1.
Administração Pública: Do Modelo Racional-Legal ao Paradigma Pós-
Burocrático
A Administração Pública passou por transformações significativas ao longo da história.
Modelo Racional-Legal (Burocrático): Inspirado na teoria de Max Weber,
caracteriza-se pela hierarquia formal, regras e regulamentos escritos, divisão do
trabalho especializada, impessoalidade nas relações e seleção baseada na
competência técnica (meritocracia). O objetivo principal era a eficiência e a
previsibilidade.
o Exemplo: Um concurso público para ingresso em um cargo efetivo, com
regras claras de seleção e avaliação, reflete o princípio da meritocracia e
da impessoalidade do modelo burocrático.
Novo Gerencialismo (Administração Gerencial): Surge como crítica à rigidez
burocrática, buscando maior eficiência, flexibilidade e foco nos resultados. Adota
práticas do setor privado, como a gestão por objetivos, indicadores de
desempenho e a descentralização da tomada de decisões.
o Exemplo: A implementação de contratos de gestão com organizações
sociais (OSs) para a administração de hospitais públicos, com metas de
desempenho a serem alcançadas, ilustra a influência do modelo gerencial.
Paradigma Pós-Burocrático (Administração Pública
Consensual/Deliberativa): Vai além da eficiência, incorporando valores como a
participação cidadã, a transparência, a responsabilização (accountability) e a
busca por soluções consensuais para os problemas públicos. Enfatiza a
colaboração entre governo e sociedade.
o Exemplo: A criação de conselhos gestores de políticas públicas, com a
participação de representantes da sociedade civil na definição e
acompanhamento das ações governamentais, demonstra a aplicação dos
princípios pós-burocráticos.
2. Políticas Públicas: O Ciclo das Políticas Públicas
Políticas públicas são ações e programas governamentais planejados para resolver
problemas específicos da sociedade. Seu ciclo compreende diversas etapas
interconectadas:
Construção de Agenda (Identificação do Problema): Um problema social
emerge e ganha reconhecimento público e político, tornando-se passível de
intervenção governamental.
o Exemplo: O aumento da violência doméstica, impulsionado por
estatísticas alarmantes e pela mobilização de movimentos sociais, entra na
agenda política como um problema a ser enfrentado por políticas públicas.
Formulação da Política: Diferentes atores (governo, especialistas, sociedade
civil) propõem alternativas e soluções para o problema identificado.
o Exemplo: Para combater a violência doméstica, são formuladas políticas
como a criação de delegacias especializadas, a implementação de medidas
protetivas e o desenvolvimento de campanhas de conscientização.
Processo Decisório (Tomada de Decisão): As autoridades competentes
escolhem uma ou mais alternativas formuladas, definindo os objetivos, as
estratégias e os recursos a serem utilizados na política pública.
o Exemplo: O governo decide implementar a Lei Maria da Penha, que
estabelece mecanismos para prevenir e punir a violência doméstica, além
de oferecer proteção às vítimas.
Implementação: A política é colocada em prática pelos órgãos e agentes públicos
responsáveis, envolvendo a execução de programas, projetos e ações.
o Exemplo: A construção de casas-abrigo para mulheres vítimas de
violência, a capacitação de policiais para o atendimento especializado e a
divulgação dos canais de denúncia são ações de implementação da política
de combate à violência doméstica.
Avaliação: Os resultados e os impactos da política implementada são analisados
para verificar se os objetivos foram alcançados, identificar seus pontos fortes e
fracos e subsidiar o seu aprimoramento ou a sua extinção.
o Exemplo: A realização de pesquisas para medir a efetividade da Lei Maria
da Penha na redução da violência doméstica e no apoio às vítimas é uma
forma de avaliação da política.
3. Processos Participativos de Gestão Pública
A participação da sociedade na gestão pública fortalece a democracia, aumenta a
legitimidade das decisões e pode levar a políticas mais eficazes e alinhadas às
necessidades da população.
Conselhos de Gestão: Órgãos colegiados compostos por representantes do
governo e da sociedade civil, com o objetivo de deliberar, fiscalizar e propor
diretrizes para políticas públicas em áreas específicas (saúde, educação, meio
ambiente, etc.).
o Exemplo: O Conselho Nacional de Saúde (CNS), com a participação de
usuários, trabalhadores, gestores e prestadores de serviços, debate e define
as diretrizes para o Sistema Único de Saúde (SUS).
