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Cognição Deficitária

O artigo explora a relevância da Neuropsicologia Cognitiva na formulação de modelos teóricos de processamento de informações na Psicologia Cognitiva, destacando como o estudo de déficits cognitivos em pacientes com lesões cerebrais pode iluminar o funcionamento cognitivo normal. Através da análise de investigações históricas e contemporâneas, o texto argumenta que a compreensão dos déficits cognitivos é crucial para o entendimento da cognição humana em geral. O autor conclui que a Neuropsicologia Cognitiva oferece insights valiosos que enriquecem a Psicologia Cognitiva e a pesquisa neuropsicológica.

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Moira Sampaio
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Cognição Deficitária

O artigo explora a relevância da Neuropsicologia Cognitiva na formulação de modelos teóricos de processamento de informações na Psicologia Cognitiva, destacando como o estudo de déficits cognitivos em pacientes com lesões cerebrais pode iluminar o funcionamento cognitivo normal. Através da análise de investigações históricas e contemporâneas, o texto argumenta que a compreensão dos déficits cognitivos é crucial para o entendimento da cognição humana em geral. O autor conclui que a Neuropsicologia Cognitiva oferece insights valiosos que enriquecem a Psicologia Cognitiva e a pesquisa neuropsicológica.

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Psicologia em Pesquisa | UFJF | 3(01) | 16-30 | janeiro-junho de 2009

Neuropsicologia Cognitiva e Psicologia Cognitiva: o que o estudo da cognição


deficitária pode nos dizer sobre o funcionamento cognitivo normal?

Cognitive Neuropsychology and Cognitive Psychology: What the study of impaired


cognition tells us about the normal cognitive function?
Simone Cagnin *

Resumo
O objetivo deste artigo é esboçar uma reflexão sobre a importância dos estudos da Neuropsicologia
Cognitiva para a construção de modelos teóricos de processamento da informação desenvolvidos no
âmbito da Psicologia Cognitiva. Através da seleção de estudos que apresentam padrões de déficits e
preservações cognitivas de pacientes com comprometimentos cerebrais, busca-se tecer considerações
sobre a contribuição destas investigações, não só para o entendimento da cognição deficitária, mas,
especialmente, para o entendimento do funcionamento cognitivo normal.

Palavras-chave: Neuropsicologia Cognitiva, Psicologia Cognitiva, relação cérebro-mente.

Abstract
This article aim to reflect about the importance of the studies of Cognitive Neuropsychology to the
construction of theorethical models of information processing in Cognitive Psychology. Through a
selection of a few studies that investigate patients with brain injuries that exhibit patterns of deficits and
cognitive preservations, we intent to think about the contribution of these studies to the comprehension of
those deficits and to the comprehension of normal cognitive functioning.

Key-Words: Cognitive Neuropsychology, Cognitive Psychology, relationship between the brain and the
mind.

________________________________
* Professora Adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Considerações iniciais Vallar (2004) e Caramazza e Coltheart


(2006), entre outros. No contexto
O principal objetivo deste artigo é o científico brasileiro, cabe destacar
de refletir sobre a importância da trabalhos como os de Vendrell (1998);
Neuropsicologia Cognitiva para estudo Kristensen, Almeida e Gomes (2001);
da cognição humana, pois a chamada Capovilla (2006) e Cosenza, Fuentes e
Neuropsicologia Cognitiva, fruto da Malloy-Diniz (2008), entre outros, que
ligação estreita entre a Neuropsicologia abordaram mais diretamente essa
e a Psicologia Cognitiva, vem se questão. De modo geral, tais estudos
tornando uma área cada vez mais destacam a importância da clínica e da
influente no contexto científico pesquisa neuropsicológicas para o
contemporâneo. Acreditamos, inclusive, entendimento da cognição humana
que o destaque das principais normal, ora focalizando a evolução
contribuições da Neuropsicologia histórica dos estudos neuropsicológicos
Cognitiva para o entendimento da (Vendrell, 1998; Kristensen, Almeida &
cognição humana conforma uma Gomes, 2001; Cosenza, Fuentes &
espécie de debate científico profícuo, Malloy-Diniz, 2008), ora destacando a
debate esse que observamos em estudos importância da avaliação
como os de Ellis e Young (1988), neuropsicológica neste contexto
Shallice (1988, 2004), Caplan (2004), (Capovilla, 2006), ou mesmo abordando

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Psicologia em Pesquisa | UFJF | 3(01) | 16-30 | janeiro-junho de 2009

