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Aquecimento

O documento discute a relação entre a Geografia e a teoria do aquecimento global, destacando a emergência climática e a influência do capitalismo nas alterações climáticas. O autor analisa como a ciência climática atribui eventos extremos ao impacto humano e critica o negacionismo que descredibiliza a ciência. A Geografia, segundo o autor, deve explorar a complexidade da relação entre sociedade e natureza para compreender melhor o aquecimento global.
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Aquecimento

O documento discute a relação entre a Geografia e a teoria do aquecimento global, destacando a emergência climática e a influência do capitalismo nas alterações climáticas. O autor analisa como a ciência climática atribui eventos extremos ao impacto humano e critica o negacionismo que descredibiliza a ciência. A Geografia, segundo o autor, deve explorar a complexidade da relação entre sociedade e natureza para compreender melhor o aquecimento global.
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Publicado originalmente em: ZANGALLI Jr, Paulo Cesar.

Contribuições da Geografia à teoria do


Aquecimento Global . In: SPOSITO, Eliseu, CLAUDINO, Guilherme Santos (org.). Teorias na
Geografia II: manifestações da natureza. São Paulo: Contexto, 2022.

Contribuições da Geografia à teoria do Aquecimento Global

Paulo C. Zangalli Jr.

O clima está em crise! Há uma emergência climática em curso. Essas duas


afirmações são amplamente utilizadas e incorporadas no contexto social, político e
econômico em substituição e/ou complementaridade ao problema do aquecimento global.
São expressões que revelam uma contradição fundamental. Há uma falha
metabólica na relação sociedade e natureza no capitalismo. Essa ruptura metabólica pode
ser expressa pelo crescente aumento de Gases de Efeito Estufa (GEE), em especial o
dióxido de carbono, que promoveram alterações climáticas profundas no último século
em decorrência de um aquecimento do planeta. Mas, será que elas são capazes de capturar
a essência do debate¿
O último relatório do IPCC (IPCC AR6, 2021) foi bastante claro em apontar que
as emissões de gases de efeito estufa incrementadas à atmosfera desde 1750 (século
XVIII) aqueceu o planeta.
Os avanços nos estudos de atribuição das alterações climáticas têm possibilitado
evidenciar aquilo que é contribuição do modo de produção capitalista - apesar do relatório
continuar a chamar de contribuições humanas ou antrópicas - e aquilo que seria de
responsabilidade da variabilidade natural.
As últimas duas décadas do século 21 sozinhas apresentaram aumento de 0,99ºC
(0,84-1,1ºC) quando comparado ao período de 1850-1900. Entre 2003-2012 houve um
aquecimento adicional de 0,19ºC. Isso levou o IPCC (2021, p.10) a afirmar que “a escala
das mudanças recentes em todo o sistema climático e o estado atual de muitos aspectos
do sistema climático não têm precedentes ao longo de muitos séculos a muitos milhares
de anos”.
A concentração de CO2 no ano de 2021 não tem precedentes ao menos nos últimos
dois milhões de anos, enquanto as concentrações de CH4 e N2O não tem precedentes ao
menos nos últimos 800 mil anos. Isso provocou um aquecimento acelerado a partir da
década de 1970, ou seja, nenhum outro período com intervalo de 50 anos, nos últimos
dois mil anos, teve aquecimento tão intenso quanto os últimos cinquenta anos (IPCC,
2021). A velocidade e a intensidade emergem como questão importante.
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Aquecimento Global . In: SPOSITO, Eliseu, CLAUDINO, Guilherme Santos (org.). Teorias na
Geografia II: manifestações da natureza. São Paulo: Contexto, 2022.

A mudança climática induzida pelo homem já afeta muitos extremos climáticos


em todas as regiões do globo, percebendo mudanças nos padrões de ondas de calor e de
frio, precipitação intensa, secas e ciclones tropicais. Essa parece ser uma preocupação
importante para muitos daqueles envolvidos com os debates das alterações climáticas e a
particularidade da atribuição não-natural aos eventos extremos foi um avanço
significativo deste último relatório publicado.
Isso implica dizer que a ciência do clima consegue atribuir o grau de influência
também nos episódios extremos, que sempre impactou a sociedade, agora indicando quais
deles são parte da variabilidade natural do clima, mas também quais deles são perturbados
pelo capitalismo. O último relatório do IPCC aponta que os eventos:
extremos de calor (incluindo ilhas de calor) ficou mais frequente e
intenso, enquanto extremos de frio ficou menos frequente e menos
severo em muitas regiões do planeta desde 1950, e que há alta confiança
em afirmar que as alterações induzidas pelo homem é o principal
indutor dessas alterações. Alguns dos recentes episódios extremos de
calor observados nas últimas décadas eram extremamente improváveis
de ocorrer sem a influência humana no sistema climático. Ondas de
calor marinhas praticamente dobraram de frequência desde a década de
1980 (alta confiança), e a influência humana muito provavelmente
contribuiu com boa parte delas desde, ao menos, 2006. (IPCC, 2021, p.
11).

Da mesma forma os eventos de precipitação extremas aumentaram desde a década


de 1950 e a ação da sociedade capitalista provavelmente é o principal indutor, da mesma
forma que contribuiu para o aumento de secas agrícolas e ecológicas em várias áreas do
planeta em decorrência das mudanças na evapotranspiração.
Mas, diante de tanta tinta gasta para evidenciar essas contradições, qual tem sido
o papel da Geografia neste debate¿ Como a Geografia pode contribuir para evidenciar a
essência dessa contradição metabólica entre sociedade e natureza que culmina no
aquecimento do planeta e consequentemente na emergência climática atual¿ São essas as
questões que orientam o sentido deste texto.
Partimos do princípio de que a climatologia geográfica, enquanto um campo de
pesquisa, demonstrou ceticismo quanto à influência da sociedade nas alterações
climáticas globais, mas que isso se deu devido à incompreensão escalar dos processos e
dos fenômenos observados, por isso é preciso partir da materialidade do problema para
que ele possa ser compreendido na sua complexidade. Há, portanto, uma relação espacial
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e temporal marcadamente importante sobre essa relação entre clima e sociedade que deve
ser compreendido e explorado e esse pode e deve ser papel da Geografia.

