REVISTA FLORESTAN - UFSCar, n.
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LORDE, Audre. Irmã outsider: ensaios e conferências. Belo Horizonte:
Autêntica, 2020.
Caroline Serôdio1
Audre Lorde tinha dificuldade com a prosa na sua juventude. Isto ela relata na
entrevista presente no livro, em que a autora – negra, feminista, mãe, lésbica, professora,
pensadora – afirma que, ao longo de sua formação educacional, percebeu que seu processo de
raciocínio era diferente do de seus colegas. Ela não se expressava ou se compreendia através
de textos corridos, mas sim por poemas. E, dessa forma, se fez poeta. Foi apenas após ser
convidada a dar aulas de Inglês para um programa de escrita que Lorde passou a estudar e
treinar a gramática e a estrutura textual de prosa. Portanto, seus trabalhos, compilados em
Irmã outsider, detêm algumas características que perpassam por sua escrita poética: sensíveis,
às vezes líricos e, sobretudo, assertivos.
Além de ensaios sobre os mais variados assuntos, a obra conta com transcrições de
discursos de eventos e apresentações em congressos, relatos de diários, a entrevista
mencionada, uma carta aberta e alguns artigos. Apesar da alternância das modalidades de
texto, há uma continuidade em sua obra – seja pela linguagem que utiliza, fluida e acessível,
seja pelos temas que são levantados, reforçados e questionados sob diferentes perspectivas.
Lorde discorre a respeito do silêncio, da fala, da sexualidade, do erótico, da maternidade, do
machismo, do racismo, dos machismos no movimento negro e dos racismos no feminismo
branco, da homofobia e da lesbofobia, da homofobia, do feminismo racista, do papel
transgressor do emocional nas lutas políticas e da diferença entre pessoas como motor
criativo.
O registro de diário que inicia o livro, “Apontamentos de uma viagem à Rússia”, traz
uma descrição abrangente de lugares, de paisagens e de prédios da Rússia e do Uzbequistão
da União Soviética. Aqui, com uma proeminência lírica, Audre Lorde envolve a leitora em
uma narrativa que a aproxima daquilo que sentia e experienciava em sua viagem. Há um
reconhecimento pela oposição entre costumes e condutas, e comparações diretas a Nova York
e outros referenciais de experiências vividas pela autora, como Gana e Benin. Com um
enfoque nas trocas afetuosas com duas mulheres que não falavam inglês, contando com a
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Mestranda em Sociologia e Antropologia (PPGSA/UFRJ), com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento
Pessoal de Nível Superior (Capes), e graduada em Ciências Sociais (UFRJ). É pesquisadora do Núcleo de
Estudos de Gênero e Sexualidade (NESEG/UFRJ) e do Laboratório de Estudos Digitais (LED/UFRJ). E-mail:
[email protected].
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intermediação de uma intérprete, Lorde nos instiga a pensar em como seus corações estariam
falando a mesma língua, se conectando por algum aspecto comum de suas identidades, por
terem filhos ou por serem minorias raciais.
Em “A poesia não é um luxo”, um de seus mais conhecidos textos, a poeta toma a cena
para assegurar que a poesia, para as mulheres negras, é mais do que uma produção, mais do
que apenas palavras cuidadosamente selecionadas. É “uma necessidade vital da nossa
existência” (LORDE, 2020, p. 47), parte do processo de compreensão de si, nos mais
variados, complexos e contraditórios sentidos. Ela dá luz ao incerto, ao obscurecido e ao caos,
àquilo que ainda está sendo assimilado em nosso âmago. Em cada linha deste curto ensaio,
Lorde reforça o poder transformador do emocional/sentimental, trazendo à tona a insurgência
e o desejo por mudança.
Dessa maneira, se a utilização de palavras é necessária para efetivar atitudes, não é
surpresa que, para Lorde, de nada vale o silêncio. “A transformação do silêncio em linguagem
e em ação” é como um manifesto para todas aquelas que já se calaram pelo medo das
consequências e, assim, violentaram a si próprias. A favor do posicionamento como concreto
mecanismo de ação, a autora reitera: “Meus silêncios não me protegeram. Seu silêncio não vai
proteger você” (LORDE, 2020, p. 52). Expondo o texto para um painel de literatura e
lesbianidade, afirma que é por meio da fala e da escuta que se pode reconhecer aquilo que nos
aproxima e o que nos afasta.