de modo mais abrangente essas avaliados clinicamente e,


contribuições (Ellis & Young, 1988; posteriormente, necropsiados
Shallice, 1988, 2004; Caplan, 2004; cerebralmente post-mortem, inaugura,
Vallar, 2004; Ralph, 2004; Caramazza com seu método, a primeira tentativa de
& Coltheart, 2006). correlacionar déficits funcionais no
Inicialmente, apresentaremos um sistema cognitivo com áreas cerebrais
breve percurso histórico da restritas, especialmente com áreas
Neuropsicologia, destacando algumas motoras subjacentes à chamada "afasia
contribuições de investigações de Broca". Os trabalhos inaugurais de
desenvolvidas na área e, posteriormente, Broca e de outros neuroanatomistas da
teceremos uma reflexão sobre a época contribuíram, inclusive, para a
importância desses estudos para a proposição da existência de centros
Psicologia Cognitiva e para a funcionais hipotéticos, localizados em
construção de modelos teóricos de regiões específicas do cérebro,
processamento da informação. Por proposição essa também conhecida
último, algumas considerações finais como "localizacionismo estreito".
serão delineadas com o objetivo de Alguns modelos (ou diagramas)
concluir as argumentações apresentadas foram concebidos neste contexto,
ao longo do presente trabalho teórico. especialmente modelos de
"processamento" de linguagem, como
Breve evolução histórica dos estudos da aqueles propostos por Bastian (1869),
Neuropsicologia Wernicke (1874) e Lichtheim (1885),
sendo duas as suas principais hipóteses:
No curso da história da a primeira postulando a independência
Neuropsicologia, como observa Shallice da linguagem em relação a outros
(1988), podem ser identificados quatro processos cognitivos, e a segunda, por
grandes estágios dominados por quatro sua vez, postulando a idéia de que
escolas ou perspectivas teóricas funções cognitivas superiores, como a
distintas. A primeira delas, representada linguagem, eram "localizáveis" no
pelos chamados "construtores de cérebro. Por exemplo, Bastian, em
diagrama do século XIX", teve sua 1869, diferenciou desordens de leitura e
origem a partir dos trabalhos inaugurais de escrita de desordens da fala e, para
de Broca em 1871, na clínica fundamentar essa separação, propôs
neurológica, e dominou os primórdios diagramas anatômicos hipotéticos,
da Neuropsicologia entre os anos 1860- correlacionando centros funcionais
1905, aproximadamente. específicos e rotas de ligação entre esses
A partir da emergência do método centros com áreas cerebrais restritas.
anátomo-clínico, proposto inicialmente De modo complementar, Wernicke,
por Broca, uma primeira metodologia em 1874, isolou um tipo de distúrbio
verdadeiramente científica é introduzida chamado hoje de “afasia de Wernicke”
na área, em contraposição às e construiu um modelo em que o centro
especulações metodológicas dos motor da linguagem, correlacionado
frenologistas do século XIX, como Gall com o giro frontal inferior esquerdo
e seus seguidores, que não partiram de (área de Broca), e o centro sensorial,
uma base científica sólida, ou seja, não correlacionado com uma nova área
utilizaram um método verdadeiramente proposta por Wernicke (primeiro giro
científico em sua investigação sobre a temporal superior esquerdo) eram
relação cérebro-mente. conectados, no cérebro, pelo fascículo
Broca, através de inúmeros estudos arqueado. A chamada afasia de
de caso com pacientes afásicos condução foi proposta por Wernicke

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como consequência da desconexão entre diagrama, como aponta Shallice (1988),


esses dois centros da linguagem. partiam de uma descrição clínica
Uma década depois, Lichtheim frouxa, pouco rigorosa e insuficiente,
(1885), o maior dos construtores de dos déficits e preservações dos
diagrama da época, ousou propor um pacientes com lesão cerebral.
diagrama hipotético onde havia um Esses primeiros estudos,
"centro" não localizável em áreas desenvolvidos no século XIX e no
restritas do cérebro como, por exemplo, início do século XX, com ênfase em
o "centro de conceitos". E, apesar de estudos de caso único, também
ainda se preocupar em fazer correlações apresentaram problemas, do ponto de
estreitas com áreas cerebrais vista metodológico, na medida em que
específicas, influenciado pelo partiam de dados qualitativos e não
paradigma da época, Lichtheim parece quantitativos, o que dificultava uma
fazer um primeiro descolamento da estandardização dos resultados e,
questão do localizacionismo ao criar um consequentemente, uma comparação
modelo teórico não totalmente entre os pacientes.
dependente da correlação das funções Uma dupla inferência foi esboçada
cognitivas com o hardware cerebral. neste contexto. Primeiro, os
Cabe assinalar que uma das construtores de diagrama buscavam
principais contribuições dos inferir o funcionamento cognitivo
construtores de diagrama do século XIX normal, a partir dos déficits e das
foi a de que houve, em seus diagramas, preservações cognitivas apresentadas
não só o isolamento de um número de pelos pacientes. Segundo, buscavam
síndromes afásicas diferenciadas, como também inferir o locus da função, a
também a construção de um modelo partir do locus da lesão. Nessa direção,
teórico para explicá-las. Podemos duas fontes de dificuldades teórico-
observar, inclusive, que as principais metodológicas emergiram, tanto no que
síndromes afásicas, ainda hoje concerne à inferência da função normal
utilizadas como referencial mais amplo a partir da função deficitária, quanto no
na clínica neuropsicológica, foram que concerne à inferência da localização
esboçadas pelo modelo de Lichtheim no cerebral dessa função. E a não
século XIX. Por exemplo, a dissociação dessas duas questões
classificação de afasias do Hospital dos permitiu, inclusive, que fossem
Veteranos de Boston, privilegiada por denominados de "localizacionistas
Benson (1979) e Benson e Ardila estreitos".
(1996) na atualidade, teve como Entretanto, como apontaram Ellis e
inspiração o modelo de Lichtheim. Young (1988), os construtores de
Inclusive, a bateria de testes construída diagrama do século XIX têm sido
por este hospital e denominada resgatados em sua dimensão histórica e,
“BDAE” (Boston Diagnostic Aphasia inclusive, seus modelos têm servido de
Evaluation) tem sido um instrumento de inspiração para a construção de alguns
avaliação bastante utilizado, tanto na modelos computacionais da linguagem
clínica, quanto na pesquisa como o modelo de Morton (1984).
neuropsicológica. Cabe observar que, diante dos
Não obstante, apesar de ter modelos funcionais computacionais de
encontrado certo sucesso na tentativa da hoje, tais diagramas podem parecer um
construção de uma taxionomia pouco ingênuos, mas, para o contexto
neurológica para a época, com valor de da época, foram revolucionários em
localização do locus de síndromes suas pressuposições, pois uma
diferenciadas, estes construtores de concepção modular, ainda que