Porque a Geografia negou o Aquecimento Global Antropogênico¿


A década de 1990 e o início dos anos 2000 marcaram avanços e retrocessos quanto
ao debate das alterações climáticas e do aquecimento global. À medida que a ciência
caminhava cada vez mais rumo à uma ciência da atribuição – conferindo à sociedade
papel crucial no aquecimento verificado – os debates no campo político e social, com
ressonância e respaldo de alguns pesquisadores, trazia à tona os céticos.
Se no campo científico o debate girava entorno do papel da sociedade na
conformação do problema, no campo político e social a estratégia era reproduzir essa
contradição primeiro para descredibilizar a ciência e segundo para ganhar tempo em uma
transição econômica. O alerta era claro, qualquer medida adotada para combater as
alterações climáticas significaria redução do crescimento econômico ou ataques
significativos à economia dos países industrializados, já antecipando o que hoje, no senso
comum, se define como negacionismo.
Para avançar sobre esse debate, primeiro é preciso definir o que é negacionismo.
Em artigo de opinião publicado pelos irmãos Hoofnagle (2010), o negacionismo é
definido como “o emprego de argumentos retóricos para dar a aparência e a legitimidade
de debate onde não há um debate posto, uma abordagem que tem como meta rejeitar uma
proposição onde exista um debate científico”
Se aceitássemos essa definição como verdadeira estaríamos considerando que a
dimensão negacionista acontece fora dos campos da ciência. E, aqui conseguiríamos de
pronto enquadrar o campo político, social e econômico como os produtores e os
receptores do negacionismo em oposição ao campo científico que se colocaria como o
campo em ataque, novamente isolando a ciência do seu plano concreto, real. Poderíamos
abordar as ideias gerais do criacionismo, por exemplo, que avança atacando aquilo que
chamam de ciência materialista. Ou, pegar apenas um elemento textual de um trabalho
científico sério e descontextualizá-lo para justificar uma posição.
Enquanto elemento retórico, o negacionismo, atua muito próximo da linguagem
do marketing (dessa instância mediadora que é o marketing) e promove inversões. O
discurso negacionismo tem, portanto, alguns mecanismos e, em geral:
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Os processos de negacionismo apresentam cinco características, todas


observadas ao longo dos últimos meses nas discussões públicas sobre a
pandemia, 1) identificação de conspirações; 2) uso de falsos experts; 3)
seletividade, focalizando em artigos isolados que contrariam o
consenso científico (“cherry-picking”); 4) criação de expectativas
impossíveis para a pesquisa (temporalidade da produção de vacinas
etc.) e, por fim 5) uso de deturpações ou falácias lógicas; (CAMARGO
Jr e COELI, 2020, p.2).

Logo, o negacionismo é uma forma de não debate que oculta e inverte parte da
realidade, dialogando, especialmente com categoria como a ideologia. Vamos agora
tentar responder a quem serve esse não debate. Para responder a essa pergunta são
necessárias outras questões: a que e a quem serve a ciência¿ A ciência é um campo do
conhecimento que busca a verdade¿
Em especial à ciência climática não há como escapar a essas questões. Nessas
esferas, o consenso científico entorno do tema era questionado e algumas pesquisas
surgiram sobre o tema. Naomi Oreskes (2004) publica na revista Science um estudo
analisando 928 artigos da base de dados do Institute for Scientific Information entre 1993
e 2003 e conclui que 75% consensuavam entorno da influência social nas alterações
climáticas, enquanto os outros 25% não se posicionavam quanto a isso. A pesquisa dela
não encontrou nenhum artigo contrário à hipótese do Aquecimento Global
Antropogênico.
Na mesma linha, John Cook et al. (2013) revelava que apenas 0,7% negaram que
o homem seria o responsável pela mudança climática, e 0,3% expressaram incertezas
quanto às origens. Cook analisou, entre 1991 e 2011, 11.944 artigos do banco de dados
Web of Knowledge.
Nossas pesquisas, no entanto, desvelaram aspectos significativos para a
Geografia. Analisando quatro periódicos científicos nacionais (Revista Brasileira de
Climatologia – RBClima e; Revista Brasileira de Meteorologia - RBMet) e internacionais
(Climatic Change e Theoretical and Applied Climatology) notamos dois aspectos
particulares: i) praticamente não haviam artigos que questionavam o papel da sociedade
na conformação do problema, em especial na literatura internacional, e a grande
preocupação volta-se em posicionar a ciência em discussões de base (complexificação da
modelagem terrestre) ou discutindo os impactos, mitigação e adaptação; ii) a geografia
era o único campo aberto que abrigou um debate que flertava com uma produção
científica conhecida como cética (ZANGALLI JR, 2015).
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Àquela altura, a explicação que pudemos apresentar daria conta de dois


paradigmas em disputa. Um paradigma do aquecimento antropogênico e outro do
aquecimento natural ditando as regras para uma ciência ainda em fase de consolidação.
Havia algum aspecto de verdade nisso, mas não se tratava mais de disputas
paradigmáticas, mas sim do papel histórico à qual a Geografia enquanto campo científico
historicamente esteve ligada e as bases teóricas às quais ela não desejava se despir para
que pudesse de fato compreender o Aquecimento Global e as mudanças climáticas na sua
totalidade.
Antes de avançar para o particular geográfico, é preciso compreender, os aspectos
gerais da ciência, que nos auxilie compreender porque diante de tanto conhecimento
reafirmando as evidências científicas alguns campos da ciência insistiam em questionar
essas verdades¿ Desvelar essa questão necessita compreender a ciência historicamente e
na sua dimensão predominante, ou seja, a sua concepção positivista (centrada na empiria
e no falseamento de hipóteses). Essa é a concepção hegemônica que estrutura a ciência e
que ao mesmo tempo afasta o discurso científico da busca pela verdade e associa-o a um
discurso dos fatos, um discurso empírico, produzido por um método universal capaz de
comprovar os fatos.
Esse debate é melhor sistematizado, principalmente, por Popper (2008) em seu
discurso sobre o método e na definição do que seriam as teorias:
Uma vez propostas, as teorias especulativas devem ser rigorosas e
inexoravelmente testadas por observação e experimento. Teorias que
não resistem a testes de observação e experimentais devem ser
eliminadas e substituídas por conjecturas especulativas ulteriores. A
ciência progride por tentativa e erro, por conjecturas e refutações.
Apenas as teorias mais adaptadas sobrevivem. Embora nunca se possa
dizer legitimamente de uma teoria que ela é verdadeira, pode-se
confiantemente dizer que ela é a melhor disponível, que é melhor do
que qualquer coisa que veio antes (BERNARDES e ARAÚJO, 2020, p.
54)

