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Captine 3

O trabalho investiga as causas da baixa adesão aos métodos contraceptivos entre mulheres, destacando a falta de informação, educação e acesso a insumos como fatores principais. A pesquisa busca entender a relação entre essa não adesão e os problemas de planejamento familiar, além de propor soluções para melhorar a efetividade dos serviços de saúde. O estudo é fundamentado em uma revisão bibliográfica e investigações sobre a situação da contracepção em um contexto específico em Minas Gerais.

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Dani Duvane
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O trabalho investiga as causas da baixa adesão aos métodos contraceptivos entre mulheres, destacando a falta de informação, educação e acesso a insumos como fatores principais. A pesquisa busca entender a relação entre essa não adesão e os problemas de planejamento familiar, além de propor soluções para melhorar a efetividade dos serviços de saúde. O estudo é fundamentado em uma revisão bibliográfica e investigações sobre a situação da contracepção em um contexto específico em Minas Gerais.

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MARIA CRISTINA DE OLIVEIRA

BAIXA ADESÃO AOS MÉTODOS CONTRACEPTIVOS:


investigando causas e motivações

CAMPOS GERAIS/MINAS GERAIS


2010
MARIA CRISTINA DE OLIVEIRA

BAIXA ADESÃO AOS MÉTODOS CONTRACEPTIVOS:


investigando causas e motivações

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao


Curso de Especialização em Atenção Básica em
Saúde da Família, Universidade Federal de Minas
Gerais, para obtenção do Título de Especialista.

Orientadora: Professora Dra. Clarice Marcolino

CAMPOS GERAIS/MINAS GERAIS


2010
MARIA CRISTINA DE OLIVEIRA

BAIXA ADESÃO AOS MÉTODOS CONTRACEPTIVOS:


investigando causas e motivações

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao


Curso de Especialização em Atenção Básica em
Saúde da Família, Universidade Federal de Minas
Gerais, para obtenção do Título de Especialista.

Orientadora: Professora Dra. Clarice Marcolino

Banca Examinadora

Aprovada em Belo Horizonte / /


Dedico este trabalho a todas as mulheres que são a manifestação do poder de criação.
Agradeço a Deus por ter me iluminado e dado força, fazendo com que tudo valesse a pena.
Agradeço, imensamente, ao meu Pai (in memoriam) e minha mãe pelos princípios
inabaláveis que guiaram suas vidas e, assim, nos educaram para interesses intelectuais.
Agradeço minha mãe Olímpia, minha sobrinha Cissa Martina e meu namorado Anderson
pelo incentivo e apoio nas horas em que mais precisei.
Agradeço a Profa. Dra. Clarice Marcolino pela atenção, orientação e apoio.
Muito obrigada.
RESUMO

Esse trabalho busca conhecer as condições de acesso das mulheres às atividades de atenção
e aos métodos contraceptivos, evidenciando a importância do cumprimento da prescrição
como um dos maiores problemas que a contracepção apresenta. A tentativa é de conhecer
as causas da não adesão aos métodos contraceptivos, os problemas originados desse
comportamento e a maneira como enfrentá-los, de forma a contribuir para o debate sobre a
adesão à contracepção. Para isso, traçou-se uma linha de pesquisa bibliográfica e
investigativa, para evidenciar a contribuição de vários autores sobre o assunto abordado, e
compreender que essa questão se origina da falta de informação, de educação e das
dificuldades para se manter uma rotina que requeira o uso diário dos métodos
contraceptivos. Valendo-se das informações desses autores, no que se refere à
contracepção e planejamento familiar, buscou-se delinear os passos percorridos pelos
serviços públicos a favor delas, de forma a entender porque a atenção ao planejamento
familiar continua a ser marcada pela indisponibilidade de métodos contraceptivos nos
serviços públicos de saúde e à não adesão das mulheres aos métodos ali oferecidos. Mais
que compreender as causas da não adesão buscou-se conhecer a provisão de insumos
contraceptivos para os serviços públicos de saúde e os motivos que levam à
descontinuidade e baixa efetividade da contracepção.

Palavras chaves: não adesão, contracepção, planejamento familiar.


ABSTRACT

This work seeks to meet the conditions of access of women to the activities of attention
and contraceptive methods, highlighting the importance of complying with the requirement
as one of the biggest problems that contraception presents. The attempt is knowing the
causes of non-adherence to contraceptive methods, the problems arising from this behavior
and how to face them, in order to contribute to the debate on the accession to
contraception. To do this, set a bibliographic search and investigative, for highlight the
contributions of several authors on the subject, and understand that this question originates
from lack of information, education and the difficulty to maintain a routine that requires
daily use of contraceptive methods. By of information from these authors, with regard to
family planning, contraception and sought to outline the steps taken by the public services
in favour of them, in order to understand why the attention to family planning continues to
be marked by the unavailability of contraceptive methods in public health services and the
failure of women to the methods offered there. More than understanding the causes of non-
adherence sought to know the provision of contraceptive supplies to public health services
and the reasons that lead to discontinuities and low effectiveness of contraception.

Keywords: non-adherence, contraception, family planning.


SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO................................................................................................................8

2. METODOLOGIA...........................................................................................................11

3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA......................................................................................12
3.1 Alguns fatores relacionados a não adesão: uma aproximação do conceito para a
sua compreensão.............................................................................................................12
3.2. Abordagem ao paciente...........................................................................................16
3.3 As políticas de apoio ao planejamento familiar.....................................................19
3.4 A evolução dos programas de planejamento familiar e a oferta de métodos
contraceptivos no Brasil.................................................................................................21
3.5 A adesão à contracepção, aconselhamento e sexo seguro.....................................23
3.6 Descontinuação e não uso de métodos contraceptivos..........................................29

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS.........................................................................................32

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.........................................................................34
8

1. INTRODUÇÃO

O assunto aqui escolhido sobre as prováveis causas à resistência e à falta de adesão


ao planejamento familiar e aos métodos contraceptivos induz-nos a perceber que tratar das
questões relacionadas à terapêutica faz-se mister e relevante, já que a adoção dessa prática
favorece, indiscutivelmente, o sucesso da terapia proposta, a cura de uma enfermidade, o
controle de uma doença crônica, a prevenção de uma patologia (LEITE; VASCONCELOS,
2003).
Conforme conceituam Leite e Vasconcellos (2003, p. 777), “a adesão é
compreendida como a utilização dos medicamentos prescritos ou outros procedimentos em
pelo menos 80% de seu total, observando horários, doses, tempo de tratamento, percebe-se
que representa a etapa final do que se sugere como uso racional de medicamentos. Estar
aberto à adesão torna-se, portanto, fator responsável pela procura de uma vida saudável e
assistida”.
A preocupação dos profissionais e autoridades de saúde justifica-se quando se
reconhece que a “não adesão”, em algum grau, é universal (JORDAN et al. 2000). O que
se faz premente é que sejam estabelecidos meios para incentivar a adesão, ou seja, que a
população seja estimulada a aderir ao prescrito profissionalmente, não de forma aleatória,
mas com a responsabilidade e compreensão necessárias à sua efetiva utilização.
Dessa maneira, cumpre-nos responder as muitas indagações surgidas daí, pois, se
existe o desejo de se tratar e obter alívio para suas mazelas, porque não aderir?
São muitos os fatores a serem considerados. Dentre os mais prováveis ou mais
citados pelos autores, aparecem a falta de acesso aos medicamentos, alto custo, efeitos
colaterais causados pela terapia, falta da real compreensão da enfermidade e ainda, o
próprio profissional da saúde (LEITE, VASCONCELLOS, 2003).
Considerar a relevância desses fatores abrevia o entendimento para a não-adesão,
muito embora devam ser tratados de forma a garantir que a população seja esclarecida e
parta para a adesão, já que, como se sabe, tratar de maneira efetiva e correta uma situação
de desconforto, é mais responsável e eficaz.
O que se deve perceber, entretanto, é que vistos e considerados individualmente,
nem sempre esses fatores revestem-se de importância ímpar. Considerar a associação deles
pode vir a beneficiar a compreensão da não-adesão e tratá-los com a responsabilidade que
9