E nos lugares em que as palavras das mulheres clamam para ser ouvidas, cada uma
de nós devemos reconhecer a nossa responsabilidade de buscar essas palavras, de
lê-las, de compartilhá-las e de analisar a pertinência delas na nossa vida. (LORDE,
2020, p. 55).
“Para começo de conversa: alguns apontamentos sobre as barreiras entre as mulheres e
o amor” aborda a dificuldade estruturada pelo racismo, o machismo e a heteronormatividade
para mulheres negras reconhecerem-se umas nas outras como companheiras de uma mesma
causa (LORDE, 2020, p. 66). A união por afinidades em vez de uma separação pelos aspectos
que se distinguem é um ponto que Audre Lorde reitera em Irmã outsider em diferentes
momentos. Ela afirma, ainda, que esses aspectos diferenciadores – gênero, sexualidade, classe
– não podem ser ignorados, também se devendo compreender como atravessam os indivíduos.
E, a fim de um avanço na luta contra o racismo estrutural, esse posicionamento é entendido
como primordial pela autora, tanto para homens negros quanto para mulheres negras.
Artigo citado com frequência, “Usos do erótico: o erótico como poder” amplia o
debate do que deve ser entendido por “erótico”. Não diz respeito apenas ao sexo, muito menos
à pornografia – que Lorde repudia –, mas sim àquilo de mais profundo e visceral do corpo da
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mulher, invalidado pelo patriarcado branco. Lorde defende o erótico como mecanismo de
retomada de empoderamento feminino, como ferramenta para o entendimento de si, de seus
prazeres e vontades, a fim de não se contentar com o mínimo. Olhar para o erótico é sentir em
sua completude, é ser preenchida por satisfação e validar o emocional como estruturante de
nossas vidas. Pensar no erótico é, para a autora, ser honesta consigo mesma.
Os dois escritos que se seguem no livro, “Machismo: uma doença americana de
blackface” e “Carta aberta a Mary Daly”, são respostas críticas e diretas de Lorde a produções
de dois acadêmicos, respectivamente Robert Staples e Mary Daly. No primeiro, questiona o
posicionamento de Staples de culpabilizar as mulheres negras pela masculinidade negra estar
supostamente ameaçada, como é defendido no artigo escrito pelo sociólogo negro, “The myth
of black macho: a response to angry black feminists”. Lorde aponta, ainda, como mulheres
pretas, historicamente, são as que cuidam dos brancos e dos homens e familiares negros, mas
pouco cuidam de si mesmas e de suas pares (LORDE, 2020, p. 78). Entretanto, são estas
mulheres negras que são acuadas e criticadas pelos seus afetos – em certos casos,
custando-lhe suas vidas. É necessário, afirma, que seja discutida dentro das comunidades
negras a opressão masculina e a desvalorização direcionada às mulheres pretas, já que “uma
opressão não justifica a outra” (LORDE, 2020, p. 80).
“Carta aberta a Mary Daly”, por sua vez, é uma divulgação de Lorde de uma carta que
escreveu, em 1979, para Mary Daly – filósofa branca e feminista radical –, após quatro meses
sem qualquer resposta. A correspondência surgiu de discordâncias que tinha com o livro
recém-publicado por Daly, “Gyn/Ecology: the metaethics of radical feminism”, questionando
a autora sobre a ausência de referências de deusas de religiões de matriz africana e do
conhecimento de autoras não-europeias na argumentação do livro, juntamente com uma
universalização do conceito de opressão patriarcal. Critica também a utilização dada por Daly
dos trabalhos de estudiosas negras – incluindo a si própria –, por meio de citações
convenientes para seu ponto de vista e apagamento da obra dessas estudiosas para uma
ecologia feminista.
Mary, peço que esteja ciente de como isso serve às forças destrutivas do racismo e
da desunião entre as mulheres – o pressuposto de que somente a história e a
mitologia das mulheres brancas são legítimas e de que é a elas que todas as mulheres
devem recorrer em busca de poder e de suas origens, e que as mulheres não-brancas
e nossas histórias só são dignas de nota como ornamento ou como exemplo de
vitimização feminina. (LORDE, 2020, p. 88).
