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Fugitivos 1

O livro 'Fugitivos' de Guilherme Teixeira aborda temas pesados como violência doméstica, abuso e manipulação emocional, buscando dar voz às vítimas sem romantizar a dor. A narrativa segue Eloah e Max, dois adolescentes que acreditam no amor, enquanto a realidade de relacionamentos abusivos e traumas familiares se desenrola ao seu redor. A obra alerta para os perigos do amor cego e os ciclos de abuso, destacando a necessidade de buscar ajuda em situações de violência.

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Fugitivos 1

O livro 'Fugitivos' de Guilherme Teixeira aborda temas pesados como violência doméstica, abuso e manipulação emocional, buscando dar voz às vítimas sem romantizar a dor. A narrativa segue Eloah e Max, dois adolescentes que acreditam no amor, enquanto a realidade de relacionamentos abusivos e traumas familiares se desenrola ao seu redor. A obra alerta para os perigos do amor cego e os ciclos de abuso, destacando a necessidade de buscar ajuda em situações de violência.

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FUGITIVOS

POR: GUILHERME TEIXEIRA


Este livro contém cenas que podem ser perturbadoras ou sensíveis para
alguns leitores, incluindo:

●​ Violência doméstica e psicológica​

●​ Abuso sexual e exploração infantil (menções indiretas)​

●​ Assassinato, feminicídio e perseguição​

●​ Relacionamentos abusivos e manipulação emocional​

●​ Transtornos mentais e traumas familiares​

A história aborda temas densos com o objetivo de denunciar ciclos de


violência, expor sistemas de abuso e dar voz às vítimas silenciadas, sem
romantizar a dor.

Caso você esteja em um momento delicado ou já tenha passado por


experiências semelhantes, considere o seu bem-estar emocional antes de
prosseguir com a leitura.​
Este livro é uma ficção, mas o sofrimento de muitas pessoas é real — e
merece cuidado, respeito e acolhimento.

Se você ou alguém que você conhece está passando por uma situação de
abuso, procure ajuda profissional ou disque 180.
Capítulo 1

Romeu e Julieta, é uma obra atemporal que retrata o amor jovial,
nos faz sonhar com um amor avassalador que consome a nossa alma, que
nos faz desejar o “sagrado amor profano”.
Mas quando paramos para analisar, Romeu e Julieta se conheceram
e logo se “apaixonaram”; poucas horas depois, trocaram suas primeiras
juras de amor. No dia seguinte, se casaram. Três dias depois, morreram.
De onde tiramos que essas histórias são certas? De onde tiramos
que o amor precisa ser intenso e avassalador?
Mas quando somos jovens, precisamos de algo que nos faça sentir
vivos. Que nos faça acreditar que somos os protagonistas de um grande
filme, com trilha sonora ao fundo e finais que desafiam a lógica.
É, no caso de Eloah, o filme parecia um romance dirigido por um
roteirista bêbado.
Ela acreditava que o amor podia tudo — até mesmo mudar o
mundo. Tinha quinze anos. Na cabeça dela, bastava um beijo, um “eu te
amo” sussurrado no intervalo da escola, e o resto da vida virava uma
comédia romântica com final feliz. Fofa. Ingênua. Completamente ferrada.
Max também era um romântico, no tipo “bandido bom de coração”.
Vivia com o tênis sujo, o cabelo bagunçado e uma autoestima que
desafiava qualquer estatística. Ele não tinha dinheiro, sobrenome, nem o
mínimo de paciência com gente rica. Mas bastou Eloah aparecer com seu
uniforme passado e olhar de novela das nove para ele decidir que sim, era
ela. A escolhida. O amor épico da sua vida de merda.
Eles se encontraram como todo casal condenado ao desastre: por
acaso — ou por um castigo divino mal disfarçado. Bastaram três
conversas, dois beijos e meia troca de olhares para jurarem amor eterno.
Afinal, o que poderia dar errado entre dois adolescentes inconsequentes, de
mundos opostos, cercados de problemas familiares e cheios de hormônios?
Absolutamente tudo.
Mas naquele início, tudo parecia perfeito.
Ou quase.
O pai dela — quer dizer, o padrasto — já não gostava muito do
Max. Na verdade, ele não gostava de nada que não pudesse controlar. Ele
era o tipo de homem que sorria com os dentes, mas morde com as palavras.
E Max? Max era indomável. Era óbvio que aquilo não terminaria bem.
Mas, enquanto o mundo real gritava alerta, os dois só ouviam
música de fundo.
Acreditavam em amor acima de tudo.
Mesmo que o “tudo” incluísse gritos abafados atrás de portas
fechadas, olhares duros no corredor e um silêncio incômodo que rondava a
casa de Eloah como um fantasma educado.
Eles achavam que estavam vivendo um conto de fadas.
Na verdade, estavam entrando de cabeça num pesadelo — e
sorrindo.