Esse discurso tem ao menos duas debilidades, primeiro se não é possível garantir
uma correspondência direta entre todos os termos teóricos e os fatos, então uma teoria
poderia conter elementos suspeitos ou elementos metafísicos. Ou seja, tudo aquilo que
não pode ser demonstrado por meio de testes de teorias como verdadeiras ou falsa, por
meio da verificação das hipóteses por meio da empiria, escaparia aos atestados e
postulados científicos (MEDEIROS, 2020).
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A ciência sob essa forma universal funcionaria por meio da confirmação, que
conferiria sobre um fenômeno o atestado de verdade relativa e provisório. Portanto, se
testou positivamente contra determinados dados está confirmado, enquanto verdade
relativa, sem que saibamos, no entanto, se é uma verdade definitiva - o que reduz o grau
de confiança no discurso científico. Ao mesmo tempo, se a ciência não é capaz de atestar
se uma teoria é verdadeira definitivamente, por meio da falsificação atestamos, porém,
aquelas que são falsas (MEDEIROS, 2020).
Esse discurso por si só afasta a ciência de um discurso verdadeiro e coloca a
ciência como um conhecimento útil relativizado. Essa forma histórica de
desenvolvimento do discurso científico que está diretamente relacionado à negação das
alterações climáticas tem uma razão de ser e para desvelar essa razão é preciso considerar
quem produziu esses problemas e a quem serve.
Lukács (2012) aponta esse problema no livro A ontologia do ser social, associando
essa forma de representação universal da ciência com as esferas da reprodução da vida
no capitalismo. Lukács (2012) destaca que a ultrainserção e mercantilização das esferas
da vida como os esportes, a arte, a vida familiar ampliou a complexidade do capitalismo
como sistema social. Isso implicaria/demandaria instrumentos mediadores que pudessem
enfrentar e tratar das contradições que se elevaram exponencialmente. Lukács chamou
isso de manipulação.
O capitalismo criou um aparato manipulatório que de modo mais ou menos
deliberado deveria enfrentar as contradições que transbordavam na esfera da vida
cotidiana. Assim ao invés de cobrar uma aproximação da verdade, a filosofia da ciência
cobrou dos cientistas resoluções práticas para os problemas do capitalismo e menos
apreço com a verdade. Por essa razão o positivismo que se tornou a representação da
ciência por excelência defendeu a ciência como conhecimento instrumental, mesmo
quando se acreditava que ainda poderia haver aproximação com a verdade.
Aqui entra numa dimensão importante: uma sociedade não pode se reproduzir se
as práticas dos seres humanos estiverem em desconformidade com a reprodução das suas
estruturas. Então toda sociedade tem que conter, como parte integrante, elementos que
atuem mobilizando social e individualmente os indivíduos, e aí entram o papel do Estado,
do aparato jurídico, da moral e da ciência.
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A Geografia, em particular, não escapa à essa contradição. Mas, apresenta


elementos críticos complexos que precisam ser considerados, em especial o porque
prevalece um discurso que nega as influências da sociedade capitalista nas alterações
climáticas, mesmo diante de uma virada crítica ao neopositivismo.
É de amplo conhecimento que a geografia, a partir de Max Sorre, estabelece uma
crítica à concepção estática e tradicional de climatologia, que vê o clima como estado
médio da atmosfera, evidenciando seu caráter dinâmico. Nossa principal referência sobre
isso é Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro que para sua interpretação da realidade,
parte da compreensão de que a atmosfera possui uma dinâmica oscilante e mutante. Para
ele, “a mutabilidade constante das condições atmosféricas é movente por excelência,
podendo associar-se ao próprio fluir do tempo que escoa, que flui ininterruptamente”
(MONTEIRO, . p.)
Trata-se de uma climatologia geográfica que ganha contornos espaço-temporais
próprios, primeiro marcadamente influenciado pelo ritmo do tempo atmosférico em sua
intima relação com a organização do espaço e segundo, fortemente influenciado pelos
processos geológicos de morfoesculturação da paisagem (em especial os debates sobre o
quaternário).
A climatologia dinâmica, que associa o tempo atmosférico ao tempo cronológico
abstrato (pelo paradigma do rítimo), perde sua materialidade e reproduz a dicotomia que
perdura nas ciências que estudam a história do planeta constituída de “modelos teóricos
fortemente divergentes: uma história da Terra feita de progressos lentos, de mudanças
uniformes e imperceptíveis; ou, então, uma história intercalada de catástrofes violentas,
feita de saltos qualitativos e revoluções” (ROSSI, 1992, p.9).
Essa contradição precisa ser superada ou posta em perspectiva para a compreensão
das alterações climáticas em sua totalidade e a escala é a categoria central para a sua
compreensão. Tratarei, aqui neste capítulo, da forma específica da geografia física de
trabalhar essa categoria da geografia.
Vejamos porque: os debates sobre as escalas climáticas na geografia estão, em
geral, relacionados a recortes temporais e espaciais rígidos. No já clássico livro
Climatologia: noções básicas e climas do Brasil, Mendonça e Dani-Oliveira (2007, p. 21)
abre a discussão de escala, afirmando que “a escala de estudo [...] conduz à delimitação
da sua dimensão” e continua definindo que “a escala climática diz respeito à dimensão,
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ou ordem de grandeza espacial (extensão) e temporal (duração), segundo a qual os


fenômenos são estudados”
Aqui surgem questões de “ordem hierárquica das grandezas climáticas, tanto
espaciais quanto temporais” (MENDONÇA E DANI-OLIVEIRA, 2007, p. 21) o micro
clima passa a ser compreendido como uma grandeza hierárquica horizontal de 10km a
alguns metros; abaixo de 100m de altura – vertical e; na escala temporal de minutos a
dias), que está contido dentro do mesoclima, clima regional na ordem de 2000km a 10km,
com estrutura vertical de 12 km a 100m, num dimensão temporal das várias horas a meses
e, por fim, o macroclima - clima zonal, maior que 2000km com estrutura vertical entre 3
a 12 km, com variação temporal entre decênios, milênios etc.
Na escala temporal Mendonça e Dani-Oliveira (2007) diferenciam essas escalas
entre geológica, histórica e contemporânea e afirmam que é na escala geológica “que se
observam as variações e mudanças climáticas ocorridas no planeta”.
Da mesma forma, numa tentativa de compreender a escala enquanto um processo
Sant’Anna Neto (2013), define mudança climática como uma escala temporal. Do local
(ritmo), ao global (mudança), passando pelo regional (variabilidade), para ele, a mudança
climática é considerada uma escala temporal que sintetizam processos que ocorrem no
tempo geológico, com causas puramente naturais. Trata-se, portanto, de uma escala
global em que os processos de análise são generalizados.
José Bueno Conti, num livro clássico publicado no final da década de 1990
sistematiza essa relação de modo bastante claro. Para ele a mudança climática teria
duração de 10 milhões a 100 mil anos e teria como causas prováveis, mudanças na órbita
de translação e na inclinação do eixo da terra (os chamados ciclos de Milankovicth). No
entanto, há um outro conceito que não foi operacionalizado pela Geografia que é o de
alterações climáticas – que para Conti tem duração muita curta e influência da atividade
antrópica, da urbanização, do desmatamento etc. Essa sistematização pode ser apreendida
por meio do quadro da Figura 1.

Figura 1. Escalas climáticas e duração dos fenômenos.


Termo Duração Causas Prováveis
Revolução Superior a 10 Atividade geotectônica e possíveis
Climática milhões de anos variações polares
Mudança 10 milhões a Mudança na órbita de translação e na
Climática 100 mil anos inclinação do eixo da terra
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Flutuação 100 mil anos a Atividades vulcânicas e mudanças na


Climática 10 anos emissão solar
Interação Inferior a 10
Interação atmosfera-oceano
Climática anos
Atividade antrópica, urbanização,
Alteração
Muito curta desmatamento, armazenamento de
Climática
água etc.
Fonte: Conti, 1988.

