TEXTOS ACADÊMICOS: COMO LER E INTERPRETAR?
Flávia Ferreira da Silva Rocha
COMO LER O TEXTO ACADÊMICO?
As leituras realizadas na universidade são feitas a partir de objetivos claros e bem definidos.
Nesse espaço, os textos que circulam são também textos de estruturas bem definidas. Essa leitura é
feita por partes e é isso que será visto de agora em diante. Vamos a essas fases?
FASES DA LEITURA
Primeira fase – Exploração geral do texto
Essa primeira fase é a do contato com o texto para encontrar informações gerais que lhe
possibilitarão criar condições de selecionar informações importantes e necessárias para a
compreensão do texto como o todo. Perceba que antes de assistir a um filme, por exemplo, você lê a
sinopse para ter ideia de que trata a história, para saber quem é o roteirista, o diretor, os atores e outras
informações, dependendo do seu interesse. Então, assim como na sinopse de um filme, essa visão
geral do texto lhe possibilita construir condições de entendimento do texto a ser lido. Nesse momento,
todo conhecimento que você tem a respeito da temática será importante; melhor ainda, nesse
momento, o esquema de fazer conhecimento que todos nós temos é acionado para que seja possível
a construção de sentido. Por essa razão, é preciso “dar uma olhada” no texto: ver o título, os subtítulos,
as partes que o compõe, como está organizado, a partir da forma composicional que o gênero
apresenta. Isso vai permitir a você uma visão geral do todo e, por isso, condições para entendê-lo.
Nessa visão geral, você vai identificar: Qual o título? O que é possível se extrair dele? Quem é
o autor do texto? Saber quem escreveu o texto é importante porque o fará, dentre outras questões,
conhecer mais sobre sua área de estudo. Uma busca rápida na internet pode ser sufi ciente para obter
informações sobre o autor. Identificar a data de publicação do texto também constitui um mecanismo
importante de sentido, porque lhe dá condições de saber se as informações contidas ali estão
atualizadas. Esse também é o momento para observar se há gráficos, tabelas, quadros, por exemplo,
pois esses recursos trazem dados, resultados, informações importantes sobre os métodos e técnicas
utilizados na pesquisa apresentada no artigo.
Para Medeiros (2007, p. 78), nessa etapa da leitura, o leitor busca “o assunto tratado”, obtendo
condições de se situar.
De posse da ideia geral do texto, o passo seguinte é identificar os objetivos propostos. Vamos
a eles?!
Segunda fase – Identificação dos objetivos
Depois de ter obtido uma visão geral do texto, é o momento da identificação dos objetivos
propostos e do ponto de vista sustentado pelo autor. Para identificá-los, você deve ir, no caso dos
artigos científicos, ao resumo (que você estudará detalhadamente na aula 08) e às considerações
finais, porque nesse espaço se faz uma retomada dos objetivos; no caso dos capítulos de livro, à
introdução. São nessas seções que os objetivos são postos. O resumo funciona “como uma fonte de
informação precisa e completa, [que ajuda] os pesquisadores a ter acesso rápido e eficiente ao
crescente volume de publicações científicas” (MOTTA-ROTH; HENDGES, 2010, p. 152). Para
identificar essas informações, que geralmente aparecem no início dessas partes do texto, é preciso
uma leitura mais cuidadosa, buscando pontualmente cada uma delas.
Identificados os objetivos e o ponto de vista defendido, é o momento da leitura geral do texto.
Mas, antes de fazer isso, você observou que até agora o que se fez foi buscar a ideia geral do texto a
partir do título, das partes que o compõem e, em seguida, a identificação do objetivo e do ponto de
vista do autor? Se isso ficou claro, então estamos prontos para a leitura geral do texto. Vamos a ela!
Terceira fase – Leitura completa do texto
Ao término dessas duas fases, você já sabe qual o objetivo do texto e como ele se organiza.
Agora é o momento da leitura geral do texto. O que você vai fazer é identificar quais conceitos e
argumentos são trazidos pelo autor. Esse é o momento de identificação, pois estamos no processo de
compreensão do texto. É importante que você perceba como os conceitos e os pontos de vista são
trazidos e explorados pelo autor. Por meio de perguntas feitas ao título e subtítulo, você consegue
chegar às ideias expostas, aos conceitos e aos argumentos apresentados. Leia cada parte do texto
separadamente; isso vai imprimir qualidade à compreensão. Faça uso também das estratégias
metacognitivas para monitorar sua compreensão.