♟♟♟

Casa da família Bourguignon - 09:00

Sobre a mesa de café da manhã farta — com frutas exóticas e doces


franceses que, em poucas horas, iriam direto para o lixo como todo bom
símbolo da hipocrisia burguesa — havia uma fome. Mas não a fome por
croissants ou geleia artesanal. Era outra coisa. Uma fome mais funda, mais
suja. A fome de alma. Aquela que nem o mais exclusivo banquete de
domingo consegue enganar por muito tempo.
A mansão dos Bourguignon, claro, fingia não saber disso.
Localizada na zona nobre de São João del-Rei, ostentava vidro, concreto e
arrogância. Tudo milimetricamente calculado para impressionar — ou
humilhar — qualquer um que ousasse ter menos.
Lá dentro? Um teatro. Família grande, bem vestida, perfeitamente
ensaiada. Daquelas que dá bom dia ao jardineiro e contrata um padre só
para manter as aparências.
Podre. Do luxo aos ossos.
E os vizinhos? Ah, os vizinhos. Morrendo de inveja, é claro. Quem
não gostaria de ser um Bourguignon? Dinheiro velho, fazenda tradicional,
mineradora de prestígio. Um catálogo de poder e café gourmet.
Foi nesse cenário de revista de decoração com cheiro de mofo
moral que surgiu Armando Peçanha.
E fez o que qualquer parasita esperto faria: encantou-se pela
herdeira. Mas não pela beleza. Nem pela doçura. Armando tinha um
coração seletivo: só batia por dígitos bancários.
O amor? Esse ficou no discurso. A verdade é que o que começou
como ambição logo virou obsessão. E depois, como era de se esperar,
apodreceu em ódio. Ódio por ela. Pela liberdade dela. Pelo fato de que, por
mais que ele mandasse, ela ainda respirava.
As agressões começaram como quem testa a água: uma palavra
atravessada aqui, um silêncio ameaçador ali.
Enquanto Eloah suspirava nos braços sinceros de Max, Liessa se
despedaçava em casa — peça por peça, como porcelana sendo esmagada
sob salto alto.
Era um cativeiro de luxo. Com móveis italianos, vinhos caros e
uma esposa que sorria para as visitas com sangue nos dentes.
O ciclo era o mesmo: abuso, silêncio, maquiagem. Repetir.
E Armando, sempre metódico, fazia questão de deixar marcas. Não
por desejo. Não por fetiche.
Mas por propriedade.
— Quero ver se outro homem vai ter coragem de te tocar. Vai saber
que você é minha.
Sim, ele dizia isso nu, diante do espelho, como um vilão de quinta
categoria — só que real. E perigoso.
Liessa decorava as desculpas como quem repete uma oração: “Foi
o degrau”, “escorreguei no banheiro”, “estou com enxaqueca”.
Mas naquela sexta-feira, algo mudou.
Armando chegou bêbado, sujo, com um leve aroma de sangue e
muito ego inflado. Estava no modo “Deus”. Pena que só se comportava
como demônio.
Trabalho? Ah, sim. Uma vez por ano, talvez, fingia ser útil. Só para
justificar o jatinho, os ternos sob medida e o whisky de 40 anos.
Dessa vez, ele nem disfarçou. Invadiu o quarto com o furor de um
animal selvagem.
— Tira a roupa. Agora.
Liessa tentou negociar com o diabo:
— Hoje não. Estou exausta.
Mas é claro que isso era pedir demais.
Ele quebrou o abajur, estilhaçou janelas, destruiu o celular dela
como quem arranca a última esperança de socorro.
E aí, como um bicho marcado, avançou.
Mordeu. Arranhou. Deixou marcas visíveis. Queria exibir sua
“posse” como troféu humano.
Segurou a cabeça dela com as duas mãos e a arremessou contra a
parede.
BAM.
Um som seco. Cruel. Como se o mundo estivesse aplaudindo sua
covardia.
— Você não é nada sem mim, Liessa! NADA! Eu sou o seu dono!
Donos, aliás, costumam cuidar do que possuem. Mas Armando não
era dono. Era praga.
E naquela noite, Liessa não gritou. Não chorou.
Ela só entendeu.
Se ficasse, morreria.
Não em sentido figurado. Morreria mesmo. De verdade. Em câmera
lenta. Como tantas outras.
E foi entre os cacos de vidro, com o gosto metálico do próprio
sangue na boca, que ela fez sua escolha.
Capítulo 2
Casa da família Bourguignon - 09:00