Autores como Stanley Schumm, por exemplo, afirmam que essa forma de
operacionalizar a escala está ligada à nossa capacidade de apreensão de dados e de
interpretação das ordens de grandeza. Dessa forma, no campo da observação e na busca
por uma conexão entre espaço e tempo, inferimos fenômenos que têm uma correlação
bastante direta: eventos de grande abrangência espacial são mais comumente explicados
por períodos mais amplos, ao passo que alterações de pequena dimensão espacial podem
ser observados em uma escala de tempo perceptível no período de uma vida humana.
A partir dessa concepção do tempo medido, Schumm vai relativizar a dimensão
temporal a partir da sua magnitude (em especial para a geomorfologia, mas que é uma
forma transposta, também, para a climatologia). Como podemos observar na Figura 2,
Schumm considera que, em mil anos, a formação de um terraço aluvial pode ser
considerado um megaevento, enquanto em 1 milhão de anos esse processo de formação
de terraços seria considerado um micro evento. Mas, nessa perspectiva como considerar
a formação de terraços oriundos do rompimento de barragens como ocorreu em Mariana
ou de Brumadinho¿ Como considerar as alterações climáticas recentes numa história
climática de bilhões de anos¿ Seria um mega-evento¿ Essa discussão é, inclusive, o que
está no bojo dos debates do Antropoceno.

Figura 2. Classificação escalar dos fenômenos


Publicado originalmente em: ZANGALLI Jr, Paulo Cesar. Contribuições da Geografia à teoria do
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Fonte: NAKASHIMA et al, 2017, p. 36

Trata-se, portanto, de uma relativização funcional à dualidade entre estabilidade e


instabilidade da natureza. O princípio básico é: há uma estabilidade e um equilíbrio que
sempre precisa ser alcançado, intercalado a isso há um período de instabilidade que
precisa ser trabalhado para um retorno à estabilidade. O que está completamente
relacionada a uma forma de interpretação da natureza coerente com a própria concepção
de progresso que fundamentou o desenvolvimento capitalista à revoluções abruptas e a
mudanças lentas.
Essa relativização temporal do fenômeno e a hierarquização sistêmica,
fundamenta a compreensão da Geografia, em especial da Climatologia Geográfica, do
que vai ser a Mudança Climática. Portanto, um fenômeno percebido e explicado na escala
global oriundo de causas naturais endógenas (como vulcanismos e tectonismos) e
exógenas (variações nos ciclos orbitais, em especial os ciclos de Milankovitch).
Por isso, a escala espacial regional foi e é constantemente reivindicada pela
Geografia. Também fortemente influenciado pela escola francesa e pelo geossistema, a
escala regional é vista como resultado de “uma combinação de dinâmicas e processos
atmosféricos, tanto da ação da circulação geral quanto da circulação secundária (ou seja,
as áreas de pressão e o domínio dos sistemas atmosféricos)” (SANT’ANNA NETO, 2013,
p.82).
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A região seria capaz de expressar a interação entre elementos e fatores geográficos


do clima e a sua modificação provocada pela ação humana. Essa relação não seria
plenamente capturada pelos modelos globais de circulação atmosférica que
generalizariam os processos, sendo necessário um processo de downscaling dos modelos
globais para modelos regionais.
Acontece que a confiabilidade e a interação entre os modelos em diferentes escalas
ganharam complexidade. A depender das variáveis os modelos regionais – que utilizam
as informações de modelos globais como partida – são capazes de adicionar valor às
projeções e representações do clima, como é o caso do modelo RegCM4 que teve melhor
desempenho quando comparado com os Modelos Globais de Circulação (GCMs), uma
vez que mapeou melhor o padrão espacial observado da precipitação na primavera
associada à Oscilação Sul do El Niño (ENSO), sobre a América do Sul (AMBRISI et al,
2021).
A melhoria dos modelos é considerável, e apesar de haver incertezas inerentes
quanto ao sistema climático, tanto quanto à habilidade de reproduzir este sistema
climático (AMRIBIZI et al, 2021), o fato é que muito se avançou nas representações do
sistema climático e nos impactos a ele relacionados. A Figura 3 apresenta um esquema
de como se deu essa melhoria, tanto nos GCMs, quanto no acoplamento de outros
sistemas terrestres como as mudanças de uso do solo, oceano e atmosfera, aerossóis,
ciclos biogeoquímicos, dinâmica da vegetação, química da atmosfera e cobertura de gelo.

Figura 3. Evolução dos modelos climáticos e suas interações


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Aquecimento Global . In: SPOSITO, Eliseu, CLAUDINO, Guilherme Santos (org.). Teorias na
Geografia II: manifestações da natureza. São Paulo: Contexto, 2022.

Fonte: Ambrizzi et al, 2021, p. 5

A dimensão regional é reivindicada, também, pelo seu caráter de unidade


homogênea, em que os elementos da paisagem, como o solo, relevo, clima vegetação e
atividade humana se repetiriam. Há aqui, a dimensão de unidade e identidade geográfica
e a expressão da variabilidade se faz presente, confundindo-se, geralmente, com as
alterações climáticas recentes. Não desenvolverei aqui o conceito de variabilidade e a sua
dimensão naturalizante para a análise geográfica do clima, para isso sugiro a leitura do
capítulo escrito por Lindberg Nascimento Jr, neste mesmo livro.
A reivindicação da região, enquanto uma escala regional, também confundiu a
compreensão da totalidade das alterações climáticas. Primeiro, porque para a sua
compreensão – do ponto de vista estritamente climático - naturaliza o debate, pois busca
aspectos da repetição climática, inerente à natureza do clima e antropiza a sociedade. Mas,
se perde na formulação de uma teoria concreta das alterações climáticas pela geografia
por negar de imediato aspectos históricos constitutivos da análise do clima na geografia
física, tais como “a avaliação quantitativa dos geossistemas e dos processos formadores
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de paisagens” (NEVES, 2020, p. 532), bem como a modelagem, fruto de uma crítica
necessária e fundamental à um paradigma geográfico neopositivista pretérito.
O negacionismo nos colocou, portanto, um não debate e nos conduziu à defender
muito daquilo que discordamos. Ao promover um não debate invertemos a realidade,
mascaramos as reais relações de poder e ocultamos o real e necessário. No caso das
alterações climáticas, uma radical e profunda transformação social que tenha como
centralidade a superação da ruptura metabólica entre sociedade e natureza, refundando,
inclusive aquilo que compreendemos ser o natural.
O que precisamos ter clareza com isso é que a ciência precisa se reaproximar de
um discurso da verdade, para isso é preciso compreender as contradições sociais e o seu
momento histórico. Precisa saber se apropriar dos instrumentais para representar a
realidade, mas também compreender as possibilidades. A ciência não pode ser um saber
instrumental útil à reprodução ampliada do capital. Ela precisa desvelar as contradições
particulares e oferecer saídas uteis que superem o problema universal, o próprio
capitalismo, mas como fazê-lo¿
O reconhecimento da história da natureza do clima, em sua totalidade, deve vir
associada à ordem e a desordem materializada na reprodução do espaço pelo capital, bem
como à ideia de estabilidade e instabilidade inerente à natureza. A instabilidade, a crise,
a desordem aparecem como um problema aparente, quando na verdade é fundamento da
sua reprodução no modo de produção capitalista. Ilustrando: se num primeiro momento,
em climas tropicais, a variabilidade, a instabilidade é um problema para a produção de
agrícola, como as comodities soja, milho e algodão - por exemplo -, num segundo
momento produzimos a estabilidade, a ordem, por meio do agrohidronegócio, fazendo do
clima um insumo da produção, o que altera toda dinâmica espacial e temporal dos
fenômenos envolvidos. Logo, alteramos esses ciclos, nos apropriamos, criamos tempo e
produzimos espaço.
Essa perspectiva só pode ser operada a partir da produção da natureza e da
naturalização das relações de produção. Portanto, a escala, enquanto uma categoria não
pode ser operada de modo fixo e funcional à essas sistematizações. É preciso
compreender que o quadro espacial é constitutivo dos processos e não ocorrem no espaço,
mas definem seu próprio quadro espacial, e que este quadro espacial é relacional, em
Publicado originalmente em: ZANGALLI Jr, Paulo Cesar. Contribuições da Geografia à teoria do
Aquecimento Global . In: SPOSITO, Eliseu, CLAUDINO, Guilherme Santos (org.). Teorias na
Geografia II: manifestações da natureza. São Paulo: Contexto, 2022.

