chamado “Núcleo Duro”da Monografia, ou seja, a


análise e discussão do presente trabalho de pesquisa, que é a união de facto.

Ora, como é sabido e mesmo com sabido, torna necessário lembrar que em um
passado não muito distante fora publicada no Boletim da República (BR), a nova Lei da
Família, aprovada pela Lei n.º 22/2019, de 11 de Dezembro, que revogou, expressa e
totalmente, a anterior Lei da Família, concretamente, a Lei n.º 10/2004.

Por imperativos de economia espacial, doravante, tratá-las-emos somente pelas siglas


nominativas: “NLF” no que concerne à nova Lei da Família e “ALF” no que tange à
antiga Lei da Família.

5.1.Implicações jurídicas do lapso de tempo determinado pela lei para a


constituição da união de facto

A união de facto, por se traduzir num palco onde confluem interesses imateriais (ligados
ao sentimento de afectuosidade existente entre os companheiros e, sobretudo, por estar
no epicentro das relações jurídico-familiares – da união pode advir a filiação, que se
consubstancia numa das fontes do Direito da Família a par do casamento, adopção e
afinidade – e ainda aqueles efeitos pessoais da união de facto, como os da presunção da
paternidade/maternidade) e interesses patrimoniais (enquadrando todos os bens e
direitos avaliáveis pecuniariamente, adquiridos no governo da relação), assume
importância capital no que se prende com a necessidade da correcta interpretação das
disposições legais e do pensamento legislativo (elemento teleológico) que inspirou o
legislador a legiferar num determinado sentido e não noutro.

Com efeito, nunca é demasiado lembrar (de forma a nunca esquecer), que o petit gateau
da União de Facto são os seus efeitos patrimoniais e, relativamente a estes, o problema
de tratamento legal emerge, em grande medida, após a dissolução da relação (onde, de
forma incisiva, cada um os ex-companheiros se digladia com o outro com o fito de fazer
ingressar na sua esferas individual os bens adquiridos na constância da relação ou ainda
persistindo casos em que um dos ex-companheiros tenciona fraudulentamente se
assenhorar de bens de que tem perfeito conhecimento de que foram adquiridos pelo
outro companheiro antes da constância da relação de união de facto). É,

38
insofismavelmente, esta a circunstância que mais engrossa o volume processual dos
tribunais, quando se está em face de um litígio judicial decorrente de uma união de
facto.

Os efeitos patrimoniais acima aludidos podem resultar de um cenário onde os


companheiros estão ambos vivos ou ainda depois da morte de um deles, caso em que se
se produzem efeitos sucessórios e, por via disso, o regime da união de facto terá de ser
conjugado com as disposições da [recentemente] aprovada Lei das Sucessões (Lei n.º
23/2019), na parte atinente a administração da herança e critérios de elegibilidade do
cabeça-de-casal, classe dos sucessíveis e qualidade de herdeiro, direito à meação, etc., e
sem perder de vista o disposto sobre a matéria noutros diplomas legais, v.g., o Código
de Processo Civil (CPC) relativamente ao processo de Inventário (artigo 1326 e ss
CPC,) o Regulamento da Segurança Social Obrigatória aprovado pelo Decreto n.º
51/2017, na parte respeitante aos familiares com direitos às prestações por morte, a
repartição do subsídio por morte, pensão de sobrevivência diferidos ao unido de facto
sobrevivo (seja ela pensão de sobrevivência vitalícia ou temporária), ou ainda na parte
disciplinadora da Habilitação de Herdeiros (artigo 87 e ss do Código do Notariado).

A primeira grande alteração carreada pela NLF consta dos pressupostos da união de
facto. Se a definição constante da NLF (artigo 207) coincide com a que já vinha
plasmada na ALF (artigo 202), no sentido de qualificar a união de facto como sendo a
ligação singular existente entre um homem e uma mulher, com carácter estável e
duradouro, que sendo legalmente aptos para contrair casamento não o tenham
celebrado, entretanto, na NLF, o legislador alterou os limites quantitativos de tempo que
se devem verificar para que se possa estar diante da figura da união de facto.

Com efeito, ao abrigo da ALF, união de facto pressupunha a comunhão plena de vida
pelo período de tempo superior a um ano sem interrupção. Agora, nos termos da NLF,
aquela comunhão deve verificar-se por um período superior a três anos sem interrupção
(artigo 207 da NLF).

O legislador fez coincidir o requisito temporal de produção de efeitos patrimoniais da


união de facto – três anos – com o período em que, os cônjuges devem,
obrigatoriamente, estar casados caso pretendam lançar mãos a separação judicial de
pessoas e bens por mútuo consentimento (artigo 194 NLF) ou ao divórcio não litigioso
(n.º 2 do artigo 200 NLF).