Audre Lorde escreve “O filho homem: reflexões de uma lésbica negra e feminista”
com o propósito de compartilhar e transmitir, ainda que com suas limitações, com outras mães
lésbicas e mulheres suas observações sobre a maternidade, especialmente a criação de seu
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filho, Jonathan (LORDE, 2020, p. 91). O filho cresceu devendo se encontrar em sua
masculinidade a partir do referencial familiar predominantemente feminino, com mães
lésbicas e uma irmã. Acima de tudo, as reflexões de Lorde se voltam para os princípios que
tenta transmitir ao filho a respeito de seu papel como homem negro na sociedade. A autora
demonstra que o papel da mãe é garantir a sobrevivência da criança, bem como dar seu amor,
mas garantindo que se torne um adulto desprendido e emocionalmente independente
(LORDE, 2020, p. 93). Para a autora, a vulnerabilidade e o sentir podem ser força.
Em “Uma entrevista: Audre Lorde e Adrienne Rich”, Lorde conta sua trajetória como
estudante, professora, escritora e lésbica – suas dificuldades, suas oportunidades, seus anseios.
Constata que a escrita, sobretudo para autores negros, é uma maneira de sobreviver, não
apenas como construção do entendimento de si, mas também como potencial alicerce para
uma reconstrução da própria identidade. Na entrevista, também fala a respeito das
controvérsias que surgiram após a publicação de alguns de seus textos.
Fala crítica a seu convite para uma mesa-redonda em uma conferência, “As
ferramentas do senhor nunca derrubarão a casa-grande” denuncia os limites da voz de
mulheres pobres, negras e do Sul global dentro do cenário acadêmico, que abre margem para
suas presenças, mas apenas no espaço delimitado a elas. Seu discurso pontua a hipocrisia e
escolha consciente das feministas acadêmicas brancas em invisibilizarem as perspectivas
destas mulheres sobre os mais variados temas que concernem o movimento feminista, para
além do debate de racismo estrutural. Indaga: “Qual a teoria por trás do feminismo racista?”
(LORDE, 2020, p. 138). Assim, Lorde defende o reconhecimento e valorização da diferença
com o propósito de incitar a troca e a criatividade.
Tema já expresso em seus outros trabalhos, o artigo “Idade, raça, classe e sexo: as
mulheres redefinem a diferença” coloca em foco o entendimento da autora de que é a partir da
diferença e da recusa do lugar-comum de aversão a ela que se é possível engajar na luta para
mudanças sociais, políticas e econômicas. Audre Lorde nos alerta para o reconhecimento das
posições opressoras que possuímos e da necessidade de nos responsabilizarmos por nossas
ações e palavras, buscando por nossa própria conta aquilo que deve ser melhorado, aprendido
e modificado em nós.
Em outras palavras, é responsabilidade do oprimido educar os opressores sobre seus
erros. Eu sou responsável por educar os professores que ignoram a cultura dos meus
filhos na escola. Espera-se que os negros e as pessoas do Terceiro Mundo eduquem
as pessoas brancas quanto à nossa humanidade. Espera-se que as mulheres eduquem
os homens. Espera-se que lésbicas e gays eduquem o mundo heterossexual. Os
opressores mantêm suas posição e se esquivam da responsabilidades pelos seus atos.
Há um constante dispêndio de energia, que poderia ser mais bem empregada numa
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redefinição de nós mesmos e na elaboração de roteiros realistas para alterar o
presente e construir o futuro. (LORDE, 2020, p. 142).
Além disso, Lorde ressalta a importância de se ler e estudar pensadoras negras,
quebrando com padrões branco-eurocentrados da produção de conhecimento. Deve-se pensar
na visibilização de perspectivas que não deveriam estar no lugar de outras, e sim de inclusas,
como também no fato de que essas perspectivas partem de um lugar de dor silenciada, uma
violência perpetuada pelo apagamento de suas histórias e da negação do reconhecimento
como “pessoas inteiras” (LORDE, 2020, p. 146). Mais do que isso, considerando a maneira
com a qual diferenças podem ser utilizadas para o afastamento, escreve sobre a lesbianidade e
o auto-ódio entre mulheres negras (LORDE, 2020, p. 150). A respeito disso, Lorde retoma
alguns pontos já abordados em “Para começo de conversa: alguns apontamentos sobre as
barreiras entre as mulheres e o amor” e reitera o potencial destrutivo que uma concepção
heteropatriarcal, de competição por homens e submissão, pode ter no distanciamento de
mulheres pretas.