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Psicologia em Pesquisa | UFJF | 3(01) | 16-30 | janeiro-junho de 2009

embrionária, parece emergir nas contemporâneos. Especialmente a


concepções destes "construtores", escola antilocalizacionista, representada
concepção que, aliás, tem sido muito por expoentes como Jackson, Marie e
bem vista na Neuropsicologia Cognitiva outros, influenciada, por sua vez, por
contemporânea. uma perspectiva mais noética do
Uma das grandes contribuições de cérebro, opôs-se a esse isomorfismo.
Lichtheim foi a distinção metodológica Essa escola, que teve seu apogeu entre
entre o caso puro ou caso único, que as décadas de 1920 e 1940, foi
apresentava um único tipo de déficit e o influenciada pelas ideias gestaltistas que
caso misto, que apresentava múltiplos surgiram na psicologia e conformou
déficits cognitivos. Para Lichtheim, uma crítica acirrada aos
porém, somente o caso puro tinha localizacionistas estreitos, propondo,
interesse teórico, ou seja, contribuía por sua vez, concepções mais globais da
mais diretamente para a construção de arquitetura cerebral. Jackson, ainda nos
teorias, apesar de o caso misto ter uma meados do século XIX, foi uma das
incidência clínica bem mais comum. primeiras vozes a apontar os problemas
Hoje em dia, se por um lado, do localizacionismo estreito. A ideia de
Caramazza (1986); Sokol, McCloskey, complexidade e de níveis funcionais
Cohen e Aliminosa, (1991) concordam diferenciados no cérebro veio a se opor
com Lichtheim quanto à maior às correspondências termo a termo entre
relevância do estudo de caso único para funções psíquicas e áreas cerebrais
a construção teórica, por outro lado, estritas.
Robertson, Knight, Rafal, e Shimamura Hécaen e Albert (1978) destacaram
(1993) acreditam que o estudo de algumas contribuições da perspectiva
grupos de pacientes seria mais útil para antilocalizacionista, do ponto de vista
a construção teórica, pois, na concepção clínico, especialmente na compreensão
desses últimos autores, a modularidade dos déficits apresentados pelos
do sistema cognitivo seria mais bem pacientes em sua totalidade e não
estudada pela comparação entre grupos. apenas em um domínio do
Como assinala Shallice (1988), conhecimento. Nesse sentido, a visão de
entretanto, quando se está testando uma uma organização integrada da cognição
teoria, tanto o caso puro quanto o caso ajudou na compreensão de fatos clínicos
misto individual, e aí incluiríamos mais complexos e menos diferenciados.
também os estudos com grupos, seriam Para Jackson (1874), e depois Luria
importantes para a avaliação da (1981), a performance residual
capacidade explicativa desta teoria. Mas apresentada por um paciente, após lesão
na “produção” teórica, os casos puros cerebral, representava o funcionamento
são mais úteis por fornecerem um de uma nova reorganização funcional
quadro mais nítido de um determinado dos componentes preservados, ou seja,
déficit cognitivo. o surgimento de operações
Apesar de suas contribuições para a compensatórias refletindo novas
Neuropsicologia do final do século XIX estratégias cognitivas utilizadas pelo
e início do século XX, os construtores paciente. Há que se observar, entretanto,
de diagrama, na medida em que, por um que o surgimento de novas operações
lado, apregoavam um isomorfismo cognitivas não significa o surgimento de
rígido entre as funções cognitivas, fato novos módulos cognitivos, mas, sim, a
hoje questionado, e, por outro lado, reorganização, a partir de módulos
utilizavam inadequadamente conceitos intactos, de algumas atividades
tais como "centro", acabaram sofrendo cognitivas, como apontaram Ellis e
diferentes ataques, vindos de seus Young (1988).

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De modo complementar, as ideias a postulação teórica de uma unidade de


