TEORIA DA ARGUMENTAÇÃO
A proposta da Nova Retórica de Perelman é reformular o pensamento jurídico
contemporâneo desvinculando-o do pensamento positivista e demonstrar que o aplicador
das leis ao proferir sua decisão não pode ater-se simplesmente à literalidade da norma,
devendo pensar nos fatos como situações que podem ser valoradas (juízo de valor).
A lógica jurídica difere das demais por ser uma lógica dialética e argumentativa,
não bastando a demonstração, devendo o juiz ter uma visão estrita de cada caso concreto
para aplicar a solução mais razoável e a mais justa.
Perelman entende a Teoria da Argumentação como uma técnica capaz de substituir
a violência. O que esta última pretende obter pela coerção, a argumentação pretende fazê-
lo pela adesão. Por isso, o recurso à argumentação requer o estabelecimento de uma
comunidade de espíritos que, pelo mecanismo interno de sua própria constituição, exclua
a violência. Isso porque, em uma comunidade baseada em princípios igualitários, as
próprias instituições regulam as discussões (CHIARADIA, 2011).
A argumentação faz parte do cotidiano da sociedade. Mas, a argumentação como
teoria passou a ser fundamental entre os gregos, quando a democracia se consolidou como
uma necessidade e as pessoas precisaram sozinhas, se defender junto à justiça. Num novo
cenário, tem-se a valoração da Constituição e seus princípios, da normatização das regras,
que vinham como base de todo o ordenamento jurídico, com seus princípios firmados sob
a mesma hierarquia, o que posteriormente desaguaria na necessidade de ponderá-los.
Diante disto, criou-se a Teoria da Argumentação Jurídica, para a solução desse conflito e
escolha da melhor decisão diante ao caso. No mundo jurídico, essa objetividade não pode
ser a única resposta correta, não é inequívoca. Sendo assim, a argumentação jurídica
contém somente o ônus argumentativo. Não há o compromisso de se demonstrar, e sim, de
se argumentar. Assim, criou-se a necessidade de uma reflexão sobre a argumentação
jurídica, em um aspecto inovador. A argumentação jurídica racional e prática. Tem-se uma
valoração dos princípios constitucionais, dos Direitos e garantias detidos na Constituição,
que devem ser respeitados e ponderados, diante de uma argumentação bem fundada, que
alcance a generalidade, objetividade e racionalidade desejadas.
Domínios e limites da argumentação
MARCELO LAMY (2010) justifica que a argumentação não é uma demonstração
matemática sob a qual o raciocínio fica preso a um encadeamento de ideias
necessariamente conducentes a um resultado preciso, exato e único. Talvez seja essa a
falsa argumentação, a que visa simplesmente à adesão manipulante.
Para argumentar ou utilizar as técnicas da argumentação, é preciso reaprender a
pensar (nossas ideias, nossas convicções, são apenas nossas – ou, no máximo, de
avalizados pensadores –, não são, necessariamente, a verdade).
Guarde...
A argumentação faz parte do mundo jurídico, que é feito de linguagem,
racionalidade e convencimento. Todos os participantes do processo apresentam
argumentos e a fundamentação é requisito essencial da decisão judicial.
No entanto, a interpretação jurídica lida com casos fáceis e com casos difíceis. Os
casos fáceis podem ser decididos com base na lógica formal, dedutiva, aplicando-se a
norma pertinente aos fatos, mediante subsunção. Nos casos difíceis, porém, a solução
precisa ser construída tendo em conta elementos que não estão integralmente contidos
nos enunciados normativos aplicáveis. Valorações morais e políticas precisarão integrar o
itinerário lógico da produção da decisão. Este é o ambiente típico da argumentação
jurídica.
Reforçando o que falamos na introdução: argumentação é a atividade de fornecer
razões para a defesa de um ponto de vista, o exercício de justificação de determinada tese
ou conclusão.
Trata-se de um processo racional e discursivo de demonstração da correção e da
justiça da solução proposta, que tem como elementos fundamentais:
i) a linguagem;
ii) as premissas que funcionam como ponto de partida; e,
iii) regras norteadoras da passagem das premissas à conclusão.
A necessidade da argumentação se potencializa com a substituição da lógica
formal ou dedutiva pela razão prática, e tem por finalidade propiciar o controle da
racionalidade das decisões judiciais (DORICO, 2013).
Fundamentação das ideias
Para a argumentação não basta, embora seja muito relevante, aprender a enunciar
as ideias, é preciso dominar técnicas de justificar as mesmas. Em verdade, esse é objeto
central da argumentação: saber apresentar adequadamente (com logicidade) os
fundamentos das premissas que apresenta e os embasamentos das inferências, das
conclusões extraídas das premissas. Duas formas ou dois caminhos podem ser trilhados
para tanto: a seara do raciocínio bem estruturado e a senda da apresentação de exemplos
contundentes.
Refutação das ideias
A refutação constitui uma atividade essencial da argumentação, pois atinge as duas
finalidades a que a mesma persegue: racionalidade e persuasão. Por um lado, a refutação
de teses contraditórias ou contrárias constitui aprofundamento lógico da reflexão
(racionalidade). Por outro, enfrentar as eventuais objeções tem efeitos persuasivos
imediatos: dissuadir eventuais detratores, bem como manter o debate intelectual nas mãos
do emissor. As objeções não enfrentadas podem facilmente aparecer em discurso
seguinte; mas, nessa situação, não será mais o primeiro emissor quem conduzirá o
raciocínio e o convencimento alheio.