exigem, pode ser uma questão relevante para se encontrar a resposta para tão inquietante
dúvida.
O PSF 01 “Caminhando com a saúde” está localizado no Bairro Bom Retiro do
Município de Carmo da Cachoeira (MG), que é constituído por aproximadamente 2.000
habitantes, onde a população local é basicamente de baixa renda e está localizado na
periferia da cidade.
Na Unidade de saúde, existe o programa de planejamento familiar, mas não
funciona como deveria pela falta de adesão e participação das mulheres nas reuniões
realizadas, pela falta de métodos contraceptivos para serem oferecidos, pela inexistência de
um centro de referência em técnicas de concepção e contracepção. Com isso, só faz crescer
o número de casos de gestações não planejadas, principalmente em adolescentes, abortos
provocados e demais agravos relacionados à saúde.
A equipe de saúde da família vem se empenhando em desenvolver ações
estratégicas focadas para enfrentar a problemática da não adesão ao planejamento familiar
e aos métodos contraceptivos. Entretanto, as medidas adotadas, tais como grupos
educativos e visitas domiciliares, com a finalidade de esclarecer a importância de um bom
planejamento familiar, métodos contraceptivos, tipos existentes, como utilizá-los,
vantagens e desvantagens ainda não tem produzido o efeito necessário na adesão,
aumentando assim o número de gestações e agravos à saúde destas mulheres.
A adesão está diretamente relacionada à disponibilidade de medicamentos. No
município a única farmácia básica existente está localizada no Centro de Saúde,
dificultando ainda mais o acesso a ele.
A partir dessas considerações escolhi estudar a falta de adesão ao planejamento
familiar e aos métodos contraceptivos no Bairro Bom Retiro do Município de Carmo da
Cachoeira (MG). Além dos inúmeros esforços da equipe de saúde em melhorar a adesão
dessas famílias, há a necessidade de parcerias com entidades governamentais e não
governamentais, capacitação da equipe, melhora na oferta e acesso aos medicamentos para
que ocorra uma maior eficiência e resolubilidade do serviço de saúde.
O tema aqui abordado, foi escolhido por despertar a preocupação com a falta de
adesão aos métodos contraceptivos e pela dificuldade que se percebe quanto à sequência
do uso de medicamentos que necessitam dessa constância e regularidade para se alcançar
resultados eficazes.
10

Esse estudo tem como objetivo principal, compreender as possíveis causas que
levam as mulheres a não adesão a métodos contraceptivos e sua influência no
planejamento familiar. Tem ainda o intuito de refletir, teoricamente, a visão dos autores
acerca da adesão à terapêutica, os fatores a ela relacionados e a compreensão que se tem do
fenômeno.
A saúde da mulher, pela adesão aos métodos contraceptivos, torna-se melhor
amparada, já que a constância, regularidade, periodicidade no uso desses medicamentos
possibilita alcançar uma qualidade de vida favorável e amplamente saudável.
Conhecer mais efetivamente os métodos contraceptivos e a contribuição deles para
a manutenção da saúde e prevenção de doenças é fator preponderante para a manutenção
da adesão, o que só tem a contribuir com essa prática.
Incentivar a adesão aos métodos contraceptivos possibilita minimizar as situações
de risco a que estão expostas as mulheres que não se aderem a ela, de maneira que venham
a favorecer a tranqüilidade de uma vida bem cuidada e resguardada de indesejáveis
problemas.
11

2. METODOLOGIA

Para desenvolver este estudo de revisão bibliográfica do tipo narrativa foram


realizadas pesquisas na Literatura da América Latina e Caribe –LILACS, no portal
CAPES, além de consultas a documentos do Ministério da Saúde e ao acervo da biblioteca
da Univas – Universidade do Vale do Sapucai.
12

3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

3.1 Alguns fatores relacionados a não adesão: uma aproximação do conceito para
a sua compreensão.

Antes de se tratar da questão problemática da não-adesão aos métodos


contraceptivos, faz-se mister compreender, de início, uma definição do conceito de adesão
aplicado à contracepção, considerando-se a opinião de alguns autores:

Costa e Leal (2005) nos orientam que a adesão (aquiescência), termo originado da
expressão inglesa “compliance”, não é fácil de ser definida. Seu conceito aplica-se
a qualquer tratamento clínico e farmacológico e pode ser entendida como até que
ponto o paciente aceita e acata as prescrições dos técnicos de saúde, imputando-lhe
um papel de passividade diante da situação.

Turk e Meichenbaum apud Costa; Leal (2005) demonstram que, embora existam
dois termos paralelos relacionados a esse conceito, seus conteúdos se apresentam
bem distintos:

O termo “compliance” é entendido como a medida em que, o paciente é


obediente e segue estritamente as instruções e prescrições dos técnicos de saúde,
conotando com este termo um papel passivo para o paciente. “Noncompliance”,
implica ainda neste sentido, uma atitude negativa relativamente ao paciente,
sendo este freqüentemente entendido como o responsável por não aderir ao
prescrito. (TURK e MEICHENBAUM, apud Costa; Leal, 2005, p. 248).

Ainda de acordo com os mesmos autores, o termo “adherence” é compreendido


como sendo mais ativo, implicando um envolvimento voluntário, mais colaborante em
aceitar um determinado comportamento com o qual, pretende atingir um resultado
desejado, preventivo ou terapêutico. Eles sublinham ainda, que “adherence” implica
escolha e reciprocidade no planejamento e implementação do tratamento.
Costa; Leal (2005) citam Torrinha (1999) que diz que em concordância a esse
termo “adherence” e seu conceito já referido, o termo adesão, na Língua Portuguesa é um
termo concordante, tendo na base de sua definição conceitos essenciais como união e
13

consentimento, pressupondo nesse sentido, a figura participativa e responsável do


indivíduo em qualquer programa de saúde.
Os termos utilizados para definir a adesão refletem qual a compreensão que os
autores possuem sobre o papel dos atores no processo.
Segundo Brawley e Culos-Reed (2000), citados por Costa; Leal (2005) os termos
mais utilizados na língua inglesa adherence e compliance têm significados diferentes. Para
os autores, o termo compliance, que pode ser traduzido como obediência, pressupõe um
papel passivo do paciente, e adherence, ou aderência como o termo utilizado para
identificar uma escolha livre das pessoas de adotarem ou não certa recomendação.
O entendimento do papel do paciente como sujeito ativo, que participa e assume
responsabilidades sobre seu tratamento, que adere ou não, é defendido por outros autores,
como Milstein-Moscati et al. (2000), Conrad (1985) e Dowell e Hudson (1997), conforme
nos remete Costa; Leal (2005, p.777).
Seguindo a linha de pensamento e o reconhecimento de que vários autores
concordam que o problema da baixa adesão às prescrições de saúde em si, ocorrem em
níveis bem impactantes, Dunbar-Jacob, Burke e Puczynski apud Costa & Leal (2005,
p.249) alertam que esse percentual alcança 80% dos pacientes que não aderem ao seu
tratamento na medida suficiente.
Doenças de evolução crônica, como hipertensão e diabetes e indivíduos com artrite
reumatóide, asmáticos, epiléticos, com doença mental e crianças com doença crônica, vêm
recebendo atenção especial em saúde, e a adesão à contracepção apresenta características
comuns ao tratamento dessas doenças.
O essencial na problemática da adesão é que haja, numa primeira fase, a
compreensão do tipo de solicitação que é efetuada.
Baynard apud Costa; Leal (2005) considera quatro tipos distintos:

- Solicitações de adesão por um curto período, com um tratamento simples,


como seja, o uso de um antibiótico durante 7 dias, três vezes ao dia;
- Solicitações para o incremento de comportamentos positivos ao estilo de vida,
como seja, a indicação de aumentar a ingestão de legumes e o exercício físico;
- Solicitações para abandonar determinados comportamentos prejudiciais, como
seja, o deixar de fumar;
- Solicitações de adesão a regimes terapêuticos por longos períodos, como seja, o
caso dos diabéticos e hipertensos.