de Lashley (1929), especialmente sua "verificação, controle e programação"
ideia de equipotencialidade, das atividades cognitivas representada,
desenvolvida a partir de seus trabalhos cerebralmente, pelas regiões frontais
experimentais com animais, também anteriores. Posteriormente, Norman e
influenciou a escola antilocalizacionista Shallice (1980) e Shallice (1988)
e permitiu uma espécie de resgataram a importância de Luria,
"justificativa", do ponto de vista especialmente no que diz respeitos aos
cerebral, para as suas especulações seus estudos clínicos com os pacientes
teórico-clínicas. pré-frontais.
Não obstante, a perspectiva De modo diferenciado de Luria,
antilocalizacionista, com sua abordagem esses últimos autores, já influenciados
mais globalista do cérebro, acabou, de por uma perspectiva de modularidade
certo modo, inviabilizando o estudo da contemporânea, de modo inovador,
relação mente-cérebro de forma propuseram a idéia de que mesmo os
científica, sendo que, na concepção de sistemas centrais, como o Sistema de
alguns teóricos atuais como Ellis e Atenção Supervisor, podem ter graus de
Young (1988), esta escola acabou modularidade diferenciados. Na
representando um "retrocesso" no contramão de Fodor (1983), que propôs
percurso da história da Neuropsicologia. a hipótese da modularidade apenas para
Cabe ainda sinalizar, que ao longo sistemas periféricos, como a percepção
do século XIX e nas primeiras décadas e a linguagem, Shallice, influenciado
do século XX, a Neuropsicologia estava mais pela perspectiva de modularidade
estreitamente ligada à Neurologia da de Marr (1982), introduziu questões de
época e havia pouca comunicação com importância teórico-clínicas na
a Psicologia, a não ser em termos de Neuropsicologia contemporânea.
concepções teóricas mais gerais, pois o Há que se observar ainda que os
início de uma articulação mais estreita achados clínicos dos chamados
entre a Neuropsicologia e a Psicologia pacientes pré-frontais parecem estar
começa a surgir no período após a mais em consonância com uma
Segunda Guerra Mundial, com a diversidade de componentes (ou
utilização da metodologia experimental módulos) comprometidos de modo
na Neuropsicologia. Antes de diferenciado entre esses pacientes do
abordarmos esta “terceira escola" na que com um quadro clínico unitário.
Neuropsicologia, porém, vale destacar, Nesse ângulo, duplas dissociações
ainda que de modo sucinto, a funcionais entre pacientes pré-frontais
importância dos trabalhos de Luria para sugerem certo grau de modularidade na
a Neuropsicologia. organização dos próprios sistemas
Durante e após a Segunda Guerra, centrais, como supõem Norman e
neuropsicólogos como Luria (1981) Shallice (1980) e Shallice (1988).
apresentaram inúmeros relatos de casos Trabalhos atuais das Neurociências,
clínicos de pacientes com lesão como os de Damásio (1996a, 1996b),
cerebral, e, assim, o trabalho de Luria Moll e Oliveira-Souza (2007) e
foi importante, historicamente, não só Coricelli, Dolan e Sirigu (2007), entre
pela riqueza desses relatos clínicos, outros, também sugerem a correlação de
como também pela aproximação com a subsistemas cognitivos envolvidos nas
psicologia de Vygotsky (1984, 1987), funções executivas e no comportamento
seu conterrâneo. Uma das grandes moral com áreas cerebrais pré-frontais
contribuições de Luria foi o seu diferenciadas, o que parece reforçar a
trabalho com os pacientes pré-frontais e

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perspectiva semi-modular dos primeiros bastante pertinentes para o


autores citados. entendimento do papel de cada
As observações clínicas hemisfério cerebral, bem como da
influenciadas por um olhar neurológico, importância da comunicação inter-
não quantitativo, que vigoravam hemisférica para a compreensão da
anteriormente na Neuropsicologia, cognição humana. Cabe observar que
tornaram-se insuficientes para a estas últimas investigações têm também
especulação teórica e para a trazido contribuições, na
padronização de testes com maior contemporaneidade, ao utilizar
validação interna e externa. Nesse diferentes métodos e amostras
contexto, grandes baterias fixas de populacionais diversificadas que, por
testes começaram a ser produzidas, tais sua vez, possibilitaram uma
como a Halstead-Reitan e a de Luria- quantificação estandardizada de dados e
Nebraska, e os procedimentos uma comparação significativa dos
psicométricos se sofisticaram para dar resultados desses estudos.
conta da padronização de inúmeros A Psicologia Clínica também
testes produzidos. Os estudos de grupo contribuiu para os estudos na clínica
tornaram-se assim paradigmáticos com neuropsicológica, como sinalizaram
sua ênfase psicométrica na Heilman e Valenstein (1979). O uso de
quantificação de dados. A chamada alguns testes como a bateria WAIS, por
"terceira" escola na Neuropsicologia, exemplo, comum na clínica psicológica
como observa Shallice (1988), e também na Psicologia Experimental,
caracterizou-se assim por um começou a ser introduzido na
revestimento experimental e pela ênfase Neuropsicologia e, até hoje, essa bateria
nos estudos comparativos de grupo de de testes, atualmente submetida a
pacientes. revisões, ainda é bastante utilizada na
Inúmeros estudos foram feitos nesse área.
período, sendo os grupos organizados a Vale aqui fazer um breve parêntese
partir de critérios funcionais e/ou para destacar a fundamental importância
anatômicos. Estudos da década de 60 e da avaliação neuropsicológica, não só
70 na área de lateralização cerebral de para a reabilitação, mas especialmente
funções apontam nessa direção. para o entendimento dos mecanismos
Também estudos como os de Scoville e cognitivos envolvidos nos padrões de
Milner (1957/2000), Hecaén e Albert déficits e preservações cognitivas
(1978), Ellis e Young (1988), Mc apresentados por pacientes com
Carthy e Warrington (1990), entre comprometimentos cerebrais ou mesmo
inúmeros outros, que avaliavam por crianças com transtornos do
diferentes quadros clínicos tais como desenvolvimento. Como observa
acalculia, amnésia, agrafia, agnosia Capovilla (2006), a avaliação
visual e visuoespacial, etc. foram neuropsicológica é mais do que uma
produzidos nesse contexto e trouxeram mera classificação do indivíduo a um
inúmeras contribuições para o grupo de referência, pois tem
desenvolvimento da Neuropsicologia. implicação direta para a compreensão
De modo complementar, os estudos de dos processos cognitivos e de seus
Sperry (1984) com pacientes com o correlatos neurológicos.
corpo caloso seccionado, e estudos As contribuições de Teuber (1955),
unilaterais desenvolvidos na área de com seu princípio de dupla dissociação
lateralização cerebral de funções, com funcional, merecem ser destacadas
pacientes com lesão cerebral e com devido à importância desse tipo de
sujeitos normais, também foram dissociação não só para a clínica e para