Se sentir é vital para efetuar qualquer mudança, a função da raiva é o operador central
em “Os usos da raiva: as mulheres reagem ao racismo”. Nessa apresentação, Lorde argumenta
que a raiva ao racismo, à injustiça e ao silêncio pode e deve ser utilizada para transformações
no âmbito social, seja na interlocução com mulheres feministas – brancas e negras –, seja na
assimilação mútua daquilo que afeta e do que se pode gerar disto. Desse modo, a autora
recusa a “culpa”, especificamente a culpa branca, como instrumento, uma vez que parte de um
lugar de dita impotência, ou a perpetuação consciente de um sistema opressivo. Afirma,
portanto, que “[q]uando damos as costas à raiva, damos as contas também ao aprendizado,
declarando que vamos aceitar apenas os modelos já conhecidos, fatal e seguramente
familiares” (LORDE, 2020, p. 164).
As figuras de Malcom X e Martin Luther King Jr. e os movimentos Black Power e a
favor dos direitos civis foram marcantes para a década de 1960 nos Estados Unidos.
“Aprendendo com os anos 1960” relembra as efervescências da década para a luta negra,
pensando em suas contribuições, mas também em seus erros. Lorde analisa que há um legado
dos anos 1960 para a consciência negra estadunidense, uma energia que moveu o país e a
comunidade negra. Essa mesma energia, contudo, também foi utilizada para distanciamentos
internos por discordâncias, e a autora ressalta o aprendizado com base nos que vieram antes
para redistribuir a potência de vozes para aquilo que lhe é comum: a sobrevivência ao ódio do
sistema patriarcal racista. Conscientes do legado de seus precedentes e compreendendo o
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papel de cada um na luta de múltiplas opressões, constroem-se pontes e caminhos para um
futuro.
A sensibilidade e fluência poética de Audre Lorde se mostram mais evidentes em
“Olho no olho: mulheres negras, ódio e raiva”. Alternando entre relatos pessoais, fluxos de
consciência, poesias, cartas e questionamentos sem respostas, a autora utiliza as palavras para
tentar dar conta do incômodo mais profundo em si própria e em suas pares: a desconfiança,
frustração e raiva de mulheres negras com mulheres negras. Marcada pelo racismo
internalizado, pela figura da mãe e pelo espelho de si que há em cada mulher negra, Audre
nos submerge em seu sentir e ser.
Não amamos a nós mesmas, por isso não podemos amar uma à outra. Porque vemos
no rosto da outra o nosso próprio rosto, o rosto que nunca deixamos de querer.
Porque sobrevivemos, e sobreviver gera o desejo por mais de si. Um rosto que nunca
deixamos de querer, ao mesmo tempo que tentamos destruir. (LORDE, 2020, p.
195).
O último ensaio do livro, “Granada revisitada: um relato provisório”, é, como o
primeiro, um relato de viagem, porém, dessa vez, para o país natal de sua mãe. Audre faz a
viagem após a invasão estadunidense à ilha caribenha e descreve a situação de Granada antes,
durante e depois da invasão, fortalecendo sua utilização da palavra américa apenas com letra
minúscula (LORDE, 2020, p. 53). Com seus propósitos armamentistas, econômicos,
imperialistas e racistas, não há razões para consolidar uma américa com “a” maiúsculo, que
mascara sua violência ecoando “liberdade”.
Após a leitura de Irmã outsider, fica explícita a potência transformadora da obra de
Audre Lorde para além da época em que escrevia. Seus incômodos em “Carta aberta a Mary
Daly” e “As ferramentas do senhor nunca derrubarão a casa-grande” atravessam a barreira
temporal e espacial, do contexto estadunidense, e nos fazem refletir junto a ela: onde estão as
autoras indígenas, pretas e latino-americanas nas ementas das disciplinas de nossas
universidades? Serviriam elas apenas para ornamentar uma argumentação, sendo citadas
brevemente para que a comunidade acadêmica permaneça na fácil posição de “impotência”?
Ou, como adverte Lorde ao final de “A transformação do silêncio em linguagem e em ação”,
iremos quebrar com os silêncios que ainda nos restam?
REFERÊNCIAS
LORDE, Audre. Irmã outsider: ensaios e conferências. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.