1
GESTAÇÃO POR SUBSTITUIÇÃO E OS DESAFIOS LEGAIS NO BRASIL
Natália Teodoro Evangelista1, Tainá da Silva Moreira2
1
Acadêmica do curso de Direito
2
Docente - Multivix Serra
1. INTRODUÇÃO
A gestação por substituição, comumente conhecida como “barriga de aluguel”,
refere-se ao acordo em que uma mulher aceita gestar uma criança em benefício de
terceiros, podendo ou não haver vínculo genético com o embrião. No Brasil, essa
prática é admitida exclusivamente de forma altruística, conforme disposto na
Resolução CFM nº 2.294/2021, que estabelece diretrizes éticas para as técnicas de
reprodução assistida. Apesar dessa normatização de cunho administrativo, a
inexistência de uma legislação específica ocasiona insegurança jurídica, sobretudo
no tocante ao reconhecimento da filiação e ao registro civil da criança, o que
frequentemente resulta em judicialização.
A doutrina jurídica tem refletido sobre os desafios que a reprodução assistida impõe
ao Direito de Família, especialmente quanto à definição de parentalidade e aos
limites da autonomia reprodutiva. Ressalta-se que a carência de uma norma legal
clara compromete a efetividade dos direitos fundamentais das partes envolvidas,
permitindo interpretações distintas pelos magistrados, muitas vezes influenciadas
por entendimentos pessoais sobre família e valores morais.
Essa lacuna normativa também afeta diretamente a uniformidade das decisões
judiciais, gerando imprevisibilidade e fragilidade nas relações jurídicas
estabelecidas. A previsibilidade, como um dos fundamentos da segurança jurídica,
torna-se essencial, principalmente diante de situações complexas, como a
possibilidade de arrependimento por parte da gestante ou a disputa quanto à
definição da filiação.
Diante desse cenário, torna-se necessária uma análise crítica do tema à luz dos
princípios constitucionais que orientam o Direito de Família contemporâneo, como a
dignidade da pessoa humana, o direito ao planejamento familiar e a proteção
integral da criança. A Constituição Federal reconhece a liberdade reprodutiva e a
legitimidade das novas formas de organização familiar, cabendo ao Estado o dever
de regulamentar as transformações decorrentes dos avanços científicos e sociais.
2
Outro aspecto relevante refere-se às implicações emocionais, sociais e psicológicas
envolvidas. A ausência de normas jurídicas claras pode deixar tanto a gestante
quanto os pais intencionais em situação de vulnerabilidade. A criança, por sua vez,
também pode ter seus direitos fundamentais comprometidos, sobretudo no que se
refere à identidade, filiação e proteção integral.
Por fim, deve-se considerar as implicações bioéticas da prática, incluindo questões
como o consentimento livre e informado, os riscos de instrumentalização do corpo
feminino e as pressões sociais e econômicas eventualmente presentes, ainda que
em um modelo supostamente altruísta. A ausência de um marco legal adequado
dificulta a fiscalização ética e favorece práticas abusivas, evidenciando a
necessidade de uma atuação legislativa que assegure os direitos fundamentais de
todos os envolvidos.
Nesse contexto, este trabalho propõe-se a investigar os principais entraves jurídicos
relacionados à gestação por substituição no ordenamento brasileiro, com base nos
princípios constitucionais e nos fundamentos da Bioética, visando contribuir para a
construção de um marco normativo que concilie os avanços científicos com a
proteção da dignidade humana.
1.1 JUSTIFICATIVA DO TEMA
Com os avanços nas técnicas de reprodução assistida e a pluralidade crescente dos
arranjos familiares, a gestação por substituição tem se consolidado como alternativa
viável para pessoas com dificuldades reprodutivas, casais homoafetivos e mulheres
impossibilitadas de gestar. Contudo, o ordenamento jurídico brasileiro ainda carece
de legislação específica que trate diretamente da matéria, limitando-se às diretrizes
estabelecidas pela Resolução CFM nº 2.294/2021, voltadas exclusivamente aos
profissionais da área médica.