Considerando tais solicitações, a conclusão a que se chega é que, em se tratando de


métodos contraceptivos, a adesão se dará por um longo período, exigindo-se do paciente
14

um comportamento periódico e sistemático. Dessa maneira, percebe-se que, atualmente, a


contracepção permite que se planeje a gravidez, levando-se a crer que uma gravidez
imprevista tem a ver com a não adesão aos métodos contraceptivos.
Os autores Turk e Meichenbaum (1991) apud Costa; Leal (2005, p.248) nos
auxiliam ressalvando que não se deve rotular os indivíduos como aderentes ou não, já que
cada um deles pode apresentar níveis de adesão diferentes em diferentes aspectos do
tratamento ou manifestar adesão variável em diferentes momentos de sua vida. Em cada
indivíduo estão presentes fatores que condicionam os níveis de adesão em diferentes
momentos ou circunstâncias.
Esses fatores podem ser agrupados, segundo Dunbar-Jacob, Burke e Puczynski
apud Costa; Leal (2005, p.249):

- Características do regime terapêutico: quanto maior for a freqüência em que


o regime tem que ser repetido maior a probabilidade de episódios de não adesão,
que tende a diminuir ao longo do tempo;
- Característica de prestador de cuidados: eles defendem que as habilidades
relacionais dos prestadores de cuidados e suas atitudes perante os pacientes são
fatores chave na adesão aos regimes terapêuticos, pois são mais afáveis e
dedicados, o que induz a maiores níveis de adesão;
- Características do paciente ou utente: fatores demográficos, sócio-
econômicos, gênero, estado civil e idade ainda não foram consistentemente
relacionados com a adesão; a relação entre características da personalidade e
adesão não foi ainda claramente definida; encontrou-se relação entre alguns
elementos cognitivos e a adesão; as expectativas de auto-eficácia e suporte social
estão entre as características relevantes identificadas.

Estando os profissionais de saúde informados a esse respeito, poderão traçar


estratégias mais eficientes para a promoção da saúde, incrementando-se a adesão aos
regimes terapêuticos.
As autoras Costa; Leal, (2005, p.250) ao estudaram as dimensões sócio-cognitivas
da adesão das mulheres à contracepção ressaltam o conceito de auto-eficácia como fator
importante para a compreensão da adesão a regimes terapêuticos:

“A crença de se poder actuar adequadamente numa situação particular, foi


definida como conceito por Albert Bandura em 1977 e denominada como auto-
eficácia. Este autor acredita que «among the different aspects of self-knowledge,
perhaps none is more influential in people’s everyday lives than conceptions of
their personal efficacy».

A teoria da auto-eficácia diz respeito à tendência natural que o homem tem de


controlar os acontecimentos em sua vida, que depende da capacidade individual para
15

controlar e gerir esses acontecimentos ou situações. Neste sentido, Ribeiro, 1995, apud
Costa; Leal (2005, p.250) esclarece que:

“as pessoas tendem a evitar as situações que julgam exceder as suas capacidades
e a enfrentar aquelas que se julgam capazes de gerir. De facto quanto maior for a
percepção de eficácia mais persistente o esforço: aqueles que se sentem
incapazes de fazer frente às exigências da situação evitam envolver-se nela
recorrendo às mais variadas justificações. Estas preocupações dificultam a acção
e deslocam a atenção da tarefa para a centrar em si próprio.”

Assim, afirma que a percepção da autoeficácia é relativa às convicções que os


indivíduos possuem nas suas capacidades de organização e execução de ações, no sentido
de gerir prováveis acontecimentos.
Ribeiro (1995) apud Costa; Leal (2005, p.250) acredita, também, que a crença de
poder atuar adequadamente numa situação particular, influencia o sentido da ação
escolhida, o esforço despendido, o tempo de persistência face aos obstáculos e às
experiências de insucesso. Além disso, induz a sua resistência à adversidade, a forma como
os seus padrões de pensamento funcionam face ao estímulo negativo ou positivo, quais os
níveis de stress e depressão irão experimentar ao lidar com sobrecargas de exigências
ambientais e os seus níveis de realização.
O autor acrescenta, também, que as expectativas de autoeficácia se traduzem na
convicção de executar com êxito os comportamentos necessários para atingir as
conseqüências desejadas.
As autoras Costa; Leal (2005) comentam que vários outros autores trataram o
mesmo assunto e dentre eles citam Ribeiro (1975, p. 3)) quando aponta que a teoria da
autoeficácia apresentada por Brandura é uma das variáveis mais importantes dos últimos
anos, no âmbito da promoção e proteção da saúde e também na prevenção e reabilitação
das doenças
Em 1992, Schwarzer apud Costa; Leal (2005, p. 251) destaca a importância da
autoeficácia, teorizando que, considerando-se determinados comportamentos, ela se revela
como melhor preditor das intenções e da mudança de comportamentos, fato este
confirmado por investigações que revelaram notório o uso efetivo de contraceptivos.
Da mesma forma as autoras mostram que, a auto-eficácia, segundo Levinson
(1996) apud Costa; Leal (2005, p. 251) funciona como contributivo importante na escolha
de métodos contraceptivos mais eficazes, assim como os estudos referidos por Oddens
(1997) apud Costa; Leal (2005, p. 251) e realizados por Brafford e Beck (1991), por
16

Basen-Engquist e Parcel (1992) e Kasen, Vaughan e Walter (1992) apud Costa; Leal
(2005, p. 251) documentam a associação entre a auto-eficácia e o uso correto de
preservativo.
No texto de Costa; Leal (2005) Cheever (1999) diz que são diversos os fatores que
interferem na adesão.
Ainda considerando os textos de Costa; Leal (2005) Chesney (1997) e Gifford
(2000), apontam alguns desses fatores como o esquecimento, isolamento social, efeitos
adversos, interação com outras drogas, depressão, mudanças na rotina, crenças pessoais
sobre a gravidade da doença, percepção da falta de benefícios do tratamento, formulação
dos medicamentos, complexidades do esquema, falta de supervisão adequada, doença
grave concomitante, uso de álcool ou drogas ilícitas, não compreensão sobre a relação
entre não adesão e resistência.
Segundo Gallant (1998) apud Rachid (2005, p. 39) a adesão não tem relação com o
salário, classe social, ocupação ou nível educacional. A preocupação aumenta ao se
perceber que aqueles que não aderem de forma efetiva, ou, pelo menos, resistem à adesão,
demonstram mais suscetibilidade ao aumento de riscos.