especial aqueles que pretendem relacionar aspectos dos sistemas ecológicos e dos
sistemas financeiros e sociais, como é o caso das alterações climáticas, ou seja:
Comparações entre molduras espaço-temporais diferentes podem
iluminar os problemas da escolha política (devemos favorecer a espaço-
temporalidade dos fluxos financeiros ou aquela dos processos
ecológicos que eles tipicamente destroem, por exemplo?). (HARVEY,
2015, p.130).

Assim, presa sob uma perspectiva sistêmica, a Geografia foi incapaz de perceber
a totalidade do fenômeno, em especial suas relações sociais, políticas e econômicas. Isso
é um aspecto específico que coloca o campo da climatologia geográfica a negar a
influência humana no aquecimento global. Que impediu a geografia de compreender a
realidade e a própria operacionalização dos conceitos e categorias, ou seja, de que
deixamos de discutir mudança climática (climatic change) e passamos a empregar o termo
“alterações climáticas” (climate change) (HULME, 2005). A própria definição do que
seria alteração climática (climate change) nos relatórios do IPCC só veio a se consolidar
no terceiro relatório publicado.
E esse aspecto demanda uma virada epistemológica importante. A adoção e
operacionalização de um conceito de alteração climática também pela geografia.

A totalidade das Alterações climáticas

O aquecimento do planeta é inequívoco, além disso nos últimos dois mil anos não
houve um aquecimento tão acelerado quanto o atual, experenciado nos últimos cinquenta
anos. Esse aquecimento verificado pode ser ainda maior do que o atual, uma vez que os
aerossóis emitidos pela sociedade burguesa podem mascarar o aquecimento em até 0,5ºC
(IPCC AR6, 202). Enquanto a maior parte do aquecimento (1,09ºC) se deu devido a
emissão de dióxido de carbono e metano, poluentes como o dióxido de enxofre e aerossóis
carbonosos podem mascarar este aquecimento, como pode ser visto na Figura 4.

Figura 4. Contribuições para o aquecimento do planeta em relação em 2010-2019


comparado a 1850-1900 a partir de estudos de forçamento radiativo.
Publicado originalmente em: ZANGALLI Jr, Paulo Cesar. Contribuições da Geografia à teoria do
Aquecimento Global . In: SPOSITO, Eliseu, CLAUDINO, Guilherme Santos (org.). Teorias na
Geografia II: manifestações da natureza. São Paulo: Contexto, 2022.

Fonte: Aguilera, 2021

Retomar essa constatação é importante, porque mesmo se o aquecimento


verificado não fosse fruto das emissões desta forma histórica de sociabilidade capitalista
– o que já foi amplamente atestado ser uma verdade – haviam movimentos sociais,
políticos e econômicos disputando o conteúdo do conceito de alteração climática e
reconfigurando aspectos sociais e políticos e econômicos das quais a geografia deveria,
também, se ater.
Por isso, o conceito de alteração climática capaz de capturar a totalidade do debate
é aquele que compreenda as alterações climáticas como fenômenos climáticos alterados
por uma complexa cadeia de ações sociais e naturais iniciadas a partir da revolução
industrial e intensificadas no bojo da sociedade capitalista fossilista (ZANGALLI JR,
2021).
Publicado originalmente em: ZANGALLI Jr, Paulo Cesar. Contribuições da Geografia à teoria do
Aquecimento Global . In: SPOSITO, Eliseu, CLAUDINO, Guilherme Santos (org.). Teorias na
Geografia II: manifestações da natureza. São Paulo: Contexto, 2022.

Por fenômenos climáticos entende-se não a abstração natural do conceito de clima,


mas a ínfima relação ontológica entre sociedade e clima, manifesta na contradição
metabólica entre uma e outra, ou seja, o clima enquanto uma construção social e histórica.
Portanto, este conceito de alteração climática permite a compreensão de outra
questão importante. Que tipo de sociedade tratamos quando projetamos o clima para o
futuro¿ Quando imaginamos cenários de 1,5ºC ou 2ºC, quais são as dimensões políticas,
econômicas e sociais que orientam essa sociedade de 2030, 2040-2080 ou 2100¿
Para responder a que tipo de sociedade queremos produzir precisamos
compreender a sociedade atual. Compreender como o debate político e econômico
incorpora as alterações climáticas em um processo de transição lenta e gradual de um
regime fossilista para um modelo de energias renováveis. Ou seja, como o capitalismo
climático1, essa nova forma de negação das alterações climáticas, opera a dimensão
temporal.
Para compreender o movimento de apropriação do capital sob as alterações
climáticas é importante destacá-lo num processo histórico. Para isso precisamos
compreender que no capitalismo concorrencial, por exemplo, a relação de produção e o
consumo se dava por meio da rápida exaustão dos recursos e pelo desperdício do
suprimento natural e isso poderia afetar a regulação dos preços. Isso fica evidente quando
não há a realização da produção e para regular os preços parte da produção é incinerada
ou simplesmente descartada pelos produtores (FOSTER, 2012). Cabe nesse caso, uma
questão fundamental, o que é rejeito e o que é mercadoria? O que foi resultado do
processo indesejado do capitalismo? O excesso de mercadorias ou a falta de consumo
também é um efeito indesejado do capitalismo?
A diferença aqui está na realização de todas as etapas da produção, distribuição,
circulação e consumo. Logo, aquilo que não se realiza, gerando mais valor para produzir
mais mercadoria passa a se configurar como um produto indesejado. Mas, aquilo que a
princípio não se configura como uma mercadoria adquire um potencial para tal, desde
que as demandas sejam criadas e essa se realize no circuito da produção. Mas, para isso
é fundamental o emprego de mais força de trabalho, não necessariamente na própria
fábrica, mas com a criação de novas empresas capitalistas capazes de alterar a forma pela