O amor é uma arma mortal. Uma droga venenosa que te corrói por
inteiro, que te faz cometer os maiores absurdos “em nome do amor”.
Mas até onde estaríamos dispostos a ir por amor? Até onde
aguentaríamos, suportaríamos, nos calaríamos... em nome do amor?
Liessa amava Armando. Isso era inegável.
Mas será que vale a pena amar uma pessoa que só te machuca? Que
enche seu corpo de hematomas e, no dia seguinte, aparece com um buquê
de flores dizendo que isso nunca mais vai acontecer?
Liessa era esperta. Era inteligente. Mas o amor cega. Ele não te
deixa enxergar o que está bem na sua frente.
Mas aí eu te pergunto, caro leitor: se é tudo em nome do amor, por
que você ainda se sente tão sozinho? Por que dói tanto?
Às vezes, nos acostumamos tanto com algo ruim, que passamos a
acreditar que não existe mais nada além daquilo.
Amanheceu. O horror da noite passada deu lugar à calmaria e ao
sereno da manhã. Os pássaros cantavam do lado de fora da casa dos
Bourguignon. O sol aquecia o jardim, e o roxo das orquídeas combinava
com os hematomas espalhados pelo corpo de Liessa.
Estava tudo “normal” depois do que Armando chamou de “um
simples desentendimento”.
Ele havia pedido para Sônia — a única empregada doméstica da
casa — preparar um café da manhã digno de novela. Comprou as flores
favoritas de sua esposa e as colocou em cada degrau da escada, fazendo-a
se sentir uma rainha.
Afinal, nada melhor do que passar pelo inferno e depois receber
migalhas de afeto.
Armando, Liessa e Eloah estavam sentados à mesa, tomando seu
grande e luxuoso café da manhã.
A enteada o olhava com raiva. Ela escutara os gritos da noite
passada. Sabia exatamente o que havia acontecido.
Liessa fingia não perceber. A cada cinco segundos, lançava a
Armando um olhar apaixonado — que ele retribuía como o bom esposo
que fingia ser.
— Obrigada, meu amor — disse ela, com um sorriso no rosto e
tentando ignorar a dor na costela semi fraturada.
— Você merece o mundo, minha rainha.
Eloah se contorceu na cadeira. Aquilo tudo a enojava. O teatro do
casal perfeito era doentio. Ele espancava e estuprava a mãe — e depois
vinha com flores? E estava tudo bem?
— Me desculpa... — disse Armando, abaixando a cabeça, tentando
se passar por arrependido.
— Pessoas cometem erros... E está tudo bem.
A raiva subiu pelo corpo de Eloah como ácido. O nojo veio junto.
Tudo aquilo era insuportável.
Sem conseguir se controlar, ela vomitou em cima da mesa, sujando
a comida e o novo terno azul-marinho de Armando.
— PUTA QUE PARIU, ELOAH! SUA PORCA NOJENTA!
Sem reação, a menina apenas chorava. Liessa correu até ela e a
abraçou como se fosse uma criança indefesa — o que, de fato, era.
— Calma, Armando — disse, passando a mão pelos cabelos de
Eloah, tentando garantir que aquilo fosse apenas um enjoo.
— Vou pedir ajuda da Sônia para limpar tudo. Enquanto isso, vá
para o quarto. Eu mesma lavo seu terno à mão depois.
Armando subiu as escadas furioso, chutando cada uma das flores
colocadas nos degraus.
A cada chute, o corpo de Liessa se encolhia — reflexo do medo que
sentia daquele homem.