3.2. Abordagem ao paciente

Existem diferentes métodos para medir a adesão, incluindo dispositivos eletrônicos,


mas há indícios de que perguntar diretamente ao paciente ainda é o melhor (Icovicks, apud
Rachid (2005, p. 39).
É fundamental que o paciente receba explicações sobre o que significa adesão para
que seja possível atingir o sucesso terapêutico sem o ônus da falha, da resistência e da falta
de opções futuras. Não importa se ele tenta tomar os medicamentos corretamente e sim que
realmente não esqueça nenhuma dose e nem cometa erros em relação às quantidades
prescritas.
Outro fator frequentemente esquecido pelos médicos e pelos pacientes são as
interações medicamentosas que podem levar ao comprometimento da eficácia do esquema
de forma irreversível. O ideal seria fornecer ao paciente uma lista com os nomes de
medicamentos que oferecem maior risco.
17

É importante ressaltar que a adesão está diretamente relacionada à disponibilidade


de medicamentos nas farmácias. Os programas não podem permitir falhas na entrega das
drogas nem gerar expectativas e medos diante da possibilidade de falta. O controle do
fornecimento dos medicamentos feito pelas farmácias (data de entrega, quantidade,
retornos) pode contribuir bastante com a adesão.
É fundamental continuar identificando que fatores estão associados à não-adesão
nas diferentes populações para encontrar o melhor programa de intervenção que possa
contribuir para prevenir a resistência à terapia, garantindo o sucesso por tempo prolongado.
Segundo Rachid (2005, p.39) algumas estratégias podem ser utilizadas para
melhorar a adesão:

. Explicar ao paciente o conceito de adesão e sua importância. Dizer que adesão


significa tomar os medicamentos nas doses prescritas, nos horários corretos e
seguindo a maneira como foram recomendados.
. Deve saber que atrasos e perdas de doses permitem o aumento do problema e a
resistência à medicação significa risco elevado de falta de opções terapêuticas
futuras.
. Atrasar ou antecipar as doses pode ser tão grave como não tomar os
medicamentos: um alto grau de adesão é muito importante para o êxito do
tratamento.
. O acesso fácil à equipe profissional contribui muito para que a importância da
adesão seja compreendida.
. Integrar o regime ao estilo de vida.
. Adaptar o regime à rotina diária.
. Gestantes e crianças devem receber cuidados especiais para reforçar a adesão.

Na temática da adesão em saúde, vários autores documentam o papel do suporte


social como variável a ter em conta.
Costa; Leal (2005) citam que Baynard (1996) realça o importante papel
desempenhado pelos profissionais de saúde no estímulo à adesão, não só no uso de
estratégias de interação face a face, mas também na mobilização de outros recursos como a
participação de membros da família nos cuidados de saúde. Este autor acredita que os
técnicos de saúde podem melhorar o suporte social disponível dos indivíduos.
As mesmas autoras nos remetem ao que Turk e Meichenbaum (1991) defendem:

Se os profissionais de saúde pretendem incrementar a adesão e não apenas


lamentar os insucessos, deverão considerar as perspectivas do indivíduo e as suas
expectativas, entre as quais se incluem as expectativas de autoeficácia e o
envolvimento familiar. (TURK & MEICHENBAUM, apud Costa; Leal, 2005, p.
254).
18

Da mesma forma, Dunbar-Jacob et al. apud Costa; Leal (2005), ao abordarem a


temática da adesão em saúde, defendem que:

As intervenções com vista à adesão consistem geralmente em estratégias


educativas, comportamentais, de autoeficácia e de suporte social, acrescentando
que as condições educativas que contemplam o suporte familiar demonstram
maiores níveis de adesão do que as que não o fazem. (DUNBAR-JACOB et al,
1996, p.313-349 apud Costa; Leal, 2005, p.254).

O suporte social aqui mencionado surge como um importante componente


promotor da saúde, não só favorecendo a reabilitação dos indivíduos em desequilíbrio, mas
também fomentando a adoção e manutenção de comportamentos saudáveis.
Williams e House (1991) apud Costa; Leal (2005) acreditam que o suporte social
abrange intercâmbios afetivos, informativos e instrumentais, sendo provavelmente, a nível
relacional, o aspecto central da promoção da saúde. (Willians e House, 1991, p. 147-172,
apud Costa; Leal, 2005, p. 254).
Dunst e Trivette (1990) apud Costa; Leal (2005), por sua vez, fazem uma distinção
relativa às fontes de suporte social:

Suporte social informal: onde se incluem os indivíduos e os grupos sociais em


condições de fornecer apoio face aos acontecimentos do dia a dia;
Suporte social formal: abrange organizações sociais formais como hospitais,
determinadas estratégias ou programas governamentais e determinados
profissionais como médicos, enfermeiros, psicólogos, que se encontram
organizados no sentido de fornecer assistência a quem necessite. (DURST E
TRIVETTE, 1990, p. 326-349 apud Costa; Leal, 2005, p. 254).

Para que a compreensão seja possibilitada, vale-se comentar que o suporte social
formal remete-nos às entidades organizadas estrutural e funcionalmente, prontas a
fornecer o apoio necessário aos indivíduos ou comunidades, munidas de competências
técnicas e recursos materiais para isso.
Tratando-se da temática da adesão à contracepção, a atenção centraliza-se
essencialmente na prestação de cuidados de saúde primários e em todo o conjunto de
estratégias encontradas pelas entidades governamentais ou outras, com vista à promoção da
saúde sexual e reprodutiva dos indivíduos. Isso evidencia o direito que homens e mulheres
possuem de serem adequadamente informados e terem acesso aos métodos de
planejamento familiar que escolherem e que esses sejam seguros e eficazes e que o acesso
19

a esses serviços lhes proporcione uma correta vigilância de saúde, independentemente da


sua idade, estado social ou condição econômica. (Costa; Leal, 2005).

3.3 As políticas de apoio ao planejamento familiar

O Sistema único de Saúde (SUS) foi criado em 1988, com a Constituição Federal,
com o intuito de garantir a saúde para todos, através de políticas sociais e econômicas
voltadas tanto para a “redução dos riscos de doenças e de outros agravos”, quanto “ao
acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e
recuperação” (PINHEIRO e MATTOS, 2001).
A Atenção Básica caracteriza-se por um conjunto de ações de âmbito individual e
coletivo, que abrange a promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agravos,
diagnóstico, tratamento, reabilitação e a manutenção da saúde. Assim, é desenvolvida por
meio de práticas gerenciais e sanitárias, democráticas e participativas sob a forma de
trabalhos em equipe dirigidos a populações de territórios bem delimitados. Além disso,
considera o sujeito em sua singularidade, na complexidade, na integralidade e na inserção
sócio cultural, e tem como prioridade de reorganização desse novo modelo, a Estratégia
Saúde da Família – ESF (BRASIL, 2002).
Franco e Merhy (2000) falam de seu objetivo como “a reorganização da prática
assistencial em novas bases e critérios, centrada na família, entendida e percebida a partir
do seu ambiente físico e social”.
Dentre os programas que a Estratégia Saúde da Família – ESF (BRASIL, 2002)
aborda está o Programa Saúde da Mulher que tem como um dos enfoques o Planejamento
Familiar, regulamentado e aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado pela
Presidência da República em 1996 (BRASIL, 2002 apud WOLF, NOGUEIRA e
LAVORENTE, 2008).
Essa medida, ou seja, o planejamento familiar que é um dos enfoques do Programa
Saúde da Mulher, já mencionado, surgiu para que se democratizasse o acesso aos meios de
contracepção ou de concepção nos serviços públicos de saúde, ao mesmo tempo em que
regulamenta essas práticas na rede privada, sob controle do SUS. Os primeiros programas
de planejamento familiar surgiram na década de 50, com o objetivo de reduzir o excessivo
20

crescimento da população. Surgiram daí políticas estratégicas e programas visando o