Essa ausência legislativa gera impactos significativos, especialmente no que se
refere à proteção dos direitos fundamentais dos envolvidos, que acabam
submetidos a cenários de incerteza jurídica e disputas judiciais complexas. A
situação se agrava diante da crescente utilização de contratos de gestação firmados
no exterior, cuja validade e efeitos no território nacional ainda suscitam
controvérsias.
Além disso, a inexistência de normas legais claras dificulta a supervisão ética e
jurídica desses acordos, o que pode abrir espaço para práticas abusivas ou para a
mercantilização do corpo feminino, principalmente quando a gestante se encontra
em condição de vulnerabilidade econômica ou social. A existência de parâmetros
legais objetivos contribuiria para proteger todos os envolvidos, prevenindo abusos e
assegurando que a gestação por substituição ocorra dentro de limites compatíveis
com os valores constitucionais e os princípios da dignidade humana.
3
Nesse contexto, o aprofundamento do debate jurídico sobre a temática mostra-se
fundamental. A regulamentação adequada da prática é essencial não apenas para
acompanhar as transformações tecnológicas e sociais do século XXI, mas também
para garantir segurança jurídica, proteção à criança e respeito aos direitos
reprodutivos dos indivíduos.
1.2 DELIMITAÇÃO DO TEMA
Este estudo tem como foco principal a análise jurídica da gestação por substituição
no Brasil, com ênfase nos desafios decorrentes da inexistência de uma legislação
específica que regulamente essa prática. A abordagem concentra-se na avaliação
das limitações da Resolução CFM nº 2.294/2021, que atualmente orienta os
procedimentos no âmbito médico, mas não possui força normativa no campo do
Direito.
Importa destacar que a delimitação da pesquisa exclui aspectos clínicos e
biomédicos relacionados à técnica de gestação por substituição, restringindo-se à
perspectiva jurídica, ética e social da temática. A pesquisa não pretende esgotar o
debate, tampouco abranger detalhadamente as experiências internacionais, salvo
quando estas forem mencionadas de forma pontual e comparativa, com o objetivo
de enriquecer a análise nacional.
Além disso, modalidades de reprodução assistida que não envolvam a participação
de uma gestante substituta também não serão objeto de estudo. A intenção é
aprofundar a discussão sobre os limites e as possibilidades do Direito de Família e
da Bioética diante das novas configurações familiares, considerando os efeitos
jurídicos decorrentes da ausência de normatização específica no ordenamento
jurídico brasileiro.
1.3 PROBLEMA DA PESQUISA
A gestação por substituição, conhecida popularmente como “barriga de aluguel”,
tem se tornado uma prática cada vez mais frequente no cenário brasileiro,
especialmente diante das mudanças nos arranjos familiares e dos avanços nas
técnicas de reprodução assistida. Apesar disso, o país ainda não dispõe de uma
legislação específica que trate de maneira clara e abrangente dessa modalidade de
reprodução, o que resulta em significativa insegurança jurídica para as partes
envolvidas, particularmente os pais intencionais e a gestante substituta.
Embora exista a Resolução nº 2.294/2021 CFM, que estabelece normas éticas para
a prática médica da técnica, seu caráter meramente administrativo e seu alcance
restrito aos profissionais da saúde não conferem a segurança jurídica necessária
nas esferas do Direito Civil, do Direito de Família e do Direito Sucessório. Diversos
juristas apontam que a regulamentação por meio de ato normativo infralegal não é
4
suficiente para disciplinar todos os aspectos envolvidos na gestação por
substituição.