♟♟♟
Casa da família Bourguignon — 18:00

— Às vezes eu me perco nas suas entrelinhas, sabia? — Max diz,


fazendo Eloah corar.
— Você está ouvindo muito Anavitória — ela responde, rindo, com
os olhos semicerrados e uma expressão divertida, como quem tenta
disfarçar o quanto está encantada. enquanto ele a observa como um
admirador vendo a Monalisa ao vivo pela primeira vez.
Ele sorri de canto, um sorriso que a deixa completamente sem jeito.
— Talvez... Mas estou extremamente apaixonado. Não tem como
eu não ser clichê.
Ele faz um movimento com as mãos, puxando-a delicadamente
para perto. Ela ri e o beija.
O primeiro amor é assim: uma paixão avassaladora que parece
prestes a nos consumir, que faz com que todo clichê se torne absolutamente
necessário. Não é à toa que o amor é clichê.
— O que você vai fazer hoje, meu amor? — ele pergunta, ansioso
para ouvir que a noite dela será toda dele.
— Não sei. Minha mãe falou que precisamos conversar. E, aliás...
— ela o faz parar de andar com um leve puxão. — Preciso comprar seu
presente de aniversário de namoro.
Ele repete o gesto de costume, como se já tivessem tido aquela
conversa mil vezes.
— Não precisa... Mas o seu já está comprado.
Ela sorri. É claro que sabia. Não apenas porque estavam prestes a
completar dois anos de namoro e ele já havia dito que queria presenteá-la,
mas porque ele não sabia disfarçar. Já tinha deixado escapar várias vezes, e
ela apenas fingia não perceber.
— Estou ansiosa para descobrir...
Eles caminham pelas ruas da cidade em direção à casa de Eloah.
Não demoram muito para chegar.
Entram na casa.
O silêncio é estranho, pesado. Contrasta brutalmente com a alegria
de poucos minutos atrás, como se o mundo tivesse virado do avesso em
questão de passos. Não é o silêncio comum de uma casa vazia — é o tipo
de silêncio que parece esconder algo. Eloah sente um arrepio subir pela
espinha. O ar está parado, como se o tempo tivesse prendido a respiração.
Então, bem ao fundo, eles ouvem. É quase imperceptível, mas está
lá: uma briga. Vozes abafadas. Uma masculina, furiosa. Uma feminina, em
desespero. Eloah sente o coração acelerar. O sangue esfria nas veias.
Ela olha para Max. Ele entende na hora. Não precisam dizer nada.
O instinto grita mais alto que qualquer palavra.
Eloah sobe as escadas com pressa. Max a acompanha, atento. O
som da discussão vai ganhando força conforme se aproximam do fim do
corredor.
— Mãe... — sussurra Eloah, aflita.
Ela não vê Liessa em nenhum lugar, mas reconhece a voz. E
reconhece a outra voz também: Armando. O padrasto.
Param diante da porta do quarto do casal. O som da briga agora está
forte, mesmo com o isolamento acústico que Armando mandou instalar. As
palavras agressivas atravessam a madeira.
— Sua inútil... você acha que vai me deixar? Acha que vai me
expor?
Depois, o som seco de um tapa.
Eloah estremece. Max fecha os punhos.
Ela se lembra dos avisos da mãe: "Nunca interfira, filha. É