desenvolvimento e a introdução de métodos anticoncepcionais (RODRIGUES, 1990 apud
WOLF, NOGUEIRA e LAVORENTE, 2008).
Com o advento da ruptura com o clássico e exclusivo papel social que lhes era
atribuído pela maternidade, as mulheres brasileiras viram ampliadas suas aspirações de
cidadania, ao introduzirem-se no mercado de trabalho. Conseqüentemente, controlar a
fecundidade e praticar a contracepção passaram a fazer parte dos planos e aspirações
femininos, tal qual a vivência plena da sexualidade, desvinculada da maternidade (COSTA,
GUILHEM, SILVER, 2006).
Com a aprovação da Constituição Federal de 1988, o planejamento familiar torna-
se um direito legal do cidadão, e a sua regulamentação encontra-se no parágrafo 7 do Art,
226 da Lei 9.263/1996, remete-nos a entendê-lo como o conjunto de ações de regulação da
fecundidade que garante direito igual de constituição, limitação ou aumento da prole pela
mulher, pelo homem ou pelo casal, dentro de uma visão de atendimento global e integral à
saúde, sendo proibida a utilização de ações para qualquer tipo de controle demográfico
(COSTA, GUILHEM, SILVER, 2006).
No Brasil, a atenção ao planejamento familiar continua a ser marcada pela
indisponibilidade de métodos contraceptivos necessários nos serviços públicos de saúde,
pela capacitação desigual e insuficiente dos profissionais para atuarem nessa área, e por
motivos diversos, pela dificuldade de adesão aos métodos contraceptivos. Muito
importante para o fator da adesão em si, é que sejam considerados, ainda, os métodos
relativos à contracepção adotados pelo paciente (WOLF, NOGUEIRA e LAVORENTE,
2005, p. 39).
O acesso à informação de boa qualidade e a disponibilidade de alternativas
contraceptivas são aspectos fundamentais nos programas de planejamento familiar,
destinados não apenas aos adolescentes, mas à população em geral. O conhecimento
inadequado sobre qualquer método anticoncepcional pode ser um fator de resistência à
aceitabilidade e uso desse método.
Do mesmo modo, alto nível de conhecimento sobre métodos anticoncepcionais não
determinará nenhuma mudança de comportamento se os métodos contraceptivos não
estiverem acessíveis à livre escolha das pessoas.
Prestadores de cuidados de saúde devem perceber o impacto que podem ter sobre a
educação do paciente, processo decisório e cumprimento final com um método
21

contraceptivo. É o paciente, entretanto, que, em última instância, toma a decisão, seja ativa
ou passivamente, ao cumprimento ou não de se ter uma gravidez não planejada.
De acordo com Martins et. al, (2006):

No Brasil, os estudos com adolescentes escolares inseridos em diferentes


contextos socioeconômicos são escassos, visto que a maioria deles abordam
jovens das escolas públicas, provavelmente porque as instituições particulares
tem maior resistência em consentir atividades de pesquisa entre seus alunos. As
diferenças socioeconômicas e culturais da população do País podem influenciar
no conhecimento e uso de métodos anticoncepcionais. As mesmas autoras
alertam que, possivelmente, os dados obtidos unicamente da avaliação de
adolescentes das escolas públicas, não expressam a realidade da população
escolar dessa faixa etária.

Muitos pacientes não seguem seu método contraceptivo como especificamente


prescrito, e isto influencia diretamente o abandono à eficácia do método. Para agravar a
situação, as taxas de sucesso e fracasso para contraceptivos e diferentes métodos são
geralmente baseadas em condições de plena conformidade, que são difíceis de definir e
avaliar.

3.4 A evolução dos programas de planejamento familiar e a oferta de métodos


contraceptivos no Brasil

Os primeiros programas de planejamento familiar surgiram na década de 50, com o


objetivo de reduzir o excessivo crescimento da população, promoveram-se então, políticas
para diminuir o crescimento demográfico e para melhorar os indicadores quantitativos de
saúde pública associados ao subdesenvolvimento, como a morbidade e mortalidade
materno-infantil. Essas políticas incluíam estratégias e programas visando ao
desenvolvimento e à introdução de métodos anticoncepcionais. Os programas educativos
da época incluíam mensagens que associavam altas taxas de natalidade à pobreza.
(RODRIGUES, 1990).
Ao longo do processo de consolidação da sociedade capitalista o estado brasileiro
adotou uma postura pró-natalista, mas, principalmente, a partir dos anos 60, pressões
americanas forçaram a entrada de entidades internacionais no Brasil, que tinham como
22

principal objetivo controlar o crescimento populacional dos países pobres (BRASIL, 1987
apud WOLF, NOGUEIRA e LAVORENTE, 2008).
Nos anos 70, a fragilidade política com que o Ministério da Saúde enfrentava o
tema do planejamento familiar criou um vácuo institucional do Estado e favoreceu a ação
das instituições de cunho controlista, que agiam de forma desordenada em todo o território
nacional. Dentre essas, a Sociedade Civil de Bem-Estar Familiar no Brasil (BENFAM) e o
Centro de Pesquisas de Assistência Integrada à Mulher e à Criança (CPAIMC) foram as de
maior relevância (COSTA, GUILLEM, SILVER, 2006).
Em 1984, o Ministério da Saúde elaborou o Programa de Assistência Integral à
Saúde da Mulher (PAISM), marcando, sobretudo, uma ruptura conceitual com os
princípios norteadores da política de saúde das mulheres e os critérios para eleição de
prioridades neste campo (BRASIL, 2004).
As atividades desenvolvidas no planejamento familiar envolvem necessariamente
atividades educativas, que tem o objetivo de oferecer os conhecimentos necessários para
escolha e utilização dos métodos anticoncepcionais, aconselhamento, através da escuta
ativa individualizada e as atividades clínicas, que podem ter a participação de todos os
profissionais de saúde, visando à promoção, proteção e recuperação da saúde da mulher
(BRASIL, 2002 apud WOLF, NOGUEIRA e LAVORENTE, 2008).
A assistência em anticoncepção pressupõe a oferta de todas as alternativas
possíveis de métodos anticoncepcionais, o conhecimento de suas indicações, contra-
indicações, implicação de uso, garantindo à mulher ou ao casal os elementos necessários
para a opção do método que a eles melhor se adapte (BARROS, 2002).
A diversidade de métodos contraceptivos contrasta com a dificuldade no acesso e
limitada informação sobre a ampla variedade de métodos existentes, indicando um
descompasso entre o que é proposto pelo programa de planejamento familiar e aquilo que é
efetivamente implementado (PANIZ , FASSA E SILVA, 2005).
Existem várias alternativas de métodos anticoncepcionais aprovados pelo
Ministério da Saúde – MS, cabendo aos serviços e aos profissionais a oferta de todos os
métodos, bem como o esclarecimento de suas indicações, contra-indicações e implicações
do uso, além das suas características, incluindo sua eficácia, efeitos secundários,
aceitabilidade, disponibilidade, facilidade de uso, reversibilidade e proteção às Doenças
Sexualmente Transmissíveis (DST) e infecção pelo HIV, dando a mulher oportunidade de
livre escolha (BRASIL, 2002 apud WOLF, NOGUEIRA e LAVORENTE, 2008).
23

Nos últimos anos, o principal indicador de qualidade de programas de planejamento


familiar é a satisfação das usuárias, que depende principalmente do tipo de atendimento
oferecido. A qualidade no atendimento é de difícil definição, mas existe consenso entre
pesquisadores da área de que a orientação é de fundamental importância (BARROS, 2002).
Subentende-se, por todo o exposto, que a atenção ao planejamento familiar no
Brasil continua a ser marcada pela indisponibilidade de métodos anticoncepcionais
necessários nos serviços públicos de saúde, pela capacitação desigual e insuficiente dos
profissionais para atuarem nessa área, e por motivos diversos, à dificuldade de adesão aos
métodos contraceptivos.
O que observa, ainda, é a dificuldade de funcionamento de um sistema de
referência e contra-referência para as ações de planejamento familiar, fundamental para
racionalizar a utilização dos recursos disponíveis, pois embora os métodos mais
conhecidos sejam o anticoncepcional oral, preservativo masculino, laqueadura tubária,
DIU, anticoncepcional injetável, a contracepção se restringe geralmente ao uso do
anticoncepcional oral e laqueadura tubária (HEILBORN, PORTELLA, BRANDÃO,
CABRAL, GRUPO CONPRUSUS, 2009).
Em relação às ações voltadas à adesão aos métodos, segundo os autores, constatou-
se grande ênfase sobre a necessidade da disponibilidade de outros métodos e não somente
o que se dispõe no momento. Mesmo que o Ministério da Saúde consiga enviar os insumos
contraceptivos aos municípios com regularidade e em quantidades adequadas, isso não
garantirá que a atenção ao planejamento familiar alcance a qualidade e a eficácia desejadas
para permitir que os cidadãos brasileiros exerçam o direito de decidir quando e quantos
filhos desejam ter. Faz-se necessário esse procedimento, porém, somente isso não é
suficiente, devendo os municípios tratar as ações em planejamento familiar, de fato, como
parte da atenção básica. É preciso que o processo de humanização da atenção também
alcance o planejamento familiar, no que se refere à incorporação de princípios relativos aos
direitos humanos e à bioética na atenção juntamente à população (HEILBORN,
PORTELLA, BRANDÃO, CABRAL, GRUPO CONPRUSUS, 2009).