1
Newell e Paterson (2010) o definem capitalismo climático como “um modelo que condiciona a
necessidade do capitalismo de continuar o crescimento econômico com mudanças substanciais em relação
ao desenvolvimento industrial baseado no carbono”. Para saber mais consultar Zangalli Jr, 2018.
Publicado originalmente em: ZANGALLI Jr, Paulo Cesar. Contribuições da Geografia à teoria do
Aquecimento Global . In: SPOSITO, Eliseu, CLAUDINO, Guilherme Santos (org.). Teorias na
Geografia II: manifestações da natureza. São Paulo: Contexto, 2022.

qual o capital se relaciona com a natureza sem de fato alterar o seu metabolismo, sem que
as rupturas e as contradições fundamentais aconteçam.
Na fase atual do capitalismo, no entanto, o problema não é mais apenas a
regulação dos preços, portanto esse desperdício dos recursos ou a criação de rejeitos de
forma descontrolada não é totalmente funcional e as políticas de eficiência são bons
indicativos. As estratégias europeias para reduzir as emissões de gases de efeito estufa
são bom exemplo de como esses processos ocorrem. Em documento publicado no ano
2000 e que serviu de base para Programa Europeu de Mudança Climática, o foco do
combate as alterações do clima têm seus princípios voltados para a eficiência energética,
mas também eficiência no produto final. Em outro documento, Plano de Ação sobre
Eficiência Energética, que possui como objetivo alcançar a eficiência do consumo de
energia com uma redução de 20% até 2020, ou seja, uma poupança de 1,5% de energia
ao ano até 2020. Essa poupança de energia implicaria no desenvolvimento de técnicas,
produtos e serviços eficientes do ponto de vista energético. Como bem lembrou O’Connor
(1988, p.23) “the State places itself between capital and nature or mediates capital and
nature with immediate result that the conditions of capitalist production are politicised”.
Evidente que essas novas técnicas, esses novos produtos necessitam de mudanças
comportamentais que contribuíssem para a alteração dos padrões de consumo. Assim, o
plano trazia uma série de medidas a curto e médio prazo destinados a concretizar esses
objetivos, o que inclui produtos que variam desde caldeiras até televisores, passando por
sistemas de iluminação, melhoramento energético dos edifícios e criação de certificações.
As mudanças nas regras de produção deveriam ser seguidas, necessariamente, de mais
consumo para que a produção eficiente seja traduzida em “consumo eficiente”.
A questão agora reside na criação de mercados para solver as demandas. Aqui
entra o papel crucial da publicidade e da criação de desejos de consumo, de ideias e
conceitos para os produtos, da criação de mercados em que possam ser comercializadas
todas as mercadorias criadas pelo capitalismo, independente das necessidades humanas
ou não, o que marcou uma “mudança profunda no que constituem os custos socialmente
necessários para a produção assim como a própria natureza da produção social”
(FOSTER, 2012).
Portanto, agora há o emprego de trabalho vivo na criação de novos valores de uso,
não só a partir dos resíduos, mas dos efeitos indesejados dessa produção. Isso não
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Aquecimento Global . In: SPOSITO, Eliseu, CLAUDINO, Guilherme Santos (org.). Teorias na
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significa que a relação capitalismo e natureza seja equacionada e que os efeitos do


primeiro sobre o segundo não existam mais e que os problemas ambientais estejam
resolvidos. Mas, significa afirmar que sob a ótica capitalista, há a supressão da dimensão
posta entre primeira e segunda natureza e a produção de um metabolismo fruto do próprio
modo de produção capitalista. Conforme afirma Harvey (2016, p.234)
A concepção de natureza como simples mercadoria reificada gera certa
resistência. Há uma batalha entre o modo como o capital conceitua e
usa a relação metabólica com a natureza para construir seu próprio
ecossistema e os diferentes conceitos de natureza (e atitude em relação
a ela) que existem na sociedade civil e até mesmo no aparelho estatal.
Infelizmente o capital não pode mudar sua maneira de analisar e
decompor a natureza em mercadorias e direitos de propriedade privada.

A contradição para encarar a poluição como uma mercadoria está no fato de que
o movimento do capital de valorização do valor se dá à medida que ele incorpora e
autonomiza a força produtora de valor, ou seja, o trabalho vivo subordinado dá origem à
mercadoria que pode então ser comprada com o salário.
É como se o próprio capital se valorizasse, pelo fato de ter adquirido a fonte de
criação do valor. E esta fonte também é a medida do valor, o “trabalho abstrato” que é
determinado como “abstrato” pelo movimento social das trocas de mercadorias, presidido
pelo capital em seu interesse de lucro (GRESPAN, 2008).
Sobre esse aspecto seria inviável pensar que as alterações do clima se
configurariam como uma mercadoria e não mais como um efeito indesejável. Mas, é
fundamental buscar a compreensão de mercadorias que não são produto de trabalho
humano, que não tem valor ou, ainda, que é fruto de um trabalho que não é equalizável.
Aqui surge o clássico exemplo do trabalho de um artista que é incomparável ao de
qualquer outro trabalhador e que, portanto, foge da medida do tempo de trabalho
socialmente necessário para a sua produção. O preço nesse caso é deslocado do valor e
não necessariamente é fruto do trabalho humano. Nesse sentido, o próprio Marx,
ressignifica o que podemos considerar uma mercadoria ao apontar que a mercadoria é
tudo aquilo sobre o qual seja possível estabelecer uma propriedade privada. Importante
lembrar, também, que a produção de valor se faz na medida em que o homem produz a
primeira natureza, gerando assim uma segunda.
As alterações climáticas se tornam um processo pelo qual esse duplo movimento
ocorre, primeiro, porque agora busca-se a privatização sobre os efeitos e as causas deste
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Geografia II: manifestações da natureza. São Paulo: Contexto, 2022.

problema, evidenciado, por exemplo, pelos processos de internalização dos efeitos