perigoso demais." Mas como ficar parada agora?
De repente, dois tiros. Um após o outro. Estalos secos que cortam o
ar como facas.
Tudo congela.
Eloah não pensa. Arromba a porta com o ombro, num impulso
desesperado. A cena que vê parece tirada de um pesadelo.
Liessa está caída no chão, o corpo mole, sangrando. Dois tiros. Um
no peito, outro na cabeça. Os olhos ainda abertos, mas sem brilho. Sem
vida.
Eloah grita. O som sai rasgado, vindo do fundo da alma, e seu rosto
se contorce numa expressão de puro desespero, os olhos arregalados e a
boca aberta em dor. Max, atrás dela, recua um passo, engolido pelo
impacto da cena — o olhar dilatado de horror denuncia que seu mundo
também acaba ali, naquele instante congelado no tempo.
Armando ainda está no quarto. A arma na mão. O rosto
transtornado, os olhos arregalados. Ele se vira para Eloah com um olhar
enlouquecido.
— VOCÊS MATARAM A MINHA MULHER! — berra. —
VOCÊS MATARAM A MINHA MULHER! VOCÊS VÃO PAGAR, SUA
DESGRAÇADA!
Ele se aproxima com a arma apontada. Eloah, em pânico, estende a
mão — e, num reflexo, agarra a arma. Um segundo suspenso no tempo.
Ela nunca segurou uma arma. Mas agora está com ela nas mãos.
Max entra no quarto no mesmo instante e, ao ver a cena, parte para
cima de Armando. O empurra com força e acerta um soco direto no rosto
dele. A arma cai no chão.
Eles lutam. Um combate bruto, sem regras, cheio de ódio
acumulado. Max tenta dominar Armando, mas ele é forte. Rola no chão,
troca de golpes. Eloah recua, ainda em choque, os olhos grudados no corpo
da mãe.
Armando consegue se soltar e foge pelo corredor, tropeçando nos
próprios passos, até desaparecer pelos fundos da casa.
Eloah cai de joelhos ao lado de Liessa. Segura a mão da mãe. Ela
está fria. A morte já a levou.
Max se aproxima, ofegante, com o rosto machucado.
— Eloah... a gente precisa sair daqui. Agora.
Mas ela não ouve. Ou se ouve, não consegue responder. A dor é
maior do que qualquer palavra. Ela encosta a testa no ombro da mãe e
chora como se o mundo tivesse acabado. Porque, para ela, acabou.
Ela sempre soube que um dia isso aconteceria. E aconteceu.
De repente, a porta dos fundos se abre.
Sônia entra correndo, pálida, ofegante. Coloca a mão sobre a boca
ao ver o corpo de Liessa caído no chão.
— Meu Deus... eu sabia... — sussurra, os olhos marejados. — Eu
sabia que isso ia acontecer. Mas sua mãe... sua mãe estava preparada...
Eloah não consegue responder. Está ajoelhada, em choque,
agarrada ao corpo da mãe como se ainda pudesse trazê-la de volta. O choro
dela não tem som — é um vazio, uma implosão por dentro.
— Vamos, Eloah! Vamos! — implora Sônia, puxando o braço da
garota. — A gente precisa sair daqui agora!
Ela repete quase como um mantra, como se dissesse também a si
mesma:
— Vamos, vamos, vamos, vamos, vamos, vamos...
Max tenta ajudar, tenta puxá-la também. Mas Eloah resiste.