Nesse cenário, surgem inúmeras dúvidas jurídicas de ordem prática e teórica: quem
deve ser reconhecido legalmente como mãe ou pai da criança nascida por meio
dessa técnica? É possível registrar o recém-nascido diretamente em nome dos pais
intencionais? Quais são os limites éticos e jurídicos da autonomia das partes para
firmar esse tipo de acordo?
Diante disso, o problema que orienta a presente pesquisa pode ser assim
formulado:
Quais são os principais desafios jurídicos enfrentados por casais e gestantes que
recorrem à gestação por substituição no Brasil, considerando a ausência de
legislação específica e as limitações impostas pela regulamentação atualmente
vigente?
A investigação dessas questões busca compreender os efeitos jurídicos da omissão
legislativa, examinar como o Poder Judiciário tem suprido essa lacuna normativa e
avaliar os impactos dessa ausência de regulação na efetividade dos direitos
fundamentais dos envolvidos.
1.4 HIPÓTESE
A inexistência de uma legislação específica que regulamente a gestação por
substituição no Brasil contribui de forma significativa para a existência de lacunas
normativas, gerando insegurança jurídica tanto para os pais intencionais quanto
para as gestantes. Essa omissão do legislador faz com que o Poder Judiciário seja
constantemente chamado a decidir com base em princípios constitucionais e em
normativas infralegais, o que pode levar à prolação de decisões conflitantes, sem
uniformidade e com baixo grau de previsibilidade.
Parte-se da hipótese de que essa ausência normativa compromete a efetivação de
diversos direitos fundamentais previstos na Constituição Federal, como a dignidade
da pessoa humana (art. 1º, inciso III), o direito ao planejamento familiar (art. 226, §
7º) e a proteção integral da criança (art. 227). Acredita-se que a regulamentação
legal da gestação por substituição é medida indispensável para assegurar maior
segurança jurídica, proteger adequadamente os direitos da criança e equilibrar os
interesses da gestante e dos pais intencionais.
Além disso, presume-se que a ausência de regulamentação específica favorece a
judicialização excessiva dos casos envolvendo a gestação por substituição,
sobrecarregando o Poder Judiciário com demandas que poderiam ser solucionadas
previamente por meio de normas claras e objetivas. Essa lacuna normativa também
abre espaço para práticas irregulares, como a comercialização disfarçada da
5
gestação por substituição, o que afronta princípios éticos e jurídicos, além de expor
as partes envolvidas — especialmente a criança — a situações de vulnerabilidade e
insegurança quanto à sua filiação e aos seus direitos.
1.5 OBJETIVOS
1.5.1 Objetivo Geral
Investigar os principais obstáculos jurídicos relacionados à gestação por
substituição no Brasil, com ênfase na ausência de normatização legislativa, a fim de
evidenciar a necessidade de uma regulamentação que proporcione segurança
jurídica e proteja os direitos fundamentais dos sujeitos envolvidos nesse tipo de
relação.
1.5.2 Objetivos Específicos
● Conceituar a gestação por substituição, identificando suas modalidades e
características jurídicas.
● Examinar a regulamentação atual no Brasil, com foco na Resolução CFM nº
2.294/2021
● Estudar os princípios constitucionais aplicáveis ao tema, como a dignidade da
pessoa humana, o planejamento familiar e o melhor interesse da criança.
● Analisar decisões judiciais relevantes no contexto da gestação por
substituição, especialmente no que se refere à filiação e ao registro civil, o
melhor interesse da criança.
● Avaliar as propostas legislativas em tramitação e discutir possíveis caminhos
para uma regulamentação eficaz e protetiva.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
A gestação por substituição, também denominada de forma popular como “barriga
de aluguel”, constitui uma das mais relevantes inovações no campo da reprodução
assistida, desafiando diretamente os institutos clássicos do Direito Civil,
especialmente os ligados à filiação, à parentalidade e à dignidade da pessoa
humana. Trata-se de uma técnica em que uma mulher (gestante substituta) se
compromete a gestar um filho para outra pessoa ou casal, que serão reconhecidos
legal e afetivamente como os pais da criança após o nascimento.