indesejados das emissões por meio do auto inventariamento empenhado pelas empresas,
ao mesmo tempo em que há trabalho empregado para que essa mercadoria seja produzida
ao ser incorporada. Mas, também, pela produção do espaço por meio da geoengenharia,
da seletividade espacial de empresas de energia renovável ou dos mecanismos de
manutenção de floresta em pé etc.
O próprio Smith (2007) no seu último artigo publicado já aponta para a superação
dessa dicotomia ao abordar a natureza como estratégia de reprodução do capital. Smith
argumenta que a preservação e a conservação das áreas úmidas nos Estados Unidos
geraram via política pública, portanto, via Estado, um mercado de créditos de áreas
úmidas que culminou em um banco de mitigação de áreas úmidas. Nesse caso, argumenta,
que a mercadoria imediata é a preservação das áreas úmidas, mas que essas não podem
ser produtivamente consumidas. Em termos gerais o processo de produção gerou uma
nova escassez econômica chamada mitigação de áreas úmidas que não existia
previamente. O valor excedente extraído do trabalho morto (esse que também gerou o
produto indesejável do capital) encontra um novo valor de troca extraído a partir do
trabalho de restauração dessas áreas. Como afirma Smith trata-se de “um crédito com
apenas uma ligação simbólica momentânea ao trabalho específico que o originou” (Smith,
2007).
A alteração climática enquanto uma mercadoria, como parte do processo de
produção capitalista da natureza é exemplo significativo desse momento histórico da
acumulação capitalista, pois parte de uma concepção que se insere na produção de uma
mercadoria que incorporam parte do “valor monetário do fluxo de serviços que a natureza
fornece ao capital” (HARVEY, 2016, p.238).
Muitos destes ativos ou créditos gerados e comercializados como forma de
combate ao aquecimento do planeta têm na renda da terra o aporte para a especulação,
portanto com um potencial de valorização futura. Esses ativos são medidos, valorados e
negociados em mercados constituindo o que Moreno (2016) chama de:
Um novo momento da acumulação primitiva, com cercamentos (enclosures)
desses “ativos ambientais”, criando exclusão (separando componentes indivisíveis da
biodiversidade e dos ecossistemas) assegurando um marco jurídico que garanta direitos
de propriedade, e realizando profundas mudanças culturais para o que antes era percebido
Publicado originalmente em: ZANGALLI Jr, Paulo Cesar. Contribuições da Geografia à teoria do
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Geografia II: manifestações da natureza. São Paulo: Contexto, 2022.

socialmente como um bem comum possa ser legitimamente transformado em propriedade


privada.
Esse processo quando pensando sob a perspectiva geográfica e, portanto, sob a
perspectiva da produção do espaço, deve ser encarar a retirada da autonomia dos
territórios camponeses, indígenas, quilombolas em que são aplicadas, alterando o modo
de vida e contribuindo para a acumulação e capital. No entanto, esse processo só é
possível porque surgem novas empresas capitalistas, novas demandas e necessidades que
precisam ser realizadas no circuito de produção tanto da mercadoria quanto do espaço.
O resultado disso, no entanto, não é a superação do problema, uma vez que novos
mercados demandam a manutenção dessa dinâmica de produção, circulação e consumo,
portanto “a redução de refugos e resíduos da produção, nos quais se incluem as emissões
de GEE, pode apenas ser realizada como um resultado secundário dos processos
apontados [eficiência e produtividade]” (SÁ BARRETO, 2016, p.121) e não como lógica
fundamental de superação do problema.
A compreensão destes processos são fundamentais para compreender os impactos
do clima ao longo tempo, ao mesmo tempo que possibilita compreender as projeções, as
forçantes radiativas, as alterações nos elementos climáticos como a temperatura e
precipitação. Compreender essa relação física, econômica, social e política é dar um passo
fundamental na compreensão da totalidade do que se considera as alterações climáticas
globais. No entanto, a compreensão do real precisa ser posta também à luz do possível,
que nada mais é do que a realidade em potencial. Por isso, a seguir apresento também, as
utopias climáticas que emergem das alterações climáticas.

As utopias climáticas que emergem das alterações climáticas.


Diante da compreensão de questões políticas e econômicas relacionadas às
alterações climáticas, anteriormente exposta, faz-se necessário destrinchar aspectos
possíveis para a sua superação, retomando a questão sobre que tipo de sociedade
imaginamos quando projetamos cenários de 1,5ºC e/ou 2ºC.
Mas, antes, é fundamental não cairmos em neodeterminismos, tampouco em
saídas fáceis, como sugere Hulme (2011). Para o autor há a ressurgência de um
determinismo marcado pela projeção social do futuro a partir do clima, em especial, pelo
reducionismo das variáveis climáticas como a temperatura, precipitação, umidade etc. em
Publicado originalmente em: ZANGALLI Jr, Paulo Cesar. Contribuições da Geografia à teoria do
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um equivalente mercadológico o CO2eq, associada a variáveis sociais estáticas – ou seja,


um mundo sem história e tampouco movimento de transformação.
Esses reducionismos emergem da real necessidade de interpretar a natureza e
sociedade de forma mais integrada e o determinismo2 ofereceria uma maneira fácil para
isso. No entanto, Hulme amplia essa concepção destrinchando o que considera ser uma
derrapagem epistemológica das ciências do clima em ao menos três aspectos: quando
pensam a sociedade apenas numa dimensão quantitativa, recusando os argumentos das
ciências humanas e sociais ao trabalhar a interface clima e sociedade; a emergência de
modeladores de clima como uma comunidade científica; e a incorporação assimétrica e
condicionada da dimensão social na análise e na projeção de um futuro enviesado,
praticamente transpondo as leis da natureza como formas explicativas de sociedades
futuras (HULME, 2011).
A contradição aparente aqui se dá entre as representações de um futuro climático
versus as mudanças sociais que continuam a produzir os impactos do clima no presente,
logo a sua continuidade. Não se trata da negação do futuro climático previsto, mas da sua
representação diante da realidade social do presente, considerada imutável.
Portanto, pensar as utopias do clima é também refutar a forma hegemônica de
representação e operação das ações de interpretação, produção e convívio com o clima de
nosso tempo, reinterpretando a sociedade e o clima sobre outras dimensões possíveis.
Aqui surgem aspectos importantes que precisamos considerar. Como se estabelece a
hegemonia dos discursos e a subjetivação (ou novas formas de) diante das alterações
climáticas e do capitalismo climático¿
A hegemonia (essa constelação de dominação na qual é compartilhado o consenso
dos governados – como lembra Gramsci) tem uma dimensão estratégica de reproduzir os
interesses das classes dominantes e as suas visões de mundo. Nesse processo cria-se
aspectos da própria natureza humana, associadas a uma forma de ser de um homo
oeconomicus, guiado pelo consumo, pela competitividade, pelo valor de troca. Esses são
aspectos normalizados. Portanto, se as alterações climáticas se constituem processos
capazes de desvelar os limites da reprodução ampliada do capital (como sugere o termo
emergência climática), a sua superação precisa ser a superação do capitalismo. Mas, ao