É também muito importante, nessa passagem do texto, que você preste atenção em como as
ideias são apresentadas pelo autor e como são estruturadas semanticamente no texto a partir dos
conectivos, dos operadores argumentativos etc. (além de, no entanto, embora, por isso...); busque por
marcas que mostrem a posição do autor. Também é importante perceber, nesse momento, por meio
de conectivos reformuladores (ou seja, quer dizer, ou melhor, por exemplo...) como os autores
reestruturam ideias e conceitos de modo a deixá-los mais acessíveis aos leitores. Para Zamponi (2005,
p.190), os reformuladores seriam um mecanismo para evitar conflitos a partir da antecipação das
dificuldades imaginadas no texto. Como você pode observar, são pistas das estruturas usadas pelo
autor para facilitar a compreensão dos argumentos postos.
Respostas a algumas dúvidas que você pode ter durante a leitura:
1) O que fazer quando não se entende as palavras que aparecem no texto?
No primeiro momento, é importante que você tente entender o sentido da palavra a partir do
contexto, das pistas dadas pelos enunciados. Só em um segundo momento, se não for possível a
identificação desses sentidos, você deve recorrer ao dicionário ou a outros instrumentos da área, no
caso dos conceitos, para que esses significados fiquem claros.
2) Como ler as notas de rodapé?
Em linhas gerais, as notas de rodapé são 1) explicativas – oferecem maiores informações sobre
os elementos a que se referem, os quais não puderam ser incluídos no corpo do texto – ou 2) de
referência – indicam obras utilizadas ou sugeridas. O interessante é que a leitura da nota aconteça ao
final da passagem do texto em que ela está inserida, impedindo a quebra do raciocínio a respeito da
ideia apresentada. No entanto, se houver necessidade específica de recorrer a ela de imediato, com
garantias de assegurar qualidade a sua leitura, então isso deve ser feito.
Compreendido o texto, é hora de interpretá-lo.
INTERPRETAÇÃO DO TEXTO
Este é o momento de relacionar as ideias, de avaliá-las a partir do que é proposto pelo autor.
Considere que o momento anterior, o da compreensão, é o de identificar as ideias apresentadas e o
modo como são apresentadas. Agora, você vai avaliar o que leu, se gostou, se não gostou, se propõe
mudanças. Entretanto, é importante considerar que não se trata de um texto de deleite, por isso os
critérios de gostar ou não precisam ser definidos a partir dos propósitos do texto e da leitura, claro!
Considere se a organização do texto é coerente com a proposta do autor, se a teoria foi discutida
adequadamente, se você já leu sobre o assunto, se as concepções apresentadas são coerentes com o
que você já conhece. Quais resultados foram encontrados na pesquisa? Como foram encontrados? O
método utilizado foi apropriado? Os dados foram interpretados adequadamente? Você é capaz de
sintetizar o artigo lido?
Nem sempre essa fase é tranquila, principalmente para quem está iniciando, mas é muito
importante e possível. É só uma questão de tempo, você vai ver!
Para que você tenha condições de relacionar as ideias do texto, de chegar a conclusões a partir
de pistas dadas por ele e não, necessariamente, a partir do que está na superfície do texto, vamos
estudar: conhecimento de mundo, inferência, pressuposto, pressuposição e intertextualidade, aspectos
fundamentais para a interpretação. Pronto (a) para isso?
Conhecimento de mundo
Para que o que lemos faça sentido, acionamos todo o conhecimento que construímos ao longo
de nossas vidas, mesmo, quase sempre, sem termos consciência disso, “ativamos uma rede de
conhecimentos prévios para produzir uma compreensão global e coerente do texto que estamos lendo”
(VIEIRA; FARACO, 2019, p. 43). Assim, todo e qualquer conhecimento se faz necessário nesse
momento, toda a carga de experiência que se tem, desde as experiências mais simples, é importante.
Essa construção é um processo natural, intuitivo, mas que pode ser potencializado de várias formas,
como pela busca do conhecimento formal que é sistematizado e exige, por conta disso,
posicionamentos diferentes do utilizado em uma conversa informal com os amigos em uma
lanchonete, por exemplo. Então, quanto maior o conhecimento que se tem, maiores as possibilidades
de se construir sentido, porque, para esse propósito, mobilizamos todo o nosso repertório, que é único
e intransferível.
É importante que saibamos que não há conhecimento superior, há diferentes conhecimentos e
alguns mais valorizados socialmente, mas isso é só uma convenção. Então, como você pode perceber,
o conhecimento de mundo é uma condição para interpretação textual por conta das possibilidades de
relação e de conexão com todo seu repertório.