Sob a perspectiva jurídica, a prática rompe com os conceitos tradicionais de
maternidade, uma vez que dissocia os elementos biológico, gestacional e legal que
historicamente eram compreendidos de maneira indissociável. Conforme observa
6
Diniz (2016), essa separação entre quem gesta e quem exerce a maternidade
jurídica representa uma verdadeira reconfiguração do conceito de família, exigindo
do Direito a superação de modelos normativos fixos e a abertura para novas
possibilidades de vínculos parentais.
Além das implicações jurídicas, a gestação por substituição levanta relevantes
questões bioéticas e sociais. O Conselho Federal de Medicina (CFM), por meio da
Resolução nº 2.294/2021, estabeleceu normas de caráter ético para o uso da
técnica no Brasil, permitindo-a somente na modalidade gestacional (quando o
embrião é formado com material genético de terceiros) e apenas em caráter
altruístico, ou seja, sem pagamento de qualquer compensação financeira à
gestante, excetuando-se os custos médicos e com a gestação.
Leite (2020) destaca a diferença entre a gestação tradicional — na qual a gestante
fornece o óvulo e, portanto, possui vínculo genético com a criança — e a
gestacional, que é a única admitida no ordenamento jurídico brasileiro. Essa
distinção não é meramente técnica, mas tem profundas consequências legais, pois
impacta diretamente no reconhecimento da maternidade e na definição dos vínculos
familiares.
A imposição de limites éticos e administrativos, como o parentesco obrigatório entre
a gestante e os contratantes, revela a tentativa de evitar a mercantilização do corpo
feminino. No entanto, como pontua Gama (2019), a ausência de remuneração,
embora fundada em preocupações éticas, pode resultar em injustiças sociais e
jurídicas, desconsiderando o esforço físico, psicológico e emocional da gestante,
além de favorecer a clandestinidade e acordos informais não regulados, que
colocam todas as partes em situação de vulnerabilidade.
Nesse cenário, a dignidade da pessoa humana, prevista no art. 1º, III, da
Constituição Federal, torna-se um princípio-chave para interpretar e aplicar o Direito
às novas demandas familiares. Como defende Dias (2021), a autonomia reprodutiva
deve ser respeitada, o que inclui o direito de recorrer à gestação por substituição
como meio de concretizar o projeto de parentalidade, desde que garantidas as
condições de segurança, respeito e proteção de todas as partes envolvidas —
inclusive da criança gerada.
O debate também exige uma abordagem interdisciplinar, envolvendo o Direito
Constitucional, o Direito de Família, a Bioética e os Direitos Humanos, dado que a
prática ultrapassa o campo técnico da medicina e adentra o espaço das relações
pessoais, afetivas e jurídicas. Como destaca Maria Helena Diniz (2023, p. 47), “a
reprodução assistida, especialmente a gestação por substituição, põe à prova os
conceitos tradicionais de filiação, exigindo uma releitura do Direito de Família à luz
da dignidade da pessoa humana e da pluralidade das estruturas familiares”. Isso
inclui o reconhecimento de novos modelos familiares, como casais homoafetivos e
7
pessoas solteiras que recorrem à técnica, reforçando a necessidade de o Estado
adequar suas normas à realidade contemporânea.
Além disso, é necessário destacar que a ausência de uma lei federal específica faz
com que o Poder Judiciário atue como protagonista na definição de casos
concretos, como se verifica em decisões do STJ, que têm reconhecido a
legitimidade dos pais intencionais para o registro civil da criança. No entanto, como
salienta Gomes (2021, p. 153), “a jurisprudência, embora avance em muitos
aspectos, não possui o condão de oferecer a estabilidade normativa necessária à
tutela das novas formas de parentalidade”. A atuação judicial, embora relevante,
não substitui a necessidade de uma legislação clara, estável e abrangente que
ofereça segurança jurídica às partes envolvidas e proteção integral à criança.