39
Além da alteração dos pressupostos conducentes à produção de efeitos patrimoniais, o
legislador enuncia, na NLF, pela primeira vez e de forma expressa, que a união de facto
releva também para efeitos sucessórios e outros previstos em demais legislação (uma
enunciação, diga-se de passagem, pleonática e redundante, pois, ainda que o legislador
não o frisasse, os efeitos sucessórios produzir-se-iam na mesma, porquanto eles obtêm-
se ope legis, i.e., por força da Lei, desde que verificados os elementos constitutivos que,
à luz da Lei (ex: Lei das Sucessões, Regulamento da Segurança Social Obrigatória),
provocam aqueles efeitos.

Na NLF, o legislador regulamentou o regime da união de facto, introduzindo as figuras


do reconhecimento administrativo da existência e cessação da união (artigos 209 e 210
da NLF) e reconhecimento judicial da existência e cessação da união (artigo 211da
NLF). No domínio da ALF, a prova da união de facto era essencialmente testemunhal,
no sentido de ser necessário o depoimento confirmativo de terceiros que atestassem que
um determinado casal teria residido em plena comunhão de vida por um período
superior a um ano.

5.2.Formas para a harmonização do lapso de tempo como meio para o


reconhecimento da união de facto

As Autoridades Administrativas e/ou Municipais, emitiam documentos confirmativos


daquela união, e pretendiam que tais documentos valessem como documentos
autênticos nos termos do artigo 371 do Código Civil, que, como se sabe, possuem uma
punjante força probatória, na medida em que fazem prova plena dos factos que referem
como praticados pela autoridade ou oficial público respectivo, assim como dos factos
que neles são atestados com base nas percepções da entidade documentadora, no dizer
de TOMÁS TIMBANE (sic): considerando que a união de facto é uma situação que as
autoridades locais não terão acompanhado, pode, pois, dizer-se que não se trata de facto
atestado “com base nas percepções da entidade documentadora”; então o documento
não faz prova plena, podendo arguir-se e provar que a união de facto não existiu ou que
não existiu durante determinado período (In Reconhecimento Judicial da União de
Facto, Monografia, 2010, p. 15).

Por isso, a possibilidade legal de reconhecimento administrativo da existência da união


de facto, atestada por certificado passado pela autoridade administrativa da área de
residência dos companheiros, mediante declaração destes, feita conjuntamente, desde

40
que estejam reunidos os pressupostos previstos no artigo 207 da NLF, traduz-se numa
medida que evita o enviesamento e falsidade das declarações que antes, do domínio da
ALF, eram passadas por Autoridade que não tinham acompanhado a união de facto e,
como se não bastasse, somente a pedido de um dos companheiros.

Se se aplaude a instituição do reconhecimento administrativo, o mesmo já não se poderá


dizer do reconhecimento judicial (artigo 211 NLF), nos termos do respectivo n.º 3, o
pedido de reconhecimento da existência ou cessação da união de facto pode ser
cumulado com os pedidos relativos à efectivação dos efeitos da união de facto, com as
necessárias adaptações.

Ora, esta previsao ínsita no n.º 3 do artigo 211 da NLF traz problemas insanáveis sob o
ponto de vista processual, pois, sabe-se, de forma sobeja, que a efectivação dos efeitos
da união de facto é realizada, mormente, através da acção especial de divisão de coisa
comum (artigos 1412 e 1413 do Código Civil) que, nos termos do artigo artigo 1052 do
CPC, segue a forma de processo especial. Por sua vez, o reconhecimento judicial da
existência ou cessação da união de facto segue a forma de processo comum (n.º 2 do
artigo 460 do CPC).

É proibido cumular esses dois tipos de processos (especial e comum) da mesma forma
que se proíbe a cumulação da acção de divórcio litigioso com a acção destinada a
partilha de bens do casamento que se pretende pôr fim através do antedito divórcio.

A propósito, refere ABÍLIO NETO (sic): «é doutrina dominante ser a coligação


admissível quando a diversidade de forma de processo, derivada unicamente do valor,
se verifique entre acções de processo comum ordinário e sumário. Já a cumulação não
será possível entre acções especiais, nem entre estas e acções com processo comum»
(In Código de Processo Civil, reimpressão, Almedina, Coimbra, 1994, p. 65)

Ora, o processo pode ser comum ou especial (n.º 1 do artigo 460 do CPC) e, por sua
vez, o processo comum é ordinário e sumário (n.º 1 do artigo 461 do CPC). O processo
especial aplica-se aos casos expressamente designados na lei; o processo comum é
aplicável a todos os casos a que não corresponda processo especial (n.º 2 do artigo 461
CPC).

O que é cumulável são acções de processo comum (ordinários com sumários), mas
nunca se pode cumular processo especial com processo comum, pois cada processo

41
especial tem a índole de forma excepcional de processar, contraproposta à forma
comum. Noutros termos: cada processo especial é único e, em confronto com o
processo comum, uma excepção à regra.