TIPOS DE ARGUMENTOS:
[Link] por Analogias
É o uso de um caso semelhante já resolvido para justificar a solução de um novo caso.
Exemplo:
“Embora a lei não fale sobre entrega por aplicativo, a situação é parecida com a dos
motoboys celetistas. Logo, o mesmo raciocínio deve ser aplicado.”
[Link] de Autoridade (Doutrinário ou Jurisprudencial)
É baseado na opinião de autores renomados (doutrina) ou decisões de tribunais
(jurisprudência).
Exemplo:
“Conforme ensina Maria Helena Diniz, o contrato de adesão deve ser interpretado em favor
do aderente. Assim, o banco não pode impor cláusulas abusivas.”
Argumento de Autoridade?
É quando você apoia sua tese na opinião de alguém reconhecido como especialista ou
instituição respeitada, como:
Doutrinadores (autores de livros jurídicos)
Jurisprudência (decisões dos tribunais)
Súmulas e enunciados
Órgãos oficiais (ex: STF, STJ, CNJ)
Esse tipo de argumento tem peso persuasivo, porque vem de quem tem conhecimento
técnico ou poder decisório no assunto.
03. Argumento Teleológico (ou Finalístico)
Interpreta a norma considerando o objetivo (finalidade) para o qual ela foi criada.
Exemplo:
“A Lei Maria da Penha visa proteger a mulher da violência doméstica. Por isso, mesmo sem
agressão física, a violência psicológica já justifica medida protetiva.”
[Link] de Oposição
Segundo Valverde, o argumento de oposição é composto por três partes principais:
1. Operador Concessivo: Expressões que introduzem a ideia contrária, como
"embora", "ainda que", "mesmo que", entre outras.
2. Ponto de Vista Contrário: Apresentação da tese oposta à que se pretende defender.
3. Ponto de Vista Favorável: Refutação da tese contrária e apresentação dos
argumentos que sustentam a posição do autor.
Exemplo Prático
Situação: Uma escola é processada pelos pais de uma aluna que se feriu durante o recreio,
alegando negligência.
[Link] de Oposição:
"Embora a instituição de ensino alegue que o incidente foi um caso fortuito, imprevisível e
inevitável, entende-se que houve falha no dever de vigilância por parte da escola,
configurando negligência e, portanto, ensejando o dever de indenizar."
Nesse exemplo, a argumentação inicia reconhecendo a tese contrária (caso fortuito), mas
a refuta com base na responsabilidade da escola em zelar pela segurança dos alunos.
[Link] de Causa e Efeito?
É um tipo de argumento que estabelece uma relação lógica entre um fato (a causa) e o
resultado ou consequência (o efeito). No Direito, ele é usado para:
Mostrar que uma ação produziu um dano (ou um benefício)
Relacionar uma norma com seus efeitos jurídicos
Justificar responsabilidade civil, penal, administrativa, etc.
Exemplo Jurídico Simples
Caso: Um motorista ultrapassou o sinal vermelho e causou um acidente.
Argumento de causa e efeito:
“O réu, ao ultrapassar o sinal vermelho, deu causa ao acidente. Em razão
dessa conduta imprudente, deve responder pelos danos materiais e morais
decorrentes do fato.”
[Link] Ad Hominem?
"Ad hominem" significa "contra o homem" (em latim).
É um tipo de argumentação em que, ao invés de rebater a ideia ou o argumento
apresentado, ataca-se quem o apresenta.
Características do Argumento Ad Hominem:
Foca na pessoa, e não na ideia.
Tenta desacreditar o oponente, não seu argumento.
Pode ser usado para manipular ou enfraquecer o discurso do outro, mesmo
que sem base lógica.
Exemplo Clássico (Falacioso)
"Não devemos levar em conta o que o advogado disse sobre direitos humanos —
afinal, ele já foi preso por corrupção."
Erro: O argumento da pessoa está sendo ignorado e substituído por um ataque à
sua reputação.
08. Argumento por Absurdo
1. Admissão provisória da tese contrária: Inicia-se assumindo, para fins de
argumentação, a validade da posição oposta.
2. Desenvolvimento lógico: A partir dessa premissa, constrói-se um raciocínio
lógico que leva a uma consequência absurda ou inaceitável.
3. Conclusão: Diante do absurdo resultante, conclui-se que a tese inicialmente
assumida é insustentável, reforçando a validade da posição original.
Exemplo Prático
Situação: Um advogado defende um réu acusado de portar ilegalmente uma arma
de fogo.
[Link] por absurdo:
"Suponhamos, por um momento, que a tese da acusação esteja correta e que meu cliente
deva permanecer preso por portar ilegalmente uma arma. Se aceitarmos essa lógica,
então todos os indivíduos que cometem o mesmo delito deveriam estar encarcerados. No
entanto, dados estatísticos mostram que a maioria dessas pessoas responde em liberdade.
Manter meu cliente preso, enquanto outros em situação semelhante estão soltos, seria uma
incoerência e uma injustiça, o que é um absurdo. Portanto, a tese da acusação não se
sustenta."