Orçamento Participativo: Processo em que a população decide diretamente
sobre a destinação de uma parte dos recursos públicos, geralmente em nível
municipal.
o Exemplo: A prefeitura de uma cidade convoca assembleias populares nos
bairros para que os moradores apresentem e votem em projetos prioritários
para a sua comunidade, como a construção de uma creche ou a
pavimentação de uma rua.
Parceria entre Governo e Sociedade: Iniciativas de colaboração entre órgãos
públicos e organizações da sociedade civil (OSCs) para a implementação de
projetos e programas de interesse público.
o Exemplo: Uma prefeitura firma um termo de parceria com uma OSC para
a gestão de um centro de atendimento a crianças e adolescentes em
situação de vulnerabilidade social.
4. Planejamento nas Organizações Públicas
O planejamento é essencial para a gestão eficiente e eficaz das organizações públicas,
permitindo definir objetivos, alocar recursos de forma estratégica e monitorar o
desempenho. O ciclo do planejamento geralmente envolve:
Análise do Ambiente (Interno e Externo): Avaliação dos pontos fortes e fracos
da organização (interno) e das oportunidades e ameaças presentes no contexto em
que ela atua (externo).
o Exemplo: Um hospital público analisa seus recursos humanos,
equipamentos e processos internos (análise interna) e avalia as demandas
da população, a atuação de outros hospitais e as políticas de saúde vigentes
(análise externa).
Definição dos Objetivos Estratégicos: Estabelecimento dos resultados que a
organização busca alcançar em um determinado período, alinhados com sua
missão e visão.
o Exemplo: Um objetivo estratégico de um hospital público pode ser
"Reduzir em 20% o tempo médio de espera por consultas especializadas
nos próximos dois anos".
Missão: Declaração do propósito fundamental da organização, o que ela faz e para
quem.
o Exemplo: A missão de uma universidade pública pode ser "Promover a
educação superior de qualidade, a pesquisa científica e a extensão,
contribuindo para o desenvolvimento social e econômico do país".
Visão: Descrição do estado futuro desejado para a organização, onde ela quer
chegar em longo prazo.
o Exemplo: A visão de futuro de uma agência reguladora pode ser "Ser
reconhecida como referência nacional em regulação setorial, garantindo a
qualidade dos serviços e a proteção dos usuários".
Valores: Princípios éticos e crenças que norteiam o comportamento e as decisões
da organização.
o Exemplo: Valores de uma prefeitura podem incluir "Transparência",
"Participação Cidadã", "Eficiência" e "Justiça Social".
5. Governo Eletrônico, Transparência, Controle Social e Accountability
A tecnologia da informação e comunicação (TIC) tem transformado a administração
pública, promovendo a transparência, facilitando o acesso aos serviços e fortalecendo o
controle social.
Governo Eletrônico: Uso da internet e de outras tecnologias digitais para
oferecer serviços públicos online, melhorar a comunicação com os cidadãos e
aumentar a eficiência da gestão.
o Exemplo: A disponibilização de serviços como a emissão de segunda via
de documentos, o agendamento de consultas médicas e a declaração de
impostos pela internet.
Transparência da Administração Pública: Divulgação clara e acessível de
informações sobre as atividades do governo, incluindo orçamentos, gastos,
contratos, indicadores de desempenho e processos decisórios.
o Exemplo: A publicação online dos gastos públicos em um portal da
transparência, permitindo que os cidadãos acompanhem como o dinheiro
dos impostos está sendo utilizado.
Controle Social e Cidadania: A participação ativa dos cidadãos no
acompanhamento e na fiscalização da gestão pública, utilizando mecanismos
como ouvidorias, conselhos, audiências públicas e acesso à informação.
o Exemplo: Um grupo de moradores de um bairro utiliza o portal da
transparência da prefeitura para monitorar a execução de obras públicas
em sua comunidade e cobra explicações sobre eventuais irregularidades.