42
Conclusão

Chegados a este ponto algumas conclusões se mostram possíveis de fazer. Desde logo
extrai-se da nossa exposição que ao tratar-se da união de facto, percebe-se que este tema
abrange amplos sentidos de acordo com os princípios da doutrina de direito de família,
mostrando, constantemente, a autoridade outorgada as partes envolvidas, em
representação dos seus direitos e interesses.

Ora, a união de facto tem ganho nas últimas décadas uma importância assinalável no
panorama conjugal português, assumindo-se, cada vez mais, como uma verdadeira
alternativa à forma tradicional de constituição de família: o casamento. Não obstante a
crescente atenção dedicada pelo legislador à união de facto, permanecem, no seu seio,
algumas questões para as quais a actual lei, se revela inapta a solucionar e a que o
legislador não pode ficar indiferente. Falamos, claro está, da ausência de regulação dos
efeitos patrimoniais da união de facto e do alargamento da protecção dos conviventes
em determinadas matérias, questões que, aliás, têm levado a doutrina a debater a
aplicação analógica da disciplina patrimonial do casamento à união de facto.

No tocante aos efeitos patrimoniais resultantes da união de facto, face ao silêncio da


actual lei de família à inaplicabilidade do regime matrimonial, aos membros da união de
facto restará lançar mão de alguns dos institutos do direito comum como forma de auto-
regulamentação de todos os aspectos da sua convivência em comum que considerem
imprescindíveis e merecedores de uma tutela aprofundada, trazendo, desta forma, para o
seio da sua relação, soluções jurídicas que vão de encontro aos seus anseios e capazes
de responder aos litígios que eventualmente venham a surgir na constância da
comunhão de vida ou aquando da sua cessação. Vimos, a este propósito, que os
conviventes gozam de uma ampla liberdade contratual na modelação das suas relações
patrimoniais, podendo desta forma, recorrer, designadamente, à estipulação voluntária
da solidariedade de determinadas obrigações, à prestação de alimentos convencional, ao
instituto da compropriedade, ao contrato-promessa de divisão de coisa comum e ao
testamento.

É de louvar o esforço que o legislador tem levado a cabo ao longo das últimas décadas
na concretização de uma protecção jurídico-social dos membros da união de facto.
Contudo, e conscientes do carácter factual e informal da união de facto, reclamamos
para ela a adopção de algumas regras que garantam um reforço da protecção, quer dos

43
próprios conviventes, quer de terceiros, sem que com isso se afecte o seu traço essencial
e se aproxime em demasia a união de facto do casamento. De facto, a natureza factual e
informal da união de facto é avessa a uma intensa regulamentação legislativa, havendo
mesmo o risco de, com ela, se transformar a união de facto num casamento informal.
Porém, cremos que a união de facto, enquanto relação para familiar que se traduz numa
convivência em comum duradoura, reclama, para os seus membros, um incremento da
protecção jurídica – nomeadamente nos momentos de crise da relação – sem que com
isso se caia, inevitavelmente, numa aproximação ao regime matrimonial. Neste
contexto, defendemos a consagração de um direito a alimentos na dissolução em vida da
união de facto com duração superior a dois anos, sempre que um dos conviventes
demonstre manifesta dificuldade em prover ao seu próprio sustento, e a necessidade de
consentimento de ambos os conviventes na alienação, oneração, arrendamento ou
constituição de outros direitos pessoais de gozo sobre a casa de morada de família,
independentemente da sua titularidade. Defendemos, igualmente, a consagração de uma
responsabilidade solidária quanto às dívidas contraídas para ocorrer aos encargos
normais da vida familiar, conferindo-se assim também uma protecção aos terceiros que
contratam com os membros de uma união de facto.

44
Recomendações
Tendo se buscado demonstrar algumas lacunas que impossibilitam a concretização da
união de facto, algumas recomendações se fazem necessárias:

Recomenda-se que haja consagração do direito a alimentos na dissolução em vida da


união de facto com duração superior a dois anos, sempre que um dos conviventes
demonstre manifesta dificuldade em prover ao seu próprio sustento, e a necessidade de
consentimento de ambos os conviventes na alienação, oneração, arrendamento ou
constituição de outros direitos pessoais de gozo sobre a casa de morada de família,
independentemente da sua titularidade. Recomendasse, igualmente, a consagração de
uma responsabilidade solidária quanto às dívidas contraídas para ocorrer aos encargos
normais da vida familiar, conferindo-se assim também uma protecção aos terceiros que
contratam com os membros de uma união de facto.