No mundo acadêmico, também é muito importante que busquemos informações, porque isso
pode reduzir as nossas incertezas e nos aproximar da “verdade”. No entanto, considere que
informação não significa conhecimento, este é qualitativo e construído individualmente e
internalizado por nós com base em seleções e conexões diversas, enquanto aquela é apenas
quantitativa. No entanto, é verdade que quanto mais informação você tiver, maior é sua base para
construir conhecimento.
Na Academia, toda produção é fruto de conhecimento, e, por essa razão, não é um fator de
inspiração, mas de dedicação e investimento de tempo. Então, quanto mais leitura, maior a
possibilidade de conhecimento, de pensar o mundo e de agir sobre ele.
A intertextualidade é mais um dos mecanismos para estabelecer relação. Vamos ver do que se
trata?
Intertextualidade
Intertextualidade é “a relação que cada texto estabelece com outros textos a sua volta”
(BAZERMAN, 2006, p. 89). Essa é outra condição para interpretação, pois estabelece relações de
conhecimentos e isso é muito mais corriqueiro do que imaginamos. Marcuschi (2008, p. 129) afirma
existir hoje “um consenso quanto ao fato de se admitir que todos os textos comungam com outros
textos, ou seja, não existem textos que não mantenham algum aspecto intertextual, pois nenhum texto
se acha isolado e solitário”. Ou seja, os textos, mesmo aparentando serem isolados, retomam sempre
outros, retomam sempre experiências anteriores.
Em linhas gerais, a intertextualidade pode ser explícita, quando apresenta diretamente o texto
retomado, ou implícita, quando o leitor, a partir de sua experiência, de seu conhecimento de mundo,
consegue identificar as retomadas de outros textos. Nos textos acadêmicos, em especial, a
intertextualidade apresenta-se, principalmente, por meio de 1) citação direta, 2) citação indireta e 3)
comentário ou avaliação acerca de uma declaração.
Como você pode perceber, são essas retomadas que nos possibilitam enxergar as relações entre
os textos. Então, quando um autor faz uso de uma citação, de uma explicação apoiado em outros
autores, ali está uma situação típica de intertextualidade. É essa relação estabelecida que interessa ao
processo interpretativo, pois a intertextualidade vai possibilitar as conexões com outros textos, como
também lhe permitir perceber a posição assumida pelos autores em relação ao que já foi escrito, dando
a você uma visão ampliada sobre o que está lendo, uma vez que a intertextualidade “frequentemente
procura criar uma compreensão compartilhada sobre o que foi dito anteriormente e a situação atual
como se apresenta” (BAZERMAN, 2005, p. 25).
Outro recurso de muita importância para a interpretação é a inferência, pois é a partir dela que
chegamos a conclusões do que está nas entrelinhas do texto. Vamos ver como ela se dá?!
Inferências
Você já deve ter ouvido dizer que, para interpretar, é preciso ler nas entrelinhas do texto, não é
mesmo? Pois bem, esse ler nas entrelinhas diz respeito à inferência. Mas o que é inferir? Podemos
dizer, grosso modo, que se trata de construir um sentido novo a partir de sentidos já conhecidos, é
relacionar as informações explícitas no texto com informações implícitas. Mas isso não é feito de
modo aleatório, é feito a partir de pistas linguísticas do texto, do contexto e de conhecimentos outros
que você tem a respeito do assunto, da situação etc. Vamos analisar o exemplo a seguir para que essa
concepção fi que clara para você:
Aviso que circula em carro forte
Fonte: https://imbraforte.com.br/produto/cofre-modelo-frota-125mm/
Para que esse texto faça sentido, precisamos considerar alguns aspectos: o primeiro deles é que
se trata de um aviso, mas que precisa estar situado num contexto específico de circulação, pois ele
não pode, por exemplo, estar na porta de um restaurante, porque consta no texto a informação
explícita de que se trata de um veículo – mesmo que um veículo funcione como restaurante, não é a
função imediata que pensamos para um veículo. Depois de situar o aviso, temos a informação da
existência de um “cofre boca de lobo”. Podemos pressupor que “boca de lobo” seja o modelo do
cofre, uma vez que essa construção veio imediatamente ligada à cofre e por sabermos, a partir de
nosso conhecimento de mundo, que não se trata especificamente da boca do animal. Em seguida,
temos mais uma informação, a de que o cofre tem uma chave e que essa não está com o motorista, no
caso, o do veículo onde o aviso se encontra. Considerando todos os elementos presentes no aviso,
podemos inferir que, apesar da leitura ter sido possível, não se trata de um texto direcionado a
qualquer um que conseguisse decodificá-lo, mas a leitores muito específicos, pois a quem interessaria
saber de: um cofre em um veículo; da chave desse cofre que o permitisse abri-lo; de que essa mesma
chave existe, mas que não está com o motorista que conduz o veículo? A partir das pistas do texto e
de nosso conhecimento, podemos chegar à conclusão de que se trata de um aviso a possíveis
interessados em assaltar um carro forte (que outro carro que conhecemos é equipado com um cofre?)
e que, mesmo que o assalto viesse a acontecer, ainda assim seria inútil, porque não haveria como abrir
o cofre, porque a chave não estaria com o motorista.