Accountability (Responsabilização): Obrigação dos gestores públicos de prestar
contas de suas ações e de serem responsabilizados por suas decisões e pelo uso
dos recursos públicos. Envolve tanto a responsabilização legal (pelos órgãos de
controle) quanto a responsabilização política e social (perante a sociedade).
o Exemplo: A investigação e punição de um agente público que cometeu
um ato de corrupção demonstra o funcionamento dos mecanismos de
accountability.
6. Gestão de Pessoas por Competências
Abordagem que busca alinhar as habilidades, conhecimentos e atitudes dos servidores
públicos (competências) com os objetivos estratégicos da organização. Envolve a
identificação das competências essenciais para cada função, o desenvolvimento de
programas de capacitação e a avaliação do desempenho com base nessas competências.
* Exemplo: Um órgão público identifica que a "orientação para resultados" e a
"capacidade de trabalhar em equipe" são competências essenciais para os seus servidores.
Com base nisso, desenvolve treinamentos e avalia o desempenho dos funcionários
considerando essas competências.
7. Mudanças Institucionais
O setor público tem passado por diversas mudanças em suas estruturas e formas de
atuação, buscando maior eficiência e capacidade de resposta às demandas da sociedade.
Conselhos: Já mencionados como mecanismos de participação e controle social.
Organizações Sociais (OSs): Entidades privadas sem fins lucrativos que
celebram contratos de gestão com o poder público para a prestação de serviços de
interesse público (saúde, educação, cultura, etc.).
o Exemplo: Uma OS é contratada pelo estado para gerenciar um hospital
público, com autonomia administrativa e financeira, mas sujeita ao
cumprimento de metas e à fiscalização.
Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP): Qualificação
jurídica concedida a entidades privadas sem fins lucrativos que atuam em áreas
como assistência social, educação, saúde e meio ambiente, permitindo firmar
termos de parceria com o poder público.
o Exemplo: Uma OSCIP recebe recursos do município para desenvolver um
programa de alfabetização de jovens e adultos.
Agência Reguladora: Autarquia especial com autonomia administrativa,
financeira, funcional e decisória, responsável por regular e fiscalizar setores
específicos da economia (energia, telecomunicações, transportes, etc.).
o Exemplo: A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) regula o
setor de energia elétrica, definindo tarifas, fiscalizando a qualidade dos
serviços e resolvendo conflitos entre empresas e consumidores.
Agência Executiva: Autarquia ou fundação pública qualificada como agência
executiva por cumprir determinados requisitos de gestão e desempenho, buscando
maior autonomia e flexibilidade administrativa.
o Exemplo: Uma universidade federal que recebe a qualificação de agência
executiva pode ter maior autonomia para gerir seus recursos e contratar
professores.
Consórcios Públicos: Associações entre entes federativos (União, estados,
municípios) para a realização de objetivos de interesse comum, como a gestão de
serviços públicos ou a execução de projetos.
o Exemplo: Municípios vizinhos se unem em um consórcio público para
gerenciar o tratamento de resíduos sólidos de forma mais eficiente e
econômica.
8. Gestão por Resultados na Produção de Serviços Públicos
Modelo de gestão que busca orientar a atuação dos órgãos públicos para a entrega de
resultados efetivos para a sociedade, com foco na eficiência, na qualidade e na satisfação
dos usuários. Envolve a definição de metas claras, o monitoramento de indicadores de
desempenho e a avaliação dos resultados alcançados. * Exemplo: Uma secretaria de
segurança pública define como meta reduzir em 15% o índice de criminalidade em um
ano e acompanha mensalmente os dados estatísticos para verificar o progresso.
9. Governabilidade e Governança
Governabilidade: Capacidade do governo de implementar suas políticas e
decisões, relacionada à legitimidade, ao apoio político e à estabilidade
institucional.
Governança: Sistema de regras, práticas e processos pelos quais as organizações
públicas são dirigidas e controladas. Envolve a relação entre os diversos atores
(governo, sociedade civil, setor privado) e busca garantir a transparência, a
participação, a responsabilização e a efetividade na gestão pública.
o 9.1 Intermediação de Interesses: Formas como os interesses de
diferentes grupos são representados e considerados no processo de
formulação e implementação de políticas públicas.
Clientelismo: Troca de bens e serviços públicos por apoio político
individualizado, baseada em relações pessoais e particularistas.