3.5 A adesão à contracepção, aconselhamento e sexo seguro


24

Considerando-se as opiniões de Branden (2007, p.953), as opções contraceptivas


têm aumentado a partir do surgimento dos modernos métodos de barreira, formulações
hormonais, dispositivos intra-uterinos (DIU), etc.
Para esse autor, hoje, as opções incluem métodos contraceptivos de barreira de
vários tipos, como preservativos, diafragma, tipos hormonais, contraceptivos orais
(ACOs), implantes e injetáveis, espermicidas, DIU, a abstinência, coito interrompido,
esterilização cirúrgica. Estes todos têm eficácia e diferentes taxas de falhas que afetam a
sua popularidade entre profissionais de saúde e pacientes.
A adesão e uso perfeito de um método contraceptivo, qualquer que seja o
escolhido, podem resultar em taxas elevadas de sucesso, se utilizado exatamente como
sugerido pelo fabricante. Entretanto, o uso típico que inclui o seu uso incorreto ou
inconsistente, pode obter resultados pouco satisfatórios. Compreender esses números é
importante para se analisar como eles afetam a escolha do paciente e o cumprimento ou
não da contracepção.
Segundo o autor, embora essa seja uma questão bastante diversificada, estudos têm-
se centrado na identificação do paciente fora de conformidade, ou seja, aquele fora dos
padrões usuais e corretos de utilização dos métodos contraceptivos. O que se percebe, no
entanto, é que ainda há pouca investigação sobre as razões que levam o paciente ao
abandono da utilização dos métodos. Além disso, quase não existem estudos sobre como
aumentar o cumprimento do uso devidamente correto, configurando-se assim, num
verdadeiro desafio.
Para Branden (2007, p. 954) os planos individuais deveriam ser formulados para o
cuidado com o paciente, valendo-se de alternativas que possibilitem sua complacência ao
uso dos métodos contraceptivos. Os cuidados de saúde devem estar disponíveis em locais
mais convenientes usando um plano diferenciado de atendimento como resposta às
múltiplas questões que podem afetar a continuidade.
Para o autor, da mesma forma, prestadores de cuidados de saúde têm necessidade
de mudar seu pensamento sobre a adesão do paciente e devem considerar a terminologia
alternativa de adesão ou manutenção, de maneira a facilitar a compreensão e adesão do
paciente aos métodos contraceptivos.
Branden (2007, p. 954) ainda orienta que, é necessário que sejam feitas várias
perguntas aos pacientes sobre os métodos anticoncepcionais, como qual a sua situação
25

social, sua crença, nível de conhecimentos, medos, preconceitos, expectativas, bem como
sobre as suas histórias médicas, para assegurar um elevado nível de cumprimento.
Para ele, este conhecimento permite ao profissional de saúde trabalhar com o
paciente para estabelecer uma rotina regular de adesão aos métodos contraceptivos. Uma
vez estabelecido, no entanto, é importante lembrar que muitas mulheres sentem que o seu
atual método de contracepção pode não cumprir todos os critérios que elas querem como
anticoncepcionais. E este processo de decisão é um problema que acompanhará o paciente
de acordo com suas necessidades e estilo de vida.
Os profissionais de saúde devem enfrentar este desafio e mudar os seus planos de
cuidados, se necessário. O aconselhamento de pares deve ser oferecido como parte de um
programa abrangente de cuidados.
Para Branden (2007, p. 953) o importante é avaliar os sinais e sintomas e as queixas
do paciente e procurar resolver os problemas de métodos contraceptivos que podem levar
ao abandono. Concentrando-se em cuidados e não em questões morais, os profissionais de
saúde podem incentivar um comportamento responsável e melhorar os resultados.
A adesão à contracepção tem sido discutida e estimulada por profissionais de
saúde, por se tratar de um ponto fundamental para a resolubilidade de um tratamento.
Em seu artigo publicado no Canadian Medical Association or its licensors, os
autores Fisher e Black (2007, p. 953-961) dizem que a contracepção é uma preocupação
significativa para as mulheres canadenses de idade fértil, seus parceiros e seus cuidados de
saúde.
Os autores fornecem informações sobre as atuais tendências e mudanças recentes
das canadenses quanto às escolhas de métodos contraceptivos. Tentam alertar sobre a
necessidade de rever características dos métodos contraceptivos disponíveis no Canadá,
procurando-se enfatizar sobre os métodos hormonais e as novas opções como a
transdérmica, adesivo contraceptivo, o anel vaginal contraceptivo e os dispositivos intra-
uterinos. Dessa forma, acreditam haver necessidade de discutir a adesão à contracepção,
bem como as abordagens e aconselhamentos, para promover a adesão e reduzir o risco de
infecções sexualmente transmissíveis no contexto de contracepção.
Os mesmos autores ainda afirmam que, quando uma pessoa inicia e mantém a
adesão aos métodos contraceptivos, terá de adquirir informações pertinentes ao assunto, as
quais a levem a reconhecer a probabilidade de uma atividade sexual futura; conhecer as
ações públicas para adquiri-los, e comunicar seu parceiro sobre a contracepção e, ainda, o
26

uso do método utilizado de forma consistente ao longo do tempo. Assim, perceberá a


necessidade dessa constância para se praticar o sexo seguro.
Se esta pessoa vai assimilar com sucesso esta seqüência de passos depende de
fatores ambientais (custo e disponibilidade de contracepção e de serviços médicos,
natureza voluntária ou involuntária da atividade sexual) e fatores pessoais (a idade da
pessoa, o sexo e estado civil).
Nessa perspectiva, o conselho do médico de "usar a contracepção" realmente vai
depender do conhecimento do paciente sobre a mesma, bem como a motivação e a maneira
como ele se comporta diante disso.
Ainda segundo Fisher e Black (2007, p. 953-961), a adesão dos casais canadenses
aos métodos contraceptivos está longe de ser perfeito, em vista da complexidade dos
contraceptivos e outros fatores tão simples como o esquecimento. Cerca de 9% dos
canadenses que responderam a um estudo sobre contracepção, indicaram que eles não
usam nenhum método de contracepção, apesar da falta do desejo de conceber.
Para eles, Fisher e Black (2007, p.953-961) os problemas de aderência aos métodos
escolhidos foram igualmente comuns: 62% dos entrevistados que se identificaram como
usuários de contraceptivos orais atuais, relataram ter faltado pelo menos um comprimido
durante os 6 meses antes do exame; 31% dos inquiridos perdem 1 ou 2 comprimidos, e
para 11% faltaram 6 ou mais pílulas durante o período.
Da mesma forma, 30% dos respondentes relataram que nem sempre fazem uso de
um preservativo durante a relação sexual, nos 6 meses antes do exame. Talvez não
surpreendentemente, cerca de 28% dos entrevistadas afirmam ter passado por uma situação
não desejada.
Com base nesses resultados obtidos pela pesquisa de Fisher e Black (2007, p. 953-
961), verifica-se que adesão a um método contraceptivo e não a escolha de método por si
só, pode ser o objetivo mais desafiador para prática clínica de aconselhamento ao paciente.
O uso de anticoncepcionais e sua relação com o sexo seguro apresentam uma preocupação
adicional clínica. Existe uma associação entre o uso de contraceptivos orais, a cessação ou
não uso de métodos de barreira, e aumento do risco de doenças sexualmente
transmissíveis.
A preocupação básica das pessoas sexualmente ativas, muitas vezes, é evitar a
gravidez. Uma vez que um método contraceptivo tem sido fixado, o prestador de cuidados
27