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a avaliação neuropsicológicas, como poderiam ser diferenciados de déficits


também para a produção teórica. Aliás, que se originavam de
o princípio de dupla dissociação comprometimentos em áreas funcionais
funcional foi de enorme importância mais específicas, como alguns tipos de
metodológica na Neuropsicologia e cuja afasia originados por perdas neuronais
lógica Shallice (1988) considerava específicas.
análoga a das interações cruzadas na Outros estudos de caso
análise de variância. considerados clássicos, na década de
Inicialmente, como na acepção 1950, merecem menção como, por
inicial de Teuber, essas duplas exemplo, o estudo do paciente H.M.
dissociações funcionais estavam (Scoville & Milner, 1957/2000). Esse
correlacionadas com locus anatômicos caso, paradigmático nos estudos das
cerebrais específicos, e as dissociações amnésias, pois possuía uma lesão
eram assim consideradas como específica, de origem cirúrgica (lesões
evidências de uma topografia cerebral bilaterais no hipocampo), trouxe
diferenciada, correlacionada com uma grandes contribuições para o estudo da
dada função cognitiva. Entretanto, há memória, e até hoje é reverenciado na
uma série de problemas com esta literatura neuropsicológica e, inclusive,
"correspondência termo a termo" entre forneceu subsídios para a construção do
função-área cerebral, já que diferentes modelo de memória de múltiplos
arquiteturas funcionais mais ou menos armazenadores de Atkinson e Shiffrin
distribuídas poderiam produzir na década de 1960.
dissociações. Assim, na modernidade, a Uma grande mudança na
concepção de dupla dissociação Neuropsicologia começa a ocorrer,
funcional prescinde, muitas vezes, da todavia, já na década de 60 com a
variável anatômica inicialmente revolução cognitiva na psicologia. Uma
proposta por Teuber. quarta escola começa a se constituir,
Os estudos de Geschwind (1974) e a marcando uma diferença com a
sua proposta de "desconexão" entre perspectiva anterior. O paradigma do
áreas cerebrais merecem destaque, processamento da informação e a
porque, na sua concepção, muitos metáfora computacional, característicos
déficits cognitivos se originavam de da chamada revolução cognitiva,
uma "interrupção" nas vias de conexão emergem nesse contexto e a ligação
entre áreas cerebrais, como, por entre a Neuropsicologia e a Psicologia
exemplo, entre áreas funcionais da Cognitiva torna-se cada vez mais íntima
linguagem e áreas visuais. Embora, na e bidirecional, e o fruto dessa estreita
contemporaneidade, Geschwind já tenha ligação cria uma nova disciplina, a
sofrido algumas críticas quanto ao seu chamada Neuropsicologia Cognitiva.
modelo, podemos lembrar que muitos O paradigma do processamento da
déficits de acesso a informações informação tem a pressuposição de que
específicas como, por exemplo, a a mente é um processador de
determinadas categorias semânticas, capacidade limitada que requer um
poderiam ser, hipoteticamente falando, hardware cerebral que permita a
originados de uma desconexão total ou implementação de operações e
parcial entre áreas funcionais diferentes. atividades mentais que devem sofrer um
Estudos clássicos de pacientes com detalhamento teórico de seus processos.
anomia como, por exemplo, os de Sendo assim, um dos objetivos básicos
Lhermitte e Beauvois (1973) e de Kay e da pesquisa na Psicologia Cognitiva
Ellis (1987) parecem apontar nessa seria a identificação dos processos
direção. Sendo assim, tais déficits simbólicos e das representações mentais

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subjacentes ao desempenho individual justificariam o diálogo mais estreito