Podemos até inferir que, talvez, um aviso como esse tenha sido pensado em função do número
elevado de assaltos a carros fortes, mas essa é uma outra questão que pode ser tratada a partir de
outras informações e propósitos. Nesse momento, é importante que você perceba as relações que nós
estabelecemos para inferir, além de percebermos que as atividades inferenciais nos são corriqueiras,
mas que podem também ser treinadas, e, para isso “[...] costumamos acrescentar ou eliminar;
generalizar ou reordenar; substituir ou extrapolar informações. Isto porque avaliamos, generalizamos,
comparamos, associamos, reconstruímos, particularizamos informações e assim por diante”
(MARCUSCHI, 2008, p. 280). Então, para inferir sentidos, será preciso mobilizar conhecimentos.
Para isso, a partir de dois conceitos fundamentais, os pressupostos e os subentendidos, vamos lançar
mão das informações escritas no texto e das informações não explícitas no texto. Vamos a eles?
Pressupostos
Pressupostos são ideias apresentadas no texto de forma implícita, as quais são recuperadas pelo
leitor por meio de marcas linguísticas. Isso significa dizer que algumas palavras ou expressões
presentes no texto vão lhe possibilitar recuperar e produzir sentido. Uma característica muito
importante do pressuposto é, exatamente, essa marcação explícita na materialidade do texto. Ou seja,
o pressuposto depende de uma marcação linguística do texto para acontecer e é a partir dessa
marcação que conseguimos chegar a conclusões. Vejamos como isso acontece, a partir do exemplo a
seguir:
“O relógio da praça parou de funcionar.”
Nessa frase, a informação explícita é que o relógio da praça não funciona. A partir do sentido
do verbo “parar”, temos a possibilidade de recuperar a informação implícita de que anteriormente o
relógio funcionava, então, de modo lógico, se o relógio parou de funcionar, é porque, em um momento
anterior, ele funcionava. Além disso, é possível fazer outras afirmações: há uma praça e nela há um
relógio. Podemos observar, a partir daí, que todos os elementos são importantes para a construção do
sentido, porque não são postos aleatoriamente, mas que, para chegar a determinadas conclusões,
precisamos identificar quais elementos nos permitem fazer afirmações sobre o que não está
explicitamente escrito no texto. É importante também dizer que os pressupostos devem ser
considerados verdadeiros pelos interlocutores, porque, se isso não ocorrer, não há como levar
qualquer debate adiante, porque o texto fica “sem sentido”.
Alguns termos funcionam como indicadores de pressupostos. Assim, Ilari e Geraldi (1988, p.
62) afirmam que:
É interessante ter em mente que as “expressões introdutórias de pressuposição” constituem
um leque bastante variado, em que se incluem não só advérbios (até, só, etc.), mas conjunções
(as conjunções concessivas e temporais na maioria de seus empregos) e um bom número de
verbos que regem subordinadas substantivas (esquecer que, adivinhar que, saber que,
conseguir que, etc.), mas ainda verdadeiras construções gramaticais: uma dessas construções
é a chamada “construção de realce”: é que.
Como você pode observar, existem marcas no texto para a pressuposição e identificá-las é
sempre um exercício a ser feito. A partir de Platão e Fiorin (1988), listamos, a seguir, os termos que
em geral servem de marcadores de pressupostos:
1) Adjetivos (ou palavras similares).
2) Verbos que indicam mudança ou permanência de estado (permanecer, continuar, tornar-
se, vir a ser, ficar, passar [a], deixar [de], começar [a], principiar [a], converter-se,
transformar-se, ganhar, perder).
3) verbos que indicam um ponto de vista sobre o fato expresso pelo seu complemento
(pretender, supor, alegar, presumir, imaginar).
4) Certos advérbios.
5) Orações adjetivas (observem se especificam a ideia, no caso das restritivas, ou se
generalizam, no caso das explicativas).
6) Certas conjunções (mas, no entanto, embora).
Agora que já sabemos como os pressupostos funcionam, vamos estudar os subentendidos?