Exemplo: Um político oferece um emprego público em
troca do voto de um eleitor e de sua família.
Corporativismo: Organização da sociedade em grupos de
interesse específicos (corporações), com reconhecimento formal
pelo Estado e participação na formulação de políticas setoriais.
Exemplo: O governo negocia políticas para o setor
industrial diretamente com as associações de indústrias.
Neocorporativismo: Similar ao corporativismo, mas com uma
participação mais informal e flexível dos grupos de interesse na
tomada de decisões governamentais.
Exemplo: O governo consulta informalmente
representantes de sindicatos e associações empresariais
durante a elaboração de uma reforma trabalhista.
o 9.2 Princípios de Governança Pública: Diretrizes que orientam a boa
gestão dos recursos públicos e a efetividade das políticas. Alguns
princípios importantes incluem:
Transparência: Acesso público às informações sobre a gestão.
Participação: Envolvimento dos stakeholders nas decisões.
Responsabilização (Accountability): Obrigação de prestar contas
e ser responsabilizado.
Eficácia: Alcance dos objetivos planejados.
Eficiência: Uso otimizado dos recursos.
Equidade: Tratamento justo e igualitário.
Estado de Direito: Respeito às leis e normas.
10. As Políticas Públicas no Estado Brasileiro Contemporâneo
O contexto brasileiro apresenta desafios e particularidades que influenciam a formulação
e a implementação de políticas públicas.
10.1 Descentralização e Democracia: A Constituição de 1988 promoveu a
descentralização política e administrativa, transferindo poder e recursos para
estados e municípios. A consolidação da democracia ampliou a participação social
e a necessidade de políticas mais sensíveis às demandas locais.
10.2 Participação, Atores Sociais e Controle Social: A atuação de diversos
atores sociais (movimentos sociais, ONGs, setor privado) e os mecanismos de
controle social (conselhos, ouvidorias, etc.) são importantes para influenciar a
agenda política e fiscalizar a ação governamental.
10.3 Gestão Local, Cidadania e Equidade Social: A gestão das políticas
públicas em nível local busca maior proximidade com os cidadãos e a promoção
da equidade social, considerando as diversidades e as desigualdades regionais.
10.4 Corrupção e Políticas Públicas: A corrupção representa um grande
obstáculo para a qualidade e a efetividade das políticas públicas, desviando
recursos, comprometendo a confiança na administração e gerando ineficiência.
Fatores como a falta de transparência, a fragilidade dos mecanismos de controle
e a impunidade podem influenciar a incidência da corrupção. Por outro lado, a
transparência, o fortalecimento dos órgãos de controle, a participação social e a
adoção de boas práticas de governança podem promover a qualidade das políticas
públicas.
11. O Ciclo do Planejamento em Organizações (PDCA)
O PDCA (Plan, Do, Check, Act) é um ciclo iterativo de quatro etapas utilizado para a
gestão e o controle de processos, buscando a melhoria contínua.
Plan (Planejar): Definir metas, processos e ações necessárias para alcançar os
resultados desejados.
Do (Fazer): Implementar o que foi planejado.
Check (Verificar): Monitorar e avaliar os resultados da implementação,
comparando-os com o que foi planejado.
Act (Agir): Tomar ações corretivas ou preventivas com base na análise dos
resultados, buscando aprimorar o processo.
12. Referencial Estratégico das Organizações
O referencial estratégico fornece a base para o planejamento e a tomada de decisões nas
organizações.
12.1 Análise de Ambiente Interno e Externo: Já abordado no ciclo do
planejamento (tópico 4).
12.2 Ferramentas de Análise de Ambiente:
o Análise SWOT (FOFA): Identifica os pontos Fortes e Fracos (interno) e
as Oportunidades e Ameaças (externo) da organização.
o Análise de Cenários: Elabora diferentes cenários futuros possíveis
(otimista, pessimista, provável) para antecipar desafios e oportunidades e
orientar o planejamento estratégico.
o Matriz GUT (Gravidade, Urgência, Tendência): Ferramenta para
priorizar problemas ou ações, avaliando a gravidade de suas
consequências, a urgência de sua resolução e a tendência de piora se não
forem tratados.