em diferentes tarefas cognitivas. entre a Neuropsicologia Cognitiva e a
Desse modo, uma das disciplinas Psicologia Cognitiva. O primeiro deles
que compõem as chamadas "Ciências remete ao fato de que, na medida em
Cognitivas", a Inteligência Artificial que as doenças neurológicas afetam
(I.A.), tem contribuído para a qualquer parte do cérebro, abrangem
formalização de modelos assim hipoteticamente todos os
computacionais e de softwares para a mecanismos cognitivos existentes, o
postulação de questões, às vezes, que nos permite estudar então, de modo
polêmicas, sobre a relação cérebro- diferenciado, os subsistemas cognitivos
mente. Os teóricos da chamada I.A. subjacentes a determinadas lesões. De
forte, como na acepção da Searle modo complementar, poderíamos
(1987), costumam reivindicar um também mapear, a partir de uma série
descolamento da mente do hardware de déficits cognitivos, os
cerebral, buscando a legitimidade de um subcomponentes da mente, sendo que
nível de análise separado para as cada déficit cognitivo diferenciado
representações mentais. Obviamente, os poderia ser visto como uma lesão
neurocientistas não concordam, em sua metafórica no sistema mental. Por
maioria, com tais reivindicações, pois último, um motivo pelo qual esse
isso poderia levar a uma inviabilidade diálogo é profícuo, refere-se aos
dos estudos da relação cérebro-mente. próprios limites do método
Mas, em contrapartida, como observa experimental utilizado pela Psicologia
Gardner (1995), as Neurociências, por Cognitiva no estudo da cognição
sua vez, costumam excluir o nível normal.
representacional de suas investigações, Os neuropsicológicos cognitivos
enfocando o cérebro de modo contemporâneos, em sua maioria,
prioritário. Já a Neuropsicologia inclusive consideram a Neuropsicologia
Cognitiva parece não se enquadrar Cognitiva como um tipo de método para
nessas dicotomias ou polaridades, o estudo da cognição normal, uma vez
pois, muitas vezes, trabalha com os que através das pesquisas
níveis representacionais e com o neuropsicológicas podemos fazer
hardware cerebral. inferências a respeito do funcionamento
A estreita ligação entre a normal do sistema cognitivo.
Neuropsicologia Cognitiva e a Objetivando estudar os padrões de
Psicologia Cognitiva que começa a desempenho cognitivo de pacientes com
surgir nas décadas de 1960 e 1970 e lesões cerebrais, através da
que, como vimos, conforma a chamada identificação dos déficits e preservações
quarta escola na Neuropsicologia, cognitivas desses pacientes, a
merece um destaque especial e será a Neuropsicologia Cognitiva tem
tônica da seção que propomos a seguir, produzido inúmeros estudos, hoje
pois as contribuições da enriquecidos por modelos da cognição
Neuropsicologia Cognitiva para o normal.
estudo da cognição humana tornam-se Um outro objetivo da
mais nítidas nesse contexto. Neuropsicologia Cognitiva ainda pode
ser identificado, como apontaram Ellis e
Neuropsicologia Cognitiva e o estudo Young (1988), que seria o de delinear
da cognição humana: breve reflexão conclusões sobre os processos
cognitivos normais a partir da análise
Como destacou Shallice (1988), dos padrões de déficits e preservações
teríamos alguns motivos que vistos em pacientes com lesão cerebral.

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Dessa forma, os achados das pesquisas de Memória de Trabalho de Baddeley e


neuropsicológicas contribuem para a Hitch (1974). Contudo, na atualidade, já
refutação ou confirmação de modelos houve revisões neste próprio modelo em
de cognição normal, produzidos na termos de novos componentes
Psicologia Cognitiva. diferenciados (Baddeley, 2000).
Muitas vezes, através de contra- Outros estudos podem ainda ser
exemplos, como na acepção de Popper citados devido a sua contribuição para o
(1978), os estudos neuropsicológicos entendimento dos subsistemas
contribuem para o avanço da psicologia envolvidos na linguagem, em especial,
cognitiva, na medida em que apontam na compreensão da linguagem escrita,
os limites explicativos de modelos como os estudos clássicos de Marshall e
teóricos vigentes. Exemplo dessa Newcombe (1973). As investigações
contribuição são os estudos de destes autores foram fundamentais no
Warrington e Shallice (1972), com o enfoque da dislexia, pois partiram dos
paciente K.F., os quais apontaram as modelos existentes sobre o desempenho
limitações do modelo de Atkinson e normal da leitura para a análise das
Shiffrin, modelo modal da memória na dislexias adquiridas. Além de
época, para explicar os achados da identificarem três tipos básicos de
clínica neuropsicológica. Nesse dislexias, visuais, superficiais e
paciente, havia uma dissociação entre os profundas, tais autores propuseram um
desempenhos nas tarefas de modelo de duas rotas para explicar os
memorização a curto-prazo e a longo- diferentes padrões de erros disléxicos
prazo, havendo um comprometimento encontrados. Na sua concepção, o
grave na M.C.P. e uma M.L.P. sistema semântico poderia ser acessado
relativamente intacta. E, de modo de modo direto, pelos processos visuais
diferenciado da maioria dos pacientes e ortográficos, ou de modo indireto pela
amnésicos como os com Síndrome de mediação fonológica. A existência de
Korsakoff ou mesmo o paciente H. M. e uma rota adicional que permitia à
outros, K. F. apresentava déficits na informação atingir o sistema semântico,
M.C.P. Assim, observa-se uma dupla sem mediação fonológica, foi uma
dissociação funcional entre tais proposta inovadora desses autores. Não
pacientes, remetendo à idéia de um obstante, hoje em dia, autores como
paralelismo ou independência nos Shallice (1988), Ellis e Young (1988),
sistemas de M.C.P. e M.L.P. e não a um Mac Carthy e Warrington (1990), e o
percurso serial necessário, como próprio Marshall (1989), consideram a
apontaram anteriormente Atkison e chamada "Síndrome de Dislexia
Shiffrin. Profunda", por exemplo, não como uma
O estudo do caso K. F. também síndrome pura, unitária, pois já se tem
contribuiu para a dissociação entre encontrado dissociações entre pacientes
déficits da M.C.P. não mais vista como com esta síndrome.
unitária, como apregoava o modelo Aliás, cabe observar que a
modal, pois foi identificado um abordagem sindrômica, bastante comum
componente audioverbal deficitário no século XIX e início do século XX,
dissociado de um componente visuo- não tem encontrado muitos adeptos na
espacial mais preservado. Foram Neuropsicologia Cognitiva
encontradas também duplas contemporânea, no âmbito da pesquisa.
dissociações funcionais entre o paciente A ênfase em estudos de casos, e nas
K.F. e outros pacientes com déficits no duplas dissociações funcionais
componente visuoespacial, o que deu interpacientes e intrapacientes, ou seja,
subsídios para a postulação do modelo na variabilidade dos déficits e na