— Eu não posso deixar ela! — grita, com os olhos cheios de
desespero.
— Você tem que sair, Eloah! — Max diz com firmeza. — Ela te
preparou pra isso! Agora é a sua vez de sobreviver!
Enquanto a cena se desdobra no quarto, Armando já está na rua, em
um espetáculo teatral e cínico. Grita para quem quiser ouvir:
— ELES MATARAM A MINHA MULHER! FOI ELOAH! FOI
AQUELE MARGINAL COM ELA! ELES MATARAM A MINHA
MULHER! — berra, com o rosto coberto de sangue e o tom de um ator
desesperado. — CHAMEM A POLÍCIA! SEGURANÇA! SEGUREM
ELES!
Os vizinhos começam a sair de casa. Câmeras de segurança estão
por toda parte. O som da sirene, ao longe, já ecoa pela rua.
Sônia segura Eloah pelos ombros, a sacode levemente.
— Me escuta, Eloah! Me escuta! — seu tom é rápido, urgente,
direto. — Hoje era o dia. Vocês iam fugir hoje. Sua mãe planejou tudo.
Eloah arregala os olhos.
— O quê...?
— Liessa pagou para que sua avó fosse antes para a Espanha. Vocês
iriam logo depois. Era pra ser amanhã, mas... ela sabia que não tinha mais
tempo. Ela sabia que algo ia acontecer. Me deixou instruções.
Max se aproxima, tenso.
— Sônia, o que a gente faz?
— Nos fundos da casa tem uma moto esperando. Tanque cheio.
Documentos de vocês já estão lá — novos nomes, novas identidades. Dois
passaportes, dinheiro vivo, chip europeu. Tudo.
Ela encara Eloah nos olhos.
— Você vai chegar no aeroporto particular. Tem um jatinho pronto.
Vai para o Paraguai primeiro. De lá, voo direto para a Espanha. Sua avó vai
estar te esperando. Ela levou parte da fortuna que Liessa escondeu de
Armando. Lá, vocês estarão seguras.
— Mas... a minha mãe... — Eloah sussurra, engasgada, com a
garganta rasgada pelo choro.
— Ela te salvou, Eloah. Deu a vida dela pra isso acontecer. Se você
ficar, ela morre à toa. E você vai morrer também.
Max segura a mão dela com firmeza.
— Vamos. Eu tô com você. Até o fim.
Lá fora, os gritos de Armando ganham aliados. Alguns seguranças
da empresa dele já se aproximam dos portões. O som das viaturas agora
está nítido. Não resta mais tempo.
Sônia aponta.
— Vão! Pela porta da lavanderia! Direto pros fundos! A moto está
encostada atrás da estufa! Rápido!
Eloah hesita por um último segundo. Encarando o corpo da mãe.
Gravando cada detalhe, cada mancha, cada silêncio.
Então, corre.
Ela e Max desaparecem pelos fundos da casa, em disparada. O
choro engolido, o medo vibrando no estômago. Sobem na moto sem nem
colocar os capacetes. Max acelera com força.
Sônia ainda fica parada por um instante, olhando para trás, o
coração apertado entre o medo do que virá e a esperança de que Eloah
consiga escapar. Seus olhos brilham com lágrimas contidas, mas sua
expressão é firme — como quem sabe que cumpriu sua missão, mesmo ao
custo do próprio coração.
— Vai, Eloah... desapareça desse mundo. E, se um dia voltar... que
seja como vingança.
As luzes das viaturas já pintam a fachada da casa em azul e
vermelho.
Mas Eloah já não está mais ali.