45
Referências Bibliográficas
Legislação:

Lei n.º 10/2004, de 25 de Agosto, antiga lei de família


Lei n.º 22/2019 de 11 de Dezembro, nova lei de familia
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especial no sector da educação em Cabo Verde, 2ª Edição, Revista e Actualizada, com
Anotações - Universidade de Cabo Verde.

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Common questions

Com tecnologia de IA

Not registering a 'união de facto' under current Mozambican law means the union lacks administrative recognition, which can result in loss of legal protections for the parties involved . Without such registration, the individuals in the union cannot claim rights typically accorded to couples in a recognized union, such as joint property rights or inheritance rights, thus remaining vulnerable to rights deprivation . The need for an administrative registration highlights the legislative intent to formalize the union status, ensuring legal protections and enforcing obligations upon partners similar to those in marriage .

In Mozambique, the dissolution of a 'união de facto' that isn't officially recognized poses significant legal challenges, as it may leave former partners without enforceable legal claims on joint property or continued financial support . The lack of recognition means that standard matrimonial laws regarding property division and alimony may not apply, leaving individuals vulnerable and potentially unable to secure a fair share of the jointly accrued assets . This gap can particularly affect women or less financially independent partners who cannot rely on informal arrangements for legal redress .

The extended duration for recognizing a 'união de facto' in Mozambique can be problematic due to societal norms where many couples live in informal unions with less available documentation or awareness of legal registration requirements . This increased duration may not align with societal practices where shorter cohabitation periods fulfill familial and economic expectations . It can disproportionately impact women, potentially leaving them without legal claims to joint property or economic resources upon separation before the three-year mark, thus exacerbating vulnerabilities in an already unrecognized informal union .

Under Mozambican law, a 'união de facto' is recognized as providing protections similar to marriage through its stable and durable nature, requiring a minimum three-year cohabitation period for legal recognition . This setup presumes a full communal life involving shared responsibilities and rights, which might include financial support and joint property rights as outlined in the family law . Although lacking a formal marriage contract, once recognized, a 'união de facto' can result in legal consequences similar to marital relations, such as shared responsibilities for family welfare .

If a 'união de facto' does not reach the three-year threshold in Mozambique, the union lacks formal recognition, meaning the parties involved may not benefit from legal protections associated with recognized relationships, like property sharing or inheritance rights . Without meeting this duration, the limitations could impact socio-economic protections and the division of assets upon dissolution, potentially leaving one party without legal recourse for shared property claims . The statutory imposition of this time period emphasizes the need for legal standing to enforce certain rights under long-term union conditions .

Mozambique's family law imposes fiduciary responsibilities within a 'união de facto' similar to those in marriage, including duties of financial support, mutual respect, and joint contributions towards domestic expenses . These responsibilities are facilitated by regard for communal living standards within recognized unions, emphasizing duties such as mutual care and family support . Once the 'união de facto' is properly recognized post the three-year requirement, partners are legally obligated to share the duty of maintaining the household and supporting each other financially, akin to married couples .

The Mozambican family law, as per Lei n.º 22/2019, extends the period for recognizing a 'união de facto' to over three years without interruption, compared to one year in the previous law . This change implies that couples must now cohabit for a longer duration to attain any legal recognition and benefits. This extension could result in certain legal rights, such as those linked to successors or property, being jeopardized if the union doesn't meet the three-year requirement . Additionally, without official registration, the union lacks formal acknowledgment, exacerbating the risk of losing legal protections .

Societal practices in Mozambique, such as widespread informal cohabitation, impact the implementation and success of the 'união de facto' legal framework. Many couples live under conditions that meet personal but not legal recognition criteria, thus failing to secure legal rights due to procedural misunderstandings or non-compliance with the formal registration process . The law's requirement for a three-year cohabitation coupled with the lack of awareness or access to legal resources to register their union symbolizes a disconnect between legal stipulations and social norms, affecting legal protection and rights assurance .

The revised period for recognizing a 'união de facto' in Mozambique's family law requires a minimum cohabitation of three years. This impacts property and inheritance rights because if the three-year requirement isn't met, the union may not be legally recognized, thereby jeopardizing claims to shared property or inheritance rights . In cases where recognition is not achieved, individuals may face challenges asserting property rights as per the regime of the 2004 law which only required a year of cohabitation . Thus, the law may inadvertently disadvantage partners who cohabit for less than three years, leaving them without legal means to claim shared assets .

The 'união de facto' in Mozambique, requiring over three years of cohabitation for recognition, shares similarities with the Portuguese legal system where the union is defined by stable and durable cohabitation, but without the same mandatory time frame for initial acknowledgment . In Portugal, a 'união de facto' doesn't require a formal contract, emphasizing communal life similar to marriage, yet lacking the formal prerequisites needed in Mozambican law . Moreover, while both systems recognize such unions for certain legal benefits, the rigidity of the Mozambican time threshold contrasts with the more flexible Portuguese criteria .

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