Subentendidos
Ao contrário dos pressupostos, que aparecem marcados no texto, os subentendidos são
insinuações feitas pelo texto e consideradas a partir do que nós conhecemos da realidade. Podemos
dizer que o subentendido é uma ideia implícita recuperada a partir de dedução feita pelo leitor de
modo subjetivo. Subjetivo porque não existe pista linguística para isso.
A interpretação se dá a partir de seu conhecimento de mundo, de sua experiência. Vamos
analisar o seguinte caso: imagine se você recebesse em casa uma visita e ela fizesse a seguinte
afirmação:
“Que sede!”
Nesse caso, em “Que sede!”, não existe marcação explícita alguma de pedido de um líquido
para matar a sede, por exemplo. Mas, considerando que, de modo geral, quando estamos com sede,
tomamos água, você pode entender que a visita está insinuando que quer água, não é mesmo? Você
poderia interpretar que a visita poderia estar querendo suco e não água, por exemplo. Você poderia
ainda interpretar que a expressão “Que sede!” tenha sido um registro de protesto por, talvez, até aquele
momento, nada ter sido servido a ela, não pode?
Mas, nesse caso, não vamos trabalhar com essas duas hipóteses, porque precisamos considerar
as situações culturais e contextuais que temos: 1) culturalmente, no Brasil, quando estamos com sede,
o líquido que costumamos ingerir é água. É possível que algumas pessoas tomem outra bebida, mas
estamos falando da ideia que cria base para a situação, então água é o esperado; 2) por uma questão
de convenção social, não evidenciamos a indelicadeza do anfitrião, então não poderia ser um protesto,
não é isso? Essas duas possibilidades não são descartadas, mas, para que possam ser pensadas como
subentendido para essa situação, é preciso que tenhamos pistas do seu contexto. Observe que só temos
a informação do que a visita disse, mesmo que, nesse momento, você a tenha recebido e você saiba
de quem se trata, por exemplo.
A questão que se apresenta, a partir dessas possibilidades de interpretação, é a de que o
subentendido é sempre uma informação de responsabilidade do leitor (no caso do exemplo analisado
aqui, do ouvinte).
A visita pode se proteger na estrutura linguística e dizer apenas que estava constatando um fato:
que estava com sede. Por essa razão, ao fazer uso de pressuposição, é imprescindível que você busque
sempre os propósitos do texto, as observações, as conclusões com base em argumentos sólidos para
fazer afirmações.
Para fechar essa segunda parte de nossa aula, precisamos considerar que a interpretação se
constrói a partir da relação de nossas experiências com o que o texto apresenta. Para Bazerman (2006,
p. 45), “os leitores ativamente constroem significados na interseção das palavras de um texto com
suas experiências, conhecimentos e metas anteriores, organizados no esquema do leitor. É através de
nosso esquema que fazemos sentido do que lemos”. É importante que você pense nisso a partir de
agora e ponha em prática o que vimos até então!!
CONCLUSÃO
A leitura de texto acadêmico é uma atividade complexa que precisa ser aprendida juntamente
com a compreensão do fazer científico. Só a partir dessa clareza você poderá lançar um olhar com
propósito para as atividades corriqueiras a serem desenvolvidas nesse universo, desde o início do
curso. É importante explicitar que se trata de um percurso desafiador, mas perfeitamente possível. E
assegurar a qualidade na leitura é um passo definidor em sua trajetória acadêmica. Então, é importante
considerar que se trata de um processo; é importante ter clareza de que será necessário e possível
voltar todas as vezes que a dificuldade se apresentar.
É importante também estabelecer uma rotina de dedicação e trabalho, pois, na universidade, é
o trabalho que permeia as ações, e não a inspiração, então ler – compreender e interpretar – é uma
ação fundamental para construir conhecimento necessário às práticas a serem desenvolvidas.
ATIVIDADE
1. De acordo com a leitura, por meio do processo de compreensão, o texto acadêmico não é lido
de uma só vez, nem da mesma forma, mas a partir de fases. Liste quais são essas fases,
explicando como se dá cada uma delas.
2. O texto evidencia que, depois da compreensão, temos condições de interpretar o texto lido.
Esse processo de interpretação se dá a partir de relações feitas entre o que o texto apresenta e
o que conhecemos sobre a temática. Para possibilitar essas relações alguns aspectos são
fundamentais. Escreva que aspectos são esses, descrevendo como se dá cada um deles.
Observações:
1. escrever à mão e entregar na aula de segunda-feira, dia 28/04 (vale nota e presença da aula do sábado letivo
do dia 26/04);
2. o texto será discutido em sala de aula.