de saúde pode inadvertidamente ter eliminado a principal preocupação do


paciente e aumentado o seu risco de infecção sexualmente transmissível.
Um aconselhamento estratégico pode melhorar o uso do preservativo quando se
sugere comportamentos sexuais mais seguros, tais como "Usar sempre camisinha,
juntamente com a pílula por 3 meses. E em seguida, entrar com o seu parceiro para
ITS/HIV teste e aconselhamento de sexo seguro".
Conforme o comentário de Grossman (2009) os contraceptivos orais são altamente
eficazes e mais amplamente utilizados globalmente, sendo o método reversível de
contracepção mais comumente utilizado em países menos desenvolvidos, exceto a China.
O anticoncepcional oral, ingerido de acordo com a prescrição, tem índice de falha de 0,3%
no primeiro ano. Porém, na prática, a falha é muito maior – perto de 8% ou 9%. Na maioria
dos países, as mulheres precisam ter uma prescrição médica para obter os contraceptivos
orais, embora muitos países em desenvolvimento não cumpram tal recomendação e os
disponibilizem sem prescrição médica.
Dados dos Estados Unidos sugerem que, ao menos para algumas mulheres, a
exigência da prescrição representa uma barreira à iniciação e à continuação dos
contraceptivos hormonais. Um levantamento nacional de mulheres americanas em 2004
reportou que 41% delas não estavam usando contracepção no momento e disseram que
começariam a usar a pílula, o adesivo ou o anel vaginal se estes estivessem diretamente
disponíveis em uma farmácia.
Grossman (2009) ainda relata que outro estudo concluiu que, viajar e ficar sem
pílulas eram razões frequentes para as mulheres deixarem de tomá-las, uma causa comum
de falha na contracepção. As participantes de um estudo escocês sobre as atitudes para
contracepção também destacaram que pode ser difícil conseguir uma consulta com um
clínico geral.
Nele, bucava-se saber se é seguro para as mulheres ter acesso a contraceptivos orais
sem uma prescrição. Mais de 50 anos de experiência demonstraram que os contraceptivos
orais são muito seguros. Em todos os grupos etários, o risco de morte cardiovascular entre
não-fumantes saudáveis que tomam a pílula é inferior ao mesmo risco para mulheres que
levam uma gestação a termo.
Segundo Grossman (2009), entretanto, permanece a questão quanto à necessidade
de as mulheres consultarem um clínico para determinar se a contracepção oral é apropriada
para elas. Idealmente, os médicos e as enfermeiras rastreiam as mulheres quanto a
28

contraindicações à pílula, utilizando critérios baseados em evidências, como os da


Organização Mundial de Saúde. Porém, na prática, esse rastreamento nem sempre
acontece.
Para o autor, pesquisas do México onde a pílula é amplamente disponível sem
prescrição, concluíram que as mulheres que conseguem a pílula sem consultar um clínico
não apresentaram maior probabilidade de apresentar contraindicações ao seu uso do que
aquelas que consultaram um médico.
Dois estudos americanos citados pelo autor concluíram que as mulheres foram
capazes de identificar se apresentavam contraindicações aos contraceptivos orais,
utilizando um checklist, embora mulheres mais velhas apresentassem maior probabilidade
de sofrer de hipertensão não-reconhecida. Esses dados não são surpreendentes, visto que,
além da hipertensão, todas as contraindicações são baseadas na história e não exigem
grande julgamento clínico.
Branden (1998) ainda alertou que outra preocupação que se tem com os
contraceptivos orais disponíveis sem prescrição, é que as mulheres podem utilizá-los de
maneira incorreta. Mais uma vez, poucos dados sugerem que o aconselhamento clínico seja
útil e, mesmo quando é necessária uma consulta clínica, a adesão não é perfeita.
Para o autor, os contraceptivos orais estão disponíveis sem prescrição no Kuwait, e
um estudo realizado nesse país concluiu que a adesão e a continuação não foram diferentes
entre as mulheres que consultaram um médico e aquelas que não o fizeram.
Ainda para Branden (1998) uma análise recente de dados da Califórnia concluiu
que mulheres que receberam caixas de pílulas, quando começaram a usá-las continuaram o
método por um tempo significativamente maior e apresentaram menos lacunas no uso, do
que as mulheres que receberam apenas uma ou três caixas, o que sugere que o acesso mais
livre melhora a continuidade.
Duas áreas em Londres participaram de um projeto-piloto em que os
anticoncepcionais orais estavam à venda sem prescrição médica. Daniel Grossman
argumenta que a política deve ser amplamente adotada, enquanto Sarah Jarvis acredita que
é a abordagem errada para reduzir a gravidez não-planejada (GROSSMAN, 2009).
A provisão da contracepção hormonal por farmacêuticos mostrou-se recentemente
viável e aceitável para as mulheres no estado de Washington (GROSSMAN, 2009).
Para o autor, embora existam preocupações nos Estados Unidos quanto ao custo
para as mulheres obterem os contraceptivos orais sem prescrição médica, em alguns
29

estados há precedentes para a manutenção de financiamento governamental para a


contracepção de emergência sem prescrição para mulheres de baixa renda.
Tornar os contraceptivos orais disponíveis sem prescrição não eliminaria a opção
de consultar um médico. De fato, a pesquisa no México citada por Grossman (2009) indica
que as mulheres movem-se entre as fontes de provimento, e mais de metade das mulheres
que obtêm suas pílulas de uma farmácia começaram a usá-las sob os cuidados de um
médico. Mulheres que valorizam a opinião de um médico ou que têm dúvidas sobre seu
perfil de risco ainda poderiam consultar um médico ou uma enfermeira mas não
precisariam fazê-lo (GROSSMAN, 2009).
Grossman (2009) diz que a exigência de prescrição é uma barreira obsoleta e
paternalista ao uso de contraceptivos, além de não ser baseada em evidências. Se os
governos estiverem comprometidos em enfrentar o desafio da gravidez não-intencional e o
problema associado da mortalidade materna no mundo em desenvolvimento, os sistemas
de saúde precisariam criar mecanismos para permitir um acesso mais livre à contracepção
hormonal para todas as mulheres, com baixo custo ou gratuitamente.