♟♟♟

Aeroporto de São João del-Rei — 18:30

O motor da moto ainda vibrava quando Max e Eloah atravessaram


o portão lateral do aeroporto particular. A pista privada já estava
parcialmente iluminada. Um jatinho branco, elegante, aguardava com a
escada estendida e as luzes acesas. Cena perfeita de fuga de novela das
nove.
Mas, é claro, Eloah não correu em direção ao avião. Seria simples
demais, não?
Ela travou, os olhos arregalados, ao ver uma silhueta conhecida do
outro lado do pátio.
— Stephanie?! — gritou, surpresa, como se a presença da madrinha
no meio do caos fosse a coisa mais absurda da noite.
Era ela. De jaleco por cima da roupa civil — porque uma médica
legista nunca perde o estilo funcional —, o cabelo preso de qualquer jeito e
os olhos vermelhos. Dra. Stephanie, especialista em lidar com mortos...
mas que agora parecia um pouco morta por dentro também.
Eloah correu até ela como se tivesse oito anos de novo. Porque, às
vezes, só um abraço de madrinha salva.
— Madrinha... a minha mãe...
Stephanie, sem tempo pra drama (embora estivesse claramente
afogada nele), segurou o rosto da afilhada como se fosse dar uma bronca:
— Eloah, não temos tempo pra chorar agora. O plano mudou. E
você precisa ouvir com atenção. Muita atenção.
Max se aproximou, o clássico coadjuvante perdido na trama:
— Mudou como assim? A gente não vai naquele avião?
Stephanie respirou fundo, como quem está prestes a contar que o
bolo queimou — mas em escala catastrófica:
— Vocês não vão no jatinho da sua mãe. Ela previu isso. Armando
já devia estar monitorando a rota, desconfiado. Se vocês decolassem
naquele avião, iriam direto pro caixão. Classe executiva pro inferno.

Ela apontou para outro avião. Menor. Mais discreto. Menos


explodível.
— Aquele ali vai para o Uruguai. De lá, vocês pegam outro voo até
Madri. Tudo já está pronto. A piloto é minha amiga. De confiança. Sabe de
tudo. Inclusive como não morrer no processo.
As luzes das viaturas começaram a piscar na entrada do aeroporto.
Azul. Vermelho. Azul. Vermelho. O balé clássico dos predadores
uniformizados.
— Rápido! Vamos! — Stephanie agora empurrava os dois com a
urgência de quem sabia que minutos custavam vidas. Literalmente.
Max ainda quis fazer perguntas. Lógico. Sempre tem alguém que
quer entender tudo quando já passou da hora:
— Mas por que esse teatro? Por que enganar assim?
Stephanie o encarou como quem explica para uma criança que o
coelhinho da Páscoa não existe:
— Porque o plano da sua mãe, Eloah, nunca foi fugir com vocês.
Ela sabia que ia morrer hoje. Tudo isso... foi pra salvar você.
Silêncio.
O tipo de silêncio que machuca.
— Ela fez o mundo acreditar que ia fugir com você. Por isso criou
aquele voo. Para distrair. Para enganar Armando. Para morrer como uma
mulher “fugitiva”... e garantir que ele não fosse atrás de você. Entende?
E, com a delicadeza de quem rasga o curativo sem anestesia:
— Ela não se matou, Eloah. Ela se sacrificou.
O jatinho de Liessa virou uma bola de fogo. A explosão iluminou o
céu como fogos de Réveillon — só que o fim era outro. Nada de contagem
regressiva. Já era meia-noite na alma de Eloah.
O calor chegou até o hangar. Os vidros tremeram. O barulho foi de
arrepiar até os ossos. Uma morte final. Uma morte com espetáculo.
Eloah caiu de joelhos.
Max tentou segurá-la, mas o corpo dela ficou ali. A alma, essa, já
tinha se jogado no meio das chamas, procurando a mãe.
Stephanie ainda tinha forças pra puxá-los:
— Agora vão! VÃO!
A piloto do novo avião já gritava da escada:
— Subam! Agora! Eles estão vindo!
Eloah tentou mais um abraço, uma última âncora. Mas Stephanie a
empurrou com um olhar molhado e uma voz que sabia que nunca mais
veria aquela menina:
— Desaparece, minha menina. Faz valer esse sacrifício. Some do
mundo. Vira outra pessoa. Sobrevive.
Eloah entrou. Max também. A escotilha se fechou como uma
sentença.
O avião ganhou velocidade e subiu. Longe das sirenes. Longe do
sangue. Longe do passado.
Eloah ainda olhava pela janela. A escuridão agora fazia sentido.
Liessa nunca quis viver.
Ela não salvou a si mesma.
Ela salvou a filha.
E em algum ponto do céu, com lágrimas, ódio e um novo nome nos
documentos, Eloah deixou de existir. Porque às vezes, sobreviver é o único
jeito possível de se vingar.

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