Diante disso, é possível afirmar que a gestação por substituição desafia o Direito a
se reinventar, sendo urgente uma regulamentação legislativa que concilie os
avanços da medicina com os princípios constitucionais e com a proteção das
relações jurídicas envolvidas no exercício do direito à parentalidade. Como aponta
Leite (2020, p. 209), “é imperativo que o ordenamento jurídico acompanhe a
evolução da medicina reprodutiva, assegurando direitos fundamentais e evitando
lacunas que comprometam a segurança jurídica das partes”.
2.2 Ausência de Legislação Específica no Brasil
No Brasil, não há uma legislação federal que regule expressamente a gestação por
substituição. A única norma existente é de caráter administrativo, prevista na
Resolução CFM n.º 2.294/2021, que estabelece critérios éticos para a realização da
técnica, limitando-a a situações de caráter altruístico, mediante autorização do
Conselho Regional de Medicina e desde que a gestante substituta seja parente
consanguínea da beneficiária, até o quarto grau. Embora represente um avanço no
campo médico, essa norma possui eficácia restrita, não tendo força de lei para
resolver os diversos conflitos jurídicos que surgem a partir dessa prática.
A ausência de um marco legal específico gera insegurança jurídica tanto para os
pais intencionais quanto para a gestante e para a criança gerada. Questões como a
definição da filiação, o direito ao registro civil imediato, a validade de contratos e
acordos pré-concebidos e a possibilidade de arrependimento da gestante não
encontram respaldo normativo claro, ficando à mercê da interpretação dos tribunais.
Como destaca Maria Berenice Dias (2022), essa lacuna legislativa faz com que
casos concretos sejam decididos com base em princípios constitucionais, como a
dignidade da pessoa humana e o melhor interesse da criança, o que, embora
necessário, gera decisões instáveis e contraditórias.
Além disso, a inexistência de legislação contribui para a desigualdade no tratamento
jurídico das famílias que recorrem à técnica, especialmente em casos de acordos
realizados de forma informal ou no exterior. A falta de uniformidade nas decisões
8
judiciais e a omissão do legislador colocam em risco os direitos fundamentais das
partes envolvidas, tornando urgente o debate sobre a criação de uma norma que
acompanhe os avanços biomédicos e proporcione segurança jurídica às novas
configurações familiares.
2.3 Princípios Constitucionais Envolvidos
A Constituição Federal de 1988 consagra diversos princípios fundamentais que se
relacionam diretamente com o tema. O princípio da dignidade da pessoa humana
(art. 1º, III) ampara o direito ao planejamento familiar (art. 226, §7º) e à liberdade de
constituir família.
Conforme Barroso (2018), o Estado deve promover condições jurídicas que
assegurem a liberdade reprodutiva e o respeito à diversidade familiar, o que implica
reconhecer e proteger juridicamente práticas como a gestação por substituição.
Outro princípio relevante é o da proteção integral da criança e do adolescente,
previsto no artigo 227 da Constituição Federal, que estabelece como prioridade
absoluta assegurar, com absoluta prioridade, os direitos à vida, à saúde, à
convivência familiar e ao desenvolvimento. Nesse contexto, qualquer arranjo jurídico
relacionado à gestação por substituição deve garantir que os interesses da criança
prevaleçam sobre os demais, evitando situações que possam comprometer seu
bem-estar, sua identidade e seus vínculos afetivos e jurídicos.
2.4 Jurisprudência Brasileira sobre Gestação por Substituição
Diante da omissão legislativa, o Poder Judiciário tem assumido protagonismo no
reconhecimento de direitos nos casos de gestação por substituição. O Superior
Tribunal de Justiça (STJ) já decidiu favoravelmente ao registro de filhos gerados por
barriga de aluguel, reconhecendo os pais intencionais como legítimos
representantes legais (REsp 1.712.163/SP).