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dissociação dos sintomas, impedem Bruce e Young (1986), o modelo


uma abordagem mais associativa em computacional da linguagem de Morton
síndromes gerais. Não obstante, na (1984), o modelo de processamento
clínica neuropsicológica envolvida em práxico de Rothi, Ochipa e Heilman
um percurso mais tradicional, a (1991), dentre inúmeros outros.
categorização por síndrome pode ser Inclusive, esses modelos da cognição
útil como referencial, bem como as normal que emergiram da interface
bases anatômicas subjacentes às entre a Neuropsicologia e a Psicologia
síndromes. Cognitiva, conformam a base teórica
Como já referido, preferencialmente, usada como referencial contemporâneo
através de estudos de caso único, uma para a avaliação dos achados na clínica
mudança metodológica trazida pela e na pesquisa neuropsicológica.
Neuropsicologia Cognitiva, inúmeros No que se refere ainda à
trabalhos têm sido relatados nas últimas modularidade, é importante sinalizar
décadas e muitos destes trabalhos que alguns subsistemas modulares, tais
comungam a idéia de modularidade do como a leitura e a escrita, não são vistos
sistema cognitivo, sendo que a assunção hoje como "inatos", mas emergindo ao
da modularidade é um ponto comum longo do desenvolvimento ontogenético
nas Ciências da Cognição, inclusive na a partir da aprendizagem. Autores
Psicologia Cognitiva. atuais, como Karmiloff-Smith (1993,
Há que se destacar que a concepção 2009), Temple (1997) e outros apontam
de modularidade utilizada na neste sentido, sinalizando para uma
Neuropsicologia Cognitiva é a modularização crescente em relação a
concepção de Marr (1982) e não a alguns domínios (como a linguagem) no
concepção de Fodor (1983), porque a percurso do desenvolvimento. De modo
perspectiva de Marr não incorpora análogo ao intenso diálogo existente
alguns dogmas fodorianos como o entre a Neuropsicologia Cognitiva e a
inatismo e o automatismo dos módulos Psicologia Cognitiva, o diálogo entre a
cognitivos, permitindo assim certa Psicologia do Desenvolvimento e a
flexibilidade na concepção desses Neuropsicologia Cognitiva do
módulos. A própria concepção de Desenvolvimento vem se estreitando
modularidade de Shallice (1988, 2004), nas últimas décadas, e os achados da
mais em consonância com Marr, Neuropsicologia infantil têm muito
postula, inclusive como já contribuído para o redimensionamento
mencionamos, uma modularidade em de questões no âmbito da Psicologia do
graus ou em cascata em sistemas Desenvolvimento Cognitivo. Como
centrais, como o Sistema de Atenção exemplo desse tipo de contribuição,
Supervisor. podemos observar que as perspectivas
A ideia de uma organização modular mais tradicionais de desenvolvimento
dos sistemas mentais, justificada por cognitivo, como as de Piaget, que
Marr em termos lógico-evolutivos, preconizam um desenvolvimento
influenciou toda uma produção teórica cognitivo de domínio geral, com
na Neuropsicologia Cognitiva e na mudanças paralelas em todos os
Psicologia Cognitiva que se expressou domínios em um mesmo estágio e um
na postulação de modelos percurso serial das aquisições
computacionais hipotéticos do cognitivas, vêm encontrando revisões
processamento da informação tais como em diferentes trabalhos atuais, como os
os do reconhecimento visual do objeto já citados estudos de Karmiloff-Smith e
baseado em Marr (1982), o modelo do Temple, entre outros.
reconhecimento visual de faces de

Cagnin, S. 25
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Por fim, podemos assinalar uma de correlações anátomo-funcionais mais