3.6 Descontinuação e não uso de métodos contraceptivos

Parafraseando os autores Heilborn, Portella, Brandão, Cabral, Grupo CONPRuSUS


(2009), a atenção à saúde da mulher vem sendo construída no Brasil a partir de sucessivas
políticas públicas de saúde.
Ainda de acordo com os autores citados, algumas mulheres diziam interromper o
uso de contracepção, valendo-se da idéia de terem receio de que os métodos usados no
passado podem causar problemas de saúde. Para elas, essa é a justificativa para não
utilizarem estes métodos. Os efeitos secundários (ou o medo deles) constituem as
principais razões para não-uso e para o uso interrompido dos métodos hormonais.
Para os autores, a dificuldade no acesso para as mulheres além da idade reprodutiva
aparece como motivo mais importante para a não utilização ou interrupção no passado.
Para mulheres em idade reprodutiva, há maior disponibilidade de informação e de
métodos, e os serviços reduzem os problemas relacionados à dificuldade de acesso.
30

Ao realizarem a comparação entre dois grupos de mulheres, um deles incluiu


mulheres em idade fértil e, um segundo, as que se encontravam além da idade reprodutiva,
verificou-se que a razão para a não-adesão foi uma mudança de ênfase no acesso e na
qualidade do atendimento
Heilborn, Portella, Brandão, Cabral e o Grupo CONPRuSUS (2009) informam que
a descontinuação do uso de métodos hormonais, devida à experiência sentida pelos efeitos
colaterais indesejáveis, pode ser compreensível, considerando os medicamentos que são
mais acessíveis para o público. Fica claro que os efeitos secundários destas experiências
das mulheres são causados por comprimidos anticoncepcionais de qualidade questionável,
ou são resultado de um padrão internacional cujas dosagens são demasiadamente elevadas.
Para eles, a falta de acesso à consulta dos serviços agrava a questão dos efeitos
colaterais, tanto para as mulheres que vivenciam a realidade dele como para aquelas que
têm medo deles.
Os contraceptivos orais espalham-se pelo país, incentivados pelos médicos e pela
propaganda do setor farmacêutico, sem diretrizes estruturadas de planejamento familiar
para os serviços de saúde. Ainda assim, não houve uma drástica transformação das
mentalidades e dos comportamentos sexuais e reprodutivos entre homens e mulheres e
persistem ainda muitos desafios no campo da assistência à contracepção.
As implicações sociais dos efeitos secundários não podem ser ignoradas quando se
consideram os fatores que as mulheres têm em conta. O fato das mulheres usarem
preservativos, injeção, pílulas e outros métodos modernos não significa que esses métodos
sejam de alta qualidade. Também não significa que elas façam uso contínuo e adequado
dos mesmos (HEILBORN, PORTELLA, BRANDÃO, CABRAL E O GRUPO
CONPRuSUS, 2009).
Para os autores, na maioria das vezes, existem problemas de adaptação ao
anticoncepcional nos primeiros dois ou três meses, e elas, frequentemente, param de usar o
método, e ficam desprotegidas entre o uso de um método contraceptivo e outro. O uso
inconsistente da contracepção, provavelmente, representa um sinal de fraqueza no sistema
de serviços de saúde, em vez da possibilidade de que o usuário está realizando uma busca
consciente e consistente para um contraceptivo satisfatório. Conversas com as mulheres,
bem como visitas aos postos e serviços de saúde, sugerem que as percepções sobre os
efeitos secundários e as preocupações com a saúde sobre a forma de contracepção, evitem
31

mais problemas de eficácia e conveniência (HEILBORN, PORTELLA, BRANDÃO,


CABRAL e o GRUPO CONPRuSUS, 2009).
Os autores perceberam que as preocupações sobre efeitos colaterais e segurança são
muito mais importantes para as mulheres do que o acesso aos contraceptivos, a dificuldade
e baixa qualidade dos serviços disponíveis. Existem mulheres que não reconhecem que,
parte dos problemas que enfrentam, podem ser encarados com a melhoria da qualidade do
serviço, como por exemplo: mudança de contracepção no âmbito da supervisão de um
médico para ajustar problemas durante os primeiros meses de uso, ou a disponibilidade de
moderna medicina na rede pública de saúde. As mulheres acabam atribuindo uma série de
limitações ou problemas para o método hormonal, mesmo se elas não chegaram a
experimentá-los.
Segundo eles, o que se observa, então, é que a informação, a facilitação e o
acompanhamento, pelo menos, nos primeiros meses do uso dos métodos contraceptivos, é
um fator importante para se mudar a questão da não adesão aos métodos contraceptivos.
Trabalhos e campanhas constantes devem ser uma prática nos serviços de saúde, de modo
que a orientação seja favorável à adesão.
32

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após estudar o assunto aqui mencionado, pode-se avaliar a questão da falta de


adesão aos métodos contraceptivos considerando-se muitos fatores.
Dessa forma, conclui-se não ser fácil encontrar uma receita que melhore a situação,
contudo, faz-se necessário a tomada de decisões que melhorem o quadro atual. Para isso,
convêm buscar maior acessibilidade aos métodos, maior divulgação e difusão dos
programas de saúde pública, de forte conteúdo educativo, que ajudem no conhecimento
dos benefícios da adesão aos métodos, na percepção dos seus efeitos colaterais. Além
disso, precisam que instruam a mulher a se proteger e cuidar da contracepção, por meio da
correta utilização do método.
Há que se cuidar para que essas campanhas venham a considerar as condições
culturais, sociais e econômicas, completando-se com atenção especial a grupos como os
jovens adolescentes, setores desprotegidos economicamente e até aquelas populações mais
afastadas e alheias às informações.
A consumidora é o principal objeto da adesão. Faz-se necessário melhorar a
percepção geral do método, enfrentando-se todas as idéias errôneas e confusas que possui,
combatendo-se enfaticamente todas as suas preocupações e temores sem fundamento. É
importante, também, tratar dos assuntos referentes aos efeitos colaterais, derivados de uma
suposta associação da pílula com o câncer, trombose, doenças cérebro-vasculares, etc., e
ainda, sua relação com o ganho de peso, náuseas, mudanças de humor, manchas, e as
supostas repercussões sobre a fertilidade futura.
Conhecer os métodos contraceptivos é absolutamente fundamental para que a
adesão aconteça, de fato, desde um conhecimento que permita reagir ao esquecimento de
uma dose, até a aparição de uma mancha, uma cefaléia, diarréia ou náusea.
Com a ajuda do médico, a mulher deve ser a protagonista da escolha de seu método
contraceptivo, através da análise de riscos e benefícios em consonância com seu perfil
individual e suas necessidades e motivações pessoais e familiares.
O médico e o pessoal da saúde também têm um trabalho muito importante para
desenvolver em ações para a melhora da adesão aos métodos contraceptivos. Sua
influência na opinião da mulher é de grande valia.
33

A informação adequada ao nível social e cultural de cada mulher é crucial para a


melhora da adesão, configurando-se como principal elemento tranquilizador.
Uma adesão incorreta aos métodos acarreta conseqüências psicológicas, sociais e
econômicas na forma da gravidez indesejada, onde muitas são interrompidas,
voluntariamente.
É preciso que haja a conscientização da necessidade de se tomar medidas para
evitar esquecimentos, respeitar os intervalos corretos entre os ciclos e proteger-se com um
segundo método, quando por diferentes razões não possa consumir, circunstancialmente,
os métodos mais corriqueiros e habituais. Nesse caso, a adoção de uma rotina é uma boa
maneira de se conseguir uma adesão correta.
Finalmente, todos os agentes que atuam no planejamento familiar, desde o médico
até os governos, da indústria farmacêutica aos meios de comunicação, devem concentrar
forças para empreenderem campanhas informativas e educativas, juntamente com ações
específicas, que ajudem a mulher no uso correto dos métodos contraceptivos.
Quanto à experiência vivenciada no município de Carmo da Cachoeira, MG, vê-se
que são muitas as dificuldades que reforçam as já existentes, no que diz respeito à adesão
aos métodos contraceptivos e à sua manutenção de maneira uniforme e correta.
O compromisso daqueles que estão com tudo em mãos para se possibilitar essa
adesão ainda está longe do ideal para que o sucesso seja alcançado.
34

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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concepções, práticas e reflexões críticas. Brasília: Conselho Federal de Psicologia, 2002.
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Mulher. Assistência em Planejamento Familiar: Manual Técnico/Secretaria de Políticas
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Programáticas Estratégicas. Política nacional de atenção integral à saúde da mulher:
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