Segundo Gomes (2021), a jurisprudência avança no sentido de garantir o melhor
interesse da criança, princípio previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA), como critério fundamental na resolução de conflitos sobre filiação.
2.5 Propostas Legislativas e Possíveis Caminhos Regulatórios
Existem projetos de lei tramitando no Congresso Nacional com o objetivo de regular
a gestação por substituição. O PL nº 1.600/2022, por exemplo, propõe critérios
claros para o procedimento, incluindo aspectos contratuais, responsabilidade
parental e proteção da gestante.
9
Para Diniz (2023), é urgente uma legislação que ofereça segurança jurídica e
respeite os direitos das partes envolvidas, com especial atenção à não
mercantilização da gestação e à autonomia da mulher.
3. METODOLOGIA
A presente pesquisa será conduzida sob uma abordagem científica qualitativa, de
caráter exploratório e descritivo, utilizando-se de métodos bibliográficos e
documentais para a coleta e análise dos dados. A metodologia adotada busca
compreender, sob a ótica jurídica, os desafios legais enfrentados nas práticas de
gestação por substituição no Brasil, diante da ausência de uma legislação específica
que regulamente essa técnica de reprodução assistida.
Serão abordados conteúdos oriundos das disciplinas de Direito Civil, especialmente
no que tange ao Direito de Família e aos direitos da personalidade; Direito
Constitucional, com foco nos princípios da dignidade da pessoa humana, igualdade,
planejamento familiar e proteção à família; e Direito Internacional Privado, no que se
refere à gestação por substituição em contextos transnacionais e seus reflexos no
ordenamento jurídico brasileiro.
3.1 Natureza da Pesquisa
A pesquisa possui natureza teórica, tendo como finalidade o aprofundamento teórico
e reflexivo sobre os fundamentos jurídicos e constitucionais que envolvem a
gestação por substituição. Não há, portanto, pretensão de aplicação imediata dos
resultados, mas sim de contribuir para o desenvolvimento do conhecimento
científico na área do Direito de Família e Bioética, conforme define Gil (2008).
3.2 Abordagem do Problema
A abordagem será qualitativa, pois se propõe a interpretar e compreender
fenômenos jurídicos e sociais complexos, que não podem ser quantificados, mas
sim analisados de forma descritiva e reflexiva. Conforme Creswell (2007), a
pesquisa qualitativa é adequada quando o objetivo é examinar percepções,
conceitos e normas jurídicas, especialmente diante de lacunas legislativas e
controvérsias doutrinárias e jurisprudenciais.
3.3 Objetivos da Pesquisa
Quanto aos objetivos, trata-se de uma pesquisa exploratória, por investigar um tema
ainda pouco regulamentado no ordenamento jurídico brasileiro, e descritiva, ao
buscar analisar decisões judiciais, normas éticas e propostas legislativas sobre o
tema. Segundo Lakatos e Marconi (2003), a pesquisa exploratória permite maior
familiaridade com um problema, enquanto a descritiva visa registrar, analisar e
correlacionar fenômenos de forma sistemática.
10
3.4 Procedimentos Metodológicos
Serão utilizados dois procedimentos técnicos principais:
● Pesquisa bibliográfica, baseada em livros, artigos científicos, dissertações,
teses e periódicos acadêmicos que tratem do tema da gestação por
substituição e seus reflexos jurídicos, éticos e sociais. As fontes serão
obtidas por meio de bases confiáveis como Scielo, Google Acadêmico,
BDTD. A fim de garantir a credibilidade e a qualidade das informações
coletadas. A escolha dessas plataformas se justifica pela relevância
acadêmica, pela ampla disponibilização de pesquisas atualizadas e pela
rigorosidade dos critérios de publicação. .