outra problemática que se destaca na precisas, pois, na sua concepção,
área e que se refere ao status atual da diferentes arquiteturas cognitivas
localização cerebral de funções, visto podem produzir dissociações e formas
que podemos observar em alguns de modularidade distintas.
estudos atuais uma priorização dos Por último, observamos que as
aspectos cognitivos propriamente ditos modernas técnicas de neuroimagem in
e uma não ênfase nas bases neurais vivo têm muito contribuído para o
envolvidas no desempenho cognitivo de desenvolvimento de inúmeros estudos
pacientes com lesão cerebral. Os com pacientes neurológicos e com
chamados neuropsicólogos sujeitos normais. Nesse contexto, há
ultracognitivos, como na acepção de que se observar que o refinamento
Shallice (1988), representariam esta tecnológico vem permitindo algumas
perspectiva mais radical na correlações anátomo-funcionais mais
Neuropsicologia Cognitiva, porque precisas. Não obstante, essas técnicas
prescindem da investigação das bases também têm suas limitações e, às vezes,
neurais das funções cognitivas para a são insensíveis na captação de quadros
compreensão dos déficits e preservações lesivos mais difusos ou com início mais
cognitivos de pacientes com lesão impreciso, como por exemplo, o início
cerebral. da doença de Alzheimer.
Como sugeriram Caramazza e Podemos concluir que a revolução
Mahon (2006), não se trata de renunciar tecnológica, tanto no que concerne a
ao objetivo de desenvolver uma teoria novas técnicas de neuroimagem e outras
das bases neurais subjacentes a técnicas eletrofisiológicas, quanto no
mecanismos cognitivos. Este objetivo, que concerne à revolução cognitiva com
entretanto, só virá ter sucesso, na seu paradigma informacional e ao uso
medida em que forem especificadas, do computador como metáfora e
teoricamente, as operações mentais instrumento na Psicologia Cognitiva e
envolvidas em diferentes tarefas na Neuropsicologia, de um modo geral,
cognitivas. Em outras palavras, só com vem redimensionando questões sobre a
o desenvolvimento de modelos teóricos relação mente-cérebro bem como vem
mais refinados, que permitam a apontando os próprios limites no uso
especificação dos componentes dessas tecnologias para o estudo dessa
cognitivos subjacentes a tarefas relação.
específicas, é que haveria a
possibilidade, hipotética, de uma Considerações finais
correlação desses componentes com o
seu locus cerebral. Inclusive, Mc Carthy Após destacarmos algumas
e Warrington (1990), Shallice (1988), importantes contribuições da
entre outros, concordam com Neuropsicologia Cognitiva para o
Caramazza e colaborador, no que a isto estudo da cognição normal, gostaríamos
diz respeito. Esses autores parecem de finalizar nossas considerações com
compor uma posição mais moderada e uma última reflexão, tendo como
conciliatória dentro da Neuropsicologia inspiração Caramazza e Coltheart
Cognitiva em contraposição a outros (2006). Se, por um lado os achados
como Ellis e Young (1988), por clínicos e experimentais da
exemplo, que se colocam em uma Neuropsicologia Cognitiva são muito
posição mais ultracognitivista. Não ricos para a construção e a refutação de
obstante, Shallice (1988) aponta as modelos teóricos construídos na
dificuldades envolvidas nas tentativas Psicologia Cognitiva e em áreas afins,

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por outro lado, esses mesmos dados


mostram-se limitados para as teorias Referências Bibliográficas
que abordam a organização funcional
do cérebro. Em outras palavras, do Baddeley, A. D. (2000) The episodic
ponto de vista da compreensão do buffer in working memory. Trends
funcionamento cognitivo humano, as in Cognitive Science, 4 (11), 417-
contribuições da Neuropsicologia 423.
Cognitiva são bem mais nítidas do que Baddeley, A.D. & Hitch, G.(1974)
para o entendimento da organização das Working memory. In: Bower, G.H.
funções cognitivas e de seus (ed.). The psychology of learning
subcomponentes no hardware cerebral. and motivation (pp. 47-89), v.8,
Nessa direção, o estudo da cognição London: Academic Press.
deficitária pode trazer subsídios para o Bastian, H.C. (1869) On the various
entendimento das operações e das forms of loss of speech in cerebral
representações mentais envolvidas no disease. British and Foreign
processamento da informação em Medical-Chirurgical Review, 43,
diferentes domínios, bem como pode 209- 236, 470-492.
contribuir para o entendimento dos Benson, D.F (1979) Aphasia. In:
subsistemas cognitivos que mediam Heilman, K.M. & Valenstein, E.
essas computações. (eds.) Clinical neuropsychology
Se, por um lado, as Neurociências e, (pp.3-21). New York: Oxford
neste contexto, a chamada Neurociência University Press.
Cognitiva, priorizam o estudo da Benson, D.F. & Ardila, A. (1996)
relação cérebro-mente com ênfase na Aphasia: A Clinical perspective.
organização dos subsistemas cerebrais New York: Oxford University Press.
envolvidos nas funções cognitivas, por Bruce, V. & Young, A.W. (1986)
outro lado, a Neuropsicologia Cognitiva Understanding face recognition.
prioriza a identificação dos British Journal of Psychology, 77,
componentes cognitivos deficitários 305-327.
e/ou preservados em indivíduos com Caplan, D. (2004) The neuro in
algum comprometimento cerebral, cognitive neuropsychology.
buscando cotejar esses padrões Cognitive neuropsychology, 21(1),
cognitivos com os modelos de cognição 17-20.
normal. E quando tais modelos Capovilla, A.G.S. (2007) Contribuições
mostram-se insuficientes para explicar da neuropsicologia cognitiva e da
os achados da clínica neuropsicológica, avaliação neuropsicológica à
surge a necessidade de refinamento e/ou compreensão do funcionamento
reformulação desses mesmos modelos. cognitivo humano. Cadernos de
Frente ao constante desafio de tentar Psicopedagogia, 6 (11), p.00-00.
explicar as dissociações funcionais http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.
encontradas na clínica neuropsicológica, Caramazza, A. (1986) On drawing
os modelos de cognição normal tornam- inferences about the structure of
se cada vez mais detalhados e precisos, normal cognitive systems from the
o que expressa o crescente avanço analysis of patterns of impaired
científico na área. Sendo assim, o performance: The case for single-
estreito diálogo entre a Neuropsicologia patient studies. Brain and
Cognitiva e a Psicologia Cognitiva Cognition, 5 (1), 41-66.
mostra-se de fundamental importância Caramazza, A. & Coltheart, M. (2006)
para a compreensão do funcionamento Cognitive Neuropsychology twenty
cognitivo humano.

Cagnin, S. 27
Psicologia em Pesquisa | UFJF | 3(01) | 16-30 | janeiro-junho de 2009

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