2
Recuperado por autores como Jared Diamond em livros como Colapso: como as sociedades escolhem
o fracasso ou o sucesso.
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invés disso vimos sendo gestado no bojo dessa forma de sociabilidade formas individuais
de pensar e agir diante do problema. Consuma conscientemente, mude seu
comportamento. Amortize as emissões de CO2, contribua para não estouramos os limites
do orçamento de carbono.
Quando a crise se evidencia o aparato informativo da classe dominante opera esses
processos de subjetivação hegemônicos. Reportagens ensinando a economizar energia em
casa (presidente mandando apagar a luz), programas de TV ensinando a fazer uma receita
de pé de galinha, enquanto o PIB do agrohidronegócio cresce 5% no primeiro trimestre
de 2021 em meio de uma das maiores crises hídricas do sudeste e centro oeste do país3.
Toda reportagem jornalistisca é produzida para convencer os pobres, a classe trabalhadora
de que temos que renunciar ao pouco de conforto que temos sem reclamar, porque trata-
se de problemas inevitáveis provocado pela natureza, pelo clima.
E a solução vai reproduzir essa estrutura de classe, essa estrutura de gênero e
racializada. Empresas que contribuem significativamente para a produção das alterações
climáticas como a Suzano Papel e Celulose, que produz grandes desertos verdes de
eucalipto para produção de papel, mas que podem vender reduções de carbono no
mercado, apresentam soluções ambientais como alternativas à emergência climática. Suas
metas ambiciosas pretendem reduzir em 10 milhões de toneladas de plástico do consumo
mundial até 2030. Evidente que isso só pode ocorrer por meio de uma reeducação da
população, ou seja, há a necessidade de se efetivar uma demanda de consumo para que
essa redução seja feita, substituindo os derivados de petróleo para derivados de papel e
celulose. Quanto de terra serão necessários¿
Mas, o que merece destaque é uma fala de um dos diretores de sustentabilidade
da empresa em um evento organizado pelo Comitê Empresarial Brasileiro para o
Desenvolvimento Sustentável (CEBDS)4, em que afirma “negócios sustentáveis é um
futuro que é certo” e na sequência argumenta:
só que eu faço uma pequena reflexão aqui de um momento antes, e que
se nós estamos falando de uma biodiversidade [...] nós enquanto
sociedade precisamos cuidar da desigualdade social [...]. Acho que as
pessoas que não têm acesso, tanto quanto nós comentamos aqui de
educação ao conhecimento e que, portanto, tem menores condições de

3
Fonte: https://www.cnabrasil.org.br/boletins/impulsionado-por-ramo-agricola-pib-do-agronegocio-
cresce-5-35-no-1o-trimestre-de-2021
4
Trata-se de uma fala pública feita em atividade organizada pela CEBDS com transmissão pelo YouTube.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=JhLsdkb297M&t=3593s
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terem o seu desenvolvimento humano, representam potencial


importante de degradação à essa biodiversidade, e eu não diria só isso
enquanto indivíduos, mas enquanto organizações também. Então acho
que nós precisamos cuidar enquanto nação da questão da desigualdade
porque, tem até um colega de empresa que fala muito sobre isso né,
“quem está no vermelho dificilmente consegue pensar no verde”.

As responsabilidades são individualizadas e transferidas para os mais pobres, que


diante dos problemas ambientais e climáticos criados por essa forma histórica de
produção da natureza não possuem condições sociais, econômicas e educacionais de ter
resiliência para enfrentar o problema. Ou seja, há um processo constante de naturalização
a histórica de padrões de comportamento dominantes que contribui para a constituição
das subjetividades que ela apenas finge descrever (BRAND, WISSEN, 2021).
Soma-se a esses processos de subjetivação processos espaciais que precisam ser
considerados. A secretária executiva da Convenção Quadro das Nações Unidas para a
Mudança Climática (UNFCCC) afirmou em um encontro organizado pela rede de cidades
C40 em novembro passado (2020) que “a cidade é o lugar onde a batalha climática será
vencida ou perdida”. Para isso, as políticas e as ações climáticas que incorporam as ações
de urbanização liberal contemporâneas são tomadas a partir de roteiros pré-estabelecidos,
como aqueles definidos pela Convenção Quadro e por modelos de organização em rede
para compartilhar custos e oportunidades, compartilhar, portanto este modelo de cidade.
A partir dessa agenda econômica internacional sem considerar as reais
necessidades climáticas locais ou sem considerar como os eventos extremos que
impactam de forma desigual esse espaço, que é produzido de forma desigual é
incorporado em políticas formuladas sob a ótica liberal em um estado burguês.
As saídas e as alternativas ecossocialistas existem. O ecossocialismo é uma
perspectiva real, assim como o bem viver. E produzem novas formas de subjetivação, ao
mesmo tempo que são produtos dessas outras formas.
A Assembleia Mundial de Mulheres do Fórum Social Mundial (2018) aprovou
um documento, com pontos ‘inegociáveis’ para a construção de uma agenda
internacionalista da luta feminista. A compreensão dos problemas relacionados às
alterações climáticas é precisamente endereçada a partir da justiça climática. O ponto 10
afirma:
10 – Pela justiça climática. Somos parte da natureza e não donas dela.
Contra o capitalismo, o colonialismo e o imperialismo que nos
exploram e exploram ao redor do planeta, cujas disputas pelo mercado
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e fontes geram guerras, destruição, violências e mortes que atentam


contra nós.

Trata-se de uma compreensão complexa e totalizante do problema, sobre o qual


precisamos também nos ater, endereçando uma teoria sobre as alterações climáticas
crítica e engajada com a transformação social, política e econômica.
A luta antirracista nos ensina que o racismo é o que expõe a vulnerabilidade das
populações. Em documento recente intitulado O que o antirracismo pode ensinar ao
campo das mudanças climáticas? O Movimento Negro é enfático em afirmar que
“Impactos climáticos têm cor, gênero e lugar. O racismo é estrutural. As periferias e as
populações tradicionais querem ser agentes em um mundo com menos emissões, e não
apenas resultados de impactos ou metas” (CONRADO, NAZAR e CAPELOBO, 2020).
Mãe Celina de Xango é categórica em afirmar “Se não houvesse tantas ambições,
nosso ecossistema, nosso clima, nossa terra estariam numa situação que poderíamos
conviver” (CONRADO, NAZAR e CAPELOBO, 2020).
Essas alternativas precisam ser gestadas no cotidiano, na interface do tempo
sincrônico e diacrônico, curto e lento, que escoa, com o tempo longo e geológico, sem
que necessariamente se perca a complexidade ou privilegie um em detrimento do outro.
E isso que precisamos considerar quando Lindbergh Nascimento Jr, afirma que ““o
impacto climático é uma medida de recriação do urbano e não pode ser considerado sem
essa condição” (NASCIMENTO JR, 2019, p. 10). Compreender e promover, ao mesmo
tempo, uma ruptura com essa forma de sociabilidade burguesa (superando o racismo
ambiental e promovendo justiça social e climática).
Portanto, uma teoria das alterações climáticas precisa compreender os
mecanismos físicos da interação atmosfera e superfície (oceânica e continental), sem
deixar de compreender que a sociedade produz e reage à essas questões de modo
complexo e contraditório e que somente uma teoria crítica e engajada será capaz de
compreender as alterações climáticas em sua totalidade. A Geografia pode ser um campo
capaz de oferecer essa perspectiva. Mas, é necessário e fundamental saber que não há
solução reformista. Não há saída para as alterações climáticas que não seja a superação
de suas causas, portanto o próprio modo de produção capitalista.
Publicado originalmente em: ZANGALLI Jr, Paulo Cesar. Contribuições da Geografia à teoria do
Aquecimento Global . In: SPOSITO, Eliseu, CLAUDINO, Guilherme Santos (org.). Teorias na
Geografia II: manifestações da natureza. São Paulo: Contexto, 2022.

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ZANGALLI JR, Paulo C. Entre a ciência a mídia e a sala de aula: contribuições da
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