● Pesquisa documental, que compreenderá a análise de normativas jurídicas e
administrativas, como a Resolução CFM nº 2.294/2021, a Constituição
Federal de 1988, o Código Civil, o Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA), além de decisões judiciais relevantes, especialmente oriundas do
Superior Tribunal de Justiça (STJ).
3.5 População e/ou Amostra
A pesquisa não envolverá coleta de dados com seres humanos, sendo dispensada
a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa. O universo investigado será
composto por fontes documentais e doutrinárias, selecionadas de forma intencional
e não probabilística, conforme sua relevância e adequação ao tema. Assim, o
estudo se concentrará exclusivamente na análise de documentos jurídicos e
científicos já publicados.
3.6 Delimitação do Estudo
A pesquisa será delimitada ao ordenamento jurídico brasileiro, com ênfase na
análise normativa e jurisprudencial vigente até o ano de 2025. Não serão objeto de
estudo as práticas internacionais de gestação por substituição, salvo em caráter
comparativo pontual, quando necessário para ilustrar alternativas regulatórias ou
influências doutrinárias relevantes. Essa delimitação visa manter o foco na realidade
nacional e nas implicações jurídicas enfrentadas por casais e gestantes substitutas
no Brasil, considerando os parâmetros éticos e legais estabelecidos pelas
instituições brasileiras.
3.7 Limitações da Pesquisa
Entre as limitações encontradas neste estudo, destaca-se a escassez de legislação
específica sobre a gestação por substituição, o que dificulta a uniformização de
entendimentos e amplia a necessidade de interpretação doutrinária e
jurisprudencial. Além disso, a constante atualização das normas do Conselho
Federal de Medicina e a variabilidade das decisões judiciais podem gerar
11
instabilidade nos referenciais utilizados. Tais fatores exigem cautela na análise e
reforçam a importância de uma abordagem crítica e contextualizada dos dados
coletados.
4. CRONOGRAMA DE EXECUÇÃO DO PROJETO DE PESQUISA
Atividades março abril maio junho
Escolha do tema x
levantado x x
bibliográfico
Elaboração x
Construção x
metodologia
Análise documental x
Redação parcial x
Revisão x
Entrega final x
REFERÊNCIAS
BRASIL. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM n.º 2.294/2021. Dispõe
sobre as normas éticas para a utilização das técnicas de reprodução assistida.
Diário Oficial da União, Brasília, DF, 15 jun. 2021.
DIAS, Maria Berenice. Manual de direito das famílias. 13. ed. São Paulo: Revista
dos Tribunais, 2021.
DIAS, Maria Berenice. União homoafetiva: o preconceito e a justiça. 6. ed. São
Paulo: Revista dos Tribunais, 2022.
DINIZ, Maria Helena. Filiação e parentalidade na contemporaneidade: desafios da
reprodução assistida. Revista Brasileira de Direito das Famílias e Sucessões, São
Paulo, v. 30, p. 45–68, jan./mar. 2023.
GOMES, Orlando. Direito de família. 26. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2021.
BARROSO, Luís Roberto. Curso de direito constitucional contemporâneo: os
conceitos fundamentais e a construção do novo modelo. 9. ed. São Paulo: Saraiva
Educação, 2018.
12
DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro: direito de família. 25. ed. São
Paulo: Saraiva, 2016.
LEITE, Eduardo de Oliveira. Direito médico e da saúde. 2. ed. São Paulo: Saraiva,
2020.
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial n.° 1.712.163/SP. Relator:
Ministro Paulo de Tarso Sanseverino. Brasília, jul. 2019.
Direito civil: direito de família. 21. ed. São Paulo: Atlas, 2021.
O novo direito constitucional brasileiro: contribuições para a construção teórica e
prática da jurisdição constitucional no Brasil. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2020.
GAMA, Guilherme Assis de Almeida. Reprodução assistida e desafios éticos e
jurídicos. Revista Bioética, Brasília, v. 27, n. 2, p. 344-359, 2019.